Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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- Luciana e Viviane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luciana e da Viviane, quando o projeto passou por São Paulo! Luciana, Viviane e a pequena Ester moram em Campinas, interior de São Paulo e constroem o que chamam de “família real”, sem coisas artificiais envolta. Amam cozinhar, comer, brincar, ler e assistir TV. A casa é cheia desses detalhes que fazem elas serem quem são. Depois de saírem de São Paulo e mudarem para Campinas por conta do trabalho da Lu, viveram um relacionamento à distância e aos poucos a Vivi foi se mudando para lá, até conseguirem um apartamento só delas. Nesse período, começaram a reformar o novo lar pelas próprias mãos - queriam que tivesse lembranças de viagens, uma biblioteca-bar, decorações que as representassem… A Ester, inclusive, escolheu a cor do quarto e ajudou a pintar. Tudo na relação começou do zero e pessoalmente (sem internet auxiliando) e isso, pela visão delas, foi ótimo porque proporcionou uma grande comunicação. Além disso, Vivi conta que depois do relacionamento com a Lu aprendeu a ter fé. Lu é muito ligada na fé em geral - não só a religião, mas a fé de todas as formas. Em Exu, nos orixás e também em Deus. Lu completa que tem essa fé por tudo o que já viveu e construiu, mas que não espera nada sentada, batalha o tempo todo pelas melhores coisas. Luciana, no momento da documentação, estava com 38 anos. É natural de São Paulo e chegou em Campinas por conta de um concurso, há cerca de dois anos atrás. É professora de rede pública. Começa a história contando que em 2020 teve uma conversa com uma entidade chamada Exu Caveira e que isso virou a vida dela de cabeça para baixo em muitos aspectos. Soube de uma força que estava na hora de despertar, libertar e recomeçar um modo de vida. Em 2015 tinha passado no concurso de Campinas mas nunca foi chamada, eis que recebe o e-mail chamando depois da própria data limite do concurso ter expirado. Cronologicamente, aconteceu assim: a conversa foi em novembro de 2020, conheceu a Viviane em dezembro de 2020 e em janeiro de 2021 decidiu a mudança para Campinas. Viviane, no momento da documentação, estava com 30 anos. Também é natural de São Paulo, residindo agora em Campinas, trabalha enquanto agente de viagens. Há 14 anos é DJ e agora em Campinas tem um novo hobbie: o teatro. Em dezembro de 2020, Vivi estava vivendo uma fase bem difícil. Passou por um relacionamento abusivo, não estava se sentindo bem. Depois do término, uma amiga em comum que tinha com a ex-namorada quis manter contato com ela, afinal, sempre se deram bem e tinham hobbies muito fortes como a paixão por Harry Potter em comum. Num sábado a amiga convidou para ir no aniversário da sócia dela, que era adivinha quem? Luciana. Vivi não deu muita bola, já que não conhecia a Lu, mas considerou porque o local era perto da casa dela. Começou o sábado bebendo whisky com o pai - uma tradição que manteve durante muito tempo - e decidiu ir. Chegou lá nem sabendo o nome da aniversariante, mas ficou muito surpresa porque foi bem recebida, acolhida e amada. Foi com a Ester sua primeira interação no aniversário. Ester estava brincando e ela entrou na brincadeira, também dividiram brigadeiros. Quando foi interagir com a Luciana, perguntou sobre o pai da Ester e entendeu que não havia mais relação com ele, Lu estava solteira. Durante a festa, tiveram uma interação mais próxima e entenderam: queriam se beijar. Dançaram, interagiram e o beijo aconteceu. Ninguém entendeu nada ao redor e Vivi ficou completamente suja de batom vermelho. Destacam sobre uns homens que tinham chegado com bebidas achando que iriam ficar de par e ofereceram um copo gigante de vodka com energético para a Lu, por ser aniversariante. Ela negou e bebeu o whisky da Vivi na hora (virando o copo!) e foi aí que Vivi sentiu a pontada de paixão chegando. Ficaram juntas naquela noite e antes do fim do ano decidiram se reencontrar. Quando 2021 começou, Vivi foi passar as férias no interior com a família e recebeu a notícia do concurso/da mudança para Campinas que a Lu iria viver. Estavam conformadas de viver uma relação à distância, já que desejavam estar juntas, mas tudo era uma incógnita. Vivi decidiu viajar com a Lu até Campinas para assinarem os documentos, conhecerem a escola e a cidade, deu muito apoio. Quando Lu fez a mudança, viveu um mês em airbnb com a Ester (que estava também procurando uma escola para estudar) e nesse período Vivi ficou com elas durante uma semana, mas foi uma experiência bem difícil. Ester sentiu muito ciúme, reagiu mal, ignorou a presença da Vivi durante dias. Num momento, Vivi chorou porque entendeu que não iria ser fácil. Ester, nesse momento da nossa conversa, deixa tudo às claras: superou o ciúme e hoje são melhores amigas. Depois desse primeiro mês, conseguiram alugar um apartamento (que fica no mesmo condomínio que elas moram hoje em dia). Vivi ajudou na mudança e passou um bom tempo intercalando entre São Paulo x Campinas. Em 2022, Vivi estava dando uma caminhada pelo condomínio e viu alguns apartamentos à venda. Pensou que seria muito bom terem um lar só delas ali, a Ester já estava adaptada e adora brincar no parquinho, tudo já estava bem instalado. Visitou um apartamento e decidiu que seria delas. Começaram os contatos com contabilidade, advogados, banco, indo atrás de documentações… e foi tudo absurdamente rápido, se encaixando. Quando viu já estava com as chaves em mãos. Foi aí que decidiu se mudar definitivamente para Campinas. Nesses processos, aconteceram os pedidos de namoro e de casamento. No pedido de casamento, Lu fez uma surpresa, Vivi nem imaginou. Quando estavam no restaurante, viu um garçom passando com um buquê gigante e disse “Nossa que legal! Certamente alguém vai ser pedido em casamento hoje!” até que viu o buquê vindo para ela. Brincou com a Lu que ela teria que ajoelhar, fazer tudo direitinho. No pedido, a Ester fez um vídeo convidando-a para fazer parte da família. E Vivi finaliza contando que sempre quis casar e sempre soube que gostaria de ser mãe - sente que agora estão completando seus sonhos. ↓ rolar para baixo ↓ Viviane Luciana
- Kétule e Beatriz | Documentadas
Kétule, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela é natural de Turvo, uma cidade interiorana catarinense, e atualmente mora em Criciúma enquanto estuda medicina. Conta que já trabalhou em vários lugares, de atendente de loja à garçonete, mas hoje está se dedicando à sua loja de bordados e vive em um apartamento com sua gata Luna, visitando a família aos finais de semana na sua cidade natal. Beatriz estava com 22 anos no momento da documentação. É natural de Criciúma e trabalha enquanto fisioterapeuta. Sempre quis um trabalho na área da saúde e é apaixonada por isso, mas também já foi atleta de natação. Para além, no tempo livre, gosta de ser uma pessoa tranquila, caseira, adora sair para comer, ver o mar e fazer trilhas. Entendem que são pessoas com vários pontos em comum, mas ao mesmo tempo vivências e jeitos muito diferentes, temperamentos que refletem suas criações. Kétule tem uma relação muito aberta com sua família, principalmente porque já saiu de casa. Antes de assumir o relacionamento, pensou que se isso não fosse algo aceito para eles, iria acabar se afastando mais por já não morarem próximos, então tinha um grande receio, mas ainda maior uma vontade de falar sobre esse amor vivido e resolveu contar. Para Bia, Kétule adentrou como uma amiga, para depois ser namorada, então ficou um pouco mais difícil lidar. Sempre existiu a dúvida: “Será que a gente vai assumir? Será que um dia vai poder realmente falar: somos namoradas?” Faz pouco tempo que elas estão fazendo essa movimentação de se assumirem dentro de casa enquanto um casal, que começaram a ter uma relação com mais afeto na frente dos familiares. Acreditam que tudo faz parte de um crescimento. Foi através da internet que tiveram a primeira interação, tinham amigas em comum no Twitter e apareceu um tweet da Beatriz falando sobre a área da saúde, um estágio que iria abrir na UTI. Ela se interessou (pelo tweet e pela Bia) e começou a seguir ela, depois procurou o Instagram, ela seguiu de volta e começaram a conversar. Era dia 1 de abril de 2023, dia da UTI. Desde o primeiro papo as coisas fluíram, viram que estudavam na mesma faculdade e marcaram um café. O café aconteceu, se deram bem e marcaram um novo encontro, na casa da Kétule - um apartamento muito pequeno, onde criaram vários apelidos sobre ser um cantinho escuro depois de um longo corredor (caverna, corredor da morte, e por aí vai). Lá, beberam um vinho que só bebem em ocasiões especiais, comeram comidas gostosas e foi a primeira vez que se beijaram. Depois disso, se viam com frequência até que viveram os jogos da faculdade de medicina, um evento onde vem delegações de outros estados para competir em Criciúma. Kétule tocava na banda dos jogos e elas conversaram sobre esse evento, Beatriz disse que já estava perto do final do curso, que viveu tudo o que tinha para viver, mas que Kétule merecia se permitir experimentar o que a faculdade tem para oferecer, porque poderia se arrepender de entrar em uma relação. Ela fez a escolha, viveu os jogos (ainda assim sem deixar a Beatriz de lado) e depois que os jogos passaram decidiram entender aquela nova relação enquanto um namoro. Todos os amigos já adoravam elas juntas e elas sabiam que queriam namorar, mas precisavam daquele tempo para decidir e processar isso. Foi então que, ao comemorar o aniversário de uma amiga viajando para Garopaba/SC, depois de 3 meses juntas, elas selaram o pedido de namoro. Tanto Beatriz quanto Kétule namoravam homens antes de se relacionarem e já tinham apresentado esses namorados à família. Quando começaram a relação, pensaram muito sobre como iriam contar e abrir essa conversa sobre a bissexualidade. Aos poucos, Kétule contou para a mãe dela, e sentiu que toda a família foi compreensível, precisavam de tempo para entender mas nada na relação entre eles iria mudar. Para Beatriz foi mais complexo, o pai soube aos poucos e aceitou, mas a mãe tinha muitos preconceitos relacionados à elas. Foi só quando a relação estava quase completando um ano que elas conversaram sobre, quando a mãe perguntou se era um relacionamento e ela afirmou que sim. Mesmo tendo esse tempo, as coisas ainda não são fáceis, e só dia após dia elas se permitem tratar com algum afeto perto da família e permitir que a situação seja digerida. Todos os finais de semana dedicam um tempo para estar com os familiares, seja na casa da Beatriz ou na casa dos pais da Kétule, e acreditam que mostrando estar por perto esses preconceitos serão quebrados. Hoje em dia a rotina durante de semana entre estudos e trabalho é bem intensa, então o final de semana é o momento de aproveitar a relação, seja cozinhando, visitando a família, recebendo amigos e planejando o que ainda desejam viver juntas. Entendem que são pessoas bem diferentes: Kétule é mais agitada, a cabeça não para, comunicativa… Enquanto Beatriz é calma, sempre pensa muito antes de agir e não vê maldade nas pessoas. Kétule explica que na relação ela aprende o tempo todo a desacelerar, enquanto Beatriz também aprende a se abrir mais, se permitir viver mais coisas. Adoram planejar a vida juntas: desejam investir na carreira, casar, ter filhos. Criar uma família investindo em quem são e respeitando suas dificuldades, mas não fazendo com que isso se torne uma barreira. Adoram a perspectiva de vida que criaram juntas, explicaram durante a documentação que o pedido de casamento foi dividido em 4x, já que para poder casar vai levar uns 5 anos e porque numa vida heterossexual o homem pede em casamento e tudo se encaminha, para elas o melhor é fazer do jeito delas. A primeira parte do 1/4 do pedido já foi feita, Kétule presenteou Beatriz comprando uma aliança, em São Paulo. Riem dizendo que já estão 25% noivas. Kétule sempre foi uma pessoa clichê no amor, que gosta de surpresas, de ser romântica, das demonstrações… Beatriz já não é assim, acredita no amor nas ações pequenas, nos atos diários, então tiveram que adequar para entender suas linguagens. Hoje o amor delas é uma junção das duas coisas - das formas que entendem o amar. Se enxergam enquanto muito amigas, companheiras acima de tudo. Brincam que Kétule futuramente vai ganhar mais que a Bia, por ser médica, mas hoje é ela quem está mais estruturada, então o que elas plantam agora vai ser colhido no futuro. Entendem que o relacionamento foi uma grande adaptação e que seguem se adaptando, se descobrindo… e vão se descobrir o tempo todo, é constante. ↓ rolar para baixo ↓ Kétule Beatriz
- Denise e Rita
Rita e Dede são as pessoas mais engraçadas possíveis. Confesso que esse foi um dos textos mais difíceis de fazer, porque a nossa história não começou através do Documentadas: conheço elas há anos, quando começaram a namorar, e quando eu, Fernanda, estava começando a me entender. O que o Documentadas é hoje em dia, essa vontade de fazer o projeto ser representativo para outras mulheres e meninas que estejam se descobrindo, vêm também do privilégio que tive ao ter contato com esse casal quando era mais nova e de ter entendido que sim, eu poderia ser uma mulher adulta, amando outra mulher adulta, sendo feliz, tendo qualidade de vida. Nosso encontro foi regado de muito riso. Ou melhor, talvez uns 85% do tempo tenha sido puro riso. Fui recebida na casa/no sítio onde elas moram, em Criciúma - Santa Catarina. Seria impossível começar a contar a história sem dois fatos importantes a serem ressaltados: Não sabemos realmente como tudo começou. 10 reais é um investimento que pode valer muito a pena. Explicando: Rita e Dede se conheceram através do famoso (e tão presente) rebuceteio, em 2012. Rita ainda morava com o pai do Caio (o filho, que agora, é delas ♥) e estava com mudança de planos, iria se mudar para outra cidade, porém teve um problema de saúde na família e precisou se manter em Criciúma. Ela ficava com uma menina de outra cidade, que conhecia outra menina, que estava ficando com “uma pessoa de Criciúma que estava precisando de uma psicóloga”... preciso falar quem era essa pessoa? a Denize, é claro. Na hora que a Dede chamou ela no MSN, ainda pensou “ai que louca né, coitada” porque foi tudo muito aleatório. Elas acabaram criando uma amizade, conversavam bastante pelo MSN. Não se conheciam pessoalmente ainda e seguiam ficando com outras pessoas. Se viram, uma vez rapidamente, na Marcha das Vadias (evento responsável por eu ter conhecido a Rita também!) e depois marcaram de ir num jogo pela diversidade, na UNESC (a Universidade que a Rita trabalha). Rita sempre esteve entre seus amigos drags, gays e travestis. Para ela, sempre foi muito importante estar com essas pessoas (e inclusive é um objeto de pesquisa dela, com o mestrado falando sobre crianças e adolescentes transgêneros). E Denize era de um lugar bem diferente, não tinha amigos nesse meio e mantinha um preconceito pelo forte estigma desses corpos. Chegando no jogo, quando Dede viu os amigos da Rita, logo se assustou. Não quis ficar naquele ambiente. Tinha recém se assumido, ainda sentia certo medo e, ainda mais em cidade pequena, não queria ser vista lá. Ela disse para a Rita que iria no posto beber cerveja com uma amiga, mas na verdade tomou o rumo de casa. Elas realmente não sabem quando a amizade virou flerte. Quando o sentimento se despertou mesmo. Brincam que o relacionamento começou na base do “duvido”, porque a Rita ia numa festa, a VOGUE (que inclusive eu também estava!). A Dede não iria, mas acabou brigando com a menina que estava ficando e a Rita disse “duvido você ir na festa”, então de última hora ela resolveu sair de casa. Brincamos que, se eu fizer uma clipagem no meu HD, posso ilustrar toda a história delas com fotos que eu mesma fiz, de vários momentos diferentes dessa relação . No fim, o 'duvido' deu certo. A Dede foi e como não precisaria pagar a entrada, levou só os 10 reais que tinha em casa. Aí começa o investimento. Ao invés de perguntar para a Rita o que ela estava bebendo, perguntou para um amigo dela. Quis fazer um gesto de “cavalheirismo” pensando que iria gastar 2 reais numa Antártica Sub Zero e que estaria tudo bem, mas na verdade a Rita tomava whisky com guaraná, ou seja, o combo custava dez reais. Decidiu comprar e fazer o agrado, mas passou o resto da festa se virando nos 30 para entreter - e a Rita ainda ficou chocada porque pensou que Dede tinha acertado a bebida favorita dela. A gente tenta, né? Elas ficaram na festa. Dede foi embora mais cedo, Rita achou engraçado uma pessoa que não ficava na festa até amanhecer. Nos dias que seguiram, sempre achavam um jeito de se encontrar. Denize conquistou o Caio logo de cara, ficaram inseparáveis (e são até hoje). Ambas moravam no centro da cidade e Rita começou a chamá-la para tomar um mate todo fim de tarde na praça, enquanto o Caio brincava, depois do colégio. Virou uma rotina: todo dia, Rita ia com o Caio para a praça e levava uma paçoquinha para a Denize, que saia do trabalho que ia direto ao encontro. Rita tem 43 anos, é psicóloga, mestre em saúde coletiva e divide seu tempo entre trabalhar na empresa de contabilidade que elas abriram juntas e ser coordenadora da secretaria de diversidades e políticas de ações afirmativas na UNESC (a universidade local). Nas palavras dela: “trabalho 20 horas na UNESC e 246 horas no ecritório, mas a Denize não me dá um déciminho terceiro…” Denize tem 38 anos - e brinca que não chega aos quarenta nunca! Queria alcançar a idade da Rita, mas nunca consegue porque sempre que tá chegando mais perto ela inventa de querer ficar mais velha também. Dede é administradora e contadora. Elas estão sempre juntas, seja em casa, cozinhando, conversando pela casa, trabalhando, assistindo TV… ou seja na universidade. Denize acaba levando a Rita para uma vida social mais ativa (e agora, em pandemia, sente muita saudade de sair e ver gente). Em casa, elas aprenderam a fazer diversas coisas: construir, reformar, pintar. Fazer tudo. De vez em quando, a Rita coloca a mesa na rua e passa um longo tempo pintando, enquanto a Dede está construindo algum móvel ou montando coisas. No começo do relacionamento, Rita ajudou muito a Dede a se reaproximar da família. Foi algo muito importante, pois depois dela terminar um casamento e se assumir houve um afastamento brusco. Hoje em dia são muito próximas e felizes. No começo, também, Dede ajudou muito a Rita. Ela precisou sair de casa e acabou indo provisoriamente morar com a Denize. Não teve um começo exato, foi a necessidade. O Caio sempre foi muito apaixonado pela Dede e a relação delas estava indo bem, decidiram segurar o tranco juntas, mas com um prazo: duraria dois meses. Não preciso nem dizer que estão juntas até hoje, né? nem elas acreditaram que seria só dois meses. Passaram um tempo com o dinheiro bastante contado, Rita conseguiu um emprego de professora de matemática financeira (o que certamente foi um surto coletivo, porque ela mal consegue contar o dinheiro que têm na carteira) e ao menos o trabalho tinha plano de saúde. Desde a mudança, até as primeiras semanas, já sentiram que estavam se transformando em uma família - “foi tudo muito divertido”, elas descrevem. Em 2013 decidiram que estavam prontas para assinar uma união estável e sonhavam com ter “uma casinha para sempre”. A casinha chegou, no sítio, e elas construíram cada pedaço juntas. Desde colocar o piso, montar estantes, sofás… até fazer a piscina (que era o sonho da Dede). Hoje em dia, elas entendem que tudo possui o seu próprio tempo. Na empresa, cultivam clientes muito fiéis, gostam de trabalhar juntas. Na casa, tratam tudo com mais calma: plantam, colhem, constroem. Falam sobre nós, LGBTs, não queremos privilégios, mas sim nosso direito básico de viver com qualidade. A Dede comenta sobre a palavra não ter mais poder, o uso da violência se banalizou, normalizou. Gostaria de mudar, que as pessoas voltassem a lidar com as situações absurdas que vivemos como elas deveriam ser lidas. Visitei a casa delas logo depois da Rita defender seu mestrado e ganhar um carro de presente da Dede. A chave veio no meio de um livro que obviamente a Rita não leria, só para fazer a surpresa ser mais divertida. Por fim, mas não menos importante: o Caio quis muito, elas também, e formalizaram a adoção dele. Hoje em dia ele tem o nome das duas mães e do pai na certidão. São, oficialmente, uma família.
- Louise e Thayane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Louise e da Thayane, quando o projeto passou por São Paulo! Louise e Thayane constroem sua vida numa base de amor e afeto familiar muito grande - tanto que soa meio impossível falar delas sem falar em família. O tempo todo enquanto nos conhecíamos, visitando o lar em que moram no centro de São Paulo, a sensação mais presente era de que ali existe uma família. Elas são naturais do Rio de Janeiro, mas se mudaram há pouco tempo para São Paulo por conta do trabalho da Louise. A casa, aos poucos, vem tomando forma, mas o mais importante é o samba, que toca o dia todo, embalando as atividades cotidianas. A música, na vida de ambas, vem desde crianças: suas famílias são muito ligadas ao samba, nos encontros cantam, fazem bagunça, gostam do movimento. Para o futuro, planejam filhos, uma família cada vez mais unida, grande e que valoriza suas raízes. Acreditam que enxergar o futuro enquanto uma construção é também um ato de amor. Tanto a Thay, quanto a Louise, no momento da documentação, estavam com 30 anos. A mudança para São Paulo foi bem rápida, durante o processo seletivo que a Louise participou elas conversaram e decidiram que só daria certo se fossem juntas, não cogitaram viver num relacionamento à distância. Hoje em dia, o trabalho da Louise envolve coordenação de vendas, enquanto a Thay é geóloga, apaixonada por defesa civil e está estudando para o concurso público dos Bombeiros. Diariamente ela corre, nada, cuida do corpo para a prova física e estuda para a prova teórica. Ambas têm a paixão do samba e do futebol em comum, mas com isso vem o motivo das brigas na relação: uma é Flamengo, a outra, Vasco. Querendo ou não, o amor que elas possuem pelo Rio é enorme, são pessoas que iam muito à praia, amam o sol, os bares… então está sendo uma nova vivência descobrir São Paulo. Por outro lado, sentem o quanto são companheiras juntas, o quanto mesmo com as dificuldades e a saudade da família elas se apoiam e se fortalecem estando nesse novo local. Tentam explorar a cidade descobrindo novos restaurantes, botecos, eventos com samba e culinárias diferentes. Quando elas se conheceram, a Thay estava em um relacionamento que ia muito mal, chamou uma amiga para conversar porque precisava desabafar e a amiga perguntou se podia levar outra amiga. Na hora, ela pensou que não era o ideal, né? Afinal, teria uma desconhecida ouvindo suas lamúrias, mas tudo bem, aceitou. Quando chegou lá, a menina convidou uma pessoa que ela estava ficando para as encontrar e a Thay pensou “Pronto, mais uma desconhecida pra me ouvir desabafar…” e então chegou a Lou. A Lou estava um pouco irritada, tinha saído do trabalho num dia bem agitado, mas segundo a Thay ela estava com uma roupa maravilhosa e isso já a chamou atenção. Depois desse primeiro dia, a Thay terminou seu relacionamento e todas elas (a Thay, a amiga dela, a Lou e a pessoa com quem ela estava ficando) passaram a se encontrar com frequência. No início de 2019 surgiu um flerte entre a Thay, a Lou e a menina que ela se relacionava. Elas ficaram e o que era para ser um divertimento acabou se tornando um relacionamento entre as três: durou oito meses. Por fim, não deu mais certo, terminaram, mas a Thay e a Louise continuaram juntas - tiveram a ideia de recomeçar devagar, e quando perceberam já estavam 100% entregues e vivendo como casal. Um tempo depois, com o início da pandemia, o que tinham era uma a outra e um quintal para ver o céu. Isso foi um espaço de precisarem aprender a se comunicar de forma fluida, já que tudo dependia das duas. Uma foi contando cada vez mais com a outra. Elas acreditam que, por mais que tenha existido muita coisa ruim na pandemia, há o sentimento de que esse tempo serviu como um acelerador de futuros: se a coisa não foi pra frente, ela acabou ali - e o que foi pra acontecer, aconteceu de verdade. Foi um momento divisor de águas em que elas sentaram e repensaram o futuro: planejaram o que gostariam de ser, estando juntas, tendo filhos, uma carreira, etc. Hoje em dia, mesmo a Thay que não é de falar muito o que está sentindo, consegue colocar pra fora com a Lou. Elas sentem que, quanto mais se abre, mais geram apoio uma à outra. Lou conta do momento que ela contou para a mãe dela, já adulta, sobre se relacionar com uma mulher. O medo que existia, pois é muito próxima da mãe, mas entende que ela teve uma criação evangélica muito forte e poderia reagir de várias formas. No fim, ela ficou assustada, mas abraçou e tratou com afeto. Isso se tornou um exemplo do que a Lou espera ser para as pessoas, ela acha que isso é lidar com amor sobre as coisas, e também fala sobre o acolhimento que ela espera ter mesmo nos momentos mais delicados. ↓ rolar para baixo ↓ < Thayane Louise
- Mayara e Clara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mayara e da Clara, quando o projeto passou por São Paulo! Foi através de um aplicativo de relacionamentos, em 2016, que a Mayara e a Maria Clara se conheceram. Elas conversaram um pouco, trocaram algumas ideias... e um tempo depois, a Clara estava numa roda de amigas, conversando, na rua, quando viu uma moça passando e identificou as tatuagens e o jeito parecido com “aquela que havia dado match no Tinder”. Ela conta que Mayara veio lhe encarando, mas que ambas não tinham certeza se eram mesmo quem imaginavam, então trocaram mensagens para se certificar, do tipo “eu passei por você agora há pouco?" e interpretaram aquele encontro como um sinal, para se encontrarem mesmo, com data e hora marcada, em breve. No fim de novembro de 2016 foi quando começaram a se relacionar e vivenciar momentos de altos e baixos, idas e vindas. Em setembro de 2017, quase um ano depois, foi quando realmente entenderam o que tinham enquanto um namoro. Esse entendimento e essas “idas e vindas” levaram tempo por conta de processos bastante internos e hoje, olhando para trás, percebem que o relacionamento mudou muito desde o início. Parte desse processo vinha de uma movimentação mais defensiva da May, que aos poucos foi compreendendo que elas estavam juntas para se ajudar. Nesse primeiro ano, a May sofreu um episódio de homofobia bem doloroso. Ela estava sozinha, num lugar até então seguro e foi agredida por pessoas que chegaram de fora da sua casa. Esse movimento de passar por violências muito graves que jamais imaginaria trouxe muito sofrimento e também um sentimento de querer encontrar a Clara por a entender como um apoio e alguém com quem poderia contar. Enquanto a Clara, por sua vez, respeitou e acolheu de forma essencial, deixando com que mesmo entre muitas dores, a May pudesse se sentir em segurança ali. Assim, com o passar do tempo e dessas turbulências, elas foram amadurecendo o sentimento. Outras coisas que envolviam a relação também foram amadurecendo naturalmente, como ciúmes, relações com familiares (que passaram a compreender e apoiá-las) e o próprio respeitar espaços de cada uma foi fundamental para que a relação pudesse ter maior conexão e intimidade. Tanto a Mayara, quanto a Maria Clara, possuem 28 anos. Mayara é de Rio Claro, mas foi morar em Campinas há 9 anos para ser publicitária - profissão que desenvolve em uma agência - trabalha com atendimento ao cliente também, além de alguns trabalhos com redação, que é o que ela mais gosta. A Clara é boleira, faz bolos por encomenda, tanto caseiros, quanto para festas (e são muuuuuuito gostosos!). Além disso, a Clara também faz alguns trabalhos temporários em atendimento e suporte ao cliente. Ah, outra informação sobre elas que não poderia faltar, né? Elas são opostos complementares nos signos: áries e libra - e isso sempre esteve presente nas conversas, desde que se conheceram. No momento que nos encontramos conversamos bastante sobre a pandemia, elas contam que a adaptação foi difícil, tanto no trabalho, quanto na relação, na vida, nas amizades, no dia a dia. O trabalho envolvia vendas na presencialidade e tiveram que trazer os clientes para o meio online, sendo um desafio imenso, sentindo desconfortos pelas videochamadas, desconhecimento de tecnologias, foi uma adaptação bem grande. Elas entenderam que trazer o conforto para a situação é o maior desafio em seus trabalhos, tentam descontrair e fazer os clientes se sentirem tranquilos, mas ligar uma câmera não é fácil (e possível) para todo mundo. Além disso, foi difícil parar de fazer o que mais gostavam, como sair com o Paçoca (o cachorrinho mais educado e querido desse mundo!), ir à praia e sair um pouco do mesmo espaço dentro de casa para conseguir se movimentar, então perceberam ansiedades aumentando, momentos de maiores cobranças e imediatismos. A forma de tentarem se ajudar e deixar tudo mais leve foi reinventando os espaços em casa, a May se mudou para dividir o lar com a mãe da Clara e a Clara e a partir disso elas passaram o tempo livre maratonando séries, compartilhando refeições e investindo nos instrumentos musicais. Elas têm se permitido sair para andar de bicicleta, brincar com o Paçoca, visitar a família e ir até a casa no sítio. Elas sempre se enxergaram dispostas a viver o amor e a estarem juntas e isso é o que mais se destaca para a Mayara. Ela diz que ambas sempre estão percebendo uma à outra de maneira inteira, com suas qualidades e defeitos. Quando enfrentam momentos em que as coisas se tornam um pouco mais sensíveis, entendem que é preciso encontrar força conversando e buscando uma na outra, porque o amor está também nessa persistência, nessa vontade de estar juntas e nesse encaixe que ele possibilita. A Clara percebe que o amor é desejar e entender o que queremos para o outro (a pessoa com quem nos relacionamos) e para a gente (a nossa relação) - e não só, para que isso se espelhe/se reflita nos outros também, nas nossas relações com as pessoas que estão ao nosso redor, visto que o amor não precisa envolver apenas o romântico e o sexual. Ela acredita que amor envolve companheirismo, incentivo, uma parceria mesmo. Isso faz com que as coisas permaneçam fortes e saudáveis ao longo dos anos, trazendo essa preocupação em relação ao bem estar… e, principalmente entre as mulheres, no que envolve afeto, porque acredita que o companheirismo e a escuta são nossas principais características. Tivemos várias conversas sobre como vimos as relações humanas hoje, além do relacionamento delas, mas como as pessoas se relacionam hoje em dia e, alguns dias depois, recebi uma mensagem falando como foi importante a participação no projeto porque fez com que elas olhassem para o relacionamento delas com maior respeito pela história que construíram juntas. Fiquei feliz pelo o que o Documentadas provoca na gente, esse autoconhecimento, mas também pelo reconhecimento que merecemos ter porque nos amarmos, enfrentarmos tantos preconceitos e termos uma história que resiste e que se permite conhecer, estar aberta e aprender com seus erros, é de fato, ter coragem. Obrigada por compartilharem a história e aproveitem o amor de vocês, meninas ♥ Mayara Maria Clara
- Wan e Lívia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Wan e da Lívia, quando o projeto passou por São Paulo! A Wanessa e a Lívia são duas mulheres que adoram viajar, desbravar lugares novos, cachoeiras, praias e vivenciar novas culturas. Foi numa dessas viagens que elas se conheceram, na Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte, em 2016. Wanessa é Pernambucana, mas na época morava em Natal, enquanto Lívia é paulista e desbravava as terras de João Pessoa, na Paraíba. Eu sei, muitos lugares para um primeiro parágrafo, né? Mas avisei que elas gostavam de viajar. Pois bem, foi na praia (ou melhor, nesse vilarejo), que elas se conheceram durante as férias. Se deram bem, o romance foi acontecendo, mas teriam que voltar para suas vidas, uma em Natal e outra em João Pessoa. Assim, à distância, viveram um ano. Quando em 2017 a Wan foi, junto com a filha, Alice, morar em João Pessoa. Durante a nossa conversa, Lívia e Wan falaram sobre como se veem enquanto muito parceiras, sobretudo porque os primeiros anos do relacionamento foram em um lugar que não tinham familiares por perto e conviviam com um grupo de amigos pequeno (do qual a maioria também não era de João Pessoa). Isso fez com que elas se conhecessem muito, convivessem um tempo maior juntas e que também gostassem muito da companhia. Descobriram, desde o início do relacionamento, uma forma de confiança direta, porque tinham como contar uma com a outra - ou melhor, em trio, junto com a Alice. ♥ Por mais que elas tenham morado 5 anos em João Pessoa, nosso encontro e a documentação ocorreu em um novo lar: São Paulo. Depois do início da pandemia, a Lívia já tinha concluído o mestrado (motivo que fez ela se mudar para a Paraíba) e passou para o doutorado em uma universidade paulistana, enquanto a Wan conseguiu um trabalho bem legal em São Paulo também. Com a mudança, vem um desafio que elas não tinham experimentado até então: conviver mais perto dos familiares e amigos, ter uma base próxima, diferente de João Pessoa. Elas até comentam que a chegada da pandemia, diferente do impacto que teve para quem convive com uma base grande de pessoas próxima, acabou sendo diferente para elas, pois já estavam acostumadas com esse núcleo menor, entre as três. O mais diferente mesmo, já chegando no novo lar, foi entrar numa nova rotina de conhecer vários amigos (que antes, eram amigos só da Lívia), ter a família por perto e novos compromissos. Elas brincam, inclusive, que geralmente os casais passam por isso no início - o processo de se adaptar à uma rotina familiar da parceira - e que elas passaram anos depois. Mas que, de toda forma, está sendo muito gostoso. Pela primeira vez os finais de semana estão cheio de eventos (visitar sobrinhos, festas de formaturas de primos, almoços em família…) mesmo que elas já estejam na cidade há meses. Durante a mudança, primeiro a Wanessa veio, para começar a trabalhar, enquanto a Lívia ficou organizando o que trazer e organizando a vinda da Alice também… e ah! É muito importante ressaltar: a Alice a-m-a viver em São Paulo com as duas. Durante as fotos, perguntamos em tom de brincadeira: “bora voltar para o Nordeste?” e ela respondeu “Só pra visitar!”. No momento da documentação, Lívia estava com 32 anos. Ela faz doutorado em Sociologia, com ênfase em Ciência Política e atua como socióloga. Wanessa também estava com 32 anos. Ela trabalha enquanto Analista de RH, sendo especialista em Diversidade e Inclusão - e atenção aqui! Está sempre em busca de mulheres que estejam na área das artes (redatoras, editoras, produtoras, diretoras de arte, etc) (olha a oportunidade aí!). Hoje em dia, em São Paulo, seus gostos e suas rotinas são em torno de sair para comer, descobrir lugares novos e - de vez em quando - ir para shows e parques. Lívia diz que o amor para ela é viver assim: sonhando, viajando e crescendo juntas. Na sociedade patriarcal e racista que vivemos, ter esse amor é muito difícil, então por mais que pareça simples o que elas vivem, é algo muito político e revolucionário. A Wan completa que não é nenhum pouco simples. Amar é compartilhar, elas são muito companheiras e isso envolve muito esforço. Quando a Lívia fala sobre as questões patriarcais e raciais, Wan traz o quanto é poderoso nos questionarmos. Explica quantas vezes, por exemplo, que por a Alice ter a pele um pouco mais clara pensam logo que ela é filha da Lívia e já fazem essa conclusão sem perguntar, e como dá um nó na cabeça das pessoas quando elas respondem que a Wan é a mãe. “A importância de nos questionarmos o tempo todo antes de agirmos, de pensarmos outros modelos de sociedade, de nos permitirmos viver fora de padrões já estabelecidos.” Por fim, elas contam também como tem sido viver em São Paulo, por ser uma cidade muito mais diversa e aberta sobre casais homoafetivos, em contrapartida do governo que vivemos, que representa cada vez mais a legitimação do fascismo e que nos coloca medo em muitos momentos que estamos nas ruas. Quando o foraBolsonaro foi eleito, sentiram uma tristeza absurda. E mesmo sabendo que seria muito ruim o que viria nos próximos quatro anos, é inexplicável o quanto piora a cada dia que passa em níveis que não saberíamos que era possível piorar. A Lívia fala sobre como as pessoas se sentem à vontade para expressar a raiva e o ódio que sentem, não existe pudor ou vergonha nos atos de violência, e a Wan complementa que mesmo que ela tenha um trabalho que fale sobre diversidade e que viva em São Paulo, as coisas mudaram muito nos últimos três ou quatro anos. Por fim, elas comentam também sobre a vivência que tinham em João Pessoa, por entender a cidade enquanto um espaço que carrega ainda traços colonialistas e que tinham medo de certas demonstrações. As pessoas ao redor delas, por exemplo, não sabiam que elas eram casadas - apenas um núcleo pequeno no trabalho ou amigos próximos. Hoje em dia, viverem como casal e falarem sobre isso é coragem e liberdade, mas também é sobre estarem em um espaço de segurança, num lugar que permite mais diversidade e com pessoas que pensam da mesma forma que a gente - que também se preocupam com elas, formando uma base próxima, de cuidado e afeto. Wanessa Lívia
- Beatriz e Tamara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beatriz e da Tamara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Beatriz e Tamara são um casal muito incrível. A forma que elas se ajudam, se permitem desconstruir e passam um sentimento de calma é muito verdadeira. São pessoas muito diferentes também. Beatriz é mais comunicativa e costuma dizer que elas terem se conhecido foi um encontro de almas. Ela é super de passar horas nas redes sociais, de dormir até tarde… Tamara, pelo contrário, é muito quietinha e disciplinada; Tem hora para dormir, acordar, comer, treinar… gosta de ficar mais no canto dela. Revira um pouco o olho e balança a cabeça, rindo, quando a Bea fala sobre o encontro de almas. Mesmo com todas as diferenças, elas passam muito tempo juntas. Sua grande paixão é o esporte. Tamara pratica todos os esportes possíveis e a Bea acompanha treinando também. Se conheceram assim, na atlética da universidade. Na época, Tamara namorava e Beatriz tinha acabado de entrar na faculdade. Pelo convívio, acabaram cultivando uma amizade. Beatriz estava recém chegando no mundo universitário e decidiu passar um tempo curtindo a vida, conhecendo pessoas, festas, etc. Um tempo depois, Tamara vinha passando por diversos problemas no relacionamento anterior, optou pelo término e isso criou uma brecha para que ela e Bea pudessem tentar algo num futuro próximo. Tamara tem 26 anos, é formada em administração e faz biblioteconomia. Trabalha numa emissora de TV cuidando da parte administrativa, é treinadora de futsal e tem uma doceria com a mãe - a empresa nasceu do sonho de venderem o que cozinham juntas. Ela costuma fazer os doces, enquanto a mãe faz os salgados. No mais, é absurdamente apaixonada por todos os tipos de esporte e se inspira muito em figuras relacionadas a isso quando pensa em inspirações, desde familiares que já se desenvolveram no esporte, até figuras famosas que representam esse desenvolvimento de carreira através da disciplina, como o Cristiano Ronaldo. Bea tem 24 anos, é formada em design gráfico e cursa história e marketing. Atualmente trabalha enquanto social media e web designer. Ao perguntar sobre em quem ela se inspirava, disse que adora acompanhar a jogadora Cris Rozeira nas redes, não só por ser jogadora da seleção, mas por ser uma mulher lésbica, muito representativa, que enfrentou lutas sobre a saúde mental e construiu a própria família. Além disso, disse que aprendeu a se inspirar diariamente na Tamara também, por ser uma mulher muito incrível e por terem uma relação de muita parceria. Por terem essa ligação com o esporte, falamos muito sobre o quanto eles podem mudar a vida das pessoas, principalmente dar um futuro para diversas crianças. Tamara ressaltou que a base para que um dia as coisas possam dar certo é a educação, para termos mais liberdade, mais respeito, mais segurança... tudo começaria pela reeducação. Bea completou, educação é um assunto que elas conversam muito sobre e ela acredita que só a educação realmente nos levaria à uma revolução. A Tamara era capitã do time em que elas jogavam na faculdade, enquanto a Bea era coordenadora. Elas conversavam muito, passavam muito tempo juntas. O primeiro beijo delas aconteceu em 2016, depois do término da Tamara, quando ela resolveu dar uma chance para a Beatriz... mas elas estavam vivendo ritmos completamente diferentes. A Bea estava na fase de beijar todo mundo, curtir as festas nesse sentido... enquanto a Tamara não curtia isso e preferiu manter só a amizade. Um tempo depois a Bea foi acalmando, elas foram criando um sentimento próprio, acabaram estabelecendo algumas coisas e decidiram tentar o namoro. Já passaram por situações mais difíceis que envolveram quebra de algumas confianças, da qual a Tamara se sentiu mais machucada. Foi com muita conversa e força de vontade que o relacionamento se construiu e deu certo. Hoje em dia elas entendem que a comunicação ainda precisa melhorar em diversos pontos, mas que se ajudam, amadurecem... é algo que precisa ser cultivado todos os dias.
- Barbara e Isa | Documentadas
Bárbara, no momento da documentação, estava com 30 anos. Trabalha enquanto comissária de bordo e é apaixonada por viajar. Antes de ser comissária, foi tatuadora e trabalhou bastante tempo com arte, começou pela necessidade de juntar dinheiro, foi seguindo a profissão e fez carreira, até fechar o estúdio durante a pandemia de Covid-19. Hoje em dia, a arte segue nos detalhes da sua casa, na decoração que faz, nos móveis que transformou e quando dança com a Isa pelos cômodos. Mas sua rotina mesmo, é voltada ao sonho de conhecer o mundo viajando - que realiza através do trabalho. Isadora, no momento da documentação, estava com 29 anos. Ela é atriz, narradora de audiolivros e foi bailarina por 11 anos. Sua rotina, atualmente, é trabalhar no Rio de Janeiro com a narração e edição de audiolivros, além de cuidar de diversas plantinhas em casa e querer ter cada vez mais - alimentando um sonho antigo da Bárbara de um dia morarem no campo. Isa explica que nunca desejou morar num lugar como um sítio ou campo, sempre quis o centro, mas é pelo fato de sempre morar longe da escola ou do trabalho e demorar muito tempo para chegar. Hoje em dia, ao analisar e pensar sobre, acha que seria feliz morando num lugar bem arborizado. Atualmente, elas moram juntas há cerca de um ano na Ilha do Governador, local em que Bárbara nasceu. Isa é natural do Rio de Janeiro, mas de bairros distantes da Ilha. Resolveram morar juntas depois que o namoro caminhou e pelo convívio delas/com os gatinhos irem crescendo. Antes da Isa chegar, Bárbara era muito bagunceira, não tinha uma casa com cara de lar e a bagunça era também uma das causas da sua ansiedade. Foi nessa mudança que viu sua casa virar lar, entendeu a ter mais cuidado com prazer, viu uma evolução acontecendo e hoje em dia, quando chega em casa entende a grandiosidade disso tudo. Ambas cuidam muito do seu cantinho, amam a parceria desse cuidado, dançam, fazem churrasco ouvindo pagode, vão à praia próxima, recebem amigos, curtem a casa e organizam com carinho. Foi no final de 2022 que Bárbara e Isa se conheceram. Bárbara tinha um grupo de amigas lésbicas que sempre saiam juntas, mas logo no dia que queria sair a maioria não topou e acabou indo só com uma delas num bar - este voltado ao público feminino que existia no Rio de Janeiro: o Boleia - porque estava com desejo de comer uma batata frita que só tinha lá. Quando chegou ele estava bem cheio, o clima agitado, não tinha mais a famosa batata frita, mas ela insistiu com a amiga: “Vamos ficar por aqui, quem sabe conhecemos alguém legal!”. E conheceram mesmo, o grupo de amigas que a Isadora estava. Bárbara chamou a Isa para dançar um forró e enquanto elas dançavam, no meio do barulho, até perguntou para a Isa se ela estava solteira, mas ela nem ouviu, não respondeu - e foi insistente, que bom, porque meses depois ficou sabendo que Isa não estava nem aí, não tinha muita disposição para conhecer alguém naquele momento. O bar já estava fechando e, em grupo, seguiram para outro lugar, mais calmo. Foi lá que conseguiram conversar, a Isa pensou: “Nossa, que menina interessante!” e as coisas se desenvolveram. Depois de se conhecerem nesse primeiro encontro, passaram 15 dias até conversarem novamente online e surgir o convite para se encontrarem novamente. Saíram, as coisas fluíram e seguiram se encontrando, mas confirmaram: não queriam nada sério. Dois meses depois, não tinham como negar, já estava sério. O pedido de namoro aconteceu no começo de 2023. A verdade é que tanto Bárbara, quanto Isa tinham bastante medo de se relacionar. Mas o que ajudou a enfrentar o medo foi observar o quanto eram pessoas que mereciam viver algo bom, que desejavam coisas boas para os outros e para si. Cativaram uma à outra. Acreditam que a dinâmica de relação que possuem é muito bem sucedida e Isa traz o exemplo da relação dos pais dela - conta que é a mais bonita que conhece, eles estão juntos desde a adolescência e são muito parceiros, são o maior exemplo de vida que possui. Aos poucos, ela enxerga o que deseja na relação com a Bárbara também e se orgulha muito disso. Para Bárbara, o amor sempre vai nos encontrar. É a força mais poderosa do mundo. Vai nos encontrar num animal que nos olha na rua, num café que bebemos, numa pessoa que amamos. O amor é a força criadora. É a proposta por estarmos aqui: para nos desenvolver no caminho do amor. Ela sempre teve a dualidade: ser uma pessoa um pouco solitária, mas também buscar o amor nas pessoas. No começo da relação, a mãe orientou: “Filha, vai com calma. Você se entrega muito.” E ela respondeu: “Mas a Isadora também é assim”. E a Isa também passou por isso com a mãe e com as amigas. Hoje em dia ela enxerga a relação que vive com a Isa como algo muito curativa: curando traumas, cuidando… alguém que abraça mesmo o que não é perfeito (como a questão da bagunça, citada no começo do texto) e te ajuda a melhorar. Para Isa, o amor de alguma forma é clichê. É uma transformação constante, ser a sua melhor versão para si e para o outro, para quem enxerga a melhor versão de você. Ter ternura e respeito, deixar a pessoa digerir no tempo dela, ter cuidado. Acha incrível o quanto as famílias delas se gostam e apoiam a relação delas e isso é muito valioso, acredita que o amor também mora nesses momentos. ↓ rolar para baixo ↓
- Pamela e Gabriela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Pamela e Gabriela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi num parque em meio à área florestal do Grajaú, no Rio de Janeiro, que encontrei Pamela, Gabi e Kauan. Ele completamente sorridente, com seus 5 meses de idade. Começamos a conversa com elas contando o quanto amam viajar. Sempre planejaram viagens e agora, depois de ter feito a primeira viagem breve com o Kauan, anseiam o primeiro andar de avião nas próximas semanas. Pamela explica como esse primeiro momento da maternidade não é fácil, por mais que tenha essa viagem que traga felicidade, a vida real demanda muito, envolve cansaço e esforço das duas, mas que mesmo nessas circunstâncias conseguem sentir as coisas leves porque sempre relembram o quanto sonharam com isso e o verdadeiro motivo de viverem tudo: resgatam o amor para o dia a dia. Entendem que o amor é muito político, principalmente na criação do Kauan. Citam os olhares, as burocracias que viveram e questões mais ‘invisíveis’, como o quanto pensavam sobre política muito antes de saber se era um menino ou uma menina que iria nascer. Gabi explica que se fosse menina, queriam criar uma menina forte, corajosa, que tivesse consciência do machismo, etc. Sendo menino, mudava de forte para sensível; Queriam a consciência e a coragem, mas ensinando que pode demonstrar sentimentos, chorar, ser gentil. Conta, também, sobre um dia que estavam numa padaria e um desconhecido brincou com ele e comentou: “Esse é macho, tem cara de macho!” e ela disse “Não… Ele é um bebê” e completa que não tem que ter cara alguma, além da cara de um bebê. Foi em 2015 que elas se esbarraram pela primeira vez, numa festa durante o carnaval. Pamela tinha saído com um amigo, estava recém solteira e perguntou se o amigo tinha alguém para apresentar. Ele apresentou a Gabi e elas se beijaram na noite, mas não conversaram, nem trocaram mensagens depois. Em 2017, se encontraram novamente no carnaval, de forma aleatória num bloco e com os mesmos amigos em comum. Perguntaram se estavam solteiras e ficaram. Isso já era de madrugada, estavam bêbadas e depois de terem ficado, a Gabi simplesmente comentou com o amigo: “Sabe quem eu queria encontrar?! A Pamela”. Ele ficou sem entender nada: “Ué?? Mas você acabou de ficar com ela!”. E ela não lembrava. Se esbarraram de novo, beijaram de novo, e o amigo chegou dizendo “E aí, Gabi, agora foi, né?”. Quando ela respondeu: “Não?! Não vi a Pamela”. Achavam que era alguma brincadeira dela, mas entenderam que ela realmente não estava relacionando/lembrando. Então combinaram: se elas se beijassem de novo, iriam fotografar. E assim foi. Depois do carnaval, ambas tiveram breves relações e no meio do ano estavam novamente solteiras, então começaram a se falar pelas redes sociais. Decidiram ter um encontro, a Pamela decidiu que não podia envolver álcool, porque queria ser lembrada, então chamou Gabi para ir ao cinema. Acabaram chegando cedo e só tinha o filme dos Minions para assistir, toparam mesmo assim e sentem que aquele dia foi o começo de tudo. Começaram a conversar, ficaram juntas mesmo. Nos próximos dias que seguiram desde o primeiro encontro, já entendiam que queriam namorar. Fizeram a primeira viagem e lá Gabi comprou uma aliança, na pracinha da cidade, e deu para a Pamela selando o início do namoro. O primeiro ano não foi fácil, contam que foi um ano de “ajustes”. Tinham muitas conversas para se entender, também não havia muita estrutura, ainda estavam na faculdade… Foi depois de completarem um ano que decidiram morar juntas, em Caxias, por ser mais acessível financeiramente. Sempre falaram sobre casar e ter filhos, então começaram uma conta poupança juntas, entendendo o quanto isso demandava, e os planos foram se concretizando. Em 2019 casaram, fazendo uma festa para amigos e familiares. Em seguida, se mudaram para um novo apartamento, entre o centro e a zona sul do Rio de Janeiro. Durante a pandemia o apartamento se tornou pequeno para o que desejavam. Ainda mais passando o dia todo em casa, se sentiam enclausuradas, sem tanta luz solar. Sendo assim, em 2021 conseguiram um novo lar, dessa vez na Tijuca, e lá a vinda do Kauan começou a ser planejada. Começaram com a bateria de exames, depois a primeira tentativa que já deu certo. Pamela gerou, Kauan nasceu em abril de 2023. Gabriela estava com 31 anos no momento da documentação, é natural do Rio de Janeiro e, mesmo tendo a formação em Engenharia Química, migrou de área e hoje atua enquanto Product Manager. Pamela, com 33 anos no momento da documentação, é natural de Duque de Caxias, baixada fluminense. Também formada em Engenharia Química, não atua na área, trabalha enquanto analista de negócios. Gabi conta que desde pequena sempre quis ter um filho com o nome Kauan. Falava isso tanto que, quando a mãe engravidou, perguntou se ela queria dar esse nome ao irmão e ela respondeu que não, Kauan seria o nome do filho dela. Quando deu essa ideia para a Pamela, ela adorou, principalmente pela escrita do nome. São duas mulheres muito diferentes: Gabi, por exemplo, passou o processo de gravidez todo chorando (seja por felicidade, medo, ansiedade…), enquanto Pam internalizou tudo e segurou a barra, foi muito racional, só chorou quando deu certo. Entendem que no dia a dia o exercício é fazer Pamela lidar com as emoções, se comunicar, falar o que sente. Gabi instiga a comunicação, sempre procura conversar. Para Gabi, o amor é muito mutável perante os períodos que as pessoas estão vivendo. Quando começaram a namorar, por exemplo, sabiam que se amavam e por mais que em muitos momentos estivesse sendo difícil se entender, o amor estava ali e queriam continuar juntas, por isso seguiam em frente. Hoje em dia é diferente, já passaram por questões difíceis no emprego, na família… e continuam juntas, se sentem fortalecidas. Vê muita parceria na forma que elas constroem a relação e a educação do Kauan. Atualmente, fazem parte de um grupo de dupla maternidade no Rio de Janeiro e querem muito que o Kauan viva com crianças da mesma configuração familiar que ele. Buscam o tempo todo espaços inclusivos, desde o grupo, até escolas que não tenham o dia das mães-dia dos pais, mas o dia da família. Pamela fala sobre todas as crianças, as tantas que vivem sem pais, por exemplo, e como esses dias podem se tornar algo ruim. Não queria ver o Kauan crescendo com esse sentimento, portanto, querem sempre propor algo melhor - e que elas não tiveram, na sua infância, como escolher. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Pamela
- Tania e Clarissa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Tânia e da Clarissa, quando o projeto passou por São Paulo! Queria contar a história da Tânia e da Clarissa (e do Gael, claro) de uma forma que tudo se completasse, porque a vida delas acontece assim. Diversas vezes, desde que nos encontramos em São Paulo - cidade em que elas nasceram e moram com o Gael - falamos no sentimento que existe sobre a vida tê-las preparado para a chegada dele. E isso não significa que ter um filho e educar uma criança de forma inclusiva é tarefa fácil ou, que nesse caso, venha com receita pronta, mas que elas estavam de braços abertos e muito dispostas para receber tudo o que aprendem e compartilham diariamente. A forma de começar a contar essa história vai ser pelas fotos porque escolhemos fazê-las num local muito especial, um café, localizado no bairro da Mooca. Esse café foi a Tânia quem pintou, com giz de cera, cada uma das paredes. Quando ela pintou, não imaginava que adotaria o Gael, mas já estava com o processo de adoção bastante avançado no fórum e tinha feito uns murais na escola em que trabalhava, quando o dono do café foi matricular a filha, os viu e decidiu contratá-la; foram dez dias de muitos desenhos nas paredes… mas um desenho em especial, de frente para a cozinha, era o preferido do casal (e também da Tânia!): uma menina no balanço, lendo um livro. Enquanto pintava, Tânia resolveu perguntar o motivo deles terem gostado tanto do desenho e a resposta foi que remetia à uma criança com síndrome de down (a esposa do dono do café é fisioterapeuta e tem essa especialização). A menina, com seus dedinhos curtos, segurando o livro, de olhinho puxado… remetia a eles e trazia algo tão bom. Enquanto para a Tânia, pelo vestido fazendo um contorno circular longo, via logo um barrigão, não pensava na criança, mas numa gestação. Não sabia ela que exatamente naquele dia da pintura, em um estado vizinho, o Gael nascia. As fotos da Tânia e da Clarissa, junto ao Gael, hoje em dia com dois anos, saudável, sorridente, muito inteligente e simpático, conversam com cada uma das pinturas do café. E é muito incrível ver como, de todas as formas, elas estavam esperando por ele. A Clarissa tem 37 anos, é bancária, adora mexer com plantas, reviver plantas, replantar e cultivar. Ela também toca violão e canta (gravou em estúdio a música para a Tânia entrar no casamento! Olha que incrível!). Ela adora esses detalhes, trata-os com muita atenção e carinho. A Tânia tem 43 anos, é historiadora e pedagoga, brinca que é artista plástica autodidata, porque dá aula de artes e de pintura há muitos anos também. Antes dos murais, ela nunca tinha pintado usando giz de cera, sua especialidade era tecido e madeira. A história do giz começou por uma reforma na escola e pela falta de dinheiro para comprar materiais para a pintura acontecer, então ela viu que tinha muito giz e pensou que poderiam inventar algo novo. Enquanto a história dos tecidos, essa vêm de longa data: ela já apresentou até programa na TV ensinando outras pessoas a pintarem seus próprios tecidos em casa. A Tânia e a Clarissa são mulheres muito atenciosas e logo que você chega é completamente impossível não se contagiar pela energia delas. São pessoas que se movem por afeto e contam histórias de vezes que já comemoraram datas com violinistas, de votos de amor que fazem por aí, das aventuras de anos casadas… são muitas risadas que vamos trocando ao longo das conversas, porque mesmo que os assuntos não sejam tão fáceis ou que existam os perrengues, fica claro o tempo todo que elas querem fazer o bem. Por fazer o bem que elas se conheceram, inclusive. Foi num grupo de Whatsapp onde LGBTs se reuniam para promover doações que quebravam o preconceito. Infelizmente ainda existe um olhar para nós de que só queremos festas, coisas vistas como “libertinagens” e não levamos nada à sério (e tudo bem querer festa, viu gente?), mas para quebrar essa ideia tão retrógrada esse grupo se uniu visitando lares de idosos, praticando doações, distribuindo coisas, etc. A Clarissa se interessou pela Tânia, chamou ela no Whatsapp e passaram quatro horas conversando. Marcaram de sair e foram ao teatro, já que ambas amam teatro. E, dessas saídas ao teatro, já se passaram mais de 8 anos, né? Cá estamos. Depois que elas se conheceram, se apaixonaram e namoraram por um tempo, resolveram morar juntas. A Tânia já tinha dois filhos maiores de vinte anos e isso fez com que fosse ainda mais difícil para a mãe da Clarissa a aceitação do relacionamento, portanto elas passaram o primeiro um ano e meio sem contato direto com as famílias. Mas não foi por falta de tentativa, não, viu? Tânia tentou, mandou e-mails, fez o que estava ao seu alcance, mas não conseguiu. Depois de um tempo, o irmão da Clarissa começou a namorar e foi apresentar a namorada, então elas resolveram dar um basta: só iremos se a Tânia puder ser apresentada também. Ok, baixamos a guarda. A Tânia foi convidada. E ela? Viveu um dia de gala! Foi ao salão, comprou até roupa nova para a ocasião. Deu tudo certo, todos se deram bem. O mais curioso é que a mãe da Clarissa e a Tânia se parecem muito, não só no jeito, mas ambas são professoras e artistas, então a mãe sempre soube quem era a Tânia por ver ela na TV, mas não dava o braço a torcer. Depois, quando se conheceram e se deram bem, tudo foi ficando mais tranquilo, mas levou muito tempo para que elas não se sentissem mais pisando em ovos. Desde o começo a adoção sempre estava em pensamento, por ser um sonho de muitos anos da Tânia. A Clarissa adorava a ideia, mas ambas achavam muito cedo. Deixaram a hipótese ao futuro, para amadurecer depois do casamento. Quando o casamento chegou, a notícia foi dada num almoço de família, depois de três anos juntas. A mãe da Clarisse perguntou “Mas por que vocês vão casar? Se já moram juntas há três anos?!” e ela respondeu: “Por que a senhora casou? Então. A motivação é a mesma.” = aí, ninguém argumentou mais nada. Sobre o casamento, o assunto já estava vencido, mas ainda sentia-se uma dor porque tiveram pouquíssima participação familiar no envolvimento em si… pouco perguntava-se sobre o evento, elas organizaram tudo sozinhas, cada detalhe, e foi difícil lidar com esse sentimento de solidão. Na data da festa, o pai da Clarissa entrou com ela e foi muito receptivo com os convidados, enquanto a mãe ficou mais reclusa. Recordam que a cerimonialista falou coisas muito profundas e importantes sobre o amor e sobre quem nós somos, e citam que isso despertou uma mudança comportamental na forma que a mãe da Clarissa vê o relacionamento das duas, portanto, valeu sim, muito a pena. Em relação à adoção, elas contaram da mesma forma que o casamento: o irmão da Clarissa ajudou e elas organizaram uma pizza entre a família para dar a notícia. No começo, o maior medo que surgiu foi em relação ao processo, como seria, e de certa forma sobre alguns preconceitos que envolvem a adoção, como “Como será que vai ser quando a criança crescer? / E se ele/ela quiser procurar a família biológica? / etc”, além disso, existia um pensamento sobre a Clarissa nunca ter filhos pelo o que ela representa socialmente, uma mulher que não se mostra feminina, não encaixa num padrão socialmente colocado que desde criança não mostrava brincar de bonecas e nem ser muito materna… [E justamente nesse momento nos surge a dúvida: Por que isto vira um debate quando a Clarissa anuncia o desejo de adoção e nunca vira um debate em famílias no momento em que os homens contam que vão ser pais? Nunca um homem é cobrado sua paternidade, já para nós, mulheres, sempre nos é cobrada uma posição materna e se não temos uma boneca em casa nos é descartada a possibilidade ao crescer. Ainda bem que Clarissa seguiu o sonho porque hoje em dia ela é uma mãezona!] Enfim, o sentimento que os familiares ficaram foi de: quando acontecer, a gente vê. Foi então que elas entraram com os papéis no fórum e acompanharam mensalmente os encontros em grupo sobre adoção. Depois de um ano, os pais (avós do Gael) estiveram também nesses encontros, o que foi muito legal porque mudou bastante a visão sobre a adoção, e lá foram reaprendendo formas de enxergar e de se preparar para recebê-lo da melhor forma possível. Depois de um ano e meio elas estavam aptas a entrar num grupo de busca ativa por crianças para adoção. Lá, chegaram a tentar uma criança, enviaram os documentos, mas não tiveram retorno judicial (em agosto de 2019), então voltaram à busca. Em novembro, dia 20, de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra, elas estavam em uma peça de teatro (olha aí, o primeiro date voltando à tona), e quando pegaram o celular para fotografar um momento da peça porque Tânia queria mostrar aos alunos na escola, viram no Whatsapp a foto do Gael. Tânia, em lágrimas, conta que sentiu o coração palpitar muito forte e só conseguiu dizer: é o meu filho! A informação que tinham era de que o Gael não estava em São Paulo e que era um neném com síndrome de down, possuindo também uma bolsa de colostomia. Elas nunca tinham pensado na hipótese da síndrome de down porque não existia essa opção no questionário que responderam, mas na mesma hora não havia mais dúvidas, apenas a certeza que o Gael era o filho que elas estavam buscando. A Clarissa brinca que não conseguiram mais nem ver a peça, choravam e ela tentava conversar para acalmar e ser um pouquinho mais pé no chão, saber se era isso mesmo que elas queriam, mas ambas estavam muito emocionadas. Ao fim, foram para o estacionamento, conversaram e ligaram para a filha da Tânia. Na hora que ela viu a foto, não deu nem tempo, só disse “Mãe, é ele, né??? É o meu irmão! Pega ele! A gente estimula ele, mãe!! Vai dar certo!”, naquele momento tudo foi se encaixando, a filha dela trabalha com crianças que possuem síndrome de down e na época auxiliava 6 crianças numa escola. Em seguida, ligaram para o filho, que também apoiou. Foi o bastante: deram o sim para a assistente social. Os dias seguintes se resumiram em pura ansiedade. Enviaram os documentos e o processo demorou mais de uma semana, passaram por entrevistas, por assistentes sociais… Tânia estava tão ansiosa que resolveu ir até a casa de duas amigas mais velhas, maiores de 80 anos, cujo ela apelida de yabás. Elas falaram: “Calma que ele é teu, ele já vem”. Foi quando ela chegou em casa que recebeu a ligação do fórum e falaram: chegamos à conclusão de que não existem mães melhores para ele do que vocês duas. Compraram as passagens aéreas, alugaram airbnb, marcaram audiência e o mais rápido possível foram conhecê-lo. Conversaram muito com as assistentes, com o fórum, afinal, tudo precisa ser minimamente acertado. A família (como um todo) ainda não sabia, porque o medo de não dar certo era grande, deixaram para contar quando já estivessem lá. E finalmente chegou o momento aprovado de conhecê-lo: lá estava o Gael, neném pequenino, gordinho, com os olhos super curiosos, acompanhado de uma sacolinha de plástico com suas roupas. Elas foram com ele até o apartamento onde estavam hospedadas. Todos estavam enviando mil mensagens para o celular, mas fizeram chamada de vídeo com a filha da Tânia. Gael, quando a viu, abriu um sorrisão. Foi o primeiro sorriso dele, como se já a conhecesse. Ele foi muito bem recebido por todos na família e é uma criança muito amada. Elas afirmam: “Ele nos ensina coisas que nenhuma faculdade ensinaria, nenhum curso”. A vida gira em torno do Gael, que ao todo faz 6 terapias, hidro, fono, fisio, uma rotina intensa! É sempre de sorriso no rosto! E vai melhorando a cada dia. Hoje ele já não usa mais a bolsa de colostomia, passou pela cirurgia e correu tudo bem! Falamos sobre a importância de darmos valor aos pequenos grandiosos acontecimentos ao nosso redor, como as necessidades fisiológicas diárias. E tudo o que isso nos ensina. Nesse momento, a Tânia conta que no dia do casamento elas fizeram votos falando sobre o quanto são pessoas melhores depois que se conheceram… mas que depois do Gael, elas sentem que são pessoas que nem imaginavam conhecer/e ser. Sentem que vão sair dessa vida muito melhores. Hoje, também, depois de tantos anos, ambas famílias se dão super bem. No mais, elas mantém o Instagram do Gael, para falar sobre educação inclusiva, famílias homoafetivas e crianças com síndrome de down. O @ é @gael.t21 a palavra está com elas Acreditamos que o amor supera tudo, nele não tem raiva, não tem inveja, não tem maldade. Eu (Tânia) vivi uma situação que me lembra do amor. Foi com a minha sogra. Ela é muito parecida comigo e um dia eu fui viajar para o interior sozinha à trabalho. Por mais que eu já namorasse a Clarissa há anos e já conversasse com a minha sogra, ela nunca tinha falado comigo no Whatsapp, mas nesse dia, especificamente, ela me mandou uma mensagem perguntando se eu cheguei bem. Ou seja, ela ficou preocupada, né? Me surpreendeu e eu agradeci. Aí ela disse que, ah, era assim mesmo, “com o tempo ela ia vendo como são as coisas”... e eu disse que o amor é só isso, mesmo, mas que amor também é tudo isso. É essa coisa que une, que move, que faz com que a gente se preocupe e que faz passar por esses desafios. Nós,mulheres, amarmos outras mulheres, nos faz passar por muitas coisas e muitos desafios, então o amor surpreende e fica muito latente. Mas nem sempre a gente sabe como demonstrar, então é importante saber ler também. E o Gael estar numa família homoafetiva é maravilhoso porque já passamos por tantas coisas que ele será completamente acolhido aqui, voltamos a realmente aquele ponto: nos preparamos a vida toda pra isso. post Começou 2022! Precisamos começar o ano fazendo todos vibrarem com uma das maiores histórias que já tivemos o prazer de documentar, então, preparou o lencinho? Chegou a hora. Aproveitem ♥ Queria contar a história da Tânia e da Clarissa (e do Gael, claro) de uma forma que tudo se completasse, porque a vida delas acontece assim. Diversas vezes, desde que nos encontramos em São Paulo - cidade em que elas nasceram e moram com o Gael - falamos no sentimento que existe sobre a vida tê-las preparado para a chegada dele. E isso não significa que ter um filho e educar uma criança de forma inclusiva é tarefa fácil ou, que nesse caso, venha com receita pronta, mas que elas estavam de braços abertos e muito dispostas para receber tudo o que aprendem e compartilham diariamente. A forma de começar a contar essa história vai ser pelas fotos porque escolhemos fazê-las num local muito especial, um café, localizado no bairro da Mooca. Esse café foi a Tânia quem pintou, com giz de cera, cada uma das paredes. Quando ela pintou, não imaginava que adotaria o Gael, mas já estava com o processo de adoção bastante avançado no fórum e tinha feito uns murais na escola em que trabalhava, quando o dono do café foi matricular a filha, os viu e decidiu contratá-la; foram dez dias de muitos desenhos nas paredes… mas um desenho em especial, de frente para a cozinha, era o preferido do casal (e também da Tânia!): uma menina no balanço, lendo um livro. Enquanto pintava, Tânia resolveu perguntar o motivo deles terem gostado tanto do desenho e a resposta foi que remetia à uma criança com síndrome de down (a esposa do dono do café é fisioterapeuta e tem essa especialização). A menina, com seus dedinhos curtos, segurando o livro, de olhinho puxado… remetia a eles e trazia algo tão bom. Enquanto para a Tânia, pelo vestido fazendo um contorno circular longo, via logo um barrigão, não pensava na criança, mas numa gestação. Não sabia ela que exatamente naquele dia da pintura, em um estado vizinho, o Gael nascia. As fotos da Tânia e da Clarissa, junto ao Gael, hoje em dia com dois anos, saudável, sorridente, muito inteligente e simpático, conversam com cada uma das pinturas do café. E é muito incrível ver como, de todas as formas, elas estavam esperando por ele. A história completa está no nosso site! O caminho até lá você já sabe, né? O link tá na bio!
- Alissa e Rafaela | Documentadas
Foi num período em meio a pandemia que Rafaela decidiu submeter seu projeto para estudar mestrado em Santa Catarina, ainda sem esperanças, porque não conhecia ninguém na universidade e no Estado. Ela e Alissa moravam em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e trabalhavam na área da saúde. Foi vivendo etapas longas do processo, e para a sua surpresa, passando em todas. Até que em dezembro de 2020 teve a resposta: foi aprovada! Se olharam e entenderam: “Vamos nos mudar para Santa Catarina!”. Organizaram toda a vida e no dia 7 de abril de 2021 estavam a caminho de Araranguá, cidade no interior do estado, onde começariam tudo de novo. Dizem que no começo foi difícil de “não endoidar”, era só elas, uma pandemia, a cidade conservadora e ninguém que conheciam. Mas aos poucos foram recebendo as visitas das suas famílias que adoram visitá-las por conta da praia (adoram tanto que parte da família hoje em dia se mudou também!) e criaram um grupo bem legal de amigos. Precisaram se apoiar muito, essa foi a base para tudo dar certo. Alissa voltou a estudar, desta vez em Criciúma, cidade próxima - e que hoje em dia é o lugar onde moram por conta da facilidade de mobilidade/trabalho/estudo - acharam fundamental se assumirem enquanto família, não escondiam mais quem eram, andavam de mãos dadas na rua, falavam nas entrevistas de emprego que tinham uma companheira, desde o início deixavam claro às novas amizades para combater o preconceito… Esconder-se não era mais uma opção. E, aos poucos, foram encaixando a vida nesse novo lar. No momento da documentação, Alissa estava com 25 anos. Ela é natural de São Luiz Gonzaga, no interior do Rio Grande do Sul. Estuda educação física e ama praticar exercícios. Antes de cursar educação física também estudou engenharia elétrica por 3 anos em Santa Maria, neste curso fez parte do time atlético de handebol e foi aí que começou a paixão pelo esporte. Rafaela, no momento da documentação, estava com 25 anos. É natural de Alegrete, também no interior do Rio Grande do Sul. É mestranda em ciências da reabilitação e pretende começar o doutorado em breve. Morou 7 anos em Santa Maria, onde fez faculdade e pós-graduação. Mudou-se para Araranguá, em Santa Catarina, por conta dos estudos, mas atualmente está em Criciúma, há cerca de um ano. Rafa nos conta que recentemente recebeu seu diagnóstico de TEA - transtorno do espectro autista - e que tem entendido mais as coisas depois que teve seu diagnóstico. Recebeu muito apoio da Alissa nesse momento, elas explicam que é muito difícil passar a vida inteira sendo algo que a gente não sabe o que é, não sabe nem nomear. Depois passou a entender suas oscilações de humor, ou sobre não gostar tanto assim do toque, de manter contato visual… Na relação, definiram detalhes para saber quando ela está bem ou não: como o bichinho de pelúcia, polvo do humor (Rafa coloca ele feliz ou bravo mostrando como está se sentindo no dia) e assim elas estão entendendo isso juntas. Em março de 2019, quando Alissa era atleta do time de handebol da faculdade, Rafa entrou como fisioterapeuta. Logo na primeira interação, Rafa achou Alissa muito chata: era domingo, 8h da manhã e ela chegou animada com uma lista em mãos… Rafa pensou: “Quem tá feliz num domingo de manhã?”. Na época, Alissa vivia um período de transição de entendimento enquanto mulher lésbica, achou a Rafa lindíssima, lembra que sentiu algo diferente e já comentou com uma amiga sobre. Os dias passaram e no final de semana de Páscoa elas precisaram viajar para jogar com o time, não teriam como visitar a família na volta e decidiram fazer um almoço em conjunto. Acabou que o almoço virou só delas. Conversaram muito e ficaram amigas. Por serem profissionais do time não podiam sair à noite, saiam escondidas. Demoraram um tempo para entender que não queriam ser apenas amigas, foi um processo natural de intimidade (e que Rafa, hoje com o entendimento de ser uma pessoa com TEA e TDAH, passa a visualizar diferentes os detalhes daquela época), tudo foi acontecendo até o beijo se tornar um desejo em comum. Depois que se beijaram, se relacionam um mês sem contar para ninguém, até irem se abrindo para os amigos e para algumas pessoas da família. Quando Alissa resolveu fazer o pedido, em junho do mesmo ano, preparou toda a casa, o quarto, fez várias coisas fofas… E na hora: travou. Brinca que era a primeira vez, ninguém a ensinou a fazer isso, não sabia o que dizer. Depois de algumas horas conseguiu pedir. Alissa e Rafa tiveram algumas questões logo no início do relacionamento, principalmente porque Alissa não estava mais indo para a faculdade e levando os estudos à sério. Na época, ela focava no handebol e em sair para bares, aproveitar a vida. Rafa, por sua vez, era bastante focada nos estudos e não queria se relacionar com uma pessoa que não desse o mesmo valor à carreira, então teve uma conversa séria da qual disse que faculdade pública não era bagunça, que alguém estava pagando por isso e que Alissa precisava “se ajeitar na vida” = ou ela contaria aos pais que não estava estudando, ou Rafa contaria. O problema é que se os pais soubessem que ela desejava cursar educação física, iriam fazer com que ela voltasse à sua cidade natal e estudasse lá. E se ela contasse, também, que estava namorando uma mulher, seria informação demais para assimilar ao mesmo tempo. O processo todo levou 8 meses para acontecer, e nesse meio tempo, a mãe da Rafa estava visitando ela e deu a ideia: “Chama a Alissa para morar aqui!”. Antes mesmo dela processar, Alissa chegou lá e a mãe mesmo fez o convite. Aos poucos a família foi entendendo - e reconhecem como é muito bom ter uma família que ama e apoia. Ao passar dos meses Rafa conseguiu um emprego para Alissa de secretária no mesmo lugar que ela trabalhava enquanto fisioterapeuta, e assim viveram até o final do ano. Quando a pandemia de Covid-19 chegou, no início do ano seguinte, seguiram trabalhando por ser da área da saúde, mas já estavam com a vida mais estável financeiramente e batalhando pelos estudos. Hoje em dia, entendem com clareza que Rafa trouxe a calmaria para Alissa, enquanto Alissa trouxe um pouco mais de agitação para a Rafa. A relação tirou ela de vários lugares (de conforto ou não) e trouxe um salto qualitativo. Alissa estava sem perspectiva, depressiva, Rafa a trouxe um novo olhar. Durante a nossa conversa, refletem que se não fosse a relação, talvez elas ainda estivessem naquela realidade ou vivendo ciclos de suas famílias, e que hoje saíram para crescerem juntas, estão muito maiores. No momento atual da documentação, já morando em Criciúma, vivem uma rotina mais tranquila. Sair de Araranguá foi decisivo para isso acontecer, lá estavam tendo horários bem difíceis e mal se encontravam perante as rotinas. Estão noivas, fizeram a primeira grande viagem juntas e estão construindo novos planos. Acreditam que celebrar o amor com uma festa de casamento é o que elas merecem por estarem há 5 anos construindo esse amor. Brincam que adoram ser emocionadas, que no começo as pessoas falavam que isso iria passar, mas que até hoje fazem café da manhã e levam na cama, gostam de estar juntas e alimentam essa paixão. Sentem que fazer isso é manter o propósito do amor - e por consequência, da vida. Alissa sempre se questionou muito sobre sua capacidade, enquanto Rafa sempre foi muito decidida, então aprende muito com ela. Rafa segura a sua mão e fala: “Vai, você consegue”. Agora constroem um legado juntas. “É: nós por nós”. Se apoiam nos medos, transformam em coragem. ↓ rolar para baixo ↓ Alissa Rafaela
- Debora e Paula | Documentadas
↓ rolar para baixo ↓ Foi através de um post (de uma pessoa que a Débora nem seguia, mas apareceu no Instagram), em que uma menina explicava a origem do termo “sapatão”, que ela viu o comentário da Paula dizendo que era “sapatão com orgulho” e respondeu. Se interessou pelo perfil da Paula, viu que moravam em cidades próximas, no Rio Grande do Sul, e seguiu puxando um assunto. A conversa fluiu por alguns dias. Na época, Débora trabalhava em um café e tinha folga aos domingos, então resolveram marcar um chopp. Paula, por sua vez, estava muito atarefada, cansada, não tinha dormido à noite e decidiu descansar 40 minutos antes do encontro acontecer. Resultado: pegou no sono. Quando acordou, achou que Débora teria bloqueado, nunca mais olharia na sua cara por conta do bolo, mas Débora entendeu. Na terça seguinte decidiram sair e como é mais difícil arranjar um local durante a semana resolveram encontrar na Casa de Cultura Mario Quintana, local que fizemos as fotos, no dia em que as chuvas históricas começaram no Rio Grande do Sul (nem imaginávamos). No começo, antes mesmo de namorar, já deixaram claro o que queriam: Débora disse que buscava alguém para casar, para construir algo sólido. Enquanto Paula disse que não pensava em casar novamente. Débora viveu um relacionamento onde a pessoa não era assumida e sentia muita falta de não poder viver uma “vida de verdade”, não poder passar datas importantes com a pessoa, não poder conviver em família… e depois lembra que comentou com a psicóloga o quanto tinha medo da Paula pensar que ela era louca por dizer algo assim, mas que no fundo era simples: se ela sabe o que ela quer, precisa comunicar, não tem porque não dizer para a pessoa e ficar numa relação “perdendo tempo”. Paula entendeu. E nosso dia foi tão marcante, mesmo com tanta chuva, justamente por isso: o pedido de casamento chegou. Elas decidiram firmar essa união em meio à nossa documentação. Para Débora, a parte mais importante do amor é se sentir amada, falar sobre o amor, demonstrar. Conta que quando era criança aconteceu um acidente de carro na sua família e algumas pessoas morreram, um dia antes ela tinha dito para um dos tios, que faleceu, o quanto ela amava ele e ele respondeu “eu sei”, então ela questionou “como você sabe, se eu nunca havia te dito?” e ele explicou “porque eu sinto, você demonstra isso”. Desde então, faz muita questão de demonstrar o amor para todos que ama, entende a importância das pessoas se sentirem amadas sempre. Brinca que a primeira vez que disse para a Paula que achava que a amava, ela disse: “Sim, eu sou muito amável!” e que essa quebra de expectativas que ela provoca faz tudo ser ainda melhor, faz rir, faz a parceria e o diálogo aumentar, faz com que ela se sinta muito mais amada também. Paula conta que por diversos traumas de infância/adolescência via muitas barreiras na hora de sentir e demonstrar afeto. Para ela, Débora pegou esse muro de concreto e derrubou num empurrão só. Então, um relacionamento com comunicação, expressão, sem julgamentos é algo muito novo, mas também importante e difícil. Ela ama as convivências com as famílias (rituais muito específicos com merengue na cara e tudo mais), a forma que estão dispostas e como podem contar uma com a outra. Contam também sobre a Paula estar trabalhando em uma imobiliária (que já trabalhou há anos atrás, voltou agora) e que decidiram assinar a união estável num dia, sem combinar muito ou planejar. Acabaram chamando os colegas dela para serem testemunhas, eles ficaram bem empolgados e emocionados, toparam na hora. E isso fala muito sobre as formas que elas levam a relação. É o espírito: Bora? Bora! Débora, no momento da documentação, estava com 33 anos. É natural de Porto Alegre, mas morou nas cidades metropolitanas de Cachoeirinha e, agora com a Paula, em Sapucaia do Sul. Formou-se em relações públicas, atua na área de vendas. Ama bichos, tem um coelho e uma cachorra. Adora dedicar o tempo livre para ler, visitar museus, comer, dormir, passear pelo centro histórico de Porto Alegre e também participa de um projeto que caminha por pontos em que aconteceram situações da ditadura na cidade, fazendo esse resgate histórico. Paula, no momento da documentação, estava com 43 anos. Nasceu em Esteio, região metropolitana de Porto Alegre e hoje mora em Sapucaia do Sul. Trabalhou na indústria e fez uma migração para o setor imobiliário. Como hobbie, é árbitra de atletismo, fazendo também cronometragem de corrida de rua. Além disso, adora passear por Porto Alegre e sente que está redescobrindo a cidade junto com a Débora. Depois do início do relacionamento, Débora trocou de trabalho e conseguiu um que ficava “no caminho” da casa da Paula (considerando que as distâncias eram bem mais longas antes) e foi então que decidiram morar juntas. Foram juntando as coisas aos poucos e, pra falar a verdade, até hoje quando vão visitar os pais de Débora voltam com alguma mochila no carro pegando um pouco mais de coisas. Comentam bastante sobre essa adaptação familiar, também, porque Paula tem um filho de 21 anos. Débora fala sobre o quanto ela gostaria de ter uma família e que Paula chegou com “um combo completo”: filho, sogra incrível, família grande, etc. Citam um ano novo que passaram juntos, na casa dos pais da Débora, jogando, rindo, muito parceiros, ele com a namorada e quando ela se deu conta, entendeu: “É isso que eu quero pra minha vida”. Débora Paula
- Natasha e Jéssica
Por mais que a história da Jéssica e da Natasha só tenha virado um registro no Documentadas depois de 6 meses de projeto no ar, ela chegou aqui lá no começo, antes mesmo de nos conhecermos, logo na segunda vez em que coloquei o corpo na rua e me dediquei a fotografar um casal: Quando a Rebecca e a Priscila, duas mulheres que já apareceram por aqui, me contaram empolgadas que havia uma história que eu precisava conhecer. Eu ouvi um “É tipo aquelas histórias de mulheres que tão juntas há muito tempo! Que a vida deu várias voltas. Elas se reencontraram e agora ela se mudou para Porto Alegre e se casou nesse reencontro! É a minha prima! Vou te passar o contato dela!” e bem que pensei “É possível! Eu vou passar por Porto Alegre em breve.” Quando encontrei a Natasha e a Jéssica em Porto Alegre e conheci toda a grandiosidade da história entendi que as mulheres realmente fazem tudo - e que a vida sempre dá uma forcinha quando quer nos juntar, né? A Natasha e a Jéssica se conheceram há muitos anos atrás, por conta de uma amiga em comum, quando eram adolescentes. A Jéssica é natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e a Natasha é natural do Rio de Janeiro, a capital. Ambas conversavam pela internet e participavam de comunidades no Orkut sobre gostos em comum, entre eles, uma série chamada Buffy. O que tinha de mais especial que unia a série é que elas já gostavam muito, até que em certo momento a série virou uma febre e aconteceu o surgimento de um casal LGBT, sendo uma referência muito grande para diversas adolescentes daquela época. Foi por conta desse casal, da série e das comunidades no Orkut e dos grupos no MSN que a Jéssica e a Natasha realmente se aproximaram, mas a Jéssica tinha uma visão de que a Natasha era meio “doidinha”... ela chegava das festas de madrugada e ficava online, era muito agitada… enquanto a Jéssica era mais tímida e mais quieta. A Jéssica se envolveu com uma amiga em comum da Natasha, um tempo depois elas terminaram e, como ela conversava muito com a Natasha, surgiu o convite de conhecer o Rio de Janeiro. Elas eram super jovens, tinham 18 anos e ela decidiu ir passar as férias por lá. Assim que se encontraram no aeroporto entenderam que havia algo diferente e, no fim das férias, já estavam namorando. Naquela época, sem a existência dos sinais de wi-fi ou internet móvel, o que restavam eram as contas de telefone - por sinal, caríssimas. Então acabaram assumindo o relacionamento à distância quando a Jéssica voltou até Porto Alegre e se encontravam cerca de três em três meses, dependendo das circunstâncias. Até 2009 o namoro aconteceu nessa distância, quando os pais da Natasha se mudaram para o interior fluminense e a Jéssica decidiu morar no Rio de Janeiro. Foi uma realidade bem diferente. Elas dividiram o apartamento, porém entendem que eram muito jovens, tinham 19/20 anos, eram bastante imaturas, trabalhavam como estagiárias, queriam ser independentes mas na verdade ganhavam pouco e os pais eram quem bancavam as contas da casa. Elas também construíam uma relação com bastante ciúme, então criavam desgastes e atritos que acabavam gerando desconfiança, era muito difícil suportar. Foi quando a Jéssica começou a se sentir sem liberdade dentro do relacionamento e entendeu que era o momento do término e voltou a morar em Porto Alegre. Hoje em dia, a Jéssica e a Natasha estão com 33 anos. Jéssica trabalha como administradora e logística na parte de planejamento de produção em uma empresa de laticínios e Natasha é formada em gestão financeira, mas atua na área de planejamento e controle orçamentário. Elas brincam que não são o tipo de casal que gosta de ficar em casa dormindo, mas aquele que ama viajar. Que cria roteiros, que quer comprar um carro e andar pelo mundo! Elas gostam de se movimentar, de conhecer lugares, desbravar a alimentação local, conhecer as culturas e viver cada lugar, cada ambiente e cada espaço como uma experiência única. Em um momento da conversa elas me contaram sobre se permitirem sonhar e sobre uma situação que viveram juntas quando eram mais novas… e que esse sonho não precisava ser um sonho grandioso, mas se permitir pensar no futuro, mesmo. A situação era um show da Ana Carolina que foram quando moravam juntas no Rio e que estavam naquela primeira fase do namoro, sendo bem jovens e se conhecendo… Contam que viram vários casais de mulheres mais velhas, elegantes, bem sucedidas e se perguntaram “Será que um dia vamos ser assim?” e que hoje em dia são. Além de se reconhecerem e de reconhecerem o quanto conquistaram juntas, falam sobre ter sido a primeira vez que viram mulheres lésbicas bem sucedidas, lésbicas mais velhas se amando. “Foi muito marcante porque era muito longe de nós essa realidade”. Depois do término, quando a Jéssica já estava em Porto Alegre, elas mantiveram contato e até tentaram voltar e seguir o relacionamento à distância. Durou alguns meses, mas acabaram terminando de vez, em comum acordo. Este foi o terceiro e último término (o primeiro foi lá no começo, por iniciativa da Natasha)... e dessa vez, como última, parecia ser definitivo. Ficaram 5 anos separadas. Viveram a vida, seguiram amigas, tiveram outro relacionamento, ou melhor, casamentos (!) e tal. Até que conversaram em 2016. A Natasha estava solteira e elas mantinham amizade e se falavam raramente nesses 5 anos, por mais que nunca tivessem se visto e não havia maldade, de verdade, era apenas um querer-bem. E num dia, no Rio de Janeiro, ao se arrumar para sair com a prima (a Rebeca!) a Natasha conversando sobre ex namoradas comentou que a única namorada que seria capaz de se ver voltando a ter um relacionamento seria a Jéssica, mas que isso jamais aconteceria, até porque a Jéssica estava “casadíssima”, vivendo outra vida, sendo feliz “lá no sul”. Não sei se por coincidência ou que nome vocês querem dar a isso, mas literalmente no dia seguinte a Natasha descobriu que a Jéssica terminou o relacionamento - quem contou foi a própria Jéssica, em uma mensagem toda sem jeito. Elas voltaram a conversar e a Jéssica tinha uma viagem marcada, mas cancelou e decidiu fazer uma ida até o Rio e São Paulo para não perder as férias. Preciso contar o resto? São Paulo que lute, né? Ela ficou foi pelo Rio mesmo, com a Natasha… mas nos últimos dias de férias aqui, decidiu: “Não quero voltar a morar no Rio. Dessa vez, se for para ficarmos juntas, você vai para Porto Alegre comigo”. E a Natasha? Aceitou na hora. A Jéssica disse que nem acreditou no que ouviu, nem esperava um “Sim” tão rápido! A mudança, de fato, aconteceu. E não só a mudança, mas o casamento! Que foi exatamente na mesma data, 10 anos depois, do dia em que começaram a namorar - lá em 2007. A vida é cíclica. ♥ No dia do casamento, elas se juntaram aos amigos e fizeram um churrasco. Inclusive, também neste dia a Natasha recebeu a notícia de que havia passado em uma entrevista de emprego lá em Porto Alegre. Foi tudo acontecendo em conjunto e elas foram se adaptando à cidade e ao novo momento da vida. Hoje em dia, se enxergam muito diferente do que há tantos anos atrás, mas em geral entendem que o amor só ficou tão forte porque sempre foi muito moldado com respeito e admiração - e claro, a confiança e o apoio foram chegando como um bônus e crescendo na base também. Elas brincam, no fim, sobre já terem ouvido colegas de trabalho falarem sobre não aguentarem mais os maridos dentro de casa em seus casamentos e acrescentam como amar mulher é algo maravilhoso: são mais de dez anos e nem passa pela cabeça um dia em que se torne insuportável viver um amor tão bom. ♥ Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Jéssica Natasha
- Babi e Maria
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Babi e da Maria, quando o projeto passou pela Bahia!. Maria e Bárbara enxergam o relacionamento como um grande divisor de águas: no começo, tinham muito medo de se relacionar. Os traumas, as inseguranças… tudo se misturava e acrescentava para que não quisessem um novo relacionamento. Não achavam justo começar algo se o passado ainda não havia curado. Aos poucos, foram tentando e acontecendo naturalmente. Acreditam que a amizade e o cuidado agiram curando os traumas de forma que nem sabiam que era possível e até mesmo quando os gatilhos eram despertados elas tomavam à frente e tentavam ter o máximo de cuidado uma com a outra. Por mais que se entendam enquanto pessoas muito diferentes, que possuem realidades, estilos e vidas diferentes, se encontram a partir dos propósitos que possuem em comum. Maria conta que desde o começo entraram de cabeça uma nos planos da outra e não se veem mais distantes, se incluem em absolutamente tudo. Compara-se frequentemente aos seus pais ou suas tias que possuem longos relacionamentos e amizades, sentindo que está desde já criando as próprias memórias com a Babi. Desejam ficar juntas de forma duradoura e ficam felizes em ver desde já as memórias iniciais que criam e compartilham. Bárbara, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela nasceu no interior de São Paulo, numa cidade chamada Espírito Santo do Pinhal, mas mora na Bahia há mais de dez anos. Trabalha enquanto modelo, é artista e babá. Também faz curso de enfermagem e quer muito ser doula - agora que a melhor amiga está grávida, finalmente está investindo nesse sonho que acabava deixando de lado. Maria, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é do sul da Bahia, foi morar em Salvador há alguns anos e atualmente mora em Abrantes, uma vila em Camaçari, região metropolitana de Salvador e mesmo lugar onde a Babi reside. Maria trabalha como professora de inglês. Quando já estavam juntas, numa época em que nada estava dando certo na vida da Maria, ela procurava apartamentos para morar em Salvador e não achava, então Babi falou sobre apartamentos muito mais baratos e seguros (por ser em condomínios) em Abrantes. Ela cogitou ir, já que nada mais a prendia na cidade grande já que suas aulas eram online, e conseguiu se mudar. Hoje em dia elas moram no mesmo condomínio, em casas diferentes. Foi em 2022 que Babi, mesmo nunca gostando de aplicativos de relacionamento, resolveu baixar o Tinder no auge de sua solteirice. Ela estava em Salvador visitando uma amiga e logo deu ‘match’ com a Maria. Maria mandou um “Oi, tudo bem?”, ela não respondeu e Maria pensou “Nossa, que rude!”... 10 minutos passaram e Babi respondeu pelo Instagram: “Tudo, e aí?". Conversa vai, conversa vem, elas viram pelo aplicativo que estavam muito próximas, descobriram que na verdade era na mesma rua e decidiram se encontrar. Contam que nunca tinham feito isso, estavam com medo de ser um homem e/ou uma pessoa casada, mas no fim deu tudo certo. Bárbara avisou que estava saindo, Maria nem conseguiu se arrumar, abriu a porta e ela já estava lá. Ficaram com os amigos em casa, tudo foi bem divertido. Conversaram a madrugada toda, só se beijaram na hora de dormir. No dia seguinte estavam pensando que “Ah, foi uma noite legal e só”, mas logo nos próximos dias já se viram, se viram, se viram… E até hoje o maior tempo que ficaram distantes foi no máximo por uma semana. Um mês depois do primeiro encontro o pedido de namoro saiu… e acreditam que justamente pelo tanto que vivem juntas sentem que o tempo de relacionamento parece ser muito maior do que realmente é. Hoje em dia, Maria voltou a dar aulas presencial. Estão vivendo mudanças bem legais, adoram cozinhar juntas, fazer coisas artesanais, escrever poemas, tocar instrumentos, ficar com os gatos… Maria conta que vê a Babi como alguém que entrou na vida dela para melhorar tudo. Sua vida deu um salto de qualidade gigantesco. Babi completa que foi recíproco, ambas melhoraram. Maria ajuda ela nas questões familiares, ensina sobre a independência, sobre correr atrás dos seus sonhos e lidar com os pais corujas. Para Maria, todo amor é uma construção, não é algo que acontece de um dia para o outro. Fala do amor dos pais, o quanto admira-os e o quanto precisou ser reconstruído dia após dia, por exemplo, quando ela se assumiu. Explica que se viu amando quando percebeu que confiava sua vida à Babi, e fica muito feliz que a construção delas tenha acontecido de forma leve, porque são uma para a outra o que sempre foram para os outros e que os outros nunca foram pra elas. Por fim, querem ressaltar que o relacionamento é marcado por “Primeiras vezes” desde que se conheceram, ou seja, sempre possuem primeiras experiências juntas. Como: primeira sessão de fotos, primeira vez viajando juntas, primeira vez que a família conheceu alguma companheira, primeira vez que foram no Festival de Verão de Salvador… e que escolheram ir nos brinquedos para tirarem as fotos porque é um lugar que amam muito, que se sentem felizes e que podem ser quem são de verdade. ↓ rolar para baixo ↓ Bárbara Maria
- Iasmim e Nathália
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Iasmim e da Nathália, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! < A Nathália e a Iasmim começaram a namorar em 2019 com um detalhe: elas já moravam juntas. Dividiam um apartamento com diversas outras pessoas enquanto estavam fazendo a graduação em Direito, no Rio de Janeiro. De lá pra cá, passaram por vários espaços: optaram por morar sozinhas num apartamento bem menor, em Caxias, na Baixada Fluminense, lá enfrentaram a pandemia juntas e depois voltaram ao Rio, com um relacionamento muito mais amadurecido e fortalecido. Na mudança de volta foi que a ficha caiu sobre o quanto cresceram: quando foram pela primeira vez morarem sozinhas enquanto um casal, tinham uma mala de cada e uma televisão; Quando voltaram, precisaram de mais de um caminhão de mudanças. Construíram a casa juntas, os móveis, lembram de quando chegou o fogão, a cama e a máquina de lavar. No momento pensaram: “Como saímos de uma mala e chegamos nisso aqui?!”. Como tudo foi muito batalhado para ser conquistado, é também muito valorizado. Cuidam de cada detalhe, dos móveis, ao amor que dão aos gatos, o cuidado com as plantas, até o quanto ainda desejam crescer juntas. Sentem que o que vivem é um sentimento puro de família, seja no momento de fazerem um churrasco juntas com vários legumes e uma carne só ou no momento de sentar e conversar sobre o que estão sentindo. Nathália é advogada e cantora. Ela estava com 26 anos no momento da documentação, chegou ao Rio de Janeiro para estudar Direito em 2015, mas é natural de Salvador e toda a sua família reside lá até hoje. Antes entendia a música enquanto um hobbie e hoje faz isso de forma mais profissionalizada: possui conteúdos no Spotify (segue ela, gente!) e trabalha nas suas próprias canções. A Iasmim também é advogada. Estava com 28 anos no momento da documentação e é natural de Caxias, na Baixada Fluminense. Na pandemia descobriu vários hobbies, como desenhar, cozinhar e auxiliar a Nath na sua carreira musical. A Nath acredita que a relação que elas constroem é muito baseada nas ações - nos atos de serviço. Ela traz o exemplo de que não consegue conversar com os gatinhos em casa, por exemplo, mas mostra nas ações e dialoga com eles, demonstra o quanto ama e recebe o amor deles. Assim, no relacionamento delas, elas dialogam e se sentem seguras. Além disso, o amor envolve muitos desafios e enquanto vivem isso sentem que surgem novas perspectivas sobre o mundo. Quando a Nath se mudou para o Rio de Janeiro, foi logo encontrar uma amiga que já estava fazendo faculdade de Direito e acabou adentrando no grupo de amigos cariocas dela. Nesse grupo, estava a Iasmim. Um tempo depois, cansada de transitar por vários espaços, decidiu morar em uma república - foi aí que começaram a dividir apartamento. Lá elas viraram amigas, interagiam com todos da casa, viam shows na TV, faziam refeições juntas etc. Elas não eram suuuuuuper amigas e lembram que a Iasmim era uma pessoa mais fechada, mas em um dado momento começaram a se aproximar mais - se aconselhavam, ouviam músicas juntas… As pessoas ao redor notaram essa aproximação, mas elas não viram nada demais acontecendo. Foi em agosto de 2019, num momento em que a Nath estava mais tristinha pois vivia em torno da prova da OAB, que a Ias chegou até ela e a convidou para sair e ficar bem. Elas estavam num momento ruim de grana, acharam que não ia rolar, mas encontraram um evento chamado “Isoporzinho das Sapatão” e decidiram ir - pela primeira vez saíram juntas/só as duas em algum lugar. No evento, se divertiram muito. Conversaram sobre as músicas da Nath, sobre coisas super profundas, antigos relacionamentos… até que alguma chave, em algum momento, virou. Foi ali que elas sentiram que algo poderia acontecer - e se viram de uma forma diferente pela primeira vez. O cigarro acabou, elas tiveram que comprar cigarros avulsos e a Nath ensinou uma forma de conseguir desconto, mas nessa conversa chegou muito próximo da Iasmim para falar. Ela se desconcertou, sentiu algo acontecendo e numas brincadeiras entre cigarros se beijaram. Nos dias seguintes ao evento (e ao beijo) tudo ficou meio caótico. A Nath foi assaltada, então estava sem celular e, para ajudar, a Ias evitava ela dentro de casa. Todos os dias a Ias acordava mais cedo, ficava pronta antes do horário da Nath levantar e só batia na porta dela para acordá-la (já que ela não tinha despertador), mas saía logo em seguida, não dando a chance de uma conversa. Num dia conseguiram conversar um pouco enquanto fumavam um cigarro, mas no momento em que a Nath se aproximou a Ias logo deu a desculpa de que estava tarde e que precisava dormir e saiu do ambiente. Isso deixou a Nath muito frustrada, pensava que a Ias não ia querer mais nada com ela e os amigos falaram: “Foge enquanto é tempo!”. Mas ela decidiu conversar com uma amiga em especial, que confiava, tomando uma cerveja no bar e essa amiga orientou: “Dê tempo ao tempo”. Na mesma semana a Ias mandou para ela a playlist do evento que elas foram e assim elas começaram a conversar pelo Facebook. Uns dias depois, conversando na terapia, a Ias percebeu que isso era apenas um medo momentâneo e que ela merecia se permitir viver aquele momento bom com a Nath - então decidiu falar com ela e chamar para beber uma cerveja. É um sentimento gostoso para elas relembrar que no começo, mesmo se conhecendo e convivendo há anos, elas passaram pelo nervosismo de não saber lidar uma com a outra. Surgiam perguntas como: “Você gosta de pizza?” sendo que a resposta era óbvia porque elas viviam comendo pizza em casa com os outros moradores. Mas, mesmo sendo algo bobo, era uma forma de se redescobrirem aos poucos. Depois de um tempo, a Nath chamou a Ias para conversar e elas decidiram vivenciar de verdade o que tinham enquanto um relacionamento. Foi um pouco depois disso que o contrato do apartamento estava por vencer e elas decidiram seguir morando juntas, mas num espaço novo e só delas. Elas não esperavam que a pandemia de Covid-19 começaria em seguida. Foi um baque, mas seguiram nessa descoberta diária: conviver juntas obrigatoriamente, sem a opção de sair de casa, é também descobrir muito sobre a convivência com a pessoa que se ama. Entendem que viver a pandemia naquela situação de imersão em um relacionamento recente era delicado, mas fizeram de tudo para dar certo. Hoje em dia, trazem o conhecimento que se criou uma com a outra algo muito positivo, mas não descartam as dificuldades nas ansiedades, nos atritos e no ato de aprender a conviver com as diferenças, de conversar e de dialogar sobre os sentimentos. Na pandemia, também passaram pelo desemprego da Ias, a situação financeira apertou e isso também influenciou muito sobre o valor que dão às coisas que conquistaram. Além disso, a Nath fazia um exercício intenso de incentivar a comunicação do casal - e principalmente de incentivar que a Ias falasse mais sobre o que sentia/a procurar o que sentia. Tudo partiu do entendimento de que o que ela sentia também afetava o dia a dia do relacionamento. Foi assim que seguiram juntas e que hoje em dia não se veem de outra forma: estão noivas! Planejaram o casamento aos poucos, com ideias em casa, mas querem vestidos e coisas tradicionais porque acreditam que merecemos isso. Contrataram uma cerimonialista que gostam e, por mais que já tenham passado por uma situação de lesbofobia na hora de procurar um local, encontraram outro e estão super empolgadas! Será lindo ♥ Conquistando também o apoio da família, ficam muito felizes em compartilhar as coisas do casamento e receber conselhos dos familiares que acreditam na potência do amor que elas vivem. A Ias contam que se sente num grande oceano. Ela nada em amor pela Nath - tudo ao redor dela é água; tem coisas que ela gosta ali e tem coisas que pode não gostar, mas não sabe separar o oceano do mar, tudo está junto e ela ama tudo. Acredita, também, que no dia que souber reconhecer o que ela ama e o que ela não ama, de forma específica, vai entender que esse sentimento provavelmente acabou, então ela ama por completo tudo aquilo em que ela se vê nadando: o amor. A Nath completa de que esse amor é de uma forma livre também, no sentido de não sentir medo, de poder ser quem são. E que, amar da forma que amam, não representa que todo dia seja bom. Há dias muito puxados, difíceis e chatos, mas o bom é saber que nada vai acabar por isso: é só um dia ruim. Por fim, amam os atos que envolvem a relação delas: desde o pai da Ias levar caldo quando a Nath está doente, até a forma revolucionária de ver mulheres se amarem através do respeito. Entendem que não vivem regras sociais como as colocadas no mundo heterossexual: se estão casando, por exemplo, é porque querem. E isso as deixa muito confiante de que a relação se baseia somente naquilo que constroem. ↓ rolar para baixo ↓ Nathália Iasmim
- Amanda e Thais
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Amanda e Thais, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Amanda e a Thais se conheceram através do mais famoso e conhecido aplicativo de relacionamentos dessas bandas, o Tinder. Elas já estavam meio “saturadas” de navegar por lá, confessaram, a Thaís nem tinha mais instalado no celular, só entrava na versão web e a Amanda não tinha muita paciência com quem demorava para responder… Elas brincam que nem entendem como deu certo. No começo, a Thais demorou três dias para responder… mas quando respondeu, foi logo com um textão, e aí a conversa engajou. Tudo fluiu e resolveram se encontrar, foram num bar de jazz no centro do Rio de Janeiro, depois num shopping na Barra da Tijuca, até que chegaram, no terceiro encontro, ao local preferido delas (e também escolhido para fazermos as fotos): A Lagoa Rodrigo de Freitas. Escolheram lá porque é uma localização entre as duas moradias, e assim, soa mais justo para ambas. A Amanda nunca tinha ido e adorou. Lá era mais fresquinho (dialogando com o calor carioca), levaram um vinho e se estenderam noite adentro. Como na época - e nos encontros que se sucederam - elas ainda não namoravam, moravam com os familiares e as famílias não sabiam, os encontros acabavam sendo sempre na lagoa. A Thais brinca que conheceu a mãe da Amanda por obra de um destino chuvoso, uma tempestade que deixou as duas presas no trânsito sem conseguir voltar para casa, fazendo com que a mãe precisasse ir buscar, mas que nada daquilo era planejado e ela ficou super nervosa, mas que hoje em dia ambas famílias se dão bem e gostam muito umas das outras. Amanda tem 25 anos, é formada em Letras e faz Mestrado em Literatura, com ênfase nos estudos das obras de Clarice Lispector. Ela também dá aula de redação em um projeto social, o NÓS. Além das suas profissões, adora escrever, ama observar e viver a escrita em si. Ela também adora tocar violão, teclado e gaita. Sua família é muito musical, o maior programa da casa é cantar e tocar nas horas livres. Thaís tem 28 anos, faz faculdade de Medicina na UFRJ e está no período de Internato. Perguntei como ela se viu vivendo a pandemia na faculdade de medicina, afinal, é um desafio e tanto. Ela comenta o quanto era assustador no início, mas que por ainda não ter começado o internato, não estava na linha de frente no momento mais intenso da pandemia de Covid-19. Passou muito tempo em casa, estudando à distância e sem contato com pacientes, então tudo era muito diferente, muito distante da prática. Agora, mesmo com a vacina, mas com a nova onda da variante Ômicron, conseguiu ter uma prática mais ativa, o que também gerou diversas sensações, como o medo de passar para a família e para as pessoas que ama, além do contato mais direto com as dificuldades do cotidiano na área da saúde. Tudo vira aprendizado, algo que por mais que não imaginavam viver no início da graduação, muda muitas perspectivas sobre a prática da medicina e desenvolve também uma forma de lidar diferente com as pessoas na hora do atendimento e de qualquer contato, enquanto ser humano, não só ao se fazer uma consulta. Por mais que elas já namoram há algum tempo (e inclusive comemoram todas as datas, desde o dia do match, até o dia do primeiro date e o dia do namoro em si!), passaram por diversas fases até chegar ao equilíbrio que possuem hoje. A Amanda, por exemplo, sempre foi uma pessoa mais fechada, ou melhor, elas contam o quanto são opostas nisso: a Thais é mais de estar junto, se abrir, dialogar sobre o que sente, conversar na hora… Enquanto a Amanda se isolava, sentia dificuldades em se abrir. E isso, de certa forma, acentuava-se porque as famílias também são muito diferentes - a família da Thaís já deixava ela mais distante, enquanto ela queria mais carinho, e a da Amanda “saturava” nessa presença, sendo que ela queria ficar no seu próprio canto. Foi difícil entender o passo, o ritmo. Hoje em dia, depois de muitos processos, de calma e de se compreender/entender o que falta uma na outra, elas conseguem estar mais próximas e permitir a dinâmica funcionar. A Amanda conta que sempre lidou sozinha com os seus problemas e agora, com a Thais, entendeu que pode ser diferente. Foi difícil ela desaprender a estar sozinha, mas entendeu que é bom também, que é bom ter alguém. A Thaís percebe algumas movimentações nesses ciclos, por exemplo: Na semana anterior à que nos encontramos, a Amanda passou por uma situação difícil e pediu para que a Thais fosse até a casa dela - isso não aconteceria anteriormente, porque ela sempre passava por tudo sozinha, dessa vez pediu ajuda, um passo incrivelmente grande, que elas comemoram juntas. E a Amanda complementa dizendo que foi muito melhor com a companhia da Thais. Ainda que tenha sido uma situação chata/complicada/difícil, foi melhor com a companhia porque fez tudo ser mais fácil de ser ultrapassado. Nesses momentos, elas entendem que experimentar novas potências, ou melhor, aumentar as potências que já existem em nós, é também um ato de amor. Acolher é amar, mas também dar bronca para melhorar é amar. Amar é muito difícil. E falando isso elas lembram de uma amiga que disse “Eu acho incrível porque quando vocês brigam, vocês mudam!”, a transformação do amor é por não ficarem estagnadas, se permitem a mudança, ao incômodo de mudar para melhorar. Dentre a parceria que elas possuem existe muito companheirismo, como uma conexão grande e íntima, a compreensão em forma de cuidado: uma via de mão dupla, amar e ser amada. Amanda apresentou o samba para a Thais e em troca teve o Pink Floyd. Apresentou a cerveja em troca do vinho. Thais completa, dizendo o quanto isso liga as duas e o quanto mudou ela (a música em si). Antes ela era do rock e hoje em dia é super samba - a mãe dela nem acredita. Elas também vivem juntas na cozinha, amam cozinhar, são vegetarianas/veganas, fazem diversas receitas juntas e é o momento delas, de se curtir, ouvindo música e tendo algo muito voltado ao afeto. Falamos o quanto o veganismo traz um olhar de afeto na preparação do que fazemos e a Amanda conta o quanto descobriu o afeto na cozinha por meio dessas receitas só pelo relacionamento que tem com a Thais, antes, nunca tinha se aventurado no ato de cozinhar. No começo do relacionamento a Amanda descobriu ser intolerante à lactose, e por a Thais ser vegana, ela auxiliou muito no processo e na ressignificação dos alimentos. Trouxe queijos veganos, novos sabores a serem descobertos, foi uma cozinha com afeto muito compartilhada. Elas falaram diversas vezes que amor é transformar e o amor está nessas trocas de transformação, também. No jeito que se acrescentaram e se compartilharam na descoberta de mudanças, ressignificações e coisas boas no dia a dia. Thais Amanda
- Alyce e Manu
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Alyce e Manu, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Em um momento prévio da nossa conversa a Alyce contou sobre um domingo em que ela e a Manu saíram de manhã para comprar chocolate e passaram por uma manifestação bolsonarista na praia. Ela ressalta que em nenhum momento elas pegaram na mão, nem se tocaram, mal falaram. E quando está falando sobre amar uma mulher, relembra dessa manifestação, sobre não tocar na Manu e diz uma frase que ecoou na minha cabeça por um bom tempo: “estar com uma mulher, infelizmente, é estar em um lugar que a qualquer momento pode ser tirado de você”. Ainda quando falávamos sobre este episódio da manifestação, falamos também sobre hoje em dia estarmos muito ocupadas tentando nos manter vivas, e que isso é o nosso foco e tem que ser o nosso foco, por mais que soe exagerado. Quando pergunto a elas o que elas mais gostariam de mudar no cenário atual sobre a sociedade em que estamos, elas respondem que dentre esse governo, ainda se sentem invisíveis. Exigem respeito, e para termos respeito precisaríamos investir em políticas de educação, em seguranças para acabar com as milícias (que, na realidade de São Gonçalo, por exemplo, toma cada vez mais espaço) (porém, não só, visto que cresce desenfreadamente por todo o Brasil). Comentam também sobre não se sentirem seguras, sobre sentirem falta de coletivos de mulheres lésbicas que possam acolher, gerar segurança, comunicação, para além dos meios acadêmicos, para as mulheres que ainda estão nas periferias. E que gostariam também de ver mais cultura sendo explorada em São Gonçalo porque só a cultura é capaz de unir e dar conta de salvar as pessoas de muitas coisas que nem conseguimos dimensionar que possam estar acontecendo. A história da Manuela e da Alyce te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quando falamos sobre o amor entre mulheres, a Manu diz sentir o amor enquanto algo desafiador e importante, mas que mais que isso, o amor entre mulheres, é um gesto político e revolucionário. Ela já se viu em muitos momentos refletindo sobre a quantidade de coisas que precisou enfrentar (e que as amigas ou que outras mulheres que já conheceu/que já se relacionou também precisaram enfrentar) para que pudessem viver o amor de forma livre e para que também pudessem aceitar esse amor em seus próprios corpos de forma livre. Estar vivendo um amor de verdade de forma tão saudável, hoje em dia, é algo muito grandioso. Já a Alyce, se refere ao amor enquanto acolhimento. Ela diz que amar é ter um lugar para voltar. É sobre revisitar também, porque você se revisita, revisita o outro, revisita momentos. E amar outra mulher é muito intenso porque essa pessoa sabe penetrar muito fundo no que você é, sabe entender e compreender. “Além de que, às vezes, você fala algo para a pessoa que você se relaciona e em pouco tempo depois ela consegue descrever tão perfeitamente coisas que são tão íntimas, porque ela compreende, se coloca no seu lugar, tem empatia”. Na época em que elas se conheceram, a avó da Manu, que mora no interior, estava pelo Rio, por conta da Manu estar passando por alguns momentos mais delicados devido ao psicológico não estar totalmente saudável e feliz. Então elas acabaram tendo um contato com a avó que criou a Manu e esse laço familiar foi naturalmente nascendo no relacionamento. Como em março de 2020 foi declarado o início da pandemia, elas só tiveram 4 meses de namoro em espaços de convívio social antes da quarentena. Conseguiram aproveitar vendo os amigos, indo para bares, shows, espaços de lazer, porém contam que ainda era um momento bastante inicial. Foi muito desafiador realmente conhecer alguém nesse contexto pandêmico e adaptar convivências com as famílias. A relação virou uma relação do agora, do presente, porque tudo foi acontecendo e elas foram se colocando dia após dia, “ninguém sabia como iria ser, só fomos vendo e vivendo”. Elas contam dos aniversários que passaram juntas e das formas que usaram a criatividade para se inventar, mas também falam sobre a maior dificuldade ser já estar aqui, mais de um ano após tudo ter começado, e ainda não enxergar um fim em saber quando que realmente poderão fazer algo fora de casa, planejar algo realmente na rua. Tentam se apoiar na ideia de agora estarem voltando a trabalhar fora aos poucos e de não estarem mais tão trancadas no apartamento, até pela importância da rotina ter mudado pelo fato de estarem vendo outras pessoas no trabalho/no transporte/na rua e o quanto isso melhora o nosso estado de espírito, e também comentam que o que faz com que elas segurem as barras e as dificuldades que sentem é poder conversarem sobre isso, terem uma comunicação aberta para falarem sobre suas inseguranças e sobre o que sentem perante a própria pandemia e os desafios que nos são colocados diariamente. A história da Manu e da Alyce aconteceu de uma forma aleatória, por conta de uma amiga que elas tinham em comum e que estava na casa da Manu, junto com outras pessoas em uma noite. Todo mundo comendo, bebendo, até que tocou uma música da Ana Carolina e essa amiga falou “gente, tenho uma amiga que é muito parecida, assim, de jeito, com a Ana Carolina…”, e a Manu respondeu “e por que você ainda não me apresentou???”, então a amiga mostrou o Instagram dessa amiga teoricamente parecida com a Ana Carolina, que era, a Alyce, cujo a Manu nem achou tão parecida, mas se interessou da mesma forma, então seguiu. A Alyce não seguiu ela de volta e na época a Manu tentava acompanhar o que ela postava nos stories para tentar puxar algum assunto, mas ela só postava sobre o trabalho, até que um dia postou uma selfie e o flerte estava lançado! Agora, pergunto, vocês acham que ela respondeu? Claro que não. Ou melhor, até respondeu, mas não correspondeu ao flerte. Elas conversaram, a Manu chamou ela para sair e ela topou, mas disse que sairia sem segundas intenções, porque não estava interessada. Combinaram assim, mas a Manu conta que na cabeça dela estava tudo planejado, quando chegasse o momento a intenção iria acontecer, era quase que uma questão de honra… “vai rolar, em algum momento, vai rolar”. A conversa seguiu por mais uns dias e a Manu chamou a Alyce para ir na casa dela beber, mas a Alyce achou meio absurdo, ficou pensando como ela iria lidar com os pais da menina logo no primeiro dia, não pensou na possibilidade dela morar sozinha, disse que preferiria ir em algum local público e o encontro não aconteceu. Mais um tempo passou e finalmente, depois de uma viagem da Manu e com a Alyce já entendendo que ela não teria que lidar com familiares, ela topou encontrar a Manu na volta da viagem e foi almoçar no apartamento assim que ela desembarcou. Elas brincam que foi o primeiro encontro mais aleatório possível. A Manu chegou de viagem do nordeste. A Alyce chegou com um engradado de cerveja e chocolates. Elas se encontraram ao meio dia, ela foi embora às onze horas da noite. E nesse meio tempo, o que aconteceu? elas beberam, em algum momento se sentiram com sono e, sim, dormiram. Abraçadas. Ou seja. Conhecer algum familiar no primeiro encontro? Jamais! Local público! Dormir abraçada no meio do dia com alguém que até então “não tínhamos interesse”? Aceitamos! Hahahaha. Tudo bem, Alyce. A gente te entende. ♥ Foi esse dormir abraçadas que conquistou tudo, depois desse dia, em outubro de 2019, não tinha mais volta, ficaram juntas. A Alyce e a Manuela são duas pessoas muito calmas e encantadoras. Visitei o apartamento da Manu em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, local em que passaram a morar juntas, mas a Alyce é natural de São Gonçalo, cidade vizinha. Foi um fim de tarde muito acolhedor, elas se apresentaram, eu falei sobre o projeto, caminhamos juntas na praia e conheci o lar. A Alyce tem 22 anos, é técnica em química, trabalha na FioCruz fazendo o controle de qualidade das vacinas da Covid-19. Seu trabalho envolve o laboratório biofármaco - e além das vacinas da covid, também fazem controle de outras vacinas como a da poliomielite, sarampo, febre amarela, etc. Além disso, como hobbie, em casa, ela ama cozinhar, é algo que realmente a distrai. Gosta de testar novas receitas e explorar novas coisas. Antes da pandemia trabalhava com pesquisas em meio ambiente e comenta sobre a responsabilidade e a importância que é trabalhar com uma causa tão nobre em tempos tão difíceis como os que vivemos atualmente. A Manu tem 23 anos, faz faculdade de estudos de mídias e atualmente está estagiando enquanto jornalista em uma escola. Lá ela faz cobertura de eventos, já trabalhou também em agências de publicidade e, pasmem, já publicou um livro. Alô, literatura LGBT, ela manda MUITO bem. O livro se chama ‘Diário de Guernica e Cartas de Amor’ e é só clicar aqui para comprar ♥ (apoia o trabalho dela!). Tanto a Manu, quanto a Alyce, desde o começo da conversa, ainda na praia, falaram coisas muito interessantes sobre a pandemia e sobre o tempo em que estão juntas, por passarem muito em casa e por estarem sempre se reinventando e se ajudando. Passar tanto tempo juntas em um apartamento fez com que elas se redescobrissem de muitas formas, mas fez com que, mais que tudo, elas sempre estivessem tentando se puxar para cima, se fortalecer e servir de apoio, de abraço, uma para a outra. . Manuela Alyce
- Angélica e Jaque | Documentadas
Angélica, no momento da documentação, estava com 34 anos. Ela é natural de São Miguel do Iguaçu, uma cidade no interior do Paraná, mas mora em Criciúma - Santa Catarina há bastante tempo. É apaixonada pela escrita, gosta de escrever poemas, ler e passar tempo com os seus bichinhos em casa. É formada em letras e trabalha na UNESC, universidade pertencente à cidade de Criciúma, no setor de educação e design instrucional. Sua função é receber o material didático que será passado ao aluno na modalidade de educação à distância e preparar este material para que ele fique mais didático, com elementos, esquemas, imagens, deixando-o mais interessante pensando no autoestudo do aluno, visto que ele estará estudando em casa sozinho. Além disso, Angélica também trabalha com a Jaque, sua companheira, enquanto produtora dos eventos que ela canta e toca. Ela monta o equipamento, cuida do som, faz alguns registros para redes sociais e faz os contatos para fecharem os próximos shows. Quer muito fazer da sua produtora um trabalho fixo, e inclusive, quando nos encontramos para a documentação ser feita, iria acontecer nos dias seguintes o primeiro evento oficial criado por elas. Jaqueline, no momento da documentação, estava com 25 anos. É natural de Sangão, interior catarinense, mas atualmente mora em Criciúma com Angélica. Estuda psicologia e trabalha como estagiária no setor de arte e cultura da UNESC, universidade já citada acima. Aos finais de semana se dedica aos eventos em que trabalha fazendo shows em estilo voz e violão ou com a sua banda. Adora cantar e observar as pessoas enquanto canta, além disso, sempre que pode está assistindo algum show e pegando referências para o seu próprio trabalho. Angélica levava uma vida bastante agitada quando conheceu Jaque. Conta que só queria saber de sair, beber, beijar na boca… Inclusive, estava procurando mulheres para beijar quando encontrou no Twitter um link que levava à um grupo e Whatsapp chamado “SAC Sapatão”. Lá havia gente do Brasil todo e logo perguntou: “Tem algum DDD 48 aqui?”. Alguns dias depois a Jaque respondeu ela no privado, falou: “E aí, Criciumense?!” porque já tinha visto o papo se desenrolar lá no grupo. Passaram duas semanas conversando sem parar, até que resolveram marcar um encontro para se conhecer em que Angélica buscaria a Jaque em sua cidade, próxima à Criciúma, elas beberiam em Criciúma e depois ela a levaria de volta. A questão foi: elas só beberam. E Jaque, pobrezinha, estava cheia de fome, pingava de bar em bar com a Angélica contando mil histórias e bebendo… e só via as comidinhas passando para as outras mesas. Jaque era muito tímida, não disse nada, mas também não comeu. Chegou em casa com fome, achou o date ruim. Deram um beijo na despedida e isso foi o bastante para Angélica, que não tinha noção da fome da Jaque, pensar: “Yes! Arrasei!”. Jaque resolveu dar mais uma chance, se encontraram novamente e dessa vez teve até uma bolachinha dentro do carro, caso a fome batesse. Foram até a cidade de Tubarão, próximo onde Jaque morava, para viverem uma festa. Na época, já se sentiam bastante envolvidas. Angélica via a Jaque cantando nos vídeos e sentia a paixão chegando, mas os amigos não colocavam fé, para eles era só mais uma paixão passageira. A partir do segundo encontro em que foram na festa e que depois da festa dormiram juntas, sentem que algo começou a se firmar. Se encontravam com frequência, Jaque na época cursava uma faculdade em Criciúma e isso fazia com que estivessem sempre juntas… Mas Angélica seguia com o seu jeito agitado, querendo sair e curtir a vida, até que foi preciso entender que não dava para continuar com tanta intensidade assim, foi “sossegando” aos poucos. Do momento em que se conheceram até o começo do namoro foi bem rápido, entre janeiro e fevereiro de 2019. Logo no começo, também, já se apresentaram para as famílias, compraram alianças de namoro e foram seguindo a relação, até que depois de alguns meses entenderam que namorar morando em cidades diferentes estava ficando muito difícil. Jaque se mudou para Criciúma e foi morar com Angélica, se estabilizou num emprego e a vida recomeçou… Até começar a pandemia de Covid-19, onde trabalhavam de casa e passavam o dia inteiro juntas. No meio de tudo o que viviam, para garantir direitos e também celebrar o amor que resistia em tempos pandemicos, casaram-se no papel. Queriam fazer uma grande festa, mas não foi possível. Contam, rindo, que saíram do trabalho num dia chuvoso, foram até o cartório assinar um papel e assim que saíram de lá comeram uma coxinha e beberam uma coca-cola, foi a forma de comemorar. Quando nos encontramos para a documentação haviam recém trocado as alianças de namoro para de casadas, mesmo depois de alguns anos, porque queriam ter condições financeiras para comprar alianças legais. Estavam felizes com isso e fizeram questão de registrar nas fotos. Por mais que já passaram por muitas coisas boas juntas, existem também as difíceis, como a própria pandemia. Angélica perdeu a avó, uma das pessoas mais importantes da sua vida, e por conta do trauma desenvolveu alguns medos e fobias. A relação passou a significar apoio para além do romântico, Jaque se tornou um suporte imenso, um cuidado e ajudou no entendimento desses medos, de viver esse processo. Juntas, elas se apoiam em tudo. É nesses momentos que enxergam o amor de forma clara, refletido no cuidado, companheirismo, ajuda diária a enfrentar a vida. Angélica conta que acorda mais tarde, então Jaque tem todo o cuidado de preparar o café, pensar na rotina uma da outra, deixar os lanches prontos… E isso fala muito sobre apoio. O amor não precisa estar sempre no afeto físico. Ele está, também, na forma que elas sonham em viver da música e fazem o sonho virar realidade, investem em equipamento, em editais de cultura, vão atrás de shows para fazer… em toda a vez que dão as mãos e acreditam uma na outra. Falamos sobre trabalharem juntas, morarem juntas, viverem uma rotina muito intensa. Até para a própria documentação acontecer, batalhamos por um horário. E foi aí que citaram a maior dificuldade que passam atualmente: o cansaço que a rotina demanda. Existem alguns meios que recorrem para que isso não pese tanto, como a terapia, as longas conversas - nunca se veem brigando ou discutindo, mas conversando. Confiam muito uma na outra e isso é o que as movimenta, que mantém tudo em segurança. Se a rotina já é pesada, não querem que a relação também vire um peso. Angélica tem muito cuidado com a limpeza e cita que às vezes sente necessidade de limpar, ainda mais com os bichos em casa, não quer deixar o ambiente sujo para a convivência deles. Mesmo chegando exausta, arrasta os móveis, começa a limpeza… E a Jaque “pega junto”, em suas palavras, para limpar. Não era o que gostariam, prefeririam o descanso, mas reconhecem como a ajuda faz a diferença. Isso também fala sobre o amor, sobre poder contar, sobre não deixar de lado. ↓ rolar para baixo ↓ Angélica Jaque
- Paula e Luiza
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Paula e Luiza, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Ao falarmos sobre a Paula ser a primeira mulher por quem a Luiza se apaixonou e sobre as diferenças dos relacionamentos heteroafetivos, ela comenta que não gosta de dizer que todo homem é um cara escroto ou coisas do tipo. Entende que o machismo existe e que os homens reproduzem a sociedade machista. Mas entende, também, que o relacionamento entre mulheres envolve muito mais diálogo e que as mulheres se permitem viver mais. Além disso, as mulheres entendem umas as dores das outras, desde maiores ou menores, como insegurança estética e medo ao caminhar sozinha na rua. Entendemos que o homem está sempre numa posição superior, sempre tratado com mais poder, então talvez por isso não temos muito espaço para conseguirmos nos lidar de igual para igual, diferente das mulheres quando se relacionam entre si. Além disso, o fato dela ser mais feminina que a Paula faz com que a tratem diferente o tempo todo. É como se a Paula fosse tratada como homem por ter um estilo um pouco menos feminino... e a Luiza não pudesse ouvir certos assuntos ou fazer certas coisas. No fim, rimos chegando na conclusão de que se for pensar em coisas femininas no sentido machista, tipo chorar e ser mais sentimental, com certeza a Paula é muito mais, já que a Luiza acaba lidando com tudo de forma mais séria e forte. Por fim, Paula diz que gostaria que a palavra da mulher tivesse mais validação, que não precisássemos ficar o tempo todo provando que temos conhecimento sobre algo, mas sim que as pessoas nos ouvissem, sem invalidações. Luiza e Paula estão com 28 anos, sendo 10 de relacionamento. Se conheceram num encontro de jovens da igreja - Luiza, na época, nunca tinha se interessado por nenhuma menina, enquanto Paula já namorava. Depois de um bom tempo, começaram a se falar pelo Orkut. Paula chegou até a tentar apresentar um amigo para a Luiza, demorou a entender que o que ela queria era um flerte. Paula ainda estava no ensino médio, Luiza no cursinho, começaram a se encontrar e aos poucos entenderam que estavam apaixonadas. Aos 5 anos de relacionamento resolveram morar juntas na casa dos pais da Paula. Eles são bem tranquilos e passaram alguns anos morando juntos, quando elas conseguiram se mudar para o novo apartamento. Hoje em dia, Luiza é nutricionista, mas já trabalhou com várias coisas (como body piercing e reiki), enquanto Paula é publicitária, fazendo também freelas como fotógrafa de vez em quando. Os animais são sempre muito presentes na vida delas, desde cachorros, gatos e até passarinhos. A Amora (cachorra) foi adotada durante uma feira de adoção, enquanto os gatos foram achados na rua em momentos diferentes. Criaram vários bichos juntos na casa em que moravam com os pais da Paula, mas trouxeram apenas a Amorinha e dois gatos: o SeuBonzinho e o Bazinga. Além disso, há os presentes trazidos pelos passarinhos. Quando moravam na casa, muitos passarinhos traziam plantinhas. E assim começaram a crescer diversas plantas que elas cultivavam sem saber qual eram. Hoje em dia, dentro do apartamento, há plantas por todos os lados e muitas foram trazidas pelos pássaros e cultivadas por elas. Mudar para o novo apartamento significa muita coisa. Uma independência que sonharam por anos, um cuidado com o lar, poderem fazer suas próprias escolhas. Elas se divertem tirando um dia da semana para poder comer uma coisa gostosa que querem muito, ou quando o dia não está bom,se permitem assistir uma série ruim comendo algo para ao menos estarem juntas. Estão tendo muito cuidado ao arrumar e mobiliar o espaço colocando a carinha delas em tudo. Além disso, estão amando sair diariamente com a Amora para passear na rua. Sentem que os primeiros anos de relacionamento foram os mais difíceis, por problemas na família e por problemas envolvendo ciúme. Depois, com o tempo, começaram a fazer terapia e tudo foi sendo trabalhado porque entenderam a raiz dos problemas. Passaram (e ainda passam!) por muitas mudanças na vida, mas sempre lado a lado, gerando um apoio mútuo. Comentam que o amor é um laço muito forte e só se arrebenta se acontecer algo muito ruim. É nas pequenas coisas que ele se desenvolve, nos detalhes cotidianos. O amor, para elas, significa desde chegar em casa e perceber que uma está mais cansada, então a outra vai limpar a caixa de areia dos gatos ou arrumar a cozinha, até dar presentes sem grandes motivos, fazer a comida favorita de surpresa, cuidar do lar, agradecer por estarem juntas todos os dias. É sempre fazer uma escolha. Paula Luiza
- Mariana e Thalassa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mari e da Thalassa, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Entenderam que para o relacionamento acontecer de verdade precisavam ter uma comunicação muito ativa e transparente. Mesmo em dias ruins, tentam conversar antes de dormir e dormem abraçadas. Thalassa diz o quanto se sente completa: na casa, com os cachorros, as plantas, tendo o carro, tudo. Entende que é uma mulher adulta que conquistou o que sonhava. Ela fala também sobre o quanto aprendeu a admirar a Mari, a persistência dela e a forma que lida com as coisas. Para a Mari, amar é ter cuidado, ter respeito. Tenta sempre entender o ponto de vista da Thay sobre as coisas do mundo. Amar é um exercício diário. Por fim, falamos sobre o amor ser um mosaico - tem a risada, o tempo, o respeito, a compreensão, a lealdade… não tem como falar dele sem todas as coisas que completam. Cada parte é importante para construir o todo. A história da Thay e da Mari te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Thalassa tem 32 anos, é professora de biologia e ciências para alunos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Está atualmente no chamado “ensino híbrido”, do qual a carga de trabalho é muito maior que em tempos comuns (que já é grande!). Ela trabalha em Niterói e mora próximo ao Recreio, é uma distância longa, costuma demorar 2h para chegar (mas já chegou a demorar 5h, em dias de trânsito). Fala sobre como é ser professora no Brasil e como os desafios triplicaram na pandemia. Mariana tem 27 anos, é bancária, trabalha com abertura de empréstimos. Está cursando psicologia e fala sobre a vontade de ouvir e poder auxiliar pessoas. Trabalhar com o público não é fácil, ainda mais em grande escala. Existem muitos desafios e com a modernização dos aparelhos bancários e precisamos sempre exercitar o cuidado com todos os tipos de público, entendendo suas especificidades. Mari cuida muito de si, quer viver com tranquilidade. A maior dificuldade que elas passaram foi quando decidiram morar juntas, em janeiro de 2015. O dinheiro era muito curto e precisavam mobiliar a casa, Thalassa chegou a pegar diversos freelas - sendo Uber, professora em outros lugares... foi um momento bastante turbulento. Se conheceram de uma forma um tanto quanto aleatória. A Thay ainda mantinha uma amizade com a ex namorada e a Mari ficava com essa menina (tá ouvindo esse barulho???? é o som do rebuceteio!). Na época, a Thay já namorava outra pessoa e conhecia a Mari porque já estiveram entre amigos algumas vezes. A menina (amiga/ex de Thay e amiga/atual da Mari) estava de aniversário e elas foram numa festa comemorar (a Thay e a namorada + a Mari e a aniversariante), mas ambas se meteram em confusão, a Thay já não andava bem no relacionamento, brigaram na festa e ela optou pelo término. Enquanto a Mari acabou ficando no canto e um pouco chateada por outros acontecimentos simultâneos. Ambas se viram sozinhas e o que restava era aproveitar a festa juntas. Alguns outros amigos chegaram para aproveitar a noite com elas e numa brincadeira, inventaram de todo mundo se beijar. Até então tudo bem, afinal, estavam só se divertindo. Mas quando a Mari e a Thay se beijaram, logo se sentiram totalmente diferentes, algo único. Não entenderam muito bem o que era esse sentimento/essa sensação, mas passaram a noite juntas aproveitando a festa. Nos dias seguintes elas continuaram se encontrando. Por um momento foi até meio escondido, com medo das pessoas saberem, mas depois entenderam que não tinha outra saída, ficariam juntas. Hoje, 7 anos depois, o sentimento é o mesmo. Quando fui encontrar a Mari e a Thay, não imaginava que iria gostar tanto (delas e do lugar). Marcamos num horto, no Rio de Janeiro. Com espaço para café (e cervejas), foi lá que nos sentamos para conversar. Elas tinham escolhido este lugar porque amam plantas, cuidam de vários tipos e espécies e falam sobre a importância de respeitar o tempo da terra e da natureza. O amor que passam para as plantinhas é de um jeito muito especial, gostam de usar os temperos na hora de fazer comida, esperam ansiosamente as frutas crescerem… acreditam que mexer na terra e acompanhar esse processo faz com que a gente aprenda a ter mais respeito pelo mundo. Depois que elas descobriram o horto, na primeira vez que vieram (ainda moravam longe), se apaixonaram. Agora, por morarem muito próximo dele, criaram uma memória afetiva forte e tentam frequentar o máximo que podem. Tanto a Mari, quanto a Thay são pessoas muito tranquilas. Moram com seus bichos, têm suas rotinas de trabalho… e também são mulheres muito divertidas. Elas acreditam que o encontro que tiveram nessa vida foi um fenômeno da natureza - a partir do primeiro beijo tiveram certeza que ficariam juntas. < Mariana Thalassa
- Juliana e Marci
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Juliana e da Marci, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi após uma noite de natal, quando já estavam há alguns anos num misto entre amizade e flerte que, finalmente, a Juliana e a Marcyllene se beijaram e começaram a se envolver afetivamente. Elas se conheciam desde 2016, moravam em regiões próximas e tinham amigos em comum, o que facilitava com que frequentassem os mesmos lugares. E também já tinham se beijado em outros momentos, mas de alguma forma, não tinham sentido encaixar. Eram momentos diferentes, estavam com outras pessoas em mente e não sentiam ser o mais justo insistir em algo que não iria para frente. Entenderem que aquele não era o momento não impediu que elas seguissem com a amizade, o que gerou uma confiança e um respeito entre elas que foi alimentado e cuidado com o tempo. Assim, elas se encontravam, até participaram da fundação de uma Organização Comunitária no bairro, passavam todos os dias cuidando quando chegavam em casa tarde (por ser perigoso e por trabalharem em locais distantes) e seguiram por alguns anos a amizade, até a noite de Natal de 2019, que a Marci tinha recém voltado de uns meses que passou em Fortaleza e, depois da ceia, foi para a casa da Ju, se reunir com todos e celebrar. A Juliana tem 22 anos, faz graduação em hotelaria e trabalha como estagiária em um hotel no Rio de Janeiro. A Marci tem 25 anos, é técnica em saúde bucal e também cursa Ciências Ambientais, além disso faz alguns trabalhos como designer gráfico e transcrição de áudios. A Ju e a Marci são de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, de um bairro chamado Jardim Catarina, o mais populoso da cidade. O que mais gostam de fazer juntas é cozinhar, estar em casa tomando uma cerveja, conversando e também estudam bastante, trocando muito sobre coisas que aprendem. Elas entendem que quando estão com problemas respeitam muito os espaços, mas que se for preciso, resolvem juntas - o apoio é sempre muito presente. Logo no começo do relacionamento elas passaram por perdas familiares e estiveram juntas uma com a outra, oferecendo base e afeto. Contam que isso foi algo que sempre destacou, desde o início, porque sentem que podem confiar uma na outra de verdade. Na noite de Natal, quando a Marci acabou dormindo na casa da Ju, foi que finalmente o beijo aconteceu. Depois disso, já no começo de 2020, começaram a sair juntas enquanto um casal (não mais sendo apenas amigas) e a fazerem programas de casais, como ir ao cinema, cozinharem juntas… Mas neste momento, não estava claro para elas algum rótulo ou o que elas seriam, inclusive ainda saiam com outras pessoas e frequentavam outros lugares. Então, com o começo da pandemia e por morarem tão próximas (a Marci que sempre se locomovia muito de bicicleta e frequentava a casa da Ju) foi se tornando algo bastante natural ir até lá e ficarem juntas nesse período. A Ju entrou na faculdade, elas estudavam um tempo juntas em casa, se divertiam bastante, faziam diversos programas, mas sentiam que os passos delas enquanto um casal ainda eram muito lentos. Elas contam que não é por estarem juntas que necessariamente se envolviam, às vezes passavam semanas e não acontecia nada, rolava uma trava muito grande da Ju em relação ao que estava acontecendo e foi nesse momento que elas resolveram conversar e estabelecer melhor o que teriam. Nunca aconteceu um pedido oficial sobre o namoro, mas elas brincam que a verdadeira iniciativa veio da mãe da Ju porque elas cozinharam juntas no dia dos namorados e quando a mãe dela chegou em casa, disse: “Cadê a sua namorada???”. Foi aí que tudo começou. Até cantarolou depois “Juliana e Marcyllene estão namorandooo!”. Faz parte também entender que esse processo foi lento pela insegurança, pelo medo do preconceito familiar e pelo próprio envolvimento que já tiveram com outras pessoas e que saíram machucadas. Não é um processo fácil estarem abertas novamente para relacionar-se e, durante a conversa, fomos entendendo que talvez se elas ficassem juntas enquanto um casal, lá no começo, não teria dado certo… não teriam maturidade suficiente para entender seus momentos, seus espaços e seus tempos de processá-los. Para Marci o amor é um afeto mais cuidadoso. É sobre entender quem é o outro e que ele merece ser respeitado. Respeitado em diversos sentidos, desde sua orientação, até suas escolhas (profissionais, pessoais…). Quando você respeita o que a pessoa é, aprecia aquilo que ela oferece para o mundo e para todos ao redor. E na relação entre mulheres, ela sente que o respeito está presente na grande maioria dos momentos, pela conversa ser ativa, com escuta e atenção. Sente também que é possível existir mais colo, mais cuidado. A Ju explica que para ela o amor está literalmente nos mínimos detalhes: num sorriso ou abraço, numa palavra, no apoio. Acolher a pessoa por quem ela é, enxergando quem ela é. Ela acredita que nas relações entre mulheres o amor pode se demonstrar um pouco diferente porque as mulheres conhecem seus corpos, suas vivências e sabem se entender. Falamos também sobre a vivência que elas gostariam ter na cidade de São Gonçalo e no bairro em que elas moram, por ter um contato direto com cursinhos pré-vestibulares, organizações comunitárias etc. É impossível desviar a conversa da questão de segurança pública. O medo, ao sair de casa para trabalhar, é sempre presente. Não à toa falamos no começo sobre quando elas ficavam até tarde conversando quando ainda eram amigas para saber se chegariam em casa seguras, viver num local muito perigoso é nunca saber como será chegar em casa. A Marci disse que vê o quanto isso pode mudar quando as ações dos cursinhos, cine debates e investimentos na cultura são feitos por lá, já que são os grandes transformadores das pessoas e da sociedade - abrem um leque de possibilidades para novos futuros. Falamos também sobre como é importante pensarmos sobre o presente que temos e registrá-lo, registrar também as pessoas que vivem essa realidade e que não querem simplesmente sair dela e fingir que ela não aconteceu. A Ju e a Marci são mulheres que amam o bairro, que querem mudar, investir nele. Sentem ódio pelo o que ele se torna atualmente, mas além do ódio, querem ficar para mudar. É uma sensação de pertencimento, de raiz, muito forte - e de acreditar mesmo. De promover mudanças.
- Lara e Ana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Lara e da Ana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Lara comenta que o amor entre mulheres pode envolver maior cuidado pelo reconhecimento que uma mulher possui pela luta da outra, mas também comenta a não-generalização justamente tanto por ela quanto pela Ana já terem passado por relações com pessoas que acabaram sendo bastante tóxicas. Além do amor em si, comenta sobre a necessidade de olharmos para nós e para o que somos, as pressões que nossos corpos passam, nossa estética, nos olharmos com cuidado, entendermos nossas inseguranças, nossos medos… não desacreditarmos no amor de forma geral. Elas entendem que o preconceito existe pela falta de conhecimento e pelas pessoas tirarem conclusões precipitadas, julgarem por algo que não tentam conhecer. Falam que o amor lésbico deveria ser olhado com mais afeto e menos hipersexualização, menos olhar de indústria pornográfica, porque no fim as pessoas precisam apenas saber querer conhecer, ter essa proatividade de reconhecer que precisam buscar mais, mudar as coisas, quebrar preconceitos… e que a partir do momento que elas perceberem que é tão simples, que tá tudo bem, que isso tudo é “só” amor, as coisas vão ser muito mais fáceis para todo mundo. Mas que para isso acontecer temos um longo caminho ainda. Não à toa, elas tentam estar sempre abertas à dialogar e mudar cenários, independente de tudo. Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Hoje em dia, a Lara trabalha em uma loja de roupas, é modelo plus size e estudante pré-vestibular. Sonha em fazer relações públicas para se especializar em marketing digital. Sua ligação com a mãe é absurdamente forte, assim como a fé e a religião. Frequenta a umbanda/candomblé e ama cultivar os momentos em que está no centro de religião. Além disso, também é uma grande fazedora-de-poemas. A Ana trabalha em uma farmácia de manipulação e também possui uma ligação muito forte com a religião. Foi algo que ela sempre se encontrou e que o relacionamento potencializou de um jeito transformador para ambas. Ela comenta que se viu muito tempo distante do que mais gostava, se sentia perdida, longe dos amigos e não se sentia bem nos outros relacionamentos e por muito tempo falar com a Lara, mesmo que rapidamente pelas redes sociais, acabava trazendo de volta o que ela sentia falta e não sabia nomear. Hoje em dia disse que se encontrou de novo e que sente uma paz muito grande, algo muito saudável. “Meu lar se ancorou nos olhos dela”. A história da Ana e da Lara te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! A Lara conta que nessa época começou a entender que quando beijasse a Ana, iria se apaixonar. Elas sempre tiveram muita sintonia, a amizade ia além, o afeto conectava, se encaixava… e elas se pareciam muito também. Então surgia até um certo receio do momento em que isso fosse acontecer, por mais que ambas sentissem vontade. Com a chegada de 2020 e o início da pandemia, elas tiveram um afastamento automático na amizade, que só voltou após o término do relacionamento da Ana e de ela passar por momentos bem difíceis, já próximos ao fim do ano. A Lara ofereceu muito suporte nessa época, elas voltaram a se aproximar e foi aí que decidiram finalmente dar uma chance a essa história de amor acontecer (no começo, em forma de amizade colorida, pra ver se daria certo!!!! e hoje em dia estão de aliança e tudo!). Perguntei para a Ana se não foi difícil assumir um relacionamento logo depois de ter passado por algo assim, justamente por ela ter proposto a amizade colorida, e ela comentou que sim, que não pensava em se envolver dessa forma, mas como gostava da Lara há tantos anos e desde tão nova, sentiu esse momento como finalmente uma oportunidade de estarem juntas, não havia formas de deixar isso passar. No dia primeiro de janeiro de 2021 elas estavam conversando e a Ana mandou uma música para a Lara (Mirrors, do Justin Timberlake), dizendo que era uma música que sempre ouvia e a fazia pensar nela. Essa música secretamente é a música favorita da vida da Lara e ela nunca tinha compartilhado isso com ninguém, o que a fez ficar muito emocionada, porque sempre quis que alguém a visse como a música descreve. Foi a partir da música que elas ficaram juntas e que o pedido de namoro também aconteceu, meses depois, cheio de jantar, vinhos, painel de led, comidas gostosas e preparativos. ♥ O romance das duas, teoricamente, começou ainda láááá no ensino fundamental, mas só de um lado. Elas estavam em um grupo de amigos e a Lara chegou para a Ana e disse “ei, escuta uma música chamada Segredos, da Manu Gavassi”, até aí ok, Ana foi pra casa e quando decidiu ouvir viu que a música era super romântica e pensou que pudesse ser algum tipo de indireta para ela, sendo que na verdade não envolvia nenhuma maldade, era realmente só uma indicação, mas a menina se deixou levar, criou um sentimento, desenvolveu um interesse e ficou com isso guardado no peito. O tempo se passou, elas não eram tão próximas e quando chegaram no ensino médio foi criado um grupo e a amizade foi se desenvolvendo, enquanto simultaneamente estavam se descobrindo nas suas vidas também. Hoje em dia, a Ana conta que naquela época percebia que o corpo automaticamente, como se fossem instintos, respondia às ações da Lara - cada vez que ouvia a voz, ou que ela saía para ir ao banheiro… coisas do tipo - o coração disparava, as borboletas batiam no estômago… e assim, a relação ficava mais próxima. Porém, aconteceram uma série de situações que fez com que esse grupo acabasse se envolvendo em discussões e todo mundo optou pelo afastamento, então as duas acabaram se afastando nisso também e interromperam a amizade. Ambas se envolveram com pessoas e acabaram criando relações bastante tóxicas, a Ana enquanto um namoro, e a Lara por mais que não chegasse a namorar de fato, acabava tendo envolvimentos, idas e vindas e não se sentia bem no que vivia. Foi quando ela resolveu retomar um contato com a Ana, saber como ela estava e as duas voltaram a conversar frequentemente. Foi nesse momento em que a Ana passou a olhar a Lara com novos olhares, a relação que antes mostrava o interesse surgindo só dela agora parecia ser diferente, sempre tinha uma implicância de brincadeira, uma bobagem à toa para ver a Lara sorrindo, uma palhaçada… e naquele momento parecia ser diferente, com o passar dos anos e já no fim do ensino médio, elas também estavam diferentes. Foi quando ela tentou um primeiro flerte e foi correspondido, mas elas nunca chegaram a se beijar, terminaram o ensino médio, a Ana começou a namorar outra pessoa, se envolveu em outro relacionamento do qual não se sentia tendo algo saudável e toda vez que parava para analisar e pensar sobre a situação em que estava, se via caminhando em círculos. A história da Lara e da Ana faz acontecer uma boa mistura na nossa cabeça porque envolve muita coisa, mesmo elas sendo tão tão tão novinhas, já se conhecem há 7 anos! Elas se conheceram no colégio, ainda no ensino fundamental. Sim, geração 2000! (se você não está se sentindo velha, é porque você provavelmente também faz parte dessa geração). A Lara tem 19 anos, a Ana tem 20 e por mais que no colégio fossem amigas, lá, no auge dos 14 aninhos, elas não eram tããão próximas assim. A Ana conta que já era capaz de se sentir mexida com algumas coisas que a Lara fazia, mas não sabia que nome dar para isso, porque tudo é muito novo quando se está na adolescência. Ela foi se entender e se descobrir mesmo aos 16, quando beijou uma mulher pela primeira vez. Começamos a conversa falando sobre isso, esse momento que envolve o descobrimento da sexualidade, do corpo, dos sentimentos… e sobre como a tendência é nos levarmos à uma heteronormatividade compulsória. A Ana comenta que passou por muitos problemas enquanto bullying, problemas com o próprio corpo, chegou a namorar um menino e só em 2017/2018 que começou a entender o que era de fato se relacionar com mulheres, foi um processo muito delicado conhecer e se identificar com o movimento LGBT. Já a Lara, conta que o processo da bissexualidade foi também caminhando e se desenvolvendo um tempo depois, no ensino médio. Hoje em dia, a Ana é a sua primeira namorada e isso implica em desafios diários - ela está começando a contar para as pessoas, começando um processo de realmente assumir quem é, como se sente. E por mais que ambas famílias apoiam e reconheçam este relacionamento, ela entende que não é a maioria da realidade no Brasil e que não é a realidade das ruas também, que pode enfrentar preconceitos e outras barreiras por conta da sua orientação. < Lara Ana
- Nayara e Jamyle
Nayara brinca que ela é um gato preto, enquanto Jamyle é um golden retriever, mas que mesmo assim elas se entendem, se amam e se respeitam nos seus limites, adorando a companhia uma da outra. Cada uma tem seu tempo: Nay ama ficar com os gatos, jogando seus jogos, enquanto Jamy às vezes prefere sair, fazer outras coisas… e que está tudo bem assim. Cada uma possui a sua liberdade de estar onde quer e quando quer. Tanto Nay, quanto Jamyle, estavam com 30 anos no momento da documentação. Jamyle é professora de inglês, natural de Porto Alegre (RS) e adora jogar board games, principalmente Magic. Ensinou Nayara o hobbie e agora elas jogam bastante juntas. Nay, por sua vez, nasceu em Campo Grande (MS) e mora em Porto Alegre desde 2011. É formada em direito, com mestrado em ciências sociais e seu hobbie, além dos jogos, é a leitura. Moram juntas num apartamento próximo ao Jardim Botânico de Porto Alegre, lugar que adoram frequentar. Contam que logo quando foram morar juntas viveram o ano mais difícil da relação, pois a Nay perdeu o emprego e ficou muito desestabilizada. Não conseguia outros trabalhos, nem estudar e muito menos passar em concursos, o que só aumentava a desmotivação. Jamyle acabou segurando as pontas em casa, mas não foi fácil lidar com a situação e principalmente com a culpa que Nay sentia. Quase um ano depois, tudo se reestruturou. Ficam muito felizes em terem superado isso, sobrevivido e se apoiado. A partir disso, se veem diferentes em relação aos sonhos e ao dia a dia em si, são muito transparentes: se algo acontece de ruim, seja na rua, no trabalho ou se ouvem algo preconceituoso, logo compartilham uma com a outra para se apoiar e enfrentar a situação. Reforçam juntas o quanto são maiores que qualquer atitude de preconceito que venha de fora. Em 2016, Nay estava aproveitando a vida de solteira e o verão, até que começaram as aulas na faculdade de Direito e uma colega numa conversa despretensiosa perguntou como estava a vida amorosa dela. Respondeu que estava bem, tranquila, na época vivia uma amizade colorida e era só. No mesmo dia, mais tarde, a amiga mandou uma mensagem no Facebook. Jamyle, naquela mesma época, estava vivendo a vida de solteira após um relacionamento à distância que não tinha dado certo. Sempre procurava pessoas pela internet porque não se sentia tão à vontade pessoalmente; Entrou num grupo lésbicas no Facebook e encontrou pessoas de Porto Alegre. Entre elas, umas meninas que estudavam na PUC-RS e a convidaram para ir até lá passar o dia com elas. Quando chegou, uma delas - a amiga em comum com a Nay - disse que tinha uma colega do Direito que usava umas camisetas iguais às dela: “Toda geek” (sim, a Nay) e queria apresentar as duas. No mesmo dia teve a conversa com a Nay e mandou a mensagem no Facebook, passando o contato da Jamyle. Elas começaram a conversar, marcaram de se encontrar no dia seguinte na Casa de Cultura Mario Quintana, ponto bem conhecido da cidade. Lá conversaram muito, contaram várias coisas da vida e demoraram para se beijar. Até que num desafio, o beijo aconteceu. Contam que foi um momento único, se encaixaram e foi um dia muito significativo. Continuaram se encontrando, mas Nay estava bem receosa sobre ficarem juntas. Sua experiência com relacionamentos sempre durava no máximo 6 meses, nunca tinha se visto namorando de fato alguém, numa relação longa e duradoura. Então, aos poucos Jamyle foi conquistando, mostrando que isso era possível. Presenteou-a com um Batman que ela mesmo fez, de massinha, logo nas primeiras semanas de relação, e logo em seguida Nay apresentou ela para a família. Até que decidiram realmente começar o relacionamento, junto com outra troca de presentes, uma caixinha simbolizando a abertura do amor. A criação da Nayara foi bem diferente da Jamyle. Passou sua infância frequentando a igreja, até completar 18 anos, além disso, viajou bastante, por conta do pai ser militar. Conta que seus pais continuam praticando a fé hoje em dia, mas não possuem problemas quanto à sua sexualidade e o relacionamento com a Jamyle, já passaram por muitas barreiras quanto a isso. O mais difícil foi o que viveu quando era criança/adolescente, por ter estudado em colégio militar e ter sido complexo lidar com o entendimento de quem ela era lá dentro. Enfrentou o preconceito, se entendeu, falou sobre suas paixões e, por mais que se aceitava e lidava bem consigo mesma, os colegas agiam de má fé o tempo todo. Sua irmã foi sua grande aliada no enfrentamento disso tudo. Jamyle, por sua vez, sempre entendeu que gostava de meninas. Andava com os meninos e pelo pouco que se fala sobre a possibilidade do amor entre mulheres, chegou a cogitar em alguns momentos, quando ainda era muito nova, a possibilidade de querer ser um homem. Na adolescência, namorou meninos e tinha uma meta na cabeça: namorar um ano para ao menos poder provar que tentou. Aos 19, conheceu uma menina na internet e ficou com ela pela primeira vez. Depois, pensou sobre o que sentia/como sentia e entendeu que de fato gostava de mulheres. Naquela época, uma tia se divorciou e assumiu sua sexualidade, o que a fez refletir muito sobre o que era passar 40 anos da sua vida vivendo algo que não te representa, que não é você. Foi então que decidiu se abrir e contar para a mãe sobre seu desejo e suas vontades. Ela reagiu bem, com um tom de quem sempre soube, porém toda menina que apresentava a mãe não gostava muito, achava algum defeito… mas foram fases. Até que chegou a fase que ela falava pra todo mundo que a filha era gay, achava o máximo. E agora realmente gosta do relacionamento com a Nay. Depois de passarem uns meses distantes e reclusas pelo início da pandemia de Covid-19, em 2020, começaram a falar sobre morarem juntas. Estavam bem estressadas e foi difícil lidar com a distância. Nay estava empregada e estável, Jamyle também, então a renda conseguiria bancar as contas. Começaram a procurar apartamentos e encontraram o que seguem morando até o momento da documentação. Fizeram uma confraternização apenas com a família para inaugurar a casa e ganhar alguns móveis e eletrodomésticos e ressaltam como foi muito bom contar com a rede de apoio, ainda mais naquele momento da pandemia. Como nem imaginavam viver os perrengues depois (Nay ficar sem emprego, por exemplo), foi essencial essa rede no início, sem a existência disso elas não teriam o básico na mudança da casa e foi o que fez com que vivessem com maior conforto. No começo do relacionamento, Jamyle não se dava muito bem com a primeira gatinha da Nay, mas hoje em dia elas se amam. Com o tempo, vieram os outros gatos. Alguns da Nay, outros da Jamyle e outros frutos de adoções da pandemia. Todos resgatados, hoje em dia são 5. Dentro de casa, amam ficar com eles, brincar e cuidar. Além disso, gostam de passar a tarde planejando coisas juntas, sejam os jogos, viagens… por mais que não necessariamente vão fazer, se permitem sonhar. ↓ rolar para baixo ↓ Jamyle Nayara
- Clara e Mariana | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Clara e Mariana são as duas meninas mais novas que já passaram pelas histórias do Documentadas - e também as duas meninas com o olhar mais atento aos detalhes artísticos ao nosso redor. Clara tem 18 anos, nasceu em Criciúma - Santa Catarina, é estudante de pré-vestibular e trabalha como jovem aprendiz enquanto almoxarife. Sonha em cursar cinema, sua grande paixão e arte responsável por mudar a perspectiva e visão de mundo sobre todas as coisas que já viveu. Em um momento da conversa, a Clara compartilhou que possui uma vontade muito grande de estudar cinema justamente por querer se envolver em projetos que atuem no país integrando culturas e trazendo oportunidade de expressão para que as pessoas coloquem para fora o que sentem/como se sentem, pois acredita no cinema para muito além que um produto: uma forma de expressão das mais potentes. Mariana tem 17 anos, também nasceu em Criciúma - Santa Catarina, também é estudante pré-vestibular, atualmente ela dá aulas de ballet e jazz. A dança sempre esteve muito presente na sua vida, desde criança é seu maior divertimento e sonha em seguir carreira. No tempo livre, a Mari também participa de um projeto chamado “Ela”, que distribui kits de higiene pessoal e absorventes para mulheres na região carbonífera do Sul de Santa Catarina e a ideia é que o projeto se amplie cada vez mais. ♥ A inspiração da Mariana vem muito de dentro de casa, tendo uma mãe feminista que ela sempre viu com olhar de admiração e que a insinou a ser quem ela quer ser. Além disso, toda a vivência das duas juntas mostra diariamente que estão dispostas a evoluir e se posicionarem com as suas opiniões, estarem abertas às mudanças e às novas percepções. Ela comenta o quanto segue, junto à mãe, ensinando e compartilhando muito uma com a outra. Já a inspiração da Clara vem da arte. É através de diretoras de cinema que ela encontra sua inspiração sobre o que gostaria de ser no futuro - e entre esses sentimentos, o que mais a desperta é a coragem. Além da arte, a mãe dela também a inspira muito diariamente para conseguir contar e enfrentar as dificuldades no cotidiano. A relação da Clara e da Mari de contar sobre o relacionamento para a família foi diferente para cada uma, a Mari foi contando aos poucos e hoje em dia todos têm uma boa relação. Já a Clara, conta que a mãe dela acabou descobrindo a partir de uma carta que a Mari tinha dado à ela. Foi um baque a descoberta em si, porque ela já estava planejando contar e o momento acabou vindo antes do preparado, mas acabou saindo do armário de alguma forma. Hoje em dia, ambas famílias se dão bem e juntas elas adoram cozinhar, passar um tempo deitadas sem fazer nada, apenas se curtindo e conversando sobre coisas aleatórias. Clara e Mariana se conheceram na escola em 2019, eram de turmas separadas, mas o destino deu um jeitinho e uniu as duas na mesma turma… Ficaram bem próximas e a Clara começou a gostar da Mari, mas a Mari estava bastante confusa sobre o que sentia, se gostava de meninas ou não, se gostava da Clara ou de outra menina… Eram muitos sentimentos novos para administrar… E aí na conversa a Clara diz: “É a típica história de se apaixonar pela amiga!” Sim, é. E a Clara já sabia que gostava de mulheres, mas até então imaginava ser bissexual. Ela conta que a Mari foi essencial para sua descoberta pessoal, foi uma grande ajuda nesse processo de auto entendimento e aceitação. Aos poucos elas foram evoluindo, se descobrindo e se desenvolvendo. Mesmo que não tivessem muita noção sobre o que estava exatamente acontecendo, elas nunca deixaram de estar juntas. Quando a Mari entendeu que precisava escolher e se abrir com a Clara sobre o que sentia por ela antes que a perdesse, decidiu se declarar e foi aí que elas ficaram realmente juntas num relacionamento. Assumiram isso para todo o colégio (Que inclusive, diga-se de passagem, é um colégio católico, administrado por freiras e bastante conservador) e seguiram cada vez mais juntas. Elas entendem que amar é, também, respeitar suas individualidades e seus momentos. Então, por mais que nos momentos difíceis se apoiem, elas sabem respeitar suas particularidades e seus espaços mais reservados. Contam que dão mais valor ao apoio e ao companheirismo quando se juntam fisicamente, corpo-a-corpo, e que dentre os momentos mais difíceis que passaram está o começo do namoro, quando a coordenação da escola pediu para que elas cuidassem com as demonstrações de carinho por conta das possíveis incomodações com pais de alunos dentro da escola (Mas que elas souberam lidar firmemente e tiveram apoio da família) e com a própria pandemia, que nos desperta muitos sentimentos de incerteza e ansiedade perante o futuro. Para a Mari, amar é se sentir bem, transmitir bem-estar e felicidade. Amar pode trazer algumas preocupações e momentos não-tão-bons também porque isso faz parte das relações humanas, mas isso não pode se transformar e ser maior do que a gente. “O amor é leve!”. A Clara completa que no amor a gente se sente seguro e sereno, mesmo com a preocupação, é quase sem preocupação (risos) “Porque até com preocupação a gente se sente bem e é acolhida”. O amor entre mulheres, para elas, é sobre ter conexão e entendimento único. Por fim, mas não menos importante, a Mari e a Clara escolheram essa praça porque foi o local onde deram o primeiro beijo, na cidade em que elas moram, lá em Criciúma! Um local que elas amam frequentar e fazer piqueniques. Por mais que elas queiram estudar na capital, elas não esquecem da importância de levar e de debater mais cultura para a cidade onde moram, trazer de volta a história da cidade (Que no momento encontra-se abandonada) e incentivo aos artistas locais e das escolas municipais. Um olhar para a cultura da melhor forma: construtiva. Construindo uma nova cidade que saiba de onde veio. Mariana Clara
- Andréia e Dalila | Documentadas
Dalila estava com 28 anos no momento da documentação, nasceu em São Paulo, mas se mudou para uma cidade interiorana próximo à Campinas ainda jovem. É uma pessoa bastante calma, sempre encontrou formas de se adaptar aos diferentes cenários de sua vida - e por isso, gosta de se definir como um camaleão. Formada em contabilidade, começou sua carreira na área administrativa, mas foi aos 24 anos que aproveitou novas oportunidades, indo para hotelaria. Adora yoga e pilates. Andréia, no momento da documentação, estava com 47 anos. Nasceu em São Paulo, saiu de casa aos 17 para desbravar o mundo. Formada em contabilidade, tinha o sonho de trabalhar na Bolsa de Valores e chegou bem perto disso: ingressou em um escritório vinculado à Bolsa, mas o destino tinha outros planos. O departamento de hotelaria no mesmo escritório despertou maior curiosidade, uma das colegas tirou licença-maternidade e ela pegou algumas das suas responsabilidades. Dez meses depois, veio uma promoção e uma proposta: mudar para Recife trabalhando com isso. Era 2003, ela tinha pouco mais de 20 anos e topou na hora, sem nem pensar duas vezes. Passou três meses trabalhando em Angra dos Reis para entender como os hoteis funcionam, depois desembarcou em Recife e ficou por lá alguns anos. Desde então, já possui mais de 20 anos de carreira na área, trabalhando principalmente no nordeste. Juntas, Dalila e Andréia formam uma parceria que se complementa: Dalila é metódica, cuidadosa, calma. Lembra Andréia de levar o casaco, beber água ou ajeitar a postura. Andréia vem com a agitação, o espírito aventureiro, lembra Dalila de viver o momento, a juventude. Depois de passar anos morando no Nordeste, Andréia passou por algumas questões familiares e precisou voltar para São Paulo. Retornou sem emprego, sem contatos e sem um plano claro, considerando até mesmo a possibilidade de um intercâmbio. Enquanto isso, enviou alguns currículos e, em pouco tempo, recebeu uma proposta de emprego em um hotel conhecido em Campinas. Foi lá que conheceu a Dalila. No início, era complicado entender os sentimentos que começavam a surgir entre elas. Dalila tinha 23 anos, estava começando sua carreira. Andréia, além da diferença de idade, ocupava um cargo de liderança. A posição profissional pesava e decidiram manter o relacionamento em segredo. Por mais que a idade fosse um fator, Dalila sempre foi uma pessoa muito madura e isso nunca interferiu na relação, tinham mesmo era receio da questão profissional. Se conheceram um pouco antes da pandemia de Covid-19 e do lockdown acontecer. Quando foi declarado, o hotel ofereceu uma opção de demissão voluntária - os empregados se demitiriam mas teriam todos os direitos garantidos - e elas optaram por fazê-la, e assim, poderiam também assumir a relação sem mais o medo disso interferir no trabalho. Depois disso, passaram por um novo momento: assumir à família. Alguns meses depois, contaram para a mãe da Dalila. Era um momento bem significativo, a primeira vez que falaria da sua sexualidade, somado ao fato de estar com uma mulher mais velha e, ainda, o desejo de sair de casa. Apesar da complexidade, sua mãe, uma mulher incrível, acolheu a notícia com compreensão e amor. Esse período de adaptação levou alguns meses, mas foi essencial para fortalecer a relação entre elas. Ainda nesse processo, tiveram a primeira viagem juntas, o primeiro trabalho pós-demissão e receberam uma nova proposta para trabalhar juntas em Porto Seguro. A primeira mudança que fizeram para Porto Seguro a fim de trabalharem juntas foi um divisor de águas na vida da Andréia e da Dalila. Andréia assumiu a gerência, enquanto Dalila cuidava da parte operacional. Em meio à pandemia, estavam no único hotel aberto em Porto Seguro. Esse período marcou o início de uma vida compartilhada, tanto no trabalho quanto na relação pessoal. Mesmo em tempos desafiadores, encontraram maneiras de aproveitar. Passearam por Arraial d’Ajuda - o local onde fizemos as fotos - beberam água da fonte lendária que promete trazer de volta aqueles que a experimentam e visitaram Trancoso. Essa última viagem ficou ainda mais especial com uma pousada em que se hospedaram e da qual gostaram tanto que, três anos depois, decidiram arrendá-la e trabalhar nela como administradoras. Quando o contrato em Porto Seguro terminou, um novo destino chegou: Porto de Galinhas, em Pernambuco. Em Pernambuco trabalharam em hoteis distintos, exploraram novos hábitos alimentares e descobriram formas diferentes de viver. Foi nesse período que Dalila despertou um amor especial pela cozinha, criando cafés da manhã não só para elas, mas também para vender. Em 2022, surgiu uma oportunidade de retornar à Bahia, entre Porto Seguro e Trancoso, para trabalhar novamente com hoteis e pousadas. Decidiram voltar e, dessa vez, arrendaram a pousada que tanto haviam amado anos antes. Moraram em Arraial d’Ajuda e se deslocavam diariamente para Trancoso, onde gerenciavam a pousada. Dalila voltou a se dedicar à culinária, inclusive fazendo isso na pousada: elaborando cafés da manhã em sua maioria vegetarianos. Ficaram quase um ano nessa rotina. Após o período na pousada, seguiram para outros trabalhos, foi então que Dalila criou o Manhãs e Marés: um serviço especial de cafés da manhã, atendendo tanto pousadas/hoteis quanto clientes individuais. Atualmente, Andréia continua sua carreira na administração de pousadas e beach clubs, enquanto Dalila equilibra sua paixão pelos cafés com o suporte à administração. Hoje, além do trabalho e do tempo de qualidade juntas, Andréia e Dalila dividem o amor por uma gata que adotaram. A vida que construíram reflete a busca constante por leveza, equilíbrio e conexão. Elas se alegram com as pequenas e grandes mudanças que alcançam juntas, aprendendo a ser pés no chão, mas sem se cobrar demais. Dalila conta que Andréia traz a agitação para a vida dela e foi num desses momentos que surgiu o “Praciar” - ato que fizemos na hora da documentação: sentar na praça e observar. Compram uma cerveja, ficam de boa, assistem o movimento. Dalila gosta de dormir cedo, então ficam na praça até ela começar a sentir sono, e vão embora. Adoram a calmaria do relacionamento, acreditam que o amor próprio é a chave para ele dar certo e, ainda mais para a Andréia, que se vê enquanto uma pessoa agitada que sempre fez “muita balbúrdia”, a calma da Dalila a ensina o tempo todo. Entendem esse amor refletido no respeito por ser quem são, no momento de cada uma, nos limites das inseguranças e em enfrentar os momentos difíceis juntas. No momento da documentação, inclusive, haviam acabado de chegar de um encontro de famílias que só aconteceu depois de cinco anos de relacionamento, lá em São Paulo. Pensam na demora e na insegurança que tinham pelo fato da diferença da idade, por terem familiares mais velhos presentes, senhores e senhoras de 80 e 90 anos e que havia receio do que poderiam ouvir, ainda mais por verem Dalila como uma “menininha” e por ela estar namorando uma mulher mais velha. Todavia, foi incrível, acolheram Andréia de uma forma maravilhosa e admiraram a felicidade delas. Nesse ato elas enxergam o amor, entenderam que o importante é serem felizes, estarem em conforto e cuidado. ↓ rolar para baixo ↓ Dalila Andréia

