Fabielly estava com 26 anos no momento da documentação. Nasceu em Porto Alegre, mas cresceu em Esteio, onde vive desde criança. Estudou psicologia por um tempo, onde conheceu Tainá, mas logo percebeu que aquele curso já não conversava com o que sentia. Trabalhou em uma loja por um tempo, flertou com a possibilidade de estudar moda, testou possibilidades enquanto lidava com o peso de não saber exatamente para onde ir. O estresse da rotina intensa a afastou do trabalho, e, nesse vazio, encontrou espaço para o que sempre esteve ali: a inclinação artística. Foi assim que chegou ao design gráfico, onde finalmente começou a se reencontrar.
Tainá estava com 25 anos no momento da documentação. Nasceu em Sapucaia do Sul, cidade ao lado de Esteio, onde mora hoje em dia. Estudou psicologia e hoje em dia trabalha na clínica, atendendo exclusivamente mulheres, tanto de forma online quanto presencial, num consultório integrado ao apartamento - que foi uma das razões para a escolha do lugar onde vivem. Fora do trabalho, cultiva o corpo e o espírito: pratica Muay Thai, lê, pinta, e se aproxima cada vez mais do budismo, depois de anos se considerando ateia.
Juntas, constroem um cotidiano que mistura busca e estabilidade, sensibilidade, arte e cuidado. O que compartilham é esse desejo de fazer sentido para si mesmas, para o mundo ao redor e para a vida que dividem.
Fabi e Tai se conheceram em 2020, no estágio do programa Primeira Infância Feliz, uma iniciativa estadual, inspirada em práticas de cuidado voltadas ao desenvolvimento integral de famílias em situação de vulnerabilidade. Era um trabalho multidisciplinar que reunia psicologia, nutrição, fisioterapia, pedagogia e fonoaudiologia, que levava as estagiárias diretamente às casas das famílias. No meio da pandemia de Covid-19, com máscaras, álcool gel e as primeiras doses de vacina, Fabi e Tai, ainda que de faculdades diferentes e não sendo tão próximas, se conheceram atendendo territórios e cruzando caminhos na cidade de Esteio, região metropolitana de Porto Alegre.
Foi só em 2021, quando estavam solteiras e com uma relação mais construída por trabalharem juntas há alguns meses, quando começaram a interagir mais. Vez ou outra, se encontravam para auxiliar nos territórios - sempre caminhando muito ou andando de bicicleta, porque eram locais muito extensos, então dividiram longos trajetos e conversas. Aos poucos, esse cotidiano criou espaço para que a amizade se transformasse, puxando assunto aqui, criando vínculo ali, até o dia de uma confraternização de trabalho na casa de um amigo em que, finalmente, se beijaram pela primeira vez.
E dali em diante tudo aconteceu depressa: em dez dias, já estavam namorando.
Fabi lembra que, no início do namoro, ainda se entendia como bissexual e carregava uma dificuldade de aprofundar relações com mulheres. Com homens, havia sido ensinada desde cedo sobre comportamento, desejo. Era como se existisse um roteiro; Com mulheres, existia um medo, quase um pânico, de dar certo e não saber o que fazer depois. Ela fala sobre o bloqueio, sobre a estranheza de um aprendizado que nunca veio, e de como, ao perceber que gostava de Tainá, de ver que as conversas fluíam, que existia alinhamento e desejo, decidiu não deixar passar: era uma oportunidade rara de viver uma história que fazia sentido. Entre amigas bissexuais, via esse debate se repetir (hoje até transformado em piada na internet, mas uma piada bem real) sobre como “com homens, qualquer um serve, mas com mulheres dá pavor”.
Falamos sobre a importância de refletir e de verbalizar tudo isso, porque muito vemos essas “piadas”, mas pouco vemos conversas sobre o motivo delas existirem. Fabi explica que entendeu na relação com a Tai o motivo dos seus relacionamentos com homens sempre esbarrarem em uma sensação de inadequação: nunca estava bom, sempre havia um incômodo e um defeito. No fim, sempre iria haver, porque o problema eram eles serem homens, e ela ser lésbica. Muitos vínculos tinham sido apenas comodidade. Ainda que já tivesse ficado com homens legais e tido relações legais, e com mulheres legais que viraram amigas, porque travava diante do desconhecido (o medo de assumir, o medo de dormir juntas e não saber como conduzir a intimidade, o medo do julgamento na vida adulta). Sabia que muitas mulheres lésbicas tinham preconceito com mulheres bissexuais, e isso também pesava.
Na família, o processo também não foi fácil. E foi a família da Tai quem acolheu Fabi quando a família dela reagiu com homofobia ao saber da relação das duas. A família de Tai sempre soube das suas relações e lidou bem, e o pai dela, vendo Fabi passar por momentos difíceis em casa nos primeiros meses, sugeriu: “Por que vocês não moram juntas aqui em casa?”. Sem prazo, sem peso, apenas oferecendo um lugar seguro enquanto elas construíam juntas o que já era amor.
Quando Fabi contou à família que estava em um relacionamento com uma mulher, o processo foi confuso, cheio de camadas e silêncios. Houve acolhimento por parte da Tainá e da sua família, por isso optou em ir morar com eles. Era uma decisão dela de não viver mais sob o peso dos preconceitos. Alguns meses depois de ficar sem se falar com a mãe, as duas já estavam bem, e no Natal daquele mesmo ano (em 2021) tudo voltou a fluir. A mãe chamou para almoçar e conversaram novamente.
Depois de um ano morando juntas na casa da família da Tainá, elas decidiram que seria o momento de alugar o próprio apartamento. Em 2022, quando começaram a movimentação, isso acabou gerando um conflito grande na casa da Tainá. Eles esperavam que elas só saíssem de casa quando estivessem formadas, não concordaram com a mudança e trataram mal a Fabi por conta disso. Fabi precisou sair da casa da qual foi acolhida, se viu sem lar novamente, e foi para a casa da sua avó. Só quase um ano depois, num convite inesperado para comer pizza, os pais de Tainá voltaram a recebê-la na casa que morou, apenas retomando o convívio até que tudo se ajeitasse. Bem semelhante à como foi com a sua mãe quando pararam de se falar - mas nessa época, ela e Tainá já moravam no seu primeiro lar, um apartamento pequeno e simples, em Esteio.
A vida foi se ajeitando, elas decidiram celebrar a relação com um casamento no civil e uma pequena celebração com os amigos e a família - e nesse dia a verdadeira reconciliação aconteceu. A mãe da Fabi pediu perdão pela forma que lidou no início da relação, não justificou, não se alongou, apenas pediu perdão. E foi o bastante, gesto que faltava para fechar um ciclo e abrir outro, mais gentil, mais sincero e mais possível entre elas três.
Depois da transição de lar conturbada e de um primeiro ano nada fácil, Tai e Fabi construíram uma rotina juntas, começando com pouco dinheiro e lazer nos momentos que conseguiam. Enquanto Tainá era estagiária, Fabi trabalhava em loja, e o orçamento mal cobria as contas básicas. Com o tempo, tudo foi se estabilizando: Fabi se formou, as oportunidades melhoraram, celebraram o casamento com uma janta, os amigos e os familiares e em 2025 se mudaram para um apartamento maior. Hoje, com suas três gatinhas, amam cultivar as pequenas rotinas e os cuidados diários: os almoços, os cafés (ainda que corridos, ou uma preparando café para a outra), as séries no fim do dia, as pinturas, o cinema quando dá, e a descoberta compartilhada do budismo, que já faz parte da vida delas há um ano.
Essas vivências moldaram um amor que se mostra, sobretudo, nos momentos difíceis. As duas enfrentaram momentos difíceis no trabalho, na família, períodos de dor que nem sempre conseguiram ser o melhor de si, mas ainda assim permaneceram. Existe nelas um amor que atravessa erros, cansaços e histórias. Fabi explica que é um amor que perdoa não só quem está ao lado, mas também quem feriu - como as famílias, que hoje fazem parte da vida das duas com afeto renovado. Nesse percurso, aprenderam a amar a si mesmas, amar uma à outra e amar de novo o mundo ao redor, construindo uma vida onde tolerância, cuidado e crescimento caminham juntos.

























