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Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

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  • Isadora e Isabelle

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isadora e da Isabela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A história da Isabelle e da Isadora parte de um ponto que elas fazem questão de justificar: não contam algo que já passaram, uma dificuldade já vivida, mas algo que estão vivendo - o processo intenso. Isa e Dora namoram há um tempo e travam uma luta para que as famílias as aceitem. Isa já era assumida à família desde 2017, mas viveu vários processos dos quais nunca foi completamente aceita. Ela conheceu a Dora durante a pandemia, depois de viver diversos momentos dos quais se obrigou a ficar com homens por aquela ideia de “Você só não conheceu o cara certo” e hoje em dia sente que a Dora é uma das coisas mais importantes e verdadeiras da sua vida. Isa faz questão de levar a Dora nas festas de família, contou para a mãe sobre a Dora logo no começo, quando a paixão estava se iniciando. A mãe respondeu com um imaginário popular tradicional da ‘família brasileira’: “Ela é lésbica? Tem cabelo verde?” porque insiste que, se a filha beija mulheres, precisa beijar apenas mulheres femininas. Já passou por várias fases, como aquela de tudo bem ela ser - desde que seja em silêncio, ou também a de que a família sente culpa como se tivesse errado em algo na criação, ou que só faz isso porque passa por algum processo depressivo e quer se culpar. Diante de muitos preconceitos vindos por ambas famílias, elas se firmam para o enfrentamento disso. Acreditam que o relacionamento que possuem é como um investimento, desejam isso para suas vidas. Isa, ao estudar física e já estar no mestrado, conta que sempre quis descobrir uma equação que mostrasse o sentido de tudo (do universo e de estarmos aqui), e no dia em que encontrou a Dora pela primeira vez entendeu. Hoje, diz que nenhuma fórmula matemática iria explicar o que ela estava sentindo ao ter a resposta do que procurava. Isa e Dora se conheceram por um aplicativo de relacionamentos. Naquela época, Dora baixou o Tinder para não se sentir sozinha, mesmo sem querer relacionamentos. Por conta de ter uma mãe bastante conservadora, não costuma sair muito, então conversar com alguém online seria a solução. Logo no primeiro instante de Tinder, encontrou a Isabelle. Foi um dia bem confuso por conta de mudanças na casa dela, mas conversaram e foram se aproximando. Mesmo morando próximas, numa área mais distante no Rio de Janeiro, elas não podiam se encontrar porque ambas famílias não aceitavam suas formas de ser, então marcaram um encontro em um museu, no centro da cidade. Passaram uma tarde incrível, contam o quanto já estavam apaixonadas. Voltaram para suas casas e no dia seguinte se encontraram de novo, dessa vez em Madureira, o local em que a Dora fazia um curso. Brincam que são bastante emocionadas, porque depois do primeiro encontro, não se desgrudaram. Como a Isa vivia um momento de tentar se envolver com homens antes de conhecer a Dora (do qual a família aplaudia) e a Dora não podia se assumir, começaram o relacionamento de forma escondida. Logo depois, Isa decidiu contar para a sua mãe, que acabou aceitando melhor a Dora por ela ser uma mulher feminina. Conta que sempre ouviu da mãe dela que ela precisava ser uma lésbica feminina, se quisesse beijar mulheres, e se relacionar com uma lésbica feminina também. Foi muito duro ouvir isso durante tanto tempo - e também levar a Dora pela primeira vez em casa, mas conta que hoje em dia a mãe dela acha que a Dora tem uma alegria, uma felicidade, e por isso ela foi a primeira mulher que a família mais ou menos aceitou e abraçou. Isa ressaltou o quanto é ruim você estar fazendo algo escondido por puro preconceito dos outros. É como se você estivesse fazendo algo errado, sendo invalidado. E não que a família precise validar, mas porque amamos nossas famílias e gostariamos de ser nós mesmas na frente de todos. Mesmo com os comentários horríveis, depois que assumiram o relacionamento na família da Isa ela passou a fazer questão de levar a Dora em todos os encontros. Acredita que só assim conseguem encarar: estando juntas. Aos poucos isso tem dado certo, já que a família vai aceitando e considerando a existência da Dora nos espaços. A vivência na casa da Isa também não é nenhum pouco fácil para a Dora. Por ser uma mulher muito tímida, acaba se sentindo num campo minado - cada passo que dá é analisado por alguém. Ela já tomou diversas iniciativas para dominar a timidez (falar em público, participar de concursos de dança, ser professora…) e na casa da família da Isa acaba se vendo muito posturada, tomando cuidado no que fala. Contam que não podem falar da religião da Dora, sendo de umbanda, na casa da Isa composta por pessoas muito católicas. Também contam que uma familiar se negava a cumprimentar e falar com a Dora, mas hoje em dia de tanto ela estar presente já a abraça e conversa. A Dora, por sua vez, vive um processo de sair do armário desde a adolescência. Ela sempre soube que gosta de mulheres - e no começo foi até difícil aceitar a si própria - mas ainda no ensino médio ficou com as primeiras mulheres e entendeu a sua forma de ser. Naquela época, sua mãe descobriu lendo mensagens no celular dela. De início ela tentou lutar, demarcando quem ela era, mas foi vencida pela mãe que cortou todos os seus meios de comunicação e não conseguiu sustentar. Passou anos ouvindo piadas e sendo limitada em diversos aspectos. Até ela se assumir de fato, recentemente, foi uma luta. Passou por psicólogas que eram evangélicas e contra LGBTs, levava as pessoas para casa alegando que eram só amigas, e não conseguia se imaginar falando sobre o relacionamento que possui com a Isa. Foi numa das idas da Isa até a sua casa que a Isa acabou ficando sozinha num cômodo e a mãe da Dora começou a interrogá-la. Vendo sua nítida ansiedade e nervosismo, seguiu a interrogação até que a Isa começasse a chorar. Então, a cada pergunta sobre a intimidade das duas e o silêncio da Isa, ela dizia: “Pergunta respondida.” Quando a Dora chegou, a mãe falou que já sabia tudo sobre elas. Foram momentos muito difíceis, enfrentaram xingamentos, brigas e medos, mas a Dora assumiu e falou: “Estou com a Isabelle”. Até hoje os pais da Dora odeiam a Isa e não permitem mencionar o nome dela na sua casa. Entendem que uma família só pode ser composta por um homem e uma mulher e, por isso, não aceitam e respeitam o que a Dora é. Dora acaba encarando sua mãe dizendo que pode ser expulsa de casa, mas não vai abrir mão do relacionamento. Hoje em dia a relação delas têm melhorado por uma certa teimosia da Dora em fazer dar certo - sai para encontrar a Isa e não dá valor ao preconceito que sofre. A maior dor, para a Dora, é não ver sua família reunida. Sempre cresceu em espaços com muita gente, churrasco e pagode. Queria muito ter uma família com a Isa presente - e também construir uma nova família com ela, mas por enquanto, morando com os pais, não vê possibilidade disso. Ela e a Isa pretendem morar juntas assim que ela for efetivada e tiverem mais estabilidade financeira, então guardam cada centavo (literalmente!) para a nova vida que há de chegar. Isabelle tem 23 anos no momento da documentação, é natural do Rio de Janeiro e cursa mestrado em inteligência artificial. Dora tem 22 anos no momento da documentação, também é natural do Rio de Janeiro e cursa arquitetura. Juntas, adoram ver filmes e provar fast foods - brincam inclusive que estão se tornando sommelier de fast food, porque compram, comem e dão notas. Também adoram filmes cults (e filmes cults ruins), passam o tempo jogando jogos no computador e amam conhecer novos lugares na companhia uma da outra. Hoje em dia, estão noivas e enxergam o noivado enquanto uma firmeza sobre quem são. Também é um álibi para que a família leve-as mais à sério e se sentem tratadas de forma muito mais respeitosa depois que assumiram o noivado. Isa entende que o amor é a única coisa que transcende o tempo e o espaço além da gravidade. E que, para além disso, o que têm com a Dora é um amor baseado em comunhão e disposição. Dora diz que o amor que sente é a resposta de todos os porquês. Entende que todo ser vivo é feito para amar alguma coisa - seja um leão com seus filhotes, um ser humano com seu par. Amar é seu refúgio, é onde vai quando está bem ou mal, e que também está no que sente de forma sensorial - os cheiros, os sons e o prazer de ser quem é. Por fim, elas desejam deixar o recado de que todas as mulheres possuem o direito de amar, independente do preconceito. Nenhuma mulher está sozinha. “Não se fechem para o amor”. ↓ rolar para baixo ↓ < Isabelle Isadora

  • Priscila e Rebecca

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Priscila e Rebecca, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Perante as questões dentro de casa, elas sentem que não existem problemas entre elas - na relação em si. Os problemas são sempre sobre o cotidiano e sobre a moradia, mas elas, enquanto casal, tem uma conversa aberta e se apoiam muito juntas. Sonham com o momento em que a Rebecca vai se formar (em breve!) e que poderão deixar de fazer o DogHero, para assim poderem alugar um apartamento e viver entre suas profissões, nos hospitais e nas indústrias. Elas passaram por muito terror psicológico pelo medo de trocarem carinhos dentro de casa, por conta do preconceito. A Rebecca, durante a nossa conversa, comenta sobre a LGBTfobia e sobre como a dor fica mais forte sendo vivida dentro de casa. Mas entendem que este é um período provisório e que logo vão se estabilizar e ter seu próprio cantinho. Para a Priscila, amor é se doar. Doar tempo, doar cuidado, doar atenção. Elas comentam que isso sabem fazer muito bem: amar (e por decorrência, se doar). Se doam para ver a família bem, o relacionamento bem, a amizade entre o casal sempre cultivada e cuidada. Se tem uma coisa que gostam muito de fazer, essa coisa é conhecer novos lugares. Gostam de ir para os bares, mesmo quase não tendo feito isso em 2020 por conta da pandemia. Gostam de viajar, de ver gente. O que mais fica claro, durante toda a conversa, é o quanto o amor delas significa parceria. Tentam dividir qualquer tipo de peso juntas, não soltam as mãos nunca. A mudança da Priscila para o Rio foi muito significativa e extremamente fundamental para o relacionamento delas. Estava muito difícil manter a distância e a Pri já estava em busca de faculdade e trabalho pelo RJ, foi então que a avó e a tia da Rebecca estavam morando num apartamento da família dela e estava sobrando um quarto lá e surgiu a ideia dela fazer a mudança. Foi tudo planejado com cuidado, então a Priscila chegou na cidade já tendo emprego e estudo garantido. Porém, no meio da mudança, ainda existia um problema: ninguém da família sabia que elas namoravam. Aos poucos foi ficando mais claro, a tia da Rebecca hoje em dia adora a Priscila, e por problemas de saúde, acabaram todas se mudando daquele apartamento: foram morar na casa da Rebecca e dos pais dela. É uma casa grande, com os pais, a avó, a irmã, a tia, os bichos… e elas. Até o momento elas não possuem autonomia enquanto casal, porque mesmo que todos já saibam que elas namoram, acabam vivendo como amigas dentro de casa. Sentem falta da privacidade, de poderem trocar algum carinho. A pandemia têm sido um desafio muito grande, primeiramente pela Rebecca ser da área da saúde e estar trabalhando em hospital, depois por serem as mais jovens elas acabam fazendo tudo na rua para que os outros familiares não precisem sair. Como um todo, é desgastante e cansativo a rotina de cuidar da casa, da saúde dos parentes e dos cachorros, mas elas têm levado isso juntas. A Priscila faz de tudo para agradar a família da Rebeca e assim vai conquistando mais confiança também. Hoje em dia, mesmo a sogra tendo diversos problemas envolvendo preconceito, ela está muito mais tranquila e aceitando dia após dia a relação. Rebecca tem 26 anos e está terminando a faculdade de medicina, mas também adora mexer com design gráfico e sente muita vontade de um dia fazer um curso de fotografia. Priscila tem 28 anos, é engenheira e trabalha em uma indústria fazendo a programação da produção, mas sua paixão mesmo são ourives (trabalhar com ouro) e sonha em fazer engenharia de minas. Elas amam animais, principalmente cachorros. Além da Agnes, sua petfilha, existem diversos outros cachorros na casa da mãe da Rebecca, local em que elas moram. Acabam atuando enquanto DogHero também, por garantir uma renda extra e aumentar o amor pelos bichanos. A Agnes foi adotada e chegou como um presente da Priscila para a Rebecca, ela é totalmente companheira das duas, não deixa elas sozinhas, ama igualmente. É uma relação de muito carinho. A Agnes ama a praia - e foi esse um dos motivos por termos escolhido este local para nos encontrarmos. Mas, além disso, a praia significa liberdade para elas. É o local que elas costumam ir muito, foi palco do pedido de namoro, o lugar onde abraçam e beijam sem medo e sem vergonha. É onde passam o dia felizes. A Priscila sentia muito receio de se envolver com alguém… e foi vindo para o Rio durante alguns meses quando percebeu que seu sentimento estava se fortalecendo, causando um grande medo (leia-se, desespero) por não querer se envolver num relacionamento. Quando a ficha caiu já era um pouco tarde, pois estavam, com todas as amigas, embarcando em uma viagem para a serra. A única reação da Pri nessa viagem foi se afastar brutalmente da Rebecca... falava pouco, ficava longe, se fechava de tudo. E aí, mais uma vez, entra quem? Natasha. Natasha conversou com a Priscila durante um bom tempo, incentivando uma nova chance para a Rebecca, falando sobre o quanto ela era uma pessoa legal e o quanto elas mereciam ser felizes juntas. Ela resolveu dar essa chance, mas o começo foi muito turbulento, porque toda vez em que a ficha caia, ela automaticamente tentava se afastar. Lidava com bastante medo. Até que a Rebecca colocou um basta por não querer mais viver esse “efeito sanfona” e disse que elas deveriam conversar abertamente cada vez que isso acontecesse para que assim pudessem encontrar o melhor caminho juntas. Foi no ano novo, alguns meses depois, que rolou o pedido de namoro. De 2016 para 2017, em meio ao réveillon na praia, a Rebecca fez o pedido. A Pri aceitou, foi lindo. Mas todo bom ano novo começa com uma boa história, e nesse caso, a Priscila ficou tão bêbada ao ponto de esquecer do pedido. No dia seguinte soube porque a Rebecca contou, rindo muito. Se vocês acreditarem que existe algum cupido por trás de cada amor, com toda a certeza, nessa história, o cupido se chama Natasha. Natasha é prima da Rebecca e foi a grande incentivadora da formação desse casal. Para vocês entenderem melhor como isso tudo começou, a Priscila morava no Espírito Santo e a Rebecca no Rio de Janeiro. A Pri era amiga da Natasha, se conheceram através de um grupo online. Em 2012 a amizade se desenvolveu e em 2014 resolveram ir juntas para alguns shows que teriam no Rio. Foi aí que a Natasha apresentou a Pri e a Rebecca, mas de cara elas não se deram bem, ou melhor, nem se olharam direito. Com as vindas da Priscila para o Rio se tornando mais frequentes, a Natasha praticamente obrigou as duas a conviverem, então elas passaram a fazer parte do mesmo grupo. Viagem vem, viagem vai. E aí te pergunto, elas passaram a ser amigas? Claro que não. A Natasha fazia de tudo para juntá-las, mas elas ainda interagiam pouco e não se davam muito bem. Como elas acabaram juntas? te respondo aqui. Elas estavam em uma viagem e as amigas insistiam para que ficassem com duas meninas aleatórias, mas elas não estavam afim, então, dos males o menor: vamos ficar entre nós para não termos que beijar as meninas - porque mesmo não indo com a cara, ao menos a gente se conhece. E foi desse jeito que passaram toda a viagem sendo um casal. Foi como uma válvula de escape, mas contam que a Natasha, se pudesse, teria soltado fogos. Esse começo é muito engraçado e desajeitado, mas foi a partir daí que a Priscila começou a vir aos poucos do Espírito Santo para o Rio, fazendo viagens estilo bate-e-volta no fim de semana para ver a Rebecca. Rebecca Priscila

  • Karine e Clara

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Karina e da Clara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Clara e Karine são muito amigas, conversam sobre tudo. Hoje em dia entendem o que passaram e respeitam o papel importante que isso teve na história delas. São muito parceiras e, mesmo de um jeito tímido, transmitem muito afeto. Sentem que o amor entre mulheres significa resistência. Elas amam ir para o parque de Madureira, para o cinema, para lugares com natureza e olhar para horizonte enquanto conversam. Quando perguntei qual modelo de cidade elas gostariam de viver, disseram que sonham em poder andar na rua sem medo, sem comentários ruins - “que a gente pudesse ser livre de verdade”. A Karine tem 26 anos, é formada em administração e hoje em dia trabalha com contabilidade. Ela sempre foi uma daquelas pessoas únicas que encantam todo mundo, sabe? daquelas que são amadas por todos. E a Clara tem 24 anos, é professora de geografia e além de sala de aula convencional, atua no Emancipa - um curso popular. Está bastante envolvida na militância e disse que isso não é um hobbie, mas um papel que ela cumpre enquanto educadora. Elas se inspiram muito na história da Marielle e da Mônica Benício. Não só pela figura que a Marielle representa (sempre com cuidado e respeitando o verdadeiro significado que ela tem), mas também pela coragem da Mônica - elas citam que pensam muito na bravura e em tudo o que ela faz para conseguir ocupar o espaço que ocupa agora. Antes de terminarmos a conversa, me falaram uma das coisas que mais soou na minha cabeça nos dias seguintes: “A gente não tá fazendo nada de errado. A gente tá amando.” a palavra está com elas Karine: Eu nunca imaginei que me descobriria como uma mulher lésbica. A vida foi me dando várias dicas que foram sendo ignoradas pela falta de conhecimento e também por conta da invisibilidade que envolve o amor entre mulheres. Não ser hetero não é uma coisa que é ensinada para gente como uma possibilidade, mas eu me permiti viver, me permiti seguir o que eu estava sentindo. Me joguei de cabeça com muito medo de todo preconceito e julgamento, tanto pelas amizades que eu tinha quanto pela minha família, mas fui me aceitando do jeito que sou, acreditando no que eu sentia pela Maria Clara e no que ela sentia por mim. Se permita ser feliz, se permita viver a vida do jeito que você quer viver, nem sempre vai ser fácil, mas eu tenho certeza que pra tudo existe um jeito, uma outra perspectiva, tudo vai acontecendo até chegar no ponto em que dá certo. Com luta e persistência iremos conseguir uma sociedade sem preconceito e cheia de amor. Clara: O que posso afirmar é: se permita a viver o amor. Crescemos em uma sociedade que nos impõe sentimentos como culpa ou vergonha por qualquer ação que expresse a liberdade de nós mulheres. E isso é refletido na nossa capacidade de amar também. O amor é uma escolha diária e quando você escolhe amar outra mulher você se liberta. Sinto na alma o quanto é desafiador amar alguém e correr o risco de ser agredida ou morta apenas por ser quem eu sou, mas luto pela liberdade de ser uma mulher lésbica que apenas deseja amar sua companheira e ter uma casa com dois gatinhos. Foi depois de um tempo e respeitando o espaço de cada uma que começaram a aceitar a paixão que estava acontecendo entre elas. Porém, quanto mais se assumiram juntas, mais problemas no trabalho aconteceram. Como a Karine trabalhava na loja há anos, o baque foi mais forte - todas as colegas passaram a olhar para ela de forma diferente, fazer comentários ruins sobre a Clara, excluírem elas de conversas. O problema não era namorar alguém do trabalho, mas sim duas mulheres estarem namorando. A Clara era vista como a “sapatão destruidora de lares”, como se estivesse desvirtuando a Karine (que nesse meio tempo também estava passando pela aceitação própria). Toda essa pressão gerou diversas crises e problemas de saúde nelas (enxaqueca forte e ansiedade, por exemplo). Isso tudo tem nome e esse nome precisa ser dado: assédio moral no trabalho. Foi aí que surgiu a Praça Nossa Senhora da Paz, o lugar em que tiramos as fotos. Ao mesmo tempo que era muito difícil aguentar o trabalho oito horas por dia, era na praça que o fortalecimento delas surgia. Todo dia, no fim da tarde, elas sentavam e conversavam, descansavam, se cuidavam. Mesmo com a dor, a memória afetiva pela praça ressignificou tudo. O começo do namoro foi o mais difícil, mas foi nesse momento em que entenderam que juntas dividiriam o peso e passariam por isso. O mais difícil em toda a situação que viveram no trabalho foi o fato de sofrerem homofobia através de outras mulheres. Todas nós sabemos que somos hipersexualizadas por homens diariamente, que já sofremos muito na rua… mas sofrer isso num grupo de mulheres que tinham acesso à informação e que eram jovens, foi muito difícil. Eram nas saídas do trabalho que percebiam que podiam estar gostando uma da outra, pois chegavam no metrô, se despediam e ficavam uma de frente para outra em lados opostos da estação (sentido zona sul > sentido zona norte), por um bom tempo se olhando. O beijo, ou melhor, “o melhor beijo da minha vida”, segundo elas, foi numa dessas idas à casa da Karine. Dessa vez assistiram um filme grudadas e na hora de dormir, quando as colegas não estavam mais por perto, aconteceu. No dia seguinte, Clara tomou uma decisão ruim: ter uma DR (discutir a recém relação) porque não estava entendendo o que tinha acontecido. A Karine estava lidando como se tudo tivesse sido um sonho (ou um surto?) e não quis conversar, não conseguiu agir bem. Hoje em dia entende que ela só estava nervosa e que não conseguiu dizer ou demonstrar o que sentia, foi tudo muito repentino, era um misto de sentimentos e precisava se entender primeiro. Clara se sentiu muito frágil e triste. Então, foram embora e a cena do metrô foi diferente: ela entrou, o metrô fechou e pelo vidro olhou Karine do outro lado, até que ele se locomovesse. E aí, pra fechar essa baita cena de cinema, veio o quê? o play no Medo Bobo no fone de ouvido (e a lágrima querendo escorrer). Você já ouviu Medo Bobo, da Maiara e Maraisa? Então solta o play para ler essa história com uma trilha sonora digna. Ok, agora sim. Podemos começar. . . “Eu não queria encostar meu corpo no da Karine porque tinha medo dela sentir meu coração, de tão forte que estava batendo” Assim, entre risadas, Clara conta como foi o primeiro beijo. Clara conheceu Karine quando começou a trabalhar em uma loja, eram colegas e a Karine era a pessoa com mais experiência, então acabou sendo sua supervisora. A loja ficava no meio de Ipanema, bairro da zona sul do Rio de Janeiro. Clara morava de um lado da cidade, Karine do outro. Suas vidas eram bem diferentes, mas ali, dentro da loja, se encontraram. Clara sempre entendeu que gostava de mulheres, mas tinha medo de falar sobre isso no trabalho. Sempre se referia a alguém como “uma pessoa”, e não “a menina que estou ficando/minha namorada”. Karine se identificava enquanto heterossexual, não tinha sentido paixões por outras mulheres, mesmo que já tivesse beijado. Quanto mais a Clara sentia que não se encaixava nos padrões das mulheres que trabalhavam na empresa, mais ela sentia algo pela Karine. Trocavam olhares e aumentava a ansiedade, porque logo pensava que seria impossível rolar alguma coisa. Se sentia algum sinal, com a Karine demonstrando mais afeto, achava logo que era coisa da sua cabeça e assim seguia num amor quase que platônico. A verdade é que não era platônico, mas recíproco. A Karine estava começando a sentir algo por ela também e começou a criar situações para que pudessem ficar juntas. Desde chamar o pessoal para ir ao cinema - detalhe: isso no início empolgou muito a Clara, até que ela se viu sentada entre a prima e a irmã da Karine e assistindo um filme de anjos (!!) e saiu frustrada… (pode rir, mas com respeito kkk) - até convidar as colegas para passar uma noite na sua casa. < Karine Maria Clara

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