Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
293 resultados encontrados com uma busca vazia
- Mari e Nono
Mari e Nono A Mari se inspira nas famílias LGBTs que ela acompanha online. Essas famílias a trazem esperança - e assim elas aprendem a admirar suas famílias também, em como se permitiram entender, aos poucos, o relacionamento. São mulheres que sonham em formar seu próprio lar. Quando fazemos parte de uma minoria acontece com frequência uma forma de justificativa categorizada como “apesar de”, e tanto a Mari quanto a Nonô sentiram na pele o que é isso. A Mari sempre foi uma aluna muito boa, sempre teve as melhores notas e era perfeita para os outros. Então, mesmo com diversas mudanças repentinas na vida, como a saída do armário e a mudança de cidade, vincularam o fato dela ter tirado uma nota mais baixa com o relacionamento amoroso delas, como se isso pudesse ser o verdadeiro fator prejudicial. Elas passaram a comprar juntas essa briga e a lutar pelo respeito que mereciam. Hoje em dia ainda se veem nesse papel de “apesar de namorar uma mulher, a Mari é uma excelente profissional” e entendem que isso é um problema social, mas em suas próprias palavras, elas não esperam que as coisas cheguem resolvidas na vida delas, mas sim que resolvam juntas. Sempre se mostram muito determinadas a promover mudanças. “Amor é pão feito em casa”, foi assim que começaram a explicar o que pensam sobre o amor entre mulheres. Vocês já tentaram fazer um pão em casa? É preciso uma dedicação absurda, cuidando e dando atenção para que a massa seja gostosa. Essa dedicação pode vir à flor da pele, de forma vibrante, mas ela realmente caminha quando tudo se acalma e passa a ser de uma forma genuína, com cuidado aos detalhes. Além disso, amar se constrói por causa DE e apesar DE. Depois que elas postaram a primeira foto juntas (após um ano de relacionamento), viram alguns seguidores indo embora. Foi neste ato que entenderam que realmente estavam fora do armário. Hoje em dia elas reivindicam a importância de sermos referência para quem está perto de nós, dar apoio aos nossos, inspirar outras mulheres que passam pelo mesmo que elas passaram. Acham que, no geral, é muito importante vermos LGBTs na mídia “abrindo um pouco o caminho” e quebrando algumas barreiras do preconceito, mas comentam que ainda sentem falta de se ver nessas pessoas, de sentirem identificação. Por isso, abrem suas redes sociais sempre para ajudar quem está se descobrindo. A Mari foi arrancada do armário - como a mãe dela descobriu, ela não teve a condição de se sentir confortável para contar - e isso aconteceu num momento muito vulnerável. A Nonô já teve seu tempo mais respeitado e pode contar para a sua família. A avó de Nonô, cujo ela tinha o maior medo de contar, reagiu de forma engraçada e acabou entendendo - na verdade, foi a pessoa que mais aceitou. A família da Mari se dividiu em algumas partes… a mãe reagiu de forma difícil, o pai passou a tentar entender os motivos. Mesmo com muitas dificuldades, o tempo foi passando e elas foram crescendo muito juntas, então a família foi entendendo e respeitando o grande apoio que uma dá para a outra. Hoje em dia, elas possuem estabilidade e o desejo de uma vida tranquila. A Mari e a Nonô se encontraram (e se encontram diariamente) de muitos jeitos, mas principalmente na arte. Elas amam musicais e possuem um projeto de criar listas sobre filmes e séries para a comunidade LGBT. A Mari também ama atuar, a Nonô apoia bastante, enquanto aprende a tocar baixo. Mari trabalha atualmente como design de mídias sociais, além de estudar Relações Internacionais... e Nonô estuda licenciatura em artes, sonha em ser professora, faz iniciação científica no PIBID, mas também adora estar em produções - de teatro, de cinema… hoje em dia elas estão em home office e Nonô busca trabalhos na área da comunicação também. Passam o dia juntas em um apartamento, na Ilha do Governador, com seus dois gatos: a Elis e o Chico. Escolheram fazer as fotos no apartamento porque esse lugar representa o verdadeiro significado de casa. Foi ali que pela primeira vez fizeram as compras do mês, viram filmes no sofá da sala sem medo de recriminações, puderam ter os gatos, cozinhar e conquistar a intimidade juntas. É na casa que acontecem seus momentos favoritos, como o de fazerem o almoço no meio do home office e depois sentarem para ver uma série, mas acabam passando um pouquinho da hora do almoço e só depois voltam a trabalhar. É nesse apartamento que abraçam os gatos e depois reclamam de ter pelos pelo corpo, nesse apartamento que separam seu tempo de criar, de construir e de se cuidar. Talvez o segredo da Mari e da Nonô terem dado tão certo é o fato delas crescerem muito juntas. Esse fato fez com que a família, mesmo com diversas dificuldades, dia após dia, passasse a acreditar de verdade no amor delas. Fez também com que elas começassem a entender o que pode ser o amor. Mariana tem 20 anos, Nonô tem 19. Elas se conheceram ainda no colégio, no ensino médio. Mari tinha passado por algumas situações… precisou se mudar da cidade onde estava morando, em Barra do Piraí, no interior do Rio, para a capital. Por um tempo se sentiu sozinha, tentou seguir um padrão de vida do qual não se sentia bem de verdade, e por ser o mais confortável, encarou o padrão heteronormativo. A família dela era bastante conservadora e evangélica, ela sempre frequentou a igreja, seguia sua vida sendo uma boa aluna, uma boa filha e uma boa namorada. Voltar a morar no Rio significou um escape naquele relacionamento que ela mantinha. E foi no Rio que conheceu Nonô, assim que chegou na escola. Nonô sempre gostou muito de artes - ama materialidades, sentir o têxtil, pinturas, tocar instrumentos, jogos, cinema, teatro… e também sempre sentiu que poderia gostar de mulheres. Nonô me explicou sobre a importância de quebrar o tabu que fica envolta da palavra lésbica, porque mesmo ela sabendo que era, acabava por usar “gay” ou “sapatão” e cultivava certo medo de dizer a palavra. Quando entendeu as raízes preconceituosas desse medo passou a tentar aos pouquinhos desconstruir isso, e hoje faz questão de dizer sempre: sim, sou uma mulher lésbica. Mari Nonô <
- Ane e Thelassyn | Documentadas
Foi na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro onde Ane e Thelassyn se conheceram (e onde fizemos as fotos para o Documentadas), no polo de Nova Iguaçu, na baixada fluminense. Em 2018, quando Ane cursava história e Thethe cursava pedagogia, frequentavam muito os centros acadêmicos dos seus cursos e possuíam diversos amigos em comum. Contam o quanto gostavam de se envolver em tudo o que podiam na faculdade, inclusive na causa animal: no campus há diversos cachorros e gatos abandonados e então participavam dos coletivos que cuidavam dos bichinhos. Ane morava numa república e estava hospedando uma cachorrinha que tinha sido atropelada e precisava de cuidados, até que Thelassyn foi doar um remédio que estava faltando e se encontraram pela primeira vez. Ane achou Thethe linda demais, ficou encantada. Por mais que Thethe brinca que não tenha acontecido nada demais, só entregou o remédio e foi embora, depois disso se encontravam de vez em quando e Ane sempre ficava nervosa. Até que um dia, durante uma manifestação política por conta do Museu Nacional ter pego fogo, se encontraram e interagiram no centro do Rio de Janeiro, conversaram e foram juntas até o ponto de ônibus, onde deram um selinho. Uns dias depois aconteceria uma festa na faculdade e Ane convidou a Thethe, elas se arrumaram juntas, lá na república em que ela morava. Depois, na festa, quando Ane finalmente achou que elas iriam se beijar, Thethe chegou até ela e disse: “Minha amiga quer ficar com você!”. Ela não entendeu nada, respondeu que na verdade queria era ficar com a Thethe, não com a amiga. E enfim o beijo aconteceu. Depois da festa e do primeiro beijo, passaram o fim de semana conversando. Até que a semana começou e decidiram se encontrar na faculdade e, depois da aula, assistir um filme na casa da Ane. Na faculdade ficaram novamente - no local em que fizemos as fotos, inclusive - e depois foram para a república, na casa da Ane. No dia seguinte, quando acordaram, a Ane convidou Thelassyn para almoçar e assim tudo foi acontecendo… passou o dia, a noite, o dia seguinte… e foi ficando. Ela ia para a casa, pegava roupas, visitava e voltava para dormir com a Ane. Depois de 15 dias, já tinha ganho até uma gaveta no guarda-roupa. Num dia, na faculdade, estava acontecendo um evento no hall de entrada, então Ane pegou o microfone e pediu Thethe em namoro - mesmo que elas já estivessem com a gaveta compartilhada no guarda-roupa. Naquela época, contam que quando não estavam juntas na república, os amigos que dividiam casa até estranhavam. Foi então que, depois de dois meses, decidiram se mudar para uma “casa de verdade”. Querendo ou não, era muito ruim na república: muita gente, uma cama de solteiro, sem ventilador.. passavam muito perrengue. Conseguiram um apartamento próximo da faculdade, dividindo com uma amiga. A mudança aconteceu sem rede de apoio, começo de namoro, sem móveis, sem programação. Ganharam alguns eletrodomésticos, mas lembram que no primeiro dia não tinham nem vassoura, prato, copos… A vida no bandejão da faculdade salvou tudo. Passaram um ano morando neste apartamento. Foram comprando móveis usados, trabalhando muito… Até que conseguiram se mudar para uma casa só delas. Neste novo lar, adotaram duas cachorrinhas, fizeram suas primeiras viagens… Ao total, até hoje, já se mudaram mais de 6 vezes. Entendem que por mais que tenha existido muito perrengue, hoje em dia estão no lar que mais amam e que mais desejaram viver. No momento da documentação, Thelassyn estava com 28 anos, terminando as faculdades de pedagogia e enfermagem. Por mais que sejam áreas bastante diferentes, conta que deseja trabalhar com o que tiver mais demanda de trabalho primeiro, mas que se for com educação, sua prioridade é escolas públicas. Infelizmente na rede particular sofreu um caso de lesbofobia, sendo demitida depois de descobrirem o relacionamento. Ane, no momento da documentação, estava com 25 anos. Ela é natural de Campo Grande, no Rio de Janeiro e se mudou para Nova Iguaçu para fazer faculdade em 2016. Hoje em dia, cursa mestrado, também na UFFRJ, no campus de Seropédica. Lidar com as adversidades no cotidiano não é fácil, principalmente por serem pessoas bastante diferentes - Ane, por exemplo, sente que precisa de mais tempo para processar as coisas, enquanto Thethe é mais ansiosa e deseja resolver os problemas logo. É preciso cuidado para não desequilibrar ou se atropelar. Explicam que o que faz elas continuarem juntas é a vontade de continuar juntas. Parece simples, mas é o que define a grande determinação de passar por cima de todos os perrengues que já passaram em nome do amor que sentem. Explicam que o mais difícil é não ter uma rede de apoio presente, acabam sendo o apoio uma da outra e, como resultado, o impulso também para o amor que acreditam. No começo, foram muito criticadas. As pessoas falavam que o relacionamento não iria durar, tiveram que se afastar da família por não terem apoio (com exceção da avó e da irmã da The, que são boas aliadas)... foi muito difícil enfrentar tudo. Hoje, ficam felizes em relembrar o que viveram desde o início e ver como superaram e passaram por cima desses comentários mostrando o amor que vivem e o que estão disposta a viver, principalmente agora, que estão noivas. Sonham com o casamento, que pretendem realizar em breve, e se permitem planejar uma vida juntas. No Instagram, é através do perfil @morandocomela que relatam o dia a dia que vivem. Foi da vontade natural de registrar os detalhes do cotidiano, quase como uma documentação, que surgiu. Não numa linha influencer, mas de mostrar as conquistas, as fotos, gravar o que acontece, as cenas com as cachorras... No começo, Ane pouco aparecia, ficava envergonhada… hoje em dia adora. Thelassyn acredita que amar uma mulher é resistir sempre. Entende que o mundo ao nosso redor ainda é muito hetero, feito por pessoas héteros e para pessoas héteros. Quando se ama outra mulher e se mostra isso, se demonstra muita coragem. Ane faz o recorte racial quando fala sobre o amor que vivem, afinal, são um casal interracial e estudam sobre o amor também enquanto política - escolher quem você ama fala sobre quem você é e sobre o próprio racismo. Conversam muito sobre práticas, falas e sobre a Ane não ser uma “wikipédia preta”. Thethe está sempre disposta a quebrar os preconceitos que são culturalmente colocados em nós e assim encontram diversas formas de viverem um amor honesto. Entendem que a homofobia está em vários cantos, desde quando saem de casa de mãos dadas e os vizinhos olham diferente, até não serem convidadas para as festas de família - “As pessoas tentam fingir que não é, mas sabemos que é”. Tentam ressignificar todo dia, trazer amor para a relação delas a fim de lidar com as coisas ruins do mundo: não gritar, brigar o mínimo possível, buscar se entender e se respeitar ao máximo. Ressignificar com amor em vários espaços. Thethe fala sobre ver muito o amor no dia a dia, com as cachorras, em casa, na varanda com a chuva caindo. Ressaltam que sempre que chovia, nas outras casas que moravam, era um tormento porque alagava tudo e hoje em dia ter a casa com varanda fez a chuva virar uma alegria… Quando chove correm para observar juntas, é um momento só delas. ↓ rolar para baixo ↓ Thelassyn Ane
- Kelly e Maíra
Para a Kelly e a Maíra, lar significa o lugar que elas estão juntas. Esse pensamento teve início desde o começo da relação, em que elas se conheceram/se encontraram/e vivenciaram todo o início da pandemia de Covid-19 juntas. Para superar os desafios, estabeleceram o que chamam de “protocolos de bem-estar”: se uma está num dia mais corrido, a outra passeia com o cachorro, por exemplo, fazem de tudo para que a casa esteja harmonizada, assim como a relação entre elas. Kelly conta de um dia que ela levou uma “bronca” de um chefe e que a Maíra rastejou - para não aparecer na câmera - até chegar ao lado, pegar na mão e dar apoio durante aquele momento que sabia que estava sendo muito difícil para ela. Desde o começo da relação enfrentaram vários desafios e dificuldades. A Maíra, por exemplo, estava sem trabalhar porque seus atendimentos ainda não haviam migrado para o mundo online e estava bem difícil sustentar, enquanto a Kelly estava finalizando uma empresa que passava pela crise. Foi um suporte e apoio mútuo que uma proporcionou à outra. Elas relembram que isso ficou claro desde o início: partilharam felicidades e dores. Não houve um jogo único e exclusivo de sedução/de mostrar que a vida é só incrível, até porque estavam ali, literalmente sem maquiagens, desde o início. Hoje em dia, o relacionamento é um lugar seguro para ambas - serve de auxílio também. Elas sentem que terem se encontrado foi a mola propulsora para que vários outros ciclos se fechassem (como a Kelly parar de fumar, melhorar a relação familiar e encontrar sua família biológica). Entendem que nesse encontro algo realmente se encaixou e, não à toa, tatuaram um triângulo que se completa quando estão juntas. No momento da documentação a Maria estava com 32 anos. Ela é psicóloga e é natural de Curitiba, no Paraná. Já Kelly estava com 39 anos. Ela é natural de Governador Valadares, em Minas Gerais, e passou por algumas cidades até chegar em Curitiba, no Paraná. Hoje em dia trabalha enquanto programadora e estuda engenharia de software (esse, um sonho antigo, mas que nunca achava que seria capaz. Voltou a estudar através de um processo de incentivo que a Maíra colaborou muito para que acontecesse ♥). Quando elas deram match num aplicativo de relacionamentos nem imaginavam que teriam tanta coisa em comum: foram 5 horas conversando (e brincam que não pararam de conversar até hoje!). Entre a conversa, foram descobrindo que frequentavam muitos espaços em comum, mas que não se conheciam pessoalmente, por exemplo: a Maíra fazia pós graduação no prédio que a Kelly trabalhava, elas já moraram em lugares muito próximos e, além disso, a Kelly morou no prédio que a mãe da Maíra morava. Também descobriram que ambas são formadas em artes cênicas como primeira graduação e ficaram chocadas com tantas coincidências. Se pegaram pensando: será que já pegaram o elevador juntas? Ou foram na farmácia na mesma hora? Mas entendem que o momento certo de se encontrarem foi aquele, no aplicativo. Depois de alguns dias conversando, foram pensando em protocolos de segurança que poderiam enfrentar para se encontrarem - estavam ambas isoladas em suas casas e gostariam de ficar isoladas numa casa só. Na época, não tínhamos informações precisas sobre a Covid-19 então tudo era muito perigoso, contagioso, mas ao mesmo tempo havia uma sensação de que “na semana que vem” tudo iria acabar. Num sábado a Kelly mandou uma foto para a Maíra de um frango com batatas, chamando-a para a janta, e ela decidiu ir. Foi a primeira vez que se encontraram: tirando a roupa que achavam estar contaminada (porque teve contato com a rua) na porta, colocando na máquina de lavar e correndo para o chuveiro para tomar banho. Assim, elas ficaram de sábado até segunda juntas. Como a pandemia não estava nem perto de dar uma trégua, o relacionamento delas foi acontecendo, elas se encontravam e passavam dias juntas e decidiram depois de pouco mais de um mês fazer uma mudança mais sensata de viver na mesma casa. Maíra pensava nas comorbidades e temia o Covid-19, perante ser uma mulher com um corpo sobrepeso, então elas cuidavam ainda mais do isolamento e decidiram juntar os gatos com o cachorro e ficar em casa, no estúdio em que a Kelly morava. Foi um momento bastante intenso de estarem num espaço, juntas, 24h por dia. Porém deu tão certo que até hoje vivenciam essa realidade trabalhando de home office, numa rotina bastante caseira. Hoje em dia, elas têm um cuidado com a espiritualidade bem grande, por mais que não possuam religiões específicas. Já chegaram a estabelecer um ciclo de 52 semanas (um ano) com rituais espirituais entre textos, propostas, conversas etc. e a Maíra também faz parte do círculo sagrado feminino. Entre a fé e a espiritualidade, elas adoram comemorar as datas: desde casamento, aniversários e outras datas importantes. Não necessariamente com festas, mas celebrando rituais como banhos de ervas, revendo anotações, trocando conversas… acreditam na valorização da trajetória que estão traçando juntas. Nesse caminho que está sendo o relacionamento, lavaram muita roupa suja de vivências anteriores que tiveram - e isso tudo aconteceu dentro de casa - então sentem que esses rituais colaboram na criação de um lar muito seguro, que nem sequer imaginavam ter. Kelly acredita que só o amor é capaz de transformar as coisas - se você consegue amar, você consegue propor mudanças reais no mundo. Maíra acrescenta que amor não é hierarquia, é algo mais democrático. Tem espaço para a verdade e o papel de estabelecer conexão com as coisas que estão ao redor. Entre mulheres, amar é também nos protegermos, não é algo violento, é um elo. Ela cita um exemplo da presença do bolsonarismo no condomínio onde moram e da política do medo que isso implica ao ver bandeiras do Brasil nas janelas - a importância que há no nosso amor porque ele vira algo revolucionário, que demanda coragem. A Kelly conta que foi percebendo ao longo da relação o quanto a visibilidade lésbica é importante. Este foi o primeiro relacionamento que ela assumiu de verdade, que não diz que divide o apartamento com uma amiga, que trata a Maíra enquanto esposa. Termos atendimento num posto de saúde, por exemplo, acontece a partir do momento que mostramos a nossa existência e que as pessoas entendem o quanto é necessário ter atendimentos voltados à saúde da mulher lésbicas. A visibilidade é muito importante para mostrar que existimos porque isso reflete em termos documento, constatação social, políticas públicas, conhecimento e reconhecimento das nossas vidas. ↓ rolar para baixo ↓ Maíra Kelly
- Lara e Ana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Lara e da Ana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Lara comenta que o amor entre mulheres pode envolver maior cuidado pelo reconhecimento que uma mulher possui pela luta da outra, mas também comenta a não-generalização justamente tanto por ela quanto pela Ana já terem passado por relações com pessoas que acabaram sendo bastante tóxicas. Além do amor em si, comenta sobre a necessidade de olharmos para nós e para o que somos, as pressões que nossos corpos passam, nossa estética, nos olharmos com cuidado, entendermos nossas inseguranças, nossos medos… não desacreditarmos no amor de forma geral. Elas entendem que o preconceito existe pela falta de conhecimento e pelas pessoas tirarem conclusões precipitadas, julgarem por algo que não tentam conhecer. Falam que o amor lésbico deveria ser olhado com mais afeto e menos hipersexualização, menos olhar de indústria pornográfica, porque no fim as pessoas precisam apenas saber querer conhecer, ter essa proatividade de reconhecer que precisam buscar mais, mudar as coisas, quebrar preconceitos… e que a partir do momento que elas perceberem que é tão simples, que tá tudo bem, que isso tudo é “só” amor, as coisas vão ser muito mais fáceis para todo mundo. Mas que para isso acontecer temos um longo caminho ainda. Não à toa, elas tentam estar sempre abertas à dialogar e mudar cenários, independente de tudo. Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Hoje em dia, a Lara trabalha em uma loja de roupas, é modelo plus size e estudante pré-vestibular. Sonha em fazer relações públicas para se especializar em marketing digital. Sua ligação com a mãe é absurdamente forte, assim como a fé e a religião. Frequenta a umbanda/candomblé e ama cultivar os momentos em que está no centro de religião. Além disso, também é uma grande fazedora-de-poemas. A Ana trabalha em uma farmácia de manipulação e também possui uma ligação muito forte com a religião. Foi algo que ela sempre se encontrou e que o relacionamento potencializou de um jeito transformador para ambas. Ela comenta que se viu muito tempo distante do que mais gostava, se sentia perdida, longe dos amigos e não se sentia bem nos outros relacionamentos e por muito tempo falar com a Lara, mesmo que rapidamente pelas redes sociais, acabava trazendo de volta o que ela sentia falta e não sabia nomear. Hoje em dia disse que se encontrou de novo e que sente uma paz muito grande, algo muito saudável. “Meu lar se ancorou nos olhos dela”. A história da Ana e da Lara te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! A Lara conta que nessa época começou a entender que quando beijasse a Ana, iria se apaixonar. Elas sempre tiveram muita sintonia, a amizade ia além, o afeto conectava, se encaixava… e elas se pareciam muito também. Então surgia até um certo receio do momento em que isso fosse acontecer, por mais que ambas sentissem vontade. Com a chegada de 2020 e o início da pandemia, elas tiveram um afastamento automático na amizade, que só voltou após o término do relacionamento da Ana e de ela passar por momentos bem difíceis, já próximos ao fim do ano. A Lara ofereceu muito suporte nessa época, elas voltaram a se aproximar e foi aí que decidiram finalmente dar uma chance a essa história de amor acontecer (no começo, em forma de amizade colorida, pra ver se daria certo!!!! e hoje em dia estão de aliança e tudo!). Perguntei para a Ana se não foi difícil assumir um relacionamento logo depois de ter passado por algo assim, justamente por ela ter proposto a amizade colorida, e ela comentou que sim, que não pensava em se envolver dessa forma, mas como gostava da Lara há tantos anos e desde tão nova, sentiu esse momento como finalmente uma oportunidade de estarem juntas, não havia formas de deixar isso passar. No dia primeiro de janeiro de 2021 elas estavam conversando e a Ana mandou uma música para a Lara (Mirrors, do Justin Timberlake), dizendo que era uma música que sempre ouvia e a fazia pensar nela. Essa música secretamente é a música favorita da vida da Lara e ela nunca tinha compartilhado isso com ninguém, o que a fez ficar muito emocionada, porque sempre quis que alguém a visse como a música descreve. Foi a partir da música que elas ficaram juntas e que o pedido de namoro também aconteceu, meses depois, cheio de jantar, vinhos, painel de led, comidas gostosas e preparativos. ♥ O romance das duas, teoricamente, começou ainda láááá no ensino fundamental, mas só de um lado. Elas estavam em um grupo de amigos e a Lara chegou para a Ana e disse “ei, escuta uma música chamada Segredos, da Manu Gavassi”, até aí ok, Ana foi pra casa e quando decidiu ouvir viu que a música era super romântica e pensou que pudesse ser algum tipo de indireta para ela, sendo que na verdade não envolvia nenhuma maldade, era realmente só uma indicação, mas a menina se deixou levar, criou um sentimento, desenvolveu um interesse e ficou com isso guardado no peito. O tempo se passou, elas não eram tão próximas e quando chegaram no ensino médio foi criado um grupo e a amizade foi se desenvolvendo, enquanto simultaneamente estavam se descobrindo nas suas vidas também. Hoje em dia, a Ana conta que naquela época percebia que o corpo automaticamente, como se fossem instintos, respondia às ações da Lara - cada vez que ouvia a voz, ou que ela saía para ir ao banheiro… coisas do tipo - o coração disparava, as borboletas batiam no estômago… e assim, a relação ficava mais próxima. Porém, aconteceram uma série de situações que fez com que esse grupo acabasse se envolvendo em discussões e todo mundo optou pelo afastamento, então as duas acabaram se afastando nisso também e interromperam a amizade. Ambas se envolveram com pessoas e acabaram criando relações bastante tóxicas, a Ana enquanto um namoro, e a Lara por mais que não chegasse a namorar de fato, acabava tendo envolvimentos, idas e vindas e não se sentia bem no que vivia. Foi quando ela resolveu retomar um contato com a Ana, saber como ela estava e as duas voltaram a conversar frequentemente. Foi nesse momento em que a Ana passou a olhar a Lara com novos olhares, a relação que antes mostrava o interesse surgindo só dela agora parecia ser diferente, sempre tinha uma implicância de brincadeira, uma bobagem à toa para ver a Lara sorrindo, uma palhaçada… e naquele momento parecia ser diferente, com o passar dos anos e já no fim do ensino médio, elas também estavam diferentes. Foi quando ela tentou um primeiro flerte e foi correspondido, mas elas nunca chegaram a se beijar, terminaram o ensino médio, a Ana começou a namorar outra pessoa, se envolveu em outro relacionamento do qual não se sentia tendo algo saudável e toda vez que parava para analisar e pensar sobre a situação em que estava, se via caminhando em círculos. A história da Lara e da Ana faz acontecer uma boa mistura na nossa cabeça porque envolve muita coisa, mesmo elas sendo tão tão tão novinhas, já se conhecem há 7 anos! Elas se conheceram no colégio, ainda no ensino fundamental. Sim, geração 2000! (se você não está se sentindo velha, é porque você provavelmente também faz parte dessa geração). A Lara tem 19 anos, a Ana tem 20 e por mais que no colégio fossem amigas, lá, no auge dos 14 aninhos, elas não eram tããão próximas assim. A Ana conta que já era capaz de se sentir mexida com algumas coisas que a Lara fazia, mas não sabia que nome dar para isso, porque tudo é muito novo quando se está na adolescência. Ela foi se entender e se descobrir mesmo aos 16, quando beijou uma mulher pela primeira vez. Começamos a conversa falando sobre isso, esse momento que envolve o descobrimento da sexualidade, do corpo, dos sentimentos… e sobre como a tendência é nos levarmos à uma heteronormatividade compulsória. A Ana comenta que passou por muitos problemas enquanto bullying, problemas com o próprio corpo, chegou a namorar um menino e só em 2017/2018 que começou a entender o que era de fato se relacionar com mulheres, foi um processo muito delicado conhecer e se identificar com o movimento LGBT. Já a Lara, conta que o processo da bissexualidade foi também caminhando e se desenvolvendo um tempo depois, no ensino médio. Hoje em dia, a Ana é a sua primeira namorada e isso implica em desafios diários - ela está começando a contar para as pessoas, começando um processo de realmente assumir quem é, como se sente. E por mais que ambas famílias apoiam e reconheçam este relacionamento, ela entende que não é a maioria da realidade no Brasil e que não é a realidade das ruas também, que pode enfrentar preconceitos e outras barreiras por conta da sua orientação. < Lara Ana
- Mari e Fabi | Documentadas
No encontro de almas que resume a relação da Fabi e da Mari elas contam sobre como é a experiência de viverem um cotidiano completamente novo. Fabíola vivia um casamento antes de conhecer a Mari e, este, era nos moldes mais tradicionais possível. Ela se sentia vivendo numa bolha, dificilmente saía de casa e via a cidade acontecendo, não costumava conhecer pessoas novas… Mari, por mais que fosse uma mulher solteira e tivesse maior vivência, também não estava saindo há muito tempo, sua rotina era trabalho > casa. Agora, todo final de semana saem juntas, descobrem festas, festivais de música, conhecem pessoas, fazem amigos e/ou desfrutam da qualidade de saírem só as duas, sendo suas próprias companhias. Fazem coisas que nunca se imaginaram fazendo antes e comemoram: são muitas descobertas. Foi em Caraíva que o Mari pediu Fabi em casamento, num lugar que ela sempre sonhou em estar. Mari vivia trabalhando, ganhando dinheiro e guardando. Depois que conheceu a Fabi começaram a se movimentar e agora sente que trabalha para conseguir viver tudo o que desejam. Refletem que em “situações normais” nunca teriam se conhecido, justamente por estarem em suas bolhas e pouco saírem de casa. Além disso, sempre frequentaram lugares opostos. Hoje em dia, Fabi apresentou os pagodes pra Mari, que já adora frequentar as “tardezinhas”, enquanto Mari leva Fabi nas festas de pop-rock. E acreditam que o encontro é para além de compartilhar gostos, conseguem enxergar o quanto se ajudam no empoderamento dos corpos, da autoestima, de se olhar de forma diferente, de se valorizarem e de entenderem as importâncias que possuem uma na vida da outra. Se sentem amadas de verdade. Foi em um dia completamente aleatório, no começo de 2021, que Fabíola estava em casa e decidiu baixar um aplicativo de relacionamentos para conhecer uma mulher. Estava ela e o marido sentados no sofá, cada um em um canto, cada um olhando para a tela, em seus mundos e apareceu uma publicidade para ela. Era um aplicativo específico de mulheres para mulheres. Ela baixou. Nunca tinha se interessado por uma mulher, nem relacionado, nem pensado em beijar. Nada. Baixou nem que fosse para fazer amizade. Neste aplicativo conheceu uma menina, o papo desenrolou e saiu com ela. Teve até um primeiro beijo. Mas era uma mulher que estava numa situação semelhante, se via enquanto heterossexual, tinha filhos, família e não tinha como nada acontecer ali. Resolveu desinstalar o aplicativo. Achou outro aplicativo, também voltado para mulheres, e resolveu tentar. Fabíola reside em Campo Grande, bairro da zona oeste carioca conhecido por ser extenso, populoso e bastante distante da região central. Tentou não colocar um raio de distância muito grande e, mesmo não estando tão próximo, a Mari apareceu. Fabi sempre criou uma percepção de que sua presença naquele aplicativo era uma aventura. Não falava sobre isso no casamento, até porque não havia mais diálogo. Ela realmente buscava uma fuga e sentia que ali existia. Quando começou a conversar com a Mari, deixou explícito sua vontade de ter algo casual e extraconjugal e a Mari não aprovou muito a ideia, mas já estavam conversando e tinham marcado o primeiro encontro, seguiram em frente. Mari perguntou se a Fabi sabia de algum bar LGBT+ para elas se encontrarem e era óbvio que a resposta seria negativa, então foi atrás de algum lugar em Campo Grande. Conseguiu um bar, foi até lá e se encontraram. Antes de chegar, estavam ansiosas, com as mãos suando, tímidas. Conversaram e quando o primeiro beijo aconteceu foi um misto de “lascou!” com “meu deus, o que foi isso?”. Fabíola conta que o encontro foi numa sexta à noite… e diz: “Como você é casada, sai numa sexta à noite, num casamento em crise e volta de madrugada? O que você fala?”. A ideia não se sustentou. No segundo encontro marcado, ela chegou dizendo: “Vou me separar”. Decidiram enfrentar juntas a separação e tudo o que viria com isso. Parecia que se conheciam e que estavam se relacionando há muito mais tempo, pela naturalidade que lidavam e pela forma que se apoiavam, mas a verdade é que não foi nenhum pouco fácil. A Fabi foi criada na igreja católica, sempre gostou disso, sempre fez questão de fazer parte, tanto que conheceu o ex companheiro nessas circunstâncias, se casou na igreja e teve um relacionamento longo, nos moldes que ela acreditava, se dedicando e acreditando. Então se questionava muito sobre como acabar com algo que você depositou tanto e por tanto tempo se sentiu bem? Entende que essa foi a decisão mais difícil que já precisou tomar. Sempre sentiu muito carinho por tudo o que foi construído e pelo o que viveu. Mas parte do entendimento para que essa decisão fosse tomada era a própria compreensão de que não cabia mais naquele espaço. Precisava seguir novos rumos para ser feliz. Para a Mari, também era muito difícil porque existia o medo constante, a sensação de acordar todos os dias e pensar “e se ela desistir de tudo e voltar para o casamento?” - e essa pressão existia, era real, isso poderia ter acontecido. Tudo foi seguindo seu fluxo muito rápido. A família da Fabi estava passando por uma questão bastante delicada por conta da mãe dela estar vivenciando um problema de saúde difícil e ela tentou ao máximo evitar falar sobre o divórcio para não trazer mais problemas, mas não teve como, era nítido que ela não estava bem no casamento e precisavam conversar sobre. Para isso, teve o apoio incondicional da irmã, até a poeira baixar. É importante considerar que no começo da relação a Fabi ainda morava com o ex companheiro, então tudo se torna ainda mais delicado, tanto pela pressão que existia para que o casamento não terminasse, quanto por considerar que também não foi um momento fácil para ele. Fabi conta que a mãe dela percebia que o casamento não ia bem porque todo domingo ela passava o dia na casa da mãe, sempre arranjava uma maneira de sair de casa dizendo que “não tinha o que fazer”. Não era algo que empolgava os momentos com o companheiro e a mãe percebia aos poucos. O medo maior ao contar sobre o divórcio para a mãe era principalmente contar sobre a nova relação, porque sua mãe sofreu um abuso quando era mais nova e foi uma mulher quem abusou, então ela criou uma aversão aos relacionamentos por duas mulheres. Quando contou, a mãe teve uma reação muito diferente do esperado, a abraçou e disse que sempre ia amar, não iria deixar de aceitar e respeitar. Na prática, a convivência foi aos poucos, mas no último natal, por exemplo, a família da Mari e da Fabi se reuniram em uma única festa. A mãe da Mari, em compensação, achava que essa história era o maior golpe. Que a Fabi nunca iria se divorciar (afinal, muitas histórias são assim mesmo!). Mas depois viu que deu tudo certo e apoiou. Hoje em dia segue enquanto fã do casal. Mariana, no momento da documentação, estava com 37 anos. Ela é natural do Rio de Janeiro, moradora de Vargem Pequena, subúrbio carioca. Trabalha enquanto gerente de hotel em Copacabana e é formada em Línguas Estrangeiras Aplicadas à Relações Internacionais. Fabiola, no momento da documentação, estava com 32 anos. Também é natural do Rio de Janeiro, moradora de Campo Grande, zona oeste da cidade. Trabalha com administração e marketing digital direcionado para empresas. Neste ano, pretendem morar juntas, quem sabe em algum lugar mais acessível, perto do trabalho e da região boêmia que elas tanto amam. Além disso, já possuem a lista de próximos festivais musicais que pretendem ir, se divertir e se redescobrir - quando nos encontramos haviam acabado de voltar do Festival de Verão de Salvador e completam “a gente já voltou pensando qual será o próximo”. ↓ rolar para baixo ↓ Mariana Fabiola
- Camila e Laura
Gostaria de começar a história da Laura e da Camila premiando-as com o título de casal mais brega que já passou pelo Documentadas. Este, um título naturalmente conquistado, não enquanto um brega em tom ridicularizado, cômico demais ou até enjoativo, mas genuinamente delas, algo que se faz parte em cada móvel do apartamento, história engraçada que contam ou fotografia realizada dentro do projeto. O brega não veio através de “eu te amos” falados o tempo todo - bem pelo contrário, Camila explica que o “eu te amo” parece nem ser o bastante para elas. O brega existe mais pelas bicicletas que representam ela ensinando a Laura a andar de bicicleta na praia, o fusquinha verde que ela tinha no começo do relacionamento, o livro de poesias (que sim, ela mesmo escreveu e lançou um livro de poesias para a Laura) e uma casa inteira de bonecas que representa a casa delas. Olhar para esses anos de relacionamento enquanto contam suas histórias representa enxergar o quanto acrescentaram uma à outra. Anexaram suas coisas boas e ensinaram/aprenderam o que ainda não sabiam. Enxergam como mudaram (e que bom que mudaram!), ficam felizes com suas novas versões e entendem que se não estivessem juntas não teriam vivido tantas evoluções. Laura, no momento da documentação, estava com 36 anos. É natural de Porto Alegre - Rio Grande do Sul e trabalha enquanto auxiliar administrativa sendo servidora pública. Camila, no momento da documentação, estava com 33 anos. Também é natural de Porto Alegre e trabalha enquanto professora de história, sendo servidora pública. Além de ser professora, Cami faz paródias sobre história, então usou o hobby de tocar violão para ensinar os alunos (criou um canal, tem músicas muito legais e acaba fazendo paródias não só sobre história). Além disso, participa de grupos de pesquisas sobre gênero e a presença de mulheres na história. Dentro de casa, contam com mais duas companhias: a Pagu e a Chica, suas cachorrinhas que estão no lar desde a pandemia de Covid-19. Adotaram pelo tanto de tempo que passaram em casa e por sempre desejarem ter cachorros, àquela era uma boa hora para fazer a adaptação. Ao começar a contar sobre como se conheceram e trazerem os fatos, logo surgem brincadeiras sobre se perderem nas datas - e logo a Camila, que é professora de história, foi muito cobrada sobre. Foi em outubro de 2014, que aleatoriamente, Camila adicionou a Laura no Facebook. Ela jura que não costumava adicionar pessoas que não conhecia nas redes sociais, mas viu uma foto da Laura, com um amigo em comum, fazendo campanha eleitoral presidencial para a Dilma e decidiu adicionar para fazer amizade. Na época, tudo estava à flor da pele com a campanha acirrada Dilma X Aécio (e no Rio Grande do Sul o Estado estava Tarso X Sartóri, que também não era nada fácil) e ela se sentia muito cansada de não ter pessoas sensatas para conversar. Procurava alguém que tivesse uma ideologia política em comum. Laura perguntou da onde elas se conheciam, Camila explicou que não se conheciam mas que gostaria de fazer amizade. Na época, Laura passava por um término de relação e topou conversar. Um tempo depois, quando já estava sozinha, chamou Camila para sair e de lá em diante começou uma paixão relativamente avassaladora: Cami tinha uma viagem agendada, foi e quando voltou já se sentia totalmente apaixonada pela Laura. Desde o começo do namoro passaram por diversos processos: moraram juntas, o relacionamento foi caminhando com o apoio da família (a irmã da Laura inclusive que apoiou que morassem juntas), meses depois Camila fez o pedido de casamento usando a casinha de bonecas, os anos se passaram e chegaram até a segunda casa - que moram hoje em dia. No momento de viver a segunda eleição presidencial em que o [sempreFora]Bolsonaro foi eleito, decidiram firmar a ideia do casamento: não teria mais como adiar, era uma decisão política. Realizaram a cerimônia em janeiro de 2019. Em 2020, viveram o desafio da pandemia. Com ele, refletem sobre como mudaram questões de comunicação - como a Camila chama para conversar o tempo todo, por exemplo, puxa para resolver os problemas - e como é muito raro brigarem. Tudo fala sobre questões cotidianas e como tentam resolver a rotina no entendimento. Entendem que uma trabalha muito mais que a outra, então tudo bem em alguns dias a que trabalha menos resolver a bagunça do sofá, da casa, enquanto a outra está ocupada, assim, se equilibram das formas que conseguem. A ideia é não sobrecarregar justamente para não desenvolverem brigas desnecessárias. Camila acredita ser uma vantagem se relacionar com alguém diferente dela. Laura ri e concorda, elas se complementam. Dá o exemplo: Cami é organizada nos prazos e planos de vida, coisa que Laura nunca foi e que hoje em dia adora ser - porque Camila é pelas duas. Laura entende que isso também é amor. Toda essa disposição que elas possuem de entender, de se compreender, de estarem dispostas a se completarem e realizarem trocas. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Camila
- Lilian e Marcella | Documentadas
O encontro da Lilian e da Marcela com o Documentadas aconteceu poucos dias antes do casamento delas - que não seria nada convencional - um casamento temático de festa junina! Nos encontramos em sua casa (que também é o lugar onde trabalham sendo padeiras) e estavam entre muitos preparos: desde as últimas encomendas da padaria, pois sairiam de férias/e lua de mel logo após a cerimônia, até as preparações do casório porque tudo foi feito entre muitas mãos - comidas, decorações, lembranças… não contrataram buffet ou empresas para isso, contaram com os próprios serviços e de amigos que também trabalham com gastronomia. A festa foi dedicada a reunir pessoas que amam e fazer todas se sentirem bem: que vistam se sentindo bem, comam bem, dancem, brinquem, se divirtam. Todos estavam muito empolgados, inclusive as contratadas, que são apenas mulheres - fizeram questão disso e foram atrás até de banda de forró sapatão, que fez com que a festa ficasse muito mais animada. Conversamos sobre entender a instituição casamento com o recorte de se tratar de duas mulheres e em tudo o que isso envolve. Por mais que existam várias críticas sobre essa instituição e seus conservadorismos, existe também o lado político pela importância de ter um documento que afirma esse amor. É muito importante o evento, a celebração. Reconhecer que os familiares estão viajando de longe para celebrar esse amor que sempre nos foi negado, que toda relação heteronormativa é celebrada e comemorada o tempo todo, mas entre duas mulheres fomos colocadas num espaço de não-celebração, ficamos minguadas, podemos até beijar mas não demonstrar tanto, não abusar da demonstração… Então celebrar um casamento é celebrar MESMO. Celebrar com vontade. Ter quem você ama celebrando com vocês. Celebrar duas mulheres amando. E, para elas, o casamento só faria sentido se fosse vivido assim como será: com todas as pessoas lá, de forma coletiva. Elas construíram essa relação pensando no mundo que acreditam. Se sentem confortáveis, acolhidas. Sentem que a relação é uma grande mesa com comida e todos ao redor, compartilhando. Lilian, no momento da documentação, estava com 30 anos. Nasceu no interior do Espírito Santo, num município chamado Pinheiros, mas cresceu em Vitória, na capital. Ao completar o ensino médio foi para Mariana, em Minas Gerais, cursar história e durante a faculdade descobriu a disciplina de antropologia da alimentação. Quanto mais estudava, mais se interessava e ao finalizar a graduação começou a estudar gastronomia. Ao se mudar para Minas Gerais, não tinha conhecimentos em culinária, mas aprendeu pela necessidade e a primeira receita que fez por vontade própria foi pão de fermentação natural. Começou a ser um hobbie, mas logo se viu pesquisando mais sobre panificação e misturando a panificação com seus outros estudos dentro da gastronomia. Foi então que conheceu uma pesquisadora chamada Neide Rigo, que explica sobre plantas, hortas na cidade, sobre o que plantar > o que comer, e consumindo os conteúdos que essa pesquisadora publicava conheceu um restaurante em São Paulo, o Maní. Viu que estavam com inscrições abertas para trabalhar por um período, se inscreveu e passou, foi assim que sua mudança para São Paulo aconteceu, em 2018. O período de trabalho seria, inicialmente, de 4 meses, mas virou uma contratação e ela se oficializou enquanto padeira. Conta como foi incrível, não conhecia mulheres padeiras - ou melhor, conhecia uma só que acompanhava o trabalho e admirava. Foi uma grande realização profissional. E, para além da padaria, ela segue adorando cozinhar e descobrir receitas, inventar festas temáticas com comidas temáticas para reunir os amigos e familiares, pesquisar sobre culinárias e culturas. Marcela, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é natural de São Bernardo do Campo, mas cresceu em uma cidade pequena chamada Dracena, no interior de São Paulo, onde viveu até os 17 anos. Cresceu numa família bastante grande e tradicional e passou pelo seu entendimento de gênero e sexualidade bastante cedo, então não se sentia bem no lugar onde morava, decidiu sair da cidade e se mudar para Campinas, também em São Paulo, para cursar faculdade de Artes Cênicas. Lá, durante 4 anos, se sentiu muito feliz e viveu diversas descobertas. Em 2018, precisava de maior independência financeira e procurou uma nova fonte de renda: começou a fazer pão de fermentação natural em casa. Depois disso, procurou trabalho na área, indo em padarias e oferecendo o seu serviço. Conseguiu trabalhar em uma padaria e depois disso se organizou financeiramente para se mudar para São Paulo (capital), até que em 2019 a mudança aconteceu. Logo que chegou na cidade, fez o mesmo que havia feito em Campinas: foi de lugar em lugar oferecendo seu trabalho. O primeiro lugar que ofereceu foi na padaria do Maní e a chamaram para alguns freelancers, então vez ou outra ela ia cobrir alguém, inclusive a Lilian, quando tirou alguns dias de férias. Depois desses freelas, ela foi contratada de fato. Quando começaram a trabalhar juntas, conversavam bastante. Lilian é muito acolhedora, conta que isso vem de família, aprendeu a acolher, conversar, receber bem as pessoas porque sua família é assim. Na época, ela morava em um apartamento dividindo lar com amigos e apresentou essas pessoas para a Marcela, inseriu ela na sua vida e logo viraram amigas. Marcela também foi se abrindo, contou que recém estava solteira, que queria desbravar São Paulo, aproveitar a cidade, não queria namorar. Aos poucos, às vezes se olhavam de um jeito diferente enquanto trabalhavam. Lilian percebia um jeito da Marcela observar… Até que um dia Marcela chegou um presentinho para ela, entregou e disse: “Não significa nada”. Quando Lilian chegou em casa, contou para a amiga e a amiga disse: “Significa!!! Ela te quer!!”. Num dia, saindo juntas, alguns meses depois de terem começado a trabalhar, se divertiram, foram em vários lugares até que Lilian perguntou o que estava significando aquilo. Marcela respondeu algo que Lilian até hoje acha muito legal, ela disse que achava que estava apaixonada pela Lilian, não sabia se era romanticamente, mas que adorava passar um tempo com ela, estar ali, adora a amizade e que sentia vontade de beijá-la. Lilian disse que sentia também, e assim elas se beijaram. Desde então elas ficaram juntas, mas Lilian tinha uma mudança de vida planejada: ela iria para a Espanha. Já havia desfeito a casa que compartilhava, vendido suas coisas, pedido demissão da padaria… Sua vida havia se resumido em uma mala. Passaram o final de 2019 juntas e em fevereiro de 2020 Lilian saiu de fato do trabalho, até lá elas estavam apenas vivendo, se divertindo, sabiam que a separação viria em breve. Os planos da Lilian eram visitar seus amigos em Minas Gerais, a família no Espírito Santo e se mudar de vez para a Espanha. Porém, dias antes, chegou a pandemia de Covid-19. Quando isso aconteceu, ela estava hospedada na casa de um amigo, uma kitnet em São Paulo, esse amigo havia acabado de se mudar para cursar medicina na USP e ele orientou: “Estão correndo boatos de que isso aí vai durar uns dois anos no mínimo”. Ele decidiu não ficar em São Paulo e deixou a kitnet com ela. Ela chamou a Marcela e ficaram juntas, mas não tinha nada: trabalho, roupa, perspectiva… os primeiros meses foram de espera, até que a ficha foi caindo porque o restaurante que ela iria estagiar na Espanha fechou, precisou devolver as passagens da viagem e entendeu aos poucos que o sonho acabou. Marcela também foi demitida, precisavam repensar tudo. Em abril decidiram anunciar aos amigos que iriam fazer pão para vender e, logo no primeiro anúncio, foram dois dias de fornadas. Depois, perceberam que trabalharam mais de duas semanas sem parar - e se organizaram melhor. Transformaram a kitnet numa padaria, assim foi seu sustento até novembro, quando se mudaram para um lugar maior. Ressaltam como foi muito importante as pessoas terem comprado de quem faz durante a pandemia. Esse foi o contato humano, foi o que nos uniu mais. Entre o final de 2020 e 2021 moraram em uma casa que possuía mais espaço e lá produziam em maior escala, até que chegaram no lugar que estão agora. Hoje em dia, possuem um espaço separado na casa onde acontece a produção e destinam suas vendas principalmente para pessoas jurídicas, ou seja, outras empresas e restaurantes. Se dão muito bem trabalhando juntas, adoram o que fazem e Marcela acredita muito que o amor entre mulheres está presente nessa torcida que uma tem pela outra, nesse fortalecimento. Vivem uma amizade muito potente dentro desse amor. Lilian concorda: talvez por ser tão poderosa é que muitos temem. São muito matriarcais, cuidam e zelam umas pelas outras. ↓ rolar para baixo ↓ Marcella Lilian
- Rosa e Sara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Rosa e da Sara, quando o projeto passou pela Bahia!. Há anos, Sarah fala sobre amor nas redes sociais, rondando temas como autoestima, superação de relacionamentos tóxicos e abusivos, ou desintoxicação do romantismo. Porém, foi a partir de 2022, quando mesmo após 5 anos de namoro ela foi expulsa de casa, onde decidiu mudar o rumo do seu perfil: começou o próprio processo de cura. O público, vendo essa mudança, passou a querer ficar para acompanhar o que estava acontecendo com ela e a Rosa, sua companheira. Tudo girava em torno do que estavam vivendo - e a própria exposição da situação ajudou outras pessoas que se identificavam, vivendo suas próprias caminhadas. Mesmo que tenha sido muito difícil passar pelo o que passaram expondo suas dores, sentem que compartilhando dessa forma foi menos solitário. No momento em que nos encontramos, no começo de 2023 em Salvador, estavam morando no novo apartamento há cerca de 5 meses. Contam com um sorriso no rosto o quanto estava sendo incrivelmente bom, mesmo que pouco tivessem sonhado com isso, porque sentiam bastante medo pela convivência ser complicada, mas que aos poucos entenderam que na verdade amavam os momentos que passavam juntas no espaços que estavam. Hoje, acreditam que vivem em equilíbrio, que ambas contribuem para a limpeza da casa, que o lar está em harmonia e que fazem as coisas serem felizes estando dispostas: no querer crescer se vendo bem. Rosa estava com 26 anos no momento da documentação, é natural de Salvador e está se formando em Enfermagem na UFBA. Atualmente, ela trabalha enquanto funcionária pública. Sarah Cristina estava com 27 anos no momento da documentação. Ela é natural de Feira de Santana, cresceu em Alagoinhas, no interior da Bahia e mora em Salvador há cerca de 8 anos. Sarah se formou enquanto assistente social, mas dedica sua vida ao trabalho de digital influencer e deseja entrar no mestrado em breve. Sarah conta que tudo começou em 2015, numa página de Facebook chamada “Desintoxicação do Romantismo”. A página era para mulheres, sobre autoestima e superação de relacionamentos tóxicos/abusivos. Sarah falava sobre não monogamia numa época em que o assunto era um grande tabu e a página viralizava diversos conteúdos, chegou a mais de 300 mil seguidores, foi então que percebeu aquilo enquanto um trabalho que não ganhava dinheiro. Quando tudo migrou para o Instagram, os conteúdos também cresciam rápido e bombaram, mas o problema seguia o mesmo: não havia retorno financeiro. Vendo a crescente geração de influenciadoras, decidiu que precisava dar um rumo diferente. Foi quando, em 2020, começou a estudar como ganhar dinheiro com as redes sociais e entender seus próprios processos - perceber que ela não existia na página, que o rosto dela não aparecia, que as pessoas não conheciam ela, apenas o conteúdo postado… e decidiu mudar as coisas. Entendendo que tudo precisava mudar, a página Desintoxicação do Romantismo passou a ter o rosto da Sarah, conteúdos feitos pela Sarah e também o nome da Sarah. Entender que abrir a sua vida enquanto digital influencer falava sobre suas inseguranças também foi um grande desafio muito importante a ser enfrentado - que fala sobre a coragem nesse processo (coragem redobrada quando expôs a situação que estava vivendo com a Rosa em 2022). Foi em 2017 quando se conheceram e começaram a relação, Rosa era militante do DCE e liderança dos espaços da saúde da UFBA e num espaço de militância do MST conheceu a Sarah. Elas brincam sobre a Sarah estar o tempo todo de olho na Rosa, mas a Rosa sempre estar muito focada/ser muito responsável e nunca nem perceber que alguém jogava charme pra ela. O que não faziam ideia é que em outra situação a Rosa já tinha visto a Sarah andando pelo campus de tranças e já tinha se encantado por ela, mas no dia que se encontraram ela estava com o cabelo de black e na hora não reconheceu. Sarah conta que ficou paralisada na luz que Rosa tinha ao falar sorrindo, no jeito dela, e fazia de tudo para estar perto. Ela tentou ficar com a Rosa e não deu certo, mas não desistiu, colocou as camas lado a lado no alojamento e acabaram ficando, mas ainda com certo estranhamento, entre as demandas da militância, tudo parecia estar errado. Foi quando Sarah, no dia seguinte, sentou na cama e pensou “Quem me guia, se for para ficar com essa mulher, que ela apareça em 5 minutos, e aí vou conversar com ela!” e ela apareceu… Não só apareceu, como foi a única pessoa que entrou naquela sala durante um bom tempo. Elas conversaram, se acertaram, ficaram bem. Voltaram para Salvador e seguiram se encontrando, durante as férias conversando, e seguem juntas até hoje. Pensando sobre quando começaram a namorar, em 2017, entendem que a vivência era completamente diferente. Era muito frustrante não serem assumidas, sentiam muito medo. Rosa saiu do armário em 2019 e Sarah ainda sente muita dor por ser recente, por não ter contato com algumas pessoas da sua família. Dói muito, mas ainda é menos doloroso que esconder quem ela é e algo tão puro como amar alguém. Sarah acredita que o amor acontece de forma saudável, mas exige muito esforço, não é algo fácil e precisa ser diário, pensando o tempo todo em comunicação. Para alugar o apartamento enfrentaram diversas situações, entre preconceitos e medos. E isso talvez reforce a valorização que dão diariamente nesse novo lar. Sobre a vida que vivem hoje em dia, Sarah conta que não queria pensar onde dar as mãos, não queria sofrer tanto racismo enquanto andam juntas (e também separadas). Hoje em dia não se sentem confortável enquanto um casal em todos os espaços e queria muito sentir. Queriam ser afetuosas nos espaços, nos bares, na rua, porque amam estar na rua e desejam ser quem são. Quando olham o caminho que já percorreram até aqui percebem como foi muito difícil começar a dar as mãos nos espaços públicos e foi preciso muita terapia para entender que poderiam dar as mãos, havia muito medo de serem atacadas fisicamente ou verbalmente… e ainda há medo, até mesmo dos olhares, mas o desejo de viver livremente sendo respeitadas precisa ser maior que o medo. Alguns dias depois do nosso encontro elas viveriam o primeiro carnaval juntas e estavam ansiosas para isso, o primeiro carnaval, mesmo em tantos anos de namoro, que estariam assumidas. É um misto de muito felizes, com medo, tristes pelo medo, mas se permitindo estarem felizes. No tempo livre, Sarah e Rosa adoram ir a praia, ao cinema, cozinham juntas - uma fica responsável pelo doce, outra pelo salgado, e estão aprendendo a sair juntas (coisas que não aconteciam antes) - uma novidade que está sendo muito legal! Elas também amam os pequenos afetos, os carinhos e valorizam os momentos juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Sara Rosa
- Luana e Gabrielle
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isabela e da Camila, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Luana e a Gabi são mulheres que amam amar mulheres. Gabi brinca sobre como o sexo não tem comparação, mas o sentimento acaba indo bem além disso: querem ver mulheres ocupando espaços de poder (judiciários, públicos…) porque acreditam que só assim a sociedade poderia mudar de verdade. Depois, ela ressalta que sonha com lugares que acolham pessoas em situações de vulnerabilidade (moradores de rua, crianças sem creches públicas), dando um futuro diferente para elas. Falam, também, sobre a importância de darmos oportunidades para as mães poderem trabalhar e gerenciar suas independências financeiras. No fim, mas não menos importante, não gostaria de deixar de fora o momento em que elas comentaram que foram no show do Lenine, tempos depois de já estarem juntas, sempre lembrando de quando cantaram a música naquele primeiro dia, no fanchokê. ♥ A Luana tem 22 anos, é designer (e está se formando agora!) e ama jogar Roller Derby. Ela veio de São Paulo fazer faculdade no Rio, é filha de uma mãe solo e tem quatro irmãos. Quando ela chegou morou em república, dividiu apartamentos, deu muito corre para se virar. Foi ter uma casa de verdade quando decidiu dividir um lar com a Gabi e, mesmo tendo uma parceria e construindo a família juntas, elas já passaram por períodos bem difíceis, como quando estavam desempregadas. Elas decidiram morar juntas em agosto de 2020, estava muito difícil manter as coisas na pandemia (a distância, os gastos sozinhas…) e optaram pela vinda da Gabi, com os três filhos, para uma casa que alugaram. A relação delas foi ficando cada vez mais concreta, as crianças entendendo melhor o novo ritmo e a mãe da Gabi acompanhando tudo de pertinho (e ajudando bastante também!). Hoje em dia, elas sonham com o momento em que vão se estabilizar na casa para começarem novos planos (como montar uma empresa juntas - já que trabalham em ramos bem próximos). Os filhos lidam de forma bem tranquila com o relacionamento e a Luana brinca que, antes de conhecer eles, jamais pensava em ter filhos (e na responsabilidade de educar crianças) dessa forma, mas o relacionamento delas virou o porto seguro deles... e completa com um sorriso no rosto: “o mais novo já chama as duas de mãe”. Quando perguntei sobre o que a Luana e a Gabi pensam sobre o amor, a Luana logo se identificou enquanto uma amante do amor. Ela adora ler sobre e pensar sobre. Entende que o amor é risada, porque risada é algo que todo indivíduo é capaz de dar desde o primeiro minuto que nasce, até o último minuto de vida. Mas é aquela risada, sabe? aquela que toma conta de tudo. Amar, além de tomar conta, é se importar em querer fazer alguém rir. É querer, em qualquer situação, que a pessoa esteja ali com você - uma apoiando a outra, se sentindo bem. A Gabi acredita que amor “é não querer desistir... porque você consegue ver valor”. Ela comenta que no começo as coisas são romantizadas, sim (e tudo bem ser!), mas é depois, quando tudo se transforma em desafios diários e que você se vê enfrentando, que a recompensa chega com o sentimento de se estar vivendo algo valioso, algo que sempre traz um quentinho para o coração. E assim é o amor entre mulheres: um corre o tempo todo. Brincam que a mãe da Luana só aceitou a homossexualidade dela quando viu as duas lavando um tapete, juntas, no quintal. E disse “ah, então é bom namorar mulher! Porque aí vocês limpam as coisas juntas! Tô gostando, então!” e enquanto ríamos sobre a situação chegamos à conclusão de que a vida assim, de fato, fica mais leve. Porque não temos essa coisa de limpar a casa enquanto a função do homem é prover o dinheiro, só se envolver com a cozinha na hora de fazer churrasco ou coisas masculinas. Sendo mulheres, como já somos criadas nos ajudando na cozinha, o casal trata com normalidade a atitude de se ajudar, cuidar da casa, do lar, educar as crianças, trabalhar de home office e dar conta disso tudo… e mil outras coisas. Gabi tem 32 anos, é desenvolvedora web, já tocou bateria (e inclusive é algo que ela pensa em voltar a fazer), é da baixada fluminense (mais especificamente, de Belford Roxo) e é mãe de três filhos. “Uma de 14, outra de 12 e um de 9”. Hoje em dia ela mora com a mãe dela, com as crianças e com a Luana, em uma casa grande, no Rio de Janeiro. Na internet, além de jogar sinuca (coisa que a Luana disse que é o maior dos hobbies), ela gosta de acompanhar pessoas como a Nataly Neri e o Jonas - diz que o relacionamento deles faz ela acreditar no amor. Além disso, não possui muitas referências de pessoas famosas que sejam lésbicas, acredita que esse conteúdo não acaba chegando tanto nela. Elas se conheceram de uma forma muito aleatória, no Arco do Teles (local, inclusive, que fizemos as fotos!). Luana, que estava acompanhada, foi pedir um isqueiro durante uma festa e acabou conversando com a Gabi… ela reconhece que se interessou pela Gabi logo de cara, mas a vida pregou uma peça: a Gabi, por outro lado, se interessou pela menina que a Luana estava ficando. Um tempo depois, a Luana viu a Gabi e a menina juntas e entendeu que não tinha mais esperanças. A Gabi e a menina começaram um relacionamento (nessa história, quem nunca foi um pouco Luana - sozinha vendo as duas juntas - que atire a primeira pedra!), mas a relação não deu tão certo quanto esperavam e terminaram um tempo depois. O tempo passou e a Gabi foi falar com a Luana sobre a menina, abrir o coração, já que era uma ex em comum. Elas conversaram, se mantiveram nas redes sociais e um tempo depois a Lu postou um storie com uma música da Duda Beat, pois naquele dia seria o show dela no Circo Voador, e a Gabi respondeu dizendo um “ei, também vou! vamos nos ver lá?!”. Enfim, nem preciso dizer que se encontraram, né?! Quando elas finalmente ficaram, foi um dia muito feliz para a Luana. Ela fez até um café da manhã e levou na cama, no dia seguinte. A noite anterior tinha sido num ‘fanchokê ’, o karaokê das sapatão. Elas cantaram Lenine juntas. Depois, tomaram um banho de chuva e foram para a casa. Gabi brincou que para ela jamais faria sentido que isso fosse alguma coisa séria, a Luana passava uma impressão de ser muito solta, muito livre de relacionamentos. Gabrielle Luana
- Renata e Marcela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Renata e da Marcela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Hoje em dia elas entendem que isso fez parte da história, mas tentam sempre ressignificar o sentido de família. A Marcela passou o último natal com a família da Renata, os amigos estão sempre por perto, inclusive, são grandes admiradores do casal. Elas fomentam o lar, o amor e o cuidado. Tudo o que viveram serve de fortalecimento não só na relação, mas também enquanto seres humanas. Quando perguntei sobre o amor, me disseram que o amor, mesmo que de forma geral, é político, porque ele está em tudo. Identificam esse atual momento como o pior que já viveram em relação ao ódio e à ignorância disseminada e que, mais perigoso que isso, é sobre o “agressor” estar gerando o nosso país. “O amor tem que ser colocado em prática. Não responder o ódio com mais ódio.” Renata comenta o quanto o ódio é tentador, o quanto nos deixamos levar pelo impulso do ódio. O amor, não. Ele é muito maior que a gente. O amor está entre as relações de pessoas conhecidas (amigos, familiares) e também nas relações sociais. “Quem ama não coloca uma calçada com espinhos em cimento para as pessoas em situação de rua não poderem deitar embaixo do viaduto. Como que chegamos nesse ponto?! Se chegamos, foi porque alguém normalizou o ódio nesse nível. E o nosso maior desafio é não deixar o primeiro passo ser dado para chegarmos onde estamos, ou, agora, revertermos a situação.” Marcela comenta que amar mulheres é ter um tipo de amizade único também. É uma relação muito mais completa - é ter respeito, trocar, entender, ter vontade de estar junto e querer que funcione, mesmo que nem tudo sejam flores. É entender que são pessoas incríveis separadas, mas que estando juntas são ainda mais. Quanto mais a relação delas se desenvolvia, mais a Marcela achava injusto que seus pais não soubessem do relacionamento. Ela já era uma mulher financeiramente e emocionalmente independente, mas acabava tendo uma vida ‘dupla’ por dentro de casa não poder demonstrar seu amor por outra mulher. O pai reagiu de uma forma mais tranquila, mas a mãe não lidou (e não lida) bem. Marcela costuma contar que foi a madrugada mais longa que ela já viveu. A mãe não aceitou e ela decidiu sair de casa. Renata deixou a porta de casa aberta, para que ela pudesse, ao voltar, entrar. Ela voltou com uma mochila cheia de roupas e assim passaram os meses seguintes, juntas, tentando se cuidar. Marcela começou a fazer terapia (inclusive, o pai acompanhou algumas sessões também), e começou a dividir o apartamento com a Renata. Ela contou que não acha justo mentir. Não queria dizer que estava num bar se estava na casa da Renata, por exemplo. Além do mais, elas sentem algo tão bonito, tão bom, que merece ser compartilhado, por mais que existisse o medo de contar. Hoje em dia, ela ainda tenta, aos poucos, ficar bem com a família, mas comenta sobre o quanto é difícil. Hoje em dia, elas sentem muito que os pais não estejam presente nos detalhes bons da vida, como a forma que elas montam o apartamento delas, os motivos que dão risada, as plantinhas que acabaram morrendo mas que elas estão determinadas a aprender a cuidar, os gatos e o que as fazem felizes ou tristes. E o quanto valem esses detalhes, afinal? Vale a pena não tentar quebrar esse preconceito que existe em troca de conviver e compartilhar a vida com os filhos? Perder essa fração de vida? E tudo isso por não aceitar que o amor? No fim, a conta não fecha. Renata tem 39 anos, ama andar de bicicleta, dançar e escrever. Marcela tem 25 anos e na quarentena tem descoberto que gosta de trabalhar com edição. Elas vivem num apartamento juntas, com seus dois gatinhos e os milhões de pássaros agapornis que chegam até a janela para fazer uma visita e comer umas sementinhas. São mulheres que possuem uma vida cultural e social muito ativa, sempre estiveram entre teatro, cinema, bares, etc. Tiveram um primeiro encontro meio sem querer - queriam assistir uma peça juntas, mas não conseguiram chegar em tempo. E aí decidiram ver uma peça chamada ‘40 Anos Essa Noite’, que fala sobre vivências LGBTs. Depois da peça pegaram um uber para o bar e era engraçado que no caminho, como uma não sabia se a outra se considerava hétero ou LGBT, acabaram contando suas experiências, para deixar bem claro, estilo “uma vez vivi isso com A minhA namoradAAAA/e ai elAAA/na perspectiva delAAA”. Depois disso começaram a se permitir conhecer, se apaixonar e viver a relação. Enquanto estudavam juntas no Tablado, os exercícios cênicos eram sempre feitos através de grupos e as cenas improvisadas com temas da atualidade. Os grupos eram escolhidos de forma aleatória, então elas nunca acabavam caindo juntas. A primeira cena que fizeram de verdade foi uma cena de Orange Is The New Black, da qual interpretavam a "Pennsatucky” e a “Boo” no dia das mães. Após atuarem juntas no Tablado, se juntaram com um grupo de amigos e decidiram fundar uma companhia de teatro, os Banalizadores do Evoé, que durou alguns meses antes da pandemia. "O Amor entre duas mulheres e a rejeição social desse "comportamento" gera a dor gigante daquela cujo sentimento só sabe ser livre..." Foi através de ‘O Efeito Urano’ que Fernanda Young chegou até a Renata e a Marcela e se tornou uma das primeiras cenas que fizeram juntas, no começo do relacionamento, após se encontrarem no teatro Tablado. Renata e Marcela são atrizes, além de professora e de advogada. Elas se conheceram estudando teatro juntas, já em palco. A Renata sempre se viu um pouco na Fernanda Young, as obras dela permitiram com que entendesse que seu corpo também era livre. Fernanda sempre dizia que não cabia nos lugares, enquanto, Renata, também se sentia assim… até que ambas entenderam que não precisamos caber em lugar algum, mas que criar nosso próprio lugar. Renata apresentou O Efeito Urano para a Marcela. Virou o livro delas. Marcela leu e Renata releu, simultaneamente - assim grifaram tudo o que achavam importante, depois juntaram os papéis, no chão de casa, separando em três atos: a paixão, o relacionamento e o ato final. Foram para a praia, com os textos em mãos, e passaram o dia ensaiando. Depois disso, qualquer momento se tornou oportuno: passaram o texto enquanto estavam cozinhando, dirigindo e andando por aí. Se tornaram muito parceiras em ensaios, sempre trocando muito aprendizado. Hoje em dia o livro virou a parede do quarto delas, literalmente.
- Maira e Kelly | Documentadas
Amor de Lar - Maira e Kelly clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Samara e Rebeca | Documentadas
Rebeca e Samara se conheceram em outubro de 2023, durante uma live de uma página voltada ao público lésbico e bissexual. A proposta da live era conectar mulheres, seja para amizades ou relacionamentos. Samara tinha saído de um relacionamento - que não havia sido fácil - há cerca de seis meses, tomou coragem e decidiu participar para conhecer pessoas novas. Foi então que Rebeca a notou e começou a seguir no Instagram. Começaram a conversar imediatamente e se deram super bem, as conversas se tornaram diária e vieram chamadas de vídeo e ligações. Construíram um vínculo à distância - uma morando na Bahia, a outra no Piaui - que durou seis meses, e decidiram se relacionar de forma virtual. Em abril de 2024, Rebeca disse para Samara que faria uma viagem para visitar o pai no interior. No entanto, dias depois, veio a surpresa: Rebeca não estava no interior, mas sim a caminho de Salvador. Com a ajuda de familiares, ela arquitetou uma mudança e aproveitou a ocasião para surpreender Samara em seu aniversário, deixando claro que já tinha os planos de conseguir um emprego por lá e ficar de vez. A falta de aceitação de sua sexualidade pela família, somada aos seis meses de conexão intensa com Samara, desencadeou o impulso de recomeçar. Tinha o medo de não dar certo por não se conhecerem pessoalmente? Claro. Mas arriscar era preciso. Após algumas entrevistas, conseguiu um emprego e começou a se estruturar. Como ela mesma diz: "Já vim com os planos de ficar perto da Sam, não queria mais voltar para o Piauí." Desde então, elas têm vivido juntas, transformando aquela conexão inicial em uma história de amor real e corajosa, e Rebeca não se arrepende e nem deseja voltar. Quando chegou em Salvador, Rebeca ficou na casa dos seus familiares que moravam na cidade, mas também foi recebida com carinho pela família da Sam. Após uns meses, decidiram começar uma vida juntas, em um lar só delas. Os primeiros móveis foram adquiridos com pressa, mas com a ajuda preciosa da família para facilitar o início dessa nova etapa, ainda que pagando em várias prestações. Com alegria, contam como frequentemente refletem sobre essa decisão e afirmam, sem hesitar, que não se arrependem - principalmente a Rebeca, de ter deixado o Piauí para construir essa história ao lado de Samara. O amor, que começou de forma tão inesperada, revelou uma força que surpreende até elas mesmas. O que torna a relação única, segundo Sam, é a forma como se sentem ouvidas e reconhecidas uma pela outra. "Não vale só assinar embaixo. Ela deixa eu falar," diz Samara, expressando a dinâmica de respeito mútuo que construíram. E isso que é muito interessante, no dia-a-dia, além de desafiador, mostra o quanto representa crescimento para elas e para a família. E nesse crescimento também aprendem a lidar com questões que nem sabiam que era possível: como os ciúmes, a vida financeira, a ter paciência e entender que conquistam as coisas aos poucos, de acolher nos momentos difíceis, não procrastinar a luta dos estudos… uma puxa a outra nos sonhos. O amor delas também se revela nos pequenos impulsos do cotidiano. Desde Sam que gasta todos os caracteres na hora de se declarar, até a forma mais tímida de Rebeca, que prefere ações a palavras. É o mesmo impulso que levou Rebeca a mudar de estado e que ainda as guia em decisões, como comprar coisas sem tanto planejamento ou dizer “sim, vamos” antes de pensar duas vezes. Esses gestos espontâneos mostram que, mesmo com os desafios, o que importa é fazer dar certo. Samara, no momento da documentação, estava com 26 anos. É formada em História pela UBA e vive em Salvador, onde trabalha como professora em uma escola particular. Apesar de amar sua formação, sonha em cursar Direito, algo que pretendia fazer desde o início, antes de se apaixonar por História. Determinada e cheia de sonhos, Samara ainda planeja voltar à faculdade e realizar esse desejo. No tempo livre, ela adora ir ao cinema, shows, ouvir música, ler e assistir séries. Rebeca estava com 21 anos no momento da documentação. Nasceu em Salvador, mas passou a maior parte da vida no Piaui. Recentemente, em abril de 2024, decidiu voltar para Salvador motivada pelo amor que construiu com Samara. Atualmente, trabalha como operadora de telemarketing e cursa Ciências Biológicas, mas seu grande sonho é estudar Medicina. Rebeca é apaixonada por música e se destaca ao tocar violão, guitarra e bateria. Embora não seja fã de leitura como Samara, ela ama ir ao estádio de futebol – um hábito que aprendeu com Samara, e agora ambas torcem juntas pelo Vitória. A praia é um dos cenários mais especiais para as duas. Apaixonadas pelo mar, elas encontram nesse ambiente o refúgio para criar memórias juntas. Assim como o futebol no estádio, os passeios à beira-mar se tornaram um dos momentos mais significativos do relacionamento, por isso escolheram o lugar para fazermos as fotos na documentação. ↓ rolar para baixo ↓ Samara Rebeca
- Jade e Laura | Documentadas
Jade, no momento da documentação, estava com 27 anos. É natural de São Paulo, da zona leste, mas hoje em dia mora próximo à USP para ficar perto da faculdade, da Laura e para economizar o tempo diário que levava no transporte público. Ela é jornalista, cursa mestrado e trabalha enquanto assessora de comunicação. Conta que passa o dia fora, trabalhando de forma presencial e tem uma rotina bastante atarefada. Na pandemia de Covid-19, trabalhava em casa e era bem diferente, então agora ela e Laura readaptam o cotidiano para aproveitar o novo lar e passar o maior tempo possível com a Marininha, gatinha de estimação - chegam em casa, tomam café juntas, conversam sobre o dia, assistem TV, aos finais de semana leem e Jade tenta praticar yoga. Laura, no momento da documentação, estava com 26 anos. É natural de Aragarças, em Goiás. Morou em Minas Gerais, numa cidade interiorana, onde começou a cursar publicidade, mas achou um pouco frustrante porque não tinha muitas oportunidades lá, até que conheceu uma professora que contou para ela sobre o curso de Educomunicação na USP e ela tentou a transferência, em 2019. Hoje em dia, ela trabalha com mídias sociais, numa rotina semelhante à Jade, a diferença é que tenta ir de bicicleta para fugir do transporte público, conta rindo. Ama assistir filmes, está cursando uma pós-graduação em audiovisual e gosta de passar tempo de qualidade em casa. Para elas, o amor é estar num lugar de segurança. Quando falam sobre isso, Jade lembra de uma situação que viveu em que foi assaltada e que a primeira pessoa que pensou em ligar/precisar falar foi a Laura, e que depois disso caiu a ficha: significa que ela é seu porto seguro. O amor significa uma ajuda diária, o ponto que deseja evolução, de querer ver crescer - e estar do lado nesse crescimento. Laura pontua que viveu cercada de muito machismo e que sempre faz de tudo para ver o dia delas sendo bom em conjunto: sempre cuidam da casa, dividem as tarefas, fazem questão de que as coisas não fiquem pesadas pra ninguém, deixam tudo confortável, cuidadoso, sabem que se não for assim, vai ficar pesado para uma pessoa só. Querem o espaço equilibrado e verdadeiramente seguro para o amor existir. Foi em 2019 que se conheceram, quando a Laura se mudou para São Paulo e começou o curso na USP. Jade também estava no curso, de início surgiu o interesse, mas ambas eram tímidas e não sabiam como demonstrar. Haviam amigos em comum, eventos, coletivos, então tentaram aproveitar essas brechas. Foi num dia em que Laura estava numa reunião do coletivo LGBT+ que viu Jade e pensou “Bom, ao menos bissexual ela é!” que a esperança começou a surgir. Pelo lado de Jade, ela viu uma publicação num grupo de Facebook em que os novos estudantes se apresentavam e falavam coisas básicas como nome, idade, signo, orientação sexual, se estava solteiro… e a Laura comentou. Ali ela já soube o que interessava. Entre maio e junho começaram a conversar e interagir mais, foram até no cinema assistir Toy Story, mas nada aconteceu. Até que surgiu um jantar na casa de um amigo - que até hoje acreditam ter sido uma marmelada, porque os amigos marcaram, mas ninguém deu as caras! - e só elas foram. Beberam muito, ouviram música, o anfitrião foi dormir e deixou elas na sala, se divertindo, até que demonstraram que tinham interesse uma na outra. Depois do primeiro beijo, ficaram juntas por alguns meses, mas Laura tinha acabado de se mudar e estava confusa com tudo ainda, conhecendo a cidade, não queria um relacionamento sério. Sentia que sua vida no interior era muito diferente do que experimentava na capital. Logo que optaram por não ter um relacionamento, a pandemia de Covid-19 começou, ela decidiu voltar para Goiás com a gata (Marininha) pelo fato das aulas terem parado e não ter motivos para continuar em São Paulo. Ficou um ano lá, mantiveram bastante contato online e contam que parecia até um web namoro. Em junho de 2021, as aulas estavam retomando e Laura decidiu voltar a morar em São Paulo. Chegou querendo muito reencontrar Jade, obviamente. Sentem que a vida estava muito estranha, era tudo bem diferente de 2019/2020. Primeiro que não existia mais aquela sensação de mudança/recém chegada na capital, segundo que a vida em si estava estranha, muitas pessoas morrendo, uma sensação de fim-de-mundo, e terceiro que elas estavam financeiramente estáveis, tinham seus trabalhos (diferente de 2019), o sentimento era outro - e estavam mais maduras para a sensação de querer estarem juntas, pensarem sobre um namoro. Se estabilizou na cidade novamente e em setembro começaram, de fato, a namorar. Jade tinha muito medo de pegar Covid, morava com a família e pegava transporte público diariamente, tinha medo de colocá-los em risco. Então decidiu procurar um lugar para morar próximo à Laura e à faculdade. Primeiro, moraram próximas mas em prédios separados. Depois, moraram no mesmo apartamento, mas em quartos separados, dividindo com outras pessoas. E agora, finalmente, conquistaram seu próprio lar, um lugar com a cara delas em todos os detalhes da decoração e muito espaço para a Marina ficar à vontade. No dia da documentação, inclusive, iria rolar um “chá de casa nova”, uma celebração para os familiares comemorarem a conquista e presentearem com ítens para a casa. Elas confessam que estavam bem ansiosas pelos presentes, queriam muito saber se iriam ganhar um aspirador (e ganharam! hahaha). Fazer a documentação nesse momento foi importante, também, porque a mudança em si foi muito caótica e viver momentos assim causam um certo apagão sob as coisas boas que vivemos, o caos se instaura e ficamos submersos até passar, então foi uma conversa importante para relembrar o trajeto até ali e ver os detalhes da casa sendo construídos. Por fim, em março a Jade pediu a Laura em casamento - e conta que está esperando o pedido de volta, porque para elas tudo acontece de forma igual. ↓ rolar para baixo ↓ Jade Laura
- Janelle e Gyanny
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Janelle e Gyanny, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi no Rio de Janeiro que encontrei a Janelle e a Gyanny, depois de elas enviarem uma mensagem para o Documentadas falando sobre um projeto que possuem e nos convidando para ir até Belo Horizonte fotografar alguns casais por lá. O motivo do encontro no Rio, diferente do local de residência, é a paixão e o carinho que possuem por aqui: a Gy é carioca e a Janelle é encantada pela natureza misturada na cidade. Janelle, no momento da documentação, estava com 41 anos. Ela é natural de Belo Horizonte e trabalha na área da fisioterapia. Gyanny, no momento da documentação, estava com 39 anos. Ela é carioca, mas mora em Belo Horizonte há cerca de 4 anos - antes, inclusive, de se relacionarem - e por mais que tenha se formado em educação física, hoje em dia trabalha enquanto analista de mídias sociais. Juntas, elas fundaram um projeto chamado Jesus Hope. Foi pela necessidade que sentiam de ver LGBTQIA+ sendo representados no meio cristão que decidiram criar um perfil no Instagram para divulgar conteúdos de pessoas e igrejas que falassem sobre o tema. Entendem que muitas pessoas não sabem que existem igrejas inclusivas (são mais de 200 no Brasil!) e o papel do perfil, além de comunicar e ensinar, é evangelizar entre a comunidade de uma maneira inclusiva e acessível. Quando a Janelle e a Gyanny se conheceram, há oito anos atrás, não imaginavam que um dia iriam estar juntas. Na época, a Gy morava no Rio de Janeiro, ambas tinham outros relacionamentos e a única coisa em comum é que frequentavam a Igreja Contemporânea. Como a igreja tem bases muito fortes no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, ela promove diversos encontros e retiros. Foi numa viagem ao Rio através de um desses encontros que o encontro das duas aconteceu, mas não virou uma amizade logo de cara. O tempo passou, ambas terminaram seus relacionamentos, a Gy se mudou para Belo Horizonte e durante a pandemia elas começaram a conversar, de forma online. Foi no dia das namoradas que se encontraram pela primeira vez depois de passarem um tempo trocando mensagens. A Gy conta que nunca quis morar no Rio, sempre procurou outros lugares e que amou Belo Horizonte desde o primeiro momento, então um amigo a incentivou a ir, ela conseguiu um emprego e foi. Mesmo que ainda veja muitas pessoas com mentes fechadas e situações de machismo acontecendo na cidade, deseja participar da mudança ativa para as coisas melhorarem; Hoje em dia, morando com a Janelle, sente que lá é o seu verdadeiro lar. Atualmente, a rotina da Gy e da Janelle circula entre a família, os trabalhos e a igreja. Têm suas responsabilidades para além do Jesus Hope, organizam encontros e grupos de jovens, vão nos retiros e congressos. Intercalam seus dias com as orações, os encontros de fé e os encontros familiares. Começar a gravar vídeos para a página foi um salto, assim como usar alguns materiais de pastores. Entregam diversos conteúdos falando a Palavra e também trazendo debates sobre inclusão, chamando pastores de diversas igrejas para opinar, etc. Elas contam o quanto a “cura gay” atrapalha e machuca as pessoas. O quanto, também, são altos os casos de suicídio por pessoas que não se sentem parte do mundo e/ou sentem que estão cometendo algum pecado por amar alguém do mesmo sexo. Por isso, prezam pelo acolhimento mostrando isso através da fé, não da condenação. Gy conta que quando se assumiu para a família dela houve um ponto que a fez pensar muito: ela era da Igreja Batista, mas a mãe dela não frequentava igrejas. Mesmo assim, a mãe falou que não aceitaria, que era pecado, que Deus não aceitaria, e fez questão de falar com o pastor. Ou seja: a Igreja vai muito além de um local físico - suas crenças atingem quem está fora, que ouve e acaba reproduzindo de alguma forma. No entanto, a Jesus Hope vem justamente para transformar isso: mostrar que não é pecado. A Janelle e a Gy possuem uma relação muito calma e caseira. Acreditam que fazem o amor dar certo porque se doam para ele - através das preocupações, dos cuidados, estando junto e respeitando de verdade, acolhendo ambas família e aceitando como todos são. A Gy acredita que o amor vem de Deus e fala sobre amar o outro como a si mesmo, com empatia, pensando no outro até mesmo antes de pensar em você. “Amar é uma construção e também um suporte”. Por fim, também reflete sobre como até os sentimentos hoje estão muito descartáveis: estamos vivendo relações em que se acontece alguma coisa que a pessoa não goste/não queira, ela já se desfaz. Entendem que o amor não é isso, se queremos viver o amor, precisamos passar por cima de algumas coisas em algumas situações, ceder um pouco, relevar um pouco para tentar construir algo (e, claro, respeitando uma a outra sempre!) mas entendendo que é uma situação passageira que servirá para fortalecer e viver situações melhores futuramente. ↓ rolar para baixo ↓ Janelle Gyanny
- Mel e Sophia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mel e da Sophia, quando o projeto passou por São Paulo! A história da Sofia e da Melissa é (para não dizer uma das mais especiais que já documentamos por aqui - visto que todas são especiais) uma das mais desejadas - sabe por que? Elas decidiram se tornar o que ouço muito ser sonho de vocês: um casal que largou tudo e comprou um sítio. Nos encontramos no ano passado, nesse novo lar delas, que estava cada vez mais sendo construído e amado. Com as plantas, os animais e as decorações. A Mel estava com 34 anos, ela é jornalista e escritora. Já a Sofia estava com 31, é editora de vídeos e por hobbie adora fazer tatuagens. Tudo começou quando elas moravam em São Paulo, na capital, e entenderam que não dava mais para viver sob tanto trabalho: precisavam dedicar a vida um pouco mais para si, viver para se divertir, não para trabalhar e trabalhar. Foi aí que venderam o apartamento e compraram uma casinha no interior de Campinas, numa região bastante afastada com uma vista bonita, bastante árvores e um rancho bonito, assim surgiu o @ranchosapatao. Morar em um sítio não quer dizer que elas deixaram de trabalhar ou que abdicaram de suas profissões. A Mel, por exemplo, já trabalhou em ONGs internacionais de proteção animal e foi jornalista de grandes revistas e hoje em dia está focando sua carreira no término do seu (ou melhor, seus?!) livro(s). Para quem está no mundo sapatônico há mais tempo, desde os blogs, talvez já deva ter esbarrado com o trabalho dela: ela escrevia um blog chamado Fucking Mia, que virará livro e está em revisão nesse momento pandêmico que vivemos. No rancho, parte da rotina também é dedicada ao cuidado e amor aos bichinhos de quatro patas - todos resgatados da rua. O Mantiqueira e o Juazeiro, dois cachorros super simpáticos, e o Maceió e o Quito, dois gatos maravilhosos ♥ A Sofia e a Mel entendem que a relação delas é baseada na parceria, porque costumam ser pessoas práticas em momentos de aperto ou perrengue e sempre dão um jeito juntas. Nos momentos realmente mais difíceis, entendem que não há o que não possa ser conversado e isso faz com que se compreendam muito bem - porque sempre tentam ao máximo se colocar uma no lugar da outra. Conversamos sobre o quanto esse posicionamento é importante no momento de conversa para que não haja injustiça, e elas complementam que é essencial, também, para que exista o respeito no limite individual de cada uma. Elas se conheceram em 2015, através de uma amiga em comum. Todas foram juntas em um bar em São Paulo e se viram pela primeira vez. A Sofia sorriu para a Melissa e logo ela pensou: “Nossa, pegaria essa menina!”. Depois, se adicionaram no Facebook e no Instagram. Ambas tinham relacionamentos, e seguiram sem interações pelas redes sociais. Um tempo depois, mesmo que a Mel sempre tivesse essa queda pela Sofia e não interagisse, foi a Sofia quem respondeu um ‘storie’ dela, dizendo: “É muita crush para um vídeo só.” Como no vídeo era a Mel e a cachorra dela, ela fez uma brincadeira perguntando quem era a crush que ela se referia, e a Sofia disse que eram as duas! Elas conversaram, trocaram ideia por um tempo e combinaram de sair para se conhecer melhor. O encontro finalmente aconteceu, lá em 2018. Marcaram numa terça-feira, se encontraram e logo no começo se beijaram. Brincam que desde esse beijo estão juntas, não teve como desgrudar. Na época, a Sofia estava em um relacionamento aberto e acabou terminando, porque entendia que o envolvimento com a Mel era maior do que poderia ter previsto. E tudo foi se desenvolvendo, caminhando. Elas dizem que se sentem em um encontro de almas, foi realmente intenso - e isso mudou suas rotinas, vontades e futuros. Fizeram tatuagens, viagens e novos planos. A Mel diz que quando conheceu a Sofia se expandiu enquanto pessoa e elas viraram o casal do “Vamos?” “Vamos!”. Hoje em dia, o apoio e o grude seguem muito presentes. Em dias mais difíceis, uma ajuda a outra, desde deixar o computador preparadinho para o trabalho, até fazer uma comida mais gostosa no fim do dia. O jeito que elas preparam a casa, os cuidados, as reformas… tudo é pensado em conjunto e para o bem-estar. “O que é uma mulher sem pensar na referência que temos ao homem?” - Sofia trouxe esse questionamento à conversa. O questionamento foi para pensarmos na mulher de forma pura, como um lugar nosso, de apoio, enaltecimento, ajuda, sem hierarquia e tantas outras culturas que acabamos herdando do patriarcado. Ela acredita que as relações entre mulheres dizem muito sobre o amor e sobre o coletivo. Para a Mel, é algo muito libertador e engrandecedor o processo de descobrir o amor por outra mulher. Amar outra mulher é uma grande revolução, é entender como não temos limites, como podemos ser tudo. Vai além de todos os padrões. Elas tentam estar sempre rodeadas de mulheres ao redor: nas amizades, nos trabalhos, no cotidiano. E dizem que as coisas vão realmente mudar quando tivermos mais mulheres em cargos de poder. Além disso, vão mudar também no momento em que as pessoas tiverem mais auto-suficiência e acesso ao conhecimento, escutando outras pessoas que sofreram por muito tempo, historicamente, para construirmos uma sociedade que não vá pelo mesmo caminho que estamos - que seja realmente construída com empatia. Sofia Melissa
- Juliana e Tercianne
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Juliana e da Tercianne, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Em um momento da conversa, falando sobre o lugar que estávamos, naquela praça, naquele espaço da cidade e sobre sermos mulheres, ouvi duas coisas que me marcaram muito e que acabei pensando depois que fui embora. Primeiro, a Terci, que por ser uma pessoa visivelmente mais tímida, disse que quando se relacionava com homens tinha vergonha de dar as mãos, de beijar em público, de ter atitudes românticas na rua… hoje se vê nesse papel porque acha que com a Ju é muito mais puro. O sentimento é praticamente ao contrário, ela faz questão de pegar na mão, de dar um abraço. Mesmo se ela não falasse, seria visível nos detalhes esses toques, porque é algo natural, o toque acontecia durante a conversa, era de fato puro. Logo depois que ela comentou isso, a Ju falou também que embora seja muito difícil a luta LGBT como um todo, chega um momento em que vale a pena expor o amor por quem você ama… e que mesmo que você coloque seu corpo na linha de frente por esse amor, o que literalmente nos acontece, enquanto vivemos no Brasil e muitas pessoas não escondem a LGBTfobia que possuem, nós precisamos seguir mostrando que está tudo bem amarmos e sermos amadas. Isso não quer dizer que não temos medo (temos, sim!) - inclusive a Terci escreveu uma música sobre isso depois que elas se encontraram numa praça (sobre ser um ato político, sobre ser uma luta) - elas andam com medo, às vezes receosas, principalmente quando cruzam com homens, mas entendem que é preciso o equilíbrio entre se cuidar e não baixar a cabeça e se esconder dentro de um armário. “Saber cuidar e cuidar dos nossos.” Por fim, trouxeram mais duas coisas. A Terci disse que logo pensou no filme Zootopia, que a coelha descobriu um lugar que ninguém ligava pra ela e que ela poderia viver tranquila. No fim, é esse o objetivo: que as pessoas olhem as diferenças e não pensem nisso como algo ruim. E a Ju traz a importância de, além de conversar com pessoas mais velhas, ser fundamental conversar também com as crianças e adolescentes, trazer diálogos de inclusão para os mais novos normalizando discussões de igualdade de gênero e inclusão social. Quando comentamos sobre a pandemia e sobre essa forma de se reinventar, a Ju falou que no começo do relacionamento tudo foi muito rápido, tudo se desenvolveu de forma involuntária. Com um mês elas já estavam muito próximas, praticamente namorando e a Ju frequentava a casa da Terci com uma frequência cotidiana por ser muito próxima à faculdade. Elas criaram uma rotina de cafés da manhã, ônibus, massagens no final do dia, feirinhas nos fins de semana, tapiocas de queijo com morango, parques, peças… tudo foi criando um tom. Hoje em dia, com a pandemia e a Terci voltando a morar com os pais dela, tudo fica diferente. Primeiro que é preciso estar em casa, segundo que o espaço em casa é outro, a privacidade é outra, o tempo é outro, sentimento é outro. São muitas readaptações. A sensação presente agora é que, por mais que estejam há mais de um ano e meio juntas, a pandemia faz com que todo dia seja uma novidade dentro de uma certa “mesmice” por conta de novas descobertas internas. Aprenderam que a Ju é mais explosiva, mais estressada, mais extrovertida… e que a Terci é ao contrário, mais quietinha, em outro tempo. Mas que também isso leva a outro contexto de conversa, de amor e de equilíbrio. Que as conversas voltam ao início da vontade de se conhecer e se encontrar de múltiplas formas. Aos poucos também entendem que estão construindo uma nova relação, com mais comunicação e com cuidado para não se magoar. Sempre tentam respeitar as limitações e redescobrir zonas de conforto, perceber o que representa o amor em suas essências, onde elas encontram ele nos seus detalhes e referências. Quando conversamos sobre o amor em seu estado puro, a Ju fala sobre amar e se apaixonar, então o “amar” ser o amadurecimento da paixão, fazer com que o calor exista, mas de forma mais concreta, mais efetiva, mais consistente. E a Terci completa “enxergando os defeitos e amando também, mas com cuidado, porque existe o amor que cuida, que quer o bem... e outro que prende, que toma posse”. A Tercianne adora música, ela se afastou um pouco por um tempo, mas depois que voltou à faculdade um professor conseguiu guiar e monitorar ela de volta. É um lugar que ela sempre quis estar, muito positivo e que se encontra muito com a Ju também. Antes de estudar teatro a Terci passou por um momento entre arquitetura e engenharia civil, ainda no Ceará, mas não se sentiu bem cursando. O pai estava estudando com ela e por já ser aposentado decidiu que apoiaria o curso que ela tivesse vontade de cursar. Ela descobriu a Casa de Artes de Laranjeiras (a CAL, no Rio) e falou que gostaria de estudar aqui, foi então que toda a família se mudou: ela, a mãe, o pai, os irmãos, os cachorros… todo mundo! E aqui estão até hoje. A Ju se vê muito na escrita dos sentimentos, nas crônicas… quando o teatro não dá conta ela abre um bloco de notas e se coloca a escrever. Desde sempre, sentiu mais resistência enquanto à vontade de ser artista, era algo que sabia. Ambas se consideram bissexuais e as famílias, hoje em dia, sabem e apoiam o relacionamento das duas - a Ju, inclusive, já foi até o Ceará com a Terci. Nem sempre foi um debate fácil a se encarar dentro de casa, o começo foi mais difícil e foram contando aos poucos para as pessoas, entendendo o contexto de cada situação. Mas no geral a família sente o quanto o relacionamento representa crescimento para ambas e fica feliz em ver essa mudança acontecendo de pertinho. A Juliana e a Tercianne se conheceram e se encontram entre muitas coisas em comum. Ambas estão com 22 anos, fazem faculdade de teatro, gostam de música, de cinema, de feirinhas... A Ju é natural do Rio de Janeiro, já a Terci é do Ceará. Elas se viram pela primeira vez quando a Ju fez uma peça interpretando uma personagem da qual a Tercianne já tinha interpretado no ano anterior. A Terci viu, se apaixonou, mas não conseguiu falar com ela logo depois do espetáculo porque precisava ir para o aeroporto pegar um voo para o nordeste, estava indo de volta para casa. Decidiu chamar a Ju no Instagram para elogiar e falar que gostou bastante da apresentação e então elas começaram a conversar. - Vou embarcar agora, mas depois continuamos a conversa. - Ah, quer continuar a conversa? vou achar que é um flerte! Foi a primeira vez que Terciane tinha mandado mensagem para uma menina dessa maneira e a Ju lançou a brincadeira, então acabou acontecendo e elas seguiram conversando (ou flertando!). Deu certo. Assim que a Terci voltou ao Rio de Janeiro decidiram se encontrar e assistiram o Rei Leão no cinema, foi tudo meio estranho, não sabiam se seria um encontro num tom mais romântico ou na amizade. Conversaram muito sobre a vida, depois ficaram, mas não sabiam dizer exatamente o que sentiam. No decorrer do que foram estabelecendo contato elas entenderem que o que queriam mesmo era se conhecer, por inteiro, saber quem eram e se encontrar no maior número de sentidos possíveis. Quanto mais se viam, conheciam os amigos, frequentavam os espaços em comum (a casa da Terci, a faculdade…), mais ouviam o quanto estavam diferentes (de um jeito ótimo, é claro!)… a Ju conta que logo no começo uma amiga da Terci contou que há tempos não via os olhinhos dela brilhando tanto como brilhavam agora. Aos poucos isso foi mostrando o quanto era real e recíproco. No show do Lagoon, a Ju pediu a Terci em namoro. E no dia seguinte, a Terci já tinha planejado tudo para pedir a Ju em namoro lá na faculdade, então pediu também. Foi uma troca justa! Tercianne Juliana
- Luiza e Marina
A Capitu, cachorrinha delas, chegou num momento em meio a pandemia do qual a Luiza estava se sentindo muito solitária em casa. Como a Marina está passando muito tempo cuidando da saúde e dando apoio à mãe dela, acabaram ficando bastante distantes e tomando muitos cuidados para se ver (sempre fazem testes, são visitas mais curtas…). Então o papel da Capitu foi chacoalhar um pouco e trazer alegria, companhia, cuidado e carinho (coisa que nunca falta!). Hoje em dia elas sonham com um mundo em que a vacina esteja sendo dada na maior parte da população (sonhamos, né?!) e quando pensam em políticas públicas, tocam logo em pautas sobre a inclusão e a cultura. Porto Alegre é uma cidade muito segregada e vem tendo sua cultura sendo diminuída ano após ano - ela virou, simplesmente, artigo de luxo. Sonham em voltar a ver a cidade acontecer de verdade para todas as parcelas da população e querem participar ativamente dessa mudança. A história da Luiza e da Marina te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Elas se conheceram em 2012, Marina estava na faculdade, fazia estágio e ficava com uma amiga da Luiza. Ambas participavam de um grupo de amigos muito próximos, então elas sempre estiveram nos mesmos eventos, nas mesmas festas, mas sempre se entenderam apenas enquanto amigas. Em 2015 ambas estavam namorando (e a Luiza s-e-m-p-r-e era conselheira amorosa da Marina!), um tempo passou e em 2016 elas foram numa festa e ficaram, mas por brincadeira, não foi nada sério… ou teoricamente não era para ter sido, porque no fim, a Marina se apaixonou. Tentou ir atrás da Luiza, ela não quis. Em outro fim de semana, foram em uma festa voltada ao público lésbico/bissexual de Porto Alegre, a Lez. Foi lá que ela viu a Luiza ficando com outra menina, esperou a menina ir embora e conseguiu o beijo! Quando esse beijo aconteceu, nem preciso explicar o resto, né? estão aí, juntas, há quase 5 anos. Hoje em dia possuem uma relação de muita conexão, compartilham muitas coisas juntas e, por mais que já tiveram momentos turbulentos e de afastamento, estão sempre se apoiando, conversando e se entendendo. Construíram uma relação de cumplicidade. Quando pergunto sobre o amor, dizem que acham que o amor é lindo e difícil ao mesmo tempo. É tentar entender e se entregar. E que, sim, o amor entre mulheres tem muita diferença de relacionamentos héteros tradicionais: é mais intenso, mais forte, as mulheres se permitem mais, enquanto os homens tendem a reprimir alguns sentimentos como o amor (muito por conta da questão da masculinidade frágil), as mulheres dificilmente reprimem algo. E comentam que existe mais amizade também, uma troca muito grande: o casal sabe se colocar uma no lugar da outra. Marina e Luiza moram em um apartamento maravilhoso, aconchegante e iluminado junto com a Capitu, a cachorrinha mais carente desse mundo! O apartamento fica em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul e Marina o identifica como “um abraço”, porque é a sensação que sente ao entrar. Ainda não conseguiram aproveitar 100% dele, pois mudaram em meio à pandemia - tempo que passam bastante distantes por conta de problemas de saúde na família da Marina, mas acreditam que a cada mês que passa, ele fica mais do jeitinho delas. Luiza tem 26 anos, é advogada por formação e trabalha atualmente com licenciamento ambiental. Adora plantar, saber sobre jardinagem e cuidar dos cantinhos da casa. Como inspirações e referências de vida, ela fala do avô (que sempre quis ensinar as coisas para ela, sempre tratou com carinho) e no mundo dos famosos cita o Elliot Page, que trouxe muita referência LGBT quando ela era mais nova. Marina tem 29 anos, é formada em marketing e atua na área de vendas numa empresa de tecnologia. Entre as coisas que gosta de fazer está em primeiro lugar o handebol (esporte que ela pratica há 20 anos!) e mexer com criação/criatividade. Além disso, na empresa, ela também atua em um grupo que debate empregabilidade para pessoas transgêneros e gosta muito de atuar nessa área dentre a pauta LGBT. É uma pessoa muito grudada à família, principalmente à mãe - e a cita como uma grande referência e inspiração, por tudo o que já passaram juntas. Por sua vez, no mundo dos famosos, fala sobre a importância da Ellen DeGeneres e o quanto ela se sente representada por todos os temas que ela traz e por quem ela é. Luiza Marina
- Iasmim e Nathália
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Iasmim e da Nathália, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! < A Nathália e a Iasmim começaram a namorar em 2019 com um detalhe: elas já moravam juntas. Dividiam um apartamento com diversas outras pessoas enquanto estavam fazendo a graduação em Direito, no Rio de Janeiro. De lá pra cá, passaram por vários espaços: optaram por morar sozinhas num apartamento bem menor, em Caxias, na Baixada Fluminense, lá enfrentaram a pandemia juntas e depois voltaram ao Rio, com um relacionamento muito mais amadurecido e fortalecido. Na mudança de volta foi que a ficha caiu sobre o quanto cresceram: quando foram pela primeira vez morarem sozinhas enquanto um casal, tinham uma mala de cada e uma televisão; Quando voltaram, precisaram de mais de um caminhão de mudanças. Construíram a casa juntas, os móveis, lembram de quando chegou o fogão, a cama e a máquina de lavar. No momento pensaram: “Como saímos de uma mala e chegamos nisso aqui?!”. Como tudo foi muito batalhado para ser conquistado, é também muito valorizado. Cuidam de cada detalhe, dos móveis, ao amor que dão aos gatos, o cuidado com as plantas, até o quanto ainda desejam crescer juntas. Sentem que o que vivem é um sentimento puro de família, seja no momento de fazerem um churrasco juntas com vários legumes e uma carne só ou no momento de sentar e conversar sobre o que estão sentindo. Nathália é advogada e cantora. Ela estava com 26 anos no momento da documentação, chegou ao Rio de Janeiro para estudar Direito em 2015, mas é natural de Salvador e toda a sua família reside lá até hoje. Antes entendia a música enquanto um hobbie e hoje faz isso de forma mais profissionalizada: possui conteúdos no Spotify (segue ela, gente!) e trabalha nas suas próprias canções. A Iasmim também é advogada. Estava com 28 anos no momento da documentação e é natural de Caxias, na Baixada Fluminense. Na pandemia descobriu vários hobbies, como desenhar, cozinhar e auxiliar a Nath na sua carreira musical. A Nath acredita que a relação que elas constroem é muito baseada nas ações - nos atos de serviço. Ela traz o exemplo de que não consegue conversar com os gatinhos em casa, por exemplo, mas mostra nas ações e dialoga com eles, demonstra o quanto ama e recebe o amor deles. Assim, no relacionamento delas, elas dialogam e se sentem seguras. Além disso, o amor envolve muitos desafios e enquanto vivem isso sentem que surgem novas perspectivas sobre o mundo. Quando a Nath se mudou para o Rio de Janeiro, foi logo encontrar uma amiga que já estava fazendo faculdade de Direito e acabou adentrando no grupo de amigos cariocas dela. Nesse grupo, estava a Iasmim. Um tempo depois, cansada de transitar por vários espaços, decidiu morar em uma república - foi aí que começaram a dividir apartamento. Lá elas viraram amigas, interagiam com todos da casa, viam shows na TV, faziam refeições juntas etc. Elas não eram suuuuuuper amigas e lembram que a Iasmim era uma pessoa mais fechada, mas em um dado momento começaram a se aproximar mais - se aconselhavam, ouviam músicas juntas… As pessoas ao redor notaram essa aproximação, mas elas não viram nada demais acontecendo. Foi em agosto de 2019, num momento em que a Nath estava mais tristinha pois vivia em torno da prova da OAB, que a Ias chegou até ela e a convidou para sair e ficar bem. Elas estavam num momento ruim de grana, acharam que não ia rolar, mas encontraram um evento chamado “Isoporzinho das Sapatão” e decidiram ir - pela primeira vez saíram juntas/só as duas em algum lugar. No evento, se divertiram muito. Conversaram sobre as músicas da Nath, sobre coisas super profundas, antigos relacionamentos… até que alguma chave, em algum momento, virou. Foi ali que elas sentiram que algo poderia acontecer - e se viram de uma forma diferente pela primeira vez. O cigarro acabou, elas tiveram que comprar cigarros avulsos e a Nath ensinou uma forma de conseguir desconto, mas nessa conversa chegou muito próximo da Iasmim para falar. Ela se desconcertou, sentiu algo acontecendo e numas brincadeiras entre cigarros se beijaram. Nos dias seguintes ao evento (e ao beijo) tudo ficou meio caótico. A Nath foi assaltada, então estava sem celular e, para ajudar, a Ias evitava ela dentro de casa. Todos os dias a Ias acordava mais cedo, ficava pronta antes do horário da Nath levantar e só batia na porta dela para acordá-la (já que ela não tinha despertador), mas saía logo em seguida, não dando a chance de uma conversa. Num dia conseguiram conversar um pouco enquanto fumavam um cigarro, mas no momento em que a Nath se aproximou a Ias logo deu a desculpa de que estava tarde e que precisava dormir e saiu do ambiente. Isso deixou a Nath muito frustrada, pensava que a Ias não ia querer mais nada com ela e os amigos falaram: “Foge enquanto é tempo!”. Mas ela decidiu conversar com uma amiga em especial, que confiava, tomando uma cerveja no bar e essa amiga orientou: “Dê tempo ao tempo”. Na mesma semana a Ias mandou para ela a playlist do evento que elas foram e assim elas começaram a conversar pelo Facebook. Uns dias depois, conversando na terapia, a Ias percebeu que isso era apenas um medo momentâneo e que ela merecia se permitir viver aquele momento bom com a Nath - então decidiu falar com ela e chamar para beber uma cerveja. É um sentimento gostoso para elas relembrar que no começo, mesmo se conhecendo e convivendo há anos, elas passaram pelo nervosismo de não saber lidar uma com a outra. Surgiam perguntas como: “Você gosta de pizza?” sendo que a resposta era óbvia porque elas viviam comendo pizza em casa com os outros moradores. Mas, mesmo sendo algo bobo, era uma forma de se redescobrirem aos poucos. Depois de um tempo, a Nath chamou a Ias para conversar e elas decidiram vivenciar de verdade o que tinham enquanto um relacionamento. Foi um pouco depois disso que o contrato do apartamento estava por vencer e elas decidiram seguir morando juntas, mas num espaço novo e só delas. Elas não esperavam que a pandemia de Covid-19 começaria em seguida. Foi um baque, mas seguiram nessa descoberta diária: conviver juntas obrigatoriamente, sem a opção de sair de casa, é também descobrir muito sobre a convivência com a pessoa que se ama. Entendem que viver a pandemia naquela situação de imersão em um relacionamento recente era delicado, mas fizeram de tudo para dar certo. Hoje em dia, trazem o conhecimento que se criou uma com a outra algo muito positivo, mas não descartam as dificuldades nas ansiedades, nos atritos e no ato de aprender a conviver com as diferenças, de conversar e de dialogar sobre os sentimentos. Na pandemia, também passaram pelo desemprego da Ias, a situação financeira apertou e isso também influenciou muito sobre o valor que dão às coisas que conquistaram. Além disso, a Nath fazia um exercício intenso de incentivar a comunicação do casal - e principalmente de incentivar que a Ias falasse mais sobre o que sentia/a procurar o que sentia. Tudo partiu do entendimento de que o que ela sentia também afetava o dia a dia do relacionamento. Foi assim que seguiram juntas e que hoje em dia não se veem de outra forma: estão noivas! Planejaram o casamento aos poucos, com ideias em casa, mas querem vestidos e coisas tradicionais porque acreditam que merecemos isso. Contrataram uma cerimonialista que gostam e, por mais que já tenham passado por uma situação de lesbofobia na hora de procurar um local, encontraram outro e estão super empolgadas! Será lindo ♥ Conquistando também o apoio da família, ficam muito felizes em compartilhar as coisas do casamento e receber conselhos dos familiares que acreditam na potência do amor que elas vivem. A Ias contam que se sente num grande oceano. Ela nada em amor pela Nath - tudo ao redor dela é água; tem coisas que ela gosta ali e tem coisas que pode não gostar, mas não sabe separar o oceano do mar, tudo está junto e ela ama tudo. Acredita, também, que no dia que souber reconhecer o que ela ama e o que ela não ama, de forma específica, vai entender que esse sentimento provavelmente acabou, então ela ama por completo tudo aquilo em que ela se vê nadando: o amor. A Nath completa de que esse amor é de uma forma livre também, no sentido de não sentir medo, de poder ser quem são. E que, amar da forma que amam, não representa que todo dia seja bom. Há dias muito puxados, difíceis e chatos, mas o bom é saber que nada vai acabar por isso: é só um dia ruim. Por fim, amam os atos que envolvem a relação delas: desde o pai da Ias levar caldo quando a Nath está doente, até a forma revolucionária de ver mulheres se amarem através do respeito. Entendem que não vivem regras sociais como as colocadas no mundo heterossexual: se estão casando, por exemplo, é porque querem. E isso as deixa muito confiante de que a relação se baseia somente naquilo que constroem. ↓ rolar para baixo ↓ Nathália Iasmim
- Dani e Maria Gabi
A Maria Gabriela e a Danieli são de lugares bem diferentes, mas se encontraram em São José dos Pinhais, município vizinho de Curitiba, no Paraná. Gabi nasceu no Paraguai, morou em vários lugares e agora está com a família em ‘São José’. Já a Dani, nasceu no interior do Paraná, numa cidade pequena chamada São Jorge do Patrocínio e decidiu se mudar para Curitiba para tentar uma nova vida na capital. Hoje em dia moram juntas - e juntas também de algumas familiares da Gabi + duas gatas que adotaram nesse período. Elas contam sobre o quanto são diferentes e que, com as diferenças, aprendem muito sobre um relacionamento cheio de companheirismo. Dani é mais apegada, Gabi é mais solta. Dani sempre vê os dois lados em tudo, Gabi é mais direta sobre as decisões - mas aprende muito com a Dani sobre observar as coisas ao redor. Dani é introspectiva, gosta do carinho e das coisas mais tranquilas, enquanto Gabi é super sociável, gosta de ser comunicativa e de conhecer novas pessoas. Diante todos os extremos, entendem que o encaixe acontece no quanto aprendem uma com a outra diariamente. Não enxergam seu relacionamento enquanto a maioria dos namoros que formam um padrão: elas têm seus jeitos diferentes, mas enquanto parceira contam uma com a outra sempre. Acham ótimo, inclusive, fugir do padrão. O amor é feito com espaço, vivendo as diferenças e tendo respeito. A Gabi, no momento da documentação, estava com 24 anos e trabalhava em uma loja de departamentos no shopping. Comenta sobre o quanto o shopping exige uma rotina de trabalho exaustiva, mesmo que goste de trabalhar com o público, se sente bastante cansada. Dani, no momento da documentação, estava com 23 anos. Depois de se mudar para Curitiba ela já trabalhou em mercados e hoje em dia, em São José dos Pinhais, é assistente de atendimento. Morarem juntas facilita a rotina em relação à escala de trabalho apertada, mas nem sempre foi assim. Dentre os três anos que estão juntas, moram na mesma casa recentemente e contam que foi uma luta decidir pela mudança. A tia da Gabi foi quem teve a ideia inicialmente de oferecer a casa que faz parte do terreno delas, assim, os gastos com aluguéis diminuiriam, a economia melhoraria e a Dani faria parte do lar. Quando se conheceram (através de um aplicativo de relacionamentos famoso por aqui: o Tinder), ambas haviam acabado de chegar na cidade. Dani passou por um relacionamento abusivo antes da Gabi, estava bastante machucada e resolveu entrar no app para conversar com novas pessoas - enquanto a Gabi estava lá para curtir e não tinha intenção de realmente se apaixonar por alguém. Conversaram, marcaram um encontro na casa da Dani (que ainda era uma pensionato cheio de regras) e nunca mais se separaram. Depois disso, a Dani se mudou para São José dos Pinhais. Morou em vários lugares e o relacionamento delas foi caminhando, até que decidiram assumir o namoro. Enxergam o quanto o relacionamento não contribuiu só para uma melhora construtiva delas, mas também dos familiares ao redor. A Gabi diz que ter elas em casa faz com que diariamente a família enxergue questões de raça, gênero e classe totalmente diferente do que era antes, principalmente pelos debates que elas proporcionam. Enquanto a Dani, já levou a Gabi até o interior e ao assumir para a família o relacionamento, considerando que vivem em realidades completamente diferentes da dela, fica muito feliz em ver o pai e a avó adorando e respeitando a Gabi do jeito que ela é. Juntas, elas adotaram duas gatas (uma delas, super arisca, que passou por um processo de resgate) e é com o carinho que trocam com as bichinhas que entendem o que é de fato o amor: Acreditam que existem várias formas de demonstrar afetos, por mais que vivemos numa sociedade que preza pelo tradicional onde o afeto tem de ser bonitinho, carinhoso, queridinho, etc. Elas vão por outros lados, demonstram de outras formas. Como as gatas, que amam de um jeito singular - a Teodora, muito arisca, não é tão carente e apegada, mas demonstra o amor e a confiança que possui nelas nos detalhes cotidianos, trocas únicas. Elas se identificam nesse amor. Além disso, sentem que o autoconhecimento que adquirem todos os dias é algo precioso. Dani conta que não tinha tanto acesso às informações no interior, então valoriza cada passo da reeducação sobre questões sociais que recebe diariamente. No dia a dia, a Dani desenha bastante (entre paredes, papéis e outras superfícies), enquanto a Gabi adora sair para comer, viajar, assistir filmes e séries e apoiar a sua família no que precisar. Conta que tem uma prima autista (que mora junto com elas) e que a casa vira um exemplo para que não exista nada mais valioso na vida quanto os sentimentos - e o amor. “Não existe valor material que supere”, nas palavras dela. Diariamente acompanham dando suporte e entendem que não desistir e estar em movimento acreditando no que sentem é o que dá sentido a tudo. Além disso, passam muito tempo conversando dentro de casa. Brincam que em outra vida a Dani deve ter sido filha da tia da Gabi, de tanto que passam horas conversando e se dão bem. Por fim, a Gabi comenta que o amor pode ser uma certeza muito incerta, mas que é bom aproveitar ele em seu cotidiano. ↓ rolar para baixo ↓ Gabi Dani
- Marcela e Karine
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marcela e Karine, quando o projeto passou por São Paulo! A Karine e a Marcella são aquelas pessoas que jamais conseguiriam viver sem arte na vida. Arte em todos os aspectos: a cultura no cotidiano, passando pela pintura, pelo teatro, pelo cinema ou pela dança. Dentro do apartamento em que elas moram em São Paulo fazem uma produtora acontecer - e dessa produtora já saiu websérie, ideia para Canal no Youtube, filme, peça… tudo vira vida. A produtora criada em 2018/2019, com nome La Loba, vindo do livro Mulheres que Correm com Lobos, foi um passo muito importante também para elas colocarem em frente o que acreditam: a liberdade no criar. Roteirizar, filmar, dialogar com novos atores. Criar cenas e redescobrir aspectos de criatividade, ainda mais dentro de casa, é um desafio divertido. Quando falamos sobre as ferramentas de gravar dentro de casa (por elas terem as ferramentas necessárias, desde equipamento técnico até o suporte para lançar, como o YouTube ou outras plataformas), elas comentam também que não admitem a ideia do artista pobre, essa coisa de que o artista precisa vender o almoço para comprar a janta. Não que precisem viver o luxo, mas que querem suas profissões respeitadas e valorizadas para que tenham uma vida confortável e saudável: “Ter o trabalho reconhecido”. Suas competências artísticas são enormes, estudaram (e estudam!) há anos para construir isso e é um exercício diário relembrar o quanto o teatro, a peça, o filme, a dança, a música, a expressão artística é tão importante para o nosso dia-a-dia quanto tantas outras coisas que fazemos. Karine é de Tatuí, cidade intitulada como Capital da Música, interior de São Paulo. No momento da documentação ela estava com 33 anos e contou sobre um projeto do Governo do Estado de São Paulo em que estava fechando diversos cursos universitários lá na cidade natal dela (local que a família reside até hoje), incluindo o curso que ela fez, de Artes Cênicas, que já estava encerrado. Falou sobre a dificuldade de se ver longe e ver uma cidade com tantas potências, com um dos maiores conservatórios de música da América Latina, resistindo, mas sem muitas forças perante um poder tão maior que é o legislativo. Mas que, mesmo com todas essas sensações de cultura sendo levada “embora”, não desistiria, pois da mesma forma que ela esteve lá por tanto tempo ainda há pessoas muito boas fomentando a arte nessas cidades - e não só: a arte, a história, os eventos culturais, os projetos de voluntariado, etc. A Marcella também tem uma trajetória de busca pela cultura no interior de São Paulo, mas dessa vez em Piracicaba. Ela estava com 32 anos no dia em que nos encontramos e contou que a sua trajetória na arte da cidade foi impulsionada quando começou a fazer um curso no SENAC (e, nesse curso, também conheceu a Karine). O ano era 2016, encenaram uma peça sobre A Paixão de Cristo, aprenderam muito e até ficaram amigas, mas o tempo passou e não se falaram mais. Como a cidade é pequena e todos acabam se encontrando nos espaços, em 2018 elas fizeram outra peça novamente. Estavam solteiras, interagiram e o interesse surgiu. No fim, (ou melhor, no começo) começaram a namorar. A vida em Piracicaba, mesmo que confortável, estava um pouco limitada para a carreira da Karine e da Marcella. Foi então que surgiu a oportunidade de morar em São Paulo (capital). A Karine já tinha morado em São Paulo por um tempo, sabia como a cidade funcionava, a alta opção de cursos, abrangência para novas áreas e também a concorrência muito maior de artistas chegando de todos os lugares, mas lá em Piracicaba não via mais a carreira andar no momento em que estava… e a Marcella topou o desafio. Juntas, com o incentivo de uma amiga, realizaram a mudança. Logo no começo da pandemia encontraram a casa que moram agora, um lar maravilhoso e que foi se completando com o jeito delas em cada cantinho. Foi lá que gravaram a websérie, é lá que possuem as melhores (e piores!) ideias para as próximas produções e brincam que a casa é uma grande geradora de ideias. Elas se veem como parceiras. São muito amigas e sobretudo essa companhia se torna uma âncora. Sentem amor pela companhia. Além do amor que compartilham pela arte em si e por tudo o que são envolvidas, existe o amor que sentem por estarem juntas. A arte é um refúgio e a relação delas é uma parceria. Em casa adoram assistir Simpsons, Friends, cozinhar e durante o preparo da comida fazer pausas para dançar… Também trocam momentos de criação pintando telas, criando plaquinhas e decorações para a casa, amando os filhos de quatro patas e cuidando das plantas na varanda. Não só juntas, elas também falam da importância dos momentos de solidão. De reflexão e estudo - tanto de livros quanto de estudar a si mesmo. Para a Karine, o amor veio num entendimento sobre quem ela é e isso levou muito tempo, porque ser uma mulher lésbica artista já é um processo de autoconhecimento imenso para sair de muitos padrões e “caixinhas” que nos são colocadas. “Estar livre disso e aberta para que alguém possa te olhar e te amar é um dos passos mais importantes”. Então amar a si mesma e amar a Marcella foi um processo que aconteceu de forma natural (não fácil, claro), mas na dor ou na felicidade, foi acontecendo diariamente. Essa relação de autoconhecimento reflete na Marcella através do respeito a si própria, pois ela conta que antes ela não se via com tanto respeito - hoje ela aceita que adora dançar, por exemplo, e dança! Ela respeita quem é e respeita quem a Karine é. E isso é um dos maiores aprendizados que tira da relação. No fim da nossa conversa tiramos um outro aprendizado, sobre a expressão artística em si no que envolve esse amor além do preço que colocamos nas coisas, pelo puro sentimento de quem somos e do que gostamos/amamos fazer. A Karine dá o exemplo de que uma vendedora pode continuar sendo vendedora e cantar super bem, ou um motorista de ônibus pode ser o melhor motorista e mesmo assim um ótimo pintor… a arte deveria ser vista enquanto uma conscientização social sobre a importância de fazer arte, da expressão artística, do quão essencial para o ser humano ela é - para isso, enfim, gerar coisas boas para o nosso redor enquanto sociedade. E viver essa arte, para fora do capitalismo (ou seja, você não precisar vendê-la para ganhar dinheiro/nem tudo o que você tocar precisa virar ouro) é o que elas gostariam de ver sendo refletido por aí. Marcella Karine
- Bianca e Ellen
Encontrei a Ellen e a Bianca num bar em Curitiba - PR, num dia chuvoso de domingo. Neste bar são frequentadoras assíduas, já que adoram estar lá com os amigos e também enxergam o local enquanto um espaço de resistência da esquerda, de diversas culturas que se misturam e do público LGBTQIA+. Durante a nossa conversa, contam sobre a história do local (que passou por diversos donos), a expansão depois da pandemia e compartilham momentos que já estiveram lá com muitos amigos, se divertindo e bebendo uma cachaça única, produzida em Paranaguá, na região litorânea do estado. É nesse bar que elas se sentem confortáveis, são bem recebidas e bem tratadas. Citam também que viver em Curitiba no momento de eleição não estava sendo fácil, havia muito medo de pessoas radicais que possuem posse de armas, assim como as festas e espaços da esquerda acabavam estando sempre alertas, redobrando a segurança, mas que isso para elas ressalta o quanto precisamos ocupar ainda mais os espaços e as ruas. Ellen, no momento da documentação, estava com 29 anos. Ela é pedagoga e trabalha no interior do estado dando formação continuada (para diversas séries com idades diferentes). Bianca, no momento da documentação, estava com 27 anos e trabalha sendo psicóloga, mas nos momentos livres gosta de praticar esportes e crossfit. Além de frequentar o espaço que fizemos as fotos, elas contam o quanto adoram sair, viver a vida boêmia e também receber amigos em casa - sempre prezam pelas socializações com quem amam. O relacionamento delas vem durando cinco anos, mas se conhecem desde quando a Ellen passou no vestibular, entrou na faculdade e começou a se interessar por política. Naquela época, passou a fazer parte de um coletivo estudantil e encontrou a Bianca numa viagem ao Congresso da UNE, no Rio de Janeiro. Ellen nunca tinha namorado uma mulher, apenas beijado em algumas situações, mas de cara se apaixonou pela Bianca. A Bianca estava namorando naquela época, então a Ellen não demonstrou nenhum interesse. Com o passar do tempo, já em 2017, a Bianca terminou o relacionamento e a Ellen ficou sabendo - só que dessa vez, quem namorava era ela, mas como o relacionamento era aberto decidiu chamar a Bianca para sair. Bianca brinca que foi um chamado bem direto, através do Instagram, porque elas não eram amigas ao ponto de manter conversas e não fazia a menor ideia do interesse da Ellen, mas chegou a mensagem inbox e topou o encontro. A Ellen, por sua vez, conta que o interesse era gigantesco e não sabe como isso não estava explícito, porque encontrava a Bianca nos lugares e acompanhava ela nas redes sociais. No primeiro encontro, Bianca estava ainda muito triste pelo término do antigo relacionamento. Elas se encontraram, saíram, continuaram saindo por um mês e não se envolveram fisicamente. Foi no último dia de aula da Ellen, quando ela estava bebendo uma bebida de qualidade duvidosa depois da aula, que ficou com a Bianca e entendeu que gostava dela e não queria mais seguir o relacionamento aberto que vivia. Depois do primeiro beijo e do processo de término da Ellen, continuaram se encontrando o tempo todo. Era dezembro e elas passaram o ano novo juntas, quando depois, em 2018, a Ellen pediu a Bianca em namoro depois de assistirem um show da AnaVitória. Nesse período em que estão juntas, já passaram por muitos altos e baixos. Comentam que possuem uma comunicação “de centavos” e que nem fazendo vários cursos acreditam que melhorariam. Entendendo que nem sempre conseguem comunicar o que sentem, prezam por entender qual é o lugar de cada uma dentro da relação, tentando sempre deixar a escuta ativa e pensando nos meios termos que agradem ambas. Desde 2018 a Ellen já morava sozinha e, depois de um tempo, a Bianca decidiu sair da casa dos avós, foi quando decidiram morar juntas. Visitaram um apartamento e alugaram, do qual apelidaram de “batcaverna”, depois disso, adotaram dois gatos, resgatados em ONGs. Bianca fala sobre a pressão que envolve se relacionar no mundo e no sistema que vivemos hoje. Se espera muito da produtividade, até mesmo nas relações humanas, então tenta enxergar o amor na contramão: como um ato de cuidar e ser cuidado, se permitir estar vulnerável, sem hierarquia, amando outra mulher. Por fim, ainda não é fácil lidar em como a sociedade trata esse amor de forma diferente: desde tentarem sempre ver a Bianca como “o homem da relação” provando um vinho num jantar, pagando a conta ou em diversos outros momentos, até o quanto gostariam de educar a sociedade para que fossem lidas mais natural possível. Ellen fala sobre a importância da educação enquanto uma questão social: a importância de passar conhecimento, educar e ouvir as pessoas, inclusive a população mais jovem, e tratar os espaços educativos enquanto também espaços de acolhimento. ↓ rolar para baixo ↓ Bianca Ellen
- Anik e Isabelle | Documentadas
Amor de Desaguar - Anik e Isabelle clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Victória e Gabriela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Vick e da Gabi, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Durante o período em que se relacionaram à distância, faziam muitos planos sobre morar mais próximas. A Gabi chegou a tentar vestibular para Porto Alegre e a Vick queria muito vir para o Rio. Depois de formada, conseguiu passar para o mestrado na Fiocruz e a mudança finalmente aconteceu algumas semanas antes da pandemia. Passaram a quarentena juntinhas. Nessa história, a praia significa o lugar onde se conheceram, onde puderam ficar à vontade, onde fez a Vick tanto amar o Rio… é o lugar delas. Amam amar a praia, amar as coisas que fazem parte das suas histórias. Acreditam que o amor foi o que moveu tudo, o sentimento que transbordou. Além da praia, amam pular carnaval, cozinhar coisas do zero - fazer massas, cada detalhe de todas as receitas e depois beber com um bom vinho barato. Um tempo depois, por estarem juntas no Rio, a mãe da Gabi percebeu e não aceitou. Foi um momento bem conturbado, a Victória tinha muito medo de voltar a viajar e acabar só piorando a relação familiar da Gabi… e a Gabi pensava que talvez fosse melhor não estarem juntas porque seria ruim para a Vick ter que lidar com isso. Mas depois, quando conversaram, decidiram passar por isso juntas, enfrentando cada desafio lado a lado. A Victória tem 23 anos, é mestranda em epidemiologia e saúde pública e formada em veterinária. Gosta de fazer de tudo um pouco, bordar, pintar, tocar saxofone… se inspira muito na sua mãe, que é doutora em engenharia. Gabriela tem 26 anos, estuda biblioteconomia, adora design e tem a família toda envolvida em profissões aéreas, então fez curso de comissária de bordo e gosta muito de temas voltados à aviação. Gabi se inspira e se referencia muito na tia dela, que foi a primeira pessoa para quem contou sobre a sexualidade. Depois que a mãe da Gabi descobriu, elas passaram alguns meses sem conseguir se encontrar, era muito difícil ir para Porto Alegre e acabava indo só no seu aniversário, pois pedia a passagem de presente. Chegou a passar mais de dois anos sem ter muito convívio com a mãe. Há pouco tempo atrás as coisas foram mudando, quando a Vick já estava muito mais próxima, e foi convidada a jantar na casa delas. Passaram todo o verão juntas e até decidiram estender um pouco a viagem, pois entenderam que um sentimento estava sendo criado. Resolveram passar seus aniversários juntas: o da Vick, em março (do qual a Gabi iria para Porto Alegre) e o da Gabi em julho (do qual a Vick iria para o Rio de Janeiro). Acabou que cumpriram o acordo, a Gabi chegou em Porto Alegre no mês de março e foi ótimo. Já em julho, a Vick ficou um pouco insegura de ir. Elas não estavam conseguindo manter tanto contato de forma online e faltava pouco para a data, mas deu tudo certo! Ela chegou no Rio, passou dias turistando, conhecendo as praias e se sentiu apaixonada.... pelo Rio de Janeiro e pela Gabriela. Passaram todo o restante do ano conversando bastante de forma online e conseguiram se encontrar em outubro. Decidiram, aos poucos, sustentar esse relacionamento à distância. No verão de 2016, tudo já foi diferente, ao invés da Gabi ficar na casa dela, resolveu passar todo o tempo hospedada na casa da Victória. Passaram o início do carnaval juntas na Praia da Ferrugem e o fim do carnaval no Rio. Ambas queriam muito declarar o amor uma para a outra, mas estavam com medo de acabar estragando tudo, pelo fato da distância. Uma desconhecida, em meio ao carnaval, ajudou a declaração acontecer… e foi aí que elas verbalizaram o amor que sentiam. Essa história de amor mostra que o sonho de muitos relacionamentos à distância podem dar certo! Victória e Gabriela se conheceram durante um verão em Garopaba, interior de Santa Catarina, a Vick é da região metropolitana de Porto Alegre, mais especificamente, de Viamão. A Gabi é do Rio de Janeiro. A maior coincidência dessa história é que elas são vizinhas em Garopaba desde que nasceram, possuem os mesmos amigos, mas veraneiam com uma semana de diferença, então nunca se encontraram. Em 2014 a Gabi resolveu ficar mais um tempo em Garopaba e então acabaram se conhecendo. Logo de cara ela sentiu interesse pela Vick e meio que todos os amigos ficaram na expectativa do beijo, o que gerou certa pressão também. No segundo dia, elas se encontraram junto com os amigos para beber e ficaram, mas no dia seguinte a Gabi acabou voltando para o Rio e passaram todo o inverno sem se ver ou conversar. Em 2015 estavam lá novamente e dessa vez a Gabi decidiu ir na mesma semana que a Victória estaria. Elas se encontraram com os amigos, foram para um bar e depois de um tempo acabaram se beijando novamente - e brincam: “aí não nos desgrudamos mais”. < Victória Gabi
- Amanda e Thais
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Amanda e Thais, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Amanda e a Thais se conheceram através do mais famoso e conhecido aplicativo de relacionamentos dessas bandas, o Tinder. Elas já estavam meio “saturadas” de navegar por lá, confessaram, a Thaís nem tinha mais instalado no celular, só entrava na versão web e a Amanda não tinha muita paciência com quem demorava para responder… Elas brincam que nem entendem como deu certo. No começo, a Thais demorou três dias para responder… mas quando respondeu, foi logo com um textão, e aí a conversa engajou. Tudo fluiu e resolveram se encontrar, foram num bar de jazz no centro do Rio de Janeiro, depois num shopping na Barra da Tijuca, até que chegaram, no terceiro encontro, ao local preferido delas (e também escolhido para fazermos as fotos): A Lagoa Rodrigo de Freitas. Escolheram lá porque é uma localização entre as duas moradias, e assim, soa mais justo para ambas. A Amanda nunca tinha ido e adorou. Lá era mais fresquinho (dialogando com o calor carioca), levaram um vinho e se estenderam noite adentro. Como na época - e nos encontros que se sucederam - elas ainda não namoravam, moravam com os familiares e as famílias não sabiam, os encontros acabavam sendo sempre na lagoa. A Thais brinca que conheceu a mãe da Amanda por obra de um destino chuvoso, uma tempestade que deixou as duas presas no trânsito sem conseguir voltar para casa, fazendo com que a mãe precisasse ir buscar, mas que nada daquilo era planejado e ela ficou super nervosa, mas que hoje em dia ambas famílias se dão bem e gostam muito umas das outras. Amanda tem 25 anos, é formada em Letras e faz Mestrado em Literatura, com ênfase nos estudos das obras de Clarice Lispector. Ela também dá aula de redação em um projeto social, o NÓS. Além das suas profissões, adora escrever, ama observar e viver a escrita em si. Ela também adora tocar violão, teclado e gaita. Sua família é muito musical, o maior programa da casa é cantar e tocar nas horas livres. Thaís tem 28 anos, faz faculdade de Medicina na UFRJ e está no período de Internato. Perguntei como ela se viu vivendo a pandemia na faculdade de medicina, afinal, é um desafio e tanto. Ela comenta o quanto era assustador no início, mas que por ainda não ter começado o internato, não estava na linha de frente no momento mais intenso da pandemia de Covid-19. Passou muito tempo em casa, estudando à distância e sem contato com pacientes, então tudo era muito diferente, muito distante da prática. Agora, mesmo com a vacina, mas com a nova onda da variante Ômicron, conseguiu ter uma prática mais ativa, o que também gerou diversas sensações, como o medo de passar para a família e para as pessoas que ama, além do contato mais direto com as dificuldades do cotidiano na área da saúde. Tudo vira aprendizado, algo que por mais que não imaginavam viver no início da graduação, muda muitas perspectivas sobre a prática da medicina e desenvolve também uma forma de lidar diferente com as pessoas na hora do atendimento e de qualquer contato, enquanto ser humano, não só ao se fazer uma consulta. Por mais que elas já namoram há algum tempo (e inclusive comemoram todas as datas, desde o dia do match, até o dia do primeiro date e o dia do namoro em si!), passaram por diversas fases até chegar ao equilíbrio que possuem hoje. A Amanda, por exemplo, sempre foi uma pessoa mais fechada, ou melhor, elas contam o quanto são opostas nisso: a Thais é mais de estar junto, se abrir, dialogar sobre o que sente, conversar na hora… Enquanto a Amanda se isolava, sentia dificuldades em se abrir. E isso, de certa forma, acentuava-se porque as famílias também são muito diferentes - a família da Thaís já deixava ela mais distante, enquanto ela queria mais carinho, e a da Amanda “saturava” nessa presença, sendo que ela queria ficar no seu próprio canto. Foi difícil entender o passo, o ritmo. Hoje em dia, depois de muitos processos, de calma e de se compreender/entender o que falta uma na outra, elas conseguem estar mais próximas e permitir a dinâmica funcionar. A Amanda conta que sempre lidou sozinha com os seus problemas e agora, com a Thais, entendeu que pode ser diferente. Foi difícil ela desaprender a estar sozinha, mas entendeu que é bom também, que é bom ter alguém. A Thaís percebe algumas movimentações nesses ciclos, por exemplo: Na semana anterior à que nos encontramos, a Amanda passou por uma situação difícil e pediu para que a Thais fosse até a casa dela - isso não aconteceria anteriormente, porque ela sempre passava por tudo sozinha, dessa vez pediu ajuda, um passo incrivelmente grande, que elas comemoram juntas. E a Amanda complementa dizendo que foi muito melhor com a companhia da Thais. Ainda que tenha sido uma situação chata/complicada/difícil, foi melhor com a companhia porque fez tudo ser mais fácil de ser ultrapassado. Nesses momentos, elas entendem que experimentar novas potências, ou melhor, aumentar as potências que já existem em nós, é também um ato de amor. Acolher é amar, mas também dar bronca para melhorar é amar. Amar é muito difícil. E falando isso elas lembram de uma amiga que disse “Eu acho incrível porque quando vocês brigam, vocês mudam!”, a transformação do amor é por não ficarem estagnadas, se permitem a mudança, ao incômodo de mudar para melhorar. Dentre a parceria que elas possuem existe muito companheirismo, como uma conexão grande e íntima, a compreensão em forma de cuidado: uma via de mão dupla, amar e ser amada. Amanda apresentou o samba para a Thais e em troca teve o Pink Floyd. Apresentou a cerveja em troca do vinho. Thais completa, dizendo o quanto isso liga as duas e o quanto mudou ela (a música em si). Antes ela era do rock e hoje em dia é super samba - a mãe dela nem acredita. Elas também vivem juntas na cozinha, amam cozinhar, são vegetarianas/veganas, fazem diversas receitas juntas e é o momento delas, de se curtir, ouvindo música e tendo algo muito voltado ao afeto. Falamos o quanto o veganismo traz um olhar de afeto na preparação do que fazemos e a Amanda conta o quanto descobriu o afeto na cozinha por meio dessas receitas só pelo relacionamento que tem com a Thais, antes, nunca tinha se aventurado no ato de cozinhar. No começo do relacionamento a Amanda descobriu ser intolerante à lactose, e por a Thais ser vegana, ela auxiliou muito no processo e na ressignificação dos alimentos. Trouxe queijos veganos, novos sabores a serem descobertos, foi uma cozinha com afeto muito compartilhada. Elas falaram diversas vezes que amor é transformar e o amor está nessas trocas de transformação, também. No jeito que se acrescentaram e se compartilharam na descoberta de mudanças, ressignificações e coisas boas no dia a dia. Thais Amanda
- Luiza e Mariah
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luiza e Mariah, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Luiza Mariah
