Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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- Jamile e Raquel
Jamile e Raquel moram no mesmo condomínio, ainda que em apartamentos distintos, em Brasília. Jamile é super brincalhona, está sempre rindo, é extrovertida, faz palhaçadas e isso quebra bastante a seriedade da Raquel, fazendo ela rir o tempo todo. Jamile sente muito frio, Raquel se permite viver nas cobertas por puro agrado. Juntas, elas adoram jogar The Sims, ler livros, brincar com os filhos da Raquel e ficar com os bichos que ambas adotaram - elas amam animais, principalmente os cães e gatos. Raquel já trabalhou em uma ONG de cuidados e é uma grande defensora da adoção, foi assim que influenciou Jamile a adotar suas gatinhas (juntando as gatas de ambas, são: Leci, Selene, Aurora, Íris e Bebete). Elas acreditam que animais são peças muito importantes no auxílio ao combate à depressão e ansiedade, e com as gatas, tudo passou a ter outro sentido dentro de casa. Por mais que morem em Brasília, nem a Jamile, nem a Raquel nasceram lá. Raquel é antropóloga, finalizou o mestrado recentemente e está se preparando para o doutorado. Já foi doula e é mãe de dois filhos. Ela tem 30 anos e sua família é de Minas Gerais, parte de Belo Vale e outra parte de Belo Horizonte, local onde ela nasceu. Jamile é jornalista e nos conta o quanto ser jornalista exige da vida - exige do que ela é - mesmo sendo apaixonada pela profissão (e, dentro da profissão, pelo jornalismo esportivo). Ela nasceu em Piracicaba, interior de São Paulo e chegou em Brasília com a família aos 16 anos descobrindo uma cidade totalmente diferente das outras que conhecia. Quando elas se conheceram, em 2019, o que sentiam (e o que poderiam sentir) ainda era muito incerto. Foi através de um aplicativo de relacionamentos que se conheceram e marcaram um encontro e, neste dia, a Jamile estava se sentindo um pouco triste, não queria ir. Foi num aniversário antes e uma amiga a incentivou, disse que poderia ser uma pessoa legal, era uma oportunidade. Por estar no aniversário antes, já estava com pessoas, bebendo e conversando, então quando ela chegou trouxe consigo uma animação que descontraiu o primeiro momento sem conhecer a Raquel. Elas se deram bem, ficaram e começaram a se relacionar a partir daí. Mesmo que um relacionamento vá se construindo de forma natural no começo, elas contam como foi lidar com a ansiedade e a depressão e entender os limites de cada uma. Para a Jamile, por exemplo, entender que não seria uma carga, um peso a mais ou algo do tipo na vida da Raquel. E, também, a Raquel explica sobre esse momento de assumir um namoro, que a fez refletir em várias coisas entendendo que era uma mãe solo, que precisava diariamente dar conta de muitas coisas na vida e do que isso iria demandar, se estava realmente preparada e sentiu medo de não conseguir estar cem por cento na relação. Ambas tinham seus medos, mas conseguiram equilibrar tudo aos poucos, mostrar uma para a outra o que sentiam e conversar sobre isso. Entender seus limites, colocá-los de forma amorosa e visualizar as diferenças com amor também. Segundo a Raquel: “Olhar e dizer: te aceito e tô aqui.” Morar tão próximas facilitou diversas coisas, ainda mais no momento mais intenso da pandemia de Covid-19, em 2020 e 2021. Os filhos da Raquel ficaram um ano sem escola, todos estavam dentro de casa e ter a Jamile por perto era muito importante. Elas também têm o apoio da família (Raquel, inclusive, ama a família da Jamile e eles se dão muito bem), mas para a Jamile viver o processo de “saída do armário” foi um processo prévio bastante intenso. Hoje em dia, para além da família, Jamile conta sobre como as pessoas questionam ela sobre ela assumir e maternar os filhos da Raquel. Ela explica que nunca se colocou neste lugar e que não quer ter filhos, também não gostaria de se ver o tempo todo nesse questionamento. Ambas valorizam a independência, o tempo sozinhas ou juntas e sabem que, se assim desejarem, vão ter uma relação saudável com as crianças. Essa relação já existe, inclusive - elas adoram a Jamile, o quanto ela brinca com eles, eles visitam as gatinhas dela… Tudo é uma questão de naturalidade sobre o relacionamento que as duas possuem, enquanto mulheres que se amam, e que as crianças acolhem também. Elas falam o quanto falta conhecer mais mulheres que têm filhos ou que estão em situações como as que elas vivem, ser uma mãe solo e namorar outra mulher. Jamile explica que sempre viveu uma heterossexualidade compulsória e ter essa noção a fez mudar muitas coisas, inclusive o entendimento sobre a forma de se relacionar com alguém. Ela nem conseguia imaginar uma relação saudável como a que tem hoje ou de que alguma pessoa a conheceria como a Raquel conhece e escolheria ficar, não iria embora na primeira oportunidade, que segue ali e ama de verdade. Já viveu muitas relações “de vidro”, como ela mesma colocou: são relações que na hora do conflito, se ela não ceder, a pessoa pode pegar, jogar no chão e quebrar toda a relação. Com a Raquel, aprendeu que as relações podem ser “de borracha", serem maleáveis, se caírem no chão, juntam, limpam e cuidam, com conversa e afeto, tentando entender a dor. Raquel completa a fala da Jamile, explicando que o ato de gostar de alguém era sempre algo envolvendo interpretar um papel. Ficar comprovando algo, ser o que a pessoa queria, pois se não fosse, teria medo dela ir embora… e que agora não é mais assim. Elas estão juntas porque ambas querem, independente de qualquer papel. Estão conectadas e são gratas à isso. Jamile Raquel
- Flavia e Olga | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Olga estava com 34 anos no momento da documentação, é natural de Recife e mora em Paulista, Pernambuco. Formada em Engenharia Química, possui mestrado e doutorado em Engenharia Mecânica e atualmente trabalha com Engenharia de Software. Entende que não é só das engenharias e das exatas, mas também das artes: adora desenhar, cantar e escrever. Recentemente recebeu o diagnóstico tardio de autismo e TDAH, o que a fez entender diversas coisas e melhorar sua qualidade de vida, podendo visualizar e respeitar seus limites. No tempo livre, adora ler, praticar esportes, ter conversas longas e consumir arte. Flávia estava com 31 anos no momento da documentação, é natural de Recife, mas ainda adolescente se mudou para Paulista e cresceu na cidade. É professora de história por formação e estava ocupando o cargo enquanto vereadora na cidade de Paulista quando nos encontramos. Flávia começou sua militancia no movimento estudantil, participou de alguns movimentos que buscam assistência estudantil para estudantes de origem popular, fez parte de movimentos sociais e se tornou a primeira vereadora negra e lésbica da cidade. É apaixonada pela rua, por estar com as pessoas conversando, no barulho, ouvindo música, falando sobre política… Gosta de fazer política de verdade, até nas folgas está lendo, vendo vídeos e debatendo com alguém. Depois da pandemia de Covid-19, Flávia fez questão de ter sua militância mais voltada para a cidade de Paulista. Sempre saía de casa e se deslocava à capital para participar das atividades, até que começou a pensar em atividades para sua própria cidade, desde ações do Dia da Consciência Negra, até debates pensando mudanças que queriam para a cidade em si. Foi então que, aos poucos, começou a se desenvolver em Paulista, conhecer mais lideranças - e até mesmo se tornar uma - entender que essa era a prioridade. Hoje em dia, a vida em Paulista é muito mais que o trabalho e a casa: é o terreiro, a avó, a irmã, a família, a política que constroem e acreditam, o filho, o relacionamento, o lar. Olga sempre gostou de fazer poesias, em sua maioria tratando sobre temas políticos, e foi quando descobriu o Slam das Minas que começou a se aproximar do movimento de rua e da militância. Em 2018, ano de eleição, Flávia foi para a reunião de candidaturas do partido e percebeu que todas as pessoas eram brancas, metade era composta por homens. Tomou iniciativa porque não se sentiu representada, decidiu colocar seu nome, se tornar candidata à Deputada Federal. Não tinha ideia de como seria fazer uma campanha, mas começaram a se organizar. Nessa organização, criaram um evento de lançamento e chamaram algumas mulheres para participar, inclusive o Slam das Minas, fazendo o convite para Olga recitar um poema. Olga pesquisou um pouco sobre quem era Flávia, para não chegar lá, num evento de política, sem saber onde estava se metendo. Queria estar alinhada, ouvir as propostas. Decidiu conhecer Flávia pessoalmente antes do evento acontecer. Na época, a campanha foi feita como dava: Flávia foi morar no comitê, que era um apartamento bem pequeno no centro de Recife. Estava num dia tentando descansar nessa casa/comitê/escritório e Olga apareceu para conhecê-la. Como esperava ver uma pessoa com pose de Deputada, ficou logo na dúvida se era mesmo Flávia ou não… Achou melhor perguntar logo: “Tu é Flávia, é?!”. E ela respondeu que sim, que talvez conhecesse Olga de algum lugar. Claro, ela sabia que conhecia do Slam das Minas. Sentaram para conversar, falou dos projetos, mostrou panfletos… Pensaram juntas: “Finalmente uma pessoa que pensa como eu!”. Olga conta que o discurso vago na política era algo que a incomodava muito, sempre falavam o quanto a diversidade é importante, o quanto era importante fazer algo, mas nunca era feito, nunca havia proposta efetiva. E ali, independente de um mandato ou não, era o movimento que estava sendo proposto: nós somos o povo, nós quem precisamos fazer algo. O lançamento da Flávia foi um sucesso, coisa que nem o próprio partido esperava, muita gente da cultura estava presente, pessoas representando a militância negra… e quando terminou foram todos para um bar comemorar. Flávia estava muito feliz, estava abraçando as pessoas e abraçou muito Olga. Conta que não é uma pessoa afetuosa fisicamente, mas naquele dia estava muito contente, ficava demonstrando muito para Olga essa felicidade. A vida seguiu depois do lançamento, seguiram os compromissos e começaram a interagir pelas redes sociais. Entre curtidas, comentários e conversas, surgiu um novo evento que seria a inauguração do comitê de campanha. Se beijaram pela primeira vez neste dia, depois de tentarem entender se iria rolar ou não, porque queriam mas estavam tímidas (e as coisas estavam acontecendo todas ao mesmo tempo). Flávia deixou Olga em casa e, no dia seguinte partiu para o Sertão, para trabalhar com a campanha eleitoral por alguns dias. O tempo que a campanha durou, Flávia morou no centro de Recife, próximo de Olga, e elas ficaram juntas. Quando a campanha acabou e ela não foi eleita, voltou para Paulista e pensaram que era muito mais longe, não se veriam mais todos os dias, a rotina mudaria muito… O Miguel, filho de Flávia, estaria muito mais presente - e no começo, por receios, ele não tinha sido apresentado enquanto filho, estava longe dela por conta da campanha, então foi outra questão na relação… Precisaram de um tempo para se entender, entender suas comunicações, suas realidades que ficariam bem diferentes de uma hora para a outra. Flávia começou a mostrar quem ela era de fato: moradora da comunidade, com diversas questões familiares, sem emprego depois de uma campanha… não tinha o conforto de morar no centro da capital como estava tendo por alguns meses. Precisariam repensar a relação. Flávia acreditava que só ia conseguir se relacionar com alguém quando o Miguel tivesse uns cinco anos… assim ele já seria um pouco mais independente e a pessoa que estaria com ela entenderia um pouco melhor também. Na sua visão, quem iria se relacionar com alguém que tem um filho de dois/três anos? Quando Olga chegou com uma comunicação clara, as coisas foram mudando rápido. Ela gostou muito da força, da independência, das coisas que Olga fazia e de como era estar junto com ela. Mas não queria que ela “assumisse um B.O” que não era dela tendo que lidar com seus problemas. Porém, aos poucos, Olga deixou claro que eles, Flávia e Miguel, eram um só. E não eram um problema. Quando conheceu Miguel se deram bem logo de cara e tiveram uma conexão. Aos poucos, Olga seguiu sua vida nos estudos e Flávia conseguiu um emprego depois da campanha eleitoral, foi quando decidiram de fato seguirem juntas e Olga se mudou para Paulista, morando no bairro em que a família de Flávia morava. A mudança para Paulista foi para ajudarem a mãe da Flávia por conta dela estar doente, mesmo ela não aceitando o relacionamento, Flávia pedia para que morassem juntas lá porque não aguentaria ficar longe de sua família. Olga cedeu e refez sua vida e sua rotina em Paulista, entraram num acordo, seu pedido em troca seria que Flávia começasse a fazer terapia e que mantivessem uma comunicação saudável, uma troca pensando em construir um relacionamento confortável juntas. Brincam que demorou um pouco, mas que deu certo. Durante a pandemia de Covid-19 decidiram morar numa casa para reformular mais uma vez a rotina, pois tudo estava sendo feito sob o mesmo teto: os estudos, o trabalho e a vida do Miguel. Começaram a terapia de fato, estavam reaprendendo a se comunicar, foi um divisor de águas. A qualidade de vida mudou muito morando numa casa. Começaram a curtir o espaço, fazer churrascos, exercícios, brincar mais com o Miguel… Não se sentiam presas dentro de um apartamento. Com a pandemia, veio também a segunda eleição, em 2021. Dessa vez já tinham a experiência de uma campanha que Flávia teve uma votação expressiva. Porém, uma campanha eleitoral que exige contato com a população em meio à pandemia era um desafio imenso. Olga conta o quanto foi difícil para ela lidar com as questões do vírus, ver as pessoas sem máscara ou os momentos em que usavam a máscara errado, todos os contatos com as pessoas na rua… tudo mexia demais com ela e causava muito medo. Além de todo o estresse que uma campanha eleitoral já produz, isso era um dos pontos mais difíceis, lidar um um “inimigo invisível” sendo tão direto para a saúde. Mas, a campanha foi feita com sucesso e Flávia foi eleita. No começo, Flávia estava muito destinada a não ser como os outros políticos que só aparecem de quatro em quatro anos. Então seguiu aquele ritmo frenético, trabalhando sem parar todos os dias. Olga entendeu que em algum momento ela adoeceria, estava impossível acompanhar - e entristecendo ver a companheira trabalhar tanto em seu primeiro ano de mandato, mesmo sabendo o quão importante isso é. Foi com muita conversa (e muita terapia) que Flávia entendeu o ritmo, os processos e as propostas. Hoje em dia, Flávia e Olga estão morando num novo lar, apartamento que financiaram juntas pensando na segurança de vida e em parar de pagar aluguel, depois de problemas que tiveram nos lugares que alugaram. Se aproximaram de um terreiro - e a aproximação começou por conta de uma luta contra intolerância religiosa no mandato de Flávia - e sentem que tudo melhorou depois disso. Hoje frequentam as festas, as cerimônias e os ritos, se sentem muito bem cuidando do seu ori. Foi através da religião, também, que chegaram até um terreno onde estão construindo - e reformando com suas próprias mãos - uma casa em Abreu e Lima, local que serve de refúgio, no meio de uma mata frutífera. Fomos até esse local e fizemos parte dessa documentação, pois é lá que se sentem realmente felizes. Flávia conta que pretende continuar trabalhando nas lutas que acredita, pois esse é o seu propósito. Olga deseja seguir seus trabalhos e suas escritas, inclusive, lançou seu novo livro de poesias. E Miguel, agora com nove anos, conta o quanto adora jogar videogame, brincar com Lula, o cachorrinho, e brincar de futebol - com Flávia, ele destaca que gosta de jogar no celular, com Olga, ele gosta de seguir a rotina fazendo as tarefas de casa. Quando perguntamos sobre a casa do sítio, ele responde: gosta de ir lá pra ser feliz, inclusive, é onde quer ir agora. ↓ rolar para baixo ↓ Flávia Olga
- ilscrgo
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- Roberta e Laura | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Laura estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Sapiranga, uma cidade interiorana do Rio Grande do Sul, mas mora em Porto Alegre há cerca de 8 anos. Chegou na cidade para estudar dança e hoje em dia trabalha com dança dando aula em alguns projetos para pessoas com deficiências intelectuais e para crianças. Paralelamente, também é professora de inglês, trabalha em uma instituição que promove imersões na língua inglesa. Nessas imersões, ela mistura a dança, outros professores entram com esporte, culinária e a ideia é fazer o inglês ser praticado em um ambiente de “vida real”. Fora do meio profissional, Laura entende que é uma pessoa bastante ligada à família. Foi sua família quem a colocou na dança, alguns familiares são músicos e sempre agradece o ambiente cultural que cresceu e que vive até hoje, percebe o quanto isso fez com que ela se tornasse alguém que adora estar entre as pessoas, gosta de se aventurar e de conhecer o mundo. Roberta estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Canoas, região metropolitana de Porto Alegre. Durante a adolescência se mudou para a capital para estudar na faculdade e começou a trabalhar como educadora social num clube para pessoas com deficiência. Esse trabalho durou seis anos (e é um dos lugares que a Laura trabalha hoje em dia). Conta que foi trabalhando lá onde mudou sua forma de pensar sobre a vida, ainda mais no mundo que vivemos hoje em dia com redes sociais onde tudo tem filtro e é tão perfeito - pensado o tempo todo, medido e tendo que estar sempre lindo. Lidar com pessoas com deficiência é entender a sinceridade e a realidade da vida: elas falam o que querem falar, de uma forma simples e muito mais fácil, então aos poucos Roberta sentiu que era melhor ser assim do que viver nesse “filtro” que não era real. Falar o que sentia, ir onde quer ir, não ir onde não quer, ser mais real consigo mesmo. No meio desses aprendizados, criou um curso chamado “Ação Caminhos Para a Diversidade” sobre anti capacitismo, abordando temas como sexualidade da pessoa com deficiência, oportunidades de trabalho e privação da maternidade. Todo esse processo de estudo fez Roberta entender muito sobre si, sobre quem ela é e estudar sobre seus comportamentos sociais. Hoje em dia, observa que existe outra Roberta, principalmente depois da pandemia de Covid-19. Uma Roberta muito mais caseira, que adora arrumar a casa, fazer decorações, pintar e criar coisas manuais. Quando Laura chegou na faculdade, em 2017, entrou para um projeto de extensão chamado Diversos Corpos Dançantes, uma proposta de dança com habilidades mistas envolvendo pessoas com e sem deficiência. Laura era bolsista e foi a primeira vez que trabalhou com práticas de danças acessíveis, lá conheceu uma amiga e passaram a estudar bastante sobre acessibilidade juntas. Em 2019, Laura fez uma mobilidade acadêmica e foi estudar em Salvador, nos meses que ficou fora sua amiga começou a trabalhar num lugar novo - e conheceu Roberta. Na versão de Roberta, quando ela conheceu a amiga de Laura, só ouvia falar sobre Laura: “Tu me lembra muito a Laura”, “Nossa você e a Laura iriam se dar muito bem!”... Era tanto que passava um pouco dos limites. Quando Laura voltou de Salvador, soube da existência da Roberta e, durante uma Mostra de Dança Inclusiva, em novembro, elas se conheceram. Roberta ia se apresentar com os alunos, estava com uma roupa azul, toda pintada, brinca que parecia um grande pavão. Quando viu Laura entendeu o motivo de todos aqueles elogios que ouviu por meses. Mas, naquela época, Roberta vivia um relacionamento, estava noiva e só entendeu o nervosismo porque achou Laura admirável, mas não aconteceu nada além. Naquele contexto começaram a se seguir nas redes, mas não interagiram. Nos meses seguintes a pandemia de Covid-19 chegou, Laura voltou para a casa dos pais no interior, Roberta terminou o relacionamento e suas vidas passaram por grandes mudanças. Um tempo depois, no meio da pandemia, Roberta estava respondendo uma brincadeira no Instagram e postou sobre estar solteira. Laura respondeu a brincadeira, iniciando um flerte… Roberta jamais esperava essa resposta e ficou bastante nervosa, ignorou ela por alguns meses, não se sentia preparada para flertar, enfrentava momentos delicados na pandemia e quando se sentiu pronta começou a interagir melhor. Durante uma parte da pandemia, Laura trabalhou com algumas ações de dança na internação psiquiátrica do hospital, então acabava tendo um grande contato com a área da saúde e precisava fazer testes a cada 3 dias. Isso influenciou na demora para se encontrarem, até que marcaram um almoço num feriado. Depois do almoço, Laura queria logo comer as outras coisas que seriam para comer mais tarde (pão, bolo…) e pediu se Roberta se importaria. Ela achou positivamente engraçado, mas disse que não, que adoraria, e na hora que Laura se levantou do sofá disse que gostaria de fazer algo antes de buscar o bolo, assim beijou Roberta pela primeira vez. Hoje em dia, virou um bordão: quando levantam do sofá, soltam o “mas antes, quero fazer uma coisa” e se beijam. O começo do namoro foi bem rápido e aconteceu depois de alguns encontros e conversas onde alinharam o que sentiam sobre o que estavam tendo e o que pensavam sobre as relações humanas e amorosas. Num dia, Roberta saiu da casa da Laura e deixou ela no apartamento ‘trancada’ pois só tinham uma chave, precisou comprar uns remédios, entregar um objeto e no caminho encontrou um amigo que chamou para sentar num bar e atualizar as novidades. Ela contou: “Conheci a mulher da minha vida, tô apaixonada!”. Demorou mais que o previsto para voltar, quando chegou encontrou Laura fazendo yoga na sala com um olhar sério, chamando-a para conversar. Pensou: “Meu Deus, ela vai terminar tudo, acabei de falar que tô apaixonada e que é a mulher da minha vida e agora vou voltar lá no bar e dizer: acabou!”. Laura disse que não queria mais ser uma “futura namorada” para Roberta, que cansou desse termo, e que estava disposta a namorar agora. Roberta lembra da sensação de pavor que sentiu, falou “Nossa, guria, que cagaço tu me deu!”. Começaram o namoro e meses depois foram morar juntas por questões financeiras, num apartamento que viveram durante pouco mais de um ano. Sentem que tudo fluiu muito bem, mesmo sendo no começo da relação, morarem juntas foi a escolha mais racional. A única coisa que se arrependeram foi o fato de Laura ter virado a síndica do prédio, isso causava mais stress que qualquer outra coisa, e não compensou o desconto nas contas. Mas hoje, é uma parte até cômica da história, virou “história boa pra contar - a síndica sapatão do prédio”. Roberta e Laura contam como o período das enchentes em Porto Alegre foi impactante e marcante para elas, como é importante documentar esse momento vivido, além da importância histórica e política, mas também pela forma que se cuidaram e seguem apoiando até hoje por contas das marcas e atravessamentos que causou. Já estavam morando no apartamento que residem atualmente - e consideram isso fato importante porque no local que moravam meses antes da enchente certamente teriam perdido muitos itens pessoais e móveis, por ser no térreo e numa região que foi bastante atingida. Porém, mesmo nesse novo lar em andares superiores, ainda estavam sem água e luz, com a rua alagada. Foram para a casa de amigas em um bairro vizinho. Três dias depois, o bairro também foi afetado e as águas subiram rapidamente. Ficaram sem saber para onde ir, até conseguirem um apartamento vazio e irem juntas para lá. Foram dias dormindo no chão, comendo coisas prontas porque não havia como cozinhar, ficando sem tomar banho… Chegaram no limite, até Laura pedir para a mãe dela vir de Sapiranga buscá-las. Era um caminho delicado porque as estradas estavam difíceis, ela tinha bastante medo. Um caminho que leva até menos de 1h em dias comuns, levou 6h naquele dia. Quando chegaram na casa da família de Laura e tomaram um banho, comeram arroz, se olharam entre todas as mulheres e refletiram tudo aquilo que estavam vivendo, viram o significado de união e de família. Entendem que a experiência das enchentes foi muito sensorial: ouviam os helicópteros, as ambulâncias, sentiam a falta d’água, a falta das coisas nos mercados… Todas as dores de ver quem amam perdendo suas coisas, o medo, a insegurança. Foram momentos muito difíceis. Era muito importante reconhecer estar vivendo esse momento com mais duas mulheres, se ver enquanto amigas se apoiando, LGBTs, nossas famílias. Foram duas semanas vivendo em Sapiranga até voltarem para Porto Alegre e participarem da reconstrução da cidade - e entendem que tudo o que acontece até hoje é parte dessa reconstrução. Até hoje pagam as contas de luz daquela época (porque passaram meses sem conseguirem medir), Laura passou a trabalhar muito mais depois do acontecimento, entendem que existem várias consequências que silenciosamente estão presentes no cotidiano e na saúde mental, por isso o acolhimento e o lar enquanto lugar seguro são prioridades dentro da relação. Laura sente o amor presente na rotina, na construção da relação. Quando lembraram sobre a vivência das enchentes em Porto Alegre, reforçaram quanto apoio existiu. Brincam que tinha um dia para cada uma ficar mal “Hoje estou mais triste, então você me apoia, amanhã você fica mais triste que aí já vou estar fortalecida e te apoio…”. Era a forma que encontravam de segurarem a barra no momento extremo, mas entendiam que era uma forma de proteção também. Agora, após alguns anos juntas, visualizam que passaram pelas suas finalizações na universidade, pela pandemia, pelas enchentes, por duas casas, montaram um novo lar juntas… Então, foram encontrando o balanço, a rede de apoio, formaram a família que gostariam de ter. Laura comenta que quando começaram a namorar, fazia apenas dois meses que seu pai faleceu por conta da Covid-19, e Roberta acompanhou seu luto recente. Eram dois sentimentos conflitantes: a dor grande por perder um amor e uma paixão chegando com um novo amor. Foi um processo novo para Laura e, ao mesmo tempo, um processo que Roberta acompanhou de perto a família de Laura vivendo, visto que são muito unidos. O amor também esteve nesse lugar de acolher desde o início. Roberta conta que aprendeu uma nova forma de amar, com uma nova comunicação, com maior liberdade e saindo de lugares traumáticos. Aprendeu a sair de lugares em que precisava fazer tudo sozinha, aprendeu que pode confiar, aprendeu a dividir algumas tarefas que parecem tão básicas mas que sobrecarregam… Nas palavras dela: descobriu que o amor é possível. E, junto da relação, ganhou a nova família - a família da Laura e a família que deseja construir com a Laura, agora que estão com os planos de entrar na fila de adoção em breve. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Roberta
- Silvana e Márcia | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Márcia estava com 49 anos no momento da documentação. É professora dos anos iniciais, educadora e feminista. Cresceu em uma família marcada pela militância política: seu pai foi preso político durante a ditadura e essa história atravessa diretamente sua própria trajetória, conta que “foi feita” na biblioteca do presídio em Porto Alegre e que durante sua infância era a mãe quem a cuidava, por ponta do pai seguir preso. Hoje, sua militância acontece sobretudo na sala de aula, no trabalho com crianças e no poder da literatura infantil como ferramenta de transformação - desenvolve uma coleção de livros para o público infantil (mas não só, afinal, todos nós temos nossa criança ainda viva dentro da gente). Em alguns destes livros, aparece um casal formado por duas mulheres, apostando na narrativa como forma de ampliar repertórios e contar outras histórias possíveis desde a infância. // comprem o livro dela! é muito legal! Silvana estava com 61 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre e trabalhou como professora na educação pública desde os 15 anos, trajetória que não surgiu como escolha romântica, mas como resultado de concurso público e dedicação integral. Ao longo da vida, construiu uma militância que ultrapassa a luta por direitos individuais e se ancora no desejo de transformar estruturalmente o mundo. Aposentada há dez anos da rede municipal de Porto Alegre, seguiu estudando: concluiu um mestrado em políticas sociais, com foco nas mulheres negras servidoras públicas, e atualmente cursa doutorado em educação, pesquisando educação antirracista e as relações entre raça, gênero, sexualidade e o contexto político contemporâneo. O cotidiano de Márcia é atravessado tanto pelo trabalho, quanto pelo cuidado. Sua mãe, com 90 anos, mora com ela e com Sil, o que exige atenção constante e reorganiza afetos, tempos e prioridades. Nesse cenário, Silvana aparece como parceira fundamental: alguém que escuta, acolhe e incentiva. Sil é uma grande apoiadora do trabalho de Márcia, inclusive nos processos de escrita. Parte de seus livros foi escrita durante a pandemia, na casa da praia do casal, em momentos de recolhimento, silêncio e criação compartilhada. E Márcia também é uma grande apoiadora do trabalho de Sil - e de toda a sua militância. Silvana é uma das fundadoras da Liga Brasileira de Lésbicas e há anos atrás percorreu o país participando da construção do movimento lésbico organizado. Mesmo após divergências políticas que a afastaram formalmente da Liga, mantém vínculos afetivos e reconhecimento da importância desse período. Hoje em dia, a vida dela com Márcia é atravessada pelos propósitos e paixões em comum: o fortalecimento e a construção cotidiana onde o amor e a política não se separam. Antes mesmo de se conhecerem - e se relacionarem - de fato, Márcia conhecia Silvana de nome e de trajetória, conta que ela sempre teve um nome famoso pela cidade e já a admirava: era professora da rede municipal, diretora de uma escola da periferia de Porto Alegre, sendo uma figura conhecida, respeitada e também marcada por sua visibilidade como mulher lésbica em um espaço público e político. Márcia desejava trabalhar nessa escola por ela ser reconhecida pelo trabalho étnico-racial e pela proposta pedagógica diferenciada, e foi em 2010, quando passaram a trabalhar juntas. A aproximação aconteceu primeiro pelo trabalho, pela gestão, pela militância cotidiana dentro da escola. Foi nesse convívio que o interesse ganhou forma. Um bom tempo depois, em uma festa da escola, elas interagiram de uma forma direta e o interesse ficou claro. Márcia nunca havia se relacionado com mulheres e se sentiu atravessada, entre a curiosidade e o interesse. Decidiu dar uma chance. Na época, Sil viajava muito por conta da sua militância na LBL (Liga Brasileira de Lésbicas) e tinha a fama de ser mulherenga - e até mesmo a família da Márcia, por conta da aproximação com a militância, sabia dessa fama. Então quando souberam do namoro o choque maior não foi por conta de ser com uma mulher, mas por ser com a Sil. Logo alertaram: “Isso aí não deve durar muito tempo!”. Pelo contrário, né? Foram cada vez mais se fortalecendo. A curiosidade alheia sempre apareceu como uma tentativa de silenciamento. As pessoas perguntam, comentam, sugerem que não é preciso dizer, que a sexualidade é algo privado, como se nomear uma relação lésbica fosse excesso. Mas afirmar-se também é um gesto político. Enquanto a família tradicional fala de si o tempo todo, espera-se que mulheres lésbicas permaneçam discretas, invisíveis, quietas. Sejam nas mídias ou nas ruas. Por isso, dizer em voz alta que amamos não é exposição gratuita: é afirmação de existência, de amor e de escolha. A vida a duas, no entanto, nunca foi romantizada. Não é um território idealizado nem isento de conflitos. São duas mulheres feministas, educadoras, que sabem que o diálogo precisa existir também dentro de casa. Discordam, revisam posições, atravessam fases difíceis (inclusive ressaltam como é necessário falar sobre a dificuldade de passar pela menopausa e pelas mudanças do corpo) e constroem diariamente uma relação possível, real e cuidadosa. Quando o casamento se tornou legalmente possível, em 2013, se casaram no mês da visibilidade lésbica, simbolizando uma união política, no local em que terminam muitos atos em Porto Alegre. Uma juíza esteve presente, amigas e amigos fizeram parte, cantaram uma música simbólica feminista e, sem vestidos brancos, de forma confortável, celebraram o amor. Nessa época, saíram do apartamento em que moravam e encontraram a casa perfeita, num condomínio. Foi neste novo lar que se sentiram realmente em casa e que a mãe de Márcia passou a fazer parte da vida - e da rotina - com cuidado e afeto. Quando conversamos sobre, entendemos que o amor entre mulheres não é apenas o amor romântico: é presença, escuta, aprendizado contínuo, vida. Mulheres são ensinadas a servir, não a amar. Quando amam outras mulheres, aprendem sozinhas. Por isso, dividir a vida, o cuidado e o afeto entre três mulheres é também reparação. É prova de que mulheres não apenas dão, elas merecem amar e ser amadas, como nessa relação familiar. No ambiente escolar houve um impacto profundo porque ao viverem a relação de forma aberta, sem recuos, provocaram deslocamentos importantes entre as colegas. Houve estranhamento, curiosidade excessiva, afastamentos, mas também libertações. Outras professoras passaram a se permitir viver quem eram, separações aconteceram, novas configurações surgiram. Silvana investiu conscientemente em uma escola plural: contratou um homem trans para a portaria, havia um casal de lésbicas na cozinha… a diversidade deixou de ser exceção para se tornar parte da estrutura. A escola virou referência. Quando Silvana saiu, para ser uma candidata na política de Porto Alegre, a mudança foi sentida, mas o que ficou foi a lembrança de como existir de forma diversa é possível. Ainda sobre a diversidade, Sil conta: “Eu sempre fiz questão que os meus alunos e alunas soubessem quem eu sou. E nunca tivemos problemas. Tinha dias que eu ia de bermuda de homem, tinha essas de surfista, com as pernas cabeludas que eu uso, de boné, e eu era diretora da escola. Sem problema nenhum. Aí chegava um vendedor, perguntava se a diretora estava. Eu respondia: “Sou eu, por quê? Vamos sentar.” Sabe? Eu acho que naturalizar faz muito bem, principalmente pras crianças, né? E pras pessoas adultas compreenderem que o problema são elas, né? E elas não gostam.” Quando Sil foi disputar as candidaturas nos processos eleitorais em que viveu, Márcia apoiou muito, mas também foram momentos de aprendizados, reconhecimentos e medo. Houveram ameaças, dias em que ela não se sentia segura para ficar sozinha, necessidade de reforçar a segurança. Estar junto nesses momentos tornou-se uma escolha consciente, uma forma de proteção e de parceria. A presença pública, afinal, não era apenas dela: passou a ser das duas. Há uma consciência clara do tempo histórico que atravessaram. No início dos anos 2000, afirmar publicamente o amor e o desejo entre mulheres era um ato de confronto direto, coisa que a Silvana fazia muito com a Liga Brasileira de Lésbicas, capaz de fechar lojas, chamar a polícia e provocar ameaças físicas - seja em Porto Alegre ou em outros lugares do Brasil. Diziam em voz alta: Nós que amamos e trepamos com mulheres”. Hoje em dia pensa: “Nossa, precisávamos dizer isso?” e entende que sim, era exatamente esse ponto de incômodo que precisava existir. Foram gestos que abriram caminhos para que outras pudessem existir com um pouco mais de liberdade depois. Com o avanço dos anos, a sensação de segurança oscilou. Houve o reconhecimento profissional, depois o avanço do ódio no último (des)governo. Por isso, a militância segue sendo uma questão de sobrevivência: nenhuma história é construída sozinha. É preciso compromisso com a transformação real das estruturas que produzem desigualdade e violência. A luta segue porque a vida, a dignidade e a possibilidade de felicidade ainda dependem disso. ↓ rolar para baixo ↓ Silvana Márcia
- Melina e Acácia | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Melina estava com 34 anos no momento da documentação, é professora de música e artista. Atua em diversos eventos na cidade, dá aulas (inclusive para pessoas com deficiência) e trabalha com diferentes etapas da produção musical: da escrita de partituras à edição e masterização de áudios. Está finalizando a graduação em licenciatura em música pela UFPA. Nasceu em Belém do Pará e possui uma trajetória muito ligada à arte e à cena musical paraense. Acácia estava com 28 anos no momento da documentação. Também é paraense, nascida e criada em Belém. Psicóloga, atua na área clínica de reabilitação e é apaixonada pela cultura. E foi justamente essa cultura (mais especificamente a cena musical LGBT) que aproximou as duas. Melina toca há anos no Rebuw, bar conhecido por acolher o público LGBT - especialmente as mulheres. Durante os domingos, o espaço recebia o projeto Sapa Session, um ‘pagode de sapatão’ que lotava o bar com mulheres se apresentando no palco. Acácia frequentou algumas dessas edições e, em uma delas, viu Melina tocando. Já conhecia Melina por vê-la na cena artística da cidade, até que em novembro de 2023, depois do Sapa Session, resolveu segui-la no Instagram. Melina, ao ver a notificação, achou Acácia linda e seguiu de volta, mas nenhuma das duas puxou conversa. No evento seguinte, novamente no Rebuw, Melina a reconheceu na plateia com uma amiga e, sem querer, ficou reparando demais nela, brinca que era quase deselegante, o que causou uns “gays panics”. Quando o show terminou e foi guardar o equipamento, criou coragem, foi até Acácia e se apresentou, mas não continuou uma conversa, disse seu nome, prazer, e saiu em seguida. A situação foi tão inusitada que nenhuma das duas entendeu direito o que tinha acontecido. Acabou sendo uma situação engraçada. Nunca fazia isso com ninguém… Nem Acácia, nem a amiga entenderam direito. Em dezembro, pouco tempo após a primeira interação no bar, Melina e Acácia se reencontraram em um evento que misturava show e festa, em outro local da cidade. Com amigas em comum, passaram a noite bebendo e curtindo. Quando começou a tocar o brega paraense com seus melodys, tecnobrega e clássicos regionais, as duas - que amam dançar - se encontraram e passaram duas horas dançando sem parar. Não conversaram, não se beijaram, não fizeram nada além de dançar muito. Mesmo depois de tanto tempo dançando, foram embora sem trocar palavras. Melina elogiou o quanto Acácia era cheirosa e só. Quando o dia já estava quase amanhecendo, Acácia mandou uma mensagem para Melina agradecendo pela dança e pela noite. A partir daí, começaram a conversar e passaram todo o domingo trocando mensagens. Na segunda, Acácia não estava se sentindo bem, e Melina, que estava dando aula perto do trabalho dela, decidiu levar algo para ela comer. Para Acácia, foi uma surpresa total, ela não acreditou quando Melina disse que estava lá embaixo com comida esperando por ela. Ela nem esperava esse tipo de gesto vindo de alguém que conhecia há tão pouco tempo. Ficou tão inacreditada que quando desceu já foi com o celular gravando. Tinha dez minutos de intervalo entre um trabalho e outro e foi o bastante para conversarem rapidamente. Acham engraçado essa primeira interação, foi diferente e especial. Melina também não entendia direito como tinha tido coragem de ir até lá, não era algo que ela fazia, mas sabia que já gostava de Acácia de algum jeito. Mesmo sem planos de namorar ou de tomar iniciativas, algo ali já era diferente. Melina e Acácia seguiram se conhecendo nos dias que seguiram e tudo foi bastante rápido, mas com a leveza que queriam. Conversavam muito sobre trabalho, a rotina e a vida. Quando pensavam em se encontrar para comer algo, escolhiam o Rebuw, bar que já fazia parte da vida de ambas e que amavam. Acácia conta que o Rebuw virou um espaço de conforto: além da comida boa e da proximidade com o trabalho, passou a se sentir acolhida, antes mesmo de conhecer Melina. Lá criou laços com quem trabalha no bar, e a frequência dos eventos faz dar vontade de frequentar cada vez mais. Para ela, é fundamental que existam espaços como esse, voltados para mulheres, onde possam se sentir seguras… saírem dos ambientes tradicionais que muitas vezes são pensados para nos acolher. Mesmo com a conexão entre elas aumentando consideravelmente, Melina e Acácia ainda não haviam se beijado. Passavam o dia conversando e, às vezes as noites também, por chamadas de vídeo ou pessoalmente. Melina havia decidido que só se envolveria de novo se pudesse conhecer alguém de verdade antes, e assim foi. Conversaram sobre planos de vida, limites, sonhos, opiniões sobre assuntos polêmicos… e perceberam que não queriam parar de conversar. Tanto que foram duas semanas de convivência intensa: já conheciam até ambas famílias. Entenderam que estavam gostando uma da outra, mudaram até a notificação dos celulares para não perder suas notificações a cada mensagem. Depois desse tempo, o beijo aconteceu: Acácia dormiu na casa de Melina após um show e finalmente se beijaram. Foi um momento de cuidado, carregado de afeto, responsabilidade e principalmente a escuta, o que priorizam até hoje. Poucos dias depois do primeiro beijo, Acácia adoeceu e Melina ficou visivelmente apreensiva. Acácia estranhou a reação, mas não comentou muito. O que não sabia era que Melina já estava preparando um pedido de namoro todo elaborado: aconteceria no show que ela faria no final de semana seguinte, no Rebuw, claro! Queria que tudo estivesse perfeito (inclusive a saúde de Acácia). Mobilizou amigas, combinou com a equipe do Rebuw e montou um repertório romântico único. Quando chegou ao show, Acácia percebeu que havia algo diferente no ar, mas nem imaginava que era o pedido. Até que, em meio à apresentação, o momento chegou: o bar estava lotado, recebeu um buquê com as alianças e Melina anunciando o pedido. Ficou em choque, emocionada. A filmagem do pedido viralizou nas redes sociais e, por dias, elas viveram esse momento recebendo mensagens afetuosas. Sentiram que aquele gesto ultrapassou o próprio namoro porque inspirou outros casais e fez diversas mulheres se sentirem representadas. Como tudo aconteceu às vésperas do Natal, passaram a celebração juntas, em família. Brincam que a ceia foi quase um banquete em homenagem ao novo relacionamento. Mas foi, também, um momento simbólico: estar entre as famílias, de forma aberta, dizendo quem são e quem amam. Isso é o mais importante. Melina, por exemplo, levou quase dez anos para ser aceita e nunca tinha vivido uma celebração dessa forma. Esse início, marcado por cuidado, coragem… selou o que buscavam: estavam vivendo um amor para ser visto, não escondido. Queriam celebrar. E sentia que poderia confiar na relação. Melina e Acácia reconhecem que o início foi acelerado, mas foi o tempo certo. Tudo fluiu de forma intensa e natural. Depois disso, passaram a seguir os próximos passos com mais calma. Quando surgiu a possibilidade de morarem juntas, Acácia ainda tinha medo. Estava terminando de mobiliar um apartamento alugado e Melina propôs: “bora, bora juntas.” Ela disse não no início, o medo existia por conta de outros relacionamentos em que viveu dividindo um lar. Melina resolveu insistir, ao menos para conhecer o lugar. Quando chegou, sentaram no chão, com a sala ainda vazia e conversaram sobre o que significaria dividir a vida naquele espaço. O começo da relação foi como se vivessem antes do mundo acabar: faziam tudo a todo tempo. Era muito intenso, acelerado. Até que olharam uma para a outra e entenderam: estavam cansadas. Não dava para viver em ritmo de maratona todos os dias. Decidiram ir ao cinema para desacelerar, mas o cansaço era tanto que dormiram durante o filme. Resolveram ouvir o cansaço e pisar mais lento. A mudança para o apartamento veio no início de 2024. Fizeram um chá de casa nova e, depois, foram morar mais afastadas do centro da cidade. Hoje, brincam sobre como tudo mudou: já não vivem naquele ritmo, são mais caseiras e estão em paz com isso. Melina diz que essa é a relação mais saudável que já viveu. Admira a inteligência emocional de Acácia e juntas encontram um equilíbrio leve. Sente que é muito bonito e verdadeiro o quanto querem crescer - e crescem - nessa caminhada. ↓ rolar para baixo ↓ Melina Acácia
- Jéssica e Priscila | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. No começo de 2023, Jessica era promoter de uma festa lésbica no Rio de Janeiro e criou um grupo no WhatsApp para informar sobre os descontos e ingressos especiais. Um amigo da Priscila soube do grupo e indicou para ela, que entrou e pouco interagiu, mas sempre visualizava as mensagens da Jessica desejando bom dia, interagindo com as pessoas e, mesmo não sabendo que era o trabalho dela, achou ela muito interessante. Numa interação no grupo, as pessoas mandaram seus perfis no Instagram e a Priscila viu o perfil da Jessica, mas não seguiu. Como nunca tinham interagido, achou que seria estranho seguir, mas vez ou outra entrava lá e via se ela postava alguma coisa com alguém (para entender se estava namorando ou solteira). O final de semana de uma das festas chegou e Priscila foi com os amigos. Viu a Jessica lá, achou ela interessante, mas não relacionou a pessoa que estava vendo com a pessoa que tinha visualizado o Instagram. Comentou com os amigos sobre ter interesse nela e eles incentivaram que ela puxasse um papo, mas mais uma vez ela achou estranho e não foi. Depois disso, viu que Jéssica estava acompanhada. A pessoa que acompanhava Jessica não era sua namorada, mas alguém que ela ficou um dia antes e que não deu certo, não estava legal, ela não estava se sentindo bem e sabia que não continuariam. Entre a Priscila ter interesse, comentar com os amigos e desistir de puxar papo, uma das amigas tomou iniciativa por ela e chamou a Jessica, apontando para Priscila e dizendo “Ela quer falar com você!”. Mas na hora que Jessica chegou, não entendeu nada, ficou uma situação estranha, ela achava que tinha sido chamada por conta do trabalho (afinal, estava trabalhando no evento) e acabou saindo sem entender. Priscila seguiu olhando ela pela festa e percebeu que o clima não estava legal com a acompanhante, achou até que esse desconforto era por causa da situação que havia acabado de acontecer. A amiga decidiu conversar com a Jessica e pedir desculpas pela situação, foi quando comentou que Priscila estava interessada, Jessica notou a Priscila e disse que também estava, mas que no momento estava acompanhada e por mais que não estivesse legal, não queria deixar as coisas piores. Passou o Instagram para a amiga entregar à Priscila. Priscila, quando viu o perfil, percebeu que era a mesma pessoa que ela “stalkeava” e não seguiu novamente. Após a festa, Jessica encontrou o perfil dela, seguiu e começaram a interagir. No começo, elas achavam que não iria acontecer nada para além do primeiro encontro de forma casual. Se veem enquanto mulheres muito diferentes, de culturas muito diferentes… e achavam que não iriam render. Aos poucos, foram gostando uma da outra, passando os finais de semana juntas e estabelecendo uma comunicação diferente. Se apaixonaram. Priscila estava com 29 anos no momento da documentação, é natural de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Estuda para ser comissária de voo e também cursa relações internacionais. É uma mulher muito livre, foi criada numa família muito solta, sem preconceitos e gosta muito disso. Preenche seu tempo livre com seus amigos, bebendo, passeando e deseja ao máximo viajar e conhecer novas culturas. Mesmo sendo brincalhona e risonha, acredita ter uma personalidade muito forte. Jessica estava com 26 anos no momento da documentação, é natural de Belford Roxo, baixada fluminense. É técnica em enfermagem e está terminando a faculdade de biomedicina, então optou por não trabalhar na área de enfermagem e seguir com os estágios e foco na faculdade até a finalização. É uma mulher que gosta muito de estar em família, demonstra seu amor no toque físico e nas palavras o tempo todo. Também adora sair de casa, ir para a praia, cinema, ver os amigos… E sonha em fazer um mochilão, deseja conhecer melhor o estado do Rio de Janeiro e o Brasil. Por mais que suas casas sejam bem distantes fisicamente (São Gonçalo e Belford Roxo), elas passam muito tempo na casa da Priscila, por Jessica fazer estágio em Niterói e ser um caminho próximo. Estar nessa relação significa a primeira vez que elas se sentem tratadas da forma que sempre desejaram - e por mais que considerem isso o mínimo, raramente identificavam tamanho carinho nas outras relações. Fazem questão de trabalhar a comunicação. Priscila explica que é difícil conseguir falar o que sente, compartilhar as coisas, principalmente pela independência da qual ela foi criada. Enquanto Jessica faz questão de demonstrar e compartilhar, desperta justamente o contrário: que podem criar novas linhas de conversa. Jessica sempre instiga Priscila a falar, compartilha o que sente e o que acha. Brincam que às vezes se sentem muito intensas e emocionadas, mas logo a razão vem e colocam o pé no chão entendendo o momento que vivem, entre desempregos e fim da faculdade. Parte desses momentos é refletir também que as coisas levam tempo para se estabelecer, que logo estarão conquistando seus sonhos, suas vontades de dividirem um lar e terem uma melhor vida financeiramente. Estabeleceram quase-que um código para demonstrar que algo não está bem, falam que “tá calor”, e nisso entendem que precisam de espaço, que estão se sentindo um pouco sufocadas. Respeitam esse tempo e desejam a presença uma da outra para passar pelos momentos difíceis, entendem o quanto isso é importante, mas sempre com suas individualidades preservadas. Nesse tempo de relação (pouco menos de um ano) já enfrentaram diversas situações difíceis e perceberam o quanto se fortaleceram juntas. É através das atitudes diárias que elas identificam o amor. Comentam que por mais que palavras sejam importantes, é muito mais fácil você dizer algo e não cumprir. Por isso, se apegam nas demonstrações diárias. Priscila não é tanto do toque quanto Jessica, mas demonstra o amor no cuidado e na presença, tratando bem. O amor que sente existe de uma forma muito natural, não é obrigação, é sobre o que gostaria de viver e como gostaria também de ser tratada, sempre pensa de maneira recíproca. Quando pergunto sobre a realidade delas em suas regiões (São Gonçalo, Belford Roxo) e sobre os locais que estão juntas, como se sentem e o que gostariam de ver mudar, elas respondem explicando a importância de ter mais respeito, educação e consideração nos espaços de convívio. Por serem mulheres (ou no caso da Priscila, mulher negra de religião de matriz africana) o medo do preconceito anda ao lado delas o tempo todo. E nesses momentos entre o medo entra também a coragem, a necessidade de falarmos sobre os nossos amores para que nos olhem com mais respeito, de nos impormos, de não deixarmos o preconceito ser mais alto. ↓ rolar para baixo ↓ Jessica Priscila
- Amanda e Julia | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Amanda e Júlia se conheceram no ensino médio. Estudavam no mesmo colégio que os pais da Amanda se conheceram, mas em turmas diferentes. Júlia conta que desde a primeira vez que se viram sentiu que seria algo especial, como se já soubessem que ficariam juntas. Amanda, na época, ainda não havia se relacionado com mulheres. Júlia já tinha se relacionado brevemente com uma amiga de Amanda, mas não tinham os grupos de amigos como ligação em comum, era apenas este fato que as unia. O primeiro contato mais marcante aconteceu na orla de Imperatriz, justamente no local onde anos depois fizemos essa documentação acontecer. Júlia estava com um problema: um ‘chupão’ no pescoço - e morria de medo que a família descobrisse. Amanda se ofereceu para ajudar, deu dicas de como disfarçar e depois seguiram juntas para pegar o ônibus. A partir desse dia, começaram a conversar mais online, se aproximaram no colégio e, pouco a pouco, também juntaram os grupos de amigos. Ainda que, no começo, muitos (para não dizer todos) acreditavam que o relacionamento que ali se formava seria só algo passageiro. Quando a mãe de Amanda descobriu, a situação ficou tensa. Foi então que Júlia tomou a iniciativa: decidiu ir até a casa de Amanda para conversar com a família e oficializar o pedido de namoro. A questão é que, sem que Amanda soubesse, no dia seguinte cedinho já estava lá, falando com os pais. Amanda levou um susto quando acordou e ouviu a voz de Júlia dentro da própria casa, já pedindo a mão dela em namoro. No início, os pais de Amanda até aceitaram a relação das duas, mas não acreditavam que o relacionamento fosse durar. Deixavam elas namorarem apenas na porta de casa, sentadas, sob supervisão. Hoje em dia elas riem lembrando, mas a verdade é que ninguém sabia direito como lidar com o início da relação. Quando os pais perceberam que o namoro duraria meses, afinal, seguia firme semana após semana, começaram a proibir as saídas juntas ou parar de aceitar os namoros na porta de casa. Isso justifica o quanto acreditavam que era apenas uma fase, uma brincadeira jovem… e que não iriam lidar com uma relação de verdade entre duas mulheres; Mas, mesmo depois das proibições, Amanda e Júlia continuaram se encontrando na escola e aproveitavam para escapar das aulas e passar tempo na orla da beira do rio Tocantins. Com as restrições aumentando, precisaram encontrar novas maneiras de continuarem se encontrando além da escola. Muitas vezes, enquanto os pais de Amanda saíam nos finais de semana, Júlia ia para a casa dela e, quando eles chegavam, corria para se esconder embaixo da cama. Foram várias noites em que os pés dos pais de Amanda chegaram a passar bem perto dela embaixo da cama, sem desconfiarem de nada. Hoje em dia, essa história é contada com humor - inclusive pela mãe da Amanda já sabe que isso tudo acontecia e se nega a acreditar. Com o fim do ensino médio e o início da independência financeira, Amanda e Júlia decidiram morar juntas. Essa mudança trouxe mais autonomia e diminuiu as interferências da família no relacionamento. Ao longo dos anos, passaram por algumas mudanças de casa, entre imprevistos e ajustes da vida, mas hoje vivem um momento de maior estabilidade: conseguiram juntar dinheiro e dar entrada na primeira casa própria, só delas. Ainda parecem não acreditar que o sonho está se concretizando, lembrando que começaram com quase nada, uma cama e poucos móveis, e agora conseguem enxergar, na prática, tudo o que construíram lado a lado. Reconhecem que o início não foi fácil. Como eram bastante jovens, as brigas por ciúmes eram constantes, era muita “intensidade adolescente”. Hoje, com mais maturidade, conseguem rir de muitas discussões que pareciam grandes, mas eram apenas inseguranças. Entendem que o vínculo delas é mais forte do que qualquer conflito e que existe uma “fissura” que sempre as faz escolher uma à outra. Com o tempo, aprenderam a transformar a relação em parceria: compartilham jogos em casa, passeios, almoços simples e a rotina com cuidado. Este cuidado se tornou parte essencial, uma base. Quando uma acorda mais cedo compra pães e lanche para a outra levar ao trabalho, dividem cafés da manhã, tarefas em casa, acolhem os medos, sonham alcançar novos lugares (seja no trabalho, na faculdade ou na vida pessoal)... Quando uma enfrenta dificuldades no trabalho, a outra é quem primeiro ouve, aconselha e acalma. Para elas, esse equilíbrio é o que faz com que a história dure dos tempos de escola até a conquista da casa própria. Amanda estava com 24 anos no momento da documentação, nasceu e cresceu em Imperatriz, no interior do Maranhão. Atualmente cursa Engenharia Civil e estagia na área. Aos 18 anos, decidiu sair da casa dos pais, em meio ao desejo de viver a relação dela com a Júlia de forma livre e independente. Gosta de programas simples do dia a dia, como assistir televisão e jogar jogos de tabuleiro. Júlia estava com 25 anos no momento da documentação, nasceu em Belém do Pará, mas ainda criança se mudou para Imperatriz, onde construiu a maior parte de sua vida. Trabalha como assessora de crédito em um banco e conta que começou a trabalhar muito jovem, próximo dos 14 anos, então já passou por diversos trabalhos diferentes. Parte da família ainda vive em Belém e em cidades do interior do Pará, enquanto outra parte está em Imperatriz, fortalecendo os vínculos na cidade. Ambas compartilham a experiência de terem saído cedo da casa dos pais e de terem buscado independência desde jovens. Suas histórias se mesclam com orgulho e vontade de serem independentes, formando um lar. ↓ rolar para baixo ↓ Julie Amanda
- Ariadne e Barbara | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Barbara estava com 35 anos no momento da documentação. Natural de Recife, mora na casa em que fizemos a documentação desde que nasceu. É psicóloga, atende casais e trabalha também numa luderia - uma casa com jogos - que começou como um grande hobby e que se tornou um empreendimento com mais dois amigos. Lá é um dos lugares onde ela e Ari se sentem mais felizes, junto com os amigos, descobrindo novos jogos ou jogando os mesmos de sempre que adoram. Bárbara também é apaixonada por sua família e por seus bichos. Ariadne estava com 33 anos no momento da documentação. É formada em publicidade e também em psicologia, atua enquanto psicóloga atendendo na área da gestalt terapia (inclusive atende no documentadas!). É natural do Rio de Janeiro, mas cresceu em Recife e entende que precisou ser adulta muito cedo, saindo de casa e encarando a vida. É apaixonada por jogos, por literatura, crochê, artesanato… está sempre aprendendo algo novo. Em 2018, quando Ari e Barbara se conheceram, Ari estava num relacionamento que já durava cerca de seis anos com um homem e havia uma mudança planejada para São Paulo para morarem juntos. Fez uma entrevista de emprego, conseguiu passar, estava com a data marcada para começar o trabalho. No processo da ida para São Paulo, decidiram abrir a relação, já que estavam longe, e Ari entrou em um aplicativo de relacionamentos. Foi quando viu uma pessoa que estudava com ela na faculdade - a Barbara. Porém, na sala de aula, Ari não interagia com os colegas, ficava no seu canto e não chamava atenção. Quando começaram a conversar no aplicativo, Barbara não lembrava da Ari ser sua colega, e a foto da Ari era meio escura, não mostrava muito seu rosto porque ela não queria se expor… Barbara até sondou com os amigos: “Gente, quem é essa pessoa?!” mas ninguém soube dizer… até que uma amiga em comum a reconheceu. Durante o final de semana elas conversaram e marcaram um encontro na terça-feira, mas segunda iriam se ver na faculdade de qualquer forma e ficaram nervosas porque não sabiam como reagiriam. Brincam que foi a coisa mais vergonhosa que já fizeram, não se cumprimentaram na sala, Ari chegou a sentar próximo da Barbara/do grupo de amigos dela e piorou a situação porque o celular da Bárbara quebrou e ela queria uma forma de comunicar Ari sobre isso, mas ao invés de simplesmente dizer para ela, escrever um bilhete ou qualquer coisa semelhante, ela resolveu falar muito alto “EITA galera!! Meu celular quebrou!!!” jogando o celular no chão. E depois, deu todo um jeito de conseguir o número dela com um amigo, para falar com ela sobre o encontro. Hoje em dia dão muita risada sobre a imaturidade, era realmente só falar, mas faz parte do nervosismo que estavam tendo com a situação. Ari conta que Barbara foi o primeiro encontro dela tendo um relacionamento aberto, e ainda era a menina da sala dela na faculdade… Isso era motivo o bastante para estar ansiosa. Fumou um cigarro antes de chegar, depois se arrependeu por conta do cheiro do cigarro que iria ficar na roupa… Já chegou falando “Eu não fumo!! Isso aqui é de vez em nunca!” antes mesmo da Barbara perguntar. Tiveram um encontro muito bom, Ari contou que estava com a viagem marcada para ir embora, a conversa fluiu por muito tempo, passaram a madrugada e viram o dia amanhecer. Quando se despediram, falaram que se encontrariam na faculdade à noite e combinaram: como se cumprimentar, como agir. Para que não se repetisse o que aconteceu na segunda-feira. Continuaram se encontrando na faculdade, tendo o romance “com prazo de validade”, até que um dia estavam voltando da aula, Ari olhou e disse: “Eu nem vou mais viajar pra São Paulo” numa naturalidade imensa. Ari explica que percebeu o quanto o relacionamento não era um lugar bom, que estava há muito tempo querendo sair e que abrir para conhecer outras pessoas foi quase que uma fuga para que seu ex companheiro arrumasse alguém e conseguisse ficar em São Paulo sendo feliz, assim a barreira física não seria mais um problema. Percebeu que estava apaixonada por Bárbara, que não fazia sentido dar continuidade na mudança e nem que estava preparada para se mudar e mudar toda sua vida. Decidiu primeiro cancelar a mudança, não terminar a relação de imediato, mas cancelar os planos. Ari contou para o ex companheiro que estava se relacionando com Barbara e aos poucos foi ficando evidente o quanto elas estavam juntas, até o momento em que entenderam que seria melhor terminar. Barbara conta que durante esse processo, aconteceram dois momentos importantes: o primeiro foi um dia que elas se embriagaram e se declararam, entenderam que não era uma paixão momentânea e que estavam sentindo algo real, mesmo sendo sinceras porque estavam bêbadas. E a segunda situação foi durante uma cerimônia de Ayahuasca, em que conversaram e que Ari estava incomodada por não terem uma definição sobre o que elas eram. Bárbara foi muito direta: “Você namora e eu estou solteira. Quando você resolver sua vida, a gente namora.” e no dia seguinte Ari terminou sua relação. Entendem que, no fim, o processo foi intenso e rápido. Viveram outras relações longas que exigiam muito menos coragem. E juntas, desde o primeiro dia, fizeram coisas que em outros relacionamentos não conseguiram fazer: andar de mãos dadas com outra mulher na rua, por exemplo, de uma forma muito natural, espontânea, corajosa. Apresentaram suas famílias, ficam felizes por todos se darem tão bem e conviverem juntos, romperam muitas barreiras de forma rápida. Depois de um ano de relação, Ari e Bárbara viveram a pandemia de Covid-19 ainda morando em casas separadas, mas Ari passou um tempo morando sozinha e por conta das dificuldades que a pandemia demandava em mobilidade decidiram passar mais tempo juntas na casa dela ou na casa de Barbara. Decidiram morar juntas por um tempo no fim da pandemia, até que Ari devolveu o apartamento e conversaram sobre alugar um apartamento e formar um lar. Viram que os custos eram bastante altos, então o pai de Barbara ofereceu parte da casa onde ele mora - e lugar que fizemos a documentação - para que elas morassem com os bichos em um lugar espaçoso e confortável. Estão há pouco mais de dois anos morando juntas nesse novo lar e há cerca de um ano e meio abriram a luderia, casa de jogos de tabuleiros que empreendem junto com outros dois amigos. A ideia surgiu porque durante a pandemia começaram a alugar alguns dos seus jogos, entenderam o potencial e a demanda, ainda mais por não haver algo assim em Recife, foi quando abriram o espaço físico junto com um bar. Contando sobre a luderia, elas dão um exemplo de como se dão bem na comunicação e nos planos: numa situação, ficaram muito tempo tentando explicar uma coisa uma para a outra. Ari tentava explicar sua visão e não entendia a visão da Bárbara de jeito algum, enquanto Bárbara passava pelo mesmo, mas elas não desistiram de tentar se comunicar. Foi quando Bárbara disse como era legal ver o quanto elas se esforçaram para ouvir e falar, explicar os pontos, serem didáticas, até desenharam. Acreditam que isso se espelha em toda a relação e na forma que conduzem as coisas. Nunca tiveram brigas pesadas, sempre prezam pelo respeito e pelo carinho, acreditam que o amor está nesse lugar que respeita quem a pessoa é e acompanha o crescimento dela. ↓ rolar para baixo ↓ Barbara Ariadne
- Tainá e Fabielly | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Fabielly estava com 26 anos no momento da documentação. Nasceu em Porto Alegre, mas cresceu em Esteio, onde vive desde criança. Estudou psicologia por um tempo, onde conheceu Tainá, mas logo percebeu que aquele curso já não conversava com o que sentia. Trabalhou em uma loja por um tempo, flertou com a possibilidade de estudar moda, testou possibilidades enquanto lidava com o peso de não saber exatamente para onde ir. O estresse da rotina intensa a afastou do trabalho, e, nesse vazio, encontrou espaço para o que sempre esteve ali: a inclinação artística. Foi assim que chegou ao design gráfico, onde finalmente começou a se reencontrar. Tainá estava com 25 anos no momento da documentação. Nasceu em Sapucaia do Sul, cidade ao lado de Esteio, onde mora hoje em dia. Estudou psicologia e hoje em dia trabalha na clínica, atendendo exclusivamente mulheres, tanto de forma online quanto presencial, num consultório integrado ao apartamento - que foi uma das razões para a escolha do lugar onde vivem. Fora do trabalho, cultiva o corpo e o espírito: pratica Muay Thai, lê, pinta, e se aproxima cada vez mais do budismo, depois de anos se considerando ateia. Juntas, constroem um cotidiano que mistura busca e estabilidade, sensibilidade, arte e cuidado. O que compartilham é esse desejo de fazer sentido para si mesmas, para o mundo ao redor e para a vida que dividem. Fabi e Tai se conheceram em 2020, no estágio do programa Primeira Infância Feliz, uma iniciativa estadual, inspirada em práticas de cuidado voltadas ao desenvolvimento integral de famílias em situação de vulnerabilidade. Era um trabalho multidisciplinar que reunia psicologia, nutrição, fisioterapia, pedagogia e fonoaudiologia, que levava as estagiárias diretamente às casas das famílias. No meio da pandemia de Covid-19, com máscaras, álcool gel e as primeiras doses de vacina, Fabi e Tai, ainda que de faculdades diferentes e não sendo tão próximas, se conheceram atendendo territórios e cruzando caminhos na cidade de Esteio, região metropolitana de Porto Alegre. Foi só em 2021, quando estavam solteiras e com uma relação mais construída por trabalharem juntas há alguns meses, quando começaram a interagir mais. Vez ou outra, se encontravam para auxiliar nos territórios - sempre caminhando muito ou andando de bicicleta, porque eram locais muito extensos, então dividiram longos trajetos e conversas. Aos poucos, esse cotidiano criou espaço para que a amizade se transformasse, puxando assunto aqui, criando vínculo ali, até o dia de uma confraternização de trabalho na casa de um amigo em que, finalmente, se beijaram pela primeira vez. E dali em diante tudo aconteceu depressa: em dez dias, já estavam namorando. Fabi lembra que, no início do namoro, ainda se entendia como bissexual e carregava uma dificuldade de aprofundar relações com mulheres. Com homens, havia sido ensinada desde cedo sobre comportamento, desejo. Era como se existisse um roteiro; Com mulheres, existia um medo, quase um pânico, de dar certo e não saber o que fazer depois. Ela fala sobre o bloqueio, sobre a estranheza de um aprendizado que nunca veio, e de como, ao perceber que gostava de Tainá, de ver que as conversas fluíam, que existia alinhamento e desejo, decidiu não deixar passar: era uma oportunidade rara de viver uma história que fazia sentido. Entre amigas bissexuais, via esse debate se repetir (hoje até transformado em piada na internet, mas uma piada bem real) sobre como “com homens, qualquer um serve, mas com mulheres dá pavor”. Falamos sobre a importância de refletir e de verbalizar tudo isso, porque muito vemos essas “piadas”, mas pouco vemos conversas sobre o motivo delas existirem. Fabi explica que entendeu na relação com a Tai o motivo dos seus relacionamentos com homens sempre esbarrarem em uma sensação de inadequação: nunca estava bom, sempre havia um incômodo e um defeito. No fim, sempre iria haver, porque o problema eram eles serem homens, e ela ser lésbica. Muitos vínculos tinham sido apenas comodidade. Ainda que já tivesse ficado com homens legais e tido relações legais, e com mulheres legais que viraram amigas, porque travava diante do desconhecido (o medo de assumir, o medo de dormir juntas e não saber como conduzir a intimidade, o medo do julgamento na vida adulta). Sabia que muitas mulheres lésbicas tinham preconceito com mulheres bissexuais, e isso também pesava. Na família, o processo também não foi fácil. E foi a família da Tai quem acolheu Fabi quando a família dela reagiu com homofobia ao saber da relação das duas. A família de Tai sempre soube das suas relações e lidou bem, e o pai dela, vendo Fabi passar por momentos difíceis em casa nos primeiros meses, sugeriu: “Por que vocês não moram juntas aqui em casa?”. Sem prazo, sem peso, apenas oferecendo um lugar seguro enquanto elas construíam juntas o que já era amor. Quando Fabi contou à família que estava em um relacionamento com uma mulher, o processo foi confuso, cheio de camadas e silêncios. Houve acolhimento por parte da Tainá e da sua família, por isso optou em ir morar com eles. Era uma decisão dela de não viver mais sob o peso dos preconceitos. Alguns meses depois de ficar sem se falar com a mãe, as duas já estavam bem, e no Natal daquele mesmo ano (em 2021) tudo voltou a fluir. A mãe chamou para almoçar e conversaram novamente. Depois de um ano morando juntas na casa da família da Tainá, elas decidiram que seria o momento de alugar o próprio apartamento. Em 2022, quando começaram a movimentação, isso acabou gerando um conflito grande na casa da Tainá. Eles esperavam que elas só saíssem de casa quando estivessem formadas, não concordaram com a mudança e trataram mal a Fabi por conta disso. Fabi precisou sair da casa da qual foi acolhida, se viu sem lar novamente, e foi para a casa da sua avó. Só quase um ano depois, num convite inesperado para comer pizza, os pais de Tainá voltaram a recebê-la na casa que morou, apenas retomando o convívio até que tudo se ajeitasse. Bem semelhante à como foi com a sua mãe quando pararam de se falar - mas nessa época, ela e Tainá já moravam no seu primeiro lar, um apartamento pequeno e simples, em Esteio. A vida foi se ajeitando, elas decidiram celebrar a relação com um casamento no civil e uma pequena celebração com os amigos e a família - e nesse dia a verdadeira reconciliação aconteceu. A mãe da Fabi pediu perdão pela forma que lidou no início da relação, não justificou, não se alongou, apenas pediu perdão. E foi o bastante, gesto que faltava para fechar um ciclo e abrir outro, mais gentil, mais sincero e mais possível entre elas três. Depois da transição de lar conturbada e de um primeiro ano nada fácil, Tai e Fabi construíram uma rotina juntas, começando com pouco dinheiro e lazer nos momentos que conseguiam. Enquanto Tainá era estagiária, Fabi trabalhava em loja, e o orçamento mal cobria as contas básicas. Com o tempo, tudo foi se estabilizando: Fabi se formou, as oportunidades melhoraram, celebraram o casamento com uma janta, os amigos e os familiares e em 2025 se mudaram para um apartamento maior. Hoje, com suas três gatinhas, amam cultivar as pequenas rotinas e os cuidados diários: os almoços, os cafés (ainda que corridos, ou uma preparando café para a outra), as séries no fim do dia, as pinturas, o cinema quando dá, e a descoberta compartilhada do budismo, que já faz parte da vida delas há um ano. Essas vivências moldaram um amor que se mostra, sobretudo, nos momentos difíceis. As duas enfrentaram momentos difíceis no trabalho, na família, períodos de dor que nem sempre conseguiram ser o melhor de si, mas ainda assim permaneceram. Existe nelas um amor que atravessa erros, cansaços e histórias. Fabi explica que é um amor que perdoa não só quem está ao lado, mas também quem feriu - como as famílias, que hoje fazem parte da vida das duas com afeto renovado. Nesse percurso, aprenderam a amar a si mesmas, amar uma à outra e amar de novo o mundo ao redor, construindo uma vida onde tolerância, cuidado e crescimento caminham juntos. ↓ rolar para baixo ↓ Tainá Fabielly
- Rafaela e Helena | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Desde o primeiro encontro, Lucia Helena e Rafaela sentiram uma conexão natural. Nenhuma das duas esperava iniciar um relacionamento tão cedo, mas a conversa fluiu de imediato e, poucos dias depois, já estavam marcando de se ver. Nena, como é chamada, havia saído recentemente de um casamento longo, enquanto Rafaela retornava ao Recife após uma experiência no Rio de Janeiro que não durou como esperava. Mesmo assim, decidiram se abrir para algo novo. Lucia Helena, estava com 37 anos no momento da documentação. É natural do Recife, trabalha enquanto motorista de aplicativo e é estudante de educação física. Adora acordar cedo e aproveitar o dia. Seu divertimento é praticar esportes, como jogar bola e andar de bicicleta. Rafaela estava com 23 anos no momento da documentação. Mora na cidade de Paulista, região metropolitana de Recife. Vivia um momento de recomeço na cidade e não planejava nada sério, mas percebeu que ao lado de Nena tudo se encaixava sem esforço. O relacionamento evoluiu rapidamente, mas sem pressa, no tempo certo das duas. O primeiro encontro aconteceu na Páscoa, de forma despretensiosa. Nena, muito ligada à sobrinha, saiu para comprar um chocolate de presente e aproveitou para passar perto da casa de Rafa, sugerindo um encontro rápido. Rafa deu algumas desculpas, alegando estar ocupada, mas Nena insistiu um pouco, dizendo que estava de carro e iria até ela. O que seria só um encontro no carro se alongou em uma conversa, até que, entre piadinhas, se beijaram pela primeira vez. Dias depois, Rafa comentava com uma amiga que não iria namorar ninguém, que “nem tão cedo iria ceder para o namoro”... até que o celular tocou com uma notificação em tom diferente, porque geralmente nem notificava… e ela tinha colocado especialmente para ver as mensagens da Nena… quando a amiga percebeu, ela disse “Tu não vai namorar não, né? E essa notificação aí que já mudou?”. Na semana seguinte, marcaram outro encontro, dessa vez para tomar um açaí. Desde então, não se desgrudaram mais. Entre conversas, descobertas e afinidades, perceberam o quanto se encaixavam. Hoje, Rafa passa mais tempo na casa de Nena, no Recife, do que na própria casa em Paulista. Rafa e Nena veem o relacionamento como algo genuinamente diferente do que já viveram. Desde o desejo constante de estarem juntas, após experiências anteriores (em outras relações) que viveram à distância, até a liberdade de viver esse amor de forma aberta. Pela primeira vez, não precisam se esconder ou restringir nada - família e amigos sabem, apoiam e participam. Postam fotos sem receio, falam sobre o que sentem, vivem a relação sem medo. Para elas, isso é essencial: poder mostrar um amor que é bonito de se viver. O apoio mútuo se manifesta em tudo, desde as pequenas rotinas, como sair para pedalar juntas ou assistir aos jogos dos times (que são rivais), até os desafios mais profundos da vida, como os estudos, o trabalho e as dificuldades familiares que acontecem paralelas à vida. Mesmo nos momentos difíceis, sabem que podem contar uma com a outra, seja para cuidar da cachorrinha ou para enfrentar os obstáculos da vida. O relacionamento se sustenta na parceria e no companheirismo diário. Quando pensam sobre o amor, lembram das vezes em que enfrentaram momentos de ansiedade juntas. O suporte mútuo foi essencial, tanto para acalmar quanto para ajudar a concretizar aquilo que parecia inatingível - e que era causador da ansiedade. Para elas, amar é aceitar, acolher e estar presente. É uma sensação de: eu te aceito como você é e estou aqui contigo. E ficam muito felizes, também, por verem esse amor reconhecido entre as pessoas ao redor, de tanto se apoiarem os amigos e familiares reconhecem: “Teu semblante ficou melhor depois que tu conheceu essa menina” ou “Agora tu tá indo pra frente e as tuas coisas estão progredindo”. Rafa e Nena contam o quanto o relacioamento delas é diferente em vários pontos: desde conviverem próximas, desejarem estarem muito juntas e terem tido experiências à distância antes, até o contato muito aberto que possuem com a família e que antes isso não era possível - a irmã e a sobrinha, o pai e a mãe, todos já sabem e não precisam se esconder ou restringir. Postam fotos livremente, falam sobre o seu amor. Não se sentem privadas de mostrar uma relação que é tão bonita de viver. Sentem a importância do apoio - desde numa rotina muito simples em acordar e sair para pedalar, vão juntas, até assistir jogos de futebol dos times rivais juntas.. até as coisas mais profundas da vida como os estudos, os desafios de trabalho, questões familiares que acontecem paralelas à vida, os cuidados com a cachorrinha de estimação… entendem a importância de contar com a pessoa que você se relaciona. Quando pensam sobre a relação e sobre o amor, citam momentos de ansiedade que passaram juntas e que uma apoiou muito a outra, tanto para estabilizar quanto para realizar o que estava causando a ansiedade. Nesses momentos, o amor está muito veiculado à verdade, ao suporte, à uma parceria que serve como familia e acolhimento. É uma sensação de: eu te aceito como você é e estou aqui contigo. E ficam muito felizes, também, por verem esse amor reconhecido entre as pessoas ao redor, de tanto se apoiarem os amigos e familiares reconhecem: “teu semblante ficou melhor depois que tu conheceu essa menina” ou “Agora tu tá indo pra frente e as tuas coisas estão progredindo”. ↓ rolar para baixo ↓ Rafaela Helena
- Cilla e Fabiana | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Fabiana estava com 37 anos no momento da documentação. É professora de química e está atualmente fazendo doutorado na Universidade Federal do Pará. Além das aulas na universidade, também dá aulas particulares para estudantes do ensino fundamental e médio, ensinando química, física e matemática. É uma pessoa caseira, apaixonada por tarot, astrologia e espiritualidade, se considerando católica não praticante. Acredita que existem saberes para além das religiões tradicionais, e gosta de explorar esses caminhos esotéricos. Nos momentos livres, ama maratonar filmes e torcer para o Palmeiras, seu time do coração. Sua trajetória acadêmica é o grande motivo de orgulho, sempre quis estudar e se formar numa universidade federal. É licenciada em química e formada também em química industrial, se dedicou muito, por vezes abdicou de ter vida social e preferiu os estudos. Sabendo dessa prioridade, também, sempre é grata à sua família por ter apoiado, sido base para que ela conseguisse conquistar esse sonho. Cila estava com 34 anos no momento da documentação. É fotógrafa, filmmaker e social media. Apaixonada por fotografia desde a época das câmeras analógicas, além de ter uma forte ligação com a música: compõe, canta e toca alguns instrumentos. Tem músicas autorais publicadas até nas plataformas de streaming e já fez apresentações que envolviam outros artistas autistas. Atualmente, estuda produção multimídia na UFPA e também jornalismo, fazendo a modalidade EAD. Já morou em lugares como Paraíba e Canadá, mas enfrentando algumas situações difíceis, precisou voltar para Belém. Hoje em dia passou a entender seu modo de aprender, se acolher de melhor forma… Passou cinco anos cuidando do pai, já idoso, que estava bastante doente (uma fase que exigiu muito emocionalmente), agora reingresso na faculdade e se dedica ao que realmente ama: a fotografia, a arte e a comunicação. Cila fez a cirurgia bariátrica em 2024 e a recuperação não foi nenhum pouco fácil. Após muitos anos sendo militante contra a gordofobia, viu sua saúde prejudicada e optou pela cirurgia, sendo necessário passar por todo um processo desafiador. Fabi foi uma presença fundamental: se reinventou em coisas que não sabia, aprendeu a cozinhar, Cila a representa como uma luz: sempre aparece quando a escuridão ameaça tomar conta. Com ela, encontrou uma parceira de verdade, em todas as dificuldades. E mais do que isso: ganhou uma nova família - as tias da Fabi, por exemplo. Os vínculos, as famílias que se agregaram, a casa que constroem juntas, para as duas se tornou uma relação saudável que nem imaginava que poderia existir. Fabi, por sua vez, nunca tinha tido um relacionamento antes (com mulheres ou com homens). Nem imaginava que relações amorosas pudessem ser tão tranquilas. Conheceu Cila em 2022, por um aplicativo de relacionamentos. Já estava quase desistindo da ideia de usar os aplicativos, na verdade, porque as conversas não fluíam. Mas Cila fez de tudo para chamar sua atenção e começaram a conversar. O papo foi fluindo de forma positiva e a primeira proposta de encontro foi ir ao circo. Fabi adorou, achou super criativo, divertido. Infelizmente não deu certo, mas a outra proposta também foi legal: uma peça musical sobre Queen no teatro. Foram e, durante o intervalo, a conversa entre elas foi tão leve e espontânea que se sentiram em casa. Nas palavras de Fabi, pareciam se conhecer há muito tempo. O encontro teve que terminar cedo porque Fabi tinha uma prova no dia seguinte, mas antes de irem embora, Cila a convidou para sua festa de aniversário que seria nos próximos dias. Fabi foi, levou um presente, e esse gesto mexeu com Cila: ela quem sempre tomava as atitudes de presentear, se dedicar aos outros, pela primeira vez se via sendo cuidada. “Ela nem tinha me beijado ainda e já se preocupava em me agradar”, lembra. Não era pelo valor financeiro, era pela atitude. Depois que ficaram juntas pela primeira vez, no aniversário da Cila, elas continuaram se encontrando e nutrindo a paixão que ia acontecendo. Fabi viu em Cila o que ela nem sabia que era possível buscar em alguém, mas que admirava: uma pessoa responsável, carinhosa, dedicada ao trabalho, aos estudos e à família, principalmente, por ela cuidar do seu pai que estava doente, sendo a principal responsável por ele. Fabi, que por muito tempo adiou a vida amorosa por conta de estudos e trabalho, desejava uma parceira que entendesse esse ritmo, que tivesse paciência e vontade de construir uma vida compartilhada. Com Cila sentiu que isso pela primeira vez poderia ser possível. Em maio, durante o aniversário de uma amiga que sempre apoiou o casal, a amiga incentivou Fabi a pedir Cila em namoro. Cila chegou um pouco depois, direto do trabalho, e Fabi fez o pedido na frente de todos. Contam como foi legal, inesperado e simples. Sentiram-se respeitadas, celebradas, e desde então vivem uma relação de parceria. Juntas, já viajaram ao Rio de Janeiro, estudaram espanhol e foram para a Argentina…. Estão sempre topando o novo. Passaram por vários momentos difíceis, deixaram a comunicação afiada, e não largaram as mãos. Fabi também adotou as gatas que Cila trouxe do Canadá, agora são delas e tratam com muito carinho. Hoje vivem uma parceria sólida, com poucas brigas e muita escuta. Quando uma está em crise, a outra sabe exatamente o que fazer: um abraço forte, um gesto de cuidado, uma palavra certa, dar um tempo para uma ficar no quarto processando... São lugares de respeito. Quando Cila convidou Fabiana para morarem juntas, em maio de 2023, depois de um ano de relação, Fabi hesitou. Não faltava vontade, mas havia um medo de sair de casa. Ao mesmo tempo, sempre que passava o fim de semana com Cila e precisava ir embora, sentia uma tristeza, sabia que queria ficar lá. Foi conversando com a tia que recebeu o incentivo: se esse era o que o coração sentia, deveria seguir em frente, sem esperar aprovação dos outros. O medo existia por não saber como o mundo reagiria. Aos poucos viu que os medos eram pequenos (talvez nem fizessem tanto sentido assim) perante a relação legal que construiam. Cila sempre demonstrou muita maturidade e foi com ela que Fabi aprendeu a se libertar dessas inseguranças. Mesmo com o apoio da maioria da família, algumas pessoas se afastaram, mas as que permaneceram sempre estão presentes e são bastante respeitosas, carinhosas… A família de Cila também foi acolhedora. A mãe e irmã moram fora do Brasil, mas mandam presentes para Fabi, quando visitam estão sempre com as duas e fazem questão de incluir elas nos planos. Apenas a avó da Fabi ainda passa pelo processo de aceitação, o que traz dor, a ausência da Cila nos momentos felizes entre família quando ela está a deixa triste, não consegue entender como algo tão bonito como amar não pode ser aceito por uma das pessoas que ela mais ama e admira - como a avó - mas entende também que com o tempo isso pode ser mudado. Entendem que ela e Cila são um casal feliz, e isso deveria bastar. ↓ rolar para baixo ↓ Fabi Cilla
- Opa, tão nos copiando por aí? | Documentadas
Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! • como copiar o doc • que esse projeto é lindo a gente já sabe que todo mundo deseja ter um doczinho pra chamar de seu? é óbvio! mas tem gente ultrapassando os limites para chegar nesse objetivo papo reto: o doc é estudado projetado desenhado... não vamos aceitar cópia barata & cafona por aí. então, decidimos: opa, mas calma. caiu aqui de paraquedas e não tá entendendo nadinha? vem conhecer o doc antes! ♥ agora sim, parte 1: a nossa fonte > os nossos lambes a frase "toda mulher merece amar outra mulher" foi adotada pelo .doc a partir de uma documentação que fizemos na casa de um casal [e fotografamos ela em um objeto] em 2021. na época, postamos algumas vezes e recebemos alguns comentários dizendo que deveríamos fazer um adesivo com ela estampada. e não é que deu certo? foi crescendo, crescendo, e virou a cara do documentadas, sendo usada principalmente nos nossos lambes. até então, não disponibilizávamos esses lambes para colarem por aí, acreditamos que ele é a forma que o doc ocupa as ruas enquanto arte. mas agora você pode obter ele clicando aqui: baixar moldes dos lambes aqui #olha a dica! para colar os lambes direitinho, se liga nisso aqui: - pincel ou rolinho na mão; - superfícies lisas >> e não inventa de colar lambe em local privado sem autorização! por favor! dê preferência à postes e converse com o dono do local antes de sair colando por aí; - cola tipo PVA + água, misturadas em um recipiente, não deixando nem muito denso, nem muito líquido; - chama alguém para te acompanhar, não indicamos fazer a colagem sozinha; - deixa o lambe liso com a cola bem espalhada, assim garante a durabilidade :D espalhar a frase por aí com a nossa fonte e a nossa logo é importante para garantir a identidade e a representatividade do projeto, fazendo com que ele seja reconhecido facilmente e amplamente divulgado - afinal, é assim que chegamos em mais mulheres , né? não edite esse material nem recorte a nossa logo dele. colabore com a arte. parte 3: outros produtos do .doc temos outros produtos de alta qualidade que só a gente faz: quadros, camisetas e postais. esses, você encontra na nossa loja. ó a loja do doc, que linda • para entender melhor • por que a pirataria é mais barata? - material de baixa qualidade; - produção em escala absurdamente maior; - possuem fabricação própria; - não estudam e desenvolvem o material, apenas pegam o que já existe de artistas que produzem; - não possui serviço online de retorno (atendimento) - não enviam para todo o Brasil por que os produtos do .doc custam esse valor? - temos um material de melhor qualidade - não possuímos fabricação própria, inclusive temos gasto de frete buscando na cidade de fabricação; - pagamos uma plataforma de venda; - pagamos taxas bancárias a cada venda; - não temos equipe, tudo é feito por uma pessoa (humana & artista); - pagamos pelos materiais que acompanham a ecobag (panfleto pôster + adesivos brindes) + embalagem + etiquetas; - a ecobag é um produto que garante o projeto a se manter em funcionamento, ainda com margem de lucro pequena; - enviamos para todo o Brasil; - qualquer problema que você tiver com o produto (rasgou, não serviu, foi cobrado errado) estaremos aqui para te atender; vamos ensinar a copiar o doc. //como diria nossa mãe: "quer fazer? faz direito". parte 2: nossas ecobags são elas, as queridinhas da pirataria. para a nossa tristeza: porque a ecobag é o nosso principal produto. que vacilo, né? ainda por cima piratearam ela em comic sans. pô, não dá. pega aqui o molde pra fazer a tua. faz bonito, tá? baixar moldes das ecobags aqui [quer vender com a nossa autorização em alguma feirinha? manda um e-mail para nós através do nosso site ou diretamente para fernanda@documentadas.com ] ah, mas que trabalhão fazer, né? também acho. por isso, nossa ecobag está com 60% de desconto no site depois desse furacão que vivemos. sim, é para zerar o estoque. bora com a gente? vamos encarar a pirataria de frente e fazer a nossa ecobag estar pelo Brasil todo. o que faz do doc uma marca incomparável com a pirataria? somos um projeto artístico, estudado e executado com respeito. além disso, em cada produto adquirido você contribui para que mais mulheres tenham suas histórias registradas por todo o Brasil, num documento inédito e que, até o início do projeto, era inexistente. adquirindo um produto pirata, você só contribui para a desvalorização da arte.
- Juliana e Priscila | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Juliana estava com 40 anos no momento da documentação e é natural de Olinda, cidade pernambucana em que fizemos as fotos. Formada em administração, trabalhou por alguns anos em um banco privado e hoje em dia trabalha numa empresa familiar que é responsável por recicláveis. Juntam os materiais (plástico, papel, papelão, vidro…) em outras empresas e encaminham para o destino correto. Além do trabalho, adora assistir filmes, viajar, ficar com os bichos em casa… Comenta que são tantos anos de relação, praticamente a metade da vida juntas, que faz com que se veem fazendo tudo juntas. Adoram viver a rotina. Priscila é natural de Paulista, cidade vizinha de Olinda. Quando conheceu Ju, Priscila trabalhava na área de merchandising, mas acabou prestando serviços para a família da Ju na empresa de recicláveis e descobrindo o ramo, se encontrou e trabalha com isso até hoje. Também adora gastronomia, sua verdadeira paixão que começou como um hobbie e vêm se desenvolvendo - de vez em quando criam alguns jantares e recebe até encomendas de comidas italianas para produzir. Pergunto para Ju e Pri como funciona uma empresa de reciclados, acho muito incrível esse ser o trabalho delas e poder compartilhar sobre um assunto tão necessário por aqui. Elas explicam que trabalham com empresas como supermercados que reciclam papelão - e papelão vira papelão novamente - ou editoras que reciclam livros didáticos por conta deles precisarem ser renovados por novas normas ortográficas ou atualizações de conteúdos - então fazem separação de papel… E assim encaminham cada material para as indústrias. Por exemplo: um papel branco pode virar papel higiênico, papel toalha, guardanapo… É um trabalho útil, rentável e necessário para o mundo. Em 2008, Priscila havia acabado de se mudar para Olinda e estava dividindo casa com um grupo de amigas. Logo na primeira semana da mudança, junto com essas amigas, decidiram sair para se divertir em Recife, ir beber uma cerveja, curtir e comemorar. Porém, era no meio da semana, os bares fechavam cedo… Sempre foram ‘inimigas do fim’, decidiram parar em Olinda num barzinho que ficava aberto até mais tarde chamado “Estação Maxambomba”. Ju, por sua vez, saía do trabalho em Olinda e ia encontrar suas amigas que tinham uma banda tocando coco e maracatu, gêneros musicais tradicionais de Pernambuco. Do ensaio, iam direto para o bar, algo que virou tradição semanal. Lá, as amigas de Ju e Pri se interessaram umas nas outras, Priscila ficou um pouco chateada porque preferia algo mais reservado, a amiga dela já bêbada brincava de fazer um sotaque carioca, acabaram juntando as mesas e foi assim que Ju e Priscila se conheceram. Foram comprar cigarros juntas, voltaram de braços dados mas sentaram longe quando chegaram na mesa… No final da noite, trocaram o número de telefone. Quando estavam indo embora, Priscila pegou a moto e as amigas começaram a zoar a Ju porque ela estava “flertando” com uma motoqueira… Depois começaram a conversar, na época ainda por SMS, contaram onde trabalhavam (Ju ainda estava trabalhando no banco e pouco conseguia tempo para mexer no telefone), mas marcaram de se encontrar novamente. Não se encontraram no primeiro momento combinado, mas marcaram um almoço no apartamento em que Priscila dividia com as amigas. O almoço durou o dia todo no domingo. Brincam que não seriam elas a mudar a história das lésbicas, então desde que ficaram juntas já não se separaram mais, Ju foi voltando nos dias que seguiram e assim não se desgrudaram. Ju foi morar sozinha quando trabalhava no banco porque sentia que já era a hora de ter sua independência e porque tinha uma cachorra que destruía tudo na casa dos seus pais. Acabou que não conseguiu ficar com a cachorra por conta dela precisar de mais espaço, mas cuidou dela através de uma amiga até ela ficar velhinha. Mesmo Ju tendo sua própria casa, vivia na casa da Priscila e das suas amigas, mas o apartamento estava ficando cada vez mais caótico com o tempo pelo fato de todas serem bastante jovens, faziam várias festas e a casa sempre estava cheia de gente. Até o momento que decidiram que precisavam de um novo lar, era bagunça demais até para elas - que eram inimigas do fim. Em 2009 conseguiram uma casa em Maracaípe, um lugar tranquilo que iam passar os finais de semana. Levaram algumas coisas no caminhão da empresa da família da Ju, já estavam morando juntas em um apartamento e os outros móveis encaminharam para essa casinha “de praia”. Em 2009, também, adotaram o Marvin, primeiro cachorrinho de muitos animais que vieram depois - e fiel companheiro que acompanhou quase toda a relação, faleceu no último ano. Depois de Marvin, chegou Frida, para lhe fazer companhia. Em seguida, num dia saindo para almoçar, ouviram alguns miados e encontraram um gatinho embaixo de uma árvore… Até tentaram não pegar na ida para o almoço, mas na volta não teve jeito, seria Diego. E, um tempo depois, surgiu Magali, uma gatinha que fizeram um resgate e deram uma nova vida. E assim, a família só foi aumentando… Foi chegando o Hulk, a Fiona, Rutinha, Ratinha, Olga, Mingau, o Snoop… Hoje em dia ainda possuem alguns animais em casa, entre gatos e cachorros, mas todos com o mesmo destaque: o direito a boa e a longa vida. Em 2012 chegaram à casa que moram hoje em dia, com os bichos e uma vida relação já construída. Depois que estavam com uma mentalidade mais madura sobre essa construção, começaram a pensar na unidade familiar que estavam construindo e resolveram cogitar a maternidade e a adoção. No começo do processo de adoção, estavam pensando que gostariam de adotar um bebê. Foram atrás, frequentaram as reuniões, começaram a pensar um pouco em outras possibilidades. Mas aconteceu uma situação da qual as deixou muito chateada e as fez voltar atrás, não quiseram seguir com o processo. Depois que cuidaram de uma cachorrinha, a Ratinha, durante alguns anos com cuidados diários desde todas as alimentações com mamadeira, até problemas respiratórios, nos olhos, vitaminas… Viram que estavam dispostas a serem mães e pensarem novamente sobre a disposição de terem alguém para cuidar e amar todos os dias. Foi quando, em 2020, anos depois da primeira tentativa, cogitaram entrar para a adoção novamente. Porém, diferente das ideias iniciais de ter um bebê, já haviam amadurecido outras possibilidades e decidiram adotar um adolescente. Aurelino, que hoje em dia já está com 18 anos, chegou com 13 anos na família. Tudo começou com a ideia de um apadrinhamento, já que quando os meninos completam 18 anos e saem dos orfanatos existe uma mobilização para que eles tenham condições de viverem sozinhos por um tempo. Elas foram até o local onde ele estava, conheceram todos os meninos junto da assistente social, mas havia uma condição: você não pode demonstrar interesse em adotar a criança que quer apadrinhar. Então decidiram mergulhar de vez na adoção. Conversaram com ele para saber se ele teria interesse em fazer parte da família, foi bem legal por conta de serem duas mães e ele já ter uma bagagem de vida, opinião, cultura formada, diferente de uma criança muito pequena… e ele ficou bastante animado. Queria fazer parte da família. Sempre foi carinhoso e atencioso. Ju e Priscila fizeram questão de manter as origens familiares de Aurelino antes de sua adoção também. Entendem que a bagagem que ele trás é única e é sobre quem ele é, sobre a vida dele. Assim como, os momentos que constroem juntos, são muito importantes para essa nova pessoa que ele está se tornando. Hoje em dia, a documentação dele já consta o nome das duas mães, inclusive recentemente quando ele foi se alistar ao exército houve um questionamento sobre e ele tratou de forma completamente natural e elas se orgulharam disso. Da mesma forma que ele enfrenta suas novas questões na fase da adolescência e adultez e elas tentam acompanhar isso da melhor forma, porque também é uma novidade para a primeira vivência na maternidade. São novos diálogos, desafios, vivências escolares, conversas sobre a profissão e o trabalho que deve seguir, relacionamentos… Também foi muito difícil pela primeira vez conviver com um homem dentro de casa, os recortes são outros, aprenderam, viveram muitas mudanças sendo mães, e se deram conta de coisas que ninguém havia ensinado durante o processo de adoção também: a saúde dele era muito mais frágil por conta da sua vivência e da sua alimentação na infância e levou alguns anos para ser fortificada, a educação precisou ser reforçada, a saúde mental, o vocabulário… Fazem muita questão de conversar tudo o tempo todo, entendem que não há tempo a ser desperdiçado em deixar uma conversa para depois. Ju entende que depois de tantos anos de relação, essa família tão forte que formaram reflete o quanto podem contar uma com a outra sem competição, sem disputarem quem é melhor dentro da relação. Vivem um companheirismo que quer o crescimento de todos. Enxergam a amizade, o incentivo, os projetos que dividem, o quanto a família é importante. Hoje em dia a mãe da Priscila mora com elas e foi para todas se fortalecerem, Priscila já ficou fora do Brasil para trabalhar por alguns meses em 2023 e Pri, Aurelino toda a família super apoiaram para que ela fosse porque sabiam que seria importante… Tudo é lutado em conjunto porque entendem que estão caminhando juntos. E o amor que vivem é o que mantém essa luta fazendo sentido. ↓ rolar para baixo ↓ Priscila Juliana
- Apoio Psicológico | Documentadas
O Documentadas oferece apoio psicológico para mulheres que amam mulheres e fazem parte da comunidade LGBT. saúde mental e apoio psicológico para mulheres de todo o Brasil Considerando a importância da representatividade para a construção da identidade de pessoas LGBTs e compreendendo as condições atuais do nosso país e do mundo, criamos no Documentadas uma rede de apoio psicológico. Através da psicoterapia ou da análise, uma profissional acompanhará, ouvindo e proporcionando um espaço de acolhimento para as vivências, sofrimentos e inquietações das mulheres que passam pelo projeto. Nesse primeiro momento, para atender mulheres que amam mulheres e que acompanham o projeto, criamos uma rede de psicólogas e psicanalistas que estão com vagas sociais para atendimentos individuais e online. Apostamos neste espaço porque sabemos o quão difícil é encontrar um ambiente seguro para ser escutada com atenção e cuidado. como funciona? Somos em mais de 25 profissionais - entre psicólogas e psicanalistas - e temos vagas à preços sociais, cada qual com a sua disponibilidade. Entendemos a importância de abrir essas vagas à valores mais baixos exatamente pela condição financeira particular de cada mulher, entendendo que o acesso à saúde mental deve ser democrático. Nosso propósito é atender mulheres que não encontram disponibilidade de atendimento de forma acessível nos meios particulares pagos. Toda mulher poderá se registrar na nossa plataforma acessando a área ao final dessa página. Assim, poderá consultar o perfil de cada profissional, escolher com quem mais se identifica e preencher um formulário. Todos os atendimentos partem do mesmo valor base, o que difere na hora da escolha é a profissional identificada através do breve currículo e da sua disponibilidade. Assim que o formulário for preenchido, a profissional escolhida entrará em contato para darem início ao atendimento psicológico ou psicanalítico. Para ler maiores informações sobre a nossa Política de Privacidade e os Termos de Uso de plataforma, clique aqui ♥ quer ter acesso à terapia/análise ou entrar em contato com a profissional? clica aqui
- Karol e Hémely | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Karol e Hémely se conheceram no ensino médio, em 2008. Tinham cerca de 14 anos, eram amigas e tinham várias interações na escola. Mas, depois que se formaram, romperam bruscamente o contato e Karol não entendeu o motivo. Mais de dois anos depois voltaram a se falar, em 2014, quando a avó de Karol (quem a criou) estava internada e Hémely soube. Sabia o quanto isso era importante para ela, então mandou uma mensagem. Karol aproveitou a mensagem e perguntou o que havia acontecido para aquele afastamento brusco acontecer e a resposta era a pressão familiar da Hémely. Eles tratavam a Karol com muito preconceito, falavam que ela era diferente, que elas namoravam… Sendo que elas nunca haviam sentido nada além da amizade (ou não identificavam isso até então), entendiam sim que era uma amizade muito forte, unida, que prometiam não se deixar, mas ainda assim não era um lugar romântico. A avó de Karol sempre foi uma pessoa muito tranquila e aberta, aceitava ela como ela é. Queria que ela fosse feliz sendo era, sozinha ou com alguém. Já a família de Hémely, sempre teve sua cultura moldada pela religião, não deixava Hémely ter acesso a muita coisa. Quando voltaram a se falar, com a avó de Karol no hospital, Hémely pensou no quanto Karol deveria estar triste, então se dispôs a comprar comidas, preparar lanches e chegou na casa dela com sacolas, frutas, muito apoio, disposta a ajudar e a voltar para sua vida, independente se sua família gostasse disso ou não. A avó de Karol infelizmente faleceu alguns dias depois da internação. Foi um baque gigantesco. Naquele momento Karol tinha apenas 20 anos, perdeu sua família, sua base. Hémely foi o principal suporte, junto com o apoio de outra amiga. A avó de Karol sempre a criou dizendo que quando ela morresse, ninguém seria por ela, que ela precisaria aprender a se virar… E assim o fez. O primeiro ano foi muito difícil, passou por diversas violências e precisou reaprender a viver. Ainda nesse primeiro ano, entre o luto, o suporte e tantas coisas que aconteciam, Karol e Hémely começaram a se envolver romanticamente e decidiram assumir o relacionamento. Entenderam que gostavam uma da outra há muito tempo, eram suas redes de apoio e construíam um amor, queriam investir no que sentiam. Porém, Hémely foi criada sob um olhar preconceituoso e ainda se via com preconceito, via outras pessoas gays com preconceito, levou muito tempo para quebrar seus bloqueios e entender que estava tudo bem viver esse amor, não era um pecado e ela não era uma pessoa estranha, só era ela mesma e estava fazendo algo bom, vivendo algo feliz. O começo do namoro envolveu diversos desafios simultâneos: a vida da Karol estava virada de cabeça para baixo - o luto, a violência com os familiares que não possuía contato tendo que lidar depois da morte da avó, ela se reconhecendo nessa nova vida, um relacionamento acontecendo - e a vida de Hémely em redescoberta sobre a sua sexualidade, um novo amor, o medo que seu próprio preconceito causara e sua família descobrindo tudo isso. Seu pai desconfiava, deixou de falar com ela ao ver ela se reaproximando da Karol e viveram um rompimento muito difícil, principalmente por terem sido muito próximos a maior parte da vida. Cada vez mais, a relação entre elas virava um ponto de apoio mais forte e necessário. Como a relação entre Hémely e a sua família piorava com o tempo, a partir de 2016 ela e Karol começaram os planos de morar juntas, mas só em 2019 Hémely conseguiu morar na casa de Karol. A mudança ocorreu de fato alguns meses depois, quando alugou um caminhão e buscou suas coisas na casa da sua família. Foi um processo longo, superando medos, com terapia e respeito ao próprio tempo, porque são vários contextos de violência e é preciso ter dinheiro também para alugar um novo espaço, mas conseguiram dividir um lar. Logo depois, moraram juntas num apartamento um pouco maior: esse que fizemos as fotos e que adoram estar, passear na pracinha, olhar as árvores… É um lugar que se sentem bem. Alguns meses após estarem dividindo a casa, Karol trabalhava enquanto técnica de enfermagem e precisou estar na linha de frente do combate ao Covid-19 durante a pandemia, então a rotina mudou um pouco e vieram novos desafios, mas afirmam o tempo todo: ‘o caminho é para frente, não tem outra opção, não tem como parar ou voltar, estamos seguindo e seguindo juntas, ainda que devagarinho’. Falam também da importância da arte nesse processo todo que viveram. Karol recebeu o diagnóstico de autismo nos últimos anos e pôde entender um pouco mais sobre si mesma e sobre como lida com a vida. Lembra hoje em dia das violências e pensa como a arte foi a grande aliada. As músicas que ouvia (cita Maria Bethânia, Francisco El Hombre…) e o quanto elas sempre se apagaram nas múltiplas expressões artísticas para conseguir respirar e sentir que os processos passariam. Hémely completa que juntas sempre combinaram de serem suporte, não desistir, sobreviver. Karol estava com 31 anos no momento da documentação, trabalha enquanto psicóloga e adora ler, é seu maior hobbie. Gosta de praticar atividades físicas porque acredita que isso mantém o corpo regulado, é uma pessoa metódica e gosta da rotina. Tem uma moto, adora mexer nela e se sentir um pouco mecânica, descobrir como as coisas na moto funcionam. É natural de Recife e morou muito tempo da sua vida em Abreu e Lima, então a moto foi de grande ajuda para se locomover entre as cidades, dando maior independência. Hémely estava com 31 anos no momento da documentação. Trabalha como escrevente extrajudicial no cartório, é formada em direito e hoje em dia cursa ciências sociais. Se formar em direito foi uma batalha, por conta de diversos entraves com seu pai, mas depois de muita luta conseguiu terminar o curso - e hoje em dia estuda o que realmente ama. Além dos estudos, adora assistir filmes, ou melhor, dormir no sofá enquanto assiste filmes… e ler. Para Karol e Hémely, a história que elas constroem e o amor presente nela serve de base para abrir portas para que outras pessoas não precisem viver o mesmo. Ou seja, não querem que o preconceito siga existindo, que outras pessoas passem pelas violências que elas passaram. Querem que seus familiares se espelhem no amor verdadeiro que elas vivem, que seus amigos saibam que ali existe com quem contar, que outras pessoas possam ouvir suas histórias e que não precisem passar por tanta dor como elas passaram para ficarem juntas… Acreditam que vivemos coisas para aprender e devolver o aprendizado de alguma forma, compartilhar para mudar as realidades, e esse também é um ato de amor, de estarem dispostas a mudar as coisas. Karol vê o amor no cotidiano, no presente, no respeito que existe na relação, no companheirismo que atravessa o dia-a-dia, os problemas e os desafios. Alinhando as expectativas, as conversas difíceis e as individualidades. Adora cultivar a relação, compartilhar o sonho. Fica feliz de viver um relacionamento que constroem com tanto carinho, fazendo essa escolha diária. Entendem que isso é o tempo, uma parte da história, mas que até então agora é a melhor de todas as partes que já viveram. Hémely fala sobre o relacionamento ser marcado por vários recomeços, e dentre esses recomeços, várias conquistas. Essa é a parte que a deixa mais feliz. O amor que vive com Karol mudou a forma que ela enxerga o mundo e foi um despertar para ela própria também, foi quando ela olhou para os próprios vazios, se acolheu, olhou para outras relações de forma diferente. E segue os processos porque acredita o quanto ainda podem crescer. ↓ rolar para baixo ↓ Karol Hémely
- Claudia e Vanessa | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Cláudia estava com 54 anos no momento da documentação. É natural de Castanhal, interior do Pará, mas mora há anos em São Miguel do Guamá e é apaixonada pela cidade e pela região. Sua vida sempre foi atravessada pela arte, caminho que se intensificou quando morou em São Paulo por 15 anos. A mudança inicialmente era temporária, planejada para apenas dois anos de trabalho, mas acabou se prolongando quando ela decidiu continuar morando lá. Antes mesmo de se sentir sozinha em São Paulo, encontrou acolhimento na comunidade budista (que já fazia parte desde sua moradia no interior paraense) e decidiu seguir na capital, sabendo que tinha com quem contar. Nesse período, ingressou em uma escola de cerâmica, primeiro como agente administrativa. Aos poucos, sua curiosidade pela prática cresceu, até que se aproximou do laboratório e do torno. Um dia, vendo o laboratório vazio enquanto limpava, se arriscou e sentou para moldar uma peça. Como ela mesmo diz, “levantou” a peça do barro. E surpreendeu: quando voltaram, perguntaram quem foi que havia feito aquilo, pois havia ficado muito bom. O fato é que enquanto outros levavam anos para conseguir levantar a primeira forma, ela, apenas observando o processo, levantou de primeira. Apaixonada pelo barro, a cerâmica passou a ocupar um lugar central em sua vida. Depois de cinco anos distante do Pará, sem contato com conhecidos da região, decidiu retornar. Foi nesse reencontro com suas raízes que retomou o contato com a Vanessa (que conhecia desde criança). E é nessa volta que mais um momento da vida delas se cruza, mas não chega ainda a caminhar lado a lado. Vanessa e Cláudia se conheceram ainda crianças, quando tinham seis e nove anos. Cresceram muito unidas e, na pré-adolescência, a ligação entre as duas era tão perceptível que a mãe de Cláudia decidiu afastá-las, mandando ela para Manaus, com a desculpa de que iria trabalhar. O que seria uma temporada curta, apenas uma viagem como um experimento, acabou se estendendo por dois anos. Mesmo assim, sempre que Cláudia retornava (dessa ou de outras viagens que vieram a acontecer com frequência), as duas encontravam formas de se falar, ainda que de maneira breve e improvisada. Na adolescência e já adultas, mantiveram os encontros, guiados pelo boca a boca das pequenas cidades - todo mundo contava que Cláudia estava chegando, seja de barco ou de ônibus, até porque não havia celular ou internet para que se comunicassem. E nisso, havia também os desencontros: vez ou outra, Vanessa sabia tarde demais, Cláudia já havia partido de volta. Essa história, que foi se estendendo por boa parte da vida delas, também foi marcada por afastamentos. Ambas viveram outros casamentos, outras relações, construindo trajetórias paralelas. Um episódio marcante aconteceu quando tinham cerca de 30 anos: se reencontraram em Santa Maria, no interior do Pará. Cláudia chegou uma semana antes do que havia avisado à família, apenas para garantir o encontro com Vanessa, não deixando ninguém imaginar. No momento da documentação, Vanessa estava com 51 anos. Nascida em Salinas, vive há muitos anos em São Miguel do Guamá e também é apaixonada pela cidade e pela região. Foi pioneira numa das principais rádios locais, é uma figura importante falando sobre os direitos da mulher na cidade e tem diversas histórias relacionadas às figuras políticas locais. Sua trajetória e de Cláudia se entrelaçam o tempo todo com as histórias da cidade, afinal, desde que estão juntas dedicam todo o seu tempo para melhorar o lugar em que vivem. Vanessa lembra de uma cena que marcou a relação e a juventude delas: a mãe de Cláudia procurando sua mãe, conhecida como ‘Tia Alice’, para propor um trato: “Fique de olho na Vanessa, que eu vou ficar de olho na Cláudia, porque nessa idade pode acontecer qualquer coisa”. Para Vanessa e Cláudia, ainda adolescentes, aquilo foi doloroso e confuso. Não compreendiam ao certo o que havia por trás da vigilância. Faltava conhecimento, consciência e até mesmo uma certa malícia. Não sabiam nomear o que sentiam. Com o passar dos anos, Vanessa se casou, mas quando sua mãe adoeceu enfrentou muitos problemas na relação. A pessoa com quem se relacionava entendia que o adoecimento da mãe era um problema só dela e, por isso, ela não via mais sentido na relação, não se sentia numa relação de parceria. Nesse período, do nada, enquanto estava no hospital com a mãe, recebeu um telefonema: de Cláudia. Ela chegou a duvidar do que via na tela do telefone. “É você mesmo?”. Claudia chegou não só trazendo a lembrança de algo que ainda estava vivo, mas a companhia de poder compartilhar o cuidado, o carinho. Juntas, viveram o tempo do cuidado à mãe de Vanessa até ela falecer. Foi nesse reencontro que o amor, tantas vezes interrompido, reencontrou também seu espaço para existir. A mãe de Cláudia nunca conseguiu compreender como esse amor sobreviveu a tantas tentativas de separação - ela mesmo confessa. Hoje, porém, dá o braço a torcer e reconhece a força de um sentimento que resistiu ao tempo e às distâncias. Vanessa e Cláudia, por sua vez, também não sabem explicar com exatidão como, depois de tantos desencontros e caminhos diferentes. Talvez, precisasse mesmo ser assim. O que importa é que agora vivem “a vida é de nós duas”, como elas mesmo dizem, sem a necessidade da aprovação ou opinião de terceiros. Com a decisão de viverem juntas, assumiram não apenas o relacionamento, mas também uma paixão em comum: a cerâmica. Aos poucos, foram conquistando espaço e reconhecimento na cidade, criando laços através do trabalho artístico. Mantiveram seus empregos formais, mas logo passaram a ser conhecidas como ceramistas talentosas, com diversas encomendas. Há cerca de oito anos, Vanessa adoeceu. Foi diagnosticada com uma doença raríssima, esclerosante e degenerativa, somada à fibromialgia. O quadro grave fez com que Cláudia precisasse deixar o trabalho para cuidar dela em tempo integral, numa rotina com muita incerteza e sofrimento. No começo, desmaiava muitas vezes por dia, foi cogitado estar com câncer durante oito meses e chegaram a se despedir algumas vezes antes de terem o diagnóstico correto, mas Cláudia sempre dizia o quanto elas batalharam muito para ficarem juntas, não era agora que ela ficaria sozinha. Depois do diagnóstico e de acertarem os remédios, Vanessa respondeu com firmeza: teve uma melhora e pode seguir o tratamento em casa. Sem poder trabalhar e enfrentando limitações severas, elas sobreviveram graças às doações dos amigos. Pessoas das cidades vizinhas se mobilizaram, trazendo frutas, legumes, roupas e alimentos de bicicleta, partilhando o que tinham em suas casas. Mesmo sem nunca pedirem, a rede de afeto se formou de maneira natural, mostrando como eram queridas e como o amor que construíram ao longo da vida foi retribuído. Hoje, a doença está mais controlada, ainda que não consigam seguir uma rotina de trabalho, conseguem produzir algumas peças de cerâmica. A casa foi adaptada, o ateliê também. Celebram a chance de viver plenamente um amor que resistiu a tantas tentativas de apagamento e sentem a realização não só por estarem juntas, mas por verem o amor transbordando para os amigos, aproximando a família e inspirando os que conhecem suas histórias. ↓ rolar para baixo ↓ Cláudia Vanessa
- Juliana e Luisa | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Luísa estava com 29 anos no momento da documentação. É formada em teatro, mas sua atual profissão é ser professora de inglês. Natural de Nova Prata, cidade interiorana do Rio Grande do Sul, viveu oito anos em Porto Alegre, onde estudou - e onde também mantém muitos amigos até hoje. É apaixonada (vamos dizer, fascinada) pelo universo do horror-terror, foi o assunto do seu trabalho de conclusão de curso e espaço escolhido para fazer a nossa documentação acontecer (um café temático em Porto Alegre), afinal, ela compartilhou sua paixão com a Ju durante o relacionamento. Juliana, por sua vez, estava com 36 anos no momento da documentação. Também nasceu em Nova Prata e viveu em Porto Alegre por uma década antes de retornar à cidade, em 2016. Filha mais velha de pais separados, descreve sua família como “bagunçada, mas com afeto”. Conta que precisou de muito tempo (e terapia) para entender seu processo e se livrar aos poucos das expectativas e dos padrões familiares que são impostos ao longo da vida. Em 2022, deixou o emprego formal para se dedicar ao bordado livre, arte que aprendeu com a avó, que era muito habilidosa e adorava costurar, bordar, trabalhar com madeira e outros artesanatos e, além do trabalho, Juliana também estuda psicologia atualmente. Quando começaram a namorar, o universo do horror era muito temido pela Ju. Ela sempre sonhava com os filmes, se assustava, tinha medo. Luísa aos poucos passou a incentivar outro olhar, um olhar de arte como algo provocativo e reflexivo, uma forma de expressão que incomoda para fazer pensar. Mesmo nas cenas de susto, quando chega a levantar os pés da cadeira e segurar firme a mão, aprendeu a rir depois, entender o susto e o que ele provoca. Hoje, o medo virou também um lugar de encontro, curiosidade e afeto entre as duas. Ao viver uma vida padrão esperada, a Ju acreditava que a felicidade viria no check dessa ‘lista’ imaginária - tinha a faculdade certa, o emprego estável, o relacionamento esperado. Mas ao chegar aos trinta e poucos anos, entendeu que nada disso preenchia um vazio. Se sentia frustrada. Nessa mesma época, aos 33 anos, participou da criação de um núcleo de mulheres na cidade, e foi colando lambes nas ruas, em plena pandemia, que viu Luísa pela primeira vez. Ainda sem compreender direito o que sentia, ficou encantada pela presença dela. Sentia que queria conhecer mais, chamar ela para sair. Foi nesse processo de frustração e descoberta que começou a pensar sobre ser uma mulher lésbica, mas ainda de forma muito calma, respeitando seu processo. Diferente da Ju (que não tinha muitas referências lésbicas ou bissexuais por perto) Luísa conta que sempre foi a “responsável” e a “certinha” entre os seus. Cresceu numa família majoritariamente feminina e cercada por primas que se relacionam com outras mulheres. Tímida, introspectiva e tranquila, sua sexualidade foi algo que surgiu de modo natural, quase como uma confirmação de algo que todos à sua volta já percebiam. Quando entrou para o teatro, o contato com outras formas de liberdade a fez repensar seu próprio lugar no mundo, e mudou um pouco a sua forma de se relacionar. Quase dois anos depois daquele primeiro encontro no coletivo de mulheres em Nova Prata, Ju criou coragem para enviar uma mensagem a Luísa. Parecia ser simples, né? Só enviar uma mensagem. Mas o receio da Ju é que elas tinham uma certa diferença de idade e ela não queria parecer uma pessoa muito aleatória fazendo um convite estranho. Mas o convite foi aceito e o encontro foi muito bom, tanto que já quiseram repetir em seguida. Logo estavam juntas, sem precisar de grandes planos ou certezas, apenas com o desejo de permanecer. Desde então, foram aprendendo a compartilhar um amor, uma forma de estar no mundo, a coragem, o humor, os desencontros… E Luísa ainda morava em Porto Alegre, então ainda aprenderam a compartilhar um pouco de distância também. Como o namoro da Ju e da Luísa começou entre Porto Alegre e o interior do Rio Grande do Sul, a semana era dividida em um tempo na capital, outro tempo na casa do pai da Ju, em Nova Prata - e esse foi o momento de apresentar às famílias também. O pai dela reagiu de uma forma até um pouco engraçada, afinal, ela não sabia o que esperar da reação dele e tinha certo medo. Ele não morava de forma fixa no Rio Grande do Sul e ela aproveitou uma vinda para falar sobre o namoro. Nas palavras de Ju, foi assim: “Pai, a gente tem que conversar. Porque eu estou saindo com outra pessoa. Eu estou vendo essa pessoa. E talvez ela venha aqui. E é uma mulher. E daí ele disse: ‘Tá. Tá bom. Tudo bem. Tu teve namoros muito ruins com homens, talvez tu seja mais feliz agora’” (risos). E foi nesse dia que eles se conheceram. Dias depois foram conhecendo outros familiares e as coisas foram se ajeitando da melhor forma, com serenidade. O namoro seguiu com espontaneidade. Em 2023, com um ano de relação e a Lu já morando em Nova Prata, decidiram se casar. O debate sobre o casamento homoafetivo voltava à pauta na Câmara dos Deputados e elas sentiam cada vez mais a certeza do afeto, então resolveram celebrar numa cerimônia pequena, num restaurante acolhedor, pouco antes do Natal, para que o pai de Juliana pudesse estar presente. Entre mesas apertadas, famílias misturadas, a sobrinha apaixonada pelas flores e pelo vestido, o cuidado onde cada familiar iria sentar… o momento se tornou um retrato delicado da união: simples, verdadeiro e cheio de amor. Depois da cerimônia de casamento, elas começaram a planejar a possibilidade do primeiro lar verdadeiramente seu. Ele deu certo em 2025 e, quando pergunto como está sendo, Ju explica que essa nova casa simboliza algo além do casamento: é a conquista da autonomia, o rompimento com antigos vínculos familiares e o início de uma vida guiada por escolhas próprias. Entre risadas, sustos de filmes de terror e silêncios confortáveis, as duas constroem uma rotina que traduz aquilo que buscavam desde o início: a sensação de estar, finalmente, em casa. Ju e Luísa passaram a ouvir com frequência comentários de amigos e familiares sobre como parecem ainda melhores juntas. A nova casa trouxe algo que antes faltava: privacidade e pertencimento. Com o tempo, aprendem também sobre os próprios limites e como eles podem ser diferentes entre si. Juliana, acostumada à convivência intensa da família, precisou entender o valor do silêncio e da reserva que Luísa prezava. Luísa, por sua vez, aprendeu a acolher essa espontaneidade familiar que faz parte da história da companheira. Nesse processo, a busca pelo convívio mais harmonioso foi o que permitiu que cada uma reconhecesse o que traz conforto e o que precisa ser ajustado. Reconhecem também o amadurecimento, o quanto a relação foi amadurecendo nesses anos. Elas atravessaram perdas e desafios: o luto, mudanças de trabalho, afastamentos de amizades, os sonhos que se materializaram… e assim o vínculo se consolida. O amor antes era uma idealização, algo romântico, agora é uma manifestação cotidiana de cuidado, escuta e apoio. A convivência se tornou um espelho de crescimento individual: quanto mais se fortalecem como casal, mais se transformam como pessoas. É movimento. ↓ rolar para baixo ↓ Luísa Juliana
- Mundana e Mel | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Melina nasceu em Fortaleza, mas cresceu dividindo a vida entre o Ceará e a Serra Gaúcha. Desde os 10 anos de idade passava alguns meses do ano no Rio Grande do Sul com a família, até que, depois dos 20, decidiu se mudar de vez. Primeiro foi para a Serra e, em 2023, chegou em Porto Alegre. Gosta de arte e de criação em diferentes formas: já experimentou vários instrumentos musicais, mas foi na guitarra que o amor permaneceu. Também gosta de fotografia e começou recentemente a cursar Psicologia. Atualmente, constroi uma carreira como streamer de jogos. Mundana é natural da região metropolitana de Porto Alegre. Saiu de casa aos 16 anos, depois que a família não aceitou sua sexualidade. Conta que viveu uma infância marcada por negligências e que a situação piorou quando se apaixonou por uma mulher. Na tentativa de afastá-la desse relacionamento, a família chegou a levá-la para o interior de Santa Catarina, acreditando que deixá-la longe do contato com a cidade poderia “corrigi-la”. Mas ela encontrava caminhos para escapar até Florianópolis e viver a vida queer que desejava. Foi na noite, nas festas underground, nas galerias de arte e nos movimentos artísticos que encontrou pertencimento. Quando voltou sozinha para Porto Alegre, ainda adolescente, começou a construir sua própria vida dentro desse universo criativo. Hoje trabalha como drag queen, atriz e criadora de conteúdo, tanto para si quanto para marcas. Moda, maquiagem e estética fazem parte do seu cotidiano e também como um grande hobbie: ela adora maquiar a Mel, brinca que a transforma em uma grande Barbie pessoal. Também cultiva hobbies onde pode simplesmente existir sem cobrança: faz cerâmica fria, colagens, cria objetos para casa e mergulhou no design de interiores decorando o novo lar - talvez esse até seja seu novo maio passatempo: imaginar e construir espaços. No começo de 2026, Mel e Mundana se conheceram através de um aplicativo. Antes mesmo do primeiro encontro, começaram a conversar sobre o que estavam buscando ali. Mundana comentou que era monogâmica e romântica incurável (algo que hoje, segundo ela, parece quase fora de moda nos aplicativos). Mel sentiu um alívio imediato ao ouvir isso, porque também procurava o mesmo tipo de conexão. As duas estavam desacreditadas dos relacionamentos, mas ainda abertas à possibilidade de encontrar alguém que valesse a pena. O primeiro date foi simples: saíram para beber cerveja e conversar. Mas chegaram ansiosas e emocionalmente distantes. 2025 foi um ano muito duro para elas. Mundana havia saído de um relacionamento longo e conturbado, e Mel também havia tido um término recente. Nenhuma das duas se sentia exatamente pronta para se apaixonar. Mesmo assim, alguma coisa aconteceu logo que se encontraram. Mel descreve a sensação como algo quase químico, imediato. Mundana percebeu outra coisa: o silêncio entre elas não era desconfortável. Elas conseguiam simplesmente existir juntas, em paz. No dia seguinte ao encontro, Mundana viajou para Florianópolis para passar o carnaval. Tentou aproveitar a solteirice, sair, curtir a festa, mas não conseguia parar de pensar em Mel. Enquanto se arrumava para os blocos, fazia chamadas de vídeo, mostrava looks, pedia opinião sobre maquiagem. Mel, do outro lado, também tentava se conter para não parecer emocionada cedo demais. Mesmo tentando “não queimar a largada”, as duas seguiram conversando o tempo inteiro. Quando Mundana voltou de Floripa, Mel foi buscá-la na rodoviária levando seus chocolates favoritos de presente. Mundana conta como aquilo marcou e ela achou extremamente fofo, e foi um dia especial porque de lá, não se desgrudaram mais. Os encontros passaram a ser diários, dormiam uma na casa da outra, a relação cresceu de forma natural, como se encontrassem um descanso uma na outra. Depois do carnaval, elas praticamente passaram a viver uma na casa da outra. Mel dormia no apartamento de Mundana quase todos os dias, Mel buscava ela no trabalho e a rotina começou a se construir sem que precisassem planejar muito. Em determinado momento, Mundana começou a ajudar Mel a procurar um apartamento, pois ela precisava se mudar e seria ótimo se morassem mais próximas. Foram visitar alguns lugares juntas, encontraram alguns apartamentos, mas todos pareciam muito grandes. Aos poucos, perceberam que a conversa tinha mudado de direção: estavam começando a desejar morarem juntas. Mel já tinha pensado nisso, embora tentasse se convencer de que estava sendo “emocionada demais”, querendo dividir uma casa com alguém que conhecia havia menos de um mês. Mundana, inclusive, tinha estabelecido limites para si mesma depois das experiências anteriores. Queria ir devagar, não repetir padrões impulsivos. Mas, entre elas, tudo parecia acontecer de forma muito natural. Aos poucos, foram percebendo que a confiança que sentiam uma na outra não vinha de impulso, mas de uma sensação muito concreta de segurança. Além do desejo de estarem juntas, havia também a vida prática acontecendo. Cada uma tinha seu apartamento, cada uma tinha um gato, e manter duas casas enquanto passavam todo o tempo juntas começou a ficar cansativo. Um dia, tentando preparar um jantar, perceberam que metade dos ingredientes estava em uma casa e metade na outra. Precisaram atravessar a cidade várias vezes buscando coisas esquecidas e, no meio do estresse, entenderam que talvez aquilo tudo já fosse, de certa forma, uma vida compartilhada. Mundana conta que foi percebendo algo novo dentro daquela relação: pela primeira vez amar parecia fácil. Mesmo nos relacionamentos bons que teve antes, sempre existia a sensação de estar forçando alguma coisa, indo rápido demais ou sendo intensa demais. Com Mel, isso não acontecia. Claro que existia medo, principalmente porque ambas vinham de relações longas e difíceis, mas o amor não parecia pesado. Pelo contrário: parecia simples. Conforme conversavam sobre o futuro, descobriram que queriam as mesmas coisas. Viajar, morar fora do Brasil por um tempo, construir uma vida criativa, trabalhar na mesma área, compartilhar uma casa bonita cheia de referências estéticas, arte e conforto. Aos poucos, tudo foi se encaixando de um jeito tão natural que nenhuma das duas precisou decidir exatamente quando deixou de ser um começo e virou um lar. Mundana conta sobre um vídeo que gravou descolorindo a sobrancelha da Mel e, ao editar depois, perceberam a expressão impossível de esconder: a “cara de apaixonada” dela todo o momento no vídeo. Neste dia, ainda que fosse no começo da relação, Mel deixou escapar falando que estava realmente apaixonada. Ao perceber que disse tão naturalmente, sem pensar, as duas riram um pouco tímidas pela exposição - ainda era cedo demais para nomear aquilo em voz alta, mas o sentimento já estava ali, atravessando os pequenos gestos, os silêncios e a forma como se olhavam. Mesmo apaixonada, Mundana ainda carregava muitos medos. No começo da nossa conversa ela disse que nunca viu o amor como algo fácil de lidar. E, depois de relações difíceis, ela sentia necessidade de observar quem Mel era no cotidiano, principalmente na maneira como tratava outras pessoas. Prestava atenção em como ela falava com desconhecidos na rua, como conduzia o fim do relacionamento anterior e como lidava com alguém com quem já não existia amor romântico, mas ainda existia cuidado. Foi aí que começou a confiar de verdade. Via em Mel uma gentileza muito rara, quase excessiva às vezes, uma forma genuína de tratar as pessoas com respeito. Pela primeira vez, ela sentia que talvez pudesse se entregar sem medo de ver tudo desmoronando depois - e isso a tranquilizou. As conversas entre as duas passaram então a ser muito honestas. Existia amor, mas também existia realidade: diferenças financeiras, traumas antigos, medo de abandono e a necessidade de construir segurança concreta, formas de lidar com o próprio corpo... Mundana precisava saber que, se um dia acabasse, não perderia tudo de novo. Precisava sentir que não seria deixada desamparada. E, aos poucos, foi entendendo que o amor que Mel oferecia não funcionava na lógica da condição. Não era um amor que dependia de desempenho, perfeição ou obediência. Era presença, apoio e acolhimento. No momento da documentação, a mudança para o novo lar havia acontecido há apenas duas semanas, então pergunto sobre como elas estão se sentindo neste começo de lar. Elas entendem que a casa fala de algo que já existia antes mesmo das paredes. Existe uma sensação muito forte de pertencimento ali. Elas contam que fizeram um esforço consciente para transformar rapidamente o apartamento em lar: escolher móveis, pensar decoração, reformar, reorganizar espaços e deixar tudo com a cara das duas. Estão em processo de adaptação das gatas… O que antes parecia um apartamento qualquer agora parece extensão delas. E talvez por isso exista tanta naturalidade na forma como ocupam aquele espaço. Mel fala sobre finalmente se sentir segura dentro de uma casa, segura dentro da convivência e segura ao lado de alguém. Ainda estão se conhecendo enquanto aprendem simultaneamente como é dividir uma rotina, uma cama, um silêncio, uma cozinha e um cotidiano inteiro. Mas, ao contrário do medo que normalmente acompanha mudanças rápidas, elas falam sobre conforto. Nenhuma das duas repensa a decisão de morar juntas. Pelo contrário: existe uma sensação constante de que aquilo fazia sentido desde o começo. E mesmo quando aparecem pequenas questões naturais da convivência, elas percebem que conseguem atravessar tudo sem violência. Sem gritos, sem humilhações, sem disputa de ego. Elas conversam, se escutam e dão espaço quando necessário. Existe uma tentativa muito consciente de acolher a outra antes de tentar vencer uma discussão. As duas também falam sobre como a neurodivergência atravessa o relacionamento de forma muito importante. Mel é autista, e Mundana é bipolar. Ao invés de transformarem isso em rótulos ou acusações, constroem compreensão. Aprendem uma sobre os limites da outra, levam as questões para a terapia, ajustam rotinas e criam espaços de acolhimento quando uma percebe que a outra está desregulada. Existe um esforço constante para não transformar conflito em violência. Quando precisam de espaço, respeitam. Por fim, elas ressaltam como o relacionamento criou um espaço de aprendizado mútuo sobre os próprios corpos, limites e necessidades. Mel é uma mulher trans, Mundana é uma mulher cis, e existe algo muito bonito na maneira como descrevem o processo de descobrirem o próprio corpo: explicar coisas aparentemente óbvias sobre si mesma para a outra, descobrir novas formas de cuidado, entender sensibilidades e perceber que algumas inseguranças deixam de existir quando são olhadas com carinho. Nenhuma delas parece interessada em moldar a outra. Existe uma curiosidade amorosa, uma disposição constante para compreender e uma vontade muito sincera de ver a outra crescer. O amor entre elas aparece menos como idealização e mais como presença. ↓ rolar para baixo ↓ Mundana Melina
- Mariana e Marie | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Conheci e documentei a Mariana e a Marie numa ida muito breve até Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no fim de dezembro de 2021. Não prevíamos a ida, quem dirá o encontro, mas estávamos em contato antes mesmo do Documentadas inaugurar, desde fevereiro do mesmo ano, quando comecei algumas movimentações na internet sobre o lançamento do projeto e elas entraram em contato comigo porque gostariam de se inscrever. De pronto, pensei: “Nunca fui ao Mato Grosso do Sul e não vejo como ir agora, acho bem difícil acontecer", eis que elas estiveram no Rio de Janeiro e mesmo assim não conseguimos nos encontrar… tudo desandou, mas se encontrou de novo: foi no Parque das Nações Indígenas, numa tarde típica, entre calor, sol e chuva, muitas araras e boas conversas, que fizemos a nossa documentação. Por mais que esse encontro realmente tenha acontecido no Mato Grosso do Sul, a verdade é que nem a Mariana, nem a Marie são de lá. Mariana tem 28 anos, é do Rio de Janeiro mas mora lá, ou melhor, mora em Sidrolândia, interior do estado. Já a Marie é de Fortaleza, mas está em Campo Grande há cerca de 6 anos, entre estudos e trabalho. Marie faz diversas brincadeiras por ter um estilo surfista e por não ter mar em Campo Grande, então elas contam que a relação é cheia de sonhos - esses, possíveis de alcançar: morar em um lugar confortável litorâneo, ter uma casa para elas estarem com a husky que adotaram, fazerem novos amigos, vivenciar o amor que acreditam ser compartilhado na relação que elas constroem diariamente. Com o começo da pandemia, a Mari e a Marie se viram em uma situação que não imaginavam viver antes: pela Mari ser servidora pública estadual, ela passou a trabalhar de home office e a Marie também, sendo assim, elas ficaram juntas em casa durante todo o período de isolamento. Este período fez com que muitas coisas fossem repensadas. Foi como um período teste para saber se elas dariam certo morando juntas, claro, porque nem todo mundo dá certo (e tá tudo bem!), mas o repensar foi sobre um futuro mais distante. Elas nunca tinham pensado, por exemplo, sobre o envelhecimento. Marie conta que foi um processo sobre se entender e entender a Mari enquanto uma companheira de vida, foi morando junto com ela neste período que ela percebeu que queria envelhecer junto, ter essa companhia, não se ver mais sozinha como se via anteriormente… Com o passar dos meses, foram amadurecendo essa ideia. Hoje, comentam sobre o casamento e, por mais que a Mari trabalhe em outra cidade e que isto não permita morarem na mesma casa, nada é fixo. Estão sempre dispostas a mudar ou a melhorar a rotina da forma que podem. Por mais que as duas fizeram a mesma faculdade, de Direito, em Campo Grande, não foi no curso que se conheceram. Na verdade, há algumas versões disso - ou melhor, elas foram se conhecendo por etapas. Quando pergunto se alguma delas possui algum hobbie, a Mari conta, rindo, que o grande hobbie da Marie é fazer o ENEM. A graça por trás disso é que a Marie fez o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) por muitos anos, assim, por fazer, mesmo já estando na graduação e foi numa dessas provas que a Mari era fiscal e elas caíram na mesma sala. A Marie achou a Mari muito bonita e notou que ela estava usando o moletom do curso de Direito e, como fazia parte do curso também, foi pesquisar nos grupos do Facebook até achar o perfil dela. O que ela não imaginava é que justamente naquela época a Mari tinha dado um tempo das redes sociais e desativado o perfil do Facebook, então não apareceria mais nesses grupos, ou seja, a Marie não encontrou e desistiu. Um tempo depois, Marie voltou a treinar muitos esportes (rugby, polo aquático, handebol…) e participou de um grupo de meninas que jogavam. Nesse grupo, perguntou se alguém era da mesma região que ela, para conseguir companhia na ida-volta ou até mesmo uma carona e a Mari respondeu, quando encontrou ela pessoalmente viu quem era e ficou chocada, logo pensou “Eita, é a menina do ENEM!! A Mariana não deu muito papo no começo. Ao menos, não na versão da Marie. Ela tentou puxar alguns assuntos em vão e até adicionou no Instagram, mas ela não aceitou, nem chegou a ver a solicitação. Meses depois ela viu a solicitação, aceitou e quando começou a aparecer no Instagram da Marie, ela logo puxou um assunto respondendo um storie. O que, obviamente, a Mari não interpretou como um flerte. Foi preciso continuarem conversando e desenrolando assuntos até que as coisas foram acontecendo. Ah, e um detalhe importante! Claro que a Mari lembrava que conhecia a Marie de algum lugar, antes do esporte, mas nunca do ENEM. Ela até perguntou aos amigos, se alguém conhecia ela, se já tinham ido a algum evento em comum… mas ninguém sabia dizer. Durante a conversa o mistério foi desvendado e ela lembrou de tudo. Um tempo depois de conversarem pelo Instagram, elas se encontraram pessoalmente e tudo começou a fluir muito bem. Nessa época, a Marie ficou um pouco receosa, pois vivia um pós término em que ainda morava/dividia apartamento com a ex namorada, por questões de estarem se organizando com as contas. Elas moravam juntas antes do término e eram mulheres que não tinham base familiar na cidade de Campo Grande, então era difícil sair de casa sem ter para onde ir tão repentinamente. Precisava-se de um tempo para achar um novo imóvel, assumir os gastos, etc. Falar tudo isso pode ser delicado para alguém que está começando a conhecer, ainda mais no caso dela e da Mari, que demorou tanto para finalmente acontecer e que ela estava se sentindo tão envolvida… Então ela sentiu um pouco de medo da Mari desconfiar ou achar que isso fosse um papo sobre uma relação que não tivesse realmente acabado. Foi com um diálogo muito aberto e sincero que conseguiu falar sobre isso e estabelecer uma confiança legal sobre o que estava acontecendo. A Mari acompanhou o processo e tudo acabou sendo tranquilo, a mudança aconteceu no tempo que tinha para acontecer e sem desconfianças, enquanto as duas se conheciam melhor também. A Mari comenta que, para ela, amar é o que move as relações - e o que aproxima os seres humanos. Ela já teve relacionamentos com homens e mulheres e pela dificuldade que sentiu na identificação da última vez que tentou se relacionar com um homem, acabou entendendo que a relação entre mulheres envolve uma desconstrução muito maior. Mas que o amor está/atinge à todos - envolve empatia no dia a dia e no convívio. Marie conta as relações da identificação dela com o amor… Como ela foi aprendendo isso na vida e a ler essas interpretações - ela explica que, por muito tempo, buscou parâmetros de amor que não viveu. Pela vivência com a mãe não envolver um afeto físico, nunca entendia o motivo exato disso, até que com essas leituras passou a entender as vivências da mãe, fazer recortes, ter consciência de classe, raça, ler detalhes dentro da história de uma mulher. Ela diz que: “Mesmo com esses recortes, têm coisas - como o amor - que a gente não precisa abrir uma enciclopédia para explicar… uma mulher sabe amar a outra porque isso naturalmente acontece.” Marie Mariana
- Yulli e Nadine | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Yulli foi mãe muito nova então por muitos anos pensou que se ela era mãe, ela era hétero. Passou por um processo diferente onde foi entendendo sua liberdade, individualidade e possibilidade de amar outras mulheres… Conheceu Nadine num momento muito bom, onde já conseguia falar abertamente sobre aceitação - de amar outras mulheres e de amar a si mesma. Foi um momento em que estava aberta a viver um amor tranquilo. Estavam em um bloco carnavalesco bastante conhecido em Porto Alegre, o Bloco da Laje, em 2024. O evento estava no fim, foi na fila do banheiro químico. Nadine sempre amou o Bloco, enquanto Yulli ia pela primeira vez, com um grupo de amigas professoras. Antes de ir embora, Nadine foi ao banheiro e ouviu o grupo de amigas da Yulli falando que eram professoras e interagiu, por ser professora também. Entre aquela fila, o clima de carnaval e toda festa ao redor, elas se olharam e arrumaram uma forma de conversar. Foi quando Nadine perguntou a profissão da Yulli, ela disse que era professora também, lançou uma cantada e elas se beijaram. Trocaram Instagram, seguiram a festa. Aos poucos, interagiram com algumas curtidas no Instagram, puxaram alguns assuntos sobre política e marcaram de sair na semana seguinte. Não sabiam muito o que esperar desse encontro, poderiam se dar bem… mas também poderia ser algo completamente aleatório. Não se conheciam, não tinham amigos em comum ou sabiam os gostos. Só sabiam a opinião política, que trabalhavam na área da educação e que gostavam de músicas semelhantes - pelo o que viram nas redes sociais. Quando conversaram sentiram que tinham muitos pensamentos semelhantes, Yulli resume: “Eu pensei assim... Meu Deus, você conhece isso? Como assim? E aí... Nosso encontro... Foi muito bom”. Seguiram se encontrando. No segundo encontro, dias depois do primeiro, conversaram até às cinco da manhã num bar. Continuaram se vendo com frequência, mas Nadine garante que desde o segundo dia já estava apaixonada. Até verbalizou isso um dia para Yulli. Cerca de duas semanas depois, marcaram um encontro na Casa de Cultura Mario Quintana (local em que fizemos a documentação acontecer) para assistirem um filme no cinema, mas o filme foi péssimo, não entenderam nada, então decidiram sair e beber alguma coisa. Naquele dia foram ao mercado depois de beber, compraram coisas, montaram um jantar, dormiram juntas e pela primeira vez tiveram a experiência de ter um contato enquanto um casal. Acordarem, Nadine foi trabalhar, viveram o dia… Depois disso algo despertou sobre a vontade de viverem a relação, se conhecerem e estabelecerem essa intimidade maior. Num final de semana pouco tempo depois desse dia, estavam num bar com uma amiga da Yulli e enquanto Nadine foi ao banheiro, Yulli comentou: “Se der tudo certo em mais um mês, eu vou pedir ela em namoro”. Mal sabia ela que, ao voltar do banheiro, Nadine faria o pedido. Ela decidiu que estava sendo tão legal, tranquilo, que poderiam começar a namorar. Com pouco tempo desde o início do relacionamento, aconteceram as enchentes em Porto Alegre e a família da Yulli morava em um ponto muito vulnerável que foi tomado pelas águas. Nadine foi muito importante indo até a casa da irmã de Yulli, ajudando a limpar e estando presente. Nadine morava em Canoas, cidade que também foi muito afetada pelas enchentes, mas sempre fez questão de ajudar a família da Yulli. Em alguns momentos o trajeto que faziam em 15 minutos de carro chegou a demorar três horas. Reforçam como foi importante todo o tempo que passaram juntas, porque estavam muito vulneráveis não só pelo momento em si que era um momento doloroso, inseguro, mas pela falta d’água, por ver a família e os amigos em situações delicadas, por ter que ficar dentro de casa muitas vezes isoladas… No momento mais difícil a saída que arranjaram foi ir para o litoral, como boa parte da população, principalmente pela falta de água e luz. No meio de toda a dor, Yulli passou por um luto, Nadine foi grande suporte para que ela tivesse acolhimento e ajuda nos cuidados com os filhos. Nesse momento da documentação, inclusive, perguntei sobre a adaptação com os meninos. Como era o início da relação, como foi a apresentação de Nadine para os filhos de Yulli e como é a convivência hoje, visto que moram juntos. Nadine contou que nunca havia se relacionado com alguém que tivesse filhos, mas nunca foi um empecilho, sempre quis vivenciar isso. Eles demoraram dois meses para conhecê-la, mas ela usou uma tática que foi: levar seu cachorrinho, o Joaquim, já que criança adora bichos, assim já conquistaria eles de cara, e marcaram de passear no parque. Deu certo. O mais velho, Pedro, é mais observador, mas o Fernando é conversador e foi tranquilo. Foram construindo a relação e aos poucos surgiram as falas “O Fernando perguntou de ti…” “O Pedro perguntou de ti…”. Agora brincam muito juntos e Nadine adora a forma que foi recebida. Eles nunca nem cogitaram questionar o fato da mãe estar se relacionando com outra mulher. Yulli estava com 31 anos no momento da documentação, é professora e trabalha com alfabetização, ama sua profissão e é muito feliz nela. Também é mãe de dois meninos, o Pedro (com 9 anos) e o Fernando (com 5 anos). É natural de Porto Alegre, adora correr, praticar yoga e divide seu tempo de qualidade com os filhos e com o entendimento de não se esquecer enquanto mulher, indivíduo, que possui suas necessidades e que quer estar sempre em crescimento - ser uma profissional melhor, uma mãe melhor, uma companheira melhor. Nadine estava com 24 anos no momento da documentação, é formada em história e estudante de letras. Sempre esteve muito ligada à educação, política, ao movimento social e acredita que a educação é capaz de mudar qualquer pessoa. Adora estar com os amigos, na rua, conhecendo pessoas. Se entende desde muito nova enquanto mulher lésbica e sempre foi muito aberta quanto à isso, com seus pais e as pessoas com quem convive. É uma mulher neurodivergente, uma pessoa com TDAH e conta que aprendeu a viver com isso, e também está aprendendo a ser madrasta, construindo essa troca de amor com os meninos. Hoje em dia, Yulli e Nadine já adotaram outra cachorrinha, a Laika, e indo morar juntas uniram o Joaquim (que era cachorrinho da Nadine) com o Sombra, gato da Yulli e os meninos, Fê e Pedro, viraram uma grande família. Yulli enxerga o amor que vivem dentro dessa família no poder da escuta, da conversa e do cuidado - é onde conseguem se olhar e conviver sem apontamentos, julgamentos, sendo acolhedor estando confortável na liberdade de poder ser quem você é. Explica que surgem questões e que conseguem separar o que é da relação e o que não é, por exemplo: isso aqui vem de antes, preciso trabalhar na minha individualidade. E entende que isso também é cuidado e responsabilidade afetiva. Nadine explica que vê política em tudo e às vezes fica até mal com isso, Yulli acaba tendo que consolar ela sobre o quanto a política afeta sua vida. Mas não consegue não vincular o amor que vivem com um impacto extremamente político. Não saberia viver esse amor hoje se não tivesse construído várias etapas na sua vida, sendo a adolescente que se entendeu lésbica, se não tivesse tido todas as conversas que já viveu com sua família, se não passasse por sua militância que a construíu como mulher… Hoje em dia vê o amor que constroem chegando nos seus pais e na família de Yulli, eles brincando com os meninos, os meninos tomando banho de mangueira, é uma experiência única porque é o amor reverberando para outros lugares - virando a educação deles e virando um espaço seguro para todos eles viverem enquanto uma família. ↓ rolar para baixo ↓ Yulli Nadine
- Quero participar! | Documentadas
Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! QUERO PARTICIPAR! COMO FAÇO PARA ME INSCREVER? É muito mais fácil que você imagina ♥ Você e sua companheira gostariam de ser fotografadas e participar do projeto? Preencha os campos a seguir e em breve entraremos em contato com você! É importante ressaltar três coisas: 1. Só documentamos e registramos casais. Entendemos a importância de cada mulher enquanto um ser único nesse mundão! Mas nosso objetivo é registrar o amor entre mulheres.* 2. Acabamos registrando mais casais entre o Rio de Janeiro e Porto Alegre devido aos locais de residência, mas o projeto vive em movimento com o intuito de documentar o amor entre mulheres por todo o Brasil, então: não desanima se você morar longe! Pelo contrário: têm casais de amigas que topariam participar também? Chama elas e se inscrevam juntas! Assim, quanto mais pedidos, mais chance de ir até vocês. 3. Fazer o Documentadas dá trabalho! Sou em uma fotógrafa só (mulher, artista-independente) com um projeto artístico e social que demanda muito financeiramente. E por isso, cobramos um valor simbólico. Explicamos tudo no link da inscrição, mas você pode tirar dúvidas sempre ♥ Sua participação é muuuuito importante para nós. * caso você queira muuuuuito ser fotografada de forma individual, pode adquirir nossos serviços pedindo um orçamento de ensaio fotográfico. manda mensagem pra gente através da aba 'contato', ok? até logo! INSCREVA-SE AQUI
- Ste e Jaque | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Stefannie e Jaqueline são naturais de Belém do Pará, trabalham como terapeutas ocupacionais - Jaque num hospital cardiológico, sendo especialista em cardiologia, Ste no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), sendo mestre em terapia ocupacional. Jaque adora uma vida mais caseira, curtindo o lar, assistindo séries e lendo. Está começando a gostar de viajar agora, nunca foi de passar muito tempo fora de casa. A primeira viagem que fizeram juntas foi para Mosqueiro (lugar que fizemos a documentação acontecer) e que no começo da relação foi um grande refúgio para elas - era um lugar que iam e se sentiam bem. Mosqueiro não era só uma viagem, se tornou parte da relação que construíram. Lá passavam o fim de semana com os primos da Jaque, comemoravam os aniversários, encontravam os amigos em comum, ocupavam uma casa da família e sentiam que poderiam ser quem são sem medo ou julgamento. Até hoje Mosqueiro é referência de um lugar feliz - seja nas festas de verão, na praia de água doce ou nas lembranças boas do início da relação. Foi na faculdade que Jaque e Stefannie se conheceram. Jaque entrou um pouco antes e recepcionou a turma de Ste, em 2011. Não ficaram muito próximas de início, foi aos poucos e principalmente frequentando o Centro Acadêmico que passaram mais tempo juntas. Em 2015 ficavam o dia todo na faculdade e conviviam muito, no mesmo grupo de amigos. Foi aí que a UFPA se tornou uma segunda casa. Jaque nunca havia se relacionado com mulheres, Ste brinca sobre o quanto precisou se esforçar para que ela desse uma chance para viver esse amor. Jaque complementa: na verdade, desde 2012 ela já notava Ste… mas nunca pareceu uma possibilidade, então ignoraram os sentimentos e seguiram a vida. Em 2015 começaram de fato o envolvimento e lembram com muita saudade de como era bom passar o dia na universidade. Nessa época, Ste tinha o desejo de sair de Belém quando finalizasse a faculdade, fazia muitos planos… Sua família já sabia sobre o relacionamento, enquanto Jaque ainda não havia contado, mas levava Ste para todos os eventos familiares enquanto amiga - seja aniversários, Natal, ano novo… Era como se já soubessem, só não falavam sobre. Quando finalizou a faculdade, Ste decidiu cumprir os planos que fazia há tantos anos de sair de Belém e passou para uma residência acadêmica no Maranhão. Como o namoro com Jaque já estava caminhando há mais de um ano, foi um passo importante não só pela distância que se inseriram, mas pela maturidade que foram construindo nessa mudança. Como não era tão longe, se encontravam com certa frequência, Jaque viajava sozinha até o Maranhão, Ste construiu um lar tendo sua independência pela primeira vez… e viveram dois anos a relação dessa forma. Em 2020, prestes a completar 5 anos de relação (e um pouco antes da pandemia de Covid-19 começar), Ste conversou com Jaque sobre a vontade de voltar à Belém, porém com uma condição: que a vida delas fosse diferente. Já amadureceram com o passar dos anos, era o momento de caminhar com os próprios pés, assumir o que viviam para a família de Jaque, ter seu próprio lar, não viver com tanto receio. O maior medo da Jaque era a reação de seus avós, porque sua irmã já sabia e apoiava, seus pais conviviam com ela e com a Ste então não seria uma grande surpresa… Acabou que seu pai ajudou a contar para os avós, no começo foi delicado, mas como a convivência era muito grande e o namoro já durava cinco anos, tudo foi amenizando com o passar dos dias. Como a pandemia de Covid-19 aconteceu logo que Stefannie chegou, os planos de ficarem juntas logo de início não deram certo. Foi como se continuassem numa relação à distância, principalmente por Jaque trabalhar no hospital e não poder ter contato com ninguém. Passaram meses sem se encontrar, depois se encontravam e ficavam distantes de novo… e assim discorreu o ano de 2020. No fim do ano, Ste conseguiu um trabalho em São Miguel do Guamá, interior do estado do Pará, e precisou se mudar, dando seguimento ao relacionamento à distância, então mais uma vez os planos de morar juntas foram adiados. São Miguel do Guamá é relativamente próximo de Belém (há cerca de 3h) e Stefannie já dirigia na época, então sempre que podia voltava para matar as saudades da Jaque e dos seus familiares. Por mais que tenha surgido esse novo trabalho, elas sempre planejavam: “Assim que eu voltar de São Miguel, a gente vai morar junto!”. Quando terminou o período de trabalho, um ano depois, e ela realmente voltou para Belém e antes mesmo de planejarem se ficariam na cidade ou se mudariam para uma capital maior, Jaque recebeu uma proposta de continuar trabalhando no hospital em um bom cargo e foi então que decidiram seguir na região. Começaram a procurar apartamentos, casas… e em 2022, com 7 anos de relacionamento, compraram uma casa em Ananindeua, cidade vizinha de Belém. Ficam felizes em ver como tudo caminhou, ainda que pareceu demorar muito, refletiu como o relacionamento é: calmo, com muita estabilidade. Elas prezam por isso, não querem uma montanha-russa, respeitam seus espaços, seus jeitos… quando uma quer ficar quieta, ou quando a outra quer viajar… sentem que isso é se dar bem. Desejam a companhia, desejam compartilhar a vida, mas entendem todos os limites da individualidade. Em 2024 se casaram oficialmente. Contam que foi “do nada”, Jaque estava no hospital e recebeu uma mensagem da Ste falando “E se a gente fizesse um casamento?”... Só soube responder “Me diga valores”. E dou um spoiler pra vocês: ela disse um valor que obviamente deu errado, mas deu certo também, porque Jaque topou e isso que importa. Em seis meses realizaram uma festa incrível - e em seis meses viveram por essa festa. Sentem a certeza de estarem juntas, que esse é o caminho, que estão no lugar certo e usam a palavra: decisão. É a decisão de estarem juntas, Ste até fala para a Jaque durante a documentação: “A gente é muito decisão mesmo, né?!” e conta que o próximo passo é formar uma família, seguir o caminho da fertilização. Ste comenta como é forte a conexão que possuem e que às vezes uma escuta o que a outra pensa, Jaque ri e completa que pede: “As vezes a gente fala assim: Eu posso ter o meu próprio pensamento? Porque a gente pensa a mesma coisa, fala a mesma coisa. E é muito engraçado, é confortável”. É um amor que tem o desejo, a paixão e o companheirismo, há dez anos construindo e sabendo que ainda há muito a se construir. ↓ rolar para baixo ↓ Jaqueline Stefannie
- Oi, eu sou o doc! | Documentadas
Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! chega pra cá, vai ser um prazer te conhecer! O Documentadas é um banco de documentação sobre mulheres que amam outras mulheres, com o intuito de registrar historicamente o amor entre lésbicas, bissexuais e pansexuais (cis e/ou transsexuais), construindo uma literatura que até então era inexistente sobre essa população. Completando quatro anos em março de 2025, o projeto já documentou mais de 460 mulheres em 15 estados brasileiros. Para além de contar as histórias de casais brasileiros, o .doc acredita em 4 vias para atingir mudanças reais na nossa sociedade brasileira: gerar empregabilidade, divulgando as profissões e trabalhados exercidos pelas mulheres que participam do projeto; Gerar conexão com encontros presenciais e online; Espalhar artes pelas ruas falando sobre o amor entre mulheres combatendo o preconceito em espaços públicos; Gerar atendimento psicológico através da plataforma, contando com 25 profissionais oferecendo serviços de apoio psicológico e psicanalítico online por valores populares (atualmente, mais de 200 mulheres já passaram pelos nossos atendimentos). > para além da documentação > Acreditamos que a igualdade de gênero pode ser alcançada por meio do combate ao machismo e através da equidade de oportunidades de fala/escuta. Além disso, entendemos que criar um banco de dados de fácil acesso, para a divulgação de ofícios exercidos por mulheres que amam outras mulheres possibilita, assim, oportunidades de contratação dos serviços prestados pelas mesmas, uma vez que os ambientes de trabalho tendem a ser espaços de conflito e preconceito quando não oferecem diálogos e reeducação social. Visibilizar as histórias de mulheres de diferentes corpos, raças e classes sociais exerce um papel fundamental para o reconhecimento dessas populações vivas. o .doc já passou por 15 estados brasileiros, contando histórias de mais de 460 mulheres. QUER COLABORAR COM O DOC PARA QUE ELE TENHA MAIS LAMBES POR AÍ OU NOS CHAMAR PARA UMA EXPOSIÇÃO EM ALGUM LOCAL? ENTRA EM CONTATO PELO SITE OU NO E-MAIL: FERNANDA@DOCUMENTADAS.COM o .doc para além do .doc Entendemos também que a representatividade é algo extremamente importante para construção da subjetividade, tendo como intuito divulgar histórias que inspirem e motivem outras mulheres a se reconhecerem e valorizarem suas próprias histórias e histórias de amor, quando a coerção social, imposta pela heteronormatividade, diz o contrário. ainda podemos ser podcast cursos ou palestras exposições produtos curtas referência em saúde mental LGBT+ cartilhas inclusivas e muito mais! empregabilidade, psicologia, conexão, arte urbana viu a gente pela cidade? Estar na rua nos abriu a possibilidade de troca com públicos antes inalcançáveis. Passamos entre universidades, boêmias e comunidades. Se as mulheres amam outras mulheres em múltiplos espaços, acreditamos que nossa arte também deva ocupar múltiplos espaços. Foi através das técnicas arte urbana como lambe-lambe e stickers que começamos a espalhar uma frase famosa por aqui: “Toda mulher merece amar outra mulher”, além de uma tiragem de 1500 fotografias de casais que já participaram do projeto, com intervenções gráficas escritas por cima e o @documentadas, identificando nosso Instagram/site. quer contratar o documentadas para uma palestra na sua empresa, propor parcerias, fazer alguma reportagem ou conhecer mais sobre o nosso trabalho? entre em contato aqui pelo site ou mande um e-mail para fernanda@documentadas.com
- Maju e Alícia | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. A história da Maju e da Alícia fala muito sobre aquele período que vivemos quando estamos descobrindo quem somos, ainda entre a pré-adolescência e a adolescência, elas se conheceram e vivem até hoje juntas, enfrentando muitos desafios (que outros adolescentes nem sonham em viver) e, principalmente, se fortalecendo juntas. Maju hoje em dia tem 17 anos e está se formando no terceiro ano do Ensino Médio, Alícia tem 16 e está no primeiro ano. Mas tudo começou bem antes, quando Alícia tinha cerca de 12 anos de idade e estava numa praça em Rio das Ostras, matando o tempo, com uma amiga. Nessa praça, diversos meninos andavam de skate, entre eles tinha uma menina, a Maju. No primeiro momento, Alícia não entendeu se a Maju era menino ou menina, perguntou para a amiga (que a conhecia, mas que também não sabia dizer o que ‘era’ a Maju) e isso automaticamente despertou uma curiosidade enorme na Alícia, que fazia de tudo para observá-la. Quando a Maju entendeu que estava sendo observada, quis chamar atenção. Caiu logo de bunda no chão. Mas levantou, se reergueu e foi lá falar com as meninas. Se apresentou para a Alícia e disse: vem cá, deixa eu te mostrar uma pessoa muito linda aqui de Rio das Ostras - e então entrou no Instagram dela mesma, curtiu todas as suas fotos (pelo perfil da Alícia) e depois saiu, andando de skate de novo. Nesse dia, a Maju levou uma bronca da mãe dela por ter faltado à fisioterapia, mas a resposta em desculpa que ela deu, foi: eu conheci a menina mais bonita da cidade. A Maju é natural de Goiás, mas está no Rio de Janeiro - mais especificamente em Rio das Ostras - há mais de 9 anos. Já a Alícia, é do Rio de Janeiro, capital, mora em Rio das Ostras mas intercala com alguns períodos no Rio, visitando familiares. Depois que elas tiveram o primeiro encontro na praça, a Alícia passou seis meses morando no Rio de Janeiro. Nesse período ficou olhando o Instagram da Maju, mas não interagiram nenhuma vez. Quando ela voltou para Rio das Ostras, começou a namorar um menino (esse que, a pediu em namoro na frente da escola toda, fazendo um vídeo que viralizou o Brasil - um namoro super arranjado com o auxílio da mãe) e duas semanas depois ela e a Maju se encontraram no aniversário de uma amiga em comum. Nesse primeiro encontro, a Maju tentou ficar com ela, mas não tinha como, ainda mais ela estando num namoro tão recente… então ela desviou de todas as formas. Depois disso, começou-se uma amizade, então elas saíram muitas vezes. A Maju dava em cima dela sempre, isso era um fato, mas era quase uma brincadeira também porque elas sabiam que enquanto estivesse namorando não ia rolar. O namorado da Alícia, enquanto isso, morria de ciúmes. E em casa, a Alícia não parava de falar na Maju, deixando a mãe dela muito desconfiada, dizendo: “Tu não vai se apaixonar por ela não, hein, Alícia??!!”. O tempo passou e o relacionamento da Alícia foi ficando muito difícil. Ela estava se sentindo numa relação completamente invasiva, tóxica, e todas as vezes que tentava terminar o namorado não a deixava. Ele simplesmente dizia que não permitia. Numa noite, foram num aniversário e ela já tinha tentado terminar três vezes, a situação estava péssima, um amigo dele passou mal e ele foi embora. Alícia ficou no aniversário, a Maju estava também e num momento determinado da noite elas decidiram dar um basta, chutar o balde: se beijaram. Porém, como era escondido, numa confusão a Maju fingiu que passava mal, a Alícia fingiu que ajudava, elas desligaram a luz da festa toda sem querer e aí virou confusão de verdade. Depois delas se beijarem, a Alícia viu a Maju dando em cima de outra menina e então ficou muito triste. No fim da festa, já com o dia amanhecendo, o namorado (ou quase ex?) fez questão de buscar a Alícia e ela não quis ir embora com ele, então ele gritou e brigou com ela. Quem deu suporte, novamente, foi a Maju. Depois dessa situação eles terminaram, afinal, não tinha como manter esse relacionamento. A Alícia passou um tempo breve no Rio de Janeiro e quando voltou para Rio das Ostras voltou a se encontrar com a Maju. Nesses encontros, ela entendeu que gostava de verdade da Maju, e isso, naquela época, era mais um problema do que algo bom. Ambas não sabiam como lidar com a situação, sabiam que a Maju não buscava relacionamentos, mas também já estavam muito envolvidas. Sentiam que precisavam encarar a situação. Decidiram seguir se encontrando, mesmo sem ninguém saber. Com o tempo, os amigos que sabiam, não torciam para que elas ficassem juntas: não confiavam que elas seriam fiéis uma a outra, ou melhor, incentivaram que não fossem - e assim não haveria relação saudável que se sustentasse. No período em que poucos apostavam no relacionamento delas, um pedido de namoro chegou a acontecer. Namoraram, mas entre situações caóticas, sentiam que não se acertavam. A mãe da Alícia descobriu, fez um escândalo na porta da escola, a agrediu. Tudo ficava muito difícil para que elas se encontrassem e nisso, a pandemia de Covid-19 começou. Elas chegaram a ficar um tempo distantes por conta da quarentena, mas não tanto tempo, como nas grandes cidades, pois lá os encontros foram voltando a acontecer aos poucos. A Alícia, junto com a família dela, abriu uma hamburgueria, e esse local virou um ponto de encontro... porém, todas as intrigas externas foram o bastante para que o namoro não seguisse em frente. Elas terminaram, ainda, em 2020. Foram cerca de 9 meses distantes. Nesses meses, por completa influência familiar, Alícia se relacionou com um menino extremamente abusivo, agressivo, que forçava presença. Ela chegou a pesar menos de 40kg. Ele, sabendo que no fundo ela ainda gostava da Maju, ameaçava bater na Maju quando a encontrava na rua. Alícia fez de tudo para sair desse relacionamento e quando conseguiu, conversou com a Maju. Elas se acertaram, mas não enquanto um casal, apenas voltaram a conversar. Nisso, a Maju encontrou a mãe da Alícia, tomou coragem e decidiu pedir permissão: para num futuro, se tudo desse certo, elas voltarem a se relacionar. Ela respondeu que se a Alícia estivesse feliz, ela estaria feliz também - porque ela percebia que o jeito que a Alícia olha para a Maju é diferente - e no fim elas se abraçaram. Elas voltaram a se envolver e a Maju pensou em a pedir em namoro novamente e dessa vez com tudo o que o brega permite: balões, chocolates, etc. Aconteceu! Porém, infelizmente, ainda passaram por muitas situações horríveis envolvendo o ex. Ele invadia a casa da Alícia, quebrava as coisas e obrigava ela a manter a relação com ele. Foi numa atitude extrema da mãe dela em expulsar ele de lá para que finalmente isso acabar. Porém, esses conflitos já tinham afetado demais a relação da Alícia com a Maju, era difícil que as confusões não as envolvessem. A Alícia seguia pensando na Maju e no relacionamento delas, enquanto a Maju, mais uma vez, se afastara. No natal, elas voltaram a se falar, por conta de uma coincidência. E assim, voltaram de verdade. Conversaram, se encontraram, conversaram também com suas famílias, decidiram que, se era para estarem juntas, dessa vez, era para ser de um jeito diferente - e com apoio de todos, com maior confiança, diferente de todas as outras tentativas. Hoje, acreditam que deu certo. No último ano passaram diversos perrengues que as fizeram crescer e se fortalecer enquanto um casal, juntas, e também enquanto uma família. Alícia e Maju deram apoio às suas mães, chegando a morar com a mãe da Alícia, todas num apartamento, num momento difícil. Alícia também morou com a mãe da Maju. E todas se dão muito bem, valorizam o relacionamento das filhas. Nesse último ano de estudo, finalmente estão na mesma escola. Os planos são, assim que concluírem, se mudarem para o Rio e estudarem Belas Artes. Hoje entendem que a confiança e a comunicação mudou muito e que isso é o principal para que o relacionamento delas funcione. Antes, tudo se quebrava, principalmente com 'picuinhas' ou comentários alheios, hoje, não há nada entre elas que não possa ser conversado. A intimidade que elas criaram juntas não há como ser quebrada e também faz com que elas não se julguem. Acreditam que, pelo tanto que já passaram uma ao lado da outra, o que viram entre seus momentos mais frágeis faz com que também possuam muita liberdade para serem quem são, sem medo. Antes, pensavam muito sobre serem perfeitas, buscavam perfeição, hoje aceitam seus corpos e a si como são. Isso também faz com que a confiança na relação mude, a segurança, a base no amor. Quando entendemos a recapitulação de tantas coisas que viveram sendo tão novas, estando juntas, elas entendem que esse amor é o que importa. A forma que se amam e que se apoiam é o mais importante nesse processo. E se surpreendem, o quanto isso é maneiro. Visualizar a linha do tempo e entenderem que seguem aqui - recapitulam o quanto pensaram em desistir porque era muito difícil se relacionar, mas que hoje é muito legal ver o quão bonito é o que criaram. E, então, sonham com novos passos: a mudança, um casamento, uma adoção. ↓ rolar para baixo ↓ ♥ manda uma mensagem de apoio aqui ☼ entre em contato com elas por aqui! ☺ vem construir esse projeto com a gente! < Alícia Maria Júlia




