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Márcia estava com 49 anos no momento da documentação. É professora dos anos iniciais, educadora e feminista. Cresceu em uma família marcada pela militância política: seu pai foi preso político durante a ditadura e essa história atravessa diretamente sua própria trajetória, conta que “foi feita” na biblioteca do presídio em Porto Alegre e que durante sua infância era a mãe quem a cuidava, por ponta do pai seguir preso. Hoje, sua militância acontece sobretudo na sala de aula, no trabalho com crianças e no poder da literatura infantil como ferramenta de transformação - desenvolve uma coleção de livros para o público infantil (mas não só, afinal, todos nós temos nossa criança ainda viva dentro da gente). Em alguns destes livros, aparece um casal formado por duas mulheres,  apostando na narrativa como forma de ampliar repertórios e contar outras histórias possíveis desde a infância. // comprem o livro dela! é muito legal! 

 

Silvana estava com 61 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre e trabalhou como professora na educação pública desde os 15 anos, trajetória que não surgiu como escolha romântica, mas como resultado de concurso público e dedicação integral. Ao longo da vida, construiu uma militância que ultrapassa a luta por direitos individuais e se ancora no desejo de transformar estruturalmente o mundo. Aposentada há dez anos da rede municipal de Porto Alegre, seguiu estudando: concluiu um mestrado em políticas sociais, com foco nas mulheres negras servidoras públicas, e atualmente cursa doutorado em educação, pesquisando educação antirracista e as relações entre raça, gênero, sexualidade e o contexto político contemporâneo.

 

O cotidiano de Márcia é atravessado tanto pelo trabalho, quanto pelo cuidado. Sua mãe, com 90 anos, mora com ela e com Sil, o que exige atenção constante e reorganiza afetos, tempos e prioridades. Nesse cenário, Silvana aparece como parceira fundamental: alguém que escuta, acolhe e incentiva. Sil é uma grande apoiadora do trabalho de Márcia, inclusive nos processos de escrita. Parte de seus livros foi escrita durante a pandemia, na casa da praia do casal, em momentos de recolhimento, silêncio e criação compartilhada. E Márcia também é uma grande apoiadora do trabalho de Sil - e de toda a sua militância.

 

Silvana é uma das fundadoras da Liga Brasileira de Lésbicas e há anos atrás percorreu o país participando da construção do movimento lésbico organizado. Mesmo após divergências políticas que a afastaram formalmente da Liga, mantém vínculos afetivos e reconhecimento da importância desse período. Hoje em dia, a vida dela com Márcia é atravessada pelos propósitos e paixões em comum: o fortalecimento e a construção cotidiana onde o amor e a política não se separam. 


 

 

 

Antes mesmo de se conhecerem - e se relacionarem - de fato, Márcia conhecia Silvana de nome e de trajetória, conta que ela sempre teve um nome famoso pela cidade e já a admirava: era professora da rede municipal, diretora de uma escola da periferia de Porto Alegre, sendo uma figura conhecida, respeitada e também marcada por sua visibilidade como mulher lésbica em um espaço público e político. Márcia desejava trabalhar nessa escola por ela ser reconhecida pelo trabalho étnico-racial e pela proposta pedagógica diferenciada, e foi em 2010, quando passaram a trabalhar juntas. A aproximação aconteceu primeiro pelo trabalho, pela gestão, pela militância cotidiana dentro da escola.

 

Foi nesse convívio que o interesse ganhou forma. Um bom tempo depois, em uma festa da escola, elas interagiram de uma forma direta e o interesse ficou claro. Márcia nunca havia se relacionado com mulheres e se sentiu atravessada, entre a curiosidade e o interesse. Decidiu dar uma chance. Na época, Sil viajava muito por conta da sua militância na LBL (Liga Brasileira de Lésbicas) e tinha a fama de ser mulherenga - e até mesmo a família da Márcia, por conta da aproximação com a militância, sabia dessa fama. Então quando souberam do namoro o choque maior não foi por conta de ser com uma mulher, mas por ser com a Sil. Logo alertaram: “Isso aí não deve durar muito tempo!”.

 

Pelo contrário, né? Foram cada vez mais se fortalecendo.


 

A curiosidade alheia sempre apareceu como uma tentativa de silenciamento. As pessoas perguntam, comentam, sugerem que não é preciso dizer, que a sexualidade é algo privado, como se nomear uma relação lésbica fosse excesso. Mas afirmar-se também é um gesto político. Enquanto a família tradicional fala de si o tempo todo, espera-se que mulheres lésbicas permaneçam discretas, invisíveis, quietas. Sejam nas mídias ou nas ruas. Por isso, dizer em voz alta que amamos não é exposição gratuita: é afirmação de existência, de amor e de escolha.

 

A vida a duas, no entanto, nunca foi romantizada. Não é um território idealizado nem isento de conflitos. São duas mulheres feministas, educadoras, que sabem que o diálogo precisa existir também dentro de casa. Discordam, revisam posições, atravessam fases difíceis (inclusive ressaltam como é necessário falar sobre a dificuldade de passar pela menopausa e pelas mudanças do corpo) e constroem diariamente uma relação possível, real e cuidadosa. 

 

Quando o casamento se tornou legalmente possível, em 2013, se casaram no mês da visibilidade lésbica, simbolizando uma união política, no local em que terminam muitos atos em Porto Alegre. Uma juíza esteve presente, amigas e amigos fizeram parte, cantaram uma música simbólica feminista e, sem vestidos brancos, de forma confortável, celebraram o amor. 

 

Nessa época, saíram do apartamento em que moravam e encontraram a casa perfeita, num condomínio. Foi neste novo lar que se sentiram realmente em casa e que a mãe de Márcia passou a fazer parte da vida - e da rotina - com cuidado e afeto. Quando conversamos sobre, entendemos que o amor entre mulheres não é apenas o amor romântico: é presença, escuta, aprendizado contínuo, vida. Mulheres são ensinadas a servir, não a amar. Quando amam outras mulheres, aprendem sozinhas. Por isso, dividir a vida, o cuidado e o afeto entre três mulheres é também reparação. É prova de que mulheres não apenas dão, elas merecem amar e ser amadas, como nessa relação familiar. 

 

No ambiente escolar houve um impacto profundo porque ao viverem a relação de forma aberta, sem recuos, provocaram deslocamentos importantes entre as colegas. Houve estranhamento, curiosidade excessiva, afastamentos, mas também libertações. Outras professoras passaram a se permitir viver quem eram, separações aconteceram, novas configurações surgiram. Silvana investiu conscientemente em uma escola plural: contratou um homem trans para a portaria, havia um casal de lésbicas na cozinha… a diversidade deixou de ser exceção para se tornar parte da estrutura. A escola virou referência. Quando Silvana saiu, para ser uma candidata na política de Porto Alegre, a mudança foi sentida, mas o que ficou foi a lembrança de como existir de forma diversa é possível. 

 

Ainda sobre a diversidade, Sil conta: “Eu sempre fiz questão que os meus alunos e alunas soubessem quem eu sou. E nunca tivemos problemas. Tinha dias que eu ia de bermuda de homem, tinha essas de surfista, com as pernas cabeludas que eu uso, de boné, e eu era diretora da escola. Sem problema nenhum. Aí chegava um vendedor, perguntava se a diretora estava. Eu respondia: “Sou eu, por quê? Vamos sentar.” Sabe? Eu acho que naturalizar faz muito bem, principalmente pras crianças, né? E pras pessoas adultas compreenderem que o problema são elas, né? E elas não gostam.”

 

Quando Sil foi disputar as candidaturas nos processos eleitorais em que viveu, Márcia apoiou muito, mas também foram momentos de aprendizados, reconhecimentos e medo. Houveram ameaças, dias em que ela não se sentia segura para ficar sozinha, necessidade de reforçar a segurança. Estar junto nesses momentos tornou-se uma escolha consciente, uma forma de proteção e de parceria. A presença pública, afinal, não era apenas dela: passou a ser das duas. 

 

Há uma consciência clara do tempo histórico que atravessaram. No início dos anos 2000, afirmar publicamente o amor e o desejo entre mulheres era um ato de confronto direto, coisa que a Silvana fazia muito com a Liga Brasileira de Lésbicas, capaz de fechar lojas, chamar a polícia e provocar ameaças físicas - seja em Porto Alegre ou em outros lugares do Brasil. Diziam em voz alta: Nós que amamos e trepamos com mulheres”. Hoje em dia pensa: “Nossa, precisávamos dizer isso?” e entende que sim, era exatamente esse ponto de incômodo que precisava existir. Foram gestos que abriram caminhos para que outras pudessem existir com um pouco mais de liberdade depois. Com o avanço dos anos, a sensação de segurança oscilou. Houve o reconhecimento profissional, depois o avanço do ódio no último (des)governo. Por isso, a militância segue sendo uma questão de sobrevivência: nenhuma história é construída sozinha. É preciso compromisso com a transformação real das estruturas que produzem desigualdade e violência. A luta segue porque a vida, a dignidade e a possibilidade de felicidade ainda dependem disso.

 Silvana 
 Márcia 
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