Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
288 resultados encontrados com uma busca vazia
- Elis e Vandréa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Elis e da Vandréa, quando o projeto passou por São Paulo! Fui até a casa da Elis, da Vandréa, do Akin e da Aluá, num final de semana de junho em São Paulo. Quando cheguei, sendo recepcionada pelas crianças já contando histórias e mostrando as plantas, cômodos e coisas da casa, me deparei com a alegria contagiante do que iriam fazer aquele dia: balões e decorações para o Dia de São João, que comemoraram com uma grande festa junina. Tomamos um café e depois as fotos começaram, com todos muito empenhados na decoração. Akin e Aluá são crianças afro-indígenas, do povo Xukurus, assim como Elis e possuem muita clareza de pertencerem ao povo indígena. A família é encantada pelo carnaval, pela cultura popular, adoram os bichos e as simbologias. Estudam tupi guarani online, além de frequentar espaços culturais em São Paulo. Adoram acolher amigos e parentes em casa. Durante a nossa conversa, inclusive, contam que vão receber amigos do povo Pataxós que estão chegando para realizar um trabalho com as crianças na escola. Para Vandréa, o amor está nessa forma que o cotidiano se reinventa, nos detalhes desenhados, pintados (que inclusive representam os colegas deles cada um como um pássaro) no momento que cozinham as comidas que as crianças gostam, na forma que constroem o lar. Elis é natural de Recife, mora em São Paulo desde 2007. No momento da documentação, estava com 36 anos. Trabalha enquanto professora de educação infantil na rede pública da cidade e também desenvolveu um projeto sobre saberes ancestrais com os seus alunos, onde cada um leva a história da sua família. Elis fala sobre a xenofobia e o racismo que sofreu quando chegou e que por isso faz de tudo para que as crianças se sintam parte das suas culturas originárias e não se sintam excluídas na cidade. Assim, usam muito os grafismos, desenham, pintam as roupas, cozinham juntos e fazem esse resgate cultural. Vandréa é natural de São Paulo. No momento da documentação estava com 42 anos, trabalhando enquanto médica de família e comunidade, que acredita ser uma forma humana de olhar para a família. Trabalhou a maior parte da sua vida no SUS, hoje em dia está em um hospital privado. Akin e Aluá estão com 4 anos no momento da documentação. Possuem uma diferença de idade de alguns meses, sendo Akin nascido em outubro e Aluá em janeiro. Quando Elis e Vandréa se conheceram, ela trabalhava no terceiro setor com formação de professores na área de direitos humanos, nos eixos de formação de direitos sexuais e reprodutivos, políticas públicas de juventude, área de educação e gênero. Fazia um trabalho de acompanhar alguns estados, e não imaginava que Vandréa trabalhava com coisas semelhantes, também viajando e acompanhando estados. Chegaram a fazer viagens que envolviam amigos em comum, mas Elis viajou para trabalhos com indígenas e Vandréa para trabalhos com famílias ribeirinhas. Foi num aplicativo de relacionamentos que deram ‘match’, mas já tinham muitos amigos em comum por conta desses trabalhos. Sentem que cruzavam suas histórias o tempo todo, por estarem nos lugares com essas pessoas em comum, mas que ainda não tinham se esbarrado. Naquela época, Elis já estava em processo de adoção. Desejava adotar individualmente, vivia enquanto uma mulher solteira que sempre desejou a maternidade. Quando se encontraram pessoalmente e começaram a se apaixonar uma pela outra, Vandréa estava procurando um apartamento para se mudar e ao conhecer o prédio que a Elis morava, se encantou. Decidiu alugar um apartamento no mesmo local, então moravam em andares de distância. Mesmo morando no mesmo prédio, elas não se viam com a frequência que desejavam. Trabalhavam muito nas missões em comunidades quilombolas na Bahia, então começaram um relacionamento quase que à distância. Nessa época, já falavam muito sobre a maternidade. Elis decidiu encerrar o processo de adoção solo, uns meses depois elas marcaram uma consulta numa clínica de fertilização e decidiram morar no mesmo apartamento, já não fazia mais sentido os dois aluguéis mensais. Tiveram que lidar com a papelada na hora da gestação e entenderam a importância do casamento. Vandréa não queria só uma união estável, se fosse para estarem casadas, desejava uma festa e sentia que elas mereciam a celebração. Mesmo sem dinheiro, fizeram o evento acontecer e os amigos ajudaram em tudo - a festa aconteceu num terreiro de umbanda, os padrinhos eram os amigos em comum (que também trabalhavam com comunicação e fizeram as mídias do evento) e tudo foi organizado em 3 meses, de forma muito autónoma. A cerimônia aconteceu em 2017. Logo depois do casamento, as duas engravidaram. Vandréa não queria ceder, achava uma loucura a ideia das duas ficarem grávidas ao mesmo tempo, mas com o tempo se convenceu. Por nunca menstruarem juntas, ela faria o processo primeiro, depois a Elis. Quando finalmente menstruaram juntas, entenderam que era um sinal. Foi inclusive no aniversário da Vandréa que deram início ao processo que deu certo - as duas engravidaram. Um tempo depois, viajaram de férias e durante a viagem Elis teve um sangramento muito forte, perdendo o bebê. Foi um baque muito grande, a perda reviveu outros lutos que já teve na família, ficou muito mal. Era difícil viver a dicotomia do luto e da outra vida se gerando, as pessoas em geral não entendiam e sempre tentavam consolar dizendo ou que era muito pequeno, como se não fosse uma vida ainda, ou para valorizarem o bebê que estava na barriga da Vandréa. Elis não desistiu, tentou novamente (e por isso o Akin e a Aluá possuem o intervalo de idade). Conseguiu engravidar, eram gêmeos, mas um não se desenvolveu nessa nova gestação. Por fim, nasceu Aluá, e são muito gratas pelas gestações e pelos filhos maravilhosos que possuem hoje em dia. Elis enxerga o amor como o grande construtor do mundo que elas querem para os filhos. Seja na militância no trabalho, na vida, em tudo o que fazem tentando tornar o mundo melhor, é lá que o amor está. Deseja que as pessoas sejam mais humanitárias - e acredita ser esse o fator que aproximou elas desde o primeiro momento. Seus propósitos se unem, querem mudar as coisas na mesma proporção e sabem que podem contar uma com a outra. Nessa confiança está o partilhar das felicidades e das dores. Citam situações em que chegam do trabalho, falam o que aconteceu no dia, choram, riem, se indignam juntas. Compartilham sobre racismo, questões políticas, se movimentam. Elis explica que “A liberdade só é possível quando conseguimos abrir as asas sem ferir os outros” e que isso nem sempre é possível ou fácil. Aprende muito com as crianças e com o quanto elas estão dispostas a serem encantadoras. Por fim, entendem que o processo de educar é muito desafiador, como fazer com que não sejam machistas, racistas, que tenham respeito. Falam sobre o Akin ter cabelo grande, unha colorida, e preparam ele para enfrentar o machismo que vai existir da porta para fora de casa. Além disso, educar é também preparar os professores e a própria sociedade para lidar com a liberdade deles. ↓ rolar para baixo ↓
- Gi e Rafa
A Rafaela e Gizelly foram o primeiro casal que tive contato em Fortaleza (e, se não me engano, o primeiro casal que agendei quando decidi que iria levar o Documentadas para lá). Elas são muito receptivas e me levaram para conhecer o grande Mercado Central, almoçar em um lugar super querido, fazer turismo de dentro do carro (A pandemia, né?) nos bairros mais centrais e me contaram várias histórias sobre a cidade. ♥ muito obrigada, gente. Saudade de vocês. E no lugar que o Documentadas estiver, sempre terá um espacinho aberto para recebe-las! Importante ressaltar também que dentre as histórias de perrengue que este projeto é campeão em documentar, temos uma das melhores: uma blitz policial no meio da tour que nos rendeu uma .... pausa para o choro.... multa de uns + de 2 salários mínimos para o carrinho das bichinhas por estar com a licença atrasada (Mas agora já está em dia, viu? Se dividir a gasolina atravessa o Brasil todo kkkk digo...). Bom, vamos lá. A Rafa tem 24 anos, é auxiliar de cartório e estudante de Letras na Universidade Estadual do Ceará. Ela é natural de Fortaleza - CE e morava bem pertinho da casa da avó da Gizelly, que tem 26 anos e é Engenheira Civil, também formada na Universidade Estadual do Ceará. Por mais que a Rafa e Gi tivessem proximidades físicas e frequentassem espaços em comum, elas foram se conhecer mesmo através de um aplicativo de relacionamentos: o Tinder, no ano de 2019. Era pré-carnaval, elas estavam conversando há um tempo e marcaram de se encontrar em um cortejo. A Rafa mobilizou todos os amigos e foi para lá com aquela esperança de encontrar a Gi, que por sua vez deixou o celular no modo Não Pertube (desativando as notificações) e esqueceu completamente de que a Rafa iria ligar para encontrá-la. Quando ela se deu conta, já era tarde demais (literalmente!): ela já estava indo para um bar, o cortejo já tinha acabado, a Rafa já tinha ficado triste, desistido, chutado o balde, beijado várias pessoas, decidido que ia dormir na casa de amigos (e até já tinha mandado mensagem anteriormente chamando a Gi para ir também, mas como ela sumiu, não adiantava mais) e dessa vez foi a Rafa quem não respondeu mais. No dia seguinte, com o nascer do sol também vem ela, né? A ressaca. E então a Rafa repensou e viu que não precisava ser assim. Decidiu falar com a Gi. Elas conversaram e combinaram de se encontrar, mas dessa vez com horário e local pré-agendado, direitinho. Falando assim, vocês pensam que era um encontro em um restaurante, mas não, elas se encontraram na parada de ônibus. Pois é, eu também ri. A Rafa entrou no carro da Gi, que ficou estacionado... e ela ficou toda encolhidinha, em suas palavras: "Porque estava frio o ar condicionado" e elas começaram a rir de nervosas e de tímidas. Para completar, ainda surgiu um assunto um tanto quanto mórbido que se transformou numa crise de riso das duas e nisso a Rafa chamou a Gi para ir fazer a carteirinha de estudante dela, logo em seguida, saindo do carro. Elas foram e, desde esse dia, estão juntas. O amor é aleatório. ♥ Hoje em dia, no tempo livre, o que a Rafa e a Gizelly mais gostam de fazer juntas é praticar esportes, assistir besteiras, passar um tempo "morgando" (ficar sem fazer nada, falando da vida) e principalmente curtir a própria companhia - elas contam que reservam às sextas para sair, comer coisas gostosas, cozinhar juntas ou tomar cafés em lugares legais. No momento, a Rafa está trabalhando de casa, enquanto a Gi tem a própria empresa de Engenharia Civil, em sociedade com uma colega. Por bastante tempo ela trabalhou para empresas, nas quais chegou a se sentir mal remunerada e/ou de alguma forma explorada, foi aí que surgiu a ideia de montar algo próprio, com duas colegas da área (e hoje em dia é ela e uma amiga). A empresa é formada pelas engenheiras e foca em reformas de banheiros, infiltrações de telhados, intervenções em casas, apartamentos e áreas comerciais. Possuem equipes e encarregados para fazer os serviços, mas o mais legal nisso tudo é que: a empresa é somente com mulheres no comando e prioriza o trabalho para clientes mulheres. 3 O começo do namoro da Gi e da Rafa foi marcado pelo medo que existia dos amigos da Gi não gostarem da Rafa (Atualização: hoje em dia eles se dão melhor com a Rafa do que com a própria Gi, risos) e também porque no ano seguinte a pandemia chegou e com ela a Gizelly chegou a ir para Sobral (interior do Ceará) trabalhar, durante um tempo. Elas oficializaram o namoro no dia 07 de março de 2019 e em 2020, lá em Sobral, a Gi resolveu pedir a Rafa em casamento. Tudo estava super organizado com a melhor amiga da Rafa. O pedido foi no Arco de Sobral, um ponto turístico e enquanto a Gi ia enrolando ela, a amiga organizava tudo. Primeiro, ela sabia que o casamento era um sonho da Rafa, então fez uma cena de dizer que não via sentido e/ou futuro no casamento... que não queria isso. A Rafa ficou triste, chorou e empurrou ela querendo ir embora. Depois da cena, uma pessoa entregou uma rosa para a Rafa - a primeira pessoa foi um senhor numa bicicleta (e a Gi fingiu ciúme), depois outras pessoas chegaram - foram 5 rosas ao total, até que chegaram duas meninas crianças e entregaram as alianças e a Gi fez o pedido. Depois de toda a atuação digna de novela e filme com Oscar, com muitos choros e muita emoção real no pedido, elas tiveram um dia incrível com jantar surpresa, casa livre, velas e rosas. A família super apoiou. No começo de outubro do ano seguinte o casamento aconteceu, já na pandemia do Covid-19. O evento aconteceu na garagem de casa, com as pessoas da família e alguns amigos e ninguém foi contaminado ou teve sintomas antes ou depois dos dias que envolveram o evento. 4 No início da pandemia, em 2020, a Rafa perdeu o emprego e elas passaram bastante tempo sem se ver por conta de, tanto elas quanto suas famílias, serem pessoas consideradas grupo de risco (asmáticas e diabéticas). Com a mãe da Gi, por já ter tido cancêr de mama e o pai por ter pressão alta, somados à avó ser idosa, o cuidado é minucioso. Elas voltaram a se encontrar apenas em julho e em seguida a Gi foi chamada para trabalhar em Sobral, no interior. Foram meses que ela passou lá, só teve retorno de fato no mês de novembro. Foram meses de um relacionamento à distância e a Gi sentiu dificuldades em se adaptar também ao trabalho. Quando ela voltou, elas organizaram tudo e o casamento aconteceu. A Rafa hoje em dia mora com a Gi e a família dela, numa casa em Fortaleza. No começo a mãe da Rafa ficou um pouco mexida com a situação, mas hoje em dia la entende que faz parte da vida adulta e do crescimento da filha. O pai, por outro lado, não vê a orientação sexual dela de boa forma, o que a deixa triste pois sabe que ele e a Gi, enquanto companheira dela, se dariam muito bem! De toda forma, entendendo isso enquanto uma dificuldade e uma dor, elas seguem se fortalecendo e sendo apoio dentro da relação. Inclusive, nos momentos de dificuldades, a Rafaela conta que a Gizelly a acalma e ensina a agir com cuidado. No mais, elas tentam sempre entender que tudo tem seu tempo e que as dificuldades que passam, principalmente financeiras, que não são para sempre. Para tudo conseguem dar um jeito, ainda mais se estão juntas. ♥ 5 Por fim, a Gi comenta que sempre foi mais fechada e com poucos amigos, que mantém um contato mais distante com as pessoas - tirando com a Rafa, que é um contato diário. Então ela faz uma leitura do amor enquanto uma estabilidade e enquanto segurança. Para a Rafa, o amor se mostra quando ela acorda e vê ao lado dela a pessoa que ela ama, que ela cuida, que está do lado dela para tudo. Ela diz que sente o amor neste momento em específico, principalmente, porque a Gi acorda cedo para trabalhar e sempre liga o computador e arruma as coisas para que a Rafa acorde com tudo confortável. Ela acha isso muito querido, se sente muito confortável, encontra nesse cotidiano e nessas pequenas atitudes muitos pedacinhos de amor. Quando andamos por Fortaleza, elas me ensinaram muitas coisas. Mostraram diversas questões culturais, contaram histórias e quando fiz perguntas durante a nossa conversa sobre a cidade e a forma que elas enxergam o local em que elas moram, elas não pensam em outra cidade no Brasil que gostariam de estar além de lá. Ao mesmo tempo que entendem diversas melhorias que precisam ser feitas lá, no Estado do Ceará e no Brasil em si, comentam que não tiveram vivências de preconceito na cidade, mas que a situação econômica está ruim, que os custos de vida estão elevados e que a mobilidade deixa muito a desejar e que isso também fala sobre a gente, né? Elas sonham em poder se estabilizar, seja no Brasil ou fora dele, e entendem que Fortaleza é um lugar muito incrível para se estar. Desejam viver, além de sobreviver. Rafaella Gizelle
- Maíra e Eduarda
Assim como os momentos delas serem leves, a família também aprendeu a lidar de uma forma legal com o relacionamento delas. Foi criado até um grupo no whatsapp com elas e as mães e a foto do plano de fundo do celular do pai são as duas juntas. Entretanto, não foi tão fácil no início. A Duda resolveu se assumir, num ato de coragem, durante o segundo turno das eleições de 2018. Estava vendo a grandiosidade do retrocesso na eleição do então presidente foraBolsonaro e entendeu que não cabia mais espaço para se esconder. Foi um período que a violência e os discursos de ódio estavam batendo recorde, então se tornou muito significativo e importante se reafirmar e resistir, mesmo com nossa sensibilidade muito fragilizada somada ao processo de "saída do armário". Hoje em dia, Duda conta que se inspira demais na mãe e fica feliz de ver as famílias unidas. Quando pergunto sobre onde elas encontram o amor e o que elas pensam sobre, dizem que amor está envolvido com a liberdade porque amar é respeitar e permitir ser livre. E amar outra mulher é se identificar, principalmente por entender que a outra passa pelo mesmo que você. A Duda e a Maíra se conheceram na universidade, em 2016. Foi durante a ocupação da UFRGS, que pedia melhorias no sistema de ensino, que elas ficaram amigas e que fizeram um grupo de mulheres lésbicas e bissexuais que participavam da ocupação, onde todas viraram amigas e mantém contato até hoje - inclusive, tatuaram o número da sala que dormiram durante a ocupação, por ter tanto significado nesse grupo. O primeiro beijo entre as duas rolou na ocupação mesmo, mas não virou algo sério em seguida, demorou um tempo... até que (por coincidência) uma foi morar próximo da outra e passaram a se encontrar com frequência. Decidiram tentar algo e foram, cada vez mais, se apaixonando. A relação delas é composta por uma convivência muito leve. Possuem bastante abertura para falar sobre tudo e contar com o apoio mútuo. As duas têm diversas tatuagens juntas, de divertidas à frases significativas e as histórias sempre remetem à: estávamos bêbadas e tivemos a ideia de tatuar isso, no fim, amamos. A Duda tem 22 anos e é natural de Progresso, uma cidade bem pequena no interior do Rio Grande do Sul, além de ter morado boa parte da vida em Lajeado, também no interior. No fim do ensino médio, passou no vestibular e se mudou para Porto Alegre. Cursou história e hoje em dia faz mestrado enquanto trabalha como Analista de Relacionamento em uma startup, a TAG. A Maíra tem 23 anos, é natural de Porto Alegre, está se formando em ciências sociais e em busca de um emprego atualmente (mandem jobs! tem alguma vaga para indicar? clica aqui! ). Ela adora assistir o jogo do Inter, ler, caminhar por aí e cozinhar. Cozinhar, inclusive, é o que elas mais amam fazer juntas. Além disso, brincam que estão sempre sendo taxadas como "pessoas que não param quietas". Gostam de caminhar pelo bairro, de viajar, de ir em trilhas, cachoeiras... de ver gente e de ver mato. Elas já participaram de diversos projetos envolvendo uma certa militância também, como o Lésbicas que Pesquisam (um espaço de visibilidade à presença lésbica na academia) e o Pedal Pela Memória (passeios ciclísticos que envolvem contar a história da cidade de Porto Alegre). Logo que cheguei no apartamento da Duda e da Maíra vi que o nome do prédio era 'Maíra' e brinquei "já entendi porque vocês escolheram morar aqui". Então, desde o começo, subindo as escadas, fui ouvindo o quanto elas terem se mudado para o novo apartamento foi tão importante. Antes de chegarem aqui, a Duda dividia apartamento com umas amigas. Era legal, mas a relação delas não era a mesma coisa, sempre sonhavam em ter um cantinho só delas. A Duda decidiu procurar um apartamento num bairro vizinho, mais calmo, na zona central de Porto Alegre. A pandemia foi como um "test drive" para a Maíra passar um tempo nessa nova casa e elas entenderem se conseguiriam viver juntas assim. Aos poucos foram decorando como gostam, colocando a carinha nas estantes, na sala, na cozinha... Têm sido muito bom e dado muito certo. Hoje em dia elas tiram momentos no dia para conversar sobre assuntos aleatorios e trabalham dentro de casa. Comentam que sair da Cidade Baixa, o bairro mais movimentado (e por consequência violento) e ter se mudado para o Bom Fim ressignificou até a forma que olhavam a cidade. Sentiam muito medo e planejavam sair do estado antes de encontrarem esse apartamento, agora, sentem que tem conforto para colocar os planos de mudanças mais para frente e ir planejando com calma. Eduarda Maíra
- Aline e Aya
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Maternidade Sapatão, quando o projeto passou por São Paulo! Na segunda edição da festa a Alê foi enquanto expositora por conta da confeitaria e a Aline estava ajudando as organizadoras, então elas tiveram uma oportunidade para conversar. Enquanto ela pediu uma água, a Aline jogou uma gracinha e rolaram umas brincadeiras. A Aline sempre deixou muito claro o quanto queria e tinha interesse, mas a vibe da Alê era bastante diferente, então ela desviava, achava que tudo era só uma brincadeira e não dava continuidade. A chance realmente aconteceu quando elas se adicionaram no Instagram e conversaram, marcaram de se encontrar e saíram. No encontro a Alê de cara já entendeu que não ia rolar nada porque a Aline era bastante o oposto dela: uma menina mais nova, super agitada, urbana, num pique bastante paulista. Enquanto ela estava em um momento muito mais naturezas e coisas calmas, algo mais pausado e pensado. A Aline quis chegar beijando e ela disse: espera aí, não é assim! Hahaha. Só que quando o beijo aconteceu, todos os argumentos que ela tinha foram embora, ela quis continuar. Aos poucos elas continuaram os encontros, continuaram ficando e a Aya foi percebendo que o relacionamento aberto que ela tinha foi tendo menos espaço. Foi então que, por todo o respeito que esse relacionamento envolvesse e toda a conversa, ela percebeu que ele não cabia mais e que era um momento de seguir outro caminho. Quando escolheu ficar somente com a Aline foi se abrindo para novas coisas, ocupando novos espaços e tendo novos olhares, inclusive religiosos, algo que elas cuidam muito e prezam por manter sempre em harmonia, visto que a religião é prioridade. Aline trouxe Aya até um novo centro de umbanda e, dentre todas essas mudanças, essa foi uma das que mais se destacou, porque significou uma entrada diferente, uma nova ligação com orixá e um novo caminho religioso na vida dela. Alessandra (Mama Aya) tem 30 anos, é de São Paulo, trabalha como confeiteira na @tabuleirodalirio (que agora passou por um bom tempo parada por conta da licença maternidade dos meninos, mas em breve voltará com tudo! Então já sigam para dar aquela força e encomendar comidinhas incríveis!) e além de ser uma pessoa super leve e com um sorrisão no rosto, é também uma cantora incrível e faz parte do grupo Ilu Oba de Min. Aline Exu tem 24 anos, é natural de Santos, interior de São Paulo e trabalha enquanto educadora social. Aline chegou na capital em 2016, encantada com a militância estudantil, os atos e a forma totalmente urbana e corrida de São Paulo acontecer. Começou a fazer faculdade na Zumbi dos Palmares, universidade comunitária paulista e foi a cada dia mais conquistando espaço por onde passava. Foi em um desses espaços que elas se conheceram, mais especificamente, em uma festa para o público les-bi. Aline estava na porta e contou que, por mais que nunca tenha acreditado em amor à primeira vista, ali realmente aconteceu. Quando viu a Alê, já sabia que queria casar e ter filhos. Ela ficou olhando, ali da porta, e a Alê estava com outro grupo de amigas, mais distante… durante a festa ela chegou até a Alê e perguntou se ela estava acompanhada e recebeu um “sim” como resposta, porque a Alê vivia um relacionamento aberto na época. Elas contam que a Aline não esperava essa resposta e que na hora ela ficou muda, triste, abaixou a cabeça e saiu, quieta. Seguiu o baile. Conheci a Alê (mais conhecida como a Mama Aya) e a Aline (também chamada de Aline Exú) através de um perfil que elas mantêm no Instagram, chamado @maternidadesapatao . A primeira vez que tive acesso ao perfil foi quando estava planejando o Documentadas e elas me pareceram muito fazer total sentido para o projeto. Desejei com todas as forças chegar até elas, então entrei em contato e desde o começo de 2021 estamos tentando fazer isso acontecer. O encontro, finalmente rolou, na ida do .doc até São Paulo, no primeiro semestre do ano. <3 O Maternidade Sapatão surgiu no começo da gravidez. Aline conta que com a gravidez da Aya e a barriga crescendo ela começou a postar stories no seu perfil pessoal e compartilhar como estava sendo viver isso, os detalhes cotidianos, os perrengues e os corres. Com os conteúdos no storie começou a perceber que muitas pessoas perguntavam e que chegava cada vez mais um público novo no seu perfil pessoal, pessoas que ela não conhecia e que nunca tinha visto e que isso se dava por conta da gravidez. Foi então que surgiu a ideia, já que sentia uma demanda de dúvidas de muitas pessoas que queriam entender como foi o processo delas de engravidarem e acompanhar diariamente até o nascimento dos gêmeos - o Jamal e o Jawari. Quando o perfil do Maternidade Sapatão de fato foi lançado, muitas outras coisas começaram a fazer sentido. Entenderam que o público da maternidade homoafetiva, primeiramente, era maior do que elas imaginavam - existiam muitas outras famílias, muitas outras crianças sendo criadas por duas mães - porém também ainda era muito embranquecido. Além do mais, o público que decide engravidar ainda é um público muito carente de informações e também faltam muitas informações a se passar aos profissionais de saúde que dão atendimento, à nós LGBTs, às mulheres que querem conhecer melhor seus corpos… enfim, temos um longo caminho pela frente. No começo, com o passar a terem uma busca muito grande e o perfil crescendo rapidamente, chegaram a pensar “será que somos as primeiras mulheres pretas, de quebrada, a estarem fazendo uma fertilização aqui em São Paulo?” e comentam também sobre a mulher negra periférica muitas vezes estar numa situação em que assume o filho de outra mulher que já engravidou em um outro casamento\em um outro relacionamento e que isso também é família, que isso também é muito representativo e importante (visto que esses filhos jamais são considerados “agregados” momentâneos e sim realmente parte da família), mas que elas (Aya e Aline) queriam e lutaram pela fertilização. Mas que nunca deixaram de se questionar: se os nossos filhos já fossem de um casamento antigo ou fossem adotados, nosso perfil teria tamanha visibilidade? Rolar Mama Aya Aline Exú
- Cecília e Jady
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Cecília e da Jady, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Nos últimos meses, depois de várias conversas e de entender que o momento ideal tá chegando, elas decidiram procurar um apartamento e em breve estarão morando juntas. A ideia surgiu porque o contrato do apartamento que a Jady aluga com alguns colegas vai vencer no próximo mês e ela até cogitou propor algo em conjunto com a Ceci, mas pelas faculdades das duas serem em cidades diferentes, surgiram empecilhos sobre onde seria o imóvel. Com o tempo, ficou certo de que o curso da Cecília continuará à distância até o fim e isso abre novas possibilidades, então conversaram, as famílias apoiaram bastante e por já estarem passando muito tempo juntas, tudo passou a ficar cada vez mais concreto. Hoje em dia, o maior passatempo está sendo planejar os cantinhos do novo apartamento e cada decoração, cada móvel, cada objeto com a carinha delas ♥ (boa sorte, meninas!) O apoio da família da Cecília é algo que ela se orgulha muito em ter. Quando era mais nova ela passou por momentos muito difíceis ao se entender enquanto bissexual e por se relacionar afetivamente com mulheres. Passou pela expulsão de casa e hoje em dia, 11 anos depois, tem uma relação completamente diferente. A família dela considera a Jady como “uma filha paulista” e realmente apoia as duas, enchem elas de carinhos e estão sempre perguntando e querendo estar por perto. Ela conta que vê a Jady enquanto sua melhor amiga e que a pandemia representa recomeços em cima de recomeços, não só pela relação delas em si estar no começo, mas porque ela voltou pra casa dos pais, porque eles mesmos se mudaram, tudo se encaminhou para coisas novas o tempo todo (sem contar que o mundo estava vivendo algo completamente novo e inesperado), mas que ao mesmo tempo foi muito mais tranquilo por ter ela por perto, por ter a amizade e o amor dela ao seu lado. Hoje em dia a Jady está trabalhando como vendedora em uma loja de objetos praianos (biquínis, cangas etc) e a Cecília é redatora em uma agência de marketing, mas acaba trabalhando mais enquanto autônoma com seus freelances. Ambas se encontram o tempo todo em suas artes, a Jady já fez teatro por bastante tempo e contou o quanto ama, além de se dedicar ao desenho e a pintura, e a Ceci adora fotografar e também faz parte de um coletivo feminista que envolve lambes enquanto arte urbana e poesias feitas por mulheres. Falamos sobre o trabalho da Jady ser algo bastante recente, por conta de antes da pandemia todas as formas de renda serem bem diferentes. Na faculdade ela organizava brechós, fazia freelances, vendia doces e tinha outras rendas, além de também receber ajuda do pai dela. No começo da pandemia ela pensou que precisaria voltar para São Paulo, por não ter internet e computador em casa para estudar à distância e por não ver uma forma de continuar tendo uma renda independente. No começo a Cecília teve um papel importante na ajuda e no afeto na busca por um notebook e por conseguirem colocar internet em casa, até que infelizmente o pai dela, que trabalha enquanto motoboy, sofreu um acidente de trabalho e não conseguiu mais colaborar financeiramente nos custos. Foi nesse momento em que ela precisou voltar para as ruas, sair de casa e procurar algum trabalho fixo, e nisso falamos sobre as dificuldades que envolvem colocar nossos corpos na rua durante uma pandemia, com ônibus e BRTs lotados, dificuldades de achar máscaras PFF2s por valores acessíveis e o quanto é difícil nos cuidarmos dia após dia contra um inimigo invisível enquanto na volta do trabalho passamos por bares e festas com muita aglomeração, sem contar o sentimento que acaba causando de revolta muito grande, ao se sentir trouxa, usada, de estar remando contra uma maré de coisas erradas. É preciso muita força para seguir enfrentando. Desde que o primeiro beijo aconteceu e que elas começaram a conversar, meio que sem jeito e aleatoriamente, se encaixaram e decidiram logo em seguida se encontrar novamente. Com o decorrer do tempo, com os encontros e com o desenvolver de sentimentos, foram deixando as coisas fluírem e começaram o namoro. Tudo aconteceu num fluxo bastante natural porque elas se permitiram e também por tantas coisas que possuem em comum e pelo tanto que se divertem juntas. Desde o momento que nos encontramos elas comentaram sobre as bobajadas e as brincadeiras infinitas que fazem, contam que o verdadeiro encontro aconteceu por causa do riso (além do brigadeiro e do macarrão ao molho branco que a Ceci fez e ganhou o coração logo de primeira!), o que elas mais gostam de fazer é ouvir músicas, ver filmes e séries, comer várias sobremesas, apreciar diversas artes, mas mais que tudo: rir infinitamente. Estão sempre sorrindo, tendo crises de riso sobre coisas bestas, vendo memes na internet e compartilhando situações engraçadas. A Jady tem 21 anos, é natural da região metropolitana de São Paulo, mais especificamente de uma cidade chamada Taboão da Serra e veio para o Rio de Janeiro ser estudante de figurino na Escola de Belas Artes da UFRJ. Foi durante uma festa da faculdade, lá na UFRJ, que ela viu a Cecília pela primeira vez. O detalhe é que a Cecília não apenas não estudava na UFRJ, como era a primeira vez que estava indo lá. Ela faz faculdade também, mas na UFF, em Niterói, cidade que fica na região metropolitana do Rio de Janeiro. Cecília tem 27 anos, é natural do Rio e faz Estudos de Mídias na Universidade Federal Fluminense. No dia da festa, a Ceci estava lá apenas acompanhando um amigo - na verdade, na hora que elas se encontraram, ela já estava mesmo era praticamente indo embora. E aí, ao som de muito funk (antes que elas me corrijam, era um bastante específico: vem e brota aqui na base ) e no meio de todo mundo dançando, a Jady surgiu com uma roupa super esvoaçante e tão simplesmente tascou-lhe um beijo. A Ceci, por estar 100% sóbria (ela não bebe) e por não ser da UFRJ, não sabia se tinha entendido direito o que tinha rolado ali, sentiu que tudo estava super aleatório, mas rapidamente elas conseguiram conversar e decidiram trocar contatos. Detalhe: ambas estavam sem celular. Então atravessaram as pessoas dançando e foram até os amigos, pegaram um celular emprestado, a Jady passou o user do Instagram dela para a Ceci - que logo que ela chegou em casa, adicionou e mandou uma mensagem engraçadinha - e assim começaram a conversar no dia seguinte. Rolar Cecília Jady
- Luma e Stefany
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luma e da Stefany, quando o projeto passou por São Paulo! Luma e Stefany foram documentadas um dia antes do chá de bebê do Joaquim acontecer, em Campinas, reunindo a família num tema de festa junina. Stefany estava com 29 semanas - quase entrando no oitavo mês de gestação - e o quartinho ainda era um grande estoque de fraldas. O nome Joaquim vem de uma homenagem ao bisavô da Luma. Dentre todos os grandes motivos que despertam o desejo da maternidade, Luma conta que um deles a faz se ver enquanto mãe de um jeito especial: se não fosse ela a dar seguimento, sua linha familiar iria acabar. Cogitaram a adoção, estudaram os tipos/métodos de fertilização e Luma acabou retirando os óvulos na clínica para fazerem a fertilização in vitro. Por mais que sejam rodeadas de mulheres - principalmente na família da Luma, que é composta pelas tias e avós bastante presentes - passam boa parte do tempo conversando sobre a importância de ter um filho homem e de como será educá-lo nessa sociedade. Stefany comenta que mesmo entendendo a existência do preconceito com elas enquanto duas mães, não é isso que ocupa seus pensamentos, já que o amor fala mais alto… O que realmente procuram focar é nas formas possíveis de educar um homem num mundo tão machista, os valores que pretendem ensinar e como querem que ele seja respeitoso. Em 2020 (pouco antes da pandemia de Covid-19 acontecer) Luma e Stefany se conheceram, por conta de amigos em comum, numa festa que Luma nem estava tão afim de ir, no carnaval. Elas já sabiam da existência uma da outra, porque tinham se esbarrado uma semana antes - e tinham interesse em comum - mas não se conheciam de fato. Naquele dia, Stefany passou mal, Luma cuidou dela um pouco, mas nada aconteceu. Na semana seguinte, se reencontraram, o beijo aconteceu e tiveram uma interação para além dos encontros rápidos anteriores. Porém, os dias se passaram e foram surpreendidas com o lockdown que trancou cada pessoa em sua casa nos fazendo não entender o que acontecia nas cidades e nos países por conta da pandemia. Nesse tempo, elas conversaram muito online, Ste teve que seguir trabalhando no hospital e compartilhava os medos, a falta de informação, tudo o que estava acontecendo. Foram se aproximando cada vez mais. O tempo foi passando e não conseguiam se encontrar por conta da pandemia. Luma morava no mesmo prédio que a avó, não tinha como sair e tinham muito medo, acabavam se vendo apenas por vídeo. Depois de algum tempo, resolveram arriscar: Luma ficava duas semanas sem contato com nada, saia, voltava e ficava mais duas semanas sem contato para depois ver a avó. Era uma saga toda vez que decidiam se ver. A avó entendeu que estavam gostando de verdade uma da outra e decidiu ficar na casa de outros familiares por alguns meses, assim, conseguiam se ver sem tanta dificuldade e ela não dependeria 100% da Luma. Foi em junho de 2020 que conseguiram ficar juntas pela primeira vez e em dezembro decidiram morar no mesmo lar - com muito medo de não dar certo - até que chegaram os cachorros, conseguiram um apartamento melhor e foi tudo se encaixando. No momento da documentação, Luma estava com 27 anos. É psicóloga, natural de Campinas. Stefany, no momento da documentação, estava com 30 anos. Trabalha enquanto enfermeira pediatra, nasceu em Ribeirão Preto, se mudou para Campinas por conta da residência médica e segue até hoje na cidade. Acreditam que a pandemia as uniu e desde então amam estar juntas, fazem praticamente tudo grudadas. Assistem séries, leem bastante, passeiam com os cachorros. Adoram a natureza e desejam levar seus hobbies para o Joaquim. Desde o começo do relacionamento conversavam sobre o desejo da maternidade, sobre adoção e como queriam formar uma família. Pensaram várias vezes na adoção, até que foram para a ideia da clínica, da Luma retirar os óvulos e estudaram melhor as possibilidades. Em 2022, Luma fez todos os exames, elas conseguiram pagar apenas o sêmem e o processo foi longo, durou 6 meses. Nesse meio tempo se mudaram, conseguiram comprar um apartamento, acharam uma receptora mas foi preciso muita paciência, na teoria tudo teria sido muito mais rápido. O telefonema da clínica veio um dia depois de uma gira de Erê (que representa as crianças na Umbanda) e são muito ligadas à fé. Sempre ouviam nas giras que a gravidez iria acontecer, mas era preciso esperar, estava vindo. A meta delas era engravidar em 2022 e a implantação do embrião foi no dia 30 de dezembro, passaram o ano novo em repouso, mas felizes porque mesmo no limite deu certo, com paciência. Luma entende que aprendeu a amar nesses processos e também com a família dela, a forma constante de apoio que elas (a avó e as tias) demonstram, sempre fazendo coisas umas pelas outras. “Uma base feminina muito forte e muito politizada”. A avó é muito forte, fugiu muito da questão tradicional. E brinca que a família, como apoiou tudo, sente que elas estão grávidas há anos pelo quanto dura o processo. Por isso, reforçam que precisamos procurar clínicas que saibam nos acolher. Quando falamos sobre o futuro que esperam para o Joaquim, começam comentando como é difícil viver num Brasil conservador porque o conservadorismo faz com que a pessoa não queira nem tentar mudar o pensamento: se fecha completamente numa ideia sólida de que só ela está certa, não permite a mudança. Comentam sobre o condomínio onde moram, cujo é muito grande, possui diversos blocos e moradores, mas que até então só sabiam da existência de mais uma ou duas mulheres lésbicas, além delas. Por conta disso, também, existe a importância de tomar esses espaços. Citam as bandeiras do Brasil que estavam nas janelas na última eleição e que depois da vitória do Presidente Lula elas decidiram colocar uma bandeira na janela representando suas ideologias também, deixando alguns dias, para que as pessoas soubessem que elas estão ali, num ato de comemoração e resistência. Na clínica, conhecem apenas um outro casal formado por duas mulheres, e citam como todo o material feito é muito voltado à casais heterossexuais. Acreditam no quanto ainda precisamos avançar para que mais casais tenham a chance de engravidar, querem ver mais mães, querem que o Joaquim tenha mais colegas com duas mães nas escolas. Contam também sobre uma situação específica que viveram no dia do casamento, em junho de 2021, quando a pandemia deu uma flexibilizada e elas completaram um ano de namoro. Casaram no dia das namoradas (sem lembrar que seria dia das namoradas), e por uma seleção do cartório mais próximo da região acabaram indo para um bairro classe média-alta. Estavam com muito medo de como seria a recepção, como as pessoas iriam reagir - o nervosismo estava maior perante o medo do preconceito que até sobre a situação do casamento em si. Quando chegaram, foram tão bem recepcionadas por uma mulher que não se sentiram nenhum pouco reprimidas e acabaram tendo uma experiência maravilhosa. Sentiram isso de forma muito empolgada, acolhedora, diferente. E desejam que todos os casais pudessem ter uma experiência assim. ↓ rolar para baixo ↓ Stefany Luma
- Camilla e Karol | Documentadas
Amor de Calma e Maresia - Camilla e Karol clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Jamy e Rebecca | Documentadas
Amor de Festa - Jamy e Rebecca clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Beatriz e Marina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marina e Beatriz, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quando estávamos fazendo as fotos ela brincou com a Bia dizendo para fazermos algumas fotos dançando e a Bia argumentou que ela não dançava com ninguém “só contigo”, e na fala da Marina ela traz essa ocasião, sobre a Bia se permitir à dança. E nesse permitir-se damos gancho ao assunto de que estamos em busca de nos permitirmos porque queremos justamente nos entender, nos cavucar, nos desvendar. E chegamos ao questionamento de: por que, na sociedade em geral, tão pouco as pessoas se permitem? Então entendemos também que o amor, de alguma forma, dialoga com estar dispostas a despertar coisas na gente para mudar o outro também. Um não-querer ser quadrado o tempo todo, estar limitado ou não ser um ser-pensante. Brincamos com a palavra “gelecas” porque Marina diz se sentir uma geleca, sempre em mil movimentos e não-sólida, como algo que consegue se moldar - mudar. Por fim, ficou a sensação de não querer nunca que essa “geleca” cristalize, se conforme, se adeque. Estejam sempre se transformando para que transforme, também, os outros. Por fim, entramos em um papo muito importante sobre o amor e sobre como as relações acontecem - não só afetivamente, mas como nos permitimos estar uns com os outros. A Bia entende o amor enquanto reconhecimento e enquanto uma força muito grande, uma vontade de estar de verdade com alguém - no companheirismo, na vontade de fazer coisas juntas - e de reconhecer, mesmo se não entender. Ela acha que a base do amor é a confiança e o diálogo e que, para além disso, nas relações com mulheres, sejam amigas, as mulheres da família, ou relações amorosas, existe uma força em querer se fazer o bem sempre. Essa força envolve o zelo, a escuta e o querer-justiça. São relações que ela preza muito. Para a Marina, existem duas coisas que estão muito relacionadas com o amor: a permissão e a pressa. A pressa, na verdade, é a espera, o ritmo, o tempo. Temos que aprender a esperar as coisas, a entender o ritmo do outro, a se adaptar ao ritmo do outro também… porque quando temos pressa, acabamos por cortar um pouco a graça das coisas, atropelar e deixar sem sentido. Já a permissão entra enquanto uma importância em se entregar, em tirar tabus, tanto sexual quanto emocionalmente: ter a confiança e a leveza de se permitir. Em seguida do começo do namoro (e no dia seguinte que o foraBolsonaro foi eleito), elas alugaram um carro e fizeram uma viagem para a Bahia. Foi muito importante ter esse momento não só pela situação tensa que todas nós mulheres estávamos passando (e elas, tendo uma a outra, estando juntas, se acolhiam e se ajudavam), mas por ser uma forma diferente de dar início ao relacionamento. Ao decorrer de toda a relação tudo sempre foi construído com muito diálogo e conversa. Elas estão juntas em muitos momentos e contam uma com a outra para tudo. Inclusive, o apartamento surgiu em um momento muito especial de mudanças e de olharem para si e entenderem que seria um passo importante morarem juntas. Foram meses procurando um lugar que fizesse sentido, que elas pudessem arcar com os valores e quando acharam esse, foi um completo acolhimento. Tudo nele tem a carinha delas e cada detalhe é pensado em conjunto. As duas são mulheres muito divertidas e acreditam que isso possa estar ligado à forma que, tanto elas foram criadas, quanto ao meio que estão inseridas. Acreditam no corpo enquanto livre e sem julgamentos e para elas é muito importante que as pessoas estejam realmente à vontade. A Bia conta que sua construção enquanto ser e suas maiores inspirações vêm da irmã e também da amiga, Mariana, que é colega de trabalho e quem a colocou dentro da agência. É uma pessoa que traz bastante admiração pelo estilo de vida, pelas questões profissionais dentro da fotografia e por tudo o que já ensinou. Já a Marina contou que ter feito balé desde criança a fez ter muita disciplina e aprender muito sobre a forma de lidar com os outros e ter responsabilidades, por isso também as professoras que a acompanharam durante todo esse processo são de grande importância para que ela tenha se tornado a mulher que se tornou. Ela fala sobre o quanto o olhar das professoras moldou o olhar que ela tem sobre as coisas. Além disso, a avó dela também é fonte de inspiração diária, por ser uma mulher da roça, sempre muito alegre, e sendo uma mulher não-branca, muito forte, que carrega muitas coisas na sua existência. No começo do relacionamento delas, ou melhor, antes de ser realmente um relacionamento sério, quando perceberam que estavam bastante envolvidas, surgiu uma certa insegurança. E aí dialogaram sobre o que fazer: encaravam? desistiam e seguiam suas vidas? Foi quando entenderam que estavam dispostas a encarar e começar algo em conjunto. Um tempo depois de ter terminado um relacionamento, a Bia se reconectou com uma amiga da escola e essa amiga estava namorando uma menina que era de Vitória e trabalhava na mesma empresa que a Marina, então a amiga e a namorada tiveram a ideia de apresentar as duas e uni-las enquanto um casal. A versão da história contada pela Bia é bastante simples: a amiga dela mandou uma mensagem falando da Marina e passando o Instagram dela para a Bia seguir e conhecer. Ela achou a Marina bonita, curtiu, mas não começou a seguir na hora. Um tempo depois a Marina começou a seguir ela e ela seguiu de volta. Foi isso. A versão da Marina, por mais que seja com o fim semelhante, começou de outra forma. Ela estava em uma fase que se permitiu se envolver e conhecer novas pessoas, mas estava indecisa ainda e uma amiga aleatória, naquela semana, chegou dizendo que tinha alguém para lhe apresentar. Quando mostrou o Instagram de uma menina, ela olhou e achou ok, mas não teve muito interesse, porém a menina tinha uma foto com outras pessoas marcadas e nessa foto estava a Bia, foi aí que ela entrou no Instagram da Bia, se interessou e passou a segui-la. No dia seguinte, ao encontrar a amiga em comum que ela e Bia tem, essa amiga disse que queria apresentar uma pessoa para ela e ela ainda brincou “nossa, o que tá acontecendo essa semana, que todo mundo quer me apresentar alguém?!” e quando viu o Instagram ficou em choque, porque era logo a menina que ela tinha seguido. Pensou: ok, eu realmente preciso conhecer essa menina, de alguma forma ou de outra, a gente vai ter que se encontrar! E foi então que Bia começou a segui-la de volta. Numa interação de stories sobre gatos, elas marcaram de sair. E o que era para ser um encontro em um restaurante todo bonito, bacana e conceituado, deu errado, mas deu certo: o restaurante estava fechado e o único lugar próximo era um boteco super “pé sujo”. Elas se deram tão bem que ficaram no bar até 4h da manhã, foram para a casa da Marina, a Bia saiu de lá no dia seguinte e, para fechar com chave de ouro o date de sucesso, saiu com as roupas da Marina porque o gato tinha feito xixi em todas as roupas dela. A Bia e a Marina são duas mulheres incríveis em cada detalhe do que constróem dentro do relacionamento e dentro do lar, desde o cuidado que têm com a casa, com o preparo da comida, com a forma que se tratam, até em suas visões de mundo, de poder de escuta ativa e da forma que lidam com as pessoas e com os animais. O encontro delas aconteceu por intermédio das amigas, mas ao decorrer da explicação a gente entende que era mesmo para ter acontecido. A Bia tem 24 anos, é carioca, fotógrafa e trabalha enquanto assistente em uma agência que presta trabalhos visuais para marcas de moda. Adora videogame, sonecas durante o dia, ler e acompanhar a Marina nas aventuras na cozinha. Marina tem 29 anos, é natural de Vitória, no Espírito Santo, mas mora no Rio de Janeiro desde 2014, quando cursou a pós-graduação. Ela trabalha enquanto publicitária e produtora, ama cozinhar, principalmente inventar receitas, quase como uma alquimia, testando comidas e temperos. O que ela e a Bia mais amam fazer juntas é assistir reality shows: de todos os tipos possíveis. Fora da galeria Bia Marina
- Raquel e Rachel
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Raquel e da Rachel, quando o projeto passou por São Paulo! O sorriso que ele soltou naquele momento foi revolucionário. A cada momento em que eles se permitiam, esse amor se tornou revolucionário. O casamento delas, os convidados, o significado diário da casa, tudo isso é revolucionário, porque para elas estarem ali em um momento tão importante, sendo respeitadas, amando e podendo unir-se perante o matrimônio em si, muitas pessoas tiveram que lutar. E seguimos lutando pelas tantas mulheres que um dia poderão amar livremente, com suas famílias apoiando e se emocionando. A Rachel, termina falando sobre esse momento, bastante emocionada, mas me disse algo que marcou bastante e ecoou durante semanas na minha cabeça, uma coisa simples que a gente esquece: a ideia de que a vida é uma só. E que a gente não pode parar. Não vale a pena deixar pra depois, tem que amar mesmo, amar com vontade. O único egoísmo que a gente tem que ter é o de querer fazer o bem pra nós mesmas. Infelizmente, o pai da Rachel se tornou uma das vítimas da Covid-19 no Brasil. O Documentadas gostaria de homenageá-lo enquanto o homem forte, durão, porém com sorrisão, que tanto ouvimos falar bem ♥ e temos a certeza de que, de onde ele estiver, ele está tão orgulhoso quanto o dia que viu a Rachel dizendo “sim” durante o casamento: com a certeza de que criou e educou uma filha bem demais! À todas e todos que perderam algum familiar ou amigo para o Covid-19, nosso abraço e carinho. Seguimos juntas. ♥ Rachel, você é. É porque acontece! É porque é grandiosa! É! É um montão de coisa boa. Ou melhor, Raquéis, vocês são! :D Falamos bastante aqui sobre os pais da Kel, mas a família da Rachel também tem um papel incrível e emocionante nessa história. A Rachel foi adotada ainda bebê e os pais dela são mais velhos, assim como os irmãos. O processo de descobrimento e de saída do armário dela, ainda mais nova, em tempos diferentes e realidades diferentes, exigem outra perspectiva e outro entendimento. Com a chegada da Kel e do relacionamento delas, foi a primeira vez em que a família da Rachel realmente se abriu para a aceitação da sexualidade dela enquanto uma nova formação de família e principalmente o pai, por ser um homem mais fechado, permitiu-se abrir a novos pensamentos e novas vivências, mas não só: as meninas brincam que toda vez que a Kel chegava na casa deles ele abria era logo um sorriso de orelha a orelha. Ressignificação de lar. Esse é o nome do que ela sentiu. A Kel trouxe um presente gigantesco: ajudar ela a ressignificar a relação com a família de uma forma única. Durante o casamento delas foi muito legal ver a forma que eles se permitiram e se entregaram. O maior presente de todos foi a presença deles lá, estando à vontade, felizes e orgulhosos. Existe um vídeo, do qual as duas estavam de costas para o público e de frente para o cerimonialista e tem a imagem do quanto ele se emociona estando feliz quando a Rachel diz sim. Poucas vezes temos exemplos tão nítidos do quanto o amor entre mulheres pode revolucionar a vida das pessoas, e esse, com certeza, é um dos melhores exemplos que temos. ♥ O relacionamento foi se desenvolvendo e com o passar do tempo cada vez mais as duas se viam apaixonadas e entendiam o quanto a vida é realmente feliz uma do lado da outra. A Rachel comenta o quanto sempre foi claro para ela o amor nítido que sentia, o quanto isso realmente significava algo revolucionário, desde aquela época. A Kel conta que sentia o amor enquanto um sentimento puro. Com respeito, com cuidado. E a Rachel completa que por mais que o amor não tenha gênero e nem sexo, ele acontece principalmente quando você se vê capaz de amar uma pessoa na íntegra. Por fim, a Kel diz que Deus nos fez para amar o próximo e ela realmente acredita que, além de nos amarmos por ser o melhor a ser feito, amar é também um encontro de almas. Mas que de qualquer forma, independente da relação que você tiver, ela não pode ser pesada. Os encontros nas nossas vidas devem servir para nos acrescentar, não para nos pesar - e serem leves. “Se nascemos sozinhas, temos que estar bem sozinhas. Se for pra ser pesado e fazer mal, não vá. Você tem que ser leve, em geral, tem que te fazer bem! Pode ser que tenha um dia ou outro ruim, mas nunca que te faça mal.” Foi em um período pensando sobre o amor e sobre o quanto gostaria de viver para sempre essa relação com a Kel que a Rachel tomou a decisão de fazer o segundo pedido, mas dessa vez, o de casamento! Para o pedido de casamento acontecer, contou com seus dois grandes aliados: os sogros! Então ela ligou para o pai da Kel e disse: “quero pedir a sua filha em casamento, mas quero pedir a sua bênção, a sua ajuda, a sua permissão. Ela não sabe e não pode saber. Quero ter certeza que para você está tudo bem.” Foi um novo choque, mas ele topou: “conta com a gente, estamos do teu lado! E eu quero te dar o champagne!”. Ela ligou para a sogra e o pedido também foi feito. Ambos ajudaram na preparação, escolheram alianças e a surpresa foi montada. No fim de 2018, a Rachel levou a Kel para ver um nascer do sol na praia, totalmente vazia, no interior de São Paulo. Quando elas chegaram, sentaram na areia, tudo estava no carro preparadinho e ela decidiu levantar e preparou uma cartinha para ler. Estava tremendo muito, a Kel achou fofo mas não imaginou que fosse logo um pedido assim… quando o pedido foi feito, o sol estalou e brilhou muito forte, se abriu e ela disse sim. ♥ Foram duas alianças de noivado e elas não ajoelharam, para que tudo fosse de igual para igual. Em São Paulo, todos já aguardavam notícias. O casamento aconteceu em setembro de 2019, em uma festa para os amigos mais queridos e em um dia muito especial. Tudo foi preparado pensando em cada detalhe e todos se divertiram muito. O encontro da Rachel com o pai da Kel foi muito importante para que ele também entendesse que a Kel nunca deixou de amar as pessoas enquanto seres humanos. Por mais que pudesse soar que ela estava em um momento mais carente, ele de alguma forma ficou preocupado pela Rachel ter terminado um noivado por alguém que pudesse estar “em dúvida”. A conversa foi muito importante para explicar a existência da bissexualidade em si e as formas de amar, de deixar ele mais tranquilo como um todo vendo a construção do relacionamento das duas. A conversa fez com que ele falasse com a mãe da Kel e ela foi se abrindo para a ideia, até chamou a Rachel para comer uma pizza com elas e se deram muito bem. Foi uma chuva de elogios gigantesca para esses dois ♥ pessoas muito generosas e que estiveram o tempo todo na base e no apoio dessas mulheres que esbanjam amor. Essa “saída do armário” aconteceu apenas com os pais da Kel, isso é bastante importante e legal de ressaltar. Ela nunca precisou fazer esse movimento com os amigos. Apenas disse que levaria alguém no bar/no churrasco/no evento e chegava com a Rachel, não precisava dar nenhum tipo de satisfação ou explicar, assim como uma pessoa heterossexual não explica que vai chegar com um namorado homem. Ela chegava de mãos dadas e em dois minutos todos já estavam adorando as duas, porque viam o quanto elas se davam bem, tratavam os outros bem e se divertiam juntas. A história da Kel e da Rachel começou um pouco antes e, por incrível que pareça, através do pai da Kel. O ano era 2016 e ele fazia aula de hidroginástica e quem dava essas aulas era a Rachel. Ambos se davam muito bem, brincavam, faziam piadas, se viam toda semana e ele sempre comentava com ela que queria muito levar a filha dele para fazer aula um dia porque acreditava que elas pudessem se tornar grandes amigas. Quando a Kel finalmente foi nessa aula, de fato elas se deram muito bem! A amizade surgiu logo de cara, não foi algo com segundas intenções. Primeiro porque a Rachel nunca cogitava se envolver com alguém em seu ambiente de trabalho e segundo porque ela também estava em um relacionamento de anos. Nas semanas seguintes a Kel iria voltar para as aulas, mas colocou alguns piercings e precisou ficar afastada da piscina por um tempo, então elas tiveram aquele contato inicial e passaram alguns dias afastadas. Neste meio-tempo, a Rachel, que estava no relacionamento, passava por um momento diferente. O relacionamento que vivia um processo muito mais de amizade que relação entre casal envolvendo paixão em si, foi surpreendido com um pedido de casamento! E esse pedido veio em um sentido de tentar dar um novo rumo para a relação, uma última chance. Envolvia um carinho bastante grande, mas não aquele impulso e desejo brilhando o olhar, foi uma tentativa de recuperação. Ela aceitou o pedido e colocou a aliança no dedo, mas não contou para os colegas de trabalho sobre. Estava em um processo mais intimista. Foi então, durante uma aula, que o pai da Kel logo observador e brincalhão percebeu o anel de ouro na mão e chegou perguntando o que era essa novidade que ela tinha para contar. Como ninguém sabia do seu relacionamento com uma mulher, ela - para todos os efeitos - estava noiva de um homem. Quando a Kel voltou, já sabendo da novidade pois o pai comentou em casa, teve a aula esperando que a Rachel comentasse. Animada, a cada intervalo esperava ouvir sobre o pedido, mas nada aconteceu... nem se quer comentou. E então ela questionou, já que gostava tanto de casamentos, não conseguia entender como alguém não compartilhava algo tão emocionante… e foi aí que a Rachel sentiu que podia confiar na amizade (mesmo que ainda breve) delas e elas marcaram um café depois da aula, lá que ela contou: “rolou sim o pedido e sim, aceitei. Mas eu vou me casar com uma mulher”. Logo depois do primeiro beijo a Kel foi para uma viagem com os pais, enquanto a Rachel conversou e terminou o seu relacionamento. Foi tudo com bastante comunicação e ambas entenderam que era o melhor a se fazer. Quando a Rachel e a Kel lembram sobre o começo do namoro, contam como tudo era muito especial. Os primeiros beijos foram muito marcantes, eram como os melhores beijos da vida, algo que elas nunca tinham sentido. Uns meses depois de estarem juntas e quando já se sentiram mais à vontade, relaxadas e tranquilas, a Rachel fez o pedido de namoro num lugar muito especial para elas e do jeito que a Kel sempre sonhou: aqueeeele pedido! Flores, champagne, alianças, tudo! Ela aceitou ♥ Um tempo depois, decidiram contar aos pais da Kel, visto que era muito importante para ela que a família soubesse do relacionamento. Elas não imaginavam como eles poderiam reagir, ainda mais por ser algo que nunca tivessem esperado e imaginado, mas compreendiam que eles fossem ter o tempo necessário para processar e elas estariam por perto dando suporte. No começo, eles sentiram um choque, ficaram mudos, não falaram nada. Mas também não brigaram, tentaram entender e ouvir ela. Os próximos dias foram difíceis pelo pai da Kel ter aula com a Rachel, mas em nenhum momento ele foi desrespeitoso, só deixou de fazer tantas brincadeiras com ela. No fim da aula, ela chamou ele para conversar e disse que estava disposta a tomar um café quando ele quisesse, no tempo dele, para falarem sobre. Ele agradeceu e explicou que ainda não estava preparado, mas que iria chamá-la quando estivesse. Uma semana depois o encontro aconteceu, tomaram um café e a Rachel se sentiu à vontade para contar a história dela, como ela se entendeu, se descobriu e o que ela sentia pela Kel. Explicou também que não era uma brincadeira, uma maldade, uma paixonite. Ele se mostrou muito aberto a entender o que ambas sentiam. A Kel conta que nesse dia, quando ela soube sobre a sexualidade da Rachel, algo nela despertou como “caramba, a primeira mulher que cheguei a pensar sobre achar interessante também fica com mulheres... mas está noiva e vai casar! Sigo meu baile, quem sabe com ela posso compartilhar esse tipo de coisa futuramente.” e com o passar do tempo a amizade entre elas foi crescendo. Depois da aula elas marcavam cafés, a Rachel dava caronas para a Kel até em casa e tudo era bastante saudável. Quanto mais aulas elas faziam juntas, mais se viam e conversavam, foi despertando vontades de se falar via Whatsapp e de se encontrar em outros momentos também - por mais que os encontros fossem sempre limitados às aulas. Mas isso fez com que surgisse algo como uma certa paixão antes mesmo de se envolverem fisicamente, já existia ali o começo de um sentimento. A Rachel não queria tomar nenhuma atitude por conta do seu relacionamento, não achava justo se envolver em uma traição. Nunca quis isso e por mais que estivesse cada vez mais claro que a relação não teria futuro, não queria que acabasse de forma tão ruim. Além disso, ela também não sabia se o sentimento era algo da cabeça dela ou se a Kel também estava envolvida da mesma forma, se um beijo colocaria em risco a amizade que elas construíram ou como ficariam. Não queria perder: nem o relacionamento, nem a amizade. Foi durante um feriado que resolveu conversar com a Kel e falar sobre o que estava sentindo e ambas concordaram que na próxima vez em que estivessem juntas resolveriam se aconteceria o beijo ou não. Até que o dia chegou e, no último minuto possível do tempo em que tinham para ficarem juntas, aconteceu! E a partir daí elas tinham certeza: era, realmente, para estarem juntas. Rachel e Raquel. Raquéis. Quando a Kel entrou em contato com o Documentadas, ela brincou: “queríamos contar nossa história para vocês! Temos poucas coisas em comum, além do nome, mas garantimos uma história legal!”. Achei que o nome se limitasse ao Raquel, mas quanta ingenuidade a minha. Depois do casamento virou o mesmo nome e sobrenome! Agora, ao menos para as autoridades, são quase-que a mesma pessoa. Na nossa documentação para que a história não fique confusa, identificamos a Rachel sempre dessa forma: com ch. E a Raquel enquanto Kel :) Bom, a Rachel é paulista, professora de natação, adora a natureza, sempre curtiu diversos esportes. Ela já teve outros relacionamentos com mulheres, mas nunca foi uma pessoa que falava sobre isso nos espaços de trabalho e que militava ativamente na pauta LGBT. Ela mantinha seus relacionamentos de forma estável fora do ambiente profissional (e tudo bem assim!). No mais, sempre foi apaixonada pelo mundo e por viagens, por conhecer lugares novos e por estar fazendo novas amizades. Já a Kel também é paulista, publicitária, sempre foi uma pessoa apaixonada por histórias de amor e por casais - sabe aquela amiga perfeita para ser madrinha de casamento? Aquela que se empolga na organização, quer saber todos os detalhes sobre o pedido e que cada momento seja perfeito? É ela. Na vida da Kel, antes de ela conhecer a Rachel ela nunca tinha se imaginado em um relacionamento com outra mulher - nem tinha afetivamente se envolvido por uma mulher - mas sempre soube que era apaixonada pelas pessoas em suas formas diversas de ser. Rolar Rachel Raquel
- Gabi e Gabriela | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Começo essa história dizendo que é muito difícil documentar duas pessoas com o mesmo nome, então para ser uma leitura mais fácil, vou identificá-las de forma diferente, ok? Gabriela e Gabi. Gabriela tem cabelos longos, um black cacheado. Ela estava com 27 anos no momento da documentação, estuda Letras na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (local em que fizemos as fotos), possui dois filhos (gêmeos) e ama livros, poesia, literatura… também ama dançar - algo que vê em comum com a Gabi - e andar de patins. É natural de Duque de Caxias, na baixada fluminense. Gabi tem cabelo curto, também cacheado. Ela é natural de Nilópolis, baixada fluminense. Estava com 31 anos no momento da documentação e trabalha como cinegrafista e editora de vídeo. Adora andar de skate e fala sobre ser uma mulher tranquila, “de boas”, não é uma pessoa que faz muitos planos, mas está sempre disposta a fazer algo. O hobbie pelo patins e pelo skate foi algo que aproximou bastante elas no começo. Antes mesmo de engatar o namoro, já se imaginavam andando juntas por aí. Gabriela tinha muito receio sobre como seria o namoro e a reação das crianças ao saber. Foi o primeiro relacionamento que viveu desde a separação, procurou páginas sobre madrastas e queria entender como seria. No fim, tudo foi de forma muito natural. Entende que as crianças são genuínas, ficam felizes ao receber amor e retribuem num sentimento puro. Foi assim, numa saída ao shopping, que se conheceram e adoraram a Gabi. Se sentiram confortáveis, o que fez elas entenderem que só os adultos enxergam problema no amor. Também acham incrível ter dois meninos em contato com uma relação tão bonita fazendo-os crescer longe de preconceitos. Gabi conta a maior parte da história e depois pergunta se era pra ser assim, eu rio e digo que pode ser, sim. E ela completa: “É que me empolgo muito falando de nós.” Em outubro de 2024, num aplicativo de relacionamento, conversaram pela primeira vez. Gabi estava desacreditada, achava que aplicativos serviam apenas para fazer amizade (e olhe lá!). Gabriela, por sua vez, demorava um pouco para responder (o que alimentou o sentimento de que não ia dar em nada). Achava que Gabi respondia muito seca e não alimentava tanto assim as conversas. Foi num momento, falando sobre as regiões onde moram, que Gabi analisou e disse “É muito longe!”, quando Gabriela respondeu: “Depende do ponto de vista”. A partir disso, o tom da conversa mudou. Gabi entendeu que Gabriela queria conhecê-la. Passaram alguns dias conversando online, até que Gabriela comentou que teria um horário vago na faculdade no dia seguinte e perguntou se Gabi não queria ir lá, passarem um momento juntas. Gabi pensou “Já?? Essa menina quer mesmo me conhecer??”, então pediu conselhos aos amigos e topou o encontro. Quando chegou, pensou que reconheceria ela pelo cabelo e quando viu ela chegando virou de costas para fingir surpresa. Decidiram almoçar num fast-food próximo, Gabriela teve seu lanche lotado de alface e ficou com vergonha de comer - isso vira piada até hoje. Riem lembrando e pontuando que no fim Gabi disse que não precisava ter vergonha e toda a situação acabou fazendo com que elas ficassem mais à vontade. Durante as conversas comentaram sobre relacionamentos que já tinham tido e sempre que a Gabriela falava dos seus, se referia à homens. Então Gabi pensou: “Essa menina é hétero, tudo bem, vamos ser só amigas”. Depois do primeiro encontro, que não rolou beijo, comentaram online que gostariam de ter se beijado e que seria ótimo se reencontrar. Foi quando Gabi convidou Gabriela para ir à Feira de Tradições Nordestinas, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, junto com suas amigas. Pensou: “Ou ela fica comigo, ou não vai me ver nunca mais - porque minhas amigas são doidas!”. Gabi dançou, se divertiu e Gabriela ficou mais quietinha. Tentaram se beijar, mas o nervosismo falou mais alto. O beijo aconteceu, finalmente, no fim da noite, madrugada adentro. Continuaram se encontrando e na virada do ano, estando em lugares diferentes, Gabi enviou um vídeo com vários momentos das duas, pedindo Gabriela em namoro. Ela aceitou. Entendem que mesmo sendo um relacionamento recente, já passaram por vários momentos importantes, inclusive o preconceito familiar sobre terem uma relação sendo duas mulheres. Gabriela vem de uma família cristã e em casa tem sua relação ignorada, não falam sobre. Ela explica que não deseja romper com sua família, afinal são unidos e suportes uns dos outros, então está priorizando entender o espaço e o tempo que as pessoas levam para processar. Ambas ficam tristes porque queriam estar se introduzindo mais na vida familiar, mas possuem a esperança de isso acontecer com o tempo. Por outro lado, Gabi apoia muito a maternidade da Gabriela, adora os momentos que vivem juntas com as crianças, andando de mãos dadas, por exemplo. Se alguém perguntar se Gabi está feliz, ela só sorri: está explícito. Entendem que um dos pontos altos da relação é a conversa. Se sentem muito bem juntas, brincam, riem, sentem que são parecidas e ao mesmo tempo diferentes. Nunca brigaram, mas já tiveram conversas bem difíceis e entendem a importância disso. A relação veio como algo muito novo para a Gabriela. Ela conta que sempre sentiu atração por mulheres, mas foi criada num lar que achava muito errado esse tipo de amor. Foi retraindo esse sentimento e só depois da sua separação chegou à conclusão de que muitas vivências são dela enquanto indivíduo, não precisa passar pelo o que a família ou a sociedade acha sobre. Decidiu ser cada vez mais fiel ao que ela realmente é. Não quer mais sentir rivalidades entre mulheres ou viver pensando no que um homem gostaria. Gabi, mesmo já tendo vivido outros relacionamentos com mulheres, sente que esse é o mais leve, com uma comunicação aberta que possibilita ela ser quem é sem medo. Não sente que está abandonando seu “eu” para ser o que os outros querem, ama a Gabriela da forma que ela é e entende que as duas ficam à vontade juntas. Acha muito bacana quando encontra o amor no dia a dia: fazendo uma comida esperando a Gabriela chegar, ou nos momentos juntas, com as crianças… Entende que por mais que isso seja o básico, muita gente não conhece esse tipo de cuidado, então sabem valorizar. Gabi sempre quis ser mãe de gêmeos, dois meninos, e entende que a relação é um presente do destino. Adora quando as crianças pedem pra ela ficar. Explica que existe e Gabriela e mais dois serzinhos nesse “combo”, três pessoas diferentes que ela ama e respeita. Gabriela fala sobre como é diferente sentir o preconceito racial e de gênero quando estão juntas na rua, sendo duas mulheres negras se amando. Cita um dia na praia, uma mulher encarando-as de ‘cara feia’, apenas por estarem juntas e felizes. Não entende porque esse amor incomoda tanto e também não vai mudar por conta dos olhares. Deseja - e tenta manter a esperança - de que um dia esse preconceito saia da sociedade, é por isso, também, que cria seus filhos de maneira diferente para que eles sejam símbolo de mudança. O racismo está sempre presente nos lugares de vivência e de trabalho, então Gabi completa sobre tudo ser mais simples quando se existe o respeito. Respeitar as conquistas, as escolhas. Não gosta de se sentir impotente diante às situações que vivem. Sente que precisa se esforçar muito mais para ser reconhecida no meio profissional, que não adianta ter um trabalho bom, precisa entregar um resultado melhor ainda que o esperado para quebrar o preconceito sobre quem ela é, como se veste, etc. Entendem que viver esse amor juntas é quebrar muitas questões sociais. Mesmo não sendo uma escolha, reconhecem que isso faz o amor que sentem ficar ainda mais forte e revolucionário. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Gabi
- Rhanna e Lais | Documentadas
Rhanna viu Lais pela primeira vez numa prova de concurso em Salvador, em 2017. Na época, tinha um relacionamento aberto com a companheira, que morava no Rio, e achou as duas muito parecidas… Um tempo depois, foi visitar a companheira e viu Lais novamente, numa coincidência estranha, num bar na Lapa. Ela nem imaginava, mas Lais morava no Rio também. Lais foi morar em Feira de Santana em 2018, por ter conseguido um trabalho novo. Durante o período de São João conheceu a festa O Bando Anunciador, um cortejo que acontece na cidade - e que era tema da pesquisa de Rhanna, nascida (e criada) em Feira. Nos dias que antecederam a festa, participaram de um evento juntas: uma mesa de debates. Quando Rhanna chegou e viu Lais, contou que a conhecia, já tinha visto ela nessas duas situações aleatórias em lugares tão diferentes. Lais achou bastante estranho, engraçado ao mesmo tempo, mas se deram bem e foram dividir a mesa de convidadas. Quando se encontraram novamente, na festa do Bando Anunciador, Lais foi roubada. Ficou indignada porque foi roubada por um menino, um “moleque”, que quis sair correndo na rua atrás dele, mas não o encontrou. Viu Rhanna, mas mal a cumprimentou. Quando chegou em casa se sentiu até mal, sabia que ela estava empolgada com a festa, era um dia que queria ter vivido. Foi pesquisar por ela nas redes sociais, pedir desculpas… mas não achava de jeito nenhum, principalmente pela dificuldade de escrever o nome: H, dois Ns… só conseguiu quando achou uma divulgação do evento que participaram juntas. Mandou uma mensagem se desculpando por estar emburrada daquela forma, contou o ocorrido e assim começaram a conversar. Desde antes da relação virar uma relação, amizade, ou qualquer outra coisa, o que deu certo e fez acontecer foi o fato delas sempre toparem as coisas. Tanto Rhanna, quanto Lais, são pessoas que falam: “Bora? Bora!”. A primeira vez que saíram foi para um show que geralmente as pessoas não iriam, mas a festa tinha a ver ainda com o cortejo do Bando Anunciador. Se divertiram por lá e começaram uma amizade. Lais sabia da relação de Rhanna e sempre pensava que não queria se meter, achava que poderia resultar em alguma confusão, por mais que sim, se sentisse um pouco envolvida por Rhanna. Demorou alguns meses para que começassem a se envolver de fato, houve o processo da paixão, de encerrar o outro relacionamento, de se permitirem viver a paixão e de transformar isso em namoro… Sentem que o tempo foi colaborando no processo, o fato de morarem próximas e estarem sempre juntas também foi grande aliado. Durante a pandemia de Covid-19 estiveram juntas em Feira de Santana, se mantiveram isoladas em uma casa com quintal, com um gatinho, cozinhando, com muito tempo para se conhecer… sentem um pouco de falta agora que a dinâmica do trabalho intenso toma conta. Em 2020, ainda durante a pandemia, fizeram parte de uma campanha política - que começou de forma online e passou por uma parte nas ruas. Ficaram boa parte do ano em campanha dentro de casa. Depois, quando foi necessário ir às ruas, alugaram uma kitnet em Salvador e chegaram para trabalhar presencialmente. A candidata para quem elas fizeram campanha foi eleita e no ano seguinte, em 2021, foram convidadas para fazer parte do novo mandato que se construiria na cidade. O apartamento que haviam alugado era temporário, apenas para a campanha, depois voltaram para Feira de Santana, mas como aceitaram a proposta de trabalho voltaram para Salvador no início do ano. Ficaram de 2021 até 2022, quando se mudaram oficialmente para o Rio de Janeiro, nessa nova proposta de trabalho diretamente com cultura e comunicação. Quando nos encontramos, no fim de 2024, estavam na preparação para a festa de casamento que aconteceria no começo de 2025 em Salvador. Lais sempre quis casar, brinca que tem essa vontade de fazer as coisas como uma família tradicional brasileira, mas a verdade é que quer ter tudo o que tem direito e o casamento é uma dessas coisas, casar é importante porque faz parte de um processo político, um reconhecimento de que essa relação existe. Lais enxerga o amor que vivem como algo revolucionário, ainda mais no momento em que estavam se preparando para o casamento. É muito importante falar sobre o amor com todas as letras. Explica que sempre falamos sobre o nosso amor “pela metade”, sempre falamos pouco, com medo de julgamento, com cuidado sob quem vai ouvir… e agora é o momento que estão falando abertamente e naturalmente sobre uma relação tão bonita que vivem. O casamento é o momento das famílias, dos amigos, de unir tantos mundos diferentes. Refletiu bastante ao convidar a família toda para a cerimônia. E viu que o dia se tornou uma afirmação, um dia que puderam reafirmar e sentirem celebradas, apoiadas por esse amor. Falamos sobre como o amor entre mulheres pode ser capaz de inverter uma lógica masculina, não precisamos nos guiar por ela - por mais que somos criadas num mundo patriarcal e que desde pequenas somos guiadas por questões masculinas - em relacionamentos com mulheres podemos nos reinventar e fazer diversas coisas como nos sentirmos melhor. Lais e Rhanna, por exemplo, possuem uma comunicação muito aberta sobre suas vivências, seja cotidiana em casa, seja suas relações no trabalho por trabalharem juntas… E tudo isso existe por não se cobrarem nos moldes de um sistema que nos coloca numa posição inferior. Já criaram seus próprios mecanismos internos na relação que para estarem sempre se impulsionando, admirando e principalmente se apaixonando uma pela outra pelas coisas que se “completam”, pelos seus detalhes. Finalizamos a conversa contando a história de Raj, que veio somar na família, cachorrinho que encontraram na estrada, levaram para a casa e tentaram buscar adoção, mas conquistou o coração. Ou seja: ele quem adotou elas. Lais estava com 33 anos no momento da documentação. É produtora cultural, trabalha com políticas públicas para a cultura na FUNARTE. É natural de Salvador, mas mora no Rio de Janeiro e fez sua mudança por conta do trabalho. Já havia morado no Rio em 2015, ficou até 2017 e se mudou para Feira de Santana, onde trabalhou no SESC. Adora teatro, fez teatro por alguns anos e acredita que escolheu sua profissão por conta disso. Rhanna estava com 33 anos no momento da documentação. É natural de Feira de Santana, interior da Bahia. Formou-se em direito, fez mestrado em Antropologia e começou a pesquisar sobre festas. Hoje em dia trabalha com cultura e comunicação na FUNARTE e gosta de transitar entre as festas populares, culturas, histórias… Já trabalhou com fotografia, arte de rua… Como ela e Lais se mudaram ao Rio para trabalhar, a rotina vive em torno do trabalho e da vida profissional, no tempo livre desejam descansar e planejar o momento de estar com suas famílias na Bahia. Nesse tempo de relação, foram 5 anos e 5 casas, contam que a vida é assim mesmo, corrida. Desde 2016, Lais conta que participou da ocupação do Ministério da Cultura no Rio, foi construindo sua vida e seus caminhos de lá pra cá, e hoje comemoram o fato de estarem completando quase dois anos num só lugar. ↓ rolar para baixo ↓ Rhanna Lais
- Laiô e Íris | Documentadas
A história da Laiô e da Íris começou de maneira inesperada, conectando caminhos por meio das redes sociais. Íris mantinha uma página onde compartilhava reflexões sobre relacionamentos não-monogâmicos e experiências pessoais. Laiô, que estava em um momento de autodescoberta após o término de uma relação, passou a acompanhar esse conteúdo. Entre os conteúdos postados, chamava muita atenção a forma que a Íris se expressava, não inicialmente por interesse romântico ou flerte, mas por admiração genuína, curiosidade e vontade de aprender sobre esse novo ‘universo’. Mas, por mais que acompanhasse os conteúdos, Laiô nunca interagiu com a página. Algum tempo depois, Íris apareceu no perfil de Laiô, e ambas começaram a se seguir. Trocaram algumas mensagens e, entre essas interações, perceberam que tinham amigas em comum, iam em lugares em comum - e até outros lugares que Laiô nunca tinha conhecido, o que deixou ela muito intrigada, pensando “Como essa menina chegou aqui em tão pouco tempo e tem conhecido mais coisas que eu?”. Quando finalmente se esbarraram, em setembro de 2023, foi num samba em Itacaré, onde fizemos a documentação acontecer. Foi Íris quem reconheceu Laiô (e até checou no Instagram pra ver se era ela mesmo). Se apresentou, dançaram juntas, mas a interação foi breve. Dias depois, se esbarraram novamente num show que Laiô estava fazendo, dessa vez em Serra Grande, município próximo à Itacaré e local onde Íris morava. Foi lá que Íris sentiu algo diferente, pensou: “Que pessoa interessante”. Cerca de 15 ou 20 dias depois se esbarraram novamente, dessa vez em Salvador. Laiô estava na cidade para mais shows e Ísis ia para lá com frequência, mas não esperava encontrá-la. Foi a terceira coincidência e então decidiram: era hora de marcar um encontro intencional. Tomaram café da manhã juntas e ali começou a se desenhar uma história que parecia ter sido escrita pelo acaso – ou pelo destino. Íris estava com 32 anos no momento da documentação. É natural do Rio de Janeiro, mas, com apenas seis meses de idade, mudou-se para Salvador, onde viveu a maior parte da sua vida. Psicóloga de formação, dedica seu trabalho ao atendimento da comunidade LGBTQIAPN+ e às questões relacionadas à não-monogamia. Teve sua trajetória profissional transformada ao longo do tempo, principalmente quando começou a se reconhecer como uma pessoa LGBT. Esses aspectos foram se refletindo em sua prática clínica, até se tornarem o foco integral de seus atendimentos. Durante a pandemia de Covid-19, com a migração para o formato online, surgiu também o desejo de sair da cidade grande e buscar um estilo de vida mais tranquilo e conectado à natureza, decidiu passar um tempo na Chapada Diamantina, voltou à Salvador, viajou mais um pouco e, finalmente, decidiu se estabelecer em Serra Grande, na Bahia. Hoje, ela vive com Laiô em Ilhéus - uma escolha que inicialmente não fazia parte de seus planos, já que considerava Ilhéus grande demais para o estilo de vida que idealizava - mas a vida e o trabalho de Laiô faziam mais sentido na cidade, e assim encontraram um equilíbrio. Laiô, no momento da documentação, estava com 37 anos. Nasceu em Ilhéus e foi criada em Uruçuca, vindo de uma família de produtores rurais das fazendas de cacau. Essa mesma família, acolheu sua identidade artística e acredita plenamente na pessoa que ela se tornou, investindo na sua educação com o desejo de oferecer um futuro diferente. Hoje ela trabalha enquanto cantora e compositora. Entende que é através da arte que define a forma como se expressa no mundo. Foi em Itacaré o local onde ela se descobriu artista, cantando pela primeira vez. O início do romance entre Íris e Laiô aconteceu num ritmo diferente, entre viagens e deslocamento, no que elas apelidaram de “romance viajante”. Íris precisou dividir seu tempo entre Serra Grande, Salvador e a Paraíba, para dar suporte à família em um processo de luto. Tudo aconteceu logo nas primeiras semanas em que estavam juntas e foi nesse vai e vem que viveram um amor viajante, encaixando encontros entre as viagens, sem saber ao certo o quanto aquilo duraria. Seguiram os primeiros meses assim, até o início de 2024, quando perceberam que os sentimentos estavam se enraizando e intensificando. Laiô apresentou Ilhéus para Íris e os encontros começaram a ganhar um significado maior. Uma situação marcou esse momento: em março, a mãe de Laiô fazia aniversário no dia 9, mas Laiô tinha um show importante em Salvador no dia 8. A única forma de voltar em tempo seria de carro e Íris prontamente se ofereceu para dirigir entendendo a importância da relação de Laiô com a mãe. Foi nesse momento que ambas perceberam o quanto a parceria entre elas já tinha se fortalecido, transformando o que antes era um romance casual em algo mais sólido. Laiô pensou: “Essa não é qualquer pessoa”. O encontro das duas aconteceu em um momento de transformações pessoais para ambas, e essa vulnerabilidade criou uma base de acolhimento e parceria. Mesmo com pouco tempo juntas, já havia um grande cuidado uma com a outra. Nos momentos difíceis de Íris, Laiô enviava músicas e poesias, fortalecendo o vínculo por meio dos gestos afetuosos. E esses detalhes fortaleceram o vínculo que era recente e que não estava fisicamente próximo. No dia em que documentaram essa história, inclusive, estavam finalizando a mudança para o apartamento onde passariam a viver juntas. Conversamos sobre como a convivência traz desafios, as mudanças não são fáceis; mas destacaram a importância de respeitar os tempos e ritmos individuais, enfrentando os conflitos com leveza e comunicação. Dividir o lar, para elas, é um aprendizado constante – e uma forma de construir, juntas, um lugar seguro. Foi ajustando suas rotinas para aproveitar os momentos em que Laiô e Íris encontraram a melhor forma de se adequar à semana corrida, já que trabalham em horários opostos – Laiô à noite, Íris durante o dia. Valorizam muito os cafés da manhã, que se tornaram quase um ritual de conexão. Mesmo quando Iris tem atendimentos mais cedo, ela dá um jeito de sentar à mesa, entre um compromisso e outro, para compartilhar esse momento. É ali que conversam, trocam olhares e se equilibram, criando um espaço de calma e proximidade no meio das rotinas agitadas. Elas veem sua relação como um convite constante à reflexão e ao cuidado mútuo. Foi através desse encontro que aprenderam mais sobre a não-monogamia, a horizontalidade dos afetos e a importância do tempo de qualidade com quem amam - sejam familiares, amigos ou seus animais de estimação. Por mais que estejam apaixonadas e vivam a intensidade de uma relação jovem, entendem que é essencial valorizar a liberdade individual e os outros vínculos que cada uma tem. Esse amor, cuidadoso e maduro, desafia o discurso a ser vivido na prática, lembrando-as de nunca abandonar o cuidado e a atenção com as pessoas ao seu redor. No dia anterior à documentação, Laiô viveu uma situação que as fez refletir sobre os desafios ainda presentes na cidade em que vivem. Enquanto caminhavam pelo centro indo comprar coisas da mudança, de mãos dadas, um homem que passava com sua esposa e seu filho disse: “Não pode não, só pode homem com mulher.” Inicialmente, Laiô pensou ser uma brincadeira vindo de alguém que a conhecia, estava distraída conversando algo sério com a Íris e só percebeu uns passos à frente a seriedade do comentário. Apesar da vontade de reagir, sentiu medo e seguiu em frente. Mais tarde, ficou pensando: o que fazia aquele homem se sentir confortável em dizer algo assim? Por que o simples ato de caminhar de mãos dadas era visto como uma afronta? Onde ela está vendo menos amor entre as duas do que ali, na família dela? Elas só estavam andando na rua. Num calçadão cheio de gente. Elas desejam que o futuro traga mais coragem e menos medo - elas caminhando de mãos dadas conseguiram ofender mais que se um casal heterossexual-cis estivesse se beijando de forma vulgar. O desejo que fica é mais coragem para amar e viver livremente, um mundo onde expressar afeto não seja motivo de ofensa, um lugar onde não tenhamos medo. ↓ rolar para baixo ↓ Laiô Íris
- Laira e Luanna
Quando documentei a Laira e a Luana, nos encontramos num restaurante em Curitiba do qual elas adoram frequentar. Naquele local, viveram diversos momentos: aniversário da Laira, jantas e almoços gostosos, mas o dia mais marcante foi no começo da relação delas, antes mesmo de namorarem, do qual se envolviam tendo encontros de forma mais descompromissada. Num 7 de setembro, a Laira foi para um ato conservador do então desgoverno, porque estuda sobre o movimento conservador e acha importante vê-lo de perto, e mesmo receosa de ir a Lua topou fazer companhia. Passaram três horas no ato, documentando cada cena que viam e conversando muito sobre como se sentiam no show de horrores. Uma não acreditava que a outra estava ali, se viam super deslocadas, mas seguiam na documentação. Depois disso, sentiram como um merecimento ir num lugar legal relaxar a mente, então foram ao restaurante. Tiveram várias conversas profundas sobre suas famílias, a sociedade, o descobrimento da negritude da Lua e a percepção da Laira de ter passado por questões abusivas no seu último relacionamento. Foi naquele dia, também, que elas falaram “eu te amo” pela primeira vez. Laira explica que é a primeira experiência que está tendo de estar num relacionamento do qual ela se sente realmente cuidada, não apenas cuidando de alguém. Sente que pode descansar, que não precisa estar sempre atenta, e que também merece o carinho que recebe. No momento da documentação, Luana estava com 25 anos. Ela é de São Bernardo do Campo, interior de São Paulo, mas mora há 7 anos em Curitiba. Conta que foi aprendendo a gostar da cidade, por ser muito bonita, mas pouco acolhedora. Vindo de uma família baiana, Lua sempre teve o acolhimento e o aconchego por perto, então tenta refletir isso nas suas relações. Sua formação é em Luteria, uma graduação específica para a fabricação de instrumentos musicais e atualmente está estudando para integrar a área de tecnologia de alguma empresa. Conta que não estar trabalhando é muito difícil e que é a primeira vez que fica sem um trabalho sustentando suas contas, mas recebe o apoio da Laira e entende que a estabilidade financeira permite que a gente sonhe, por isso está estudando para voltar a sonhar. Laira, por sua vez, no momento da documentação estava com 28 anos. Ela nasceu no interior de São Paulo, em Osasco, morou em Curitiba quando criança e voltou para São Paulo um tempo depois. Na sua trajetória, já morou em João Pessoa também e elogia o quanto foi acolhedor, porém, sentia uma ausência se lésbicas muito grande nos espaços que frequentava, não conhecia ambientes lésbicos e não via mulheres lésbicas ocupando espaços, acabou decidindo então se mudar para Curitiba, no fim do mestrado. Hoje em dia, Laira é cientista política, faz doutorado na Universidade de Brasília e pesquisa como o movimento conservador destrói as políticas públicas para mulheres - e como isso é organizado, também, internacionalmente: com práticas, leis, etc. Fala sobre a dificuldade que é ser pesquisadora no Brasil. Até 4 meses antes da documentação, nunca tinha tido sua carteira de trabalho assinada, por exemplo. Ora vivia de bolsas, ora de empregos que não passavam dos 2 mil reais de salário, o que fazia ela não conseguir bancar suas contas completamente e manter um vínculo com uma familia que por muitos momentos teve atitudes lesbofóbicas. Hoje em dia, com um salário digno, fica muito feliz em dizer o quanto está empoderada - trabalha com políticas públicas no iFood. Em comum, Laira e Lua são apaixonadas por câmeras fotográficas e filmadoras analógicas. Laira, inclusive, já produziu curtas em filme analógico e ganhou vários prêmios: com temáticas lésbicas, sobre mulheres e ciclismo e outras documentações. Lua adora usar a fotografia analógica para registrar o que está vendo no momento. Entende que, por mais que a foto analógica costuma ser mais pensada e projetada, gosta de registrar um olhar verdadeiro e natural. Além disso, possuem diversos hobbies e ocupações: atuam no Coletivo Cássia, com uma militância ativa, gostam de praticar esportes (Lua joga futebol e já foi um sonho ser jogadora profissional), tocam diveeeeersos instrumentos (violão, baixo, ukulele, teclado, surdo, caixa e trompete!) e adoram andar de bicicleta. A bicicleta e a militância estão com elas desde o primeiro encontro, literalmente. Foi durante a pandemia que a Laira se mudou para Curitiba e baixou o Tinder, deram match e o primeiro encontro foi num ato contra o ex-presidente, foraBolsonaro. Laira conta que adorou a bicicleta da Lua e que foi percebendo o quanto a Lua tinha presença, não era uma beleza estereotipada, mas dela, única. Naquela época, Laira tinha uma relação não-monogâmica (e a relação dela com a Lua também é), então os encontros com a Lua eram bem esporádicos. Quando passaram a se ver com maior frequência, viajaram juntas para o interior e ficaram numa casinha na beira do rio. Lá, pela primeira vez, a Lua entendeu que já estava apaixonada pela Laira. Foi onde construíram maior proximidade, ficaram na beira da fogueira, a Laira usando chapéu de palha e macacão, falando sobre a vida. Num momento específico das conversas, Laira disse que só não quer que as pessoas machuquem ela, porque não gosta de ser machucada, e isso marcou muito a Lua porque ela pensou que daqui pra frente faria de tudo para nunca machucar Laira. Contam como foi tudo muito simples: na viagem, depois, e até hoje. Tomaram banho de cachoeira, sentiram a simplicidade mover tudo. No momento da documentação faziam 4 meses que decidiram morar juntas e sentem que ainda vivem a simplicidade de forma boa. Quando decidiram morar juntas, Lua estava trabalhando enquanto cozinheira, mas não estava dando muito certo. Precisou sair do apartamento em que dividia com outras pessoas e a Laira a convidou para morarem juntas. Uniram a necessidade da mudança, com economia e o quanto desejavam estar juntas. Lua conta que é a primeira vez em que se sente em um lar de verdade: “Consigo transitar em todos os espaços e me sentir bem”. Laira também faz muita questão de que ela esteja bem, em casa. Juntas passam bastante tempo assistindo filmes no projetor na sala, também vão ao cinema, andam de bicicleta e cozinham. Nos últimos tempos fundaram um grupo de cicloativismo para mulheres lésbicas, dentro do Coletivo Cássia. Laira quer muito dar aula em universidades, falar sobre política, ver alunas se identificando em ter uma professora sapatona e gerar representatividade. Foi pela falta de representação de mulheres diretoras que começou a fazer filmes e percebeu isso em diversos espaços. Entende que se não ocuparmos espaços que antes eram masculinos, os espaços continuarão sendo masculinos. Fala também sobre o quanto já lutou para conseguir viver/sobreviver, em vários momentos pensou em desistir da vida por achar que não conseguiria se encaixar, ser feliz e realizar sonhos. Por isso, também, investe tanto na Lua fazendo os estudos para migrar de área, num sentido de nos apoiarmos: precisamos ser nós por nós e ela quer dar o acolhimento que puder enquanto possui condições para isso. Lua entende que o amor entre elas é sobre nunca deixar de lado quem são enquanto indivíduos - elas serem quem são deixa tudo mais potente e único. Não desejam se camuflar em outras pessoas ou coisas, por isso, vivem o amor a cada dia, sem tantas projeções futuras. Para Laira, o amor é sobre se permitir acompanhar a vida de outra pessoa. E isso não quer dizer que vai acompanhar todos os dias como uma novela, mas entender os momentos de mudanças, ver até mesmo o próprio acompanhamento mudando. Na relação com a Lua, identifica o acompanhamento vindo de muita resistência: é sobre estar viva, fortalecendo a resistência uma da outra, sendo parceira pelo o que passam em suas peles, com empatia. Por fim, terminam falando o quanto estão felizes em serem documentadas juntas. Se veem construindo algo muito legal e maduro, e não gostariam de ser documentadas com outras pessoas. ♥ ↓ rolar para baixo ↓ Laira Luanna
- Kamylla e Marcia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Kamylla e Marcia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Marcia e Kamylla se conheceram na faculdade, ambas cursando Engenharia na UFRJ, quando um amigo em comum perguntou para a Márcia se ela se interessava pela Kamylla (e por qual motivo elas nunca teriam ficado) e ela contou que não sabia quem era/que também nunca tinha pensado na possibilidade, foi aí, então, que se adicionaram nas redes sociais. Na época, final de 2019, Kamylla começou a se envolver com uma mulher e logo namoraram brevemente - o que descartou qualquer possibilidade para Márcia - mas elas seguiram ali, uma na rede social da outra. Foi um tempo depois, já na pandemia de Covid-19, que a Kamylla fez um post de madrugada no Facebook, dizendo se sentir uma idiota por conta de um desastre na cozinha e Márcia respondeu, obrigando-a pedir desculpa para si própria, porque ela não era uma idiota, não deveria se tratar assim. Nessa madrugada, elas começaram a conversar. Com a abertura da primeira conversa, surgiram outras: falavam principalmente sobre dúvidas que tinham em relação à faculdade. Márcia sentia que não queria falar apenas sobre a faculdade e sim demonstrar algum interesse além, foi quando pediu o Whatsapp da Kamylla, mas ela numa brincadeira/num flerte equivocado, disse que não iria passar. Continuaram conversando pelo Instagram e pelo Facebook, até que descobriram que moravam próximas e tinham coisas em comum. Como estavam num período de aulas interrompidas pelo início da pandemia, elas conversavam o tempo todo. Era uma conversa que durava o dia todo, tanto que, quando iam dormir, sonhavam que ainda estavam conversando. Por morarem próximas, depois de um tempo entre conversa e aproximação, decidiram se encontrar ao ar livre, indo até o local caminhando e usando máscaras. Tinham muito medo, pois seus familiares pertenciam aos grupos de risco, então tomaram muitos cuidados e se encontraram em praças do bairro. Aos poucos, com os encontros, foram se apaixonando e se permitindo uma aproximação mais física, mesmo que envergonhadas e tímidas, até que finalmente se envolveram. Desde que o namoro começou, já vivenciaram diversos momentos difíceis. Para a Kamylla, foi a partir dessas dificuldades que ela aprendeu a entender o que era o amor - e amar de verdade. Não diz isso com romantizações, pelo contrário, é de uma forma bem direta e real. Tudo o que elas já enfrentaram juntas, entre problemas de saúde física, saúde mental como depressão, ansiedade, vida financeira, ou outros extremos como felicidades e bons detalhes cotidianos - mas principalmente, as dificuldades - a faz entender que não é qualquer pessoa que conseguiria aguentar isso com ela. O sentimento que faz a coisa acontecer, elas continuarem ali e a vida seguir é o amor. E hoje em dia, ela não consegue se imaginar fazendo qualquer coisa sem a Márcia porque as coisas são mais divertidas com ela, uma segue ensinando a outra aos poucos o propósito do que é a vida. No lugar onde estávamos, o Forte de Copacabana, foi onde elas comemoraram o primeiro ano de namoro. Lá, Márcia deu um colar de concha para a Kamylla, essa concha representa um dia que foram até a praia e a encontraram na areia. O colar foi feito pela própria Márcia e, desde então, a Kamylla por trabalhar na Marinha e ter contato com a Baía de Guanabara encontra algumas conchas e traz para a Márcia de presente. É um símbolo que sempre as une. A relação que tanto a Kamylla, quanto a Márcia possuem com suas famílias é muito forte, e esse laço também se faz presente no quanto a família de ambas apoiam o relacionamento delas. Kamylla acredita que por serem pessoas humildes, sempre farão de tudo para ajudar uma à outra. Para ela, amar é também sempre estar disposta a ajudar, é a forma que ela pode demonstrar esse amor presente: se apresentar com disposição quando existir alguma dificuldade. Assim, ela já ajudou diversas formas não só a Márcia, como a família dela, e teve a ajuda da Márcia e de sua família como retorno - é uma grande parceria. Elas entendem que estarem juntas é o mais importante e, para a Márcia, não há como aceitar pouco no amor. “Quando amamos, amamos de verdade”. Ela explica que amar o próximo também fala muito sobre amor próprio, porque não podemos aceitar menos do que merecemos, e amar a si próprio faz com que você ame o outro melhor - até para evitar traços tóxicos, abusivos, ter mais carinho e melhor comunicação. Márcia gostaria de viver em um lugar com menos violência contra mulher. Está cansada de ver tantas situações diárias em que somos violentadas. Cita o caso recente do anestesista que violentou uma mulher grávida durante o parto, os casos de violência contra mulher que acontecem diariamente nas ruas ou dentro de casa, o racismo que não é levado a sério, os homens que não pagam pensão e não são punidos por isso… tudo é passado batido e não é cobrado como deveria ser, tratado com respeito e seriedade. Nos cansa lutar diariamente, mas é o que ela gostaria de ver mudando para que pudéssemos viver em um país mais justo. Já a Kamylla, fala um pouco sobre a sua rotina no trabalho, entre o que ela vivencia na Marinha. Lá, ela não é militar, mas também não vive em espaços de subordinação. Entende que isso é o correto: todos são tratados iguais e, mesmo que ela seja a única mulher e a única lésbica dentre todos os homens do seu setor, segue sendo tratada bem e é assim que precisa ser. Porém, também não há representatividade. Sente muita falta de ver mulheres em posição de liderança, de protagonismo, de voz. Cita Jaqueline Góes, biomédica que ela leva como referência, e o quanto é importante ver trabalhos de mulheres atingindo espaços que antes eram predominantemente masculinos. ↓ rolar para baixo ↓ Márcia Kamylla
- Marilia e Luana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marilia e Luana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Marília e Luana se encontram através das coisas que acreditam. Dentre tudo o que conversamos, o principal, talvez seja a forma que enxergam as pessoas. Poderia ser o trabalho - porque trabalham com o corpo - poderia ser o hobbie no skate ou até mesmo a família que construíram unindo suas famílias, mas no fim, toda a nossa conversa se resumiu em incentivar, de alguma forma, quem está ao nosso redor. Marília tem 34 anos, é do Rio de Janeiro e se formou em Educação Física. Atua enquanto professora de lutas e jiu-jitsu, dando aulas em escolas, academias e também em programas sociais. Ela circula por diversas áreas da cidade, da zona sul à zona norte, e gosta de debater sobre as diversas realidades. Durante a nossa conversa, disse que “O problema não é ser playboy, o problema é ser playboy otário. Não ter noção do que acontece fora da bolha da zona sul, não circular em outros lugares, não sair da realidade. É ótimo estar no conforto, mas é preciso estar sempre ajudando quando se têm pra ajudar” e é por isso que na posição dela de professora, faz de tudo para levar os alunos até outras escolas menos favorecidas e circular entre espaços, para que todos conheçam novas realidades. Marília é uma mulher que vive de luta e da luta, conheceu a luta através da escola pública e por conta disso faz questão de sempre voltar aos espaços sociais dando aulas gratuitas para mulheres e LGBTs de defesa pessoal, por exemplo, para incentivar mais pessoas. Luana tem 30 anos e é natural de Nova Iguaçu, baixada fluminense. Formou-se em turismo e também em dança e hoje dá aula para três segmentos - crianças (com ballet, por exemplo), mulheres (aula de ritmos, fit e powerdance) e coreografias para eventos (casamentos, bodas etc), atuando em Nova Iguaçu. Antes ela via a dança como um hobbie, porque junto da música a dança sempre esteve na sua vida; Mas entendeu que era diferente, a música está lá pela família dela ser composta de musicistas, ela adora cantar, mas nunca se viu na música enquanto cantora ou tocando instrumentos… já a dança, fazia parte do que ela era diariamente. Quando ela entendeu que isso não era um hobbie, a vida melhorou muito. Ambas são completamente apaixonadas pelo o que fazem e isso fica cada vez mais claro quando contam casos que aconteceram com alunas que tiveram por perto ou coisas que vivenciaram. A Marília, por exemplo, cita uma aula de defesa pessoal que deu para idosas no SESC de Madureira. Já a Luana, logo em seguida, engata no assunto sobre a forma que a mulher se enxerga diferente depois, “né?”, e que a dança também tem esse poder, não é só por uma questão de estética por exemplo, é uma autoestima para além do físico, que agrega à vida. Marília também contou sobre uma aluna específica, a primeira aluna que teve, uma mulher que ela formou desde o princípio e que acompanhou até virar faixa preta. Viu ela sair de um relacionamento abusivo, viu ela passar por vários momentos com seus filhos, foi muita história de vida acontecendo ali… e que incrível foi acompanhar tudo. Contou como é bom quando mulheres se impulsionam. Que a Luana teve um papel assim na vida dela também, quando recentemente ajudou a irmã dela a enfrentar desafios com o próprio corpo e que agora elas percebem a irmã se amando mais, estando mais disposta e que ela também se vê admirando ainda mais a Luana. Mesmo que elas se entendam enquanto pessoas bastante diferentes, se dão muitas chances de encontros pelo o que possuem em comum, principalmente no momento de propor coisas boas às outras pessoas. Nesses momentos, já se organizaram em abrigos do qual uma deu aula de dança e a outra deu aula de luta, a Marília já incentivou a Luana a trabalhar com crianças (ela topou e se apaixonou!)... e assim, elas ficam cada vez mais felizes em ver o quanto o relacionamento traz coisas tão boas às relações em volta delas. Luana não conhecia muitas mulheres no meio lésbico e foi seguindo um bloco de carnaval no Instagram, o Rebu, que ela viu a foto da Marília (cujo era musa do bloco) e, encantada pelo sorriso, procurou o perfil e resolveu segui-la. Marília seguiu de volta e elas começaram a interagir nos stories quando a pandemia começou. Foi num dia que Luana estava triste, por conta de um ocorrido por homofobia que sofrera em casa com o pai, que sentiu que precisava conversar com uma pessoa diferente dos amigos de sempre. Viu a Marília nas redes e cismou com ela, disse que ela passava certa confiança e então puxou um assunto. Foi pelo Instagram mesmo que elas conversaram e lá a Luana desabafou sobre o que estava sentindo naquele dia. A Marília conta que acolheu, mas que ao mesmo tempo pensava que era doido analisar/discutir sobre a homofobia familiar, porque no caso dela, é longe da realidade. Toda a família dela/das amigas lésbicas e bissexuais ao redor aceita e abraça o que elas são. Mas mesmo assim ela ficou ali do lado, conversou e no dia seguinte a Luana acordou se sentindo melhor. A Marília pensou: "Puts, cai na friendzone! Não vai mais rolar nada entre a gente!”, mas a Luana não cogitou isso. Elas começaram a conversar todos os dias. Naquela época, tudo ainda estava acontecendo pelas “lives” e chamadas de vídeo, mas a Marília não tinha se adaptado à isso e num dia específico tudo tinha dado errado: as aulas, as chamadas do Zoom, tudo tinha saído do ar e o que ela já não se adaptava estava pior. Foi quando ela falou pra Luana diretamente algo como: ‘estou afim de você, mesmo estando à distância, ok?’ e a Luana respondeu ‘ok, também tô’ e então ela pensou consigo mesmo ‘ufa!’. Uns meses depois, quando foi possível, elas conseguiram se encontrar pessoalmente. ♥ Depois do encontro, foram deixando tudo rolar e fazendo as realidades se encaixarem também, já que uma era mais caseira, outra era mais de eventos e de estar sempre na rua. O principal objetivo era não invadir privacidades ou atropelar coisas, mas sim deixar o tempo fluir tranquilamente. Isso não quer dizer que seja pleno o tempo todo, é claro, mas que elas escolheram fazer o encontro acontecer. A família da Luana é enorme e super acolheu a Marília como namorada. Até mesmo o avô, de 93 anos. Toda a família foi muito receptiva e a Marília conta como ter uma nova família, grandona, é muito legal pra ela. A questão do pai ser a única pessoa que elas não possuem contato é muito ressignificada, elas se acolhem por isso, não julgam, entendem que é uma escolha que ele (enquanto uma pessoa adulta) fez e tentam ao máximo levar outras coisas em consideração. Aproveitam o que há ao redor e todos os outros familiares. Marília reitera que fomos criadas num ambiente heteronormativo, achando que o homem manda e a mulher obedece, então é normal titubearmos de vez em quando porque estamos o tempo todo nos reeducando. Estamos em busca de nos libertarmos disso, de sermos donas dos nossos destinos. A relação delas se baseia numa questão de confiança uma da outra, e de ir aprendendo como isso funciona diariamente, também. Entre os momentos favoritos que elas possuem juntas, andar de long está entre os primeiros. Foi a Marília quem ensinou a Luana a andar e, no aniversário dela, a presenteou com um long. Nos momentos que estão andando juntas, Marília diz que amar é ver o outro feliz também e Luana completa que é uma construção, que exige respeito e paciência, para estar sempre se cuidando. Quando Marília conta sobre situações em que sentiu o amor, ela lembra de um momento que envolveu a irmã dela. Nesse dia ela sentiu tudo o que o amor propõe: temeu, mas cuidou. Elas estavam fazendo uma trilha (as três) e numa parte da trilha havia uma pedra que precisavam ultrapassar. Tanto a Marília quanto a Luana já haviam ultrapassado e faltava a irmã, mas ela estava com bastante medo e realmente era perigoso, não era fácil, num momento ela chorou, a Marília ficou com medo, mas a encorajou. A Luana pediu cuidado e muita calma, mas não parava de incentivar. Era um desafio para todas elas ali e nenhuma delas largou, desistiu ou achou que não fosse possível, por mais que o medo existisse… e quando ela passou, ela gritou, comemorou! Foi tanta felicidade! Ela fez aquilo ali. Realizou. Elas comemoraram juntas, torceram juntas. Aquele caminho ali, para elas, o processo, é um significado de amor entre as três. Marília fala que existem erros nos relacionamentos entre mulheres, até porque não há pessoas perfeitas, mas é muito bom saber que não estão num relacionamento que funciona como prisão. Numa existência de um relacionamento feminista, que entende o corpo enquanto um corpo com vontades, com postura, com verdades e pensamentos - um corpo que pensa e se comunica - isso sempre volta a ser o mais importante entre elas: querer fazer dar certo. Luana Marília
- Clara e Antônia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Clara e da Antônia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A história da Maria Clara e da Antônia te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Antônia tem 24 anos, é apaixonada por música, toca violão e piano. Também ama séries e filmes, desde sempre entendeu a importância do cinema na vida dela. Ama estar dentro do cinema, de explorar cada detalhe, de aprender com os filmes. Foi no cinema que ela e a Clara mais se encontraram, é como uma terapia para as duas e com certeza uma das coisas que elas mais sentem falta porque não conseguem ter a mesma experiência em casa. A Clara tem 22 anos, adora fazer atividades físicas (alô crossfit!), ela e Antônia amam viajar juntas e jogar The Sims. Por fim, elas falam sobre como adoram descobrir novos lugares e como ficam empolgadas quando encontram lugares representativos para nós, mulheres LGBTs. Desde espaços de cultura, casas de acolhimento, postos na praia, bares, boates… enfim, espaços que dialoguem com mulheres, não só com homens gays, porque caímos em uma ideia de falar que o espaço é para a “comunidade LGBT” e quando entramos nele só vemos a presença de homens gays, tendo no máximo você e uma outra mulher no local (muitas vezes, heterossexual acompanhando algum amigo gay). Falam o quanto acham sensacional lugares que realmente pertencemos, que nos fortalecem e que nos representam, e que fazem de tudo para colaborar e voltar para que eles sigam existindo. A Maria Clara e a Antônia se conheceram no Tinder, em 2019. Deram match e começaram a conversar logo falando sobre o que tanto amam: McDonalds! Depois de uns dias trocando ideias, decidiram ir ao shopping, jantar e assistir um filme no cinema. A Clara brinca que quando viu a Antonia logo soube: “vou namorar essa menina!”. Decidiram marcar o próximo encontro para o fim de semana, na Urca. Como ambas são cariocas, a Clara adora lugares com vista e pensou que seria um bom lugar. Elas se encontraram, seguiram se dando bem e um encontro foi levando ao outro. Uns meses depois aconteceu o pedido de namoro. Hoje em dia, as famílias apoiam, elas seguem amando McDonalds, fazendo do Drive Thru um dos rolês favoritos e o relacionamento cresce e se fortalece com o tempo. ♥ A Clara entende que o amor é o primeiro sentimento que temos de verdade na vida, seja pela nossa família, através do cuidado, do acolhimento, do conforto... é o sentimento que faz com que a gente se encontre. E entende também que temos um tipo de amor para cada pessoa, ou seja, amamos cada pessoa de um jeito: cada amigo, cada familiar… é semelhante, mas é diferente. É único. E só você sabe que está amando. Ela sente que primeiro se encantou pela Antônia, e então se admirou, se apaixonou… até que se viu amando. Foi montando as pecinhas. Tudo exigiu tempo, construção e sentimento. Quando conheci a Maria Clara e a Antônia, as coisas que me chamaram atenção logo de cara em ambas foram suas profissões e a forma que elas falam sobre isso: a Antônia é professora de inglês, e a Maria Clara é estudante de medicina, mas já trabalha em hospital. Antônia, quanto pensa em amor, antes de remeter ao amor romântico ou algo do tipo, primeiro lembra sempre dos alunos dela. Entende que amor é amor, por isso não tem cor, gênero, nacionalidade ou qualquer outra coisa. O amor acontece pelo o que a gente sente, seja quem for. Mas entende também que por trás de tudo existe um viés social, então amar uma mulher, por exemplo, é algo que não fomos criadas para fazer… ninguém nunca nos criou para amar alguém que é igual a gente, e talvez seja por isso que é mais difícil e mais doloroso. Mas talvez, também seja por isso que é tão mais bonito e mais intenso. Ela entende que o papel dela enquanto mulher e enquanto professora é ensinar aos alunos cada um dos seus privilégios e plantar uma sementinha sobre o que podemos fazer de diferente no mundo e sobre o fato de que para que o mundo seja de todos, ele não pode ser de ninguém. Assim que eu soube que a Clara estudava medicina, quis entender como a pandemia tinha impactado no que ela pensava sobre a profissão que queria seguir e como foi/está sendo vivenciar esse momento tão crítico. Ela comentou o quanto foi difícil no começo, tanto para elas (por conta de se verem de forma limitada, por verem muitos casais que eram referência se desfazendo e vendo o relacionamento delas se balanceando por isso), quanto por todo o período incerto que se dava. Foi um período de muita ansiedade, porque a quarentena também nos forçou a lidar com o nosso próprio corpo e nossas próprias inseguranças, além de toda a insegurança do mundo exterior e das emoções à flor da pele. Por mais que no hospital ela não esteja diretamente no setor Covid-19, ela segue trabalhando e de certa forma tendo contato, então reflete bastante sobre o papel de cada profissional na área da saúde e dos profissionais de todas as áreas, sobre como a profissão de cada pessoa é afetada. Em muitos momentos viu a vida dela se transformando em um único assunto, só soube pensar e falar sobre a pandemia. Hoje em dia, por conta da vacina e da retomada do comércio e de algumas atividades, ela tenta se ver mais tranquila, mas ainda é um processo diário de aprendizado também. Maria Clara Antônia
- Carol e Marlise | Documentadas
Amor de Construção - Carol e Marlise clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Clara e Laura
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Clara e da Laura, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Clara e Laura, por mais que estejam há pouco tempo juntas, entendem que já passaram por muitas coisas. Seja pelo fato de que vivem a grande maioria dos dias na casa da Clara, ou por serem muito dispostas uma para a outra, acabam todos os dias topando diversos eventos diferentes, desde que estejam juntas. É na rotina que criaram que Laura entende o que é o amor. Quando lembra de ter se assumido durante o período que estão juntas, também reflete que foi ali que se permitiu viver detalhes cotidianos: dormir e acordar com quem se gosta, compartilhar o dia com a família, sair com os cachorros para passear sem medo e receio de que alguém pudesse ver… São coisas muito simples, porém que não poderia viver antes, e hoje em dia encontra seu sentido de amor no cotidiano. Clara complementa que para além dos fatos diários, tem o ponto chave para ela: o cuidado. Elas cuidam muito uma da outra e de quem amam: sejam os amigos, a família, os bichinhos, o curso que estudam na faculdade. Tratam tudo com muito cuidado, até mesmo nas palavras, e é no carinho que uma demonstra pela outra ao ter cuidado que enxerga o amor. = Laura, no momento da documentação, estava com 20 anos. Ela estuda Relações Internacionais na PUC-Rio, é carioca, adora ler e escrever. Clara, no momento da documentação, estava com 22 anos. Ela também é carioca e estuda Psicologia na PUC-Rio, se forma esse ano e está completando o estágio na clinica social da universidade. Clara também ama escrever, já lançou até um livro, mas hoje em dia se vê um pouco distante do hobbie, pretende voltar. Ambas são muito próximas das suas famílias, contam que suas mães são as maiores amigas e inspirações que possuem e admiram tudo o que já foi conquistado por elas. E hoje em dia, como ambas as mães sabem sobre suas relações, gostam bastante de conviver em família. = Laura gosta de pensar que a história delas é dividida em duas partes: uma da qual elas não se encontravam mesmo estando nos mesmos lugares durante meses (e tendo amigos em comum/vivendo situações em comum) e outra em que elas finalmente se encontram e começam a se envolver. A primeira vez que se esbarraram foi nos jogos universitários, que aconteceram no interior do Rio de Janeiro. Ambas fazem parte de atléticas dos seus cursos e, lá, durante os dias de jogos, se viram na arquibancada pela primeira vez. Até esperaram se encontrar nas festas que tinham no fim do dia, mas não aconteceu. Voltaram para o Rio sem ao menos conversar. Laura achou o perfil da Clara nas redes sociais e adicionou - enquanto Clara achou que era apenas uma menina hétero com amigos em comum e aceitou. = Um tempo depois, com suas vidas seguindo rumos bem distintos, começaram a conversar através do Instagram. Enquanto o tempo foi passando Clara já tinha entendido que a Laura era uma mulher que se relacionava com outras mulheres e que estava solteira, foi quando começou a demonstrar interesse. Passaram muito tempo conversando e não conseguiam se encontrar: quando uma chegava na faculdade a outra estava saindo, nas festas de universidades quando uma estava a outra não ia, e assim seguiram até que um dia Clara chamou a Laura para um date. Ela topou, mas novamente não conseguiram se encontrar por imprevistos no dia e o tempo foi passando. Clara brinca sobre o quanto é uma pessoa emocionada e apegada, então mesmo sem encontrar a Laura já sentia corações saindo dos olhos… Os amigos, por sua vez, orientavam: “Tenha calma!”, mas quando ela percebia já estava se deixando levar novamente. Foi quando marcaram de sair em uma confraternização dentro da própria faculdade. Havia muita gente, estava um tanto quanto caótico, mas junto com todos os amigos (que já sabiam da existência uma da outra, de tanto que conversavam), conseguiram se encontrar e tiveram o primeiro beijo. = Desde que se beijaram pela primeira vez, seguiram conversando. No dia seguinte, Clara mandou uma foto que tiraram juntas para a Laura e marcaram de se reencontrar na próxima semana. Numa quarta-feira foram beber cerveja em um bar qualquer, depois viram o jogo do Flamengo e seguiram numa sequência de fechar bares até às 4h da madrugada. Sentiam que não queriam se separar, encerrar a noite: queriam ficar juntas. Antes do encontro ficaram com muito medo de uma falar demais, a outra ser tímida, mas eram duas tagarelas e acreditam que se dão até melhor por conta disso: quando uma está quieta é porque tem algo errado. E entender o que está errado nesses momentos também é um novo desafio. São pessoas que se veem entre muitos diálogos, sentem as coisas de forma parecida, mas desejam cada vez mais um relacionamento comunicativo, que entende seus tempos, dores e individualidades. = Fizemos as fotos na casa da Clara e também numa rotina que as representa muito: sair com os cachorros. E, dentre o encontro, outros detalhes estiveram presentes também: como os símbolos da lhama e do pato, animais que representam suas atléticas, e que acompanharam nos pedidos de namoro e escritas na parede da casa. Hoje em dia planejam viagens, gostam de misturar os amigos (que viraram um grupo só) e também de ficar em casa, comendo e assistindo filmes e séries. São mulheres muito dispostas, desde acordar cedo para tomar café uma com a outra antes dos seus afazeres começarem, a vivenciar coisas que nunca imaginaram só pela alegria de estarem juntas. ↓ rolar para baixo ↓ < Laura Clara
- Thay e Camila
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Thay e Camila, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Thayanne e Camila vieram de lugares bem distantes, mas se encontraram em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, em 2017, entre aplicativos, amigos, universidade e gostos em comum. Thay é de Barbacena, Minas Gerais, mas se mudou para o Rio de Janeiro com a família que foi para Cabo Frio quando ela era mais nova. Na faculdade, passou para a UFF (Universidade Federal Fluminense) e se mudou para Niterói. Cami é de Salvador, chegou até Niterói também por conta da faculdade (que também era na UFF) e passou oito anos morando lá. Hoje em dia, ela e a Thay moram no Rio, num apartamento que comemoram juntas terem conquistado depois de tanto tempo que passaram entre repúblicas e casas compartilhadas com amigos. Foi por conta de um aplicativo de relacionamento que elas se conheceram, mas quando deram ‘match’ resolveram, nas suas palavras, “brincar de rebuceteio”: abriram o Instagram e foram ver os amigos e amigas que tinham em comum. Nem imaginavam quanta coisa teriam em comum, na verdade: a Thay estudou no Ensino Médio com um dos melhores amigos da Cami, ela também conhecia e frequentava casas de outros amigos em comum e assim foram descobrindo que conheciam as mesmas pessoas, as mesmas histórias e os mesmos eventos, mas nunca se encontravam nos espaços. Sem contar nos gostos para as coisas, que eram muito parecidos, mas que também nunca tinham se cruzado até então. Nessa época que se encontraram, em 2017, a Cami ainda estava saindo de um relacionamento aberto do qual não se sentia confortável e era um desafio viver um novo relacionamento com alguém. Elas brincam que o verdadeiro incentivo por trás do namoro acontecer foi o fato de que começaram a pegar a barca Rio x Niterói todos os dias juntas, quando ambas conseguiram trabalhos na capital. Como iam e voltavam no mesmo horário, se ver diariamente foi um empurrãozinho ao romance ser criado. Viviam momentos muito difíceis também em relação aos perrengues financeiros. Ambas moravam em repúblicas e tinham pouco dinheiro para se manter. No primeiro encontro, por exemplo, beberam literalmente um chopp porque era o que poderiam pagar. Passavam por várias crises e sentem que foi um encontro que só falaram sobre problemas, mas que mesmo assim se deram muito bem, porque se sentiram em um espaço seguro para compartilhar as coisas. Tudo virou logo no início do namoro, quando elas conseguiram um emprego. Foi uma grande felicidade, um momento muito eufórico - e não, não era só porque com o emprego elas passaram a se encontrar todos os dias nas barcas. Com um salário elas poderiam começar a fazer coisas juntas, mesmo que sobrasse muito pouco, elas aproveitavam cada centavo: foram em vários museus, passearam em todos os lugares gratuitos possíveis, tomavam mesmo que fosse apenas uma cerveja, mas se divertiam muito. Com o tempo, passaram a ficar escondidas na república uma da outra, porque pelas regras não podiam receber visitas - porém, contudo, entretanto (!!!) a regra dizia visitas masculinas, então elas não estavam tão contra assim. Aos poucos entenderam que não valia a pena continuarem gastando cada uma em sua república e que seria mais fácil morarem juntas dividindo apartamento com outras amigas, foi assim que se mudaram para um novo lugar. Depois, o desejo virou outro: morar numa casa com janelas, que entrasse sol, que tivessem espaço (mais de um cômodo) e que pudessem se sentir em casa realmente. Isso aconteceu recentemente, agora, na casa do Rio, e elas não poderiam estar mais felizes. Decoram tudo juntas, aproveitam a cidade e o ambiente ao redor. Inclusive, estão noivas! Ficaram noivas durante a pandemia, quando entenderam que mesmo que estivesse tudo errado ao redor, o relacionamento era uma fonte de felicidade muito grande e dentro desse lar constróem mais um pedacinho do relacionamento. É como se um novo momento de euforia estivesse acontecendo. O momento de euforia é reflexo do quanto cresceram juntas. Amadureceram, viram suas vidas mudar profissionalmente. Agora, estão conseguindo construir planos verdadeiros pela primeira vez, entendendo o que querem se tornar. Já passaram por muitas vivências juntas desde 2017 até hoje: apresentar a ambas as famílias uma namorada pela primeira vez, até conquistar pequenas e grandes coisas que sempre sonharam. Ainda querem, dentro dessas mudanças, viver as coisas de forma saudável. Falam sobre suas relações com seus empregos e com a cidade em que vivem. A Cami, que no momento está com 26 anos, trabalha com consultoria estratégica e deseja ser feliz para além do trabalho, ter uma relação boa com seu ambiente e com a sua rotina, mas não depender dele por completo. Ela também deseja ser mais ouvida e ser mais considerada enquanto mulher numa sociedade. Já a Thay fala sobre como tenta diariamente transformar a sua rotina na relação mais saudável possível para que as 8h diárias que passa trabalhando na empresa não seja algo que ultrapasse o limite do próprio corpo. Ela comenta que hoje vivemos um momento de desigualdade e de pessoas que demonstram ser pró desigualdade - as pessoas falam o que pensam ser vergonha alguma - e ela gostaria muito de ver as coisas mudarem, ver a vida com mais esperança. Tanto a Thay, quanto a Cami, são muito ligadas à família e acreditam que nessa base aprendem os ensinamentos do que é o amor. Thay conta que remete amor à relação que os pais dela possuem, pois são pessoas simples, trabalhadoras e com eles aprende muito sobre a vida. Para ela, também, o amor envolve carinho e cuidado. Já a relação com a Cami mostra pura leveza, mesmo nos momentos difíceis foi leve e prezando pela liberdade de cada uma. Cami traz o exemplo do amor desde momentos corriqueiros, como a avó contando sempre as mesma história, às memórias afetivas que sente quando está em casa, a família que recebeu a Thay tão bem quando ela visitou Salvador e também o que aprendeu com a mãe, sobre sempre deixar uma marca boa pelas pessoas com quem ela cruza: uma felicidade/fazer algum bem - assim é uma forma de amar também. Dentro da relação ela entende junto com a Thay que ninguém é feliz sozinho e que juntas elas conseguem muito mais, por isso, estão sempre rodeadas de afeto e deixando também afetos por onde passam. Camila Thayanne
- Tamires e Agata
Meu encontro com a Tamires e a Ágata foi há cerca de um ano, mas a documentação está vindo ao ar só agora, por motivos de respeito ao tempo que precisaram para que a participação no Documentadas pudesse acontecer. Nos encontramos em Porto Alegre, na Ponte de Pedra, local que visitaram pela primeira vez juntas logo que a Ágata se mudou para morar com a Tamiris na cidade. Sentem que lá representa um momento da vida, próximo do apartamento que tiveram, um lugar para tomar sol, conversar, ver os cachorros passeando com seus donos e ficar de bobeira. No dia que nos vimos tivemos uma conversa que tocou em assuntos difíceis e delicados, e por isso precisou ser pausada. Tanto Ágata, quanto Tamires, são mulheres diagnosticadas com o espectro autista; por isso (mas não só) respeitar o espaço e o tempo para estarem prontas para contarem suas histórias oferecendo outras formas de conversa/entrevista (como a escrita, entre algumas trocas, que foi optado) acabou sendo a melhor maneira que encontramos. Hoje em dia, Tamiris entende que amor é aceitação radical mas não incondicional. Aceitar radicalmente serve tanto no amor-próprio quanto no amar outras pessoas, sendo família, amigos, romances… Aceitar quem você é de forma humana e aceitar seus erros, assim como aceitar seus acertos e potências. Amar de forma condicional é também entender nossos limites e respeitá-los. Ágata completa que o amor não se explica muito, entende a metáfora do coração quentinho/olho brilhando contextualizando o que sente como amor. No momento das fotos, Ágata e Tamiris estavam com 28 anos. Tamiris tinha acabado de se mudar para morar pela primeira vez sozinha e com isso aprendia diversas coisas novas - e na companhia da Ágata. Como aprender novas formas de limpeza, o que gostavam de fazer juntas e como criar uma rotina dentro de casa, por exemplo. Contam que gostavam de cozinhar, arrumar coisas, estudar, fofocar, ir em parques, explorar lojas, ver séries… Adoram o que nomearam de “Cultura de casal”, como assistir realities como MasterChef, realities de casais da Netflix, entre outros, além de caminhadas longas, idas ao mercado, assistir vídeos no YouTube, ir em cafés e experimentar comidas novas… Falam também sobre como é a vida depois de se entenderem enquanto pessoas autistas. Tudo era muito difícil antes do diagnóstico, eram apenas pessoas estranhas, não tinha muitos amigos e sentiam falta dos círculos sociais. Tamiris, por exemplo, possui uma sensibilidade sensorial alta por ser autista e possuir ansiedade generalizada, então se sente mais segura quando está acompanhada, não gosta muito de sair sozinha, mas tem se proposto a tentar esse exercício, principalmente durante o dia. Como falei no início do texto, essa história vem de um lugar um pouquinho diferente e envolve uma dor muito grande para elas, além de ter uma terceira pessoa que estava no começo e que elas não se sentem confortáveis em citar. Sabendo disso, vamos poupar falar sobre como elas se conheceram, para respeitar esse espaço, beleza?! O que é válido comentar por aqui é que por entender que queriam ser mais que amigas e por tudo o que tinham em comum, decidiram ficar juntas. Na época, moravam em estados diferentes, mas a infância/adolescência da Ágata foi construída a base de muitas mudanças então ela nunca viu isso como algo tão difícil, estava acostumada a viajar por aí. Costumam dizer que a relação se construiu à base de sorte e se mantém à base de comunicação. No começo, foi muito difícil entender como iriam se comunicar, tiveram muitos entraves por não entender a comunicação uma da outra, mas foram sendo honestas até conseguir encaixar um diálogo. Tamiris explica como no começo achavam incrível como tinham coisas em comum, desde serem lésbica menos femininas, até histórias de vida parecidas, descobrirem o autismo já adultas… mas ao longo do tempo - e com a convivência - as diferenças também ficarem evidentes. E aí entra a sorte, a comunicação, a disposição em fazer dar certo… Elas entendem que toda relação é feita de escolhas e também de escolher se vulnerabilizar, e que isso não é nenhum pouco fácil, mas que vale a pena quando acontece de forma honesta. Ágata explica que por ser mais fechada, se expor emocionalmente é um grande desafio que vem se tornando exercício - e cada vez ficando mais simples. Gosta do tempo que foram aprendendo a se comunicar de forma mais honesta sobre os temas difíceis e também ficando mais “fluente” no idioma uma da outra, mesmo que seja uma manutenção constante e fica muito feliz por saber que tem um ambiente seguro para ser quem ela sempre quis. ↓ rolar para baixo ↓ Tamiris Ágata
- Mari e Nono
Mari e Nono A Mari se inspira nas famílias LGBTs que ela acompanha online. Essas famílias a trazem esperança - e assim elas aprendem a admirar suas famílias também, em como se permitiram entender, aos poucos, o relacionamento. São mulheres que sonham em formar seu próprio lar. Quando fazemos parte de uma minoria acontece com frequência uma forma de justificativa categorizada como “apesar de”, e tanto a Mari quanto a Nonô sentiram na pele o que é isso. A Mari sempre foi uma aluna muito boa, sempre teve as melhores notas e era perfeita para os outros. Então, mesmo com diversas mudanças repentinas na vida, como a saída do armário e a mudança de cidade, vincularam o fato dela ter tirado uma nota mais baixa com o relacionamento amoroso delas, como se isso pudesse ser o verdadeiro fator prejudicial. Elas passaram a comprar juntas essa briga e a lutar pelo respeito que mereciam. Hoje em dia ainda se veem nesse papel de “apesar de namorar uma mulher, a Mari é uma excelente profissional” e entendem que isso é um problema social, mas em suas próprias palavras, elas não esperam que as coisas cheguem resolvidas na vida delas, mas sim que resolvam juntas. Sempre se mostram muito determinadas a promover mudanças. “Amor é pão feito em casa”, foi assim que começaram a explicar o que pensam sobre o amor entre mulheres. Vocês já tentaram fazer um pão em casa? É preciso uma dedicação absurda, cuidando e dando atenção para que a massa seja gostosa. Essa dedicação pode vir à flor da pele, de forma vibrante, mas ela realmente caminha quando tudo se acalma e passa a ser de uma forma genuína, com cuidado aos detalhes. Além disso, amar se constrói por causa DE e apesar DE. Depois que elas postaram a primeira foto juntas (após um ano de relacionamento), viram alguns seguidores indo embora. Foi neste ato que entenderam que realmente estavam fora do armário. Hoje em dia elas reivindicam a importância de sermos referência para quem está perto de nós, dar apoio aos nossos, inspirar outras mulheres que passam pelo mesmo que elas passaram. Acham que, no geral, é muito importante vermos LGBTs na mídia “abrindo um pouco o caminho” e quebrando algumas barreiras do preconceito, mas comentam que ainda sentem falta de se ver nessas pessoas, de sentirem identificação. Por isso, abrem suas redes sociais sempre para ajudar quem está se descobrindo. A Mari foi arrancada do armário - como a mãe dela descobriu, ela não teve a condição de se sentir confortável para contar - e isso aconteceu num momento muito vulnerável. A Nonô já teve seu tempo mais respeitado e pode contar para a sua família. A avó de Nonô, cujo ela tinha o maior medo de contar, reagiu de forma engraçada e acabou entendendo - na verdade, foi a pessoa que mais aceitou. A família da Mari se dividiu em algumas partes… a mãe reagiu de forma difícil, o pai passou a tentar entender os motivos. Mesmo com muitas dificuldades, o tempo foi passando e elas foram crescendo muito juntas, então a família foi entendendo e respeitando o grande apoio que uma dá para a outra. Hoje em dia, elas possuem estabilidade e o desejo de uma vida tranquila. A Mari e a Nonô se encontraram (e se encontram diariamente) de muitos jeitos, mas principalmente na arte. Elas amam musicais e possuem um projeto de criar listas sobre filmes e séries para a comunidade LGBT. A Mari também ama atuar, a Nonô apoia bastante, enquanto aprende a tocar baixo. Mari trabalha atualmente como design de mídias sociais, além de estudar Relações Internacionais... e Nonô estuda licenciatura em artes, sonha em ser professora, faz iniciação científica no PIBID, mas também adora estar em produções - de teatro, de cinema… hoje em dia elas estão em home office e Nonô busca trabalhos na área da comunicação também. Passam o dia juntas em um apartamento, na Ilha do Governador, com seus dois gatos: a Elis e o Chico. Escolheram fazer as fotos no apartamento porque esse lugar representa o verdadeiro significado de casa. Foi ali que pela primeira vez fizeram as compras do mês, viram filmes no sofá da sala sem medo de recriminações, puderam ter os gatos, cozinhar e conquistar a intimidade juntas. É na casa que acontecem seus momentos favoritos, como o de fazerem o almoço no meio do home office e depois sentarem para ver uma série, mas acabam passando um pouquinho da hora do almoço e só depois voltam a trabalhar. É nesse apartamento que abraçam os gatos e depois reclamam de ter pelos pelo corpo, nesse apartamento que separam seu tempo de criar, de construir e de se cuidar. Talvez o segredo da Mari e da Nonô terem dado tão certo é o fato delas crescerem muito juntas. Esse fato fez com que a família, mesmo com diversas dificuldades, dia após dia, passasse a acreditar de verdade no amor delas. Fez também com que elas começassem a entender o que pode ser o amor. Mariana tem 20 anos, Nonô tem 19. Elas se conheceram ainda no colégio, no ensino médio. Mari tinha passado por algumas situações… precisou se mudar da cidade onde estava morando, em Barra do Piraí, no interior do Rio, para a capital. Por um tempo se sentiu sozinha, tentou seguir um padrão de vida do qual não se sentia bem de verdade, e por ser o mais confortável, encarou o padrão heteronormativo. A família dela era bastante conservadora e evangélica, ela sempre frequentou a igreja, seguia sua vida sendo uma boa aluna, uma boa filha e uma boa namorada. Voltar a morar no Rio significou um escape naquele relacionamento que ela mantinha. E foi no Rio que conheceu Nonô, assim que chegou na escola. Nonô sempre gostou muito de artes - ama materialidades, sentir o têxtil, pinturas, tocar instrumentos, jogos, cinema, teatro… e também sempre sentiu que poderia gostar de mulheres. Nonô me explicou sobre a importância de quebrar o tabu que fica envolta da palavra lésbica, porque mesmo ela sabendo que era, acabava por usar “gay” ou “sapatão” e cultivava certo medo de dizer a palavra. Quando entendeu as raízes preconceituosas desse medo passou a tentar aos pouquinhos desconstruir isso, e hoje faz questão de dizer sempre: sim, sou uma mulher lésbica. Mari Nonô <
- Larissa e Claricy | Documentadas
Larissa estava com 33 anos no momento da documentação. É natural de Salvador, viveu a maior parte de sua vida na cidade grande, mas durante a pandemia de Covid-19 deixou para trás a agitação e se mudou para um lugar menor e mais tranquilo, o Vale do Capão, na Chapada Diamantina. Antes, havia sido dona de uma floricultura em Salvador e, embora sua formação fosse em arquitetura, sua atuação profissional se voltava para uma área um pouco distinta, mas sempre conectada à forma como os espaços se comunicam. Em Capão e nas viagens seguintes, Lari retomou sua carreira, direcionando seu olhar para a integração entre arquitetura e natureza. Inicialmente, morando com amigas, dedicou-se profundamente ao estudo da bioconstrução. Foi isso que a levou até Serra Grande, município próximo à Itacaré (onde nos encontramos): um amigo engenheiro desempenhou um papel importante na sua rede de apoio, chamou ela para trabalhar com bioconstrução por lá. Claricy no momento da documentação estava com 37 anos. Nasceu em Niteroi, no Rio de Janeiro, e se formou em economia. Após anos trabalhando no setor corporativo, começou a refletir sobre como poderia equilibrar sua vida profissional com seus valores pessoais em uma sociedade hipercapitalista. Decidiu, então, fazer uma mudança significativa: se mudar para Itacaré, em busca de uma vida mais simples, saudável e reconectada com o que realmente importava. Chegou à cidade sozinha, sem influências externas de amigos ou familiares, em uma tentativa de ‘resetar’ e se reconectar consigo mesma. O que inicialmente era para ser uma estadia de apenas um ou dois meses acabou se transformando em uma permanência de dois anos. No começo, Clari se encantou pela variedade de eventos e atividades que a cidade oferecia, mas logo sua paixão se voltaria para a natureza ao redor e para o estilo de vida mais tranquilo e genuíno que passou a adotar. Assim que Claricy chegou em Itacaré, cruzou com a Lari num aplicativo de relacionamentos e começaram a conversar. Trocaram seus perfis nas redes sociais, mas não marcaram um encontro de fato. Entenderam que Itacaré é um local muito pequeno e que provavelmente iriam se esbarrar em breve. Foi o que aconteceu, acabavam se esbarrando com certa frequência e sempre aos finais dos eventos - naqueles momentos meio que de bar em bar, fim de noite. Acontece que, por mais que interagissem online, pessoalmente mal se cumprimentavam, Lari nunca trocava olhares com a Clari e isso deixava ela num misto de chocada, intrigada… Não entendia o motivo. O tempo passou e num dia Lari interagiu com ela pelo Instagram e ela respondeu falando a verdade: “Você conversa comigo a beça aqui mas pessoalmente finge que nem me vê”. E então a ficha da Lari caiu: ela não fingia, ela realmente não via. Não estava percebendo as pessoas ao redor com a atenção que deveria. O tempo seguiu passando e Clari foi ficando mais difícil. Segundo ela, é porque Lari estava sempre se envolvendo com algum ‘carinha’ por aí. Lari confessa que era verdade: ela nunca tinha namorado e vivido de verdade uma relação com alguma mulher… e isso era um empecilho para Clari. Até que chegou um dia específico que um samba estava no fim, naquela mesma linha de encontros “de bar em bar” que viviam, caiu uma chuva muito intensa e Lari estava indo embora, quando ouviu um samba e avistou Clari dançando - mesmo que na chuva torrencial altas horas da manhã. O samba estava bom, embaixo da marquise, ela resolveu ficar. Chegou logo do lado da Clari. Já tinham se passado meses desde a última conversa, estavam diferentes e foi naquela noite que ficaram (e se conheceram, de fato). Amanheceram na rua, depois do samba. Clari conta que ela até poderia ter ido embora porque morava próximo, mas não queria, de tão legal que estava sendo aquele dia. Foi um dia muito bom para todos, muito divertido. Quando começaram a se envolver, foi tudo diferente do que imaginavam e Lari conta como isso foi importante - a forma em si como aconteceu foi sendo um guia para fazer com que ela entendesse os abusos que sofria nas relações de uma heterossexualidade compulsória; “Porque mesmo amando me relacionar com mulheres, mesmo vivenciando isso desde cedo, aquilo nunca era credibilizado”. Desde que começaram a ficar juntas, caminharam um longo trajeto até o momento da nossa documentação. Lari, por exemplo, é uma mulher não-monogâmica que acredita nessa política, enquanto Clari tem algumas dificuldades com a prática da não-monogamia, ainda possui muitas amarras, reproduções. Então o começo foi caminhando de uma forma muito delicada e comunicativa, entendem que não poderia estar apertado nem para a Claricy, nem para a Larissa, ao mesmo tempo que deveria caber e estar gostoso, confortável. Aos poucos tudo foi caminhando e tomaram a decisão de morarem juntas. Lari já morava mais distante de Itacaré, na região onde hoje em dia possui um terreno - em que fizemos as fotos e que estão planejando construir - e foi morando juntas que se aproximaram definitivamente, ficaram no que chamaram de “grude sapatônico”. Aos poucos foram amadurecendo a ideia de construir a casa no terreno, uma bioconstrução nos moldes que Lari estuda e trabalha. E, depois do primeiro ano de relacionamento, também optaram por uma nova casa, em Serra Grande, enquanto a construção toma forma no terreno. Antes de irem para Serra Grande, passaram um tempo entre o Rio de Janeiro e Salvador, ficando com suas famílias e fechando o primeiro ano de relação. Depois do primeiro ano de relação e das viagens, moraram em uma casa em Serra Grande, mas foi uma vivência muito difícil. Não havia cômodos, por mais que elas tentassem se comunicar da melhor forma, tudo era muito misturado, apertado, sentiam que eram pessoas muito diferentes tentando viver num espaço. Por isso, optaram pela separação por um tempo. Seguiram se relacionando, mas morando em cidades diferentes - Lari voltou para Salvador, Claricy ficou na região de Serra/Itacaré. No final, as rotinas estando tão diferentes ajudavam as coisas a ficarem descompensadas. Aos poucos, tudo foi se normalizando e reconheceram o momento. Foi difícil ter a maturidade de entender o que era preciso, mas nesse processo Clari entendeu muito sobre a solidão, sobre os amigos que vivem na cidade grande e teve novas percepções sobre o que desejava para a relação. Entenderam também novas importâncias de comunicações - é preciso saber comunicar e resolver, demonstrar a emoção, terem que lidar (e que bom lidar), resolverem, melhorarem e evoluírem. Desde o começo do relacionamento, Clari ouvia muito a Larissa falar sobre sua vontade de fazer uma comunidade unindo vários terrenos no lugar em que tinha comprado o seu, no quilômetro, próximo à itacaré. Ela sempre pensava: “Eu vou ser uma visitante? Eu vou morar lá? O que eu serei nesse terreno?”. Até que Lari fez a proposta delas morarem juntas e dela ajudar em toda a construção: arquitetar e construir a própria casa. O projeto, que já está em andamento, está sendo muito bem feito e frequentemente elas vão até o local, que tem nome - “Casa Jussara” - por conta da palmeira-juçara, nativa da mata atlântica, que possui em abundância no terreno. O terreno em si ainda está em mata fechada e a ideia é preservar o máximo que der. Abriram a parte da frente para entender os pontos de construção e desejam em pouco menos de um ano ter tudo pronto. Por fim, elas acreditam que o amor está nessa forma de viver que estão construindo juntas, desde a rotina, os rituais, o saber lidar com um monte de coisa e mesmo assim conseguir desacelerar. Não se torna algo utópico, uma ideia de que tudo é perfeito, mas algo que vem se construindo mesmo em tantos desafios. É no ritual que se tem ao acordar, no ritual que se tem cuidando dos bichos, no ritual de pensar como será a casa, no ritual de colher os alimentos que plantaram por tanto tempo. Ficam muito felizes quando percebem que finalmente vivem uma relação que desejaram por tanto tempo e que merecem viver. Clari conta que já tinha lido muito sobre filosofia, muitos livros, muita coisa, pensava que entendia um pouquinho sobre amor, mas agora percebe que vive um amor muito diferente, onde precisa se amar também, e vê o quanto está sendo bom para si e para os outros. ↓ rolar para baixo ↓ Larissa Claricy
- Joana e Luciana
A Luciana e a Joana são de Fortaleza, capital do Ceará, mas já moraram em lugares diferentes do Brasil e hoje em dia voltaram para Fortaleza para o nascimento da Maria Flor, a criança mais comunicativa, espontânea e engraçada que o Documentadas poderia ter o prazer de documentar. ♥ Lu tem 37 anos, é médica ginecologista e obstetra, responsável por trazer muuuuuitos bebês para esse mundo e deixar muitas mamães seguras na hora do parto. Além da vida profissional incrivelmente disputada, ela é uma mulher que se preocupa em fazer do mundo um lugar melhor em cada detalhe - trata tudo com muito acolhimento, é carinhosa, tem um sorrisão e esteve o tempo todo muito aberta a encaixar o encontro com o Documentadas no meio da rotina de plantões, maternidade e compromissos diários. Joana tem 41 anos, é artista visual e arquiteta. A Jô trabalha tanto para produtoras de Fortaleza e São Paulo (fazendo instalações efêmeras, cenários, conceitos e conteúdos visuais), quanto sendo artista independente, tendo seu próprio escritório e seus projetos autorais enquanto produtora de arte. Nos encontramos no seu ateliê, lugar onde todas ficamos à vontade (principalmente a Flor, que se diverte muito entre as cores e as expressões artísticas) e é muito legal ver como os trabalhos da Joana são diversos e o quanto conseguem conversar entre si. Além das suas profissões e da correria do cotidiano, elas amam passar o dia se divertindo com o crescimento da Flor, dando espaço para ela explorar as coisas e nas folgas gostam muito de plantar (estão construindo jardins durante a pandemia), viajar (colocar tudo no carro, bagunçar e ir para algum lugar!) conhecer cachoeiras e praias. Além disso, contam que amam cozinhar juntas e que, ao plantar jardins, começaram um projeto sobre o lixo no lugar em que moram, mobilizando os outros moradores do bairro sobre sustentabilidade - usando a arte da Jô nessa conscientização. O encontro da Lu e da Jô aconteceu como uma “paixão à segunda vista”, porque já eram amigas há muitos anos. A Joana teve um relacionamento longo com uma amiga de infância da Luciana e elas se conheciam desde então, mas cada uma vivia seu relacionamento e nunca se olharam de forma diferente. O tempo passou, elas terminaram seus relacionamentos em momentos diferentes, passaram períodos solteiras e, depois de um tempo, se reaproximaram - surgindo assim, pela primeira vez, um olhar de interesse. Por um certo receio de suspeitarem de uma traição ou de algo que viesse de antes, visto que de fato se conheciam há muitos anos, elas demoraram quase 1 ano para conseguir oficializar ou assumir esse relacionamento para o grupo de amigas em comum, mas deu tudo certo! Começaram a namorar em 2013 e, como as duas já tinham tido relacionamentos longos o suficientes e decepções amorosas longas o suficientes também, sentaram e conversaram de maneira franca e madura sobre o que desejavam nessa relação: seus medos, seus sonhos, seus desejos e suas inseguranças. Elas dizem que de certa forma foi tudo até rápido - porque em 2015 elas estavam se casando. A Lu passou em uma residência médica lá em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, no mesmo momento em que a organização do casamento estava no auge, então elas combinaram assim: a Joana ia dar um jeito na organização e na decoração e a Lu ia para Ribeirão organizar as coisas da residência e dos estudos. Foi corrido, mas deu certo! A família da Luciana sempre apoiou e sempre admirou a forma que ela lutou pela liberdade e pelo direito de ser quem ela é e de amar quem ela quiser amar. Já a família da Joana, de alguma forma dava apoio à quem ela era enquanto mulher que amava outra mulher, mas no momento do casamento não entendia o porquê daquilo, por qual motivo precisava mostrar aquilo, fazer uma festa assim… Ela insistiu e a festa aconteceu. Mas não só pela festa, pela importância de assinar um documento, de comemorar sim o amor, de celebrar o nosso amor e de ter um documento que nos prove enquanto um casal e que lutamos tanto para ter direito (a algo tão burocrático). Não só aconteceu, como foi incrível! O casamento teve ajuda de vários amigos que doaram um pouquinho de cada coisa para elas - e cada pessoa que estava lá, realmente queria estar. Todos estavam muito felizes, torciam muito pelo amor das duas. Foi um dia muito forte e emocionante, com um pôr do sol maravilhoso. Elas contam que todos que estavam presentes sempre falam de como aquele dia vibrou, que sentiam uma vibração muito forte. E que, no meio da cerimônia, se abriu um arco-íris gigante na praia. ♥ Depois do casamento, as duas se mudaram para São Paulo e então começaram uma vida totalmente nova por lá. Fizeram muitos amigos, criaram uma nova rotina e, desde o primeiro momento a Lu nunca escondeu que se relacionava com uma mulher dentro do meio em que vivia (a área da medicina), então todas as pessoas ao redor delas sabiam que eram um casal, sabiam do casamento, de tudo! Isso era bastante novo, se tratando de uma cidade interiorana e de pessoas mais conservadoras, mas era bastante legal ver esse impacto e outras pessoas se inspirando nelas para saírem do armário também. Como desde sempre a Jô sabia da existência do desejo da Luciana em ser mãe (visto que ela sempre sonhou com isso) e que lá em Ribeirão Preto era o lugar referência para que elas fizessem todo o tratamento de fertilização in vitro (FIV) pelo SUS, então as duas captaram óvulos, o mesmo sêmem, o mesmo doador, e deram início ao processo da maternidade. Tudo foi registrado por elas em um caderno-livro que se mantém até hoje e que conta essa história para a Flor, sobre como ela foi desejada e amada desde o primeiro momento, por todos ao redor. O processo todo entre tentativas de gravidez durou cerca de dois anos, não foi nenhum pouco fácil, requer muito e as duas se doaram muito para isso, mas também se apoiaram muito e sonharam muito em conjunto. O livro é incrível e muito delicado, conta detalhes desde os sentimentos, até os gastos que envolvem cada pedacinho desses dias tão longos. A Flor, mesmo ainda sendo muito pequena, adora olhar e mexer no livro e fizemos algumas fotos das três com ele em mãos. [No dia em que nos encontramos, a Jô estava dando início a uma nova bateria de exames, pois estão começando o processo para vir aí uma parceira ou um parceiro irmã ou irmão para a Maria Flor. Só temos muita luz e muita vida a desejar! Vocês são uma família incrível!] A Joana conta que para ela, o amor é a base de tudo. Não só o amor romantizado, mas o amor de fato construído, porque o amor é muita luta, muita garra. O amor, dela com a Lu, é um amor de parceria, de entendimento. E, nessa hora, a Lu completa: “É um amor realmente revolucionário. Não existe outra definição senão essa, pela capacidade de transformação que faz numa pessoa.” Quando passam por momentos difíceis, elas conversam sobre tudo, mas entendem que são seres individuais e que têm momentos em que precisam estar sozinhas. A Joana gosta muito de conversar e a Luciana entende e contribui pra isso também. Briga, chora e se abraça! Sempre olha no olho, dá espaço, volta e abraça. É um movimento natural que o próprio corpo tende a fazer. No fim da nossa conversa, chegamos à conclusão de que quando duas mulheres se juntam para construir uma família, elas saem quebrando tantas barreiras, tantas coisas que socialmente estão na nossa frente há tantos anos, sem nem ver, que é na base da revolução mesmo. Temos o exemplo de como a família da Jô não ter entendido o casamento delas no começo por não ter visto uma “necessidade” e não ter se proposto a ir, porém, com a chegada da Maria Flor, ser puro grude e reconhecê-la, amá-la e não se ver longe dela - a revolução se mostra nessa construção de família e de amor quando formada pelas mulheres, o segurar a neta no colo consegue quebrar qualquer outra coisa que existe antes, qualquer “muro” colocado, qualquer barreira realmente preconceituosa ou inconscientemente preconceituosa. É uma revolução através do afeto. E para a Maria Flor é isso que elas desejam: um futuro livre. Sem medo e com respeito, sem julgamentos estruturados. Que ela siga sendo como ela é agora: empática com o mundo e com ela mesma. Luciana Joana
- Carol e Joyce | Documentadas
Amor de Propósito - Carol e Joyce clique aqui e acesse nosso audiolivro


