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Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

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294 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Dalle e Dyanne | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Dállete estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de União dos Palmares, interior de Alagoas e, sendo uma mulher descendente de indígenas/quilombolas, carrega isso muito forte em seu corpo. Foi criada por sua mãe e por parte da família materna numa cidade chamada Carpina, localizada na zona da mata norte pernambucana, onde morou até os últimos anos quando decidiu cursar direito no campus do sertão de Pernambuco, sendo a primeira pessoa da família a cursar faculdade. Dálle adora fotografar e durante a faculdade conseguiu se sustentar e realizar diversos trabalhos acadêmicos com a fotografia - criou um projeto fotografando as comunidades indígenas e quilombolas que tinha acesso, viajou para Brasília, Amazonas e Bahia, apresentou os registros em diversos lugares e ganhou prêmios. Até hoje cultiva o hobbie e a veia artística. Dyanne estava com 27 anos no momento da documentação, é natural de Carpina, zona da mata norte de Pernambuco, e conta sobre sua infância ter sido toda na igreja. Não lembra de algum momento antes dos 11 anos de idade não ter sido dentro da Igreja Petencostal do Sétimo Dia, foi só durante a pandemia de Covid-19 (com ela já sendo uma mulher adulta), quando tudo estava fechado, que viu a oportunidade de sair da religião e conhecer outros lugares. Entre as tarefas na religião, gostava de cantar e tocar violão. Foi lá, também, que conheceu Dálle. Dálle foi cristã muitos anos, quando entrou na universidade entendeu a grandiosidade do mundo - e do que era a sua vida em si: as violências que já havia sofrido, a cultura que carregava e o que significava seu corpo. Foi quando entendeu que poderia gostar de mulheres - de pessoas em geral - e que a sexualidade não define caráter. Dyanne sempre achou mulheres muito bonitas, entendia isso desde a adolescência, mas nunca soube como era o mundo para além da sua família e da igreja. Quando apareciam coisas para fora “da sua bolha” na televisão, o pai trocava de canal… Foi uma pessoa muito protegida. Entendeu o que era o contato físico entre as pessoas no ensino médio - e foi também quando pensou sobre a possibilidade de sentir algo por outra mulher. Mas, logo cortou a possibilidade, até porque não era sobre mulheres em geral, era sobre uma mulher especificamente. Mesmo assim, nunca chegou a acontecer nada, o medo que sentia do “pecado” era muito maior. Na época em que tudo isso aconteceu na escola, Dyanne chegou a conversar com uma psicóloga sobre: contou que estava conversando com uma menina e que achava que gostava dela. Coincidentemente, os pais estavam em separação e a psicóloga orientou que ela estava depositando a falta que sentia da mãe na busca por um afeto feminino, dizendo que ela “confundia as coisas”, mas não, que não gostava de mulheres, apenas estava confusa. Ela entendeu isso como um diagnóstico e, toda vez que sentia isso, ainda que anos depois, pensava “Nossa, ainda não passou?!”. Por mais que no decorrer dos anos tivesse admiração por outras mulheres, a primeira mulher que de fato se envolveu foi Dálle. [mais uma vez, fica claro a importância de buscarmos profissionais da saúde que nos enxerguem e nos acolham de verdade] Por mais que Dálle e Dyanne começaram a sua relação amorosa já adultas, são amigas de infância por conta da igreja e da vida no interior pernambucano. Sempre foram amigas confidentes, se tratavam com muito carinho e dividiam uma paixão imensa pela leitura de O Pequeno Príncipe, mas nunca haviam se olhado além da amizade (ou compartilhado a paixão por mulheres em suas conversas, pelo contrário, se entendiam enquanto mulheres héteros… e nem conheciam outras possibilidades). Fizeram uma prova de ENEM juntas - e essa prova para quem é da religião Adventista era totalmente diferente porque os sábados são guardados, então era feita durante um dia inteiro. Elas relembram o quanto se cuidavam durante a prova, nas filas e nos intervalos. Entendem que há 6 anos vivem essa relação amorosa e há 6 anos descobrem diariamente quem são, porque sempre viveram longe das outras culturas. Só em 2024, por exemplo, furaram as orelhas para colocar brincos pela primeira vez. Lembram dos primeiros eventos que foram: junto de um grupo que formaram com outros amigos LGBTs que saíram da igreja por não serem aceitos, foram ao carnaval pela primeira vez e achavam que seria horrível, o caminho todo passando mal com o medo do caos, o pensamento de que era o “Satanás” tomando tudo… e quando chegaram era lindo, muito colorido, com muitas crianças na rua e todos dançando maracatu. Dálle sempre foi uma mulher que performa feminilidade, usando roupas coloridas e maquiagem. Enquanto Dyanne possui um estilo que não gostava de usar batons diariamente, usava mais as cores preto e cinza… e todos falavam muito dela por conta disso, como se “já esperassem” que ela não fosse performar a heterossexualidade desejada. Porém, foi Dálle quem “saiu do armário” primeiro e contou para Dyanne que havia beijado uma menina. Quando estavam juntas, numa situação em casa, se encostaram e sentiram um frio na barriga. Não foi intencional, estranharam e pensaram “O que aconteceu ali?” mas, quando passaram próximas de novo, fizeram questão de encostar novamente para ver se iriam sentir. E deu certo. Naquele mesmo dia, algumas horas depois, Dálle estava na casa de um amigo e mandou um meme brincando para Dyanne, no desenrolar da conversa ela demonstrou o interesse em beijá-la. Acabaram não falando mais sobre isso, só deixaram a vida seguir o rumo, até que surgiu uma viagem para Recife à passeio, junto de outra amiga. Nessa viagem provaram cerveja pela primeira vez, já se sentiram diferentes uma à outra, conversaram a noite toda e finalmente ficaram juntas. A partir desse momento sabiam que queriam seguir juntas, acreditavam muito no que sentiam, mas havia o medo perante tudo o que aprenderam na igreja e de tudo o que precisariam enfrentar com suas famílias. O começo do namoro girou um ano em torno do medo e do preconceito com que a família (e a igreja) olharia o relacionamento e o amor que viviam. Contam o quanto foi doloroso, passaram muito tempo afastadas, depressivas e morando em lugares distantes. Questionavam o tempo todo “Será que é isso mesmo que Deus quer pra gente?!”. Se apegaram muito aos livros, liam no telefone juntas e isso amenizava a distância. Também pensavam em todas essas regras criadas na sociedade, esses julgamentos sobre elas, quem tem o poder sobre isso? Em suas palavras: “A gente entendeu que o amor de Cristo superava esse preconceito, sabe, e que Ele queria ver a gente livre. E tem um versículo da Bíblia que fala, né, de que foi para a liberdade que Ele nos criou. E ser livre é ser quem a gente é. Então, a gente decidiu que iríamos ficar juntas. E depois dessa decisão, estamos aqui, até hoje, assumidas.” Viveram longos processos conversando com suas famílias sobre o relacionamento. Alguns, inclusive, que só foram acontecer aos quatro anos de relação. Mas quando entenderam que o amor supera o medo e permite sonhar novamente, decidiram criar novos sonhos - e assim chegaram até Recife morando juntas, adotaram os bichinhos, criaram um lar… a vida tomou outra forma. Hoje em dia comemoram cada detalhe: desde passar datas comemorativas como um Natal juntas, até postar uma foto nas redes sociais, receber os familiares em casa, pegar nas mãos andando nas ruas… todas as coisas que por tanto tempo não puderam fazer. Dyanne pediu Dálle em casamento no Rio de Janeiro, num pedido que inicialmente deu errado mas depois deu certo, no show do Coldplay. Também fizeram união estável durante a pandemia de Covid-19, inicialmente por questões burocráticas de plano de saúde, mas hoje entendem a importância que isso representa. Sonham em realizar uma cerimônia em algum momento, com seus amigos, familiares, fazendo jus ao amor tão acolhedor que compartilham. Por mais que a história que viveram não foi fácil, tentam não demonizá-la, porque é intrínseca ao que elas são. Cuidam da mente e do coração para seguir sendo boas uma à outra e se permitem viver, experimentar, sentir as coisas… já que passaram tantos anos sem acesso ao mundo de verdade. Entendem que estão sempre em ressignificação: ressignificam a religião, Deus, o lar, a família, o amor… E querem encontrar a liberdade de viver a própria vida, o direito de cada um ser quem é. ↓ rolar para baixo ↓ Dállete Dyanne

  • Qual é a desse lambe aí? | Documentadas

    Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Toda mulher merece amar outra mulher. E esse lambe aí? Acreditando na potência do Documentadas para além das redes sociais e do mundo online, decidimos colocar o projeto na rua conversando com os espaços das cidades por onde passamos. Foi através das técnicas arte urbana como lambe-lambe e stickers que começamos a espalhar uma frase famosa por aqui: “Toda mulher merece amar outra mulher”, além de uma tiragem inicial de 300 fotografias de casais que já participaram do projeto, com intervenções gráficas escritas por cima e o @documentadas, identificando nosso Instagram/site. Estar na rua nos abriu a possibilidade de troca com públicos antes inalcançáveis. Passamos entre universidades, boêmias e comunidades. Se as mulheres amam outras mulheres em múltiplos espaços, acreditamos que nossa arte também deva ocupar múltiplos espaços. Tal fato foi - e está - sendo possível pela impressão/colagem por valores acessíveis (afinal, o projeto é independente) e também por permitirmos ouvir a linguagem das ruas. Seguimos monitorando os espaços colados através da localização nas redes sociais, vendo postagens com fotos que as pessoas tiram deles e quais são as reações positivas/negativas ao ver essa manifestação. POR QUE NOSSOS LAMBES NÃO DURAM NAS RUAS? Nossos lambes são arrancados, vandalizados, riscados… Isso fala sobre muitas pessoas ainda serem lesbofóbicas e terem ódio ao saber que duas mulheres podem - e merecem - se amar em público, infelizmente. Porém, em nenhum momento um lambe riscado é arrancado para que outro seja colado em cima, pelo contrário: é importante deixar ali para que o preconceito também fique escancarado perante uma manifestação de afeto les-bi. Não deixaremos de colar nossos cartazes e adesivos. O Documentadas é uma forma de combate ao preconceito, enquanto houver cartaz, cola, pincel e adesivo, estaremos colocando nossa arte na rua e ouvindo o que a rua tem a nos dizer. QUER COLABORAR COM O DOC PARA QUE ELE TENHA MAIS LAMBES POR AÍ OU NOS CHAMAR PARA UMA EXPOSIÇÃO EM ALGUM LOCAL? ENTRA EM CONTATO PELO SITE OU NO E-MAIL: FERNANDA@DOCUMENTADAS.COM

  • Carla e Paula | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Paula estava com 34 anos no momento da documentação. Nasceu em Porto Alegre, mas passou boa parte da vida em Maceió com a mãe, indo visitar a família no sul poucas vezes ao ano. Formada em Direito em Maceió, trabalhou em empregos temporários até retornar ao sul, onde hoje atua como servidora pública. Carrega consigo essa sensação de deslocamento - não é totalmente de Maceió, nem de Porto Alegre. Uma gaúcha nordestina - algo que molda uma personalidade mais fluida, tranquila e aberta às mudanças. Carla estava com 29 anos no momento da documentação. É natural de Maceió e foi lá que conheceu Paula, ainda no período em que ela morava no nordeste. É advogada, formada em sua cidade natal e concluiu a graduação já vivendo em Porto Alegre, após se mudar no meio da pandemia. Carla se destaca por ser cheia de hobbies: corre, borda, gosta das coisas manuais, dos esportes (é faixa preta no karatê desde os dez anos de idade) e entende que manter o corpo em movimento traz a disciplina e o equilíbrio que a hiperatividade demanda. O que as aproxima, além dos caminhos cruzados que a vida fez, é a forma como se completam: brincam com os signos, pois são opostas complementares, mas entendem que vai um pouco além disso. Paula é quieta, reservada, enquanto Carla transborda movimento e, como ela mesma diz, é tagarela - uma fala pelas duas quando necessário, a outra observa, absorve e oferece silêncio seguro. Carla sempre brinca dizendo que elas se conheceram porque ela era estagiária da Paula, gosta de começar a história assim. Mas Paula desmente porque ela era estagiária na empresa, não dela especificamente. Deixam interpretação livre: “Tu escolhe em quem tu vai acreditar!”. Fato é que as duas apenas trabalhavam no mesmo lugar, cada uma com sua rotina, seus horários, seus trajetos dentro do prédio. Para Paula, esse emprego era temporário, e foi num dia em 2018 que sua mãe anunciou: estava prestes a se aposentar e queria retornar ao sul, não moraria mais em Maceió, depois de tantos anos. O convite veio de forma natural: “Tu não quer voltar junto?” e a resposta foi natural também, ela acreditava que nada a prendia em Maceió, então pensou que poderia prestar algum concurso no sul e fazer a mudança para lá. Duas ou três semanas depois dessa conversa com a mãe, ela conheceu a Carla. A amizade foi o primeiro lugar. Ambas tinham terminado relacionamentos recentes, conversavam muito sobre suas dores, histórias em comum e até acompanharam as histórias das pessoas que ficaram depois dos términos. Como Carla era mais nova, Paula pensava que algo entre elas “jamais” aconteceria. Mas a convivência se estreitou - e a resistência capricorniana de Paula não resistiu aos quatro shots de tequila que beberam numa noite. Quando começaram a se envolver romanticamente, tentaram manter um pacto: não transformar isso em algo maior, sabendo que a Paula tinha data para ir embora. Bom, sabemos o resultado, né? Alguns meses se passaram e Paula tentava ao máximo ‘empurrar’ adiar a ida, mas precisou partir para Porto Alegre, em 2019. Dirigia muitos quilômetros chorando, até que sua mãe, vendo o sofrimento, falou: “Minha filha, se tiver que ser, vai ser. Vocês vão dar um jeito, vai dar tudo certo, se tiver. Também se não tiver, não vai.”. E assim elas começaram um novo passo na relação: o namoro à distância. Depois da mudança de Paula para Porto Alegre, Carla fez a primeira visita quando tudo se estabilizou. Foi em maio de 2019, o auge do frio para uma nordestina conhecer o sul, que desembarcou na capital querendo conhecer um destino romântico clássico: Gramado. Elas explicam que desde a primeira vez que concordaram em viver essa relação à distância, tinham uma coisa muito marcada: a escolha consciente de permanecer. Entre idas, vindas e incertezas, sempre escolheram ficar. E, embora a história pareça redonda contada assim, “depois que passou”, foi muito difícil enquanto estava passando… o caminho foi marcado por coisas além das distâncias, como homofobias, conflitos familiares e feridas que só foram cicatrizando com o tempo e com a convivência. Ao longo desses sete anos, elas seguiram escolhendo viver juntas, construindo algo sólido. Conversar sempre foi a essência de tudo. Carla brinca que elas não ficam quietas, estão dissecando cada pedacinho das coisas para estar 100% com tudo. São tagarelas assumidas. E o namoro à distância ajudou a moldar esse hábito: viviam conectadas, entre Skype e FaceTime, indo dormir em chamada, cozinhando ao mesmo tempo, até indo ao cinema cada uma no seu estado. Destacam também sobre como saber que são amigas é importante dentro de uma relação amorosa, é poder confiar muito em quem você ama. Até hoje, qualquer detalhe visto na rua é assunto e é compartilhado entre elas, entendem que o compartilhar é parte natural de amar. E Paula destaca também que nessas trocas, desde cedo falavam em casar e ter filhos, mesmo enquanto repetiam que viveriam um dia de cada vez. Havia uma certeza silenciosa: seguir adiante faria sentido porque o futuro delas já existia, mesmo quando ainda era só um plano. No final de 2019, Carla voltou para Porto Alegre para passar três meses, mas precisou retornar a Maceió no início de março de 2020 por conta das aulas na faculdade. Foi exatamente quando a pandemia de Covid-19 estourou: aeroportos fechados, voos cancelados e aquele período pequeno que iria resolver as coisas em Maceió viraram meses de isolamento. Além do medo e da incerteza do momento, havia também o peso das situações de homofobia dentro da própria família, que tornavam tudo ainda mais delicado. De qualquer forma, sabiam que nada poderia ser feito de forma precipitada. Era importante que Carla terminasse a faculdade, que cuidasse da própria vida individual antes de qualquer mudança definitiva, faltava muito pouco para conseguir o seu diploma. Quando, finalmente, em junho de 2020, conseguiu um voo, Carla veio de vez. Ficaram um tempo morando com a mãe de Paula, e foi ali que Carla apresentou o TCC, se formando de forma online na pandemia - e já residindo em Porto Alegre. Em março de 2021, com a OAB em mãos e já adaptada morando em Porto Alegre, Carla começou a procurar emprego como advogada e as duas decidiram que era hora de ter a própria casa. E foi nesse mesmo período que veio a vontade de celebrar o amor. Depois de tantos obstáculos, medos, partidas e retornos, parecia justo transformar tudo isso em um rito de afirmação. Optaram por um casamento simples, íntimo, com poucos convidados, mas cheio de significado. Marcaram a data exatamente no aniversário de três anos de namoro e foi assim, no terceiro ano juntas, que se casaram. Ainda que alguns familiares não tenham participado do casamento, outros estiveram presentes e os amigos da Carla vieram diretamente de Maceió, então foi um momento incrível de celebração. O casamento firmou o que elas constroem: a escolha, a continuidade e a coragem. Carla conta que quando elas andavam de mãos dadas como namoradas em Porto Alegre, as pessoas não olhavam muito… Mas, quando a barriga apareceu, tudo mudou. As pessoas entendiam, se surpreendiam, sorriam. E havia também aqueles pequenos gestos silenciosos: como o casal de meninas que, numa feira, se cutucou mutuamente ao vê-las juntas. Tipo: “Caramba, é possível!!”, uma esperança. Era bonito perceber que elas também podiam ser referência para outras mulheres, para outras famílias que ainda estavam começando a imaginar a própria possibilidade de existir. Porque, antes de tudo, elas sempre sonharam com isso: uma família, um lar, uma criança para amar. E porque pouco tivemos referências quando foi a nossa vez. O caminho até ali vinha sendo construído aos poucos, elas já eram uma família, com o cachorrinho, depois com a decisão de engravidar. Na primeira tentativa o teste deu positivo. E de um pontinho de luz, como dizia a médica, surgiu a Olivia.Decidiram viver os três primeiros meses só entre elas e os médicos, guardando o segredo como quem protege uma chama acesa no peito. Começaram a contar pela mãe da Paula, que ficou perdida, surpresa, feliz, curiosa, tudo junto! Falou: “Tá. Entendi. Mas tá em quem????” e riram. Tudo se ajeitava. A parte mais delicada foi contar para a família de Carla. Depois de anos de rupturas, medos e afastamentos, ela foi sem expectativa alguma. E, justamente por isso, a surpresa foi tão imensa. A mãe reagiu com alegria, tentou adivinhar o sexo, vibrou por haver mais uma menina na família, dizendo que “Nossa família é uma família de mulheres!”. Em nenhum momento reclamou pelo fato de Paula ser quem estava gerando, pelo contrário: houve carinho, acolhimento e vontade sincera de reparar o que havia sido quebrado. Quando Olivia nasceu, a avó veio até Porto Alegre, e foi assim que ela e Paula se conheceram pessoalmente. Hoje, se Carla passa um dia sem mandar foto, a mensagem chega rápida: “Cadê a Olivia?” Paula falou uma frase muito marcante na nossa conversa: “Que gostoso que é ver o amor da sua vida sendo mãe do amor da sua vida” e isso mostra como a Carla é uma mãe incrível para a Olivia. Ela só dorme com a Carla, o primeiro sorriso foi para ela, a primeira troca de fralda foi com ela. Nas noites difíceis elas se apoiam, nas crises de choro, na amamentação que machucou o peito ou nos medos do que ainda pode acontecer. E nos risos no meio do caos, lágrimas divididas, cansaço partilhado é onde está a força também. A maternidade não mudou quem elas eram (ok, talvez mudou um pouquinho pra melhor!), mas principalmente tornou mais nítido o que sempre existiu. ↓ rolar para baixo ↓ Paula Carla

  • Ingrid e Cecília

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Ingrid estava com 33 anos no momento da documentação. É natural de Pelotas, mas passou boa parte da vida adulta em Florianópolis, sempre alimentando o desejo de viajar. Sua primeira experiência com a estrada veio aos 21 anos, durante um intercâmbio na Austrália, onde vivenciou um motorhome pela primeira vez. Quando voltou, quis se aproximar da natureza e sonhava em ter uma Kombi, mas focou na carreira e adiou esse plano. Ainda assim, as viagens eram sua prioridade: trabalhava para poder estar sempre viajando. Foi há cerca de quatro anos que a Kombi Luz chegou, tornando-se um verdadeiro projeto de vida. Na época, já tinha o Teddy, um de seus cachorros, e também o Godinez, que faleceu em 2023. Com o tempo, sua vontade de se dedicar integralmente à estrada cresceu, então ela vendeu sua parte na empresa em que trabalhava e hoje em dia trabalha criando conteúdos para o YouTube, registrando o dia a dia com Cecília na moradia delas na Kombi atravessando o Brasil. O projeto trouxe um reencontro com o jornalismo, sua formação, e a sensação de finalmente concretizar o sonho que sempre teve. Cecília, no momento da documentação, estava com 30 anos. Nasceu em Itajubá, Minas Gerais, mas passou parte da vida em Taubaté. Não foi criada com uma referência de vida na estrada, mas passou por um momento divisor de águas que a fez enxergar a vida por outro lado: perdeu o pai aos 15 anos. Amadureceu, viveu um luto precoce e tudo a fez entender que ele era um homem cheio de sonhos, mas que infelizmente não teve a oportunidade de realizá-los, então queria ser uma pessoa diferente, se viu movida pela sede de viver. Sua percepção por viagens começou quando ela foi morar e trabalhar fora do Brasil, conhecendo um mundo bem diferente do que a vida e a cidade morava. Lá, guardou dinheiro, planejou mochilões, mas dias antes de começar suas novas viagens recebeu a notícia do falecimento da sua mãe. Decidiu voltar ao Brasil, fez uma pausa nos planos para se reorganizar e se reconectar com sua família e consigo mesma. Com 25 anos, já não tinha mais os pais e precisava redescobrir seu caminho. Cecília, depois de optar ficar no Brasil, se mudou para Ubatuba e trabalhou por um tempo enquanto representante de vendas, fazendo assim diversas viagens. Depois de um tempo, comprou uma caminhonete e adotou a Brisa, sua companheira de estrada. Junto de uma amiga, decidiu dividir uma vida de viagens por um tempo, e, reunindo outros amigos, compartilhou um desejo de se mudar para Florianópolis. Foi quando decidiram fazer a mudança e irem juntos. Em 2022, apenas dez dias depois de Cecília chegar a Florianópolis, ela e Ingrid se encontraram por meio de um aplicativo de relacionamentos. Desde o início, perceberam que suas vidas se encaixavam: Ingrid já estava no momento de largar tudo para cair na estrada, enquanto Cecília já havia vivido essa experiência. Ingrid brinca que, naquela época, a Kombi Luz era uma kombi de solteira - um espaço que tinha até mini biblioteca, sem a ideia fixa de ser uma casa. Mas o primeiro encontro dela com a Cecília já dizia muito: um pôr do sol na Kombi. A primeira grande viagem foi até Pelotas, cidade natal de Ingrid. Na época, ainda não tinham um status definido para a relação, mas Cecília foi apresentada ao pai de Ingrid. O plano era passar apenas alguns dias, mas ao chegarem, perceberam que algo não estava bem: o pai de Ingrid recebeu um diagnóstico de depressão e o que seria uma visita rápida se tornou um período de um mês dando suporte e cuidado. Elas e os três cachorros começaram a vivenciar a kombi enquanto casa. Cecília precisou retornar a Florianópolis, Ingrid ficou um pouco mais. Esse período trouxe muitas reflexões sobre a brevidade da vida, sobre momentos difíceis que já viveram e o desejo de viver intensamente. Mesmo sem uma longa história juntas, já tinham dividido muito - entre se conhecer, passar tantos dias juntas, mudanças e novas perspectivas. E foi justamente nessa intensidade que perceberam que queriam continuar seguindo viagem. Pouco tempo depois de passarem um tempo em Pelotas com o pai de Ingrid, o cachorro mais velho dela, Godinez, faleceu. Depois disso, ela voltou para Santa Catarina, percebeu as melhoras do seu pai e decidiu que oficialmente queria morar na Kombi. Foi então que organizou suas coisas no emprego fixo, tudo foi somada à demissão da Cecília do seu emprego e decidiram seguir o sonho juntas. A primeira grande viagem foi para o Rio de Janeiro, depois voltaram para Florianópolis para passar o ano novo com o pai da Ingrid (que foi até lá também) e no início de 2024 deram inicio, de fato, a morar 100% na kombi, sem mais apartamentos e outras casas. A transição para a vida na estrada aconteceu de forma gradual. No primeiro mês, acabaram morando na Kombi sem planejar, enquanto estavam em Pelotas. Depois, na viagem até o Rio, a experiência foi mais estruturada, mas ainda mantinham o apartamento. Ao voltar para casa, esperavam sentir alívio pelo conforto, mas perceberam que a sensação de pertencimento estava mesmo era na estrada. O lar, de fato, era a Kombi. A vida nômade fazia cada vez mais sentido, mas, talvez se tivessem tomado a decisão de uma hora para outra, não tivessem se sentido tão bem na kombi. Desde então, percorreram o Rio Grande do Sul, exploraram bastante Santa Catarina e subiram até o Nordeste. No caminho, fizeram um desvio para Minas Gerais, onde aprimoraram a Kombi. E foi em Alagoas que finalmente nos encontramos para registrar essa história (depois de várias tentativas de cruzarmos nossos caminhos entre o sul da Bahia e Maceió). A vida na estrada trouxe para Ingrid e Cecília a descoberta de um Brasil interiorano que nem imaginavam - e ainda melhor, o gosto pela vida interiorana. Entre uma viagem e outra, encontram cidades que não estavam nem no mapa, acampam em lugares lindos e tranquilos, e se encantam com a calmaria que só quem viaja sem pressa pode viver. Os cachorros também se adaptaram bem… na verdade, até estranham quando chegam em cidades grandes, sem saber lidar com tanto estímulo de som e movimento ao mesmo tempo. Sem prazos rígidos, vão sentindo cada lugar. Têm um roteiro em mente, mas se um destino as cativa, se permitem ficar mais. Criaram uma rotina própria, independente de onde estão, e isso dá uma sensação de estabilidade mesmo com a estrada. Para elas, o amor está presente em cada detalhe do cotidiano. O romantismo vira só um detalhe, porque a conexão é muito mais profunda. Relacionamentos entre mulheres têm essa intensidade - é o que dizem. E, para além da intensidade, têm a resistência. Em muitos lugares por onde passam o preconceito ainda é muito forte, mas fazem questão de seguir de mãos dadas. E, quando falam em mãos dadas, entendem que seguem de mãos dadas com os amigos também: as redes de apoio que seguem firmes, mesmo à distância. Se elas precisarem ou se os amigos precisarem, basta uma ligação. Fazem de tudo uns pelos outros. Já passaram por situações difíceis na estrada, e a presença dos cachorros não é só companhia, mas também segurança. Acima de tudo, o amor entre elas e a família que estão formando é força. É ele que as impulsiona a continuar vivendo esse sonho. ↓ rolar para baixo ↓ Cecília Ingrid

  • Jessica e Amanda | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Jéssica estava com 34 anos no momento da documentação. É natural de Maceió, capital de Alagoas e trabalha como designer gráfica em uma escola, com foco na criação de materiais pedagógicos para a educação infantil. Apaixonada pela profissão, encontra na criatividade uma forma de se conectar ao universo das crianças. Fora do trabalho, seu hobbie é amar café e cerveja: adora explorar botecos ‘raiz’ e estar entre amigos. Também gosta de conhecer lugares diferentes e conta que isso se intensificou depois de conhecer Amanda, já que adoram fazer isso no tempo livre. Amanda estava com 29 anos no momento da documentação e é advogada. Nascida em Santana do Mundaú, interior de Alagoas, cresceu em uma família com 12 irmãos. Entre idas e vindas da faculdade, viveu períodos em Maceió e outros em sua cidade natal, que fica a cerca de uma hora e meia da capital, numa rotina bastante puxada. Apaixonada por praia, pela convivência com a família e por encontros entre amigos, gosta também de programas mais tranquilos, seja em casa ou em saídas leves. Entre cafés, botecos, família e amigos, Jess e Amanda construíram uma relação de simplicidade e afeto. Jess e Amanda se conheceram em 2017, através de uma amiga em comum. Na época, ambas estavam em outros relacionamentos e, num primeiro momento, não houve aproximação imediata porque Amanda era mais introspectiva. A convivência foi crescendo quando Jéssica se mudou para perto dessa amiga, vizinha de Amanda, no mesmo condomínio. As visitas constantes tornaram a presença inevitável e a amizade aconteceu aos poucos. Por mais que já estivessem se acostumando com a presença uma da outra, o vínculo começou em torno dos desabafos: as duas compartilhavam experiências semelhantes sobre os relacionamentos que viviam porque estavam passando por momentos difíceis em suas relações. A amiga em comum, ao ouvir os desabafos, comentava sobre como iriam se identificar por viverem situações muito semelhantes. Esse processo de dividir e verbalizar dores abriu novos olhares para si mesmas e para a vida que levavam. E, conversando, também acolhiam uma a outra. Em 2018, Amanda terminou o relacionamento e voltou para o interior. Estava num momento muito delicado e precisava sair de Maceió. Ainda que distante, manteve breve contato com Jess. Eventualmente, voltavam a se encontrar por meio de amigos em comum, quando ela ia para Maceió. Tempo depois, quando ambas estavam solteiras, perceberam que a aproximação se intensificou. Sentem que se admiravam muito - a forma que enxergavam a vida, lidavam com as situações e a leveza com que conduziam conversas e encontros. Demoraram um tempo para entender que a admiração era desejo, os amigos perceberam que os olhares mudaram antes mesmo delas se darem conta, e aos poucos elas também se permitiram tentar transformar a amizade em algo a mais. Foi em 2019 que Jess e Amanda ficaram pela primeira vez. Após ficarem algumas vezes em 2019, Jess e Amanda entenderam que gostavam uma da outra, mas o grande divisor de águas foi a pandemia de COVID-19, em 2020. Amanda ainda morava no interior e enfrentava dificuldades para trabalhar em home office na casa da mãe, onde viviam muitas pessoas. Jess, por sua vez, morava apenas com a mãe em Maceió e também trabalhava remotamente. Para aliviar a situação, convidou Amanda a passar uma semana em sua casa, assim relaxaria um pouco e teria um espaço mais silencioso para o trabalho. O que era temporário acabou se transformando em permanente. A pandemia se intensificou, Amanda chegou com uma mochila e aos poucos levou suas coisas, até que passou a morar de vez com Jess e sua mãe. De 2020 a 2025, elas dividiram casa com a mãe da Jess, o que trouxe diversos desafios. Apesar de ser um período de fortalecimento do relacionamento e construção de família, a convivência foi marcada por momentos delicados. Amanda precisou lidar com restrições, já que ocupava uma casa que não era de fato dela e não podia reagir a certas situações como gostaria. Para Jess, havia também o peso da relação familiar. O processo de se assumirem enquanto um casal - e um amor entre mulheres - trouxe dor e resistência, mas também acolhimento. Conversas difíceis e importantes com suas famílias, sabedoria e concessões. Foram anos desejando ter seu próprio lar, mas ainda não tinham condições financeiras para isso, então resistiram até se estruturarem. No começo de 2025, conseguiram se mudar para uma nova casa. A mudança representou liberdade e a chance de construir juntas o lar que sempre desejaram. Reconhecem o caminho percorrido, os aprendizados conquistados e celebram a vida que estão conseguindo viver: podendo ser quem são. Com o tempo, Jéssica e Amanda conquistaram uma nova forma de estar no mundo. Hoje, as pessoas olham para elas e reconhecem que são um casal, que estão construindo uma família com carinho e afeto. Já não existe mais o medo de precisar esconder gestos, olhares ou palavras (e lutaram muito por isso). Essa naturalidade se reflete para os ambientes familiares, o trabalho, a vida em geral. A segurança existe perante a coragem de viverem de forma transparente. Para elas, estar em um relacionamento significa disposição: a entrega, a clareza sobre o que querem construir juntas e a vontade de assumir isso sem necessidade de validação externa. O amor se manifesta tanto na intimidade quanto na postura, em uma escolha consciente de não se encolher diante do preconceito. Como se conheceram compartilhando fases difíceis, ressignificaram isso e constroem uma relação baseada em confiança, respeito e admiração. A trajetória revela que a construção de uma vida em comum não se resume ao romance, mas passa também pela decisão diária de enfrentar o mundo lado a lado, sem abrir mão de quem são. ↓ rolar para baixo ↓ Jess Amanda

  • Naiara e Mary | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Naiara estava com 58 anos no momento da documentação. Se dedicou 32 anos ao serviço público, sendo 29 deles no Tribunal do Trabalho, na área de Tecnologia da Informação, período em que participou da informatização completa do órgão, da migração do papel para os sistemas digitais. Antes de qualquer profissão, sempre se reconheceu militante: desde os 13 anos, quando começou a entender o que era ser mulher e pensar sobre gênero e sexualidade. Em toda sua vida esteve presente em movimentos políticos, sindicais, LGBTs e de mulheres, construindo muita participação na luta. Nasceu em São Jorge, no interior do Rio Grande do Sul, mas foi morar em Porto Alegre quando ainda era bebê e lá cresceu, trabalhou, conheceu a Mery, começaram esse relacionamento que já dura 40 anos… e criou suas raízes. Mary estava com 73 anos no momento da documentação. Nasceu em Porto Alegre, na rua Lima e Silva, uma das principais do bairro Cidade Baixa, mas confessa que nunca deixou de ser “bicho do mato”. Depois de um curto período morando com a avó, novamente na rua onde nasceu, voltou para Viamão, cidade vizinha de Porto Alegre, para viver com os pais, que estavam começando a construir a vida por lá. Trabalhou desde muito cedo, com carteira ‘de menor’ assinada, e se aposentou cedo por conta disso, aos 45 anos. Sua carreira se baseou mais de duas décadas em uma empresa imobiliária, no setor de microfilmagem - uma profissão que praticamente desapareceu com a tecnologia, mas ela explica: cada documento que passava pelo condomínio chegava às mãos dela, que filmava, e assim viravam um rolinho de filme. Quando começou a trabalhar, ainda sendo ‘de menor’, jogava vôlei e era apaixonada por esportes. Foi quando questionou sua sexualidade pela primeira vez também. Ainda que as dúvidas vieram na adolescência, Mary lembra que, ainda criança, “namorava as bonecas” e era reprimida pela mãe - e por si mesma. Da mesma forma era cobrada pelos pais e por si mesma. Mas no fundo, conta que se ganhava uma boneca ou um sapato, ficava magoada. Queria mesmo era uma bola. Quando começou a jogar vôlei, Mary ainda não havia se envolvido com nenhuma menina. Tinha apenas admirações platônicas difíceis de nomear… e o esporte se tornou também um espaço para entender o que estava acontecendo. Trabalhando muito cedo, ouvia conversas pelos cantos do refeitório na ‘firma’ sobre existir uma casa/uma boate cheio de bicha, de sapatão. Um dia, entre os seus 17/18 anos, criou coragem e foi lá. Era o início da década de 70. Conta que ficou nem quinze minutos, saiu assustada. Foi o impacto de ver no mundo real aquilo que tentava ignorar, a materialização de pensamentos que achava que não poderiam existir. Não eram só coisas da cabeça dela. Depois de uma viagem de férias, surgiu um jogo de futebol entre empresas e ela foi convidada a participar. Afinal, jogava bola desde criança nas ruas de Viamão e, apesar de se machucar nesse primeiro jogo, foi ali que começou a jogar de verdade e conhecer mulheres lésbicas de verdade. Diferente do vôlei, no futebol pareciam falar mais sobre as coisas. Lá se aproximou de uma amiga - que era a tia de Naiara e foi quem as apresentou - e passou a conviver frequentemente com as “entendidas” ou, em brincadeira, as “cebolas”, referência a um time de São José do Norte (cidade referência na plantação de cebolas) cujas jogadoras/treinadoras/diretoras eram todas lésbicas. No futebol, enfrentaram dificuldades e muitos preconceitos. Como Mary mesmo diz: “Nessa época, jogar futebol era perigoso”. Com a criação do Parque da Marinha, criaram o time Marinha do Brasil. Defendendo Porto Alegre no Citadino, um campeonato. Só conseguiam treinar depois das dez da noite porque a elite ocupava as quadras do Parque Marinha até tarde. Muitas vezes foram expulsas violentamente, quando tentavam chegar antes. Contaram com a ajuda dos homens negros de Alvorada, que também treinavam depois das 22h, e que as treinaram por quase um ano, ensinando fundamentos, jogadas e resistência. O ambiente era perigoso, e todas trabalhavam, então saiam cansadas e iam jogar bola. O futebol era coisa da periferia e não havia jogadora que vivesse apenas do esporte ou de estudos. Quando venceram o campeonato, foram junto aos homens negros, numa grande comemoração. Mary jogou durante muitos anos, tanto que, aos 33 conheceu Naiara - mais de dez anos depois de ter iniciado nos jogos. Quando já estavam juntas, namorando, houve um torneio de empresas e Mary sofreu o primeiro bullying que foi muito marcante em sua vida. Após atingir uma colega com a bola, ouviu insultos e comentários muito violentos, sendo humilhada diante de toda a empresa. Chorou muitas vezes ao lembrar, o que magoava era que poucas pessoas, como a Nai e mais alguns amigos, ficaram ao lado dela, ainda que ela não tivesse feito nada de errado. A culpa era ela ser uma mulher lésbica, como se isso a tornasse agressiva demais, como se quisesse ‘virar homem’. Fala sobre isso destacando a importância de terem se mantido sustentando juntas as dores - e as vitórias - de tantos momentos marcados por coragem, e de tanta história importante para a nossa própria comunidade LGBT. A vida delas mudou numa dessas noites de boate, quando Mary foi encontrar a tia da Nai e acabou esbarrando com ela. Tocava uma música brega que elas contam rindo, com vergonha, e a tia insistiu para que Mary tirasse Nai para dançar. Ela assim o fez e lançou logo uma cantada, horrível, e a Nai não retribuiu. Mary brinca: “Ela foi embora, me deixou no meio do salão!” mas Nai desmente, diz que não foi assim, só foi uma cantada ruim mesmo. Continuaram se encontrando aos poucos, até que finalmente deu certo. Mas tinham medo da reação da tia, afinal, se envolverem já era um passo a mais, Nai estava fazendo 18 anos e Mary já tinha 33. Levou meses, praticamente um ano, para se tornar de fato um namoro. Com a convivência crescendo, Mary começou a circular entre o grupo de amigos da Naiara - obviamente bem mais jovens - e que adorava a presença dela porque ela tinha carro, proporcionava carona e passeios mais adultos. A intimidade, porém, era difícil de dar certo: ambas moravam com os pais, não tinham muita privacidade, a não ser na casa da Mary. Foi então que alugaram um apartamento simples no bairro Menino Deus, entre 1984–1985. A verdade é que ninguém sabia sobre elas, sempre foi como se fossem boas amigas. Na rua, a dificuldade era outra porque Mary evitava qualquer demonstração de afeto em público, temendo que Nai fosse agredida por causa dela. Foi muito tempo para conseguirem conversar sobre e mudar os atos, sobretudo trabalhar a militância lésbica. Com o tempo, construíram uma vida conjunta. Nai fala uma coisa muito importante sobre essa formação: de que muitas mulheres lésbicas começaram a passar em concursos para poder ter a certeza que não seriam demitidas e, só assim, assumirem suas vidas, pegarem nas mãos na rua sem medo. Como foi o caso dela. Ela sempre pôde falar mais por ser concursada. Anos depois, compraram uma casa em Viamão - grande, acessível e perto da família da Mary - e ficaram ali por vinte anos. O lugar virou ponto de encontro: churrascos, aniversários, amizades que entravam e saíam como num clube familiar. E a própria convivência da relação também enfrentou diversas barreiras internas e externas. Nai admitia ter preconceitos em relação ao futebol de Mary, e ambas viveram momentos marcados pela transfobia estrutural da época. Mary, por exemplo, chegava a se travestir de homem para conseguir sair de Viamão até Porto Alegre durante a noite e voltar em segurança. Essas camadas mostravam como o relacionamento delas se entrelaçou com a construção de uma comunidade LGBT que buscava sobreviver, existir e ganhar voz. Ao longo dos anos, se reconheceram de muitas formas, algumas que não fazem mais parte de quem são (como essa visão transfóbica que existiu por um momento), e também se reconheceram nas muitas mudanças individuais. Mary e Nai carregam hoje uma família enorme: onze sobrinhos, dois sobrinhos-netos, e o reconhecimento, desde sempre, como um casal diante de todos eles. Agora voltando a morar em Porto Alegre, num apartamento menor, falam muito sobre o ato de envelhecer juntas: não com peso, mas com essa lucidez de quem olha o mundo e percebe o quanto ainda precisa mudar. Veem gente jovem repetindo ideias de décadas atrás, enquanto elas seguem se atualizando, se abrindo, se movendo. “A idade não engessa quem não quer”, dizem. Foram muitas coisas vividas nos últimos anos também: Nai enfrentou o câncer enquanto, no mesmo período, Mary sofreu dois aneurismas cerebrais. As marcas permanecem, especialmente para Nai, que ainda lida com dificuldades deixadas pelo tratamento. Mesmo assim, transforma tudo em ação: pensa em projetos de lei, busca articulação política, tenta abrir caminhos para outras pessoas viverem processos menos exaustivos que os seus. Conversamos sobre como cansa existir em estruturas que já são adoecedoras e, ainda assim, precisar lutar o tempo todo. O pai da Mary faleceu em 2025, aos 93, tendo passado os últimos anos sendo cuidado por elas. A mãe de Nai, agora com 90, segue sendo cuidada por elas também. E observando esse cuidado, elas não deixam de pensar e falar sobre como desejam viver a velhice juntas. Sem depositar nas irmãs, nos sobrinhos ou na família grande a responsabilidade pelo que virá. A mudança da casa para o apartamento veio desse pensamento: perceberam que viviam mais em função da manutenção do espaço do que da própria vida. Hoje, planejam o futuro com a serenidade possível. Sabem que o tempo diminui a agilidade, a disposição, a vontade… mas não diminui o amor. Ajustam rotinas, fazem escolhas, reorganizam o que for preciso para permanecerem lado a lado, do jeito que sempre quiseram: com lucidez, coragem e a leve rebeldia de quem nunca deixou de construir uma relação - diga-se de passagem, de mais de 40 anos. ↓ rolar para baixo ↓ Ana Naiara Mary

  • 0000 | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Rebeca e Samara se conheceram em outubro de 2023, durante uma live de uma página voltada ao público lésbico e bissexual. A proposta da live era conectar mulheres, seja para amizades ou relacionamentos. Samara tinha saído de um relacionamento - que não havia sido fácil - há cerca de seis meses, tomou coragem e decidiu participar para conhecer pessoas novas. Foi então que Rebeca a notou e começou a seguir no Instagram. Começaram a conversar imediatamente e se deram super bem, as conversas se tornaram diária e vieram chamadas de vídeo e ligações. Construíram um vínculo à distância - uma morando na Bahia, a outra no Piaui - que durou seis meses, e decidiram se relacionar de forma virtual. Em abril de 2024, Rebeca disse para Samara que faria uma viagem para visitar o pai no interior. No entanto, dias depois, veio a surpresa: Rebeca não estava no interior, mas sim a caminho de Salvador. Com a ajuda de familiares, ela arquitetou uma mudança e aproveitou a ocasião para surpreender Samara em seu aniversário, deixando claro que já tinha os planos de conseguir um emprego por lá e ficar de vez. A falta de aceitação de sua sexualidade pela família, somada aos seis meses de conexão intensa com Samara, desencadeou o impulso de recomeçar. Tinha o medo de não dar certo por não se conhecerem pessoalmente? Claro. Mas arriscar era preciso. Após algumas entrevistas, conseguiu um emprego e começou a se estruturar. Como ela mesma diz: "Já vim com os planos de ficar perto da Sam, não queria mais voltar para o Piauí." Desde então, elas têm vivido juntas, transformando aquela conexão inicial em uma história de amor real e corajosa, e Rebeca não se arrepende e nem deseja voltar. Quando chegou em Salvador, Rebeca ficou na casa dos seus familiares que moravam na cidade, mas também foi recebida com carinho pela família da Sam. Após uns meses, decidiram começar uma vida juntas, em um lar só delas. Os primeiros móveis foram adquiridos com pressa, mas com a ajuda preciosa da família para facilitar o início dessa nova etapa, ainda que pagando em várias prestações. Com alegria, contam como frequentemente refletem sobre essa decisão e afirmam, sem hesitar, que não se arrependem - principalmente a Rebeca, de ter deixado o Piauí para construir essa história ao lado de Samara. O amor, que começou de forma tão inesperada, revelou uma força que surpreende até elas mesmas. O que torna a relação única, segundo Sam, é a forma como se sentem ouvidas e reconhecidas uma pela outra. "Não vale só assinar embaixo. Ela deixa eu falar," diz Samara, expressando a dinâmica de respeito mútuo que construíram. E isso que é muito interessante, no dia-a-dia, além de desafiador, mostra o quanto representa crescimento para elas e para a família. E nesse crescimento também aprendem a lidar com questões que nem sabiam que era possível: como os ciúmes, a vida financeira, a ter paciência e entender que conquistam as coisas aos poucos, de acolher nos momentos difíceis, não procrastinar a luta dos estudos… uma puxa a outra nos sonhos. O amor delas também se revela nos pequenos impulsos do cotidiano. Desde Sam que gasta todos os caracteres na hora de se declarar, até a forma mais tímida de Rebeca, que prefere ações a palavras. É o mesmo impulso que levou Rebeca a mudar de estado e que ainda as guia em decisões, como comprar coisas sem tanto planejamento ou dizer “sim, vamos” antes de pensar duas vezes. Esses gestos espontâneos mostram que, mesmo com os desafios, o que importa é fazer dar certo. Samara, no momento da documentação, estava com 26 anos. É formada em História pela UBA e vive em Salvador, onde trabalha como professora em uma escola particular. Apesar de amar sua formação, sonha em cursar Direito, algo que pretendia fazer desde o início, antes de se apaixonar por História. Determinada e cheia de sonhos, Samara ainda planeja voltar à faculdade e realizar esse desejo. No tempo livre, ela adora ir ao cinema, shows, ouvir música, ler e assistir séries. Rebeca estava com 21 anos no momento da documentação. Nasceu em Salvador, mas passou a maior parte da vida no Piaui. Recentemente, em abril de 2024, decidiu voltar para Salvador motivada pelo amor que construiu com Samara. Atualmente, trabalha como operadora de telemarketing e cursa Ciências Biológicas, mas seu grande sonho é estudar Medicina. Rebeca é apaixonada por música e se destaca ao tocar violão, guitarra e bateria. Embora não seja fã de leitura como Samara, ela ama ir ao estádio de futebol – um hábito que aprendeu com Samara, e agora ambas torcem juntas pelo Vitória. A praia é um dos cenários mais especiais para as duas. Apaixonadas pelo mar, elas encontram nesse ambiente o refúgio para criar memórias juntas. Assim como o futebol no estádio, os passeios à beira-mar se tornaram um dos momentos mais significativos do relacionamento, por isso escolheram o lugar para fazermos as fotos na documentação. ↓ rolar para baixo ↓ Samara Rebeca

  • Clarissa e Agnis | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Agnes estava com 33 anos no momento da documentação, é natural de São Gabriel, cidade interiorana do Rio Grande do Sul. Saiu de lá aos 17 anos e se mudou para Santa Maria por conta dos estudos, mas parte da família segue na sua cidade natal até hoje. Em Santa Maria se formou em nutrição, morou em Porto Alegre por um tempo, mas voltou à Santa Maria porque passou num concurso administrativo. Hoje em dia, mora novamente em Porto Alegre dividindo o lar com a Clarissa. Clarissa estava com 30 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre e conta que sempre foi criada dentro da igreja. Se assumiu aos 18 anos, sendo uma mulher desfeminilizada e passou por muitos processos para entender quem era e se sentir bem com a forma que se vestia e com quem se relacionava. Foi muito difícil enfrentar os preconceitos vindos de fora e de dentro de casa, ouvir a palavra da “cura gay”, lutar pela aceitação… mas fica muito feliz quando observa o quanto as coisas já caminharam e o quanto sua família hoje em dia é apaixonada pela Agnes - brinca que gostam mais da Agnes do que dela e que adotaram ela como filha. Começa falando sobre isso porque é uma das partes que mais admira na sua história e na história delas enquanto um casal, e ressalta o quanto faz parte do relacionamento tranquilo que possuem esse valor que dão aos seus corpos e às pessoas que amam. Agnes, quando conheceu Clarissa, era uma pessoa que não se permitia viver muito o presente. Ficava sempre presa ao passado ou ao futuro. Se preocupava com o que precisava fazer, com o que tinha que planejar. Clarissa a fez entender que a vida é o momento, na maioria das vezes, nas coisas mais simples - foi durante a relação que ela começou a bordar, que voltou a ler, que passou a amar os passeios na pracinha final de tarde e compartilhar tantas receitas novas juntas. Clarissa completa que elas viraram duas senhorinhas e que adoram isso. Clarissa também adora chegar em casa, ouvir música e apreciar o descanso sem a cobrança do dia-a-dia. Explica que quando uma está muito cansada, a outra faz o almoço ou a janta… ou dividem as tarefas para não ficar pesado para as duas. Entendem que isso é se fortalecer. E que aos poucos vão descobrindo novas coisas que gostam de fazer. Sentem que viviam num limbo, estavam sempre tentando agradar os outros, pouco faziam para si mesmas ou para buscar suas felicidades e que depois de começarem a relação descobriram o que realmente gostam e que as faz feliz na simplicidade do dia. Clarissa e Agnes se conheceram no final de 2021, ambas estavam num processo de autoconhecimento, depois de relacionamentos longos. Se conheceram num aplicativo de relacionamentos. Agnes nunca havia entrado em aplicativos e não achava que isso combinava muito com ela, mas resolveu testar coisas novas, queria alguma amizade ou companhia para sair, conversar. Clarissa também não era dos aplicativos, nunca havia tomado iniciativa com ninguém por lá e Agnes foi uma exceção que deu certo. Se encontraram para tomar um açaí - o açaí em si estava ruim, mas o encontro foi ótimo! E desde então ficaram juntas. Entendem que não estavam procurando um relacionamento, foram se conhecendo e visualizando seu processo de cura, sentiam medo e até demoraram para admitir o quanto estavam apaixonadas, mas o processo fluiu e encararam o medo até estarem dispostas à relação. Logo no início do namoro, Agnes voltou a morar em Santa Maria por conta do trabalho. Foi difícil porque era algo novo, sentiram bastante saudade e isso demandava uma viagem toda semana para se encontrarem. Mas foi nesse movimento que se fortaleceram enquanto casal e entenderam que realmente queriam estar juntas. Vivenciaram momentos que foram decisivos para se conhecerem em versões que ainda não tinham tido oportunidade de ver… E sempre quando pensam na temporalidade das coisas ou “como poderiam ter se conhecido antes”, “tal coisa poderia ter acontecido antes”, refletem que foi no momento certo, precisavam passar pelas vivências para que o amadurecimento acontecesse. Ao total, Agnes morou um ano e oito meses em Santa Maria. Quando Agnes voltou de Santa Maria, ela e Clarissa moraram no mesmo terreno que a família da Clarissa durante quase um ano, até que alugaram o apartamento que moram hoje em dia. Constroem o lar com muito carinho, nas decorações feitas com artesanato aproveitando os momentos juntas, na forma que se alinham para seguirem uma relação de respeito num espaço confortável e seguro… Além disso, fizeram questão de buscar a independência num lar que seja só delas porque entendem a importância de serem consideradas uma unidade familiar, mulheres adultas que trabalham, se amam e constroem um futuro com consciência, não duas amigas ou duas meninas que vivem “uma fase”. Quando nos encontramos para a documentação acontecer, Agnes havia apresentado Clarissa para seus familiares há poucos dias e ainda estava entendendo a situação. Conta que sonham em casar, projetam o futuro juntas e é muito importante que as pessoas que amam e que desejam o bem possam compartilhar a vida com elas de forma natural e feliz por desejo próprio, sem obrigação ou questão social. Querem por perto pessoas que realmente apoiem, celebrem o amor. O que Clarissa e Agnes querem refletir para os outros na relação, é o que mais aprendem juntas vivendo esse amor: o companheirismo. Foi compartilhando o olhar/a forma que se enxergavam que impulsionam o crescimento uma da outra, até mesmo o autoconhecimento, e cresceram de forma que antes nem imaginavam. Hoje se enxergam muito mais felizes, com propósito e se permitindo ser vulnerável, porque sabem com quem contar. Querem que as pessoas que amam também saibam que podem contar com esse apoio e esse amor, porque elas viram que o amor que criaram dentro da relação já expandiu para a forma que são individualmente em vida, virou algo muito maior que uma relação romântica. ↓ rolar para baixo ↓ Clarissa Agnis

  • Nayara e Mayara | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. ↓ rolar para baixo ↓ Nayara Mayara

  • Jamile e Raquel

    Jamile e Raquel moram no mesmo condomínio, ainda que em apartamentos distintos, em Brasília. Jamile é super brincalhona, está sempre rindo, é extrovertida, faz palhaçadas e isso quebra bastante a seriedade da Raquel, fazendo ela rir o tempo todo. Jamile sente muito frio, Raquel se permite viver nas cobertas por puro agrado. Juntas, elas adoram jogar The Sims, ler livros, brincar com os filhos da Raquel e ficar com os bichos que ambas adotaram - elas amam animais, principalmente os cães e gatos. Raquel já trabalhou em uma ONG de cuidados e é uma grande defensora da adoção, foi assim que influenciou Jamile a adotar suas gatinhas (juntando as gatas de ambas, são: Leci, Selene, Aurora, Íris e Bebete). Elas acreditam que animais são peças muito importantes no auxílio ao combate à depressão e ansiedade, e com as gatas, tudo passou a ter outro sentido dentro de casa. Por mais que morem em Brasília, nem a Jamile, nem a Raquel nasceram lá. Raquel é antropóloga, finalizou o mestrado recentemente e está se preparando para o doutorado. Já foi doula e é mãe de dois filhos. Ela tem 30 anos e sua família é de Minas Gerais, parte de Belo Vale e outra parte de Belo Horizonte, local onde ela nasceu. Jamile é jornalista e nos conta o quanto ser jornalista exige da vida - exige do que ela é - mesmo sendo apaixonada pela profissão (e, dentro da profissão, pelo jornalismo esportivo). Ela nasceu em Piracicaba, interior de São Paulo e chegou em Brasília com a família aos 16 anos descobrindo uma cidade totalmente diferente das outras que conhecia. Quando elas se conheceram, em 2019, o que sentiam (e o que poderiam sentir) ainda era muito incerto. Foi através de um aplicativo de relacionamentos que se conheceram e marcaram um encontro e, neste dia, a Jamile estava se sentindo um pouco triste, não queria ir. Foi num aniversário antes e uma amiga a incentivou, disse que poderia ser uma pessoa legal, era uma oportunidade. Por estar no aniversário antes, já estava com pessoas, bebendo e conversando, então quando ela chegou trouxe consigo uma animação que descontraiu o primeiro momento sem conhecer a Raquel. Elas se deram bem, ficaram e começaram a se relacionar a partir daí. Mesmo que um relacionamento vá se construindo de forma natural no começo, elas contam como foi lidar com a ansiedade e a depressão e entender os limites de cada uma. Para a Jamile, por exemplo, entender que não seria uma carga, um peso a mais ou algo do tipo na vida da Raquel. E, também, a Raquel explica sobre esse momento de assumir um namoro, que a fez refletir em várias coisas entendendo que era uma mãe solo, que precisava diariamente dar conta de muitas coisas na vida e do que isso iria demandar, se estava realmente preparada e sentiu medo de não conseguir estar cem por cento na relação. Ambas tinham seus medos, mas conseguiram equilibrar tudo aos poucos, mostrar uma para a outra o que sentiam e conversar sobre isso. Entender seus limites, colocá-los de forma amorosa e visualizar as diferenças com amor também. Segundo a Raquel: “Olhar e dizer: te aceito e tô aqui.” Morar tão próximas facilitou diversas coisas, ainda mais no momento mais intenso da pandemia de Covid-19, em 2020 e 2021. Os filhos da Raquel ficaram um ano sem escola, todos estavam dentro de casa e ter a Jamile por perto era muito importante. Elas também têm o apoio da família (Raquel, inclusive, ama a família da Jamile e eles se dão muito bem), mas para a Jamile viver o processo de “saída do armário” foi um processo prévio bastante intenso. Hoje em dia, para além da família, Jamile conta sobre como as pessoas questionam ela sobre ela assumir e maternar os filhos da Raquel. Ela explica que nunca se colocou neste lugar e que não quer ter filhos, também não gostaria de se ver o tempo todo nesse questionamento. Ambas valorizam a independência, o tempo sozinhas ou juntas e sabem que, se assim desejarem, vão ter uma relação saudável com as crianças. Essa relação já existe, inclusive - elas adoram a Jamile, o quanto ela brinca com eles, eles visitam as gatinhas dela… Tudo é uma questão de naturalidade sobre o relacionamento que as duas possuem, enquanto mulheres que se amam, e que as crianças acolhem também. Elas falam o quanto falta conhecer mais mulheres que têm filhos ou que estão em situações como as que elas vivem, ser uma mãe solo e namorar outra mulher. Jamile explica que sempre viveu uma heterossexualidade compulsória e ter essa noção a fez mudar muitas coisas, inclusive o entendimento sobre a forma de se relacionar com alguém. Ela nem conseguia imaginar uma relação saudável como a que tem hoje ou de que alguma pessoa a conheceria como a Raquel conhece e escolheria ficar, não iria embora na primeira oportunidade, que segue ali e ama de verdade. Já viveu muitas relações “de vidro”, como ela mesma colocou: são relações que na hora do conflito, se ela não ceder, a pessoa pode pegar, jogar no chão e quebrar toda a relação. Com a Raquel, aprendeu que as relações podem ser “de borracha", serem maleáveis, se caírem no chão, juntam, limpam e cuidam, com conversa e afeto, tentando entender a dor. Raquel completa a fala da Jamile, explicando que o ato de gostar de alguém era sempre algo envolvendo interpretar um papel. Ficar comprovando algo, ser o que a pessoa queria, pois se não fosse, teria medo dela ir embora… e que agora não é mais assim. Elas estão juntas porque ambas querem, independente de qualquer papel. Estão conectadas e são gratas à isso. Jamile Raquel

  • Melina e Acácia | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Melina estava com 34 anos no momento da documentação, é professora de música e artista. Atua em diversos eventos na cidade, dá aulas (inclusive para pessoas com deficiência) e trabalha com diferentes etapas da produção musical: da escrita de partituras à edição e masterização de áudios. Está finalizando a graduação em licenciatura em música pela UFPA. Nasceu em Belém do Pará e possui uma trajetória muito ligada à arte e à cena musical paraense. Acácia estava com 28 anos no momento da documentação. Também é paraense, nascida e criada em Belém. Psicóloga, atua na área clínica de reabilitação e é apaixonada pela cultura. E foi justamente essa cultura (mais especificamente a cena musical LGBT) que aproximou as duas. Melina toca há anos no Rebuw, bar conhecido por acolher o público LGBT - especialmente as mulheres. Durante os domingos, o espaço recebia o projeto Sapa Session, um ‘pagode de sapatão’ que lotava o bar com mulheres se apresentando no palco. Acácia frequentou algumas dessas edições e, em uma delas, viu Melina tocando. Já conhecia Melina por vê-la na cena artística da cidade, até que em novembro de 2023, depois do Sapa Session, resolveu segui-la no Instagram. Melina, ao ver a notificação, achou Acácia linda e seguiu de volta, mas nenhuma das duas puxou conversa. No evento seguinte, novamente no Rebuw, Melina a reconheceu na plateia com uma amiga e, sem querer, ficou reparando demais nela, brinca que era quase deselegante, o que causou uns “gays panics”. Quando o show terminou e foi guardar o equipamento, criou coragem, foi até Acácia e se apresentou, mas não continuou uma conversa, disse seu nome, prazer, e saiu em seguida. A situação foi tão inusitada que nenhuma das duas entendeu direito o que tinha acontecido. Acabou sendo uma situação engraçada. Nunca fazia isso com ninguém… Nem Acácia, nem a amiga entenderam direito. Em dezembro, pouco tempo após a primeira interação no bar, Melina e Acácia se reencontraram em um evento que misturava show e festa, em outro local da cidade. Com amigas em comum, passaram a noite bebendo e curtindo. Quando começou a tocar o brega paraense com seus melodys, tecnobrega e clássicos regionais, as duas - que amam dançar - se encontraram e passaram duas horas dançando sem parar. Não conversaram, não se beijaram, não fizeram nada além de dançar muito. Mesmo depois de tanto tempo dançando, foram embora sem trocar palavras. Melina elogiou o quanto Acácia era cheirosa e só. Quando o dia já estava quase amanhecendo, Acácia mandou uma mensagem para Melina agradecendo pela dança e pela noite. A partir daí, começaram a conversar e passaram todo o domingo trocando mensagens. Na segunda, Acácia não estava se sentindo bem, e Melina, que estava dando aula perto do trabalho dela, decidiu levar algo para ela comer. Para Acácia, foi uma surpresa total, ela não acreditou quando Melina disse que estava lá embaixo com comida esperando por ela. Ela nem esperava esse tipo de gesto vindo de alguém que conhecia há tão pouco tempo. Ficou tão inacreditada que quando desceu já foi com o celular gravando. Tinha dez minutos de intervalo entre um trabalho e outro e foi o bastante para conversarem rapidamente. Acham engraçado essa primeira interação, foi diferente e especial. Melina também não entendia direito como tinha tido coragem de ir até lá, não era algo que ela fazia, mas sabia que já gostava de Acácia de algum jeito. Mesmo sem planos de namorar ou de tomar iniciativas, algo ali já era diferente. Melina e Acácia seguiram se conhecendo nos dias que seguiram e tudo foi bastante rápido, mas com a leveza que queriam. Conversavam muito sobre trabalho, a rotina e a vida. Quando pensavam em se encontrar para comer algo, escolhiam o Rebuw, bar que já fazia parte da vida de ambas e que amavam. Acácia conta que o Rebuw virou um espaço de conforto: além da comida boa e da proximidade com o trabalho, passou a se sentir acolhida, antes mesmo de conhecer Melina. Lá criou laços com quem trabalha no bar, e a frequência dos eventos faz dar vontade de frequentar cada vez mais. Para ela, é fundamental que existam espaços como esse, voltados para mulheres, onde possam se sentir seguras… saírem dos ambientes tradicionais que muitas vezes são pensados para nos acolher. Mesmo com a conexão entre elas aumentando consideravelmente, Melina e Acácia ainda não haviam se beijado. Passavam o dia conversando e, às vezes as noites também, por chamadas de vídeo ou pessoalmente. Melina havia decidido que só se envolveria de novo se pudesse conhecer alguém de verdade antes, e assim foi. Conversaram sobre planos de vida, limites, sonhos, opiniões sobre assuntos polêmicos… e perceberam que não queriam parar de conversar. Tanto que foram duas semanas de convivência intensa: já conheciam até ambas famílias. Entenderam que estavam gostando uma da outra, mudaram até a notificação dos celulares para não perder suas notificações a cada mensagem. Depois desse tempo, o beijo aconteceu: Acácia dormiu na casa de Melina após um show e finalmente se beijaram. Foi um momento de cuidado, carregado de afeto, responsabilidade e principalmente a escuta, o que priorizam até hoje. Poucos dias depois do primeiro beijo, Acácia adoeceu e Melina ficou visivelmente apreensiva. Acácia estranhou a reação, mas não comentou muito. O que não sabia era que Melina já estava preparando um pedido de namoro todo elaborado: aconteceria no show que ela faria no final de semana seguinte, no Rebuw, claro! Queria que tudo estivesse perfeito (inclusive a saúde de Acácia). Mobilizou amigas, combinou com a equipe do Rebuw e montou um repertório romântico único. Quando chegou ao show, Acácia percebeu que havia algo diferente no ar, mas nem imaginava que era o pedido. Até que, em meio à apresentação, o momento chegou: o bar estava lotado, recebeu um buquê com as alianças e Melina anunciando o pedido. Ficou em choque, emocionada. A filmagem do pedido viralizou nas redes sociais e, por dias, elas viveram esse momento recebendo mensagens afetuosas. Sentiram que aquele gesto ultrapassou o próprio namoro porque inspirou outros casais e fez diversas mulheres se sentirem representadas. Como tudo aconteceu às vésperas do Natal, passaram a celebração juntas, em família. Brincam que a ceia foi quase um banquete em homenagem ao novo relacionamento. Mas foi, também, um momento simbólico: estar entre as famílias, de forma aberta, dizendo quem são e quem amam. Isso é o mais importante. Melina, por exemplo, levou quase dez anos para ser aceita e nunca tinha vivido uma celebração dessa forma. Esse início, marcado por cuidado, coragem… selou o que buscavam: estavam vivendo um amor para ser visto, não escondido. Queriam celebrar. E sentia que poderia confiar na relação. Melina e Acácia reconhecem que o início foi acelerado, mas foi o tempo certo. Tudo fluiu de forma intensa e natural. Depois disso, passaram a seguir os próximos passos com mais calma. Quando surgiu a possibilidade de morarem juntas, Acácia ainda tinha medo. Estava terminando de mobiliar um apartamento alugado e Melina propôs: “bora, bora juntas.” Ela disse não no início, o medo existia por conta de outros relacionamentos em que viveu dividindo um lar. Melina resolveu insistir, ao menos para conhecer o lugar. Quando chegou, sentaram no chão, com a sala ainda vazia e conversaram sobre o que significaria dividir a vida naquele espaço. O começo da relação foi como se vivessem antes do mundo acabar: faziam tudo a todo tempo. Era muito intenso, acelerado. Até que olharam uma para a outra e entenderam: estavam cansadas. Não dava para viver em ritmo de maratona todos os dias. Decidiram ir ao cinema para desacelerar, mas o cansaço era tanto que dormiram durante o filme. Resolveram ouvir o cansaço e pisar mais lento. A mudança para o apartamento veio no início de 2024. Fizeram um chá de casa nova e, depois, foram morar mais afastadas do centro da cidade. Hoje, brincam sobre como tudo mudou: já não vivem naquele ritmo, são mais caseiras e estão em paz com isso. Melina diz que essa é a relação mais saudável que já viveu. Admira a inteligência emocional de Acácia e juntas encontram um equilíbrio leve. Sente que é muito bonito e verdadeiro o quanto querem crescer - e crescem - nessa caminhada. ↓ rolar para baixo ↓ Melina Acácia

  • Documentadas - O Livro | Documentadas

    Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! documentadas - o livro quer ver ele por aí? seja na livraria mais próxima de você, em um bate-papo na sua cidade ou na estante da sua casa: entre em contato com a editora ou adquira um exemplar no site da Funilaria! clica aqui! como ele surgiu? no livro sobre o documentadas há uma seleção de histórias que trazem um pouco da grandiosidade do amor. ele é a materialização desse projeto que está há anos percorrendo o brasil em busca de contar nossas histórias e reconhecer as mulheres sáficas brasileiras enquanto mulheres diversas - com infinitas histórias, realidades e recortes. nas histórias presentes no livro temos diversas cidades do brasil, classes, idades, mas o que une tudo é o fato das mulheres estarem dispostas e serem corajosas em nome do amor. este livro é o primeiro documento brasileiro que se dispõe a contar histórias reais em forma de fotolivro sobre casais formados apenas por duas mulheres. um motivo de celebração para toda a comunidade lgbt. monica benício "esse livro e esse projeto não são apenas peças importantes para nossa história e a nossa cultura. eles são, antes de tudo, ferramentas para a transformação do nosso mundo. um mundo para as mulheres." contando com um prefácio de monica benício, que tanto nos representa na política brasileira (mas não só - numa trajetória de militância que transpassa a política), na sua escrita traz recortes sobre a representatividade e a documentação finalmente nos contarem essa história que foi tão apagada. e dessa vez através do amor, de forma corajosa, com histórias de mulheres inspiradoras que nos impulsionam a desejar seguir nossos sonhos em frente. mariana mortani "uma afirmação da beleza e da profundidade desses relacionamentos que muitas vezes foram deixados de lado." prefácio & posfácio contando com o posfácio da mari mortani, que tem uma trajetória incrível na literatura LGBT+ como roteirista, tradutora e produtora de conteúdos sobre literatura sáfica, ela também fundou o clube sáfico e o podcast chá das quatro, que o doc tanto ama e admira. ter ela no livro é parte importantíssima, explicando o motivo da representatividade e da documentação caminharem juntos. encontre o livro aqui ficha técnica que fez o livro ser possível: todas as pessoas que acreditam na potência do doc, obrigada! autora do livro: fernanda piccolo huggentobler coordenação editorial: caio valiengo, marilia jahnel, renata dei vecchio revisão: caroline fernandes e daniel moreira safadi capa: angela mendes projeto gráfico: angela mendes diagramação: camila provenzi áudios: isadora volino o livro conta com + de 35 casais documentados

  • Cynhia e Leylane | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Cynthia estava com 33 anos no momento da documentação, é natural de Recife, nascida e criada no bairro que fizemos as fotos: em Santo Amaro, na Universidade de Pernambuco. Formou-se em Educação Física, mas hoje em dia trabalha na área de finanças individuais e comportamentais, junto da sua companheira Leylane, que no momento da documentação estava com 38 anos, também formada em Educação Física e que além de atuar na questão financeira sendo consultora e ensinando organização e planejamento financeiro pessoal, também faz parte da saúde pública integrada ao SUS num serviço chamado Academia da Cidade. Leylane entrou na faculdade de Educação Física em 2005, fazendo o curso de licenciatura, depois especialização, bacharelado e mestrado. Como a universidade faz parte da sua vida há tantos anos e gosta muito desse espaço, passava muito tempo por lá. Cynthia, por sua vez, fazia parte de um projeto social da universidade que trabalhava com crianças e adolescentes da comunidade - ela, no caso, uma moradora da comunidade, frequentava a universidade antes mesmo de ser uma aluna. Ou seja, ambas viviam na universidade tanto tempo que nem sabem dizer quando de fato se conheceram, é como se sempre estivessem ali. Por mais que exista 6 anos de diferença na idade entre elas, ainda eram muito jovens e Cynthia, alguns anos depois (em 2011) passou para o vestibular. Nesse momento, todos já se conheciam - ela era amiga tanto dos professores, quanto dos amigos em comum da Leylane - e torciam para ela entrar no curso de educação física. Nessa época, Leylane já havia se formado em licenciatura e cursava bacharelado, foi quando se encontraram enquanto colegas. Leylane conta que se reencontraram num dia que ela foi jogar handebol e Cynthia fazer uma aula de dança, soube que ela estudaria na Universidade e parabenizou, disse que seria muito legal estudarem juntas… Quando as aulas começaram, ficaram na mesma turma e começaram a passar mais tempo do que imaginavam conversando. Leylane chegava do trabalho e Cynthia separava uma cadeira ‘de pessoa canhota’ para ela sentar, sempre faziam os trabalhos de aula juntas, passaram o semestre todo muito próximas, conversavam muito por SMS e, na época, “Oi Torpedo”… Até então se viam apenas como amigas, até que um dia conversaram sobre essa amizade estar “muito colorida” e sobre o medo do que poderia acontecer. Pensaram: “É muito bom, mas se melhorar estraga, então acho melhor ser só isso mesmo.” Porém, ao mesmo tempo, não queriam ficar longe uma da outra. Cederam à vontade e ficaram juntas. Mesmo com medo e pensando que não daria certo, dez dias se passaram e ficaram novamente. Desde então, continuaram. No início não nomearam aquela relação - ou o que sentiam. Aos poucos, como se entendiam enquanto mulheres heterossexuais, chegou num momento que conversaram sobre e decidiram não manter relações com os homens que mantinham antes, até porque iriam se machucar se continuassem. Eram muito mais felizes juntas, não precisavam de nenhum tipo de heterossexualidade compulsória. Todo o relacionamento de Cynthia e Leylane, no começo, era em segredo. Havia muito medo sobre o que as pessoas iriam dizer - elas mesmo estavam descobrindo aquele sentimento, tudo era novidade, e lidar com julgamentos não seria algo fácil. Só dois amigos sabiam (os mais antigos) e desde antes mesmo delas se relacionarem eles sentiam que existia algum sentimento ali e já “avisaram” sobre, então de alguma forma demonstraram apoio (e até hoje são amigos). Como outros amigos e, principalmente familiares, não imaginavam, o refúgio e local seguro delas era o campus da Universidade. A faculdade de educação física se tornou o lugar onde poderiam estar juntas sendo quem elas são, num cantinho - e, durante a documentação, lembram saudosamente os lugares que sentavam e ficavam juntas passando o tempo - só para poderem viver sem esse julgamento. Cerca de 6 meses depois, a mãe da Cynthia acabou descobrindo o namoro e, por mais que no momento ela tenha negado, no dia seguinte resolveu contar a verdade. Na hora, a relação dela foi bem ruim, disse coisas difíceis de ouvir, e mesmo gostando da Leylane (porque a conhecia enquanto amiga da Cynthia) verbalizou que preferiria ver sua filha se relacionando com uma pessoa que não tivesse uma boa vida (se envolvesse com drogas, por exemplo). Na hora, Cynthia defendeu a relação que elas possuem e a realidade da comunidade onde viviam, então saiu e buscou ajuda na casa de uma amiga. Um dia depois, a mãe da Cynthia contou para a mãe da Leylane e, por mais injusto que fosse elas não terem tido o momento e o processo do seu próprio tempo para conversarem com suas famílias sobre seus relacionamentos, foram proibidas de se encontrar. Novamente, a faculdade seguia sendo o refúgio dos encontros. Depois de cerca de quatro anos e diversas formas de lidar, Cynthia e Leylane foram seguindo o relacionamento e enfrentando o preconceito familiar, até que a mãe de Cynthia cedeu e resolveu voltar a aceitar Leylane em sua casa. Foram anos se encontrando na faculdade, na casa de amigos - que sempre foram grandes parceiros e colaboraram para que elas tivessem locais seguros onde ficar - ou em pousadas por Olinda e Recife. Aos seis anos de relação, Leylane passou em um concurso na cidade de Moreno. Financiaram um apartamento numa cidade próxima, Jaboatão, região metropolitana de Recife, e se mudaram. Brincam que queriam tanto morar juntas que já tinham um móvel em casa (guarda-roupa) que guardava só coisas de cozinha (panela, colher, vasilhas…) esperando o momento chegar - e entendendo que não teriam ajuda para a mobília. Então de tempos em tempos compravam coisas e guardavam. Conseguiram, no fim, alguns presentes da família - como eletrodomésticos - e ficaram bem felizes por isso. Em 2018, alguns anos depois, oficializaram o casamento com os documentos e direitos civis respeitados, pensando na importância que isso representa por serem respeitadas enquanto uma unidade familiar. Não iriam fazer festa, mas a mãe da Leylane deu a ideia de comemorarem com um bolo de noivas, chamou alguns familiares; O primo cozinhou, a prima ajudou, alugaram um salão de festas, compraram bebidas e comemoraram como mereciam. No momento da documentação, Cynthia e Leylane já estavam morando em Recife novamente. Desejavam trabalhar com algo que fosse delas, mesmo na área de educação física, e quando Cynthia conheceu o marketing digital e a educação financeira entendeu que gostava de trabalhar nessa área. Leylane havia feito alguns cursos de finanças para uso pessoal, administrando as próprias contas e sempre soube ensinar por conta de ser professora, então resolveu começar a compartilhar os estudos… foi assim que acabaram entrando de vez na área. Admiram o quanto dão certo trabalhando juntas e acreditam que isso é reflexo de tanto tempo de relação e de tudo o que já enfrentaram nesses anos. Ficam muito felizes quando veem os amigos e os familiares admirando o amor que possuem, quando voltam na universidade e os professores ficam felizes em revê-las depois de tanto tempo, sabendo que esse amor começou ali. Hoje em dia adoram andar de bicicleta, ler, sair para beber, dançar pagode, reunir os amigos, conversar (problematizar as coisas… inventar conversas complexas) ou compartilhar os assuntos que estão lendo. Confessam, também, que adoram passar o tempo trabalhando juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Cynthia Leylane

  • Roberta e Laura | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Laura estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Sapiranga, uma cidade interiorana do Rio Grande do Sul, mas mora em Porto Alegre há cerca de 8 anos. Chegou na cidade para estudar dança e hoje em dia trabalha com dança dando aula em alguns projetos para pessoas com deficiências intelectuais e para crianças. Paralelamente, também é professora de inglês, trabalha em uma instituição que promove imersões na língua inglesa. Nessas imersões, ela mistura a dança, outros professores entram com esporte, culinária e a ideia é fazer o inglês ser praticado em um ambiente de “vida real”. Fora do meio profissional, Laura entende que é uma pessoa bastante ligada à família. Foi sua família quem a colocou na dança, alguns familiares são músicos e sempre agradece o ambiente cultural que cresceu e que vive até hoje, percebe o quanto isso fez com que ela se tornasse alguém que adora estar entre as pessoas, gosta de se aventurar e de conhecer o mundo. Roberta estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Canoas, região metropolitana de Porto Alegre. Durante a adolescência se mudou para a capital para estudar na faculdade e começou a trabalhar como educadora social num clube para pessoas com deficiência. Esse trabalho durou seis anos (e é um dos lugares que a Laura trabalha hoje em dia). Conta que foi trabalhando lá onde mudou sua forma de pensar sobre a vida, ainda mais no mundo que vivemos hoje em dia com redes sociais onde tudo tem filtro e é tão perfeito - pensado o tempo todo, medido e tendo que estar sempre lindo. Lidar com pessoas com deficiência é entender a sinceridade e a realidade da vida: elas falam o que querem falar, de uma forma simples e muito mais fácil, então aos poucos Roberta sentiu que era melhor ser assim do que viver nesse “filtro” que não era real. Falar o que sentia, ir onde quer ir, não ir onde não quer, ser mais real consigo mesmo. No meio desses aprendizados, criou um curso chamado “Ação Caminhos Para a Diversidade” sobre anti capacitismo, abordando temas como sexualidade da pessoa com deficiência, oportunidades de trabalho e privação da maternidade. Todo esse processo de estudo fez Roberta entender muito sobre si, sobre quem ela é e estudar sobre seus comportamentos sociais. Hoje em dia, observa que existe outra Roberta, principalmente depois da pandemia de Covid-19. Uma Roberta muito mais caseira, que adora arrumar a casa, fazer decorações, pintar e criar coisas manuais. Quando Laura chegou na faculdade, em 2017, entrou para um projeto de extensão chamado Diversos Corpos Dançantes, uma proposta de dança com habilidades mistas envolvendo pessoas com e sem deficiência. Laura era bolsista e foi a primeira vez que trabalhou com práticas de danças acessíveis, lá conheceu uma amiga e passaram a estudar bastante sobre acessibilidade juntas. Em 2019, Laura fez uma mobilidade acadêmica e foi estudar em Salvador, nos meses que ficou fora sua amiga começou a trabalhar num lugar novo - e conheceu Roberta. Na versão de Roberta, quando ela conheceu a amiga de Laura, só ouvia falar sobre Laura: “Tu me lembra muito a Laura”, “Nossa você e a Laura iriam se dar muito bem!”... Era tanto que passava um pouco dos limites. Quando Laura voltou de Salvador, soube da existência da Roberta e, durante uma Mostra de Dança Inclusiva, em novembro, elas se conheceram. Roberta ia se apresentar com os alunos, estava com uma roupa azul, toda pintada, brinca que parecia um grande pavão. Quando viu Laura entendeu o motivo de todos aqueles elogios que ouviu por meses. Mas, naquela época, Roberta vivia um relacionamento, estava noiva e só entendeu o nervosismo porque achou Laura admirável, mas não aconteceu nada além. Naquele contexto começaram a se seguir nas redes, mas não interagiram. Nos meses seguintes a pandemia de Covid-19 chegou, Laura voltou para a casa dos pais no interior, Roberta terminou o relacionamento e suas vidas passaram por grandes mudanças. Um tempo depois, no meio da pandemia, Roberta estava respondendo uma brincadeira no Instagram e postou sobre estar solteira. Laura respondeu a brincadeira, iniciando um flerte… Roberta jamais esperava essa resposta e ficou bastante nervosa, ignorou ela por alguns meses, não se sentia preparada para flertar, enfrentava momentos delicados na pandemia e quando se sentiu pronta começou a interagir melhor. Durante uma parte da pandemia, Laura trabalhou com algumas ações de dança na internação psiquiátrica do hospital, então acabava tendo um grande contato com a área da saúde e precisava fazer testes a cada 3 dias. Isso influenciou na demora para se encontrarem, até que marcaram um almoço num feriado. Depois do almoço, Laura queria logo comer as outras coisas que seriam para comer mais tarde (pão, bolo…) e pediu se Roberta se importaria. Ela achou positivamente engraçado, mas disse que não, que adoraria, e na hora que Laura se levantou do sofá disse que gostaria de fazer algo antes de buscar o bolo, assim beijou Roberta pela primeira vez. Hoje em dia, virou um bordão: quando levantam do sofá, soltam o “mas antes, quero fazer uma coisa” e se beijam. O começo do namoro foi bem rápido e aconteceu depois de alguns encontros e conversas onde alinharam o que sentiam sobre o que estavam tendo e o que pensavam sobre as relações humanas e amorosas. Num dia, Roberta saiu da casa da Laura e deixou ela no apartamento ‘trancada’ pois só tinham uma chave, precisou comprar uns remédios, entregar um objeto e no caminho encontrou um amigo que chamou para sentar num bar e atualizar as novidades. Ela contou: “Conheci a mulher da minha vida, tô apaixonada!”. Demorou mais que o previsto para voltar, quando chegou encontrou Laura fazendo yoga na sala com um olhar sério, chamando-a para conversar. Pensou: “Meu Deus, ela vai terminar tudo, acabei de falar que tô apaixonada e que é a mulher da minha vida e agora vou voltar lá no bar e dizer: acabou!”. Laura disse que não queria mais ser uma “futura namorada” para Roberta, que cansou desse termo, e que estava disposta a namorar agora. Roberta lembra da sensação de pavor que sentiu, falou “Nossa, guria, que cagaço tu me deu!”. Começaram o namoro e meses depois foram morar juntas por questões financeiras, num apartamento que viveram durante pouco mais de um ano. Sentem que tudo fluiu muito bem, mesmo sendo no começo da relação, morarem juntas foi a escolha mais racional. A única coisa que se arrependeram foi o fato de Laura ter virado a síndica do prédio, isso causava mais stress que qualquer outra coisa, e não compensou o desconto nas contas. Mas hoje, é uma parte até cômica da história, virou “história boa pra contar - a síndica sapatão do prédio”. Roberta e Laura contam como o período das enchentes em Porto Alegre foi impactante e marcante para elas, como é importante documentar esse momento vivido, além da importância histórica e política, mas também pela forma que se cuidaram e seguem apoiando até hoje por contas das marcas e atravessamentos que causou. Já estavam morando no apartamento que residem atualmente - e consideram isso fato importante porque no local que moravam meses antes da enchente certamente teriam perdido muitos itens pessoais e móveis, por ser no térreo e numa região que foi bastante atingida. Porém, mesmo nesse novo lar em andares superiores, ainda estavam sem água e luz, com a rua alagada. Foram para a casa de amigas em um bairro vizinho. Três dias depois, o bairro também foi afetado e as águas subiram rapidamente. Ficaram sem saber para onde ir, até conseguirem um apartamento vazio e irem juntas para lá. Foram dias dormindo no chão, comendo coisas prontas porque não havia como cozinhar, ficando sem tomar banho… Chegaram no limite, até Laura pedir para a mãe dela vir de Sapiranga buscá-las. Era um caminho delicado porque as estradas estavam difíceis, ela tinha bastante medo. Um caminho que leva até menos de 1h em dias comuns, levou 6h naquele dia. Quando chegaram na casa da família de Laura e tomaram um banho, comeram arroz, se olharam entre todas as mulheres e refletiram tudo aquilo que estavam vivendo, viram o significado de união e de família. Entendem que a experiência das enchentes foi muito sensorial: ouviam os helicópteros, as ambulâncias, sentiam a falta d’água, a falta das coisas nos mercados… Todas as dores de ver quem amam perdendo suas coisas, o medo, a insegurança. Foram momentos muito difíceis. Era muito importante reconhecer estar vivendo esse momento com mais duas mulheres, se ver enquanto amigas se apoiando, LGBTs, nossas famílias. Foram duas semanas vivendo em Sapiranga até voltarem para Porto Alegre e participarem da reconstrução da cidade - e entendem que tudo o que acontece até hoje é parte dessa reconstrução. Até hoje pagam as contas de luz daquela época (porque passaram meses sem conseguirem medir), Laura passou a trabalhar muito mais depois do acontecimento, entendem que existem várias consequências que silenciosamente estão presentes no cotidiano e na saúde mental, por isso o acolhimento e o lar enquanto lugar seguro são prioridades dentro da relação. Laura sente o amor presente na rotina, na construção da relação. Quando lembraram sobre a vivência das enchentes em Porto Alegre, reforçaram quanto apoio existiu. Brincam que tinha um dia para cada uma ficar mal “Hoje estou mais triste, então você me apoia, amanhã você fica mais triste que aí já vou estar fortalecida e te apoio…”. Era a forma que encontravam de segurarem a barra no momento extremo, mas entendiam que era uma forma de proteção também. Agora, após alguns anos juntas, visualizam que passaram pelas suas finalizações na universidade, pela pandemia, pelas enchentes, por duas casas, montaram um novo lar juntas… Então, foram encontrando o balanço, a rede de apoio, formaram a família que gostariam de ter. Laura comenta que quando começaram a namorar, fazia apenas dois meses que seu pai faleceu por conta da Covid-19, e Roberta acompanhou seu luto recente. Eram dois sentimentos conflitantes: a dor grande por perder um amor e uma paixão chegando com um novo amor. Foi um processo novo para Laura e, ao mesmo tempo, um processo que Roberta acompanhou de perto a família de Laura vivendo, visto que são muito unidos. O amor também esteve nesse lugar de acolher desde o início. Roberta conta que aprendeu uma nova forma de amar, com uma nova comunicação, com maior liberdade e saindo de lugares traumáticos. Aprendeu a sair de lugares em que precisava fazer tudo sozinha, aprendeu que pode confiar, aprendeu a dividir algumas tarefas que parecem tão básicas mas que sobrecarregam… Nas palavras dela: descobriu que o amor é possível. E, junto da relação, ganhou a nova família - a família da Laura e a família que deseja construir com a Laura, agora que estão com os planos de entrar na fila de adoção em breve. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Roberta

  • Opa, tão nos copiando por aí? | Documentadas

    Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! • como copiar o doc • que esse projeto é lindo a gente já sabe que todo mundo deseja ter um doczinho pra chamar de seu? é óbvio! mas tem gente ultrapassando os limites para chegar nesse objetivo papo reto: o doc é estudado projetado desenhado... não vamos aceitar cópia barata & cafona por aí. então, decidimos: opa, mas calma. caiu aqui de paraquedas e não tá entendendo nadinha? vem conhecer o doc antes! ♥ agora sim, parte 1: a nossa fonte > os nossos lambes a frase "toda mulher merece amar outra mulher" foi adotada pelo .doc a partir de uma documentação que fizemos na casa de um casal [e fotografamos ela em um objeto] em 2021. na época, postamos algumas vezes e recebemos alguns comentários dizendo que deveríamos fazer um adesivo com ela estampada. e não é que deu certo? foi crescendo, crescendo, e virou a cara do documentadas, sendo usada principalmente nos nossos lambes. até então, não disponibilizávamos esses lambes para colarem por aí, acreditamos que ele é a forma que o doc ocupa as ruas enquanto arte. mas agora você pode obter ele clicando aqui: baixar moldes dos lambes aqui #olha a dica! para colar os lambes direitinho, se liga nisso aqui: - pincel ou rolinho na mão; - superfícies lisas >> e não inventa de colar lambe em local privado sem autorização! por favor! dê preferência à postes e converse com o dono do local antes de sair colando por aí; - cola tipo PVA + água, misturadas em um recipiente, não deixando nem muito denso, nem muito líquido; - chama alguém para te acompanhar, não indicamos fazer a colagem sozinha; - deixa o lambe liso com a cola bem espalhada, assim garante a durabilidade :D espalhar a frase por aí com a nossa fonte e a nossa logo é importante para garantir a identidade e a representatividade do projeto, fazendo com que ele seja reconhecido facilmente e amplamente divulgado - afinal, é assim que chegamos em mais mulheres , né? não edite esse material nem recorte a nossa logo dele. colabore com a arte. parte 3: outros produtos do .doc temos outros produtos de alta qualidade que só a gente faz: quadros, camisetas e postais. esses, você encontra na nossa loja. ó a loja do doc, que linda • para entender melhor • por que a pirataria é mais barata? - material de baixa qualidade; - produção em escala absurdamente maior; - possuem fabricação própria; - não estudam e desenvolvem o material, apenas pegam o que já existe de artistas que produzem; - não possui serviço online de retorno (atendimento) - não enviam para todo o Brasil por que os produtos do .doc custam esse valor? - temos um material de melhor qualidade - não possuímos fabricação própria, inclusive temos gasto de frete buscando na cidade de fabricação; - pagamos uma plataforma de venda; - pagamos taxas bancárias a cada venda; - não temos equipe, tudo é feito por uma pessoa (humana & artista); - pagamos pelos materiais que acompanham a ecobag (panfleto pôster + adesivos brindes) + embalagem + etiquetas; - a ecobag é um produto que garante o projeto a se manter em funcionamento, ainda com margem de lucro pequena; - enviamos para todo o Brasil; - qualquer problema que você tiver com o produto (rasgou, não serviu, foi cobrado errado) estaremos aqui para te atender; vamos ensinar a copiar o doc. //como diria nossa mãe: "quer fazer? faz direito". parte 2: nossas ecobags são elas, as queridinhas da pirataria. para a nossa tristeza: porque a ecobag é o nosso principal produto. que vacilo, né? ainda por cima piratearam ela em comic sans. pô, não dá. pega aqui o molde pra fazer a tua. faz bonito, tá? baixar moldes das ecobags aqui [quer vender com a nossa autorização em alguma feirinha? manda um e-mail para nós através do nosso site ou diretamente para fernanda@documentadas.com ] ah, mas que trabalhão fazer, né? também acho. por isso, nossa ecobag está com 60% de desconto no site depois desse furacão que vivemos. sim, é para zerar o estoque. bora com a gente? vamos encarar a pirataria de frente e fazer a nossa ecobag estar pelo Brasil todo. o que faz do doc uma marca incomparável com a pirataria? somos um projeto artístico, estudado e executado com respeito. além disso, em cada produto adquirido você contribui para que mais mulheres tenham suas histórias registradas por todo o Brasil, num documento inédito e que, até o início do projeto, era inexistente. adquirindo um produto pirata, você só contribui para a desvalorização da arte.

  • Keziah e Patricia | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Keziah estava com 26 anos no momento da documentação, é natural de Fortaleza e chegou em Pernambuco em 2021. Atualmente trabalha como engenheira de software, sendo desenvolvedora. Adora praticar esportes, escrever (inclusive já escreveu alguns livros independentes de romances sáficos) e cuidar dos seus bichos - gato, cachorro, papagaio, jabuti e calopsita. Sempre foi apaixonada por jogos e isso a fez cursar uma faculdade de desenvolvimento de jogos - que a levou para ciência da computação. Ao contar sobre a sua trajetória, destaca também que passou 16 anos frequentando a igreja, tendo uma família bastante conservadora, o que refletiu por muito tempo numa carga forte de culpa cristã que sentia em ser quem ela é. Atualmente, sente que as coisas mudaram e são mais tranquilas, mas faz parte de um longo processo de reconhecimento, pertencimento, auto acolhimento e maturidade. Pouco tempo antes da documentação, Patrícia e Keziah haviam visitado Fortaleza juntas e, pela primeira vez, Keziah apresentou uma namorada para os seus pais. Sente que foi muito legal esse passo, nem imaginava que isso um dia poderia acontecer. Estão namorando há anos e a família dela já sabia, mas agora que aconteceu o encontro sabem que é um passo considerável na relação. Patrícia estava com 32 anos no momento da documentação. É natural de Recife, trabalha como designer e adora ler - inclusive, foi por conta desse hobbie que conheceu a Keziah, em 2020. Ficou desempregada e começou a ler ainda mais no tempo livre, procurou pessoas que gostavam de ler para fazer amizades no Twitter e em meio às postagens conheceu um livro dela - leu, amou e procurou o perfil para conhecer mais sobre a autora. Enquanto para Patrícia a história começa quando ela lê um livro da Keziah, para a Keziah a história começa enquanto ela estava num relacionamento em meio à pandemia. Não estava sendo um bom relacionamento, não se sentia feliz e paralelo a isso seu livro estava em ascensão, recebia diversos elogios e comentários positivos diariamente. Decidiu que deveria procurar alguém que estivesse disposta a ler um pouco do que escrevia para dar uma opinião sincera: uma ajuda, um auxílio, iluminar os pensamentos… Então fez algo que até então nunca havia feito: postou que estava procurando essa pessoa. A Patrícia era a pessoa ideal para isso porque comentava muito sobre literatura no Twitter. Falava sobre diversos livros, reclamava ou elogiava, interagia em diversos posts… e foi assim que elas começaram a conversar de fato. A intimidade aumentou rapidamente, mas Keziah nunca levou muito a sério a possibilidade de algo, principalmente por morarem em estados diferentes no meio de uma pandemia. Conversavam, compartilhavam coisas da vida, faziam maratona de filmes, mas acreditavam que seria uma amizade e ela ainda tentava entender e processar o término da relação que vivia. Quando entendeu que estava solteira oficialmente, Patrícia começou a flertar de forma mais direta e até apresentou seus amigos de forma online, compartilhando grupos de jogos durante o período pandêmico. E cada vez mais, também, compartilhavam sobre sua escrita da forma que Keziah procurava: alguém para trazer opiniões e ideias criativas. Alguns meses depois de estarem nesse processo, em meio à pandemia, morando em estados diferentes, mas conversando e já desenvolvendo sentimentos, Keziah voltou a morar com os seus pais no interior do Ceará por conta das questões financeiras de estar desempregada e entendeu: agora está ainda mais distante a ideia dessa relação um dia dar certo. Mas, depois de muita conversa, entenderam o quanto se gostavam e queriam tentar se conhecer pessoalmente, seguir aos poucos a relação à distância. Keziah comprou a passagem para Recife de ônibus logo que algumas medidas de lockdown foram “afrouxadas”, numa viagem de 14 horas. Ficou mais de uma semana hospedada em um apartamento que alugaram para poder ficar isoladas e sem colocar a família em risco. O primeiro lugar que visitaram juntas foi o local que fizemos a documentação (o Marco Zero) e, por mais que Keziah nunca tivesse viajado dessa forma, todas as amigas estavam mais felizes que preocupadas, já torcendo pelo casal. Keziah estava decidida a fazer o ENEM novamente para voltar à faculdade e colocar a opção de cursar no Recife, fazendo sua mudança para lá. Deu a notícia para Patrícia com medo dela se assustar, afinal, estavam se conhecendo pessoalmente depois de tanto tempo… E ela respondeu que não estava nenhum pouco assustava porque na cabeça delas, já poderiam até se casar. Ela pensou: “Ufa, bom, na minha também! Então tá tranquilo!”. Conta que depois dessa primeira semana, se apaixonou completamente por Recife e não se arrepende da escolha que fez de morar na cidade, gosta muito de ter escolhido Pernambuco como seu lar. Cerca de um ano depois de se conhecerem pessoalmente, Keziah se mudou de fato para Recife. Diferente dos planos iniciais, não fez o ENEM, mas sim um processo seletivo numa empresa e já chegou na cidade com um trabalho fixo. No começo, alugou um apartamento, mas passava tanto tempo na casa da Patrícia que acabou indo morar lá de vez. A família da Patrícia, por sua vez, não aceitava no início o fato dela se relacionar com outra mulher… mas foi aprendendo a lidar (e adorar) a companhia da Keziah. Um dia, quando a Keziah ainda morava em Fortaleza e contou que gostaria de se mudar, ao se despedir a mãe da Patrícia disse para ela voltar mais vezes, pois adorava a “casa com barulho”. Pois vivem bem e a casa segue com barulho todos os dias. Passaram a entender o amor como uma escolha. Enxergam a paixão que sempre existiu, mas o amor que vivem nessa rotina, dentro de casa com os pais, com os bichos, com a saga por terminar a faculdade, os desafios do trabalho ou vivendo na cidade, são escolhas diárias que firmam compartilhar e ultrapassar juntas. Ficam positivamente surpresas quando enxergam o equilíbrio que lidam com as coisas e a construção que foi feita nesses anos. Ressaltam que é um amor que leva o tempo inteiro: desde uma acordar mais cedo para poder fazer o café para a outra ir na faculdade e não perder o horário considerando todo o trânsito que leva até chegar, todas as formas que consideram suas correrias e dividem os pesos para não ser tão pesado pra uma pessoa só… acreditam que tudo só dá certo por conta disso. “Eu acho que dá certo porque a gente estava sempre, tipo... Tentando se ajudar. Sim. O tempo inteiro.” Quando para pra pensar nesses 4 anos de relação, Keziah conta sobre um diagnóstico de depressão que foi dado há anos atrás e que, na época, o pensamento era que não havia perspectiva de coisas boas. Como se no futuro não houvesse lugar para nada de bom na vida pessoal ou profissional. Mas hoje em dia, de alguma forma, o relacionamento faz tudo parecer muito leve e é muito legal pensar sobre esse merecimento do amor. Hoje em dia também não há mais diagnóstico depressivo. ↓ rolar para baixo ↓ Patricia Keziah

  • Ariadne e Barbara | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Barbara estava com 35 anos no momento da documentação. Natural de Recife, mora na casa em que fizemos a documentação desde que nasceu. É psicóloga, atende casais e trabalha também numa luderia - uma casa com jogos - que começou como um grande hobby e que se tornou um empreendimento com mais dois amigos. Lá é um dos lugares onde ela e Ari se sentem mais felizes, junto com os amigos, descobrindo novos jogos ou jogando os mesmos de sempre que adoram. Bárbara também é apaixonada por sua família e por seus bichos. Ariadne estava com 33 anos no momento da documentação. É formada em publicidade e também em psicologia, atua enquanto psicóloga atendendo na área da gestalt terapia (inclusive atende no documentadas!). É natural do Rio de Janeiro, mas cresceu em Recife e entende que precisou ser adulta muito cedo, saindo de casa e encarando a vida. É apaixonada por jogos, por literatura, crochê, artesanato… está sempre aprendendo algo novo. Em 2018, quando Ari e Barbara se conheceram, Ari estava num relacionamento que já durava cerca de seis anos com um homem e havia uma mudança planejada para São Paulo para morarem juntos. Fez uma entrevista de emprego, conseguiu passar, estava com a data marcada para começar o trabalho. No processo da ida para São Paulo, decidiram abrir a relação, já que estavam longe, e Ari entrou em um aplicativo de relacionamentos. Foi quando viu uma pessoa que estudava com ela na faculdade - a Barbara. Porém, na sala de aula, Ari não interagia com os colegas, ficava no seu canto e não chamava atenção. Quando começaram a conversar no aplicativo, Barbara não lembrava da Ari ser sua colega, e a foto da Ari era meio escura, não mostrava muito seu rosto porque ela não queria se expor… Barbara até sondou com os amigos: “Gente, quem é essa pessoa?!” mas ninguém soube dizer… até que uma amiga em comum a reconheceu. Durante o final de semana elas conversaram e marcaram um encontro na terça-feira, mas segunda iriam se ver na faculdade de qualquer forma e ficaram nervosas porque não sabiam como reagiriam. Brincam que foi a coisa mais vergonhosa que já fizeram, não se cumprimentaram na sala, Ari chegou a sentar próximo da Barbara/do grupo de amigos dela e piorou a situação porque o celular da Bárbara quebrou e ela queria uma forma de comunicar Ari sobre isso, mas ao invés de simplesmente dizer para ela, escrever um bilhete ou qualquer coisa semelhante, ela resolveu falar muito alto “EITA galera!! Meu celular quebrou!!!” jogando o celular no chão. E depois, deu todo um jeito de conseguir o número dela com um amigo, para falar com ela sobre o encontro. Hoje em dia dão muita risada sobre a imaturidade, era realmente só falar, mas faz parte do nervosismo que estavam tendo com a situação. Ari conta que Barbara foi o primeiro encontro dela tendo um relacionamento aberto, e ainda era a menina da sala dela na faculdade… Isso era motivo o bastante para estar ansiosa. Fumou um cigarro antes de chegar, depois se arrependeu por conta do cheiro do cigarro que iria ficar na roupa… Já chegou falando “Eu não fumo!! Isso aqui é de vez em nunca!” antes mesmo da Barbara perguntar. Tiveram um encontro muito bom, Ari contou que estava com a viagem marcada para ir embora, a conversa fluiu por muito tempo, passaram a madrugada e viram o dia amanhecer. Quando se despediram, falaram que se encontrariam na faculdade à noite e combinaram: como se cumprimentar, como agir. Para que não se repetisse o que aconteceu na segunda-feira. Continuaram se encontrando na faculdade, tendo o romance “com prazo de validade”, até que um dia estavam voltando da aula, Ari olhou e disse: “Eu nem vou mais viajar pra São Paulo” numa naturalidade imensa. Ari explica que percebeu o quanto o relacionamento não era um lugar bom, que estava há muito tempo querendo sair e que abrir para conhecer outras pessoas foi quase que uma fuga para que seu ex companheiro arrumasse alguém e conseguisse ficar em São Paulo sendo feliz, assim a barreira física não seria mais um problema. Percebeu que estava apaixonada por Bárbara, que não fazia sentido dar continuidade na mudança e nem que estava preparada para se mudar e mudar toda sua vida. Decidiu primeiro cancelar a mudança, não terminar a relação de imediato, mas cancelar os planos. Ari contou para o ex companheiro que estava se relacionando com Barbara e aos poucos foi ficando evidente o quanto elas estavam juntas, até o momento em que entenderam que seria melhor terminar. Barbara conta que durante esse processo, aconteceram dois momentos importantes: o primeiro foi um dia que elas se embriagaram e se declararam, entenderam que não era uma paixão momentânea e que estavam sentindo algo real, mesmo sendo sinceras porque estavam bêbadas. E a segunda situação foi durante uma cerimônia de Ayahuasca, em que conversaram e que Ari estava incomodada por não terem uma definição sobre o que elas eram. Bárbara foi muito direta: “Você namora e eu estou solteira. Quando você resolver sua vida, a gente namora.” e no dia seguinte Ari terminou sua relação. Entendem que, no fim, o processo foi intenso e rápido. Viveram outras relações longas que exigiam muito menos coragem. E juntas, desde o primeiro dia, fizeram coisas que em outros relacionamentos não conseguiram fazer: andar de mãos dadas com outra mulher na rua, por exemplo, de uma forma muito natural, espontânea, corajosa. Apresentaram suas famílias, ficam felizes por todos se darem tão bem e conviverem juntos, romperam muitas barreiras de forma rápida. Depois de um ano de relação, Ari e Bárbara viveram a pandemia de Covid-19 ainda morando em casas separadas, mas Ari passou um tempo morando sozinha e por conta das dificuldades que a pandemia demandava em mobilidade decidiram passar mais tempo juntas na casa dela ou na casa de Barbara. Decidiram morar juntas por um tempo no fim da pandemia, até que Ari devolveu o apartamento e conversaram sobre alugar um apartamento e formar um lar. Viram que os custos eram bastante altos, então o pai de Barbara ofereceu parte da casa onde ele mora - e lugar que fizemos a documentação - para que elas morassem com os bichos em um lugar espaçoso e confortável. Estão há pouco mais de dois anos morando juntas nesse novo lar e há cerca de um ano e meio abriram a luderia, casa de jogos de tabuleiros que empreendem junto com outros dois amigos. A ideia surgiu porque durante a pandemia começaram a alugar alguns dos seus jogos, entenderam o potencial e a demanda, ainda mais por não haver algo assim em Recife, foi quando abriram o espaço físico junto com um bar. Contando sobre a luderia, elas dão um exemplo de como se dão bem na comunicação e nos planos: numa situação, ficaram muito tempo tentando explicar uma coisa uma para a outra. Ari tentava explicar sua visão e não entendia a visão da Bárbara de jeito algum, enquanto Bárbara passava pelo mesmo, mas elas não desistiram de tentar se comunicar. Foi quando Bárbara disse como era legal ver o quanto elas se esforçaram para ouvir e falar, explicar os pontos, serem didáticas, até desenharam. Acreditam que isso se espelha em toda a relação e na forma que conduzem as coisas. Nunca tiveram brigas pesadas, sempre prezam pelo respeito e pelo carinho, acreditam que o amor está nesse lugar que respeita quem a pessoa é e acompanha o crescimento dela. ↓ rolar para baixo ↓ Barbara Ariadne

  • Juliana e Luisa | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Luísa estava com 29 anos no momento da documentação. É formada em teatro, mas sua atual profissão é ser professora de inglês. Natural de Nova Prata, cidade interiorana do Rio Grande do Sul, viveu oito anos em Porto Alegre, onde estudou - e onde também mantém muitos amigos até hoje. É apaixonada (vamos dizer, fascinada) pelo universo do horror-terror, foi o assunto do seu trabalho de conclusão de curso e espaço escolhido para fazer a nossa documentação acontecer (um café temático em Porto Alegre), afinal, ela compartilhou sua paixão com a Ju durante o relacionamento. Juliana, por sua vez, estava com 36 anos no momento da documentação. Também nasceu em Nova Prata e viveu em Porto Alegre por uma década antes de retornar à cidade, em 2016. Filha mais velha de pais separados, descreve sua família como “bagunçada, mas com afeto”. Conta que precisou de muito tempo (e terapia) para entender seu processo e se livrar aos poucos das expectativas e dos padrões familiares que são impostos ao longo da vida. Em 2022, deixou o emprego formal para se dedicar ao bordado livre, arte que aprendeu com a avó, que era muito habilidosa e adorava costurar, bordar, trabalhar com madeira e outros artesanatos e, além do trabalho, Juliana também estuda psicologia atualmente. Quando começaram a namorar, o universo do horror era muito temido pela Ju. Ela sempre sonhava com os filmes, se assustava, tinha medo. Luísa aos poucos passou a incentivar outro olhar, um olhar de arte como algo provocativo e reflexivo, uma forma de expressão que incomoda para fazer pensar. Mesmo nas cenas de susto, quando chega a levantar os pés da cadeira e segurar firme a mão, aprendeu a rir depois, entender o susto e o que ele provoca. Hoje, o medo virou também um lugar de encontro, curiosidade e afeto entre as duas. Ao viver uma vida padrão esperada, a Ju acreditava que a felicidade viria no check dessa ‘lista’ imaginária - tinha a faculdade certa, o emprego estável, o relacionamento esperado. Mas ao chegar aos trinta e poucos anos, entendeu que nada disso preenchia um vazio. Se sentia frustrada. Nessa mesma época, aos 33 anos, participou da criação de um núcleo de mulheres na cidade, e foi colando lambes nas ruas, em plena pandemia, que viu Luísa pela primeira vez. Ainda sem compreender direito o que sentia, ficou encantada pela presença dela. Sentia que queria conhecer mais, chamar ela para sair. Foi nesse processo de frustração e descoberta que começou a pensar sobre ser uma mulher lésbica, mas ainda de forma muito calma, respeitando seu processo. Diferente da Ju (que não tinha muitas referências lésbicas ou bissexuais por perto) Luísa conta que sempre foi a “responsável” e a “certinha” entre os seus. Cresceu numa família majoritariamente feminina e cercada por primas que se relacionam com outras mulheres. Tímida, introspectiva e tranquila, sua sexualidade foi algo que surgiu de modo natural, quase como uma confirmação de algo que todos à sua volta já percebiam. Quando entrou para o teatro, o contato com outras formas de liberdade a fez repensar seu próprio lugar no mundo, e mudou um pouco a sua forma de se relacionar. Quase dois anos depois daquele primeiro encontro no coletivo de mulheres em Nova Prata, Ju criou coragem para enviar uma mensagem a Luísa. Parecia ser simples, né? Só enviar uma mensagem. Mas o receio da Ju é que elas tinham uma certa diferença de idade e ela não queria parecer uma pessoa muito aleatória fazendo um convite estranho. Mas o convite foi aceito e o encontro foi muito bom, tanto que já quiseram repetir em seguida. Logo estavam juntas, sem precisar de grandes planos ou certezas, apenas com o desejo de permanecer. Desde então, foram aprendendo a compartilhar um amor, uma forma de estar no mundo, a coragem, o humor, os desencontros… E Luísa ainda morava em Porto Alegre, então ainda aprenderam a compartilhar um pouco de distância também. Como o namoro da Ju e da Luísa começou entre Porto Alegre e o interior do Rio Grande do Sul, a semana era dividida em um tempo na capital, outro tempo na casa do pai da Ju, em Nova Prata - e esse foi o momento de apresentar às famílias também. O pai dela reagiu de uma forma até um pouco engraçada, afinal, ela não sabia o que esperar da reação dele e tinha certo medo. Ele não morava de forma fixa no Rio Grande do Sul e ela aproveitou uma vinda para falar sobre o namoro. Nas palavras de Ju, foi assim: “Pai, a gente tem que conversar. Porque eu estou saindo com outra pessoa. Eu estou vendo essa pessoa. E talvez ela venha aqui. E é uma mulher. E daí ele disse: ‘Tá. Tá bom. Tudo bem. Tu teve namoros muito ruins com homens, talvez tu seja mais feliz agora’” (risos). E foi nesse dia que eles se conheceram. Dias depois foram conhecendo outros familiares e as coisas foram se ajeitando da melhor forma, com serenidade. O namoro seguiu com espontaneidade. Em 2023, com um ano de relação e a Lu já morando em Nova Prata, decidiram se casar. O debate sobre o casamento homoafetivo voltava à pauta na Câmara dos Deputados e elas sentiam cada vez mais a certeza do afeto, então resolveram celebrar numa cerimônia pequena, num restaurante acolhedor, pouco antes do Natal, para que o pai de Juliana pudesse estar presente. Entre mesas apertadas, famílias misturadas, a sobrinha apaixonada pelas flores e pelo vestido, o cuidado onde cada familiar iria sentar… o momento se tornou um retrato delicado da união: simples, verdadeiro e cheio de amor. Depois da cerimônia de casamento, elas começaram a planejar a possibilidade do primeiro lar verdadeiramente seu. Ele deu certo em 2025 e, quando pergunto como está sendo, Ju explica que essa nova casa simboliza algo além do casamento: é a conquista da autonomia, o rompimento com antigos vínculos familiares e o início de uma vida guiada por escolhas próprias. Entre risadas, sustos de filmes de terror e silêncios confortáveis, as duas constroem uma rotina que traduz aquilo que buscavam desde o início: a sensação de estar, finalmente, em casa. Ju e Luísa passaram a ouvir com frequência comentários de amigos e familiares sobre como parecem ainda melhores juntas. A nova casa trouxe algo que antes faltava: privacidade e pertencimento. Com o tempo, aprendem também sobre os próprios limites e como eles podem ser diferentes entre si. Juliana, acostumada à convivência intensa da família, precisou entender o valor do silêncio e da reserva que Luísa prezava. Luísa, por sua vez, aprendeu a acolher essa espontaneidade familiar que faz parte da história da companheira. Nesse processo, a busca pelo convívio mais harmonioso foi o que permitiu que cada uma reconhecesse o que traz conforto e o que precisa ser ajustado. Reconhecem também o amadurecimento, o quanto a relação foi amadurecendo nesses anos. Elas atravessaram perdas e desafios: o luto, mudanças de trabalho, afastamentos de amizades, os sonhos que se materializaram… e assim o vínculo se consolida. O amor antes era uma idealização, algo romântico, agora é uma manifestação cotidiana de cuidado, escuta e apoio. A convivência se tornou um espelho de crescimento individual: quanto mais se fortalecem como casal, mais se transformam como pessoas. É movimento. ↓ rolar para baixo ↓ Luísa Juliana

  • Claudia e Vanessa | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Cláudia estava com 54 anos no momento da documentação. É natural de Castanhal, interior do Pará, mas mora há anos em São Miguel do Guamá e é apaixonada pela cidade e pela região. Sua vida sempre foi atravessada pela arte, caminho que se intensificou quando morou em São Paulo por 15 anos. A mudança inicialmente era temporária, planejada para apenas dois anos de trabalho, mas acabou se prolongando quando ela decidiu continuar morando lá. Antes mesmo de se sentir sozinha em São Paulo, encontrou acolhimento na comunidade budista (que já fazia parte desde sua moradia no interior paraense) e decidiu seguir na capital, sabendo que tinha com quem contar. Nesse período, ingressou em uma escola de cerâmica, primeiro como agente administrativa. Aos poucos, sua curiosidade pela prática cresceu, até que se aproximou do laboratório e do torno. Um dia, vendo o laboratório vazio enquanto limpava, se arriscou e sentou para moldar uma peça. Como ela mesmo diz, “levantou” a peça do barro. E surpreendeu: quando voltaram, perguntaram quem foi que havia feito aquilo, pois havia ficado muito bom. O fato é que enquanto outros levavam anos para conseguir levantar a primeira forma, ela, apenas observando o processo, levantou de primeira. Apaixonada pelo barro, a cerâmica passou a ocupar um lugar central em sua vida. Depois de cinco anos distante do Pará, sem contato com conhecidos da região, decidiu retornar. Foi nesse reencontro com suas raízes que retomou o contato com a Vanessa (que conhecia desde criança). E é nessa volta que mais um momento da vida delas se cruza, mas não chega ainda a caminhar lado a lado. Vanessa e Cláudia se conheceram ainda crianças, quando tinham seis e nove anos. Cresceram muito unidas e, na pré-adolescência, a ligação entre as duas era tão perceptível que a mãe de Cláudia decidiu afastá-las, mandando ela para Manaus, com a desculpa de que iria trabalhar. O que seria uma temporada curta, apenas uma viagem como um experimento, acabou se estendendo por dois anos. Mesmo assim, sempre que Cláudia retornava (dessa ou de outras viagens que vieram a acontecer com frequência), as duas encontravam formas de se falar, ainda que de maneira breve e improvisada. Na adolescência e já adultas, mantiveram os encontros, guiados pelo boca a boca das pequenas cidades - todo mundo contava que Cláudia estava chegando, seja de barco ou de ônibus, até porque não havia celular ou internet para que se comunicassem. E nisso, havia também os desencontros: vez ou outra, Vanessa sabia tarde demais, Cláudia já havia partido de volta. Essa história, que foi se estendendo por boa parte da vida delas, também foi marcada por afastamentos. Ambas viveram outros casamentos, outras relações, construindo trajetórias paralelas. Um episódio marcante aconteceu quando tinham cerca de 30 anos: se reencontraram em Santa Maria, no interior do Pará. Cláudia chegou uma semana antes do que havia avisado à família, apenas para garantir o encontro com Vanessa, não deixando ninguém imaginar. No momento da documentação, Vanessa estava com 51 anos. Nascida em Salinas, vive há muitos anos em São Miguel do Guamá e também é apaixonada pela cidade e pela região. Foi pioneira numa das principais rádios locais, é uma figura importante falando sobre os direitos da mulher na cidade e tem diversas histórias relacionadas às figuras políticas locais. Sua trajetória e de Cláudia se entrelaçam o tempo todo com as histórias da cidade, afinal, desde que estão juntas dedicam todo o seu tempo para melhorar o lugar em que vivem. Vanessa lembra de uma cena que marcou a relação e a juventude delas: a mãe de Cláudia procurando sua mãe, conhecida como ‘Tia Alice’, para propor um trato: “Fique de olho na Vanessa, que eu vou ficar de olho na Cláudia, porque nessa idade pode acontecer qualquer coisa”. Para Vanessa e Cláudia, ainda adolescentes, aquilo foi doloroso e confuso. Não compreendiam ao certo o que havia por trás da vigilância. Faltava conhecimento, consciência e até mesmo uma certa malícia. Não sabiam nomear o que sentiam. Com o passar dos anos, Vanessa se casou, mas quando sua mãe adoeceu enfrentou muitos problemas na relação. A pessoa com quem se relacionava entendia que o adoecimento da mãe era um problema só dela e, por isso, ela não via mais sentido na relação, não se sentia numa relação de parceria. Nesse período, do nada, enquanto estava no hospital com a mãe, recebeu um telefonema: de Cláudia. Ela chegou a duvidar do que via na tela do telefone. “É você mesmo?”. Claudia chegou não só trazendo a lembrança de algo que ainda estava vivo, mas a companhia de poder compartilhar o cuidado, o carinho. Juntas, viveram o tempo do cuidado à mãe de Vanessa até ela falecer. Foi nesse reencontro que o amor, tantas vezes interrompido, reencontrou também seu espaço para existir. A mãe de Cláudia nunca conseguiu compreender como esse amor sobreviveu a tantas tentativas de separação - ela mesmo confessa. Hoje, porém, dá o braço a torcer e reconhece a força de um sentimento que resistiu ao tempo e às distâncias. Vanessa e Cláudia, por sua vez, também não sabem explicar com exatidão como, depois de tantos desencontros e caminhos diferentes. Talvez, precisasse mesmo ser assim. O que importa é que agora vivem “a vida é de nós duas”, como elas mesmo dizem, sem a necessidade da aprovação ou opinião de terceiros. Com a decisão de viverem juntas, assumiram não apenas o relacionamento, mas também uma paixão em comum: a cerâmica. Aos poucos, foram conquistando espaço e reconhecimento na cidade, criando laços através do trabalho artístico. Mantiveram seus empregos formais, mas logo passaram a ser conhecidas como ceramistas talentosas, com diversas encomendas. Há cerca de oito anos, Vanessa adoeceu. Foi diagnosticada com uma doença raríssima, esclerosante e degenerativa, somada à fibromialgia. O quadro grave fez com que Cláudia precisasse deixar o trabalho para cuidar dela em tempo integral, numa rotina com muita incerteza e sofrimento. No começo, desmaiava muitas vezes por dia, foi cogitado estar com câncer durante oito meses e chegaram a se despedir algumas vezes antes de terem o diagnóstico correto, mas Cláudia sempre dizia o quanto elas batalharam muito para ficarem juntas, não era agora que ela ficaria sozinha. Depois do diagnóstico e de acertarem os remédios, Vanessa respondeu com firmeza: teve uma melhora e pode seguir o tratamento em casa. Sem poder trabalhar e enfrentando limitações severas, elas sobreviveram graças às doações dos amigos. Pessoas das cidades vizinhas se mobilizaram, trazendo frutas, legumes, roupas e alimentos de bicicleta, partilhando o que tinham em suas casas. Mesmo sem nunca pedirem, a rede de afeto se formou de maneira natural, mostrando como eram queridas e como o amor que construíram ao longo da vida foi retribuído. Hoje, a doença está mais controlada, ainda que não consigam seguir uma rotina de trabalho, conseguem produzir algumas peças de cerâmica. A casa foi adaptada, o ateliê também. Celebram a chance de viver plenamente um amor que resistiu a tantas tentativas de apagamento e sentem a realização não só por estarem juntas, mas por verem o amor transbordando para os amigos, aproximando a família e inspirando os que conhecem suas histórias. ↓ rolar para baixo ↓ Cláudia Vanessa

  • Susy e Pâmela | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Susy estava com 38 anos no momento da documentação. Nasceu em Imperatriz, interior do Maranhão e também já morou no Pará por um período de trabalho. Sua volta ao Maranhão foi motivada pela saudade da Pâmela, como ela brinca ao contar. Atualmente trabalha enquanto pedagoga em uma escola de educação infantil do bairro e também na Universidade Estadual do Maranhão, onde pesquisa gênero e sexualidades. Além da vida profissional, gosta de dançar, assistir filmes e séries. Pâmela estava com 37 anos no momento da documentação. Também é natural de Imperatriz, mas nunca morou fora da cidade. Enfermeira formada pela Universidade Federal do Maranhão, atua na área há mais de 13 anos e também dá aulas em uma faculdade particular. É apaixonada por leitura, cinema, cozinhar, fazer churrasco e explorar o universo do café, ainda que de forma simples, gosta de aprender um pouco. Afirma ser mais tímida do que Susy, mas se solta quando está em ambientes seguros e acolhedores. Em 2008, na universidade, Susy e Pâmela foram apresentadas por uma amiga em comum. Susy cursava pedagogia à noite e Pâmela enfermagem durante o dia (a amiga, por sua vez, cursava direito - eram áreas diferentes interagindo). Pâmela era envolvida na militância da universidade… Susy era mais na dela e não concordava muito com as greves. Mas algo foi se unindo: na época, Susy participava de uma igreja evangélica junto com a amiga e Pâmela, embora de família católica, também começava a frequentar a mesma religião que elas. Então a aproximação inicial veio desse espaço religioso e das atividades da universidade. A amizade se formou com naturalidade, até que se viram conversando muito mais que o normal - no início era por SMS, aproveitando os 60 minutos de ligação a cada recarga… depois migraram para o MSN usando os computadores disponíveis no laboratório da universidade ou no trabalho do pai da Pâmela... Fato era: estarem juntas ou trocarem mensagens o tempo todo era o que as deixava feliz, com uma intimidade crescendo junto da conexão. O ponto de virada aconteceu quando Susy organizou um aniversário para Pâmela, já que esse não era um costume em sua família. Preparou fotos, vídeos e depoimentos para exibir na igreja. Ao selecionar as imagens, encontrou uma em que Pâmela estava mergulhado no Rio Tocantins (rio que beira a orla de Imperatriz). Ao ver a foto, Susy ficou ‘paralisada’ um tempo, não conseguia parar de olhar e percebeu algo diferente: essa admiração não era a mesma admiração que tinha por outras amigas. Foi ali que entendeu, pela primeira vez, que havia algo além da amizade entre elas. A aproximação entre Susy e Pâmela foi deixando de ser só uma amizade de forma muito sutil: os abraços demorados, os carinhos discretos, tudo havia muito toque na pele. Aos domingos, Pâmela buscava Susy de carro para irem juntas à igreja e naquele momento criavam um espaço de intimidade não-nomeada. Mas o primeiro beijo só foi acontecer de fato no centro acadêmico da universidade, onde Pâmela era responsável por algumas coisas do espaço e lá poderiam se sentir seguras quando estavam sozinhas. Porém, junto do afeto veio também o peso da culpa, alimentado pelo ambiente religioso e pelo preconceito familiar. Ou seja: depois de ficarem juntas no centro acadêmico, entenderam em conjunto que estavam errando e decidiram por confessar o que aconteceu às lideranças da igreja - que orientaram cada vez mais o afastamento. Assim, em 2010, interromperam o contato próximo e se restringiram a uma amizade contida. Durante os próximos quatro anos muitas coisas aconteceram… Susy se mudou para o Pará, elas se formaram e a relação ficou suspensa nesse lugar da amizade - mas que internamente era puro desejo. Mesmo sem assumir o que sentiam, a atração nunca desapareceu: às vezes se encontravam e o toque na pele ainda deixava claro que havia algo ali. Mas, o conflito era intenso, sobretudo para Pâmela que enfrentava muitos comentários homofóbicos dentro de casa. Em 2015, fora do ambiente da igreja, decidiram finalmente dar uma chance ao relacionamento. O namoro começou às escondidas, sem que ninguém da família ou do círculo de amizades soubesse oficialmente. E esse sigilo durou: foram quase cinco anos vivendo o amor em silêncio, entre encontros discretos e afetos guardados pra ser vividos apenas sem ninguém por perto. Alguns amigos desconfiavam, mas não havia perguntas diretas e elas também não se sentiam bem para contar. Foi um período que o amor significou: se proteger. Durante uma viagem a Salvador, no ano novo de 2018 para 2019, Pâmela pediu Susy em casamento. Não havia ainda uma perspectiva clara de como concretizar esse passo, mas o gesto representava a certeza de que queria dividir a vida com ela. De volta à Imperatriz no começo do ano, a decisão de assumir a relação começou a pesar mais para Pâmela, especialmente por causa das questões familiares e da dificuldade em enfrentar a rejeição que sabia que poderia vir. Susy, que já morava sozinha, recebia Pâmela em sua casa aos finais de semana, e nesse período começaram a considerar morar juntas. Pensaram também em alugar ou comprar um apartamento, até que surgiu a ideia de formalizar uma união estável. Mas toda a conversa foi evoluindo: se fariam a união, então que fosse um casamento. Numa única noite, entre um papo corajoso e cerveja, decidiram tudo. No dia 16 de maio de 2019 oficializaram o casamento - e foi com o casamento que se assumiram publicamente. Decidiram que cada uma contaria para a própria família no mesmo dia e horário. Susy levou a mãe até sua casa, enquanto Pâmela saiu mais cedo do trabalho e também contou para sua família. A conversa foi direta: não se tratava de pedir autorização, mas de afirmar a escolha de viver juntas e de reconhecer que a relação já existia havia cinco anos. A decisão era simples, a reação nem tanto. A mãe de Susy não recebeu bem a notícia e desde então nunca aceitou bem a relação. Entretanto, mesmo com o preconceito enraizado das famílias, elas seguiram firmes na decisão e no compromisso assumido. Não foi fácil viver tantos anos um relacionamento escondido de todos, mas agora entendem que vivem o melhor do bem-estar e da maturidade que foi construída nesse tempo todo. Susy conta de um período de fragilidade que passou por uma cirurgia e que Pâmela cuidou dela de uma forma intensa e inesperada. Ainda depois de tantos anos, esse momento foi muito importante e fez a relação ultrapassar o campo do amor romântico, é um espaço de cuidado e entrega. Elas contam também como o amor se tornou referência. O próprio casamento que foi pioneiro em Imperatriz - antes a cidade nunca havia oficializado união entre mulheres no cartório. Hoje elas contam como frequentemente pessoas chegam para reconhecer a relação delas enquanto uma inspiração e como isso é importante porque elas não tiveram referências quando começaram. Susy mesmo citou que parecia impossível que lá, no “último DDD do mapa” (o DDD 99), parecia que essas coisas nunca iriam dar certo. Mas foram prova de que deu (e dá). Hoje em dia a naturalidade faz parte de tudo: seja sair de mãos dadas, trocar gestos de afeto, participar de eventos LGBTs na cidade… fazem questão de viver sendo quem são. O lar, marcado pelos dois gatinhos e por um canto seguro, também é o espaço acolhedor onde fazem questão de viver bem. Não há mais motivos para não ser quem são. ↓ rolar para baixo ↓ Susy Pâmela

  • livro | Documentadas

    Aline e Aya audio

  • Vivian e Danielle | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vivian é natural de Araranguá, cidade interiorana de Santa Catarina. Estava com 25 anos no momento da documentação e trabalha com marketing, sendo social media. Cursa faculdade de letras, adora cinema, música, literatura e tudo o que é relacionado à arte. Danielle estava com 20 anos no momento da documentação, é natural de Jacinto Machado, cidade interiorana catarinense, mas mora em Araranguá. Estuda educação física e deseja ser professora. No momento trabalha enquanto auxiliar de faturamento e no tempo livre adora praticar esportes, jogar videogame e desenhar. Por mais que agora tenham trabalhos distintos, Vivi e Dani se conheceram trabalhando no mesmo lugar sendo estagiárias de educação infantil, em 2022. Vivi conta que não gostava muito da Dani, achava ela chata, porque ela era estagiária de uma coisa só, enquanto Vivi precisava dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo. Foi por causa das eleições presidenciais que começaram a conversar, sabendo dos seus posicionamentos políticos semelhantes. Dentro da escola, eram as únicas que possuíam um pensamento que não era conservador perante às eleições que se aproximavam. Conversavam sobre e se aproximavam através das ideologias em comum. Vivi ainda não sabia se realmente cedia para começar a gostar da Dani, primeiro como amiga, depois sentindo algo a mais… havia saído de um relacionamento héterossexual e passou por um processo para se ver sozinha e, depois, entender que estava gostando da Dani. Foi num passeio com os alunos da escola, quando Dani estava jogando bola com as crianças, caiu, e Vivi ficou muito preocupada… percebeu que sentia algo a mais. Na época a proximidade delas já era grande, Vivi ficava nas aulas de Educação Física auxiliando para estar mais próxima da Dani, brincavam com os alunos (e jogavam entre si)… Sentiam a relação crescendo naturalmente. Todos ao redor de Vivi tentavam dizer que ela não era uma mulher heterossexual, mas ela afirmava que era impossível. Hoje, percebe que só ela não havia percebido ainda - e que tudo bem, era o seu processo. Num dia, falou sobre isso numa rede social e Dani respondeu. Desde então, foram se permitindo acontecer enquanto um casal. Mas tudo levou o tempo que precisava levar, foi só em 2024 que ela se entendeu e assumiu de fato enquanto uma mulher que ama outra mulher. Na versão de Dani, o dia em que ela caiu brincando com as crianças sendo estagiária na escola também foi definitivo para entender que gostava da Vivi. Se sentiu meio solitária depois da queda, como se não tivessem dado muita bola, sendo que ela se machucou de verdade. E foi significativo Vivi ter se importado e realmente cuidado dela. Sente, também, que as crianças sempre souberam que as duas se gostavam - e sempre aceitaram. Não precisavam falar, não precisavam se justificar, era algo muito natural. Diferente das outras professoras e colegas, que eram preconceituosas, então precisavam esconder o máximo possível. Até quando assumiram o namoro, passaram a usar alianças e na escola não usavam ou disfarçavam. Tiveram algumas professoras com quem puderam contar - e alunos também, que sempre apoiavam, o que foi a salvação na maioria desse tempo. Como são pessoas jovens, sempre eram questionadas pelas outras professoras na escola, principalmente por uma delas estar com a aliança. Queriam ver fotos e saber “do namorado”. Foi mais de um ano de relacionamento vivendo uma realidade assim no trabalho, chegaram a morar juntas para facilitar a rotina por conta da casa da família da Vivi ser numa região mais central e Dani não precisar vir de tão longe para trabalhar e estudar, o que era melhor em alguns pontos, mas mais difícil para esconder o quão próximas estavam… até que saíram do estágio (em momentos diferentes) e puderam assumir o relacionamento de outra forma. Depois da escola, Vivi foi trabalhar em uma agência de marketing, ambiente totalmente diferente. Sente que não precisava se esconder, foi a primeira vez que chegou contando quem era e o relacionamento que tinha, sem restrição. E Dani voltou a morar com a família dela, comprou um carro, a qualidade de vida melhorou consideravelmente. Vivi conta sobre o quanto a relação com a Dani fez ela se enxergar de forma diferente. A autoestima dela não existia antes. Agora, conforme ela foi se conhecendo, conhecendo a Dani, permitindo que a Dani a conhecesse, foram evoluindo no amor de uma forma que ela nem sabia que poderia existir. Pôde se descobrir, ver quem era de verdade e encontrar um valor nessa existência. Antes não sentia que existia, agora sente que as pessoas vão gostar dela exatamente como ela é. Nas palavras de Vivi: “Tá tudo bem eu ser desse jeito. Inclusive pra ir comprar roupa, uma coisa básica, eu não conseguia escolher roupa. Eu não conseguia me olhar no espelho. E aí depois que ela apareceu, ela foi falando... Ai Vivian, tu é assim. Ai Vivian, te amo por causa disso. Eu gosto de ti por causa disso. Aí eu fui descobrindo que... Tudo bem, sabe? Agora eu consigo comprar roupa. Foi um processo que ela me ajudou muito. Com meu corpo, com as minhas inseguranças.” Para elas, o amor está no sentido mais completo, que abraça a família que possuem, os animais - a gata, o cachorro, o peixe, todos eles sendo da família - a forma que tratam e que são tratadas, como se incluem nos planos, em como tornam as pequenas coisas algo grande… Sempre foram mais fechadas, pessoas que não aceitam ajuda, não deixavam alguém fazer algo por elas porque davam conta sozinhas. Agora aprendem a compartilhar, entendem que não precisam ficar com todo o peso, soltam um alerta na comunicação quando está demais. E acreditam que nesses momentos o amor está presente também. No dia das fotos, Dani pediu Vivi em casamento, e foi uma honra para o doc ter participado desse momento. ♥ desejamos que esse amor siga feliz! ↓ rolar para baixo ↓ Vivian Danielle

  • Vanessa e Kris | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vanessa estava com 35 anos no momento da documentação. É natural de Porto Velho, Rondônia, e é farmacêutica há cerca de dez anos. Desde então, há 6 anos, se mudou para Criciúma, em Santa Catarina, em busca de melhorias no trabalho. Na época, chegou na cidade acompanhada do ex-marido, mas com o passar do tempo a relação acabou e ela entendeu que queria seguir na cidade, construindo sua carreira. Hoje, ela descreve a própria vida como tranquila: gosta de caminhar em parques, sair para um pub, tomar um chopp de vez em quando e reunir a família aos fins de semana. Vanessa possui um filho de 10 anos que mora atualmente em Porto Velho junto da família, embora já tenha vivido um período em Santa Catarina e seja apaixonado por ela e pela Kris - agora, elas organizam a vida para que ele possa voltar a morar perto. Kristiane estava com 33 anos no momento da documentação. Nasceu em Nova Veneza e vive em Criciúma. Trabalha há anos com estética animal, sempre ligada ao universo de banho, tosa e pet shops. Diferente da estabilidade tranquila que vive hoje, ela brinca dizendo que já teve uma fase “meio cigana”, sempre indo de um lugar para outro. Chegou a morar quase um ano em Portugal antes de retornar para Santa Catarina. Hoje, sente que vive um momento muito mais sereno da vida. Gosta de estar com amigos, fazer encontros em casa e aproveitar programas simples. Mesmo vindas de lugares muito diferentes - o norte e o sul - as duas parecem compartilhar uma mesma ideia de felicidade: uma vida mais calma, construída nos pequenos momentos. Vanessa e Kris passaram meses vivendo um relacionamento que existia apenas entre telas, fusos horários e expectativas, até se conhecerem pessoalmente. Foi no Instagram, em 2023, que Vanessa, recém saída de um relacionamento conturbado, encontrou o perfil de Kris no ‘explorar’ e decidiu curtir praticamente todas as fotos dela. Kris estava em Portugal havia alguns meses, trabalhando em pet shop, tentando fazer a vida acontecer ali, já começava a se sentir cansada e deslocada, só continuava lá pelo ganho financeiro, mas sentia muita saudade de casa. No começo a troca de mensagens foi meio estranha, sem dar muita atenção. Mas quando conversaram de fato, tiveram uma conexão imediata. Depois veio o WhatsApp, as chamadas de vídeo e a sensação estranha de intimidade com alguém que nunca se viu pessoalmente. Vanessa lembra que, na época, ela estava extremamente loira nas fotos, e Kris pediu uma videochamada porque queria confirmar que aquela mulher existia mesmo. E existia. A partir dali, passaram a conversar todos os dias. Mas tudo foi interrompido. Vanessa enfrentou um agravamento severo da depressão, foi hospitalizada e desapareceu completamente. Sem ter acesso ao celular, não enviava notícias para a Kris, que ficou sem entender nada - mandava mensagens que ninguém respondia, ligava e ninguém atendia. Quando Vanessa voltou a responder, semanas depois, carregava o medo de ser rejeitada ao revelar o que estava vivendo. Achava que Kris fugiria ao descobrir sua doença, o histórico das internações, a fragilidade que existia por trás da mulher engraçada e expansiva das chamadas de vídeo. Mas a resposta foi o contrário do que ela esperava: Kris acolheu a situação com delicadeza, contou que já tinha convivido com a depressão na família e pediu apenas uma coisa: “Só não some mais.” Depois disso, a relação ficou ainda mais intensa. Mesmo sem nunca terem se encontrado pessoalmente, as duas sentiam que já viviam um relacionamento à distância. Enquanto Kris retornava de Portugal para o Brasil, Vanessa também via a própria vida mudar completamente. Precisou deixar Criciúma, voltar para Porto Velho e recomeçar perto da família, porque precisava de cuidado no momento pós-internação. Elas não se encontraram pessoalmente porque Vanessa viajou para Porto Velho poucas semanas antes da volta de Kris. Entenderam que “precisavam adiar um pouco o primeiro encontro”. Em Porto Velho, Vanessa tentava ocupar a mente trabalhando nas farmácias para não adoecer novamente, até ser contratada para gerenciar uma nova unidade. Entusiasmada, convidou Kris para ir até Rondônia visitá-la. Kris, que tinha acabado de voltar da Europa, comprou a passagem. Como ela iria explicar para a família que estava indo para o outro lado do país visitar uma pessoa que ainda não conhecia pessoalmente? Não importava. Pela primeira vez, parecia que finalmente iriam se encontrar. Só que, menos de um dia depois, Vanessa recebeu uma nova proposta de trabalho: precisaria viajar para gerenciar a montagem de novas lojas. Desesperada, ligou pedindo que Kris cancelasse a passagem antes do prazo do reembolso acabar. Para Kris, aquilo soou como um golpe. Parecia impossível acreditar que alguém pudesse chamar outra pessoa para atravessar o país e, horas depois, desfazer tudo. Elas passaram uma semana sem se falar. Mesmo assim, voltaram. Porque apesar da frustração, da distância e das mudanças constantes, havia alguma coisa ali que insistia em permanecer. A dúvida continuava a mesma: quando finalmente iriam se encontrar? Vanessa não chegou a completar a viagem que o trabalho implicou e, foi demitida, próximo ao natal. Tomou uma decisão impulsiva: mandou mensagem para Kris dizendo que compraria uma passagem para Criciúma. Pediu o cartão dela emprestado para conseguir emitir a viagem e Kris, mesmo depois de tudo que já tinha dado errado entre elas, emprestou. Vanessa passou o natal com a família em Porto Velho e, logo depois, atravessou o país para encontrar pela primeira vez a mulher com quem falava todos os dias há meses. A viagem foi um caos: voo longo, cancelamento entre as conexões, hotel no meio do caminho, carona… As duas tinham combinado de se encontrar no aeroporto, mas até isso saiu diferente do planejado. Vanessa desembarcou em Florianópolis e precisou pegar uma carona até Criciúma. Quando finalmente se encontraram, tudo ficou simples: “A gente se olhou e disse: oi, amor.” Deram um selinho e Vanessa sentiu como se tivesse voltado para casa. Não houve estranhamento, vergonha ou adaptação. Era como se já se conhecessem há muito tempo e o encontro presencial apenas confirmasse algo que já existia antes. Desde aquele dia, nunca mais se separaram. Vanessa chegou ao apartamento de Kris e simplesmente ficou. Brincam que talvez tenham batido algum recorde de rapidez em relacionamento, porque literalmente passaram a morar juntas no mesmo dia em que se encontraram pela primeira vez. Pouco depois, o filho de Vanessa foi para Criciúma conhecer Kris também. A família de Vanessa já desconfiava da relação, embora ainda existisse resistência e dificuldade de aceitar tudo aquilo. Aos poucos, porém, a convivência foi transformando as coisas. Kris conta que hoje existe proximidade, carinho e uma relação muito mais leve entre todos. Enquanto isso, Vanessa conseguiu emprego rapidamente na área farmacêutica, que considera muito forte na região. Trouxe o carro, reorganizou a rotina e começou a reconstruir a vida no sul. Vanessa acredita que a relação delas se sustenta principalmente em diálogo. Depois da forte depressão em 2023, ela passou a fazer acompanhamento intensivo no CAPS até o final de 2024, e entende hoje que a terapia foi fundamental para conseguir atravessar não só a depressão, mas também os medos que carregava dos relacionamentos anteriores. Existiam inseguranças profundas, especialmente o receio de não ser compreendida ou de voltar a adoecer emocionalmente dentro de uma relação. Ao mesmo tempo, ela e Kris sempre tiveram o hábito de conversar sobre tudo. Não no sentido de exigir mudanças uma da outra, mas de aprender a moldar convivências, entender limites. E foi justamente no cotidiano, nos pequenos conflitos e nas conversas difíceis, que aprenderam a lidar uma com a outra. Ainda em 2024, já sentiam que tinham encontrado um encaixe. Para Kris, uma das coisas mais importantes era poder viver uma relação sem precisar esconder quem era. A família dela recebeu Vanessa com naturalidade e carinho desde o começo, então era difícil imaginar permanecer num relacionamento onde precisassem se esconder ou viver pela metade. Ela brinca que sonhava com algo simples: almoçar na casa da sogra aos domingos. Parecia banal, mas carregava um desejo profundo de pertencimento e reconhecimento. Aos poucos, Vanessa também começou a se assumir mais abertamente dentro da própria família. E a convivência foi transformando tudo. Depois de morarem em dois apartamentos diferentes em Criciúma, decidiram recomeçar mais uma vez quando Vanessa recebeu uma proposta de trabalho em Brusque, em 2025. Com cinco mil reais emprestados, colocaram a vida inteira dentro de um caminhão e partiram juntas, praticamente sem planejamento. Kris conseguiu emprego rapidamente em um pet shop e as duas tentaram construir uma nova rotina ali. Mas Brusque não virou lar. A saudade da família, o desgaste emocional e algumas inseguranças dentro da relação fizeram com que começassem a perceber que não estavam felizes. Vanessa conseguiu transferência para voltar a trabalhar em Criciúma, na mesma empresa e, no fim de 2025, retornaram. Foi também nesse período que se casaram oficialmente. A família de Vanessa viajou de Porto Velho para passar as férias em Santa Catarina e, pela primeira vez, todas as partes da vida delas começaram a se misturar de verdade: veio o filho, os sobrinhos, a mãe, a irmã. A rotina mudou completamente. E meses depois elas foram até Porto Velho também, então aquele almoço de domingo na casa da sogra, que Kris sonhava desde o começo, finalmente aconteceu. Hoje, Vanessa diz que enxerga o amor delas principalmente na paciência. Ela se percebe muito diferente da mulher ansiosa e impulsiva que era antes. Entende que amar outra mulher também exigiu reaprender formas de cuidado, delicadeza e comunicação. Kris acredita que também amadureceu muito dentro da relação, especialmente em relação ao ciúme. Conta que sempre foi extremamente ciumenta, mas que aprendeu que a vida não pode existir apenas ao redor do relacionamento. Ainda que tenham uma relação muito próxima, tentam cada vez mais construir individualidade e leveza. E agora vivem um novo momento: a possibilidade de ter filhos juntas. Vanessa voltou a desejar a maternidade e sonha em engravidar novamente, enquanto Kris sempre imaginou a construção da família pela adoção. Ela nunca teve vontade de gestar, embora deseje profundamente ser mãe. Então as duas conversam, negociam possibilidades, imaginam futuros diferentes. Para elas, a relação parece funcionar em fases muito marcadas: 2024 foi o ano da paixão intensa e da descoberta; 2025, o da estabilidade e do casamento. Agora, em 2026, sentem que estão entrando em um novo degrau: o de imaginar, pela primeira vez, uma família juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Vanessa Kris

  • Vanessa e Dayanne | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Dayanne estava com 34 anos no momento da documentação. Nasceu em Aracaju e é psicóloga, professora e musicista. Com três trabalhos que refletem suas paixões, a música sempre esteve presente na sua vida, enquanto a psicologia surgiu ainda na adolescência, em uma feira de profissões que a fez descobrir seu caminho. Depois, o mestrado a levou à carreira docente, onde também a realizou. Além da rotina intensa, ela adora assistir séries e viajar para conhecer novas culturas e lugares. No palco, seu talento brilha: toca surdo, teclado, instrumentos de percussão, canta e integra uma banda de samba, mostrando que a música é um caminho, samba é democracia. Vanessa estava com 32 anos no momento da documentação, é natural de Simão Dias, no centro-sul de Sergipe, e chegou a Aracaju em 2017 para estudar. Criada em um povoado, onde o ritmo da vida era mais conectado à natureza e respeitando o tempo das coisas, teve um grande choque cultural ao se mudar para a capital. Após abandonar o curso de enfermagem por dificuldades em conciliar trabalho e estudos, encontrou sua verdadeira vocação em marketing, alinhando a paixão pela comunicação ao seu histórico como produtora cultural no interior. No passar dos anos foi convidada para ser educadora e, mesmo tendo uma avó e uma mãe educadoras, nunca foi algo que ela tinha imaginado trabalhar - e aqui ressalta que sua mãe, merendeira, talvez nem saiba que era educadora, mas que toda pessoa trabalhadora de escola educa e merece ser tratada enquanto educador. Hoje, ocupa um lugar de educadora antirracista, acredita que é sua missão de vida - e que sua espiritualidade chegou para confirmar. Ambas destacam a importância de serem retratadas como mulheres pretas, candomblecistas, conscientes de seus corpos vulneráveis, mas plenas em sua capacidade de ocupar espaços - que até mesmo quando crianças não imaginavam que poderiam estar ocupando. Sabem que todos os lugares que habitam têm uma dimensão política, e levam isso consigo, seja estudando, conversando, refletindo ou se divertindo. Com personalidades vibrantes e muito ligadas à rua, ou melhor, “rueiras”, são mulheres que amam estar no mundo, vivendo intensamente e construindo histórias significativas. Dayanne nunca foi de paquerar, muito menos pelas redes sociais, mas em 2022 Vanessa a seguiu no Instagram e logo chamou sua atenção. Ela chegou a comentar com uma amiga: “Nossa, que menina bonita!”. Já tinha visto Vanessa em alguns sambas e resolveu segui-la de volta. Aos poucos, as interações começaram com reações aos stories e passaram a sugerir encontros presenciais. Quando finalmente se viram, parecia que já se conheciam há anos. A conexão foi imediata e diferente de tudo que já tinham vivido. Dayanne, em especial, enfrentava um momento de confusão interna e refletia: “É agora? É essa pessoa?”. Percebeu que o que sentia era genuíno e forte, e que o amor, como estava vivendo, poderia ser algo tranquilo, leve e livre, sem controle ou imposições. No primeiro encontro, combinaram de se encontrar no apartamento de Dayanne antes de irem a uma festa temática dos anos 90. Chegaram ao evento de mãos dadas, como se já fossem um casal. Riem ao lembrar que o local não era nada romântico: músicas do É o Tchan tocando alto, precisando gritar para se ouvir. Felizmente, o tempo no apartamento garantiu que se conectassem antes do caos da festa. Desde aquele dia, continuaram se encontrando, e tudo foi acontecendo naturalmente, com leveza e diversão. Com o tempo e muitas conversas, descobriram curiosidades que pareciam unir ainda mais os caminhos: os pais de Dayanne, por exemplo, se conheceram no povoado onde Vanessa nasceu. Esses detalhes só reforçaram a sensação de que já estavam ligadas de alguma forma. Tudo foi acontecendo de forma bonita e intensa, ao mesmo tempo que se estende de forma leve, divertida, tranquila, diferente do que já se imaginaram vivendo. Aprendem, assim, que o amor é sem querer controlar o desejo do outro, “sem querer fazer com que o outro seja o que eu quero que ele seja”. Dayanne e Vanessa fazem questão de manter uma comunicação aberta e honesta, sempre conversando sobre seus desejos e construindo a relação com cuidado e atenção. Como diz bell hooks, o amor é uma escolha. Não o que ele desperta na hora que você sente, mas o que você vai construir com isso, como ele vai ser construído na relação. Por isso, fazem questão de considerar seus desejos e falam sobre eles o tempo todo. Vanessa cresceu em um lar onde a igreja católica estava presente no mesmo terreno da sua casa, porque sua avó doou parte do terreno para a construção. Frequentou o catolicismo até os 18 anos, mas sempre teve interesse por outras culturas e religiões, simpatizava com tudo o que era do povo preto. Com o tempo, decidiu se afastar das igrejas e, quando conheceu Day, soube que ela já era parte de um terreiro em São Cristóvão (cidade em que fizemos as fotos). Apesar disso, Dayanne nunca a pressionou a frequentar - e tinha o cuidado de não a influenciar. Vanessa passou a visitar terreiros urbanos por curiosidade e interesse, mas frequentava de fato religiões. Na época, dividia o lar com a irmã, que era evangélica, e até se permitiu algumas vivências na religião dela também. Quando passou a frequentar mais os terreiros, sentia-se limitada por não poder vivenciar isso livremente em casa. As vivências se intensificaram perante o reconhecimento na religião e, em meios a essas conversas e necessidades, Day e Vanessa decidiram morar juntas para viver com mais liberdade e acolhimento. São Cristóvão se tornou um símbolo importante na trajetória delas. Além de ser a cidade do terreiro que conecta suas crenças, foi lá que aconteceu o pedido de casamento, em um show de Rachel Reis, cantora que amam. Agora, sonham em construir uma família candomblecista, dando continuidade ao amor, à ancestralidade e às crenças e aos valores que compartilham. Day conta que se abriu sobre sua sexualidade para a família há pouco tempo. Antes de contar, enfrentou o medo da rejeição, mas foi acolhida com amor e apoio. Sua família não apenas a aceitou, mas ajudou a realizar o sonho de comprar a casa onde vivem. Esse acolhimento foi crucial para que ela se sentisse segura sendo quem é, tanto em casa quanto em outros espaços, como no trabalho. Hoje, todos ao seu redor sabem que ela é uma mulher bissexual em um relacionamento lésbico. Até sua avó, católica e com mais de 80 anos, respeita profundamente o casal e suas escolhas, refletindo como o amor caminha lado a lado com o respeito e a admiração. Day destaca a importância de dar visibilidade à bissexualidade. Ela reconhece que sua compreensão sobre si mesma foi tardia porque, durante boa parte da vida, não sabia que poderia nomear essas experiências. Sempre teve paixões por meninos e “admirações” por meninas: que poderiam ter sido paixões, mas que ficaram sem nome. Ela ressalta como é importante acolher a bissexualidade desde o início, em vez de buscar culpados para algo que não é errado. Por isso, faz questão de não deixar o "B" ser apagado e discute a temática de forma aberta, especialmente por entender que se torna referência para seus alunos, criando um espaço de acolhimento e segurança. Vanessa, por outro lado, cresceu em uma família marcada por mulheres fortes, especialmente mães solo. Com poucos exemplos de casais ao seu redor, precisou construir sua própria ideia de afeto e relacionamentos. Aprendeu que não precisa estar em um espaço de sempre agradar ao outro e esquecer de si, mas sim de um relacionamento saudável, pautado em autoamor e troca. Como mulheres negras em um relacionamento entre mulheres, elas enfrentaram olhares de fetichização, julgamentos que tentam reduzir o relacionamento a uma fase ou curtição. Por isso, ambas se dedicam a construir um amor que foge dessas narrativas, valorizando o cuidado, o enaltecimento mútuo e uma nova forma de amar. Esse relacionamento reflete a força que encontram uma na outra, no enaltecimento. Tanto no âmbito pessoal quanto na luta por respeito e visibilidade. Para elas, o amor é sobre aprender, construir e cuidar, enquanto criam uma narrativa que reflete o afeto e a elevação que desejam viver. ↓ rolar para baixo ↓ Vanessa Dayanne

  • Natália e Talita | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Talita estava com 36 anos no momento da documentação. É natural do Rio de Janeiro, mas mora em São Paulo há oito anos, quando se mudou por conta do trabalho, sendo gerente de operações em uma multinacional na área de resseguros. No tempo livre, adora passear, fazer atividades físicas, jogar futebol, estar com os amigos e reunir pessoas. Sua família ainda mora no Rio de Janeiro, então busca ir com frequência e ver a cidade com olhares de turista. Natália estava com 28 anos no momento da documentação, é natural de São Paulo, da zona norte. Adora a vida na cidade, as pessoas, os encontros, os bares, exposições, teatros… Trabalha na área de direitos humanos, dentro de uma organização que tem isso enquanto propósito. Gosta muito dos rituais diários e também de tudo o que fala sobre a espiritualidade (do céu, das estrelas…) e também é apaixonada por literatura. Foi em agosto de 2022 que Nath e Talita se conheceram, num momento pós-pandemia que começaram a sair de casa, depois de muito se isolar durante os momentos de Covid-19. Talita chegou a voltar para a casa da sua família no Rio de Janeiro e, quando a vacina foi liberada, veio novamente à São Paulo. Sempre que tentava encontrar os amigos, era em casa ou em praças públicas, foi num dia bastante atípico que se sentiu cansada, depois de uma mudança, e viu que merecia desestressar curtindo um samba. Natália, por sua vez, também vivia um processo de começar a sair após os meses de reclusão. E também tinha vários motivos para não querer sair naquele dia. Mas conheceu uma banda de samba numa ida para o Rio e essa seria a primeira vez da banda em São Paulo. Ela pensou: é a chance de garantir um bom samba em casa! Sente que foi um momento de respiro, um samba de muita liberdade, depois de tanto tempo. Elas se encontraram mas também encontraram muitas pessoas, dançaram, foram felizes. Nath voltou contente para casa pela noite que viveu, não lembra muito bem com detalhes de tudo o que aconteceu no samba, mas no dia seguinte tinha uma mensagem da Talita no Instagram dela propondo o que ela quisesse: um vinho, uma cerveja, um café. Talita também estava muito feliz pelo dia e por ter conhecido Nath. Ela ficou surpresa com a mensagem - positivamente surpresa. E topou o encontro. A questão do primeiro encontro da Nath e da Talita era a seguinte: elas haviam se conhecido em uma festa, conversado numa rede social e não sabiam muito sobre a vida uma da outra; Queriam se encontrar, mas a rotina demandava correria. Marcaram para duas semanas depois, mas foram surgindo compromissos e mais compromissos, Nath entendia que o ideal seria um tempo de qualidade, mas era melhor se encontrarem logo do que só adiar para sabe-se lá quando o encontro. Marcaram um almoço, no meio de um sábado - inclusive no restaurante em que fizemos a documentação acontecer. Logo o primeiro abraço foi interrompido por uma conhecida que estava passando na rua no meio da situação e que começou a conversar, mas quando finalmente sentaram, almoçaram, dividiram uma cerveja… sentem que esse encontro já estava destinado à acontecer. Conversaram sobre muitos assuntos e não viram o tempo passar. Mas passou: e já era a hora do outro compromisso, foi quando Nath falou “Olha, eu preciso ir, tenho um outro compromisso. Mas à noite eu vou pra um samba, aniversário de um amigo. Se você quiser ir…”. Talita inventou um compromisso na hora também, brinca que o compromisso dela era esperar o compromisso da Nath, e assim se reencontraram no aniversário do amigo. Elas estavam tão conectadas que o amigo, aniversariante, chamou a Nath em um canto dizendo o quanto estava encantado por ela estar em um relacionamento, queria saber mais sobre essa nova pessoa. Ela riu e disse: “Conheci essa menina hoje!”. Mas essa fala vindo de uma terceira pessoa percebendo como elas já estavam em sintonia permaneceu sempre marcada em como a relação se constrói. Todo o início do namoro, ou melhor, do não-namoro - e você já vai entender o motivo - foi marcado por um momento muito conectado, unido. Todos os amigos comentavam que elas já estavam namorando, só não nomeavam. E era tranquilo para elas, estava “acontecendo”. Assim foram seguindo os meses em 2022. Sentem que tudo ainda era mais fluído porque não circulavam pelos mesmos meios. Os amigos não eram amigos em comum, acabaram se tornando aos poucos… Não tinham trabalhos semelhantes, não tinham rotinas semelhantes… Se não fosse pelo evento de samba, não se conheceriam por outros meios rotineiros. Então o cotidiano diferente trazia um interesse e uma fluidez que era algo novo na vida delas. Quando 2023 chegou, Nath recebeu uma proposta de trabalho que envolveria se mudar para Brasília. Quando contou para Talita na hora ela apoiou, falou como era incrível, como seria uma nova jornada maravilhosa. Nath não sabia qual reação exatamente esperava, mas essa foi outra surpresa muito boa: o incentivo imediato. Ela tinha quatro dias para decidir se iria se mudar e, com o apoio da Talita vibrando e torcendo por ela, topou a proposta. Naquele mesmo fim de semana, entre os quatro dias, foram no samba novamente (o mesmo em que se conheceram) e no dia seguinte Talita pediu Nath em namoro (viu, aí sim elas estão namorando… aham!) com um pedido super querido em formato de podcast para se ouvir no café da manhã (contando a própria história delas) e no domingo à noite a ficha caiu: “Meu Deus do céu, eu estou namorando, estou indo pra Brasília”. Talita apresentou a Natália para sua família enquanto sua primeira namorada, numa ida de muita festa ao Rio de Janeiro. Os tios, primos, as crianças da família, todos se reuniram numa quarta-feira fazendo um grande churrasco. Com Nath em Brasília, sempre que podia, Talita viajava para lá. Com a possibilidade de trabalho em home office, no começo iria para passar um fim de semana ou feriado, mas depois acabava passando dias e mais dias. Até que meses depois, em dezembro, foi e ficou três meses. Contam que por mais que a distância mexa muito com a saudade, sentiam uma troca muito grande envolvendo a parceria. Ao todo, Natália morou um ano e meio em Brasília e contou com progressos muito importantes na vida profissional. A relação também passou por muitas fases significativas: amadureceram no processo, amadureceram as relações com as suas famílias, suas independências… Mas hoje em dia, juntas na mesma cidade, ficam felizes de estarem mais próximas fisicamente novamente. Em fevereiro de 2024 noivaram numa viagem para Santo Amaro, na Bahia, no dia de Iemanjá. Foi num lugar tradicional, na festa da cidade, com boas energias, num pedido sem muito planejar, onde estavam se sentindo muito bem. Gostam muito de estarem sempre chamando boas pessoas para perto, sejam pessoas que param para elogiar o amor bonito que demonstram sentir, os amigos ou os familiares. No momento estão planejando o casamento e descobrindo o quanto adoram a ideia da celebração. Nessa reflexão sobre como estão felizes se permitirem celebrar um amor tão bonito, percebem que essa relação realçou a melhor parte delas, porque tantas outras relações (amorosas ou não) despersonalizam e fazem com que as pessoas se percam do seu caminho, não se reconheçam mais… enquanto ali é muito bom perceber que a relação que constroem fortalece quem são em seus melhores lugares, mas não só - instiga para que sigam descobrindo outros desejos, inspirações, que cresçam. Para Talita, o amor que vivem hoje em dia é um amor que acrescenta: se vê o tempo todo somando mais amigos, a família aumentando, a mãe mudando o olhar sobre a vida, a parceria o tempo todo presente nos detalhes - seja num café, num esforço que dividem para não ficar tão pesado, no quanto compartilham como está sendo o dia fazendo a companhia presente… é um amor que circula entre o pequeno e a escolha de vida. Para Natália, a relação representa um autoconhecimento muito grande. Mostra que é possível mudar. Mostra o poder da disposição. E o quanto isso se reflete nas outras coisas: sente que ter uma relação saudável faz com que ela tenha um posicionamento muito mais firme em outros lugares da vida, não aceite situações de abuso em outros ambientes, não releve coisas que são violentas, esteja sempre pensando sua comunicação… são momentos assim que percebe como o amor que vivem é muito além de algo romântico, é uma mudança diária. ↓ rolar para baixo ↓ Talita Natália

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