Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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- Banco de Images | Documentadas
Aqui documentamos a história de mulheres por todo o Brasil. Raíssa e Stephanie amor de rotina. Camila e Lian amor de dias solares. Letícia e Rossana amor de bicho. Silvana e Márcia amor de educação. Vitória e Sara amor de porcentagens Tainá e Fabi amor de rotina no lar. Naiara e Mary amor de uma vida inteira. Carla e Paula amor de tagarelar. Paola e Tai amor de 'não' que virou 'sim' Patrini e Gabi amor de conversa. Juliana e Luísa amor de desassombro Jess e Amanda amor de desabafos. Susy e Pâmela amor de último ddd. Amanda e Julie amor de juventude. Cláudia e Vanessa amor de vida inteira. Yula e Rebeca amor de bairro. Melina e Acácia amor de marcante. Tamiris e Ágata amor de tempo. Camila e Rafaela amor de etapas. Joyce e Gabi amor de persistência. Gabi e Raffa amor de ficar à vontade. Laura e Camila amor de presente. Babi e Maria amor de companhia. Vivi e Darlene amor de não viver sem. Jaque e Tainá amor de novo olhar. Thacia e Ju amor de cuidado. Anik e Isabelle amor de desaguar. Raquel e Dandara amor de mudanças. Aline e Isabela amor de novidades. Luiza e Milena amor de paciência. Marcela e Jana amor de liberdade. Mariana e Viviane amor de manhã na praça. Clara e Laura amor de cuidado. Aline e Nathalia amor de paródia. Iana e Amanda amor de salvador. Yaskara e Jade amor de conversas. Daniella e Flávia amor de futuro. Isadora e Isabelle amor de equação. Luanna e Laira amor de cicloativismo. Ellen e Bianca amor de confraternização. Lorrayne e Joyce amor de casa. Mari e Jéssica amor de cura. Elis e Vandréa amor de ancestralidade. Carol e Sofia amor de hobbie. Letícia e Giovanna amor de persistência. Ane e Ari amor de companhia. Lorrayne e Mari amor de bilhete. Sarah e Rosa amor de novidade. Jamile e Raquel amor de leitura. Raquel e Rachel amor de pedidos. Aline e Aya amor de maternidade. Cassia e Kercya amor de marinar. Gabriela e Mariana amor de mãos dadas. Luiza e Maria Pérola amor de nebulosas. Lara e Ana amor de âncora. Sharon e Vivian amor de natureza. Yasmin e Juliana amor de diálogo. Isa e Camila amor de fã. Mari e Rey amor de outros lugares. Manu e Alyce amor de abraço. Cecilia e Jady amor de riso esvoaçante. Clara e Rayanne amor de jeito. Maria Clara e Antônia amor de cinema. Priscilla e Raphaela amor de conexões. Mari e Vivi amor de música. Júlia e Milena amor de reencontro. Talita e Louise amor de história. Juliana e Tercianne amor de teatro. Ju e Nicoli amor de vida toda. Luana e Maiara amor de domingo no parque. Tânia e Clarissa amor de trajetória. Ju e Marci amor de tempo. Rennata e Vanessa amor de impacto. Bruna e Flávia amor de suporte. Bibi e Emily amor de mãos dadas. Clara e Mayara amor de doce. Carol e Joyce amor de propósito. Thaysmara e Leticia amor de pôr do sol Júlia e Ana Carolina amor de cuidado ao detalhe. Natasha e Jéssica amor de ciclos. Rafa e Gizelly amor de acordar juntas. Carla e Yasmin amor de expressão. Yasmin e Ignez amor de encontro. Nathi e Emanu amor de força. Camila e Samantha amor de evento. Lu e Joana amor de flor. Nath e Carla amor de parque. Karol e Beatriz amor de webnamoro. Clara e Mariana amor de sétima arte. Jamyle e Rebeca amor de festa. Dani e Aline amor de oposto complementar. Camilla e Karol amor de calma e maresia. Bia e Marina amor de conversa. Amanda e Thaís amor de lagoa. Ju e Yasmin amor de compaixão. Wan e Lívia amor de lugares. Vanessa e Denise amor de pretitude. Mari e Marie amor de estrada. Marcela e Karina amor de refúgio. Ana e Paula amor de almoço no domingo. Thaty e Lari amor de descrição. Melissa e Sofia amor de sítio. Carol e Marlise amor de construção. Fabi e Dani amor de brilho. Isa e Carina amor de versões. Taynah e Estrella amor de ano novo. Glauci e Alice amor de casa. Maiara e Vitória amor de sol e lua. Joyce e Malu amor de renovar. Gabi e Dani amor de gatos. Marcia e Kamylla amor de faculdade. Luiza e Mariah amor de produção artística. Drika e Jana amor de dia ap ós dia. Thay e Louise amor de samba. Jeniffer e Renata amor de aventura. Ana Clara e Evelyn amor de nascer do sol. Bruna e La Salle amor de confirmação. Mariana e Bárbara amor de interior. Maíra e Kelly amor de estar em casa. Janelle e Gyanny amor de fé. Lia e Thalita amor de lar. Alessandra e Roberta amor de diversão. Iasmin e Natalia amor de tatuagem. Bruna e Mari amor de arte na rua. Carla e Cynthia amor de diferença. Inara e Nina amor de recomeço. Hinde e Renata amor de intercâmbio. Thay e Cami amor de afeto. Luana e Marília amor de corpo. Fernanda e Ana amor de tentativas. Gabi e Gabriela amor de coragem. Jéssica e Priscila amor de diferença. Melina e Karyne amor de frio na barriga. Mariana e Fabiola amor de redescoberta. Luana e Bruna amor de emoção e razão. Ane e Thelassyn amor de persistência. Nayara e Jamyle amor de geek. Tami e Fran amor de casa nova. Gabi e Pamela amor de ajuste. Tay e Beatriz amor de elevação. Alice e Fernanda amor de apoio. Julia e Duda amor de muito. Luciana e Viviane amor de recomeços. Kelly e Amanda amor de tempos. Anne e Lari amor de paz. Júlia e Vitória amor de moda. Paula e Mari amor de cor. Luma e Stefany amor de árvore. Anne e Talita amor de oportunidade. Uine e Denise amor de aliança. Larissa e Claricy amor de ritual. Laiô e Íris amor de horizontalidade. Brenda e Jéssica amor de aventura. Dalila e Andréia amor de "praciar". Carla e Laura amor de porto seguro. Vanessa e Vitória amor de nova perspectiva. Carol e Cris amor de energia. Angélica e Jaque amor de segundo encontro. Kétule e Beatriz amor de cachoeira. Alissa e Rafaela amor de recomeços. Lilian e Marcella amor de padaria. Natália e Bruna amor de ano novo. Rachel e Larissa amor de paciência. Jade e Laura amor de segurança. Barbara e Isadora amor de cativar. Marina e Patrícia amor de pedidos rápidos. Gabi e Aline amor de aposta. Débora e Paula amor de comentário. Bruna e Vanessa amor de transformação. Cintia e Carmen amor de cultura. Dállete e Dyanne amor de redescobrir. Keziah e Patricia amor de compartilhar Cynthia e Leylane amor de esporte. Rafa e Helena amor de dia. Emilly e Thuane amor de maracatu. Sue e Sil amor de teatro. Fernanda e Talita amor de som. Carol e Gabi amor de fotografia Carol e Andressa amor de lugar. Ingrid e Cecília amor de estrada. Vanessa e Dayanne amor de caminho. Emily e Raissa amor de tentativa. Beatriz e Kika amor de são joão. Bruna e Tereza amor de sonho realizado. Juliana e Bianca amor de tempo. Clara e Marina amor de céu aberto. Samara e Rebeca amor de impulso. Raíssa e Lorena amor de experimentar. Laura e Dedê amor de samba. Maria Vitória e Fernanda amor de carro. Manô e Bruna amor de vivência. Denise e Julia amor de cerveja&cinema. Maíra e Duda amor de tatuagem. Marina e Luiza amor de cumplicidade. Juliana e Tayna amor de mil histórias. Bruna e Fran amor de resistência. Marcia e Pethra-13_edited amor de pé na porta. Mari e Nonô amor de escola. Joana e Ana Clara amor à primeira vista. Priscila e Rebecca amor de mar. Bruna e Sophia amor de carnaval. Renata e Marcela amor de arte. Clara e Karine amor de parceria. Bela e Maitê amor de risadas. Victoria e Gabi amor de praia. Brenda e Jhéssica amor de destinos. Carol e Gabi amor de militância. Beatriz e Tamara amor de esporte. Paula e Luiza amor de plantas e pássaros. Luana e Gabrielle amor de família. Mariana e Thalassa amor de plantinhas. Carol e Beanca amor de acompanhamento. Rita e Dede-23_edited amor de 10 reais. Cilla e Fabi amor de luz Bruna e Brena amor de axé. Stefannie e Jaque amor de decisão. Marianna e Bruna amor de coisas em comum. Natália e Talita amor de admiração. Ingra e Lara amor de diversidade. Roberta e Laura amor de ser possível amar. Yulli e Nadine amor de profissão em comum. Sandra e Larissa amor de oceanos. Vanessa e Suélen amor de simplicidade. Rhanna e Lais amor de festa popular. Inara e Juliana amor de samba. Juliana e Priscila amor de grande família. Clarissa e Agnis amor de crescimento. Ariadne e Barbara amor de faculdade. Karol e Hémely amor de abrir portas. Nayara e Mayara amor de educação. Vivian e Dani amor de nova visão de si. Olga e Flávia amor de política. Clarissa e Roberta amor de são joão.
- Stephanie e Raíssa | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Raíssa estava com 32 anos no momento da documentação. Nasceu em Salvador e adora a cidade. É uma pessoa caseira, trabalha em casa, sendo psicóloga, e quando não está na sua rotina gosta de ocupar o tempo assistindo séries, aproveitando o espaço e a tranquilidade do lar. Quando sai, gosta de visitar amigos, praticar algum esporte e ir à praia. Para ela, o conforto está justamente nesse ritmo mais íntimo. Stephanie estava com 29 anos no momento da documentação e é dentista - uma profissão que confessa, logo de primeira, amar e fazer parte importante da sua vida e da sua rotina. Diferente de Rai, ela gosta bastante de estar em movimento, encontrando amigos, fazendo programas diurnos e experimentando coisas novas. Nos primeiros meses de 2026, tem se permitido viver bastante, ocupando o tempo com encontros e experiências. Ela também é natural de Salvador, nasceu e cresceu no Largo do Dois de Julho, uma região bem central da cidade, lugar histórico que carrega boemia e muitas memórias. Conta que ter crescido ali significa conhecer as pessoas, as ruas e os ritmos do bairro, já que seus pais também vivem o bairro e a região. Ela adora o quanto isso molda sua personalidade: uma pessoa conectada com a cidade, engraçada e observadora do mundo ao redor. Stephanie e Raíssa se conheceram em 2015, na faculdade. Estudavam na mesma instituição, mas em cursos diferentes e em momentos distintos da graduação: Stephanie era caloura e Raíssa já estava perto de se formar. Foi quando se inscreveram para ser monitoras em uma mostra científica (porque precisavam cumprir carga horária) que acabaram na mesma sala e começaram a se conhecer. Na época, Stephanie ainda se entendia como heterossexual, mas estava acompanhada de amigos LGBTs, viu Raíssa (que por sua vez tinha terminado recentemente seu primeiro namoro com uma mulher e atravessava um período de coração partido) e questionou aos amigos se eles achavam que ela era do ‘vale’: todos responderam de forma unânime > “sim”. Durante aquela semana da mostra, trocaram números para resolver questões do evento e começaram a conversar. Stephanie tentava flertar, mas Raíssa não percebia. Ou até percebia, mas entendia que Ste era hétero e acreditava que ela estava apenas com curiosidade. Pegavam ônibus juntas… e depois das insistências, chegaram a se beijar algumas vezes. Mas nunca se tornou uma relação de fato. Depois disso, o vínculo entre elas passou a existir em idas e vindas: às vezes conversavam, às vezes se encontravam, ficavam, depois cada uma seguia sua vida e se relacionava com outras pessoas. Brincam que as duas sempre foram muito “namoradeiras”, então, entre 2015 e a pandemia, passaram cerca de cinco anos nesse movimento de se aproximar, ficar vez ou outra, se afastar, e voltar a se encontrar. Em 2022, novamente solteiras, voltaram a conversar sobre relacionamentos e decidiram se encontrar novamente. Ste chamou Rai para conversar e brincou: “Não percebeu nada de diferente no meu perfil, não?! Estou solteira!”. Foram se encontrar mais uma vez. Acharam que iria ser como das outras vezes, mas foi diferente: começaram a ficar com mais frequência, mas ainda sem assumir nada sério. Uma dizia que queria namorar, construir uma família e ter filhos, enquanto outra não se sentia pronta para assumir um relacionamento ou pensar nesse tipo de futuro. Nesse meio tempo, quando viram que existia a possibilidade de se afastarem de novo e se relacionarem com outras pessoas, surgiu um medo real de perder alguém importante que até então não havia existido nos outros anos. Algo estava diferente. Ste foi viajar enquanto elas ainda não haviam começado o namoro de fato e, quando voltou para Salvador, enfrentava um momento difícil com o cachorro doente. Rai estava muito confusa entre ciúmes que sentia por ver Ste ficando com outras pessoas, entre não saber se a relação delas viraria um namoro, entre muitas questões... Achou melhor separar as coisas de Ste na sua casa e deixar para que, em algum momento, ela fosse buscar. Mas, quando ela chegou, precisava mesmo era de apoio. Independente da relação que estavam construindo recentemente, já estavam na vida uma da outra há 10 anos. Agora ela precisava de Rai como amiga, como acolhimento. Verbalizou isso e Rai permaneceu. Foi enfrentando esse processo difícil, depois de tantos anos e tantos momentos diferentes de vida, onde decidiram se dispor verdadeiramente em uma relação amorosa. Seguiram juntas por mais um tempo e entenderam que estavam dispostas a tentar de verdade: em pouco tempo estavam oficialmente namorando e, logo depois, Stephanie já estava morando na casa de Raíssa. A relação começou a se estruturar de um jeito muito consciente, baseada principalmente em conversas longas e sinceras. Desde o início, as duas perceberam que precisavam falar abertamente sobre tudo: expectativas, sentimentos, limites e inseguranças. Questões que muitas vezes aparecem de forma silenciosa em outros relacionamentos como ciúmes, interesse por outras pessoas ou o formato da relação (se seriam monogâmicas, não-monogâmicas, como sentem os desejos por outras pessoas…) eram colocadas na mesa e discutidas com cuidado. Essa disposição constante para o diálogo acabou se tornando uma das bases mais fortes da relação, permitindo que o vínculo continuasse crescendo com confiança, carinho e respeito. Stephanie conta algo importante do início da relação: sempre quis viver um amor que pudesse ser dito em voz alta. Queria se sentir amada dessa forma, sem dúvidas, sem esconderijos. Quando Raíssa soube disso, decidiu preparar algo especial. Procurou as melhores amigas de Ste para descobrir do que ela gostava, o que a faria feliz, que tipo de surpresa combinaria com ela. Com a ajuda delas, pensou em cada detalhe para fazer um pedido de namoro, seria o ato oficial. Ela montou uma playlist pensando em todo o trajeto que Ste fazia até em casa, para que cada música acompanhasse o trecho. Depois, em casa, havia uma caça ao tesouro com post-its espalhados contendo os trechos das músicas e pequenos recados carinhosos. Ao final, ela encontraria o pedido, acompanhado de um jantar simples, à luz de velas, mas com um detalhe: as velas eram de plástico, por conta do cachorrinho, que transforma qualquer momento em bagunça. Por muito tempo, elas seguiram usando as velas nos momentos do lar e contam que, de fato, ele mordeu todas. Era preciso mesmo que elas fossem de plástico. Morar juntas foi um passo natural para Raíssa e Ste, mas outras decisões exigiram mais alinhamento. Rai, por exemplo, sempre disse que não fazia muita questão de casar, que via o casamento mais como uma formalidade burocrática. Já Ste tinha o desejo de viver esse momento, de construir um casamento como parte do seu projeto de vida. Em vez de virar um impasse, isso também virou tema de conversa: o que cada uma imaginava, quais expectativas estavam envolvidas e como poderiam construir algo que fizesse sentido para as duas. Aos poucos, o significado do casamento também foi mudando. Além do desejo por uma celebração romântica, surgiu a dimensão política de duas mulheres decidirem se casar, ocupar esse espaço e afirmar um direito conquistado. Quando ficaram noivas, algumas pessoas da família estranharam, já que elas já moravam juntas. Para as duas, porém, o noivado representava exatamente o contrário: não era o fim de um processo, mas o começo de um novo passo. Ainda haverá cerimônia, festa, celebração… E a vontade de marcar publicamente a construção da vida que escolhem compartilhar. Stephanie e Raíssa contam que a relação delas é marcada pelo cuidado e pela forma amorosa como se tratam. Até entre as amigas a relação delas já se tornou uma referência de amor tranquilo. E esse cuidado se estendeu às amizades: para elas, os amigos fazem parte da família que escolheram construir ao longo da vida. Ste costuma dizer para a Raíssa que o amor que vivem não é uma paixão avassaladora, mas também está longe de ser morno. É simplesmente real. Existem momentos românticos, claro, mas também há rotina, e essa rotina não diminui o sentimento. Pelo contrário: nela existe sossego. É muito bom chegar em casa e saber que vai estar tudo bem. Depois de experiências anteriores marcadas por confusão, a calmaria chegou a assustá-las por um momento. Com o tempo, entenderam que a tranquilidade também é uma forma de amor. Essa estabilidade, longe dos altos e baixos constantes, tornou-se um dos pilares da relação. Há também algo que consideram muito especial: elas compartilham tudo. Qualquer acontecimento, pequeno ou grande, é dividido primeiro entre as duas. Isso construiu o espaço seguro, onde não há medo de julgamento. Além disso, há também o incentivo: uma apoia os sonhos da outra, mesmo os mais inesperados. Ideias que surgem de repente “E se eu mudar de carreira?” “E se eu começar uma residência?” “É possível?! Então bora!”. Saber que a outra estará ali, sustentando o caminho, faz toda a diferença. No fim, completam com uma frase: “É muito bom saber que as nossas terapias, individuais, serão sobre outros problemas e não sobre o nosso relacionamento”. ↓ rolar para baixo ↓ Raíssa Stephanie
- Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Toda mulher merece amar outra mulher. Olá; AQUI REGISTRAMOS O AMOR ENTRE MULHERES ATRAVÉS DA FOTOGRAFIA. Portfólio Para conhecer nossas histórias, clique aqui > sobre 02 sobre nós O documentadas começou através de diversos estudos e da percepção de que as mulheres são pouquíssimo registradas em toda a sua história, principalmente tratando-se de mulheres que se relacionam afetivamente com outras mulheres. Para dar um basta e contar nossa própria história, percorro o país registrando casais e através desse site criamos conexões e laços de fortalecimento. Para conhecer quem faz o documentadas, clique aqui > lançamos um livro! vem saber mais sobre aqui Banco de images QUER PARTICIPAR DO PROJETO? vem por aqui! :P Rayanne Psicóloga Gestalt-terapia Leia mais Ray é natural do Rio de Janeiro e realiza atendimentos online com foco na população LGBT+ e negra. Ela acredita na potência transformadora da troca no encontro e de uma prática terapêutica que se contextualiza. Viviane Psicóloga Psicanalista Vivi é natural de Porto Alegre, é psicóloga e tem a psicanálise como referencial ético e teórico. Leia mais Marina Psicóloga Humanista Mari é natural de Brasília e na sua prática terapêutica valoriza a individualidade de cada pessoa, oferecendo um espaço de acolhimento e escuta sensível. Leia mais gerando renda para a comunidade Acreditamos que - além de que contar histórias de mulheres - podemos conecta-las. Falarmos sobre seus trabalhos, compartilharmos situações, momentos e, enfim, gerarmos renda. O mercado de trabalho segue difícil e podemos nos apoiar contratando trabalhos de mulheres da comunidade LGBT. Sendo assim, no nosso espaço de 'busca' você consegue pesquisar pela palavra-chave (o serviço que você precisa), ver qual profissional está à disposição, ler sua história e nos mandar uma mensagem. Nosso papel será te conectar diretamente com a profissional desejada! gerando renda para o projeto Manter o projeto não é tarefa fácil! Fazer viagens, pegar metrôs, ônibus, barcas... disponibilizar tempo e conseguir manter as contas pagas é um grande desafio. E como queremos documentar o maior número de casais possíveis, disponibilizamos o nosso PIX e aceitamos qualquer valor como quantia de doação! Você pode nos ajudar clicando aqui e fazendo a doação (qualquer valor!) de forma voluntária direto pelo aplicativo do seu banco! Colabore com a documentação histórica do amor entre mulheres! Contato
- Drika e Janis | Documentadas
Amor de Dia a Dia - Drika e Jana clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Carla e Cynthia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Carla e Cynthia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Carla e a Cynthia tiveram seus caminhos cruzados pela primeira vez em 2004, quando Carla entrou na Rede Municipal de Macaé, sendo pedagoga. Nessa época, aconteciam alguns seminários de educação, que ambas participavam, e foi assim que a Carla observou a Cynthia pela primeira vez. Pensou no quanto ela era focada e sentiu curiosidade, por achar ela bastante diferente, mas elas não conversaram e não se encontraram mais. A Cynthia, por sua vez, nem se quer viu a Carla. Foi só em 2009, numa coordenação que ela mesmo ministrava, que as duas finalmente se conheceram e conversaram pela primeira vez. Esse “jeito” diferente da Cynthia persistiu pelos anos que se passaram, porque afinal, não é um jeito… é a essência dela: ela é uma mulher quieta, reservada, adora ler, vive rodeada de livros porque entende que a palavra salva - e isso, segundo ela, pode ser usado de várias formas: como algo divino, como o poder da leitura (como ela usa), como consciência… cada um tem o seu jeito - através da leitura ela enxerga o mundo de forma diferente. No mais, é uma mulher reservada, tímida e sem um jeito muito espalhafatoso. Carla não sabia nada sobre ela. Não imaginava se ela tinha interesse em mulheres, quem ela era, se havia espaços para interesses (até porque, sendo tão reservada, não havia como surgir esse tipo de assunto), mas queria estar ali e ter aquela amizade misturada com outro interesse. Assim, aos poucos, as duas se aproximaram. Carla entende que o interesse entre elas existia, mas que a admiração se multiplicava enquanto conhecia cada vez mais a profissional que a Cynthia era. Quanto mais trabalhavam e conviviam juntas, mais queriam estar juntas também. E por mais que ainda não existissem brechas para falarem sobre relacionamentos ou assuntos do tipo, por conta da Cynthia ser uma mulher muito reservada, ela respeitava isso e queria estar ali, de qualquer forma. Carla já tinha vivido relacionamentos anteriores - com homens e mulheres - e inclusive tinha uma filha. Já a Cynthia, nunca tinha se envolvido com alguém, por isso também pisava em passos mais lentos. No começo, não entendia que a Carla poderia ter algum interesse, apenas gostava dela pelo o que tinham em comum - iam ao teatro, tomavam cafés. A vivência da Cynthia era algo totalmente diferente, uma pessoa caseira, com grupos pequenos de amigas (essas, reunidas pela leitura, com idades mais velhas). Enquanto Carla era do grupo de teatro, fazia amizade com todos, era super extrovertida. Entender que poderiam dar o primeiro passo foi um processo interno para ambas. Sentiam-se como adolescentes. Cynthia foi entendendo sobre o seu interesse, conversou com a sua psicóloga e ela disse: “Essa moça está afim de você”. Isso despertou diversos olhares novos. Enquanto Carla, por sua vez, tentava em um ritmo diferente. Não atropelava nada, deixava com que tudo fluísse para que ela também entendesse seu processo. Chamou a Cynthia para ir na sua casa, não deu certo na primeira vez, mas com o tempo convenceu. Nessa época, em que tudo era um mistério entre não saberem se existia algo a mais entre a amizade delas ou não, elas não moravam na mesma cidade, mesmo que trabalhassem juntas. Foi em Rio das Ostras, na região litorânea do Rio de Janeiro, que elas se encontraram, próximo da casa da Carla. Foram até um restaurante na praia (local em que fizemos as fotos, inclusive) e na hora de ir embora, quando estavam esperando uma van, ao sentirem frio esquentaram suas mãos umas nas outras. Foi, assim, um primeiro tato/uma primeira demonstração de afeto físico, como um pontapé inicial. Ao chegarem em casa, assistiram um filme estratégico que era nada mais, nada menos, que um amor entre mulheres, mas simplesmente não falaram nada sobre o filme e assistiram o filme cada uma em seu canto. Na hora de dormir, já ao anoitecer, foi quando - cada uma olhando para o teto - a Cynthia resolveu perguntar algo do tipo: “Você já beijou alguma mulher/você gosta de mulheres?” e, finalmente, elas se beijaram. Hoje em dia, 12 anos depois, elas riem e brincam muito sobre toda essa situação que viveram. Afinal, duas adultas, agindo dessa forma. Mas entendem que essa demora, ou melhor, esse processo, a forma que foi vivido, os intervalos, o tempo em si, tudo foi uma forma de respeito e de entendimento sobre o que estava acontecendo. Por a Cynthia nunca ter estado com alguém, viver isso dessa maneira, foi a forma mais real/pura e respeitosa possível sob o que ela é. Já a Carla, se permitir esse processo, foi um novo entendimento sobre algo que ela gostaria de viver e que nunca tinha se imaginado, também. No começo, todos olhavam a Carla super extrovertida, com sua gargalhada alta, com os seus amigos mais jovens, do teatro, das artes, de festa, bares, e a Cynthia sendo reservada, da leitura, de um mundo oposto e diferente e já diziam: “Não vai dar certo.” O mais importante, em toda a história, foi que mesmo entendendo que são pessoas diferentes, suas afinidades são muito boas e uma não quis mudar a outra. Inclusive, era suas diferenças que faziam com que uma gostasse tanto da outra. A Cynthia conta o quanto ela se diverte com as palhaçadas da Carla, às vezes até sem querer - e a Carla o quanto sempre se encantou com tudo o que a Cynthia representa no seu tom reservado, quieto, leitor. O processo inicial, lento, de amizade e conhecimento, também foi muito importante porque enriqueceu quem elas são. Depois de tantos anos, sentem que tudo acontece com muita fluidez. Desde uma gostar de café e a outra de cerveja, cada uma sabe o gosto e a forma de acontecer. Na noite em que elas se beijaram, havia um detalhe - o dia seguinte era aniversário da Cynthia. Ela estava radiante! Quis logo assumir o namoro. Contar para a família. Porém, haviam alguns problemas, né?! Primeiro que, assumir um relacionamento hoje em dia não é fácil, imagina antes de 2010. Segundo, Cynthia sempre foi muito ligada com a sua família e Carla teve muito medo de que isso fizesse com que a família reagisse com preconceito e acabasse a afastando ou a tratando mal, portanto, não aprovou que ela contasse. Ela decidiu conversar com a sua psicóloga, que também achou melhor esperar. Mas se sentiu muito triste, era como se estivesse fazendo algo errado, sendo que não estava. Estava amando, finalmente amando! Fazendo algo tão bom, queria tanto compartilhar. E, principalmente, pela família dela sempre apostar no amor, não entendia porquê não poderia compartilhar. Esperou uma semana, não se sentia bem estando lá, dividindo a casa, os cômodos, e não contando. A mãe aceitou tranquilamente, disse que em nome da felicidade dela, estava tudo bem. Ela ficou muito feliz em ter apostado no amor - como foi ensinada a fazer. Ela e a Carla passaram mais um tempo sem contar sobre o relacionamento delas no trabalho, por conta da pressão que isso envolvia, mas também não durou muito. Ao fim da nossa conversa ela falou algo importante, sobre fazermos o exercício de passarmos horas falando da nossa vida e ver se conseguiremos não falar de quem a gente ama. Porque ela, sinceramente, não conseguia/não consegue não citar a Carla, e reprimir isso por conta do preconceito social é absurdo, sufocante. É algo que não há motivos para permitirmos. Ela queria sentir a liberdade, da mesma forma que as pessoas perguntam “e o seu marido, está bem?!” perguntarem “E a sua companheira, está bem?”. Hoje em dia, a Carla está com 50 anos, trabalhando como professora, pedagoga, sendo atriz e artista plástica. Adorando desenhar e pintar. A Cynthia está com 44 anos, segue enquanto coordenadora de professores e alunos na Secretaria de Educação. Eterna apaixonada por leitura. Elas estão juntas há 12 anos. Atualmente, morando em Rio das Ostras. Mas, no começo da relação, Cynthia tinha acabado de comprar um apartamento em Macaé, então passaram pela ideia de morar lá. Já moraram, também, com a filha da Carla, que hoje em dia é uma mulher adulta (mas que no começo do relacionamento delas tinha 11 anos) e que convive com as duas direto. Elas brincam sobre o enfrentamento da adolescência e sobre a Cynthia sempre ficar do lado de ambas (tanto da Carla, quanto da filha), na hora dos conflitos. Hoje em dia a filha também foi para a área da Educação, cursando História, no interior do Rio de Janeiro. Por mais que, antes de se relacionar com a Cynthia, a Carla dizia que não gostaria de se relacionar com ninguém, hoje em dia ela vê a vida e o amor de formas bem diferentes. Entende que não queria se mudar por ninguém: se fechava nessa ideia, dizia que era assim, a pessoa que aceitasse. Hoje em dia ela entende que segue na sua essência, mas que todo relacionamento precisa de ajustes e acordos para acontecer. Foi a partir do relacionamento delas que sentiu um cuidado único - tanto ela, quanto sua filha - e ambas ganharam uma nova família. Esse cuidado ensina diariamente. Antes, elas eram sozinhas, ela e a filha, no mundo. Hoje, elas têm uma parceria e com quem contar. Cynthia conta, finalizando, que a mãe dela faz a comida favorita da Carla e que tudo dentro do relacionamento delas é feito com um amor único. “O ódio é mais fácil. Sentir ódio. Mas o amor é a única forma de salvar as pessoas. Por isso precisamos escancarar o amor em todos os cantos… e a gente escancara mesmo!” - Carla. ↓ rolar para baixo ↓ < Carla Cynthia
- Beatriz e Marina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marina e Beatriz, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quando estávamos fazendo as fotos ela brincou com a Bia dizendo para fazermos algumas fotos dançando e a Bia argumentou que ela não dançava com ninguém “só contigo”, e na fala da Marina ela traz essa ocasião, sobre a Bia se permitir à dança. E nesse permitir-se damos gancho ao assunto de que estamos em busca de nos permitirmos porque queremos justamente nos entender, nos cavucar, nos desvendar. E chegamos ao questionamento de: por que, na sociedade em geral, tão pouco as pessoas se permitem? Então entendemos também que o amor, de alguma forma, dialoga com estar dispostas a despertar coisas na gente para mudar o outro também. Um não-querer ser quadrado o tempo todo, estar limitado ou não ser um ser-pensante. Brincamos com a palavra “gelecas” porque Marina diz se sentir uma geleca, sempre em mil movimentos e não-sólida, como algo que consegue se moldar - mudar. Por fim, ficou a sensação de não querer nunca que essa “geleca” cristalize, se conforme, se adeque. Estejam sempre se transformando para que transforme, também, os outros. Por fim, entramos em um papo muito importante sobre o amor e sobre como as relações acontecem - não só afetivamente, mas como nos permitimos estar uns com os outros. A Bia entende o amor enquanto reconhecimento e enquanto uma força muito grande, uma vontade de estar de verdade com alguém - no companheirismo, na vontade de fazer coisas juntas - e de reconhecer, mesmo se não entender. Ela acha que a base do amor é a confiança e o diálogo e que, para além disso, nas relações com mulheres, sejam amigas, as mulheres da família, ou relações amorosas, existe uma força em querer se fazer o bem sempre. Essa força envolve o zelo, a escuta e o querer-justiça. São relações que ela preza muito. Para a Marina, existem duas coisas que estão muito relacionadas com o amor: a permissão e a pressa. A pressa, na verdade, é a espera, o ritmo, o tempo. Temos que aprender a esperar as coisas, a entender o ritmo do outro, a se adaptar ao ritmo do outro também… porque quando temos pressa, acabamos por cortar um pouco a graça das coisas, atropelar e deixar sem sentido. Já a permissão entra enquanto uma importância em se entregar, em tirar tabus, tanto sexual quanto emocionalmente: ter a confiança e a leveza de se permitir. Em seguida do começo do namoro (e no dia seguinte que o foraBolsonaro foi eleito), elas alugaram um carro e fizeram uma viagem para a Bahia. Foi muito importante ter esse momento não só pela situação tensa que todas nós mulheres estávamos passando (e elas, tendo uma a outra, estando juntas, se acolhiam e se ajudavam), mas por ser uma forma diferente de dar início ao relacionamento. Ao decorrer de toda a relação tudo sempre foi construído com muito diálogo e conversa. Elas estão juntas em muitos momentos e contam uma com a outra para tudo. Inclusive, o apartamento surgiu em um momento muito especial de mudanças e de olharem para si e entenderem que seria um passo importante morarem juntas. Foram meses procurando um lugar que fizesse sentido, que elas pudessem arcar com os valores e quando acharam esse, foi um completo acolhimento. Tudo nele tem a carinha delas e cada detalhe é pensado em conjunto. As duas são mulheres muito divertidas e acreditam que isso possa estar ligado à forma que, tanto elas foram criadas, quanto ao meio que estão inseridas. Acreditam no corpo enquanto livre e sem julgamentos e para elas é muito importante que as pessoas estejam realmente à vontade. A Bia conta que sua construção enquanto ser e suas maiores inspirações vêm da irmã e também da amiga, Mariana, que é colega de trabalho e quem a colocou dentro da agência. É uma pessoa que traz bastante admiração pelo estilo de vida, pelas questões profissionais dentro da fotografia e por tudo o que já ensinou. Já a Marina contou que ter feito balé desde criança a fez ter muita disciplina e aprender muito sobre a forma de lidar com os outros e ter responsabilidades, por isso também as professoras que a acompanharam durante todo esse processo são de grande importância para que ela tenha se tornado a mulher que se tornou. Ela fala sobre o quanto o olhar das professoras moldou o olhar que ela tem sobre as coisas. Além disso, a avó dela também é fonte de inspiração diária, por ser uma mulher da roça, sempre muito alegre, e sendo uma mulher não-branca, muito forte, que carrega muitas coisas na sua existência. No começo do relacionamento delas, ou melhor, antes de ser realmente um relacionamento sério, quando perceberam que estavam bastante envolvidas, surgiu uma certa insegurança. E aí dialogaram sobre o que fazer: encaravam? desistiam e seguiam suas vidas? Foi quando entenderam que estavam dispostas a encarar e começar algo em conjunto. Um tempo depois de ter terminado um relacionamento, a Bia se reconectou com uma amiga da escola e essa amiga estava namorando uma menina que era de Vitória e trabalhava na mesma empresa que a Marina, então a amiga e a namorada tiveram a ideia de apresentar as duas e uni-las enquanto um casal. A versão da história contada pela Bia é bastante simples: a amiga dela mandou uma mensagem falando da Marina e passando o Instagram dela para a Bia seguir e conhecer. Ela achou a Marina bonita, curtiu, mas não começou a seguir na hora. Um tempo depois a Marina começou a seguir ela e ela seguiu de volta. Foi isso. A versão da Marina, por mais que seja com o fim semelhante, começou de outra forma. Ela estava em uma fase que se permitiu se envolver e conhecer novas pessoas, mas estava indecisa ainda e uma amiga aleatória, naquela semana, chegou dizendo que tinha alguém para lhe apresentar. Quando mostrou o Instagram de uma menina, ela olhou e achou ok, mas não teve muito interesse, porém a menina tinha uma foto com outras pessoas marcadas e nessa foto estava a Bia, foi aí que ela entrou no Instagram da Bia, se interessou e passou a segui-la. No dia seguinte, ao encontrar a amiga em comum que ela e Bia tem, essa amiga disse que queria apresentar uma pessoa para ela e ela ainda brincou “nossa, o que tá acontecendo essa semana, que todo mundo quer me apresentar alguém?!” e quando viu o Instagram ficou em choque, porque era logo a menina que ela tinha seguido. Pensou: ok, eu realmente preciso conhecer essa menina, de alguma forma ou de outra, a gente vai ter que se encontrar! E foi então que Bia começou a segui-la de volta. Numa interação de stories sobre gatos, elas marcaram de sair. E o que era para ser um encontro em um restaurante todo bonito, bacana e conceituado, deu errado, mas deu certo: o restaurante estava fechado e o único lugar próximo era um boteco super “pé sujo”. Elas se deram tão bem que ficaram no bar até 4h da manhã, foram para a casa da Marina, a Bia saiu de lá no dia seguinte e, para fechar com chave de ouro o date de sucesso, saiu com as roupas da Marina porque o gato tinha feito xixi em todas as roupas dela. A Bia e a Marina são duas mulheres incríveis em cada detalhe do que constróem dentro do relacionamento e dentro do lar, desde o cuidado que têm com a casa, com o preparo da comida, com a forma que se tratam, até em suas visões de mundo, de poder de escuta ativa e da forma que lidam com as pessoas e com os animais. O encontro delas aconteceu por intermédio das amigas, mas ao decorrer da explicação a gente entende que era mesmo para ter acontecido. A Bia tem 24 anos, é carioca, fotógrafa e trabalha enquanto assistente em uma agência que presta trabalhos visuais para marcas de moda. Adora videogame, sonecas durante o dia, ler e acompanhar a Marina nas aventuras na cozinha. Marina tem 29 anos, é natural de Vitória, no Espírito Santo, mas mora no Rio de Janeiro desde 2014, quando cursou a pós-graduação. Ela trabalha enquanto publicitária e produtora, ama cozinhar, principalmente inventar receitas, quase como uma alquimia, testando comidas e temperos. O que ela e a Bia mais amam fazer juntas é assistir reality shows: de todos os tipos possíveis. Bia Marina
- Juliana e Marci
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Juliana e da Marci, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi após uma noite de natal, quando já estavam há alguns anos num misto entre amizade e flerte que, finalmente, a Juliana e a Marcyllene se beijaram e começaram a se envolver afetivamente. Elas se conheciam desde 2016, moravam em regiões próximas e tinham amigos em comum, o que facilitava com que frequentassem os mesmos lugares. E também já tinham se beijado em outros momentos, mas de alguma forma, não tinham sentido encaixar. Eram momentos diferentes, estavam com outras pessoas em mente e não sentiam ser o mais justo insistir em algo que não iria para frente. Entenderem que aquele não era o momento não impediu que elas seguissem com a amizade, o que gerou uma confiança e um respeito entre elas que foi alimentado e cuidado com o tempo. Assim, elas se encontravam, até participaram da fundação de uma Organização Comunitária no bairro, passavam todos os dias cuidando quando chegavam em casa tarde (por ser perigoso e por trabalharem em locais distantes) e seguiram por alguns anos a amizade, até a noite de Natal de 2019, que a Marci tinha recém voltado de uns meses que passou em Fortaleza e, depois da ceia, foi para a casa da Ju, se reunir com todos e celebrar. A Juliana tem 22 anos, faz graduação em hotelaria e trabalha como estagiária em um hotel no Rio de Janeiro. A Marci tem 25 anos, é técnica em saúde bucal e também cursa Ciências Ambientais, além disso faz alguns trabalhos como designer gráfico e transcrição de áudios. A Ju e a Marci são de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, de um bairro chamado Jardim Catarina, o mais populoso da cidade. O que mais gostam de fazer juntas é cozinhar, estar em casa tomando uma cerveja, conversando e também estudam bastante, trocando muito sobre coisas que aprendem. Elas entendem que quando estão com problemas respeitam muito os espaços, mas que se for preciso, resolvem juntas - o apoio é sempre muito presente. Logo no começo do relacionamento elas passaram por perdas familiares e estiveram juntas uma com a outra, oferecendo base e afeto. Contam que isso foi algo que sempre destacou, desde o início, porque sentem que podem confiar uma na outra de verdade. Na noite de Natal, quando a Marci acabou dormindo na casa da Ju, foi que finalmente o beijo aconteceu. Depois disso, já no começo de 2020, começaram a sair juntas enquanto um casal (não mais sendo apenas amigas) e a fazerem programas de casais, como ir ao cinema, cozinharem juntas… Mas neste momento, não estava claro para elas algum rótulo ou o que elas seriam, inclusive ainda saiam com outras pessoas e frequentavam outros lugares. Então, com o começo da pandemia e por morarem tão próximas (a Marci que sempre se locomovia muito de bicicleta e frequentava a casa da Ju) foi se tornando algo bastante natural ir até lá e ficarem juntas nesse período. A Ju entrou na faculdade, elas estudavam um tempo juntas em casa, se divertiam bastante, faziam diversos programas, mas sentiam que os passos delas enquanto um casal ainda eram muito lentos. Elas contam que não é por estarem juntas que necessariamente se envolviam, às vezes passavam semanas e não acontecia nada, rolava uma trava muito grande da Ju em relação ao que estava acontecendo e foi nesse momento que elas resolveram conversar e estabelecer melhor o que teriam. Nunca aconteceu um pedido oficial sobre o namoro, mas elas brincam que a verdadeira iniciativa veio da mãe da Ju porque elas cozinharam juntas no dia dos namorados e quando a mãe dela chegou em casa, disse: “Cadê a sua namorada???”. Foi aí que tudo começou. Até cantarolou depois “Juliana e Marcyllene estão namorandooo!”. Faz parte também entender que esse processo foi lento pela insegurança, pelo medo do preconceito familiar e pelo próprio envolvimento que já tiveram com outras pessoas e que saíram machucadas. Não é um processo fácil estarem abertas novamente para relacionar-se e, durante a conversa, fomos entendendo que talvez se elas ficassem juntas enquanto um casal, lá no começo, não teria dado certo… não teriam maturidade suficiente para entender seus momentos, seus espaços e seus tempos de processá-los. Para Marci o amor é um afeto mais cuidadoso. É sobre entender quem é o outro e que ele merece ser respeitado. Respeitado em diversos sentidos, desde sua orientação, até suas escolhas (profissionais, pessoais…). Quando você respeita o que a pessoa é, aprecia aquilo que ela oferece para o mundo e para todos ao redor. E na relação entre mulheres, ela sente que o respeito está presente na grande maioria dos momentos, pela conversa ser ativa, com escuta e atenção. Sente também que é possível existir mais colo, mais cuidado. A Ju explica que para ela o amor está literalmente nos mínimos detalhes: num sorriso ou abraço, numa palavra, no apoio. Acolher a pessoa por quem ela é, enxergando quem ela é. Ela acredita que nas relações entre mulheres o amor pode se demonstrar um pouco diferente porque as mulheres conhecem seus corpos, suas vivências e sabem se entender. Falamos também sobre a vivência que elas gostariam ter na cidade de São Gonçalo e no bairro em que elas moram, por ter um contato direto com cursinhos pré-vestibulares, organizações comunitárias etc. É impossível desviar a conversa da questão de segurança pública. O medo, ao sair de casa para trabalhar, é sempre presente. Não à toa falamos no começo sobre quando elas ficavam até tarde conversando quando ainda eram amigas para saber se chegariam em casa seguras, viver num local muito perigoso é nunca saber como será chegar em casa. A Marci disse que vê o quanto isso pode mudar quando as ações dos cursinhos, cine debates e investimentos na cultura são feitos por lá, já que são os grandes transformadores das pessoas e da sociedade - abrem um leque de possibilidades para novos futuros. Falamos também sobre como é importante pensarmos sobre o presente que temos e registrá-lo, registrar também as pessoas que vivem essa realidade e que não querem simplesmente sair dela e fingir que ela não aconteceu. A Ju e a Marci são mulheres que amam o bairro, que querem mudar, investir nele. Sentem ódio pelo o que ele se torna atualmente, mas além do ódio, querem ficar para mudar. É uma sensação de pertencimento, de raiz, muito forte - e de acreditar mesmo. De promover mudanças.
- Beatriz e Tayana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beatriz e Tayana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Para Beatriz, a Tay elevou o sentido de muitas coisas boas. Conta que seus traumas de infância criaram um pensamento presente de que nenhuma mulher algum dia se interessaria por ela, que nunca se sentiria amada, bonita ou desejada. Tay chegou demonstrando o quanto a admira, valoriza, quer estar com ela. E o mais importante de tudo: que não está sozinha. Faz muita questão de retribuir todo o carinho que recebe colocando a Tay “lá em cima” todos os dias também: relembrando o quanto ela é capaz. Apoia seus sonhos de lançar livros, fazer mestrado, doutorado. Reforça o quanto é linda, uma mulher incrível. Acreditam que o relacionamento está muito vinculado ao suporte. Tay demonstra amor nos cuidados: “Fiz o café”/”Comprei seu leite”. Bia tem dificuldade em aceitar, mas trabalham isso juntas. Querem construir uma família diferente dos moldes que tiveram, baseada no que acreditam. Beatriz, no momento da documentação, estava com 22 anos. É natural da zona norte do Rio de Janeiro, mas reside em Niterói, junto com a Tay. Está terminando a faculdade de licenciatura em história e já trabalha enquanto estagiária/professora assistente em escola particular. Conta que vem de uma família bastante homofóbica, se descobriu uma mulher lésbica no consultório fazendo terapia e, nesse processo, escolheu a UFF justamente por ser uma Universidade em outra cidade, um local em que poderia ser livre. Tayana, no momento da documentação, estava com 28 anos. É natural de São Gonçalo, num local próximo à Itaboraí. Também está terminando a faculdade de história, mas em bacharelado. Trabalha enquanto assistente de museologia. Se conheceram em 2019, quando entraram na mesma turma no começo da graduação. Beatriz era tímida, mas na empolgação do começo do curso se mostrou uma pessoa super simpática e desenvolta, o que chamou a atenção da Tay. Conversaram e se aproximaram durante alguns meses, até que em abril falaram o que sentiam. Bia trouxe uma caixa de bombom - que a Tay não gostava - de presente, elas tentaram se beijar e a Bia teve (literalmente) um teto preto e desmaiou… viveram algumas situações engraçadas. Mas o beijo rolou depois e desde então ficaram juntas. Tayana conta que por mais que tenha vivido uma adolescência com amigos LGBTs e tenha a presença de familiares gays, não permitia olhar para si mesma e viveu uma heterossexualidade compulsória durante alguns anos. Vivia uma realidade católica e bastante tradicional, não cogitava outras possibilidades, achava que as mulheres chamavam sua atenção pela admiração que sentia e só. Quando entendeu que não era apenas isso, contou para algumas pessoas e a resposta da maioria foi a mesma: “Ah, eu já sabia!”. Com a avó foi a parte mais difícil de se conversar, por conta das questões culturais que envolvia. Até hoje, mesmo que a família dela adore a Bia e convivam bem juntos, a avó ainda acredita que o homem é quem traz a estrutura da vida de uma mulher, então surgem conversas que afetam muito a vida delas enquanto um casal. Mas lidam com isso mostrando a cada dia que passa o quanto conseguem seguir suas vidas e serem independentes, acreditam ser essa a melhor resposta. A família da Bia, por sua vez, não conhece a Tay. Segue com princípios bastante preconceituosos e, mesmo elas morando juntas e eles sabendo da existência dela, não houve um encontro até então. No começo do namoro, a UFF era o lugar de segurança e o ponto de encontro delas. Como as famílias não sabiam, não tinham como ir para suas casas. Na rua, havia o medo de se beijar. A Universidade virava um refúgio. Depois de um tempo, Bia começou a morar sozinha em Niterói. Com a chegada da pandemia de Covid-19 em 2020 elas acabaram ficando muito juntas, ambas conseguiram seus empregos e foram dividir um lar. Seus novos desafios começaram nos últimos tempos, quando conseguiram comprar um apartamento juntas pelo Programa Minha Casa Minha Vida (um financiamento do governo para pessoas de baixa renda conseguirem moradia). Está quase pronto e elas estão pagando juntas; A formatura também está chegando, sentem que são novos passos conquistados. Não foi fácil alinhar a vida financeira - e nisso falam sobre a importância da terapia para conseguirem manter conversas, falar sobre o cuidado com a casa, manterem um alinhamento. A questão familiar ainda mexe muito com elas, querem que até a formatura as famílias já se conheçam, que o preconceito seja quebrado, mas isso requer muita coragem de se enfrentar. Por fim, para além dos desafios, preenchem seus dias com passeios, idas em locais culturais, bares, restaurantes, assistindo séries e prezando muito pelos momentos de conexão. Valorizam os domingos em casa, fazendo almoço e assistindo ao jogo do Flamengo. ↓ rolar para baixo ↓ Tayana Beatriz
- Clara e Antônia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Clara e da Antônia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A história da Maria Clara e da Antônia te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Antônia tem 24 anos, é apaixonada por música, toca violão e piano. Também ama séries e filmes, desde sempre entendeu a importância do cinema na vida dela. Ama estar dentro do cinema, de explorar cada detalhe, de aprender com os filmes. Foi no cinema que ela e a Clara mais se encontraram, é como uma terapia para as duas e com certeza uma das coisas que elas mais sentem falta porque não conseguem ter a mesma experiência em casa. A Clara tem 22 anos, adora fazer atividades físicas (alô crossfit!), ela e Antônia amam viajar juntas e jogar The Sims. Por fim, elas falam sobre como adoram descobrir novos lugares e como ficam empolgadas quando encontram lugares representativos para nós, mulheres LGBTs. Desde espaços de cultura, casas de acolhimento, postos na praia, bares, boates… enfim, espaços que dialoguem com mulheres, não só com homens gays, porque caímos em uma ideia de falar que o espaço é para a “comunidade LGBT” e quando entramos nele só vemos a presença de homens gays, tendo no máximo você e uma outra mulher no local (muitas vezes, heterossexual acompanhando algum amigo gay). Falam o quanto acham sensacional lugares que realmente pertencemos, que nos fortalecem e que nos representam, e que fazem de tudo para colaborar e voltar para que eles sigam existindo. A Maria Clara e a Antônia se conheceram no Tinder, em 2019. Deram match e começaram a conversar logo falando sobre o que tanto amam: McDonalds! Depois de uns dias trocando ideias, decidiram ir ao shopping, jantar e assistir um filme no cinema. A Clara brinca que quando viu a Antonia logo soube: “vou namorar essa menina!”. Decidiram marcar o próximo encontro para o fim de semana, na Urca. Como ambas são cariocas, a Clara adora lugares com vista e pensou que seria um bom lugar. Elas se encontraram, seguiram se dando bem e um encontro foi levando ao outro. Uns meses depois aconteceu o pedido de namoro. Hoje em dia, as famílias apoiam, elas seguem amando McDonalds, fazendo do Drive Thru um dos rolês favoritos e o relacionamento cresce e se fortalece com o tempo. ♥ A Clara entende que o amor é o primeiro sentimento que temos de verdade na vida, seja pela nossa família, através do cuidado, do acolhimento, do conforto... é o sentimento que faz com que a gente se encontre. E entende também que temos um tipo de amor para cada pessoa, ou seja, amamos cada pessoa de um jeito: cada amigo, cada familiar… é semelhante, mas é diferente. É único. E só você sabe que está amando. Ela sente que primeiro se encantou pela Antônia, e então se admirou, se apaixonou… até que se viu amando. Foi montando as pecinhas. Tudo exigiu tempo, construção e sentimento. Quando conheci a Maria Clara e a Antônia, as coisas que me chamaram atenção logo de cara em ambas foram suas profissões e a forma que elas falam sobre isso: a Antônia é professora de inglês, e a Maria Clara é estudante de medicina, mas já trabalha em hospital. Antônia, quanto pensa em amor, antes de remeter ao amor romântico ou algo do tipo, primeiro lembra sempre dos alunos dela. Entende que amor é amor, por isso não tem cor, gênero, nacionalidade ou qualquer outra coisa. O amor acontece pelo o que a gente sente, seja quem for. Mas entende também que por trás de tudo existe um viés social, então amar uma mulher, por exemplo, é algo que não fomos criadas para fazer… ninguém nunca nos criou para amar alguém que é igual a gente, e talvez seja por isso que é mais difícil e mais doloroso. Mas talvez, também seja por isso que é tão mais bonito e mais intenso. Ela entende que o papel dela enquanto mulher e enquanto professora é ensinar aos alunos cada um dos seus privilégios e plantar uma sementinha sobre o que podemos fazer de diferente no mundo e sobre o fato de que para que o mundo seja de todos, ele não pode ser de ninguém. Assim que eu soube que a Clara estudava medicina, quis entender como a pandemia tinha impactado no que ela pensava sobre a profissão que queria seguir e como foi/está sendo vivenciar esse momento tão crítico. Ela comentou o quanto foi difícil no começo, tanto para elas (por conta de se verem de forma limitada, por verem muitos casais que eram referência se desfazendo e vendo o relacionamento delas se balanceando por isso), quanto por todo o período incerto que se dava. Foi um período de muita ansiedade, porque a quarentena também nos forçou a lidar com o nosso próprio corpo e nossas próprias inseguranças, além de toda a insegurança do mundo exterior e das emoções à flor da pele. Por mais que no hospital ela não esteja diretamente no setor Covid-19, ela segue trabalhando e de certa forma tendo contato, então reflete bastante sobre o papel de cada profissional na área da saúde e dos profissionais de todas as áreas, sobre como a profissão de cada pessoa é afetada. Em muitos momentos viu a vida dela se transformando em um único assunto, só soube pensar e falar sobre a pandemia. Hoje em dia, por conta da vacina e da retomada do comércio e de algumas atividades, ela tenta se ver mais tranquila, mas ainda é um processo diário de aprendizado também. Maria Clara Antônia
- Sharon e Vivi
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Sharon e da Vivi, quando o projeto passou por São Paulo. Por fim, falamos também sobre o futuro e sobre mudanças sociais que gostaríamos de enxergar. A Sharon trabalha atualmente em uma empresa própria que atua um pouco entre turismo e entre o meio corporativo… as empresas contratam a plataforma dela para premiar seus funcionários através de campanhas de venda/metas/aniversário de casa e os prêmios são bastante variados, mas antes da pandemia envolviam viagens, jantares, presentes, passeios de balão, etc. Ela enfrentou um baque muito grande na pandemia, precisou devolver a sede fixa, passar por muitos cortes, inclusive de funcionários, se reinventar muitas vezes de muitas formas. Hoje em dia se adaptaram para que os presentes sejam em casa (e ainda possuem alguns fora), mas reflete muito sobre como tudo precisou ser mudado e sobre como as mudanças vão demorar anos para nos restabelecerem. Ela fala também sobre a importância de ocupar espaços sendo quem somos, de dar as mãos em público, de falar com os filhos, estabelecer diálogos, abrir mentes. Sobre esse trabalho que acaba sendo um pouco de um a um, mas que traz representatividade e que vai mudando em comunidade quando o primeiro decide dar o passo. A Vivi também entra nesse assunto, mas com um ponto de vista da realidade que ela vive envolvendo a agroecologia. Fala sobre a importância da reforma agrária, sobre a quebra de acúmulo absurdo de capital que existe no mundo atual e traz um ponto muito importante: o de trazer mulheres pretas invertendo as coisas. Ela explica que é quem ela é pelas pessoas por quem ela passou, e que essas pessoas por quem ela passou não são brancas, por isso quer ver pessoas não brancas nos espaços de poder, nos espaços que ela frequenta, em todos os espaços que puderem ser possíveis estar. Acredita que só assim as coisas terão alguma chance efetiva de dar passos para frente. Da mesma forma, ela tenta ensinar tudo o que pode para a Rafa, porque acredita também que uma Rafa lá na frente vai fazer a diferença. “Pessoas reais ocupando espaços reais são o que, no dia a dia, faria reflexo”. Quando falamos de amor, a Vivi entende que o amor é você se permitir colocar no lugar do outro: de toda criatura. Seja pessoa, seja planta, seja bichinho. É se colocar e estar bem se colocando. Sentindo calor no peito, uma plenitude e um saciar, ou melhor, um transbordar. E por mais que não concorde, por mais que sofra, você não sente sozinha, porque o amor é social. A Sharon acha que o amor envolve nunca querer ver a pessoa que você gosta triste. Acho que no começo a gente interpreta essa frase de uma forma, mas é possível ler ela de inúmeras maneiras. Primeiro porque sempre fazemos de tudo pelas pessoas que a gente gosta, meio que sem explicações, não sabemos como explicar isso, mas a verdade é que fazemos porque gostamos. E aí entram nossas mães, filhos, amigas, pessoas amadas… E segundo porque entram situações como a dos filhos, por exemplo, que você precisa ensinar a frustrar, porque se você não ensinar, você não ama, e você ensina isso porque você quer ver ele bem. É quase que uma loucura, mas faz parte desse amor. É uma forma de sempre ir se desdobrando para chegar num objetivo final, que é sempre trazer coisas boas à pessoa que você gosta, e não deixar ela triste. Quando destinamos esse amar ao assunto de amar outra mulher falamos que o amar outra mulher é sensual - “porque é um afeto de mulher, é uma condição de mulher” - e é também se ver longe de muitos machismos. A Sha identifica a relação das duas como um encaixe, como algo que ela nunca teve com ninguém, ainda mais com um homem. Principalmente pelo cuidado, pelo apreço, pela comunicação… por algo que só a mulher saberia proporcionar. Citamos por um tempo a questão de quando uma mulher está em um dia que ela não quer ter relações sexuais, por exemplo, ela pode falar, que as duas vão arranjar algo para fazer juntas, uma comida gostosa, assistir um filme ou qualquer outra coisa, enquanto milhares de mulheres passam por relações de forma “obrigatória” por não conseguirem dizer que não querem ter uma relação sexual com um homem. Como pode isso ainda acontecer com tantas mulheres? E de que forma também as outras relações poderiam ter mais diálogo? Ou, de que forma que em relações heterossexuais normativas, por exemplo, os casais pudessem trabalhar melhores formas de escuta? Manter a casa e a família é um desafio muito grande e a casa surgiu em um momento de muito aperto também, foi logo depois que elas contaram para as crianças e quando a Sha ainda morava em um apartamento sozinha com os dois pequenos que houve uma tempestade em São Paulo e muitos pontos alagaram, inclusive este prédio em que ela morava. Foi uma situação de muita correria e desespero, porque a garagem inundou, tiveram que retirar as pessoas do local, a Vivi ajudou ela com as crianças e por conhecerem e terem contato com a vizinhança, a comunidade e o pessoal da escola, alguns conhecidos souberam do ocorrido e comentaram sobre uma casinha que estava ficando disponível porque os inquilinos estavam saindo do Brasil. Decidiram dar uma chance e fazer uma visita, talvez pudesse ser legal, estar em boas condições e ser um valor possível de pagar, então marcaram um horário. Quando chegaram, a primeira coisa que viram foi o portão amarelo e aí a Vivi reconheceu que justamente ali, o portão e a árvore de Ipê que ficava em frente à ele, foi ela quem plantou há anos atrás, quando foi convidada a vir ao bairro fazer parte de uma arborização. Tudo na história foi se encaixando perfeitamente e a casa coube direitinho nos planos: virou o lar. A relação dos quatro também foi uma construção de muito cuidado e muuuuuuuito afeto. Por mais que elas transbordem amor, a família paterna das crianças ainda é um tanto quanto homofóbica, então elas enxergam que na nossa sociedade existem lados muito opostos sobre as coisas. A Sha e a Vivi acabam falando mais sobre a Rafa, por conta dela ser maior e já entender melhor como tudo funciona e por apoiar e defender muito as duas na frente da família paterna, o quanto ela mesmo já reconhece as duas enquanto mães e a forma que em detalhes mostra o apoio, desde ouvindo músicas de cantores LGBTs até desenhando e pintando vários quadros de arco-íris pela casa. Tanto ela quanto o Raul entendem que o preconceito ainda existe no mundo, mas muito mais que isso entendem o amor deles pela Vivi, porque são apaixonados por ela. Quando ela está no sítio eles ficam doidos para que ela volte para São Paulo, sentem saudade, querem ela perto. E assim vão construindo suas rotinas e tendo suas vidas enquanto uma família. Eles a reconhecem e isso é o que importa. Aos poucos elas foram se encontrando e ficando realmente juntas. A Sharon, há um tempo atrás, já preparava os filhos em casa introduzindo assuntos como esse. A Rafa hoje em dia tem 12 anos e o Raul tem 7 anos, e ela sempre falou muito sobre diversidade, sobre as pessoas serem livres para amar quem elas sentirem atração, sobre as múltiplas lutas sociais e tudo o que nos envolve. Foi um passo muito importante assumir o relacionamento com a Vivi e também muito engraçado ouvi-las contando. Como eles eram bem mais novos, tudo ainda era uma incógnita e elas não sabiam como reagiriam. O fatídico dia realmente aconteceu logo depois do natal, quando as crianças foram passar a ceia na casa do pai, a Vivi foi até a casa da Sharon e deixou alguns bombons de FerreroRocher. Quando as crianças chegaram em casa, no dia seguinte, encontraram o presente e estranharam, porque a Sha não costuma comprar chocolates, então ela chegou e falou “vem cá! Senta aqui!” e em seguida “gente, é o seguinte! A mamãe tá namorando! E é uma menina!”. Ela conta a cara de surpresa em tom muito animado que a Rafa fez, enquanto ela completava “e foi ela quem deu esse bombom para vocês!”. E então eles piraram, ficaram animados, fizeram uma vídeo chamada com a Vivi, que já estava em Minas Gerais passando o Réveillon e marcaram de se conhecer pessoalmente assim que ela voltasse no início do ano. O encontro aconteceu e foi uma viagem, uma trilha que durou alguns dias. Foi incrível, em um lugar muito bonito. No primeiro dia envolveu um certo estranhamento das crianças sentindo que a mãe estava namorando alguém, mas no decorrer da viagem já estava todo mundo se divertindo e no último dia a Rafa deu uma flor de presente para a Vivi. Ela conta que pegaram ondas juntas e que todo mundo se divertiu muito. Hoje em dia todos moram na mesma casa, trocam muito e falam sobre a educação das crianças o tempo todo. A Sha conta que sente que as coisas aconteceram no momento certo, porque elas vivem uma maturidade única agora, e as crianças também. A Rafa entrando na adolescência com a presença das duas é muito importante, porque ela pode se sentir à vontade para compartilhar muitas coisas e a Vivi acolhe muito ela também, as duas possuem muita confiança uma na outra. Por mais que estejam juntas há um pouco mais de dois anos e meio, a Sharon e a Vivian se conhecem desde os 14 anos. Tudo começou quando a Vivi fazia capoeira com a irmã da Sha, dos 14 até os 17. Depois disso, por mais que as melhores amigas delas sempre se mantivessem em contato e elas sempre ouvissem falar uma da outra, elas seguiram a vida e não se viram mais. Cresceram, casaram, se mudaram e nunca se encontraram. Foram muitos anos depois, logo depois da separação da Vivi que ela decidiu sair de casa e ir até um samba encontrar as amigas e quando chegou lá viu a Sha. Importante contar que a Vivi, desde os 14, sempre se relacionou com mulheres, enquanto a Sha foi pelo outro lado: ela se relacionava com homens quando era mais nova, então se casou, engravidou, divorciou e depois ficou com a primeira mulher. Nessa época, ela já tinha tido algumas experiências e estava lá curtindo o samba. Elas brincam que não sabem o que aconteceu exatamente, mas estavam sentadas uma do lado da outra e a Vivi grudou a perna na perna da Sha. Foi um ímã. Ela colou a perna e a partir daí surgiu a possibilidade delas se beijarem. Quando o beijo rolou, todas as amigas comemoraram muito! Ou melhor, nem acreditavam! Imaginem só. Eram as melhores amigas de todas as amigas, juntas! E foi aquele beijo de levantar perninha, de seleção brasileira vibrar! Ter encontrado a Sharon e a Vivian foi uma das melhores surpresas que o Documentadas poderia ter recebido em sua primeira passagem por São Paulo. Por mais que toda história tenha sua carga gigantesca de importância e seu conteúdo único no nosso banco de registro e de dados, a Sha e a Vivi ocupam um espaço de reflexão e aprendizado grande não só no projeto, mas na vida e no dia de quem irá percorrer os olhos lendo e conhecendo suas histórias no texto a seguir. A Vivian tem 37 anos, é agrônoma e agricultora, trabalha diretamente na roça, em uma fazenda no triângulo mineiro. Vive entre Minas Gerais e São Paulo, lugar onde divide a casa com a Sharon, os filhos (a Rafa e o Raul) e as duas cachorras mais simpáticas da zona sul. Já a Sharon também tem 37 anos, mas ela é total São Paulo, por mais que ainda seja apaixonada pela natureza em todas as suas formas e jeitos. Ela trabalha em uma empresa própria, que atua em um ramo sobre premiação por experiências (no decorrer do texto falamos mais um pouquinho sobre!) e, além dos trabalhos, ela e a Vivi também fazem diversas atividades na luta política - arrecadam doações para as comunidades próximas, possuem ligações com as mulheres agrônomas do MST e a Vivi também é veiculada à um grupo de agroecologia em Uberlândia. Acredito que a casa delas, no meio da zona urbana e de tantos prédios em São Paulo, nos faz quebrar qualquer ideia pré estabelecida sobre a cidade cinza. É uma casa que, além de um portão amarelo e as paredes cheias de artes feitas pelas crianças, a alegria das cachorras e a animação natural do ambiente, conta com um terraço repleto de plantas, flores e pássaros que chegam livres, das árvores, para comer as frutas que elas colocam. São de muitas espécies, tamanhos e ficam muito dóceis por já estarem acostumados em ganharem as frutas. Foi neste ambiente que conversamos e nos conhecemos. Esqueçam barulhos de carros ou poluição e céu cinza, por ali só tivemos pôr do sol e muita cantoria ao vivo! ♥ Sharon Vivian
- Clara e Laura
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Clara e da Laura, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Clara e Laura, por mais que estejam há pouco tempo juntas, entendem que já passaram por muitas coisas. Seja pelo fato de que vivem a grande maioria dos dias na casa da Clara, ou por serem muito dispostas uma para a outra, acabam todos os dias topando diversos eventos diferentes, desde que estejam juntas. É na rotina que criaram que Laura entende o que é o amor. Quando lembra de ter se assumido durante o período que estão juntas, também reflete que foi ali que se permitiu viver detalhes cotidianos: dormir e acordar com quem se gosta, compartilhar o dia com a família, sair com os cachorros para passear sem medo e receio de que alguém pudesse ver… São coisas muito simples, porém que não poderia viver antes, e hoje em dia encontra seu sentido de amor no cotidiano. Clara complementa que para além dos fatos diários, tem o ponto chave para ela: o cuidado. Elas cuidam muito uma da outra e de quem amam: sejam os amigos, a família, os bichinhos, o curso que estudam na faculdade. Tratam tudo com muito cuidado, até mesmo nas palavras, e é no carinho que uma demonstra pela outra ao ter cuidado que enxerga o amor. = Laura, no momento da documentação, estava com 20 anos. Ela estuda Relações Internacionais na PUC-Rio, é carioca, adora ler e escrever. Clara, no momento da documentação, estava com 22 anos. Ela também é carioca e estuda Psicologia na PUC-Rio, se forma esse ano e está completando o estágio na clinica social da universidade. Clara também ama escrever, já lançou até um livro, mas hoje em dia se vê um pouco distante do hobbie, pretende voltar. Ambas são muito próximas das suas famílias, contam que suas mães são as maiores amigas e inspirações que possuem e admiram tudo o que já foi conquistado por elas. E hoje em dia, como ambas as mães sabem sobre suas relações, gostam bastante de conviver em família. = Laura gosta de pensar que a história delas é dividida em duas partes: uma da qual elas não se encontravam mesmo estando nos mesmos lugares durante meses (e tendo amigos em comum/vivendo situações em comum) e outra em que elas finalmente se encontram e começam a se envolver. A primeira vez que se esbarraram foi nos jogos universitários, que aconteceram no interior do Rio de Janeiro. Ambas fazem parte de atléticas dos seus cursos e, lá, durante os dias de jogos, se viram na arquibancada pela primeira vez. Até esperaram se encontrar nas festas que tinham no fim do dia, mas não aconteceu. Voltaram para o Rio sem ao menos conversar. Laura achou o perfil da Clara nas redes sociais e adicionou - enquanto Clara achou que era apenas uma menina hétero com amigos em comum e aceitou. = Um tempo depois, com suas vidas seguindo rumos bem distintos, começaram a conversar através do Instagram. Enquanto o tempo foi passando Clara já tinha entendido que a Laura era uma mulher que se relacionava com outras mulheres e que estava solteira, foi quando começou a demonstrar interesse. Passaram muito tempo conversando e não conseguiam se encontrar: quando uma chegava na faculdade a outra estava saindo, nas festas de universidades quando uma estava a outra não ia, e assim seguiram até que um dia Clara chamou a Laura para um date. Ela topou, mas novamente não conseguiram se encontrar por imprevistos no dia e o tempo foi passando. Clara brinca sobre o quanto é uma pessoa emocionada e apegada, então mesmo sem encontrar a Laura já sentia corações saindo dos olhos… Os amigos, por sua vez, orientavam: “Tenha calma!”, mas quando ela percebia já estava se deixando levar novamente. Foi quando marcaram de sair em uma confraternização dentro da própria faculdade. Havia muita gente, estava um tanto quanto caótico, mas junto com todos os amigos (que já sabiam da existência uma da outra, de tanto que conversavam), conseguiram se encontrar e tiveram o primeiro beijo. = Desde que se beijaram pela primeira vez, seguiram conversando. No dia seguinte, Clara mandou uma foto que tiraram juntas para a Laura e marcaram de se reencontrar na próxima semana. Numa quarta-feira foram beber cerveja em um bar qualquer, depois viram o jogo do Flamengo e seguiram numa sequência de fechar bares até às 4h da madrugada. Sentiam que não queriam se separar, encerrar a noite: queriam ficar juntas. Antes do encontro ficaram com muito medo de uma falar demais, a outra ser tímida, mas eram duas tagarelas e acreditam que se dão até melhor por conta disso: quando uma está quieta é porque tem algo errado. E entender o que está errado nesses momentos também é um novo desafio. São pessoas que se veem entre muitos diálogos, sentem as coisas de forma parecida, mas desejam cada vez mais um relacionamento comunicativo, que entende seus tempos, dores e individualidades. = Fizemos as fotos na casa da Clara e também numa rotina que as representa muito: sair com os cachorros. E, dentre o encontro, outros detalhes estiveram presentes também: como os símbolos da lhama e do pato, animais que representam suas atléticas, e que acompanharam nos pedidos de namoro e escritas na parede da casa. Hoje em dia planejam viagens, gostam de misturar os amigos (que viraram um grupo só) e também de ficar em casa, comendo e assistindo filmes e séries. São mulheres muito dispostas, desde acordar cedo para tomar café uma com a outra antes dos seus afazeres começarem, a vivenciar coisas que nunca imaginaram só pela alegria de estarem juntas. ↓ rolar para baixo ↓ < Laura Clara
- Mayara e Clara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mayara e da Clara, quando o projeto passou por São Paulo! Foi através de um aplicativo de relacionamentos, em 2016, que a Mayara e a Maria Clara se conheceram. Elas conversaram um pouco, trocaram algumas ideias... e um tempo depois, a Clara estava numa roda de amigas, conversando, na rua, quando viu uma moça passando e identificou as tatuagens e o jeito parecido com “aquela que havia dado match no Tinder”. Ela conta que Mayara veio lhe encarando, mas que ambas não tinham certeza se eram mesmo quem imaginavam, então trocaram mensagens para se certificar, do tipo “eu passei por você agora há pouco?" e interpretaram aquele encontro como um sinal, para se encontrarem mesmo, com data e hora marcada, em breve. No fim de novembro de 2016 foi quando começaram a se relacionar e vivenciar momentos de altos e baixos, idas e vindas. Em setembro de 2017, quase um ano depois, foi quando realmente entenderam o que tinham enquanto um namoro. Esse entendimento e essas “idas e vindas” levaram tempo por conta de processos bastante internos e hoje, olhando para trás, percebem que o relacionamento mudou muito desde o início. Parte desse processo vinha de uma movimentação mais defensiva da May, que aos poucos foi compreendendo que elas estavam juntas para se ajudar. Nesse primeiro ano, a May sofreu um episódio de homofobia bem doloroso. Ela estava sozinha, num lugar até então seguro e foi agredida por pessoas que chegaram de fora da sua casa. Esse movimento de passar por violências muito graves que jamais imaginaria trouxe muito sofrimento e também um sentimento de querer encontrar a Clara por a entender como um apoio e alguém com quem poderia contar. Enquanto a Clara, por sua vez, respeitou e acolheu de forma essencial, deixando com que mesmo entre muitas dores, a May pudesse se sentir em segurança ali. Assim, com o passar do tempo e dessas turbulências, elas foram amadurecendo o sentimento. Outras coisas que envolviam a relação também foram amadurecendo naturalmente, como ciúmes, relações com familiares (que passaram a compreender e apoiá-las) e o próprio respeitar espaços de cada uma foi fundamental para que a relação pudesse ter maior conexão e intimidade. Tanto a Mayara, quanto a Maria Clara, possuem 28 anos. Mayara é de Rio Claro, mas foi morar em Campinas há 9 anos para ser publicitária - profissão que desenvolve em uma agência - trabalha com atendimento ao cliente também, além de alguns trabalhos com redação, que é o que ela mais gosta. A Clara é boleira, faz bolos por encomenda, tanto caseiros, quanto para festas (e são muuuuuuito gostosos!). Além disso, a Clara também faz alguns trabalhos temporários em atendimento e suporte ao cliente. Ah, outra informação sobre elas que não poderia faltar, né? Elas são opostos complementares nos signos: áries e libra - e isso sempre esteve presente nas conversas, desde que se conheceram. No momento que nos encontramos conversamos bastante sobre a pandemia, elas contam que a adaptação foi difícil, tanto no trabalho, quanto na relação, na vida, nas amizades, no dia a dia. O trabalho envolvia vendas na presencialidade e tiveram que trazer os clientes para o meio online, sendo um desafio imenso, sentindo desconfortos pelas videochamadas, desconhecimento de tecnologias, foi uma adaptação bem grande. Elas entenderam que trazer o conforto para a situação é o maior desafio em seus trabalhos, tentam descontrair e fazer os clientes se sentirem tranquilos, mas ligar uma câmera não é fácil (e possível) para todo mundo. Além disso, foi difícil parar de fazer o que mais gostavam, como sair com o Paçoca (o cachorrinho mais educado e querido desse mundo!), ir à praia e sair um pouco do mesmo espaço dentro de casa para conseguir se movimentar, então perceberam ansiedades aumentando, momentos de maiores cobranças e imediatismos. A forma de tentarem se ajudar e deixar tudo mais leve foi reinventando os espaços em casa, a May se mudou para dividir o lar com a mãe da Clara e a Clara e a partir disso elas passaram o tempo livre maratonando séries, compartilhando refeições e investindo nos instrumentos musicais. Elas têm se permitido sair para andar de bicicleta, brincar com o Paçoca, visitar a família e ir até a casa no sítio. Elas sempre se enxergaram dispostas a viver o amor e a estarem juntas e isso é o que mais se destaca para a Mayara. Ela diz que ambas sempre estão percebendo uma à outra de maneira inteira, com suas qualidades e defeitos. Quando enfrentam momentos em que as coisas se tornam um pouco mais sensíveis, entendem que é preciso encontrar força conversando e buscando uma na outra, porque o amor está também nessa persistência, nessa vontade de estar juntas e nesse encaixe que ele possibilita. A Clara percebe que o amor é desejar e entender o que queremos para o outro (a pessoa com quem nos relacionamos) e para a gente (a nossa relação) - e não só, para que isso se espelhe/se reflita nos outros também, nas nossas relações com as pessoas que estão ao nosso redor, visto que o amor não precisa envolver apenas o romântico e o sexual. Ela acredita que amor envolve companheirismo, incentivo, uma parceria mesmo. Isso faz com que as coisas permaneçam fortes e saudáveis ao longo dos anos, trazendo essa preocupação em relação ao bem estar… e, principalmente entre as mulheres, no que envolve afeto, porque acredita que o companheirismo e a escuta são nossas principais características. Tivemos várias conversas sobre como vimos as relações humanas hoje, além do relacionamento delas, mas como as pessoas se relacionam hoje em dia e, alguns dias depois, recebi uma mensagem falando como foi importante a participação no projeto porque fez com que elas olhassem para o relacionamento delas com maior respeito pela história que construíram juntas. Fiquei feliz pelo o que o Documentadas provoca na gente, esse autoconhecimento, mas também pelo reconhecimento que merecemos ter porque nos amarmos, enfrentarmos tantos preconceitos e termos uma história que resiste e que se permite conhecer, estar aberta e aprender com seus erros, é de fato, ter coragem. Obrigada por compartilharem a história e aproveitem o amor de vocês, meninas ♥ Mayara Maria Clara
- Dede e Laura | Documentadas
Laura, no momento da documentação, estava com 23 anos. É natural de Salvador. Artista multifacetada, ela canta, compõe, escreve poesias e também é empreendedora com sua própria marca de roupas e acessórios. Como mulher de axé, conectada ao Candomblé, sua arte e espiritualidade se entrelaçam. Além disso, Laura é autora do e-book “Fôlegos” e taróloga. Deise - Dede - estava com 42 anos no momento da documentação e também é de Salvador. Percussionista, toca com diversos artistas como Larissa Luz e a banda onde Laura também atua cantando. É artista e escritora do livro “Lesbiandade”, publicado pela coleção Feminismos Plurais. Foi através da arte que começou a compreender as estruturas de gênero, raça, classe e sexualidade, desenvolvendo uma visão crítica sobre como o machismo atravessa a vida das mulheres, especialmente as negras e as que desafiam normas ao assumirem sua sexualidade. A música não só transformou seu olhar, mas também fortaleceu sua luta contra as opressões. Além de seu trabalho artístico, Dede é assistente social e dedica-se ao apoio à população em situação de rua. Mestra em Estudos sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia, ela combina sua experiência acadêmica com sua vivência artística para construir espaços de resistência e transformação Em novembro de 2021, Laura foi a um show onde Dede se apresentava. Nunca tinha visto ela antes, mas assim que a viu tocando, algo a prendeu. Conhecia a banda, mas Dede era uma novidade, e Laura se sentiu vidrada. Naquela época, Laura ainda namorava, mas a presença de Dede deixou uma marca. Foram apresentadas rapidamente após o show, mas Laura sentiu que havia passado despercebida. Nos dias seguintes, tentou encontrar Dede nas redes sociais, mas acabou “deixando quieto”. No entanto, não conseguiu evitar voltar ao perfil dela de tempos em tempos, atraída por algo que ainda não conseguia explicar. Quase um ano depois, Laura já estava solteira, mas como Dede não havia mostrado interesse antes, decidiu não ir atrás. Enquanto isso, em outubro de 2022, Dede estava na praia quando uma amiga a chamou para um samba de mulheres pretas. Quando chegou, Dede viu uma mulher linda cantando e ficou hipnotizada. Sem hesitar, virou para a amiga e disse: "Vou casar com essa mulher!" A amiga achou graça e respondeu: "Tá doida?", mas Dede reafirmou, convicta. Aquela mulher no palco era Laura. Dede conta que o que a encantou foi algo subjetivo - talvez o swing, os gestos, ou a presença marcante de Laura no palco. Como já trabalhava com música, era mais fácil ela perceber essas coisas. Sentiu algo diferente naquele momento. Não sendo uma pessoa que paquera, ganhou coragem de ir falar com ela depois do show graças às cervejas que já tinha tomado. Quando chegou para conversar, elogiando a atuação de Laura no palco, ela respondeu dizendo que também conhecia o trabalho de Dede. Quando Laura disse que conhecia o trabalho de Dede, ela ficou surpresa e perguntou: “Que trabalho?”. Foi então que Laura relembrou o momento em que haviam se conhecido, um ano antes, naquele show em que Dede parecia não “dado muita bola”. Durante essa conversa inicial, Laura ficou confusa: “Será que ela está me paquerando ou só veio me elogiar?”. Dede, pouco depois, voltou a procurar Laura e foi direta: “Olha, eu não sei paquerar, mas te achei linda, então vim aqui falar com você”. Laura explicou que estava solteira, mas que naquele momento estava acompanhada. Mesmo assim, garantiu: “Te procuro no Instagram depois”. Melhor ser honesta que mentir, né? No início, a comunicação online foi complicada. Dede demorava para responder, enquanto Laura tentava chamar sua atenção de forma sutil. Aos poucos, começaram a conversar com mais frequência. Em novembro, se esbarraram por acaso em um show. Dede viu Laura, mas não foi notada e acabou mandando uma mensagem. Depois desse dia, combinaram um encontro no mesmo lugar onde a documentação aconteceu. O primeiro encontro foi intenso e muito especial. Passaram os primeiros dias juntas, conversando e criando uma conexão forte. Logo falaram sobre como estavam lidando com outras relações, mas depois de uns dias tiveram um desentendimento que as afastou por cerca de três meses. Em abril do ano seguinte, reabriram o diálogo, viajaram juntas e perceberam: estavam apaixonadas. Decidiram que só fazia sentido ficar juntas se fosse para namorar. Na viagem, criaram diversas músicas e, a partir delas, sonham em lançar um EP. Além das canções, adoram produzir poesias e outras formas artísticas uma para a outra, construindo não apenas uma relação, mas também um universo criativo compartilhado. Hoje, Laura e Dede dividem a vida entre Abrantes e Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador. No novo apartamento, chegaram praticamente sem móveis, começando do zero: primeiro um colchão, depois os móveis e, por fim, as mesas e decorações. No primeiro final de semana, dormiram em um tapete de yoga, com o sol da manhã iluminando a casa vazia. Agora, com cada canto ganhando forma e se transformando em lar, sentem uma alegria imensa ao verem o espaço refletir a história que estão construindo juntas. Durante a conversa, conversamos como o amor delas ecoa na família quebrando barreiras. Laura menciona o exemplo de seu pai, pastor, que apesar dos preceitos religiosos e do julgamento externo, abre a casa para as duas com o coração cheio de acolhimento. Para ela, isso demonstra que o amor pode ser maior do que as convenções. Dede também destaca como esse apoio é um reflexo da conexão que construíram, que respeita a individualidade de Laura, sua religião e sua jornada pessoal. Dede complementa que o amor delas está nos detalhes do cotidiano. Desde o cuidado em lembrar a toalha esquecida no banheiro até os gestos que fortalecem a parceria diária, o carinho está sempre presente. Apesar da diferença de idade, Dede sente que isso não interfere na relação. Ela conta que Laura, com sua coragem e enfrentamento à vida, a inspirou a apresentar, pela primeira vez, uma namorada oficialmente à família, não apenas como “amiga”. Para Dede, esse passo foi poderoso, pois reconhece que dar nome ao amor é uma forma de enfrentamento ao patriarcado e ao preconceito. Mais do que isso, a forma como elas expressam seu afeto na música e na arte se torna uma inspiração para outras mulheres, especialmente mulheres negras, a se permitirem viver plenamente e lutarem por seus amores e suas existências. Dede completa sobre o amor nos detalhes do dia a dia, desde a toalha que uma esquece e a outra sempre faz questão de lembrar e deixar no box, detalhes de cuidados cotidianos. fala que mesmo com as diferenças de idade não sente isso latente no convívio, que tomou coragem de apresentar laura para sua família como namorada porque laura representa essa coragem no enfrentamento à vida. por mais que sua família sempre soube da lesbianidade, apresentava suas companheiras enquanto amigas, e agora apresenta enquanto namorada, esposa, companheira. entende o significado disso. a importância de chamar de amor ao invés de amiga. entende que estar falando do amor que elas sentem na música, na arte, é algo muito além que a relação que vivem, é algo que inspira outras mulheres - principalmente mulheres negras - a se permitirem viver o amor e combaterem o patriarcado. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Dedê
- Bruna e Flávia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Bruna e da Flávia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Bruna e a Flávia são duas mulheres que se encontram nessa vida através de um amor muito parceiro (e quase nômade, devido ao tanto que se mudaram nos últimos anos). Nos encontramos no Rio de Janeiro, local em que elas passaram a morar no meio do ano e que estão apaixonadas - pela praia, pela nova casa e pelos novos amigos - mas contam que já passaram por Curitiba, Belo Horizonte e por algumas cidades do interior de São Paulo. A paixão e a parceria voltam a aparecer nesse segundo parágrafo (e desculpa, mas vai ser bem difícil não soar repetitivo nesse texto porque é muito presente a forma que elas transparecem esses dois pontos) pois logo no começo da conversa a Flávia destaca que, por elas terem se mudado por conta do trabalho da Bruna, a parceria delas é algo que não abrem mão. Estão sempre caminhando juntas, se sentindo dispostas a enfrentar os desafios que encontram. A Bruna tem 26 anos e é atleta profissional de vôlei. No momento é a levantadora do Fluminense (e já esteve enquanto uma das levantadoras oficiais da seleção brasileira!). A Flávia tem 34 anos, é Personal Trainer e Fisiologista, mulher que domina muito o Crossfit e dá aula em academias. Juntas, elas gostam muito de viajar e conhecer lugares, de estar com os amigos… e de, principalmente, aproveitar a companhia uma da outra: se curtindo e dando risada. Todos os dias, tentam manter um momento só delas: deixam o celular e a TV de lado, sentam no sofá e curtem a companhia uma da outra. É algo único na relação. Flávia conta que no começo era a mais tímida e a Bruna a mais extrovertida - que as pessoas naturalmente gostam muito da Bruna - e que era mais difícil elas quererem sair com os amigos, geralmente elas faziam de tudo para estarem sozinhas. Pelo fato do relacionamento ser à distância, acreditamos que isso também influenciava nelas quererem um momento só delas, claro. Mas hoje ela enxerga tudo com outro olhar, se sente mais aberta, mais à vontade e gosta de estar fazendo novas amizades, saindo por aí, sente que inclusive se permite ter mais confiança nas pessoas… É algo que destaca o quanto foi bom (e que nela acrescentou) ter aprendido ao longo dos anos. No começo do relacionamento foram dois anos à distância e por conta da pandemia os campeonatos de vôlei foram suspensos, fazendo com que Bruna tivesse um tempo sem planos para novas mudanças. Por mais que os pais dela estivessem morando em Curitiba, ela nasceu em São Paulo e elas já tinham passado por Piracicaba e Osasco, então alugaram um apartamento em Piracicaba e conseguiram ficar lá alguns meses. Foi uma experiência muito feliz morando juntas (inclusive, viram que deu super certo e decidiram realizar a União Estável). A relação da Bruna e da Flávia vem, como elas mesmo intitulam: “num encontro de almas”. Ambas passaram por dois relacionamentos longos e bastante tóxicos, sendo mais jovens e isso acabou gerando um certo trauma e uma insegurança ao se envolver novamente com alguém. Elas se conheceram em 2016, quando ainda estavam em seus relacionamentos, em meio aos campeonatos esportivos (e inclusive torceram uma pela outra), mas só vieram a ter interesse em se conhecer melhor dois anos depois, através de um dos melhores amigos em comum. Por mais que se sentissem machucadas e desacreditadas no amor, quando se conheceram algo ali fez florescer a possibilidade de algo dar certo. Foram com muito cuidado para não cometer os erros do passado, sempre investindo ao máximo em comunicação e em serem sinceras sobre os sentimentos, não deixar para depois ou empurrar algo... esconder alguma coisa… assim, conseguiriam consolidar confiança. Desde então, já passaram por muitas coisas - e elas devem estar pensando “Ufa! Coloca MUITA coisa nisso!”. A Bruna se assumiu para a família (que naquela época jamais aceitaria e hoje vivem uma relação bem bacana ♥) (e que, também, teve um apoio muito legal das colegas de time e do técnico, importantíssimo de ressaltar), além disso tiveram as mudanças, a mãe da Flávia passou por uma situação de doença familiar bastante difícil afetando sua autonomia, Bruna inclusive viajou para a China nesse período, mas nunca deixou de dar apoio e suporte. Enfim, todas essas situações (e tantas outras, né?) serviram para que elas chegassem à conclusão do significado de suporte: elas se entendem enquanto uma balança. Quando uma não tá muito bem, a outra dá o apoio, assim vice-versa. Elas estão ali realmente como um impulso uma para a outra, um levantamento diário. Comentam sobre a pandemia em relação ao esporte, o trabalho, as mudanças, como isso diariamente vai afetando e como diariamente também elas se impulsionam, é um esforço que vai do levantar até o ir dormir e que é conjunto, não parte apenas parte de uma dentro do relacionamento. Para elas, o amor é puro. É como uma entrega gratuita que vem de dentro para fora. E é sobre essa troca diária que elas fazem: necessita dedicação e muita entrega, mas você também recebe. Isso engloba amigos, famílias, relacionamentos românticos… E essa troca é justamente fazer sem esperar nada em troca. Na hora, a gente ri, porque parece não fazer sentido, mas faz, né? Achamos que faz. Elas entendem que a sociedade precisa de muito mais amor porque o amor e carinho são capazes de salvar as pessoas (e sobretudo, ajudá-las). Bruna entende que o amor acontece naturalmente, mas que em um casamento com o convívio diário se torna uma escolha: Escolher amar o outro pelo compromisso, responsabilidade e respeito mesmo nos momentos de dificuldades e discordâncias. Flávia comenta o quanto sente o amor latente pela mãe dela, pois sua família é a sua base e sempre estiveram por perto, sendo sua mãe seu braço direito, sua amiga. E o quanto foi forte o baque da doença. O amor é também um processo de amadurecimento - e esse amor, que elas têm, é como o que abraça todas as outras coisas: o acolhimento, o cuidado, o suporte e um verdadeiro “tô contigo para o que for”. O que vale também para a Bruna, que desde o começo acompanha e dá suporte e forças para enfrentar: não tem jeito, eu disse que ia ficar repetitivo, porque é isso o que elas realmente são > é amor de parceria. Bruna Flávia
- Tamires e Agata
Meu encontro com a Tamires e a Ágata foi há cerca de um ano, mas a documentação está vindo ao ar só agora, por motivos de respeito ao tempo que precisaram para que a participação no Documentadas pudesse acontecer. Nos encontramos em Porto Alegre, na Ponte de Pedra, local que visitaram pela primeira vez juntas logo que a Ágata se mudou para morar com a Tamiris na cidade. Sentem que lá representa um momento da vida, próximo do apartamento que tiveram, um lugar para tomar sol, conversar, ver os cachorros passeando com seus donos e ficar de bobeira. No dia que nos vimos tivemos uma conversa que tocou em assuntos difíceis e delicados, e por isso precisou ser pausada. Tanto Ágata, quanto Tamires, são mulheres diagnosticadas com o espectro autista; por isso (mas não só) respeitar o espaço e o tempo para estarem prontas para contarem suas histórias oferecendo outras formas de conversa/entrevista (como a escrita, entre algumas trocas, que foi optado) acabou sendo a melhor maneira que encontramos. Hoje em dia, Tamiris entende que amor é aceitação radical mas não incondicional. Aceitar radicalmente serve tanto no amor-próprio quanto no amar outras pessoas, sendo família, amigos, romances… Aceitar quem você é de forma humana e aceitar seus erros, assim como aceitar seus acertos e potências. Amar de forma condicional é também entender nossos limites e respeitá-los. Ágata completa que o amor não se explica muito, entende a metáfora do coração quentinho/olho brilhando contextualizando o que sente como amor. No momento das fotos, Ágata e Tamiris estavam com 28 anos. Tamiris tinha acabado de se mudar para morar pela primeira vez sozinha e com isso aprendia diversas coisas novas - e na companhia da Ágata. Como aprender novas formas de limpeza, o que gostavam de fazer juntas e como criar uma rotina dentro de casa, por exemplo. Contam que gostavam de cozinhar, arrumar coisas, estudar, fofocar, ir em parques, explorar lojas, ver séries… Adoram o que nomearam de “Cultura de casal”, como assistir realities como MasterChef, realities de casais da Netflix, entre outros, além de caminhadas longas, idas ao mercado, assistir vídeos no YouTube, ir em cafés e experimentar comidas novas… Falam também sobre como é a vida depois de se entenderem enquanto pessoas autistas. Tudo era muito difícil antes do diagnóstico, eram apenas pessoas estranhas, não tinha muitos amigos e sentiam falta dos círculos sociais. Tamiris, por exemplo, possui uma sensibilidade sensorial alta por ser autista e possuir ansiedade generalizada, então se sente mais segura quando está acompanhada, não gosta muito de sair sozinha, mas tem se proposto a tentar esse exercício, principalmente durante o dia. Como falei no início do texto, essa história vem de um lugar um pouquinho diferente e envolve uma dor muito grande para elas, além de ter uma terceira pessoa que estava no começo e que elas não se sentem confortáveis em citar. Sabendo disso, vamos poupar falar sobre como elas se conheceram, para respeitar esse espaço, beleza?! O que é válido comentar por aqui é que por entender que queriam ser mais que amigas e por tudo o que tinham em comum, decidiram ficar juntas. Na época, moravam em estados diferentes, mas a infância/adolescência da Ágata foi construída a base de muitas mudanças então ela nunca viu isso como algo tão difícil, estava acostumada a viajar por aí. Costumam dizer que a relação se construiu à base de sorte e se mantém à base de comunicação. No começo, foi muito difícil entender como iriam se comunicar, tiveram muitos entraves por não entender a comunicação uma da outra, mas foram sendo honestas até conseguir encaixar um diálogo. Tamiris explica como no começo achavam incrível como tinham coisas em comum, desde serem lésbica menos femininas, até histórias de vida parecidas, descobrirem o autismo já adultas… mas ao longo do tempo - e com a convivência - as diferenças também ficarem evidentes. E aí entra a sorte, a comunicação, a disposição em fazer dar certo… Elas entendem que toda relação é feita de escolhas e também de escolher se vulnerabilizar, e que isso não é nenhum pouco fácil, mas que vale a pena quando acontece de forma honesta. Ágata explica que por ser mais fechada, se expor emocionalmente é um grande desafio que vem se tornando exercício - e cada vez ficando mais simples. Gosta do tempo que foram aprendendo a se comunicar de forma mais honesta sobre os temas difíceis e também ficando mais “fluente” no idioma uma da outra, mesmo que seja uma manutenção constante e fica muito feliz por saber que tem um ambiente seguro para ser quem ela sempre quis. ↓ rolar para baixo ↓ Tamiris Ágata
- Maria Vitória e Fernanda | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Quando ela era mais nova, aos 14, na época da novela Amor à Vida, com o personagem gay Félix, ao debater sobre homossexualidade a mãe da Fernanda chegou a desconfiar de algo, mas ela negou fielmente. Na vida da Maria Vitória, a referência veio mais tarde, na novela A Força do Querer, com a/o personagem Ivana/Ivan, da qual surgiu o debate com a avó e fez com que ela se abrisse sobre a sexualidade. Hoje em dia, ambas famílias lidam bem com os relacionamentos, elas brincam com eles que eles nem deixam elas cogitarem um término, são grandes entusiastas. Mas sabem respeitar e elas também entendem tudo o que passaram para chegar até o momento em que estão, tudo o que precisaram enfrentar, inclusive, seus próprios medos. Ainda sobre suas dificuldades, entendem que a maior delas também está relacionada à comunicação. Até hoje é algo que buscam explorar, cuidar e cultivar. O momento do pré vestibular da Mavi foi muito difícil, passar em medicina requer muita pressão, muito stress, saber colocar cada coisa no seu lugar, lidar com a distância… são muitas coisas que precisam estar em equilíbrio e nem sempre estão. A Fernanda faz o papel de sempre incentivar a Mavi a falar, enquanto a Mavi sempre foi uma pessoa que pouco falou sobre seus sentimentos. Cada vez mais ela tenta se abrir, mas ambas também entendem aquilo que eu comentei no começo, que possuem diferentes linguagens. Jeitos diferentes de ver as coisas. A melhor forma que encontram é enxergar o lado de cada uma, entender múltiplas interpretações, se encaixar de jeitos diferentes. Na linha de explorar e cultivar, entender que não precisam ser quadradas, que tudo tem seu tempo, que não precisam das coisas na hora, urgentes e emergentes. E que se precisarem, estarão dispostas também, porque tudo pode ser conversado e ultrapassado. ♥ Quando elas começaram a ficar, a Mavi entendeu logo de cara que queria namorar com a Fê, ela diz que sabia que o terceiro amor é o amor verdadeiro na vida e que a Fê é o terceiro amor da vida dela. Mas foi muito difícil elas começarem a namorar de fato, inclusive, brincam que foi preciso pedir vááárias vezes em namoro até a Fê aceitar (e que se a Fê não aceitasse, aquela seria a última vez, porque ela não iria mais pedir!). Ela sempre dava um jeito de adiar, até que foi colocado um limite... e adivinhem? O pedido aconteceu dentro do carro. O carro foi muito importante em vários momentos, não só nesse. É o local onde elas têm as conversas mais sérias, onde viajam, onde se sentem à vontade, onde estão sempre indo para Porto Alegre, Laguna… passam muito tempo lá. No começo do namoro elas não eram assumidas, então o carro era o lugar que representava segurança. "Às vezes quando a gente anda de carro, a gente não vê nada... mas também vê tudo” Como a Fê não era assumida, elas entendem que essa foi uma barra muito forte que passaram juntas. Ela não se aceitava, foi um período muito longo. A Mavi não quis mais ficar escondida, entendia que não era mais justo viver assim. Antes de começar a namorar, nem passava pela cabeça da Fernanda se assumir, não pensava em contar porque tinha muito medo da reação (e spoiler: hoje em dia a mãe dela gosta tanto das duas que se emociona vendo elas). A Fê odiava pensar em contar e em não contar, porque ama tanto a mãe dela, é tão próxima, mas tinha medo de alguma reação de não aceitação. Acredita que se não fosse a Maria fazer esse movimento, talvez ela não tivesse se assumido até hoje. E teria se privado de todos os momentos em família que já viveram, em todas as vezes que andam juntas pela cidade (porque isso era o que mais as incomodavam, passavam bastante tempo “escondidas” por medo de encontrar pessoas conhecidas)…até que chegou o momento que mais pesou, pelo falecimento de uma familiar da Maria, em que a Fê entendeu que gostaria de estar presente com ela, de estar dando apoio à ela, mas que não podia. E aí resolveu abrir o jogo, contar, não podia mais segurar isso, precisava mudar. Ela explica que quando o medo de não estar vivendo fica maior que o medo da mudança, a gente entende que precisa mudar. E foi isso que aconteceu. A Fernanda tem 22 anos e é natural de Criciúma, Santa Catarina. É designer, trabalha com branding e social media. Estuda psicologia, é apaixonada pela mente humana, ama estudar isso, pensar sobre como as relações acontecem. Também adora desenhar e estudar comunicação. Maria Vitória tem 23 anos e é natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. É estudante de medicina e estuda em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ela adora tudo o que envolve música, desde o piano (que toca e que aprendeu admirando a avó tocar), até a dança que vem de toda a família no palco. É entusiasta da história, sonha em um dia cursar uma faculdade de história também. Ambas adoram viver em Criciúma, são entusiastas da cidade, por isso, também, se preocupam em como seria importante levar mais cultura para lá. Mavi comenta que traria mais história, mais acesso à informação de verdade, conhecimento de verdade e formação de opinião. A Fê mora em um bairro mais afastado do centro e fala sobre como é bom sentir que vive em comunidade e os vizinhos serem considerados uma grande família, só que conta também como ainda falta o bairro ter a mesma visibilidade que o centro e ser tão valorizado quanto. Por fim, mas não menos importante, falam sobre a importância que seria ter na cidade um espaço que valorizasse a vida LGBT, a nossa cultura, os nossos valores, não só pela questão do medo de estarmos sempre em locais públicos, mas por ser um lugar nosso, com a nossa cara, um lugar que estivéssemos sendo nós mesmos, porque nós merecemos isso. Quando perguntei como a Mavi e a Fernanda se conheceram, elas disseram que foi por uma coincidência ou por um erro que deu em acerto, chamem como preferir. Vamos lá: A mãe da Mavi é professora de dança e trabalha também em uma universidade. A Mavi estava lá acompanhando uma audição e uma menina chegou atrasada, ela viu a menina, se interessou e fim. Um tempo depois, estava rolando um evento na principal praça da cidade, ela viu uma menina muito parecida e pediu para o amigo ir lá saber se a menina beijava mulheres. A menina disse que era bissexual, mas que namorava. A Mavi não sabia o nome da menina, mas sabia que ela tinha uma pinta no rosto e colocou, absolutamente do nada, na cabeça dela: acho que o nome é Fernanda. Decidiu desbravar no Facebook e achou uma Fernanda, com uma pinta no rosto. Que era quem? a Fê. Adicionou a Fê em todas as redes sociais, curtiu tudo o que ela postava: no Facebook, no Instagram, no Twitter… e a Fê pensando “meu Deus… quem é essa menina hétero curtindo tudo o que eu posto???”! Até que uns meses depois, em outro evento, nessa mesma praça, ela viu a Mavi e decidiu falar com ela, chegou dizendo “ei, você é a Maria Vitória do Twitter?”, que respondeu “não!” e foi descoberta pelos amigos “é ela sim!!!” e envergonhada, rebateu “e tu foi fazer teste na companhia de dança, né??”. As amigas da Fê gargalharam e ela só disse “não???”, então a Mavi entende que de fato, não era a guria da audição, mas achou a Fernanda muito mais bonita que a menina. Nesse dia elas acharam a situação muito engraçada, riram, conversaram e decidiram continuar se falando de forma online. Foi só um tempo depois que elas saíram pela primeira vez, tendo um primeiro encontro (que por sinal, foi fazendo as compras de natal no shopping), depois conversaram em um bar e entre o natal e o ano novo deram o primeiro beijo. Quando comecei a conversar com a Maria Vitória e a Fernanda, ouvindo elas falarem, eu ainda estava desacreditada de que o encontro tinha dado certo. Todos os planos foram, literalmente, por água abaixo - dois dias antes decretaram a volta do lockdown em Criciúma, cidade catarinense, onde estávamos - e uma hora antes de nos encontrarmos caiu a maior chuva possível. Além de que no dia seguinte, de manhã cedo, eu viajaria de volta para o Rio. Não tinha jeito, teríamos que cancelar. Aí elas falaram: “vamos fazer dentro do carro! É o nosso lugar. Sempre foi nosso lugar.” Quando eu saí do encontro com elas, pensei muito sobre o amor porque acredito que nunca falei tanto com um casal sobre as múltiplas formas de olharmos esse sentimento. Tudo começou porque uma vez a Fê compartilhou um post sobre as 5 linguagens do amor e disse quais que ela mais se identificava, que eram três, enquanto a Mavi disse quais que ela mais se identificava, que eram as únicas duas que a Fê não disse, ou seja, elas viam o amor de formas totalmente diferentes. Desse mesmo jeito, elas entenderam que vivem esse relacionamento porque o amor e as relações, como muitas coisas na vida, tem múltiplas interpretações e para entendê-las precisamos estar abertas a isso. A Fê entende que o amor é uma junção de coisas, o carinho, o olhar, a atenção. O amor é olhar reconhecendo os defeitos. Ela fala sobre em toda a construção do relacionamento dela com a Maria, desde o comecinho, ver o amor. Em cada detalhe, cada entendimento, cada passo que deram juntas, ela sempre soube onde esteve presente o amor. Fala também sobre o amor entre mulheres ser mais intenso porque quando um homem e uma mulher se relacionam eles estão em mundos que foram construídos socialmente diferentes, enquanto duas mulheres estão em mundo socialmente construídos iguais, então elas se identificam, se entendem, são corpos semelhantes. Já a Maria Vitória fala sobre como o amor pode ser doloroso também, como podem existir relações tóxicas transvestidas de amor. Como as pessoas podem se machucar em nome do amor, e como isso pode deixar pessoas mais ariscas, menos abertas a viver coisas boas. O amor tem que ser cuidadoso. Ela disse que o amor entre mulheres pode ser (e na maioria das vezes é) diferente, mas que o que difere realmente cada relação é o jeito que cada pessoa se olha, se vê, se respeita. Elas brincam o quanto foi difícil no começo da relação a Mavi também demonstrar carinho, ela não abraçava, dava dois tapinhas, como quem encontra um conhecido na rua. Foi preciso muita calma e investimento para ela entender que podia ter carinho. Enquanto, por outro lado, a Fê também não se entregava de cabeça, pisava em ovos, ia com calma demais. Uma foi tentando permitir a outra, até que por fim, pudessem caminhar juntas. Tudo foi muito novo. Fernanda Maria Vitória
- Wan e Lívia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Wan e da Lívia, quando o projeto passou por São Paulo! A Wanessa e a Lívia são duas mulheres que adoram viajar, desbravar lugares novos, cachoeiras, praias e vivenciar novas culturas. Foi numa dessas viagens que elas se conheceram, na Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte, em 2016. Wanessa é Pernambucana, mas na época morava em Natal, enquanto Lívia é paulista e desbravava as terras de João Pessoa, na Paraíba. Eu sei, muitos lugares para um primeiro parágrafo, né? Mas avisei que elas gostavam de viajar. Pois bem, foi na praia (ou melhor, nesse vilarejo), que elas se conheceram durante as férias. Se deram bem, o romance foi acontecendo, mas teriam que voltar para suas vidas, uma em Natal e outra em João Pessoa. Assim, à distância, viveram um ano. Quando em 2017 a Wan foi, junto com a filha, Alice, morar em João Pessoa. Durante a nossa conversa, Lívia e Wan falaram sobre como se veem enquanto muito parceiras, sobretudo porque os primeiros anos do relacionamento foram em um lugar que não tinham familiares por perto e conviviam com um grupo de amigos pequeno (do qual a maioria também não era de João Pessoa). Isso fez com que elas se conhecessem muito, convivessem um tempo maior juntas e que também gostassem muito da companhia. Descobriram, desde o início do relacionamento, uma forma de confiança direta, porque tinham como contar uma com a outra - ou melhor, em trio, junto com a Alice. ♥ Por mais que elas tenham morado 5 anos em João Pessoa, nosso encontro e a documentação ocorreu em um novo lar: São Paulo. Depois do início da pandemia, a Lívia já tinha concluído o mestrado (motivo que fez ela se mudar para a Paraíba) e passou para o doutorado em uma universidade paulistana, enquanto a Wan conseguiu um trabalho bem legal em São Paulo também. Com a mudança, vem um desafio que elas não tinham experimentado até então: conviver mais perto dos familiares e amigos, ter uma base próxima, diferente de João Pessoa. Elas até comentam que a chegada da pandemia, diferente do impacto que teve para quem convive com uma base grande de pessoas próxima, acabou sendo diferente para elas, pois já estavam acostumadas com esse núcleo menor, entre as três. O mais diferente mesmo, já chegando no novo lar, foi entrar numa nova rotina de conhecer vários amigos (que antes, eram amigos só da Lívia), ter a família por perto e novos compromissos. Elas brincam, inclusive, que geralmente os casais passam por isso no início - o processo de se adaptar à uma rotina familiar da parceira - e que elas passaram anos depois. Mas que, de toda forma, está sendo muito gostoso. Pela primeira vez os finais de semana estão cheio de eventos (visitar sobrinhos, festas de formaturas de primos, almoços em família…) mesmo que elas já estejam na cidade há meses. Durante a mudança, primeiro a Wanessa veio, para começar a trabalhar, enquanto a Lívia ficou organizando o que trazer e organizando a vinda da Alice também… e ah! É muito importante ressaltar: a Alice a-m-a viver em São Paulo com as duas. Durante as fotos, perguntamos em tom de brincadeira: “bora voltar para o Nordeste?” e ela respondeu “Só pra visitar!”. No momento da documentação, Lívia estava com 32 anos. Ela faz doutorado em Sociologia, com ênfase em Ciência Política e atua como socióloga. Wanessa também estava com 32 anos. Ela trabalha enquanto Analista de RH, sendo especialista em Diversidade e Inclusão - e atenção aqui! Está sempre em busca de mulheres que estejam na área das artes (redatoras, editoras, produtoras, diretoras de arte, etc) (olha a oportunidade aí!). Hoje em dia, em São Paulo, seus gostos e suas rotinas são em torno de sair para comer, descobrir lugares novos e - de vez em quando - ir para shows e parques. Lívia diz que o amor para ela é viver assim: sonhando, viajando e crescendo juntas. Na sociedade patriarcal e racista que vivemos, ter esse amor é muito difícil, então por mais que pareça simples o que elas vivem, é algo muito político e revolucionário. A Wan completa que não é nenhum pouco simples. Amar é compartilhar, elas são muito companheiras e isso envolve muito esforço. Quando a Lívia fala sobre as questões patriarcais e raciais, Wan traz o quanto é poderoso nos questionarmos. Explica quantas vezes, por exemplo, que por a Alice ter a pele um pouco mais clara pensam logo que ela é filha da Lívia e já fazem essa conclusão sem perguntar, e como dá um nó na cabeça das pessoas quando elas respondem que a Wan é a mãe. “A importância de nos questionarmos o tempo todo antes de agirmos, de pensarmos outros modelos de sociedade, de nos permitirmos viver fora de padrões já estabelecidos.” Por fim, elas contam também como tem sido viver em São Paulo, por ser uma cidade muito mais diversa e aberta sobre casais homoafetivos, em contrapartida do governo que vivemos, que representa cada vez mais a legitimação do fascismo e que nos coloca medo em muitos momentos que estamos nas ruas. Quando o foraBolsonaro foi eleito, sentiram uma tristeza absurda. E mesmo sabendo que seria muito ruim o que viria nos próximos quatro anos, é inexplicável o quanto piora a cada dia que passa em níveis que não saberíamos que era possível piorar. A Lívia fala sobre como as pessoas se sentem à vontade para expressar a raiva e o ódio que sentem, não existe pudor ou vergonha nos atos de violência, e a Wan complementa que mesmo que ela tenha um trabalho que fale sobre diversidade e que viva em São Paulo, as coisas mudaram muito nos últimos três ou quatro anos. Por fim, elas comentam também sobre a vivência que tinham em João Pessoa, por entender a cidade enquanto um espaço que carrega ainda traços colonialistas e que tinham medo de certas demonstrações. As pessoas ao redor delas, por exemplo, não sabiam que elas eram casadas - apenas um núcleo pequeno no trabalho ou amigos próximos. Hoje em dia, viverem como casal e falarem sobre isso é coragem e liberdade, mas também é sobre estarem em um espaço de segurança, num lugar que permite mais diversidade e com pessoas que pensam da mesma forma que a gente - que também se preocupam com elas, formando uma base próxima, de cuidado e afeto. Wanessa Lívia
- Jana e Marcela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Jana e da Marcela, quando o projeto passou pela Bahia!. Marcela e Janaina acreditam que crescem bastante juntas. Jana é de Salvador e trabalha com planejamento de obras na empresa baiana de águas e saneamento, mas seu grande amor é a música, tocando percussão. Marcela, natural de Pernambuco, está em Salvador desde 2013 e trabalha como fisioterapeuta, conta que voltou a ter contato com a música depois da relação com a Jana. Sempre tocou violão, mas por diversos motivos estava afastada. Foi com o incentivo que, além de tocar, fundou no trabalho um projeto de música enquanto auxílio no hospital, e ambas ficam muito felizes em ver o quanto está dando certo. Por mais que admiram o crescimento, explicam que não começaram a relação indo “de cabeça”: construíram aos poucos o que possuem e se enxergam enquanto mulheres livres, dentro de uma relação não-monogâmica, desejam que seus laços não sejam de dependência. Na sua rotina, adoram programações caseiras - como cozinhar, ver filmes e séries - mas também frequentam diversos bares e festas, como o lugar que nos encontramos, por exemplo, um espaço que adoram ficar e que encontram diversos amigos (Jana ensaia no Pelourinho, moram por perto e o local dialoga com grandiosa diversidade presente). Foi em abril de 2022 que se conheceram. Jana estava envolvida numa casa de cultura para mulheres em Salvador e durante um evento para mulheres que amam mulheres ela e Marcela se esbarraram pela primeira vez. Tinham diversas amigas em comum, mas não interagiram muito. Depois disso, em outro evento, Marcela e as amigas foram de novo e criaram uma piada interna sobre a Jana chamando-a de “gostosa tatuada". Acabou que a amiga comentou em voz alta e a Jana ouviu, olhando para trás, vendo todas as pessoas da roda rindo/zoando e a Marcela completamente série e posturada. Jana brinca que aquilo ali arrebatou ela, ficou encantada na Marcela. Depois disso, foi cada uma para o seu canto. Chegaram a interagir um pouco, ambas possuem tatuagens de sapinhas e brincaram sobre as sapinhas se beijarem enquanto encostaram a pele, mas não interagiram mais que isso. Se adicionaram nas redes sociais e começaram a conversar, Marcela até lançou uma cantada para a Jana quando ela contou que era planejadora de obras dizendo “vem planejar a minha vida”, mas elas nunca conseguiam se encontrar pessoalmente. Foi quase um mês depois, por acaso, que se encontraram no pelourinho. Jana tinha acabado um ensaio, Marcela estava por lá e foram no bar (que tiramos as fotos) beber uma cerveja, era feriado do dia 1° de maio e ao contar finalizam com: “Foi aí que começou essa amizade com afeto e amor que temos.” Durante a conversa, falamos muito sobre a questão da não-monogamia e como elas enxergam isso dentro da relação que mantém. Entendem que é um reflexo da vida que tiveram; não querem viver a monogamia que sempre controlou o corpo das mulheres, também entendem que isso é muito sobre conquistar uma independência. Jana explica que observou muito a vida para chegar no local de questionamento que está. Foi encontrando o lugar que ela ocupa no mundo, entendendo o que a oprimia ou o que tinha bom significado, que entendeu o que é o amor nas trocas com as pessoas. Dentro de todos os entendimentos, problematiza a hierarquização dos afetos e valoriza as mulheres na vida dela, portanto, não quer se sentir pertencente a alguém. Marcela fala do amor que aprendeu a ter com a família dela. Cresceu de uma forma muito solta, os pais trabalhando e ela sozinha, então pensa muito sobre a monogamia como uma dependência também - e não gosta dessa dependência. Entende que amar é ter coragem (ainda mais amando outra mulher) e que valoriza o que elas vivem como um todo em suas liberdades, desde serem mulheres desfeminilizadas, até a importância de serem reconhecidas (cita que visitaram a família dela no interior de Pernambuco e o quanto isso foi revolucionário para elas). Por fim, elas finalizam nossa conversa com uma fala sobre entender que se relacionar é trazer alguém para a sua família, doando e recebendo, entendendo que aquela pessoa faz parte do que você considera família a partir do momento que ela está contigo. ↓ rolar para baixo ↓ Janaina Marcela
- Gi e Rafa
A Rafaela e Gizelly foram o primeiro casal que tive contato em Fortaleza (e, se não me engano, o primeiro casal que agendei quando decidi que iria levar o Documentadas para lá). Elas são muito receptivas e me levaram para conhecer o grande Mercado Central, almoçar em um lugar super querido, fazer turismo de dentro do carro (A pandemia, né?) nos bairros mais centrais e me contaram várias histórias sobre a cidade. ♥ muito obrigada, gente. Saudade de vocês. E no lugar que o Documentadas estiver, sempre terá um espacinho aberto para recebe-las! Importante ressaltar também que dentre as histórias de perrengue que este projeto é campeão em documentar, temos uma das melhores: uma blitz policial no meio da tour que nos rendeu uma .... pausa para o choro.... multa de uns + de 2 salários mínimos para o carrinho das bichinhas por estar com a licença atrasada (Mas agora já está em dia, viu? Se dividir a gasolina atravessa o Brasil todo kkkk digo...). Bom, vamos lá. A Rafa tem 24 anos, é auxiliar de cartório e estudante de Letras na Universidade Estadual do Ceará. Ela é natural de Fortaleza - CE e morava bem pertinho da casa da avó da Gizelly, que tem 26 anos e é Engenheira Civil, também formada na Universidade Estadual do Ceará. Por mais que a Rafa e Gi tivessem proximidades físicas e frequentassem espaços em comum, elas foram se conhecer mesmo através de um aplicativo de relacionamentos: o Tinder, no ano de 2019. Era pré-carnaval, elas estavam conversando há um tempo e marcaram de se encontrar em um cortejo. A Rafa mobilizou todos os amigos e foi para lá com aquela esperança de encontrar a Gi, que por sua vez deixou o celular no modo Não Pertube (desativando as notificações) e esqueceu completamente de que a Rafa iria ligar para encontrá-la. Quando ela se deu conta, já era tarde demais (literalmente!): ela já estava indo para um bar, o cortejo já tinha acabado, a Rafa já tinha ficado triste, desistido, chutado o balde, beijado várias pessoas, decidido que ia dormir na casa de amigos (e até já tinha mandado mensagem anteriormente chamando a Gi para ir também, mas como ela sumiu, não adiantava mais) e dessa vez foi a Rafa quem não respondeu mais. No dia seguinte, com o nascer do sol também vem ela, né? A ressaca. E então a Rafa repensou e viu que não precisava ser assim. Decidiu falar com a Gi. Elas conversaram e combinaram de se encontrar, mas dessa vez com horário e local pré-agendado, direitinho. Falando assim, vocês pensam que era um encontro em um restaurante, mas não, elas se encontraram na parada de ônibus. Pois é, eu também ri. A Rafa entrou no carro da Gi, que ficou estacionado... e ela ficou toda encolhidinha, em suas palavras: "Porque estava frio o ar condicionado" e elas começaram a rir de nervosas e de tímidas. Para completar, ainda surgiu um assunto um tanto quanto mórbido que se transformou numa crise de riso das duas e nisso a Rafa chamou a Gi para ir fazer a carteirinha de estudante dela, logo em seguida, saindo do carro. Elas foram e, desde esse dia, estão juntas. O amor é aleatório. ♥ Hoje em dia, no tempo livre, o que a Rafa e a Gizelly mais gostam de fazer juntas é praticar esportes, assistir besteiras, passar um tempo "morgando" (ficar sem fazer nada, falando da vida) e principalmente curtir a própria companhia - elas contam que reservam às sextas para sair, comer coisas gostosas, cozinhar juntas ou tomar cafés em lugares legais. No momento, a Rafa está trabalhando de casa, enquanto a Gi tem a própria empresa de Engenharia Civil, em sociedade com uma colega. Por bastante tempo ela trabalhou para empresas, nas quais chegou a se sentir mal remunerada e/ou de alguma forma explorada, foi aí que surgiu a ideia de montar algo próprio, com duas colegas da área (e hoje em dia é ela e uma amiga). A empresa é formada pelas engenheiras e foca em reformas de banheiros, infiltrações de telhados, intervenções em casas, apartamentos e áreas comerciais. Possuem equipes e encarregados para fazer os serviços, mas o mais legal nisso tudo é que: a empresa é somente com mulheres no comando e prioriza o trabalho para clientes mulheres. 3 O começo do namoro da Gi e da Rafa foi marcado pelo medo que existia dos amigos da Gi não gostarem da Rafa (Atualização: hoje em dia eles se dão melhor com a Rafa do que com a própria Gi, risos) e também porque no ano seguinte a pandemia chegou e com ela a Gizelly chegou a ir para Sobral (interior do Ceará) trabalhar, durante um tempo. Elas oficializaram o namoro no dia 07 de março de 2019 e em 2020, lá em Sobral, a Gi resolveu pedir a Rafa em casamento. Tudo estava super organizado com a melhor amiga da Rafa. O pedido foi no Arco de Sobral, um ponto turístico e enquanto a Gi ia enrolando ela, a amiga organizava tudo. Primeiro, ela sabia que o casamento era um sonho da Rafa, então fez uma cena de dizer que não via sentido e/ou futuro no casamento... que não queria isso. A Rafa ficou triste, chorou e empurrou ela querendo ir embora. Depois da cena, uma pessoa entregou uma rosa para a Rafa - a primeira pessoa foi um senhor numa bicicleta (e a Gi fingiu ciúme), depois outras pessoas chegaram - foram 5 rosas ao total, até que chegaram duas meninas crianças e entregaram as alianças e a Gi fez o pedido. Depois de toda a atuação digna de novela e filme com Oscar, com muitos choros e muita emoção real no pedido, elas tiveram um dia incrível com jantar surpresa, casa livre, velas e rosas. A família super apoiou. No começo de outubro do ano seguinte o casamento aconteceu, já na pandemia do Covid-19. O evento aconteceu na garagem de casa, com as pessoas da família e alguns amigos e ninguém foi contaminado ou teve sintomas antes ou depois dos dias que envolveram o evento. 4 No início da pandemia, em 2020, a Rafa perdeu o emprego e elas passaram bastante tempo sem se ver por conta de, tanto elas quanto suas famílias, serem pessoas consideradas grupo de risco (asmáticas e diabéticas). Com a mãe da Gi, por já ter tido cancêr de mama e o pai por ter pressão alta, somados à avó ser idosa, o cuidado é minucioso. Elas voltaram a se encontrar apenas em julho e em seguida a Gi foi chamada para trabalhar em Sobral, no interior. Foram meses que ela passou lá, só teve retorno de fato no mês de novembro. Foram meses de um relacionamento à distância e a Gi sentiu dificuldades em se adaptar também ao trabalho. Quando ela voltou, elas organizaram tudo e o casamento aconteceu. A Rafa hoje em dia mora com a Gi e a família dela, numa casa em Fortaleza. No começo a mãe da Rafa ficou um pouco mexida com a situação, mas hoje em dia la entende que faz parte da vida adulta e do crescimento da filha. O pai, por outro lado, não vê a orientação sexual dela de boa forma, o que a deixa triste pois sabe que ele e a Gi, enquanto companheira dela, se dariam muito bem! De toda forma, entendendo isso enquanto uma dificuldade e uma dor, elas seguem se fortalecendo e sendo apoio dentro da relação. Inclusive, nos momentos de dificuldades, a Rafaela conta que a Gizelly a acalma e ensina a agir com cuidado. No mais, elas tentam sempre entender que tudo tem seu tempo e que as dificuldades que passam, principalmente financeiras, que não são para sempre. Para tudo conseguem dar um jeito, ainda mais se estão juntas. ♥ 5 Por fim, a Gi comenta que sempre foi mais fechada e com poucos amigos, que mantém um contato mais distante com as pessoas - tirando com a Rafa, que é um contato diário. Então ela faz uma leitura do amor enquanto uma estabilidade e enquanto segurança. Para a Rafa, o amor se mostra quando ela acorda e vê ao lado dela a pessoa que ela ama, que ela cuida, que está do lado dela para tudo. Ela diz que sente o amor neste momento em específico, principalmente, porque a Gi acorda cedo para trabalhar e sempre liga o computador e arruma as coisas para que a Rafa acorde com tudo confortável. Ela acha isso muito querido, se sente muito confortável, encontra nesse cotidiano e nessas pequenas atitudes muitos pedacinhos de amor. Quando andamos por Fortaleza, elas me ensinaram muitas coisas. Mostraram diversas questões culturais, contaram histórias e quando fiz perguntas durante a nossa conversa sobre a cidade e a forma que elas enxergam o local em que elas moram, elas não pensam em outra cidade no Brasil que gostariam de estar além de lá. Ao mesmo tempo que entendem diversas melhorias que precisam ser feitas lá, no Estado do Ceará e no Brasil em si, comentam que não tiveram vivências de preconceito na cidade, mas que a situação econômica está ruim, que os custos de vida estão elevados e que a mobilidade deixa muito a desejar e que isso também fala sobre a gente, né? Elas sonham em poder se estabilizar, seja no Brasil ou fora dele, e entendem que Fortaleza é um lugar muito incrível para se estar. Desejam viver, além de sobreviver. Rafaella Gizelle
- Vitoria e Vanessa | Documentadas
↓ rolar para baixo ↓ Vitória, no momento da documentação, estava com 25 anos. Nasceu em Fortaleza, mas passou a maior parte da vida em Salvador. É estudante de administração e está procurando emprego atualmente, pois deixou seu último trabalho para fazer a mudança para Trancoso, acompanhando a Vanessa. No tempo livre, se dedica a estudar inglês, buscar freelas, e também adora ir à praia, uma de suas atividades favoritas. Vanessa, no momento da documentação, estava com 24 anos. Nasceu em Mutuípe, no interior da Bahia, mas viveu grande parte da vida em Brasília. Há dois anos, se mudou para Salvador à trabalho, e depois disso para Trancoso. Vanessa é engenheira civil e trabalha na área de obras. Assim como Vitória, ela ama estar na praia, e também gosta de acampar, embora ainda não tenha explorado essa parte em Trancoso. Vanessa compartilha o objetivo de melhorar seu inglês, algo que considera essencial para os planos que tem em mente: viajar pelo mundo. Foi em Trancoso que elas encontraram uma nova fase da vida, unindo os desafios profissionais e pessoais. Além disso, ambas têm em comum a paixão por viagens, então constantemente poupam dinheiro com o propósito de realizar seus sonhos pelo mundo, planejando novas experiências juntas. Vanessa conta que ainda na época em que vivia em Brasília, recebeu a notícia de que a empresa que trabalhava abriria uma filial em Salvador, fazendo obras. Em fevereiro de 2022, mudou-se para a capital baiana por conta do trabalho, deixando a família em Brasília. Apesar de ter parentes na Bahia, eram mais distantes, o que levou a buscar novas conexões, então baixou um aplicativo de relacionamentos para conhecer pessoas e foi ali que encontrou Vitória - ou Vick, mais carinhoso, né? O primeiro encontro aconteceu em março, e desde então as duas não se desgrudaram mais. Inicialmente, os encontros aconteciam apenas nos finais de semana. Vitória, que morava com a mãe, o padrasto e o irmão, costumava passar boa parte do tempo no apartamento de Vanessa, fornecido pela empresa. Lá, o ambiente era tranquilo, juntas compartilhavam momentos em casa, festas, passeios… e durante a semana a rotina voltava ao normal. Até que com o tempo a frequência dos encontros aumentou. O que antes era apenas nos finais de semana passou a incluir as sextas-feiras, segundas e, depois, quintas… quartas… Até que as roupas da Vick já estavam lá, já tinham uma escova de dente de casal… Apesar dessa convivência intensa, o relacionamento ainda não era chamado de namoro. Vanessa, que no começo queria curtir, se viu surpresa com a rapidez de tudo. Era uma experiência muito nova - ela nunca tinha se relacionado com outra mulher - e também já era muito independente, morava sozinha há um tempo. Do nada era chapinha para um lado, escova para o outro… ficou pensando: “O que está acontecendo aqui?!”. Tudo mudou em junho, quando decidiram oficializar o namoro. Nesse ponto, Vitória praticamente já dividia o apartamento com Vanessa, pegando suas coisas da casa da mãe e voltando para lá. Elas já sabiam o quanto se gostavam, por mais que o começo ainda fosse um desafio. Aos poucos, o carinho pela Vick tornou o processo mais leve. Apesar do susto inicial, Vanessa percebeu que gostava muito da companhia, e juntas, encontraram uma forma de transformar aquele início despretensioso em uma relação sólida. No começo da relação, Vitória e Vanessa enfrentaram algumas discussões enquanto ajustavam suas rotinas e expectativas. Quando brigavam, Vitória costumava voltar para a casa da mãe. Essa dinâmica deu a elas a impressão de que ainda não moravam juntas de fato. No entanto, tudo mudou no final do ano, quando decidiram passar o natal em Fortaleza com a família da Vick. O padrasto dela estava enfrentando um câncer e havia se mudado para a cidade para fazer o tratamento, levando parte da família junto. Durante esse período, Vick permaneceu com a Vanessa em Salvador e, então, ambas entenderam: estavam oficialmente morando juntas - e por consequência, quando brigavam, não havia mais para onde voltar. A virada do ano foi o marco de uma nova fase. Viveram intensamente o verão e o carnaval, celebrando estarem juntas. Em 2023 completaram um ano de namoro, mudaram de casa, ajustaram suas rotinas de trabalho, compraram uma moto no nome das duas… Entenderam que estavam fortalecidas, ali havia um compromisso mútuo. No final de 2023, decidiram comemorar os dois anos de namoro com uma viagem ao Chile, a primeira vez que sairiam do Brasil. Ralaram muito para pagar cada detalhe: passagens, hospedagem e passeios. Enquanto isso, a vida profissional da Vanessa passava por transformações. No mesmo período em que se formou em Engenharia Civil, ela enfrentava desânimo com o trabalho e a distância da família. Escolheu não realizar cerimônias de formatura, optando por uma colação de grau online, sem grandes celebrações. Se sentia esgotada, então começou a buscar novas oportunidades, enviando currículos para outras empresas. Em março de 2024, Vanessa foi surpreendida por duas notícias simultâneas: recebeu uma proposta de trabalho em Trancoso no mesmo dia em que foi desligada da empresa em que trabalhava. Para ela, aquilo foi um sinal. Vick deu o total apoio. Em duas semanas, Vanessa reorganizou sua vida e estava morando em Trancoso. A mudança para Trancoso foi (mais) um grande fortalecimento entre a Vanessa e a Vick, principalmente pelos desafios que enfrentaram. Como o apartamento onde Vanessa morava em Salvador pertencia à empresa, precisou ser devolvido logo após a demissão. Em Trancoso, encontrou inicialmente uma kitnet, já que o custo de vida na região é alto. Durante esse período de transição, Vitória permaneceu em Salvador para resolver pendências relacionadas ao trabalho e à viagem para o Chile, planejada há meses. A viagem ao Chile foi mágica. Ambas decidiram que seria o momento perfeito para um pedido de casamento, e, coincidentemente, planejaram o mesmo cenário: um ponto turístico em Santiago. Contaram para uma amiga, que tentou ajudar evitando gastos - sugeriu que comprassem alianças mais acessíveis, deixando para comprar algo mais sofisticado na cerimônia de casamento. O plano funcionou, mas a experiência acabou sendo ainda mais inesperada por conta de uma nevasca. O passeio ao local planejado foi cancelado e o pedido aconteceu na neve. Vanessa colocou o celular para filmar e pediu que Vitória olhasse para o horizonte para registrar a cena. Enquanto Vitória se virava, Vanessa se ajoelhou, mas foi surpreendida quando Vitória também tirou uma aliança do bolso. No total ficaram com quatro alianças, três solitárias e hoje elas usam tudo de forma misturada. Ao voltar de viagem, Vick pediu demissão do trabalho que tanto gostava em Salvador para se mudar definitivamente para Trancoso. Os três meses em que ficaram separadas, vivendo em cidades diferentes, foram desafiadores para a relação. E agora estavam noivas, né?! No dia 11 de julho, aniversário da Vick, ela finalmente chegou em Trancoso. A Vanessa e a Vick refletem um amor construído diariamente, superando barreiras da convivência e das diferenças na criação. Para Vanessa, o que elas têm vai muito além de um amor idealizado ou de momentos bons. "Não é só o amor bonito - por mais que seja também - é um amor que está presente todos os dias, nos bons e nos ruins.” Ela acredita que o verdadeiro amor está na escolha de estar ao lado de alguém em qualquer circunstância, sem fugir nos momentos difíceis, como era no início. Fala do sentimento de amor como uma mãe possui por um filho: "A mãe ama o filho na pior fase dele, e isso é o que define o amor para mim. Não é algo que apaga e acende. É duradouro, e é isso que torna os dias especiais." Para Vitória, o relacionamento foi uma jornada de amadurecimento e coragem. Ela admite que, no início, era mais fácil evitar os problemas e se distanciar. Porém, a construção dessa parceria a ensinou a enfrentar os desafios e a valorizar a força que elas têm juntas. "É isso que é casamento, essa parceria de segurar a mão e enfrentar o que vier. Com o tempo, você percebe que agora não é mais só você. Existe um 'nós' que se torna a prioridade". Vitória vê esse compromisso como algo natural e poderoso: "No começo, é abstrato pensar se a pessoa vai estar ao seu lado ou não. Mas com o tempo, você entende que agora é Vanessa e Vitória juntas, sempre." Elas reconhecem que suas origens familiares são muito diferentes. Enquanto uma cresceu em um ambiente de compreensão, afeto e diálogo, a outra viveu em um contexto mais rígido, onde decisões eram tomadas com base em punição. Apesar disso, encontram na relação um equilíbrio. Brincam sobre como será a criação de um futuro filho e especulam sobre qual traço de personalidade a criança puxaria de cada uma. Vanessa Vitória
- Luciana e Joana | Documentadas
Amor de Flor - Luciana e Joana clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Beatriz e Tamara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beatriz e da Tamara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Beatriz e Tamara são um casal muito incrível. A forma que elas se ajudam, se permitem desconstruir e passam um sentimento de calma é muito verdadeira. São pessoas muito diferentes também. Beatriz é mais comunicativa e costuma dizer que elas terem se conhecido foi um encontro de almas. Ela é super de passar horas nas redes sociais, de dormir até tarde… Tamara, pelo contrário, é muito quietinha e disciplinada; Tem hora para dormir, acordar, comer, treinar… gosta de ficar mais no canto dela. Revira um pouco o olho e balança a cabeça, rindo, quando a Bea fala sobre o encontro de almas. Mesmo com todas as diferenças, elas passam muito tempo juntas. Sua grande paixão é o esporte. Tamara pratica todos os esportes possíveis e a Bea acompanha treinando também. Se conheceram assim, na atlética da universidade. Na época, Tamara namorava e Beatriz tinha acabado de entrar na faculdade. Pelo convívio, acabaram cultivando uma amizade. Beatriz estava recém chegando no mundo universitário e decidiu passar um tempo curtindo a vida, conhecendo pessoas, festas, etc. Um tempo depois, Tamara vinha passando por diversos problemas no relacionamento anterior, optou pelo término e isso criou uma brecha para que ela e Bea pudessem tentar algo num futuro próximo. Tamara tem 26 anos, é formada em administração e faz biblioteconomia. Trabalha numa emissora de TV cuidando da parte administrativa, é treinadora de futsal e tem uma doceria com a mãe - a empresa nasceu do sonho de venderem o que cozinham juntas. Ela costuma fazer os doces, enquanto a mãe faz os salgados. No mais, é absurdamente apaixonada por todos os tipos de esporte e se inspira muito em figuras relacionadas a isso quando pensa em inspirações, desde familiares que já se desenvolveram no esporte, até figuras famosas que representam esse desenvolvimento de carreira através da disciplina, como o Cristiano Ronaldo. Bea tem 24 anos, é formada em design gráfico e cursa história e marketing. Atualmente trabalha enquanto social media e web designer. Ao perguntar sobre em quem ela se inspirava, disse que adora acompanhar a jogadora Cris Rozeira nas redes, não só por ser jogadora da seleção, mas por ser uma mulher lésbica, muito representativa, que enfrentou lutas sobre a saúde mental e construiu a própria família. Além disso, disse que aprendeu a se inspirar diariamente na Tamara também, por ser uma mulher muito incrível e por terem uma relação de muita parceria. Por terem essa ligação com o esporte, falamos muito sobre o quanto eles podem mudar a vida das pessoas, principalmente dar um futuro para diversas crianças. Tamara ressaltou que a base para que um dia as coisas possam dar certo é a educação, para termos mais liberdade, mais respeito, mais segurança... tudo começaria pela reeducação. Bea completou, educação é um assunto que elas conversam muito sobre e ela acredita que só a educação realmente nos levaria à uma revolução. A Tamara era capitã do time em que elas jogavam na faculdade, enquanto a Bea era coordenadora. Elas conversavam muito, passavam muito tempo juntas. O primeiro beijo delas aconteceu em 2016, depois do término da Tamara, quando ela resolveu dar uma chance para a Beatriz... mas elas estavam vivendo ritmos completamente diferentes. A Bea estava na fase de beijar todo mundo, curtir as festas nesse sentido... enquanto a Tamara não curtia isso e preferiu manter só a amizade. Um tempo depois a Bea foi acalmando, elas foram criando um sentimento próprio, acabaram estabelecendo algumas coisas e decidiram tentar o namoro. Já passaram por situações mais difíceis que envolveram quebra de algumas confianças, da qual a Tamara se sentiu mais machucada. Foi com muita conversa e força de vontade que o relacionamento se construiu e deu certo. Hoje em dia elas entendem que a comunicação ainda precisa melhorar em diversos pontos, mas que se ajudam, amadurecem... é algo que precisa ser cultivado todos os dias.
- Luiza e Milena
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luiza e da Milena, quando o projeto passou pela Bahia!. Foi numa manhã que se emendou para um começo de tarde em Salvador que encontrei a Milena e a Luiza (e a Tapioca, claro!). Fizemos as fotos na Praia da Paciência, sentamos num bar para conversar e fui convidada para ir até a casa delas almoçar e conhecer um pouquinho do espaço que conquistaram e construíram juntas nesses anos que se relacionam. Lugar que me contaram com muito entusiasmo existir espaço para cuidar das plantas, para a Tapi correr e brincar, para compartilhar legumes e frutas com os vizinhos, mas que também foi um caminho árduo de percorrer até chegar nele, com perrengues e apartamentos completamente diferentes que passaram. Luiza conta como é diferente a relação que ela aprendeu a construir com Milena, começando pelo o quanto conversam: conversar mudou a sua vida. Nunca tinha se visto num espaço de tanta conversa e de conforto. Sente que respiram juntas, podem ter conversas que duram dias, mas seguem juntas. Fala também da importância de terem começado a terapia nesses processos que viveram (entre mudanças, casamentos, saírem de casa…) e o quanto foi fundamental para processar seu próprio tempo. Hoje em dia, aprenderam a pedir desculpas. Não gostam de joguinhos, entendem que não há orgulho próprio na relação, tendem a ter mais parceria assumindo erros ou assumindo funções na casa para que elas aconteçam na rotina. Deixam claro que são esposas, não amigas. Não querem que o relacionamento caia numa amizade, por isso respeitam os espaços individuais e sempre voltam ao lar entendendo o encontro único que possuem enquanto uma família. Milena no momento da documentação estava com 40 anos, ela é natural de Salvador, trabalha como atriz e coordena/faz produção de palcos numa casa de eventos no Rio Vermelho. Como hobby, adora fazer jiu jitsu. Luiza no momento da documentação estava com 29 anos, também é natural de Salvador, já trabalhou (e trabalha de vez em quando) enquanto atriz, mas hoje em dia seu foco é enquanto designer. Na pandemia, precisou fazer a transição de carreira porque tudo estava sem perspectiva na área das artes cênicas, o dinheiro apertou e ela foi trabalhar enquanto designer numa orquestra. Como hobby, Luiza pratica tecidos acrobáticos. Milena também teve seu momento de começar novos trabalhos na pandemia por conta de estar sem perspectivas, foi quando fundou uma marca de sabonetes naturais. Hoje em dia, vende apenas aos mais próximos. Foi durante o ano de 2018 que se conheceram, quando Milena chegou na companhia de teatro que a Lu fazia parte. De início elas se tornaram muito amigas, se davam bem em cena e sempre queriam contracenar juntas. Acreditam numa sintonia muito grande porque sempre “jogavam” bem juntas, desde cenas de improviso, até cenas já marcadas. E assim foram criando suas amizades. Ambas tinham seus relacionamentos - e ambos relacionamentos tinham seus momentos bons e ruins. Durante o carnaval, Milena abriu o relacionamento com a ex-companheira dela, e na quarta-feira de cinzas durante uma festa a ex-companheira da Luiza comentou sobre Milena e a Luiza fazerem um casal bonito. Na hora, as duas acharam isso estranhíssimo. Nunca tinham se visto com outro olhar, sempre foram só amigas e não deram muita bola. No decorrer da festa se beijaram, mas também acharam estranho. Nunca haviam se olhado enquanto paixão ou de um jeito com segundas intenções e só ficou um clima estranho. Como a festa estava sendo em casa, a Milena saiu e foi fazer coisas de casa, ignorando as pessoas que estavam ali, e na hora da Luiza ir embora foi se despedir. Naquele momento, eram só as duas, e aí elas se beijaram novamente. Naquele ano em diante trabalharam juntas fingindo que nada tinha acontecido e seguindo seus relacionamentos. Saiam, bebiam e até de vez em quando trocavam olhares ou algum carinho, mas nunca chegavam tão perto e no dia seguinte fingiam que nada tinha acontecido. Ambas viviam processos de separação, conversavam bastante quando se encontravam, mas era confuso o que sentiam. Foi quando Lu precisou viajar e antes decidiu conversar com Milena sobre tudo o que estava sentindo. Marcaram na praia (inclusive, a praia que fizemos as fotos) e quando chegou lá recebeu a notícia da Milena: “Vou casar. Você vai se separar. Isso não tem nada pra dar certo.” e nesse ponto concordaram, beleza. Mas concordaram também que sentiam alguma coisa uma pela outra, né?! Só que não iria dar certo, então entraram num acordo que era isso, que teriam que engolir esse sentimento e seguir a vida. Foram para um bar, tomaram uma cerveja e depois, quando precisaram ir embora, chegaram no ponto de ônibus e a Luiza perguntou se elas não iam dar um beijo só. Milena indignada disse “Você não ouviu NADA do que falamos até agora né????” porque acordo é acordo. Deram um abraço e foram embora. Com o tempo, seguiram se encontrando no trabalho, saindo, vivendo como viviam. As coisas não mudaram muito. Até um dia que se beijaram e chamam de “Beijo consciente”, visto que já tinham consciência do que poderia acontecer, tinham conversado e sabiam do que sentiam. A conversa desde aquele dia na praia também deixou claro que elas se gostavam, e daí foi o caminho de entender o sentimento, finalizar os outros laços e trabalharem esse processo interno para darem o beijo consciente. Antes do “Beijo consciente” Luiza conta o quanto a Milena terminava com ela diariamente. Ela falava “Lu, a gente não pode se falar mais.” E depois de uma hora falava “Esse silêncio tá fazendo sentido pra você?” risos. Era uma confusão. Mas uma confusão que precisavam viver também. Viveram muitos momentos de instabilidade referentes não só a relação das duas, mas os términos dos outros relacionamentos, questões familiares… estava tudo misturado. Em agosto daquele mesmo ano começaram a namorar, quando já tinham saído de suas antigas relações. Durante a pandemia ficaram na casa de uma/da outra, com suas mães… e em fevereiro de 2021 elas se casaram. Foram alugar uma kitnet, da qual visitaram iluminando com a lanterna do celular, vendo baratas no chão, tudo super estranho, mas falaram: é aqui! Juntaram o que conseguiram, compraram o que deu para comprar, construíram o espaço e adotaram a Tapi, uma vira-lata já na fase adulta. Para a Luiza, a única coisa capaz de mudar o mundo é o amor - e junto dele está o respeito, a liberdade. Na relação com a Milena consegue enxergar o quanto elas se amam e querem se ver crescendo juntas. Hoje em dia estão conversando sobre engravidar, construir uma família, ver o amor crescendo no lar e gerando coisas, ver a entrega que as duas podem ter gerando coisas para além delas. Desejam, também, ter uma base de amor. Hoje em dia enxergam a casa enquanto a base, um lugar seguro para serem quem são. Têm segurança de que são amadas. Pensam em gerar e educar porque desejam uma cidade que estejam representadas, que seja educada e que também eduque os homens. Falam sobre o quanto é cansativo ouvir coisas dos homens o tempo todo na rua e o quanto também se sentem muito menos seguras ao redor dos homens. Comentam que foram no Festival de Verão de Salvador (um dia antes de nos encontrarmos) e estavam rodeadas de LGBTs e o quanto se sentiram seguras, o quanto isso foi representativo. Desejam uma cidade que não seja violenta. ↓ rolar para baixo ↓ Luiza Milena
- Ana e Paula
Conheci a Paula e a Ana num almoço muito agradável e acolhedor que elas fizeram para me receber na casa recém mudada, no ano passado, em Porto Alegre. Lá também conheci o João, criança que me encantou desde o primeiro momento e que faz despertar muitas risadas de todas as pessoas que estão por perto. O João é filho da Paula com a ex-companheira dela, mas que agora também forma uma família entre a Paula e a Ana, já que eles se divertem juntos e adoram estar um na vida do outro. Na casa-meio sítio, o João adora colher bergamotas, brincar com seu cãozinho Bidu, acompanhar a Paula e a Ana na cozinha, assistir documentários de bichos e comer doces. Na relação delas, tudo envolve muito cuidado. A Paula explica isso com uma reflexão sobre alguns padrões de gênero acerca das imposições que as mulheres passam durante a vida, e que agora, num relacionamento homoafetivo, tratam tudo de forma colaborativa e com muito acolhimento, para que as coisas sejam mais leves no cotidiano - e que assim, elas sejam mais felizes também. A casa estava recém tendo as coisas retiradas das caixas, mas já contava com muita confiança no que elas estão dispostas a construir juntas: o amor. A Paula tem 34 anos, trabalha como gestora de TI, desenvolvedora, artista visual e designer. Já a Ana, tem 35 anos, estudou Medicina Veterinária, mas não chegou a se formar. Passou a trabalhar na área da comunicação com mídia social, produção de eventos e produção cultural. Durante essa trajetória, já residiu em coletivos urbanos e rurais em Goiás, trabalhando nestes espaços, e também já trabalhou com algumas terapias integrativas, como massagem e Reiki. Atualmente trabalha com Comunicação Social, ministrando alguns cursos, fazendo campanhas de sindicatos e partidos políticos. Fez alguns trabalhos artísticos de literatura e pintura, principalmente poesia, coisa que gosta muito de trabalhar. Elas se conheceram no Vila Flores, um centro cultural muito interessante em Porto Alegre, no ano de 2018. O evento se chamava Conexões Globais e a Paula estava se apresentando no coletivo de arte que faz parte. A conexão entre as duas aconteceu porque elas têm uma amiga em comum (que trabalha no mesmo coletivo com Paula). Ana foi prestigiar essa amiga, se encantou com a Paula e depois da apresentação quis saber mais sobre quem era essa “moça que estava se apresentando”. Nisso, a amiga explicou que a Paula era casada e que tinha até um filho, bebê, o que deixou a Ana um pouco chateada mas que super entendeu. Com o passar do tempo, Ana foi morar em Goiás para residir e trabalhar em comunidades rurais e quando retornou ao Rio Grande do Sul, trabalhou em uma comunidade urbana no centro de Porto Alegre. Neste período, um dos seus colegas de morada ia embora, mas indicou uma pessoa para ficar no lugar dele: a amiga recém separada que tinha um filho pequeno. Ana conta que os amigos diziam que a moça que iria morar lá já tinha frequentado o espaço algumas vezes, mas ela não conseguia lembrar quem era. Até que na semana seguinte chegou a Paula, para fazer uma visita na casa. A reação da Ana foi estar incrédula por ser a mesma Paula de anos atrás… Mas focava em uma regra que mantinha consigo mesma sobre não se envolver com ninguém que dividisse uma casa, pois isso poderia gerar conflitos no lar. De qualquer forma, tem coisas que não há como querer controlar, né?! A Paula brinca que quando a Ana passou por ela, parecia um gato se esfregando, pois estava muito próxima (mesmo tendo bastante espaço no ambiente que estavam). Na hora ela achou engraçado, não percebeu de cara que era um flerte. Por fim, elas não conversaram muito e de última hora a mudança não aconteceu: o amigo cancelou a saída e precisou se manter na casa, não abrindo lugar para a Paula se mudar. Elas não se tinham nas redes sociais e acabaram perdendo contato novamente. No começo da pandemia, em 2020, elas se encontraram num aplicativo de relacionamento (o já famoso por aqui, Tinder). Elas conversaram e, depois de um tempo, se encontraram para tomar um vinho. Brincam que desde então não se desgrudaram mais. Nesse período, em virtude da pandemia e das dificuldades de morar em grupo, Ana se mudou para um apartamento com uma amiga e o filho dela e a Paula seguiu morando no mesmo local em que estava com seu filho. Isso fez com que elas se sentissem mais seguras de se encontrar também - e de compartilhar várias coisas sobre as crianças no dia a dia. Após dois meses de relacionamento, a Paula convidou Ana para almoçar junto com ela e o João. Foi um dia super importante, Ana conta como ficou nervosa, mas que fluiu tudo de modo muito tranquilo - João e ela brincaram e rapidamente ele demonstrou afeto e inclusive quis almoçar sentado no colo dela. Aos poucos Ana foi sendo inserida na rotina da casa e da família. João também foi entendendo essa presença, perguntando sobre ela. Quando passaram por uma mudança ele perguntou onde seria o quarto dela e quando ela não estava ele questionava por qual motivo/o que ela estava fazendo. Num dia, Paula perguntou para o João se ele gostava de estar só os dois e ele afirmou que sim, e quanto questionado sobre o que pensava da Ana, disse que era mais legal quando a Ana estava junto. Isso foi como um divisor de águas para elas entenderem o processo dele na adaptação. Ana conta que não era uma ideia fácil inicialmente se relacionar com alguém que tivesse filhos, mas que por viver essa paixão com a Paula quis realmente abraçar toda a vida dela. Paula complementa relembrando um dia em que foi difícil lidar com o João, então ela chegou a pensar que a Ana iria desistir, mas que isso não passou pela cabeça da Ana. É muito legal ver a educação dele se desenvolvendo, a participação dela nisso, os limites colocados e toda a relação sendo construída com base no amor. Elas se emocionam contando a primeira vez em que ele disse que amava a Ana e sobre o quanto viraram parceiros-cúmplices do dia a dia, fazendo o que gostam e ele também trazendo muitos ensinamentos para Ana - que passou a participar de grupos de madrastas lésbicas e a seguir redes sociais sobre parentalidade também, pois não queria criar um território de disputa com as mães ou o pai. Destaca o quão sempre foi importante para ela poder ser uma figura de referência e afeto, mas sem competições, disputas ou invasões de espaços. Ana traz também sua reflexão sobre os aspectos sociais do seu lugar enquanto madrasta e das pré concepções e preconceitos existentes acerca desse papel na família a fim de abraçar esse universo com todas as ferramentas possíveis. Fala sobre o amor ser onde nos sentimos seguros para ser quem somos, e nesse cenário de família tradicional brasileira que elas são, elas querem ser de verdade e amar de verdade, sem medo. Ambas concordam que não é uma receita de bolo e que amar e construir a relação que constróem envolve se desafiar todos os dias. Paula reflete também sobre a concepção de construção familiar não ser feita para contemplar o amor e sim o poder - traz que para poder registrar o João tiveram que defender a família que ele tem, afirmando que o que importa é o amor, na concepção de que ele tá sendo privilegiado por ser amado por mais pessoas. Enquanto o “medo” alegado pela Justiça, era de que ele seria maltratado por ter uma família diferente do padrão esperado, ao invés de ser entendido como alguém de sorte por ter duas mães, agora uma madrasta e um pai. É muito injusto ter que se justificar para que o ciclo de amor em volta de uma criança seja criado, mas é incrível ver a forma que elas se firmam nesse relacionamento para que as trocas entre as duas (e o João) sejam as mais bonitas possíveis durante o trajeto. ♥ Paula Ana Carolina
- Thay e Camila
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Thay e Camila, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Thayanne e Camila vieram de lugares bem distantes, mas se encontraram em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, em 2017, entre aplicativos, amigos, universidade e gostos em comum. Thay é de Barbacena, Minas Gerais, mas se mudou para o Rio de Janeiro com a família que foi para Cabo Frio quando ela era mais nova. Na faculdade, passou para a UFF (Universidade Federal Fluminense) e se mudou para Niterói. Cami é de Salvador, chegou até Niterói também por conta da faculdade (que também era na UFF) e passou oito anos morando lá. Hoje em dia, ela e a Thay moram no Rio, num apartamento que comemoram juntas terem conquistado depois de tanto tempo que passaram entre repúblicas e casas compartilhadas com amigos. Foi por conta de um aplicativo de relacionamento que elas se conheceram, mas quando deram ‘match’ resolveram, nas suas palavras, “brincar de rebuceteio”: abriram o Instagram e foram ver os amigos e amigas que tinham em comum. Nem imaginavam quanta coisa teriam em comum, na verdade: a Thay estudou no Ensino Médio com um dos melhores amigos da Cami, ela também conhecia e frequentava casas de outros amigos em comum e assim foram descobrindo que conheciam as mesmas pessoas, as mesmas histórias e os mesmos eventos, mas nunca se encontravam nos espaços. Sem contar nos gostos para as coisas, que eram muito parecidos, mas que também nunca tinham se cruzado até então. Nessa época que se encontraram, em 2017, a Cami ainda estava saindo de um relacionamento aberto do qual não se sentia confortável e era um desafio viver um novo relacionamento com alguém. Elas brincam que o verdadeiro incentivo por trás do namoro acontecer foi o fato de que começaram a pegar a barca Rio x Niterói todos os dias juntas, quando ambas conseguiram trabalhos na capital. Como iam e voltavam no mesmo horário, se ver diariamente foi um empurrãozinho ao romance ser criado. Viviam momentos muito difíceis também em relação aos perrengues financeiros. Ambas moravam em repúblicas e tinham pouco dinheiro para se manter. No primeiro encontro, por exemplo, beberam literalmente um chopp porque era o que poderiam pagar. Passavam por várias crises e sentem que foi um encontro que só falaram sobre problemas, mas que mesmo assim se deram muito bem, porque se sentiram em um espaço seguro para compartilhar as coisas. Tudo virou logo no início do namoro, quando elas conseguiram um emprego. Foi uma grande felicidade, um momento muito eufórico - e não, não era só porque com o emprego elas passaram a se encontrar todos os dias nas barcas. Com um salário elas poderiam começar a fazer coisas juntas, mesmo que sobrasse muito pouco, elas aproveitavam cada centavo: foram em vários museus, passearam em todos os lugares gratuitos possíveis, tomavam mesmo que fosse apenas uma cerveja, mas se divertiam muito. Com o tempo, passaram a ficar escondidas na república uma da outra, porque pelas regras não podiam receber visitas - porém, contudo, entretanto (!!!) a regra dizia visitas masculinas, então elas não estavam tão contra assim. Aos poucos entenderam que não valia a pena continuarem gastando cada uma em sua república e que seria mais fácil morarem juntas dividindo apartamento com outras amigas, foi assim que se mudaram para um novo lugar. Depois, o desejo virou outro: morar numa casa com janelas, que entrasse sol, que tivessem espaço (mais de um cômodo) e que pudessem se sentir em casa realmente. Isso aconteceu recentemente, agora, na casa do Rio, e elas não poderiam estar mais felizes. Decoram tudo juntas, aproveitam a cidade e o ambiente ao redor. Inclusive, estão noivas! Ficaram noivas durante a pandemia, quando entenderam que mesmo que estivesse tudo errado ao redor, o relacionamento era uma fonte de felicidade muito grande e dentro desse lar constróem mais um pedacinho do relacionamento. É como se um novo momento de euforia estivesse acontecendo. O momento de euforia é reflexo do quanto cresceram juntas. Amadureceram, viram suas vidas mudar profissionalmente. Agora, estão conseguindo construir planos verdadeiros pela primeira vez, entendendo o que querem se tornar. Já passaram por muitas vivências juntas desde 2017 até hoje: apresentar a ambas as famílias uma namorada pela primeira vez, até conquistar pequenas e grandes coisas que sempre sonharam. Ainda querem, dentro dessas mudanças, viver as coisas de forma saudável. Falam sobre suas relações com seus empregos e com a cidade em que vivem. A Cami, que no momento está com 26 anos, trabalha com consultoria estratégica e deseja ser feliz para além do trabalho, ter uma relação boa com seu ambiente e com a sua rotina, mas não depender dele por completo. Ela também deseja ser mais ouvida e ser mais considerada enquanto mulher numa sociedade. Já a Thay fala sobre como tenta diariamente transformar a sua rotina na relação mais saudável possível para que as 8h diárias que passa trabalhando na empresa não seja algo que ultrapasse o limite do próprio corpo. Ela comenta que hoje vivemos um momento de desigualdade e de pessoas que demonstram ser pró desigualdade - as pessoas falam o que pensam ser vergonha alguma - e ela gostaria muito de ver as coisas mudarem, ver a vida com mais esperança. Tanto a Thay, quanto a Cami, são muito ligadas à família e acreditam que nessa base aprendem os ensinamentos do que é o amor. Thay conta que remete amor à relação que os pais dela possuem, pois são pessoas simples, trabalhadoras e com eles aprende muito sobre a vida. Para ela, também, o amor envolve carinho e cuidado. Já a relação com a Cami mostra pura leveza, mesmo nos momentos difíceis foi leve e prezando pela liberdade de cada uma. Cami traz o exemplo do amor desde momentos corriqueiros, como a avó contando sempre as mesma história, às memórias afetivas que sente quando está em casa, a família que recebeu a Thay tão bem quando ela visitou Salvador e também o que aprendeu com a mãe, sobre sempre deixar uma marca boa pelas pessoas com quem ela cruza: uma felicidade/fazer algum bem - assim é uma forma de amar também. Dentro da relação ela entende junto com a Thay que ninguém é feliz sozinho e que juntas elas conseguem muito mais, por isso, estão sempre rodeadas de afeto e deixando também afetos por onde passam. Camila Thayanne



