Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
294 resultados encontrados com uma busca vazia
- Fabi e Dani
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Fabi e da Dani, quando o projeto passou por São Paulo! Começo a história da Dani e da Fabi contando um fato que elas me relataram sobre como enxergam o amor e a relação, logo no fim da nossa conversa: elas viveram uma situação em que foram até um bar encontrar alguns amigos, mas uma chegou antes que a outra. Até então estava super divertido… Ria, conversava, e brincava. Quando quem faltava chegou e elas finalmente ficaram juntas, o amigo comenta: “Você estava bem antes. Estava feliz. Mas agora, que ela chegou, vocês se encaixam. É como um brilho que acrescenta. Não faltava, mas agora acrescentou.” - e, assim, talvez consigam identificar muito do amor em pequenos detalhes. A Fabiana tem 41 anos, é natural de São Paulo (capital) e trabalha enquanto bartender, mas já foi da área de eventos e de produção. Ela entende o amor como uma dedicação e um ponto, também, de descanso, porque quando está do lado da Dani está tranquila. Ao longo da vida, a Fabi não teve grandes demonstrações de amor sendo explanadas e colocadas fisicamente - na família ou em outros relacionamentos - por isso a relação dela com a Dani se tornou uma referência. Elas estão sempre relembrando o quanto são importantes uma para a outra. A Danielle tem 34 anos, sua família é de Santa Catarina, mas ela cresceu e vive até hoje em São Paulo (capital). Dani trabalha (e muito!) em uma agência, com mídias e publicidade. É apaixonada por cachorros, convenceu a Fabi de adotar a Nina e a Laka (quando a ideia inicial era a doce ilusão de ter uma cachorra de porte pequeno…) e acredita que o amor está, dentro das relações entre mulheres, de uma forma importante e única. Ela vê o amor no cuidado porque quando pára o mundo para cuidar de alguém, é a melhor forma de demonstrar que ama. E que, quando esse alguém é outra mulher, a doação é muito mais intensa e profunda. Quando a Dani e a Fabi começaram o relacionamento, foi aquele clássico: logo partiram para morar juntas. Mas calma, antes disso tem uma introdução. Elas se conheciam “de vista”, eram colegas de bar. Tinham amigos em comum, mas não conversavam muito. A Dani tinha saído de um relacionamento que não tinha sido legal há pouco tempo, começava a frequentar mais o bar e numa dessas idas a Fabi estava lá. Foram se encontrando, interagindo e num dia, após um evento na Casa 1, se encontraram e conversaram mais (a Casa 1, caso você não conheça, é um centro de acolhimento para LGBTs que foram expulsos de casa - e também funciona como centro cultural e clínica social em São Paulo). Nos dias seguintes se encontraram novamente e beberam bastante. Nesse dia, finalmente os amigos se uniram numa mesa só e no final da noite elas foram dormir no mesmo lugar. Nessa altura do campeonato, a Fabi já sabia que a Dani beijava mulheres também e foi então que o interesse aconteceu. Após ficarem pela primeira vez, a vontade de se encontrar foi surgindo naturalmente e durante as próximas semanas voltaram ao bar algumas vezes. Contam que foi muito natural o começo do relacionamento pela vontade que tinham de estarem juntas. Nessa época, a Dani ainda morava com a mãe, mas elas passavam muito tempo na casa da Fabi e foi então que decidiram pela mudança. O apartamento inicial era pequeno, mas a comunicação entre elas era o principal e sempre fluiu bem. Elas brincam que até hoje, quando acontece alguma briga, os amigos estranham, porque não é tão normal assim. O que elas precisam resolver, se resolve na hora: a comunicação é o mais direto possível para que as coisas sigam seu caminho da melhor forma. Elas entendem também que isso foi devido a um processo interno e individual. A Dani, por exemplo, tinha uma comunicação ruim antes do relacionamento porque guardava muitas coisas para si, mas entendeu que a sociedade já é muito difícil de se conviver e de se estabelecer boas relações. É difícil sermos aceitas, conquistarmos nossos espaços, termos um bom contato… Então decidiu melhorar esse processo da melhor forma que poderia: demonstrando o que sente para deixar as coisas mais claras. Hoje em dia, elas não aceitam preconceitos, discriminações, críticas árduas vindo de quem não as conhecem… Reconhecem o amor delas enquanto algo único e lindo - e reconhecem também o caminho que percorreram para chegar até aqui. Alguns anos (e mudanças) depois, as cachorras chegaram para alegrar ainda mais a casa. A Dani sempre sentiu muita falta de ter um cachorro no lar e a Fabi estava amadurecendo a ideia, então procuraram abrigos e ONGs, decidiram num sábado de manhã cedo ir até uma feira de adoção juntas escolher um cachorro >pequeno<... e, obviamente, os planos foram interrompidos. Na sexta à noite a Dani estava num bar e a prima dela ligou desesperada precisando de ajuda, quando ela chegou para prestar suporte, a cena era: uma cachorra precisando de lar temporário. Acho que o resto nem precisa explicar, né? De pequena não parecia ter nada, principalmente o coração: Nina adotou a Dani e a Fabi na primeira oportunidade. A Laka surgiu um tempo depois, quando a irmã da Dani resgatou e cuidou, postou fotos e a Dani, ao ver, chorou e sentiu que precisava adotá-la. Rimos muito porque a Fabi nem teve escolha, ela tinha se apegado só pela foto. Como diria não? Hoje em dia, elas contam o quanto as cachorras são sensitivas. Elas sabem quando as humanas estão doentes, estão sempre sendo muito parceiras, ficando ao lado e sendo atenciosas. Além disso, no dia a dia, são a diversão da casa e fazem com que tudo fique mais leve. É um cuidado refletido em muito amor. ♥ Entendemos que cada pessoa possui a sua forma de amar. Às vezes o amor não precisa ser sempre demonstrado da forma mais delicada, feminina e romântica. Elas, por exemplo, entendem que possuem a sua forma de amar. É uma forma pura, que vai se moldando com o tempo. É também uma forma muito carinhosa, que envolve admiração, preocupação, brincadeiras, diversão e tantas outras coisas cotidianas. Logo depois da eleição do atual presidente foraBolsonaro, elas sentiram medo e necessidade de reafirmar esse amor, portanto oficializaram a relação com o casamento. Entendem esse ato como um ato político, visto que a nossa união está o tempo todo ameaçada pelo atual governo. Muitos outros casais sentem e sentiram o mesmo no momento em que ele foi eleito, portanto o casamento delas foi um dos exemplos de casamentos coletivos realizados no Brasil. Hoje em dia, são mulheres que seguem enfrentando da forma que está ao alcance os desgastes dessa política que nos ataca diariamente. E enfrentam, também, com afeto. A Fabi explica, por fim, o quanto foi ensinada a ser dura, bruta, demonstrando menos fragilidade nessa vida, mas que aprendeu (e aprende todos os dias) que o afeto está em fazer com que as pessoas que ela ama se sintam bem. É uma forma que ela e a Dani encontram de acolhimento e de estarem compartilhando coisas boas ao redor de quem amam. Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Fabiana Danielle
- Bianca e Ellen
Encontrei a Ellen e a Bianca num bar em Curitiba - PR, num dia chuvoso de domingo. Neste bar são frequentadoras assíduas, já que adoram estar lá com os amigos e também enxergam o local enquanto um espaço de resistência da esquerda, de diversas culturas que se misturam e do público LGBTQIA+. Durante a nossa conversa, contam sobre a história do local (que passou por diversos donos), a expansão depois da pandemia e compartilham momentos que já estiveram lá com muitos amigos, se divertindo e bebendo uma cachaça única, produzida em Paranaguá, na região litorânea do estado. É nesse bar que elas se sentem confortáveis, são bem recebidas e bem tratadas. Citam também que viver em Curitiba no momento de eleição não estava sendo fácil, havia muito medo de pessoas radicais que possuem posse de armas, assim como as festas e espaços da esquerda acabavam estando sempre alertas, redobrando a segurança, mas que isso para elas ressalta o quanto precisamos ocupar ainda mais os espaços e as ruas. Ellen, no momento da documentação, estava com 29 anos. Ela é pedagoga e trabalha no interior do estado dando formação continuada (para diversas séries com idades diferentes). Bianca, no momento da documentação, estava com 27 anos e trabalha sendo psicóloga, mas nos momentos livres gosta de praticar esportes e crossfit. Além de frequentar o espaço que fizemos as fotos, elas contam o quanto adoram sair, viver a vida boêmia e também receber amigos em casa - sempre prezam pelas socializações com quem amam. O relacionamento delas vem durando cinco anos, mas se conhecem desde quando a Ellen passou no vestibular, entrou na faculdade e começou a se interessar por política. Naquela época, passou a fazer parte de um coletivo estudantil e encontrou a Bianca numa viagem ao Congresso da UNE, no Rio de Janeiro. Ellen nunca tinha namorado uma mulher, apenas beijado em algumas situações, mas de cara se apaixonou pela Bianca. A Bianca estava namorando naquela época, então a Ellen não demonstrou nenhum interesse. Com o passar do tempo, já em 2017, a Bianca terminou o relacionamento e a Ellen ficou sabendo - só que dessa vez, quem namorava era ela, mas como o relacionamento era aberto decidiu chamar a Bianca para sair. Bianca brinca que foi um chamado bem direto, através do Instagram, porque elas não eram amigas ao ponto de manter conversas e não fazia a menor ideia do interesse da Ellen, mas chegou a mensagem inbox e topou o encontro. A Ellen, por sua vez, conta que o interesse era gigantesco e não sabe como isso não estava explícito, porque encontrava a Bianca nos lugares e acompanhava ela nas redes sociais. No primeiro encontro, Bianca estava ainda muito triste pelo término do antigo relacionamento. Elas se encontraram, saíram, continuaram saindo por um mês e não se envolveram fisicamente. Foi no último dia de aula da Ellen, quando ela estava bebendo uma bebida de qualidade duvidosa depois da aula, que ficou com a Bianca e entendeu que gostava dela e não queria mais seguir o relacionamento aberto que vivia. Depois do primeiro beijo e do processo de término da Ellen, continuaram se encontrando o tempo todo. Era dezembro e elas passaram o ano novo juntas, quando depois, em 2018, a Ellen pediu a Bianca em namoro depois de assistirem um show da AnaVitória. Nesse período em que estão juntas, já passaram por muitos altos e baixos. Comentam que possuem uma comunicação “de centavos” e que nem fazendo vários cursos acreditam que melhorariam. Entendendo que nem sempre conseguem comunicar o que sentem, prezam por entender qual é o lugar de cada uma dentro da relação, tentando sempre deixar a escuta ativa e pensando nos meios termos que agradem ambas. Desde 2018 a Ellen já morava sozinha e, depois de um tempo, a Bianca decidiu sair da casa dos avós, foi quando decidiram morar juntas. Visitaram um apartamento e alugaram, do qual apelidaram de “batcaverna”, depois disso, adotaram dois gatos, resgatados em ONGs. Bianca fala sobre a pressão que envolve se relacionar no mundo e no sistema que vivemos hoje. Se espera muito da produtividade, até mesmo nas relações humanas, então tenta enxergar o amor na contramão: como um ato de cuidar e ser cuidado, se permitir estar vulnerável, sem hierarquia, amando outra mulher. Por fim, ainda não é fácil lidar em como a sociedade trata esse amor de forma diferente: desde tentarem sempre ver a Bianca como “o homem da relação” provando um vinho num jantar, pagando a conta ou em diversos outros momentos, até o quanto gostariam de educar a sociedade para que fossem lidas mais natural possível. Ellen fala sobre a importância da educação enquanto uma questão social: a importância de passar conhecimento, educar e ouvir as pessoas, inclusive a população mais jovem, e tratar os espaços educativos enquanto também espaços de acolhimento. ↓ rolar para baixo ↓ Bianca Ellen
- Wan e Lívia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Wan e da Lívia, quando o projeto passou por São Paulo! A Wanessa e a Lívia são duas mulheres que adoram viajar, desbravar lugares novos, cachoeiras, praias e vivenciar novas culturas. Foi numa dessas viagens que elas se conheceram, na Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte, em 2016. Wanessa é Pernambucana, mas na época morava em Natal, enquanto Lívia é paulista e desbravava as terras de João Pessoa, na Paraíba. Eu sei, muitos lugares para um primeiro parágrafo, né? Mas avisei que elas gostavam de viajar. Pois bem, foi na praia (ou melhor, nesse vilarejo), que elas se conheceram durante as férias. Se deram bem, o romance foi acontecendo, mas teriam que voltar para suas vidas, uma em Natal e outra em João Pessoa. Assim, à distância, viveram um ano. Quando em 2017 a Wan foi, junto com a filha, Alice, morar em João Pessoa. Durante a nossa conversa, Lívia e Wan falaram sobre como se veem enquanto muito parceiras, sobretudo porque os primeiros anos do relacionamento foram em um lugar que não tinham familiares por perto e conviviam com um grupo de amigos pequeno (do qual a maioria também não era de João Pessoa). Isso fez com que elas se conhecessem muito, convivessem um tempo maior juntas e que também gostassem muito da companhia. Descobriram, desde o início do relacionamento, uma forma de confiança direta, porque tinham como contar uma com a outra - ou melhor, em trio, junto com a Alice. ♥ Por mais que elas tenham morado 5 anos em João Pessoa, nosso encontro e a documentação ocorreu em um novo lar: São Paulo. Depois do início da pandemia, a Lívia já tinha concluído o mestrado (motivo que fez ela se mudar para a Paraíba) e passou para o doutorado em uma universidade paulistana, enquanto a Wan conseguiu um trabalho bem legal em São Paulo também. Com a mudança, vem um desafio que elas não tinham experimentado até então: conviver mais perto dos familiares e amigos, ter uma base próxima, diferente de João Pessoa. Elas até comentam que a chegada da pandemia, diferente do impacto que teve para quem convive com uma base grande de pessoas próxima, acabou sendo diferente para elas, pois já estavam acostumadas com esse núcleo menor, entre as três. O mais diferente mesmo, já chegando no novo lar, foi entrar numa nova rotina de conhecer vários amigos (que antes, eram amigos só da Lívia), ter a família por perto e novos compromissos. Elas brincam, inclusive, que geralmente os casais passam por isso no início - o processo de se adaptar à uma rotina familiar da parceira - e que elas passaram anos depois. Mas que, de toda forma, está sendo muito gostoso. Pela primeira vez os finais de semana estão cheio de eventos (visitar sobrinhos, festas de formaturas de primos, almoços em família…) mesmo que elas já estejam na cidade há meses. Durante a mudança, primeiro a Wanessa veio, para começar a trabalhar, enquanto a Lívia ficou organizando o que trazer e organizando a vinda da Alice também… e ah! É muito importante ressaltar: a Alice a-m-a viver em São Paulo com as duas. Durante as fotos, perguntamos em tom de brincadeira: “bora voltar para o Nordeste?” e ela respondeu “Só pra visitar!”. No momento da documentação, Lívia estava com 32 anos. Ela faz doutorado em Sociologia, com ênfase em Ciência Política e atua como socióloga. Wanessa também estava com 32 anos. Ela trabalha enquanto Analista de RH, sendo especialista em Diversidade e Inclusão - e atenção aqui! Está sempre em busca de mulheres que estejam na área das artes (redatoras, editoras, produtoras, diretoras de arte, etc) (olha a oportunidade aí!). Hoje em dia, em São Paulo, seus gostos e suas rotinas são em torno de sair para comer, descobrir lugares novos e - de vez em quando - ir para shows e parques. Lívia diz que o amor para ela é viver assim: sonhando, viajando e crescendo juntas. Na sociedade patriarcal e racista que vivemos, ter esse amor é muito difícil, então por mais que pareça simples o que elas vivem, é algo muito político e revolucionário. A Wan completa que não é nenhum pouco simples. Amar é compartilhar, elas são muito companheiras e isso envolve muito esforço. Quando a Lívia fala sobre as questões patriarcais e raciais, Wan traz o quanto é poderoso nos questionarmos. Explica quantas vezes, por exemplo, que por a Alice ter a pele um pouco mais clara pensam logo que ela é filha da Lívia e já fazem essa conclusão sem perguntar, e como dá um nó na cabeça das pessoas quando elas respondem que a Wan é a mãe. “A importância de nos questionarmos o tempo todo antes de agirmos, de pensarmos outros modelos de sociedade, de nos permitirmos viver fora de padrões já estabelecidos.” Por fim, elas contam também como tem sido viver em São Paulo, por ser uma cidade muito mais diversa e aberta sobre casais homoafetivos, em contrapartida do governo que vivemos, que representa cada vez mais a legitimação do fascismo e que nos coloca medo em muitos momentos que estamos nas ruas. Quando o foraBolsonaro foi eleito, sentiram uma tristeza absurda. E mesmo sabendo que seria muito ruim o que viria nos próximos quatro anos, é inexplicável o quanto piora a cada dia que passa em níveis que não saberíamos que era possível piorar. A Lívia fala sobre como as pessoas se sentem à vontade para expressar a raiva e o ódio que sentem, não existe pudor ou vergonha nos atos de violência, e a Wan complementa que mesmo que ela tenha um trabalho que fale sobre diversidade e que viva em São Paulo, as coisas mudaram muito nos últimos três ou quatro anos. Por fim, elas comentam também sobre a vivência que tinham em João Pessoa, por entender a cidade enquanto um espaço que carrega ainda traços colonialistas e que tinham medo de certas demonstrações. As pessoas ao redor delas, por exemplo, não sabiam que elas eram casadas - apenas um núcleo pequeno no trabalho ou amigos próximos. Hoje em dia, viverem como casal e falarem sobre isso é coragem e liberdade, mas também é sobre estarem em um espaço de segurança, num lugar que permite mais diversidade e com pessoas que pensam da mesma forma que a gente - que também se preocupam com elas, formando uma base próxima, de cuidado e afeto. Wanessa Lívia
- Carol e Joyce | Documentadas
Amor de Propósito - Carol e Joyce clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Leticia e Thaysmara
A Thaysmara tem 22 anos, é natural de Fortaleza, capital do Ceará e trabalha na empresa que fundou junto com a Letícia, a Trevo. Lá, elas são artesãs, produzem diversos acessórios - e mais que isso, são empreendedoras, fazem artes gráficas, engajam com o público nas redes e enviam para todo o Brasil (vou deixar o Instagram aqui, então pra seguir é só clicar!). A Letícia tem 25 anos, é formada em Educação Física e no momento em que eu fotografei e conheci elas ela estava trabalhando em escala de ensino híbrido, ou seja, entre a escola e o home office. Letícia mora em Maracanaú, uma cidade que está localizada na região metropolitana de Fortaleza e se desloca diariamente até a capital. Conversando sobre esse método de trabalho híbrido e sobre tudo o que a educação brasileira enfrentou durante o período que vivemos - de pandemia - ela conta que se sente trabalhando muito mais que antes, principalmente, por estar atenta ao Whatsapp o tempo todo. “Temos que responder em qualquer horário, porque é o horário que o aluno está estudando. E se não responder, talvez ele não faça mais. Se eu responder só no dia seguinte vou perder o tempo, aí ele vai perder o interesse, pode estar ocupado, não vai voltar na dúvida que tinha antes… e eu vou perder meu propósito. Eu quero que ele aprenda”. Antes da pandemia, a Thays trabalhava com confeitaria junto com a madrinha dela, mas com a fundação da Trevo e os pedidos acontecendo, acabaram focando apenas em uma empresa. E a Letícia estava trabalhando enquanto auxiliar de treinadora no time de basquete que jogou por muitos anos - inclusive, é um dos seus hobbies: praticar diversos esportes como vôlei, futebol e, claro, basquete. No final de 2018, um pouquinho antes do natal, elas se conheceram. Foi por conta de um velho conhecido (Digo isso pelo tanto de vezes que ele já apareceu no site do Documentadas): o Tinder. Elas deram “match” e conversaram pelo Whatsapp, viram que moravam relativamente perto e comentaram de se encontrar. O encontro só aconteceu mesmo cerca de duas semanas depois. Se encontraram em um bar (o que estava marcado para às 16h, virou 21h por conta de um atraso da Thays) e o encontro foi um pouco desajustado pela soma de fatos de que a Thays estava bastante tímida e a Letícia falando a maior parte do tempo para que tivessem assuntos. Depois do bar elas se beijaram, ali por perto e no final, acabou que não teve desajuste nenhum! Foi tudo bem positivo. Elas se viram nos dias seguintes do primeiro encontro e, mesmo que a Thays não fosse assumida para a família, ela chamou a Letícia para ir na casa dela (enquanto uma “amiga”). Ainda em dezembro, começaram a namorar. Mais especificamente, no dia 22. Porém, aconteceu algo bastante inesperado nessa história: Um dia depois do pedido de namoro elas saíram com alguns amigos para comemorar e foram em um restaurante. Na volta para a casa, estavam de moto e sofreram um acidente. A moto derrapou e elas caíram, se machucaram levemente (no sentido de ralaram o corpo, mas não tiveram fraturas) e estavam conscientes para ligar para os amigos. A Letícia chorou bastante, sentiu vergonha e achou que era ali mesmo o fim do namoro mais rápido que ela já teve, até que a Thays soltou a frase: “Agora a gente só termina quando a cicatriz sair”. E, bom, a cicatriz tá ali… E elas estão juntas. Não preciso falar mais nada, né? Porém, neste natal, para ninguém desconfiar e ver os machucados, tiveram que passar usando roupas de mangas compridas. Foi no começo do ano de 2019 que, ao vê-las saindo juntas o tempo todo, os familiares começaram a desconfiar que não seria apenas uma amizade. O padrinho da Thaysmara chamou-a para conversar e ela acabou contando. Não foi nenhum pouco fácil se abrir para a família, mas aos poucos, tudo foi acontecendo e ela passou a voltar a morar com a avó nesse meio tempo, também somando no processo do começo de relacionamento das duas. Hoje em dia, elas passam muito tempo na casa da Letícia, porque a mãe dela é muito tranquila (Inclusive, foi a mãe quem ‘tirou ela do armário’!) e gostam bastante de passar a semana toda juntas por lá. A Letícia conta que existiram muitos momentos difíceis nesses anos de relacionamento, mesmo que elas sejam pessoas super tranquilas e estão sempre rindo por aí. São nos atritos que elas entendem que lidam de forma diferente: ela prefere conversar na hora para resolver, já a Thays tem que ter um momento para pensar sobre o que está acontecendo. No fim das contas, sempre se entendem. A Thays completa que cada vez menos as discussões acontecem, num sentido de ‘briga’, porque sempre tentam prezar por um relacionamento mais equilibrado e tranquilo, já que as duas possuem personalidades assim. Elas entendem que não é um cabo de guerra, então quando elas 'cedem', não estão perdendo, mas estão cedendo porque uma tá precisando um pouquinho mais de atenção, de tempo, de cuidado que a outra. E que a briga é diferente da conversa, é aí que encontram bastante do amor que sentem, porque confiam para falar bobagem e dar risada, como também para ter assuntos sérios e confidenciar inseguranças que sentem. mar água de coco e ver o pôr do sol. A Letícia diz que amor, para ela, é um sentimento que não deve nos remeter a dor. E que quando você se sente amada, você vai sentir isso da forma que você é - e pelo jeito que você é. Já a Thays pensa no amor e lembra logo da infância. Do cheiro da comida e do carinho da avó. Ela diz que desde criança gosta muito de observar o céu… então pensa por um tempo e conclui: é isso que ela sente sobre o amor. Quando falamos sobre mulheres, ambas dizem se sentir muito mais seguras falando com uma mulher sobre qualquer coisa. Não que seja realmente uma relação mais fácil, porém você se sente num ambiente acolhedor, porque há mais empatia. A Letícia lembra da mãe, da avó e da tia… fala sobre as mulheres que participaram da sua criação. E a Thaysmara conta a diferença que sentiu quando se relacionou com uma mulher, principalmente, na conversa em si - foi o espaço em que ela conseguiu se abrir de forma tranquila, sem o medo do pré-julgamento. Por fim, mas não menos importante, perguntei para as duas o que elas gostariam de ver acontecendo em Fortaleza e elas citaram mudanças na questão de infraestrutura e do transporte público. A Letícia conta que não conseguia ter dois empregos por conta da mobilidade não dar conta de levar as pessoas em um tempo útil atravessando alguns cantos da cidade e que, agora, tendo a moto, entende que é muito perigoso pelo risco que as estradas representam com a quantidade de buracos nas vias e pouca qualidade no trânsito. A Thays complementa que, além do que enfrentamos no cotidiano quando tentamos sair de casa, ela queria ver mais lazer nas comunidades e conseguir mais cursos voltados para a arte, pois todas as vezes que tentou se inscrever, enfrentou dificuldades - e que esses cursos realmente nos profissionalizem enquanto artistas - para que o mercado de trabalho também se prepare para nos receber. https://www.instagram.com/trevoacs/ entregam em todo o BR . Letícia Thaysmara
- Isabela e Camila
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isabela e da Camila, quando o projeto passou por São Paulo! Hoje em dia, quando elas se encontram, tentam passar o máximo de tempo que conseguem juntas. Já rolou uma semana, mas geralmente investem nos feriados. Como ambas estão trabalhando presencialmente, a distância ainda é um problema difícil. Tentam também diminuir o peso da saudade conversando bastante e curtindo o começo do namoro da melhor forma possível. Fazem chamada de vídeo todos os dias, jantam juntas, se falam sempre antes de dormir e nos finais de semana conversam a maior parte do tempo em vídeo também, principalmente ao anoitecer, quando podem virar a noite assim ou praticamente dormir em ligação. A Isa comenta que, para ela, o amor demonstra ser acompanhado desse respeito e companheirismo, e ela sentiu que nasceu o amor quando entendeu que podia confiar plenamente, que podia se entregar e pegar na mão, estar de verdade com a Cami. E a Cami conta que amar uma mulher, mesmo não romanticamente, significa se sentir completa. É amando que ela encontra o carinho, a identificação, o cuidado, a escuta, o acolhimento… é tudo o que ela sempre quis e que nunca imaginou que conseguiria ter com alguém. Juntas aprendem diariamente um novo modelo de se relacionar, também. De estarem dispostas, de se doar. Foi sóóóó no fim de janeiro que elas realmente conseguiram aceitar que esse sentimento existia e que o próximo passo era fazer o encontro acontecer, afinal, já estava na hora. Até a família da Camila já sabia da existência da Isa e dessa paixão à distância (e apoiava que elas se encontrassem!), então ela embarcou no avião e voou até Guarulhos. Elas se encontraram no dia 13 de fevereiro e no dia 14 estavam namorando. Foi assim, literalmente, encontrou > namorou. Hoje em dia ambas famílias gostam bastante e apoiam, Inclusive a família da Isa, que adora todas as vezes que a Cami vem até São Paulo. Elas já andam com aliança e tudo. Fizemos mil piadas sobre a corrida e sobre o tanto que a Isa correu de dezembro até fevereiro, em círculos, foi formando a aliança. Depois foi só parar de correr e vestir no dedo. Simples assim. Sem traumas. Ela entendeu que foi isso mesmo, só ela não enxergou, no fim estava na cara que isso aconteceria, sempre esteve. Mas respeita também porque foi o tempo dela e fica feliz da Cami ter entendido isso e não imposto nada que ela não se sentisse realmente à vontade de viver. A Cami e a Isa se conheceram através do Instagram, de uma forma bastante aleatória. A Cami, no começo de 2020, postou uma foto com uma atriz que tanto ela, quanto a Isa, gostavam muito: a Renata Toscano. Ela marcou a Renata e a Isa viu essa foto, por conta de ser administradora de uma página de fãs dela. Como ela ainda era pouco conhecida no Brasil, decidiu seguir a Cami e as duas se falaram rapidamente e a Cami compartilhou que que também tinha vontade de criar conteúdos enquanto fã, então mantiveram breves contatos, mas ainda sobre coisas pontuais. Com o início da pandemia e a agenda da artista no Brasil não dando continuidade, a Isa até deu dicas para a Cami fazer um Twitter porque era uma rede social mais fácil para fãs se comunicarem que o Instagram; ela fez, mas com o tempo elas foram deixando de se falar aos poucos. No decorrer do ano e, dessa vez, no Twitter, elas se deram um pouco melhor e entenderam que ambas se relacionavam com mulheres, o que fez com que se identificassem mais, já que o restante do meio ainda era bastante heterossexual, então aos poucos acabaram fazendo uma amizade. Nessa época, a Camila namorava e era muito fechada sobre o seu relacionamento, elas falavam muito pouco e não havia possibilidades da amizade delas ser mais que uma amizade, nem se passava pela cabeça de ambas um flerte ou algo do tipo, o assunto era realmente sobre fã clube. Depois de um tempo, elas descobriram outras séries em comum e, entre setembro e novembro, quando a Cami passou pelo processo de término, começou a se abrir sobre seu relacionamento para a Isa. Foi entre dezembro e o ano novo, um tempo depois do término e de já estar solteira, que ambas começaram a perceber que poderia surgir um sentimento a mais na amizade das duas. A Cami tentou falar sobre e conversar com a Isa, que reagiu da forma que soube: correndo. Hahaha! Ambas brincam sobre, mas a verdade é que ela correu o máximo que conseguiu. Evitou sentir, falar, mas ao mesmo tempo não deixou de conversar diariamente com a Camila. Ou seja, uma hora, iria ter que lidar com isso. A Isabela e a Camila, mesmo estando há pouquinho tempo juntas, constroem uma relação muito bonita ligando São Paulo, capital, com Itajaí, cidade no interior de Santa Catarina. Elas se conheceram pouco tempo antes da pandemia, de forma online e aleatória, através do Instagram, ficaram amigas e só foram desenvolver um sentimento e se encontrar realmente em 2021! E, neste ano, além do relacionamento estar acontecendo, se permitiram também viver um novo tipo de relação, de comunicação e de cuidado. ♥ Isabela tem 25 anos, mora em São Paulo e trabalha enquanto auxiliar financeira em uma imobiliária. Tem sua formação em direito, mas nunca atuou e nem pretende seguir carreira na área. Sonha mesmo em fazer pedagogia. Foi por isso que deu início a esse trabalho na imobiliária, para conseguir bancar os estudos e ter maior independência financeira. Ela brinca que esses ERAM os planos, porque hoje em dia, nem sabe se vai continuar morando em São Paulo e, enquanto ouço essa frase, a Camila fala no fundo “ela vai mudar pra Itajaí!!! Vai mudar!!!”. A Camila tem 20 anos, mora em Itajaí, interior de Santa Catarina e trabalha enquanto analista de crédito, em contato direto com o cliente. Ela cursa ciências contábeis e gosta bastante de morar em Santa Catarina, por mais que esteja gostando das idas para São Paulo de vez em quando também. Isabela Camila
- Julia e Vitória
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Júlia e da Vitória, quando o projeto passou por São Paulo! Júlia e Vitória são apaixonadas por moda, saúde da mulher, conversas longas, besteiras que fazem rir por horas, gatos e pela vida social com as amigas na cidade que moram, Campinas, interior de São Paulo. Possuem uma história de vida totalmente diferente: Júlia adora debater política e acredita que os atos políticos estão presentes em tudo o que fazemos. Sempre foi instigada pela família a ser uma pessoa argumentativa, questionadora. Vitória, por sua vez, vem de uma família muito conservadora. Frequentou a igreja até a adolescência, o pouco que sabia sobre política não achava que era tão importante - e era em ano eleitoral. O relacionamento significa uma revolução para as duas. Vitória aprendeu a olhar tudo sob uma nova perspectiva, reconheceu a importância dos debates e do pensamento crítico, enquanto Júlia aprende a compreender sua praticidade: nem tudo é tão direto, tão incisivo. Precisa entender o tempo das pessoas de processar, enfrentar e saber lidar com seus processos. Júlia conta que sempre viu o amor no lugar de incentivo, de afeto, de impulso e entende que amar é sempre algo coletivo, nunca individual. A família sempre incentivou (a ler, escrever, ouvir músicas, ter contato com o mundo). Depois da separação dos pais ficou cada vez mais próxima da mãe e percebe que sempre foi fácil entender as relações de gênero, o cuidado que uma mulher tem por outra. Sendo assim, não consegue separar o amor de algo político, sendo ele o familiar ou o romântico, que possui pela Vitória - e quando cita ela, só consegue dizer o quanto a admira, o quanto é fácil amá-la, se orgulha da força que possui e do quanto estão crescendo juntas. Finaliza com um “que mulher foda!.” Vitória, no momento da documentação, estava com 25 anos. É natural do Paraná, mas mora em Campinas, São Paulo, desde criança. Trabalha enquanto fisioterapeuta, focada na saúde da mulher, adora falar sobre sexualidade e tudo o que envolve o corpo feminino. Juntas conversam muito sobre os assuntos que envolvem sua profissão, dentre eles o parto. Ressaltam a importância de ter mulheres que estudem sobre mulheres porque até hoje a maioria das coisas que temos foram homens que decidiram. Falando sobre isso, Vitória faz o recorte sobre o quanto poder conversar e enxergar esses debates no relacionamento acrescenta na vida dela: impulsiona e demonstra o quanto querem crescer em conjunto. Júlia, no momento da documentação, estava com 34 anos. É natural de Campinas, São Paulo e trabalha com comunicação social, unindo o jornalismo e relações públicas, num ateliê. Conta que pela primeira vez pode ser ela mesma num ambiente de trabalho e como isso tem sido gratificante. Juntas elas adotaram um gato - o Kovu - e dividem vários hobbies em comum, entre eles o amor pela moda. Acreditam que a forma de se vestir também é um ato político. Amam performar feminilidade e o “choque”/a reação que as pessoas demonstram ao saber que são duas mulheres muito femininas se relacionando amorosamente. Foi em 2020 que elas se conheceram num bar. Não tinham muitas coisas abertas por conta da pandemia de Covid-19, mas foram num aniversário e se viram. Na época, Vitória estava se envolvendo com uma pessoa, mas lembra de ter visto a Júlia de tranças, dançando. Num segundo encontro, se esbarraram e ficaram, mas tudo foi muito confuso, passaram a conversar, Vitória viu a Júlia ficando com uma pessoa um tempo depois, chorou e entenderam que estavam apaixonadas uma pela outra. Ficaram mais algumas vezes, até que no começo de 2021 começaram o relacionamento. Foi um início difícil por conta da Vitória morar com os pais e eles não saberem da orientação sexual dela, além de não darem muita abertura para a conversa. Porém, estava cada vez mais insustentável ela não se sentir bem dentro de casa. Por mais que o amor entre a família exista, ela tinha medo de como iriam reagir, e também de como iria sair de casa, se sustentar… Vivia sob constante pressão. Aos poucos se estabeleceu financeiramente, procurou uma casa e foi criando coragem. Contou para a família num sábado, fez a mudança na terça e manteve a relação da melhor forma possível. Hoje, segue no mesmo lar, com o gatinho e com a Júlia visitando o tempo todo. Vitória fala sobre como a religião é difícil, mas sempre fez parte do que ela foi. Nunca se julgou, nunca achou que fosse um erro ou uma aberração ser quem ela é, diferente do que pregam. Em certo momento, entendeu que o que ouvia na igreja não fazia mais sentido pra ela, então decidiu parar de frequentar. A parte mais difícil foi explicar isso para a família, sente que colocavam uma expectativa muito grande nela, então acabou decepcionando os pais, arranjava desculpas para não ir ao invés de falar diretamente o que sentia e o processo demorou muito mais para acontecer. Quando conheceu a Júlia, vivia um momento diferente, mas complicado. Explica que a Júlia ter enxergado ela e dado uma chance para que vivessem um amor tão bom como vivem só faz admirar e amar cada vez mais tudo o que ela é (e o que são juntas). Além disso, acredita que amar independe de quem as pessoas são. Você deve sempre apoiar quem se ama. Júlia conta que sua descoberta para ter uma relação com mulheres foi praticamente inesperada, porque aconteceu enquanto uma “zoeira”, numa experiência de trisal. Não entendia e nem pensava muito sobre o que estava acontecendo. Foi entender quando ficou sozinha com a mulher e viu que isso incomodou o homem. Debateu, pensou sobre, entendeu o próprio corpo e então tomou protagonismo na história. Hoje, fala muito sobre as formas que o patriarcado toma conta das relações – ainda que sobre duas mulheres. E na sua relação com a Vitória dividem o máximo que podem, se comunicam e tentam traçar um caminho diferente. ↓ rolar para baixo ↓ Júlia Vitória
- Sharon e Vivi
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Sharon e da Vivi, quando o projeto passou por São Paulo. Por fim, falamos também sobre o futuro e sobre mudanças sociais que gostaríamos de enxergar. A Sharon trabalha atualmente em uma empresa própria que atua um pouco entre turismo e entre o meio corporativo… as empresas contratam a plataforma dela para premiar seus funcionários através de campanhas de venda/metas/aniversário de casa e os prêmios são bastante variados, mas antes da pandemia envolviam viagens, jantares, presentes, passeios de balão, etc. Ela enfrentou um baque muito grande na pandemia, precisou devolver a sede fixa, passar por muitos cortes, inclusive de funcionários, se reinventar muitas vezes de muitas formas. Hoje em dia se adaptaram para que os presentes sejam em casa (e ainda possuem alguns fora), mas reflete muito sobre como tudo precisou ser mudado e sobre como as mudanças vão demorar anos para nos restabelecerem. Ela fala também sobre a importância de ocupar espaços sendo quem somos, de dar as mãos em público, de falar com os filhos, estabelecer diálogos, abrir mentes. Sobre esse trabalho que acaba sendo um pouco de um a um, mas que traz representatividade e que vai mudando em comunidade quando o primeiro decide dar o passo. A Vivi também entra nesse assunto, mas com um ponto de vista da realidade que ela vive envolvendo a agroecologia. Fala sobre a importância da reforma agrária, sobre a quebra de acúmulo absurdo de capital que existe no mundo atual e traz um ponto muito importante: o de trazer mulheres pretas invertendo as coisas. Ela explica que é quem ela é pelas pessoas por quem ela passou, e que essas pessoas por quem ela passou não são brancas, por isso quer ver pessoas não brancas nos espaços de poder, nos espaços que ela frequenta, em todos os espaços que puderem ser possíveis estar. Acredita que só assim as coisas terão alguma chance efetiva de dar passos para frente. Da mesma forma, ela tenta ensinar tudo o que pode para a Rafa, porque acredita também que uma Rafa lá na frente vai fazer a diferença. “Pessoas reais ocupando espaços reais são o que, no dia a dia, faria reflexo”. Quando falamos de amor, a Vivi entende que o amor é você se permitir colocar no lugar do outro: de toda criatura. Seja pessoa, seja planta, seja bichinho. É se colocar e estar bem se colocando. Sentindo calor no peito, uma plenitude e um saciar, ou melhor, um transbordar. E por mais que não concorde, por mais que sofra, você não sente sozinha, porque o amor é social. A Sharon acha que o amor envolve nunca querer ver a pessoa que você gosta triste. Acho que no começo a gente interpreta essa frase de uma forma, mas é possível ler ela de inúmeras maneiras. Primeiro porque sempre fazemos de tudo pelas pessoas que a gente gosta, meio que sem explicações, não sabemos como explicar isso, mas a verdade é que fazemos porque gostamos. E aí entram nossas mães, filhos, amigas, pessoas amadas… E segundo porque entram situações como a dos filhos, por exemplo, que você precisa ensinar a frustrar, porque se você não ensinar, você não ama, e você ensina isso porque você quer ver ele bem. É quase que uma loucura, mas faz parte desse amor. É uma forma de sempre ir se desdobrando para chegar num objetivo final, que é sempre trazer coisas boas à pessoa que você gosta, e não deixar ela triste. Quando destinamos esse amar ao assunto de amar outra mulher falamos que o amar outra mulher é sensual - “porque é um afeto de mulher, é uma condição de mulher” - e é também se ver longe de muitos machismos. A Sha identifica a relação das duas como um encaixe, como algo que ela nunca teve com ninguém, ainda mais com um homem. Principalmente pelo cuidado, pelo apreço, pela comunicação… por algo que só a mulher saberia proporcionar. Citamos por um tempo a questão de quando uma mulher está em um dia que ela não quer ter relações sexuais, por exemplo, ela pode falar, que as duas vão arranjar algo para fazer juntas, uma comida gostosa, assistir um filme ou qualquer outra coisa, enquanto milhares de mulheres passam por relações de forma “obrigatória” por não conseguirem dizer que não querem ter uma relação sexual com um homem. Como pode isso ainda acontecer com tantas mulheres? E de que forma também as outras relações poderiam ter mais diálogo? Ou, de que forma que em relações heterossexuais normativas, por exemplo, os casais pudessem trabalhar melhores formas de escuta? Manter a casa e a família é um desafio muito grande e a casa surgiu em um momento de muito aperto também, foi logo depois que elas contaram para as crianças e quando a Sha ainda morava em um apartamento sozinha com os dois pequenos que houve uma tempestade em São Paulo e muitos pontos alagaram, inclusive este prédio em que ela morava. Foi uma situação de muita correria e desespero, porque a garagem inundou, tiveram que retirar as pessoas do local, a Vivi ajudou ela com as crianças e por conhecerem e terem contato com a vizinhança, a comunidade e o pessoal da escola, alguns conhecidos souberam do ocorrido e comentaram sobre uma casinha que estava ficando disponível porque os inquilinos estavam saindo do Brasil. Decidiram dar uma chance e fazer uma visita, talvez pudesse ser legal, estar em boas condições e ser um valor possível de pagar, então marcaram um horário. Quando chegaram, a primeira coisa que viram foi o portão amarelo e aí a Vivi reconheceu que justamente ali, o portão e a árvore de Ipê que ficava em frente à ele, foi ela quem plantou há anos atrás, quando foi convidada a vir ao bairro fazer parte de uma arborização. Tudo na história foi se encaixando perfeitamente e a casa coube direitinho nos planos: virou o lar. A relação dos quatro também foi uma construção de muito cuidado e muuuuuuuito afeto. Por mais que elas transbordem amor, a família paterna das crianças ainda é um tanto quanto homofóbica, então elas enxergam que na nossa sociedade existem lados muito opostos sobre as coisas. A Sha e a Vivi acabam falando mais sobre a Rafa, por conta dela ser maior e já entender melhor como tudo funciona e por apoiar e defender muito as duas na frente da família paterna, o quanto ela mesmo já reconhece as duas enquanto mães e a forma que em detalhes mostra o apoio, desde ouvindo músicas de cantores LGBTs até desenhando e pintando vários quadros de arco-íris pela casa. Tanto ela quanto o Raul entendem que o preconceito ainda existe no mundo, mas muito mais que isso entendem o amor deles pela Vivi, porque são apaixonados por ela. Quando ela está no sítio eles ficam doidos para que ela volte para São Paulo, sentem saudade, querem ela perto. E assim vão construindo suas rotinas e tendo suas vidas enquanto uma família. Eles a reconhecem e isso é o que importa. Aos poucos elas foram se encontrando e ficando realmente juntas. A Sharon, há um tempo atrás, já preparava os filhos em casa introduzindo assuntos como esse. A Rafa hoje em dia tem 12 anos e o Raul tem 7 anos, e ela sempre falou muito sobre diversidade, sobre as pessoas serem livres para amar quem elas sentirem atração, sobre as múltiplas lutas sociais e tudo o que nos envolve. Foi um passo muito importante assumir o relacionamento com a Vivi e também muito engraçado ouvi-las contando. Como eles eram bem mais novos, tudo ainda era uma incógnita e elas não sabiam como reagiriam. O fatídico dia realmente aconteceu logo depois do natal, quando as crianças foram passar a ceia na casa do pai, a Vivi foi até a casa da Sharon e deixou alguns bombons de FerreroRocher. Quando as crianças chegaram em casa, no dia seguinte, encontraram o presente e estranharam, porque a Sha não costuma comprar chocolates, então ela chegou e falou “vem cá! Senta aqui!” e em seguida “gente, é o seguinte! A mamãe tá namorando! E é uma menina!”. Ela conta a cara de surpresa em tom muito animado que a Rafa fez, enquanto ela completava “e foi ela quem deu esse bombom para vocês!”. E então eles piraram, ficaram animados, fizeram uma vídeo chamada com a Vivi, que já estava em Minas Gerais passando o Réveillon e marcaram de se conhecer pessoalmente assim que ela voltasse no início do ano. O encontro aconteceu e foi uma viagem, uma trilha que durou alguns dias. Foi incrível, em um lugar muito bonito. No primeiro dia envolveu um certo estranhamento das crianças sentindo que a mãe estava namorando alguém, mas no decorrer da viagem já estava todo mundo se divertindo e no último dia a Rafa deu uma flor de presente para a Vivi. Ela conta que pegaram ondas juntas e que todo mundo se divertiu muito. Hoje em dia todos moram na mesma casa, trocam muito e falam sobre a educação das crianças o tempo todo. A Sha conta que sente que as coisas aconteceram no momento certo, porque elas vivem uma maturidade única agora, e as crianças também. A Rafa entrando na adolescência com a presença das duas é muito importante, porque ela pode se sentir à vontade para compartilhar muitas coisas e a Vivi acolhe muito ela também, as duas possuem muita confiança uma na outra. Por mais que estejam juntas há um pouco mais de dois anos e meio, a Sharon e a Vivian se conhecem desde os 14 anos. Tudo começou quando a Vivi fazia capoeira com a irmã da Sha, dos 14 até os 17. Depois disso, por mais que as melhores amigas delas sempre se mantivessem em contato e elas sempre ouvissem falar uma da outra, elas seguiram a vida e não se viram mais. Cresceram, casaram, se mudaram e nunca se encontraram. Foram muitos anos depois, logo depois da separação da Vivi que ela decidiu sair de casa e ir até um samba encontrar as amigas e quando chegou lá viu a Sha. Importante contar que a Vivi, desde os 14, sempre se relacionou com mulheres, enquanto a Sha foi pelo outro lado: ela se relacionava com homens quando era mais nova, então se casou, engravidou, divorciou e depois ficou com a primeira mulher. Nessa época, ela já tinha tido algumas experiências e estava lá curtindo o samba. Elas brincam que não sabem o que aconteceu exatamente, mas estavam sentadas uma do lado da outra e a Vivi grudou a perna na perna da Sha. Foi um ímã. Ela colou a perna e a partir daí surgiu a possibilidade delas se beijarem. Quando o beijo rolou, todas as amigas comemoraram muito! Ou melhor, nem acreditavam! Imaginem só. Eram as melhores amigas de todas as amigas, juntas! E foi aquele beijo de levantar perninha, de seleção brasileira vibrar! Ter encontrado a Sharon e a Vivian foi uma das melhores surpresas que o Documentadas poderia ter recebido em sua primeira passagem por São Paulo. Por mais que toda história tenha sua carga gigantesca de importância e seu conteúdo único no nosso banco de registro e de dados, a Sha e a Vivi ocupam um espaço de reflexão e aprendizado grande não só no projeto, mas na vida e no dia de quem irá percorrer os olhos lendo e conhecendo suas histórias no texto a seguir. A Vivian tem 37 anos, é agrônoma e agricultora, trabalha diretamente na roça, em uma fazenda no triângulo mineiro. Vive entre Minas Gerais e São Paulo, lugar onde divide a casa com a Sharon, os filhos (a Rafa e o Raul) e as duas cachorras mais simpáticas da zona sul. Já a Sharon também tem 37 anos, mas ela é total São Paulo, por mais que ainda seja apaixonada pela natureza em todas as suas formas e jeitos. Ela trabalha em uma empresa própria, que atua em um ramo sobre premiação por experiências (no decorrer do texto falamos mais um pouquinho sobre!) e, além dos trabalhos, ela e a Vivi também fazem diversas atividades na luta política - arrecadam doações para as comunidades próximas, possuem ligações com as mulheres agrônomas do MST e a Vivi também é veiculada à um grupo de agroecologia em Uberlândia. Acredito que a casa delas, no meio da zona urbana e de tantos prédios em São Paulo, nos faz quebrar qualquer ideia pré estabelecida sobre a cidade cinza. É uma casa que, além de um portão amarelo e as paredes cheias de artes feitas pelas crianças, a alegria das cachorras e a animação natural do ambiente, conta com um terraço repleto de plantas, flores e pássaros que chegam livres, das árvores, para comer as frutas que elas colocam. São de muitas espécies, tamanhos e ficam muito dóceis por já estarem acostumados em ganharem as frutas. Foi neste ambiente que conversamos e nos conhecemos. Esqueçam barulhos de carros ou poluição e céu cinza, por ali só tivemos pôr do sol e muita cantoria ao vivo! ♥ Sharon Vivian
- Daniella e Flávia
A Daniella e a Flávia moram em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, e dividem a vida com suas duas bichinhas caninas. Entre suas rotinas, o que mais gostam é dos finais de semana (momento em que se encontram para passar juntas) e de sair para beber e comer com qualidade. Elas entendem que são pessoas muito diferentes nos jeitos, gostos e culturas, mas se encontram entre diversos caminhos. São pessoas muito ligadas à família e entendem o amor como uma demonstração nas pequenas atitudes: trazem o exemplo de que a Dani sempre bebe água antes de sair de casa e sabendo disso a Flávia já deixa um copo d’água preparado para ela não se atrasar. O amor que trocam fica entre as formas de cuidado com o lar, as cachorras, o corpo e/ou as ações que tomam diariamente. Dani explica que o amor sempre esteve presente em toda a sua vida: a educação que recebeu dos pais, a forma que se entrega no que acredita e o quanto deseja viver coisas boas com quem admira. Destaca o fato de que ela e a Flavia são opostas complementares, ou seja, estão ligadas uma à outra para trazer ensinamento. Com o relacionamento, aprendeu a amar outra mulher de um jeito diferente do qual estava acostumada. Dani tem 29 anos, é psicóloga e viajou do interior de São Paulo até Belo Horizonte para fazer mestrado, trabalhar com atendimentos e praticar sua militância. Hoje em dia, passou em um concurso e mora em Contagem, município vizinho da capital. Flavia tem 30 anos, é engenheira civil e também trabalha enquanto barbeira - conta que trabalhava muito nesse ramo, até abriu um salão na garagem de casa, mas que hoje em dia a demanda da engenharia é muito grande e acaba atendendo só quando sobra tempo. Ela nasceu em Belo Horizonte e mora até hoje no mesmo bairro e mesma casa; citam a diferença da trajetória dela e da Dani: a Dani morou em três estados, enquanto a Flavia nunca saiu do seu lar, fazendo com que tenha muitos amigos de infância e conheça cada vizinho da rua. Flavia comenta a importância das suas raízes nos bairros de Belo Horizonte, principalmente por ter se assumido em um momento muito diferente do que vemos: há 15 anos atrás era muito mais difícil ‘sair do armário’ e hoje fica feliz vendo meninas e meninos sendo quem são ao andar na rua, usando cabelos coloridos e falando abertamente sobre orientação sexual. Dani e Flavia se conheceram num momento de flexibilização da pandemia, por conta de terem amigas em comum. A Dani morava sozinha e recebia vez ou outra alguma amiga em casa e foi numa dessas vezes que a amiga postou um storie com ela. A Flavia viu o storie e começou a seguir a Dani, curtiu suas fotos e começaram a conversar pelo Instagram mesmo. Um tempo depois, Dani chamou Flavia para visitá-la, porém teve como resposta que elas deveriam convidar a amiga em comum também, já que Flavia não queria visitar sozinha. O jantar aconteceu, elas foram e levaram cervejas - depois de horas e horas de conversa o beijo finalmente surgiu, enquanto a amiga foi ao banheiro. Flavia comenta que iria embora sem beijar, porque é mais tímida e precisa de um certo tempo, enquanto na mesma hora Dani rebate: “Se ela não me beijasse naquele dia, certamente não nos veríamos mais”. Um tempo depois foi a vez de Dani ir até a casa da Flavia (que, inclusive, já tinha comprado um presente para ela na semana do seu aniversário). Se encontraram num sábado, durante um encontro que deveria ser rápido, e acabaram ficando até segunda-feira juntas - com a Dani conhecendo a mãe da Flavia e não querendo tomar banho na casa dela para não gastar água ou dar prejuízos - o que virou piada até hoje. Logo no começo da relação, enquanto ainda estavam se conhecendo, Dani conheceu a ex cunhada de Flavia e foi convidada para viajar ao Rio de Janeiro com elas porque precisavam resolver algumas coisas por lá, porém, enquanto estavam nesse momento inicial, Flavia teve um envolvimento com a sua ex. Elas entendiam que não namoravam - e Dani conversava muito sobre a não monogamia, mas esse fato veio como um baque, já que a Dani não esperava que acontecesse. Passaram por um momento de afastamento e de quebra de confianças, mas depois conversaram e decidiram: ou namoravam e construíam algo juntas, ou se separavam para não machucar uma à outra. Acabou acontecendo um fato isolado, do qual a Flavia sofreu um assalto enquanto trabalhava como motorista de aplicativo, e a primeira pessoa que ligou foi a Dani. Depois disso, se falavam frequentemente e entenderam que precisavam resolver seus traumas individuais para conseguirem ficar juntas - assim fizeram. Dani sentia amar Flavia e não queria abrir mão do relacionamento, então passaram por um período de conversas, cuidados e decidiram começar o namoro. A Flavia é a primeira namorada da Dani, então passaram juntas pelo momento de contar às famílias e tudo foi fluindo aos poucos - acreditam que fluiu bem, já que no primeiro natal passaram na casa da Dani com parte da família reunida e apoiando o que constroem juntas. Depois dos primeiros meses, adotaram a Teresa - uma vira-lata preta, já adulta, bastante animada e bagunceira. Flavia conta que percebia o quanto a Dani acabava ficando muito sozinha e adotar a cachorra foi inicialmente impulsionado por esse motivo (na época a Meg já existia, mas era a cachorrinha da Flavia há anos, então apenas visitava a Dani), depois da adoção entenderam que a Teresa representa muito mais que companhia, aprendem diariamente formas de amar com ela e se sentem muito mais felizes. Hoje em dia, viajam bastante para o interior de Minas e gostam de conhecer lugares novos. Entendem que podemos ser quem nós somos e não gostariam de entrar em caixinhas de padronizações sobre os nossos corpos para sermos mais respeitadas em sociedade. Comentam que sobretudo desejam a vontade de mudar a sociedade sob o medo da violência e, para o futuro, pretendem engravidar e formar uma família - mantém uma poupança para isso, pensam na possibilidade da inseminação e em não ter apenas um filho. [Boa sorte, gurias. ♥] ↓ rolar para baixo ↓ Daniella Flavia
- Alessandra e Roberta
Tanto a Roberta, quanto a Alessandra, sempre sonharam em ser mães e ter uma família. Nos 16 anos em que estão juntas, planejaram e enfrentaram diversos desafios para terem seus filhos: o Alexandre, a Sofia e a Rafa. Hoje em dia, morando na cidade de Contagem - Minas Gerais, elas dividem seu tempo entre o trabalho (sendo professoras em escolas públicas), a rotina das crianças, os encontros com a família, as responsabilidades na igreja e os momentos de divertimento - esses, as crianças mesmo contam quais são: brincar com a Amora (a porquinho da índia), ir ao clube, assistir filmes e passear no parque. Alessandra vê o relacionamento delas com muita cumplicidade, parceria, perdão, união e companheirismo. São companheiras em todas as horas, contam o quanto mudaram juntas nesses anos de relação e o quanto pretendem sempre evoluir. Roberta fala sobre enxergar o amor enquanto algo único, mas entende que o nosso - de mulheres que amam outras mulheres - precisa estar sempre em enfrentamento ao preconceito. Cada vez mais entendem a importância de se ver representadas: desde nas mídias, até nos trabalhos. E o quanto fazem questão de mostrar que são capazes em tudo o que podem fazer, para que o preconceito nunca abra espaço para alguma discriminação por serem quem são. Foi através da pedagogia que elas se conheceram - e acreditam que foi Deus quem colocou uma na vida da outra - elas não estudavam na mesma universidade, até que a Alê conseguiu transferência para a universidade que a Roberta estudava. Nessa época, a Roberta tinha um problema grave no joelho e passou por diversas cirurgias, ficava bastante tempo fora das aulas por conta disso e o dia que elas se conheceram foi devido à uma comemoração pela volta da Roberta. As amigas do curso resolveram tirar uma foto, comemorando, e a Alê sem nunca ter conversado com a Roberta participou da foto, e pior: foi tão empolgada que quase bateu no joelho imobilizado dela. Um tempo depois, entre a vida acadêmica, começaram a conversar. Tudo se intensificou numa viagem que realizaram até Ouro Preto, da qual a Alê levou a sobrinha e a Roberta estava ainda sem andar por conta do joelho, então acabaram ficando juntas muito tempo, não seguindo a maioria dos passeios. No semestre seguinte, para surpresa de ambas, visto que nunca tinham se relacionado com uma mulher, entenderam que estavam apaixonadas uma pela outra. Sentem que tudo foi uma descoberta muito íntima e vivendo no tempo delas, entendendo limites e construindo uma nova forma de amar. Depois que assumiram o relacionamento, tudo foi caminhando com o tempo: se formaram, passaram em concursos, guardam dinheiro para investir em um apartamento… Para a Roberta foi mais difícil sair de casa, ela é a única filha mulher e sempre foi muito ligada à família. A Roberta, por ter diversos irmãos, teve uma mudança mais facilitada. Eles estavam guardando dinheiro porque o plano de terem uma família estava cada vez mais próximo. Contam que não foi fácil, ainda mais com o salário de professoras de escolas públicas, mas encontraram clínicas e conseguiram parcelar os exames. Na época, como as duas queriam engravidar, tentaram fazer o processo juntas - hoje em dia entendem que provavelmente não daria certo, pela quantidade de hormônios e tudo o que envolve a gravidez simultânea. Portanto, a Roberta gerou o Alexandre e logo depois (cerca de 6 meses) a Alessandra engravidou das meninas. Eles possuem cerca de 1 ano e 1 mês de diferença. Elas contam que sendo educadoras, tendo muito contato com crianças no trabalho e também na família (os sobrinhos, por exemplo) achavam que isso seria um facilitador na hora de educar os próprios filhos, mas que na verdade tudo é bem diferente - você participa de todos os processos existentes, desde alimentação, até ensinar tudo o que eles sabem (e que vão construir o ser social que são), enquanto os sobrinhos o contato era como um passeio no shopping. A educação é um dos maiores desafios e o que elas mais cuidam e se preocupam também. Desde o momento de gerar até o momento de educar elas vivenciaram diversos preconceitos: na clínica, na escola na hora de matricular as crianças, no registro do Alexandre que foi muito difícil de conseguir… mas transformaram isso em oportunidades também. O caso do Alexandre, por exemplo, por não conseguir registrá-lo perderam o convênio que elas tinham, nisso sempre que precisavam levar ele para algum lugar e estavam sem documento, eram vistas com péssimos olhares. Depois da batalha que travaram, a juíza da cidade autorizou o caso dele e em seguida das meninas, e isso abriu diversas portas para as crianças que estavam sem registro e que tinham mães e pais LGBTs terem seus processos realizados. Entendem que tudo o que viveram foi muito entre elas, ou seja, uma apoiando a outra. Foram períodos bem difíceis, como também problemas de saúde durante a gravidez de ambas, mas suportaram porque sabiam que não estavam sozinhas. Por mais que hoje tenham a família que sempre sonharam, entendem que nem tudo é romântico e feliz, valorizam cada passo que deram juntas até aqui. Hoje em dia, mesmo morando em Contagem, trabalham em cidades próximas. A Roberta, pela primeira vez, foi trabalhar numa escola em que a diretora é casada com uma mulher. Assim ela se sentiu à vontade para falar que se relaciona com uma mulher e sente que está sendo tudo diferente: o acolhimento, o trabalho em si, a forma que a Alê praticamente faz parte da escola porque visita e é super bem recebida. Ela entende que essa é a importância da representatividade vir “de cima” também, estar em cargos de poder. Além do trabalho, a rotina delas envolve a presença na Igreja Contemporânea. Contam que quando se conheceram eram católicas, mas a partir do momento que ficaram juntas pararam de comungar (porque quando se toma a hóstia, se confessa, e a relação que elas tinham era lida enquanto pecado). Eram mulheres muito ativas na igreja, desde grupo de jovens até retiros, e por mais que ninguém chegou a falar diretamente que elas não poderiam ir, não se sentiam mais parte, então decidiram se afastar. Passaram um tempo procurando igrejas evangélicas, até tinham um certo preconceito inicial e não encontraram nenhuma que gerasse identificação. Foi através de uma entrevista que conheceram um pastor e decidiram saber mais sobre a igreja - que tinha sede em Belo Horizonte, mas era num hotel e elas acharam isso muito estranho, não foram - quando a igreja passou a ter um espaço físico decidiram ir, chegaram lá e foram bem recebidas, adoraram e decidiram fazer parte. Dentre as prioridades com certeza está a fé. Acreditam que, além do encontro delas, as crianças também são presentes de Deus e que tudo se encaixa com a crença. ↓ rolar para baixo ↓
- Mayara e Clara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mayara e da Clara, quando o projeto passou por São Paulo! Foi através de um aplicativo de relacionamentos, em 2016, que a Mayara e a Maria Clara se conheceram. Elas conversaram um pouco, trocaram algumas ideias... e um tempo depois, a Clara estava numa roda de amigas, conversando, na rua, quando viu uma moça passando e identificou as tatuagens e o jeito parecido com “aquela que havia dado match no Tinder”. Ela conta que Mayara veio lhe encarando, mas que ambas não tinham certeza se eram mesmo quem imaginavam, então trocaram mensagens para se certificar, do tipo “eu passei por você agora há pouco?" e interpretaram aquele encontro como um sinal, para se encontrarem mesmo, com data e hora marcada, em breve. No fim de novembro de 2016 foi quando começaram a se relacionar e vivenciar momentos de altos e baixos, idas e vindas. Em setembro de 2017, quase um ano depois, foi quando realmente entenderam o que tinham enquanto um namoro. Esse entendimento e essas “idas e vindas” levaram tempo por conta de processos bastante internos e hoje, olhando para trás, percebem que o relacionamento mudou muito desde o início. Parte desse processo vinha de uma movimentação mais defensiva da May, que aos poucos foi compreendendo que elas estavam juntas para se ajudar. Nesse primeiro ano, a May sofreu um episódio de homofobia bem doloroso. Ela estava sozinha, num lugar até então seguro e foi agredida por pessoas que chegaram de fora da sua casa. Esse movimento de passar por violências muito graves que jamais imaginaria trouxe muito sofrimento e também um sentimento de querer encontrar a Clara por a entender como um apoio e alguém com quem poderia contar. Enquanto a Clara, por sua vez, respeitou e acolheu de forma essencial, deixando com que mesmo entre muitas dores, a May pudesse se sentir em segurança ali. Assim, com o passar do tempo e dessas turbulências, elas foram amadurecendo o sentimento. Outras coisas que envolviam a relação também foram amadurecendo naturalmente, como ciúmes, relações com familiares (que passaram a compreender e apoiá-las) e o próprio respeitar espaços de cada uma foi fundamental para que a relação pudesse ter maior conexão e intimidade. Tanto a Mayara, quanto a Maria Clara, possuem 28 anos. Mayara é de Rio Claro, mas foi morar em Campinas há 9 anos para ser publicitária - profissão que desenvolve em uma agência - trabalha com atendimento ao cliente também, além de alguns trabalhos com redação, que é o que ela mais gosta. A Clara é boleira, faz bolos por encomenda, tanto caseiros, quanto para festas (e são muuuuuuito gostosos!). Além disso, a Clara também faz alguns trabalhos temporários em atendimento e suporte ao cliente. Ah, outra informação sobre elas que não poderia faltar, né? Elas são opostos complementares nos signos: áries e libra - e isso sempre esteve presente nas conversas, desde que se conheceram. No momento que nos encontramos conversamos bastante sobre a pandemia, elas contam que a adaptação foi difícil, tanto no trabalho, quanto na relação, na vida, nas amizades, no dia a dia. O trabalho envolvia vendas na presencialidade e tiveram que trazer os clientes para o meio online, sendo um desafio imenso, sentindo desconfortos pelas videochamadas, desconhecimento de tecnologias, foi uma adaptação bem grande. Elas entenderam que trazer o conforto para a situação é o maior desafio em seus trabalhos, tentam descontrair e fazer os clientes se sentirem tranquilos, mas ligar uma câmera não é fácil (e possível) para todo mundo. Além disso, foi difícil parar de fazer o que mais gostavam, como sair com o Paçoca (o cachorrinho mais educado e querido desse mundo!), ir à praia e sair um pouco do mesmo espaço dentro de casa para conseguir se movimentar, então perceberam ansiedades aumentando, momentos de maiores cobranças e imediatismos. A forma de tentarem se ajudar e deixar tudo mais leve foi reinventando os espaços em casa, a May se mudou para dividir o lar com a mãe da Clara e a Clara e a partir disso elas passaram o tempo livre maratonando séries, compartilhando refeições e investindo nos instrumentos musicais. Elas têm se permitido sair para andar de bicicleta, brincar com o Paçoca, visitar a família e ir até a casa no sítio. Elas sempre se enxergaram dispostas a viver o amor e a estarem juntas e isso é o que mais se destaca para a Mayara. Ela diz que ambas sempre estão percebendo uma à outra de maneira inteira, com suas qualidades e defeitos. Quando enfrentam momentos em que as coisas se tornam um pouco mais sensíveis, entendem que é preciso encontrar força conversando e buscando uma na outra, porque o amor está também nessa persistência, nessa vontade de estar juntas e nesse encaixe que ele possibilita. A Clara percebe que o amor é desejar e entender o que queremos para o outro (a pessoa com quem nos relacionamos) e para a gente (a nossa relação) - e não só, para que isso se espelhe/se reflita nos outros também, nas nossas relações com as pessoas que estão ao nosso redor, visto que o amor não precisa envolver apenas o romântico e o sexual. Ela acredita que amor envolve companheirismo, incentivo, uma parceria mesmo. Isso faz com que as coisas permaneçam fortes e saudáveis ao longo dos anos, trazendo essa preocupação em relação ao bem estar… e, principalmente entre as mulheres, no que envolve afeto, porque acredita que o companheirismo e a escuta são nossas principais características. Tivemos várias conversas sobre como vimos as relações humanas hoje, além do relacionamento delas, mas como as pessoas se relacionam hoje em dia e, alguns dias depois, recebi uma mensagem falando como foi importante a participação no projeto porque fez com que elas olhassem para o relacionamento delas com maior respeito pela história que construíram juntas. Fiquei feliz pelo o que o Documentadas provoca na gente, esse autoconhecimento, mas também pelo reconhecimento que merecemos ter porque nos amarmos, enfrentarmos tantos preconceitos e termos uma história que resiste e que se permite conhecer, estar aberta e aprender com seus erros, é de fato, ter coragem. Obrigada por compartilharem a história e aproveitem o amor de vocês, meninas ♥ Mayara Maria Clara
- Anik e Isabelle | Documentadas
Amor de Desaguar - Anik e Isabelle clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Leticia e Giovanna
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Leticia e da Giovanna, quando o projeto passou por São Paulo! Acredito que a história da Letícia e da Giovanna fala muito sobre a forma que elas lidam com as coisas felizes e, sobretudo, difíceis. Não é nenhum pouco fácil ter uma história que já tenha passado por tantos desafios como a delas e seguir com tanta fé no sentimento que vivem, na relação que constroem e no que sentem uma pela outra, ainda mais sendo algo que ainda não passou por completo: vivem uma rotina delicada diariamente. Claro, a cada mês que passa conseguem enxergar o quanto evoluem juntas, mas é algo que vivenciam, e não que já passou por completo. Essa dificuldade girou sempre em torno da não aceitação do namoro por parte de uma das famílias. Como elas se conhecem desde a infância e moram na mesma rua, Letícia há alguns anos já era bastante próxima, frequentava a casa da Giovana e criou um laço de amizade forte com a mãe da Giovana, foi auxílio para a família em diversos momentos difíceis, era amada por todas e tratada como uma filha postiça. A mãe algumas vezes questionou, tinha um receio de que as duas se envolvessem, mas como ainda era um momento inicial de descoberta para elas e tinham medo da reação, negavam. Num dia, Giovanna decidiu contar a verdade, até que tudo saiu do controle. Infelizmente, vivenciaram situações difíceis de não aceitação e desrespeito. Foram meses sendo ignorada pelo pai dentro de casa, o que deixou Giovana muito triste e culpada. Não ter mais ele como um amigo, ela deixar de ser a filha idealizada, tudo machucava muito. Foi preciso muito tempo - e muita paciência das duas para as coisas mudarem aos poucos. Com isso e com a insistência eles foram entendendo o relacionamento delas (e até incluindo a Letícia em alguns dos planos e eventos que aconteciam). Mas tudo ainda é um processo. Letícia, no momento da documentação, estava com 24 anos. Ela é de São Paulo, capital, e trabalha enquanto biomédica, intercalando entre o trabalho em laboratório e a sala de aula; No tempo livre, adora jogar vôlei. Giovana, no momento da documentação, estava com 22 anos. Também é de São Paulo e está se formando em veterinária, trabalha no estágio e faz plantões aos finais de semana; Adora cuidar do corpo, já praticou lutas e hoje em dia ocupa parte do seu dia na academia. Elas estão juntas sempre que podem. Adoram tudo o que é relacionado à natureza. Gostam de cachoeiras, de jardins. Na cidade, adoram coisas simples como ir ao supermercado, passear em lojas. Brincam que até comprar pão de queijo vira um grande evento. Letícia conta que sua cultura familiar é bem diferente, entende que por lá as coisas sempre foram mais fáceis. Já tinha outros LGBTs na família e quando viveu seu processo contou para a irmã primeiro. Por mais que nenhuma vivência inicial seja fácil, entende que a dela não tenha sido tão difícil porque houve maior respeito. Porém, ter sua cultura mais libertadora, faz com que seja mais difícil aceitar alguns limites que foram impostos para a Giovanna e ter mais vontade do imediatismo. Foi preciso aprender a ser mais paciente do que imaginava. Como estudaram na mesma escola e moravam na mesma rua, Giovanna e Letícia se conheceram desde muito novas. Letícia, por ser alguns anos mais velha, era amiga do irmão da Giovanna. Não se falavam muito porque, segundo a Gi, Letícia tinha cara de brava… mas, depois de adolescentes, Letícia se apaixonou por uma amiga da Gi e isso fez com que se aproximassem e ficaram amigas. Em outubro de 2018, bom tempo depois, Giovanna entendeu que sentia algum tipo de atração pela Letícia e resolveu se abrir com ela. Enviou um texto gigante explicando o que sentia… e ela… sumiu. Letícia conta que chegou a responder, mas que ficou em choque, não sabia como reagir e se sentiu muito insegura. Meses depois, em janeiro, respondeu com outro texto. Elas conversaram e a Letícia a convidou para ir num casamento, como acompanhante. Neste dia, depois da festa, se beijaram pela primeira vez. Porém, sentiram que o beijo não encaixou e fingiram que nada tinha acontecido, seguiram amigas. Com a amizade voltando, se encontravam todos os finais de semana. Até que se beijaram outras vezes, e outras, outras… tornou-se frequente. Foram 6 meses de encontros. Nesses meses, Giovanna se dizia hétero, mas estava ficando com a Letícia. Depois, até entender e processar, no seu tempo, começaram de fato a namorar. Quando a família da Giovanna descobriu sobre o namoro e tudo ficou muito difícil, ela estava no começo do estágio e foi bastante acolhida pela chefe. Conta também que foi muito importante tudo isso não ter acontecido durante a pandemia (e sim antes) porque seria tudo mais difícil, como um cárcere privado. Ela vivia entre regras muito rígidas de horários para chegar, satisfações para dar, colocavam uma culpa muito grande em cima dela e também da amizade que a Letícia tinha com a mãe dela. Prometiam dar carro de presente se elas terminassem ou coisas do tipo. Mantiveram o namoro marcando encontros em lugares aleatórios e pensaram em desistir várias vezes, mas seguiram juntas em todos os momentos. Aos poucos, a família toda da Giovanna foi aceitando (para além dos pais). Em um evento importante, por exemplo, foram todos juntos de carro. Com o passar do tempo, a Letícia conseguiu até abraçar o pai dela (coisa que nunca imaginaria no início), foi realmente um processo, por mais que não se falem muito, reconhecem o grande avanço. Na pandemia em si, mesmo a Letícia não podendo estar dentro da casa da Gi, ela ia até o portão, fazia de tudo para se mostrar uma pessoa presente, fazia as compras do mercado para eles e eles foram reconhecendo seu esforço. Por um tempo, a mãe da Giovanna precisou de cuidados de saúde e foi a Letícia quem ajudou, trazendo também uma amiga enfermeira para dentro de casa. Acreditam que mesmo com as situações ainda difíceis - porque nem tudo passou - continuam aqui e não desistem porque cada vez mais falta menos para a Giovanna se formar e conquistarem tudo o que sonham: principalmente, a independência. Letícia acredita que amar é a essência do ser humano e que mesmo as pessoas não sendo carinhosas, elas podem demonstrar o amor de outras formas. Traz sua mãe como exemplo, que não demonstra tanto amor nos atos de carinho em si, mas que sempre a ensinou a amar. Diferente da mãe, ela ama beijar, abraçar e demonstrar. Se vê totalmente disposta a ajudar. Giovanna sente que pelas marcas da vida passou muito tempo se blindando de sentir coisas, não se permitindo demonstrar afeto. Aos poucos, tem se permitido cuidar mais, sentir mais o toque, mas ainda mantém o pé no chão, cuida de quem se permite confiar. Por fim, verbalizam o quanto desejam ficar juntas, construir uma família e viver coisas juntas. E concluímos: merecem tudo isso. ♥ ↓ rolar para baixo ↓ Letícia Giovanna
- Ane e Thelassyn | Documentadas
Amor de Persistência - Ane e Thelassyn clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Jade e Laura | Documentadas
Jade, no momento da documentação, estava com 27 anos. É natural de São Paulo, da zona leste, mas hoje em dia mora próximo à USP para ficar perto da faculdade, da Laura e para economizar o tempo diário que levava no transporte público. Ela é jornalista, cursa mestrado e trabalha enquanto assessora de comunicação. Conta que passa o dia fora, trabalhando de forma presencial e tem uma rotina bastante atarefada. Na pandemia de Covid-19, trabalhava em casa e era bem diferente, então agora ela e Laura readaptam o cotidiano para aproveitar o novo lar e passar o maior tempo possível com a Marininha, gatinha de estimação - chegam em casa, tomam café juntas, conversam sobre o dia, assistem TV, aos finais de semana leem e Jade tenta praticar yoga. Laura, no momento da documentação, estava com 26 anos. É natural de Aragarças, em Goiás. Morou em Minas Gerais, numa cidade interiorana, onde começou a cursar publicidade, mas achou um pouco frustrante porque não tinha muitas oportunidades lá, até que conheceu uma professora que contou para ela sobre o curso de Educomunicação na USP e ela tentou a transferência, em 2019. Hoje em dia, ela trabalha com mídias sociais, numa rotina semelhante à Jade, a diferença é que tenta ir de bicicleta para fugir do transporte público, conta rindo. Ama assistir filmes, está cursando uma pós-graduação em audiovisual e gosta de passar tempo de qualidade em casa. Para elas, o amor é estar num lugar de segurança. Quando falam sobre isso, Jade lembra de uma situação que viveu em que foi assaltada e que a primeira pessoa que pensou em ligar/precisar falar foi a Laura, e que depois disso caiu a ficha: significa que ela é seu porto seguro. O amor significa uma ajuda diária, o ponto que deseja evolução, de querer ver crescer - e estar do lado nesse crescimento. Laura pontua que viveu cercada de muito machismo e que sempre faz de tudo para ver o dia delas sendo bom em conjunto: sempre cuidam da casa, dividem as tarefas, fazem questão de que as coisas não fiquem pesadas pra ninguém, deixam tudo confortável, cuidadoso, sabem que se não for assim, vai ficar pesado para uma pessoa só. Querem o espaço equilibrado e verdadeiramente seguro para o amor existir. Foi em 2019 que se conheceram, quando a Laura se mudou para São Paulo e começou o curso na USP. Jade também estava no curso, de início surgiu o interesse, mas ambas eram tímidas e não sabiam como demonstrar. Haviam amigos em comum, eventos, coletivos, então tentaram aproveitar essas brechas. Foi num dia em que Laura estava numa reunião do coletivo LGBT+ que viu Jade e pensou “Bom, ao menos bissexual ela é!” que a esperança começou a surgir. Pelo lado de Jade, ela viu uma publicação num grupo de Facebook em que os novos estudantes se apresentavam e falavam coisas básicas como nome, idade, signo, orientação sexual, se estava solteiro… e a Laura comentou. Ali ela já soube o que interessava. Entre maio e junho começaram a conversar e interagir mais, foram até no cinema assistir Toy Story, mas nada aconteceu. Até que surgiu um jantar na casa de um amigo - que até hoje acreditam ter sido uma marmelada, porque os amigos marcaram, mas ninguém deu as caras! - e só elas foram. Beberam muito, ouviram música, o anfitrião foi dormir e deixou elas na sala, se divertindo, até que demonstraram que tinham interesse uma na outra. Depois do primeiro beijo, ficaram juntas por alguns meses, mas Laura tinha acabado de se mudar e estava confusa com tudo ainda, conhecendo a cidade, não queria um relacionamento sério. Sentia que sua vida no interior era muito diferente do que experimentava na capital. Logo que optaram por não ter um relacionamento, a pandemia de Covid-19 começou, ela decidiu voltar para Goiás com a gata (Marininha) pelo fato das aulas terem parado e não ter motivos para continuar em São Paulo. Ficou um ano lá, mantiveram bastante contato online e contam que parecia até um web namoro. Em junho de 2021, as aulas estavam retomando e Laura decidiu voltar a morar em São Paulo. Chegou querendo muito reencontrar Jade, obviamente. Sentem que a vida estava muito estranha, era tudo bem diferente de 2019/2020. Primeiro que não existia mais aquela sensação de mudança/recém chegada na capital, segundo que a vida em si estava estranha, muitas pessoas morrendo, uma sensação de fim-de-mundo, e terceiro que elas estavam financeiramente estáveis, tinham seus trabalhos (diferente de 2019), o sentimento era outro - e estavam mais maduras para a sensação de querer estarem juntas, pensarem sobre um namoro. Se estabilizou na cidade novamente e em setembro começaram, de fato, a namorar. Jade tinha muito medo de pegar Covid, morava com a família e pegava transporte público diariamente, tinha medo de colocá-los em risco. Então decidiu procurar um lugar para morar próximo à Laura e à faculdade. Primeiro, moraram próximas mas em prédios separados. Depois, moraram no mesmo apartamento, mas em quartos separados, dividindo com outras pessoas. E agora, finalmente, conquistaram seu próprio lar, um lugar com a cara delas em todos os detalhes da decoração e muito espaço para a Marina ficar à vontade. No dia da documentação, inclusive, iria rolar um “chá de casa nova”, uma celebração para os familiares comemorarem a conquista e presentearem com ítens para a casa. Elas confessam que estavam bem ansiosas pelos presentes, queriam muito saber se iriam ganhar um aspirador (e ganharam! hahaha). Fazer a documentação nesse momento foi importante, também, porque a mudança em si foi muito caótica e viver momentos assim causam um certo apagão sob as coisas boas que vivemos, o caos se instaura e ficamos submersos até passar, então foi uma conversa importante para relembrar o trajeto até ali e ver os detalhes da casa sendo construídos. Por fim, em março a Jade pediu a Laura em casamento - e conta que está esperando o pedido de volta, porque para elas tudo acontece de forma igual. ↓ rolar para baixo ↓ Jade Laura
- Tania e Clarissa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Tânia e da Clarissa, quando o projeto passou por São Paulo! Queria contar a história da Tânia e da Clarissa (e do Gael, claro) de uma forma que tudo se completasse, porque a vida delas acontece assim. Diversas vezes, desde que nos encontramos em São Paulo - cidade em que elas nasceram e moram com o Gael - falamos no sentimento que existe sobre a vida tê-las preparado para a chegada dele. E isso não significa que ter um filho e educar uma criança de forma inclusiva é tarefa fácil ou, que nesse caso, venha com receita pronta, mas que elas estavam de braços abertos e muito dispostas para receber tudo o que aprendem e compartilham diariamente. A forma de começar a contar essa história vai ser pelas fotos porque escolhemos fazê-las num local muito especial, um café, localizado no bairro da Mooca. Esse café foi a Tânia quem pintou, com giz de cera, cada uma das paredes. Quando ela pintou, não imaginava que adotaria o Gael, mas já estava com o processo de adoção bastante avançado no fórum e tinha feito uns murais na escola em que trabalhava, quando o dono do café foi matricular a filha, os viu e decidiu contratá-la; foram dez dias de muitos desenhos nas paredes… mas um desenho em especial, de frente para a cozinha, era o preferido do casal (e também da Tânia!): uma menina no balanço, lendo um livro. Enquanto pintava, Tânia resolveu perguntar o motivo deles terem gostado tanto do desenho e a resposta foi que remetia à uma criança com síndrome de down (a esposa do dono do café é fisioterapeuta e tem essa especialização). A menina, com seus dedinhos curtos, segurando o livro, de olhinho puxado… remetia a eles e trazia algo tão bom. Enquanto para a Tânia, pelo vestido fazendo um contorno circular longo, via logo um barrigão, não pensava na criança, mas numa gestação. Não sabia ela que exatamente naquele dia da pintura, em um estado vizinho, o Gael nascia. As fotos da Tânia e da Clarissa, junto ao Gael, hoje em dia com dois anos, saudável, sorridente, muito inteligente e simpático, conversam com cada uma das pinturas do café. E é muito incrível ver como, de todas as formas, elas estavam esperando por ele. A Clarissa tem 37 anos, é bancária, adora mexer com plantas, reviver plantas, replantar e cultivar. Ela também toca violão e canta (gravou em estúdio a música para a Tânia entrar no casamento! Olha que incrível!). Ela adora esses detalhes, trata-os com muita atenção e carinho. A Tânia tem 43 anos, é historiadora e pedagoga, brinca que é artista plástica autodidata, porque dá aula de artes e de pintura há muitos anos também. Antes dos murais, ela nunca tinha pintado usando giz de cera, sua especialidade era tecido e madeira. A história do giz começou por uma reforma na escola e pela falta de dinheiro para comprar materiais para a pintura acontecer, então ela viu que tinha muito giz e pensou que poderiam inventar algo novo. Enquanto a história dos tecidos, essa vêm de longa data: ela já apresentou até programa na TV ensinando outras pessoas a pintarem seus próprios tecidos em casa. A Tânia e a Clarissa são mulheres muito atenciosas e logo que você chega é completamente impossível não se contagiar pela energia delas. São pessoas que se movem por afeto e contam histórias de vezes que já comemoraram datas com violinistas, de votos de amor que fazem por aí, das aventuras de anos casadas… são muitas risadas que vamos trocando ao longo das conversas, porque mesmo que os assuntos não sejam tão fáceis ou que existam os perrengues, fica claro o tempo todo que elas querem fazer o bem. Por fazer o bem que elas se conheceram, inclusive. Foi num grupo de Whatsapp onde LGBTs se reuniam para promover doações que quebravam o preconceito. Infelizmente ainda existe um olhar para nós de que só queremos festas, coisas vistas como “libertinagens” e não levamos nada à sério (e tudo bem querer festa, viu gente?), mas para quebrar essa ideia tão retrógrada esse grupo se uniu visitando lares de idosos, praticando doações, distribuindo coisas, etc. A Clarissa se interessou pela Tânia, chamou ela no Whatsapp e passaram quatro horas conversando. Marcaram de sair e foram ao teatro, já que ambas amam teatro. E, dessas saídas ao teatro, já se passaram mais de 8 anos, né? Cá estamos. Depois que elas se conheceram, se apaixonaram e namoraram por um tempo, resolveram morar juntas. A Tânia já tinha dois filhos maiores de vinte anos e isso fez com que fosse ainda mais difícil para a mãe da Clarissa a aceitação do relacionamento, portanto elas passaram o primeiro um ano e meio sem contato direto com as famílias. Mas não foi por falta de tentativa, não, viu? Tânia tentou, mandou e-mails, fez o que estava ao seu alcance, mas não conseguiu. Depois de um tempo, o irmão da Clarissa começou a namorar e foi apresentar a namorada, então elas resolveram dar um basta: só iremos se a Tânia puder ser apresentada também. Ok, baixamos a guarda. A Tânia foi convidada. E ela? Viveu um dia de gala! Foi ao salão, comprou até roupa nova para a ocasião. Deu tudo certo, todos se deram bem. O mais curioso é que a mãe da Clarissa e a Tânia se parecem muito, não só no jeito, mas ambas são professoras e artistas, então a mãe sempre soube quem era a Tânia por ver ela na TV, mas não dava o braço a torcer. Depois, quando se conheceram e se deram bem, tudo foi ficando mais tranquilo, mas levou muito tempo para que elas não se sentissem mais pisando em ovos. Desde o começo a adoção sempre estava em pensamento, por ser um sonho de muitos anos da Tânia. A Clarissa adorava a ideia, mas ambas achavam muito cedo. Deixaram a hipótese ao futuro, para amadurecer depois do casamento. Quando o casamento chegou, a notícia foi dada num almoço de família, depois de três anos juntas. A mãe da Clarisse perguntou “Mas por que vocês vão casar? Se já moram juntas há três anos?!” e ela respondeu: “Por que a senhora casou? Então. A motivação é a mesma.” = aí, ninguém argumentou mais nada. Sobre o casamento, o assunto já estava vencido, mas ainda sentia-se uma dor porque tiveram pouquíssima participação familiar no envolvimento em si… pouco perguntava-se sobre o evento, elas organizaram tudo sozinhas, cada detalhe, e foi difícil lidar com esse sentimento de solidão. Na data da festa, o pai da Clarissa entrou com ela e foi muito receptivo com os convidados, enquanto a mãe ficou mais reclusa. Recordam que a cerimonialista falou coisas muito profundas e importantes sobre o amor e sobre quem nós somos, e citam que isso despertou uma mudança comportamental na forma que a mãe da Clarissa vê o relacionamento das duas, portanto, valeu sim, muito a pena. Em relação à adoção, elas contaram da mesma forma que o casamento: o irmão da Clarissa ajudou e elas organizaram uma pizza entre a família para dar a notícia. No começo, o maior medo que surgiu foi em relação ao processo, como seria, e de certa forma sobre alguns preconceitos que envolvem a adoção, como “Como será que vai ser quando a criança crescer? / E se ele/ela quiser procurar a família biológica? / etc”, além disso, existia um pensamento sobre a Clarissa nunca ter filhos pelo o que ela representa socialmente, uma mulher que não se mostra feminina, não encaixa num padrão socialmente colocado que desde criança não mostrava brincar de bonecas e nem ser muito materna… [E justamente nesse momento nos surge a dúvida: Por que isto vira um debate quando a Clarissa anuncia o desejo de adoção e nunca vira um debate em famílias no momento em que os homens contam que vão ser pais? Nunca um homem é cobrado sua paternidade, já para nós, mulheres, sempre nos é cobrada uma posição materna e se não temos uma boneca em casa nos é descartada a possibilidade ao crescer. Ainda bem que Clarissa seguiu o sonho porque hoje em dia ela é uma mãezona!] Enfim, o sentimento que os familiares ficaram foi de: quando acontecer, a gente vê. Foi então que elas entraram com os papéis no fórum e acompanharam mensalmente os encontros em grupo sobre adoção. Depois de um ano, os pais (avós do Gael) estiveram também nesses encontros, o que foi muito legal porque mudou bastante a visão sobre a adoção, e lá foram reaprendendo formas de enxergar e de se preparar para recebê-lo da melhor forma possível. Depois de um ano e meio elas estavam aptas a entrar num grupo de busca ativa por crianças para adoção. Lá, chegaram a tentar uma criança, enviaram os documentos, mas não tiveram retorno judicial (em agosto de 2019), então voltaram à busca. Em novembro, dia 20, de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra, elas estavam em uma peça de teatro (olha aí, o primeiro date voltando à tona), e quando pegaram o celular para fotografar um momento da peça porque Tânia queria mostrar aos alunos na escola, viram no Whatsapp a foto do Gael. Tânia, em lágrimas, conta que sentiu o coração palpitar muito forte e só conseguiu dizer: é o meu filho! A informação que tinham era de que o Gael não estava em São Paulo e que era um neném com síndrome de down, possuindo também uma bolsa de colostomia. Elas nunca tinham pensado na hipótese da síndrome de down porque não existia essa opção no questionário que responderam, mas na mesma hora não havia mais dúvidas, apenas a certeza que o Gael era o filho que elas estavam buscando. A Clarissa brinca que não conseguiram mais nem ver a peça, choravam e ela tentava conversar para acalmar e ser um pouquinho mais pé no chão, saber se era isso mesmo que elas queriam, mas ambas estavam muito emocionadas. Ao fim, foram para o estacionamento, conversaram e ligaram para a filha da Tânia. Na hora que ela viu a foto, não deu nem tempo, só disse “Mãe, é ele, né??? É o meu irmão! Pega ele! A gente estimula ele, mãe!! Vai dar certo!”, naquele momento tudo foi se encaixando, a filha dela trabalha com crianças que possuem síndrome de down e na época auxiliava 6 crianças numa escola. Em seguida, ligaram para o filho, que também apoiou. Foi o bastante: deram o sim para a assistente social. Os dias seguintes se resumiram em pura ansiedade. Enviaram os documentos e o processo demorou mais de uma semana, passaram por entrevistas, por assistentes sociais… Tânia estava tão ansiosa que resolveu ir até a casa de duas amigas mais velhas, maiores de 80 anos, cujo ela apelida de yabás. Elas falaram: “Calma que ele é teu, ele já vem”. Foi quando ela chegou em casa que recebeu a ligação do fórum e falaram: chegamos à conclusão de que não existem mães melhores para ele do que vocês duas. Compraram as passagens aéreas, alugaram airbnb, marcaram audiência e o mais rápido possível foram conhecê-lo. Conversaram muito com as assistentes, com o fórum, afinal, tudo precisa ser minimamente acertado. A família (como um todo) ainda não sabia, porque o medo de não dar certo era grande, deixaram para contar quando já estivessem lá. E finalmente chegou o momento aprovado de conhecê-lo: lá estava o Gael, neném pequenino, gordinho, com os olhos super curiosos, acompanhado de uma sacolinha de plástico com suas roupas. Elas foram com ele até o apartamento onde estavam hospedadas. Todos estavam enviando mil mensagens para o celular, mas fizeram chamada de vídeo com a filha da Tânia. Gael, quando a viu, abriu um sorrisão. Foi o primeiro sorriso dele, como se já a conhecesse. Ele foi muito bem recebido por todos na família e é uma criança muito amada. Elas afirmam: “Ele nos ensina coisas que nenhuma faculdade ensinaria, nenhum curso”. A vida gira em torno do Gael, que ao todo faz 6 terapias, hidro, fono, fisio, uma rotina intensa! É sempre de sorriso no rosto! E vai melhorando a cada dia. Hoje ele já não usa mais a bolsa de colostomia, passou pela cirurgia e correu tudo bem! Falamos sobre a importância de darmos valor aos pequenos grandiosos acontecimentos ao nosso redor, como as necessidades fisiológicas diárias. E tudo o que isso nos ensina. Nesse momento, a Tânia conta que no dia do casamento elas fizeram votos falando sobre o quanto são pessoas melhores depois que se conheceram… mas que depois do Gael, elas sentem que são pessoas que nem imaginavam conhecer/e ser. Sentem que vão sair dessa vida muito melhores. Hoje, também, depois de tantos anos, ambas famílias se dão super bem. No mais, elas mantém o Instagram do Gael, para falar sobre educação inclusiva, famílias homoafetivas e crianças com síndrome de down. O @ é @gael.t21 a palavra está com elas Acreditamos que o amor supera tudo, nele não tem raiva, não tem inveja, não tem maldade. Eu (Tânia) vivi uma situação que me lembra do amor. Foi com a minha sogra. Ela é muito parecida comigo e um dia eu fui viajar para o interior sozinha à trabalho. Por mais que eu já namorasse a Clarissa há anos e já conversasse com a minha sogra, ela nunca tinha falado comigo no Whatsapp, mas nesse dia, especificamente, ela me mandou uma mensagem perguntando se eu cheguei bem. Ou seja, ela ficou preocupada, né? Me surpreendeu e eu agradeci. Aí ela disse que, ah, era assim mesmo, “com o tempo ela ia vendo como são as coisas”... e eu disse que o amor é só isso, mesmo, mas que amor também é tudo isso. É essa coisa que une, que move, que faz com que a gente se preocupe e que faz passar por esses desafios. Nós,mulheres, amarmos outras mulheres, nos faz passar por muitas coisas e muitos desafios, então o amor surpreende e fica muito latente. Mas nem sempre a gente sabe como demonstrar, então é importante saber ler também. E o Gael estar numa família homoafetiva é maravilhoso porque já passamos por tantas coisas que ele será completamente acolhido aqui, voltamos a realmente aquele ponto: nos preparamos a vida toda pra isso. post Começou 2022! Precisamos começar o ano fazendo todos vibrarem com uma das maiores histórias que já tivemos o prazer de documentar, então, preparou o lencinho? Chegou a hora. Aproveitem ♥ Queria contar a história da Tânia e da Clarissa (e do Gael, claro) de uma forma que tudo se completasse, porque a vida delas acontece assim. Diversas vezes, desde que nos encontramos em São Paulo - cidade em que elas nasceram e moram com o Gael - falamos no sentimento que existe sobre a vida tê-las preparado para a chegada dele. E isso não significa que ter um filho e educar uma criança de forma inclusiva é tarefa fácil ou, que nesse caso, venha com receita pronta, mas que elas estavam de braços abertos e muito dispostas para receber tudo o que aprendem e compartilham diariamente. A forma de começar a contar essa história vai ser pelas fotos porque escolhemos fazê-las num local muito especial, um café, localizado no bairro da Mooca. Esse café foi a Tânia quem pintou, com giz de cera, cada uma das paredes. Quando ela pintou, não imaginava que adotaria o Gael, mas já estava com o processo de adoção bastante avançado no fórum e tinha feito uns murais na escola em que trabalhava, quando o dono do café foi matricular a filha, os viu e decidiu contratá-la; foram dez dias de muitos desenhos nas paredes… mas um desenho em especial, de frente para a cozinha, era o preferido do casal (e também da Tânia!): uma menina no balanço, lendo um livro. Enquanto pintava, Tânia resolveu perguntar o motivo deles terem gostado tanto do desenho e a resposta foi que remetia à uma criança com síndrome de down (a esposa do dono do café é fisioterapeuta e tem essa especialização). A menina, com seus dedinhos curtos, segurando o livro, de olhinho puxado… remetia a eles e trazia algo tão bom. Enquanto para a Tânia, pelo vestido fazendo um contorno circular longo, via logo um barrigão, não pensava na criança, mas numa gestação. Não sabia ela que exatamente naquele dia da pintura, em um estado vizinho, o Gael nascia. As fotos da Tânia e da Clarissa, junto ao Gael, hoje em dia com dois anos, saudável, sorridente, muito inteligente e simpático, conversam com cada uma das pinturas do café. E é muito incrível ver como, de todas as formas, elas estavam esperando por ele. A história completa está no nosso site! O caminho até lá você já sabe, né? O link tá na bio!
- Cássia e Kercya
Por mais que a família da Kercya não tenha ido ao casamento delas, eles estão completamente apaixonados e empolgados com a vinda da Marina. E a família da Cássia já é maluca (no ótimo sentido) e vibrante por natureza, então está todo mundo feliz e empolgadíssimo diariamente. Um pouco antes delas saberem da gravidez, estiveram na praia e postaram uma foto com a legenda: marinando. O destino deu seu jeito e tudo se juntou ao nome. Hoje em dia, vivem um novo momento, por conta da gravidez, de terem ficado sem emprego durante a pandemia, de estarem reaprendendo a se virar. Mas não deixam de aproveitar cada segundo com muita felicidade e muito amor. Sonham com um mundo em que a Marina possa ser completamente respeitada sendo quem ela é, porque é isso que vão ensinar a ela desde sempre: a respeitar os outros como eles são. Pensam muito na vida dela na escola, no mundo, em tudo. Entendem que o amor pode muitas vezes caminhar próximo da dor, mas que ele é mais que um sentimento, é uma experiência, e por isso sempre estarão dispostas a dar tudo o que puderem a ela. Um amor que o olho brilha, que é de verdade e que sustenta. A gravidez foi um desejo sempre pensado e sempre sonhado por ambas, a Cássia conta que sentia que queria gerar com a Kercya desde o primeiro momento porque quando olhava para ela e para a forma que ela lidava com as crianças já vinha dentro dela uma sensação de “é ela.”, e a Kercya completa que sempre quando elas viam casais com filhos pequenos falavam que “logo será a nossa vez”. Porém, contam também que a própria gravidez em si, por mais que muito pensada, foi também muito rápida, por conta de ter acontecido logo na primeira tentativa. Quando começaram as pesquisas entenderam que seria muito difícil, por envolver muito dinheiro, tanto na fertilização, quanto na inseminação. Os custos de clínicas privadas eram bastante altos e o SUS (no caso da fertilização) mais próximo de Fortaleza/do Ceará, seria em Natal/RN, o que era muito longe e caro para elas. Foi então que chegaram no processo de inseminação caseira, mas entenderam que envolvem muitos riscos e por isso precisam de muito cuidado e muita pesquisa. Foi mais de um ano de exames e acompanhamento médico, até que conseguiram contato com um doador em Fortaleza e resolveram fazer a primeira tentativa no período de ovulação. O procedimento foi em casa, envolvendo ejaculação, seringa, luvas, tudo direitinho. No momento exato, estavam só as duas. Elas contam que se apegaram mais na possibilidade de não dar certo, pelo medo da frustração, por saberem das chances (que não eram altas), mas a partir do momento que tiveram o olho no olho, ali, juntas, mesmo com o não, era um momento bastante marcante. Tudo aconteceu no dia 30 de novembro. Algumas semanas depois, a menstruação não desceu, 8 testes foram feitos, todos deram positivos. O exame de sangue comprovou: estavam grávidas! Marina surgiu nesse mundo! O melhor de toda essa história é que o ponto chave em que elas começam a conversar prova que o amor está disposto a enfrentar MUITOS desafios particulares, e um deles é que nessa época a Cássia estava voltando para a casa de moto, porque não se sentia bem pegando ônibus - ela desenvolveu uma fobia e não conseguia ficar dentro do transporte. Mas, em um dia específico, a Kercya ficou sem carro e na hora em que estavam saindo do trabalho perguntou que ônibus ela pegava, e no impulso a Cássia respondeu que pegaria o mesmo ônibus que a Kercya apenas para que elas pudessem ir juntas para passarem mais tempo, puxarem conversa, poderem ter alguma interação. O fato é que, desde o momento em que entraram no ônibus, a menina suou tanto frio que nem prestava atenção em nada do que a Kercya falava, de tão nervosa que estava. Só lembrou de antes de se despedir, pedir o Whatsapp para avisar quando chegar em casa e quando chegou mandou mensagem, desde então, começaram a conversar. A Kercya não tinha noção de que a Cássia era lésbica, mas já havia compartilhado sobre o relacionamento que vivia e sobre as condições dele não estarem boas e as dificuldades que passava, foi num momento em que conversavam na escola que a Cássia puxou um “acho melhor falarmos disso em outro ambiente, vamos um dia lá em casa!”, a Kercya achou ok e topou, no fim de semana seguinte, estava lá. Nesse dia, elas ficaram. Ou melhor, a Cássia atacou ela! Hahahaha! Foi assim mesmo! Ela disse que “vai ou racha!”. E foi. A Kercya terminou o relacionamento por ligação mesmo, visto estar insustentável e desde então elas não se desgrudaram mais. Se viam todos os dias, uns meses depois foram morar juntas e depois de um tempo se casaram, tanto no civil, quanto no religioso (no dia do casamento, inclusive, quando elas entraram, rolou um arco-íris de presente da natureza no céu!). ♥ Com o passar dos dias, a Cássia foi sustentando a paixão secreta e chegava cedo no trabalho, tentava sempre puxar assunto na recepção, fazia de tudo para soltar um sorriso da Kercya, mas ela não dava muita bola. Na época, tinha um relacionamento à distância com uma mulher que morava na Bahia e esse relacionamento era bastante escondido para ela, era algo bem difícil também, estava bem conflituoso, então conta que acabava se fechando bastante. O fim do ano chegou e com ele a festa de confraternização da escola também, seria numa pizzaria e a Cássia armou toda uma situação para ficar sozinha com a Kercya no carro (que, infelizmente, deu errado). No dia, a Kercya tinha batido o carro, tido um dia difícil também no relacionamento, não estava se sentindo nenhum pouco bem, acabou que isso só foi descontado na Cássia e ela se sentiu mal e foi embora. Mais uma vez, em uma desilusão amorosa, agora no fim de ano, ela cogitou o pensamento novamente da ida para a Itália... com o passar dos dias e a chegada do réveillon, ela fez uma viagem até a Paraíba e lá chorou vendo os fogos. Enquanto a Kercya, em sua virada, também passou o ano novo triste, chorando. Ambas sem saber o que seria de 2017 e sem boas expectativas. A Cássia pensou muito sobre a volta para a escola no começo do ano e pensou em voltar nem que fosse para pedir demissão. Quando chegou no local, viu logo o sorriso da Kercya e sentiu tudo aquilo de novo, então não tinha jeito, resolveu ficar. Com o passar dos dias percebeu que ela (a Kercya) estava permitindo sorrir mais, ser mais simpática, mais aberta… e assim começou o ano letivo. Foi depois de rodar o Brasil e voltar para casa que Cássia teve uma decepção amorosa e decidiu que sairia do país. Era fim de 2016, ela conseguiu uma rescisão boa em um emprego, conheceu uma mulher que organizava passagens de ida para a Itália (não vendia, mas organizava questões de baixa no euro) e se inscreveu na lista de espera. Até que surgiu um lugar que precisava de uma pessoa para fazer um trabalho de um dia para uma colônia de férias escolar, como um freelance, e ela topou, pois seria uma forma de entrar mais dinheiro. Essa escola, sem ela sequer imaginar, pertencia à irmã de Kercya, pessoa que ela conheceu logo no primeiro dia, pois trabalhava na recepção. Quando ela chegou, animada, dando bom dia, foi respondida com um oi um pouco ríspido e já não entendeu muito qual era o clima, mas o dia seguiu bem e acabaram convidando-a para voltar no dia seguinte, ela topou pela questão financeira. A proposta se estendeu para terça e quinta da semana seguinte e nesse segundo dia, ouviu uma conversa por alto da diretora comentando com outra pessoa sobre estarem procurando alguém para trabalhar de forma fixa ali, enquanto pedagoga. Um tempo depois, ela estava na rua e ouviu uma gargalhada muito gostosa vindo da sala da recepção, disse sentir algo único, era uma gargalhada única, e perguntou para um menino que estava por perto de quem era essa gargalhada, ele só olhou e respondeu “ihhhhhhh…” e então, quando ela passou pela sala, viu a Kercya de costas, com uma trança no cabelo, rindo. Preciso continuar explicando a cena? Foi paixão à primeira gargalhada, né. Ela conta que sentiu o coração amolecer. Quando viu a diretora (que nem imaginava que era irmã da Kercya), simplesmente resolveu dizer que ela não precisava mais procurar alguém para trabalhar ali, não!! Mas sim, que já havia encontrado! A diretora riu, achou que estava brincando, e ela confirmou que não era brincadeira, que a pessoa era ela mesma, pois estava estudando pedagogia e era a pessoa certa para o cargo. A diretora confiou, aceitou e ela foi contratada (hoje em dia, elas dão risadas e comentam que essa decisão foi bem criticada pela própria Kercya inclusive, que disse “como você contrata alguém assim, sem conhecer direito?!”). Conheci e fotografei a Cássia, a Kercya e a Marina durante a passagem do Documentadas por Fortaleza, no mês de maio. As duas escolheram batizar a Marina com esse nome porque Marina significa o que vem do mar, além de ser o nome que se dá àquela linha do horizonte que divide o céu da água, e foi no mar também que nos encontramos, na praia, conversando, com os pés na areia. Elas já chegaram falando “a gente olha pra cá e só consegue imaginar a Marina aqui, engatinhando”, foi assim que começaram a contar a grande aventura que foi planejar essa gravidez. Por mais que tudo tenha sido bastante pesquisado e feito com cuidado, elas brincam que as coisas meio que aconteceram, como tudo na vida delas… “o destino sempre dá uma ajudadinha”. A Cássia tem 34 anos, é animadora de festa infantil e recreadora, trabalhava com festas de aniversários e já fez de tudo um pouco (há boatos que até participar de trio estilo carreta furacão participou! hahaha!). Ela já rodou o Brasil com mochila nas costas sem um tostão no bolso vendendo arte por aí, já empreendeu, já conheceu muita gente… e sempre sonhou em ser mãe. A Kercya tem 31 anos, é gestora de recursos humanos, chegou a acompanhar o trabalho de animações por um tempo (dando vários auxílios, principalmente na produção), trabalhou em uma loja enquanto gestora até o meio da pandemia, adora fotografar (hobbie um pouco criticado pela companheira por motivos de falta de enquadramento, risos) e é uma eterna apaixonada por cinema. Kercya Cássia
- Joana e Luciana
A Luciana e a Joana são de Fortaleza, capital do Ceará, mas já moraram em lugares diferentes do Brasil e hoje em dia voltaram para Fortaleza para o nascimento da Maria Flor, a criança mais comunicativa, espontânea e engraçada que o Documentadas poderia ter o prazer de documentar. ♥ Lu tem 37 anos, é médica ginecologista e obstetra, responsável por trazer muuuuuitos bebês para esse mundo e deixar muitas mamães seguras na hora do parto. Além da vida profissional incrivelmente disputada, ela é uma mulher que se preocupa em fazer do mundo um lugar melhor em cada detalhe - trata tudo com muito acolhimento, é carinhosa, tem um sorrisão e esteve o tempo todo muito aberta a encaixar o encontro com o Documentadas no meio da rotina de plantões, maternidade e compromissos diários. Joana tem 41 anos, é artista visual e arquiteta. A Jô trabalha tanto para produtoras de Fortaleza e São Paulo (fazendo instalações efêmeras, cenários, conceitos e conteúdos visuais), quanto sendo artista independente, tendo seu próprio escritório e seus projetos autorais enquanto produtora de arte. Nos encontramos no seu ateliê, lugar onde todas ficamos à vontade (principalmente a Flor, que se diverte muito entre as cores e as expressões artísticas) e é muito legal ver como os trabalhos da Joana são diversos e o quanto conseguem conversar entre si. Além das suas profissões e da correria do cotidiano, elas amam passar o dia se divertindo com o crescimento da Flor, dando espaço para ela explorar as coisas e nas folgas gostam muito de plantar (estão construindo jardins durante a pandemia), viajar (colocar tudo no carro, bagunçar e ir para algum lugar!) conhecer cachoeiras e praias. Além disso, contam que amam cozinhar juntas e que, ao plantar jardins, começaram um projeto sobre o lixo no lugar em que moram, mobilizando os outros moradores do bairro sobre sustentabilidade - usando a arte da Jô nessa conscientização. O encontro da Lu e da Jô aconteceu como uma “paixão à segunda vista”, porque já eram amigas há muitos anos. A Joana teve um relacionamento longo com uma amiga de infância da Luciana e elas se conheciam desde então, mas cada uma vivia seu relacionamento e nunca se olharam de forma diferente. O tempo passou, elas terminaram seus relacionamentos em momentos diferentes, passaram períodos solteiras e, depois de um tempo, se reaproximaram - surgindo assim, pela primeira vez, um olhar de interesse. Por um certo receio de suspeitarem de uma traição ou de algo que viesse de antes, visto que de fato se conheciam há muitos anos, elas demoraram quase 1 ano para conseguir oficializar ou assumir esse relacionamento para o grupo de amigas em comum, mas deu tudo certo! Começaram a namorar em 2013 e, como as duas já tinham tido relacionamentos longos o suficientes e decepções amorosas longas o suficientes também, sentaram e conversaram de maneira franca e madura sobre o que desejavam nessa relação: seus medos, seus sonhos, seus desejos e suas inseguranças. Elas dizem que de certa forma foi tudo até rápido - porque em 2015 elas estavam se casando. A Lu passou em uma residência médica lá em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, no mesmo momento em que a organização do casamento estava no auge, então elas combinaram assim: a Joana ia dar um jeito na organização e na decoração e a Lu ia para Ribeirão organizar as coisas da residência e dos estudos. Foi corrido, mas deu certo! A família da Luciana sempre apoiou e sempre admirou a forma que ela lutou pela liberdade e pelo direito de ser quem ela é e de amar quem ela quiser amar. Já a família da Joana, de alguma forma dava apoio à quem ela era enquanto mulher que amava outra mulher, mas no momento do casamento não entendia o porquê daquilo, por qual motivo precisava mostrar aquilo, fazer uma festa assim… Ela insistiu e a festa aconteceu. Mas não só pela festa, pela importância de assinar um documento, de comemorar sim o amor, de celebrar o nosso amor e de ter um documento que nos prove enquanto um casal e que lutamos tanto para ter direito (a algo tão burocrático). Não só aconteceu, como foi incrível! O casamento teve ajuda de vários amigos que doaram um pouquinho de cada coisa para elas - e cada pessoa que estava lá, realmente queria estar. Todos estavam muito felizes, torciam muito pelo amor das duas. Foi um dia muito forte e emocionante, com um pôr do sol maravilhoso. Elas contam que todos que estavam presentes sempre falam de como aquele dia vibrou, que sentiam uma vibração muito forte. E que, no meio da cerimônia, se abriu um arco-íris gigante na praia. ♥ Depois do casamento, as duas se mudaram para São Paulo e então começaram uma vida totalmente nova por lá. Fizeram muitos amigos, criaram uma nova rotina e, desde o primeiro momento a Lu nunca escondeu que se relacionava com uma mulher dentro do meio em que vivia (a área da medicina), então todas as pessoas ao redor delas sabiam que eram um casal, sabiam do casamento, de tudo! Isso era bastante novo, se tratando de uma cidade interiorana e de pessoas mais conservadoras, mas era bastante legal ver esse impacto e outras pessoas se inspirando nelas para saírem do armário também. Como desde sempre a Jô sabia da existência do desejo da Luciana em ser mãe (visto que ela sempre sonhou com isso) e que lá em Ribeirão Preto era o lugar referência para que elas fizessem todo o tratamento de fertilização in vitro (FIV) pelo SUS, então as duas captaram óvulos, o mesmo sêmem, o mesmo doador, e deram início ao processo da maternidade. Tudo foi registrado por elas em um caderno-livro que se mantém até hoje e que conta essa história para a Flor, sobre como ela foi desejada e amada desde o primeiro momento, por todos ao redor. O processo todo entre tentativas de gravidez durou cerca de dois anos, não foi nenhum pouco fácil, requer muito e as duas se doaram muito para isso, mas também se apoiaram muito e sonharam muito em conjunto. O livro é incrível e muito delicado, conta detalhes desde os sentimentos, até os gastos que envolvem cada pedacinho desses dias tão longos. A Flor, mesmo ainda sendo muito pequena, adora olhar e mexer no livro e fizemos algumas fotos das três com ele em mãos. [No dia em que nos encontramos, a Jô estava dando início a uma nova bateria de exames, pois estão começando o processo para vir aí uma parceira ou um parceiro irmã ou irmão para a Maria Flor. Só temos muita luz e muita vida a desejar! Vocês são uma família incrível!] A Joana conta que para ela, o amor é a base de tudo. Não só o amor romantizado, mas o amor de fato construído, porque o amor é muita luta, muita garra. O amor, dela com a Lu, é um amor de parceria, de entendimento. E, nessa hora, a Lu completa: “É um amor realmente revolucionário. Não existe outra definição senão essa, pela capacidade de transformação que faz numa pessoa.” Quando passam por momentos difíceis, elas conversam sobre tudo, mas entendem que são seres individuais e que têm momentos em que precisam estar sozinhas. A Joana gosta muito de conversar e a Luciana entende e contribui pra isso também. Briga, chora e se abraça! Sempre olha no olho, dá espaço, volta e abraça. É um movimento natural que o próprio corpo tende a fazer. No fim da nossa conversa, chegamos à conclusão de que quando duas mulheres se juntam para construir uma família, elas saem quebrando tantas barreiras, tantas coisas que socialmente estão na nossa frente há tantos anos, sem nem ver, que é na base da revolução mesmo. Temos o exemplo de como a família da Jô não ter entendido o casamento delas no começo por não ter visto uma “necessidade” e não ter se proposto a ir, porém, com a chegada da Maria Flor, ser puro grude e reconhecê-la, amá-la e não se ver longe dela - a revolução se mostra nessa construção de família e de amor quando formada pelas mulheres, o segurar a neta no colo consegue quebrar qualquer outra coisa que existe antes, qualquer “muro” colocado, qualquer barreira realmente preconceituosa ou inconscientemente preconceituosa. É uma revolução através do afeto. E para a Maria Flor é isso que elas desejam: um futuro livre. Sem medo e com respeito, sem julgamentos estruturados. Que ela siga sendo como ela é agora: empática com o mundo e com ela mesma. Luciana Joana
- Luciana e Viviane | Documentadas
Amor de Recomeços - Luciana e Viviane clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Jéssica e Mariana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Jéssica e da Mariana, quando o projeto passou por São Paulo! Jéssica e Mariana nunca tinham parado para refletir sobre a sua história com tanta precisão… e também nunca se viram compartilhando sobre quem são, como se sentem juntas e suas visões de mundo, como aconteceu quando se encontraram com o Documentadas, em São Paulo. Ao se dar conta de estarem fazendo isso pela primeira vez, Jéssica logo verbaliza como está se sentindo sortuda. Não só em poder compartilhar as vivências, mas principalmente por viver com a Mari. Diz que sente muita potência em viver juntas, são companhias e companheiras. Como são pessoas que passam muito tempo trabalhando, entendem que todo o tempo livre deve ser desvinculado do dinheiro. Por isso, adoram desfrutar de um banho compartilhado, de uma boa música, um chá, os jogos de videogame, passeios, horas montando quebra-cabeças, assistindo filmes, séries, passeando no carrinho (que é o xodó da vida delas) e indo numa doceria que fica próximo de casa e que valorizam muito. São extremamente apegadas ao que é artesanal, familiar, simples e cuidadoso. A semana que nos encontramos não estava sendo nada fácil para elas. Além de perdas familiares, viveram uma situação de assalto em que quebraram o vidro do carro no semáforo e roubaram os pertences. Para além do prejuízo financeiro, ficou o trauma e a tristeza por lidar com uma situação de invasão, de injustiça com algo que é tão valioso para elas e que foi tão batalhado para ser conquistado. Mari explica que vivenciando essa situação percebeu o quanto amadureceram - enquanto um casal e enquanto indivíduos - durante o período que estão juntas. No momento de dor, se reaproximam, precisam da outra. O relacionamento é um espaço de cura. Desejam rir e querem fazer uma à outra sorrir. Por serem muito semelhantes, chega a ser difícil achar algo que não concordam, então raramente brigam (quando brigam, não dura quase nada). Nisso, até nos momentos mais violentos recentemente vividos, se fortaleceram. Mariana, no momento da documentação, estava com 29 anos. Trabalha enquanto analista de dados e é natural de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. Jéssica, no momento da documentação, estava com 31 anos. Trabalha enquanto analista de dados e é natural de Juiz de Fora, interior de Minas Gerais. A história da Mari começa quando ela se formou em saúde pública, no fim de 2019, e começou a estudar sobre o Coronavírus que estava surgindo na China. Na época ela transitava entre procurar emprego e tentar iniciar o mestrado. Sonhava em estudar na Fiocruz, já que era uma referência, mas a família achava o Rio de Janeiro muito perigoso. Até que, já em 2020, a mãe soube que a Fiocruz estava abrindo mestrado e avisou ela, que tentou e passou… Como a pandemia já estava acontecendo, suas aulas seriam online e a mudança não foi necessária. A Jéssica, por sua vez, morava no Rio e já cursava o mestrado de Estatística na Fiocruz. Sentia falta da área da saúde no seu currículo e foi cursar, teve as aulas paradas durante a pandemia… Quando voltou, em formato online, acabou caindo na mesma turma que a Mari. Foram pelas aulas de mestrado que acabaram se conhecendo e em janeiro de 2021 começaram a conversar. Jéssica resolveu perguntar para uma amiga em comum se ela sabia se a Mari ficava com mulheres e se estava solteira… Não esperava que a amiga iria contar para a Mari. Então, num dia que Jéssica postou uma música da Lana Del Rey nos stories, Mari interagiu, começaram a conversar e nunca mais pararam. Contam que passavam tanto tempo conversando que iam dormir tarde da madrugada e acordavam cedo ansiosas para continuar a conversa. Antes mesmo de se conhecer pessoalmente, já namoravam. Em março, a Fiocruz solicitou alguns documentos e a Mari precisou vir ao Rio de Janeiro. Então, aproveitaram a oportunidade para se conhecerem e passarem uns dias juntas na casa da Jéssica. Naquela época, não estavam saindo de casa por conta da pandemia de Covid-19. Mesmo que as coisas já estivessem caminhando para a flexibilização, ainda não tínhamos vacina e, ainda mais elas, que trabalhavam estudando isso, faziam de tudo para ficar em casa. Falam como foi horrível a despedida, a ideia de se distanciar novamente. No dia, Mari até perdeu o voo - e nem por um erro delas, mas porque a torcida do Flamengo estava no aeroporto esperando os jogadores chegarem, o que é uma discrepância… enquanto elas estavam fazendo de tudo para não sair, ter uma torcida aglomerada num aeroporto… - então acabou tendo que voltar de ônibus, foi uma confusão. Depois disso, se viram novamente alguns meses depois, em maio. Em julho, Jé conheceu a família da Mari em São Paulo. E pouco tempo depois saiu do emprego no Rio, devolveu o apartamento e voltou a morar com os pais em Juiz de Fora. Foi quando surgiu o convite para morar com a Mari e os pais dela em Guarulhos, já que São Paulo tem muito mais oferta de emprego e elas poderiam ficar juntas. Ela topou, a mudança foi em outubro de 2021. Desde então, já conquistaram o emprego fixo, o carro e um apartamento, do qual estão esperando ansiosamente para ficar pronto. Os olhos brilham quando falam das coisas conquistadas em dupla. Essa história foi documentada em 17 de junho de 2023. ↓ rolar para baixo ↓ Jéssica Mariana
- Roberta e Alessandra | Documentadas
Amor de Família - Roberta e Alessandra clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Sofia e Carol
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Sofia e da Carol, quando o projeto passou por São Paulo! Entre tudo o que gostam de fazer juntas na rotina caseira num apartamento no centro de da cidade, Sofia e Carolina descobriram o maior dos hobbies em comum: o gosto pelo café. Apelidaram carinhosamente de “ritual”, mas estudam, adoram organizar todos os equipamentos e descobrir novos tipos de grãos. É o momento mais precioso dentro de casa. Sofia, no momento da documentação, estava com 47 anos. Ela é natural de São Paulo, trabalha com um blog de viagens e morou um tempo em Salvador. Carol, no momento da documentação, estava com 38 anos. Ela também é natural de São Paulo e trabalha enquanto fisioterapeuta. Brincam sobre como são pessoas preguiçosas, porque só vão em shows que tenham assentos e que não são muito festeiras, não curtem muito viver o carnaval. Por outro lado, adoram explorar a cidade de outras formas, como andar de bicicleta e de moto. Desejam em breve começar viagens juntas de moto para lugares um pouco mais distantes que o comum. Carol entende que foi Sofia quem trouxe ela de volta à vida através do amor. Foi esse amor que permitiu um redescobrimento sobre quem ela era: desde usar o cabelo que sempre quis (mas que nunca pode por conta de outro relacionamento bastante abusivo), até usar as roupas que deseja sem sentir medo de acharem que ela “está muito sapatão”. Entende, agora, que isso nem é um problema - o problema era ela não viver a vida antes. Hoje, acredita nas energias, nas espiritualidades. Sente que o caminho delas estava para se cruzar há muito tempo e que isso só aconteceu para crescerem juntas, pois estão sempre dispostas uma para a outra. Foi através do Happn, um aplicativo de relacionamentos, que o caminho delas literalmente se cruzou. Sofia, antes de entrar no aplicativo, foi casada por 11 anos. Decidiu baixar e se render à tecnologia porque antes, em outra época, isso não era possível. O ‘match’ aconteceu no final de dezembro, dia 28, mas não se encontraram até o réveillon (ela tentou, Carol não se sentiu confortável sendo tão rápido). Dia 31, foi para Salvador, passar a virada do ano. Conversaram pelo Whatsapp por um tempo, compraram um ingresso para o show do Milton Nascimento que teria em São Paulo (e era uma boa desculpa para se encontrarem pela primeira vez). Porém, a conversa foi esfriando até a data chegar. Sofia estava decidida: iria se mudar para Salvador. Conseguiu um apartamento lá para alugar, conheceu pessoas e se interessou afetuosamente por uma delas… Quando voltou, não sentia mais tanto clima para interagir com a Carol, então marcaram de pegar o ingresso e tomar um café antes do show, como amigas. Inicialmente, a ideia não era nem verem o show juntas, se não sentissem à vontade. Mas ao chegar no café, conversaram por duas horas e se deram muito bem. Decidiram ir ao show, encontraram uma amiga da Carol antes, beberam cerveja e depois do show continuaram a noite em um buteco. Porém, mesmo ficando até 4h da madrugada na noite, existia uma questão: a mudança para Salvador era na manhã seguinte do show. Depois do buteco/e do show, quando chegaram em casa, se falaram pelo Whatsapp e abriram o jogo: sentiram muita vontade de se beijar. Até cogitaram se reencontrar, mas o dia estava quase amanhecendo, a mudança teria que acontecer, Sofia também pensou na pessoa que gostava em Salvador e seguiu seu caminho. Carol ficou triste, passou uns dias bastante abatida, parecia que tinha vivido um término de namoro. No dia 2 de fevereiro, logo em seguida, chegou a ir para Salvador porque já tinha a viagem agendada com uma amiga, mas lá não encontrou Sofia. Depois disso, a pandemia começou e ficou tudo mais difícil. Sofia começou relacionamentos por lá, mas seus planos de viver a cidade em si não deram certo, acabava a maior parte do tempo trancada em casa. Carol, por sua vez, vivia outra situação em São Paulo. Conta que por cerca de 6 anos se relacionou com uma pessoa, que chegou a morar com ela. Não era um namoro porque elas não assumiam (nem publicamente, nem aos mais próximos). Ela já tinha rompido essa relação, porém, quando a pessoa descobriu a existência da Sofia, ‘mudou’ suas atitudes e quis estar de volta. Acontece que as atitudes não mudaram, de fato. Aos poucos Carol entendia o quanto isso era abusivo. O fato de ter gostado de alguém virou um fantasma na vida dela, uma sombra. A pessoa olhava o celular dela o tempo todo, tudo virava uma briga, o nome da Sofia sempre rondava a casa. Acabou bloqueando Sofia no Instagram, como forma de tentar cessar as brigas. A importância que Carol vê em falar sobre essa vivência vai muito de encontro ao que ela viu na Sofia como uma oportunidade de viver algo que sempre quis, um relacionamento assumido, com afeto, sem cobranças sobre como ela deve se vestir, que respeita como ela é, com comunicação. Mas além disso, fala muito também sobre precisarmos falar que existem relacionamentos abusivos entre mulheres e que precisamos nos conscientizar. Não relativizar quando as pessoas nos fazem sentir mal, nos cobram, nos ditam o que devemos ser, desconfiam. É preciso buscar acolhimento e sair dessas situações. Depois desse hiato em que Sofia viveu Salvador na pandemia e Carol se livrou mais uma vez daquele relacionamento que vivia, decidiu adicioná-la no Instagram novamente, porém por outro perfil. Conversaram sobre a pandemia, sobre a vida, e passaram a se comunicar novamente todos os dias. Um tempo depois, Carol comprou uma passagem e foi para Salvador. Elas não sabiam se iriam se dar bem, era uma primeira convivência de dias, mas tudo deu certo. Depois disso, Sofia também veio a São Paulo, ficou um bom tempo. Aos poucos, foi conhecendo sobre a relação que Carol viveu e trazendo acolhimento. Queria muito pedir ela em namoro, achava que ela merecia isso, e o pedido acabou acontecendo nessa vinda, quando aproveitaram e foram para um chalé na serra paulistana. Viveram a distância Salvador - São Paulo por um tempo, ainda na pandemia, e estava tudo bem difícil. O contrato da Sofia estava próximo de vencer, então pensou em voltar para São Paulo. Decidiram morar juntas, justificam: “Se a Carol fosse morar em Salvador, ela iria morar comigo. Por que eu vindo pra cá não poderia morar com a Carol?”. Depois da mudança, casaram-se. No dia de Iemanjá. Sofia e Carol adoram as coincidências que possuem juntas. Para além do café, as músicas, os lugares… Sofia fala como é importante poder ser quem ela é de verdade com a Carol, como ela nunca tinha vivido isso de forma tão plena, a forma que se sente à vontade com alguém, em liberdade. Carol só conseguiu entender a relação que viveu depois que passou por tudo. Hoje em dia, valoriza o quanto ela e a Sofia podem ser quem são na rua, nas redes sociais, podem pegar na mão quando saem pela cidade. E aprende diariamente a viver uma relação saudável, a superar os traumas e a não querer pesar as coisas. Adora a rotina agradável que vivem. Ambas mudaram muito suas visões sobre o amor depois que passaram a se relacionar. Não são muito próximas de suas famílias e nem possuem um número extenso de amigos, mas os que existem são pessoas que amam, confiam, que estão na vida delas há anos. Entende respeitar o tempo de cada pessoa, o limite das coisas, é o essencial para que tudo dê certo. Querem um amor leve, que conversa e que entende. ↓ rolar para baixo ↓ Carolina Sofia
- Julia e Duda | Documentadas
Amor de Muito - Julia e Eduarda clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Malu e Joyce
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Malu e da Joyce, quando o projeto passou por São Paulo! Tudo o que envolve a arte une a Joyce e a Malu. Elas amam mexer com tintas, cantar juntas, fotografar, pintar, fazer customização de roupas, assistir filmes… enfim, respiram arte o tempo todo. São pessoas que se enxergam de formas diferentes e que entendem que possuem alguns jeitos diferentes, mas sabem admirar e respeitar os diversos detalhes uma na outra. E, através desses detalhes, elas se encontraram em 2019. Foi uma mecha de cabelo na cor verde da Malu que chamou a atenção da Joyce, que estava sentada na mesa de bar com uns amigos. Na época, a Malu não cogitava em engatar novamente em um relacionamento, visto que tinha recém saído de um e estava ainda se recompondo e reestruturando. Mas hoje, ela conta que chegou a viver momentos em que foi reparando cada palavra e cada gesto, através da presença ativa que construíram no relacionamento, onde entendeu e agradeceu o presente que foi ter aceitado viver essa relação. Ela olha para a Joyce e diz: “Que mulher incrível, que mulher forte” e a Joyce complementa dizendo que nesses momentos, ela também pensou “Meu deus, não acredito que to tendo essa conexão que eu sempre quis ter”. As duas se viram pela primeira vez no bar, em 2019, enquanto cada uma estava na sua mesa, com os seus amigos. A mecha de cabelo verde da Malu chamou a atenção da Joyce, que sempre quis pintar o cabelo de verde. Ela ficou olhando, olhando e olhando… a Malu percebeu os tantos olhares, retribuiu alguns e a Joyce resolveu ir até ela e perguntar sobre o cabelo. O fato é que, quem fez a mecha foi a própria Malu, já que ela é cabeleireira! Então, ela deu um cartãozinho, com o contato profissional para que a Joyce mandasse uma mensagem. Elas brincam porque ambas sabem que o contato no cartão não era apenas por conta do cabelo, mas ele de fato aconteceu: elas conversaram e marcaram de se encontrar. Logo a caminho do local do encontro, o primeiro beijo aconteceu e sentiram que as coisas dariam certo. Na época, a Joyce trabalhava no bar em que elas estavam, mas era dia de folga e ficaram por lá se divertindo com os amigos e conhecidos dela. Ao decorrer do começo do namoro e dos primeiros meses, passaram por muitas coisas juntas e entendem que ao mesmo tempo que o relacionamento em si era algo que trazia o sentimento de leveza, ao redor delas aconteciam muitas coisas, e acabaram passando por todas essas coisas juntas. No período que a pandemia começou, tiveram que enfrentar mudanças, sentiram muitas saudades uma da outra e isso fez parte de um processo grande sobre autoconhecimento também. Nos momentos mais difíceis, não deixaram de se ajudar e de seguir enfrentando os desafios, mesmo entre perrengues e apertos. No fim, mesmo com o começo tendo esse sentimento leve entre as duas, elas se fortaleceram o tempo todo no apoio mútuo. A Joyce tem 30 anos, trabalha como tatuadora e atendente. Atualmente ela mora em Barão Geraldo, distrito de Campinas, interior de São Paulo. Também é cantora e musicista, toca violão, guitarra e ukulele. A Maria Luiza tem 20 anos, é formada enquanto cabeleireira e também trabalha atendendo em uma loja. Mora em Barão Geraldo, também, e no tempo livre ama fotografar e restaurar móveis. Junto com a Joyce, ela criou um projeto para também restaurar e customizar roupas, que se chama Lava. Além disso, elas fazem pulseiras e colares de miçangas. Em novembro de 2020 elas ficaram noivas, durante uma viagem para o Rio de Janeiro, que intitularam como “A melhor viagem da vida!”. O amor de forma leve surgiu porque tanto a Joyce, quanto a Malu, já passaram por relacionamentos que foram mais conturbados e abusivos. Logo no começo do relacionamento, pelo receio de se envolverem com novas pessoas, foi como um trato: só podemos acontecer se formos leves. Um trato que seguiu de forma natural, até porque, a leveza não deve ser forçada. O trato era para que tentassem resolver atritos ou questões sempre da melhor maneira possível, com diálogo, escuta e carinho. A Joyce entende que amar é respeitar e ter confiança, enquanto a Malu entende que amar é ser sincero e ter fidelidade. “Não é uma questão de ser fiel só naquela ideia de traição” ela diz “mas fiel para o que a pessoa se propõe. Se você é um amigo, seja um amigo fiel. É uma escolha”. Comentamos sobre nos sentirmos mais à vontade entre mulheres, porque já vivemos em situação de medo o tempo todo. Elas contam o quanto se sentem bem quando consomem algo feito por mulheres, quando se sentem seguras quando chamam um carro no aplicativo e a motorista é mulher e como a presença feminina em si traz paz. Concluem a conversa dizendo que as mulheres podem chegar aonde quiserem porque têm uma força incrível, só precisamos nos acreditar e nos impulsionar. Temos muita capacidade e maturidade. Além de que, tudo que é feito por mulher é nítido e intenso, sabe ser bonito e forte. Maria Luiza Joyce
- Sharon e Vivian | Documentadas
Amor de Natureza - Sharon e Vivian clique aqui e acesse nosso audiolivro
