top of page

Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

292 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Cilla e Fabiana | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Fabiana estava com 37 anos no momento da documentação. É professora de química e está atualmente fazendo doutorado na Universidade Federal do Pará. Além das aulas na universidade, também dá aulas particulares para estudantes do ensino fundamental e médio, ensinando química, física e matemática. É uma pessoa caseira, apaixonada por tarot, astrologia e espiritualidade, se considerando católica não praticante. Acredita que existem saberes para além das religiões tradicionais, e gosta de explorar esses caminhos esotéricos. Nos momentos livres, ama maratonar filmes e torcer para o Palmeiras, seu time do coração. Sua trajetória acadêmica é o grande motivo de orgulho, sempre quis estudar e se formar numa universidade federal. É licenciada em química e formada também em química industrial, se dedicou muito, por vezes abdicou de ter vida social e preferiu os estudos. Sabendo dessa prioridade, também, sempre é grata à sua família por ter apoiado, sido base para que ela conseguisse conquistar esse sonho. Cila estava com 34 anos no momento da documentação. É fotógrafa, filmmaker e social media. Apaixonada por fotografia desde a época das câmeras analógicas, além de ter uma forte ligação com a música: compõe, canta e toca alguns instrumentos. Tem músicas autorais publicadas até nas plataformas de streaming e já fez apresentações que envolviam outros artistas autistas. Atualmente, estuda produção multimídia na UFPA e também jornalismo, fazendo a modalidade EAD. Já morou em lugares como Paraíba e Canadá, mas enfrentando algumas situações difíceis, precisou voltar para Belém. Hoje em dia passou a entender seu modo de aprender, se acolher de melhor forma… Passou cinco anos cuidando do pai, já idoso, que estava bastante doente (uma fase que exigiu muito emocionalmente), agora reingresso na faculdade e se dedica ao que realmente ama: a fotografia, a arte e a comunicação. Cila fez a cirurgia bariátrica em 2024 e a recuperação não foi nenhum pouco fácil. Após muitos anos sendo militante contra a gordofobia, viu sua saúde prejudicada e optou pela cirurgia, sendo necessário passar por todo um processo desafiador. Fabi foi uma presença fundamental: se reinventou em coisas que não sabia, aprendeu a cozinhar, Cila a representa como uma luz: sempre aparece quando a escuridão ameaça tomar conta. Com ela, encontrou uma parceira de verdade, em todas as dificuldades. E mais do que isso: ganhou uma nova família - as tias da Fabi, por exemplo. Os vínculos, as famílias que se agregaram, a casa que constroem juntas, para as duas se tornou uma relação saudável que nem imaginava que poderia existir. Fabi, por sua vez, nunca tinha tido um relacionamento antes (com mulheres ou com homens). Nem imaginava que relações amorosas pudessem ser tão tranquilas. Conheceu Cila em 2022, por um aplicativo de relacionamentos. Já estava quase desistindo da ideia de usar os aplicativos, na verdade, porque as conversas não fluíam. Mas Cila fez de tudo para chamar sua atenção e começaram a conversar. O papo foi fluindo de forma positiva e a primeira proposta de encontro foi ir ao circo. Fabi adorou, achou super criativo, divertido. Infelizmente não deu certo, mas a outra proposta também foi legal: uma peça musical sobre Queen no teatro. Foram e, durante o intervalo, a conversa entre elas foi tão leve e espontânea que se sentiram em casa. Nas palavras de Fabi, pareciam se conhecer há muito tempo. O encontro teve que terminar cedo porque Fabi tinha uma prova no dia seguinte, mas antes de irem embora, Cila a convidou para sua festa de aniversário que seria nos próximos dias. Fabi foi, levou um presente, e esse gesto mexeu com Cila: ela quem sempre tomava as atitudes de presentear, se dedicar aos outros, pela primeira vez se via sendo cuidada. “Ela nem tinha me beijado ainda e já se preocupava em me agradar”, lembra. Não era pelo valor financeiro, era pela atitude. Depois que ficaram juntas pela primeira vez, no aniversário da Cila, elas continuaram se encontrando e nutrindo a paixão que ia acontecendo. Fabi viu em Cila o que ela nem sabia que era possível buscar em alguém, mas que admirava: uma pessoa responsável, carinhosa, dedicada ao trabalho, aos estudos e à família, principalmente, por ela cuidar do seu pai que estava doente, sendo a principal responsável por ele. Fabi, que por muito tempo adiou a vida amorosa por conta de estudos e trabalho, desejava uma parceira que entendesse esse ritmo, que tivesse paciência e vontade de construir uma vida compartilhada. Com Cila sentiu que isso pela primeira vez poderia ser possível. Em maio, durante o aniversário de uma amiga que sempre apoiou o casal, a amiga incentivou Fabi a pedir Cila em namoro. Cila chegou um pouco depois, direto do trabalho, e Fabi fez o pedido na frente de todos. Contam como foi legal, inesperado e simples. Sentiram-se respeitadas, celebradas, e desde então vivem uma relação de parceria. Juntas, já viajaram ao Rio de Janeiro, estudaram espanhol e foram para a Argentina…. Estão sempre topando o novo. Passaram por vários momentos difíceis, deixaram a comunicação afiada, e não largaram as mãos. Fabi também adotou as gatas que Cila trouxe do Canadá, agora são delas e tratam com muito carinho. Hoje vivem uma parceria sólida, com poucas brigas e muita escuta. Quando uma está em crise, a outra sabe exatamente o que fazer: um abraço forte, um gesto de cuidado, uma palavra certa, dar um tempo para uma ficar no quarto processando... São lugares de respeito. Quando Cila convidou Fabiana para morarem juntas, em maio de 2023, depois de um ano de relação, Fabi hesitou. Não faltava vontade, mas havia um medo de sair de casa. Ao mesmo tempo, sempre que passava o fim de semana com Cila e precisava ir embora, sentia uma tristeza, sabia que queria ficar lá. Foi conversando com a tia que recebeu o incentivo: se esse era o que o coração sentia, deveria seguir em frente, sem esperar aprovação dos outros. O medo existia por não saber como o mundo reagiria. Aos poucos viu que os medos eram pequenos (talvez nem fizessem tanto sentido assim) perante a relação legal que construiam. Cila sempre demonstrou muita maturidade e foi com ela que Fabi aprendeu a se libertar dessas inseguranças. Mesmo com o apoio da maioria da família, algumas pessoas se afastaram, mas as que permaneceram sempre estão presentes e são bastante respeitosas, carinhosas… A família de Cila também foi acolhedora. A mãe e irmã moram fora do Brasil, mas mandam presentes para Fabi, quando visitam estão sempre com as duas e fazem questão de incluir elas nos planos. Apenas a avó da Fabi ainda passa pelo processo de aceitação, o que traz dor, a ausência da Cila nos momentos felizes entre família quando ela está a deixa triste, não consegue entender como algo tão bonito como amar não pode ser aceito por uma das pessoas que ela mais ama e admira - como a avó - mas entende também que com o tempo isso pode ser mudado. Entendem que ela e Cila são um casal feliz, e isso deveria bastar. ↓ rolar para baixo ↓ Fabi Cilla

  • Flavia e Olga | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Olga estava com 34 anos no momento da documentação, é natural de Recife e mora em Paulista, Pernambuco. Formada em Engenharia Química, possui mestrado e doutorado em Engenharia Mecânica e atualmente trabalha com Engenharia de Software. Entende que não é só das engenharias e das exatas, mas também das artes: adora desenhar, cantar e escrever. Recentemente recebeu o diagnóstico tardio de autismo e TDAH, o que a fez entender diversas coisas e melhorar sua qualidade de vida, podendo visualizar e respeitar seus limites. No tempo livre, adora ler, praticar esportes, ter conversas longas e consumir arte. Flávia estava com 31 anos no momento da documentação, é natural de Recife, mas ainda adolescente se mudou para Paulista e cresceu na cidade. É professora de história por formação e estava ocupando o cargo enquanto vereadora na cidade de Paulista quando nos encontramos. Flávia começou sua militancia no movimento estudantil, participou de alguns movimentos que buscam assistência estudantil para estudantes de origem popular, fez parte de movimentos sociais e se tornou a primeira vereadora negra e lésbica da cidade. É apaixonada pela rua, por estar com as pessoas conversando, no barulho, ouvindo música, falando sobre política… Gosta de fazer política de verdade, até nas folgas está lendo, vendo vídeos e debatendo com alguém. Depois da pandemia de Covid-19, Flávia fez questão de ter sua militância mais voltada para a cidade de Paulista. Sempre saía de casa e se deslocava à capital para participar das atividades, até que começou a pensar em atividades para sua própria cidade, desde ações do Dia da Consciência Negra, até debates pensando mudanças que queriam para a cidade em si. Foi então que, aos poucos, começou a se desenvolver em Paulista, conhecer mais lideranças - e até mesmo se tornar uma - entender que essa era a prioridade. Hoje em dia, a vida em Paulista é muito mais que o trabalho e a casa: é o terreiro, a avó, a irmã, a família, a política que constroem e acreditam, o filho, o relacionamento, o lar. Olga sempre gostou de fazer poesias, em sua maioria tratando sobre temas políticos, e foi quando descobriu o Slam das Minas que começou a se aproximar do movimento de rua e da militância. Em 2018, ano de eleição, Flávia foi para a reunião de candidaturas do partido e percebeu que todas as pessoas eram brancas, metade era composta por homens. Tomou iniciativa porque não se sentiu representada, decidiu colocar seu nome, se tornar candidata à Deputada Federal. Não tinha ideia de como seria fazer uma campanha, mas começaram a se organizar. Nessa organização, criaram um evento de lançamento e chamaram algumas mulheres para participar, inclusive o Slam das Minas, fazendo o convite para Olga recitar um poema. Olga pesquisou um pouco sobre quem era Flávia, para não chegar lá, num evento de política, sem saber onde estava se metendo. Queria estar alinhada, ouvir as propostas. Decidiu conhecer Flávia pessoalmente antes do evento acontecer. Na época, a campanha foi feita como dava: Flávia foi morar no comitê, que era um apartamento bem pequeno no centro de Recife. Estava num dia tentando descansar nessa casa/comitê/escritório e Olga apareceu para conhecê-la. Como esperava ver uma pessoa com pose de Deputada, ficou logo na dúvida se era mesmo Flávia ou não… Achou melhor perguntar logo: “Tu é Flávia, é?!”. E ela respondeu que sim, que talvez conhecesse Olga de algum lugar. Claro, ela sabia que conhecia do Slam das Minas. Sentaram para conversar, falou dos projetos, mostrou panfletos… Pensaram juntas: “Finalmente uma pessoa que pensa como eu!”. Olga conta que o discurso vago na política era algo que a incomodava muito, sempre falavam o quanto a diversidade é importante, o quanto era importante fazer algo, mas nunca era feito, nunca havia proposta efetiva. E ali, independente de um mandato ou não, era o movimento que estava sendo proposto: nós somos o povo, nós quem precisamos fazer algo. O lançamento da Flávia foi um sucesso, coisa que nem o próprio partido esperava, muita gente da cultura estava presente, pessoas representando a militância negra… e quando terminou foram todos para um bar comemorar. Flávia estava muito feliz, estava abraçando as pessoas e abraçou muito Olga. Conta que não é uma pessoa afetuosa fisicamente, mas naquele dia estava muito contente, ficava demonstrando muito para Olga essa felicidade. A vida seguiu depois do lançamento, seguiram os compromissos e começaram a interagir pelas redes sociais. Entre curtidas, comentários e conversas, surgiu um novo evento que seria a inauguração do comitê de campanha. Se beijaram pela primeira vez neste dia, depois de tentarem entender se iria rolar ou não, porque queriam mas estavam tímidas (e as coisas estavam acontecendo todas ao mesmo tempo). Flávia deixou Olga em casa e, no dia seguinte partiu para o Sertão, para trabalhar com a campanha eleitoral por alguns dias. O tempo que a campanha durou, Flávia morou no centro de Recife, próximo de Olga, e elas ficaram juntas. Quando a campanha acabou e ela não foi eleita, voltou para Paulista e pensaram que era muito mais longe, não se veriam mais todos os dias, a rotina mudaria muito… O Miguel, filho de Flávia, estaria muito mais presente - e no começo, por receios, ele não tinha sido apresentado enquanto filho, estava longe dela por conta da campanha, então foi outra questão na relação… Precisaram de um tempo para se entender, entender suas comunicações, suas realidades que ficariam bem diferentes de uma hora para a outra. Flávia começou a mostrar quem ela era de fato: moradora da comunidade, com diversas questões familiares, sem emprego depois de uma campanha… não tinha o conforto de morar no centro da capital como estava tendo por alguns meses. Precisariam repensar a relação. Flávia acreditava que só ia conseguir se relacionar com alguém quando o Miguel tivesse uns cinco anos… assim ele já seria um pouco mais independente e a pessoa que estaria com ela entenderia um pouco melhor também. Na sua visão, quem iria se relacionar com alguém que tem um filho de dois/três anos? Quando Olga chegou com uma comunicação clara, as coisas foram mudando rápido. Ela gostou muito da força, da independência, das coisas que Olga fazia e de como era estar junto com ela. Mas não queria que ela “assumisse um B.O” que não era dela tendo que lidar com seus problemas. Porém, aos poucos, Olga deixou claro que eles, Flávia e Miguel, eram um só. E não eram um problema. Quando conheceu Miguel se deram bem logo de cara e tiveram uma conexão. Aos poucos, Olga seguiu sua vida nos estudos e Flávia conseguiu um emprego depois da campanha eleitoral, foi quando decidiram de fato seguirem juntas e Olga se mudou para Paulista, morando no bairro em que a família de Flávia morava. A mudança para Paulista foi para ajudarem a mãe da Flávia por conta dela estar doente, mesmo ela não aceitando o relacionamento, Flávia pedia para que morassem juntas lá porque não aguentaria ficar longe de sua família. Olga cedeu e refez sua vida e sua rotina em Paulista, entraram num acordo, seu pedido em troca seria que Flávia começasse a fazer terapia e que mantivessem uma comunicação saudável, uma troca pensando em construir um relacionamento confortável juntas. Brincam que demorou um pouco, mas que deu certo. Durante a pandemia de Covid-19 decidiram morar numa casa para reformular mais uma vez a rotina, pois tudo estava sendo feito sob o mesmo teto: os estudos, o trabalho e a vida do Miguel. Começaram a terapia de fato, estavam reaprendendo a se comunicar, foi um divisor de águas. A qualidade de vida mudou muito morando numa casa. Começaram a curtir o espaço, fazer churrascos, exercícios, brincar mais com o Miguel… Não se sentiam presas dentro de um apartamento. Com a pandemia, veio também a segunda eleição, em 2021. Dessa vez já tinham a experiência de uma campanha que Flávia teve uma votação expressiva. Porém, uma campanha eleitoral que exige contato com a população em meio à pandemia era um desafio imenso. Olga conta o quanto foi difícil para ela lidar com as questões do vírus, ver as pessoas sem máscara ou os momentos em que usavam a máscara errado, todos os contatos com as pessoas na rua… tudo mexia demais com ela e causava muito medo. Além de todo o estresse que uma campanha eleitoral já produz, isso era um dos pontos mais difíceis, lidar um um “inimigo invisível” sendo tão direto para a saúde. Mas, a campanha foi feita com sucesso e Flávia foi eleita. No começo, Flávia estava muito destinada a não ser como os outros políticos que só aparecem de quatro em quatro anos. Então seguiu aquele ritmo frenético, trabalhando sem parar todos os dias. Olga entendeu que em algum momento ela adoeceria, estava impossível acompanhar - e entristecendo ver a companheira trabalhar tanto em seu primeiro ano de mandato, mesmo sabendo o quão importante isso é. Foi com muita conversa (e muita terapia) que Flávia entendeu o ritmo, os processos e as propostas. Hoje em dia, Flávia e Olga estão morando num novo lar, apartamento que financiaram juntas pensando na segurança de vida e em parar de pagar aluguel, depois de problemas que tiveram nos lugares que alugaram. Se aproximaram de um terreiro - e a aproximação começou por conta de uma luta contra intolerância religiosa no mandato de Flávia - e sentem que tudo melhorou depois disso. Hoje frequentam as festas, as cerimônias e os ritos, se sentem muito bem cuidando do seu ori. Foi através da religião, também, que chegaram até um terreno onde estão construindo - e reformando com suas próprias mãos - uma casa em Abreu e Lima, local que serve de refúgio, no meio de uma mata frutífera. Fomos até esse local e fizemos parte dessa documentação, pois é lá que se sentem realmente felizes. Flávia conta que pretende continuar trabalhando nas lutas que acredita, pois esse é o seu propósito. Olga deseja seguir seus trabalhos e suas escritas, inclusive, lançou seu novo livro de poesias. E Miguel, agora com nove anos, conta o quanto adora jogar videogame, brincar com Lula, o cachorrinho, e brincar de futebol - com Flávia, ele destaca que gosta de jogar no celular, com Olga, ele gosta de seguir a rotina fazendo as tarefas de casa. Quando perguntamos sobre a casa do sítio, ele responde: gosta de ir lá pra ser feliz, inclusive, é onde quer ir agora. ↓ rolar para baixo ↓ Flávia Olga

  • Sue e Sil

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Sue estava com 64 no momento da documentação e nasceu em Salvador. Quando seus pais se separaram, mudou-se para Maceió com a mãe, que trabalhava na Petrobras. Em seguida, viveu no Rio de Janeiro sua maior infância até os 25 anos, formando-se com forte influência carioca. Em 1998, retornou à Maceió para atuar no Teatro Deodoro, onde conheceu Silvana. Hoje, compartilham a vida e o trabalho, dirigindo juntas uma produtora cultural. Silvana estava com 58 anos no momento da documentação, nasceu em Maruim, Sergipe, e chegou em Maceió no ano de 1982. Jornalista, radialista e produtora cultural, sempre esteve ligada ao meio artístico. Criou o primeiro caderno de cultura do principal jornal da cidade e, posteriormente, trabalhou no Teatro Deodoro. Como frequentadora assídua das artes cênicas, encontrou lá uma verdadeira realização profissional. A relação entre elas começou pela admiração no trabalho. Durante as trocas na rotina do Teatro Deodoro, Sue já nutria sentimentos por Silvana. Juntas, fizeram uma verdadeira revolução artística na cidade, reabrindo um teatro centenário que ficou 11 anos fechado e que nem era mais considerado. Sem a facilidade da internet, num mundo de comunicações por fax, enfrentaram desafios para recolocar o espaço no circuito cultural nacional. Entre projetos, parcerias e grandes aprendizados, construíram um vínculo que ultrapassou o trabalho, tornando-se um amor sólido, baseado no respeito, na arte e na construção de um legado cultural alagoano. Sue conta que a relação sempre esteve entrelaçada ao trabalho, especialmente no início, quando chegou de Salvador após uma outra relação turbulenta que havia acabado. Trouxe consigo uma bagagem cultural fresca da Bahia e do Rio de Janeiro, que se refletiu no que estavam construindo no Teatro Deodoro. Juntas, ela e Sil levantaram diversos espetáculos e recolocaram o teatro no mapa cultural do Brasil, elevando o profissionalismo artístico em Alagoas - tudo isso sob a liderança de duas mulheres lésbicas, importante ressaltar. Ambas sempre se entenderam como lésbicas e viveram essa identidade de forma natural dentro dos meios culturais que frequentavam. Nos anos 70, 80 e 90, Sue no Rio e Sil em Sergipe encontraram espaços onde a sexualidade não era um tabu. No entanto, conversam muito e sentem que hoje as coisas estão dentro de muitas “gavetas” Estas “gavetas” estão aí para realmente trazer liberdade, identidade, autonomia e auto afirmação do que cada um é, mas muitas vezes acabam dividindo mais, se tornando uma separação. “E eu não gosto de separação. Eu gosto de tudo misturado. Não gosto de ambientes que são só isso ou só aquilo. Gosto de gente.” Por conta do trabalho, Sue e Sil abriram mão de viver uma rotina mais romântica. Como passam a maior parte do tempo juntas, lidando com demandas intensas e muitas pessoas (ainda mais agora, com o escritório dentro de casa), aprenderam a valorizar os momentos de tranquilidade a sós. Para elas, esses instantes de calma são essenciais para manter o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Elas reconhecem o impacto do que fizeram: duas mulheres liderando espetáculos em Alagoas era algo inédito. Foi assim que se encontraram, criando projetos culturais transformadores, como o “Teatro é o Maior Barato”, que democratizou o acesso ao teatro com ingressos a R$ 1,99, e espetáculos que circulavam pelo estado. Além de movimentar a cena artística, construíram uma relação de pertencimento com o público, que passou a ver o teatro como um espaço acessível e vibrante. Sil sempre teve paixão pelo jornalismo e adorava sair pelo estado imaginando matérias, transformando a busca por pautas em uma brincadeira. Como o mercado era novo, havia muito a explorar: tudo era cultura. Até os anos 90, Alagoas sequer tinha uma coluna dedicada ao tema nos jornais, sendo reduzido a notas esporádicas indicando filmes ou menções na coluna social. Criar um espaço fixo para a cultura se tornou um vício, um compromisso de dar voz e visibilidade à produção artística local. A relação começou de forma intensa, marcada por um gesto simbólico: Sue morava em um lugar muito quente, sem estrutura porque havia recém se mudado, e Sil apareceu com um ar-condicionado de presente. “A gente já tinha começado a namorar, ela chegou lá em casa, um forno! No outro dia, chega com o ar-condicionado… e depois ela.” Foram se envolvendo e percebendo que compartilhavam o mesmo ritmo e gostos. Hoje, olham para trás e se surpreendem: “25 anos de relação! É muito tempo! Mas, ao mesmo tempo, a gente vai se descobrindo e redescobrindo.” Atualmente, moram ao lado da família de Sil, para estarem próximas da mãe idosa, em uma vila acolhedora e repleta de gatos. Recentemente passaram por uma grande reforma em casa, o que exigiu ainda mais energia e paciência. Refletem sobre as inúmeras crises que enfrentaram - principalmente financeiras, pela instabilidade do trabalho em um país que não valoriza a cultura - e reconhecem que nem todo casal suportaria esses desafios. Mas atravessar tudo isso juntas fortaleceu ainda mais o amor. Entre noites que se olham antes de dormir e percebem o cansaço e momentos de conexão, sabem exatamente como lidar uma com a outra, guiadas por maturidade e intimidade construídas ao longo desses 25 anos. Sue sente que Sil trouxe um chão para sua vida, mesmo quando ela mesma diz se sentir insegura. “A Sil trouxe para mim, apesar dela dizer que não lida, que enlouquece, que fica insegura, mas ela trouxe para mim, para a minha vida, uma segurança em um lastro, um chão, que é tão importante. Eu nem sei se estaria nesse plano ainda. Porque eu era muito desligada, muito apaixonada por tudo, entrava de cabeça em tudo, de tudo, de trabalho. E a Sil, sem impor nada. Ela veio, foi amor mesmo, com o amor dela. E ela me acolheu de uma forma que eu cresci. Me tornei uma pessoa muito melhor. Para mim mesma.” ↓ rolar para baixo ↓ Sil Sue

  • Oi, eu sou o doc! | Documentadas

    Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! chega pra cá, vai ser um prazer te conhecer! O Documentadas é um banco de documentação sobre mulheres que amam outras mulheres, com o intuito de registrar historicamente o amor entre lésbicas, bissexuais e pansexuais (cis e/ou transsexuais), construindo uma literatura que até então era inexistente sobre essa população. Completando quatro anos em março de 2025, o projeto já documentou mais de 460 mulheres em 15 estados brasileiros. Para além de contar as histórias de casais brasileiros, o .doc acredita em 4 vias para atingir mudanças reais na nossa sociedade brasileira: gerar empregabilidade, divulgando as profissões e trabalhados exercidos pelas mulheres que participam do projeto; Gerar conexão com encontros presenciais e online; Espalhar artes pelas ruas falando sobre o amor entre mulheres combatendo o preconceito em espaços públicos; Gerar atendimento psicológico através da plataforma, contando com 25 profissionais oferecendo serviços de apoio psicológico e psicanalítico online por valores populares (atualmente, mais de 200 mulheres já passaram pelos nossos atendimentos). > para além da documentação > Acreditamos que a igualdade de gênero pode ser alcançada por meio do combate ao machismo e através da equidade de oportunidades de fala/escuta. Além disso, entendemos que criar um banco de dados de fácil acesso, para a divulgação de ofícios exercidos por mulheres que amam outras mulheres possibilita, assim, oportunidades de contratação dos serviços prestados pelas mesmas, uma vez que os ambientes de trabalho tendem a ser espaços de conflito e preconceito quando não oferecem diálogos e reeducação social. Visibilizar as histórias de mulheres de diferentes corpos, raças e classes sociais exerce um papel fundamental para o reconhecimento dessas populações vivas. o .doc já passou por 15 estados brasileiros, contando histórias de mais de 460 mulheres. QUER COLABORAR COM O DOC PARA QUE ELE TENHA MAIS LAMBES POR AÍ OU NOS CHAMAR PARA UMA EXPOSIÇÃO EM ALGUM LOCAL? ENTRA EM CONTATO PELO SITE OU NO E-MAIL: FERNANDA@DOCUMENTADAS.COM o .doc para além do .doc Entendemos também que a representatividade é algo extremamente importante para construção da subjetividade, tendo como intuito divulgar histórias que inspirem e motivem outras mulheres a se reconhecerem e valorizarem suas próprias histórias e histórias de amor, quando a coerção social, imposta pela heteronormatividade, diz o contrário. ainda podemos ser podcast cursos ou palestras exposições produtos curtas referência em saúde mental LGBT+ cartilhas inclusivas e muito mais! empregabilidade, psicologia, conexão, arte urbana viu a gente pela cidade? Estar na rua nos abriu a possibilidade de troca com públicos antes inalcançáveis. Passamos entre universidades, boêmias e comunidades. Se as mulheres amam outras mulheres em múltiplos espaços, acreditamos que nossa arte também deva ocupar múltiplos espaços. Foi através das técnicas arte urbana como lambe-lambe e stickers que começamos a espalhar uma frase famosa por aqui: “Toda mulher merece amar outra mulher”, além de uma tiragem de 1500 fotografias de casais que já participaram do projeto, com intervenções gráficas escritas por cima e o @documentadas, identificando nosso Instagram/site. quer contratar o documentadas para uma palestra na sua empresa, propor parcerias, fazer alguma reportagem ou conhecer mais sobre o nosso trabalho? entre em contato aqui pelo site ou mande um e-mail para fernanda@documentadas.com

  • Documentadas - O Livro | Documentadas

    Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! documentadas - o livro quer ver ele por aí? seja na livraria mais próxima de você, em um bate-papo na sua cidade ou na estante da sua casa: entre em contato com a editora ou adquira um exemplar no site da Funilaria! clica aqui! como ele surgiu? no livro sobre o documentadas há uma seleção de histórias que trazem um pouco da grandiosidade do amor. ele é a materialização desse projeto que está há anos percorrendo o brasil em busca de contar nossas histórias e reconhecer as mulheres sáficas brasileiras enquanto mulheres diversas - com infinitas histórias, realidades e recortes. nas histórias presentes no livro temos diversas cidades do brasil, classes, idades, mas o que une tudo é o fato das mulheres estarem dispostas e serem corajosas em nome do amor. este livro é o primeiro documento brasileiro que se dispõe a contar histórias reais em forma de fotolivro sobre casais formados apenas por duas mulheres. um motivo de celebração para toda a comunidade lgbt. monica benício "esse livro e esse projeto não são apenas peças importantes para nossa história e a nossa cultura. eles são, antes de tudo, ferramentas para a transformação do nosso mundo. um mundo para as mulheres." contando com um prefácio de monica benício, que tanto nos representa na política brasileira (mas não só - numa trajetória de militância que transpassa a política), na sua escrita traz recortes sobre a representatividade e a documentação finalmente nos contarem essa história que foi tão apagada. e dessa vez através do amor, de forma corajosa, com histórias de mulheres inspiradoras que nos impulsionam a desejar seguir nossos sonhos em frente. mariana mortani "uma afirmação da beleza e da profundidade desses relacionamentos que muitas vezes foram deixados de lado." prefácio & posfácio contando com o posfácio da mari mortani, que tem uma trajetória incrível na literatura LGBT+ como roteirista, tradutora e produtora de conteúdos sobre literatura sáfica, ela também fundou o clube sáfico e o podcast chá das quatro, que o doc tanto ama e admira. ter ela no livro é parte importantíssima, explicando o motivo da representatividade e da documentação caminharem juntos. encontre o livro aqui ficha técnica que fez o livro ser possível: todas as pessoas que acreditam na potência do doc, obrigada! autora do livro: fernanda piccolo huggentobler coordenação editorial: caio valiengo, marilia jahnel, renata dei vecchio revisão: caroline fernandes e daniel moreira safadi capa: angela mendes projeto gráfico: angela mendes diagramação: camila provenzi áudios: isadora volino o livro conta com + de 35 casais documentados

  • Silvana e Márcia | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Márcia estava com 49 anos no momento da documentação. É professora dos anos iniciais, educadora e feminista. Cresceu em uma família marcada pela militância política: seu pai foi preso político durante a ditadura e essa história atravessa diretamente sua própria trajetória, conta que “foi feita” na biblioteca do presídio em Porto Alegre e que durante sua infância era a mãe quem a cuidava, por ponta do pai seguir preso. Hoje, sua militância acontece sobretudo na sala de aula, no trabalho com crianças e no poder da literatura infantil como ferramenta de transformação - desenvolve uma coleção de livros para o público infantil (mas não só, afinal, todos nós temos nossa criança ainda viva dentro da gente). Em alguns destes livros, aparece um casal formado por duas mulheres, apostando na narrativa como forma de ampliar repertórios e contar outras histórias possíveis desde a infância. // comprem o livro dela! é muito legal! Silvana estava com 61 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre e trabalhou como professora na educação pública desde os 15 anos, trajetória que não surgiu como escolha romântica, mas como resultado de concurso público e dedicação integral. Ao longo da vida, construiu uma militância que ultrapassa a luta por direitos individuais e se ancora no desejo de transformar estruturalmente o mundo. Aposentada há dez anos da rede municipal de Porto Alegre, seguiu estudando: concluiu um mestrado em políticas sociais, com foco nas mulheres negras servidoras públicas, e atualmente cursa doutorado em educação, pesquisando educação antirracista e as relações entre raça, gênero, sexualidade e o contexto político contemporâneo. O cotidiano de Márcia é atravessado tanto pelo trabalho, quanto pelo cuidado. Sua mãe, com 90 anos, mora com ela e com Sil, o que exige atenção constante e reorganiza afetos, tempos e prioridades. Nesse cenário, Silvana aparece como parceira fundamental: alguém que escuta, acolhe e incentiva. Sil é uma grande apoiadora do trabalho de Márcia, inclusive nos processos de escrita. Parte de seus livros foi escrita durante a pandemia, na casa da praia do casal, em momentos de recolhimento, silêncio e criação compartilhada. E Márcia também é uma grande apoiadora do trabalho de Sil - e de toda a sua militância. Silvana é uma das fundadoras da Liga Brasileira de Lésbicas e há anos atrás percorreu o país participando da construção do movimento lésbico organizado. Mesmo após divergências políticas que a afastaram formalmente da Liga, mantém vínculos afetivos e reconhecimento da importância desse período. Hoje em dia, a vida dela com Márcia é atravessada pelos propósitos e paixões em comum: o fortalecimento e a construção cotidiana onde o amor e a política não se separam. Antes mesmo de se conhecerem - e se relacionarem - de fato, Márcia conhecia Silvana de nome e de trajetória, conta que ela sempre teve um nome famoso pela cidade e já a admirava: era professora da rede municipal, diretora de uma escola da periferia de Porto Alegre, sendo uma figura conhecida, respeitada e também marcada por sua visibilidade como mulher lésbica em um espaço público e político. Márcia desejava trabalhar nessa escola por ela ser reconhecida pelo trabalho étnico-racial e pela proposta pedagógica diferenciada, e foi em 2010, quando passaram a trabalhar juntas. A aproximação aconteceu primeiro pelo trabalho, pela gestão, pela militância cotidiana dentro da escola. Foi nesse convívio que o interesse ganhou forma. Um bom tempo depois, em uma festa da escola, elas interagiram de uma forma direta e o interesse ficou claro. Márcia nunca havia se relacionado com mulheres e se sentiu atravessada, entre a curiosidade e o interesse. Decidiu dar uma chance. Na época, Sil viajava muito por conta da sua militância na LBL (Liga Brasileira de Lésbicas) e tinha a fama de ser mulherenga - e até mesmo a família da Márcia, por conta da aproximação com a militância, sabia dessa fama. Então quando souberam do namoro o choque maior não foi por conta de ser com uma mulher, mas por ser com a Sil. Logo alertaram: “Isso aí não deve durar muito tempo!”. Pelo contrário, né? Foram cada vez mais se fortalecendo. A curiosidade alheia sempre apareceu como uma tentativa de silenciamento. As pessoas perguntam, comentam, sugerem que não é preciso dizer, que a sexualidade é algo privado, como se nomear uma relação lésbica fosse excesso. Mas afirmar-se também é um gesto político. Enquanto a família tradicional fala de si o tempo todo, espera-se que mulheres lésbicas permaneçam discretas, invisíveis, quietas. Sejam nas mídias ou nas ruas. Por isso, dizer em voz alta que amamos não é exposição gratuita: é afirmação de existência, de amor e de escolha. A vida a duas, no entanto, nunca foi romantizada. Não é um território idealizado nem isento de conflitos. São duas mulheres feministas, educadoras, que sabem que o diálogo precisa existir também dentro de casa. Discordam, revisam posições, atravessam fases difíceis (inclusive ressaltam como é necessário falar sobre a dificuldade de passar pela menopausa e pelas mudanças do corpo) e constroem diariamente uma relação possível, real e cuidadosa. Quando o casamento se tornou legalmente possível, em 2013, se casaram no mês da visibilidade lésbica, simbolizando uma união política, no local em que terminam muitos atos em Porto Alegre. Uma juíza esteve presente, amigas e amigos fizeram parte, cantaram uma música simbólica feminista e, sem vestidos brancos, de forma confortável, celebraram o amor. Nessa época, saíram do apartamento em que moravam e encontraram a casa perfeita, num condomínio. Foi neste novo lar que se sentiram realmente em casa e que a mãe de Márcia passou a fazer parte da vida - e da rotina - com cuidado e afeto. Quando conversamos sobre, entendemos que o amor entre mulheres não é apenas o amor romântico: é presença, escuta, aprendizado contínuo, vida. Mulheres são ensinadas a servir, não a amar. Quando amam outras mulheres, aprendem sozinhas. Por isso, dividir a vida, o cuidado e o afeto entre três mulheres é também reparação. É prova de que mulheres não apenas dão, elas merecem amar e ser amadas, como nessa relação familiar. No ambiente escolar houve um impacto profundo porque ao viverem a relação de forma aberta, sem recuos, provocaram deslocamentos importantes entre as colegas. Houve estranhamento, curiosidade excessiva, afastamentos, mas também libertações. Outras professoras passaram a se permitir viver quem eram, separações aconteceram, novas configurações surgiram. Silvana investiu conscientemente em uma escola plural: contratou um homem trans para a portaria, havia um casal de lésbicas na cozinha… a diversidade deixou de ser exceção para se tornar parte da estrutura. A escola virou referência. Quando Silvana saiu, para ser uma candidata na política de Porto Alegre, a mudança foi sentida, mas o que ficou foi a lembrança de como existir de forma diversa é possível. Ainda sobre a diversidade, Sil conta: “Eu sempre fiz questão que os meus alunos e alunas soubessem quem eu sou. E nunca tivemos problemas. Tinha dias que eu ia de bermuda de homem, tinha essas de surfista, com as pernas cabeludas que eu uso, de boné, e eu era diretora da escola. Sem problema nenhum. Aí chegava um vendedor, perguntava se a diretora estava. Eu respondia: “Sou eu, por quê? Vamos sentar.” Sabe? Eu acho que naturalizar faz muito bem, principalmente pras crianças, né? E pras pessoas adultas compreenderem que o problema são elas, né? E elas não gostam.” Quando Sil foi disputar as candidaturas nos processos eleitorais em que viveu, Márcia apoiou muito, mas também foram momentos de aprendizados, reconhecimentos e medo. Houveram ameaças, dias em que ela não se sentia segura para ficar sozinha, necessidade de reforçar a segurança. Estar junto nesses momentos tornou-se uma escolha consciente, uma forma de proteção e de parceria. A presença pública, afinal, não era apenas dela: passou a ser das duas. Há uma consciência clara do tempo histórico que atravessaram. No início dos anos 2000, afirmar publicamente o amor e o desejo entre mulheres era um ato de confronto direto, coisa que a Silvana fazia muito com a Liga Brasileira de Lésbicas, capaz de fechar lojas, chamar a polícia e provocar ameaças físicas - seja em Porto Alegre ou em outros lugares do Brasil. Diziam em voz alta: Nós que amamos e trepamos com mulheres”. Hoje em dia pensa: “Nossa, precisávamos dizer isso?” e entende que sim, era exatamente esse ponto de incômodo que precisava existir. Foram gestos que abriram caminhos para que outras pudessem existir com um pouco mais de liberdade depois. Com o avanço dos anos, a sensação de segurança oscilou. Houve o reconhecimento profissional, depois o avanço do ódio no último (des)governo. Por isso, a militância segue sendo uma questão de sobrevivência: nenhuma história é construída sozinha. É preciso compromisso com a transformação real das estruturas que produzem desigualdade e violência. A luta segue porque a vida, a dignidade e a possibilidade de felicidade ainda dependem disso. ↓ rolar para baixo ↓ Silvana Márcia

  • Maju e Alícia | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. A história da Maju e da Alícia fala muito sobre aquele período que vivemos quando estamos descobrindo quem somos, ainda entre a pré-adolescência e a adolescência, elas se conheceram e vivem até hoje juntas, enfrentando muitos desafios (que outros adolescentes nem sonham em viver) e, principalmente, se fortalecendo juntas. Maju hoje em dia tem 17 anos e está se formando no terceiro ano do Ensino Médio, Alícia tem 16 e está no primeiro ano. Mas tudo começou bem antes, quando Alícia tinha cerca de 12 anos de idade e estava numa praça em Rio das Ostras, matando o tempo, com uma amiga. Nessa praça, diversos meninos andavam de skate, entre eles tinha uma menina, a Maju. No primeiro momento, Alícia não entendeu se a Maju era menino ou menina, perguntou para a amiga (que a conhecia, mas que também não sabia dizer o que ‘era’ a Maju) e isso automaticamente despertou uma curiosidade enorme na Alícia, que fazia de tudo para observá-la. Quando a Maju entendeu que estava sendo observada, quis chamar atenção. Caiu logo de bunda no chão. Mas levantou, se reergueu e foi lá falar com as meninas. Se apresentou para a Alícia e disse: vem cá, deixa eu te mostrar uma pessoa muito linda aqui de Rio das Ostras - e então entrou no Instagram dela mesma, curtiu todas as suas fotos (pelo perfil da Alícia) e depois saiu, andando de skate de novo. Nesse dia, a Maju levou uma bronca da mãe dela por ter faltado à fisioterapia, mas a resposta em desculpa que ela deu, foi: eu conheci a menina mais bonita da cidade. A Maju é natural de Goiás, mas está no Rio de Janeiro - mais especificamente em Rio das Ostras - há mais de 9 anos. Já a Alícia, é do Rio de Janeiro, capital, mora em Rio das Ostras mas intercala com alguns períodos no Rio, visitando familiares. Depois que elas tiveram o primeiro encontro na praça, a Alícia passou seis meses morando no Rio de Janeiro. Nesse período ficou olhando o Instagram da Maju, mas não interagiram nenhuma vez. Quando ela voltou para Rio das Ostras, começou a namorar um menino (esse que, a pediu em namoro na frente da escola toda, fazendo um vídeo que viralizou o Brasil - um namoro super arranjado com o auxílio da mãe) e duas semanas depois ela e a Maju se encontraram no aniversário de uma amiga em comum. Nesse primeiro encontro, a Maju tentou ficar com ela, mas não tinha como, ainda mais ela estando num namoro tão recente… então ela desviou de todas as formas. Depois disso, começou-se uma amizade, então elas saíram muitas vezes. A Maju dava em cima dela sempre, isso era um fato, mas era quase uma brincadeira também porque elas sabiam que enquanto estivesse namorando não ia rolar. O namorado da Alícia, enquanto isso, morria de ciúmes. E em casa, a Alícia não parava de falar na Maju, deixando a mãe dela muito desconfiada, dizendo: “Tu não vai se apaixonar por ela não, hein, Alícia??!!”. O tempo passou e o relacionamento da Alícia foi ficando muito difícil. Ela estava se sentindo numa relação completamente invasiva, tóxica, e todas as vezes que tentava terminar o namorado não a deixava. Ele simplesmente dizia que não permitia. Numa noite, foram num aniversário e ela já tinha tentado terminar três vezes, a situação estava péssima, um amigo dele passou mal e ele foi embora. Alícia ficou no aniversário, a Maju estava também e num momento determinado da noite elas decidiram dar um basta, chutar o balde: se beijaram. Porém, como era escondido, numa confusão a Maju fingiu que passava mal, a Alícia fingiu que ajudava, elas desligaram a luz da festa toda sem querer e aí virou confusão de verdade. Depois delas se beijarem, a Alícia viu a Maju dando em cima de outra menina e então ficou muito triste. No fim da festa, já com o dia amanhecendo, o namorado (ou quase ex?) fez questão de buscar a Alícia e ela não quis ir embora com ele, então ele gritou e brigou com ela. Quem deu suporte, novamente, foi a Maju. Depois dessa situação eles terminaram, afinal, não tinha como manter esse relacionamento. A Alícia passou um tempo breve no Rio de Janeiro e quando voltou para Rio das Ostras voltou a se encontrar com a Maju. Nesses encontros, ela entendeu que gostava de verdade da Maju, e isso, naquela época, era mais um problema do que algo bom. Ambas não sabiam como lidar com a situação, sabiam que a Maju não buscava relacionamentos, mas também já estavam muito envolvidas. Sentiam que precisavam encarar a situação. Decidiram seguir se encontrando, mesmo sem ninguém saber. Com o tempo, os amigos que sabiam, não torciam para que elas ficassem juntas: não confiavam que elas seriam fiéis uma a outra, ou melhor, incentivaram que não fossem - e assim não haveria relação saudável que se sustentasse. No período em que poucos apostavam no relacionamento delas, um pedido de namoro chegou a acontecer. Namoraram, mas entre situações caóticas, sentiam que não se acertavam. A mãe da Alícia descobriu, fez um escândalo na porta da escola, a agrediu. Tudo ficava muito difícil para que elas se encontrassem e nisso, a pandemia de Covid-19 começou. Elas chegaram a ficar um tempo distantes por conta da quarentena, mas não tanto tempo, como nas grandes cidades, pois lá os encontros foram voltando a acontecer aos poucos. A Alícia, junto com a família dela, abriu uma hamburgueria, e esse local virou um ponto de encontro... porém, todas as intrigas externas foram o bastante para que o namoro não seguisse em frente. Elas terminaram, ainda, em 2020. Foram cerca de 9 meses distantes. Nesses meses, por completa influência familiar, Alícia se relacionou com um menino extremamente abusivo, agressivo, que forçava presença. Ela chegou a pesar menos de 40kg. Ele, sabendo que no fundo ela ainda gostava da Maju, ameaçava bater na Maju quando a encontrava na rua. Alícia fez de tudo para sair desse relacionamento e quando conseguiu, conversou com a Maju. Elas se acertaram, mas não enquanto um casal, apenas voltaram a conversar. Nisso, a Maju encontrou a mãe da Alícia, tomou coragem e decidiu pedir permissão: para num futuro, se tudo desse certo, elas voltarem a se relacionar. Ela respondeu que se a Alícia estivesse feliz, ela estaria feliz também - porque ela percebia que o jeito que a Alícia olha para a Maju é diferente - e no fim elas se abraçaram. Elas voltaram a se envolver e a Maju pensou em a pedir em namoro novamente e dessa vez com tudo o que o brega permite: balões, chocolates, etc. Aconteceu! Porém, infelizmente, ainda passaram por muitas situações horríveis envolvendo o ex. Ele invadia a casa da Alícia, quebrava as coisas e obrigava ela a manter a relação com ele. Foi numa atitude extrema da mãe dela em expulsar ele de lá para que finalmente isso acabar. Porém, esses conflitos já tinham afetado demais a relação da Alícia com a Maju, era difícil que as confusões não as envolvessem. A Alícia seguia pensando na Maju e no relacionamento delas, enquanto a Maju, mais uma vez, se afastara. No natal, elas voltaram a se falar, por conta de uma coincidência. E assim, voltaram de verdade. Conversaram, se encontraram, conversaram também com suas famílias, decidiram que, se era para estarem juntas, dessa vez, era para ser de um jeito diferente - e com apoio de todos, com maior confiança, diferente de todas as outras tentativas. Hoje, acreditam que deu certo. No último ano passaram diversos perrengues que as fizeram crescer e se fortalecer enquanto um casal, juntas, e também enquanto uma família. Alícia e Maju deram apoio às suas mães, chegando a morar com a mãe da Alícia, todas num apartamento, num momento difícil. Alícia também morou com a mãe da Maju. E todas se dão muito bem, valorizam o relacionamento das filhas. Nesse último ano de estudo, finalmente estão na mesma escola. Os planos são, assim que concluírem, se mudarem para o Rio e estudarem Belas Artes. Hoje entendem que a confiança e a comunicação mudou muito e que isso é o principal para que o relacionamento delas funcione. Antes, tudo se quebrava, principalmente com 'picuinhas' ou comentários alheios, hoje, não há nada entre elas que não possa ser conversado. A intimidade que elas criaram juntas não há como ser quebrada e também faz com que elas não se julguem. Acreditam que, pelo tanto que já passaram uma ao lado da outra, o que viram entre seus momentos mais frágeis faz com que também possuam muita liberdade para serem quem são, sem medo. Antes, pensavam muito sobre serem perfeitas, buscavam perfeição, hoje aceitam seus corpos e a si como são. Isso também faz com que a confiança na relação mude, a segurança, a base no amor. Quando entendemos a recapitulação de tantas coisas que viveram sendo tão novas, estando juntas, elas entendem que esse amor é o que importa. A forma que se amam e que se apoiam é o mais importante nesse processo. E se surpreendem, o quanto isso é maneiro. Visualizar a linha do tempo e entenderem que seguem aqui - recapitulam o quanto pensaram em desistir porque era muito difícil se relacionar, mas que hoje é muito legal ver o quão bonito é o que criaram. E, então, sonham com novos passos: a mudança, um casamento, uma adoção. ↓ rolar para baixo ↓ ♥ manda uma mensagem de apoio aqui ☼ entre em contato com elas por aqui! ☺ vem construir esse projeto com a gente! < Alícia Maria Júlia

  • Karol e Hémely | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Karol e Hémely se conheceram no ensino médio, em 2008. Tinham cerca de 14 anos, eram amigas e tinham várias interações na escola. Mas, depois que se formaram, romperam bruscamente o contato e Karol não entendeu o motivo. Mais de dois anos depois voltaram a se falar, em 2014, quando a avó de Karol (quem a criou) estava internada e Hémely soube. Sabia o quanto isso era importante para ela, então mandou uma mensagem. Karol aproveitou a mensagem e perguntou o que havia acontecido para aquele afastamento brusco acontecer e a resposta era a pressão familiar da Hémely. Eles tratavam a Karol com muito preconceito, falavam que ela era diferente, que elas namoravam… Sendo que elas nunca haviam sentido nada além da amizade (ou não identificavam isso até então), entendiam sim que era uma amizade muito forte, unida, que prometiam não se deixar, mas ainda assim não era um lugar romântico. A avó de Karol sempre foi uma pessoa muito tranquila e aberta, aceitava ela como ela é. Queria que ela fosse feliz sendo era, sozinha ou com alguém. Já a família de Hémely, sempre teve sua cultura moldada pela religião, não deixava Hémely ter acesso a muita coisa. Quando voltaram a se falar, com a avó de Karol no hospital, Hémely pensou no quanto Karol deveria estar triste, então se dispôs a comprar comidas, preparar lanches e chegou na casa dela com sacolas, frutas, muito apoio, disposta a ajudar e a voltar para sua vida, independente se sua família gostasse disso ou não. A avó de Karol infelizmente faleceu alguns dias depois da internação. Foi um baque gigantesco. Naquele momento Karol tinha apenas 20 anos, perdeu sua família, sua base. Hémely foi o principal suporte, junto com o apoio de outra amiga. A avó de Karol sempre a criou dizendo que quando ela morresse, ninguém seria por ela, que ela precisaria aprender a se virar… E assim o fez. O primeiro ano foi muito difícil, passou por diversas violências e precisou reaprender a viver. Ainda nesse primeiro ano, entre o luto, o suporte e tantas coisas que aconteciam, Karol e Hémely começaram a se envolver romanticamente e decidiram assumir o relacionamento. Entenderam que gostavam uma da outra há muito tempo, eram suas redes de apoio e construíam um amor, queriam investir no que sentiam. Porém, Hémely foi criada sob um olhar preconceituoso e ainda se via com preconceito, via outras pessoas gays com preconceito, levou muito tempo para quebrar seus bloqueios e entender que estava tudo bem viver esse amor, não era um pecado e ela não era uma pessoa estranha, só era ela mesma e estava fazendo algo bom, vivendo algo feliz. O começo do namoro envolveu diversos desafios simultâneos: a vida da Karol estava virada de cabeça para baixo - o luto, a violência com os familiares que não possuía contato tendo que lidar depois da morte da avó, ela se reconhecendo nessa nova vida, um relacionamento acontecendo - e a vida de Hémely em redescoberta sobre a sua sexualidade, um novo amor, o medo que seu próprio preconceito causara e sua família descobrindo tudo isso. Seu pai desconfiava, deixou de falar com ela ao ver ela se reaproximando da Karol e viveram um rompimento muito difícil, principalmente por terem sido muito próximos a maior parte da vida. Cada vez mais, a relação entre elas virava um ponto de apoio mais forte e necessário. Como a relação entre Hémely e a sua família piorava com o tempo, a partir de 2016 ela e Karol começaram os planos de morar juntas, mas só em 2019 Hémely conseguiu morar na casa de Karol. A mudança ocorreu de fato alguns meses depois, quando alugou um caminhão e buscou suas coisas na casa da sua família. Foi um processo longo, superando medos, com terapia e respeito ao próprio tempo, porque são vários contextos de violência e é preciso ter dinheiro também para alugar um novo espaço, mas conseguiram dividir um lar. Logo depois, moraram juntas num apartamento um pouco maior: esse que fizemos as fotos e que adoram estar, passear na pracinha, olhar as árvores… É um lugar que se sentem bem. Alguns meses após estarem dividindo a casa, Karol trabalhava enquanto técnica de enfermagem e precisou estar na linha de frente do combate ao Covid-19 durante a pandemia, então a rotina mudou um pouco e vieram novos desafios, mas afirmam o tempo todo: ‘o caminho é para frente, não tem outra opção, não tem como parar ou voltar, estamos seguindo e seguindo juntas, ainda que devagarinho’. Falam também da importância da arte nesse processo todo que viveram. Karol recebeu o diagnóstico de autismo nos últimos anos e pôde entender um pouco mais sobre si mesma e sobre como lida com a vida. Lembra hoje em dia das violências e pensa como a arte foi a grande aliada. As músicas que ouvia (cita Maria Bethânia, Francisco El Hombre…) e o quanto elas sempre se apagaram nas múltiplas expressões artísticas para conseguir respirar e sentir que os processos passariam. Hémely completa que juntas sempre combinaram de serem suporte, não desistir, sobreviver. Karol estava com 31 anos no momento da documentação, trabalha enquanto psicóloga e adora ler, é seu maior hobbie. Gosta de praticar atividades físicas porque acredita que isso mantém o corpo regulado, é uma pessoa metódica e gosta da rotina. Tem uma moto, adora mexer nela e se sentir um pouco mecânica, descobrir como as coisas na moto funcionam. É natural de Recife e morou muito tempo da sua vida em Abreu e Lima, então a moto foi de grande ajuda para se locomover entre as cidades, dando maior independência. Hémely estava com 31 anos no momento da documentação. Trabalha como escrevente extrajudicial no cartório, é formada em direito e hoje em dia cursa ciências sociais. Se formar em direito foi uma batalha, por conta de diversos entraves com seu pai, mas depois de muita luta conseguiu terminar o curso - e hoje em dia estuda o que realmente ama. Além dos estudos, adora assistir filmes, ou melhor, dormir no sofá enquanto assiste filmes… e ler. Para Karol e Hémely, a história que elas constroem e o amor presente nela serve de base para abrir portas para que outras pessoas não precisem viver o mesmo. Ou seja, não querem que o preconceito siga existindo, que outras pessoas passem pelas violências que elas passaram. Querem que seus familiares se espelhem no amor verdadeiro que elas vivem, que seus amigos saibam que ali existe com quem contar, que outras pessoas possam ouvir suas histórias e que não precisem passar por tanta dor como elas passaram para ficarem juntas… Acreditam que vivemos coisas para aprender e devolver o aprendizado de alguma forma, compartilhar para mudar as realidades, e esse também é um ato de amor, de estarem dispostas a mudar as coisas. Karol vê o amor no cotidiano, no presente, no respeito que existe na relação, no companheirismo que atravessa o dia-a-dia, os problemas e os desafios. Alinhando as expectativas, as conversas difíceis e as individualidades. Adora cultivar a relação, compartilhar o sonho. Fica feliz de viver um relacionamento que constroem com tanto carinho, fazendo essa escolha diária. Entendem que isso é o tempo, uma parte da história, mas que até então agora é a melhor de todas as partes que já viveram. Hémely fala sobre o relacionamento ser marcado por vários recomeços, e dentre esses recomeços, várias conquistas. Essa é a parte que a deixa mais feliz. O amor que vive com Karol mudou a forma que ela enxerga o mundo e foi um despertar para ela própria também, foi quando ela olhou para os próprios vazios, se acolheu, olhou para outras relações de forma diferente. E segue os processos porque acredita o quanto ainda podem crescer. ↓ rolar para baixo ↓ Karol Hémely

  • Gerando Renda | Documentadas

    Gerando renda é uma forma de conectar mulheres através do mercado de trabalho. gerando renda para o projeto Manter o projeto não é tarefa fácil! Fazer viagens, pegar metrôs, ônibus, barcas... disponibilizar tempo e conseguir manter as contas pagas é um grande desafio. E como queremos documentar o maior número de casais possíveis, disponibilizamos o nosso PIX e aceitamos qualquer valor como quantia de doação! Qualquer valor MESMO. Tem 2 reais e pode aplicar no projeto? é super válido! De quantias pequenas a quantias maiores, se cada uma e cada um de nós ajudar um pouquinho, conquistamos o Brasil todo! Colabore com a documentação histórica do amor entre mulheres! Para doar é muito fácil! - Entre no aplicativo do seu banco e clique em PIX > transferir PIX. - Escolha o tipo de chave: o nosso é e-mail :) - Digite o nosso e-mail, você pode copiar aqui: fernanda@documentadas.com - Digite o valor desejado da doação :D - Aparecerá o nome da idealizadora do projeto: Fernanda Piccolo Huggentobler. Então é só conferir e confirmar! Prontinho, a partir de agora você estará ajudando a documentar o amor entre mulheres no Brasil todo! Ah! Uma coisa importante. Quer saber como funciona os nossos gastos e ver como a sua doação está sendo utilizada? dá uma olhada nos nossos destaques do Instagram, lá tem um chamado: Prestação de Contas ♥ quer conferir a prestação de contas no Instagram? clica aqui! gerando renda para a comunidade LGBT Acreditamos que - além de que contar histórias de mulheres - podemos conecta-las. Falarmos sobre seus trabalhos, compartilharmos situações, momentos e, enfim, gerarmos renda. O mercado de trabalho segue difícil e podemos nos apoiar contratando trabalhos de mulheres da comunidade LGBT, certo? certo! Tá precisando de uma arquiteta? de uma chefe de cozinha para um evento do qual você tá promovendo? ou quem sabe quer fazer uma tatuagem nova e queria escolher uma tatuadora inspiradora? aqui temos! No nosso espaço de 'busca', clicando AQUI você consegue pesquisar pela palavra-chave (o serviço que você precisa), ver qual profissional está à disposição, ler sua história e entrar em contato com ela. O contato pode ser feito clicando no botão aqui na tela indicando a profissional que você leu, conheceu a história e deseja contratar/solicitar um orçamento. Nosso papel será te conectar diretamente com ela! Bora fortalecer a profissional que você admira! quer conhecer o serviço de alguma profissional? clica aqui!

  • Amanda e Julia | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Amanda e Júlia se conheceram no ensino médio. Estudavam no mesmo colégio que os pais da Amanda se conheceram, mas em turmas diferentes. Júlia conta que desde a primeira vez que se viram sentiu que seria algo especial, como se já soubessem que ficariam juntas. Amanda, na época, ainda não havia se relacionado com mulheres. Júlia já tinha se relacionado brevemente com uma amiga de Amanda, mas não tinham os grupos de amigos como ligação em comum, era apenas este fato que as unia. O primeiro contato mais marcante aconteceu na orla de Imperatriz, justamente no local onde anos depois fizemos essa documentação acontecer. Júlia estava com um problema: um ‘chupão’ no pescoço - e morria de medo que a família descobrisse. Amanda se ofereceu para ajudar, deu dicas de como disfarçar e depois seguiram juntas para pegar o ônibus. A partir desse dia, começaram a conversar mais online, se aproximaram no colégio e, pouco a pouco, também juntaram os grupos de amigos. Ainda que, no começo, muitos (para não dizer todos) acreditavam que o relacionamento que ali se formava seria só algo passageiro. Quando a mãe de Amanda descobriu, a situação ficou tensa. Foi então que Júlia tomou a iniciativa: decidiu ir até a casa de Amanda para conversar com a família e oficializar o pedido de namoro. A questão é que, sem que Amanda soubesse, no dia seguinte cedinho já estava lá, falando com os pais. Amanda levou um susto quando acordou e ouviu a voz de Júlia dentro da própria casa, já pedindo a mão dela em namoro. No início, os pais de Amanda até aceitaram a relação das duas, mas não acreditavam que o relacionamento fosse durar. Deixavam elas namorarem apenas na porta de casa, sentadas, sob supervisão. Hoje em dia elas riem lembrando, mas a verdade é que ninguém sabia direito como lidar com o início da relação. Quando os pais perceberam que o namoro duraria meses, afinal, seguia firme semana após semana, começaram a proibir as saídas juntas ou parar de aceitar os namoros na porta de casa. Isso justifica o quanto acreditavam que era apenas uma fase, uma brincadeira jovem… e que não iriam lidar com uma relação de verdade entre duas mulheres; Mas, mesmo depois das proibições, Amanda e Júlia continuaram se encontrando na escola e aproveitavam para escapar das aulas e passar tempo na orla da beira do rio Tocantins. Com as restrições aumentando, precisaram encontrar novas maneiras de continuarem se encontrando além da escola. Muitas vezes, enquanto os pais de Amanda saíam nos finais de semana, Júlia ia para a casa dela e, quando eles chegavam, corria para se esconder embaixo da cama. Foram várias noites em que os pés dos pais de Amanda chegaram a passar bem perto dela embaixo da cama, sem desconfiarem de nada. Hoje em dia, essa história é contada com humor - inclusive pela mãe da Amanda já sabe que isso tudo acontecia e se nega a acreditar. Com o fim do ensino médio e o início da independência financeira, Amanda e Júlia decidiram morar juntas. Essa mudança trouxe mais autonomia e diminuiu as interferências da família no relacionamento. Ao longo dos anos, passaram por algumas mudanças de casa, entre imprevistos e ajustes da vida, mas hoje vivem um momento de maior estabilidade: conseguiram juntar dinheiro e dar entrada na primeira casa própria, só delas. Ainda parecem não acreditar que o sonho está se concretizando, lembrando que começaram com quase nada, uma cama e poucos móveis, e agora conseguem enxergar, na prática, tudo o que construíram lado a lado. Reconhecem que o início não foi fácil. Como eram bastante jovens, as brigas por ciúmes eram constantes, era muita “intensidade adolescente”. Hoje, com mais maturidade, conseguem rir de muitas discussões que pareciam grandes, mas eram apenas inseguranças. Entendem que o vínculo delas é mais forte do que qualquer conflito e que existe uma “fissura” que sempre as faz escolher uma à outra. Com o tempo, aprenderam a transformar a relação em parceria: compartilham jogos em casa, passeios, almoços simples e a rotina com cuidado. Este cuidado se tornou parte essencial, uma base. Quando uma acorda mais cedo compra pães e lanche para a outra levar ao trabalho, dividem cafés da manhã, tarefas em casa, acolhem os medos, sonham alcançar novos lugares (seja no trabalho, na faculdade ou na vida pessoal)... Quando uma enfrenta dificuldades no trabalho, a outra é quem primeiro ouve, aconselha e acalma. Para elas, esse equilíbrio é o que faz com que a história dure dos tempos de escola até a conquista da casa própria. Amanda estava com 24 anos no momento da documentação, nasceu e cresceu em Imperatriz, no interior do Maranhão. Atualmente cursa Engenharia Civil e estagia na área. Aos 18 anos, decidiu sair da casa dos pais, em meio ao desejo de viver a relação dela com a Júlia de forma livre e independente. Gosta de programas simples do dia a dia, como assistir televisão e jogar jogos de tabuleiro. Júlia estava com 25 anos no momento da documentação, nasceu em Belém do Pará, mas ainda criança se mudou para Imperatriz, onde construiu a maior parte de sua vida. Trabalha como assessora de crédito em um banco e conta que começou a trabalhar muito jovem, próximo dos 14 anos, então já passou por diversos trabalhos diferentes. Parte da família ainda vive em Belém e em cidades do interior do Pará, enquanto outra parte está em Imperatriz, fortalecendo os vínculos na cidade. Ambas compartilham a experiência de terem saído cedo da casa dos pais e de terem buscado independência desde jovens. Suas histórias se mesclam com orgulho e vontade de serem independentes, formando um lar. ↓ rolar para baixo ↓ Julie Amanda

  • Ariadne e Barbara | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Barbara estava com 35 anos no momento da documentação. Natural de Recife, mora na casa em que fizemos a documentação desde que nasceu. É psicóloga, atende casais e trabalha também numa luderia - uma casa com jogos - que começou como um grande hobby e que se tornou um empreendimento com mais dois amigos. Lá é um dos lugares onde ela e Ari se sentem mais felizes, junto com os amigos, descobrindo novos jogos ou jogando os mesmos de sempre que adoram. Bárbara também é apaixonada por sua família e por seus bichos. Ariadne estava com 33 anos no momento da documentação. É formada em publicidade e também em psicologia, atua enquanto psicóloga atendendo na área da gestalt terapia (inclusive atende no documentadas!). É natural do Rio de Janeiro, mas cresceu em Recife e entende que precisou ser adulta muito cedo, saindo de casa e encarando a vida. É apaixonada por jogos, por literatura, crochê, artesanato… está sempre aprendendo algo novo. Em 2018, quando Ari e Barbara se conheceram, Ari estava num relacionamento que já durava cerca de seis anos com um homem e havia uma mudança planejada para São Paulo para morarem juntos. Fez uma entrevista de emprego, conseguiu passar, estava com a data marcada para começar o trabalho. No processo da ida para São Paulo, decidiram abrir a relação, já que estavam longe, e Ari entrou em um aplicativo de relacionamentos. Foi quando viu uma pessoa que estudava com ela na faculdade - a Barbara. Porém, na sala de aula, Ari não interagia com os colegas, ficava no seu canto e não chamava atenção. Quando começaram a conversar no aplicativo, Barbara não lembrava da Ari ser sua colega, e a foto da Ari era meio escura, não mostrava muito seu rosto porque ela não queria se expor… Barbara até sondou com os amigos: “Gente, quem é essa pessoa?!” mas ninguém soube dizer… até que uma amiga em comum a reconheceu. Durante o final de semana elas conversaram e marcaram um encontro na terça-feira, mas segunda iriam se ver na faculdade de qualquer forma e ficaram nervosas porque não sabiam como reagiriam. Brincam que foi a coisa mais vergonhosa que já fizeram, não se cumprimentaram na sala, Ari chegou a sentar próximo da Barbara/do grupo de amigos dela e piorou a situação porque o celular da Bárbara quebrou e ela queria uma forma de comunicar Ari sobre isso, mas ao invés de simplesmente dizer para ela, escrever um bilhete ou qualquer coisa semelhante, ela resolveu falar muito alto “EITA galera!! Meu celular quebrou!!!” jogando o celular no chão. E depois, deu todo um jeito de conseguir o número dela com um amigo, para falar com ela sobre o encontro. Hoje em dia dão muita risada sobre a imaturidade, era realmente só falar, mas faz parte do nervosismo que estavam tendo com a situação. Ari conta que Barbara foi o primeiro encontro dela tendo um relacionamento aberto, e ainda era a menina da sala dela na faculdade… Isso era motivo o bastante para estar ansiosa. Fumou um cigarro antes de chegar, depois se arrependeu por conta do cheiro do cigarro que iria ficar na roupa… Já chegou falando “Eu não fumo!! Isso aqui é de vez em nunca!” antes mesmo da Barbara perguntar. Tiveram um encontro muito bom, Ari contou que estava com a viagem marcada para ir embora, a conversa fluiu por muito tempo, passaram a madrugada e viram o dia amanhecer. Quando se despediram, falaram que se encontrariam na faculdade à noite e combinaram: como se cumprimentar, como agir. Para que não se repetisse o que aconteceu na segunda-feira. Continuaram se encontrando na faculdade, tendo o romance “com prazo de validade”, até que um dia estavam voltando da aula, Ari olhou e disse: “Eu nem vou mais viajar pra São Paulo” numa naturalidade imensa. Ari explica que percebeu o quanto o relacionamento não era um lugar bom, que estava há muito tempo querendo sair e que abrir para conhecer outras pessoas foi quase que uma fuga para que seu ex companheiro arrumasse alguém e conseguisse ficar em São Paulo sendo feliz, assim a barreira física não seria mais um problema. Percebeu que estava apaixonada por Bárbara, que não fazia sentido dar continuidade na mudança e nem que estava preparada para se mudar e mudar toda sua vida. Decidiu primeiro cancelar a mudança, não terminar a relação de imediato, mas cancelar os planos. Ari contou para o ex companheiro que estava se relacionando com Barbara e aos poucos foi ficando evidente o quanto elas estavam juntas, até o momento em que entenderam que seria melhor terminar. Barbara conta que durante esse processo, aconteceram dois momentos importantes: o primeiro foi um dia que elas se embriagaram e se declararam, entenderam que não era uma paixão momentânea e que estavam sentindo algo real, mesmo sendo sinceras porque estavam bêbadas. E a segunda situação foi durante uma cerimônia de Ayahuasca, em que conversaram e que Ari estava incomodada por não terem uma definição sobre o que elas eram. Bárbara foi muito direta: “Você namora e eu estou solteira. Quando você resolver sua vida, a gente namora.” e no dia seguinte Ari terminou sua relação. Entendem que, no fim, o processo foi intenso e rápido. Viveram outras relações longas que exigiam muito menos coragem. E juntas, desde o primeiro dia, fizeram coisas que em outros relacionamentos não conseguiram fazer: andar de mãos dadas com outra mulher na rua, por exemplo, de uma forma muito natural, espontânea, corajosa. Apresentaram suas famílias, ficam felizes por todos se darem tão bem e conviverem juntos, romperam muitas barreiras de forma rápida. Depois de um ano de relação, Ari e Bárbara viveram a pandemia de Covid-19 ainda morando em casas separadas, mas Ari passou um tempo morando sozinha e por conta das dificuldades que a pandemia demandava em mobilidade decidiram passar mais tempo juntas na casa dela ou na casa de Barbara. Decidiram morar juntas por um tempo no fim da pandemia, até que Ari devolveu o apartamento e conversaram sobre alugar um apartamento e formar um lar. Viram que os custos eram bastante altos, então o pai de Barbara ofereceu parte da casa onde ele mora - e lugar que fizemos a documentação - para que elas morassem com os bichos em um lugar espaçoso e confortável. Estão há pouco mais de dois anos morando juntas nesse novo lar e há cerca de um ano e meio abriram a luderia, casa de jogos de tabuleiros que empreendem junto com outros dois amigos. A ideia surgiu porque durante a pandemia começaram a alugar alguns dos seus jogos, entenderam o potencial e a demanda, ainda mais por não haver algo assim em Recife, foi quando abriram o espaço físico junto com um bar. Contando sobre a luderia, elas dão um exemplo de como se dão bem na comunicação e nos planos: numa situação, ficaram muito tempo tentando explicar uma coisa uma para a outra. Ari tentava explicar sua visão e não entendia a visão da Bárbara de jeito algum, enquanto Bárbara passava pelo mesmo, mas elas não desistiram de tentar se comunicar. Foi quando Bárbara disse como era legal ver o quanto elas se esforçaram para ouvir e falar, explicar os pontos, serem didáticas, até desenharam. Acreditam que isso se espelha em toda a relação e na forma que conduzem as coisas. Nunca tiveram brigas pesadas, sempre prezam pelo respeito e pelo carinho, acreditam que o amor está nesse lugar que respeita quem a pessoa é e acompanha o crescimento dela. ↓ rolar para baixo ↓ Barbara Ariadne

  • Natália e Talita | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Talita estava com 36 anos no momento da documentação. É natural do Rio de Janeiro, mas mora em São Paulo há oito anos, quando se mudou por conta do trabalho, sendo gerente de operações em uma multinacional na área de resseguros. No tempo livre, adora passear, fazer atividades físicas, jogar futebol, estar com os amigos e reunir pessoas. Sua família ainda mora no Rio de Janeiro, então busca ir com frequência e ver a cidade com olhares de turista. Natália estava com 28 anos no momento da documentação, é natural de São Paulo, da zona norte. Adora a vida na cidade, as pessoas, os encontros, os bares, exposições, teatros… Trabalha na área de direitos humanos, dentro de uma organização que tem isso enquanto propósito. Gosta muito dos rituais diários e também de tudo o que fala sobre a espiritualidade (do céu, das estrelas…) e também é apaixonada por literatura. Foi em agosto de 2022 que Nath e Talita se conheceram, num momento pós-pandemia que começaram a sair de casa, depois de muito se isolar durante os momentos de Covid-19. Talita chegou a voltar para a casa da sua família no Rio de Janeiro e, quando a vacina foi liberada, veio novamente à São Paulo. Sempre que tentava encontrar os amigos, era em casa ou em praças públicas, foi num dia bastante atípico que se sentiu cansada, depois de uma mudança, e viu que merecia desestressar curtindo um samba. Natália, por sua vez, também vivia um processo de começar a sair após os meses de reclusão. E também tinha vários motivos para não querer sair naquele dia. Mas conheceu uma banda de samba numa ida para o Rio e essa seria a primeira vez da banda em São Paulo. Ela pensou: é a chance de garantir um bom samba em casa! Sente que foi um momento de respiro, um samba de muita liberdade, depois de tanto tempo. Elas se encontraram mas também encontraram muitas pessoas, dançaram, foram felizes. Nath voltou contente para casa pela noite que viveu, não lembra muito bem com detalhes de tudo o que aconteceu no samba, mas no dia seguinte tinha uma mensagem da Talita no Instagram dela propondo o que ela quisesse: um vinho, uma cerveja, um café. Talita também estava muito feliz pelo dia e por ter conhecido Nath. Ela ficou surpresa com a mensagem - positivamente surpresa. E topou o encontro. A questão do primeiro encontro da Nath e da Talita era a seguinte: elas haviam se conhecido em uma festa, conversado numa rede social e não sabiam muito sobre a vida uma da outra; Queriam se encontrar, mas a rotina demandava correria. Marcaram para duas semanas depois, mas foram surgindo compromissos e mais compromissos, Nath entendia que o ideal seria um tempo de qualidade, mas era melhor se encontrarem logo do que só adiar para sabe-se lá quando o encontro. Marcaram um almoço, no meio de um sábado - inclusive no restaurante em que fizemos a documentação acontecer. Logo o primeiro abraço foi interrompido por uma conhecida que estava passando na rua no meio da situação e que começou a conversar, mas quando finalmente sentaram, almoçaram, dividiram uma cerveja… sentem que esse encontro já estava destinado à acontecer. Conversaram sobre muitos assuntos e não viram o tempo passar. Mas passou: e já era a hora do outro compromisso, foi quando Nath falou “Olha, eu preciso ir, tenho um outro compromisso. Mas à noite eu vou pra um samba, aniversário de um amigo. Se você quiser ir…”. Talita inventou um compromisso na hora também, brinca que o compromisso dela era esperar o compromisso da Nath, e assim se reencontraram no aniversário do amigo. Elas estavam tão conectadas que o amigo, aniversariante, chamou a Nath em um canto dizendo o quanto estava encantado por ela estar em um relacionamento, queria saber mais sobre essa nova pessoa. Ela riu e disse: “Conheci essa menina hoje!”. Mas essa fala vindo de uma terceira pessoa percebendo como elas já estavam em sintonia permaneceu sempre marcada em como a relação se constrói. Todo o início do namoro, ou melhor, do não-namoro - e você já vai entender o motivo - foi marcado por um momento muito conectado, unido. Todos os amigos comentavam que elas já estavam namorando, só não nomeavam. E era tranquilo para elas, estava “acontecendo”. Assim foram seguindo os meses em 2022. Sentem que tudo ainda era mais fluído porque não circulavam pelos mesmos meios. Os amigos não eram amigos em comum, acabaram se tornando aos poucos… Não tinham trabalhos semelhantes, não tinham rotinas semelhantes… Se não fosse pelo evento de samba, não se conheceriam por outros meios rotineiros. Então o cotidiano diferente trazia um interesse e uma fluidez que era algo novo na vida delas. Quando 2023 chegou, Nath recebeu uma proposta de trabalho que envolveria se mudar para Brasília. Quando contou para Talita na hora ela apoiou, falou como era incrível, como seria uma nova jornada maravilhosa. Nath não sabia qual reação exatamente esperava, mas essa foi outra surpresa muito boa: o incentivo imediato. Ela tinha quatro dias para decidir se iria se mudar e, com o apoio da Talita vibrando e torcendo por ela, topou a proposta. Naquele mesmo fim de semana, entre os quatro dias, foram no samba novamente (o mesmo em que se conheceram) e no dia seguinte Talita pediu Nath em namoro (viu, aí sim elas estão namorando… aham!) com um pedido super querido em formato de podcast para se ouvir no café da manhã (contando a própria história delas) e no domingo à noite a ficha caiu: “Meu Deus do céu, eu estou namorando, estou indo pra Brasília”. Talita apresentou a Natália para sua família enquanto sua primeira namorada, numa ida de muita festa ao Rio de Janeiro. Os tios, primos, as crianças da família, todos se reuniram numa quarta-feira fazendo um grande churrasco. Com Nath em Brasília, sempre que podia, Talita viajava para lá. Com a possibilidade de trabalho em home office, no começo iria para passar um fim de semana ou feriado, mas depois acabava passando dias e mais dias. Até que meses depois, em dezembro, foi e ficou três meses. Contam que por mais que a distância mexa muito com a saudade, sentiam uma troca muito grande envolvendo a parceria. Ao todo, Natália morou um ano e meio em Brasília e contou com progressos muito importantes na vida profissional. A relação também passou por muitas fases significativas: amadureceram no processo, amadureceram as relações com as suas famílias, suas independências… Mas hoje em dia, juntas na mesma cidade, ficam felizes de estarem mais próximas fisicamente novamente. Em fevereiro de 2024 noivaram numa viagem para Santo Amaro, na Bahia, no dia de Iemanjá. Foi num lugar tradicional, na festa da cidade, com boas energias, num pedido sem muito planejar, onde estavam se sentindo muito bem. Gostam muito de estarem sempre chamando boas pessoas para perto, sejam pessoas que param para elogiar o amor bonito que demonstram sentir, os amigos ou os familiares. No momento estão planejando o casamento e descobrindo o quanto adoram a ideia da celebração. Nessa reflexão sobre como estão felizes se permitirem celebrar um amor tão bonito, percebem que essa relação realçou a melhor parte delas, porque tantas outras relações (amorosas ou não) despersonalizam e fazem com que as pessoas se percam do seu caminho, não se reconheçam mais… enquanto ali é muito bom perceber que a relação que constroem fortalece quem são em seus melhores lugares, mas não só - instiga para que sigam descobrindo outros desejos, inspirações, que cresçam. Para Talita, o amor que vivem hoje em dia é um amor que acrescenta: se vê o tempo todo somando mais amigos, a família aumentando, a mãe mudando o olhar sobre a vida, a parceria o tempo todo presente nos detalhes - seja num café, num esforço que dividem para não ficar tão pesado, no quanto compartilham como está sendo o dia fazendo a companhia presente… é um amor que circula entre o pequeno e a escolha de vida. Para Natália, a relação representa um autoconhecimento muito grande. Mostra que é possível mudar. Mostra o poder da disposição. E o quanto isso se reflete nas outras coisas: sente que ter uma relação saudável faz com que ela tenha um posicionamento muito mais firme em outros lugares da vida, não aceite situações de abuso em outros ambientes, não releve coisas que são violentas, esteja sempre pensando sua comunicação… são momentos assim que percebe como o amor que vivem é muito além de algo romântico, é uma mudança diária. ↓ rolar para baixo ↓ Talita Natália

  • Vanessa e Dayanne | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Dayanne estava com 34 anos no momento da documentação. Nasceu em Aracaju e é psicóloga, professora e musicista. Com três trabalhos que refletem suas paixões, a música sempre esteve presente na sua vida, enquanto a psicologia surgiu ainda na adolescência, em uma feira de profissões que a fez descobrir seu caminho. Depois, o mestrado a levou à carreira docente, onde também a realizou. Além da rotina intensa, ela adora assistir séries e viajar para conhecer novas culturas e lugares. No palco, seu talento brilha: toca surdo, teclado, instrumentos de percussão, canta e integra uma banda de samba, mostrando que a música é um caminho, samba é democracia. Vanessa estava com 32 anos no momento da documentação, é natural de Simão Dias, no centro-sul de Sergipe, e chegou a Aracaju em 2017 para estudar. Criada em um povoado, onde o ritmo da vida era mais conectado à natureza e respeitando o tempo das coisas, teve um grande choque cultural ao se mudar para a capital. Após abandonar o curso de enfermagem por dificuldades em conciliar trabalho e estudos, encontrou sua verdadeira vocação em marketing, alinhando a paixão pela comunicação ao seu histórico como produtora cultural no interior. No passar dos anos foi convidada para ser educadora e, mesmo tendo uma avó e uma mãe educadoras, nunca foi algo que ela tinha imaginado trabalhar - e aqui ressalta que sua mãe, merendeira, talvez nem saiba que era educadora, mas que toda pessoa trabalhadora de escola educa e merece ser tratada enquanto educador. Hoje, ocupa um lugar de educadora antirracista, acredita que é sua missão de vida - e que sua espiritualidade chegou para confirmar. Ambas destacam a importância de serem retratadas como mulheres pretas, candomblecistas, conscientes de seus corpos vulneráveis, mas plenas em sua capacidade de ocupar espaços - que até mesmo quando crianças não imaginavam que poderiam estar ocupando. Sabem que todos os lugares que habitam têm uma dimensão política, e levam isso consigo, seja estudando, conversando, refletindo ou se divertindo. Com personalidades vibrantes e muito ligadas à rua, ou melhor, “rueiras”, são mulheres que amam estar no mundo, vivendo intensamente e construindo histórias significativas. Dayanne nunca foi de paquerar, muito menos pelas redes sociais, mas em 2022 Vanessa a seguiu no Instagram e logo chamou sua atenção. Ela chegou a comentar com uma amiga: “Nossa, que menina bonita!”. Já tinha visto Vanessa em alguns sambas e resolveu segui-la de volta. Aos poucos, as interações começaram com reações aos stories e passaram a sugerir encontros presenciais. Quando finalmente se viram, parecia que já se conheciam há anos. A conexão foi imediata e diferente de tudo que já tinham vivido. Dayanne, em especial, enfrentava um momento de confusão interna e refletia: “É agora? É essa pessoa?”. Percebeu que o que sentia era genuíno e forte, e que o amor, como estava vivendo, poderia ser algo tranquilo, leve e livre, sem controle ou imposições. No primeiro encontro, combinaram de se encontrar no apartamento de Dayanne antes de irem a uma festa temática dos anos 90. Chegaram ao evento de mãos dadas, como se já fossem um casal. Riem ao lembrar que o local não era nada romântico: músicas do É o Tchan tocando alto, precisando gritar para se ouvir. Felizmente, o tempo no apartamento garantiu que se conectassem antes do caos da festa. Desde aquele dia, continuaram se encontrando, e tudo foi acontecendo naturalmente, com leveza e diversão. Com o tempo e muitas conversas, descobriram curiosidades que pareciam unir ainda mais os caminhos: os pais de Dayanne, por exemplo, se conheceram no povoado onde Vanessa nasceu. Esses detalhes só reforçaram a sensação de que já estavam ligadas de alguma forma. Tudo foi acontecendo de forma bonita e intensa, ao mesmo tempo que se estende de forma leve, divertida, tranquila, diferente do que já se imaginaram vivendo. Aprendem, assim, que o amor é sem querer controlar o desejo do outro, “sem querer fazer com que o outro seja o que eu quero que ele seja”. Dayanne e Vanessa fazem questão de manter uma comunicação aberta e honesta, sempre conversando sobre seus desejos e construindo a relação com cuidado e atenção. Como diz bell hooks, o amor é uma escolha. Não o que ele desperta na hora que você sente, mas o que você vai construir com isso, como ele vai ser construído na relação. Por isso, fazem questão de considerar seus desejos e falam sobre eles o tempo todo. Vanessa cresceu em um lar onde a igreja católica estava presente no mesmo terreno da sua casa, porque sua avó doou parte do terreno para a construção. Frequentou o catolicismo até os 18 anos, mas sempre teve interesse por outras culturas e religiões, simpatizava com tudo o que era do povo preto. Com o tempo, decidiu se afastar das igrejas e, quando conheceu Day, soube que ela já era parte de um terreiro em São Cristóvão (cidade em que fizemos as fotos). Apesar disso, Dayanne nunca a pressionou a frequentar - e tinha o cuidado de não a influenciar. Vanessa passou a visitar terreiros urbanos por curiosidade e interesse, mas frequentava de fato religiões. Na época, dividia o lar com a irmã, que era evangélica, e até se permitiu algumas vivências na religião dela também. Quando passou a frequentar mais os terreiros, sentia-se limitada por não poder vivenciar isso livremente em casa. As vivências se intensificaram perante o reconhecimento na religião e, em meios a essas conversas e necessidades, Day e Vanessa decidiram morar juntas para viver com mais liberdade e acolhimento. São Cristóvão se tornou um símbolo importante na trajetória delas. Além de ser a cidade do terreiro que conecta suas crenças, foi lá que aconteceu o pedido de casamento, em um show de Rachel Reis, cantora que amam. Agora, sonham em construir uma família candomblecista, dando continuidade ao amor, à ancestralidade e às crenças e aos valores que compartilham. Day conta que se abriu sobre sua sexualidade para a família há pouco tempo. Antes de contar, enfrentou o medo da rejeição, mas foi acolhida com amor e apoio. Sua família não apenas a aceitou, mas ajudou a realizar o sonho de comprar a casa onde vivem. Esse acolhimento foi crucial para que ela se sentisse segura sendo quem é, tanto em casa quanto em outros espaços, como no trabalho. Hoje, todos ao seu redor sabem que ela é uma mulher bissexual em um relacionamento lésbico. Até sua avó, católica e com mais de 80 anos, respeita profundamente o casal e suas escolhas, refletindo como o amor caminha lado a lado com o respeito e a admiração. Day destaca a importância de dar visibilidade à bissexualidade. Ela reconhece que sua compreensão sobre si mesma foi tardia porque, durante boa parte da vida, não sabia que poderia nomear essas experiências. Sempre teve paixões por meninos e “admirações” por meninas: que poderiam ter sido paixões, mas que ficaram sem nome. Ela ressalta como é importante acolher a bissexualidade desde o início, em vez de buscar culpados para algo que não é errado. Por isso, faz questão de não deixar o "B" ser apagado e discute a temática de forma aberta, especialmente por entender que se torna referência para seus alunos, criando um espaço de acolhimento e segurança. Vanessa, por outro lado, cresceu em uma família marcada por mulheres fortes, especialmente mães solo. Com poucos exemplos de casais ao seu redor, precisou construir sua própria ideia de afeto e relacionamentos. Aprendeu que não precisa estar em um espaço de sempre agradar ao outro e esquecer de si, mas sim de um relacionamento saudável, pautado em autoamor e troca. Como mulheres negras em um relacionamento entre mulheres, elas enfrentaram olhares de fetichização, julgamentos que tentam reduzir o relacionamento a uma fase ou curtição. Por isso, ambas se dedicam a construir um amor que foge dessas narrativas, valorizando o cuidado, o enaltecimento mútuo e uma nova forma de amar. Esse relacionamento reflete a força que encontram uma na outra, no enaltecimento. Tanto no âmbito pessoal quanto na luta por respeito e visibilidade. Para elas, o amor é sobre aprender, construir e cuidar, enquanto criam uma narrativa que reflete o afeto e a elevação que desejam viver. ↓ rolar para baixo ↓ Vanessa Dayanne

  • Keziah e Patricia | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Keziah estava com 26 anos no momento da documentação, é natural de Fortaleza e chegou em Pernambuco em 2021. Atualmente trabalha como engenheira de software, sendo desenvolvedora. Adora praticar esportes, escrever (inclusive já escreveu alguns livros independentes de romances sáficos) e cuidar dos seus bichos - gato, cachorro, papagaio, jabuti e calopsita. Sempre foi apaixonada por jogos e isso a fez cursar uma faculdade de desenvolvimento de jogos - que a levou para ciência da computação. Ao contar sobre a sua trajetória, destaca também que passou 16 anos frequentando a igreja, tendo uma família bastante conservadora, o que refletiu por muito tempo numa carga forte de culpa cristã que sentia em ser quem ela é. Atualmente, sente que as coisas mudaram e são mais tranquilas, mas faz parte de um longo processo de reconhecimento, pertencimento, auto acolhimento e maturidade. Pouco tempo antes da documentação, Patrícia e Keziah haviam visitado Fortaleza juntas e, pela primeira vez, Keziah apresentou uma namorada para os seus pais. Sente que foi muito legal esse passo, nem imaginava que isso um dia poderia acontecer. Estão namorando há anos e a família dela já sabia, mas agora que aconteceu o encontro sabem que é um passo considerável na relação. Patrícia estava com 32 anos no momento da documentação. É natural de Recife, trabalha como designer e adora ler - inclusive, foi por conta desse hobbie que conheceu a Keziah, em 2020. Ficou desempregada e começou a ler ainda mais no tempo livre, procurou pessoas que gostavam de ler para fazer amizades no Twitter e em meio às postagens conheceu um livro dela - leu, amou e procurou o perfil para conhecer mais sobre a autora. Enquanto para Patrícia a história começa quando ela lê um livro da Keziah, para a Keziah a história começa enquanto ela estava num relacionamento em meio à pandemia. Não estava sendo um bom relacionamento, não se sentia feliz e paralelo a isso seu livro estava em ascensão, recebia diversos elogios e comentários positivos diariamente. Decidiu que deveria procurar alguém que estivesse disposta a ler um pouco do que escrevia para dar uma opinião sincera: uma ajuda, um auxílio, iluminar os pensamentos… Então fez algo que até então nunca havia feito: postou que estava procurando essa pessoa. A Patrícia era a pessoa ideal para isso porque comentava muito sobre literatura no Twitter. Falava sobre diversos livros, reclamava ou elogiava, interagia em diversos posts… e foi assim que elas começaram a conversar de fato. A intimidade aumentou rapidamente, mas Keziah nunca levou muito a sério a possibilidade de algo, principalmente por morarem em estados diferentes no meio de uma pandemia. Conversavam, compartilhavam coisas da vida, faziam maratona de filmes, mas acreditavam que seria uma amizade e ela ainda tentava entender e processar o término da relação que vivia. Quando entendeu que estava solteira oficialmente, Patrícia começou a flertar de forma mais direta e até apresentou seus amigos de forma online, compartilhando grupos de jogos durante o período pandêmico. E cada vez mais, também, compartilhavam sobre sua escrita da forma que Keziah procurava: alguém para trazer opiniões e ideias criativas. Alguns meses depois de estarem nesse processo, em meio à pandemia, morando em estados diferentes, mas conversando e já desenvolvendo sentimentos, Keziah voltou a morar com os seus pais no interior do Ceará por conta das questões financeiras de estar desempregada e entendeu: agora está ainda mais distante a ideia dessa relação um dia dar certo. Mas, depois de muita conversa, entenderam o quanto se gostavam e queriam tentar se conhecer pessoalmente, seguir aos poucos a relação à distância. Keziah comprou a passagem para Recife de ônibus logo que algumas medidas de lockdown foram “afrouxadas”, numa viagem de 14 horas. Ficou mais de uma semana hospedada em um apartamento que alugaram para poder ficar isoladas e sem colocar a família em risco. O primeiro lugar que visitaram juntas foi o local que fizemos a documentação (o Marco Zero) e, por mais que Keziah nunca tivesse viajado dessa forma, todas as amigas estavam mais felizes que preocupadas, já torcendo pelo casal. Keziah estava decidida a fazer o ENEM novamente para voltar à faculdade e colocar a opção de cursar no Recife, fazendo sua mudança para lá. Deu a notícia para Patrícia com medo dela se assustar, afinal, estavam se conhecendo pessoalmente depois de tanto tempo… E ela respondeu que não estava nenhum pouco assustava porque na cabeça delas, já poderiam até se casar. Ela pensou: “Ufa, bom, na minha também! Então tá tranquilo!”. Conta que depois dessa primeira semana, se apaixonou completamente por Recife e não se arrepende da escolha que fez de morar na cidade, gosta muito de ter escolhido Pernambuco como seu lar. Cerca de um ano depois de se conhecerem pessoalmente, Keziah se mudou de fato para Recife. Diferente dos planos iniciais, não fez o ENEM, mas sim um processo seletivo numa empresa e já chegou na cidade com um trabalho fixo. No começo, alugou um apartamento, mas passava tanto tempo na casa da Patrícia que acabou indo morar lá de vez. A família da Patrícia, por sua vez, não aceitava no início o fato dela se relacionar com outra mulher… mas foi aprendendo a lidar (e adorar) a companhia da Keziah. Um dia, quando a Keziah ainda morava em Fortaleza e contou que gostaria de se mudar, ao se despedir a mãe da Patrícia disse para ela voltar mais vezes, pois adorava a “casa com barulho”. Pois vivem bem e a casa segue com barulho todos os dias. Passaram a entender o amor como uma escolha. Enxergam a paixão que sempre existiu, mas o amor que vivem nessa rotina, dentro de casa com os pais, com os bichos, com a saga por terminar a faculdade, os desafios do trabalho ou vivendo na cidade, são escolhas diárias que firmam compartilhar e ultrapassar juntas. Ficam positivamente surpresas quando enxergam o equilíbrio que lidam com as coisas e a construção que foi feita nesses anos. Ressaltam que é um amor que leva o tempo inteiro: desde uma acordar mais cedo para poder fazer o café para a outra ir na faculdade e não perder o horário considerando todo o trânsito que leva até chegar, todas as formas que consideram suas correrias e dividem os pesos para não ser tão pesado pra uma pessoa só… acreditam que tudo só dá certo por conta disso. “Eu acho que dá certo porque a gente estava sempre, tipo... Tentando se ajudar. Sim. O tempo inteiro.” Quando para pra pensar nesses 4 anos de relação, Keziah conta sobre um diagnóstico de depressão que foi dado há anos atrás e que, na época, o pensamento era que não havia perspectiva de coisas boas. Como se no futuro não houvesse lugar para nada de bom na vida pessoal ou profissional. Mas hoje em dia, de alguma forma, o relacionamento faz tudo parecer muito leve e é muito legal pensar sobre esse merecimento do amor. Hoje em dia também não há mais diagnóstico depressivo. ↓ rolar para baixo ↓ Patricia Keziah

  • Claudia e Vanessa | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Cláudia estava com 54 anos no momento da documentação. É natural de Castanhal, interior do Pará, mas mora há anos em São Miguel do Guamá e é apaixonada pela cidade e pela região. Sua vida sempre foi atravessada pela arte, caminho que se intensificou quando morou em São Paulo por 15 anos. A mudança inicialmente era temporária, planejada para apenas dois anos de trabalho, mas acabou se prolongando quando ela decidiu continuar morando lá. Antes mesmo de se sentir sozinha em São Paulo, encontrou acolhimento na comunidade budista (que já fazia parte desde sua moradia no interior paraense) e decidiu seguir na capital, sabendo que tinha com quem contar. Nesse período, ingressou em uma escola de cerâmica, primeiro como agente administrativa. Aos poucos, sua curiosidade pela prática cresceu, até que se aproximou do laboratório e do torno. Um dia, vendo o laboratório vazio enquanto limpava, se arriscou e sentou para moldar uma peça. Como ela mesmo diz, “levantou” a peça do barro. E surpreendeu: quando voltaram, perguntaram quem foi que havia feito aquilo, pois havia ficado muito bom. O fato é que enquanto outros levavam anos para conseguir levantar a primeira forma, ela, apenas observando o processo, levantou de primeira. Apaixonada pelo barro, a cerâmica passou a ocupar um lugar central em sua vida. Depois de cinco anos distante do Pará, sem contato com conhecidos da região, decidiu retornar. Foi nesse reencontro com suas raízes que retomou o contato com a Vanessa (que conhecia desde criança). E é nessa volta que mais um momento da vida delas se cruza, mas não chega ainda a caminhar lado a lado. Vanessa e Cláudia se conheceram ainda crianças, quando tinham seis e nove anos. Cresceram muito unidas e, na pré-adolescência, a ligação entre as duas era tão perceptível que a mãe de Cláudia decidiu afastá-las, mandando ela para Manaus, com a desculpa de que iria trabalhar. O que seria uma temporada curta, apenas uma viagem como um experimento, acabou se estendendo por dois anos. Mesmo assim, sempre que Cláudia retornava (dessa ou de outras viagens que vieram a acontecer com frequência), as duas encontravam formas de se falar, ainda que de maneira breve e improvisada. Na adolescência e já adultas, mantiveram os encontros, guiados pelo boca a boca das pequenas cidades - todo mundo contava que Cláudia estava chegando, seja de barco ou de ônibus, até porque não havia celular ou internet para que se comunicassem. E nisso, havia também os desencontros: vez ou outra, Vanessa sabia tarde demais, Cláudia já havia partido de volta. Essa história, que foi se estendendo por boa parte da vida delas, também foi marcada por afastamentos. Ambas viveram outros casamentos, outras relações, construindo trajetórias paralelas. Um episódio marcante aconteceu quando tinham cerca de 30 anos: se reencontraram em Santa Maria, no interior do Pará. Cláudia chegou uma semana antes do que havia avisado à família, apenas para garantir o encontro com Vanessa, não deixando ninguém imaginar. No momento da documentação, Vanessa estava com 51 anos. Nascida em Salinas, vive há muitos anos em São Miguel do Guamá e também é apaixonada pela cidade e pela região. Foi pioneira numa das principais rádios locais, é uma figura importante falando sobre os direitos da mulher na cidade e tem diversas histórias relacionadas às figuras políticas locais. Sua trajetória e de Cláudia se entrelaçam o tempo todo com as histórias da cidade, afinal, desde que estão juntas dedicam todo o seu tempo para melhorar o lugar em que vivem. Vanessa lembra de uma cena que marcou a relação e a juventude delas: a mãe de Cláudia procurando sua mãe, conhecida como ‘Tia Alice’, para propor um trato: “Fique de olho na Vanessa, que eu vou ficar de olho na Cláudia, porque nessa idade pode acontecer qualquer coisa”. Para Vanessa e Cláudia, ainda adolescentes, aquilo foi doloroso e confuso. Não compreendiam ao certo o que havia por trás da vigilância. Faltava conhecimento, consciência e até mesmo uma certa malícia. Não sabiam nomear o que sentiam. Com o passar dos anos, Vanessa se casou, mas quando sua mãe adoeceu enfrentou muitos problemas na relação. A pessoa com quem se relacionava entendia que o adoecimento da mãe era um problema só dela e, por isso, ela não via mais sentido na relação, não se sentia numa relação de parceria. Nesse período, do nada, enquanto estava no hospital com a mãe, recebeu um telefonema: de Cláudia. Ela chegou a duvidar do que via na tela do telefone. “É você mesmo?”. Claudia chegou não só trazendo a lembrança de algo que ainda estava vivo, mas a companhia de poder compartilhar o cuidado, o carinho. Juntas, viveram o tempo do cuidado à mãe de Vanessa até ela falecer. Foi nesse reencontro que o amor, tantas vezes interrompido, reencontrou também seu espaço para existir. A mãe de Cláudia nunca conseguiu compreender como esse amor sobreviveu a tantas tentativas de separação - ela mesmo confessa. Hoje, porém, dá o braço a torcer e reconhece a força de um sentimento que resistiu ao tempo e às distâncias. Vanessa e Cláudia, por sua vez, também não sabem explicar com exatidão como, depois de tantos desencontros e caminhos diferentes. Talvez, precisasse mesmo ser assim. O que importa é que agora vivem “a vida é de nós duas”, como elas mesmo dizem, sem a necessidade da aprovação ou opinião de terceiros. Com a decisão de viverem juntas, assumiram não apenas o relacionamento, mas também uma paixão em comum: a cerâmica. Aos poucos, foram conquistando espaço e reconhecimento na cidade, criando laços através do trabalho artístico. Mantiveram seus empregos formais, mas logo passaram a ser conhecidas como ceramistas talentosas, com diversas encomendas. Há cerca de oito anos, Vanessa adoeceu. Foi diagnosticada com uma doença raríssima, esclerosante e degenerativa, somada à fibromialgia. O quadro grave fez com que Cláudia precisasse deixar o trabalho para cuidar dela em tempo integral, numa rotina com muita incerteza e sofrimento. No começo, desmaiava muitas vezes por dia, foi cogitado estar com câncer durante oito meses e chegaram a se despedir algumas vezes antes de terem o diagnóstico correto, mas Cláudia sempre dizia o quanto elas batalharam muito para ficarem juntas, não era agora que ela ficaria sozinha. Depois do diagnóstico e de acertarem os remédios, Vanessa respondeu com firmeza: teve uma melhora e pode seguir o tratamento em casa. Sem poder trabalhar e enfrentando limitações severas, elas sobreviveram graças às doações dos amigos. Pessoas das cidades vizinhas se mobilizaram, trazendo frutas, legumes, roupas e alimentos de bicicleta, partilhando o que tinham em suas casas. Mesmo sem nunca pedirem, a rede de afeto se formou de maneira natural, mostrando como eram queridas e como o amor que construíram ao longo da vida foi retribuído. Hoje, a doença está mais controlada, ainda que não consigam seguir uma rotina de trabalho, conseguem produzir algumas peças de cerâmica. A casa foi adaptada, o ateliê também. Celebram a chance de viver plenamente um amor que resistiu a tantas tentativas de apagamento e sentem a realização não só por estarem juntas, mas por verem o amor transbordando para os amigos, aproximando a família e inspirando os que conhecem suas histórias. ↓ rolar para baixo ↓ Cláudia Vanessa

  • Susy e Pâmela | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Susy estava com 38 anos no momento da documentação. Nasceu em Imperatriz, interior do Maranhão e também já morou no Pará por um período de trabalho. Sua volta ao Maranhão foi motivada pela saudade da Pâmela, como ela brinca ao contar. Atualmente trabalha enquanto pedagoga em uma escola de educação infantil do bairro e também na Universidade Estadual do Maranhão, onde pesquisa gênero e sexualidades. Além da vida profissional, gosta de dançar, assistir filmes e séries. Pâmela estava com 37 anos no momento da documentação. Também é natural de Imperatriz, mas nunca morou fora da cidade. Enfermeira formada pela Universidade Federal do Maranhão, atua na área há mais de 13 anos e também dá aulas em uma faculdade particular. É apaixonada por leitura, cinema, cozinhar, fazer churrasco e explorar o universo do café, ainda que de forma simples, gosta de aprender um pouco. Afirma ser mais tímida do que Susy, mas se solta quando está em ambientes seguros e acolhedores. Em 2008, na universidade, Susy e Pâmela foram apresentadas por uma amiga em comum. Susy cursava pedagogia à noite e Pâmela enfermagem durante o dia (a amiga, por sua vez, cursava direito - eram áreas diferentes interagindo). Pâmela era envolvida na militância da universidade… Susy era mais na dela e não concordava muito com as greves. Mas algo foi se unindo: na época, Susy participava de uma igreja evangélica junto com a amiga e Pâmela, embora de família católica, também começava a frequentar a mesma religião que elas. Então a aproximação inicial veio desse espaço religioso e das atividades da universidade. A amizade se formou com naturalidade, até que se viram conversando muito mais que o normal - no início era por SMS, aproveitando os 60 minutos de ligação a cada recarga… depois migraram para o MSN usando os computadores disponíveis no laboratório da universidade ou no trabalho do pai da Pâmela... Fato era: estarem juntas ou trocarem mensagens o tempo todo era o que as deixava feliz, com uma intimidade crescendo junto da conexão. O ponto de virada aconteceu quando Susy organizou um aniversário para Pâmela, já que esse não era um costume em sua família. Preparou fotos, vídeos e depoimentos para exibir na igreja. Ao selecionar as imagens, encontrou uma em que Pâmela estava mergulhado no Rio Tocantins (rio que beira a orla de Imperatriz). Ao ver a foto, Susy ficou ‘paralisada’ um tempo, não conseguia parar de olhar e percebeu algo diferente: essa admiração não era a mesma admiração que tinha por outras amigas. Foi ali que entendeu, pela primeira vez, que havia algo além da amizade entre elas. A aproximação entre Susy e Pâmela foi deixando de ser só uma amizade de forma muito sutil: os abraços demorados, os carinhos discretos, tudo havia muito toque na pele. Aos domingos, Pâmela buscava Susy de carro para irem juntas à igreja e naquele momento criavam um espaço de intimidade não-nomeada. Mas o primeiro beijo só foi acontecer de fato no centro acadêmico da universidade, onde Pâmela era responsável por algumas coisas do espaço e lá poderiam se sentir seguras quando estavam sozinhas. Porém, junto do afeto veio também o peso da culpa, alimentado pelo ambiente religioso e pelo preconceito familiar. Ou seja: depois de ficarem juntas no centro acadêmico, entenderam em conjunto que estavam errando e decidiram por confessar o que aconteceu às lideranças da igreja - que orientaram cada vez mais o afastamento. Assim, em 2010, interromperam o contato próximo e se restringiram a uma amizade contida. Durante os próximos quatro anos muitas coisas aconteceram… Susy se mudou para o Pará, elas se formaram e a relação ficou suspensa nesse lugar da amizade - mas que internamente era puro desejo. Mesmo sem assumir o que sentiam, a atração nunca desapareceu: às vezes se encontravam e o toque na pele ainda deixava claro que havia algo ali. Mas, o conflito era intenso, sobretudo para Pâmela que enfrentava muitos comentários homofóbicos dentro de casa. Em 2015, fora do ambiente da igreja, decidiram finalmente dar uma chance ao relacionamento. O namoro começou às escondidas, sem que ninguém da família ou do círculo de amizades soubesse oficialmente. E esse sigilo durou: foram quase cinco anos vivendo o amor em silêncio, entre encontros discretos e afetos guardados pra ser vividos apenas sem ninguém por perto. Alguns amigos desconfiavam, mas não havia perguntas diretas e elas também não se sentiam bem para contar. Foi um período que o amor significou: se proteger. Durante uma viagem a Salvador, no ano novo de 2018 para 2019, Pâmela pediu Susy em casamento. Não havia ainda uma perspectiva clara de como concretizar esse passo, mas o gesto representava a certeza de que queria dividir a vida com ela. De volta à Imperatriz no começo do ano, a decisão de assumir a relação começou a pesar mais para Pâmela, especialmente por causa das questões familiares e da dificuldade em enfrentar a rejeição que sabia que poderia vir. Susy, que já morava sozinha, recebia Pâmela em sua casa aos finais de semana, e nesse período começaram a considerar morar juntas. Pensaram também em alugar ou comprar um apartamento, até que surgiu a ideia de formalizar uma união estável. Mas toda a conversa foi evoluindo: se fariam a união, então que fosse um casamento. Numa única noite, entre um papo corajoso e cerveja, decidiram tudo. No dia 16 de maio de 2019 oficializaram o casamento - e foi com o casamento que se assumiram publicamente. Decidiram que cada uma contaria para a própria família no mesmo dia e horário. Susy levou a mãe até sua casa, enquanto Pâmela saiu mais cedo do trabalho e também contou para sua família. A conversa foi direta: não se tratava de pedir autorização, mas de afirmar a escolha de viver juntas e de reconhecer que a relação já existia havia cinco anos. A decisão era simples, a reação nem tanto. A mãe de Susy não recebeu bem a notícia e desde então nunca aceitou bem a relação. Entretanto, mesmo com o preconceito enraizado das famílias, elas seguiram firmes na decisão e no compromisso assumido. Não foi fácil viver tantos anos um relacionamento escondido de todos, mas agora entendem que vivem o melhor do bem-estar e da maturidade que foi construída nesse tempo todo. Susy conta de um período de fragilidade que passou por uma cirurgia e que Pâmela cuidou dela de uma forma intensa e inesperada. Ainda depois de tantos anos, esse momento foi muito importante e fez a relação ultrapassar o campo do amor romântico, é um espaço de cuidado e entrega. Elas contam também como o amor se tornou referência. O próprio casamento que foi pioneiro em Imperatriz - antes a cidade nunca havia oficializado união entre mulheres no cartório. Hoje elas contam como frequentemente pessoas chegam para reconhecer a relação delas enquanto uma inspiração e como isso é importante porque elas não tiveram referências quando começaram. Susy mesmo citou que parecia impossível que lá, no “último DDD do mapa” (o DDD 99), parecia que essas coisas nunca iriam dar certo. Mas foram prova de que deu (e dá). Hoje em dia a naturalidade faz parte de tudo: seja sair de mãos dadas, trocar gestos de afeto, participar de eventos LGBTs na cidade… fazem questão de viver sendo quem são. O lar, marcado pelos dois gatinhos e por um canto seguro, também é o espaço acolhedor onde fazem questão de viver bem. Não há mais motivos para não ser quem são. ↓ rolar para baixo ↓ Susy Pâmela

  • Alissa e Rafaela | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Foi num período em meio a pandemia que Rafaela decidiu submeter seu projeto para estudar mestrado em Santa Catarina, ainda sem esperanças, porque não conhecia ninguém na universidade e no Estado. Ela e Alissa moravam em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e trabalhavam na área da saúde. Foi vivendo etapas longas do processo, e para a sua surpresa, passando em todas. Até que em dezembro de 2020 teve a resposta: foi aprovada! Se olharam e entenderam: “Vamos nos mudar para Santa Catarina!”. Organizaram toda a vida e no dia 7 de abril de 2021 estavam a caminho de Araranguá, cidade no interior do estado, onde começariam tudo de novo. Dizem que no começo foi difícil de “não endoidar”, era só elas, uma pandemia, a cidade conservadora e ninguém que conheciam. Mas aos poucos foram recebendo as visitas das suas famílias que adoram visitá-las por conta da praia (adoram tanto que parte da família hoje em dia se mudou também!) e criaram um grupo bem legal de amigos. Precisaram se apoiar muito, essa foi a base para tudo dar certo. Alissa voltou a estudar, desta vez em Criciúma, cidade próxima - e que hoje em dia é o lugar onde moram por conta da facilidade de mobilidade/trabalho/estudo - acharam fundamental se assumirem enquanto família, não escondiam mais quem eram, andavam de mãos dadas na rua, falavam nas entrevistas de emprego que tinham uma companheira, desde o início deixavam claro às novas amizades para combater o preconceito… Esconder-se não era mais uma opção. E, aos poucos, foram encaixando a vida nesse novo lar. No momento da documentação, Alissa estava com 25 anos. Ela é natural de São Luiz Gonzaga, no interior do Rio Grande do Sul. Estuda educação física e ama praticar exercícios. Antes de cursar educação física também estudou engenharia elétrica por 3 anos em Santa Maria, neste curso fez parte do time atlético de handebol e foi aí que começou a paixão pelo esporte. Rafaela, no momento da documentação, estava com 25 anos. É natural de Alegrete, também no interior do Rio Grande do Sul. É mestranda em ciências da reabilitação e pretende começar o doutorado em breve. Morou 7 anos em Santa Maria, onde fez faculdade e pós-graduação. Mudou-se para Araranguá, em Santa Catarina, por conta dos estudos, mas atualmente está em Criciúma, há cerca de um ano. Rafa nos conta que recentemente recebeu seu diagnóstico de TEA - transtorno do espectro autista - e que tem entendido mais as coisas depois que teve seu diagnóstico. Recebeu muito apoio da Alissa nesse momento, elas explicam que é muito difícil passar a vida inteira sendo algo que a gente não sabe o que é, não sabe nem nomear. Depois passou a entender suas oscilações de humor, ou sobre não gostar tanto assim do toque, de manter contato visual… Na relação, definiram detalhes para saber quando ela está bem ou não: como o bichinho de pelúcia, polvo do humor (Rafa coloca ele feliz ou bravo mostrando como está se sentindo no dia) e assim elas estão entendendo isso juntas. Em março de 2019, quando Alissa era atleta do time de handebol da faculdade, Rafa entrou como fisioterapeuta. Logo na primeira interação, Rafa achou Alissa muito chata: era domingo, 8h da manhã e ela chegou animada com uma lista em mãos… Rafa pensou: “Quem tá feliz num domingo de manhã?”. Na época, Alissa vivia um período de transição de entendimento enquanto mulher lésbica, achou a Rafa lindíssima, lembra que sentiu algo diferente e já comentou com uma amiga sobre. Os dias passaram e no final de semana de Páscoa elas precisaram viajar para jogar com o time, não teriam como visitar a família na volta e decidiram fazer um almoço em conjunto. Acabou que o almoço virou só delas. Conversaram muito e ficaram amigas. Por serem profissionais do time não podiam sair à noite, saiam escondidas. Demoraram um tempo para entender que não queriam ser apenas amigas, foi um processo natural de intimidade (e que Rafa, hoje com o entendimento de ser uma pessoa com TEA e TDAH, passa a visualizar diferentes os detalhes daquela época), tudo foi acontecendo até o beijo se tornar um desejo em comum. Depois que se beijaram, se relacionam um mês sem contar para ninguém, até irem se abrindo para os amigos e para algumas pessoas da família. Quando Alissa resolveu fazer o pedido, em junho do mesmo ano, preparou toda a casa, o quarto, fez várias coisas fofas… E na hora: travou. Brinca que era a primeira vez, ninguém a ensinou a fazer isso, não sabia o que dizer. Depois de algumas horas conseguiu pedir. Alissa e Rafa tiveram algumas questões logo no início do relacionamento, principalmente porque Alissa não estava mais indo para a faculdade e levando os estudos à sério. Na época, ela focava no handebol e em sair para bares, aproveitar a vida. Rafa, por sua vez, era bastante focada nos estudos e não queria se relacionar com uma pessoa que não desse o mesmo valor à carreira, então teve uma conversa séria da qual disse que faculdade pública não era bagunça, que alguém estava pagando por isso e que Alissa precisava “se ajeitar na vida” = ou ela contaria aos pais que não estava estudando, ou Rafa contaria. O problema é que se os pais soubessem que ela desejava cursar educação física, iriam fazer com que ela voltasse à sua cidade natal e estudasse lá. E se ela contasse, também, que estava namorando uma mulher, seria informação demais para assimilar ao mesmo tempo. O processo todo levou 8 meses para acontecer, e nesse meio tempo, a mãe da Rafa estava visitando ela e deu a ideia: “Chama a Alissa para morar aqui!”. Antes mesmo dela processar, Alissa chegou lá e a mãe mesmo fez o convite. Aos poucos a família foi entendendo - e reconhecem como é muito bom ter uma família que ama e apoia. Ao passar dos meses Rafa conseguiu um emprego para Alissa de secretária no mesmo lugar que ela trabalhava enquanto fisioterapeuta, e assim viveram até o final do ano. Quando a pandemia de Covid-19 chegou, no início do ano seguinte, seguiram trabalhando por ser da área da saúde, mas já estavam com a vida mais estável financeiramente e batalhando pelos estudos. Hoje em dia, entendem com clareza que Rafa trouxe a calmaria para Alissa, enquanto Alissa trouxe um pouco mais de agitação para a Rafa. A relação tirou ela de vários lugares (de conforto ou não) e trouxe um salto qualitativo. Alissa estava sem perspectiva, depressiva, Rafa a trouxe um novo olhar. Durante a nossa conversa, refletem que se não fosse a relação, talvez elas ainda estivessem naquela realidade ou vivendo ciclos de suas famílias, e que hoje saíram para crescerem juntas, estão muito maiores. No momento atual da documentação, já morando em Criciúma, vivem uma rotina mais tranquila. Sair de Araranguá foi decisivo para isso acontecer, lá estavam tendo horários bem difíceis e mal se encontravam perante as rotinas. Estão noivas, fizeram a primeira grande viagem juntas e estão construindo novos planos. Acreditam que celebrar o amor com uma festa de casamento é o que elas merecem por estarem há 5 anos construindo esse amor. Brincam que adoram ser emocionadas, que no começo as pessoas falavam que isso iria passar, mas que até hoje fazem café da manhã e levam na cama, gostam de estar juntas e alimentam essa paixão. Sentem que fazer isso é manter o propósito do amor - e por consequência, da vida. Alissa sempre se questionou muito sobre sua capacidade, enquanto Rafa sempre foi muito decidida, então aprende muito com ela. Rafa segura a sua mão e fala: “Vai, você consegue”. Agora constroem um legado juntas. “É: nós por nós”. Se apoiam nos medos, transformam em coragem. ↓ rolar para baixo ↓ Alissa Rafaela

  • Mariana e Marie | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Conheci e documentei a Mariana e a Marie numa ida muito breve até Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no fim de dezembro de 2021. Não prevíamos a ida, quem dirá o encontro, mas estávamos em contato antes mesmo do Documentadas inaugurar, desde fevereiro do mesmo ano, quando comecei algumas movimentações na internet sobre o lançamento do projeto e elas entraram em contato comigo porque gostariam de se inscrever. De pronto, pensei: “Nunca fui ao Mato Grosso do Sul e não vejo como ir agora, acho bem difícil acontecer", eis que elas estiveram no Rio de Janeiro e mesmo assim não conseguimos nos encontrar… tudo desandou, mas se encontrou de novo: foi no Parque das Nações Indígenas, numa tarde típica, entre calor, sol e chuva, muitas araras e boas conversas, que fizemos a nossa documentação. Por mais que esse encontro realmente tenha acontecido no Mato Grosso do Sul, a verdade é que nem a Mariana, nem a Marie são de lá. Mariana tem 28 anos, é do Rio de Janeiro mas mora lá, ou melhor, mora em Sidrolândia, interior do estado. Já a Marie é de Fortaleza, mas está em Campo Grande há cerca de 6 anos, entre estudos e trabalho. Marie faz diversas brincadeiras por ter um estilo surfista e por não ter mar em Campo Grande, então elas contam que a relação é cheia de sonhos - esses, possíveis de alcançar: morar em um lugar confortável litorâneo, ter uma casa para elas estarem com a husky que adotaram, fazerem novos amigos, vivenciar o amor que acreditam ser compartilhado na relação que elas constroem diariamente. Com o começo da pandemia, a Mari e a Marie se viram em uma situação que não imaginavam viver antes: pela Mari ser servidora pública estadual, ela passou a trabalhar de home office e a Marie também, sendo assim, elas ficaram juntas em casa durante todo o período de isolamento. Este período fez com que muitas coisas fossem repensadas. Foi como um período teste para saber se elas dariam certo morando juntas, claro, porque nem todo mundo dá certo (e tá tudo bem!), mas o repensar foi sobre um futuro mais distante. Elas nunca tinham pensado, por exemplo, sobre o envelhecimento. Marie conta que foi um processo sobre se entender e entender a Mari enquanto uma companheira de vida, foi morando junto com ela neste período que ela percebeu que queria envelhecer junto, ter essa companhia, não se ver mais sozinha como se via anteriormente… Com o passar dos meses, foram amadurecendo essa ideia. Hoje, comentam sobre o casamento e, por mais que a Mari trabalhe em outra cidade e que isto não permita morarem na mesma casa, nada é fixo. Estão sempre dispostas a mudar ou a melhorar a rotina da forma que podem. Por mais que as duas fizeram a mesma faculdade, de Direito, em Campo Grande, não foi no curso que se conheceram. Na verdade, há algumas versões disso - ou melhor, elas foram se conhecendo por etapas. Quando pergunto se alguma delas possui algum hobbie, a Mari conta, rindo, que o grande hobbie da Marie é fazer o ENEM. A graça por trás disso é que a Marie fez o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) por muitos anos, assim, por fazer, mesmo já estando na graduação e foi numa dessas provas que a Mari era fiscal e elas caíram na mesma sala. A Marie achou a Mari muito bonita e notou que ela estava usando o moletom do curso de Direito e, como fazia parte do curso também, foi pesquisar nos grupos do Facebook até achar o perfil dela. O que ela não imaginava é que justamente naquela época a Mari tinha dado um tempo das redes sociais e desativado o perfil do Facebook, então não apareceria mais nesses grupos, ou seja, a Marie não encontrou e desistiu. Um tempo depois, Marie voltou a treinar muitos esportes (rugby, polo aquático, handebol…) e participou de um grupo de meninas que jogavam. Nesse grupo, perguntou se alguém era da mesma região que ela, para conseguir companhia na ida-volta ou até mesmo uma carona e a Mari respondeu, quando encontrou ela pessoalmente viu quem era e ficou chocada, logo pensou “Eita, é a menina do ENEM!! A Mariana não deu muito papo no começo. Ao menos, não na versão da Marie. Ela tentou puxar alguns assuntos em vão e até adicionou no Instagram, mas ela não aceitou, nem chegou a ver a solicitação. Meses depois ela viu a solicitação, aceitou e quando começou a aparecer no Instagram da Marie, ela logo puxou um assunto respondendo um storie. O que, obviamente, a Mari não interpretou como um flerte. Foi preciso continuarem conversando e desenrolando assuntos até que as coisas foram acontecendo. Ah, e um detalhe importante! Claro que a Mari lembrava que conhecia a Marie de algum lugar, antes do esporte, mas nunca do ENEM. Ela até perguntou aos amigos, se alguém conhecia ela, se já tinham ido a algum evento em comum… mas ninguém sabia dizer. Durante a conversa o mistério foi desvendado e ela lembrou de tudo. Um tempo depois de conversarem pelo Instagram, elas se encontraram pessoalmente e tudo começou a fluir muito bem. Nessa época, a Marie ficou um pouco receosa, pois vivia um pós término em que ainda morava/dividia apartamento com a ex namorada, por questões de estarem se organizando com as contas. Elas moravam juntas antes do término e eram mulheres que não tinham base familiar na cidade de Campo Grande, então era difícil sair de casa sem ter para onde ir tão repentinamente. Precisava-se de um tempo para achar um novo imóvel, assumir os gastos, etc. Falar tudo isso pode ser delicado para alguém que está começando a conhecer, ainda mais no caso dela e da Mari, que demorou tanto para finalmente acontecer e que ela estava se sentindo tão envolvida… Então ela sentiu um pouco de medo da Mari desconfiar ou achar que isso fosse um papo sobre uma relação que não tivesse realmente acabado. Foi com um diálogo muito aberto e sincero que conseguiu falar sobre isso e estabelecer uma confiança legal sobre o que estava acontecendo. A Mari acompanhou o processo e tudo acabou sendo tranquilo, a mudança aconteceu no tempo que tinha para acontecer e sem desconfianças, enquanto as duas se conheciam melhor também. A Mari comenta que, para ela, amar é o que move as relações - e o que aproxima os seres humanos. Ela já teve relacionamentos com homens e mulheres e pela dificuldade que sentiu na identificação da última vez que tentou se relacionar com um homem, acabou entendendo que a relação entre mulheres envolve uma desconstrução muito maior. Mas que o amor está/atinge à todos - envolve empatia no dia a dia e no convívio. Marie conta as relações da identificação dela com o amor… Como ela foi aprendendo isso na vida e a ler essas interpretações - ela explica que, por muito tempo, buscou parâmetros de amor que não viveu. Pela vivência com a mãe não envolver um afeto físico, nunca entendia o motivo exato disso, até que com essas leituras passou a entender as vivências da mãe, fazer recortes, ter consciência de classe, raça, ler detalhes dentro da história de uma mulher. Ela diz que: “Mesmo com esses recortes, têm coisas - como o amor - que a gente não precisa abrir uma enciclopédia para explicar… uma mulher sabe amar a outra porque isso naturalmente acontece.” Marie Mariana

  • Cynhia e Leylane | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Cynthia estava com 33 anos no momento da documentação, é natural de Recife, nascida e criada no bairro que fizemos as fotos: em Santo Amaro, na Universidade de Pernambuco. Formou-se em Educação Física, mas hoje em dia trabalha na área de finanças individuais e comportamentais, junto da sua companheira Leylane, que no momento da documentação estava com 38 anos, também formada em Educação Física e que além de atuar na questão financeira sendo consultora e ensinando organização e planejamento financeiro pessoal, também faz parte da saúde pública integrada ao SUS num serviço chamado Academia da Cidade. Leylane entrou na faculdade de Educação Física em 2005, fazendo o curso de licenciatura, depois especialização, bacharelado e mestrado. Como a universidade faz parte da sua vida há tantos anos e gosta muito desse espaço, passava muito tempo por lá. Cynthia, por sua vez, fazia parte de um projeto social da universidade que trabalhava com crianças e adolescentes da comunidade - ela, no caso, uma moradora da comunidade, frequentava a universidade antes mesmo de ser uma aluna. Ou seja, ambas viviam na universidade tanto tempo que nem sabem dizer quando de fato se conheceram, é como se sempre estivessem ali. Por mais que exista 6 anos de diferença na idade entre elas, ainda eram muito jovens e Cynthia, alguns anos depois (em 2011) passou para o vestibular. Nesse momento, todos já se conheciam - ela era amiga tanto dos professores, quanto dos amigos em comum da Leylane - e torciam para ela entrar no curso de educação física. Nessa época, Leylane já havia se formado em licenciatura e cursava bacharelado, foi quando se encontraram enquanto colegas. Leylane conta que se reencontraram num dia que ela foi jogar handebol e Cynthia fazer uma aula de dança, soube que ela estudaria na Universidade e parabenizou, disse que seria muito legal estudarem juntas… Quando as aulas começaram, ficaram na mesma turma e começaram a passar mais tempo do que imaginavam conversando. Leylane chegava do trabalho e Cynthia separava uma cadeira ‘de pessoa canhota’ para ela sentar, sempre faziam os trabalhos de aula juntas, passaram o semestre todo muito próximas, conversavam muito por SMS e, na época, “Oi Torpedo”… Até então se viam apenas como amigas, até que um dia conversaram sobre essa amizade estar “muito colorida” e sobre o medo do que poderia acontecer. Pensaram: “É muito bom, mas se melhorar estraga, então acho melhor ser só isso mesmo.” Porém, ao mesmo tempo, não queriam ficar longe uma da outra. Cederam à vontade e ficaram juntas. Mesmo com medo e pensando que não daria certo, dez dias se passaram e ficaram novamente. Desde então, continuaram. No início não nomearam aquela relação - ou o que sentiam. Aos poucos, como se entendiam enquanto mulheres heterossexuais, chegou num momento que conversaram sobre e decidiram não manter relações com os homens que mantinham antes, até porque iriam se machucar se continuassem. Eram muito mais felizes juntas, não precisavam de nenhum tipo de heterossexualidade compulsória. Todo o relacionamento de Cynthia e Leylane, no começo, era em segredo. Havia muito medo sobre o que as pessoas iriam dizer - elas mesmo estavam descobrindo aquele sentimento, tudo era novidade, e lidar com julgamentos não seria algo fácil. Só dois amigos sabiam (os mais antigos) e desde antes mesmo delas se relacionarem eles sentiam que existia algum sentimento ali e já “avisaram” sobre, então de alguma forma demonstraram apoio (e até hoje são amigos). Como outros amigos e, principalmente familiares, não imaginavam, o refúgio e local seguro delas era o campus da Universidade. A faculdade de educação física se tornou o lugar onde poderiam estar juntas sendo quem elas são, num cantinho - e, durante a documentação, lembram saudosamente os lugares que sentavam e ficavam juntas passando o tempo - só para poderem viver sem esse julgamento. Cerca de 6 meses depois, a mãe da Cynthia acabou descobrindo o namoro e, por mais que no momento ela tenha negado, no dia seguinte resolveu contar a verdade. Na hora, a relação dela foi bem ruim, disse coisas difíceis de ouvir, e mesmo gostando da Leylane (porque a conhecia enquanto amiga da Cynthia) verbalizou que preferiria ver sua filha se relacionando com uma pessoa que não tivesse uma boa vida (se envolvesse com drogas, por exemplo). Na hora, Cynthia defendeu a relação que elas possuem e a realidade da comunidade onde viviam, então saiu e buscou ajuda na casa de uma amiga. Um dia depois, a mãe da Cynthia contou para a mãe da Leylane e, por mais injusto que fosse elas não terem tido o momento e o processo do seu próprio tempo para conversarem com suas famílias sobre seus relacionamentos, foram proibidas de se encontrar. Novamente, a faculdade seguia sendo o refúgio dos encontros. Depois de cerca de quatro anos e diversas formas de lidar, Cynthia e Leylane foram seguindo o relacionamento e enfrentando o preconceito familiar, até que a mãe de Cynthia cedeu e resolveu voltar a aceitar Leylane em sua casa. Foram anos se encontrando na faculdade, na casa de amigos - que sempre foram grandes parceiros e colaboraram para que elas tivessem locais seguros onde ficar - ou em pousadas por Olinda e Recife. Aos seis anos de relação, Leylane passou em um concurso na cidade de Moreno. Financiaram um apartamento numa cidade próxima, Jaboatão, região metropolitana de Recife, e se mudaram. Brincam que queriam tanto morar juntas que já tinham um móvel em casa (guarda-roupa) que guardava só coisas de cozinha (panela, colher, vasilhas…) esperando o momento chegar - e entendendo que não teriam ajuda para a mobília. Então de tempos em tempos compravam coisas e guardavam. Conseguiram, no fim, alguns presentes da família - como eletrodomésticos - e ficaram bem felizes por isso. Em 2018, alguns anos depois, oficializaram o casamento com os documentos e direitos civis respeitados, pensando na importância que isso representa por serem respeitadas enquanto uma unidade familiar. Não iriam fazer festa, mas a mãe da Leylane deu a ideia de comemorarem com um bolo de noivas, chamou alguns familiares; O primo cozinhou, a prima ajudou, alugaram um salão de festas, compraram bebidas e comemoraram como mereciam. No momento da documentação, Cynthia e Leylane já estavam morando em Recife novamente. Desejavam trabalhar com algo que fosse delas, mesmo na área de educação física, e quando Cynthia conheceu o marketing digital e a educação financeira entendeu que gostava de trabalhar nessa área. Leylane havia feito alguns cursos de finanças para uso pessoal, administrando as próprias contas e sempre soube ensinar por conta de ser professora, então resolveu começar a compartilhar os estudos… foi assim que acabaram entrando de vez na área. Admiram o quanto dão certo trabalhando juntas e acreditam que isso é reflexo de tanto tempo de relação e de tudo o que já enfrentaram nesses anos. Ficam muito felizes quando veem os amigos e os familiares admirando o amor que possuem, quando voltam na universidade e os professores ficam felizes em revê-las depois de tanto tempo, sabendo que esse amor começou ali. Hoje em dia adoram andar de bicicleta, ler, sair para beber, dançar pagode, reunir os amigos, conversar (problematizar as coisas… inventar conversas complexas) ou compartilhar os assuntos que estão lendo. Confessam, também, que adoram passar o tempo trabalhando juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Cynthia Leylane

  • Emily e Raissa | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Emily e Raissa se conheceram em 2020, no auge da pandemia de Covid-19, através de um grupo no WhatsApp com mais de 200 fãs de Camila Cabello e Fifth Harmony. Emily, passando por um momento difícil, encontrou conforto nas músicas da banda por sugestão de uma amiga - a mesma que sugeriu a entrada dela no grupo para interagir com outras pessoas. No início, Emily era mais reservada, mas achava divertido o jeito de Raissa, que frequentemente saía e entrava no grupo, geralmente irritada com algum acontecimento. O primeiro contato direto aconteceu de forma despretensiosa, numa conversa sobre alturas, quando Emily comentou que Raissa era muito baixinha. Com o tempo, as interações cresceram, mesmo enquanto Raissa flertava com outra garota de Manaus, algo que Emily chegou até a incentivar. Porém, meses depois, as duas perceberam que gostavam uma da outra e, sem hesitar, assumiram isso diretamente no grupo, na frente de todos. Era improvável, achavam que nunca aconteceria nada porque consideravam a longa distância entre os estados e o fato de nunca terem se visto pessoalmente, mas decidiram levar a diante. “Qual a probabilidade de dar certo?” Com o passar do tempo, foram ficando cada vez mais próximas e com a conexão fortalecida. Raissa adotou uma gatinha que virou a mascote do grupo, e elas se acostumaram a lidar com a diferença de fuso horário entre Manaus e Sergipe. Até a família de Emily já reconhecia Raissa e as amigas do grupo como parte da rotina porque Emily estava sempre em chamadas ou conversas online. Quando se deram conta de que estavam completamente entregues à relação, oficializaram o namoro online, que durou mais de um ano até que finalmente se encontraram pessoalmente. Namorar online por um ano sem se encontrar pessoalmente foi um desafio que trouxe muita ansiedade para Emily e Raissa. Elas sabiam que a distância não era fácil de superar - e para completar, a passagem era cara, não havia como pegar um ônibus, e seria necessário economizar muito para um encontro que, inevitavelmente, mudaria suas vidas. Mesmo com essa consciência, os meses tornavam a espera mais difícil. Pequenas discussões começaram a surgir (e aumentar), dormiam pouco, estavam se desgastando pessoalmente e cogitaram, inclusive, se bloquear e abandonar a relação antes mesmo de se encontrarem. No meio desse turbilhão, Emily sonhava em entrar na universidade. Porém, nunca havia se inscrito no ENEM, desacreditava em ser capaz. Foi Raissa quem insistiu, incentivou e esteve ao seu lado nos estudos. Mesmo nos momentos mais tensos do relacionamento, quando pensavam em desistir e se bloquearem, Emily pediu que Raissa não se afastasse, dizendo que precisava do apoio naquele momento. A aposta deu certo: Emily passou no ENEM e, pouco depois, ganhou a bolsa de estudos, que usaram para comprar o computador que usam hoje em dia nos estudos em suas ambas graduações. Com essa nova conquista, a conversa sobre o tão aguardado encontro voltou a acontecer. Decidiram dividir o custo da passagem: Emily pagou metade, e Raissa a outra metade. Mesmo assim, o medo persistia. “Você quer vir mesmo? É outro estado... Outra cultura... Sua família está aí”, questionava Emily. A viagem, que inicialmente seria para dois meses, era um teste: entender como lidariam com a nova cultura, com o dia a dia juntas e, principalmente, com a relação que construíram à distância. Não saberiam ainda se seria um namoro ou uma grande amizade. Um dos maiores desafios para Raíssa ao sair de Manaus foi contar para os pais sobre a viagem. No início, eles não acreditaram que ela realmente iria. Quando o dia chegou, tentaram impedir, mas, sendo maior de idade, ela manteve sua decisão. No entanto, toda a confusão acabou fazendo com que perdesse o voo. Depois de conversar com a família, garantindo que voltaria em algum momento, recebeu o aval deles para seguir em frente. Chegando a Aracaju no final de 2021, logo no primeiro mês Raíssa conseguiu se sentir bem na cidade e arranjou um emprego. Viu a relação dar certo com a Emily, superou os medos e as inseguranças. Embora tivessem receio de que a convivência mudasse físicamente, perceberam que a conexão construída online era verdadeira, não eram “personagens”; E mais que isso: tinham uma mentalidade de que seriam mais amigas do que namoradas, apesar de todos ao redor afirmarem o contrário, mas logo se renderam ao óbvio: oficializaram o namoro novamente pouco depois dos primeiros dias juntas. Até hoje, Raíssa não voltou a Manaus, mas carrega o desejo - e a saudade - de reencontrar sua sobrinha, amigos e familiares. No entanto, já está adaptada à vida no Sergipe e pretende continuar construindo seu futuro ao lado de Emily, com quem compartilha uma história de desafios e cumplicidade. m 26 anos no momento da documentação. Nasceu em Aracaju, mas morou boa parte da vida em Itaporanga d’Ajuda, cidade sergipana. Hoje em dia reside próxima da universidade, num local chamado Rosa Elze, onde estuda Leitura de Espanhol na UFS e trabalha em projetos acadêmicos. A mudança foi necessária após um tempo enfrentando a rotina exaustiva de acordar cedo e voltar praticamente de madrugada, por longas horas de transporte público. Além do trabalho e dos estudos, Emily aprendeu com Raissa a se apaixonar por jogos clássicos como Super Mario, também adora filmes de comédia, animação e ouvir música. Raissa estava com 22 anos no momento da documentação. Nasceu em Manaus e está em Sergipe há pouco mais de dois anos. Em 2024, começou a cursar Ecologia na UFS e trabalha como auxiliar administrativa. Fã de jogos online, ela também é apaixonada por cinema, compartilhando com Emily o gosto por momentos tranquilos e divertidos. Agora, Raíssa e Emily dividem a vida em uma casa que se tornou cheia de afeto e propósito. Elas moram sozinhas, mas compartilham o lar com o irmão mais novo de Raíssa, uma criança extremamente carinhosa, que ama estar com elas. As famílias das duas também apoiaram como esteve ao alcance: os pais de Raíssa ajudaram com eletrodomésticos, e a família de Emily oferece suporte estando próxima. Vivendo na cidade próxima à universidade, encontraram um equilíbrio onde tudo é mais acessível e a rotina faz mais sentido. Para Emily, o relacionamento é um porto seguro. Elas aprenderam a identificar os momentos de ansiedade uma da outra e a criar um espaço de calma e cuidado. A universidade, que sempre foi um grande sonho, representa uma nova possibilidade de futuro, construído juntas. Apesar das noites em claro estudando, trabalhando e enfrentando os perrengues que não são fáceis, elas reconhecem como é importante ter esse apoio em cada etapa - seja lidando com os compromissos acadêmicos, seja lidando com as demandas da casa ou com as demandas familiares. Raíssa sente orgulho do que construíram e da admiração que recebem dos amigos e familiares. Ela valoriza profundamente o vínculo, o apoio e a sensação de estar formando uma família, ama estar com o irmão da Emily e sente que o lar é um espaço que vai muito além do cotidiano, mas que reflete a vontade de crescer juntas, um encaixe. ↓ rolar para baixo ↓ Raíssa Emily

  • Juliana e Luisa | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Luísa estava com 29 anos no momento da documentação. É formada em teatro, mas sua atual profissão é ser professora de inglês. Natural de Nova Prata, cidade interiorana do Rio Grande do Sul, viveu oito anos em Porto Alegre, onde estudou - e onde também mantém muitos amigos até hoje. É apaixonada (vamos dizer, fascinada) pelo universo do horror-terror, foi o assunto do seu trabalho de conclusão de curso e espaço escolhido para fazer a nossa documentação acontecer (um café temático em Porto Alegre), afinal, ela compartilhou sua paixão com a Ju durante o relacionamento. Juliana, por sua vez, estava com 36 anos no momento da documentação. Também nasceu em Nova Prata e viveu em Porto Alegre por uma década antes de retornar à cidade, em 2016. Filha mais velha de pais separados, descreve sua família como “bagunçada, mas com afeto”. Conta que precisou de muito tempo (e terapia) para entender seu processo e se livrar aos poucos das expectativas e dos padrões familiares que são impostos ao longo da vida. Em 2022, deixou o emprego formal para se dedicar ao bordado livre, arte que aprendeu com a avó, que era muito habilidosa e adorava costurar, bordar, trabalhar com madeira e outros artesanatos e, além do trabalho, Juliana também estuda psicologia atualmente. Quando começaram a namorar, o universo do horror era muito temido pela Ju. Ela sempre sonhava com os filmes, se assustava, tinha medo. Luísa aos poucos passou a incentivar outro olhar, um olhar de arte como algo provocativo e reflexivo, uma forma de expressão que incomoda para fazer pensar. Mesmo nas cenas de susto, quando chega a levantar os pés da cadeira e segurar firme a mão, aprendeu a rir depois, entender o susto e o que ele provoca. Hoje, o medo virou também um lugar de encontro, curiosidade e afeto entre as duas. Ao viver uma vida padrão esperada, a Ju acreditava que a felicidade viria no check dessa ‘lista’ imaginária - tinha a faculdade certa, o emprego estável, o relacionamento esperado. Mas ao chegar aos trinta e poucos anos, entendeu que nada disso preenchia um vazio. Se sentia frustrada. Nessa mesma época, aos 33 anos, participou da criação de um núcleo de mulheres na cidade, e foi colando lambes nas ruas, em plena pandemia, que viu Luísa pela primeira vez. Ainda sem compreender direito o que sentia, ficou encantada pela presença dela. Sentia que queria conhecer mais, chamar ela para sair. Foi nesse processo de frustração e descoberta que começou a pensar sobre ser uma mulher lésbica, mas ainda de forma muito calma, respeitando seu processo. Diferente da Ju (que não tinha muitas referências lésbicas ou bissexuais por perto) Luísa conta que sempre foi a “responsável” e a “certinha” entre os seus. Cresceu numa família majoritariamente feminina e cercada por primas que se relacionam com outras mulheres. Tímida, introspectiva e tranquila, sua sexualidade foi algo que surgiu de modo natural, quase como uma confirmação de algo que todos à sua volta já percebiam. Quando entrou para o teatro, o contato com outras formas de liberdade a fez repensar seu próprio lugar no mundo, e mudou um pouco a sua forma de se relacionar. Quase dois anos depois daquele primeiro encontro no coletivo de mulheres em Nova Prata, Ju criou coragem para enviar uma mensagem a Luísa. Parecia ser simples, né? Só enviar uma mensagem. Mas o receio da Ju é que elas tinham uma certa diferença de idade e ela não queria parecer uma pessoa muito aleatória fazendo um convite estranho. Mas o convite foi aceito e o encontro foi muito bom, tanto que já quiseram repetir em seguida. Logo estavam juntas, sem precisar de grandes planos ou certezas, apenas com o desejo de permanecer. Desde então, foram aprendendo a compartilhar um amor, uma forma de estar no mundo, a coragem, o humor, os desencontros… E Luísa ainda morava em Porto Alegre, então ainda aprenderam a compartilhar um pouco de distância também. Como o namoro da Ju e da Luísa começou entre Porto Alegre e o interior do Rio Grande do Sul, a semana era dividida em um tempo na capital, outro tempo na casa do pai da Ju, em Nova Prata - e esse foi o momento de apresentar às famílias também. O pai dela reagiu de uma forma até um pouco engraçada, afinal, ela não sabia o que esperar da reação dele e tinha certo medo. Ele não morava de forma fixa no Rio Grande do Sul e ela aproveitou uma vinda para falar sobre o namoro. Nas palavras de Ju, foi assim: “Pai, a gente tem que conversar. Porque eu estou saindo com outra pessoa. Eu estou vendo essa pessoa. E talvez ela venha aqui. E é uma mulher. E daí ele disse: ‘Tá. Tá bom. Tudo bem. Tu teve namoros muito ruins com homens, talvez tu seja mais feliz agora’” (risos). E foi nesse dia que eles se conheceram. Dias depois foram conhecendo outros familiares e as coisas foram se ajeitando da melhor forma, com serenidade. O namoro seguiu com espontaneidade. Em 2023, com um ano de relação e a Lu já morando em Nova Prata, decidiram se casar. O debate sobre o casamento homoafetivo voltava à pauta na Câmara dos Deputados e elas sentiam cada vez mais a certeza do afeto, então resolveram celebrar numa cerimônia pequena, num restaurante acolhedor, pouco antes do Natal, para que o pai de Juliana pudesse estar presente. Entre mesas apertadas, famílias misturadas, a sobrinha apaixonada pelas flores e pelo vestido, o cuidado onde cada familiar iria sentar… o momento se tornou um retrato delicado da união: simples, verdadeiro e cheio de amor. Depois da cerimônia de casamento, elas começaram a planejar a possibilidade do primeiro lar verdadeiramente seu. Ele deu certo em 2025 e, quando pergunto como está sendo, Ju explica que essa nova casa simboliza algo além do casamento: é a conquista da autonomia, o rompimento com antigos vínculos familiares e o início de uma vida guiada por escolhas próprias. Entre risadas, sustos de filmes de terror e silêncios confortáveis, as duas constroem uma rotina que traduz aquilo que buscavam desde o início: a sensação de estar, finalmente, em casa. Ju e Luísa passaram a ouvir com frequência comentários de amigos e familiares sobre como parecem ainda melhores juntas. A nova casa trouxe algo que antes faltava: privacidade e pertencimento. Com o tempo, aprendem também sobre os próprios limites e como eles podem ser diferentes entre si. Juliana, acostumada à convivência intensa da família, precisou entender o valor do silêncio e da reserva que Luísa prezava. Luísa, por sua vez, aprendeu a acolher essa espontaneidade familiar que faz parte da história da companheira. Nesse processo, a busca pelo convívio mais harmonioso foi o que permitiu que cada uma reconhecesse o que traz conforto e o que precisa ser ajustado. Reconhecem também o amadurecimento, o quanto a relação foi amadurecendo nesses anos. Elas atravessaram perdas e desafios: o luto, mudanças de trabalho, afastamentos de amizades, os sonhos que se materializaram… e assim o vínculo se consolida. O amor antes era uma idealização, algo romântico, agora é uma manifestação cotidiana de cuidado, escuta e apoio. A convivência se tornou um espelho de crescimento individual: quanto mais se fortalecem como casal, mais se transformam como pessoas. É movimento. ↓ rolar para baixo ↓ Luísa Juliana

  • Sara e Vitória | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Sara Ruth estava com 22 anos no momento da documentação. É natural de Criciúma e trabalha enquanto professora de dança. Sempre amou o meio artístico, aprendeu a dançar ainda criança e passou por diversos movimentos - desde o balé clássico, moderno, jazz, contemporâneo, as danças urbanas… Hoje em dia dá aulas em diversos estilos e também ajuda na produção artística de shows e coreografias de clipes. Brinca que é “muito metida”, adora estar em qualquer movimento. Mas a verdade é que nem sempre conseguiu viver de arte, precisou trabalhar em diversos empregos formais para conseguir conciliar com a dança e manter as contas pagas. Chegou até mesmo a iniciar uma faculdade de ciências contábeis, mas não concluiu porque soube que seu caminho era mesmo na dança. Foi entre os 17 e 18 anos que saiu de casa, e hoje, além de toda sua trajetória profissional, também entende seu diagnóstico de ser uma mulher autista, ressalta o quanto isso é importante e central na sua história, pois entende seu próprio tempo, encontrando mais equilíbrio e autonomia. Vinda de uma família cristã, o processo de se entender enquanto mulher lésbica foi atravessado por conflitos e pela heteronormatividade compulsória - naquele caminho: primeiro se identificou como bissexual, mas sempre teve dificuldade em sustentar essa identidade, porque a bissexualidade não chegava no desejo do homem, mas numa “esperança cristã” de que talvez um homem chegue e “conserte tudo”. Faz pouco tempo, há cerca de um ano e meio, que passou a se reconhecer como lésbica, embora só tenha conseguido verbalizar isso aos poucos, no seu processo - e tudo bem. Esse percurso é marcado por dúvidas, silêncios e pela sensação compartilhada por muitas mulheres, afinal, essa heterossexualidade é socialmente nos colocada desde sempre. Vitória estava com 27 anos no momento da documentação. Nasceu e cresceu em Criciúma e, diferente da Sara que gosta de estar nos palcos, ela brinca que prefere sempre ocupar os bastidores. Trabalha na área administrativa de confecção de jeans e tecidos planos e, assim como Sara, também iniciou a faculdade de Contábeis, mas não seguiu adiante por não se identificar. Define como hobby acompanhar a intensidade e a movimentação da vida da companheira, reconhecendo que sua rotina era mais parada antes de começarem o relacionamento. Hoje, compartilha com Sara um cotidiano atravessado por criatividade, movimento e descobertas constantes. Foi por meio de amigos em comum que Sara e Vitória se conheceram, em uma festa, no meio de 2023. Se cumprimentaram rapidamente. Na época, Vi estava no fim de uma relação, e Sara celebrava o próprio aniversário na festa e dançando profissionalmente com uma DJ que acompanhava em algumas festas. Depois desse dia, passaram a seguir uma à outra nas redes sociais e rapidamente interagiram numa postagem. A partir desse primeiro contato, não pararam mais de conversar. A conversa atravessou a madrugada, seguiu pelo dia seguinte e, ainda naquela mesma semana, decidiram se encontrar. O primeiro encontro aconteceu em uma parada de ônibus (e até brincaram que esse deveria ser o local da documentação, por ter sido muito simbólico). A ideia era que fosse um encontro breve, porque ambas tinham compromissos logo após, mas foram comer um lanche juntas e a conversa rolou como se já se conhecessem há anos. Tudo aconteceu com naturalidade, sem esforço. Explicam que desde o início a relação foi marcada por abertura e alinhamento. Sara reconhece Vitória como sua primeira namorada, primeira noiva e futura esposa, e sempre teve uma percepção muito clara sobre o que buscava em um relacionamento: a vontade de se entregar a alguém com quem fosse possível imaginar um futuro, entendendo o amor como construção, escolha e convivência entre o que é bom e o que é difícil. Essa visão compartilhada sobre afeto, compromisso e crescimento conjunto fez com que tudo fluísse com segurança desde as primeiras conversas. Naquele mesmo dia, pegaram o ônibus juntas. O primeiro beijo aconteceu na parada, em frente a um mercado. A partir dali, não se desgrudaram mais. O relacionamento seguiu como um processo de descoberta mútua, atravessado por diálogo, presença e pela sensação constante de reconhecimento uma na outra. Um mês depois do primeiro encontro, Vitória e Sara já estavam namorando. Pouco tempo depois, decidiram morar juntas: segundo a explicação delas, foi literalmente o primeiro mês ficando, o segundo namorando e, no terceiro, dividindo a mesma casa. A relação avançou com a mesma intensidade com que se reconheciam. Enquanto Vitória já carregava o desejo antigo de ter um lugar próprio para chamar de lar, Sara, dançante e de alma livre, queria ganhar o mundo. A ideia de uma casa própria foi sendo construída aos poucos, como um porto possível para quem quisesse ir, mas também precisasse ter para onde voltar. Sara aos poucos foi considerando a ideia de um lugar próprio junto com a Vi e, quando completaram um ano, decidiram comprar um apartamento. No fim de 2024, se mudaram para o apartamento que compraram juntas e, junto com ele, vieram também dois gatos: um preto, um branco. Foi assim que deram início para uma nova fase na relação. A saída de casa, para ambas, esteve diretamente ligada à sexualidade. Sara vinha de uma família cristã, onde o amor era possível desde que fosse distante, nunca dentro de casa. Durante muito tempo, sustentou a identidade bissexual como uma forma de negociação afetiva com a família, uma tentativa de manter pontes enquanto sobrevivia ao medo de ser rejeitada novamente. Já Vitória carregava uma história de independência mais precoce e limites mais claros: para ela, viver um amor exigia verdade e visibilidade. Essa diferença se tornou um ponto sensível do relacionamento, não como imposição, mas como conversa. Não havia obrigação de se assumir para a família, mas havia o desejo de viver sem se esconder. Com paciência e firmeza, Sara escolheu enfrentar esse processo outra vez. Estabeleceu limites em casa, recusou espaços onde a Vi não pudesse estar e passou a se posicionar com clareza. O tempo fez o que precisava ser feito. Aos poucos, o contato foi retomado, as regras foram revistas e o afeto foi entendido. A mãe, que nunca deixou de amar, precisou aprender e enxergar como a relação era boa para a Sara e a Vi. O primeiro grande gesto veio quando aceitou que Vitória estivesse presente numa festa da família. O encontro foi tranquilo, respeitoso e abriu caminho para um vínculo que é gigante - hoje elas conversam e ela vive dizendo que gostaria que a Vi fosse filha dela, de tanto que se parecem. Para Vi e Sara, o amor sempre foi entendido como um gesto revolucionário. Não como ideal romântico abstrato, mas como decisão cotidiana: estar uma para a outra, construir, sustentar, fazer dar certo. Desde o início, enxergam o relacionamento como um caminho compartilhado, feito de compromisso e presença. Reconhecem os próprios extremos, as diferenças de temperamento, a razão e a emoção num equilíbrio possível que amadurece o vínculo. Essa visão não ignora as partes difíceis. Pelo contrário: inclui o amor que dói, que exige esforço, conversa e atravessamento. Pensam o futuro juntas, detalham planos, fazem tudo com muito diálogo. Na verdade é isso: tudo passa pela conversa. Avaliam prós e contras, entendem que alguém vai precisar ceder, e não é uma disputa, explicam que existe um sistema de porcentagem: até decisões simples passam por acordos, como medir o quanto cada uma deseja ir para um evento - “hoje eu quero 50% e você?” “eu quero 80%” “então nós vamos porque você quer bastante”, para que saibam quando insistir, quando ceder e quando cuidar. Isso transforma o cotidiano em um espaço seguro, previsível e afetuoso para ambas. Criaram dinâmicas próprias para tornar tudo mais claro, especialmente considerando a vivência de Sara como mulher autista, que precisa de comunicação direta, literal e transparente. Nada fica subentendido. Desejos, limites e vontades são verbalizados sem jogos. Esse cuidado também se expressa no acolhimento das vulnerabilidades. Vitória se tornou suporte nos momentos de crise, colo, presença constante. O amor delas se mostra sem esforço performático, no modo como se sustentam e se respeitam diante dos outros. Pessoas ao redor percebem essa leveza e, muitas vezes, as elogiam e tomam como referência. Até a própria mãe da Sara, que ultrapassou o preconceito e hoje em dia é grande apoiadora. Para finalizar, elas contam que a Vi, nessa troca de afeto, tatuou a boca de Sara, uma das coisas que ela mais admira nela. E elas também tatuaram o símbolo do autismo com um coração, mostrando o afeto e o carinho nesse suporte. ↓ rolar para baixo ↓ Vitória Sara Ruth

  • Tainá e Fabielly | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Fabielly estava com 26 anos no momento da documentação. Nasceu em Porto Alegre, mas cresceu em Esteio, onde vive desde criança. Estudou psicologia por um tempo, onde conheceu Tainá, mas logo percebeu que aquele curso já não conversava com o que sentia. Trabalhou em uma loja por um tempo, flertou com a possibilidade de estudar moda, testou possibilidades enquanto lidava com o peso de não saber exatamente para onde ir. O estresse da rotina intensa a afastou do trabalho, e, nesse vazio, encontrou espaço para o que sempre esteve ali: a inclinação artística. Foi assim que chegou ao design gráfico, onde finalmente começou a se reencontrar. Tainá estava com 25 anos no momento da documentação. Nasceu em Sapucaia do Sul, cidade ao lado de Esteio, onde mora hoje em dia. Estudou psicologia e hoje em dia trabalha na clínica, atendendo exclusivamente mulheres, tanto de forma online quanto presencial, num consultório integrado ao apartamento - que foi uma das razões para a escolha do lugar onde vivem. Fora do trabalho, cultiva o corpo e o espírito: pratica Muay Thai, lê, pinta, e se aproxima cada vez mais do budismo, depois de anos se considerando ateia. Juntas, constroem um cotidiano que mistura busca e estabilidade, sensibilidade, arte e cuidado. O que compartilham é esse desejo de fazer sentido para si mesmas, para o mundo ao redor e para a vida que dividem. Fabi e Tai se conheceram em 2020, no estágio do programa Primeira Infância Feliz, uma iniciativa estadual, inspirada em práticas de cuidado voltadas ao desenvolvimento integral de famílias em situação de vulnerabilidade. Era um trabalho multidisciplinar que reunia psicologia, nutrição, fisioterapia, pedagogia e fonoaudiologia, que levava as estagiárias diretamente às casas das famílias. No meio da pandemia de Covid-19, com máscaras, álcool gel e as primeiras doses de vacina, Fabi e Tai, ainda que de faculdades diferentes e não sendo tão próximas, se conheceram atendendo territórios e cruzando caminhos na cidade de Esteio, região metropolitana de Porto Alegre. Foi só em 2021, quando estavam solteiras e com uma relação mais construída por trabalharem juntas há alguns meses, quando começaram a interagir mais. Vez ou outra, se encontravam para auxiliar nos territórios - sempre caminhando muito ou andando de bicicleta, porque eram locais muito extensos, então dividiram longos trajetos e conversas. Aos poucos, esse cotidiano criou espaço para que a amizade se transformasse, puxando assunto aqui, criando vínculo ali, até o dia de uma confraternização de trabalho na casa de um amigo em que, finalmente, se beijaram pela primeira vez. E dali em diante tudo aconteceu depressa: em dez dias, já estavam namorando. Fabi lembra que, no início do namoro, ainda se entendia como bissexual e carregava uma dificuldade de aprofundar relações com mulheres. Com homens, havia sido ensinada desde cedo sobre comportamento, desejo. Era como se existisse um roteiro; Com mulheres, existia um medo, quase um pânico, de dar certo e não saber o que fazer depois. Ela fala sobre o bloqueio, sobre a estranheza de um aprendizado que nunca veio, e de como, ao perceber que gostava de Tainá, de ver que as conversas fluíam, que existia alinhamento e desejo, decidiu não deixar passar: era uma oportunidade rara de viver uma história que fazia sentido. Entre amigas bissexuais, via esse debate se repetir (hoje até transformado em piada na internet, mas uma piada bem real) sobre como “com homens, qualquer um serve, mas com mulheres dá pavor”. Falamos sobre a importância de refletir e de verbalizar tudo isso, porque muito vemos essas “piadas”, mas pouco vemos conversas sobre o motivo delas existirem. Fabi explica que entendeu na relação com a Tai o motivo dos seus relacionamentos com homens sempre esbarrarem em uma sensação de inadequação: nunca estava bom, sempre havia um incômodo e um defeito. No fim, sempre iria haver, porque o problema eram eles serem homens, e ela ser lésbica. Muitos vínculos tinham sido apenas comodidade. Ainda que já tivesse ficado com homens legais e tido relações legais, e com mulheres legais que viraram amigas, porque travava diante do desconhecido (o medo de assumir, o medo de dormir juntas e não saber como conduzir a intimidade, o medo do julgamento na vida adulta). Sabia que muitas mulheres lésbicas tinham preconceito com mulheres bissexuais, e isso também pesava. Na família, o processo também não foi fácil. E foi a família da Tai quem acolheu Fabi quando a família dela reagiu com homofobia ao saber da relação das duas. A família de Tai sempre soube das suas relações e lidou bem, e o pai dela, vendo Fabi passar por momentos difíceis em casa nos primeiros meses, sugeriu: “Por que vocês não moram juntas aqui em casa?”. Sem prazo, sem peso, apenas oferecendo um lugar seguro enquanto elas construíam juntas o que já era amor. Quando Fabi contou à família que estava em um relacionamento com uma mulher, o processo foi confuso, cheio de camadas e silêncios. Houve acolhimento por parte da Tainá e da sua família, por isso optou em ir morar com eles. Era uma decisão dela de não viver mais sob o peso dos preconceitos. Alguns meses depois de ficar sem se falar com a mãe, as duas já estavam bem, e no Natal daquele mesmo ano (em 2021) tudo voltou a fluir. A mãe chamou para almoçar e conversaram novamente. Depois de um ano morando juntas na casa da família da Tainá, elas decidiram que seria o momento de alugar o próprio apartamento. Em 2022, quando começaram a movimentação, isso acabou gerando um conflito grande na casa da Tainá. Eles esperavam que elas só saíssem de casa quando estivessem formadas, não concordaram com a mudança e trataram mal a Fabi por conta disso. Fabi precisou sair da casa da qual foi acolhida, se viu sem lar novamente, e foi para a casa da sua avó. Só quase um ano depois, num convite inesperado para comer pizza, os pais de Tainá voltaram a recebê-la na casa que morou, apenas retomando o convívio até que tudo se ajeitasse. Bem semelhante à como foi com a sua mãe quando pararam de se falar - mas nessa época, ela e Tainá já moravam no seu primeiro lar, um apartamento pequeno e simples, em Esteio. A vida foi se ajeitando, elas decidiram celebrar a relação com um casamento no civil e uma pequena celebração com os amigos e a família - e nesse dia a verdadeira reconciliação aconteceu. A mãe da Fabi pediu perdão pela forma que lidou no início da relação, não justificou, não se alongou, apenas pediu perdão. E foi o bastante, gesto que faltava para fechar um ciclo e abrir outro, mais gentil, mais sincero e mais possível entre elas três. Depois da transição de lar conturbada e de um primeiro ano nada fácil, Tai e Fabi construíram uma rotina juntas, começando com pouco dinheiro e lazer nos momentos que conseguiam. Enquanto Tainá era estagiária, Fabi trabalhava em loja, e o orçamento mal cobria as contas básicas. Com o tempo, tudo foi se estabilizando: Fabi se formou, as oportunidades melhoraram, celebraram o casamento com uma janta, os amigos e os familiares e em 2025 se mudaram para um apartamento maior. Hoje, com suas três gatinhas, amam cultivar as pequenas rotinas e os cuidados diários: os almoços, os cafés (ainda que corridos, ou uma preparando café para a outra), as séries no fim do dia, as pinturas, o cinema quando dá, e a descoberta compartilhada do budismo, que já faz parte da vida delas há um ano. Essas vivências moldaram um amor que se mostra, sobretudo, nos momentos difíceis. As duas enfrentaram momentos difíceis no trabalho, na família, períodos de dor que nem sempre conseguiram ser o melhor de si, mas ainda assim permaneceram. Existe nelas um amor que atravessa erros, cansaços e histórias. Fabi explica que é um amor que perdoa não só quem está ao lado, mas também quem feriu - como as famílias, que hoje fazem parte da vida das duas com afeto renovado. Nesse percurso, aprenderam a amar a si mesmas, amar uma à outra e amar de novo o mundo ao redor, construindo uma vida onde tolerância, cuidado e crescimento caminham juntos. ↓ rolar para baixo ↓ Tainá Fabielly

  • Juliana e Priscila | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Juliana estava com 40 anos no momento da documentação e é natural de Olinda, cidade pernambucana em que fizemos as fotos. Formada em administração, trabalhou por alguns anos em um banco privado e hoje em dia trabalha numa empresa familiar que é responsável por recicláveis. Juntam os materiais (plástico, papel, papelão, vidro…) em outras empresas e encaminham para o destino correto. Além do trabalho, adora assistir filmes, viajar, ficar com os bichos em casa… Comenta que são tantos anos de relação, praticamente a metade da vida juntas, que faz com que se veem fazendo tudo juntas. Adoram viver a rotina. Priscila é natural de Paulista, cidade vizinha de Olinda. Quando conheceu Ju, Priscila trabalhava na área de merchandising, mas acabou prestando serviços para a família da Ju na empresa de recicláveis e descobrindo o ramo, se encontrou e trabalha com isso até hoje. Também adora gastronomia, sua verdadeira paixão que começou como um hobbie e vêm se desenvolvendo - de vez em quando criam alguns jantares e recebe até encomendas de comidas italianas para produzir. Pergunto para Ju e Pri como funciona uma empresa de reciclados, acho muito incrível esse ser o trabalho delas e poder compartilhar sobre um assunto tão necessário por aqui. Elas explicam que trabalham com empresas como supermercados que reciclam papelão - e papelão vira papelão novamente - ou editoras que reciclam livros didáticos por conta deles precisarem ser renovados por novas normas ortográficas ou atualizações de conteúdos - então fazem separação de papel… E assim encaminham cada material para as indústrias. Por exemplo: um papel branco pode virar papel higiênico, papel toalha, guardanapo… É um trabalho útil, rentável e necessário para o mundo. Em 2008, Priscila havia acabado de se mudar para Olinda e estava dividindo casa com um grupo de amigas. Logo na primeira semana da mudança, junto com essas amigas, decidiram sair para se divertir em Recife, ir beber uma cerveja, curtir e comemorar. Porém, era no meio da semana, os bares fechavam cedo… Sempre foram ‘inimigas do fim’, decidiram parar em Olinda num barzinho que ficava aberto até mais tarde chamado “Estação Maxambomba”. Ju, por sua vez, saía do trabalho em Olinda e ia encontrar suas amigas que tinham uma banda tocando coco e maracatu, gêneros musicais tradicionais de Pernambuco. Do ensaio, iam direto para o bar, algo que virou tradição semanal. Lá, as amigas de Ju e Pri se interessaram umas nas outras, Priscila ficou um pouco chateada porque preferia algo mais reservado, a amiga dela já bêbada brincava de fazer um sotaque carioca, acabaram juntando as mesas e foi assim que Ju e Priscila se conheceram. Foram comprar cigarros juntas, voltaram de braços dados mas sentaram longe quando chegaram na mesa… No final da noite, trocaram o número de telefone. Quando estavam indo embora, Priscila pegou a moto e as amigas começaram a zoar a Ju porque ela estava “flertando” com uma motoqueira… Depois começaram a conversar, na época ainda por SMS, contaram onde trabalhavam (Ju ainda estava trabalhando no banco e pouco conseguia tempo para mexer no telefone), mas marcaram de se encontrar novamente. Não se encontraram no primeiro momento combinado, mas marcaram um almoço no apartamento em que Priscila dividia com as amigas. O almoço durou o dia todo no domingo. Brincam que não seriam elas a mudar a história das lésbicas, então desde que ficaram juntas já não se separaram mais, Ju foi voltando nos dias que seguiram e assim não se desgrudaram. Ju foi morar sozinha quando trabalhava no banco porque sentia que já era a hora de ter sua independência e porque tinha uma cachorra que destruía tudo na casa dos seus pais. Acabou que não conseguiu ficar com a cachorra por conta dela precisar de mais espaço, mas cuidou dela através de uma amiga até ela ficar velhinha. Mesmo Ju tendo sua própria casa, vivia na casa da Priscila e das suas amigas, mas o apartamento estava ficando cada vez mais caótico com o tempo pelo fato de todas serem bastante jovens, faziam várias festas e a casa sempre estava cheia de gente. Até o momento que decidiram que precisavam de um novo lar, era bagunça demais até para elas - que eram inimigas do fim. Em 2009 conseguiram uma casa em Maracaípe, um lugar tranquilo que iam passar os finais de semana. Levaram algumas coisas no caminhão da empresa da família da Ju, já estavam morando juntas em um apartamento e os outros móveis encaminharam para essa casinha “de praia”. Em 2009, também, adotaram o Marvin, primeiro cachorrinho de muitos animais que vieram depois - e fiel companheiro que acompanhou quase toda a relação, faleceu no último ano. Depois de Marvin, chegou Frida, para lhe fazer companhia. Em seguida, num dia saindo para almoçar, ouviram alguns miados e encontraram um gatinho embaixo de uma árvore… Até tentaram não pegar na ida para o almoço, mas na volta não teve jeito, seria Diego. E, um tempo depois, surgiu Magali, uma gatinha que fizeram um resgate e deram uma nova vida. E assim, a família só foi aumentando… Foi chegando o Hulk, a Fiona, Rutinha, Ratinha, Olga, Mingau, o Snoop… Hoje em dia ainda possuem alguns animais em casa, entre gatos e cachorros, mas todos com o mesmo destaque: o direito a boa e a longa vida. Em 2012 chegaram à casa que moram hoje em dia, com os bichos e uma vida relação já construída. Depois que estavam com uma mentalidade mais madura sobre essa construção, começaram a pensar na unidade familiar que estavam construindo e resolveram cogitar a maternidade e a adoção. No começo do processo de adoção, estavam pensando que gostariam de adotar um bebê. Foram atrás, frequentaram as reuniões, começaram a pensar um pouco em outras possibilidades. Mas aconteceu uma situação da qual as deixou muito chateada e as fez voltar atrás, não quiseram seguir com o processo. Depois que cuidaram de uma cachorrinha, a Ratinha, durante alguns anos com cuidados diários desde todas as alimentações com mamadeira, até problemas respiratórios, nos olhos, vitaminas… Viram que estavam dispostas a serem mães e pensarem novamente sobre a disposição de terem alguém para cuidar e amar todos os dias. Foi quando, em 2020, anos depois da primeira tentativa, cogitaram entrar para a adoção novamente. Porém, diferente das ideias iniciais de ter um bebê, já haviam amadurecido outras possibilidades e decidiram adotar um adolescente. Aurelino, que hoje em dia já está com 18 anos, chegou com 13 anos na família. Tudo começou com a ideia de um apadrinhamento, já que quando os meninos completam 18 anos e saem dos orfanatos existe uma mobilização para que eles tenham condições de viverem sozinhos por um tempo. Elas foram até o local onde ele estava, conheceram todos os meninos junto da assistente social, mas havia uma condição: você não pode demonstrar interesse em adotar a criança que quer apadrinhar. Então decidiram mergulhar de vez na adoção. Conversaram com ele para saber se ele teria interesse em fazer parte da família, foi bem legal por conta de serem duas mães e ele já ter uma bagagem de vida, opinião, cultura formada, diferente de uma criança muito pequena… e ele ficou bastante animado. Queria fazer parte da família. Sempre foi carinhoso e atencioso. Ju e Priscila fizeram questão de manter as origens familiares de Aurelino antes de sua adoção também. Entendem que a bagagem que ele trás é única e é sobre quem ele é, sobre a vida dele. Assim como, os momentos que constroem juntos, são muito importantes para essa nova pessoa que ele está se tornando. Hoje em dia, a documentação dele já consta o nome das duas mães, inclusive recentemente quando ele foi se alistar ao exército houve um questionamento sobre e ele tratou de forma completamente natural e elas se orgulharam disso. Da mesma forma que ele enfrenta suas novas questões na fase da adolescência e adultez e elas tentam acompanhar isso da melhor forma, porque também é uma novidade para a primeira vivência na maternidade. São novos diálogos, desafios, vivências escolares, conversas sobre a profissão e o trabalho que deve seguir, relacionamentos… Também foi muito difícil pela primeira vez conviver com um homem dentro de casa, os recortes são outros, aprenderam, viveram muitas mudanças sendo mães, e se deram conta de coisas que ninguém havia ensinado durante o processo de adoção também: a saúde dele era muito mais frágil por conta da sua vivência e da sua alimentação na infância e levou alguns anos para ser fortificada, a educação precisou ser reforçada, a saúde mental, o vocabulário… Fazem muita questão de conversar tudo o tempo todo, entendem que não há tempo a ser desperdiçado em deixar uma conversa para depois. Ju entende que depois de tantos anos de relação, essa família tão forte que formaram reflete o quanto podem contar uma com a outra sem competição, sem disputarem quem é melhor dentro da relação. Vivem um companheirismo que quer o crescimento de todos. Enxergam a amizade, o incentivo, os projetos que dividem, o quanto a família é importante. Hoje em dia a mãe da Priscila mora com elas e foi para todas se fortalecerem, Priscila já ficou fora do Brasil para trabalhar por alguns meses em 2023 e Pri, Aurelino toda a família super apoiaram para que ela fosse porque sabiam que seria importante… Tudo é lutado em conjunto porque entendem que estão caminhando juntos. E o amor que vivem é o que mantém essa luta fazendo sentido. ↓ rolar para baixo ↓ Priscila Juliana

bottom of page