Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
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É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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- Julia e Milena
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Julia e da Milena, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! No começo do relacionamento foi um pouco mais difícil manter os encontros, por conta da família não saber, não lidar muito bem e a pandemia não permitir que saíssem de casa. Agora, mesmo com a distância intermunicipal, elas acabam se vendo a cada 15 dias ou nos fins de semana. Entendem que essa escolha faz parte da relação e que o relacionamento está sendo construído com muito respeito e conforto, tendo cumplicidade. Nesse momento, a Milena disse que nunca teve alguém na vida que olhasse ela e tratasse ela da forma que a Júlia a olha e a trata, e que isso já resume toda a diferença e tudo o que o relacionamento vem significando para ela. “Todo o carinho. Todo o cuidado. Ninguém nunca se preocupou comigo assim." No começo da conversa, a Júlia tinha comentado sobre uma mulher que estava no metrô olhando as duas no caminho que fizeram até o local que nos encontramos. O olhar que ela fez foi um olhar específico de julgamento, não chegou a ser vulgar, foi algo do tipo “nossa, mas duas meninas? por que elas não estão com homens?”. Ela estava realmente bem incomodada com esse olhar, falou dele várias vezes na conversa. Comentamos sobre a diferença de olhar que nós mulheres recebemos quando estamos sozinhas, quando estamos com nossas companheiras, quando são dois homens, quando é um homem gay, quando é uma mulher nos olhando e quando é um homem nos olhando… sobre como todos os olhares são diferentes, mas como todos eles são violentos. Ela disse que queria que as coisas LGBTs fossem mais divulgadas para que tivéssemos mais espaços de fala, não só para “nos mostrarmos”, mas para educarmos essas pessoas, para explicarmos “sim, somos duas mulheres, amamos, está tudo bem, viu? não precisa do homem”. A divulgação pela nossa própria representatividade, porque precisamos disso, porque é importante para nós. Elas comentam também o quanto o fato de ocuparmos esse espaço as coisas já vão mudando naturalmente, como na própria família: os familiares que antes nunca usavam o termo “namorada da Milena” ou “namorada da Júlia”, ou que substituíam por “amiga”, hoje em dia já estão verbalizando isso… e que elas já estão podendo se referir à mãe da companheira enquanto sogra. O quanto faz diferença para a gente nos considerarem enquanto uma família e enquanto parte da família. O quanto elas vibram em cada pequena conquista que acontece quando uma está na casa da outra e sentem que avançam um pouquinho nessa conquista de território, que é diária. Sabe aquela famosa frase que nos acostumamos a ouvir? “e ai depois veio a pandemia.”, pois é. Foi logo em seguida, então os sentimentos se misturaram novamente: o término da Jú, ela tinha recém começado em um novo emprego, as várias coisas acontecendo mundialmente, tempos de incertezas, mudanças bruscas e todos dentro de casa. Elas foram voltando a conversar com maior frequência, de forma online, e só puderam se encontrar no início de junho. Quando se encontraram foi certeiro: começaram a namorar na mesma semana. Hoje em dia a Júlia está com 23 anos e a Milena também, a Jú faz muitas coisas, é fotógrafa, trabalha como social media e faz produtos digitais. Começou uma graduação em jornalismo e adora a área de criação (faz orçamento com ela, gente!), enquanto a Milena está desempregada, mas possui técnico em administração (mandem jobs e vagas por aqui também! estamos super na busca!). A Jú acredita que a fotografia entrou na vida dela como um grande hobby, acabou virando profissão, mas ela ainda faz em grande parte por diversão, porque gosta mesmo é de treinar, desbravar, se aventurar. E a Milena brinca que o hobbie da vida dela é o esporte, jogar e praticar. Elas entendem que cada vez mais querem estabelecer um nível de relação totalmente diferente das que já tiveram antes. Algo muito mais saudável em diversos âmbitos. Desde a família - antes a mãe da Jú não aceitava, por exemplo, e hoje ela adora a Milena. Assim como a família da Milena demorou um tempo para processar também e hoje adora a Jú - até os próprios preconceitos internos que ainda podem existir em nós. E falam sobre querer enfrentar os desafios que surgirem juntas, crescerem e se apoiarem. Desde o começo, quando eram apenas amigas, sempre falaram sobre absolutamente tudo (e por isso se deram tão bem), então agora não será diferente. Elas podem contar uma com a outra para entender seus processos internamente sem julgamentos. Quando falamos sobre isso, a Júlia logo disse em seguida sobre o arrependimento da escolha de ter voltado àquele relacionamento, por conta do ano de 2019 ter sido um ano muito difícil em diversos sentidos, incluindo o relacionamento. Mas como podemos saber se ela e a Milena teriam dado certo se tivessem ficado juntas naquele ano? de alguma forma, as coisas foram caminhando. O ano serviu para que ambas, em seus caminhos distintos, construíssem um amadurecimento muito maior, enfrentando coisas que não enfrentariam estando juntas. Ela também comenta que mesmo reatando o namoro, a Milena nunca deixou de ser uma prioridade na sua vida, e que isso foi algo totalmente novo, ou seja, que ela nunca tinha sentido por alguém. Ela sempre procurou saber como a Milena estava, se estava precisando de algo… sempre deixou amigos por perto dela. No meio do ano, alguns meses depois do afastamento, elas voltaram a conversar. Durante todo o ano de 2019 a vida da Milena também passou por idas e vindas, ela reatou o ex namoro, também passou por mudanças, processos diferentes. Se viu andando em círculos, processos muitos semelhantes aos da Jú. Nos meses em que elas conversavam se identificavam com algumas questões, se encontravam quando ela poderia estar pelo Rio, já que seguia morando em Magé, e conversavam muito sobre como os caminhos tinham sido separados e como mesmo com situações tão diferentes elas ainda se identificavam. Foi em Janeiro de 2020 que a Milena tomou a iniciativa de romper o relacionamento dela, por não sentir que fazia mais sentido continuar naquela forma que estava. Em março a Júlia terminou também. Uma semana antes da pandemia elas se encontraram em um show do cantor Delacruz, no Circo Voador, porque gostavam de uma música dele que sempre teve um significado muito forte para elas. Esse dia foi um divisor de águas, elas consideram que a partir dele e a partir daquele momento queriam passar a fazer as coisas serem diferentes. A Milena olhou no fundo do olho da Jú e disse: eu realmente gosto muito de você. A história da Milena e da Júlia começou oficialmente durante a pandemia, em 2020. Mas elas se conheceram em 2018, durante um curso, enquanto eram jovens aprendizes. A Júlia é natural do Rio de Janeiro, enquanto a Milena é de Magé, no interior, mas toda semana chegava até o centro do Rio para o curso. Na época elas não tinham nada em comum, a Júlia já sabia que se interessava por mulheres e estava num relacionamento com uma menina, enquanto a Milena nunca tinha se interessado por nenhuma mulher, estava em um relacionamento heteronormativo e pensava que não teria muito assunto em comum para conversar com a Jú. Aos poucos, foram criando uma amizade. Na versão da Jú, ela conta que logo no primeiro dia sentiu atração e uma paixonite pela Milena, por isso tentou investir na amizade começando com piadinhas e tentando se aproximar… assim elas se seguiram nas redes sociais e começaram a conversar além do ambiente do cursinho. Com o tempo passando e a frequência ao se verem semanalmente no curso acontecendo, acabaram criando um grupo de amigas e a amizade foi se fortalecendo. Elas passaram a manter uma rotina de conversas ativas, se ligavam por chamadas de vídeos, viraram confidentes. A Milena se sentiu à vontade para contar para a Júlia que estava sentindo algum tipo de atração por ela (Júlia que não à toa ficou com um sentimento de “eu sempre soube que você gostava de mulheres também!!!!”) e então ela contou que não sabia que gostava de mulheres e que essa estava sendo a primeira vez que sentia isso. Como a Júlia estava em um relacionamento, elas até chegaram a sair juntas depois disso, mas não se beijaram ou algo do tipo, apenas continuaram tendo contato. Em janeiro de 2019, o relacionamento não estava indo bem, ela acabou dando um tempo a ex e foi o momento em que finalmente pode ficar com a Milena. Por mais que elas estivessem ficando e se encontrando durante o mês de janeiro, tudo ainda era novo para a Júlia, porque o relacionamento recém tinha acabado, ela ainda se sentia muito dividida. Foi quando a ex-namorada soube que ela estava se envolvendo com alguém nesse período de “dar um tempo” e a pressionou, como quem diz “e aí, você vai começar algo com ela? ou nós vamos voltar a seguir o que já tínhamos construído?”. Foi então que a escolha de voltar ao relacionamento em que estava foi feita. Ela parou de falar com a Milena, parou de frequentar o curso e mudou totalmente a rotina.
- Mavi e Fernanda | Documentadas
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- Aline e Isabela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Aline e da Isabela, quando o projeto passou pela Bahia!. Conheci a Aline e a Isabela em Salvador alguns dias antes delas se mudarem para Dublin, na Irlanda. E o que gosto em especial é que essa notícia foi dada de forma totalmente despretensiosa durante a nossa conversa, quando perguntei sobre a rotina delas - se moravam/se já moraram em algum momento juntas e como era essa questão - me deixando muito surpresa e ansiosa para entender melhor a história. Depois que começaram a namorar, em meados de outubro de 2020, o começo do novo ano foi com uma transferência que a Aline recebeu no trabalho e precisou se mudar para São Paulo. A Isa embarcou nessa ideia e moraram juntas por lá. Sentem muito por terem desbravado tão pouco a cidade, visto que a pandemia ainda era forte, e ficaram quase um ano no sudeste. Voltaram a Salvador, e dessa vez foi a Isa quem precisou se despedir: para um intercâmbio já sonhado há tempos! Dublin era o destino e passaram 7 meses à distância. Não foi nenhum pouco fácil. Contam que não há costume, há uma normalização da rotina, mas ficam felizes em saber que passou. Hoje em dia, constróem a nova vida juntas… mesmo ainda não sabendo como exatamente será, sem planejamentos concretos pelo incerto de um novo país, estão muito animadas em viver algo completamente novo. Foi através do Twitter que se conheceram. Isa conta que tem conta na rede social desde os primórdios, tipo 2009, mas foi durante a pandemia que estava interagindo com um amigo que possui em comum com a Aline. Aline viu a interação na timeline e resolveu curtir os tweets e seguir a Isa (viu pelo perfil que ela beijava mulheres, também) e quando a Isa recebeu a notificação pensou “Oxe, ela me segiu?!”, mas ok… seguiu de volta. Passaram-se uns dias e elas conversaram. Naquele tempo ocioso da pandemia a conversa demorou horas e virou algo frequente, viravam madrugadas conversando sobre qualquer coisa. Isa morava com os pais e com o medo da pandemia de Covid-19 demoraram para se encontrar, mesmo que a Aline morasse sozinha. Apenas meses depois, em setembro, o encontro foi acontecer. Desde então, não se desgrudaram mais. Aline, no momento da documentação, estava com 31 anos. É de Salvador, trabalha enquanto arquiteta e estava com um projeto em que produz coleiras/colares para cachorros, com identificação (nome e telefone) como chokers, começou enquanto hobbie e foi tomando maiores proporções até comercializar. Isabela, no momento da documentação, estava com 32. Também é de Salvador, trabalha enquanto assistente social e adora cantar, é um grande hobbie. Depois que começaram o relacionamento e viveram as mudanças para São Paulo, elas contam que decidiram noivar. Compraram a aliança juntas, sem saber, tratam com muito carinho a importância do ato de casar, e até hoje debatem sobre a data em que isso irá acontecer. Entendem o quanto foi difícil ficar todo o tempo longe, depois que precisaram passar pelos períodos da distância (de São Paulo e de Dublin) e que só a terapia as ensinou a criar um verdadeiro diálogo, a lidar com os ciúmes, os processos internos… Acham importante falar isso sem grandes romantizações, porque ao olhar pra trás sabem valorizar o intenso caminho que foi percorrido com muitas conversas e muita disposição para chegar até aqui. Isa é mais cuidadosa nas palavras, mesmo entendendo que às vezes se fecha. Aline é mais direta, fala sobre o que está sentindo, mas sabe que nem sempre é fácil de se encaixar. Elas contam o quanto, entre todas as dificuldades, a distância até que ajudou em vários processos: antes de viajar elas estavam brigando muito, se sentindo perdidas na relação… assim, faziam chamadas de vídeo, viviam seus momentos individuais, sentiam suas saudades.. sentiram que quando voltaram tudo já estava diferente internamente e externamente. Isa fazia de tudo para tentar trazer Aline pra perto durante a viagem: Contava das novas culturas que estava aprendendo, mostrava os lugares que visitava… Enquanto isso Aline sempre visitava os pais dela em Salvador, mantinha a rotina delas para que tudo estivesse saudável. Era as formas que encontravam de se sentirem mais próximas. Assim, Isa enxerga o amor em todos os detalhes do seu dia: seja com sua família, no seu relacionamento, com os bichinhos… sempre entrega amor em suas versões. Aline completa que, por serem mulheres, sente que o amor precisa ser mostrado em público porque acredita na potência do nosso amor, falar sobre sermos quem somos é mostrar que estamos vivas, mostrar nosso afeto nas redes sociais, para as nossas famílias, vivermos esse amor é algo que nos potencializa. ↓ rolar para baixo ↓ Aline Isabela
- Julia e Eduarda
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Julia e Eduarda, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Júlia e Eduarda estão juntas há 8 anos e no momento da documentação estavam morando em uma casa na Ilha do Governador, junto com seus cães Boris e Caju. Contam sobre quantas Júlias e quantas Dudas já existiram durante esses anos de relação, vidas já viveram e muito amadureceram. Nunca foram pessoas que dão muito valor aos bens materiais - desejando o carro do ano, a viagem mais cara… - suas prioridades envolvem a casa cheia de gente, almoço em família, um domingo recebendo os amigos e as confraternizações em si. Duda conta que quando chegou na família da Júlia descobriu que por lá tudo era ‘muito’. Sempre foram muito unidos, sempre contavam um com o outro para tudo. São pessoas intensas. No relacionamento e na vida em si elas enfrentaram muitos desafios desde o primeiro momento (cuidar dos avós da Júlia, viver com o luto, começar um novo empreendimento em meio à pandemia…) e sentem que tudo isso só foi possível de sobreviver por conta do amor. As relações que mantém são pautadas no amor. E isso está longe de representar algo sempre feliz, mas sim um espaço cabível de erros, que nos dias mais difíceis ou mais rudes o amor continue ali. É uma coisa natural: se sentir aceita da forma que você é. Júlia, no momento da documentação, estava com 31 anos. É natural do Rio de Janeiro e trabalha enquanto professora de matemática e física, dando aulas particulares. Já trabalhou em escolas, mas prefere seguir com aulas particulares porque acredita que cada criança possui uma maneira de aprendizado. Tem vários alunos adolescentes e crianças, entre eles alguns com espectro autista e desenvolve um trabalho específico individual, atendendo suas demandas. Trabalha na cidade do Rio de Janeiro, mas também faz aulas online. No mais, preenche sua semana com a grande paixão pelo Fluminense e não perde um jogo. Eduarda, no momento da documentação, estava com 30 anos. Trabalha enquanto maquiadora, fazendo maquiagens sociais e artísticas há mais de 8 anos. Fez faculdade de teatro, mas acabou num curso de maquiagem e percebeu que a maquiagem sempre esteve presente na sua vida. Além disso, adora diversas outras formas de arte, como pintar, fazer miçangas, artesanato… E também passa bastante tempo cuidando das plantas ou cozinhando. Foi em 2015 que elas se conheceram, por conta de uma amiga em comum que queria muito apresentá-las. Depois que Duda terminou um namoro, elas conversaram pelo Facebook e decidiram se encontrar. Começaram a namorar com o passar dos meses e viviam muito tempo juntas no primeiro ano de relacionamento, até que decidiram morar na casa da família da Júlia. Inicialmente moravam no quarto da Júlia - e a Duda chegou mudando algumas coisas, tirando vários posters do fluminense… afinal, se iria morar lá, precisava estar à vontade no local. Tudo sempre foi muito conversado, ela foi se sentindo parte… e a casa em si foi mudando também. Surgiram demandas para cuidar do avô da Júlia, que estava muito doente, então a mãe acabou indo morar no apartamento ao lado com os avós da Júlia e as duas ficaram no apartamento em companhia do irmão. Foi então que começaram a mudar algumas coisas para além do quarto, sentir pela primeira vez que moravam num lugar delas e que as coisas eram responsabilidade delas. Mas ainda não havia completa noção sobre os gastos, as contas, já que tudo era feito em conjunto - viviam entre o apartamento em que moravam e o apartamento ao lado em que estava o restante da família. Depois de viverem o processo de adoecimento do avô, Júlia perdeu o pai para a Covid-19, em sequência o avô e a avó por outras doenças. Foi uma série de lutos em um ano muito difícil de lidar, principalmente pela avó, que foi algo inesperado e era a mulher que unia a família, uma base de admiração e carinho muito grande. Vivendo o luto entenderam que seria bom morar numa nova casa, ter um espaço só delas, algo que ainda não tinham tido a oportunidade de vivenciar. Respeitaram o processo da mãe da Júlia, que também sofria pelas perdas, e não queriam deixá-la sozinha - a solução foi arranjar um lar pertinho do apartamento, assim podem visitar o tempo todo. Só depois do luto em que vivenciaram, começaram a viver uma relação que era mais focada nas duas - e não que antes elas não vivessem juntas e com todo o carinho envolvido, mas a família sempre foi parte da vida. Contam que quando iam comer um pastel, por exemplo, não era um pastel > eram dez, levavam para todos. Uma pizza não era uma pizza pra elas, era uma pizza pra todos em casa. Sorvete sempre foi uma alegria comprar diversos potes e sabores… A relação sempre foi pensando em todos. Ter um novo lar é reaprender a pensar sobre elas e o que elas desejam. Duda conta sobre uma lembrança de um momento em que quebrou uma coisa na casa da Julia e que começou a chorar, porque na sua criação era muito cobrada para ter cuidado, brigavam se quebrava algo, era ruim, desastroso. Quando aconteceu, a sogra olhou e falou: “É bom quebrar, assim uma hora acaba o jogo e a gente compra um novo!”. Nunca tinha esperado isso ou pensado dessa maneira, foi aprendendo aos poucos a ter uma nova relação com as coisas e valorizar as pessoas. Júlia completa lembrando também do início, conta que para ela é muito importante as pessoas da casa almoçarem juntas à mesa, e que como isso nunca fez parte da criação da Duda, para ela não tinha diferença, às vezes não fazia questão. Isso deixava Júlia muito magoada. Foram alinhando isso, entendendo que era algo importante na relação. Medindo suas criações diferentes enquanto algo que pode somar uma à outra… e assim começaram a estabelecer uma melhor comunicação. Destacam o quanto se apoiam em tudo. Desde o primeiro ano de relacionamento, por exemplo, quando decidiram fazer uma viagem para o Uruguai e Argentina e decidiram que fariam maquiagens artísticas vendendo glitter no carnaval para conseguir bancar, até durante a pandemia, quando se viram sem emprego e fundaram uma empresa de doces que foi um verdadeiro sucesso e o sustento da casa durante um bom tempo. Entendem que precisamos doar o que queremos receber e que ouvir, acolher, são atos de amor também. Enxergam o amor enquanto tempo de qualidade na relação e se esforçam para compartilhar até o que não têm, por exemplo: sorrir num dia que as coisas não estão boas. Júlia cita “mesmo que a gente se embole amanhã, a gente continua sendo a gente” e explica que o amor está nisso, numa dedicação contínua e num entendimento/respeito pelo outro. Por fim, destacam o quanto vivem uma relação baseada no cuidado. Duda arruma os lanches da Júlia antes dela sair para dar aula… às vezes quando Júlia acorda já tem até café na cafeteira com um bilhete ao lado. Isso faz diferença porque passou muitos anos se alimentando mal quando saía para dar aula e agora sente que, para além de saudável, é um gesto que envolve muito carinho. ↓ rolar para baixo ↓ Eduarda Julia
- Fabi e Dani
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Fabi e da Dani, quando o projeto passou por São Paulo! Começo a história da Dani e da Fabi contando um fato que elas me relataram sobre como enxergam o amor e a relação, logo no fim da nossa conversa: elas viveram uma situação em que foram até um bar encontrar alguns amigos, mas uma chegou antes que a outra. Até então estava super divertido… Ria, conversava, e brincava. Quando quem faltava chegou e elas finalmente ficaram juntas, o amigo comenta: “Você estava bem antes. Estava feliz. Mas agora, que ela chegou, vocês se encaixam. É como um brilho que acrescenta. Não faltava, mas agora acrescentou.” - e, assim, talvez consigam identificar muito do amor em pequenos detalhes. A Fabiana tem 41 anos, é natural de São Paulo (capital) e trabalha enquanto bartender, mas já foi da área de eventos e de produção. Ela entende o amor como uma dedicação e um ponto, também, de descanso, porque quando está do lado da Dani está tranquila. Ao longo da vida, a Fabi não teve grandes demonstrações de amor sendo explanadas e colocadas fisicamente - na família ou em outros relacionamentos - por isso a relação dela com a Dani se tornou uma referência. Elas estão sempre relembrando o quanto são importantes uma para a outra. A Danielle tem 34 anos, sua família é de Santa Catarina, mas ela cresceu e vive até hoje em São Paulo (capital). Dani trabalha (e muito!) em uma agência, com mídias e publicidade. É apaixonada por cachorros, convenceu a Fabi de adotar a Nina e a Laka (quando a ideia inicial era a doce ilusão de ter uma cachorra de porte pequeno…) e acredita que o amor está, dentro das relações entre mulheres, de uma forma importante e única. Ela vê o amor no cuidado porque quando pára o mundo para cuidar de alguém, é a melhor forma de demonstrar que ama. E que, quando esse alguém é outra mulher, a doação é muito mais intensa e profunda. Quando a Dani e a Fabi começaram o relacionamento, foi aquele clássico: logo partiram para morar juntas. Mas calma, antes disso tem uma introdução. Elas se conheciam “de vista”, eram colegas de bar. Tinham amigos em comum, mas não conversavam muito. A Dani tinha saído de um relacionamento que não tinha sido legal há pouco tempo, começava a frequentar mais o bar e numa dessas idas a Fabi estava lá. Foram se encontrando, interagindo e num dia, após um evento na Casa 1, se encontraram e conversaram mais (a Casa 1, caso você não conheça, é um centro de acolhimento para LGBTs que foram expulsos de casa - e também funciona como centro cultural e clínica social em São Paulo). Nos dias seguintes se encontraram novamente e beberam bastante. Nesse dia, finalmente os amigos se uniram numa mesa só e no final da noite elas foram dormir no mesmo lugar. Nessa altura do campeonato, a Fabi já sabia que a Dani beijava mulheres também e foi então que o interesse aconteceu. Após ficarem pela primeira vez, a vontade de se encontrar foi surgindo naturalmente e durante as próximas semanas voltaram ao bar algumas vezes. Contam que foi muito natural o começo do relacionamento pela vontade que tinham de estarem juntas. Nessa época, a Dani ainda morava com a mãe, mas elas passavam muito tempo na casa da Fabi e foi então que decidiram pela mudança. O apartamento inicial era pequeno, mas a comunicação entre elas era o principal e sempre fluiu bem. Elas brincam que até hoje, quando acontece alguma briga, os amigos estranham, porque não é tão normal assim. O que elas precisam resolver, se resolve na hora: a comunicação é o mais direto possível para que as coisas sigam seu caminho da melhor forma. Elas entendem também que isso foi devido a um processo interno e individual. A Dani, por exemplo, tinha uma comunicação ruim antes do relacionamento porque guardava muitas coisas para si, mas entendeu que a sociedade já é muito difícil de se conviver e de se estabelecer boas relações. É difícil sermos aceitas, conquistarmos nossos espaços, termos um bom contato… Então decidiu melhorar esse processo da melhor forma que poderia: demonstrando o que sente para deixar as coisas mais claras. Hoje em dia, elas não aceitam preconceitos, discriminações, críticas árduas vindo de quem não as conhecem… Reconhecem o amor delas enquanto algo único e lindo - e reconhecem também o caminho que percorreram para chegar até aqui. Alguns anos (e mudanças) depois, as cachorras chegaram para alegrar ainda mais a casa. A Dani sempre sentiu muita falta de ter um cachorro no lar e a Fabi estava amadurecendo a ideia, então procuraram abrigos e ONGs, decidiram num sábado de manhã cedo ir até uma feira de adoção juntas escolher um cachorro >pequeno<... e, obviamente, os planos foram interrompidos. Na sexta à noite a Dani estava num bar e a prima dela ligou desesperada precisando de ajuda, quando ela chegou para prestar suporte, a cena era: uma cachorra precisando de lar temporário. Acho que o resto nem precisa explicar, né? De pequena não parecia ter nada, principalmente o coração: Nina adotou a Dani e a Fabi na primeira oportunidade. A Laka surgiu um tempo depois, quando a irmã da Dani resgatou e cuidou, postou fotos e a Dani, ao ver, chorou e sentiu que precisava adotá-la. Rimos muito porque a Fabi nem teve escolha, ela tinha se apegado só pela foto. Como diria não? Hoje em dia, elas contam o quanto as cachorras são sensitivas. Elas sabem quando as humanas estão doentes, estão sempre sendo muito parceiras, ficando ao lado e sendo atenciosas. Além disso, no dia a dia, são a diversão da casa e fazem com que tudo fique mais leve. É um cuidado refletido em muito amor. ♥ Entendemos que cada pessoa possui a sua forma de amar. Às vezes o amor não precisa ser sempre demonstrado da forma mais delicada, feminina e romântica. Elas, por exemplo, entendem que possuem a sua forma de amar. É uma forma pura, que vai se moldando com o tempo. É também uma forma muito carinhosa, que envolve admiração, preocupação, brincadeiras, diversão e tantas outras coisas cotidianas. Logo depois da eleição do atual presidente foraBolsonaro, elas sentiram medo e necessidade de reafirmar esse amor, portanto oficializaram a relação com o casamento. Entendem esse ato como um ato político, visto que a nossa união está o tempo todo ameaçada pelo atual governo. Muitos outros casais sentem e sentiram o mesmo no momento em que ele foi eleito, portanto o casamento delas foi um dos exemplos de casamentos coletivos realizados no Brasil. Hoje em dia, são mulheres que seguem enfrentando da forma que está ao alcance os desgastes dessa política que nos ataca diariamente. E enfrentam, também, com afeto. A Fabi explica, por fim, o quanto foi ensinada a ser dura, bruta, demonstrando menos fragilidade nessa vida, mas que aprendeu (e aprende todos os dias) que o afeto está em fazer com que as pessoas que ela ama se sintam bem. É uma forma que ela e a Dani encontram de acolhimento e de estarem compartilhando coisas boas ao redor de quem amam. Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Fabiana Danielle
- Camila e Rafaela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Rafaela e da Camila, quando o projeto passou por São Paulo! Rafa e Camila começaram o relacionamento entre passear no parque, ir em livrarias, tomar cafés e caminhar pela rua. Hoje em dia, compartilham o dia com os filhos da Camila, adoram fazer tatuagens (inclusive possuem algumas juntas), debater sobre leituras (e livros escritos por mulheres), tirar fotos e frequentar o local que nos encontramos. Entendem que o relacionamento (e os processos individuais que viveram no período em que se relacionam) fizeram entender o amor sob uma nova perspectiva. Camila agora enxerga o amor enquanto um fenômeno, uma ação que está dentro de tudo o que você faz. Depois que viveu a depressão passou a ver como abertura de diálogo também, ou seja, amar é conviver com conversas difíceis, passar pelas coisas. Sente que é uma pessoa que se fecha nos momentos ruins e a Rafa vem ensinando ela a se resgatar, voltar e compartilhar as dores também no amor. Rafa complementa, fala que respeita a liberdade. Estar presente nesses momentos não é para invadir qualquer espaço, mas sim dizer: “Tô aqui para o que precisar”. Rafaela, no momento da documentação, estava prestes a fazer aniversário. Como a data já aconteceu, o texto foi lançado no momento em que completou 40 anos. Ela é natural de Santos, litoral paulista, mas reside em São Paulo há mais de 10 anos. Trabalha enquanto tradutora e adora música e fotografia, considera grandes hobbies. Camila, no momento da documentação, estava com 39 anos. Ela é natural de São Paulo e trabalha enquanto produtora de eventos. Brinca que seu grande hobbie é dedicar 100% do tempo aos filhos (de 10 e 7 anos), já que ser mãe é o maior desafio que vive. Enquanto pensávamos em hobbies surgiu a brincadeira de que um grande hobbie é o quanto elas gostam de fazer tatuagens, então contaram a história de uma tatuagem em específico, quando tudo começou indo num sebo e achando um livro da Virginia Woolf com uma dedicatória escrito “E isso é só o começo”. Compraram o livro porque acharam lindo, ficaram com isso na cabeça e, numa viagem para a Patagônia, Rafa escreveu isso num guardanapo e mandou para a Camila. Rafa disse que estava doida para dizer que a amava, mas queria dizer pessoalmente, então acabou mandando só a frase numa foto. Resultado: virou uma de suas tatuagens favoritas. Elas se viram pela primeira vez num parque, mesmo já se conhecendo pelas redes sociais. Conversavam online e tinham uma expectativa em se conhecerem, estavam bastante ansiosas - Rafa até levou um presente e conta que falou sem parar. Saíram com a sensação de “Ufa! Aconteceu! Nos encontramos.” Encontraram-se diversas vezes depois disso, foram passeios em cafés, livrarias, praças… conversavam muito e nunca se beijavam. Decidiram então viajar juntas, foram para Visconde de Mauá (uma viagem feita para um casal, com quarto de casal, no inverno, lugar romântico…) e finalmente se beijaram antes do dia da viagem! Ficaram mais tranquilas, com a certeza de que daria certo. Cerca de três meses depois, se afastaram. Camila se sentia muito deprimida por diversas questões em sua vida e se isolou de muitas pessoas. Passou meses triste, em tratamento, e quando decidiu sair desse espaço, nas palavras dela, “do fundo do poço”, contou para todos o que tinha passado: as violências, a depressão… Expôs isso em suas redes e sentiu que quem gostaria de ficar, quem estaria ao lado dela, ficaria. Na versão da Rafa, ela sentiu um baque muito forte com o afastamento da Camila, mas respeitou e tentou curar isso aos poucos. Depois de meses, quando viu o retorno às redes, decidiu que iria mandar uma mensagem. Não queria surgir ‘do nada’ e lembrou que elas tinham um show para irem, pois compraram os ingressos juntas. Decidiu falar “Vamos no show? Não precisamos conversar sobre coisas pesadas, só curtir”… Camila topou e elas foram. O show era do Harry Styles e Rafa não conhecia nada sobre ele, mas Camila apresentou, até hoje ela gosta e escutam bastante juntas. Foi nesse momento, pós show, que se reaproximaram, então ficaram juntas novamente. Aos poucos foram introduzindo as crianças na rotina - e Camila explica que como já teve experiências se relacionando com outras pessoas depois de ser casada e que se afastar dessas pessoas representa um corte abrupto para as crianças, isso precisava ser alinhado com a Rafa; Que a relação com os pequenos é uma relação diferente, o carinho, afeto e vínculo continuam existindo mesmo se um dia elas terminarem. Rafa compreendeu tudo e foi abraçando isso aos poucos, no começo era uma amiga da mãe, então foi introduzindo afetos, elas foram percebendo, perguntando e ficando à vontade com isso. O dia em que contaram mesmo foi no parque (local que inclusive fizemos as fotos), elas estavam sentadas bebendo um vinho, as crianças correndo brincando, um dia bastante frio e todos estavam bastante felizes. Hoje em dia, a Rafa e eles dividem muitos gostos em comum, por exemplo futebol, curiosidades sobre sistema solar… Camila, quando fala sobre a vida socialmente, conta o quanto gostaria de ver o programa educacional mudando, entende que hoje em dia perdemos muito das coisas que realmente devemos aprender. Queria ver as pessoas respeitarem as diferenças de seus filhos, não fazendo-os entrar nas caixinhas. Cita sobre o problema que a filha enfrenta aprendendo a leitura e a escrita, se sentindo algumas vezes excluída, enquanto ela tem muitas coisas incríveis que sabe fazer e que poderia ter isso sendo explorado e valorizado. Deseja ver ela sendo respeitada por completo. ↓ rolar para baixo ↓ Rafaela Camila
- Inara e Juliana | Documentadas
Inara estava com 25 anos no momento da documentação. É natural do Rio de Janeiro, mais especificamente do Morro da Providência, onde fizemos as fotos. Lugares como a Gamboa, a Pedra do Sal e a região boêmia do centro fazem parte do seu lar. Hoje em dia está terminando a faculdade de direito, é uma mulher que ama samba, ama estar com a sua família e principalmente com o seu pai, que já tem 73 anos. Juliana também estava com 25 anos no momento da documentação. É natural do Rio de Janeiro, da zona norte, cursa faculdade de fisioterapia e trabalha com agendamento de exames e outros processos clínicos. Tem gostos muito semelhantes com Inara: adora samba, sua família está sempre em primeiro lugar e é muito ligada ao pai - mesmo ele morando na mesma rua que a mãe, então ainda que separados, tudo é muito próximo. Passou por um processo de aceitação um pouco mais delicado dentro de casa, mas fica muito feliz em entender o quanto está evoluindo, ainda mais por levar Inara e ver ela sendo acolhida, a família perguntando por ela, desejando a presença dela em casa… Isso a faz muito feliz. Foi numa festa de natal durante a pandemia de Covid-19 que Inara contou para a família que se relacionava com mulheres, se assumindo enquanto uma mulher bissexual. Dois anos depois, em 2022, começou o relacionamento com a Ju. Até então, a família achava que talvez fosse uma fase, que ela beijaria mulheres longe de casa, que não seriam relacionamentos sérios… mas ao assumir a relação, algo mudou na forma que lidavam, era um posicionamento, um namoro que desejavam levar à sério e serem respeitadas por isso. Através de um aplicativo de relacionamentos Inara e Ju se conheceram. Inara lembra de ter visto a foto da Juliana no aplicativo, mas passou, não tinha como voltar, e resolveu procurar ela nas redes sociais. Não seria assim fácil encontrar, obviamente. Mas o que ajudou foi o fato de terem amigos em comum. O melhor ainda, é que suas famílias se conhecem há muito tempo, então não são “qualquer” amigos em comum, são pessoas muito próximas… Então, de alguma forma, elas sempre estiveram nos eventos de família uma da outra, mas não se conheciam. Eram 6h da manhã, de sábado para domingo, quando Inara resolveu mandar uma mensagem para Ju dizendo que sentia que tinha que chamar, explicou que havia encontrado o perfil dela no app, mas não conseguiu dar “like” lá, então foi procurar ela nas redes. Poderia ser uma mensagem super estranha, até deixou claro que se fosse estranho ela nem precisaria responder, e nem esperava que Ju estivesse online neste momento. Mas ela estava… Saindo de uma festa. Estranhou a mensagem, claro, mas respondeu. No dia seguinte, quando começaram de fato a conversar, descobriram todas as ligações em comum. Para além das pessoas em comum, Ju e Inara possuem muitos gostos e estilos de vida semelhantes. Desde o primeiro encontro foram vendo suas vidas combinarem, sentiam que se conheciam há muito tempo. No segundo encontro já estavam falando sobre o nome da filha que queriam ter, Ana Lua, por conta de uma música - igual o de Inara, que também é por conta da música - e que elas adoram. E cerca de dois meses seguintes teria o show do artista que canta Ana Lua, Armandinho, então elas já combinaram de ir. Explicam que foi tudo junto: mesmo estando no momento inicial da conversa, saíram fazendo planos a curto, médio e longo prazo. O primeiro mês foi um mês de entendimento e de deixar a paixão acontecer. Queriam namorar oficialmente depois do show, em dezembro, e ambas estavam com a mesma ideia de pedir. Acabaram fazendo surpresas, alugaram um espaço para viver o dia do show, fazer churrasco, curtir um samba - lá fazer um pedido de namoro - e durante o show fazer outro pedido também, na música Analua. Assim, as duas fizeram o pedido, cada uma em um momento, tornando mais especial. Entendem que nesses dois anos de relação muita coisa já está diferente, amadureceram muito pela forma que aprenderam a lidar com a família, as pressões sociais e a própria correria que a vida demanda. Reconhecem as evoluções - o pai da Inara que, com 73 anos, as acolhe nessa adaptação… a mãe da Ju que mudou muito nos últimos anos… Contam que no último dia dos pais reuniram as famílias e que foi um momento muito representativo, não só pelo valor que dão aos seus pais, mas principalmente por ter sido uma iniciativa deles. Foi um momento que ambas choraram muito e que viram ali uma quebra de preconceitos grandiosa acontecer pela vontade maior de estarem todos juntos. Tentam deixar o tempo fluir, não forçam a aceitação o tempo todo, assim as coisas vão acontecendo no tempo que as pessoas conseguem processar. Ju explica que o amor que elas vivem fica refletido no quanto estão felizes e no quando se impulsionam a crescer. A família entende esse amor porque é nítido no carinho, no tratamento diário. Resultado disso é esse esforço genuíno de estarem próximos, assim como acontece nas datas comemorativas que as famílias se juntam, ou nos momentos que percebem o esforço de cada um quebrando aos pouquinhos o preconceito em nome de demonstrar o amor, o orgulho, o respeito que existe amando a pessoa como ela é. Não é algo que surge ‘do dia pra noite’, mas uma linha do tempo que o relacionamento está criando ao longo desses dois anos. ↓ rolar para baixo ↓ Inara Juliana
- Renata e Hinde
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Renata e Hinde, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! < Documentei a Hinde e a Renata num espaço muito querido para elas e para todos que frequentam (e já frequentaram), no Rio de Janeiro: a Feira da Glória. Passamos algumas horas do nosso domingo lá, em meio à feira, ao samba, aos artesanatos, às crianças, ao movimento de uma festa junina que acontecia por perto e ao público que passava de um lado para o outro. Hinde e Renata não se conheceram no Brasil, Hinde, inclusive, não é brasileira - veio do sul da França para cá por conta do amor que sente pela Renata. E é na Feira da Glória que ela adora provar comidas novas, comprar roupas e descobrir o que os cariocas chamam de shoppingchão: os produtos dos ambulantes espalhados pelos chãos das ruas. O tempo que passam juntas aos domingos servem para conhecerem mais uma a outra e também para ressignificar o que sentiam sobre a pressão de trabalhar nas segundas-feiras. Agora, longe do celular, curtem mais o tempo juntas, bebem uma cerveja, aproveitam a música, o ambiente e os amigos (que sempre surpreendem a Hinde no quesito: “como podem os brasileiros serem culturalmente tão sociáveis?!”). Foi durante o intercâmbio da Renata que ela conheceu a Hinde, em agosto de 2018. O intercâmbio era em uma cidade muito pequena e tradicional, no sul da França, e a chegada da Renata sendo a primeira brasileira a estudar por lá foi algo que despertou certo interesse nos franceses, por ela ser uma mulher que se impõe perante os desafios: é jovem, assume sua bissexualidade, traz consigo as pautas que acredita e dá suas opiniões quando preciso. Logo no início, um grupo de amigos se criou: um garoto que era apaixonado pelo Brasil e que virou amigo da Renata logo de cara, ela, mais algumas pessoas e a Hinde. Ela se sentia um pouco deslocada, achava a cidade pequena demais e as pessoas jovens demais, mas seguiu em frente. Com o tempo eles foram se dando bem, indo para diversas festas juntos e em algumas festas, quando ela e a Hinde estavam bêbadas, elas se beijavam. Hoje, a Hinde brinca: “O que é um ‘date’ para uma carioca? Você não sabe! Não dá para entender o que os cariocas sentem!” referindo-se àquela época, nunca entender o que a Renata queria. Aos poucos, a Renata sentia uma certa paixão pela Hinde acontecendo, mas como era algo que só se beijavam em festas e mantinham uma amizade nos outros momentos ela não deixava passar disso - e também não tocavam nesse assunto. Durante todo o intercâmbio foi assim. Nesse meio-tempo, a Renata chegou a se envolver com uma menina, o que até diminuiu esperanças na Hinde, mas não durou muito tempo e inclusive no momento de “término” elas trabalharam juntas em um evento. Neste dia, passaram muito tempo conversando, rindo e interagindo e a Renata disse “eu te amo” para a Hinde. Isso a pegou de surpresa, não imaginaria ouvir, assim, dessa forma. E tudo ficou muito suspenso, não tocaram no assunto depois, seguiram naturalmente. Nas festas seguintes continuaram se beijando quando estavam embriagadas e mantendo amizade sóbrias, até que, no fim do intercâmbio os jogos universitários aconteceriam e depois disso a Renata iria para Paris, comemorar o seu aniversário, e voltaria ao Brasil. Elas viveram os jogos e no fim, ao se despedirem na estação, entenderam que não se encontrariam mais. Choraram muito, se abraçaram e deram o primeiro beijo estando sóbrias e em público. Depois da despedida a Hinde chegou a conversar com a mãe dela pelo telefone, ainda chorando muito e a mãe tentou a acalmar um pouco, mas não entendia tanto o motivo de tamanha tristeza. Acabou que, ao chegar e viver os dias em Paris, a Renata decidiu não voltar ao Brasil após o aniversário. Conseguiu transferir a passagem e passou o verão por lá, trabalhando em sorveterias, sendo babá… Alugou um apartamento e viveu de freelancers durante a temporada. Durante o verão em que a Renata continuou na França, ela e Hinde conversaram muito pelo celular e se sentiram muito próximas, coisas que não costumavam fazer com outras pessoas. Essa frequência de se falar todos os dias fez com que surgisse uma nova vontade de se encontrarem. Logo após o verão, a Hinde precisava arranjar um projeto para ser voluntária por conta da faculdade, então ela encontrou um que conversava com o que precisava apresentar e que era localizado próximo de onde a Renata morava. Elas conversaram e a Renata topou hospedá-la por um tempo, para que ela conseguisse realizá-lo. Hinde comprou as passagens, foi para lá e depois de 15h de viagem chegou, usando vestido amarelo e salto alto (!!!). A Renata trabalhava em uma loja de souvenirs e a Hinde esperou ela sair para irem beber vendo o pôr do sol. Quando elas estavam juntas, ela cantou uma música que se chamava “I Wanna Be Your Girlfriend”, tomaram vinho na garrafa e não entenderam direito o que estava acontecendo, sentiam que eram amigas, mas ao mesmo tempo, o sentimento se misturava com outro. No dia seguinte, Hinde passou num brechó e viu um anel lindo, comprou e decidiu tomar a decisão que queria há tempos: pediu ela a Renata em namoro. Ela aceitou e foi assim que começaram a namorar. Mas tinha um problema: Renata só tinha mais dez dias na frança, ela precisava voltar ao Brasil para terminar a faculdade e já estava com a passagem marcada. Os dez dias aconteceram e foram incríveis. Viveram dias maravilhosos, muito felizes e a Renata voltou ao Brasil. Nessa volta, elas passaram 6 meses distantes. Se falavam todos os dias, mas não tinham ainda previsão de se encontrarem. Foi quando a Hinde decidiu fazer seu passaporte e comprar uma passagem para vir ao Brasil. Nessa mesma época, no dia da visibilidade bissexual, ela contou para a sua família sobre quem ela era, como ela se sentia e sua mãe perguntou: “É aquela menina brasileira que você está namorando?” por relacionar desde o dia em que ela chorou com a despedida da Renata na estação algum sentimento a mais que elas sentiam uma pela outra. Por mais que num primeiro momento a família não tenha tido uma boa reação, a mãe dela a apoiou e disse que era um ato muito corajoso o que ela estava tendo em se assumir e que admirava isso. Foi então que a Hinde veio ao Brasil em 2019 e, logo depois, no começo de 2020 a Renata voltou para a França para passar uns dias. Ela conseguiu voltar ao Brasil antes da pandemia fechar os aeroportos por aqui, mas começou um novo momento muito difícil entre as duas, que era entender que meses as separariam pela incerteza de quando iriam se encontrar novamente. O trabalho da Renata cobrava muito dela durante a pandemia, foram meses puxados e o fuso-horário entre ela e a Hinde não colaborava em nada. Foi então que ela se formou, conversou com o chefe e antes do ano encerrar e conseguiu uma ida para a França, tanto para desenvolver o mestrado por lá, quanto para encontrar a Hinde: ficaram dois meses juntas. Na volta, a Hinde retornou ao Brasil e seguiu aqui até nos encontrarmos. Hoje em dia os planos estão baseados nas duas se mudarem para a Europa, tentando estudos em Barcelona ou em novos caminhos que ainda chegarão por aqui. ♥ Atualmente, a Hinde está com 21 anos. Ela estudou ciências políticas e está se graduando. É natural de Saintes, mas também morou em Bordeaux. Independente da faculdade, seu sonho e seu maior talento é ser cantora. Quer viver da música, pagar suas contas, ser feliz no seu trabalho, se desenvolver na sua carreira através da sua voz. Ela acredita que todos os artistas possam ter direito de viverem da sua arte, não só os que já nasceram com o privilégio financeiro, e gostaria de ver artista pobre sendo reconhecido pelo o que ele é, por toda a arte que ele têm a oferecer. Renata está com 24 anos, é natural do Rio de Janeiro, economista e trabalha com avaliação de políticas públicas. Além disso, faz parte de um projeto que conecta mulheres vereadoras e prefeitas às mulheres academicistas, oferecendo cursos de capacitação nos projetos a se desenvolver, e também está ajudando na reforma da graduação de economia da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). Renata acredita que para mudar as coisas é preciso incorporar mulheres no orçamento público: um orçamento que olhe para mulheres trabalhadoras, homens que reconheçam suas paternidades, mulheres que sejam representadas pelas políticas públicas e mulheres que estejam ocupando cargos nos poderes públicos. Quando falamos sobre todos os momentos difíceis que passaram, como os primeiros seis meses distantes logo depois de terem os primeiros dez dias namorando, elas explicam que o que sempre as mantinha seguir em frente e suportar a distância, a rotina longe, ver os amigos e não ter uma-a-outra por perto, era manter o pensamento de “logo ela vai estar aqui comigo”. A Hinde brinca que esse pensamento na Renata era tão presente que quando ela chegou no Rio, se sentia famosa: a Renata contava para TODOS os amigos dela quem a Hinde era e todos já conheciam ela antes dela chegar (e ansiavam por isso). Se sentiu muito amada e acolhida. Elas entendem que sempre foram muito amigas e isso também colaborou para que as coisas dessem certo. Nos momentos difíceis o sentimento que surge é o de não parar, não estagnar, sempre dialogar, desenrolar… mesmo na hora da briga, não se deixar esfriar. A distância dificulta porque o físico não existe, então tudo gira em torno da conversa, da chamada de vídeo e da saudade, mas isso reverbera quando se encontram e tudo gira em torno de muito afeto e movimentos para que nada estrague, que não existam desavenças e todos os segundos sejam aproveitados. Elas sentem que estão sempre sorrindo juntas e que isso também é amor. As piadas em várias línguas e linguagens diferentes e o quanto se divertem. Para a Renata, o relacionamento dela com a Hinde significa estar em paz. Elas estão em paz entre elas e ela está em paz com ela mesma. Hinde Renata
- Talita e Anne
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Talita e da Anne, quando o projeto passou por São Paulo! Talita e Anne acreditam que, depois de batalhar tanto por esse amor, o relacionamento que possuem hoje é o único que aconteceu de forma saudável na vida delas - e por isso, mas não só, é o melhor. O amor é a base de tudo o que fazem e nele está a presença, a paciência, o acolhimento.. Não querem passar raiva. A paz que encontram juntas não trocam por nada. É com os passeios dos cachorros na rotina que detalham vivenciar na casa “do meio do mato” que elas sorriem contando sobre o amor. Pensam como sempre desejaram isso: viver com alguém que aceitasse a forma como são. Pela religião que eram inseridas, acreditavam que isso não era possível - não para elas. Sempre foi negado. O encontro que possuem e o fato de terem achado seu lugar no mundo é sempre um motivo de celebração. Sobre a religião, Talita lembra do dia que a mãe dela perguntou no telefone como a Anne estava. Era um ato simples, mas a validação da existência da Anne, sabendo a importância que ela possui para a Talita, mesmo existindo o preconceito, foi o divisor de águas e um dos maiores atos de amor. Tanto Anne, quanto Talita e suas famílias eram da igreja petencostal Congregação Cristã (mas calma, não foi lá que se conheceram). Acredito que essa é uma informação bastante relevante porque a Congregação é uma das religiões mais conservadoras do Brasil. Suas famílias seguem frequentando a igreja (e comentam que isso, inclusive, aproxima as mães que perguntam uma sobre a outra), mas acreditam que foi justamente por conta do grande tabu e do próprio preconceito contra seus corpos que demoraram tanto para se entender enquanto mulheres que amam outras mulheres. Anne, apenas aos 32 anos de idade, conseguiu sentir coragem de assumir que estava num relacionamento. Até essa idade, tratou namoradas como amigas, não enfrentou ninguém da família e teve medo. Precisou de muita coragem, ter 100% de sustento e independência para conseguir falar sobre. No primeiro momento, a mãe ficou bastante triste. Dois anos depois, conheceu Talita e hoje em dia elas se amam, passam dias juntas e possuem uma ótima relação, mas entende o quanto o processo foi longo, resgata tudo isso com muito pesar. Talita também demorou para entender e aceitar o que estava vivendo, até mesmo conversar com suas amigas, sua psicóloga, mudar o Tinder para “mulheres” e não “homens”. Foi só aos 32 anos que conseguiu se permitir. Anne comenta que na igreja falavam em tom de alerta que as meninas lésbicas chegavam fazendo carinho no cabelo para seduzir as meninas héteros e levar para um caminho ruim… e acrescenta sobre a solidão em que passou por tudo isso: “Quem me dera se alguém tivesse me feito um carinho no cabelo quando eu era jovem”. No momento da documentação, Talita estava com 34 anos. Ela é natural do sul de Minas Gerais, mas mora em Campinas há vários anos, quando se mudou para estudar. De qualquer forma, sua família ainda mora em Minas, numa região bastante próxima de São Paulo, então brinca que é mais paulista que mineira. Hoje em dia, ela trabalha enquanto jornalista e funcionária pública, adora tirar fotos de natureza e bichos, também escreve para uma revista de engenharia elétrica. Anne, por sua vez, estava com 37 anos no momento da documentação. Ela é natural de Campinas, interior de São Paulo. Trabalha enquanto técnica judiciária e vai se formar em direito em 2024. Anne adora cozinhar, plantar e formar jardins. Possui um hobbie do qual mistura raízes, descobre novas plantas e até faz uma espécie de alquimia, com raízes, plantas, álcool… Mora em uma casa grande, então adora pesquisar, encontrar plantas em extinção e plantar, cuidar, descobrir cheiros, sabores e espécies brasileiras. Anne também é apaixonada por romances lésbicos - os brasileiros, já leu todos - e está desbravando internacionais… são mais de 150 livros lidos. A história delas começou por conta de amigas que tinham em comum (mais especificamente, a prima da Anne), mas não sabiam da existência uma da outra. Foi em 2019 num aplicativo de relacionamento, que de fato, se conheceram, descobriram as amizades que ligavam, conversaram, se acharam interessantes e decidiram se encontrar. Adoravam a mesma cantora em comum (que não era alguém conhecida), a Anne apareceu na casa da Talita cheia de sacolas com comidas, estavam grudadas demais em pouco tempo e… quando viram já estavam apaixonadas. Quando a pandemia começou elas quase não se encontravam. Anne ia até a prefeitura onde Talita trabalhava, elas sentavam uma ao lado da outra em um banco, ambas de máscara, ficavam conversando, mas havia muito medo do Covid-19. E assim seguiram por meses. Hoje, enxergam tudo diferente. Sentem que estão num período muito bom. Possuem seu relacionamento de forma assumida, se sentem livres para viver esse amor. Talita explica que por mais doloroso que tenha sido, foi bonito também… Entende que existiu respeito. De alguma forma, a família passou por cima da fé para acolher elas… E isso foi muito importante. Em muitos momentos difíceis, Anne se isolou para passar por eles de forma sozinha e Talita teimou em estar junto. Tentava sempre explicar que queria estar em todos os momentos - nos felizes e nos tristes - e que não adiantava ela se reclusar. Hoje, Anne não faz mais os movimentos de sair. Ela explica que não teve mais momentos tão tristes, mas que mesmo se tivesse, já se acostumou com a Talita enquanto companhia e vai querer a companhia dela para dividir a dor. Numa pausa, ela conta como enxerga Talita enquanto uma mulher muito forte. Talita rebate, diz que ela não é forte, só não pensa muito, vai lá e resolve. Sempre se viu assim, muito prática. Anne completa: “É forte.” Na rotina, elas dividem o tempo entre ficar no apartamento da Talita e na “casa do mato” da Anne. Lá, adoram passear com os cachorros, ficar no sofá assistindo filme e dormindo. Talita ajuda a sogra a fazer ‘Duo Lingo’ (porque está aprendendo inglês), organizam as coisas da Anne (que é bagunceira) e Anne faz comidas gostosas. Por fim, adoram viajar juntas (e começaram a viajar no começo do namoro, o que era novo para as duas). Entendem que o namoro foi intenso desde o começo, talvez foi por isso que deu tão certo. Talita conta que gosta de como tudo aconteceu, de como estão agora, das amizades dela (várias amigas senhoras de idade, acha isso o máximo e Anne brinca zoando ela) e do cotidiano bastante caseiro que possuem enquanto um casal. ↓ rolar para baixo ↓ Talita Anne
- Sharon e Vivian | Documentadas
Amor de Natureza - Sharon e Vivian clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Taynah e Estrella
Particularmente falando, fazer o texto da Taynah e da Estrella foi um dos mais difíceis que já fiz no Documentadas, visto que a Taynah é uma das minhas melhores amigas (e inspirações!) dessa vida. Desde muito antes de lançar o Documentadas eu compartilhei com ela essa ideia, quando o projeto ainda não tinha nome (ou pior, tinha um nome bem ruim, rs. fases). Além disso, sempre brinquei também: “Agora você precisa arranjar alguém para aparecer no site, né amiga?!” Pois bem. Fui embora de Porto Alegre no dia 7 de março de 2021 para que o Documentadas lançasse no dia 10, no Rio de Janeiro. Naquele dia, a Estrella tinha acabado de chegar na casa da Taynah e foi naquela semana que o relacionamento delas começou. Hoje, subir essa história na plataforma e ver minha amiga de tantos anos, que admiro e que representa tanto na militância lésbica brasileira, com sua companheira, amando e sendo feliz, é, para mim e para todas nós, sim, um marco muito potente. Que vocês sejam felizes e que amem muito! ♥ Agora que já dei uma breve introdução sobre o assunto, rs, posso também dar uma introdução sobre quem é a Taynah e quem é a Estrella. A Taynah estava com 25 anos no dia que fizemos as fotos. Ela trabalha como militante, política há muitos anos e representa o PSOL em espaços como a Assembleia Legislativa. Dentro do partido, ela fica responsável pela produção de eventos e diversas outras tarefas. Ela é natural de Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre. Toda a família mora em um sítio e ela brinca que fugiu de lá para militar. É toda da área de exatas, mesmo debatendo o tempo todo ciências políticas. É também uma pessoa bruta, muito justa, com um jeitão fechado, mas um coração gigantesco que na primeira oportunidade tá soltando uma gargalhada. A Estrella estava com 23 anos no dia que fizemos as fotos. Ela é estagiária de direito e também atua o tempo todo enquanto militante. Nasceu em Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul, e por mais que grande parte da sua família mora lá, ela reside em Porto Alegre. Estrella adora coisas manuais, como tricotar e bordar. Também adora passar parte do dia com os seus cachorros, o Banguelinha e o Guri. A Estrella conta que tem como referência uma amiga, a Carlinha, que é amiga de militância e uma figura importante na vida das duas (não só enquanto um casal), é alguém que a inspira. A Taynah completa que para ela, as referências femininas estão por perto também, são a Gabi e a Mari, duas dirigentes que possuem um nível de militância e organização política que ela almeja ter. Foi impossível desvincular nosso papo do dia a dia militante em que elas estão inseridas. Foi na militância que elas se conheceram. Não lembram o momento em si porque foi cotidiano, há bastante tempo atrás. Mas foi um pouco antes do ano novo, já durante a pandemia, que elas se aproximaram. Um grupo de amigos em comum, do mesmo coletivo, não tinha onde passar o ano novo porque estavam num momento ruim financeiramente. Eles já se encontravam na casa da Taynah com frequência porque ela costuma receber amigos, mas não queriam ficar lá durante a virada de ano. Alguns desses amigos jogavam vôlei na orla do guaíba para movimentar o corpo durante a pandemia e teve um dia que a Estrella apareceu por lá... Depois do volêi foram todos para a casa da Taynah e ficaram jogando UNO, lá, elas contam que a Estrella deu a “primeira pedrada”, ou seja, lançou o primeiro flerte. Assim, de cara. Na época ela estava saindo de um relacionamento, colocou um ponto final. Nisso, o pessoal passou um tempo reclamando de relacionamentos, ou melhor, de homens. Foi aí que a Taynah falou, “Ah, com mulher também não é fácil!’’ e a Estrella respondeu “É, porque tu não namorou comigo ainda.” e depois de soltar isso ela foi embora. Sim, ela só falou isso quando já estava indo embora. Os amigos até se assustaram de tão direto que foi. Uns dias depois desse susto na saída, chega o famigerado ano novo. Todos foram para uma casa do irmão da Taynah, próximo do sítio em que a família dela mora. Eles chamaram os amigos e a Estrella foi incluída na lista. No último dia do ano novo elas ficaram, numa brincadeira de verdade ou consequência que foi a maior armação dos amigos (afinal, quem tem amigo, tem tudo né). [Eu, enquanto amiga, saindo um pouco desse caráter documentário, posso afirmar que só recebi uma mensagem dizendo assim “Amiga, a gente tem que fazer uma chamada pra eu te contar do Ano Novo!” E respondi com certo receio sabendo do histórico… “Aí… O que aconteceu?” “Aí, muitas coisas” (Risos). Então eu falei “Taynah, tenta dar uma explicada…” e ela foi me contar de CERVEJA. Posso com isso? Quando ela falou o nome da Estrella passei a entender tudo.] Um tempo depois, elas se encontraram novamente, no fim de janeiro, na casa de uma das amigas em comum, mas não se beijaram. Foram enrolando a situação por mais um mês, até que a Estrella foi novamente para a casa da Taynah, exatamente com as pessoas que estavam no ano novo, e finalmente elas ficaram. A partir do momento que elas ficaram, nunca mais desgrudaram. Foram ficando dias e dias juntas, a clássica história da paixão arrebatadora. Inclusive, existiu um super elaborado pedido de namoro, com a participação dos amigos [eu, Fernanda, que escrevo, inclusive, participei] muito lindo e brega. É muito interessante e legal revivermos o brega, de um jeito ótimo, do pedido de namoro, visto que a Taynah sempre teve um bloqueio de não se jogar de fato nas relações, no sentido de sempre ser muito racional. O bloqueio chegava a ser um certo ranço de casais muito apaixonados, dizia que nunca iria viver algo desse tipo. Quando eu falava para ela aparecer no Documentadas, era uma gargalhada e um sinal negativo com a cabeça… E agora ela conta que é um relacionamento totalmente diferente do que já pensou viver. A única dificuldade encontrada é no trabalho e na militância excessiva, por conta das demandas de reuniões até tarde e espaços pequenos para estarem juntas. A Estrella brinca dizendo que às vezes elas precisam marcar na agenda… Marcar e dar uma enrolada, pra dar mais tempo de poder ficarem juntas. Sobre isso, especificamente, elas entendem que vivem fases diferentes dentro da própria militância, a Estrella está no que chamamos de “juventude”, que é algo muito mais dinâmico. A Taynah entende que ela tem que passar por essa parte do trabalho, viver e aproveitar mesmo, inclusive porque não é um problema pra ela militar demais, que admira e também trabalha, mas que precisam entender os limites delas também para que possam ficar juntas um tempo. Esse limite está em não pegarem no celular quando estão aproveitando o tempo unidas, terem um vínculo de conversas ativas, de aproveitar o que gostam e de se doarem à relação. Estão sempre bebendo uma cerveja juntas, jogando um UNO com os amigos, cuidando dos cachorros, jogando jogos online e assistindo Greys Anatomy ou outras séries. São momentos só delas, que elas fazem de tudo para aproveitar esses detalhes. Dentro da militância LGBT, a Taynah teve muito contato com diversos âmbitos diferentes sobre as nossas pautas e ela fala da importância de coisas mais básicas, como a escola e a educação para a diversidade, desde coisas mais pontuais, como os abrigos para LGBTs expulsos de casa. Ela entende a necessidade de um abrigo que dê teto mas que também forneça formação, atendimento psicológico e social, faça o trabalho completo. E um serviço que seja feito pelo estado, por mais que existam ONGs, isso precisa ser oferecido pelo estado! Precisa ser visto como um direito. A Estrella fala sobre esse ser o primeiro relacionamento dela com uma mulher e como isto abriu o olhar para algo dentro da própria maneira de militar, porque ela sempre foi do movimento feminista, mas nunca atuou diretamente em pautas LGBTs. Quando a Taynah falou sobre os abrigos para LGBTs, na mesma hora ela pensou sobre e chegou à conclusão de que no Rio Grande do Sul só tem 14 casas para abrigar mulheres, enquanto LGBTs não há nenhuma. “E a mesma importância que eu dou hoje pra mulheres, porque é onde tô mais inserida na militância, seria o mesmo apontamento que eu daria pra LGBTs porque eles sabem da realidade serem expulsos de casa e não terem nenhum tipo de assistência, seja familiar ou social.” Por fim, para a Estrella, o amor está muito baseado na compreensão, no respeito e na confiança. A compreensão de entender as necessidades do outro, entender o que o outro está passando e querer ajudar. Sem que isso seja uma obrigação, mas por querer ver a pessoa bem. Independente da pessoa ser namorada, amiga ou família. Respeitar a própria personalidade da pessoa, saber respeitar, lidar e mediar. A Taynah conta que por ser uma pessoa lida enquanto bruta, ela nunca encontrou o amor no afeto carinhoso. “Acho que o amor é muito mais na doação do que tu tem em relação a outra pessoa. Então por isso, concordo muito com a Estrella sobre a questão de fazer com que a pessoa se sinta bem, de evitar magoar as pessoas ou se doar mesmo de uma forma pra sociedade, né?”. Ela fala que enquanto vivermos em sociedade, estamos sempre compartilhando, mesmo que num mundo que compete o tempo todo. “Pra nós é diferente o afeto que é ensinado e colocado. Eu acho que é uma coisa totalmente diferente, e eu apesar de ser uma pessoa muito racional, também sinto muito. Sou uma pessoa que sente bastante. Acho que talvez o amor entre mulheres seja um amor revolucionário de fato. Não só de uma frase feita, né? É uma relação onde tu tem que te explicar o tempo todo, te afirmar o tempo todo e por isso acho revolucionário mesmo. Porque tipo, eu já milito há oito anos e faz sete que eu saí do armário e eu não vivi um dia até hoje onde eu não tivesse que me afirmar.” Estrella Taynah
- Ari e Ane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Ari e da Ane, quando o projeto passou por São Paulo! O encontro da Anelise, da Ariana e dos gêmeos Liz e Lucca com o Documentadas aconteceu num momento bem inicial da vida dos pequenos, antes mesmo de completarem 4 meses, num parque em São Paulo. Com entusiasmo, elas contam sobre como tem sido a vivência inicial da maternidade em dupla e como já ouviram diversas vezes as pessoas falando sobre os dois serem sortudos em ter duas mães. A partir do que vivem agora perceberam que qualquer mãe em um relacionamento heterossexual passa a ser uma mãe solo pelas necessidades básicas que enfrenta, muitas vezes sozinha/sem apoio para dividir intimidades - precisa fazer xixi, tem diversas questões com o corpo (a amamentação, o pós parto) - e como é diferente positivamente compartilhar isso com outra mulher na dupla maternidade, não é algo solitário. Também compartilham medos e situações inesperadas, como as primeiras noites, os choros e os momentos difíceis. Sabem que podem contar uma com a outra. Entendem que querem proporcionar coisas diferentes para as crianças, coisas que as famílias héteros talvez não precisem se preocupar porque não precisaram passar pelos desafios que passamos. Querem criar crianças conscientes. Ari comenta que viver a maternidade sem vincular à política é quase impossível, principalmente porque a fertilização de casais homoafetivos pelo SUS não é possível, o acolhimento do sistema único de saúde precisa melhorar, precisamos de representatividade, desde fisioterapia para a gestante até enfermeira que fale sobre amamentação. Ane completa que só está ali hoje porque brigou muito pela licença maternidade, mas que não deveria brigar, e sim ser lei, para então termos maneiras mais justas de vivenciarmos nossas formas de amor. Ane e Ari se conheceram em 2016. Ane sempre foi festeira, morava próximo à Av. Paulista e tinha uma vida agitada. Ari terminava a residência médica. No meio da semana, num feriado, Ane foi ao show da Preta Gil e Ane trabalhava no Hospital da Santa Casa, quando se cruzaram num aplicativo de relacionamento que funciona pela distância física (quando as pessoas passam uma pela outra em lugares próximos, elas aparecem no aplicativo). No dia seguinte, Ane acordou de ressaca e viu a Ariana no aplicativo. Deu um superlike, assim, apareceria logo que a Ari abrisse o app. Acabaram dando match - e afirmam que se não fosse essa “chamada de atenção”, provavelmente não teria rolado, já que Ari nem dava bola para os aplicativos (e nunca tinha saído com alguém assim). Decidiram sair, foram em um restaurante que não combinava nenhum pouco com elas, comeram salada e depois atravessaram a rua para ir num pub, que também não combinava com elas, mas ao menos tinha cerveja. Deu certo! Tudo fluiu e continuaram se encontrando aos poucos. Depois de dois meses, Ane estava com uma viagem agendada com um amigo para Cuba e chamou Ariana para ir. Ari recém tinha acabado a residência, estava querendo viajar e topou. Decidiram ir juntas e já entenderam que estavam se relacionando. Depois de um tempo de relacionamento, mas ainda no começo, Ane recebeu uma proposta de trabalho muito boa, porém que precisaria se mudar para Porto Alegre. Pensou muito, Ari apoiou, a encorajou, mas acharam que o relacionamento não iria durar pela distância. Ane acabou indo, morou lá por dois anos, e elas se encontravam aos finais de semana quando conseguiam, fazendo a ponte aérea POA X SP e usando uma manutenção diária para manter o relacionamento de todas as formas. Contam que não foi fácil, existia a saudade, a vontade de estar junto… Mas nesses momentos se usa todas as alternativas possíveis: se davam mais presentes, bilhetinhos, dedicatórias, chamadas de vídeos, aproveitavam 100% do tempo quando estavam juntas… Ari acrescenta que mesmo sendo pessoas diferentes, quando se conheceram, já se viam de formas completas. Isso auxiliou muito nesse processo. Já tinham suas profissões (e eram valorizadas), já valorizavam uma à outra, tinham suas redes familiares, seus amigos… Então tudo foi muito mais fluido, as cobranças quase não existiram. Depois dos dois anos em Porto Alegre, voltando à São Paulo, juntaram os animais de estimação, os móveis, a casa, e foram morar juntas. Anelise estava com 35 anos no momento da documentação. Ela é do interior de São Paulo, mas mora na capital há muitos anos e trabalha como advogada de empresas. Hoje em dia, o tempo livre é 100% ocupado pelos pequenos, mas também gosta de ir em rodas de samba, tocar violão e assistir filmes no cinema. Ariana estava com 38 anos no momento da documentação. É natural de São Paulo e trabalha enquanto médica pediatra. Conta que o tempo de agora é para fazer um conhecimento - conhecer os filhos e os filhos conhecer as mães. Nos primeiros momentos, o tempo era para fazer coisas básicas (comer, dormir, tomar banho…) e agora, com eles no carrinho, tem sido possível tomar café da manhã, por exemplo, o que é um grande prazer compartilhar esse momento com eles. Foi durante a pandemia que começaram a pensar sobre a maternidade, sobre quem iria engravidar e como seria. Tentaram uma vez e não deu certo. Depois, tentaram novamente, com aquela possibilidade - dois óvulos, podem ser gêmeos. Tinham medo pelas questões financeiras, mas encararam. Descobriram a gestação na semana da Parada LGBT de São Paulo, e agora, um ano depois, irão na Parada novamente - com eles no colo. Anelise conta que aprendeu com a Ari que o amor pode ser algo leve, com diálogo e respeito. Ela sempre foi muito afobada, atarefada… e hoje em dia é diferente. Não acha que só o amor sustenta relações, é preciso uma série de coisas, como respeito, carinho, atenção, um esforço orgânico, natural. Ambas entendem seus privilégios, mas entendem também que mesmo ocupando o local que ocupam ainda enfrentam diversas questões de preconceito por serem duas mulheres mães que se relacionam afetivamente. Por isso, aprenderam a enfrentar essas questões com o tempo. Falam também sobre como é importante a rede de apoio que possuem. Podem contar com os amigos, com a família, e isso facilita muito para a existência do privilégio de viver um amor leve. ↓ rolar para baixo ↓ Ariana Anelise
- Isadora e Isabelle
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isadora e da Isabela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A história da Isabelle e da Isadora parte de um ponto que elas fazem questão de justificar: não contam algo que já passaram, uma dificuldade já vivida, mas algo que estão vivendo - o processo intenso. Isa e Dora namoram há um tempo e travam uma luta para que as famílias as aceitem. Isa já era assumida à família desde 2017, mas viveu vários processos dos quais nunca foi completamente aceita. Ela conheceu a Dora durante a pandemia, depois de viver diversos momentos dos quais se obrigou a ficar com homens por aquela ideia de “Você só não conheceu o cara certo” e hoje em dia sente que a Dora é uma das coisas mais importantes e verdadeiras da sua vida. Isa faz questão de levar a Dora nas festas de família, contou para a mãe sobre a Dora logo no começo, quando a paixão estava se iniciando. A mãe respondeu com um imaginário popular tradicional da ‘família brasileira’: “Ela é lésbica? Tem cabelo verde?” porque insiste que, se a filha beija mulheres, precisa beijar apenas mulheres femininas. Já passou por várias fases, como aquela de tudo bem ela ser - desde que seja em silêncio, ou também a de que a família sente culpa como se tivesse errado em algo na criação, ou que só faz isso porque passa por algum processo depressivo e quer se culpar. Diante de muitos preconceitos vindos por ambas famílias, elas se firmam para o enfrentamento disso. Acreditam que o relacionamento que possuem é como um investimento, desejam isso para suas vidas. Isa, ao estudar física e já estar no mestrado, conta que sempre quis descobrir uma equação que mostrasse o sentido de tudo (do universo e de estarmos aqui), e no dia em que encontrou a Dora pela primeira vez entendeu. Hoje, diz que nenhuma fórmula matemática iria explicar o que ela estava sentindo ao ter a resposta do que procurava. Isa e Dora se conheceram por um aplicativo de relacionamentos. Naquela época, Dora baixou o Tinder para não se sentir sozinha, mesmo sem querer relacionamentos. Por conta de ter uma mãe bastante conservadora, não costuma sair muito, então conversar com alguém online seria a solução. Logo no primeiro instante de Tinder, encontrou a Isabelle. Foi um dia bem confuso por conta de mudanças na casa dela, mas conversaram e foram se aproximando. Mesmo morando próximas, numa área mais distante no Rio de Janeiro, elas não podiam se encontrar porque ambas famílias não aceitavam suas formas de ser, então marcaram um encontro em um museu, no centro da cidade. Passaram uma tarde incrível, contam o quanto já estavam apaixonadas. Voltaram para suas casas e no dia seguinte se encontraram de novo, dessa vez em Madureira, o local em que a Dora fazia um curso. Brincam que são bastante emocionadas, porque depois do primeiro encontro, não se desgrudaram. Como a Isa vivia um momento de tentar se envolver com homens antes de conhecer a Dora (do qual a família aplaudia) e a Dora não podia se assumir, começaram o relacionamento de forma escondida. Logo depois, Isa decidiu contar para a sua mãe, que acabou aceitando melhor a Dora por ela ser uma mulher feminina. Conta que sempre ouviu da mãe dela que ela precisava ser uma lésbica feminina, se quisesse beijar mulheres, e se relacionar com uma lésbica feminina também. Foi muito duro ouvir isso durante tanto tempo - e também levar a Dora pela primeira vez em casa, mas conta que hoje em dia a mãe dela acha que a Dora tem uma alegria, uma felicidade, e por isso ela foi a primeira mulher que a família mais ou menos aceitou e abraçou. Isa ressaltou o quanto é ruim você estar fazendo algo escondido por puro preconceito dos outros. É como se você estivesse fazendo algo errado, sendo invalidado. E não que a família precise validar, mas porque amamos nossas famílias e gostariamos de ser nós mesmas na frente de todos. Mesmo com os comentários horríveis, depois que assumiram o relacionamento na família da Isa ela passou a fazer questão de levar a Dora em todos os encontros. Acredita que só assim conseguem encarar: estando juntas. Aos poucos isso tem dado certo, já que a família vai aceitando e considerando a existência da Dora nos espaços. A vivência na casa da Isa também não é nenhum pouco fácil para a Dora. Por ser uma mulher muito tímida, acaba se sentindo num campo minado - cada passo que dá é analisado por alguém. Ela já tomou diversas iniciativas para dominar a timidez (falar em público, participar de concursos de dança, ser professora…) e na casa da família da Isa acaba se vendo muito posturada, tomando cuidado no que fala. Contam que não podem falar da religião da Dora, sendo de umbanda, na casa da Isa composta por pessoas muito católicas. Também contam que uma familiar se negava a cumprimentar e falar com a Dora, mas hoje em dia de tanto ela estar presente já a abraça e conversa. A Dora, por sua vez, vive um processo de sair do armário desde a adolescência. Ela sempre soube que gosta de mulheres - e no começo foi até difícil aceitar a si própria - mas ainda no ensino médio ficou com as primeiras mulheres e entendeu a sua forma de ser. Naquela época, sua mãe descobriu lendo mensagens no celular dela. De início ela tentou lutar, demarcando quem ela era, mas foi vencida pela mãe que cortou todos os seus meios de comunicação e não conseguiu sustentar. Passou anos ouvindo piadas e sendo limitada em diversos aspectos. Até ela se assumir de fato, recentemente, foi uma luta. Passou por psicólogas que eram evangélicas e contra LGBTs, levava as pessoas para casa alegando que eram só amigas, e não conseguia se imaginar falando sobre o relacionamento que possui com a Isa. Foi numa das idas da Isa até a sua casa que a Isa acabou ficando sozinha num cômodo e a mãe da Dora começou a interrogá-la. Vendo sua nítida ansiedade e nervosismo, seguiu a interrogação até que a Isa começasse a chorar. Então, a cada pergunta sobre a intimidade das duas e o silêncio da Isa, ela dizia: “Pergunta respondida.” Quando a Dora chegou, a mãe falou que já sabia tudo sobre elas. Foram momentos muito difíceis, enfrentaram xingamentos, brigas e medos, mas a Dora assumiu e falou: “Estou com a Isabelle”. Até hoje os pais da Dora odeiam a Isa e não permitem mencionar o nome dela na sua casa. Entendem que uma família só pode ser composta por um homem e uma mulher e, por isso, não aceitam e respeitam o que a Dora é. Dora acaba encarando sua mãe dizendo que pode ser expulsa de casa, mas não vai abrir mão do relacionamento. Hoje em dia a relação delas têm melhorado por uma certa teimosia da Dora em fazer dar certo - sai para encontrar a Isa e não dá valor ao preconceito que sofre. A maior dor, para a Dora, é não ver sua família reunida. Sempre cresceu em espaços com muita gente, churrasco e pagode. Queria muito ter uma família com a Isa presente - e também construir uma nova família com ela, mas por enquanto, morando com os pais, não vê possibilidade disso. Ela e a Isa pretendem morar juntas assim que ela for efetivada e tiverem mais estabilidade financeira, então guardam cada centavo (literalmente!) para a nova vida que há de chegar. Isabelle tem 23 anos no momento da documentação, é natural do Rio de Janeiro e cursa mestrado em inteligência artificial. Dora tem 22 anos no momento da documentação, também é natural do Rio de Janeiro e cursa arquitetura. Juntas, adoram ver filmes e provar fast foods - brincam inclusive que estão se tornando sommelier de fast food, porque compram, comem e dão notas. Também adoram filmes cults (e filmes cults ruins), passam o tempo jogando jogos no computador e amam conhecer novos lugares na companhia uma da outra. Hoje em dia, estão noivas e enxergam o noivado enquanto uma firmeza sobre quem são. Também é um álibi para que a família leve-as mais à sério e se sentem tratadas de forma muito mais respeitosa depois que assumiram o noivado. Isa entende que o amor é a única coisa que transcende o tempo e o espaço além da gravidade. E que, para além disso, o que têm com a Dora é um amor baseado em comunhão e disposição. Dora diz que o amor que sente é a resposta de todos os porquês. Entende que todo ser vivo é feito para amar alguma coisa - seja um leão com seus filhotes, um ser humano com seu par. Amar é seu refúgio, é onde vai quando está bem ou mal, e que também está no que sente de forma sensorial - os cheiros, os sons e o prazer de ser quem é. Por fim, elas desejam deixar o recado de que todas as mulheres possuem o direito de amar, independente do preconceito. Nenhuma mulher está sozinha. “Não se fechem para o amor”. ↓ rolar para baixo ↓ < Isabelle Isadora
- Elis e Vandréa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Elis e da Vandréa, quando o projeto passou por São Paulo! Fui até a casa da Elis, da Vandréa, do Akin e da Aluá, num final de semana de junho em São Paulo. Quando cheguei, sendo recepcionada pelas crianças já contando histórias e mostrando as plantas, cômodos e coisas da casa, me deparei com a alegria contagiante do que iriam fazer aquele dia: balões e decorações para o Dia de São João, que comemoraram com uma grande festa junina. Tomamos um café e depois as fotos começaram, com todos muito empenhados na decoração. Akin e Aluá são crianças afro-indígenas, do povo Xukurus, assim como Elis e possuem muita clareza de pertencerem ao povo indígena. A família é encantada pelo carnaval, pela cultura popular, adoram os bichos e as simbologias. Estudam tupi guarani online, além de frequentar espaços culturais em São Paulo. Adoram acolher amigos e parentes em casa. Durante a nossa conversa, inclusive, contam que vão receber amigos do povo Pataxós que estão chegando para realizar um trabalho com as crianças na escola. Para Vandréa, o amor está nessa forma que o cotidiano se reinventa, nos detalhes desenhados, pintados (que inclusive representam os colegas deles cada um como um pássaro) no momento que cozinham as comidas que as crianças gostam, na forma que constroem o lar. Elis é natural de Recife, mora em São Paulo desde 2007. No momento da documentação, estava com 36 anos. Trabalha enquanto professora de educação infantil na rede pública da cidade e também desenvolveu um projeto sobre saberes ancestrais com os seus alunos, onde cada um leva a história da sua família. Elis fala sobre a xenofobia e o racismo que sofreu quando chegou e que por isso faz de tudo para que as crianças se sintam parte das suas culturas originárias e não se sintam excluídas na cidade. Assim, usam muito os grafismos, desenham, pintam as roupas, cozinham juntos e fazem esse resgate cultural. Vandréa é natural de São Paulo. No momento da documentação estava com 42 anos, trabalhando enquanto médica de família e comunidade, que acredita ser uma forma humana de olhar para a família. Trabalhou a maior parte da sua vida no SUS, hoje em dia está em um hospital privado. Akin e Aluá estão com 4 anos no momento da documentação. Possuem uma diferença de idade de alguns meses, sendo Akin nascido em outubro e Aluá em janeiro. Quando Elis e Vandréa se conheceram, ela trabalhava no terceiro setor com formação de professores na área de direitos humanos, nos eixos de formação de direitos sexuais e reprodutivos, políticas públicas de juventude, área de educação e gênero. Fazia um trabalho de acompanhar alguns estados, e não imaginava que Vandréa trabalhava com coisas semelhantes, também viajando e acompanhando estados. Chegaram a fazer viagens que envolviam amigos em comum, mas Elis viajou para trabalhos com indígenas e Vandréa para trabalhos com famílias ribeirinhas. Foi num aplicativo de relacionamentos que deram ‘match’, mas já tinham muitos amigos em comum por conta desses trabalhos. Sentem que cruzavam suas histórias o tempo todo, por estarem nos lugares com essas pessoas em comum, mas que ainda não tinham se esbarrado. Naquela época, Elis já estava em processo de adoção. Desejava adotar individualmente, vivia enquanto uma mulher solteira que sempre desejou a maternidade. Quando se encontraram pessoalmente e começaram a se apaixonar uma pela outra, Vandréa estava procurando um apartamento para se mudar e ao conhecer o prédio que a Elis morava, se encantou. Decidiu alugar um apartamento no mesmo local, então moravam em andares de distância. Mesmo morando no mesmo prédio, elas não se viam com a frequência que desejavam. Trabalhavam muito nas missões em comunidades quilombolas na Bahia, então começaram um relacionamento quase que à distância. Nessa época, já falavam muito sobre a maternidade. Elis decidiu encerrar o processo de adoção solo, uns meses depois elas marcaram uma consulta numa clínica de fertilização e decidiram morar no mesmo apartamento, já não fazia mais sentido os dois aluguéis mensais. Tiveram que lidar com a papelada na hora da gestação e entenderam a importância do casamento. Vandréa não queria só uma união estável, se fosse para estarem casadas, desejava uma festa e sentia que elas mereciam a celebração. Mesmo sem dinheiro, fizeram o evento acontecer e os amigos ajudaram em tudo - a festa aconteceu num terreiro de umbanda, os padrinhos eram os amigos em comum (que também trabalhavam com comunicação e fizeram as mídias do evento) e tudo foi organizado em 3 meses, de forma muito autónoma. A cerimônia aconteceu em 2017. Logo depois do casamento, as duas engravidaram. Vandréa não queria ceder, achava uma loucura a ideia das duas ficarem grávidas ao mesmo tempo, mas com o tempo se convenceu. Por nunca menstruarem juntas, ela faria o processo primeiro, depois a Elis. Quando finalmente menstruaram juntas, entenderam que era um sinal. Foi inclusive no aniversário da Vandréa que deram início ao processo que deu certo - as duas engravidaram. Um tempo depois, viajaram de férias e durante a viagem Elis teve um sangramento muito forte, perdendo o bebê. Foi um baque muito grande, a perda reviveu outros lutos que já teve na família, ficou muito mal. Era difícil viver a dicotomia do luto e da outra vida se gerando, as pessoas em geral não entendiam e sempre tentavam consolar dizendo ou que era muito pequeno, como se não fosse uma vida ainda, ou para valorizarem o bebê que estava na barriga da Vandréa. Elis não desistiu, tentou novamente (e por isso o Akin e a Aluá possuem o intervalo de idade). Conseguiu engravidar, eram gêmeos, mas um não se desenvolveu nessa nova gestação. Por fim, nasceu Aluá, e são muito gratas pelas gestações e pelos filhos maravilhosos que possuem hoje em dia. Elis enxerga o amor como o grande construtor do mundo que elas querem para os filhos. Seja na militância no trabalho, na vida, em tudo o que fazem tentando tornar o mundo melhor, é lá que o amor está. Deseja que as pessoas sejam mais humanitárias - e acredita ser esse o fator que aproximou elas desde o primeiro momento. Seus propósitos se unem, querem mudar as coisas na mesma proporção e sabem que podem contar uma com a outra. Nessa confiança está o partilhar das felicidades e das dores. Citam situações em que chegam do trabalho, falam o que aconteceu no dia, choram, riem, se indignam juntas. Compartilham sobre racismo, questões políticas, se movimentam. Elis explica que “A liberdade só é possível quando conseguimos abrir as asas sem ferir os outros” e que isso nem sempre é possível ou fácil. Aprende muito com as crianças e com o quanto elas estão dispostas a serem encantadoras. Por fim, entendem que o processo de educar é muito desafiador, como fazer com que não sejam machistas, racistas, que tenham respeito. Falam sobre o Akin ter cabelo grande, unha colorida, e preparam ele para enfrentar o machismo que vai existir da porta para fora de casa. Além disso, educar é também preparar os professores e a própria sociedade para lidar com a liberdade deles. ↓ rolar para baixo ↓
- Evelyn e Ana Clara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Evelyn e Ana Clara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Ana Clara e Evelyn começaram o relacionamento durante a pandemia e viram suas percepções sobre compartilharem momentos mudar diversas vezes: primeiro, viviam entre as chamadas de vídeo do Zoom, assistiam séries dando play no mesmo instante; depois, começaram a se encontrar no condomínio em que Ana mora, com cuidados e apenas na parte externa, mas planejavam a vida voltando ao normal, faziam lista do que gostariam de realizar quando desbravariam a cidade juntas. E, hoje, ficam muito felizes em perceber que já fizeram várias coisas, mesmo que sem planejar tanto: caminham pelo Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, vão aos seus restaurantes favoritos, visitam amigas e se encontram com frequência. Para Evelyn, amar é se sentir confortável ultrapassando uma barreira do medo. Por isso, elas constroem espaços na relação que sejam adaptáveis para que se sintam bem. Gostam desse amor que sentem fluir diariamente. E, além disso, fazem questão de mostrar que são um casal - acreditam que isso é muito importante enquanto uma forma política de ser, mesmo que tomem muito cuidado com a sua segurança. No momento da documentação, Ana estava com 24 anos. Ela trabalha enquanto psicóloga e segue em constante estudo. A Evelyn também estava com 24 anos e atualmente trabalha enquanto designer de interiores no Rio de Janeiro. Sobre seus gostos em comum, elas chegam com uma curiosidade: as duas são apaixonadas por Titanic. Segundo a mãe de cada uma, tudo isso aconteceu porque, quando estavam grávidas, elas foram ao cinema assistir o filme. Então acreditam que desde a barriga gostaram do filme e, até hoje, se emocionam e assistem inúmeras vezes. No dia a dia, adoram frequentar restaurantes, beber vinho, viajar e ficar na casa dos amigos enquanto eles viajam - inclusive, cuidam muito bem dos lares, imaginando o momento que terão os seus cantinhos. Em 2017, numa coincidência de um amigo em comum levar a Ana no aniversário da Evelyn, elas se conheceram - mas não interagiram e não lembram muito desse dia. Foram se conhecer pela segunda vez (e interagir de verdade), efetivamente, já em 2018, quando o mesmo amigo convidou ambas para uma confraternização de pré-natal. Como ambas moram numa região mais distante do Rio (mesmo que próximas uma da outra) e a confraternização era por perto, elas toparam na hora! Chegando lá, se divertiram bastante, interagiram e jogaram cartas, videogame etc. Conversaram muito, trocaram várias ideias, um interesse até tentou surgir, mas nada foi cogitado quando a Ana descobriu que a Evelyn estava namorando. O tempo passou, elas se seguiram no Instagram, mas nunca mais interagiram. Em 2019 se viram duas vezes, mas sem grandes interações. Até que no fim do ano a Evelyn já estava solteira e perguntou para o amigo sobre a Ana - ele não perdeu tempo, sabendo do interesse mútuo, foi correndo contar. Ela reagiu com um áudio dizendo que era a notícia que ela precisava, que ela estava contente, com o astral lá no alto, etc. E nesse momento a Ana achava que a Evelyn sabia que ela tinha interesse, mas não, a Evelyn não fazia ideia (e também não tinha recebido o áudio através do amigo). Nos primeiros meses de 2020 elas não conseguiram se encontrar, então a pandemia de Covid-19 começou e, com isso, aconteceu um boom de chamadas online. Todos marcaram conversas em grupo, faziam coisas juntos e por mais que elas não conhecessem todas as pessoas na chamada, topavam entrar, interagiam e passavam horas conversando. Assim, foram realmente se aproximando: assistiam séries online juntas, faziam chamadas de horas e conversavam até tarde. Um tempo depois, a Evelyn precisou começar a sair para trabalhar e no dia do aniversário da Ana ela tinha um cliente no mesmo condomínio que a Ana morava. Decidiu levar um presente, fez uma caixinha com coisas que a Ana gostava e levou até a portaria do prédio dela. A fita, que enrolava a caixinha, nas cores do arco-íris, é usada por elas até hoje em todos os presentes. Ela chegou para deixar na portaria, mas não conseguiu: a Ana teve que descer e assim se encontraram pela primeira vez após a aproximação. Super nervosas e a Ana surpresa com o presente. Um tempo depois, decidiram se encontrar novamente no condomínio, caminhar por lá e aproveitar o dia. Depois que o encontro deu certo, começaram a repetir diversas vezes na semana: compravam vinho, sentavam na grama e assistiam séries, conversavam sobre a vida ou só caminhavam juntas. Um tempo depois, a Evelyn conheceu as duas melhores amigas da Ana. Elas foram até Copacabana, o lugar onde elas moram, e ficaram lá uma noite. Esse apartamento se tornou como um refúgio para a Evelyn e a Ana, porque é lá que elas passam diversos dias e, as amigas, agora formam uma família. Em outubro de 2020, num desses encontros no condomínio, Ana pediu a Evelyn em namoro. Relembrando o início, dão muito valor por esse namoro ter começado assim, com muita conversa, aos poucos, se permitindo o envolvimento, num ritmo totalmente diferente do que já vivenciaram: sem muito do convívio social porque a pandemia não permitia, algo muito mais íntimo. Hoje em dia, por mais que tenham rotinas bastante cheias e nem sempre conseguem se encontrar, tentam manter os hábitos iniciais: de se ligar todos os dias e assistir coisas juntas de forma online. Além disso, também fazem viagens juntas e ficam na casa das amigas em Copacabana. Nessas idas, elas acabam vendo o nascer do sol, por ser perto da praia: adoram o silêncio desse momento da manhã, são pessoas bastante diurnas e comentam que gostariam de aproveitar isso com mais segurança. Nas viagens, sempre que perto da praia, tentam ver o nascer do sol. É algo que faz parte delas e dos momentos preferidos que vivem juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Ana Clara Evelyn
- Mel e Sophia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mel e da Sophia, quando o projeto passou por São Paulo! A história da Sofia e da Melissa é (para não dizer uma das mais especiais que já documentamos por aqui - visto que todas são especiais) uma das mais desejadas - sabe por que? Elas decidiram se tornar o que ouço muito ser sonho de vocês: um casal que largou tudo e comprou um sítio. Nos encontramos no ano passado, nesse novo lar delas, que estava cada vez mais sendo construído e amado. Com as plantas, os animais e as decorações. A Mel estava com 34 anos, ela é jornalista e escritora. Já a Sofia estava com 31, é editora de vídeos e por hobbie adora fazer tatuagens. Tudo começou quando elas moravam em São Paulo, na capital, e entenderam que não dava mais para viver sob tanto trabalho: precisavam dedicar a vida um pouco mais para si, viver para se divertir, não para trabalhar e trabalhar. Foi aí que venderam o apartamento e compraram uma casinha no interior de Campinas, numa região bastante afastada com uma vista bonita, bastante árvores e um rancho bonito, assim surgiu o @ranchosapatao. Morar em um sítio não quer dizer que elas deixaram de trabalhar ou que abdicaram de suas profissões. A Mel, por exemplo, já trabalhou em ONGs internacionais de proteção animal e foi jornalista de grandes revistas e hoje em dia está focando sua carreira no término do seu (ou melhor, seus?!) livro(s). Para quem está no mundo sapatônico há mais tempo, desde os blogs, talvez já deva ter esbarrado com o trabalho dela: ela escrevia um blog chamado Fucking Mia, que virará livro e está em revisão nesse momento pandêmico que vivemos. No rancho, parte da rotina também é dedicada ao cuidado e amor aos bichinhos de quatro patas - todos resgatados da rua. O Mantiqueira e o Juazeiro, dois cachorros super simpáticos, e o Maceió e o Quito, dois gatos maravilhosos ♥ A Sofia e a Mel entendem que a relação delas é baseada na parceria, porque costumam ser pessoas práticas em momentos de aperto ou perrengue e sempre dão um jeito juntas. Nos momentos realmente mais difíceis, entendem que não há o que não possa ser conversado e isso faz com que se compreendam muito bem - porque sempre tentam ao máximo se colocar uma no lugar da outra. Conversamos sobre o quanto esse posicionamento é importante no momento de conversa para que não haja injustiça, e elas complementam que é essencial, também, para que exista o respeito no limite individual de cada uma. Elas se conheceram em 2015, através de uma amiga em comum. Todas foram juntas em um bar em São Paulo e se viram pela primeira vez. A Sofia sorriu para a Melissa e logo ela pensou: “Nossa, pegaria essa menina!”. Depois, se adicionaram no Facebook e no Instagram. Ambas tinham relacionamentos, e seguiram sem interações pelas redes sociais. Um tempo depois, mesmo que a Mel sempre tivesse essa queda pela Sofia e não interagisse, foi a Sofia quem respondeu um ‘storie’ dela, dizendo: “É muita crush para um vídeo só.” Como no vídeo era a Mel e a cachorra dela, ela fez uma brincadeira perguntando quem era a crush que ela se referia, e a Sofia disse que eram as duas! Elas conversaram, trocaram ideia por um tempo e combinaram de sair para se conhecer melhor. O encontro finalmente aconteceu, lá em 2018. Marcaram numa terça-feira, se encontraram e logo no começo se beijaram. Brincam que desde esse beijo estão juntas, não teve como desgrudar. Na época, a Sofia estava em um relacionamento aberto e acabou terminando, porque entendia que o envolvimento com a Mel era maior do que poderia ter previsto. E tudo foi se desenvolvendo, caminhando. Elas dizem que se sentem em um encontro de almas, foi realmente intenso - e isso mudou suas rotinas, vontades e futuros. Fizeram tatuagens, viagens e novos planos. A Mel diz que quando conheceu a Sofia se expandiu enquanto pessoa e elas viraram o casal do “Vamos?” “Vamos!”. Hoje em dia, o apoio e o grude seguem muito presentes. Em dias mais difíceis, uma ajuda a outra, desde deixar o computador preparadinho para o trabalho, até fazer uma comida mais gostosa no fim do dia. O jeito que elas preparam a casa, os cuidados, as reformas… tudo é pensado em conjunto e para o bem-estar. “O que é uma mulher sem pensar na referência que temos ao homem?” - Sofia trouxe esse questionamento à conversa. O questionamento foi para pensarmos na mulher de forma pura, como um lugar nosso, de apoio, enaltecimento, ajuda, sem hierarquia e tantas outras culturas que acabamos herdando do patriarcado. Ela acredita que as relações entre mulheres dizem muito sobre o amor e sobre o coletivo. Para a Mel, é algo muito libertador e engrandecedor o processo de descobrir o amor por outra mulher. Amar outra mulher é uma grande revolução, é entender como não temos limites, como podemos ser tudo. Vai além de todos os padrões. Elas tentam estar sempre rodeadas de mulheres ao redor: nas amizades, nos trabalhos, no cotidiano. E dizem que as coisas vão realmente mudar quando tivermos mais mulheres em cargos de poder. Além disso, vão mudar também no momento em que as pessoas tiverem mais auto-suficiência e acesso ao conhecimento, escutando outras pessoas que sofreram por muito tempo, historicamente, para construirmos uma sociedade que não vá pelo mesmo caminho que estamos - que seja realmente construída com empatia. Sofia Melissa
- Gi e Rafa
A Rafaela e Gizelly foram o primeiro casal que tive contato em Fortaleza (e, se não me engano, o primeiro casal que agendei quando decidi que iria levar o Documentadas para lá). Elas são muito receptivas e me levaram para conhecer o grande Mercado Central, almoçar em um lugar super querido, fazer turismo de dentro do carro (A pandemia, né?) nos bairros mais centrais e me contaram várias histórias sobre a cidade. ♥ muito obrigada, gente. Saudade de vocês. E no lugar que o Documentadas estiver, sempre terá um espacinho aberto para recebe-las! Importante ressaltar também que dentre as histórias de perrengue que este projeto é campeão em documentar, temos uma das melhores: uma blitz policial no meio da tour que nos rendeu uma .... pausa para o choro.... multa de uns + de 2 salários mínimos para o carrinho das bichinhas por estar com a licença atrasada (Mas agora já está em dia, viu? Se dividir a gasolina atravessa o Brasil todo kkkk digo...). Bom, vamos lá. A Rafa tem 24 anos, é auxiliar de cartório e estudante de Letras na Universidade Estadual do Ceará. Ela é natural de Fortaleza - CE e morava bem pertinho da casa da avó da Gizelly, que tem 26 anos e é Engenheira Civil, também formada na Universidade Estadual do Ceará. Por mais que a Rafa e Gi tivessem proximidades físicas e frequentassem espaços em comum, elas foram se conhecer mesmo através de um aplicativo de relacionamentos: o Tinder, no ano de 2019. Era pré-carnaval, elas estavam conversando há um tempo e marcaram de se encontrar em um cortejo. A Rafa mobilizou todos os amigos e foi para lá com aquela esperança de encontrar a Gi, que por sua vez deixou o celular no modo Não Pertube (desativando as notificações) e esqueceu completamente de que a Rafa iria ligar para encontrá-la. Quando ela se deu conta, já era tarde demais (literalmente!): ela já estava indo para um bar, o cortejo já tinha acabado, a Rafa já tinha ficado triste, desistido, chutado o balde, beijado várias pessoas, decidido que ia dormir na casa de amigos (e até já tinha mandado mensagem anteriormente chamando a Gi para ir também, mas como ela sumiu, não adiantava mais) e dessa vez foi a Rafa quem não respondeu mais. No dia seguinte, com o nascer do sol também vem ela, né? A ressaca. E então a Rafa repensou e viu que não precisava ser assim. Decidiu falar com a Gi. Elas conversaram e combinaram de se encontrar, mas dessa vez com horário e local pré-agendado, direitinho. Falando assim, vocês pensam que era um encontro em um restaurante, mas não, elas se encontraram na parada de ônibus. Pois é, eu também ri. A Rafa entrou no carro da Gi, que ficou estacionado... e ela ficou toda encolhidinha, em suas palavras: "Porque estava frio o ar condicionado" e elas começaram a rir de nervosas e de tímidas. Para completar, ainda surgiu um assunto um tanto quanto mórbido que se transformou numa crise de riso das duas e nisso a Rafa chamou a Gi para ir fazer a carteirinha de estudante dela, logo em seguida, saindo do carro. Elas foram e, desde esse dia, estão juntas. O amor é aleatório. ♥ Hoje em dia, no tempo livre, o que a Rafa e a Gizelly mais gostam de fazer juntas é praticar esportes, assistir besteiras, passar um tempo "morgando" (ficar sem fazer nada, falando da vida) e principalmente curtir a própria companhia - elas contam que reservam às sextas para sair, comer coisas gostosas, cozinhar juntas ou tomar cafés em lugares legais. No momento, a Rafa está trabalhando de casa, enquanto a Gi tem a própria empresa de Engenharia Civil, em sociedade com uma colega. Por bastante tempo ela trabalhou para empresas, nas quais chegou a se sentir mal remunerada e/ou de alguma forma explorada, foi aí que surgiu a ideia de montar algo próprio, com duas colegas da área (e hoje em dia é ela e uma amiga). A empresa é formada pelas engenheiras e foca em reformas de banheiros, infiltrações de telhados, intervenções em casas, apartamentos e áreas comerciais. Possuem equipes e encarregados para fazer os serviços, mas o mais legal nisso tudo é que: a empresa é somente com mulheres no comando e prioriza o trabalho para clientes mulheres. 3 O começo do namoro da Gi e da Rafa foi marcado pelo medo que existia dos amigos da Gi não gostarem da Rafa (Atualização: hoje em dia eles se dão melhor com a Rafa do que com a própria Gi, risos) e também porque no ano seguinte a pandemia chegou e com ela a Gizelly chegou a ir para Sobral (interior do Ceará) trabalhar, durante um tempo. Elas oficializaram o namoro no dia 07 de março de 2019 e em 2020, lá em Sobral, a Gi resolveu pedir a Rafa em casamento. Tudo estava super organizado com a melhor amiga da Rafa. O pedido foi no Arco de Sobral, um ponto turístico e enquanto a Gi ia enrolando ela, a amiga organizava tudo. Primeiro, ela sabia que o casamento era um sonho da Rafa, então fez uma cena de dizer que não via sentido e/ou futuro no casamento... que não queria isso. A Rafa ficou triste, chorou e empurrou ela querendo ir embora. Depois da cena, uma pessoa entregou uma rosa para a Rafa - a primeira pessoa foi um senhor numa bicicleta (e a Gi fingiu ciúme), depois outras pessoas chegaram - foram 5 rosas ao total, até que chegaram duas meninas crianças e entregaram as alianças e a Gi fez o pedido. Depois de toda a atuação digna de novela e filme com Oscar, com muitos choros e muita emoção real no pedido, elas tiveram um dia incrível com jantar surpresa, casa livre, velas e rosas. A família super apoiou. No começo de outubro do ano seguinte o casamento aconteceu, já na pandemia do Covid-19. O evento aconteceu na garagem de casa, com as pessoas da família e alguns amigos e ninguém foi contaminado ou teve sintomas antes ou depois dos dias que envolveram o evento. 4 No início da pandemia, em 2020, a Rafa perdeu o emprego e elas passaram bastante tempo sem se ver por conta de, tanto elas quanto suas famílias, serem pessoas consideradas grupo de risco (asmáticas e diabéticas). Com a mãe da Gi, por já ter tido cancêr de mama e o pai por ter pressão alta, somados à avó ser idosa, o cuidado é minucioso. Elas voltaram a se encontrar apenas em julho e em seguida a Gi foi chamada para trabalhar em Sobral, no interior. Foram meses que ela passou lá, só teve retorno de fato no mês de novembro. Foram meses de um relacionamento à distância e a Gi sentiu dificuldades em se adaptar também ao trabalho. Quando ela voltou, elas organizaram tudo e o casamento aconteceu. A Rafa hoje em dia mora com a Gi e a família dela, numa casa em Fortaleza. No começo a mãe da Rafa ficou um pouco mexida com a situação, mas hoje em dia la entende que faz parte da vida adulta e do crescimento da filha. O pai, por outro lado, não vê a orientação sexual dela de boa forma, o que a deixa triste pois sabe que ele e a Gi, enquanto companheira dela, se dariam muito bem! De toda forma, entendendo isso enquanto uma dificuldade e uma dor, elas seguem se fortalecendo e sendo apoio dentro da relação. Inclusive, nos momentos de dificuldades, a Rafaela conta que a Gizelly a acalma e ensina a agir com cuidado. No mais, elas tentam sempre entender que tudo tem seu tempo e que as dificuldades que passam, principalmente financeiras, que não são para sempre. Para tudo conseguem dar um jeito, ainda mais se estão juntas. ♥ 5 Por fim, a Gi comenta que sempre foi mais fechada e com poucos amigos, que mantém um contato mais distante com as pessoas - tirando com a Rafa, que é um contato diário. Então ela faz uma leitura do amor enquanto uma estabilidade e enquanto segurança. Para a Rafa, o amor se mostra quando ela acorda e vê ao lado dela a pessoa que ela ama, que ela cuida, que está do lado dela para tudo. Ela diz que sente o amor neste momento em específico, principalmente, porque a Gi acorda cedo para trabalhar e sempre liga o computador e arruma as coisas para que a Rafa acorde com tudo confortável. Ela acha isso muito querido, se sente muito confortável, encontra nesse cotidiano e nessas pequenas atitudes muitos pedacinhos de amor. Quando andamos por Fortaleza, elas me ensinaram muitas coisas. Mostraram diversas questões culturais, contaram histórias e quando fiz perguntas durante a nossa conversa sobre a cidade e a forma que elas enxergam o local em que elas moram, elas não pensam em outra cidade no Brasil que gostariam de estar além de lá. Ao mesmo tempo que entendem diversas melhorias que precisam ser feitas lá, no Estado do Ceará e no Brasil em si, comentam que não tiveram vivências de preconceito na cidade, mas que a situação econômica está ruim, que os custos de vida estão elevados e que a mobilidade deixa muito a desejar e que isso também fala sobre a gente, né? Elas sonham em poder se estabilizar, seja no Brasil ou fora dele, e entendem que Fortaleza é um lugar muito incrível para se estar. Desejam viver, além de sobreviver. Rafaella Gizelle
- Denise e Júlia
A história da Denise e da Julia te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Sobre a cervejaria, Julia fala que além da Oripacha, sua marca, ela já desenvolveu várias outras e está no mundo cervejeiro há bastante tempo (que é muito forte em Porto Alegre). Ela fundou um coletivo chamado Ceva das Minas e lá promovem a cultura cervejeira para mulheres (não só produzirem, mas consumirem também) através de eventos e encontros. É um espaço muito importante que tem crescido consideravelmente na cidade. Por fim, elas adoram viajar juntas de carro e conhecer novos lugares, ou revisitar seus favoritos. A Denise já viajou bastante e morou em alguns lugares (São Paulo e Bahia, por exemplo). Com o amor pela viagem em comum, criaram um jogo em que toda semana sorteiam um país da América para fazer um jantar temático com um prato típico do lugar selecionado. Denise ensinou a Julia a ver o cinema brasileiro com um novo olhar, e Julia ensinou a Denise a apreciar as cervejas e os detalhes bons da vida. Julia ama andar de bicicleta. Denise ama escrever, fotografar e estudar japonês. Elas tentaram morar juntas por um tempo, mas tiveram algumas dificuldades e resolveram manter cada uma no seu espaço. Tudo serviu para amadurecerem e entenderem seus limites, serem mais honestas e sinceras sobre seus sentimentos. Elas entendem também o quanto a quarentena deixou tudo mais pesado e intenso, falam sobre cada relacionamento e cada ser tem suas especificidades e conversam bastante sobre tudo. Julia diz que o amor é como se fosse um canal para as coisas acontecerem. Não é algo que precisa ser dito o tempo todo, mas sentido. E entende que o amor está sendo demonstrado mais na nossa geração, que antigamente parecia ser menos expressado, menos falado. Ao mesmo tempo em que discursos de ódio estão mais discutidos, o amor também está nos libertando. Além disso, se sente mais acolhida se relacionando com outra mulher, sente mais empatia, proximidade e leveza. Enquanto isso, Denise acredita que o amor que se fala, na ideologia, é muito distante da realidade. Amor representa para ela um ideal de bondade com o mundo - a forma que nos relacionamos com o espaço, com a natureza, com as pessoas… não de uma forma super ‘gratidão’ e ‘namastê’, mas de sabedoria e cumplicidade. Ela acha que o amor romântico existe com qualquer pessoa, todos são capazes de se apaixonar e viver uma relação com alguém, mas que ao mesmo tempo todos são completos enquanto indivíduos: a “metade da laranja” não vem para nos completar, mas para nos acolher e nos deixar melhores. Julia e Denise se conheceram em uma cervejaria comandada por duas mulheres em Porto Alegre, a Macuco. Julia tem 29 anos e é cervejeira, Denise tem 34 anos e é cineasta. Ambas estavam com seus amigos no bar, até que a amiga da Julia foi embora e ela ficou batendo papo com as donas, que são amigas dela e, por coincidência, da Denise também. Um pouco antes de serem apresentadas, a Denise estava envolvida numa discussão sobre não se considerar bissexual por nunca ter realmente se envolvido (tido uma relação de longa data) com uma mulher, enquanto sua amiga estava dizendo que isso era um absurdo e que você não precisa ter ‘uma regra’ de namorar tanto tempo para se considerar bi. Nisso, ela foi pegar uma das cervejas preferidas dela e as donas do bar falaram “ah, Denise, quem fez essa cerveja que você tanto gosta foi a Julia”. Assim, se conheceram. Denise brinca que sempre foi de se apaixonar rápido e na hora já sentiu a paixão. A noite foi passando e sobraram elas, as donas e os amigos da Denise no bar. Em algum momento da conversa, a Júlia (que é muito tímida), encostou levemente na Denise - sinal o bastante (ao menos, na hora foi! hahaha) para ela entender que poderia rolar algo - ela estava certa, era um sinal de que a Ju queria, mas foi por um leve equívoco que elas se beijaram: o bar estava fechando e a Júlia disse “e ai, pra onde a gente vai agora?!” o ‘a gente’ da Júlia era: todo mundo… já o ‘a gente’ que a Denise entendeu era: nós duas. Antes de descobrir para onde iriam, Denise tomou a iniciativa e o beijo aconteceu. Denise Julia
- Beatriz e Karol | Documentadas
Amor de Webnamoro - Beatriz e Karol clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Beatriz e Marina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marina e Beatriz, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quando estávamos fazendo as fotos ela brincou com a Bia dizendo para fazermos algumas fotos dançando e a Bia argumentou que ela não dançava com ninguém “só contigo”, e na fala da Marina ela traz essa ocasião, sobre a Bia se permitir à dança. E nesse permitir-se damos gancho ao assunto de que estamos em busca de nos permitirmos porque queremos justamente nos entender, nos cavucar, nos desvendar. E chegamos ao questionamento de: por que, na sociedade em geral, tão pouco as pessoas se permitem? Então entendemos também que o amor, de alguma forma, dialoga com estar dispostas a despertar coisas na gente para mudar o outro também. Um não-querer ser quadrado o tempo todo, estar limitado ou não ser um ser-pensante. Brincamos com a palavra “gelecas” porque Marina diz se sentir uma geleca, sempre em mil movimentos e não-sólida, como algo que consegue se moldar - mudar. Por fim, ficou a sensação de não querer nunca que essa “geleca” cristalize, se conforme, se adeque. Estejam sempre se transformando para que transforme, também, os outros. Por fim, entramos em um papo muito importante sobre o amor e sobre como as relações acontecem - não só afetivamente, mas como nos permitimos estar uns com os outros. A Bia entende o amor enquanto reconhecimento e enquanto uma força muito grande, uma vontade de estar de verdade com alguém - no companheirismo, na vontade de fazer coisas juntas - e de reconhecer, mesmo se não entender. Ela acha que a base do amor é a confiança e o diálogo e que, para além disso, nas relações com mulheres, sejam amigas, as mulheres da família, ou relações amorosas, existe uma força em querer se fazer o bem sempre. Essa força envolve o zelo, a escuta e o querer-justiça. São relações que ela preza muito. Para a Marina, existem duas coisas que estão muito relacionadas com o amor: a permissão e a pressa. A pressa, na verdade, é a espera, o ritmo, o tempo. Temos que aprender a esperar as coisas, a entender o ritmo do outro, a se adaptar ao ritmo do outro também… porque quando temos pressa, acabamos por cortar um pouco a graça das coisas, atropelar e deixar sem sentido. Já a permissão entra enquanto uma importância em se entregar, em tirar tabus, tanto sexual quanto emocionalmente: ter a confiança e a leveza de se permitir. Em seguida do começo do namoro (e no dia seguinte que o foraBolsonaro foi eleito), elas alugaram um carro e fizeram uma viagem para a Bahia. Foi muito importante ter esse momento não só pela situação tensa que todas nós mulheres estávamos passando (e elas, tendo uma a outra, estando juntas, se acolhiam e se ajudavam), mas por ser uma forma diferente de dar início ao relacionamento. Ao decorrer de toda a relação tudo sempre foi construído com muito diálogo e conversa. Elas estão juntas em muitos momentos e contam uma com a outra para tudo. Inclusive, o apartamento surgiu em um momento muito especial de mudanças e de olharem para si e entenderem que seria um passo importante morarem juntas. Foram meses procurando um lugar que fizesse sentido, que elas pudessem arcar com os valores e quando acharam esse, foi um completo acolhimento. Tudo nele tem a carinha delas e cada detalhe é pensado em conjunto. As duas são mulheres muito divertidas e acreditam que isso possa estar ligado à forma que, tanto elas foram criadas, quanto ao meio que estão inseridas. Acreditam no corpo enquanto livre e sem julgamentos e para elas é muito importante que as pessoas estejam realmente à vontade. A Bia conta que sua construção enquanto ser e suas maiores inspirações vêm da irmã e também da amiga, Mariana, que é colega de trabalho e quem a colocou dentro da agência. É uma pessoa que traz bastante admiração pelo estilo de vida, pelas questões profissionais dentro da fotografia e por tudo o que já ensinou. Já a Marina contou que ter feito balé desde criança a fez ter muita disciplina e aprender muito sobre a forma de lidar com os outros e ter responsabilidades, por isso também as professoras que a acompanharam durante todo esse processo são de grande importância para que ela tenha se tornado a mulher que se tornou. Ela fala sobre o quanto o olhar das professoras moldou o olhar que ela tem sobre as coisas. Além disso, a avó dela também é fonte de inspiração diária, por ser uma mulher da roça, sempre muito alegre, e sendo uma mulher não-branca, muito forte, que carrega muitas coisas na sua existência. No começo do relacionamento delas, ou melhor, antes de ser realmente um relacionamento sério, quando perceberam que estavam bastante envolvidas, surgiu uma certa insegurança. E aí dialogaram sobre o que fazer: encaravam? desistiam e seguiam suas vidas? Foi quando entenderam que estavam dispostas a encarar e começar algo em conjunto. Um tempo depois de ter terminado um relacionamento, a Bia se reconectou com uma amiga da escola e essa amiga estava namorando uma menina que era de Vitória e trabalhava na mesma empresa que a Marina, então a amiga e a namorada tiveram a ideia de apresentar as duas e uni-las enquanto um casal. A versão da história contada pela Bia é bastante simples: a amiga dela mandou uma mensagem falando da Marina e passando o Instagram dela para a Bia seguir e conhecer. Ela achou a Marina bonita, curtiu, mas não começou a seguir na hora. Um tempo depois a Marina começou a seguir ela e ela seguiu de volta. Foi isso. A versão da Marina, por mais que seja com o fim semelhante, começou de outra forma. Ela estava em uma fase que se permitiu se envolver e conhecer novas pessoas, mas estava indecisa ainda e uma amiga aleatória, naquela semana, chegou dizendo que tinha alguém para lhe apresentar. Quando mostrou o Instagram de uma menina, ela olhou e achou ok, mas não teve muito interesse, porém a menina tinha uma foto com outras pessoas marcadas e nessa foto estava a Bia, foi aí que ela entrou no Instagram da Bia, se interessou e passou a segui-la. No dia seguinte, ao encontrar a amiga em comum que ela e Bia tem, essa amiga disse que queria apresentar uma pessoa para ela e ela ainda brincou “nossa, o que tá acontecendo essa semana, que todo mundo quer me apresentar alguém?!” e quando viu o Instagram ficou em choque, porque era logo a menina que ela tinha seguido. Pensou: ok, eu realmente preciso conhecer essa menina, de alguma forma ou de outra, a gente vai ter que se encontrar! E foi então que Bia começou a segui-la de volta. Numa interação de stories sobre gatos, elas marcaram de sair. E o que era para ser um encontro em um restaurante todo bonito, bacana e conceituado, deu errado, mas deu certo: o restaurante estava fechado e o único lugar próximo era um boteco super “pé sujo”. Elas se deram tão bem que ficaram no bar até 4h da manhã, foram para a casa da Marina, a Bia saiu de lá no dia seguinte e, para fechar com chave de ouro o date de sucesso, saiu com as roupas da Marina porque o gato tinha feito xixi em todas as roupas dela. A Bia e a Marina são duas mulheres incríveis em cada detalhe do que constróem dentro do relacionamento e dentro do lar, desde o cuidado que têm com a casa, com o preparo da comida, com a forma que se tratam, até em suas visões de mundo, de poder de escuta ativa e da forma que lidam com as pessoas e com os animais. O encontro delas aconteceu por intermédio das amigas, mas ao decorrer da explicação a gente entende que era mesmo para ter acontecido. A Bia tem 24 anos, é carioca, fotógrafa e trabalha enquanto assistente em uma agência que presta trabalhos visuais para marcas de moda. Adora videogame, sonecas durante o dia, ler e acompanhar a Marina nas aventuras na cozinha. Marina tem 29 anos, é natural de Vitória, no Espírito Santo, mas mora no Rio de Janeiro desde 2014, quando cursou a pós-graduação. Ela trabalha enquanto publicitária e produtora, ama cozinhar, principalmente inventar receitas, quase como uma alquimia, testando comidas e temperos. O que ela e a Bia mais amam fazer juntas é assistir reality shows: de todos os tipos possíveis. Bia Marina
- Mariana e Viviane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mariana e Viviane, quando o projeto passou pela Bahia!. Mariana e Viviane são de Salvador, mas se conheceram em viagens à trabalho para a Chapada Diamantina. Num encontro bastante aleatório, Vivi estava sozinha em um bar bebendo uma cerveja no fim do dia, enquanto Mari passeava com o pai e acabou no mesmo lugar. Lá, em meio à música ao vivo, todos que estavam presentes interagiram, inclusive elas. Passaram horas conversando, além das trocas de olhares, beberam cerveja e riram de bobeiras. Decidiram trocar telefones e, quando a Mari chegou em casa, mandou uma mensagem pensando “Que mina massa! Vou agradecer pela nossa conversa que foi realmente muito boa!”. Depois de conversarem por mensagens, nos dias que se passaram a Vivi chamou Mari para ir na pousada em que ela estava beber uma cerveja. Mari avisou que tinha algumas garrafas em casa, então colocou na sacola e foi até a pousada. Naquela época, ambas tinham acabado de sair de casamentos héterossexuais, então em meio ao processo que viviam foram ficando cada vez mais próximas. Desde então, não se desgrudaram mais. Mariana, natural de Salvador, estava com 39 anos no momento da documentação. Ela trabalha enquanto advogada. Viviane, também natural de Salvador, estava com 43 anos no momento da documentação. Ela conta que “é um monte de coisa”: instrutora de yoga, doula, empresária, mãe, turismóloga… Seus filhos (o mais velho com 11 anos e a mais nova com 8 anos) adoram a Mari. Desde o começo eles saíam muito juntos, iam para o parque, o shopping, a praia… mas as crianças ainda não sabiam que elas namoravam. Até que um dia, num restaurante, a mais nova disse que o irmão estava falando que a mãe e a Mari estavam namorando, e ela respondeu: “Mas a gente tá!”. E pronto. Foi uma festona. Um misto de ficarem incrédulos com muito felizes. E aí surgiram as questões: “Mari, você vai ser nosso segundo pai?!” “Papai também vai namorar um menino?!” Os questionamentos naturais dialogam com a naturalidade que as crianças veem a relação. Hoje em dia, contam que a mãe namora e acham isso incrível. No começo da relação, brincam que se enrolaram um pouco. Estavam processando suas novas vidas e acreditam o quanto isso influenciou. Mas foi depois de uma viagem que a Mari fez para o Rio de Janeiro que a Vivi resolveu se abrir sobre seus sentimentos e falar o quanto gostaria de começar uma nova vida com ela. Mari nunca tinha se relacionado com mulheres, então passaram por momentos de se assumir para a família, o que gerou bastante medo para ela. A família não aceitou inicialmente, achava que a Mari nunca se relacionaria com uma mulher, porém as duas foram dando tempo para que eles processassem e tentando não gerar nenhum stress, hoje em dia todos já se dão bem em casa. Pelo lado da Vivi, o desafio foi contar ao pai. Na época ele estava com 82 anos, tem seus lados conservadores, mas depois de contar ele respondeu “Só isso?! Ah, então tá bom!” e ela ficou positivamente surpresa. Hoje em dia, mesmo morando em casas diferentes, elas amam se encontrar em praças e ir à praia (na praça que fizemos as fotos, inclusive. Por ser um lugar seguro e bom de ficar à toa). Elas brincam que não possuem hobbies específicos, porque no tempo livre se dividem entre dormir e ser mãe, recuperar o sono perdido nos últimos 11 anos. Vivi acredita que o amor precisa ser leve, pois quando há tensão/densidade/peso ela quer repelir. Entendem que no amor que vivem possuem muita liberdade e confiança uma na outra, então enxergam o momento atual enquanto tranquilo e confortável. Entendem que precisam de tempo para digerir processos internos, mas que a parceria faz parte da relação como um todo. Hoje em dia, vivem enquanto um casal tal qual viveriam enquanto heterossexuais, e não evitam de ser quem são. ↓ rolar para baixo ↓ Mariana Viviane
- Luiza e Maria Pérola
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luiza e Maria Pérola, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quando elas se encontraram tiveram um dia bom e logo em seguida e Luiza viajou de volta para o Rio de Janeiro, elas seguiram conversando de forma online e surgiu uma nova oportunidade: dessa vez, um colega de apartamento da Maria que viajava muito iria até o Rio e ela poderia ir junto, então ela topou, avisou a Luiza e elas conseguiram se encontrar novamente. Quando o encontro aconteceu, elas entenderam que queriam novos encontros e que, melhor que isso, não queriam parar de se encontrar. Enquanto o relacionamento da Luiza já estava em um ponto que era muito mais amizade que relação amorosa em si, ela optou por conversar sobre a bissexualidade e pelo término. O namorado entendeu, realmente, inclusive incentivou as duas, por ver o quanto isso estava fazendo bem à ela - e hoje eles são bastante amigos (ele quem instalou as prateleiras no apartamento delas! haha) e no fundo eles comentam que sabiam que a relação não iria mais para frente e que ambos estariam mais felizes em novos caminhos, era o mais justo a ser feito. A Luiza nunca foi uma pessoa impulsiva e diz que essa foi a coisa que ela mais teve certeza ao fazer em toda a vida. Elas começaram a namorar em dezembro de 2019 e a maior dificuldade na época foi enfrentar a forma dos amigos e da família de lidar, tanto pelo relacionamento anterior ter terminado, quanto pelo fato da Luiza ter ficado com uma mulher. Ao mesmo tempo, como tudo era muito claro para ela, o jogo foi quase que ao contrário, ela sabia que quem estava passando por “uma fase” eram os amigos e a família: a fase de lidar com a mudança e aceitar, porque ela, a Maria e o ex namorado estavam muito felizes e bem resolvidos. Existe uma troca muito genuína entre as duas, desde os escritos, as músicas, as composições… a Luiza também participa de uma roda de choro e samba feita apenas por mulheres no Rio, que é um estilo musical muito presente e está aprendendo e desenvolvendo a música popular para além da música erudita, coisa que a Maria Pérola ajuda muito! É sempre um aprendizado. Quando a Luiza e a Maria Pérola se conheceram, ambas já viviam de música e moravam no sudeste. A Maria viu um conteúdo que um amigo em comum entre elas publicou sobre mulheres artistas e seguiu as pessoas que ele marcou, para acompanhar o trabalho delas, sendo que uma delas era a Luiza. Na época elas trocaram uma ideia quando se adicionaram e foram, com o decorrer do tempo, acompanhando o trabalho aos poucos uma da outra. A Luiza postava algo e a Maria interagia, vice versa, era um troca profissional de admiração. Nisso mais de um ano se passou, até que aconteceu delas conversarem de fato, por conta do poema… e aí foi tudo muito rápido: interagiram durante um mês quase que diariamente e a Luiza foi chamada para fazer uma apresentação com a orquestra em São Paulo, convidou a Maria Pérola e ela foi assistir. A Maria conta que tentou não criar muitas expectativas no encontro das duas sob o viés amoroso, porque a Luiza vivia um relacionamento de três anos, com um homem, e não tinha ficado com uma mulher. Por mais que eles estivessem vivendo um relacionamento aberto e ela já tivesse compartilhado com ele sobre os sentimentos que estava desenvolvendo pela Maria, tudo era muito novo e elas não sabiam o que poderia acontecer, então ela apenas tentou não nutrir expectativas. Maria Pérola tem 27 anos, é pernambucana e nasceu em Jaboatão dos Guararapes, cidade da região metropolitana de Recife. Morou num local chamado Alto da Colina e foi lá onde passou toda sua infância. Como sua família viajava bastante para São Paulo por conta do trabalho, ela acabava fazendo essa ponte aérea e foi aos poucos se familiarizando. Sempre gostou de música, mas se formou em psicologia e só depois, quando se mudou para SP, decidiu que seu caminho e sua carreira eram, de fato, cantando. Por muito tempo a família não aceitou que ela seguisse o caminho da música popular periférica nordestina, acreditavam que ela precisava de uma “profissão de verdade” e que a música não traria um futuro profissional digno, mas ela seguiu atrás desse sonho e dessa paixão. Hoje em dia, vive sendo uma artista e é uma entusiasta da música autoral. Adora ouvir gente cantando. Vou deixar as redes da Maria Pérola aqui, porque vale MUITO (muito mesmo!) ouvir, é sensacional: YOUTUBE SPOTIFY INSTAGRAM Luiza tem 26 anos e é natural de São João del Rei, uma cidade histórica localizada no interior de Minas Gerais. Por lá ela estudou música no conservatório desde criança e decidiu se mudar para o Rio de Janeiro em 2014, quando entrou no Conservatório Brasileiro, por conta de alguns contatos que criou com professores da UFRJ. A Luiza é uma violinista incrível! Já fez parte de várias orquestras, inclusive a Orquestra Sinfônica Cesgranrio e a Orquestra de Mulheres do Rio de Janeiro, das quais faz parte/fez ativamente antes de entrarmos em pandemia, e também a Nova Orquestra, com quem se apresentou no Rock In Rio. Além disso, ela dá aulas particulares de violino e há pouco começou um projeto social ensinando violino para crianças em uma vila militar no bairro de Realengo, na zona oeste do Rio. A Luiza, além da sua ligação intensa com a música, também escreve desde pequena. A poesia foi talvez um dos pontos chave que tenha conectado ela com a Maria Pérola logo de início, fazendo com que ela voltasse a escrever mais e que também despertasse a vontade de postar suas poesias na internet. A Maria tem uma poesia que a Lu fez pra ela tatuada (e que inclusive tatuou antes de elas se conhecerem pessoalmente!) e isso fala muito sobre essa troca que elas possuem (entre as poesias que a Lu escreve para a Maria, e as músicas que a Maria compõe para a Luiza) - inclusive, brincam que dá para escrever um livro e lançar um CD com tudo o que já produziram. Explicar sobre o amor da Maria Pérola e da Luiza é um desafio imenso porque elas representam aquele tipo de encontro que você não sabe como dimensionar, como colocar dentro de palavras ou expressões, porque são acontecimentos e experiências muito grandiosos. São encontros que quando você bate o olho, passa a entender e tudo faz sentido. A Maria comentou duas coisas que talvez expliquem um pouco sobre esse amor, a primeira é que ela nunca tinha pensado em morar no Rio, mas ao mesmo tempo ela nunca tinha se sentido realmente pertencente à algum lugar, e a partir do momento que passou a morar com a Luiza entendeu que o apartamento era o lugar dela - ou melhor, não o apartamento, nem o Rio em si, mas a Luiza. O lar que ela sente é muito mais pela expansão do encontro dela com a Lu do que por todo o resto, é isso que fez ela realmente se sentir em casa. E a segunda é que a Luiza é a pessoa que ela mais confia no mundo e com ela, aos poucos, foi aprendendo a gostar de tanta coisa que se viu gostando de coisas que antes ela até mesmo odiava (desde o furo no queixo que lhe causava muita insegurança na pressão estética, até detalhes na convivência familiar). O amor foi acontecendo porque elas se apoiam muito, tentam resolver as coisas juntas e de forma rápida e por mais que em algum momento até existiu uma resistência sobre morarem juntas, hoje em dia não mais se veem morando longe. Entendem que o amor transparece no que são: muito acolhedoras e cuidadosas. O ato de estarem juntas sempre significou muita coragem e quando falamos de amor, surge essa palavra. Como elas já estiveram em outros relacionamentos, falam sobre alguns terem sido abusivos, por exemplo: a Maria já esteve em relacionamentos com outras mulheres que não gostavam que ela cantasse… que não a “permitiam” cantar, não apoiavam. E explica como é diferente estar com alguém que te apoia e te impulsiona, como foi importante ter a Luiza na vida dela sempre incentivando ela na música. Falamos muito sobre a presença de relacionamentos abusivos e como é muito fácil mascararmos eles, não verbalizamos o que estamos vivendo ou como estamos nos sentindo, sendo que muitas vezes nos vemos privadas de fazer algo tão nosso, como é o ato de cantar para ela, e que não merecemos mais viver relações assim, que é importante procurarmos apoio, procurarmos ajuda para sairmos desse tipo de relacionamento, seja hetero ou homoafetivo. “Amor entre mulheres é uma revolução. Você ama reafirmando. Você ama existindo. Eu não consigo olhar para o amor sem pensar no amor entre mulheres. É coragem, pra mim, o amor… pra gente amar… tem que ter muita coragem.” A Luiza diz que o amor tem a ver com entrega e com estar aberto porque você entrega e também recebe muita coisa de volta. E no amor ela se viu disposta a ajudar, a doar, a ser intensa e potente. E que isso exige muito da gente, que não é fácil, que também significa muita resistência. Mas que também acontece muito reconhecimento nesse encontro, que a Maria Pérola trouxe muita leveza na vida dela, desde saber que ela está em casa tudo já fica mais leve… e que o amor no fundo envolve o tanto que elas se dividem e se entregam. A Maria Pérola trouxe uma história interessante sobre uma vez que o Dominguinhos foi numa rádio se apresentar e no intervalo começou a tocar Chopin na sanfona. E então todos ficaram surpresos, chocados, como se ele não pudesse gostar de uma música considerada clássica por tocar forró, e quando ele é questionado sobre isso ele explica que ele é músico, um artista, que ele é gente, que pode gostar de tudo. Com esse assunto, começamos a falar sobre as múltiplas formas de cultura, não só a música ou a escrita, por ser mais presente na vida delas enquanto mulheres artistas, mas na cultura desde o circo, a feira de rua, as artes cênicas, tudo. O quanto essa inclusão e essa valorização é muito importante. A Luiza trouxe informações da roda de choro e samba que ela participa e sobre o acesso à elas, só que como ao mesmo tempo é difícil a cultura chegar até as pessoas, desde o erudita até o próprio popular, e o questionamento: o que de fato é considerado “cultura”? Ela conta também que por mais que ame participar de orquestras, hoje em dia não se vê mais longe dos trabalhos sociais e de levar música para as pessoas - e ressalta que isso não quer dizer que todo mundo tenha que gostar de orquestras, mas que todo mundo possa ter a oportunidade de gostar, possa ter acesso aos teatros, roupas para entrar nesses lugares e tempo para consumir cultura. Rolar . . . Luiza Maria Pérola
- Bruna e La Salle
A Bruna é uma mulher que sempre quis uma relação leve, alguém que a acompanhasse nas suas aventuras de nômade pela vida e que as coisas fluíssem de uma forma sem brigas ou super cobranças, mas achava que isso seria praticamente impossível de encontrar, até que conheceu a La Salle. Inicialmente, foi através de um match num aplicativo de relacionamentos que se encontraram, mas moravam há mais de 200km de distância (entre Curitiba e Ponta Grossa, no interior do Paraná) e decidiram uniram o útil ao agradável: a Bruna procurava uma personal para fazer atividades durante a pandemia e a La Salle fazia atendimentos online, então começaram a ter uma relação profissional de treinos online. Durante seis meses se encontravam online, treinavam e também conversavam sobre outros projetos: a Bruna propôs uma ideia de criar uma academia voltada ao corpo enquanto uma ideia sexual, no sentido de valorizar a sexualidade dos corpos de forma consciente. Enquanto conversavam, Bruna chegou a pensar “Vou casar com essa mulher ainda!” mas o flerte não desenrolava muito porque a La Salle não dava muitas aberturas para além do contato profissional. Não há como não começar essa história falando da forma que elas se conheceram - dessa vez, pessoalmente. Numa das idas até Curitiba, a Bruna, depois de 6 meses de trocas online com a La Salle, falou sobre elas se encontrarem para pelo menos se verem frente a frente. A questão é que tinham pouco tempo: cerca de 8 minutos, entre uma agenda e outra da La Salle, e o encontro seria dentro do próprio carro da Bruna. Elas confessam que os 8 minutos se estenderam um tanto a mais, porém, naquele dia não se beijaram, mesmo com os flertes diretos da Bruna e assim ela voltou para Ponta Grossa sofrida, meio indignada que não tinha dado certo. Quando a La Salle percebeu que a Bruna iria desistir do flerte, resolveu abrir mão. Marcaram um segundo encontro e, como Bruna é muito religiosa, resolveu ir até o seu pai de santo consultá-lo para saber se esse casal tinha chances de dar certo. Aí veio a surpresa: ele disse que sim, que elas seriam bastante felizes juntas, mas que um acidente de trânsito iria acontecer e deixaria a La Salle sem o movimento das pernas. Pensando nas viagens e na distância que moravam uma da outra, não teve escapatória: o segundo encontro foi no terreiro, para benzer as pernas da La Salle e fazer com que esse acidente jamais acontecesse. [e podemos dizer que, mesmo inesperado, deu certo, né?] Depois da reza, comeram uma pizza com o pessoal do terreiro e finalmente deram o primeiro beijo - um beijo todo descompensado e errado, o que trouxe um segundo susto de “Isso não vai dar certo!”, mas nos beijos seguintes tudo se encaixou. Quando perguntei para a La Salle como ela se sentiu quando viu uma pessoa propondo um encontro para benzer as pernas dela, ela riu e disse que por mais estranho que soasse, ela reagiu de forma tranquila. Sua família sempre foi ligada à umbanda e sua avó ao candomblé, então sempre teve a religião por perto. Estava assustada com a questão do acidente, claro, mas não cogitou não ir até o terreiro. Depois disso, resolveram fazer um terceiro encontro: dessa vez, na casa da mãe da La Salle. Bruna levou algumas comidas que a mãe dela fez e fizeram um encontro-de-comidas-de-mães. Brincam sobre esse jeito nada convencional de começar algo ter sido muito gostoso porque fez ser único, nunca tinham experimentado algo assim e se sentem muito felizes de ter se permitido viver isso sem julgamentos. No momento da documentação, a Bruna estava com 43 anos e trabalha na direção de uma agência de marketing que possui sede em São Paulo, mas divide base em Curitiba já que muitos clientes são de lá. Quando ela morava em Ponta Grossa, também era por causa do trabalho e, mesmo não sendo natural do Paraná, ela adora a vida de nômade que leva com muitas mudanças e se permitindo estar em lugares diferentes. La Salle estava com 24 anos, ela é formada em educação física e atualmente cursa nutrição. Como trabalha com consultoria online e suplementação, isso também possibilita que possa estar em outros lugares, não necessariamente em Curitiba. Sendo assim, logo depois do começo do namoro, resolveu que se mudaria para Ponta Grossa e passaria um tempo com a Bruna. Quando chegou lá, a Bruna morava em um apartamento gigante e não tinha móveis, tudo era meio encaixotado e ela vivia lá com os gatos. A La Salle chegou com as coisas dela, a cachorrinha de estimação e foi trazendo também decorações, elas foram comprando móveis juntas e transformando o lugar em um lar de verdade. Depois de alguns meses, a mãe da Bruna teve um problema de saúde e foi para Ponta Grossa também para morar com elas. Bruna conta que a vida dela sempre foi intensa então não tinha porque ser diferente nesse momento de início de namoro. Quando chegou o momento de se mudar de Ponta Grossa, decidiram: “Vamos casar aqui”. Entendem que o relacionamento fluiu muito bem lá, elas adoravam a cidade e tudo o que viveram lá faz parte da história delas, então não encontravam um lugar que mais combinaria com a cerimônia do que estar lá. O único problema é que nenhum convidado morava lá. Isso fez com que os convidados que realmente confirmassem presença mostrassem o quanto amavam elas. No fim, deu tudo muito certo! Até hoje os convidados relembram do dia contando que foi o melhor casamento que já vivenciaram. A cerimônia aconteceu de forma religiosa numa cachoeira, com os pés dentro d’água, só com os padrinhos presentes - e depois, em forma de festa, num espaço aberto e super diferente, com os padrinhos vestidos com as cores do arco-íris e tudo pensado nos mínimos detalhes. A Bruna entende que o amor é a base de qualquer relação humana e que para ele acontecer é preciso muita doação. Quando pensa nas outras relações que teve, lembra que se sentia cansada de só doar e nunca sentir que recebia algo em troca, e talvez por isso conviver com a La Salle seja tão diferente: é muito equilibrado. Ela acredita que o amor entre as mulheres é uma base forte na sociedade, visto que a mulher é de fato a base da sociedade e quando uma mulher ama ela faz algo revolucionário, ela constrói e também desconstrói diversas coisas ao seu redor. Elas entendem que ser quem são e amar quem amam não é uma opção e para entender isso é preciso muito trabalho sobre a autoaceitação. La Salle vê a homossexualidade de forma tão normal quanto a heterossexualidade e trata o amor sempre enquanto universal. Porém, na sua vida, passou por diversos enfrentamentos à desigualdade. Já foi atleta profissional de fisiculturismo e depois de se assumir perdeu diversos seguidores e apoiadores, e se sentiu completamente desvalorizada. Até hoje, dentro da sua profissão, é muito difícil ser uma mulher entre os espaços predominantemente masculinos. Na universidade, por exemplo, sempre precisa tirar uma nota muito alta para mostrar que sabe sobre o conteúdo e por vezes é desvalorizada pelos próprios professores homens já que é uma das únicas mulheres da turma. Entende que é preciso seguir para ocupar os espaços de poder no meio acadêmico e mudar isso, incentivar que mais mulheres estudem musculação, suplementação, nos mostrar enquanto uma nova alternativa e trazer novos projetos com a sua presença. Bruna, dentro da diretoria de uma empresa, fala sobre a importância que sabe que o seu papel têm na representação e na busca por mais diversidade. Hoje a empresa é comandada por três mulheres, mas luta por estar sempre num ambiente mais inclusivo. Ela acredita no poder do cuidado - seja com a natureza, com os bichos ou com os humanos - e acredita que todos devem ser respeitados. Por fim, ela diz: “Desde pequenos passamos por um processo muito dolorido para nos encontrarmos. Passei por momentos que não conhecia ninguém gay, foi muito solitário me encontrar enquanto uma mulher lésbica. Se o mundo fosse mais acolhedor esse processo seria mais fácil”. ↓ rolar para baixo ↓ La Salle Bruna
- Beanca e Ana Carolina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beanca e Ana Carolina, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Ao decorrer da história da Carol e da Beanca você entende que elas terem se conhecido, era no mínimo, muito necessário. Carol procurava uma pessoa que vivesse a vida de forma diferente da dela, que fosse mais calma, circulasse em outros espaços. Enquanto a Beanca procurava alguém que vivesse na área da saúde e que construísse a vida de forma mais dinâmica, tendo uma rotina. Assim aconteceu: a Beanca chegou na vida da Carol trazendo muita leveza, amigos novos, bagagem cultural, pé no chão… enquanto a Carol trouxe uma carga de conhecimento gigantesca, uma nova realidade, iniciativas e muito carinho. Enquanto Carol conta tudo o que precisou fazer até que elas conseguissem se beijar ou começar o relacionamento, Beanca olha para ela e ri, tímida, depois diz “que bom que essa iniciativa ela tomou”. Carolina tem 36 anos, é enfermeira chefe em um hospital público. Beanca tem 38 anos, é formada em jornalismo, trabalhou com assessoria de imprensa e comunicação durante anos, mas largou tudo para seguir seu sonho: fazer odontologia. Por mais que tenha feito muitos trabalhos legais na comunicação (e cita Esconderijo, a websérie LGBT, da qual participou da produção na segunda temporada), não se via mais no mercado, sentia tudo muito saturado. Foi aí que resolveu se dedicar ao seu sonho e hoje em dia, além da faculdade, ocupa boa parte do tempo fazendo diversos cursos especializantes. Quando as duas se conheceram - pelo Happn, Carol logo de cara achou ela interessante pelo fato de ser jornalista… e Be queria muito conhecer alguém da área da saúde, já que estava entrando no mundo da odontologia. Pra quem não sabe, o happn funciona mostrando pessoas que passam fisicamente perto de você em algum caminho durante o dia. Elas se esbarraram algumas vezes, mesmo que morressem em lugares bem distantes, pelo motivo da Beanca morar próximo ao hospital onde o padrasto da Carol estava internado. Quando elas se encontraram pela primeira vez, Carol estava passando por um momento bem difícil. Estava muito triste, queria sair um pouco da realidade dela e conhecer pessoas novas, conversar sobre novos assuntos, ter alguém que ajudasse a colocar uma calmaria no turbilhão de sentimentos que estava sentindo. Beanca chegou trazendo tudo isso e introduziu a Carol no seu grupo de amigas, que são pessoas mais voltadas à arte e que falam sobre todos os tipos de assunto - de cinema, política, fotografia, música… coisas que não fossem só voltadas à saúde. “Pra mim, foi muito importante esse contato com pessoas alegres. Era o que eu precisava. Me sentir animada de novo”. Pouco tempo depois rolou o pedido de namoro. Carol comenta que toda mulher é muito intensa e pecamos em romantizar demais isso. Antes de pensar em namorar, ela passou por um relacionamento bastante abusivo (forte e intenso), então a Be significava ser muito mais vida real, mais tranquila, numa frequência melhor. O amor veio com o tempo, quando elas deixaram a paixão se transformar. “Dar tempo ao tempo não significa ser uma tarefa fácil”. Elas já passaram por diversos momentos difíceis no relacionamento - chegaram a ser diagnosticadas com depressão durante um período e optaram pelo afastamento para conseguirem tratar. Quando entenderam que já estavam num quadro melhor e perceberam que não queriam perder uma a outra, decidiram voltar, já tendo uma mentalidade diferente sobre o relacionamento. Hoje em dia, estão sempre conversando sobre tudo. A pandemia também ensinou que não adianta você se esforçar ao máximo para atingir um nível de coisa que não vai existir, ou seja, um relacionamento sem erros, romantizado demais. Pelo contrário, a pandemia mostra que não precisamos ter controle de tudo, que a vida é um sopro e que devemos usar a energia com algo que realmente valesse a pena, como o cultivo e cuidado diário do relacionamento. Devido ao momento de pandemia que vivemos e à importância da profissão da Carolina enquanto enfermeira chefe, decidi perguntar sobre como está sendo a experiência difícil de estar na linha de frente contra o COVID-19. “É muito complicado” - foi a primeira frase que Carol disse. Toda a equipe de enfermagem saiu com alguma sequela, principalmente psíquica. Você pode ter muita ou pouca experiência, ser mais velho ou mais jovem, todos sairão da pandemia muito diferentes. É muito difícil até hoje pensar em quantos amigos ela perdeu, quantas pessoas desesperadas sabendo que morreriam entubadas ela viu. Dar as notícias, emprestar o próprio celular para as pessoas se despedirem da família por vídeo, entender que o vírus é um inimigo invisível… foi tudo muito chocante. A sensação é de que ninguém vai sair ileso, os profissionais dentro das equipes começaram a mudar muito rápido, tanto para melhor, quanto para pior. O corpo dói, a mente dói, existe muita tensão e muito medo de levar para a família, preconceito das pessoas não quererem estar por perto… Ela diz que toda vez que precisa correr para conseguir o último remédio ou o último cilindro, entende que a vida passa muito rápido. Precisamos pensar também na importância da profissão. Por mais que médicos tenham um papel muito importante no hospital, quem está na linha de frente mesmo, correndo, atendendo e cuidando são os enfermeiros. Hoje em dia o descaso com a saúde pública no Brasil é gigantesco, principalmente no Rio de Janeiro, e é resultado também de diversas gestões que não tratam a saúde com devido respeito, destinando poucas medidas efetivas e recursos necessários. Por fim, Carol comentou também o quanto eles envelheceram, o quanto estão cansados e o quanto foi difícil perder amigos e familiares, vendo eles morrerem completamente sozinhos. O COVID é uma doença muito cruel que não escolhe entre uma pessoa ou outra. Quando você vê, já era. Surge novamente a frase na conversa: a vida é um sopro. Quando perguntei sobre como foi a sensação de ter tomado a vacina, o tom da voz mudou completamente: alívio. Disse que abraçou muito uma colega de profissão, que chorou e que entendeu que isso, em algum momento, vai passar. “Poder voltar a abraçar as pessoas é muito surreal”. Beanca sente que o amor entre mulheres é muito mais cuidadoso, íntimo e que as mulheres se entendem mais. Carol acha mais fácil se relacionar com outra mulher do que com homem, levando em consideração que relacionamentos em si não são coisas fáceis. No fim, chegam à conclusão de que não sentem vontade de se relacionar com homens porque falta companheirismo - o que há muito na relação delas. Se uma cozinha, a outra limpa. Não ficam fazendo algo no sentido de “servir”, como vemos em diversos relacionamentos heterossexuais, mas fazem no sentido de construir juntas, fazer juntas. “Quando eu faço a janta é porque eu quero fazer, esperar ela chegar para comermos bem. Não faço porque sou obrigada a fazer e deixar um prato na mesa pronto esperando ‘o marido chegar do trabalho'''. A coisa que mais gostam de fazer está entre: reunir os amigos (sendo anfitriãs, recebendo eles em casa), estar com suas famílias e viajar estilo bate-e-volta para alguns lugares (a casa em Teresópolis, regiões do interior do Rio de Janeiro, etc). Quando falamos sobre a cidade, elas contam o quanto nossa visibilidade melhorou muito, já que quando se assumiram, há uns 20 anos atrás, a coisa era bastante diferente. Naquela época uma mulher só poderia amar outra se estivesse em guetos, escondidas, suburbanas. Eram lugares horríveis, submundos, não eram restaurantes e festas legais. Carol lembra muito de ter que se esconder para viver um amor e sobre não falarem abertamente sobre homossexualidade. Até mesmo para ela foi difícil entender. Achava que só podia ser lésbica quem se vestia de forma estereotipamente masculina… e só entendeu que não era bem assim quando viu uma mulher bastante feminina beijando outra (e isso fez com que ela se entendesse também). Além disso, conta que foi nos grupos do UOL/BOL e no ICQ que ela pode conhecer outras pessoas LGBTs e assim se encontrar - em shoppings, em guetos. Para a Be foi mais difícil a questão de se aceitar. Já tinha uma referência de LGBT na família, então lidava com isso tranquilamente. Mas internamente só conseguiu se assumir quando formou um grupo de amigas que também se sentiram assim e decidiram que se assumiriam juntas. Hoje em dia ficam felizes quando veem o quanto está sendo falado sobre LGBTs - na mídia, nos espaços de convívio e na política. Acreditam que cada relação se constrói aos poucos e que precisamos falar quem nós somos, amar de verdade, para que a luta siga avançando. < Beanca Carol
- Ane e Thelassyn | Documentadas
Foi na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro onde Ane e Thelassyn se conheceram (e onde fizemos as fotos para o Documentadas), no polo de Nova Iguaçu, na baixada fluminense. Em 2018, quando Ane cursava história e Thethe cursava pedagogia, frequentavam muito os centros acadêmicos dos seus cursos e possuíam diversos amigos em comum. Contam o quanto gostavam de se envolver em tudo o que podiam na faculdade, inclusive na causa animal: no campus há diversos cachorros e gatos abandonados e então participavam dos coletivos que cuidavam dos bichinhos. Ane morava numa república e estava hospedando uma cachorrinha que tinha sido atropelada e precisava de cuidados, até que Thelassyn foi doar um remédio que estava faltando e se encontraram pela primeira vez. Ane achou Thethe linda demais, ficou encantada. Por mais que Thethe brinca que não tenha acontecido nada demais, só entregou o remédio e foi embora, depois disso se encontravam de vez em quando e Ane sempre ficava nervosa. Até que um dia, durante uma manifestação política por conta do Museu Nacional ter pego fogo, se encontraram e interagiram no centro do Rio de Janeiro, conversaram e foram juntas até o ponto de ônibus, onde deram um selinho. Uns dias depois aconteceria uma festa na faculdade e Ane convidou a Thethe, elas se arrumaram juntas, lá na república em que ela morava. Depois, na festa, quando Ane finalmente achou que elas iriam se beijar, Thethe chegou até ela e disse: “Minha amiga quer ficar com você!”. Ela não entendeu nada, respondeu que na verdade queria era ficar com a Thethe, não com a amiga. E enfim o beijo aconteceu. Depois da festa e do primeiro beijo, passaram o fim de semana conversando. Até que a semana começou e decidiram se encontrar na faculdade e, depois da aula, assistir um filme na casa da Ane. Na faculdade ficaram novamente - no local em que fizemos as fotos, inclusive - e depois foram para a república, na casa da Ane. No dia seguinte, quando acordaram, a Ane convidou Thelassyn para almoçar e assim tudo foi acontecendo… passou o dia, a noite, o dia seguinte… e foi ficando. Ela ia para a casa, pegava roupas, visitava e voltava para dormir com a Ane. Depois de 15 dias, já tinha ganho até uma gaveta no guarda-roupa. Num dia, na faculdade, estava acontecendo um evento no hall de entrada, então Ane pegou o microfone e pediu Thethe em namoro - mesmo que elas já estivessem com a gaveta compartilhada no guarda-roupa. Naquela época, contam que quando não estavam juntas na república, os amigos que dividiam casa até estranhavam. Foi então que, depois de dois meses, decidiram se mudar para uma “casa de verdade”. Querendo ou não, era muito ruim na república: muita gente, uma cama de solteiro, sem ventilador.. passavam muito perrengue. Conseguiram um apartamento próximo da faculdade, dividindo com uma amiga. A mudança aconteceu sem rede de apoio, começo de namoro, sem móveis, sem programação. Ganharam alguns eletrodomésticos, mas lembram que no primeiro dia não tinham nem vassoura, prato, copos… A vida no bandejão da faculdade salvou tudo. Passaram um ano morando neste apartamento. Foram comprando móveis usados, trabalhando muito… Até que conseguiram se mudar para uma casa só delas. Neste novo lar, adotaram duas cachorrinhas, fizeram suas primeiras viagens… Ao total, até hoje, já se mudaram mais de 6 vezes. Entendem que por mais que tenha existido muito perrengue, hoje em dia estão no lar que mais amam e que mais desejaram viver. No momento da documentação, Thelassyn estava com 28 anos, terminando as faculdades de pedagogia e enfermagem. Por mais que sejam áreas bastante diferentes, conta que deseja trabalhar com o que tiver mais demanda de trabalho primeiro, mas que se for com educação, sua prioridade é escolas públicas. Infelizmente na rede particular sofreu um caso de lesbofobia, sendo demitida depois de descobrirem o relacionamento. Ane, no momento da documentação, estava com 25 anos. Ela é natural de Campo Grande, no Rio de Janeiro e se mudou para Nova Iguaçu para fazer faculdade em 2016. Hoje em dia, cursa mestrado, também na UFFRJ, no campus de Seropédica. Lidar com as adversidades no cotidiano não é fácil, principalmente por serem pessoas bastante diferentes - Ane, por exemplo, sente que precisa de mais tempo para processar as coisas, enquanto Thethe é mais ansiosa e deseja resolver os problemas logo. É preciso cuidado para não desequilibrar ou se atropelar. Explicam que o que faz elas continuarem juntas é a vontade de continuar juntas. Parece simples, mas é o que define a grande determinação de passar por cima de todos os perrengues que já passaram em nome do amor que sentem. Explicam que o mais difícil é não ter uma rede de apoio presente, acabam sendo o apoio uma da outra e, como resultado, o impulso também para o amor que acreditam. No começo, foram muito criticadas. As pessoas falavam que o relacionamento não iria durar, tiveram que se afastar da família por não terem apoio (com exceção da avó e da irmã da The, que são boas aliadas)... foi muito difícil enfrentar tudo. Hoje, ficam felizes em relembrar o que viveram desde o início e ver como superaram e passaram por cima desses comentários mostrando o amor que vivem e o que estão disposta a viver, principalmente agora, que estão noivas. Sonham com o casamento, que pretendem realizar em breve, e se permitem planejar uma vida juntas. No Instagram, é através do perfil @morandocomela que relatam o dia a dia que vivem. Foi da vontade natural de registrar os detalhes do cotidiano, quase como uma documentação, que surgiu. Não numa linha influencer, mas de mostrar as conquistas, as fotos, gravar o que acontece, as cenas com as cachorras... No começo, Ane pouco aparecia, ficava envergonhada… hoje em dia adora. Thelassyn acredita que amar uma mulher é resistir sempre. Entende que o mundo ao nosso redor ainda é muito hetero, feito por pessoas héteros e para pessoas héteros. Quando se ama outra mulher e se mostra isso, se demonstra muita coragem. Ane faz o recorte racial quando fala sobre o amor que vivem, afinal, são um casal interracial e estudam sobre o amor também enquanto política - escolher quem você ama fala sobre quem você é e sobre o próprio racismo. Conversam muito sobre práticas, falas e sobre a Ane não ser uma “wikipédia preta”. Thethe está sempre disposta a quebrar os preconceitos que são culturalmente colocados em nós e assim encontram diversas formas de viverem um amor honesto. Entendem que a homofobia está em vários cantos, desde quando saem de casa de mãos dadas e os vizinhos olham diferente, até não serem convidadas para as festas de família - “As pessoas tentam fingir que não é, mas sabemos que é”. Tentam ressignificar todo dia, trazer amor para a relação delas a fim de lidar com as coisas ruins do mundo: não gritar, brigar o mínimo possível, buscar se entender e se respeitar ao máximo. Ressignificar com amor em vários espaços. Thethe fala sobre ver muito o amor no dia a dia, com as cachorras, em casa, na varanda com a chuva caindo. Ressaltam que sempre que chovia, nas outras casas que moravam, era um tormento porque alagava tudo e hoje em dia ter a casa com varanda fez a chuva virar uma alegria… Quando chove correm para observar juntas, é um momento só delas. ↓ rolar para baixo ↓ Thelassyn Ane
