Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
292 resultados encontrados com uma busca vazia
- Camila e Laura
Gostaria de começar a história da Laura e da Camila premiando-as com o título de casal mais brega que já passou pelo Documentadas. Este, um título naturalmente conquistado, não enquanto um brega em tom ridicularizado, cômico demais ou até enjoativo, mas genuinamente delas, algo que se faz parte em cada móvel do apartamento, história engraçada que contam ou fotografia realizada dentro do projeto. O brega não veio através de “eu te amos” falados o tempo todo - bem pelo contrário, Camila explica que o “eu te amo” parece nem ser o bastante para elas. O brega existe mais pelas bicicletas que representam ela ensinando a Laura a andar de bicicleta na praia, o fusquinha verde que ela tinha no começo do relacionamento, o livro de poesias (que sim, ela mesmo escreveu e lançou um livro de poesias para a Laura) e uma casa inteira de bonecas que representa a casa delas. Olhar para esses anos de relacionamento enquanto contam suas histórias representa enxergar o quanto acrescentaram uma à outra. Anexaram suas coisas boas e ensinaram/aprenderam o que ainda não sabiam. Enxergam como mudaram (e que bom que mudaram!), ficam felizes com suas novas versões e entendem que se não estivessem juntas não teriam vivido tantas evoluções. Laura, no momento da documentação, estava com 36 anos. É natural de Porto Alegre - Rio Grande do Sul e trabalha enquanto auxiliar administrativa sendo servidora pública. Camila, no momento da documentação, estava com 33 anos. Também é natural de Porto Alegre e trabalha enquanto professora de história, sendo servidora pública. Além de ser professora, Cami faz paródias sobre história, então usou o hobby de tocar violão para ensinar os alunos (criou um canal, tem músicas muito legais e acaba fazendo paródias não só sobre história). Além disso, participa de grupos de pesquisas sobre gênero e a presença de mulheres na história. Dentro de casa, contam com mais duas companhias: a Pagu e a Chica, suas cachorrinhas que estão no lar desde a pandemia de Covid-19. Adotaram pelo tanto de tempo que passaram em casa e por sempre desejarem ter cachorros, àquela era uma boa hora para fazer a adaptação. Ao começar a contar sobre como se conheceram e trazerem os fatos, logo surgem brincadeiras sobre se perderem nas datas - e logo a Camila, que é professora de história, foi muito cobrada sobre. Foi em outubro de 2014, que aleatoriamente, Camila adicionou a Laura no Facebook. Ela jura que não costumava adicionar pessoas que não conhecia nas redes sociais, mas viu uma foto da Laura, com um amigo em comum, fazendo campanha eleitoral presidencial para a Dilma e decidiu adicionar para fazer amizade. Na época, tudo estava à flor da pele com a campanha acirrada Dilma X Aécio (e no Rio Grande do Sul o Estado estava Tarso X Sartóri, que também não era nada fácil) e ela se sentia muito cansada de não ter pessoas sensatas para conversar. Procurava alguém que tivesse uma ideologia política em comum. Laura perguntou da onde elas se conheciam, Camila explicou que não se conheciam mas que gostaria de fazer amizade. Na época, Laura passava por um término de relação e topou conversar. Um tempo depois, quando já estava sozinha, chamou Camila para sair e de lá em diante começou uma paixão relativamente avassaladora: Cami tinha uma viagem agendada, foi e quando voltou já se sentia totalmente apaixonada pela Laura. Desde o começo do namoro passaram por diversos processos: moraram juntas, o relacionamento foi caminhando com o apoio da família (a irmã da Laura inclusive que apoiou que morassem juntas), meses depois Camila fez o pedido de casamento usando a casinha de bonecas, os anos se passaram e chegaram até a segunda casa - que moram hoje em dia. No momento de viver a segunda eleição presidencial em que o [sempreFora]Bolsonaro foi eleito, decidiram firmar a ideia do casamento: não teria mais como adiar, era uma decisão política. Realizaram a cerimônia em janeiro de 2019. Em 2020, viveram o desafio da pandemia. Com ele, refletem sobre como mudaram questões de comunicação - como a Camila chama para conversar o tempo todo, por exemplo, puxa para resolver os problemas - e como é muito raro brigarem. Tudo fala sobre questões cotidianas e como tentam resolver a rotina no entendimento. Entendem que uma trabalha muito mais que a outra, então tudo bem em alguns dias a que trabalha menos resolver a bagunça do sofá, da casa, enquanto a outra está ocupada, assim, se equilibram das formas que conseguem. A ideia é não sobrecarregar justamente para não desenvolverem brigas desnecessárias. Camila acredita ser uma vantagem se relacionar com alguém diferente dela. Laura ri e concorda, elas se complementam. Dá o exemplo: Cami é organizada nos prazos e planos de vida, coisa que Laura nunca foi e que hoje em dia adora ser - porque Camila é pelas duas. Laura entende que isso também é amor. Toda essa disposição que elas possuem de entender, de se compreender, de estarem dispostas a se completarem e realizarem trocas. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Camila
- Mariana e Viviane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mariana e Viviane, quando o projeto passou pela Bahia!. Mariana e Viviane são de Salvador, mas se conheceram em viagens à trabalho para a Chapada Diamantina. Num encontro bastante aleatório, Vivi estava sozinha em um bar bebendo uma cerveja no fim do dia, enquanto Mari passeava com o pai e acabou no mesmo lugar. Lá, em meio à música ao vivo, todos que estavam presentes interagiram, inclusive elas. Passaram horas conversando, além das trocas de olhares, beberam cerveja e riram de bobeiras. Decidiram trocar telefones e, quando a Mari chegou em casa, mandou uma mensagem pensando “Que mina massa! Vou agradecer pela nossa conversa que foi realmente muito boa!”. Depois de conversarem por mensagens, nos dias que se passaram a Vivi chamou Mari para ir na pousada em que ela estava beber uma cerveja. Mari avisou que tinha algumas garrafas em casa, então colocou na sacola e foi até a pousada. Naquela época, ambas tinham acabado de sair de casamentos héterossexuais, então em meio ao processo que viviam foram ficando cada vez mais próximas. Desde então, não se desgrudaram mais. Mariana, natural de Salvador, estava com 39 anos no momento da documentação. Ela trabalha enquanto advogada. Viviane, também natural de Salvador, estava com 43 anos no momento da documentação. Ela conta que “é um monte de coisa”: instrutora de yoga, doula, empresária, mãe, turismóloga… Seus filhos (o mais velho com 11 anos e a mais nova com 8 anos) adoram a Mari. Desde o começo eles saíam muito juntos, iam para o parque, o shopping, a praia… mas as crianças ainda não sabiam que elas namoravam. Até que um dia, num restaurante, a mais nova disse que o irmão estava falando que a mãe e a Mari estavam namorando, e ela respondeu: “Mas a gente tá!”. E pronto. Foi uma festona. Um misto de ficarem incrédulos com muito felizes. E aí surgiram as questões: “Mari, você vai ser nosso segundo pai?!” “Papai também vai namorar um menino?!” Os questionamentos naturais dialogam com a naturalidade que as crianças veem a relação. Hoje em dia, contam que a mãe namora e acham isso incrível. No começo da relação, brincam que se enrolaram um pouco. Estavam processando suas novas vidas e acreditam o quanto isso influenciou. Mas foi depois de uma viagem que a Mari fez para o Rio de Janeiro que a Vivi resolveu se abrir sobre seus sentimentos e falar o quanto gostaria de começar uma nova vida com ela. Mari nunca tinha se relacionado com mulheres, então passaram por momentos de se assumir para a família, o que gerou bastante medo para ela. A família não aceitou inicialmente, achava que a Mari nunca se relacionaria com uma mulher, porém as duas foram dando tempo para que eles processassem e tentando não gerar nenhum stress, hoje em dia todos já se dão bem em casa. Pelo lado da Vivi, o desafio foi contar ao pai. Na época ele estava com 82 anos, tem seus lados conservadores, mas depois de contar ele respondeu “Só isso?! Ah, então tá bom!” e ela ficou positivamente surpresa. Hoje em dia, mesmo morando em casas diferentes, elas amam se encontrar em praças e ir à praia (na praça que fizemos as fotos, inclusive. Por ser um lugar seguro e bom de ficar à toa). Elas brincam que não possuem hobbies específicos, porque no tempo livre se dividem entre dormir e ser mãe, recuperar o sono perdido nos últimos 11 anos. Vivi acredita que o amor precisa ser leve, pois quando há tensão/densidade/peso ela quer repelir. Entendem que no amor que vivem possuem muita liberdade e confiança uma na outra, então enxergam o momento atual enquanto tranquilo e confortável. Entendem que precisam de tempo para digerir processos internos, mas que a parceria faz parte da relação como um todo. Hoje em dia, vivem enquanto um casal tal qual viveriam enquanto heterossexuais, e não evitam de ser quem são. ↓ rolar para baixo ↓ Mariana Viviane
- Marcela e Karine
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marcela e Karine, quando o projeto passou por São Paulo! A Karine e a Marcella são aquelas pessoas que jamais conseguiriam viver sem arte na vida. Arte em todos os aspectos: a cultura no cotidiano, passando pela pintura, pelo teatro, pelo cinema ou pela dança. Dentro do apartamento em que elas moram em São Paulo fazem uma produtora acontecer - e dessa produtora já saiu websérie, ideia para Canal no Youtube, filme, peça… tudo vira vida. A produtora criada em 2018/2019, com nome La Loba, vindo do livro Mulheres que Correm com Lobos, foi um passo muito importante também para elas colocarem em frente o que acreditam: a liberdade no criar. Roteirizar, filmar, dialogar com novos atores. Criar cenas e redescobrir aspectos de criatividade, ainda mais dentro de casa, é um desafio divertido. Quando falamos sobre as ferramentas de gravar dentro de casa (por elas terem as ferramentas necessárias, desde equipamento técnico até o suporte para lançar, como o YouTube ou outras plataformas), elas comentam também que não admitem a ideia do artista pobre, essa coisa de que o artista precisa vender o almoço para comprar a janta. Não que precisem viver o luxo, mas que querem suas profissões respeitadas e valorizadas para que tenham uma vida confortável e saudável: “Ter o trabalho reconhecido”. Suas competências artísticas são enormes, estudaram (e estudam!) há anos para construir isso e é um exercício diário relembrar o quanto o teatro, a peça, o filme, a dança, a música, a expressão artística é tão importante para o nosso dia-a-dia quanto tantas outras coisas que fazemos. Karine é de Tatuí, cidade intitulada como Capital da Música, interior de São Paulo. No momento da documentação ela estava com 33 anos e contou sobre um projeto do Governo do Estado de São Paulo em que estava fechando diversos cursos universitários lá na cidade natal dela (local que a família reside até hoje), incluindo o curso que ela fez, de Artes Cênicas, que já estava encerrado. Falou sobre a dificuldade de se ver longe e ver uma cidade com tantas potências, com um dos maiores conservatórios de música da América Latina, resistindo, mas sem muitas forças perante um poder tão maior que é o legislativo. Mas que, mesmo com todas essas sensações de cultura sendo levada “embora”, não desistiria, pois da mesma forma que ela esteve lá por tanto tempo ainda há pessoas muito boas fomentando a arte nessas cidades - e não só: a arte, a história, os eventos culturais, os projetos de voluntariado, etc. A Marcella também tem uma trajetória de busca pela cultura no interior de São Paulo, mas dessa vez em Piracicaba. Ela estava com 32 anos no dia em que nos encontramos e contou que a sua trajetória na arte da cidade foi impulsionada quando começou a fazer um curso no SENAC (e, nesse curso, também conheceu a Karine). O ano era 2016, encenaram uma peça sobre A Paixão de Cristo, aprenderam muito e até ficaram amigas, mas o tempo passou e não se falaram mais. Como a cidade é pequena e todos acabam se encontrando nos espaços, em 2018 elas fizeram outra peça novamente. Estavam solteiras, interagiram e o interesse surgiu. No fim, (ou melhor, no começo) começaram a namorar. A vida em Piracicaba, mesmo que confortável, estava um pouco limitada para a carreira da Karine e da Marcella. Foi então que surgiu a oportunidade de morar em São Paulo (capital). A Karine já tinha morado em São Paulo por um tempo, sabia como a cidade funcionava, a alta opção de cursos, abrangência para novas áreas e também a concorrência muito maior de artistas chegando de todos os lugares, mas lá em Piracicaba não via mais a carreira andar no momento em que estava… e a Marcella topou o desafio. Juntas, com o incentivo de uma amiga, realizaram a mudança. Logo no começo da pandemia encontraram a casa que moram agora, um lar maravilhoso e que foi se completando com o jeito delas em cada cantinho. Foi lá que gravaram a websérie, é lá que possuem as melhores (e piores!) ideias para as próximas produções e brincam que a casa é uma grande geradora de ideias. Elas se veem como parceiras. São muito amigas e sobretudo essa companhia se torna uma âncora. Sentem amor pela companhia. Além do amor que compartilham pela arte em si e por tudo o que são envolvidas, existe o amor que sentem por estarem juntas. A arte é um refúgio e a relação delas é uma parceria. Em casa adoram assistir Simpsons, Friends, cozinhar e durante o preparo da comida fazer pausas para dançar… Também trocam momentos de criação pintando telas, criando plaquinhas e decorações para a casa, amando os filhos de quatro patas e cuidando das plantas na varanda. Não só juntas, elas também falam da importância dos momentos de solidão. De reflexão e estudo - tanto de livros quanto de estudar a si mesmo. Para a Karine, o amor veio num entendimento sobre quem ela é e isso levou muito tempo, porque ser uma mulher lésbica artista já é um processo de autoconhecimento imenso para sair de muitos padrões e “caixinhas” que nos são colocadas. “Estar livre disso e aberta para que alguém possa te olhar e te amar é um dos passos mais importantes”. Então amar a si mesma e amar a Marcella foi um processo que aconteceu de forma natural (não fácil, claro), mas na dor ou na felicidade, foi acontecendo diariamente. Essa relação de autoconhecimento reflete na Marcella através do respeito a si própria, pois ela conta que antes ela não se via com tanto respeito - hoje ela aceita que adora dançar, por exemplo, e dança! Ela respeita quem é e respeita quem a Karine é. E isso é um dos maiores aprendizados que tira da relação. No fim da nossa conversa tiramos um outro aprendizado, sobre a expressão artística em si no que envolve esse amor além do preço que colocamos nas coisas, pelo puro sentimento de quem somos e do que gostamos/amamos fazer. A Karine dá o exemplo de que uma vendedora pode continuar sendo vendedora e cantar super bem, ou um motorista de ônibus pode ser o melhor motorista e mesmo assim um ótimo pintor… a arte deveria ser vista enquanto uma conscientização social sobre a importância de fazer arte, da expressão artística, do quão essencial para o ser humano ela é - para isso, enfim, gerar coisas boas para o nosso redor enquanto sociedade. E viver essa arte, para fora do capitalismo (ou seja, você não precisar vendê-la para ganhar dinheiro/nem tudo o que você tocar precisa virar ouro) é o que elas gostariam de ver sendo refletido por aí. Marcella Karine
- Pamela e Gabriela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Pamela e Gabriela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi num parque em meio à área florestal do Grajaú, no Rio de Janeiro, que encontrei Pamela, Gabi e Kauan. Ele completamente sorridente, com seus 5 meses de idade. Começamos a conversa com elas contando o quanto amam viajar. Sempre planejaram viagens e agora, depois de ter feito a primeira viagem breve com o Kauan, anseiam o primeiro andar de avião nas próximas semanas. Pamela explica como esse primeiro momento da maternidade não é fácil, por mais que tenha essa viagem que traga felicidade, a vida real demanda muito, envolve cansaço e esforço das duas, mas que mesmo nessas circunstâncias conseguem sentir as coisas leves porque sempre relembram o quanto sonharam com isso e o verdadeiro motivo de viverem tudo: resgatam o amor para o dia a dia. Entendem que o amor é muito político, principalmente na criação do Kauan. Citam os olhares, as burocracias que viveram e questões mais ‘invisíveis’, como o quanto pensavam sobre política muito antes de saber se era um menino ou uma menina que iria nascer. Gabi explica que se fosse menina, queriam criar uma menina forte, corajosa, que tivesse consciência do machismo, etc. Sendo menino, mudava de forte para sensível; Queriam a consciência e a coragem, mas ensinando que pode demonstrar sentimentos, chorar, ser gentil. Conta, também, sobre um dia que estavam numa padaria e um desconhecido brincou com ele e comentou: “Esse é macho, tem cara de macho!” e ela disse “Não… Ele é um bebê” e completa que não tem que ter cara alguma, além da cara de um bebê. Foi em 2015 que elas se esbarraram pela primeira vez, numa festa durante o carnaval. Pamela tinha saído com um amigo, estava recém solteira e perguntou se o amigo tinha alguém para apresentar. Ele apresentou a Gabi e elas se beijaram na noite, mas não conversaram, nem trocaram mensagens depois. Em 2017, se encontraram novamente no carnaval, de forma aleatória num bloco e com os mesmos amigos em comum. Perguntaram se estavam solteiras e ficaram. Isso já era de madrugada, estavam bêbadas e depois de terem ficado, a Gabi simplesmente comentou com o amigo: “Sabe quem eu queria encontrar?! A Pamela”. Ele ficou sem entender nada: “Ué?? Mas você acabou de ficar com ela!”. E ela não lembrava. Se esbarraram de novo, beijaram de novo, e o amigo chegou dizendo “E aí, Gabi, agora foi, né?”. Quando ela respondeu: “Não?! Não vi a Pamela”. Achavam que era alguma brincadeira dela, mas entenderam que ela realmente não estava relacionando/lembrando. Então combinaram: se elas se beijassem de novo, iriam fotografar. E assim foi. Depois do carnaval, ambas tiveram breves relações e no meio do ano estavam novamente solteiras, então começaram a se falar pelas redes sociais. Decidiram ter um encontro, a Pamela decidiu que não podia envolver álcool, porque queria ser lembrada, então chamou Gabi para ir ao cinema. Acabaram chegando cedo e só tinha o filme dos Minions para assistir, toparam mesmo assim e sentem que aquele dia foi o começo de tudo. Começaram a conversar, ficaram juntas mesmo. Nos próximos dias que seguiram desde o primeiro encontro, já entendiam que queriam namorar. Fizeram a primeira viagem e lá Gabi comprou uma aliança, na pracinha da cidade, e deu para a Pamela selando o início do namoro. O primeiro ano não foi fácil, contam que foi um ano de “ajustes”. Tinham muitas conversas para se entender, também não havia muita estrutura, ainda estavam na faculdade… Foi depois de completarem um ano que decidiram morar juntas, em Caxias, por ser mais acessível financeiramente. Sempre falaram sobre casar e ter filhos, então começaram uma conta poupança juntas, entendendo o quanto isso demandava, e os planos foram se concretizando. Em 2019 casaram, fazendo uma festa para amigos e familiares. Em seguida, se mudaram para um novo apartamento, entre o centro e a zona sul do Rio de Janeiro. Durante a pandemia o apartamento se tornou pequeno para o que desejavam. Ainda mais passando o dia todo em casa, se sentiam enclausuradas, sem tanta luz solar. Sendo assim, em 2021 conseguiram um novo lar, dessa vez na Tijuca, e lá a vinda do Kauan começou a ser planejada. Começaram com a bateria de exames, depois a primeira tentativa que já deu certo. Pamela gerou, Kauan nasceu em abril de 2023. Gabriela estava com 31 anos no momento da documentação, é natural do Rio de Janeiro e, mesmo tendo a formação em Engenharia Química, migrou de área e hoje atua enquanto Product Manager. Pamela, com 33 anos no momento da documentação, é natural de Duque de Caxias, baixada fluminense. Também formada em Engenharia Química, não atua na área, trabalha enquanto analista de negócios. Gabi conta que desde pequena sempre quis ter um filho com o nome Kauan. Falava isso tanto que, quando a mãe engravidou, perguntou se ela queria dar esse nome ao irmão e ela respondeu que não, Kauan seria o nome do filho dela. Quando deu essa ideia para a Pamela, ela adorou, principalmente pela escrita do nome. São duas mulheres muito diferentes: Gabi, por exemplo, passou o processo de gravidez todo chorando (seja por felicidade, medo, ansiedade…), enquanto Pam internalizou tudo e segurou a barra, foi muito racional, só chorou quando deu certo. Entendem que no dia a dia o exercício é fazer Pamela lidar com as emoções, se comunicar, falar o que sente. Gabi instiga a comunicação, sempre procura conversar. Para Gabi, o amor é muito mutável perante os períodos que as pessoas estão vivendo. Quando começaram a namorar, por exemplo, sabiam que se amavam e por mais que em muitos momentos estivesse sendo difícil se entender, o amor estava ali e queriam continuar juntas, por isso seguiam em frente. Hoje em dia é diferente, já passaram por questões difíceis no emprego, na família… e continuam juntas, se sentem fortalecidas. Vê muita parceria na forma que elas constroem a relação e a educação do Kauan. Atualmente, fazem parte de um grupo de dupla maternidade no Rio de Janeiro e querem muito que o Kauan viva com crianças da mesma configuração familiar que ele. Buscam o tempo todo espaços inclusivos, desde o grupo, até escolas que não tenham o dia das mães-dia dos pais, mas o dia da família. Pamela fala sobre todas as crianças, as tantas que vivem sem pais, por exemplo, e como esses dias podem se tornar algo ruim. Não queria ver o Kauan crescendo com esse sentimento, portanto, querem sempre propor algo melhor - e que elas não tiveram, na sua infância, como escolher. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Pamela
- Inara e Marina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Inara e Marina, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A documentação da história da Inara e da Marina veio a acontecer com uma pressa maior que a da maioria dos casais que passam pelo Documentadas, mas por um motivo bastante especial: elas se inscreveram sabendo que, no próximo mês, já não estariam mais morando no Brasil. As duas decidiram começar uma nova vida em Portugal. No começo do namoro era uma brincadeira boba de usar a dupla cidadania da Nina, mas depois virou um sonho concreto. Casaram-se e começaram a organizar como seria a nova vida. Nos encontramos no momento de venda de todos os objetos que elas possuem por aqui e, agora, com a história no ar, elas já estão começando os primeiros passos no novo país. Durante a conversa, elas relembram que quando a Inara foi apresentar a Nina para as melhores amigas dela, comentou algo que nunca tinha falado sobre nenhuma outra pessoa com quem se relacionou: “Anotem aí! Eu vou casar com essa mulher!”. No casamento, essas amigas eram as madrinhas. Assim, elas falam sobre o poder das palavras, do querer estar junto de alguém e, de alguma forma, do curso da vida. Inara e Nina se conheceram naquele aplicativo de relacionamentos super citado por aqui, o Tinder. Elas deram match e conversaram, depois sumiram, voltaram, sumiram de novo… A conversa não saiu de lá. Falavam sobre trabalho, família, diversos assuntos nessas idas e vindas, e foi num dia que a Nina cansou do aplicativo e decidiu sair de forma definitiva que avisou a Inara e pediu o Instagram, para que elas mantivessem o contato e se encontrassem em algum momento. Esse momento chegou, ainda que demorou mais um tanto - o encontro foi ótimo. Na época elas estavam em momentos bem diferentes… a Nina saía de um relacionamento bastante abusivo, a Inara estava numa solteirice contínua do qual ficava com várias pessoas, mas sentia que não se aprofundava com ninguém - e calhou de na época conversar com uma amiga (que, futuramente, viria a dividir apartamento com elas por anos) sobre essa sensação de fazer encontros à troco de nada. A amiga aconselhou a desmarcar o encontro, mas a Inara disse que não tinha como desmarcar, que seria desrespeitoso porque a Nina parecia ser muito legal, era melhor ir e ver no que iria dar - Ela disse: “de qualquer forma, vai ser o último”. E, por fim, foi. Essa história de dividirem apartamento surgiu logo depois, quando a Nina pediu a Inara em namoro elas já estavam praticamente indo morar juntas. O contrato estava por vencer e elas iriam se mudar. Até poderiam ir para o apartamento da Inara, que tinha uma vista ótima, ou optar pelo da Nina, que era grande, mas preferiram alugar um novo, recomeçar. Não queriam lugares que tivessem vivido outras histórias e outras dores. Assim, a amiga da Inara também estava em busca de apartamento e elas foram dividir um imóvel na Lapa, no centro do Rio de Janeiro. Elas contam que mesmo morando juntas, mantinham cada uma o seu quarto, até porque tudo estava muito no início quando alugaram e não sabia o que poderia dar certo. Acabou que juntas, com a companhia da amiga, no apartamento enfrentaram toda a pandemia, compartilharam diversas histórias e viveram muitas coisas. A amiga, por sua vez, confessou no casamento que não chegou nem a desabilitar o aplicativo do Zap Imóveis do celular, imaginando que no começo, pós mudança, elas brigariam, se separaríam, e ela quem teria que arranjar um novo lar. Mas a verdade é que isso não passava na cabeça delas, tinham uma responsabilidade em mãos e queriam estar juntas. Da mesma forma que um apartamento novo significava viver um recomeço, a viagem e a mudança para Portugal significava outro. Não está sendo fácil vender absolutamente tudo, desapegar das coisas que foram compradas e conquistadas ao longo dos anos. Mas é um esforço em conjunto para entender que isso abre caminhos para novas experiências. Elas contam que é uma possibilidade maravilhosa pensar em ter Portugal completamente do zero. Comprar coisas novas, mobiliar com a cara delas o novo lar, construir tudo novamente. É excitante, também, pensar na segurança de viver fora do Brasil. Hoje, viver no Rio de Janeiro, pela concepção delas, está muito difícil. Recentemente passaram por assaltos e criaram medos e traumas de vivenciar a rua. Pensam em viver Portugal por retomar o que amavam fazer aqui e que abdicaram pela violência: andar de bicicleta, curtir a cidade, sair sem medo do que pode acontecer a qualquer momento. Inara explica o quanto isso também dialoga com o trabalho dela, que é explorar o lado criativo: vai ser muito feliz podendo fotografar a rua, usar o celular, filmar mais em vias públicas e produzir mais conteúdos. Inara tem 39 anos, é natural do Rio Grande do Sul, mas desde criança se mudou para o Rio de Janeiro com a família. Ela trabalha com fotografia. Marina tem 39 anos, é natural do Rio de Janeiro e trabalha num site de música digital, sendo head de operações. No período da pandemia agravado pela quarentena, elas viveram momentos muito difíceis e também momentos muito bonitos (como o pedido de noivado e, posteriormente, o casamento). Foi logo no começo, quando ninguém sabia o que era a doença do Covid-19 e que havia-se um sentimento generalizado de luto, de desespero e de incerteza, que no dia do aniversário da Inara, elas juntaram os amigos online e a Nina fez o pedido de casamento. Foi como um sopro de esperança brotando: ver os amigos ali, através de uma vídeo chamada, e sentir que um dia estariam todos juntos novamente na festa, inclusive alguns com seus filhos (pois crianças estavam sendo geradas) era como brotar esperança em meio àquele caos. O casamento de fato aconteceu, cheio de detalhes sobre o que elas gostavam, como sapinhas nos buquês, tudo de mais clássico e que representava elas verdadeiramente. O casamento também inspirou amigos LGBTs próximos a se casarem. Entre os momentos mais delicados que uma relação envolve, como estar uma para a outra passando por coisas difíceis, enfrentando lado a lado e estando juntas de verdade, a Inara viveu uma cena, como ela mesmo diz, de novela, que foi bastante dolorida e que não saberia ter passado por isso sem todo o apoio da Nina. Reencontrou sua mãe depois de muitos anos sem contato, porém, ela estando em um leito de UTI, na fase terminal de um câncer. Foram algumas semanas de contato direto, apoio, em meio às ondas muito fortes de Covid-19 e, mesmo assim, as duas fazendo o possível acreditando com todas as forças que teria algum jeito dela melhorar. A Inara e a Nina acreditam muito no amor em forma de cuidado, em observar a necessidade do outro para além da sua. Isso, na relação delas, está desde os detalhes como a comida preferida da Inara ser o pão com mortadela que a Nina prepara nas manhãs, ou a força que elas tiveram nesses momentos mais difíceis. A Inara nunca tinha conhecido um amor que proporcionasse tanto apoio como quando elas passaram por isso - e, não só pela parte mais técnica e burocrática que sabemos que esses momentos infelizmente impõem - mas pela dor, também. Receber o acolhimento de uma forma que nem sabia que era possível tê-lo. Um cuidado realmente saudável, um amor único - e também calmo. A mãe da Nina, por sua vez, respeita as duas mas ainda não entende o relacionamento delas enquanto uma relação amorosa, de fato. Elas compreendem que isso é por motivos religiosos que são colocados acima de tudo e que, com o tempo, vai se apaziguando da melhor forma. ↓ rolar para baixo ↓ < Marina Inara
- Lilian e Marcella | Documentadas
O encontro da Lilian e da Marcela com o Documentadas aconteceu poucos dias antes do casamento delas - que não seria nada convencional - um casamento temático de festa junina! Nos encontramos em sua casa (que também é o lugar onde trabalham sendo padeiras) e estavam entre muitos preparos: desde as últimas encomendas da padaria, pois sairiam de férias/e lua de mel logo após a cerimônia, até as preparações do casório porque tudo foi feito entre muitas mãos - comidas, decorações, lembranças… não contrataram buffet ou empresas para isso, contaram com os próprios serviços e de amigos que também trabalham com gastronomia. A festa foi dedicada a reunir pessoas que amam e fazer todas se sentirem bem: que vistam se sentindo bem, comam bem, dancem, brinquem, se divirtam. Todos estavam muito empolgados, inclusive as contratadas, que são apenas mulheres - fizeram questão disso e foram atrás até de banda de forró sapatão, que fez com que a festa ficasse muito mais animada. Conversamos sobre entender a instituição casamento com o recorte de se tratar de duas mulheres e em tudo o que isso envolve. Por mais que existam várias críticas sobre essa instituição e seus conservadorismos, existe também o lado político pela importância de ter um documento que afirma esse amor. É muito importante o evento, a celebração. Reconhecer que os familiares estão viajando de longe para celebrar esse amor que sempre nos foi negado, que toda relação heteronormativa é celebrada e comemorada o tempo todo, mas entre duas mulheres fomos colocadas num espaço de não-celebração, ficamos minguadas, podemos até beijar mas não demonstrar tanto, não abusar da demonstração… Então celebrar um casamento é celebrar MESMO. Celebrar com vontade. Ter quem você ama celebrando com vocês. Celebrar duas mulheres amando. E, para elas, o casamento só faria sentido se fosse vivido assim como será: com todas as pessoas lá, de forma coletiva. Elas construíram essa relação pensando no mundo que acreditam. Se sentem confortáveis, acolhidas. Sentem que a relação é uma grande mesa com comida e todos ao redor, compartilhando. Lilian, no momento da documentação, estava com 30 anos. Nasceu no interior do Espírito Santo, num município chamado Pinheiros, mas cresceu em Vitória, na capital. Ao completar o ensino médio foi para Mariana, em Minas Gerais, cursar história e durante a faculdade descobriu a disciplina de antropologia da alimentação. Quanto mais estudava, mais se interessava e ao finalizar a graduação começou a estudar gastronomia. Ao se mudar para Minas Gerais, não tinha conhecimentos em culinária, mas aprendeu pela necessidade e a primeira receita que fez por vontade própria foi pão de fermentação natural. Começou a ser um hobbie, mas logo se viu pesquisando mais sobre panificação e misturando a panificação com seus outros estudos dentro da gastronomia. Foi então que conheceu uma pesquisadora chamada Neide Rigo, que explica sobre plantas, hortas na cidade, sobre o que plantar > o que comer, e consumindo os conteúdos que essa pesquisadora publicava conheceu um restaurante em São Paulo, o Maní. Viu que estavam com inscrições abertas para trabalhar por um período, se inscreveu e passou, foi assim que sua mudança para São Paulo aconteceu, em 2018. O período de trabalho seria, inicialmente, de 4 meses, mas virou uma contratação e ela se oficializou enquanto padeira. Conta como foi incrível, não conhecia mulheres padeiras - ou melhor, conhecia uma só que acompanhava o trabalho e admirava. Foi uma grande realização profissional. E, para além da padaria, ela segue adorando cozinhar e descobrir receitas, inventar festas temáticas com comidas temáticas para reunir os amigos e familiares, pesquisar sobre culinárias e culturas. Marcela, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é natural de São Bernardo do Campo, mas cresceu em uma cidade pequena chamada Dracena, no interior de São Paulo, onde viveu até os 17 anos. Cresceu numa família bastante grande e tradicional e passou pelo seu entendimento de gênero e sexualidade bastante cedo, então não se sentia bem no lugar onde morava, decidiu sair da cidade e se mudar para Campinas, também em São Paulo, para cursar faculdade de Artes Cênicas. Lá, durante 4 anos, se sentiu muito feliz e viveu diversas descobertas. Em 2018, precisava de maior independência financeira e procurou uma nova fonte de renda: começou a fazer pão de fermentação natural em casa. Depois disso, procurou trabalho na área, indo em padarias e oferecendo o seu serviço. Conseguiu trabalhar em uma padaria e depois disso se organizou financeiramente para se mudar para São Paulo (capital), até que em 2019 a mudança aconteceu. Logo que chegou na cidade, fez o mesmo que havia feito em Campinas: foi de lugar em lugar oferecendo seu trabalho. O primeiro lugar que ofereceu foi na padaria do Maní e a chamaram para alguns freelancers, então vez ou outra ela ia cobrir alguém, inclusive a Lilian, quando tirou alguns dias de férias. Depois desses freelas, ela foi contratada de fato. Quando começaram a trabalhar juntas, conversavam bastante. Lilian é muito acolhedora, conta que isso vem de família, aprendeu a acolher, conversar, receber bem as pessoas porque sua família é assim. Na época, ela morava em um apartamento dividindo lar com amigos e apresentou essas pessoas para a Marcela, inseriu ela na sua vida e logo viraram amigas. Marcela também foi se abrindo, contou que recém estava solteira, que queria desbravar São Paulo, aproveitar a cidade, não queria namorar. Aos poucos, às vezes se olhavam de um jeito diferente enquanto trabalhavam. Lilian percebia um jeito da Marcela observar… Até que um dia Marcela chegou um presentinho para ela, entregou e disse: “Não significa nada”. Quando Lilian chegou em casa, contou para a amiga e a amiga disse: “Significa!!! Ela te quer!!”. Num dia, saindo juntas, alguns meses depois de terem começado a trabalhar, se divertiram, foram em vários lugares até que Lilian perguntou o que estava significando aquilo. Marcela respondeu algo que Lilian até hoje acha muito legal, ela disse que achava que estava apaixonada pela Lilian, não sabia se era romanticamente, mas que adorava passar um tempo com ela, estar ali, adora a amizade e que sentia vontade de beijá-la. Lilian disse que sentia também, e assim elas se beijaram. Desde então elas ficaram juntas, mas Lilian tinha uma mudança de vida planejada: ela iria para a Espanha. Já havia desfeito a casa que compartilhava, vendido suas coisas, pedido demissão da padaria… Sua vida havia se resumido em uma mala. Passaram o final de 2019 juntas e em fevereiro de 2020 Lilian saiu de fato do trabalho, até lá elas estavam apenas vivendo, se divertindo, sabiam que a separação viria em breve. Os planos da Lilian eram visitar seus amigos em Minas Gerais, a família no Espírito Santo e se mudar de vez para a Espanha. Porém, dias antes, chegou a pandemia de Covid-19. Quando isso aconteceu, ela estava hospedada na casa de um amigo, uma kitnet em São Paulo, esse amigo havia acabado de se mudar para cursar medicina na USP e ele orientou: “Estão correndo boatos de que isso aí vai durar uns dois anos no mínimo”. Ele decidiu não ficar em São Paulo e deixou a kitnet com ela. Ela chamou a Marcela e ficaram juntas, mas não tinha nada: trabalho, roupa, perspectiva… os primeiros meses foram de espera, até que a ficha foi caindo porque o restaurante que ela iria estagiar na Espanha fechou, precisou devolver as passagens da viagem e entendeu aos poucos que o sonho acabou. Marcela também foi demitida, precisavam repensar tudo. Em abril decidiram anunciar aos amigos que iriam fazer pão para vender e, logo no primeiro anúncio, foram dois dias de fornadas. Depois, perceberam que trabalharam mais de duas semanas sem parar - e se organizaram melhor. Transformaram a kitnet numa padaria, assim foi seu sustento até novembro, quando se mudaram para um lugar maior. Ressaltam como foi muito importante as pessoas terem comprado de quem faz durante a pandemia. Esse foi o contato humano, foi o que nos uniu mais. Entre o final de 2020 e 2021 moraram em uma casa que possuía mais espaço e lá produziam em maior escala, até que chegaram no lugar que estão agora. Hoje em dia, possuem um espaço separado na casa onde acontece a produção e destinam suas vendas principalmente para pessoas jurídicas, ou seja, outras empresas e restaurantes. Se dão muito bem trabalhando juntas, adoram o que fazem e Marcela acredita muito que o amor entre mulheres está presente nessa torcida que uma tem pela outra, nesse fortalecimento. Vivem uma amizade muito potente dentro desse amor. Lilian concorda: talvez por ser tão poderosa é que muitos temem. São muito matriarcais, cuidam e zelam umas pelas outras. ↓ rolar para baixo ↓ Marcella Lilian
- Renata e Marcela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Renata e da Marcela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Hoje em dia elas entendem que isso fez parte da história, mas tentam sempre ressignificar o sentido de família. A Marcela passou o último natal com a família da Renata, os amigos estão sempre por perto, inclusive, são grandes admiradores do casal. Elas fomentam o lar, o amor e o cuidado. Tudo o que viveram serve de fortalecimento não só na relação, mas também enquanto seres humanas. Quando perguntei sobre o amor, me disseram que o amor, mesmo que de forma geral, é político, porque ele está em tudo. Identificam esse atual momento como o pior que já viveram em relação ao ódio e à ignorância disseminada e que, mais perigoso que isso, é sobre o “agressor” estar gerando o nosso país. “O amor tem que ser colocado em prática. Não responder o ódio com mais ódio.” Renata comenta o quanto o ódio é tentador, o quanto nos deixamos levar pelo impulso do ódio. O amor, não. Ele é muito maior que a gente. O amor está entre as relações de pessoas conhecidas (amigos, familiares) e também nas relações sociais. “Quem ama não coloca uma calçada com espinhos em cimento para as pessoas em situação de rua não poderem deitar embaixo do viaduto. Como que chegamos nesse ponto?! Se chegamos, foi porque alguém normalizou o ódio nesse nível. E o nosso maior desafio é não deixar o primeiro passo ser dado para chegarmos onde estamos, ou, agora, revertermos a situação.” Marcela comenta que amar mulheres é ter um tipo de amizade único também. É uma relação muito mais completa - é ter respeito, trocar, entender, ter vontade de estar junto e querer que funcione, mesmo que nem tudo sejam flores. É entender que são pessoas incríveis separadas, mas que estando juntas são ainda mais. Quanto mais a relação delas se desenvolvia, mais a Marcela achava injusto que seus pais não soubessem do relacionamento. Ela já era uma mulher financeiramente e emocionalmente independente, mas acabava tendo uma vida ‘dupla’ por dentro de casa não poder demonstrar seu amor por outra mulher. O pai reagiu de uma forma mais tranquila, mas a mãe não lidou (e não lida) bem. Marcela costuma contar que foi a madrugada mais longa que ela já viveu. A mãe não aceitou e ela decidiu sair de casa. Renata deixou a porta de casa aberta, para que ela pudesse, ao voltar, entrar. Ela voltou com uma mochila cheia de roupas e assim passaram os meses seguintes, juntas, tentando se cuidar. Marcela começou a fazer terapia (inclusive, o pai acompanhou algumas sessões também), e começou a dividir o apartamento com a Renata. Ela contou que não acha justo mentir. Não queria dizer que estava num bar se estava na casa da Renata, por exemplo. Além do mais, elas sentem algo tão bonito, tão bom, que merece ser compartilhado, por mais que existisse o medo de contar. Hoje em dia, ela ainda tenta, aos poucos, ficar bem com a família, mas comenta sobre o quanto é difícil. Hoje em dia, elas sentem muito que os pais não estejam presente nos detalhes bons da vida, como a forma que elas montam o apartamento delas, os motivos que dão risada, as plantinhas que acabaram morrendo mas que elas estão determinadas a aprender a cuidar, os gatos e o que as fazem felizes ou tristes. E o quanto valem esses detalhes, afinal? Vale a pena não tentar quebrar esse preconceito que existe em troca de conviver e compartilhar a vida com os filhos? Perder essa fração de vida? E tudo isso por não aceitar que o amor? No fim, a conta não fecha. Renata tem 39 anos, ama andar de bicicleta, dançar e escrever. Marcela tem 25 anos e na quarentena tem descoberto que gosta de trabalhar com edição. Elas vivem num apartamento juntas, com seus dois gatinhos e os milhões de pássaros agapornis que chegam até a janela para fazer uma visita e comer umas sementinhas. São mulheres que possuem uma vida cultural e social muito ativa, sempre estiveram entre teatro, cinema, bares, etc. Tiveram um primeiro encontro meio sem querer - queriam assistir uma peça juntas, mas não conseguiram chegar em tempo. E aí decidiram ver uma peça chamada ‘40 Anos Essa Noite’, que fala sobre vivências LGBTs. Depois da peça pegaram um uber para o bar e era engraçado que no caminho, como uma não sabia se a outra se considerava hétero ou LGBT, acabaram contando suas experiências, para deixar bem claro, estilo “uma vez vivi isso com A minhA namoradAAAA/e ai elAAA/na perspectiva delAAA”. Depois disso começaram a se permitir conhecer, se apaixonar e viver a relação. Enquanto estudavam juntas no Tablado, os exercícios cênicos eram sempre feitos através de grupos e as cenas improvisadas com temas da atualidade. Os grupos eram escolhidos de forma aleatória, então elas nunca acabavam caindo juntas. A primeira cena que fizeram de verdade foi uma cena de Orange Is The New Black, da qual interpretavam a "Pennsatucky” e a “Boo” no dia das mães. Após atuarem juntas no Tablado, se juntaram com um grupo de amigos e decidiram fundar uma companhia de teatro, os Banalizadores do Evoé, que durou alguns meses antes da pandemia. "O Amor entre duas mulheres e a rejeição social desse "comportamento" gera a dor gigante daquela cujo sentimento só sabe ser livre..." Foi através de ‘O Efeito Urano’ que Fernanda Young chegou até a Renata e a Marcela e se tornou uma das primeiras cenas que fizeram juntas, no começo do relacionamento, após se encontrarem no teatro Tablado. Renata e Marcela são atrizes, além de professora e de advogada. Elas se conheceram estudando teatro juntas, já em palco. A Renata sempre se viu um pouco na Fernanda Young, as obras dela permitiram com que entendesse que seu corpo também era livre. Fernanda sempre dizia que não cabia nos lugares, enquanto, Renata, também se sentia assim… até que ambas entenderam que não precisamos caber em lugar algum, mas que criar nosso próprio lugar. Renata apresentou O Efeito Urano para a Marcela. Virou o livro delas. Marcela leu e Renata releu, simultaneamente - assim grifaram tudo o que achavam importante, depois juntaram os papéis, no chão de casa, separando em três atos: a paixão, o relacionamento e o ato final. Foram para a praia, com os textos em mãos, e passaram o dia ensaiando. Depois disso, qualquer momento se tornou oportuno: passaram o texto enquanto estavam cozinhando, dirigindo e andando por aí. Se tornaram muito parceiras em ensaios, sempre trocando muito aprendizado. Hoje em dia o livro virou a parede do quarto delas, literalmente.
- Kamylla e Marcia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Kamylla e Marcia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Marcia e Kamylla se conheceram na faculdade, ambas cursando Engenharia na UFRJ, quando um amigo em comum perguntou para a Márcia se ela se interessava pela Kamylla (e por qual motivo elas nunca teriam ficado) e ela contou que não sabia quem era/que também nunca tinha pensado na possibilidade, foi aí, então, que se adicionaram nas redes sociais. Na época, final de 2019, Kamylla começou a se envolver com uma mulher e logo namoraram brevemente - o que descartou qualquer possibilidade para Márcia - mas elas seguiram ali, uma na rede social da outra. Foi um tempo depois, já na pandemia de Covid-19, que a Kamylla fez um post de madrugada no Facebook, dizendo se sentir uma idiota por conta de um desastre na cozinha e Márcia respondeu, obrigando-a pedir desculpa para si própria, porque ela não era uma idiota, não deveria se tratar assim. Nessa madrugada, elas começaram a conversar. Com a abertura da primeira conversa, surgiram outras: falavam principalmente sobre dúvidas que tinham em relação à faculdade. Márcia sentia que não queria falar apenas sobre a faculdade e sim demonstrar algum interesse além, foi quando pediu o Whatsapp da Kamylla, mas ela numa brincadeira/num flerte equivocado, disse que não iria passar. Continuaram conversando pelo Instagram e pelo Facebook, até que descobriram que moravam próximas e tinham coisas em comum. Como estavam num período de aulas interrompidas pelo início da pandemia, elas conversavam o tempo todo. Era uma conversa que durava o dia todo, tanto que, quando iam dormir, sonhavam que ainda estavam conversando. Por morarem próximas, depois de um tempo entre conversa e aproximação, decidiram se encontrar ao ar livre, indo até o local caminhando e usando máscaras. Tinham muito medo, pois seus familiares pertenciam aos grupos de risco, então tomaram muitos cuidados e se encontraram em praças do bairro. Aos poucos, com os encontros, foram se apaixonando e se permitindo uma aproximação mais física, mesmo que envergonhadas e tímidas, até que finalmente se envolveram. Desde que o namoro começou, já vivenciaram diversos momentos difíceis. Para a Kamylla, foi a partir dessas dificuldades que ela aprendeu a entender o que era o amor - e amar de verdade. Não diz isso com romantizações, pelo contrário, é de uma forma bem direta e real. Tudo o que elas já enfrentaram juntas, entre problemas de saúde física, saúde mental como depressão, ansiedade, vida financeira, ou outros extremos como felicidades e bons detalhes cotidianos - mas principalmente, as dificuldades - a faz entender que não é qualquer pessoa que conseguiria aguentar isso com ela. O sentimento que faz a coisa acontecer, elas continuarem ali e a vida seguir é o amor. E hoje em dia, ela não consegue se imaginar fazendo qualquer coisa sem a Márcia porque as coisas são mais divertidas com ela, uma segue ensinando a outra aos poucos o propósito do que é a vida. No lugar onde estávamos, o Forte de Copacabana, foi onde elas comemoraram o primeiro ano de namoro. Lá, Márcia deu um colar de concha para a Kamylla, essa concha representa um dia que foram até a praia e a encontraram na areia. O colar foi feito pela própria Márcia e, desde então, a Kamylla por trabalhar na Marinha e ter contato com a Baía de Guanabara encontra algumas conchas e traz para a Márcia de presente. É um símbolo que sempre as une. A relação que tanto a Kamylla, quanto a Márcia possuem com suas famílias é muito forte, e esse laço também se faz presente no quanto a família de ambas apoiam o relacionamento delas. Kamylla acredita que por serem pessoas humildes, sempre farão de tudo para ajudar uma à outra. Para ela, amar é também sempre estar disposta a ajudar, é a forma que ela pode demonstrar esse amor presente: se apresentar com disposição quando existir alguma dificuldade. Assim, ela já ajudou diversas formas não só a Márcia, como a família dela, e teve a ajuda da Márcia e de sua família como retorno - é uma grande parceria. Elas entendem que estarem juntas é o mais importante e, para a Márcia, não há como aceitar pouco no amor. “Quando amamos, amamos de verdade”. Ela explica que amar o próximo também fala muito sobre amor próprio, porque não podemos aceitar menos do que merecemos, e amar a si próprio faz com que você ame o outro melhor - até para evitar traços tóxicos, abusivos, ter mais carinho e melhor comunicação. Márcia gostaria de viver em um lugar com menos violência contra mulher. Está cansada de ver tantas situações diárias em que somos violentadas. Cita o caso recente do anestesista que violentou uma mulher grávida durante o parto, os casos de violência contra mulher que acontecem diariamente nas ruas ou dentro de casa, o racismo que não é levado a sério, os homens que não pagam pensão e não são punidos por isso… tudo é passado batido e não é cobrado como deveria ser, tratado com respeito e seriedade. Nos cansa lutar diariamente, mas é o que ela gostaria de ver mudando para que pudéssemos viver em um país mais justo. Já a Kamylla, fala um pouco sobre a sua rotina no trabalho, entre o que ela vivencia na Marinha. Lá, ela não é militar, mas também não vive em espaços de subordinação. Entende que isso é o correto: todos são tratados iguais e, mesmo que ela seja a única mulher e a única lésbica dentre todos os homens do seu setor, segue sendo tratada bem e é assim que precisa ser. Porém, também não há representatividade. Sente muita falta de ver mulheres em posição de liderança, de protagonismo, de voz. Cita Jaqueline Góes, biomédica que ela leva como referência, e o quanto é importante ver trabalhos de mulheres atingindo espaços que antes eram predominantemente masculinos. ↓ rolar para baixo ↓ Márcia Kamylla
- Mariana e Vivien
Porém, a Vivi tinha uma passagem comprada para passar o ano novo em Belo Horizonte, enquanto a Mari ia voltar com a família de vez para o Rio. O réveillon do ano de 2018 para 2019 estava acontecendo e ela não tinha mais previsão de volta para Porto Alegre. Além de que, a Vivi estando acampando em Belo Horizonte, estava incomunicável com a Mari. Elas tiveram um dia maravilhoso em Porto Alegre e depois cada uma foi para um estado diferente e não conseguiu se comunicar mais, só que não estava nem entendendo ou sabendo explicar o que estava sentindo. A Vivi conta que na volta de Belo Horizonte chegou a cogitar mudar a passagem para o Rio de Janeiro, só que não sabia se fazia sentido, se tudo estava sendo recíproco ou se estava delirando porque tinha passado dias estando incomunicável. Quando suas vidas voltaram ao “normal” elas seguiram se falando pela internet e no fim de janeiro decidiram comprar uma passagem para a Mari voltar à Porto Alegre. Ela ficou 5 dias. A Vivi odiava a ideia de namorar à distância e a Mari disse que não poderia cogitar a ideia de namorar também… mas quando se encontraram entenderam que não fazia sentido elas NÃO namorarem. A Vivi disse “Mari, eu acho que eu tô te amando”. Começaram a namorar. O namoro à distância durou quatro meses e a Vivi insistiu muito para que a Mari se mudasse. Então a Mari disse que só se mudaria se ela fosse buscar ela no Rio, por conta de conhecer a realidade dela no Rio, conhecer de fato a mãe dela, estar no Rio. Ela comprou a passagem e foi. Assim que chegou no Rio, começou a chorar. Se emocionou com o Rio, com tudo. No dia das namoradas, a Mari chegou com as malas em Porto Alegre para morar com a Vivi. Elas mudaram todos os móveis de lugar para sentirem que estavam morando em um novo apartamento, compraram coisas juntas, procuraram coisas novas para fazer… e então descobriram a aula de canto. Foi quando a Vivi decidiu começar também, para fazer companhia. Conheceram um professor que ficou muito encantado com a sintonia da voz das duas juntas e instigou-as a pensar em fazerem um clipe juntas. Fizeram algo simples, caseiro, lançaram no YouTube. Pensaram em um nome, gostavam do nome AMARela. Vivi fez o logo, elas começaram a produzir covers, postar com frequência. Logo depois disso veio a pandemia e elas estavam ansiosas porque lançariam um EP, mas nesse meio tempo a Mari foi demitida do lugar em que ela trabalhava. Foi um período muito turbulento em que precisaram se reinventar, pensar em como conseguiriam uma nova fonte de renda, porque o AMARela acabava gerando mais gasto do que ganhos financeiros… e como conseguiriam reverter essa questão? Resolveram repensar tudo o que elas gostavam de fazer. E a Mari entendeu que ela ama compor, sempre foi apaixonada por ouvir histórias e pensar sobre elas. Ela tentou começar a criar composições pelas histórias das pessoas e oferecer isso como um serviço para presentear alguém, para homenagear, para registrar… e assim nasceu o Canta Minha História (confere aí que é lindo!) Enquanto o Canta Minha História começou a ter uma estrutura e dar certo, a Vivi começou a pesquisar sobre tudo o que precisava e entrar com apoio também, até que em setembro, também por motivos de cortes da pandemia, ela foi demitida. A música foi crescendo, tomando conta e espaço, virando a fonte de renda única na casa, e elas foram estudando, se aprimorando, comprando equipamentos, formando um estúdio, fazendo parcerias, se mantendo, chegando em muitas pessoas…hoje, sentem muito orgulho em ver tudo o que estão construindo juntas e o quanto a música faz muito mais do que a parte financeira e a rotina delas, também traz muito do sentimento, da vida, da alma da casa e transformam o lar com a carinha de cada uma. A Vivi se desenvolve no teclado, no canto, na edição e no violão. A Mari nas composições, nas cordas, nas mixagens, nos estudos… e vão se completando o tempo todo. Enquanto mulheres artistas, ambas falam que nós podemos e devemos ter uma corrente muito maior ajudando artistas e musicistas menores no mundo da cultura no Brasil. Elas comentam que é muito fácil vermos artistas grandes se ajudando e sendo amigos, mas precisamos ver os pequenos se puxando para o alto também. Da mesma forma que é muito fácil quem tem dinheiro estar sempre chegando no alto, é preciso que quem esteja no alto puxe quem não tenha e que ainda seja pequeno. Precisamos estar nos apoiando, nos fortalecendo, compartilhando o nosso conteúdo entre nós. No dia seguinte, de manhã, elas se seguiram no instagram e a Mari resolveu perguntar como era o nome da banda que ela disse naquela hora, que afinal, era: Versos Que Compomos Nas Estradas!!! (e que elas pediram para eu colocar o link aqui, então, ouçam!!! é muito bom, galera! mas o nome é difícil mesmo aí ó hahaha) e ai conversa vai, conversa vem, a Mari soltou um: “e tu, toca violão? porque toda sapatão que é sapatão toca violão!” e então a Vivi finalmente entendeu que a Mari era realmente sapatão e que aquilo era de verdade um flerte, não era só uma menina sendo simpática. Elas seguiram conversando por alguns dias e decidiram marcar uma cerveja no bar para se encontrar. Comentaram de se encontrar sexta-feira, mas a Vivi já ia sair com uma amiga dela e a Mari já ia encontrar o primo, sábado também não podiam… domingo! Domingo ia rolar. Chegou sexta, a Vivi estava a caminho do encontro com a amiga e a Mari a caminho do encontro com o primo, na Rua dos Andradas, centro de Porto Alegre… quando de repente, se esbarram na rua. Eita. Tô indo ali. Encontrar. “meu primo ta ali” “minha amiga ta ali”. Mesmo bar. Mesma hora. Mesas diferentes. Não entenderam nada, mas brincaram “eu não te segui não, tá??”. No domingo decidiram que o mais justo seria voltar nesse bar. Foi um encontro ótimo. Beberam muito, comeram muito, conversaram muito. Dormiram na casa da Vivi. Detalhe: o encontro foi no dia 23 de dezembro, o dia seguinte era véspera de natal e 5h30 da manhã a Mari saiu correndo da casa da Vivi para ir no aeroporto buscar a família dela que estava chegando do Rio para passar o natal em Porto Alegre. Depois do natal, no dia 26, a Vivi mandou aquele textão emocionado pensando em marcaram um segundo encontro e a Mari respondeu com aquela palavra que resume tudo: “claro”. Se encontraram no apartamento da Vivi. Passaram o dia ouvindo MPB, descobriram mil músicas em comum, entenderam que realmente se encontravam na música. Nessa época ela já tocava ao vivo em alguns lugares, tinha um certo repertório e a prima dela, da qual ela estava na casa hospedada, tinha um escritório no Vila Flores, um centro cultural de economia criativa que hospeda empresas, cafés, etc. e pensou em levar a Mari lá para apresentar o espaço e um dos cafés que fazia um happy hour para quem sabe a Mari poder tocar lá e conseguir fazer um trabalho. Ela decidiu ir, se apresentou para a dona do local e se propôs a tocar lá. A dona topou e agendou para uma data próxima, foi aí, nessa história, que entrou no caminho: a Vivi. A dona do café é irmã da Vivi. E a Vivi estava trabalhando em todos os lugares possíveis para juntar dinheiro, inclusive no café. A irmã dela sabia que a Vivi ia se interessar pela Mari, então imediatamente marcou a Vivi num vídeo da Mari cantando (no Facebook), e disse para ela no Whatsapp “te marquei em um vídeo, acho que tu vais gostar”. Só que como ninguém mais usa facebook, a Vivi não olhou, achou que fosse uma bobagem da irmã dela. A irmã encheu o saco para ela olhar e ela não olhou. No dia do trabalho ela estava com muita preguiça de sair de casa, não queria ir, ficou enrolando, mas foi porque pensou “ah, vou, vai que eu encontro uma guria legal”. Quando chegou lá para trabalhar ela viu a Mari e um fotógrafo que estava trabalhando no evento queria postar uma foto que fez de todos e queria marcar cada pessoa na foto, mas não sabia o nome da cantora. Ela também não sabia, e ele pediu ajuda para ela descobrir. Então ela pegou o celular dele e precisou ir lá perguntar o nome da Mariana, absurdamente sem jeito e sem graça, com mil justificativas, gaguejando e dizendo que era exclusivamente porque o fotógrafo tinha pedido, ela perguntou qual era o Instagram para poder marcar a Mari na foto. Depois disso, o show todo aconteceu e no fim a Mari pergunta: alguém quer pedir alguma música? e foi a Vivi, lá perto, e disse…“você tava afinando teu violão né… era versosquecompomosnsduienarada?” e a mari “era o que?” “versouqmenajdartrada” “não conheço isso” “hum então era castello branco” “ahh castello branco eu conheço” “ah então toca castello branco pra mim!!”. Ela tocou, acabou o show, trocaram uma ideia super rápida e na hora da despedida e Mari voltou para dar tchau especialmente para a Vivi, ambas ainda sem jeito. Se eu pudesse, deixaria de fazer esse texto e colocaria um áudio da nossa conversa aqui para vocês ouvirem. (Alô, eu ouvi um Documencast?). Porque a Mariana e a Vivien são de um nível de humor contando a história delas que eu jamais saberia como colocar em palavras! Mas vamos lá, vou tentar. Esse texto vai se resumir na história de como elas se conheceram, porque como elas se conheceram, é o que elas são hoje. A Mari tem 26 anos e é carioca, super carioca. A Vivien tem 32 anos e é gaúcha porto alegrense, super porto alegrense. A Mari é formada em Artes Visuais - Licenciatura, mas nunca atuou enquanto professora, sempre curtiu mais a área da música. A Vivi é designer e hoje em dia também vive no mundo da música. A mãe da Mari é gaúcha, mas foi morar no Rio de Janeiro quando era muito novinha, ainda criança. Mesmo crescendo e vivendo no Rio, ela sempre teve uma conexão muito grande com Porto Alegre, por ter grande parte da família lá - e inclusive, quando a Mari era criança, por um tempo, chegaram a voltar e morar um tempinho em Porto Alegre de novo. Mas não deu certo, a mãe decidiu voltar para o Rio (nunca gostou muito do sul e dos gaúchos, sempre preferiu o agito carioca). Quando a Mari cresceu, fez a faculdade e no final da faculdade, em 2018, se viu muito perdida sobre em que carreira seguir e sobre o que fazer da vida. Pensou em passar um tempo em Porto Alegre, por gostar da cidade, por tentar respirar novos ares… e antes de viajar a mãe disse: - Mari, vê se não fica por lá, hein? - Mãe, eu só fico se eu encontrar o amor da minha vida! Eu conto, ou vocês contam? Enfim. Botão Vivien Mariana
- Camila e Rafaela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Rafaela e da Camila, quando o projeto passou por São Paulo! Rafa e Camila começaram o relacionamento entre passear no parque, ir em livrarias, tomar cafés e caminhar pela rua. Hoje em dia, compartilham o dia com os filhos da Camila, adoram fazer tatuagens (inclusive possuem algumas juntas), debater sobre leituras (e livros escritos por mulheres), tirar fotos e frequentar o local que nos encontramos. Entendem que o relacionamento (e os processos individuais que viveram no período em que se relacionam) fizeram entender o amor sob uma nova perspectiva. Camila agora enxerga o amor enquanto um fenômeno, uma ação que está dentro de tudo o que você faz. Depois que viveu a depressão passou a ver como abertura de diálogo também, ou seja, amar é conviver com conversas difíceis, passar pelas coisas. Sente que é uma pessoa que se fecha nos momentos ruins e a Rafa vem ensinando ela a se resgatar, voltar e compartilhar as dores também no amor. Rafa complementa, fala que respeita a liberdade. Estar presente nesses momentos não é para invadir qualquer espaço, mas sim dizer: “Tô aqui para o que precisar”. Rafaela, no momento da documentação, estava prestes a fazer aniversário. Como a data já aconteceu, o texto foi lançado no momento em que completou 40 anos. Ela é natural de Santos, litoral paulista, mas reside em São Paulo há mais de 10 anos. Trabalha enquanto tradutora e adora música e fotografia, considera grandes hobbies. Camila, no momento da documentação, estava com 39 anos. Ela é natural de São Paulo e trabalha enquanto produtora de eventos. Brinca que seu grande hobbie é dedicar 100% do tempo aos filhos (de 10 e 7 anos), já que ser mãe é o maior desafio que vive. Enquanto pensávamos em hobbies surgiu a brincadeira de que um grande hobbie é o quanto elas gostam de fazer tatuagens, então contaram a história de uma tatuagem em específico, quando tudo começou indo num sebo e achando um livro da Virginia Woolf com uma dedicatória escrito “E isso é só o começo”. Compraram o livro porque acharam lindo, ficaram com isso na cabeça e, numa viagem para a Patagônia, Rafa escreveu isso num guardanapo e mandou para a Camila. Rafa disse que estava doida para dizer que a amava, mas queria dizer pessoalmente, então acabou mandando só a frase numa foto. Resultado: virou uma de suas tatuagens favoritas. Elas se viram pela primeira vez num parque, mesmo já se conhecendo pelas redes sociais. Conversavam online e tinham uma expectativa em se conhecerem, estavam bastante ansiosas - Rafa até levou um presente e conta que falou sem parar. Saíram com a sensação de “Ufa! Aconteceu! Nos encontramos.” Encontraram-se diversas vezes depois disso, foram passeios em cafés, livrarias, praças… conversavam muito e nunca se beijavam. Decidiram então viajar juntas, foram para Visconde de Mauá (uma viagem feita para um casal, com quarto de casal, no inverno, lugar romântico…) e finalmente se beijaram antes do dia da viagem! Ficaram mais tranquilas, com a certeza de que daria certo. Cerca de três meses depois, se afastaram. Camila se sentia muito deprimida por diversas questões em sua vida e se isolou de muitas pessoas. Passou meses triste, em tratamento, e quando decidiu sair desse espaço, nas palavras dela, “do fundo do poço”, contou para todos o que tinha passado: as violências, a depressão… Expôs isso em suas redes e sentiu que quem gostaria de ficar, quem estaria ao lado dela, ficaria. Na versão da Rafa, ela sentiu um baque muito forte com o afastamento da Camila, mas respeitou e tentou curar isso aos poucos. Depois de meses, quando viu o retorno às redes, decidiu que iria mandar uma mensagem. Não queria surgir ‘do nada’ e lembrou que elas tinham um show para irem, pois compraram os ingressos juntas. Decidiu falar “Vamos no show? Não precisamos conversar sobre coisas pesadas, só curtir”… Camila topou e elas foram. O show era do Harry Styles e Rafa não conhecia nada sobre ele, mas Camila apresentou, até hoje ela gosta e escutam bastante juntas. Foi nesse momento, pós show, que se reaproximaram, então ficaram juntas novamente. Aos poucos foram introduzindo as crianças na rotina - e Camila explica que como já teve experiências se relacionando com outras pessoas depois de ser casada e que se afastar dessas pessoas representa um corte abrupto para as crianças, isso precisava ser alinhado com a Rafa; Que a relação com os pequenos é uma relação diferente, o carinho, afeto e vínculo continuam existindo mesmo se um dia elas terminarem. Rafa compreendeu tudo e foi abraçando isso aos poucos, no começo era uma amiga da mãe, então foi introduzindo afetos, elas foram percebendo, perguntando e ficando à vontade com isso. O dia em que contaram mesmo foi no parque (local que inclusive fizemos as fotos), elas estavam sentadas bebendo um vinho, as crianças correndo brincando, um dia bastante frio e todos estavam bastante felizes. Hoje em dia, a Rafa e eles dividem muitos gostos em comum, por exemplo futebol, curiosidades sobre sistema solar… Camila, quando fala sobre a vida socialmente, conta o quanto gostaria de ver o programa educacional mudando, entende que hoje em dia perdemos muito das coisas que realmente devemos aprender. Queria ver as pessoas respeitarem as diferenças de seus filhos, não fazendo-os entrar nas caixinhas. Cita sobre o problema que a filha enfrenta aprendendo a leitura e a escrita, se sentindo algumas vezes excluída, enquanto ela tem muitas coisas incríveis que sabe fazer e que poderia ter isso sendo explorado e valorizado. Deseja ver ela sendo respeitada por completo. ↓ rolar para baixo ↓ Rafaela Camila
- Carol e Marlise
Foi num impulso pelo início (e pela incerteza) da pandemia que a Carol e a Marlise começaram oficialmente o relacionamento. A Carol tinha acabado de se mudar para São Paulo, mas é natural de Porto Alegre e foi lá que conheceu a Marlise, um tempo antes dessa viagem. Entre a decisão, o ato de comprar a passagem e a mudança em si, elas viveram shows, um réveillon, saídas com amigos e a Marlise viveu até com muletas porque tinha quebrado a perna. Mas não teve jeito: o dia chegou e a Carolina foi para São Paulo. A primeira reação foi mais abrupta: não se falaram mais. Acharam melhor deixar para trás os momentos bons que tinham dividido e seguir cada uma suas novas vidas de 2020 em diante. Mas é aquela coisa, né? A gente não escolhe coisas do coração (pra quem é de coração) e nem de destino (pra quem é de destino). E quando elas voltaram a conversar, a Marlise combinou de ir até São Paulo fazer uma visita e comemorarem seus aniversários, visto que as datas são bastante próximas. Porém, um pouco antes do dia da viagem chegar, foi anunciada a quarentena e o isolamento social em São Paulo, ou seja, tudo estaria cancelado e a Carol ficaria lá sozinha - enquanto não fazíamos ideia de como isso seria, quanto tempo levaria e como reagiríamos. Foi por todas as incertezas que a pandemia (e, principalmente, o começo dela) nos causou, que a Carol decidiu comprar a passagem e voltar para Porto Alegre. Quando elas se reencontraram, ficaram juntas e cá estão, até então. Houve um momento do qual a Carol chegou a voltar para São Paulo, alguns meses depois, para buscar coisas que tinham ficado por lá, mas decidiu que ficaria de fato em Porto Alegre com a Marlise. Elas contam que sempre se deram muito bem e que isso sustenta muito o relacionamento. Conversar sobre tudo e ser realmente uma parceria, independente das situações externas, é o mais importante. Falam como haviam muitas coisas colaborando no entorno para que desse errado: elas estavam dentro de um apartamento relativamente pequeno - estavam num processo de conhecimento ainda - a pandemia gerava muitas pressões e ansiedades - o país enfrentava momentos muito ruins - e todo o sentimento de luto presente naquele momento… mas que, mesmo com todas as condições adversas, elas mantinham uma relação de muita conversa e se divertiram muito juntas. Durante as rotinas e os dias a Carol é uma mulher que adora cozinhar e está sempre preocupada com a alimentação. Ela brincou que de repente muda até de carreira, se continuar recebendo os elogios pelas comidas que faz, mas a verdade é que sua paixão mesmo é pela escrita. Ela entende que se comunica melhor escrevendo e que a literatura é uma grande aliada. Já a Marlise adora inventar coisas. Ela disse que isso é muito para “tirar as coisas da cabeça”, por se sentir sobrecarregada com auto questões, acaba inventando coisas, mudando móveis, fazendo e produzindo o que movimente o corpo fisicamente. Juntas, elas adoram passar um tempo com os animais em casa e contam que eles foram grandes responsáveis pela casa ter se mantido tão feliz durante o período de isolamento que vivemos. A Carol estava com 29 anos no dia em que fizemos a documentação, ela é natural de Porto Alegre, cursou letras, mas trancou a faculdade, não completando-a. De qualquer forma, trabalha na área desde 2012, traduzindo textos, livros e também faz trabalhos autônomos. A Marlise também estava com 29 anos no dia da documentação. Ela cursa medicina, é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, e nos contou sobre o impacto da pandemia nos estudos dela e na faculdade. Mas também, sobre a importância do trabalho enquanto uma ferramenta sob o que ela acredita, enquanto assistência social às pessoas. Durante uma live da cantora Ludmilla, na quarentena, a Marlise pediu a Carolina em casamento. Na hora, ela nem acreditou e a Marlise teve que refazer o pedido no dia seguinte! Hoje em dia, os planos estão sendo feitos e pretendem fazer a comemoração e a celebração assim que a pandemia finalmente acabar. Tanto a Carol, quanto a Marlise, acreditam que a vida não precisa ser tão imediatista e egoísta como tem sido. Elas falam sobre estarmos num espaço muito desorganizado, que não pensa no que realmente é importante… e esquecemos do que deveria ser essencial, como termos mais afeto e cuidado. Entendem que por serem duas mulheres que já enfrentaram muitos preconceitos, olham as coisas sob um novo olhar, pois não normalizam a violência ou a falta de educação e também não deixam de ser quem são por olhares tortos na rua (e por não serem aceitas em alguns ambientes). Entendem que a mudança só vai existir com compreensão histórica e cultural. Para Marlise, uma relação como a delas é muito pautada no respeito e na identificação, mas ela também traz muito uma admiração e inspiração que enxerga na Carol. Ela fala sobre essa inspiração por quem a Carol é, em tudo que ela já passou, e porque também se vê nela, mesmo que as trajetórias sejam diferentes. “O amor é o que guia a gente a ser diferente: ser melhor no que acreditamos ser o certo”. Para Carol, a relação delas está sempre envolvida de compreensão (e as relações entre mulheres, na grande maioria das vezes), porque acabamos tendo caminhos parecidos e encontramos em nós semelhanças e identificações. Mas em geral, essa compreensão fala sobre a capacidade de ver quem as pessoas são, o que são, e entender o que elas estão dispostas a trocar, não exigindo algo impossível de dar. Marlise Carolina
- Clara e Mariana | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Clara e Mariana são as duas meninas mais novas que já passaram pelas histórias do Documentadas - e também as duas meninas com o olhar mais atento aos detalhes artísticos ao nosso redor. Clara tem 18 anos, nasceu em Criciúma - Santa Catarina, é estudante de pré-vestibular e trabalha como jovem aprendiz enquanto almoxarife. Sonha em cursar cinema, sua grande paixão e arte responsável por mudar a perspectiva e visão de mundo sobre todas as coisas que já viveu. Em um momento da conversa, a Clara compartilhou que possui uma vontade muito grande de estudar cinema justamente por querer se envolver em projetos que atuem no país integrando culturas e trazendo oportunidade de expressão para que as pessoas coloquem para fora o que sentem/como se sentem, pois acredita no cinema para muito além que um produto: uma forma de expressão das mais potentes. Mariana tem 17 anos, também nasceu em Criciúma - Santa Catarina, também é estudante pré-vestibular, atualmente ela dá aulas de ballet e jazz. A dança sempre esteve muito presente na sua vida, desde criança é seu maior divertimento e sonha em seguir carreira. No tempo livre, a Mari também participa de um projeto chamado “Ela”, que distribui kits de higiene pessoal e absorventes para mulheres na região carbonífera do Sul de Santa Catarina e a ideia é que o projeto se amplie cada vez mais. ♥ A inspiração da Mariana vem muito de dentro de casa, tendo uma mãe feminista que ela sempre viu com olhar de admiração e que a insinou a ser quem ela quer ser. Além disso, toda a vivência das duas juntas mostra diariamente que estão dispostas a evoluir e se posicionarem com as suas opiniões, estarem abertas às mudanças e às novas percepções. Ela comenta o quanto segue, junto à mãe, ensinando e compartilhando muito uma com a outra. Já a inspiração da Clara vem da arte. É através de diretoras de cinema que ela encontra sua inspiração sobre o que gostaria de ser no futuro - e entre esses sentimentos, o que mais a desperta é a coragem. Além da arte, a mãe dela também a inspira muito diariamente para conseguir contar e enfrentar as dificuldades no cotidiano. A relação da Clara e da Mari de contar sobre o relacionamento para a família foi diferente para cada uma, a Mari foi contando aos poucos e hoje em dia todos têm uma boa relação. Já a Clara, conta que a mãe dela acabou descobrindo a partir de uma carta que a Mari tinha dado à ela. Foi um baque a descoberta em si, porque ela já estava planejando contar e o momento acabou vindo antes do preparado, mas acabou saindo do armário de alguma forma. Hoje em dia, ambas famílias se dão bem e juntas elas adoram cozinhar, passar um tempo deitadas sem fazer nada, apenas se curtindo e conversando sobre coisas aleatórias. Clara e Mariana se conheceram na escola em 2019, eram de turmas separadas, mas o destino deu um jeitinho e uniu as duas na mesma turma… Ficaram bem próximas e a Clara começou a gostar da Mari, mas a Mari estava bastante confusa sobre o que sentia, se gostava de meninas ou não, se gostava da Clara ou de outra menina… Eram muitos sentimentos novos para administrar… E aí na conversa a Clara diz: “É a típica história de se apaixonar pela amiga!” Sim, é. E a Clara já sabia que gostava de mulheres, mas até então imaginava ser bissexual. Ela conta que a Mari foi essencial para sua descoberta pessoal, foi uma grande ajuda nesse processo de auto entendimento e aceitação. Aos poucos elas foram evoluindo, se descobrindo e se desenvolvendo. Mesmo que não tivessem muita noção sobre o que estava exatamente acontecendo, elas nunca deixaram de estar juntas. Quando a Mari entendeu que precisava escolher e se abrir com a Clara sobre o que sentia por ela antes que a perdesse, decidiu se declarar e foi aí que elas ficaram realmente juntas num relacionamento. Assumiram isso para todo o colégio (Que inclusive, diga-se de passagem, é um colégio católico, administrado por freiras e bastante conservador) e seguiram cada vez mais juntas. Elas entendem que amar é, também, respeitar suas individualidades e seus momentos. Então, por mais que nos momentos difíceis se apoiem, elas sabem respeitar suas particularidades e seus espaços mais reservados. Contam que dão mais valor ao apoio e ao companheirismo quando se juntam fisicamente, corpo-a-corpo, e que dentre os momentos mais difíceis que passaram está o começo do namoro, quando a coordenação da escola pediu para que elas cuidassem com as demonstrações de carinho por conta das possíveis incomodações com pais de alunos dentro da escola (Mas que elas souberam lidar firmemente e tiveram apoio da família) e com a própria pandemia, que nos desperta muitos sentimentos de incerteza e ansiedade perante o futuro. Para a Mari, amar é se sentir bem, transmitir bem-estar e felicidade. Amar pode trazer algumas preocupações e momentos não-tão-bons também porque isso faz parte das relações humanas, mas isso não pode se transformar e ser maior do que a gente. “O amor é leve!”. A Clara completa que no amor a gente se sente seguro e sereno, mesmo com a preocupação, é quase sem preocupação (risos) “Porque até com preocupação a gente se sente bem e é acolhida”. O amor entre mulheres, para elas, é sobre ter conexão e entendimento único. Por fim, mas não menos importante, a Mari e a Clara escolheram essa praça porque foi o local onde deram o primeiro beijo, na cidade em que elas moram, lá em Criciúma! Um local que elas amam frequentar e fazer piqueniques. Por mais que elas queiram estudar na capital, elas não esquecem da importância de levar e de debater mais cultura para a cidade onde moram, trazer de volta a história da cidade (Que no momento encontra-se abandonada) e incentivo aos artistas locais e das escolas municipais. Um olhar para a cultura da melhor forma: construtiva. Construindo uma nova cidade que saiba de onde veio. Mariana Clara
- Anik e Isabelle | Documentadas
Amor de Desaguar - Anik e Isabelle clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Karol e Beatriz
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Karol e Beatriz, quando o projeto passou por São Paulo! Não tem jeito, preciso começar essa história falando sobre como a Karol e a Beatriz se conheceram. Poderia dar uma introdução dizendo quem elas são, o que elas gostam de fazer, enrolar vocês… mas não tem como. Não tem. Essa história é insuperável pra mim. Talvez por ser uma daquelas que eu queria ter transformado num podcast porque o áudio é muito mais engraçado do que eu escrevendo (alô, roteiristas dos streamings do momento, estão preparadxs?)... ou talvez porque não seria nenhum pouco justo deixar o melhor para o final mesmo. Só algumas informações importantes: hoje em dia a Karol tem 27 anos e a Beatriz 26 anos. Ambas são do interior de São Paulo, mas de cidades interioranas diferentes. A década (meu deus, a década é ótimo. risos) era de 2000-2010 e uma das coisas que fazia muito sucesso era o famoso bate-papo UOL... foi lá que Karol conheceu uma pessoa chamada Tânia. A conversa entre elas fluiu bem e ela adicionou a Tânia no MSN, no Orkut e a Tânia foi apresentando de forma virtual outros amigos dela (a Maiara, a Poliana e o Gustavo). A Karol, com o passar do tempo e o “convívio” diário, descobriu um interesse pela Tânia, foi aí que elas começaram a webnamorar (SIM, jovens, a Karol praticamente fundou o webnamoro). Quando todos os amigos conversavam em grupo no MSN o ícone de webcam ficava visível, então ela sabia que todos ali possuíam webcam, mas por algum motivo os amigos não gostavam de ligar e sempre quem ligava na chamada era ela e o Gustavo (ou seja, ela só conhecia a Tânia por fotos). Isso já faz muito tempo, né gente? Então precisamos lembrar que naquela época era super normal as pessoas se mostrarem muito menos que hoje em dia na internet (e serem muito menos cobradas por isso também). Com o passar do tempo e do webnamoro se desenvolvendo, todos ali criaram laços muito fortes. Na época, a Karol estava na escola, o Gustavo estudava teatro e viajava por São Paulo e a Tânia passou por um período muito difícil em que a mãe ficou muito doente. Foi um tempo em que o Gustavo (que morava na mesma cidade) a acolheu em casa, já que a mãe dela foi internada e depois de um tempo a mãe dela veio a falecer. Isso gerou um choque bem grande para todo o grupo, já que eles trocavam muitas mensagens diárias e, principalmente na Karol, pelos sentimentos que ela tinha pela Tânia, somados ao fato de ser menor de idade, estar em uma cidade distante e não saber como poderia ajudar nesse momento. Ela conta que lembra de nessa época uma outra menina do grupo, a Poliana, também estar passando por dificuldades e o quanto ela comentava em casa com a mãe sobre essas amigas, sobre querer ajudá-las… e o quanto isso também a angustiava. Mais uma vez o tempo seguiu e um belo dia, alguém a adicionou no MSN… o MSN, pra quem não sabe, não é uma rede social da qual você posta coisas... era tipo um Whatsapp, apenas um bate-papo. Ninguém adicionava lá sem te conhecer. E então, essa pessoa que adicionou a Karol do nada, chegou logo soltando um: “POR QUE VOCÊ ESTÁ NAMORANDO A MINHA NAMORADA?”. Que? Pois é. Eu também soltei isso quando eu ouvi. Essa pessoa, é a Beatriz. Vamos à versão da Beatriz. Beatriz conheceu a Tânia jogando um jogo, o Habbo (só quem viveu, sabe, né? como era bom ser jovem nos anos 2000). As duas conversavam bastante e a Tânia também apresentou o Gustavo para ela… com o passar do tempo as coisas se desenvolveram na conversa e elas também começaram a webnamorar (as precursoras do webnamoro, parte 2). No caso, a Karol e a Beatriz foram as precursoras do webnamoro e da traição do webnamoro, ou seja, o webcorno. Até que um dia O GUSTAVO (gente… a balbúrdia) chamou a Beatriz para dizer “que tinha uma menina dizendo que estava namorando a Tânia” (!!) e ela disse “como assim, eu sou namorada da Tânia, não tem essa!!” (risos) e então ela foi tirar satisfação com a Karol, assim, adicionando no MSN. Se fosse o MSN Plus na versão 2009, garanto que tinha até aquele efeito de som no fundo que dizia “eu estou sentindo uma treta!!!” Quando a Karol e a Bea conversaram elas entenderam que não ia dar certo e decidiram de alguma forma se afastar da Tânia. Elas não lembram especificamente como aconteceu, mas o afastamento rolou. A Karol começou a se envolver com uma menina na cidade em que ela morava e a Bea foi seguir a vida dela também, sem mais contatos com a Tânia e os webamigos dela. Mas calma, aí você pensa… ah, só isso? a Tânia nunca mais apareceu? kkkk meu amor… o mundo não dá uma volta, não. Ele dá um duplo twist carpado. Pois um dia chega o Gustavo (logo quem…) chama a Bea no MSN e dá a triste notícia: a Tânia morreu. .. que²? Ela estava enfrentando um período de muita tristeza e depressão após a morte da mãe dela e cometeu suicídio. Ao saber da notícia, tanto a Bea, quanto a Karol, ficaram muito mal. Foram dias de choro, um sentimento de dor estranha e uma sensação de perda imensa. Novamente venho lembrar que: hoje em dia é muito fácil para nós, que vivemos em uma década depois, num momento em que a internet está muito mais avançada, pensar que algo nessa história estava muito estranho. Mas precisamos nos transportar para os anos 2000-2010 e lembrar que por lá estava tudo bem as coisas não terem muito encaixe, né? Foi no momento após o luto que a Bea teve uma luz e entendeu que as coisas não tinham encaixe, que a história que o Gustavo estava contando era muito ríspida, muito estranho falar sobre uma depressão assim… e foi então que resolveu dar uma de stalker. Ela começou a ler o Orkut da Tânia que ainda estava ativado, pesquisou pelo nome do colégio que aparecia na foto dela de uniforme e viu que o colégio não ficava em São Paulo… TCHARAM! Começou a ir mais a fundo nas buscas do próprio colégio e… finalmente achou o perfil da menina verdadeira, descobrindo, assim, que a Tânia nunca existiu. Gente. Vocês têm noção??? A pinta nunca existiu. Se ela nunca existiu, ninguém ao redor dela existia também! Com isso caindo por terra, ela foi descobrindo uma série de fakes que o Gustavo tinha. Inclusive, por um momento, pensou que até mesmo a Karol fosse um dos fakes, mas entendeu que não era e chamou ela para conversar e contou tudo… e ela ajudou nessa busca por mais fakes. Até hoje elas acreditam que a única verdade em toda a história é que o Gustavo trabalhava com teatro (não por ele ser um ótimo personagem, porque o que ele era tem nome: criminoso, rs) mas porque ele viajava bastante pelo interior de São Paulo fazendo peças. A primeira atitude que elas tiveram foi falar com a menina que ele usava as fotos para se passar por Tânia, mas ela nem ligou, não deu bola. Então elas não souberam mais o que fazer. Elas desmascararam ele nas redes sociais e alertaram as meninas que estavam próximas dele para que se afastassem, mas naquela época os crimes virtuais não eram considerados, então era realmente muito difícil conseguir barrar o Gustavo, ainda mais elas sendo menores de idade e ele não. Foi muito engraçado pensar em toda a história e ouvir toda a história sendo contada por elas, da mesma forma que é muito incrível ver a forma que elas ressignificam algo que poderia ter sido traumático e horrível (como foi o período conversando com esse cara e com seus vários personagens), mas a única coisa que elas tentam pensar sobre, é que foi por conta disso que elas se conheceram e que passaram a ficar todos esses anos juntas e que isso, sim, foi bom. De qualquer forma, não queremos NUNCA, JAMAISSSSS, deixar de lembrá-las que os tempos atuais são outros e que precisamos denunciar homens iguais o Gustavo! Ele tinha um perfil MUITO claro: meninas, novas, lésbicas (que estavam se descobrindo) e provavelmente em algum momento usaria de tudo o que sabia sobre elas para se aproximar fisicamente, então, por favor: denunciem! Hoje em dia já temos leis, já temos um preparo e uma consciência maior e não podemos deixar nenhum caso passar. Além disso, Gustavo, se um dia você ler isso: a gente ainda consegue te enquadrar em crimes cibernéticos, seu escroto! :) Agora, sim. Ufa, essa história é boa demais. Depois que o crime foi desvendado e que as duas ficaram iguais aos integrantes do Scooby-doo tirando as máscaras dos inimigos e descobrindo que são todos a mesma pessoa, a Karol, que vivia um relacionamento um tanto quanto abusivo, foi meio que “proibida” de continuar conversando com a Bea porque a namorada estava com ciúmes… mas ela estava muito intrigada com essa história, não estava acreditando no que tinha vivido (também pudera… né?) e deu um jeito de continuar falando (!!hahahahaha). Elas resolveram se encontrar pessoalmente um tempo depois numa cidade que ficava entre as cidades em que elas moravam (Praia Grande e Vargem Grande Paulista), e essa cidade foi Cotia. Lá elas se viram para ficar em silêncio, basicamente (kkkk), porque estavam com vergonha e não tinham o que dizer. No fim, elas não se beijaram (obviamente, porque a Karol namorava, né? se não conversaram, imagina beijar kk) e na hora de ir embora pra ter um grand finale a Karol li-te-ral-men-te caiu no colo da Bea dentro do ônibus (!!!) quando ele freiou. Nessa época, a Bea começou a fazer faculdade em São Paulo, então ela ia diariamente e voltava para a capital (ou, algumas vezes, ficava na casa da tia). Era uma rotina exaustiva e durou muito tempo. Por outro lado, a Karol terminou o relacionamento e cerca de um mês depois a Bea soltou um “ah então agora a gente pode namorar, né?” e ela disse um “é.” pois foi assim que começaram a namorar. Quando se viram pela segunda vez, já estavam namorando. Com as fundadoras do webnamoro não se brinca, né? A Bea ainda teve a patchorra de soltar um “primeiro a gente namora, depois a gente beija” hahhahaha. Quando elas já estavam namorando, a Karol passou em um curso que acontecia em São Paulo também, então elas acabavam se encontrando durante a semana na capital. Elas contam que o começo do namoro foi bastante difícil porque tinham realidades muito diferentes. A Karol tinha uma condição financeira mais conflituosa, precisava correr muito atrás para conseguir as coisas e pela condição da Bea ser mais favorável ela não tinha consciência de classe e consciência dos privilégios que o dinheiro trazia. A Karol se sentia bastante triste, não conseguia acompanhar e trazia muito do antigo relacionamento junto com ela… para elas mudarem isso e se equilibrarem exigiu um esforço em conjunto de cederem e se entenderem aos poucos. Entenderem os limites, abrirem mão de algumas coisas para ouvir mais a outra… e por aí vai. Foi nesse período de equilíbrio e de entenderem que estaria dando certo que a Bea sentiu que era o momento de contar à família sobre o relacionamento delas. Ela deixou uma carta para a mãe antes de sair de casa a caminho da aula em São Paulo e, quando a mãe dela acordou e leu, ligou para ela e elas conversaram. Foi um momento que misturou um choque, com um “é isso mesmo que você quer?” e um tentar respeitar ao máximo. Com o tempo, a mãe e o pai da Bea foram entendendo e respeitando, assim como o resto da família e hoje em dia super apoiam as duas ♥ Depois do fim da faculdade, elas decidiram que seria legal escolher um apê e irem dividir uma vida sob um lar. Foram morar juntas em Cotia, a famosa cidade, lá da primeira vez em que se viram. A Karol trabalha lá até hoje escrevendo notas no cartório, mas elas já estão morando em outro apartamento, na cidade de São Paulo. Hoje em dia, adotaram gatinhos, se desenvolveram profissionalmente e a Bea é analista de marketing. Hoje em dia, a Karol e a Bea fundaram uma marca de camisetas para o público lésbico (que inclusive já apareceu no Documentadas), a @vestsapatao! Conversando sobre marcas LGBTs, elas comentaram que geralmente produtos LGBTs focam no público masculino, desde o nome (gay gay gay gay gay) até as coisas serem sempre arco-íris, unicórnios, coisas de homens afeminados, confetes e quando pensam na sapatão é só a mulher tipo caminhoneira e/ou a Ana Carolina/Maria Gadu. Automaticamente imaginam a lésbica como masculina. Enquanto elas não se enxergam nem enquanto masculina, nem enquanto feminina, mas enquanto duas mulheres que se amam, apenas. Além disso, falam também sobre a importância de fazerem roupas em modelos maiores porque só encontram coisas pequenas que caminham entre o P e o M e que elas pensam em corpos grandes porque se identificam assim. A VestSapatão é da gente e para a gente. ♥ As duas também estão noivas! O pedido foi feito em Ubatuba, num comecinho de dia super fofo e estão planejando uma boa festa depois da pandemia. A Karol, quando fala no amor, acredita que amar é transparente e verdadeiro. Completa que sente que não existe nada que não possa ser compartilhado com a Bea. A Bea diz que a relação exige muito respeito, respeito por quem elas são e por quem querem ser. Esse respeito resume a liberdade. E diz que aprendeu a amar e a respeitar com as mulheres da família dela, porque a mãe dela tem 8 irmãs, que são muito diferentes, mas que são grandiosas de amor, de criação e de laço, porque sempre tiveram respeito. Quando pergunto se elas gostariam de mudar algo na cidade em que elas moram, sendo São Paulo a residência, ou Cotia na convivência, elas dizem que gostariam de mudar a forma que são tratadas pelos homens, por sempre ouvirem comentários (ou por sermos colocadas como quem quer roubar o lugar deles). Além disso, falam que gostariam de um lugar com segurança, porque lá em Cotia não conseguem caminhar nas ruas de mãos dadas. Bea comenta a importância de ver escolas falando sobre a diversidade e o quanto isso mudaria as nossas vidas, traria consciência para as pessoas desde a educação de base. É algo que ela gostaria de ver diretamente. Ela acredita que ninguém quer ser ignorante e fala sobre a família dela, no caso, as avós, estarem querendo entender e se esforçando ao máximo para compreender o relacionamento que ela têm com a Karol - e que o papel dela, nessa história, é de ensinar e explicar, dar o suporte para que elas entendam e vejam que está tudo bem… para conseguirmos, assim, quebrar o preconceito. A história da Bea e da Karol te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Beatriz Karol
- Fernanda e Ana | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Conheci a Fernanda e a Ana Carolina um dia depois que elas oficializaram o namoro. Nos encontramos no Parque Lage, Rio de Janeiro. Por mais que assuste um namoro tão recente sendo já documentado, a história delas começou muito antes disso - e vocês entenderão no decorrer do texto. Fernanda, no momento da documentação, estava com 27 anos. Trabalha enquanto advogada e pesquisadora, está terminando o mestrado. É natural de Paracambi, reside lá com alguns familiares. Adora ir em shows, ouvir música, cozinhar, ler… Gosta de rever os amigos, tomar um café ou comer um lanche juntos, trocar ideias e fofocar. Brinca que tem alma de gente velha. Ana Carolina estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Campo Grande, no Rio de Janeiro, mas mora em Seropédica, baixada fluminense. Está finalizando a graduação em contabilidade e trabalha como assistente administrativa. Gosta de passar seu tempo livre assistindo séries, saindo com os amigos e consumindo conteúdos sobre gatos na internet. Nos encontrarmos no Parque Lage foi uma escolha especial porque há pouco tempo atrás Fernanda conheceu o local e prometeu que levaria Ana. Além disso, o parque é vizinho do Jardim Botânico, lugar onde ambas possuem muitas lembranças boas de suas infâncias com seus familiares. Fernanda conta que seu pai era fotógrafo e que passaram uma tarde lá fotografando. Ana, por sua vez, lembra das idas com a avó e tem até uma foto delas, no parque, tatuada. Entendem que essas são lembranças pessoais e muito importantes, agora, num local tão próximo, chegou a hora de criarem novas. Recomeçarem histórias. Para Ana, o amor é um complemento bom na vida. Entende que relacionamentos não resumem quem somos, mas que no momento em que você se dispõe a ser o seu melhor numa relação isso acaba refletindo em muitas outras coisas fora da vida romântica, sua vida reflete a disposição. Fernanda já viveu várias versões sobre o amor… Já acreditou no amor romântico, já viveu amores mais amplos, laços familiares e encantamentos com diversas relações. Explica que sempre se viu enquanto uma mulher insegura, não tinha muitos amigos e não achava que esse grande amor poderia realmente chegar. Nos últimos anos trabalhou isso e seus pensamentos acerca de amar, entender o amor como uma escolha, como um crescimento em conjunto. Acredita que são nas memórias criadas nas relações que vivemos (amorosas, mas não necessariamente entre casais) onde mora o carinho, os risos, as coisas boas. O amor entre mulheres, para Fernanda, é um ato político. Se sente acolhida, representada, aceita nos lugares quando enxerga esse amor. “É muito importante não termos medo de falar sobre isso com as pessoas. Estar com uma mulher agora, participar de um projeto como o .doc, se ver em fotos… é sobre se enxergar nesses espaços também, entender a diversidade e representatividade, ver pessoas em quem se inspirar”. A história da Ana e da Fernanda começa em 2016, quando Ana entrou na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e Fernanda já estudava lá. Eram cursos diferentes, mas haviam alguns amigos em comum e foi assim que, aos poucos, souberam da existência uma da outra. No decorrer do tempo, Ana se relacionou com uma amiga da Fernanda (que ouvia a amiga contando e torcia por elas), mas o relacionamento não vingou e elas acabaram perdendo o contato. Ana esbarrava com a Fernanda de vez em quando, porque Fernanda militava em um coletivo de mulheres bem presente na universidade, mas não conversavam. Esse foi o primeiro encontro-desencontro. Em 2019 apareceram uma na vida da outra de novo. Dessa vez, Fernanda tinha outra amiga, que estudava com Ana e essa amiga queria apresentá-las. Fernanda até disse que já conhecia a Ana, explicou um pouco da história, mas o encontro não rolou. Foi mais um desencontro. Com a chegada da pandemia de Covid-19, muitas relações começaram de forma online, com conversas enquanto estávamos cada um em sua casa. Fernanda conheceu uma pessoa, começou a conversar, e depois soube que a Ana também conversava com a mesma pessoa. Quando Ana soube da coincidência envolvendo a Fernanda, chegou a pensar: “Nossa, mas a Fernanda está em todo lugar, né? É onipresente!”. Como não se encontravam pessoalmente com a pessoa, Fernanda partiu para outra relação e em seguida começou a namorar. Foi mais um desencontro. Um tempo depois, Fernanda e Ana se viram em um aplicativo de relacionamento e conversaram por lá. Chegaram a cogitar sair para beber (um date descompromissado), mas nunca aconteceu. Outro desencontro. Foi só recentemente, em janeiro de 2024, que conseguiram se encontrar. Ana estava no LinkedIn e viu uma postagem da Fernanda, pensou: “Nossa, essa pessoa. Quanto tempo não vejo ela” e num misto de admirar o quanto a Fernanda é inteligente e interessante, surgiu uma paixonite. Decidiu puxar assunto no Instagram, Fernanda colocou ela nos “close friends”, começaram a interagir e surgiu o convite da Ana para saírem juntas. O encontro aconteceu em janeiro mesmo. Ana vivia o final de um relacionamento aberto e Fernanda acompanhou, conversavam sobre. No primeiro encontro, Ana estava muito nervosa, principalmente porque Fernanda iria dormir na casa dela… chegou a comprar café da manhã, uma caneca específica porque “Vai que as canecas lá de casa não servem pra ela” e esperou ansiosamente no portão. Parte desse nervosismo se dava ao fato de que Ana nunca havia se relacionado com uma mulher. É bissexual, mas seus últimos relacionamentos foram com homens, via isso enquanto algo muito novo. Tiveram um primeiro encontro leve. Conversaram, fofocaram, viram filmes, não tinham pretensão de se relacionar - até porque Fernanda havia desistido do amor e Ana ainda estava enrolada com seu outro relacionamento. Decidiram continuar se encontrando, Fernanda deu vários chocolates para a Ana, foram criando intimidade. Ana não esperava se relacionar em seguida, acredita que depois do término a pessoa precisa ficar sozinha para processar tudo, mas sente que ali foi diferente e que aos poucos foi embarcando nessa nova ideia. Começaram o mês achando que só seria mais um encontro, no meio do mês falavam que gostavam uma da outra e no final do mês já se sentiam apaixonadas. Trocavam pequenos presentes e cartinhas com declarações. Como a relação teve início em janeiro deste ano (2024), tudo foi acontecendo rápido. O pedido de namoro, um dia antes de nos encontrarmos, foi todo temático de gatinhos. Era para o pedido ter sido feito durante essas fotos, mas aconteceu quase sem querer: Fernanda chegou na casa da Ana e foi cumprimentar os amigos que dividem lar com ela, mostrou a caixinha cochichando, até que Ana chegou na hora. Não quis disfarçar, o pedido foi feito sem ensaios. ↓ rolar para baixo ↓ Ana Fernanda
- Anik e Isa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Anik e Isa, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! No início da conversa, Isabelle e Anik contam de onde surgiu a ideia dos nomes para os gêmeos Zuri e Nilo: ficaram muito tempo pensando referências que falavam sobre a ancestralidade da Isa, queriam nomes indígenas ou africanos, curtinhos como o nome da Anik, que significassem algo. Também pensavam no quanto a gravidez representou água, pesquisaram nomes de rios, sempre chegavam em diversos nomes femininos e também adoravam os nomes que serviam para ambos gêneros. Gostaram dos dois, e acabou dando tudo certo: ficaram felizes de gerar um menino e uma menina. Entendendo o projeto enquanto uma documentação do momento atual em que vivem, Isa e Anik fizeram muita questão de mostrar o quanto a gravidez foi parte de muita luta. Entendem que as crianças já possuem muita história antes mesmo do parto e que as mães sempre souberam que ia dar certo pelo quanto de energia que colocaram nisso. Mesmo que muita coisa tenha dado errado no caminho, continuaram sabendo o quanto resultaria em algo concreto/e correto pela energia que destinavam. Isa comenta o quanto deseja que as crianças sejam acolhidas em suas escolhas. Entende que não tivemos o mesmo privilégio e que por isso morremos em vários níveis durante a nossa vida, por isso quer proporcionar algo diferente à elas, começando pelo respeito. Escolhemos o lugar para fotografar como a Câmara dos Vereadores, no Rio de Janeiro, com essas roupas, para que as crianças vejam no futuro que a luta vem desde sempre para que elas possam ser quem desejam. O afeto sempre vai existir, o romantismo, mas o destaque na documentação quanto à gravidez foi a luta que passaram para chegar onde estão porque também precisamos nos refazer entre os novos algoritmos, rostos e famílias que ainda não nos vemos. Isabelle no momento da documentação estava com 32 anos, é natural do Rio de Janeiro, trabalha na UFRJ como coordenadora de ensino e também é advogada. Anik no momento da documentação também estava com 32 anos e também é natural do Rio de Janeiro, trabalha enquanto pedagoga e é advogada, agora especialista em causas LGBTs. No primeiro ano de relacionamento, Anik e Isa cancelaram suas carteiras da OAB, achavam que advogar era lidar com muita burocracia e estavam bem frustradas em suas carreiras - tanto que partiram para uma área mais pedagógica. Quando nos encontramos fazia cerca de semanas que tinham pego de volta sua carteira para voltar a exercerem seus papéis, vontade que surgiu após a gestação, dando início também ao Instagram que criaram e que alimentam hoje em dia: o @duplamaternidadecritica. Isabelle sempre sonhou com a maternidade, mas não foi fácil achar informações sobre os métodos e como um casal composto por duas mães poderia engravidar. No começo, tentaram a inseminação (cujo não deu certo) e depois tentaram a FIV (fertilização in vitro) de uma forma que reduzissem os custos fazendo doações de óvulos para a clínica. O começo do processo foi muito difícil, viveram situações que entenderam ser erradas e por isso enfrentaram discussões, brigas, processos e enfrentamentos com a clínica até chegar à direção da empresa. Depois, entenderam que se estavam passando por isso, outros casais poderiam passar também… e decidiram educar e prestar auxílio: tanto à clínica quanto às pessoas que procuravam esse tipo de serviço, por isso, fizeram o Instagram. Começaram a auxiliar a clínica na questão legislativa e educacional, mostrar como tratar casais LGBTs que procuram o serviço e também orientar pessoas LGBTs que passam por LGBTfobias a como saber seus direitos. Assim, surgiu uma nova ideia: para além de voltar a advogar com algo que faria sentido, teria propósito, também conseguiriam trabalhar de casa, dando cuidado e suporte aos gêmeos quando nascessem. Durante o começo da gravidez viveram diversos processos difíceis e se sentiam até mal em como tudo se tornou tão monotemático nas rodas de amigos e nos grupos de apoio que possuíam, mas não teria como ser diferente visto que era o momento que viviam. Justamente por ter sido muito marcante, não poderia passar sem resultar em algo realmente grandioso, que fizesse sentido em mudar as coisas - como esse divisor de águas em suas carreiras. Sentem que, se logo elas que possuem consciência sobre a legislação, não estiverem dispostas a tentarem mudar coisas… Como outros casais, que muitas vezes desconhecem os próprios direitos, iriam conseguir? Em diversas situações, por exemplo, não sentiam que eram tratadas da forma correta. Tanto nas questões de saúde - a própria doações dos óvulos da qual faziam Isa ter diversos sangramentos, questões biológicas do corpo dela, hormônios à flor da pele, oscilações de humor - quanto nas invalidações da voz da Anik. Ressaltam que ambos corpos poderiam gestar, porém optaram pelo sonho da Isa de querer gerar as crianças. Mesmo assim, o papel que precisavam assinar dizia que apenas a Isa era a mãe, a Anik era a responsável legal das crianças. Anik cita uma situação em que viveu jogando tarot em que a própria taróloga à colocou enquanto o pai das crianças… e que não, ela não é pai, é mãe também. Em nenhum momento as cartas falariam que ela é pai, isso é algo enraizado na cabeça das pessoas e precisamos mudar esses pensamentos - fazem questão de serem lidas enquanto duas mães, por isso acham tão importante a dupla maternidade. Por mais que as duas fizeram direito na mesma época e na mesma faculdade, não foi lá que elas se conheceram, mas sim através de um aplicativo de relacionamentos (bem conhecido por aqui: o Tinder). Anik morava na sala da casa de uma amiga e estava numa fase um pouco esgotada de usar aplicativos para conhecer pessoas. Isa era completamente o contrário: nunca tinha baixado aplicativos, nem usava Instagram ou Facebook, decidiu baixar porque uma das colegas de apartamento se mudou e estava se sentindo um pouco sozinha, queria novas companhias para passear pelo Rio. Baixou no intuito de fazer amizades, mas cheia de receios. Conheceu a Anik no primeiro dia e, literalmente, no dia seguinte excluiu. Era fim de ano e elas demoraram bastante para se encontrar, Anik estava finalizando o ano letivo, fez um mochilão e só em fevereiro do ano seguinte (2019), por um impulso da amiga (e dona do apartamento cujo ela morava na sala), chamou Isa para ir lá um dia à noite. Isa já estava de pijama em casa, vendo um álbum de fotos reveladas, mas colocou uma roupa e foi. Anik estava há muito tempo sem ficar/se relacionar com alguém e sentia que se conhecesse a Isa iria “abrir um portal”, alguma coisa iria destravar, acontecer ali. Enquanto a Isa se arrumava para chegar lá, Anik surtou. Foi tomar banho, ficou nervosa, já estava arrependida de ter convidado. Como Anik era pedagoga, na época tinha várias fotos com crianças… E Isa sempre quis casar e ter filhos, então rolou uma piada interna com a amiga que dividia apartamento com ela antes de sair, dizendo: “Amiga, beleza vai lá… Mas assim, se você decidir casar, me avisa com antecedência porque preciso achar lugar pra morar, tá?”. Acabou que tinham vários amigos na casa, Isa se deu bem com todos e Anik estava tão nervosa que elas mal conversaram. Ficou o tempo todo em silêncio enquanto Isa interagia com as pessoas. Elas nem se beijaram, e foram conversar e interagir mesmo em outros encontros seguintes. Até que não se desgrudaram. Na terceira vez falaram te amo, se sentiam vivendo uma grande história de amor… Anik precisou voltar para a casa da mãe dela, um tempo depois foi expulsa e, em pleno dia das mães, chegou na casa da Isa com um mochilão e de lá nunca mais saiu. Em 2021, casaram, já pensando no quanto isso era importante legalmente na hora de ter as crianças. Planejaram uma casa, escreveram tudo o que gostaria que existisse nesse lar, e acharam uma que era exatamente como sonhavam (incluindo a banheira!). Anik explica o quanto aprendeu sobre o amor nesse processo. Para ela, amar é trocar energias - e todas as pessoas trocam energias o tempo todo. Mas o amor e o afeto são energias especificamente poderosas e nelas envolvem resistências, momentos não tão fáceis e bonitos. Isa completa que para isso existir é preciso muita parceria, porque nesses momentos existem também muitos perrengues. Para ela o amor se move através da admiração, não consegue estar com pessoas ou em espaços que não admira. Por fim, mas não menos importante, elas contam que sempre pensaram como seria trabalhar juntas. Sempre sentiam que daria muito certo e quando aconteceu foi um totalmente inesperado de: “Uau! Aconteceu!”. Tudo se encaixou. Virou algo muito político e necessário que almejam. O direito foi como um caminho sem volta, porque ficar só falando não adiantava, era necessário mudar na base. E hoje em dia, quando chega alguém nas suas redes pedindo ajuda, veem que deu certo. Entendem, também, que fazer o que fazem foram seus próprios processos de cura - viveram um período de isolamento muito grande e ter o perfil no Instagram, compartilhar suas vivências, dores e reviravoltas fez com que fossem acolhidas, ajudassem e também tivessem ajuda, ressignificassem as coisas. ↓ rolar para baixo ↓ Anik Isabelle
- Rachel e Larissa | Documentadas
Quando fui até Cotia visitar a casa em que Rachel e Larissa moram com a pequena Maria Eugênia e as cinco cachorras mais simpáticas possíveis, não esperava encontrar uma família tão linda e parceira. Lari explica que esse amor tão claro que se enxerga logo que chega é atraído por diversos movimentos, elas nunca ficam paradas: estão sempre falando, ouvindo, dispostas e principalmente não se julgando. Na maternidade entenderam como o não julgamento é importante. Cada uma traz a sua referência de amor e de educação, então precisam entender juntas como criar alguém. Além disso, passaram a perceber a maternidade como uma grande espera: antes, esperavam os exames, depois, um bebê por 9 meses, agora tudo é no tempo da Maria Eugênia. Vivemos numa sociedade muito imediatista que quando você entrega algo e o resultado não sai na hora você se sente frustrado… o tempo de um bebê é muito diferente, o relógio deixa de fazer tanto sentido, e assim elas estão observando muitas coisas diferentes na forma de se relacionar com a vida também. Sentem que o começo do relacionamento era muito sexual, com cheiros, sensações, toques; Depois passaram por um momento de centralizar, entender o que desejavam para a vida, repensar; Depois viveram o planejar, construir a vida… E agora esse amor de doação, de paciência. Logo que Maria Eugênia nasceu, elas pediram para um veterinário vir até a casa para entender como seria o convívio com os animais. Depois de um tempo ele disse: “Nossa, aqui é muito diferente. São 5 cachorras que convivem muito bem, fêmeas, vocês são duas mulheres com um bebê e aqui não tem barulho, é silêncio”. E adoram viver assim, em harmonia. Rachel, no momento da documentação, estava com 38 anos. É psicocardiologista, identifica síndromes e transtornos psicológicos que acometem o músculo do coração e trabalha tanto na área clínica quanto dando supervisões. Nasceu em Itu, no interior de São Paulo, e atualmente mora em Cotia. Larissa, no momento da documentação, estava com 27 anos. É pedagoga mas não atua na área. Trabalhou em uma empresa própria produzindo e vendendo produtos para pets durante 7 anos, desde que elas adotaram a primeira cachorra, que por ser pequena pouco achavam produtos para ela. Hoje em dia, Lari se dedica à maternidade e registra bastante isso em suas redes sociais, fazendo disso uma fonte de renda alternativa. Para Lari, o namoro - que começou quando ela tinha 19 anos - foi uma descoberta sobre possibilidades de famílias. Um grande acolhimento. Quando ela conheceu a família da Rachel, pensou: “Meu Deus, dá para ser amada assim? Dá para viver isso? É assim que um apoia o outro?” E hoje em dia ela segue enxergando o amor, a família e as possibilidades de amar como grandes descobertas - ela traz o exemplo das cachorras, todas são resgatadas e algumas viveram os maus tratos, como a Vibe (golden retriever) - a primeira vez que elas demonstram felicidade, mexem o rabo, é uma descoberta, é ver o amor acontecendo, é entender que sim, dá para ser amada assim. Rachel conta sobre uma cirurgia muito delicada que precisou fazer e que passou por muitos cuidados, desde ajuda para escovar os dentes, tomar banho, até cuidar dos curativos e processos mais dolorosos… e Lari tem muito medo de agulha, sangue, cicatriz, mas mesmo assim cuidou e não saiu do lado dela. Essa parceria que possuem e que sabem que podem contar é algo muito valioso que entende como único. Foi em dezembro de 2015, literalmente depois do Natal - dia 25 - assim que a ceia acabou, que se conheceram. Era uma festa LGBT em Campinas, estavam lá para passar o natal com seus respectivos familiares e souberam da festa por amigos, separadamente. Se esbarraram na festa porque a Rachel interagiu com o amigo da Lari sobre ele ter um piercing no mamilo, já estava bêbada e a Lari interagiu com eles, mas na hora ela não retribuiu a interação, achou um pouco estranho. No final da festa, a DJ, que era quem convidou a Rachel, questionou que ela veio para a festa mas não beijou ninguém e ela explicou que até tinha sentido atração por “aquela menina” (a Lari) mas que “com certeza ela era hétero”.. A DJ não acreditou e disse para ela ir logo tentar o beijo, então ela foi, cutucou a Lari pelas costas e disse: “Vim aqui te dar um beijo!”. O beijo foi horrível, ela foi embora para Itu logo depois, o dia já estava claro… Até que no dia seguinte recebeu uma mensagem da Lari dizendo: “Chega, me beija e não pergunta nem meu nome”. O celular da Rachel a Lari conseguiu porque ela passou para o amigo, quando se conheceram momentos antes. Ela respondeu: “Tem razão, qual seu nome e idade?” “Larissa, 19 anos.” Rachel gritou: “Puta que pariu! Eu escapei da pedofilia por um suspiro!” Ela tinha 30. A mãe da Rachel entrou no quarto com o grito e perguntou o que houve, quando ela respondeu que ‘ficou com uma novinha ontem’ e foi questionada a idade, a mãe respondeu: “Ah, Rachel, pelo amor de Deus… Com 19 anos todo mundo já sabe muito bem o que faz!”. Rachel diz, rindo, que daquela festa a Larissa já saiu namorando. E Lari responde: “É, ué.” Na época, Rachel morava em São Paulo e Lari em Sumaré, no interior, onde ocupava seu tempo fazendo diversos tipo de artes entre tecido, jazz, balé, teatro… Rachel era totalmente o contrário, vivia em pesquisas científicas, vida acadêmica, coisas mais quadradas, estava em crise de idade e ficava pensando que Lari iria entrar na graduação enquanto ela já seria professora universitária. Para Lari, elas já estavam juntas no período que se conheciam/ficavam em 2016. Passavam bastante tempo juntas, viajavam, mas não rotularam enquanto um namoro porque era bem difícil para a Rachel, ela se sentia blindada. Até que elas decidiram morar juntas, no final de 2016, quando iriam completar um ano do dia em que se conheceram, e adotaram a primeira cachorrinha - assim teriam mais um motivo para estar em casa. Depois disso, Lari começou a graduação e a vida foi ficando mais leve. Adotaram mais uma das cachorras pequenas, viajavam bastante e cada uma foi adaptando sua rotina e seus trabalhos. Até que em 2017 começaram a loja com os produtos de pets, depois adotaram as cachorras maiores. Pontuaram algumas vezes o fato de que no começo poucas pessoas apoiaram o namoro, a maioria achava que era algo transitório por conta da idade e principalmente por serem de universos muito diferentes. Lari ensinou uma leveza para a Rachel que ela nunca havia tido contato, ela sente que deixou de ser quadrada. Tiveram muita torcida contra, mas seguiram juntas e acreditam que é essa persistência que fez a vida valer a pena. Desde que se conheceram, Larissa falava sobre o desejo de gestar e maternar, não parecia ser uma fase, mas esperaram isso amadurecer. Em 2019 começaram o movimento de fato, fizeram terapia juntas para entender como seria (visto que Rachel não sentia o desejo de gestar, pensava muito na adoção) mas precisavam também ter um planejamento: ter uma casa e um preparo de vida para a chegada da Maria Eugênia. Compraram a casa em 2020, tiveram muitos desafios com empreiteiras, foi um desgaste bem grande, demorou mais de um ano depois da mudança para conseguir seguir com o planejamento da gravidez. Em 2022 fizeram buscas por médicos, mas não se sentiram seguras, então deixaram passar novamente. A sensação era de que o quarto era uma tela em branco, sempre esteve ali, mas pouco falavam sobre. No final de 2022, Rachel teve um problema de saúde bem grave e decidiu congelar óvulos, mas quando procurou o procedimento eles aconselharam a não fazê-lo porque as chances de não darem certo eram muito grandes. Foi ali que decidiram: vamos investir agora. Ela passou por três equipes nesse processo, infelizmente a experiência com as duas primeiras não foram boas, ela sofreu violência obstétrica, pediu para que mudasse para uma equipe de mulheres e conseguiu, já haviam comprado o material biológico masculino e foi enviado para o novo local. Em abril de 2023 fizeram a primeira transferência embrionária, deu tudo certo, ouviram o coraçãozinho, passaram o primeiro dia das mães juntas, acompanharam o desenvolvimento por 7 semanas até que não teve mais evolução na gestação, não tinha mais batimento cardíaco. Clinicamente, foram mais de 45 dias para começar tudo novamente (preparar o corpo para uma nova gravidez), mas além disso é preciso considerar o quanto elas estavam muito abaladas por essa série de coisas que sofreram em meses. A segunda tentativa foi em julho, e deu certo novamente, a Maria Eugênia veio ai. Hoje em dia, se colocam como mães antes mesmo de qualquer comentário chegar. É quase como um escudo, uma blindagem, já se preparam. Já ouviram diversas perguntas, comentários, coisas sobre a Rachel ser avó da Maria Eugênia, mãe ou irmã da Larissa. E nesse ponto falamos muito sobre como as pessoas se acham livres para fazer comentários sobre os nossos corpos ou sobre o não-reconhecimento delas enquanto um casal e, sobretudo, uma família. Encontram qualquer via, desculpa, para não reconhecer essa unidade familiar. Então o escudo vem para evitar desgaste: já se colocam como mães, Maria Eugênia é filha delas, deixam claro que a família existe antes de qualquer coisa, em todos os lugares que chegam. ↓ rolar para baixo ↓ Rachel Larissa
- Joyce e Gabi
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Joyce e da Gabi, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Na intensa rotina de trabalho que Gabriela e Joyce possuem, nos encontramos num final de semana no centro do Rio de Janeiro. Gabi trabalha em farmácia, Joyce em supermercado, são horários bastante cheios e cotidianos exaustivos. Elas moram em Duque de Caxias, região da baixada fluminense, e o que mais gostam de fazer juntas - além de cozinhar (sempre acompanhadas de vinhos) e tirar fotos das coisas por aí, é também ir até o Rio para aproveitar a praia e descobrir lugares novos - ser turista na própria cidade. É justamente entre a dinâmica pouco fácil de uma rotina cheia, de horários de trabalho que não nos dão muitos momentos de descanso e de uma vida agitada que elas entendem o quão é importante se esforçar para enxergarem o amor na relação que vivem. Já são mais de 6 anos morando juntas, Joyce acredita que o amor está nos pequenos gestos do dia que demonstram uma pela outra - uma somatória de coisas que vão se acumulando, fazendo com que a paixão siga existindo. Conta que desde o começo, como não tinha dinheiro, demonstrava escrevendo cartas, imprimindo fotos, criando coisas personalizadas… Hoje em dia, mesmo odiando café, por exemplo, sabe o quanto a Gabi ama e faz café pra ela, compra cafés diferentes quando vê no mercado, sempre quando sai sozinha traz algo que lembrou a Gabi para demonstrar o quanto ela estava presente em pensamento… e sente que nesses pequenos gestos estão vivos os significados do amor. No momento da documentação Gabi estava com 33 anos e Joyce com 24. Por mais que hoje em dia essa idade ainda tenha seu peso pelas diferenças, quando elas começaram o relacionamento, tudo era ainda mais conflituoso. Na época, Joyce nunca tinha se relacionado com mulheres. Gabi tinha uma vida mais agitada, era uma mulher independente, trabalhava numa drogaria próxima à casa da Joyce e foram assim que se viram pela primeira vez. Foi Joyce quem se interessou pela Gabi - e Gabi estava num momento de querer sossego, pensou que era melhor não retribuir interesses, principalmente pela diferença de idade. Mas quando se deu conta já estava entregue e interagindo. Não foi um início fácil, bem pelo contrário. Viveram muitos problemas vindo por conta da não aceitação familiar da Joyce. Ela até então era uma mulher que vivia uma cultura cristã, com padrões sociais, e pensava que no momento que descobrissem até poderia ficar tudo bem pois tinha um tio gay que era casado há anos e aceito na família… mas não foi apoiada nem por ele. Todos foram contra, gerando confusão ainda maior. Gabi foi a mais prejudicada, pois envolveram o trabalho dela, passando por uma grande exposição. Precisou mudar de loja e só não foi demitida porque era uma funcionária exemplar. Todos os conflitos familiares que viveram começaram quando tinham cerca de 6 meses juntas, e duraram mais de um ano e meio, quando Joyce já tinha 18 anos e sem terem outras opções, decidiram morar juntas. Joyce conta que foi num domingo, se sentiu exausta após uma discussão muito grande e saiu de casa. Hoje em dia, aliviada, a família se dá muito bem. A mãe pediu desculpas para a Gabi, entende que a visão que tinha sobre a relação delas era muito distorcida e que a Gabi não era a pessoa que ela pensava. Gabi entende também que as coisas mudam com o tempo e que a base para que tudo mude é o diálogo. Sente muito por não ter tido isso na infância, não foi ensinada a dialogar dentro de casa e não era algo instigado pela sua família. Ao decorrer da vida adulta tenta mudar isso de todas as formas e conversa o tempo todo: sempre está disposta a falar o que sente. Gabi entende que amar é respeitar, em qualquer âmbito. Pensa que talvez na família, no modelo em que vive, as pessoas não respeitam tanto - elas aceitam. Já nos amigos e no relacionamento, aí sim, é diferente: se sente respeitada de verdade, pode ser quem ela é, sem julgamentos, de forma livre. Num momento da conversa, lembram de um filme evangélico que viram uma vez e que fala sobre amar ser uma forma de não desistir, de passar pelas fases, persistir. Sempre pensam no filme quando as coisas estão difíceis, se impulsionam a acreditar no relacionamento, reforçam o amor que sentem. Joyce, por fim, fala sobre o quanto gostaria de mudar algumas vivências que possuem nos dias de hoje no dia a dia morando em Duque de Caxias e tendo as rotinas de passeios pelo Rio também, como o fato de que gostaria muito de sair andando na rua em paz. Comentou que quando vieram me encontrar para registrarmos essa documentação, desceram na rodoviária e estavam caminhando na rua em direção ao lugar que nos encontramos, nisso passaram dois homens de moto e gritaram “Quatro é par” em alusão à elas estarem ‘sozinhas’ e eles também. Reforça que o assédio que sofremos quando estamos na rua enquanto um casal de mulheres (ou enquanto mulheres quando estamos sozinhas) é uma das piores coisas que podemos sentir. E que só queriam estar vivendo bem enquanto um casal que sai na rua, sem essa violência, esse medo. Queriam sair de casa a hora que quisessem (muito cedo ou muito tarde) sem o medo acompanhando o tempo todo. ↓ rolar para baixo ↓ Joyce Gabriela
- Aline e Aya
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Maternidade Sapatão, quando o projeto passou por São Paulo! Na segunda edição da festa a Alê foi enquanto expositora por conta da confeitaria e a Aline estava ajudando as organizadoras, então elas tiveram uma oportunidade para conversar. Enquanto ela pediu uma água, a Aline jogou uma gracinha e rolaram umas brincadeiras. A Aline sempre deixou muito claro o quanto queria e tinha interesse, mas a vibe da Alê era bastante diferente, então ela desviava, achava que tudo era só uma brincadeira e não dava continuidade. A chance realmente aconteceu quando elas se adicionaram no Instagram e conversaram, marcaram de se encontrar e saíram. No encontro a Alê de cara já entendeu que não ia rolar nada porque a Aline era bastante o oposto dela: uma menina mais nova, super agitada, urbana, num pique bastante paulista. Enquanto ela estava em um momento muito mais naturezas e coisas calmas, algo mais pausado e pensado. A Aline quis chegar beijando e ela disse: espera aí, não é assim! Hahaha. Só que quando o beijo aconteceu, todos os argumentos que ela tinha foram embora, ela quis continuar. Aos poucos elas continuaram os encontros, continuaram ficando e a Aya foi percebendo que o relacionamento aberto que ela tinha foi tendo menos espaço. Foi então que, por todo o respeito que esse relacionamento envolvesse e toda a conversa, ela percebeu que ele não cabia mais e que era um momento de seguir outro caminho. Quando escolheu ficar somente com a Aline foi se abrindo para novas coisas, ocupando novos espaços e tendo novos olhares, inclusive religiosos, algo que elas cuidam muito e prezam por manter sempre em harmonia, visto que a religião é prioridade. Aline trouxe Aya até um novo centro de umbanda e, dentre todas essas mudanças, essa foi uma das que mais se destacou, porque significou uma entrada diferente, uma nova ligação com orixá e um novo caminho religioso na vida dela. Alessandra (Mama Aya) tem 30 anos, é de São Paulo, trabalha como confeiteira na @tabuleirodalirio (que agora passou por um bom tempo parada por conta da licença maternidade dos meninos, mas em breve voltará com tudo! Então já sigam para dar aquela força e encomendar comidinhas incríveis!) e além de ser uma pessoa super leve e com um sorrisão no rosto, é também uma cantora incrível e faz parte do grupo Ilu Oba de Min. Aline Exu tem 24 anos, é natural de Santos, interior de São Paulo e trabalha enquanto educadora social. Aline chegou na capital em 2016, encantada com a militância estudantil, os atos e a forma totalmente urbana e corrida de São Paulo acontecer. Começou a fazer faculdade na Zumbi dos Palmares, universidade comunitária paulista e foi a cada dia mais conquistando espaço por onde passava. Foi em um desses espaços que elas se conheceram, mais especificamente, em uma festa para o público les-bi. Aline estava na porta e contou que, por mais que nunca tenha acreditado em amor à primeira vista, ali realmente aconteceu. Quando viu a Alê, já sabia que queria casar e ter filhos. Ela ficou olhando, ali da porta, e a Alê estava com outro grupo de amigas, mais distante… durante a festa ela chegou até a Alê e perguntou se ela estava acompanhada e recebeu um “sim” como resposta, porque a Alê vivia um relacionamento aberto na época. Elas contam que a Aline não esperava essa resposta e que na hora ela ficou muda, triste, abaixou a cabeça e saiu, quieta. Seguiu o baile. Conheci a Alê (mais conhecida como a Mama Aya) e a Aline (também chamada de Aline Exú) através de um perfil que elas mantêm no Instagram, chamado @maternidadesapatao . A primeira vez que tive acesso ao perfil foi quando estava planejando o Documentadas e elas me pareceram muito fazer total sentido para o projeto. Desejei com todas as forças chegar até elas, então entrei em contato e desde o começo de 2021 estamos tentando fazer isso acontecer. O encontro, finalmente rolou, na ida do .doc até São Paulo, no primeiro semestre do ano. <3 O Maternidade Sapatão surgiu no começo da gravidez. Aline conta que com a gravidez da Aya e a barriga crescendo ela começou a postar stories no seu perfil pessoal e compartilhar como estava sendo viver isso, os detalhes cotidianos, os perrengues e os corres. Com os conteúdos no storie começou a perceber que muitas pessoas perguntavam e que chegava cada vez mais um público novo no seu perfil pessoal, pessoas que ela não conhecia e que nunca tinha visto e que isso se dava por conta da gravidez. Foi então que surgiu a ideia, já que sentia uma demanda de dúvidas de muitas pessoas que queriam entender como foi o processo delas de engravidarem e acompanhar diariamente até o nascimento dos gêmeos - o Jamal e o Jawari. Quando o perfil do Maternidade Sapatão de fato foi lançado, muitas outras coisas começaram a fazer sentido. Entenderam que o público da maternidade homoafetiva, primeiramente, era maior do que elas imaginavam - existiam muitas outras famílias, muitas outras crianças sendo criadas por duas mães - porém também ainda era muito embranquecido. Além do mais, o público que decide engravidar ainda é um público muito carente de informações e também faltam muitas informações a se passar aos profissionais de saúde que dão atendimento, à nós LGBTs, às mulheres que querem conhecer melhor seus corpos… enfim, temos um longo caminho pela frente. No começo, com o passar a terem uma busca muito grande e o perfil crescendo rapidamente, chegaram a pensar “será que somos as primeiras mulheres pretas, de quebrada, a estarem fazendo uma fertilização aqui em São Paulo?” e comentam também sobre a mulher negra periférica muitas vezes estar numa situação em que assume o filho de outra mulher que já engravidou em um outro casamento\em um outro relacionamento e que isso também é família, que isso também é muito representativo e importante (visto que esses filhos jamais são considerados “agregados” momentâneos e sim realmente parte da família), mas que elas (Aya e Aline) queriam e lutaram pela fertilização. Mas que nunca deixaram de se questionar: se os nossos filhos já fossem de um casamento antigo ou fossem adotados, nosso perfil teria tamanha visibilidade? Rolar Mama Aya Aline Exú
- Jéssica e Mariana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Jéssica e da Mariana, quando o projeto passou por São Paulo! Jéssica e Mariana nunca tinham parado para refletir sobre a sua história com tanta precisão… e também nunca se viram compartilhando sobre quem são, como se sentem juntas e suas visões de mundo, como aconteceu quando se encontraram com o Documentadas, em São Paulo. Ao se dar conta de estarem fazendo isso pela primeira vez, Jéssica logo verbaliza como está se sentindo sortuda. Não só em poder compartilhar as vivências, mas principalmente por viver com a Mari. Diz que sente muita potência em viver juntas, são companhias e companheiras. Como são pessoas que passam muito tempo trabalhando, entendem que todo o tempo livre deve ser desvinculado do dinheiro. Por isso, adoram desfrutar de um banho compartilhado, de uma boa música, um chá, os jogos de videogame, passeios, horas montando quebra-cabeças, assistindo filmes, séries, passeando no carrinho (que é o xodó da vida delas) e indo numa doceria que fica próximo de casa e que valorizam muito. São extremamente apegadas ao que é artesanal, familiar, simples e cuidadoso. A semana que nos encontramos não estava sendo nada fácil para elas. Além de perdas familiares, viveram uma situação de assalto em que quebraram o vidro do carro no semáforo e roubaram os pertences. Para além do prejuízo financeiro, ficou o trauma e a tristeza por lidar com uma situação de invasão, de injustiça com algo que é tão valioso para elas e que foi tão batalhado para ser conquistado. Mari explica que vivenciando essa situação percebeu o quanto amadureceram - enquanto um casal e enquanto indivíduos - durante o período que estão juntas. No momento de dor, se reaproximam, precisam da outra. O relacionamento é um espaço de cura. Desejam rir e querem fazer uma à outra sorrir. Por serem muito semelhantes, chega a ser difícil achar algo que não concordam, então raramente brigam (quando brigam, não dura quase nada). Nisso, até nos momentos mais violentos recentemente vividos, se fortaleceram. Mariana, no momento da documentação, estava com 29 anos. Trabalha enquanto analista de dados e é natural de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. Jéssica, no momento da documentação, estava com 31 anos. Trabalha enquanto analista de dados e é natural de Juiz de Fora, interior de Minas Gerais. A história da Mari começa quando ela se formou em saúde pública, no fim de 2019, e começou a estudar sobre o Coronavírus que estava surgindo na China. Na época ela transitava entre procurar emprego e tentar iniciar o mestrado. Sonhava em estudar na Fiocruz, já que era uma referência, mas a família achava o Rio de Janeiro muito perigoso. Até que, já em 2020, a mãe soube que a Fiocruz estava abrindo mestrado e avisou ela, que tentou e passou… Como a pandemia já estava acontecendo, suas aulas seriam online e a mudança não foi necessária. A Jéssica, por sua vez, morava no Rio e já cursava o mestrado de Estatística na Fiocruz. Sentia falta da área da saúde no seu currículo e foi cursar, teve as aulas paradas durante a pandemia… Quando voltou, em formato online, acabou caindo na mesma turma que a Mari. Foram pelas aulas de mestrado que acabaram se conhecendo e em janeiro de 2021 começaram a conversar. Jéssica resolveu perguntar para uma amiga em comum se ela sabia se a Mari ficava com mulheres e se estava solteira… Não esperava que a amiga iria contar para a Mari. Então, num dia que Jéssica postou uma música da Lana Del Rey nos stories, Mari interagiu, começaram a conversar e nunca mais pararam. Contam que passavam tanto tempo conversando que iam dormir tarde da madrugada e acordavam cedo ansiosas para continuar a conversa. Antes mesmo de se conhecer pessoalmente, já namoravam. Em março, a Fiocruz solicitou alguns documentos e a Mari precisou vir ao Rio de Janeiro. Então, aproveitaram a oportunidade para se conhecerem e passarem uns dias juntas na casa da Jéssica. Naquela época, não estavam saindo de casa por conta da pandemia de Covid-19. Mesmo que as coisas já estivessem caminhando para a flexibilização, ainda não tínhamos vacina e, ainda mais elas, que trabalhavam estudando isso, faziam de tudo para ficar em casa. Falam como foi horrível a despedida, a ideia de se distanciar novamente. No dia, Mari até perdeu o voo - e nem por um erro delas, mas porque a torcida do Flamengo estava no aeroporto esperando os jogadores chegarem, o que é uma discrepância… enquanto elas estavam fazendo de tudo para não sair, ter uma torcida aglomerada num aeroporto… - então acabou tendo que voltar de ônibus, foi uma confusão. Depois disso, se viram novamente alguns meses depois, em maio. Em julho, Jé conheceu a família da Mari em São Paulo. E pouco tempo depois saiu do emprego no Rio, devolveu o apartamento e voltou a morar com os pais em Juiz de Fora. Foi quando surgiu o convite para morar com a Mari e os pais dela em Guarulhos, já que São Paulo tem muito mais oferta de emprego e elas poderiam ficar juntas. Ela topou, a mudança foi em outubro de 2021. Desde então, já conquistaram o emprego fixo, o carro e um apartamento, do qual estão esperando ansiosamente para ficar pronto. Os olhos brilham quando falam das coisas conquistadas em dupla. Essa história foi documentada em 17 de junho de 2023. ↓ rolar para baixo ↓ Jéssica Mariana
- Raquéis | Documentadas
Amor de Pedidos - Rachel e Raquel clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Tânia e Clarissa | Documentadas
Amor de Trajetória - Tânia e Clarissa clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Mariana e Thalassa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mari e da Thalassa, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Entenderam que para o relacionamento acontecer de verdade precisavam ter uma comunicação muito ativa e transparente. Mesmo em dias ruins, tentam conversar antes de dormir e dormem abraçadas. Thalassa diz o quanto se sente completa: na casa, com os cachorros, as plantas, tendo o carro, tudo. Entende que é uma mulher adulta que conquistou o que sonhava. Ela fala também sobre o quanto aprendeu a admirar a Mari, a persistência dela e a forma que lida com as coisas. Para a Mari, amar é ter cuidado, ter respeito. Tenta sempre entender o ponto de vista da Thay sobre as coisas do mundo. Amar é um exercício diário. Por fim, falamos sobre o amor ser um mosaico - tem a risada, o tempo, o respeito, a compreensão, a lealdade… não tem como falar dele sem todas as coisas que completam. Cada parte é importante para construir o todo. A história da Thay e da Mari te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Thalassa tem 32 anos, é professora de biologia e ciências para alunos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Está atualmente no chamado “ensino híbrido”, do qual a carga de trabalho é muito maior que em tempos comuns (que já é grande!). Ela trabalha em Niterói e mora próximo ao Recreio, é uma distância longa, costuma demorar 2h para chegar (mas já chegou a demorar 5h, em dias de trânsito). Fala sobre como é ser professora no Brasil e como os desafios triplicaram na pandemia. Mariana tem 27 anos, é bancária, trabalha com abertura de empréstimos. Está cursando psicologia e fala sobre a vontade de ouvir e poder auxiliar pessoas. Trabalhar com o público não é fácil, ainda mais em grande escala. Existem muitos desafios e com a modernização dos aparelhos bancários e precisamos sempre exercitar o cuidado com todos os tipos de público, entendendo suas especificidades. Mari cuida muito de si, quer viver com tranquilidade. A maior dificuldade que elas passaram foi quando decidiram morar juntas, em janeiro de 2015. O dinheiro era muito curto e precisavam mobiliar a casa, Thalassa chegou a pegar diversos freelas - sendo Uber, professora em outros lugares... foi um momento bastante turbulento. Se conheceram de uma forma um tanto quanto aleatória. A Thay ainda mantinha uma amizade com a ex namorada e a Mari ficava com essa menina (tá ouvindo esse barulho???? é o som do rebuceteio!). Na época, a Thay já namorava outra pessoa e conhecia a Mari porque já estiveram entre amigos algumas vezes. A menina (amiga/ex de Thay e amiga/atual da Mari) estava de aniversário e elas foram numa festa comemorar (a Thay e a namorada + a Mari e a aniversariante), mas ambas se meteram em confusão, a Thay já não andava bem no relacionamento, brigaram na festa e ela optou pelo término. Enquanto a Mari acabou ficando no canto e um pouco chateada por outros acontecimentos simultâneos. Ambas se viram sozinhas e o que restava era aproveitar a festa juntas. Alguns outros amigos chegaram para aproveitar a noite com elas e numa brincadeira, inventaram de todo mundo se beijar. Até então tudo bem, afinal, estavam só se divertindo. Mas quando a Mari e a Thay se beijaram, logo se sentiram totalmente diferentes, algo único. Não entenderam muito bem o que era esse sentimento/essa sensação, mas passaram a noite juntas aproveitando a festa. Nos dias seguintes elas continuaram se encontrando. Por um momento foi até meio escondido, com medo das pessoas saberem, mas depois entenderam que não tinha outra saída, ficariam juntas. Hoje, 7 anos depois, o sentimento é o mesmo. Quando fui encontrar a Mari e a Thay, não imaginava que iria gostar tanto (delas e do lugar). Marcamos num horto, no Rio de Janeiro. Com espaço para café (e cervejas), foi lá que nos sentamos para conversar. Elas tinham escolhido este lugar porque amam plantas, cuidam de vários tipos e espécies e falam sobre a importância de respeitar o tempo da terra e da natureza. O amor que passam para as plantinhas é de um jeito muito especial, gostam de usar os temperos na hora de fazer comida, esperam ansiosamente as frutas crescerem… acreditam que mexer na terra e acompanhar esse processo faz com que a gente aprenda a ter mais respeito pelo mundo. Depois que elas descobriram o horto, na primeira vez que vieram (ainda moravam longe), se apaixonaram. Agora, por morarem muito próximo dele, criaram uma memória afetiva forte e tentam frequentar o máximo que podem. Tanto a Mari, quanto a Thay são pessoas muito tranquilas. Moram com seus bichos, têm suas rotinas de trabalho… e também são mulheres muito divertidas. Elas acreditam que o encontro que tiveram nessa vida foi um fenômeno da natureza - a partir do primeiro beijo tiveram certeza que ficariam juntas. < Mariana Thalassa
- Jaque e Tainá
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Jaque e da Tainá, quando o projeto passou pela Bahia!. Ao conversar com Jaque e Tainá no Pelourinho, em Salvador, nem imaginava que minutos depois ao fazermos as fotos iria rolar o pedido de noivado delas. Nada estava combinado, seria uma surpresa da Jaque para Tainá e ela aproveitou uma ida ao banheiro para me contar (e perguntar se era possível que eu registrasse entre uma foto e outra). Achei a ideia maravilhosa e a cara do Documentadas. Assim, em meio ao inesperado, perguntei mudando de assunto repentinamente, o que elas pensavam sobre o amor: Tai explica que desde a primeira vez que o projeto chegou para ela, por conta de algum repost de conhecidos no Instagram, pensou sobre a potência do amor entre mulheres. Refletiu as suas vivências. Conta que já vinha trabalhando e entendendo o feminino, pensando nas mulheres ao seu redor, no quanto vivencia isso diariamente enquanto a maternidade, o trabalho, o relacionamento… Sente que as mulheres precisam cuidar uma das outras porque nosso amor é muito potente. E, por mais que tanto tenha demorado para pensar sobre sua sexualidade, hoje em dia entende o quanto é importante conhecermos nossos desejos. Tai passou o maior período da sua vida silenciando suas vontades, não se questionando e nem se permitindo nada por conta da sua criação, sempre fez o que mandavam fazer e hoje, ter uma vida cada vez mais livre, é também um ato de amor. Jaque completa que o amor está nesse insistir, na disposição. Nem sempre vai ser feliz, alegre, porque existem dias muito difíceis e por isso tentam buscar calma uma na outra. Conta o quanto admira na Tainá todo o feminino que ela carrega e no quanto juntas confiam nas mulheres. Para Jaque, o amor está em todas as ações diárias. Jaque e Tainá hoje em dia moram em Camaçari, região metropolitana de Salvador. Tainá, no momento da documentação, estava com 28 anos. Trabalha enquanto enfermeira na maternidade e num hospital em outras alas. Depois de muitos anos foi chamada para um concurso que passou, por isso, decidiu fazer a mudança para Camaçari - ou melhor, para Abrantes, cidade vizinha. Lá, mora com seu filho, de 4 anos. Jaque, no momento da documentação, estava com 35 anos. É professora de história, dá aula para os alunos do ensino fundamental e médio, mas no momento está afastada pois trabalha com assessoria política, é vice-presidente do Partido dos Trabalhadores em Camaçari e também estuda direito, está quase completando a graduação. No tempo livre, elas adoram estar no Pelourinho. Saem para comer, gostam de ir em sambas, beber cerveja e falar besteiras sobre a vida. Também não abrem mão do descanso, afinal, ser mãe é algo muito cansativo. Foi através da irmã mais velha de Jaque que ela e Tai se conheceram, Tai trabalhava na Prefeitura de Camaçari e a irmã de Jaque era sua chefe. Elas saiam bastante, eram bem próximas e no último carnaval antes da pandemia de Covid-19, em 2020, ela conheceu Jaque. Na época, não tinha clareza sobre sua sexualidade, nunca tinha ficado com mulheres e nem cogitava isso. O tempo foi passando, saíram juntas várias vezes, Jaque inclusive iniciou relacionamentos com outras pessoas e Tai foi passando pelos processos de entender melhor a sua sexualidade. Em 2022, Jaque viajou e mandou fotos da viagem num grupo de amigas que possuem em comum. Foi aí que Tai começou a ver as fotos e entendeu que sentia algo diferente por ela; Assim, decidiu investir, mandou algumas mensagens em tom de brincadeira pedindo presentes da viagem, o presente em específico era “Um crush ou uma crush” e Jaque gravou essa mensagem, foi algo marcante para ela. Na versão da Jaque, desde o começo conta que achou a Tai muito bonita, mas nunca cogitou nada porque a via apenas como a amiga hétero da sua irmã. Foi naquele período em 2022 que uma amiga em comum comentou com ela que, pelos comentários da Tai no grupo, parecia que ela estava dando em cima, e ela entendeu que nunca tinha percebido. Começou a dar bola, e depois, quando voltou de suas viagens, a chamou para ir ao Pelourinho numa sexta-feira. Acontece que, no dia que marcaram o samba no Pelourinho como primeiro encontro das duas, acabaram se vendo mais cedo na hora do almoço sem querer entre o pessoal do trabalho da irmã da Jaque. Elas reagiram como se nada fosse acontecer mais tarde, o que deixou Tai muito insegura, pensou até que o encontro não fosse mais acontecer. Mas aconteceu, se viram e Jaque fez diversos interrogatórios para ela, perguntando por qual motivo ela estava desejando se relacionar com uma mulher logo agora. Jaque explica que os interrogatórios não foram à toa, nem para constrangê-la, mas por querer entender de fato. Não gosta de ser objetificada por mulheres héterossexuais e nem ser usada como experiência, queria entender em que pé estava isso, essa “dúvida” e se poderia confiar no que estavam sentindo. Acabou que conversaram a noite toda e ao final do encontro se beijaram. Refletem, nesse processo, o quanto Jaque era de fato uma pessoa muito travada no começo. Se via de forma muito reservada. Foi/é um processo muito difícil de se abrir, Tai foi incentivando que ela se permitisse o ritmo da relação, desde sair nas ruas de mãos dadas para ir em lugares simples como a padaria, até conversar sobre os sentimentos básicos, desde coisas pequenas até grandes acontecimentos. Tainá conta o quanto “os sentires” foram diferentes. Tudo foi muito diferente do que ela já havia sentido e vivido, tanto no físico quanto no emocional. Primeiro, porque Jaque já conhecia muito sobre a história dela e ela já conhecia muito sobre a história da Jaque, então o quanto já se acompanhavam falava muito sobre seus medos, traumas, confianças… A relação ajudou a olhar de outra forma para a amizade que já possuíam, nas palavras dela, foi como dizer: “Tô aqui para você, mas precisamos ir juntas.” Jaque acrescenta o quanto sempre foi de falar sobre todos os assuntos do mundo, menos sobre o que está doendo nela. Então o esforço que Tainá precisava fazer, principalmente no início, foi muito grande. Um grande exercício de conversa. Jaque nunca foi criada na forma verbalizada do “Eu te amo”, mas sim na ação de fazer a comida, de cuidar, de ter as roupas limpas, a casa acolhedora… Fala do quanto viveu com a casa cheia, muitos militantes, o pai sempre foi militante e sempre acolhia os outros, então aprendeu a amar assim, na solidariedade, na ajuda e na caridade. Se fortalece na ideia do amor enquanto algo comunitário. E aprende diariamente nos esforços com a Tai que amor não é só tato, olfato ou audição, é uma mistura de tudo. Para Jaque, a relação que ela vive hoje ensina a amar melhor. Tai conta sobre suas vivências familiares e o quanto o amor pra ela às vezes pode ser diferente do que aprendeu, por isso, tenta dar a melhor educação para o seu filho (que as aceita e vê o relacionamento delas de forma natural), fazendo com que ele entenda o papel dos homens na sociedade, seja educado, respeitoso e assuma as tarefas de casa. Além disso, não quer mais entender o amor enquanto posse ou eterna gratidão, quer uma ressignificação do sentimento, ser ela mesma e ser amada da forma que é. Não quer ver as pessoas sendo donas uma das outras, ver o amor sendo desgastado enquanto relações tóxicas. Fica feliz por ter encontrado um relacionamento diferente de todos os outros que já viveu e por isso tentam sempre entender uma à outra, ouvir, conhecer e viver cada vez mais o que desejam. ↓ rolar para baixo ↓ Tainá Jaque
- Priscila e Rebecca
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Priscila e Rebecca, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Perante as questões dentro de casa, elas sentem que não existem problemas entre elas - na relação em si. Os problemas são sempre sobre o cotidiano e sobre a moradia, mas elas, enquanto casal, tem uma conversa aberta e se apoiam muito juntas. Sonham com o momento em que a Rebecca vai se formar (em breve!) e que poderão deixar de fazer o DogHero, para assim poderem alugar um apartamento e viver entre suas profissões, nos hospitais e nas indústrias. Elas passaram por muito terror psicológico pelo medo de trocarem carinhos dentro de casa, por conta do preconceito. A Rebecca, durante a nossa conversa, comenta sobre a LGBTfobia e sobre como a dor fica mais forte sendo vivida dentro de casa. Mas entendem que este é um período provisório e que logo vão se estabilizar e ter seu próprio cantinho. Para a Priscila, amor é se doar. Doar tempo, doar cuidado, doar atenção. Elas comentam que isso sabem fazer muito bem: amar (e por decorrência, se doar). Se doam para ver a família bem, o relacionamento bem, a amizade entre o casal sempre cultivada e cuidada. Se tem uma coisa que gostam muito de fazer, essa coisa é conhecer novos lugares. Gostam de ir para os bares, mesmo quase não tendo feito isso em 2020 por conta da pandemia. Gostam de viajar, de ver gente. O que mais fica claro, durante toda a conversa, é o quanto o amor delas significa parceria. Tentam dividir qualquer tipo de peso juntas, não soltam as mãos nunca. A mudança da Priscila para o Rio foi muito significativa e extremamente fundamental para o relacionamento delas. Estava muito difícil manter a distância e a Pri já estava em busca de faculdade e trabalho pelo RJ, foi então que a avó e a tia da Rebecca estavam morando num apartamento da família dela e estava sobrando um quarto lá e surgiu a ideia dela fazer a mudança. Foi tudo planejado com cuidado, então a Priscila chegou na cidade já tendo emprego e estudo garantido. Porém, no meio da mudança, ainda existia um problema: ninguém da família sabia que elas namoravam. Aos poucos foi ficando mais claro, a tia da Rebecca hoje em dia adora a Priscila, e por problemas de saúde, acabaram todas se mudando daquele apartamento: foram morar na casa da Rebecca e dos pais dela. É uma casa grande, com os pais, a avó, a irmã, a tia, os bichos… e elas. Até o momento elas não possuem autonomia enquanto casal, porque mesmo que todos já saibam que elas namoram, acabam vivendo como amigas dentro de casa. Sentem falta da privacidade, de poderem trocar algum carinho. A pandemia têm sido um desafio muito grande, primeiramente pela Rebecca ser da área da saúde e estar trabalhando em hospital, depois por serem as mais jovens elas acabam fazendo tudo na rua para que os outros familiares não precisem sair. Como um todo, é desgastante e cansativo a rotina de cuidar da casa, da saúde dos parentes e dos cachorros, mas elas têm levado isso juntas. A Priscila faz de tudo para agradar a família da Rebeca e assim vai conquistando mais confiança também. Hoje em dia, mesmo a sogra tendo diversos problemas envolvendo preconceito, ela está muito mais tranquila e aceitando dia após dia a relação. Rebecca tem 26 anos e está terminando a faculdade de medicina, mas também adora mexer com design gráfico e sente muita vontade de um dia fazer um curso de fotografia. Priscila tem 28 anos, é engenheira e trabalha em uma indústria fazendo a programação da produção, mas sua paixão mesmo são ourives (trabalhar com ouro) e sonha em fazer engenharia de minas. Elas amam animais, principalmente cachorros. Além da Agnes, sua petfilha, existem diversos outros cachorros na casa da mãe da Rebecca, local em que elas moram. Acabam atuando enquanto DogHero também, por garantir uma renda extra e aumentar o amor pelos bichanos. A Agnes foi adotada e chegou como um presente da Priscila para a Rebecca, ela é totalmente companheira das duas, não deixa elas sozinhas, ama igualmente. É uma relação de muito carinho. A Agnes ama a praia - e foi esse um dos motivos por termos escolhido este local para nos encontrarmos. Mas, além disso, a praia significa liberdade para elas. É o local que elas costumam ir muito, foi palco do pedido de namoro, o lugar onde abraçam e beijam sem medo e sem vergonha. É onde passam o dia felizes. A Priscila sentia muito receio de se envolver com alguém… e foi vindo para o Rio durante alguns meses quando percebeu que seu sentimento estava se fortalecendo, causando um grande medo (leia-se, desespero) por não querer se envolver num relacionamento. Quando a ficha caiu já era um pouco tarde, pois estavam, com todas as amigas, embarcando em uma viagem para a serra. A única reação da Pri nessa viagem foi se afastar brutalmente da Rebecca... falava pouco, ficava longe, se fechava de tudo. E aí, mais uma vez, entra quem? Natasha. Natasha conversou com a Priscila durante um bom tempo, incentivando uma nova chance para a Rebecca, falando sobre o quanto ela era uma pessoa legal e o quanto elas mereciam ser felizes juntas. Ela resolveu dar essa chance, mas o começo foi muito turbulento, porque toda vez em que a ficha caia, ela automaticamente tentava se afastar. Lidava com bastante medo. Até que a Rebecca colocou um basta por não querer mais viver esse “efeito sanfona” e disse que elas deveriam conversar abertamente cada vez que isso acontecesse para que assim pudessem encontrar o melhor caminho juntas. Foi no ano novo, alguns meses depois, que rolou o pedido de namoro. De 2016 para 2017, em meio ao réveillon na praia, a Rebecca fez o pedido. A Pri aceitou, foi lindo. Mas todo bom ano novo começa com uma boa história, e nesse caso, a Priscila ficou tão bêbada ao ponto de esquecer do pedido. No dia seguinte soube porque a Rebecca contou, rindo muito. Se vocês acreditarem que existe algum cupido por trás de cada amor, com toda a certeza, nessa história, o cupido se chama Natasha. Natasha é prima da Rebecca e foi a grande incentivadora da formação desse casal. Para vocês entenderem melhor como isso tudo começou, a Priscila morava no Espírito Santo e a Rebecca no Rio de Janeiro. A Pri era amiga da Natasha, se conheceram através de um grupo online. Em 2012 a amizade se desenvolveu e em 2014 resolveram ir juntas para alguns shows que teriam no Rio. Foi aí que a Natasha apresentou a Pri e a Rebecca, mas de cara elas não se deram bem, ou melhor, nem se olharam direito. Com as vindas da Priscila para o Rio se tornando mais frequentes, a Natasha praticamente obrigou as duas a conviverem, então elas passaram a fazer parte do mesmo grupo. Viagem vem, viagem vai. E aí te pergunto, elas passaram a ser amigas? Claro que não. A Natasha fazia de tudo para juntá-las, mas elas ainda interagiam pouco e não se davam muito bem. Como elas acabaram juntas? te respondo aqui. Elas estavam em uma viagem e as amigas insistiam para que ficassem com duas meninas aleatórias, mas elas não estavam afim, então, dos males o menor: vamos ficar entre nós para não termos que beijar as meninas - porque mesmo não indo com a cara, ao menos a gente se conhece. E foi desse jeito que passaram toda a viagem sendo um casal. Foi como uma válvula de escape, mas contam que a Natasha, se pudesse, teria soltado fogos. Esse começo é muito engraçado e desajeitado, mas foi a partir daí que a Priscila começou a vir aos poucos do Espírito Santo para o Rio, fazendo viagens estilo bate-e-volta no fim de semana para ver a Rebecca. Rebecca Priscila


