Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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294 resultados encontrados com uma busca vazia
- Samara e Rebeca | Documentadas
Rebeca e Samara se conheceram em outubro de 2023, durante uma live de uma página voltada ao público lésbico e bissexual. A proposta da live era conectar mulheres, seja para amizades ou relacionamentos. Samara tinha saído de um relacionamento - que não havia sido fácil - há cerca de seis meses, tomou coragem e decidiu participar para conhecer pessoas novas. Foi então que Rebeca a notou e começou a seguir no Instagram. Começaram a conversar imediatamente e se deram super bem, as conversas se tornaram diária e vieram chamadas de vídeo e ligações. Construíram um vínculo à distância - uma morando na Bahia, a outra no Piaui - que durou seis meses, e decidiram se relacionar de forma virtual. Em abril de 2024, Rebeca disse para Samara que faria uma viagem para visitar o pai no interior. No entanto, dias depois, veio a surpresa: Rebeca não estava no interior, mas sim a caminho de Salvador. Com a ajuda de familiares, ela arquitetou uma mudança e aproveitou a ocasião para surpreender Samara em seu aniversário, deixando claro que já tinha os planos de conseguir um emprego por lá e ficar de vez. A falta de aceitação de sua sexualidade pela família, somada aos seis meses de conexão intensa com Samara, desencadeou o impulso de recomeçar. Tinha o medo de não dar certo por não se conhecerem pessoalmente? Claro. Mas arriscar era preciso. Após algumas entrevistas, conseguiu um emprego e começou a se estruturar. Como ela mesma diz: "Já vim com os planos de ficar perto da Sam, não queria mais voltar para o Piauí." Desde então, elas têm vivido juntas, transformando aquela conexão inicial em uma história de amor real e corajosa, e Rebeca não se arrepende e nem deseja voltar. Quando chegou em Salvador, Rebeca ficou na casa dos seus familiares que moravam na cidade, mas também foi recebida com carinho pela família da Sam. Após uns meses, decidiram começar uma vida juntas, em um lar só delas. Os primeiros móveis foram adquiridos com pressa, mas com a ajuda preciosa da família para facilitar o início dessa nova etapa, ainda que pagando em várias prestações. Com alegria, contam como frequentemente refletem sobre essa decisão e afirmam, sem hesitar, que não se arrependem - principalmente a Rebeca, de ter deixado o Piauí para construir essa história ao lado de Samara. O amor, que começou de forma tão inesperada, revelou uma força que surpreende até elas mesmas. O que torna a relação única, segundo Sam, é a forma como se sentem ouvidas e reconhecidas uma pela outra. "Não vale só assinar embaixo. Ela deixa eu falar," diz Samara, expressando a dinâmica de respeito mútuo que construíram. E isso que é muito interessante, no dia-a-dia, além de desafiador, mostra o quanto representa crescimento para elas e para a família. E nesse crescimento também aprendem a lidar com questões que nem sabiam que era possível: como os ciúmes, a vida financeira, a ter paciência e entender que conquistam as coisas aos poucos, de acolher nos momentos difíceis, não procrastinar a luta dos estudos… uma puxa a outra nos sonhos. O amor delas também se revela nos pequenos impulsos do cotidiano. Desde Sam que gasta todos os caracteres na hora de se declarar, até a forma mais tímida de Rebeca, que prefere ações a palavras. É o mesmo impulso que levou Rebeca a mudar de estado e que ainda as guia em decisões, como comprar coisas sem tanto planejamento ou dizer “sim, vamos” antes de pensar duas vezes. Esses gestos espontâneos mostram que, mesmo com os desafios, o que importa é fazer dar certo. Samara, no momento da documentação, estava com 26 anos. É formada em História pela UBA e vive em Salvador, onde trabalha como professora em uma escola particular. Apesar de amar sua formação, sonha em cursar Direito, algo que pretendia fazer desde o início, antes de se apaixonar por História. Determinada e cheia de sonhos, Samara ainda planeja voltar à faculdade e realizar esse desejo. No tempo livre, ela adora ir ao cinema, shows, ouvir música, ler e assistir séries. Rebeca estava com 21 anos no momento da documentação. Nasceu em Salvador, mas passou a maior parte da vida no Piaui. Recentemente, em abril de 2024, decidiu voltar para Salvador motivada pelo amor que construiu com Samara. Atualmente, trabalha como operadora de telemarketing e cursa Ciências Biológicas, mas seu grande sonho é estudar Medicina. Rebeca é apaixonada por música e se destaca ao tocar violão, guitarra e bateria. Embora não seja fã de leitura como Samara, ela ama ir ao estádio de futebol – um hábito que aprendeu com Samara, e agora ambas torcem juntas pelo Vitória. A praia é um dos cenários mais especiais para as duas. Apaixonadas pelo mar, elas encontram nesse ambiente o refúgio para criar memórias juntas. Assim como o futebol no estádio, os passeios à beira-mar se tornaram um dos momentos mais significativos do relacionamento, por isso escolheram o lugar para fazermos as fotos na documentação. ↓ rolar para baixo ↓ Samara Rebeca
- Mariana e Vivien
Porém, a Vivi tinha uma passagem comprada para passar o ano novo em Belo Horizonte, enquanto a Mari ia voltar com a família de vez para o Rio. O réveillon do ano de 2018 para 2019 estava acontecendo e ela não tinha mais previsão de volta para Porto Alegre. Além de que, a Vivi estando acampando em Belo Horizonte, estava incomunicável com a Mari. Elas tiveram um dia maravilhoso em Porto Alegre e depois cada uma foi para um estado diferente e não conseguiu se comunicar mais, só que não estava nem entendendo ou sabendo explicar o que estava sentindo. A Vivi conta que na volta de Belo Horizonte chegou a cogitar mudar a passagem para o Rio de Janeiro, só que não sabia se fazia sentido, se tudo estava sendo recíproco ou se estava delirando porque tinha passado dias estando incomunicável. Quando suas vidas voltaram ao “normal” elas seguiram se falando pela internet e no fim de janeiro decidiram comprar uma passagem para a Mari voltar à Porto Alegre. Ela ficou 5 dias. A Vivi odiava a ideia de namorar à distância e a Mari disse que não poderia cogitar a ideia de namorar também… mas quando se encontraram entenderam que não fazia sentido elas NÃO namorarem. A Vivi disse “Mari, eu acho que eu tô te amando”. Começaram a namorar. O namoro à distância durou quatro meses e a Vivi insistiu muito para que a Mari se mudasse. Então a Mari disse que só se mudaria se ela fosse buscar ela no Rio, por conta de conhecer a realidade dela no Rio, conhecer de fato a mãe dela, estar no Rio. Ela comprou a passagem e foi. Assim que chegou no Rio, começou a chorar. Se emocionou com o Rio, com tudo. No dia das namoradas, a Mari chegou com as malas em Porto Alegre para morar com a Vivi. Elas mudaram todos os móveis de lugar para sentirem que estavam morando em um novo apartamento, compraram coisas juntas, procuraram coisas novas para fazer… e então descobriram a aula de canto. Foi quando a Vivi decidiu começar também, para fazer companhia. Conheceram um professor que ficou muito encantado com a sintonia da voz das duas juntas e instigou-as a pensar em fazerem um clipe juntas. Fizeram algo simples, caseiro, lançaram no YouTube. Pensaram em um nome, gostavam do nome AMARela. Vivi fez o logo, elas começaram a produzir covers, postar com frequência. Logo depois disso veio a pandemia e elas estavam ansiosas porque lançariam um EP, mas nesse meio tempo a Mari foi demitida do lugar em que ela trabalhava. Foi um período muito turbulento em que precisaram se reinventar, pensar em como conseguiriam uma nova fonte de renda, porque o AMARela acabava gerando mais gasto do que ganhos financeiros… e como conseguiriam reverter essa questão? Resolveram repensar tudo o que elas gostavam de fazer. E a Mari entendeu que ela ama compor, sempre foi apaixonada por ouvir histórias e pensar sobre elas. Ela tentou começar a criar composições pelas histórias das pessoas e oferecer isso como um serviço para presentear alguém, para homenagear, para registrar… e assim nasceu o Canta Minha História (confere aí que é lindo!) Enquanto o Canta Minha História começou a ter uma estrutura e dar certo, a Vivi começou a pesquisar sobre tudo o que precisava e entrar com apoio também, até que em setembro, também por motivos de cortes da pandemia, ela foi demitida. A música foi crescendo, tomando conta e espaço, virando a fonte de renda única na casa, e elas foram estudando, se aprimorando, comprando equipamentos, formando um estúdio, fazendo parcerias, se mantendo, chegando em muitas pessoas…hoje, sentem muito orgulho em ver tudo o que estão construindo juntas e o quanto a música faz muito mais do que a parte financeira e a rotina delas, também traz muito do sentimento, da vida, da alma da casa e transformam o lar com a carinha de cada uma. A Vivi se desenvolve no teclado, no canto, na edição e no violão. A Mari nas composições, nas cordas, nas mixagens, nos estudos… e vão se completando o tempo todo. Enquanto mulheres artistas, ambas falam que nós podemos e devemos ter uma corrente muito maior ajudando artistas e musicistas menores no mundo da cultura no Brasil. Elas comentam que é muito fácil vermos artistas grandes se ajudando e sendo amigos, mas precisamos ver os pequenos se puxando para o alto também. Da mesma forma que é muito fácil quem tem dinheiro estar sempre chegando no alto, é preciso que quem esteja no alto puxe quem não tenha e que ainda seja pequeno. Precisamos estar nos apoiando, nos fortalecendo, compartilhando o nosso conteúdo entre nós. No dia seguinte, de manhã, elas se seguiram no instagram e a Mari resolveu perguntar como era o nome da banda que ela disse naquela hora, que afinal, era: Versos Que Compomos Nas Estradas!!! (e que elas pediram para eu colocar o link aqui, então, ouçam!!! é muito bom, galera! mas o nome é difícil mesmo aí ó hahaha) e ai conversa vai, conversa vem, a Mari soltou um: “e tu, toca violão? porque toda sapatão que é sapatão toca violão!” e então a Vivi finalmente entendeu que a Mari era realmente sapatão e que aquilo era de verdade um flerte, não era só uma menina sendo simpática. Elas seguiram conversando por alguns dias e decidiram marcar uma cerveja no bar para se encontrar. Comentaram de se encontrar sexta-feira, mas a Vivi já ia sair com uma amiga dela e a Mari já ia encontrar o primo, sábado também não podiam… domingo! Domingo ia rolar. Chegou sexta, a Vivi estava a caminho do encontro com a amiga e a Mari a caminho do encontro com o primo, na Rua dos Andradas, centro de Porto Alegre… quando de repente, se esbarram na rua. Eita. Tô indo ali. Encontrar. “meu primo ta ali” “minha amiga ta ali”. Mesmo bar. Mesma hora. Mesas diferentes. Não entenderam nada, mas brincaram “eu não te segui não, tá??”. No domingo decidiram que o mais justo seria voltar nesse bar. Foi um encontro ótimo. Beberam muito, comeram muito, conversaram muito. Dormiram na casa da Vivi. Detalhe: o encontro foi no dia 23 de dezembro, o dia seguinte era véspera de natal e 5h30 da manhã a Mari saiu correndo da casa da Vivi para ir no aeroporto buscar a família dela que estava chegando do Rio para passar o natal em Porto Alegre. Depois do natal, no dia 26, a Vivi mandou aquele textão emocionado pensando em marcaram um segundo encontro e a Mari respondeu com aquela palavra que resume tudo: “claro”. Se encontraram no apartamento da Vivi. Passaram o dia ouvindo MPB, descobriram mil músicas em comum, entenderam que realmente se encontravam na música. Nessa época ela já tocava ao vivo em alguns lugares, tinha um certo repertório e a prima dela, da qual ela estava na casa hospedada, tinha um escritório no Vila Flores, um centro cultural de economia criativa que hospeda empresas, cafés, etc. e pensou em levar a Mari lá para apresentar o espaço e um dos cafés que fazia um happy hour para quem sabe a Mari poder tocar lá e conseguir fazer um trabalho. Ela decidiu ir, se apresentou para a dona do local e se propôs a tocar lá. A dona topou e agendou para uma data próxima, foi aí, nessa história, que entrou no caminho: a Vivi. A dona do café é irmã da Vivi. E a Vivi estava trabalhando em todos os lugares possíveis para juntar dinheiro, inclusive no café. A irmã dela sabia que a Vivi ia se interessar pela Mari, então imediatamente marcou a Vivi num vídeo da Mari cantando (no Facebook), e disse para ela no Whatsapp “te marquei em um vídeo, acho que tu vais gostar”. Só que como ninguém mais usa facebook, a Vivi não olhou, achou que fosse uma bobagem da irmã dela. A irmã encheu o saco para ela olhar e ela não olhou. No dia do trabalho ela estava com muita preguiça de sair de casa, não queria ir, ficou enrolando, mas foi porque pensou “ah, vou, vai que eu encontro uma guria legal”. Quando chegou lá para trabalhar ela viu a Mari e um fotógrafo que estava trabalhando no evento queria postar uma foto que fez de todos e queria marcar cada pessoa na foto, mas não sabia o nome da cantora. Ela também não sabia, e ele pediu ajuda para ela descobrir. Então ela pegou o celular dele e precisou ir lá perguntar o nome da Mariana, absurdamente sem jeito e sem graça, com mil justificativas, gaguejando e dizendo que era exclusivamente porque o fotógrafo tinha pedido, ela perguntou qual era o Instagram para poder marcar a Mari na foto. Depois disso, o show todo aconteceu e no fim a Mari pergunta: alguém quer pedir alguma música? e foi a Vivi, lá perto, e disse…“você tava afinando teu violão né… era versosquecompomosnsduienarada?” e a mari “era o que?” “versouqmenajdartrada” “não conheço isso” “hum então era castello branco” “ahh castello branco eu conheço” “ah então toca castello branco pra mim!!”. Ela tocou, acabou o show, trocaram uma ideia super rápida e na hora da despedida e Mari voltou para dar tchau especialmente para a Vivi, ambas ainda sem jeito. Se eu pudesse, deixaria de fazer esse texto e colocaria um áudio da nossa conversa aqui para vocês ouvirem. (Alô, eu ouvi um Documencast?). Porque a Mariana e a Vivien são de um nível de humor contando a história delas que eu jamais saberia como colocar em palavras! Mas vamos lá, vou tentar. Esse texto vai se resumir na história de como elas se conheceram, porque como elas se conheceram, é o que elas são hoje. A Mari tem 26 anos e é carioca, super carioca. A Vivien tem 32 anos e é gaúcha porto alegrense, super porto alegrense. A Mari é formada em Artes Visuais - Licenciatura, mas nunca atuou enquanto professora, sempre curtiu mais a área da música. A Vivi é designer e hoje em dia também vive no mundo da música. A mãe da Mari é gaúcha, mas foi morar no Rio de Janeiro quando era muito novinha, ainda criança. Mesmo crescendo e vivendo no Rio, ela sempre teve uma conexão muito grande com Porto Alegre, por ter grande parte da família lá - e inclusive, quando a Mari era criança, por um tempo, chegaram a voltar e morar um tempinho em Porto Alegre de novo. Mas não deu certo, a mãe decidiu voltar para o Rio (nunca gostou muito do sul e dos gaúchos, sempre preferiu o agito carioca). Quando a Mari cresceu, fez a faculdade e no final da faculdade, em 2018, se viu muito perdida sobre em que carreira seguir e sobre o que fazer da vida. Pensou em passar um tempo em Porto Alegre, por gostar da cidade, por tentar respirar novos ares… e antes de viajar a mãe disse: - Mari, vê se não fica por lá, hein? - Mãe, eu só fico se eu encontrar o amor da minha vida! Eu conto, ou vocês contam? Enfim. Botão Vivien Mariana
- Patrini e Gabi | Documentadas
Patrini estava com 30 anos no momento da documentação. É natural de São Sebastião do Caí, interior do Rio Grande do Sul, e mora em Porto Alegre há pouco mais de três anos. Trabalha como psicóloga e desde o início da carreira já se dedicava ao trabalho com foco em sexualidade e gênero, participando de coletivos e acolhendo pessoas LGBTs em seus atendimentos, mas foi nos últimos anos que fora do consultório olhou para si e também permitiu o entendimento da sua própria sexualidade enquanto uma mulher que ama outra mulher - ainda que, nesse processo, nunca havia imaginado namorar outras pessoas porque sempre se via sozinha e não-monogâmica, até começar a relação com a Gabi. É no tempo livre que Patrini encontra o ritmo e o descanso na música: sendo percussionista. Filha de baterista, explica que o som sempre foi um modo de se manter viva. Religiosa de matriz africana, costuma dizer que o orixá orienta seus caminhos… e talvez por isso veja na vida, na música e no amor um lugar de movimento, de cruzamentos, de liberdade. Gabriela estava com 23 anos no momento da documentação. É natural de Taquara, interior do Rio Grande do Sul, e cursa psicologia. Quando começou a se relacionar com mulheres, na adolescência e antes de se mudar para Porto Alegre, enfrentou uma reação violenta dos pais, que só mudou com o tempo, com a maturidade e a terapia. Aos 18 chegou em Porto Alegre para cursar a faculdade e desde então constrói sua carreira. Para além da psicologia, Gabi adora fazer crossfit e surfar. Sonha em unir o esporte à psicologia, principalmente na praia, onde se sente completa. Foi em 2023 que Patrini e Gabi se conheceram, sem marcar encontros ou sair de casa com grandes expectativas, estavam apenas com suas amigas curtindo o Bloco da Laje, famoso bloco carnavalesco gaúcho. Uma delas havia ido ao evento com uma antiga ficante, mas acabou se afastando para reencontrar uma amiga. A outra chegou mais tarde, apenas querendo se divertir e rever conhecidos. O encontro aconteceu quando uniram os grupos de amigos e trocaram olhares, sorriram uma para a outra e puxaram alguns assuntos falando sobre o glitter que usavam. Depois de uma rápida conversa descobriram que tinham a psicologia em comum, até que Patrini questionou: “Vem cá, você tem quantos anos hein?!”. A troca que tiveram no bloco foi curta, trocaram o Instagram rapidamente e logo se perderam nos grupos. Patrini foi para casa em seguida, pois morava perto, e no dia seguinte trocaram mensagens no Instagram para se encontrar novamente. Ela achava que não iria dar em nada, principalmente pela diferença de idade, mas topou o encontro, que foi em um pagode, num lugar bastante aleatório. Se deram bem, seguiram se encontrando e entrando aos poucos uma na rotina da outra. Brincam que o que era ficarem juntas durante o fim de semana se estendeu para segunda, depois segunda e terça, depois quinta até segunda… até que não fazia mais sentido dormir separadas. A convivência se intensificou entre risadas, cafés, cachorros indo e vindo, e o caos afetuoso das diferenças também se revelaram com o tempo. Patrini, que há anos morava sozinha, estranhou o ritmo de uma casa mais cheia. Gabi, que morava com mais pessoas, mostrava outra forma de ver as coisas. Em meio a conversas sinceras, falaram sobre os limites da relação, sobre monogamia e liberdade, com respeito e escuta. Foi um tempo depois de ficarem pela primeira vez - e de terem se conhecido no bloco - que Patrini e Gabi começaram o namoro, ainda em 2023. Um ano e meio depois, decidiram morar juntas, primeiro porque a logística de idas e vindas para ambas casas não fazia mais sentido, e segundo porque coincidiram suas datas de encerramentos de contratos dos imóveis locados. Um ultimato que virou oportunidade: se já se escolhiam na prática, por que não oficializar na rotina? O novo lar, porém, trouxe seus próprios ruídos: um bairro que não era o favorito, era escolhido por necessidade. Deslocamentos maiores. Outras adaptações. Ainda assim, ficaram. E seguem planejando, inclusive mudar de novo quando a vida permitir. Nesse tempo que estão juntas passaram por muitas coisas, entre felicidades, tristezas, desafios e coisas que só o tempo comporta. Foram lutos, roubos, ansiedades, burnouts, reflexões sobre si, crescimento profissional… Nasceu a percepção de companhia: um porto seguro. Uma base que não é só idealizada, ela atravessa vulnerabilidade com presença. A terapia entrou como ferramenta e como espelho. Falou sobre conflitos antigos, influências familiares, a dificuldade de separar individualidade e dependência. Foi como colocar tudo sob a mesa. Coisas até que nem estavam preparadas para ver - e entender isso também. Entender que são pessoas, que compromisso não é cobrança. Perceberam que estar juntas implica aceitar também o que a outra é no mundo: sua história, suas crenças, suas formas de amar. E que essa decisão, apesar de exigir disposição, devolve amor de um jeito que faz sentido. Com o tempo, a relação começou a transbordar para fora das duas. Olharam para as relações alheias com menos julgamento, entenderam acordos, nuances, possibilidades. A diferença de idade virou aprendizado mútuo: uma traz estabilidade e perspectiva, a outra traz experimentação e futuro em construção. Uma aprende organização financeira, aprende a respirar mais; a outra ganha calma, confiança, orientações de quem já ocupou alguns caminhos antes. A rotina é como um ritual para Patrini e Gabi: o chimarrão ao fim do dia, o café da manhã, as conversas que acontecem nesses momentos… Gostam de cozinhar juntas, viver o dia sem pressa aos sábados. Ir na feira. Dormir um pouco a mais. Cuidar da casa, viver o dia com a cachorrinha. Cuidar das plantas. Há uma alegria tranquila em estar cuidando do lar, em organizar e ver tudo no lugar, sentindo que aquilo as representa. A rotina, antes dividida entre deslocamentos e urgências, hoje é feita de pausas, tendo cuidado no descanso. De certa forma isso reflete o amor que amadureceu junto da relação, entre as conquistas nos dias comuns, os momentos de perdas. Um cotidiano que vai se construindo em coisas boas, em dias mais vulneráveis, sobretudo na companhia e numa intimidade que antes nem imaginavam conquistar: estar uma com a outra, e em casa. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Patrini
- Camilla e Karol | Documentadas
Amor de Calma e Maresia - Camilla e Karol clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Tamires e Fran
Durante o tempo que passei documentando a Tamires e a Fran, tivemos várias conversas sobre a vida, o amor que elas sentem uma pela outra, a história delas em si, as brincadeiras, a vida individualmente, trabalhos, amigos… mas o que vi se destacando o tempo todo, indo e voltando nos assuntos, foi a família. São muito ligadas às suas famílias e às famílias uma da outra, nem fazem mais separação enquanto “a família da Fran” ou “a família da Tami”, virou uma só. A lista é extensa quanto aos elogios à forma como Tamires foi acolhida na família da Fran desde o momento em que assumiram o namoro. Hoje em dia, aos domingos, a rotina do casal é ir até à loja de frango assado que os pais dela possuem no bairro para ajudar nas vendas - o que elas realmente adoram fazer. Ressaltamos a importância de falar sobre isso em espaços como o Documentadas e mostrarmos como é possível que mulheres que amam outras mulheres tenham o apoio de suas famílias e relações saudáveis, incluindo chá de casa nova quando compram um apartamento, rede de apoio, etc. Tami explica que por mais que hoje em dia tudo isso tenha sido construído e que essas questões estejam realmente muito bem, ela (diferente da Fran) precisou passar por vivências difíceis em casa quando se entendeu enquanto mulher lésbica. Saiu de casa muito jovem, viveu o preconceito e ficou dois anos afastada dos pais. Reformulou, fez o esforço da reaproximação e reconstruiu tudo, foram quebrando cada preconceito. Hoje em dia, vivem bem e a mãe adora a Fran (e também já passou por contato com outras ex-companheiras), o que pra ela é uma conquista gigante. Enxergar o amor enquanto ação é fundamental na relação e isso também está voltado à família. Quando foram morar juntas, decidiram configurar como seria o contato com os pais, não queriam dar menos atenção ou deixar de lado. Precisavam manter o afeto e o cuidado. Dão risadas quando lembram que a família da Fran mandava mensagem sobre tudo, até sobre como se mudava o canal da TV. Entendem que isso também é apoio, é sobre estar perto. Hoje em dia a autonomia é outra, mas o amor se mantém. Foi na escola que se conheceram, eram colegas desde a 4° série do ensino fundamental. Não eram super amigas, principalmente porque a Fran era mais próxima dos meninos e a Tami era mais patricinha. Na pré-adolescência, Tami chegou a “ficar” com um amigo da Fran, enquanto Fran nutriu uma paixonite por ela na 7° série. Até a chegada do Ensino Médio foram colegas, depois se afastaram com as mudanças de escola. Em 2021, na pandemia de Covid-19, fizeram um grupo no Whatsapp pelos 10 anos de formatura e por conta do tédio da pandemia em si ficavam conversando bastante. Começaram a falar sobre Tinder, mandaram a foto dos seus perfis, até que a Tami cruzou com a Fran no Tinder, deu um ‘superlike’ nela e enviou a foto no grupo. Deram match, mas não sabiam se era de brincadeira ou não. Quando a Tami lançava um flerte, Fran respondia com memes e ela nunca sabia se levava a sério. Em um certo momento, Tami chamou a Fran para sair, mas como ainda não haviam tomado vacina (a vacinação estava sendo por idade), Fran não topou. Demorou um tempo, até que se vacinaram e se encontraram na casa de uma amiga. Fran decidiu contar sobre a paixão que tinha na 7° série - e quando se encontraram pessoalmente já achavam que estavam apaixonadas também. No momento da documentação, Tamires estava com 30 anos e trabalhava num programa de prevenção à violência na Secretaria do Município de Canoas, enquanto assessora jurídica. Além disso, faz doutorado na PUC-RS, pesquisa sobre violência contra a população LGBT+. É natural de Porto Alegre e no tempo livre gosta de ver os amigos, a família, ir ao cinema, ficar em casa, ler e assistir documentários. Francielli estava com 30 anos no momento da documentação e também é natural de Porto Alegre. Trabalhava enquanto analista de suporte, em tecnologia da informação (TI). Ama jogar videogame, gosta de livros de ficção, adora acompanhar a Tami vendo os amigos dela e gosta de cozinhar em conjunto (Tami corta os legumes e ela prepara a comida, por exemplo). Foi numa prainha no bairro em que elas estudavam em que fizemos as fotos, neste lugar se beijaram e, tempo depois, tiveram a primeira discussão sobre os primeiros passos da relação. Sentem que o bairro em si é muito importante porque esteve presente em toda a vida delas. Essa discussão, em especial, foi logo que começaram a se envolver. Na época, Tami não tinha relacionamentos há um bom tempo e se questionava de que forma iria se relacionar com alguém novamente… não sabia se estava preparada… por um bom tempo sentia que não conseguia se doar nas relações e tinha medo das pessoas não conseguirem lidar com suas questões de saúde mental. Mas ao mesmo tempo, estava apaixonada pela Fran e queria muito estar com ela. Precisava entender se ela queria também, se estava sentindo o mesmo e se desejava a relação com ela, mas tinha medo. Tiveram uma longa conversa e Fran se mostrou disposta. Tami e Fran namoraram durante um ano, até que Tami estava decidida a sair novamente da casa dos pais (já havia morado sozinha e dividido apartamento algumas vezes) e conversou com a Fran sobre morarem juntas. Fran nunca tinha saído da casa dos pais, mas não queria alugar um apartamento. Comentou sobre a possibilidade de comprarem um espaço. Tinha um dinheiro guardado, a família poderia ajudar um pouco e o resto quitariam. Tami não gostou da ideia no início, principalmente por elas nunca terem tido uma vivência juntas e a Fran não saber como seria morar longe da família. Brinca que a Fran nem “sabia de que lado o sol nascia, de que lado gostava do sol nascendo em casa”, por só ter morado em um lugar a vida toda. Foram amadurecendo a ideia, os pais da Fran ajudaram e elas começaram a procurar lugares para morar, até que chegaram no condomínio que moram hoje e gostaram bastante. A mudança aconteceu e entendem que está dando certo a vida na casa nova. Conseguiram mobiliar com a ajuda da rede de apoio - família e amigos - e aos poucos estão pagando este apartamento que é delas (e que a Tami às vezes nem acredita, risos). Entendem que por mais que a Fran ainda tenha uma grande dificuldade de demonstrar sentimentos e faça piada com tudo, Tami sempre instiga, pergunta, faz questão de saber como ela está se sentindo, sobre o que ela deseja e se estão ou não em sintonia. Explicam que nunca foram de brigar, muito menos de estar aos berros, mas que possuem muitas conversas sérias sobre o relacionamento, a vida, o que querem e onde querem chegar. As conversas difíceis precisam existir para se alinhar. E isso também é sobre o amor e a parceria que possuem. Explicam que às vezes tem coisas que “nem precisaria”, algumas discussões ou ações… trazem o exemplo de que uma está com um problema de saúde e precisa ir na academia, então ambas vão, não precisaria que fossem juntas, mas estão indo. Por parceria e por apoio. Por alinhamento. Acreditam que as coisas ficam melhores assim. Recentemente, fizeram uma viagem juntas para São Paulo, e quando pergunto sobre como elas se sentem sendo mulheres que amam mulheres dentro de uma cidade como Porto Alegre, Tamires rapidamente cita essa viagem. Ela conta que ama estar em SP e vai sempre que possível, gosta principalmente porque lá ela não se sente estranha, deslocada… se sente parte de tudo. Não se sente divergente. Entende que em todas as cidades as pessoas são múltiplas, mas que lá isso está bem misturado ao ponto de não nos destacarmos. Ela sempre se viu enquanto alguém que é muito urbano e também enxerga Porto Alegre enquanto uma cidade muito urbana, viva, dinâmica e cheia de cultura, mas fica triste por se sentir deslocada por ser quem ela é. Sempre foi a pessoa diferente, ainda mais estudando direito, era a deslocada. Para o futuro, não deseja mais ser. Quer ver cada vez mais pessoas negras em todos os espaços que ela frequenta, casais de mulheres, “mais de nós”. Por fim, falamos também sobre as importantes mudanças que podemos fazer nas nossas relações, nos reinventarmos sem as heteronormatividades, fazermos do nosso jeito, reconstruímos uma relação entre mulheres que nos represente de verdade. ↓ rolar para baixo ↓ Francielli Tamires
- Karol e Beatriz
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Karol e Beatriz, quando o projeto passou por São Paulo! Não tem jeito, preciso começar essa história falando sobre como a Karol e a Beatriz se conheceram. Poderia dar uma introdução dizendo quem elas são, o que elas gostam de fazer, enrolar vocês… mas não tem como. Não tem. Essa história é insuperável pra mim. Talvez por ser uma daquelas que eu queria ter transformado num podcast porque o áudio é muito mais engraçado do que eu escrevendo (alô, roteiristas dos streamings do momento, estão preparadxs?)... ou talvez porque não seria nenhum pouco justo deixar o melhor para o final mesmo. Só algumas informações importantes: hoje em dia a Karol tem 27 anos e a Beatriz 26 anos. Ambas são do interior de São Paulo, mas de cidades interioranas diferentes. A década (meu deus, a década é ótimo. risos) era de 2000-2010 e uma das coisas que fazia muito sucesso era o famoso bate-papo UOL... foi lá que Karol conheceu uma pessoa chamada Tânia. A conversa entre elas fluiu bem e ela adicionou a Tânia no MSN, no Orkut e a Tânia foi apresentando de forma virtual outros amigos dela (a Maiara, a Poliana e o Gustavo). A Karol, com o passar do tempo e o “convívio” diário, descobriu um interesse pela Tânia, foi aí que elas começaram a webnamorar (SIM, jovens, a Karol praticamente fundou o webnamoro). Quando todos os amigos conversavam em grupo no MSN o ícone de webcam ficava visível, então ela sabia que todos ali possuíam webcam, mas por algum motivo os amigos não gostavam de ligar e sempre quem ligava na chamada era ela e o Gustavo (ou seja, ela só conhecia a Tânia por fotos). Isso já faz muito tempo, né gente? Então precisamos lembrar que naquela época era super normal as pessoas se mostrarem muito menos que hoje em dia na internet (e serem muito menos cobradas por isso também). Com o passar do tempo e do webnamoro se desenvolvendo, todos ali criaram laços muito fortes. Na época, a Karol estava na escola, o Gustavo estudava teatro e viajava por São Paulo e a Tânia passou por um período muito difícil em que a mãe ficou muito doente. Foi um tempo em que o Gustavo (que morava na mesma cidade) a acolheu em casa, já que a mãe dela foi internada e depois de um tempo a mãe dela veio a falecer. Isso gerou um choque bem grande para todo o grupo, já que eles trocavam muitas mensagens diárias e, principalmente na Karol, pelos sentimentos que ela tinha pela Tânia, somados ao fato de ser menor de idade, estar em uma cidade distante e não saber como poderia ajudar nesse momento. Ela conta que lembra de nessa época uma outra menina do grupo, a Poliana, também estar passando por dificuldades e o quanto ela comentava em casa com a mãe sobre essas amigas, sobre querer ajudá-las… e o quanto isso também a angustiava. Mais uma vez o tempo seguiu e um belo dia, alguém a adicionou no MSN… o MSN, pra quem não sabe, não é uma rede social da qual você posta coisas... era tipo um Whatsapp, apenas um bate-papo. Ninguém adicionava lá sem te conhecer. E então, essa pessoa que adicionou a Karol do nada, chegou logo soltando um: “POR QUE VOCÊ ESTÁ NAMORANDO A MINHA NAMORADA?”. Que? Pois é. Eu também soltei isso quando eu ouvi. Essa pessoa, é a Beatriz. Vamos à versão da Beatriz. Beatriz conheceu a Tânia jogando um jogo, o Habbo (só quem viveu, sabe, né? como era bom ser jovem nos anos 2000). As duas conversavam bastante e a Tânia também apresentou o Gustavo para ela… com o passar do tempo as coisas se desenvolveram na conversa e elas também começaram a webnamorar (as precursoras do webnamoro, parte 2). No caso, a Karol e a Beatriz foram as precursoras do webnamoro e da traição do webnamoro, ou seja, o webcorno. Até que um dia O GUSTAVO (gente… a balbúrdia) chamou a Beatriz para dizer “que tinha uma menina dizendo que estava namorando a Tânia” (!!) e ela disse “como assim, eu sou namorada da Tânia, não tem essa!!” (risos) e então ela foi tirar satisfação com a Karol, assim, adicionando no MSN. Se fosse o MSN Plus na versão 2009, garanto que tinha até aquele efeito de som no fundo que dizia “eu estou sentindo uma treta!!!” Quando a Karol e a Bea conversaram elas entenderam que não ia dar certo e decidiram de alguma forma se afastar da Tânia. Elas não lembram especificamente como aconteceu, mas o afastamento rolou. A Karol começou a se envolver com uma menina na cidade em que ela morava e a Bea foi seguir a vida dela também, sem mais contatos com a Tânia e os webamigos dela. Mas calma, aí você pensa… ah, só isso? a Tânia nunca mais apareceu? kkkk meu amor… o mundo não dá uma volta, não. Ele dá um duplo twist carpado. Pois um dia chega o Gustavo (logo quem…) chama a Bea no MSN e dá a triste notícia: a Tânia morreu. .. que²? Ela estava enfrentando um período de muita tristeza e depressão após a morte da mãe dela e cometeu suicídio. Ao saber da notícia, tanto a Bea, quanto a Karol, ficaram muito mal. Foram dias de choro, um sentimento de dor estranha e uma sensação de perda imensa. Novamente venho lembrar que: hoje em dia é muito fácil para nós, que vivemos em uma década depois, num momento em que a internet está muito mais avançada, pensar que algo nessa história estava muito estranho. Mas precisamos nos transportar para os anos 2000-2010 e lembrar que por lá estava tudo bem as coisas não terem muito encaixe, né? Foi no momento após o luto que a Bea teve uma luz e entendeu que as coisas não tinham encaixe, que a história que o Gustavo estava contando era muito ríspida, muito estranho falar sobre uma depressão assim… e foi então que resolveu dar uma de stalker. Ela começou a ler o Orkut da Tânia que ainda estava ativado, pesquisou pelo nome do colégio que aparecia na foto dela de uniforme e viu que o colégio não ficava em São Paulo… TCHARAM! Começou a ir mais a fundo nas buscas do próprio colégio e… finalmente achou o perfil da menina verdadeira, descobrindo, assim, que a Tânia nunca existiu. Gente. Vocês têm noção??? A pinta nunca existiu. Se ela nunca existiu, ninguém ao redor dela existia também! Com isso caindo por terra, ela foi descobrindo uma série de fakes que o Gustavo tinha. Inclusive, por um momento, pensou que até mesmo a Karol fosse um dos fakes, mas entendeu que não era e chamou ela para conversar e contou tudo… e ela ajudou nessa busca por mais fakes. Até hoje elas acreditam que a única verdade em toda a história é que o Gustavo trabalhava com teatro (não por ele ser um ótimo personagem, porque o que ele era tem nome: criminoso, rs) mas porque ele viajava bastante pelo interior de São Paulo fazendo peças. A primeira atitude que elas tiveram foi falar com a menina que ele usava as fotos para se passar por Tânia, mas ela nem ligou, não deu bola. Então elas não souberam mais o que fazer. Elas desmascararam ele nas redes sociais e alertaram as meninas que estavam próximas dele para que se afastassem, mas naquela época os crimes virtuais não eram considerados, então era realmente muito difícil conseguir barrar o Gustavo, ainda mais elas sendo menores de idade e ele não. Foi muito engraçado pensar em toda a história e ouvir toda a história sendo contada por elas, da mesma forma que é muito incrível ver a forma que elas ressignificam algo que poderia ter sido traumático e horrível (como foi o período conversando com esse cara e com seus vários personagens), mas a única coisa que elas tentam pensar sobre, é que foi por conta disso que elas se conheceram e que passaram a ficar todos esses anos juntas e que isso, sim, foi bom. De qualquer forma, não queremos NUNCA, JAMAISSSSS, deixar de lembrá-las que os tempos atuais são outros e que precisamos denunciar homens iguais o Gustavo! Ele tinha um perfil MUITO claro: meninas, novas, lésbicas (que estavam se descobrindo) e provavelmente em algum momento usaria de tudo o que sabia sobre elas para se aproximar fisicamente, então, por favor: denunciem! Hoje em dia já temos leis, já temos um preparo e uma consciência maior e não podemos deixar nenhum caso passar. Além disso, Gustavo, se um dia você ler isso: a gente ainda consegue te enquadrar em crimes cibernéticos, seu escroto! :) Agora, sim. Ufa, essa história é boa demais. Depois que o crime foi desvendado e que as duas ficaram iguais aos integrantes do Scooby-doo tirando as máscaras dos inimigos e descobrindo que são todos a mesma pessoa, a Karol, que vivia um relacionamento um tanto quanto abusivo, foi meio que “proibida” de continuar conversando com a Bea porque a namorada estava com ciúmes… mas ela estava muito intrigada com essa história, não estava acreditando no que tinha vivido (também pudera… né?) e deu um jeito de continuar falando (!!hahahahaha). Elas resolveram se encontrar pessoalmente um tempo depois numa cidade que ficava entre as cidades em que elas moravam (Praia Grande e Vargem Grande Paulista), e essa cidade foi Cotia. Lá elas se viram para ficar em silêncio, basicamente (kkkk), porque estavam com vergonha e não tinham o que dizer. No fim, elas não se beijaram (obviamente, porque a Karol namorava, né? se não conversaram, imagina beijar kk) e na hora de ir embora pra ter um grand finale a Karol li-te-ral-men-te caiu no colo da Bea dentro do ônibus (!!!) quando ele freiou. Nessa época, a Bea começou a fazer faculdade em São Paulo, então ela ia diariamente e voltava para a capital (ou, algumas vezes, ficava na casa da tia). Era uma rotina exaustiva e durou muito tempo. Por outro lado, a Karol terminou o relacionamento e cerca de um mês depois a Bea soltou um “ah então agora a gente pode namorar, né?” e ela disse um “é.” pois foi assim que começaram a namorar. Quando se viram pela segunda vez, já estavam namorando. Com as fundadoras do webnamoro não se brinca, né? A Bea ainda teve a patchorra de soltar um “primeiro a gente namora, depois a gente beija” hahhahaha. Quando elas já estavam namorando, a Karol passou em um curso que acontecia em São Paulo também, então elas acabavam se encontrando durante a semana na capital. Elas contam que o começo do namoro foi bastante difícil porque tinham realidades muito diferentes. A Karol tinha uma condição financeira mais conflituosa, precisava correr muito atrás para conseguir as coisas e pela condição da Bea ser mais favorável ela não tinha consciência de classe e consciência dos privilégios que o dinheiro trazia. A Karol se sentia bastante triste, não conseguia acompanhar e trazia muito do antigo relacionamento junto com ela… para elas mudarem isso e se equilibrarem exigiu um esforço em conjunto de cederem e se entenderem aos poucos. Entenderem os limites, abrirem mão de algumas coisas para ouvir mais a outra… e por aí vai. Foi nesse período de equilíbrio e de entenderem que estaria dando certo que a Bea sentiu que era o momento de contar à família sobre o relacionamento delas. Ela deixou uma carta para a mãe antes de sair de casa a caminho da aula em São Paulo e, quando a mãe dela acordou e leu, ligou para ela e elas conversaram. Foi um momento que misturou um choque, com um “é isso mesmo que você quer?” e um tentar respeitar ao máximo. Com o tempo, a mãe e o pai da Bea foram entendendo e respeitando, assim como o resto da família e hoje em dia super apoiam as duas ♥ Depois do fim da faculdade, elas decidiram que seria legal escolher um apê e irem dividir uma vida sob um lar. Foram morar juntas em Cotia, a famosa cidade, lá da primeira vez em que se viram. A Karol trabalha lá até hoje escrevendo notas no cartório, mas elas já estão morando em outro apartamento, na cidade de São Paulo. Hoje em dia, adotaram gatinhos, se desenvolveram profissionalmente e a Bea é analista de marketing. Hoje em dia, a Karol e a Bea fundaram uma marca de camisetas para o público lésbico (que inclusive já apareceu no Documentadas), a @vestsapatao! Conversando sobre marcas LGBTs, elas comentaram que geralmente produtos LGBTs focam no público masculino, desde o nome (gay gay gay gay gay) até as coisas serem sempre arco-íris, unicórnios, coisas de homens afeminados, confetes e quando pensam na sapatão é só a mulher tipo caminhoneira e/ou a Ana Carolina/Maria Gadu. Automaticamente imaginam a lésbica como masculina. Enquanto elas não se enxergam nem enquanto masculina, nem enquanto feminina, mas enquanto duas mulheres que se amam, apenas. Além disso, falam também sobre a importância de fazerem roupas em modelos maiores porque só encontram coisas pequenas que caminham entre o P e o M e que elas pensam em corpos grandes porque se identificam assim. A VestSapatão é da gente e para a gente. ♥ As duas também estão noivas! O pedido foi feito em Ubatuba, num comecinho de dia super fofo e estão planejando uma boa festa depois da pandemia. A Karol, quando fala no amor, acredita que amar é transparente e verdadeiro. Completa que sente que não existe nada que não possa ser compartilhado com a Bea. A Bea diz que a relação exige muito respeito, respeito por quem elas são e por quem querem ser. Esse respeito resume a liberdade. E diz que aprendeu a amar e a respeitar com as mulheres da família dela, porque a mãe dela tem 8 irmãs, que são muito diferentes, mas que são grandiosas de amor, de criação e de laço, porque sempre tiveram respeito. Quando pergunto se elas gostariam de mudar algo na cidade em que elas moram, sendo São Paulo a residência, ou Cotia na convivência, elas dizem que gostariam de mudar a forma que são tratadas pelos homens, por sempre ouvirem comentários (ou por sermos colocadas como quem quer roubar o lugar deles). Além disso, falam que gostariam de um lugar com segurança, porque lá em Cotia não conseguem caminhar nas ruas de mãos dadas. Bea comenta a importância de ver escolas falando sobre a diversidade e o quanto isso mudaria as nossas vidas, traria consciência para as pessoas desde a educação de base. É algo que ela gostaria de ver diretamente. Ela acredita que ninguém quer ser ignorante e fala sobre a família dela, no caso, as avós, estarem querendo entender e se esforçando ao máximo para compreender o relacionamento que ela têm com a Karol - e que o papel dela, nessa história, é de ensinar e explicar, dar o suporte para que elas entendam e vejam que está tudo bem… para conseguirmos, assim, quebrar o preconceito. A história da Bea e da Karol te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Beatriz Karol
- Kétule e Beatriz | Documentadas
Kétule, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela é natural de Turvo, uma cidade interiorana catarinense, e atualmente mora em Criciúma enquanto estuda medicina. Conta que já trabalhou em vários lugares, de atendente de loja à garçonete, mas hoje está se dedicando à sua loja de bordados e vive em um apartamento com sua gata Luna, visitando a família aos finais de semana na sua cidade natal. Beatriz estava com 22 anos no momento da documentação. É natural de Criciúma e trabalha enquanto fisioterapeuta. Sempre quis um trabalho na área da saúde e é apaixonada por isso, mas também já foi atleta de natação. Para além, no tempo livre, gosta de ser uma pessoa tranquila, caseira, adora sair para comer, ver o mar e fazer trilhas. Entendem que são pessoas com vários pontos em comum, mas ao mesmo tempo vivências e jeitos muito diferentes, temperamentos que refletem suas criações. Kétule tem uma relação muito aberta com sua família, principalmente porque já saiu de casa. Antes de assumir o relacionamento, pensou que se isso não fosse algo aceito para eles, iria acabar se afastando mais por já não morarem próximos, então tinha um grande receio, mas ainda maior uma vontade de falar sobre esse amor vivido e resolveu contar. Para Bia, Kétule adentrou como uma amiga, para depois ser namorada, então ficou um pouco mais difícil lidar. Sempre existiu a dúvida: “Será que a gente vai assumir? Será que um dia vai poder realmente falar: somos namoradas?” Faz pouco tempo que elas estão fazendo essa movimentação de se assumirem dentro de casa enquanto um casal, que começaram a ter uma relação com mais afeto na frente dos familiares. Acreditam que tudo faz parte de um crescimento. Foi através da internet que tiveram a primeira interação, tinham amigas em comum no Twitter e apareceu um tweet da Beatriz falando sobre a área da saúde, um estágio que iria abrir na UTI. Ela se interessou (pelo tweet e pela Bia) e começou a seguir ela, depois procurou o Instagram, ela seguiu de volta e começaram a conversar. Era dia 1 de abril de 2023, dia da UTI. Desde o primeiro papo as coisas fluíram, viram que estudavam na mesma faculdade e marcaram um café. O café aconteceu, se deram bem e marcaram um novo encontro, na casa da Kétule - um apartamento muito pequeno, onde criaram vários apelidos sobre ser um cantinho escuro depois de um longo corredor (caverna, corredor da morte, e por aí vai). Lá, beberam um vinho que só bebem em ocasiões especiais, comeram comidas gostosas e foi a primeira vez que se beijaram. Depois disso, se viam com frequência até que viveram os jogos da faculdade de medicina, um evento onde vem delegações de outros estados para competir em Criciúma. Kétule tocava na banda dos jogos e elas conversaram sobre esse evento, Beatriz disse que já estava perto do final do curso, que viveu tudo o que tinha para viver, mas que Kétule merecia se permitir experimentar o que a faculdade tem para oferecer, porque poderia se arrepender de entrar em uma relação. Ela fez a escolha, viveu os jogos (ainda assim sem deixar a Beatriz de lado) e depois que os jogos passaram decidiram entender aquela nova relação enquanto um namoro. Todos os amigos já adoravam elas juntas e elas sabiam que queriam namorar, mas precisavam daquele tempo para decidir e processar isso. Foi então que, ao comemorar o aniversário de uma amiga viajando para Garopaba/SC, depois de 3 meses juntas, elas selaram o pedido de namoro. Tanto Beatriz quanto Kétule namoravam homens antes de se relacionarem e já tinham apresentado esses namorados à família. Quando começaram a relação, pensaram muito sobre como iriam contar e abrir essa conversa sobre a bissexualidade. Aos poucos, Kétule contou para a mãe dela, e sentiu que toda a família foi compreensível, precisavam de tempo para entender mas nada na relação entre eles iria mudar. Para Beatriz foi mais complexo, o pai soube aos poucos e aceitou, mas a mãe tinha muitos preconceitos relacionados à elas. Foi só quando a relação estava quase completando um ano que elas conversaram sobre, quando a mãe perguntou se era um relacionamento e ela afirmou que sim. Mesmo tendo esse tempo, as coisas ainda não são fáceis, e só dia após dia elas se permitem tratar com algum afeto perto da família e permitir que a situação seja digerida. Todos os finais de semana dedicam um tempo para estar com os familiares, seja na casa da Beatriz ou na casa dos pais da Kétule, e acreditam que mostrando estar por perto esses preconceitos serão quebrados. Hoje em dia a rotina durante de semana entre estudos e trabalho é bem intensa, então o final de semana é o momento de aproveitar a relação, seja cozinhando, visitando a família, recebendo amigos e planejando o que ainda desejam viver juntas. Entendem que são pessoas bem diferentes: Kétule é mais agitada, a cabeça não para, comunicativa… Enquanto Beatriz é calma, sempre pensa muito antes de agir e não vê maldade nas pessoas. Kétule explica que na relação ela aprende o tempo todo a desacelerar, enquanto Beatriz também aprende a se abrir mais, se permitir viver mais coisas. Adoram planejar a vida juntas: desejam investir na carreira, casar, ter filhos. Criar uma família investindo em quem são e respeitando suas dificuldades, mas não fazendo com que isso se torne uma barreira. Adoram a perspectiva de vida que criaram juntas, explicaram durante a documentação que o pedido de casamento foi dividido em 4x, já que para poder casar vai levar uns 5 anos e porque numa vida heterossexual o homem pede em casamento e tudo se encaminha, para elas o melhor é fazer do jeito delas. A primeira parte do 1/4 do pedido já foi feita, Kétule presenteou Beatriz comprando uma aliança, em São Paulo. Riem dizendo que já estão 25% noivas. Kétule sempre foi uma pessoa clichê no amor, que gosta de surpresas, de ser romântica, das demonstrações… Beatriz já não é assim, acredita no amor nas ações pequenas, nos atos diários, então tiveram que adequar para entender suas linguagens. Hoje o amor delas é uma junção das duas coisas - das formas que entendem o amar. Se enxergam enquanto muito amigas, companheiras acima de tudo. Brincam que Kétule futuramente vai ganhar mais que a Bia, por ser médica, mas hoje é ela quem está mais estruturada, então o que elas plantam agora vai ser colhido no futuro. Entendem que o relacionamento foi uma grande adaptação e que seguem se adaptando, se descobrindo… e vão se descobrir o tempo todo, é constante. ↓ rolar para baixo ↓ Kétule Beatriz
- Denise e Rita
Rita e Dede são as pessoas mais engraçadas possíveis. Confesso que esse foi um dos textos mais difíceis de fazer, porque a nossa história não começou através do Documentadas: conheço elas há anos, quando começaram a namorar, e quando eu, Fernanda, estava começando a me entender. O que o Documentadas é hoje em dia, essa vontade de fazer o projeto ser representativo para outras mulheres e meninas que estejam se descobrindo, vêm também do privilégio que tive ao ter contato com esse casal quando era mais nova e de ter entendido que sim, eu poderia ser uma mulher adulta, amando outra mulher adulta, sendo feliz, tendo qualidade de vida. Nosso encontro foi regado de muito riso. Ou melhor, talvez uns 85% do tempo tenha sido puro riso. Fui recebida na casa/no sítio onde elas moram, em Criciúma - Santa Catarina. Seria impossível começar a contar a história sem dois fatos importantes a serem ressaltados: Não sabemos realmente como tudo começou. 10 reais é um investimento que pode valer muito a pena. Explicando: Rita e Dede se conheceram através do famoso (e tão presente) rebuceteio, em 2012. Rita ainda morava com o pai do Caio (o filho, que agora, é delas ♥) e estava com mudança de planos, iria se mudar para outra cidade, porém teve um problema de saúde na família e precisou se manter em Criciúma. Ela ficava com uma menina de outra cidade, que conhecia outra menina, que estava ficando com “uma pessoa de Criciúma que estava precisando de uma psicóloga”... preciso falar quem era essa pessoa? a Denize, é claro. Na hora que a Dede chamou ela no MSN, ainda pensou “ai que louca né, coitada” porque foi tudo muito aleatório. Elas acabaram criando uma amizade, conversavam bastante pelo MSN. Não se conheciam pessoalmente ainda e seguiam ficando com outras pessoas. Se viram, uma vez rapidamente, na Marcha das Vadias (evento responsável por eu ter conhecido a Rita também!) e depois marcaram de ir num jogo pela diversidade, na UNESC (a Universidade que a Rita trabalha). Rita sempre esteve entre seus amigos drags, gays e travestis. Para ela, sempre foi muito importante estar com essas pessoas (e inclusive é um objeto de pesquisa dela, com o mestrado falando sobre crianças e adolescentes transgêneros). E Denize era de um lugar bem diferente, não tinha amigos nesse meio e mantinha um preconceito pelo forte estigma desses corpos. Chegando no jogo, quando Dede viu os amigos da Rita, logo se assustou. Não quis ficar naquele ambiente. Tinha recém se assumido, ainda sentia certo medo e, ainda mais em cidade pequena, não queria ser vista lá. Ela disse para a Rita que iria no posto beber cerveja com uma amiga, mas na verdade tomou o rumo de casa. Elas realmente não sabem quando a amizade virou flerte. Quando o sentimento se despertou mesmo. Brincam que o relacionamento começou na base do “duvido”, porque a Rita ia numa festa, a VOGUE (que inclusive eu também estava!). A Dede não iria, mas acabou brigando com a menina que estava ficando e a Rita disse “duvido você ir na festa”, então de última hora ela resolveu sair de casa. Brincamos que, se eu fizer uma clipagem no meu HD, posso ilustrar toda a história delas com fotos que eu mesma fiz, de vários momentos diferentes dessa relação . No fim, o 'duvido' deu certo. A Dede foi e como não precisaria pagar a entrada, levou só os 10 reais que tinha em casa. Aí começa o investimento. Ao invés de perguntar para a Rita o que ela estava bebendo, perguntou para um amigo dela. Quis fazer um gesto de “cavalheirismo” pensando que iria gastar 2 reais numa Antártica Sub Zero e que estaria tudo bem, mas na verdade a Rita tomava whisky com guaraná, ou seja, o combo custava dez reais. Decidiu comprar e fazer o agrado, mas passou o resto da festa se virando nos 30 para entreter - e a Rita ainda ficou chocada porque pensou que Dede tinha acertado a bebida favorita dela. A gente tenta, né? Elas ficaram na festa. Dede foi embora mais cedo, Rita achou engraçado uma pessoa que não ficava na festa até amanhecer. Nos dias que seguiram, sempre achavam um jeito de se encontrar. Denize conquistou o Caio logo de cara, ficaram inseparáveis (e são até hoje). Ambas moravam no centro da cidade e Rita começou a chamá-la para tomar um mate todo fim de tarde na praça, enquanto o Caio brincava, depois do colégio. Virou uma rotina: todo dia, Rita ia com o Caio para a praça e levava uma paçoquinha para a Denize, que saia do trabalho que ia direto ao encontro. Rita tem 43 anos, é psicóloga, mestre em saúde coletiva e divide seu tempo entre trabalhar na empresa de contabilidade que elas abriram juntas e ser coordenadora da secretaria de diversidades e políticas de ações afirmativas na UNESC (a universidade local). Nas palavras dela: “trabalho 20 horas na UNESC e 246 horas no ecritório, mas a Denize não me dá um déciminho terceiro…” Denize tem 38 anos - e brinca que não chega aos quarenta nunca! Queria alcançar a idade da Rita, mas nunca consegue porque sempre que tá chegando mais perto ela inventa de querer ficar mais velha também. Dede é administradora e contadora. Elas estão sempre juntas, seja em casa, cozinhando, conversando pela casa, trabalhando, assistindo TV… ou seja na universidade. Denize acaba levando a Rita para uma vida social mais ativa (e agora, em pandemia, sente muita saudade de sair e ver gente). Em casa, elas aprenderam a fazer diversas coisas: construir, reformar, pintar. Fazer tudo. De vez em quando, a Rita coloca a mesa na rua e passa um longo tempo pintando, enquanto a Dede está construindo algum móvel ou montando coisas. No começo do relacionamento, Rita ajudou muito a Dede a se reaproximar da família. Foi algo muito importante, pois depois dela terminar um casamento e se assumir houve um afastamento brusco. Hoje em dia são muito próximas e felizes. No começo, também, Dede ajudou muito a Rita. Ela precisou sair de casa e acabou indo provisoriamente morar com a Denize. Não teve um começo exato, foi a necessidade. O Caio sempre foi muito apaixonado pela Dede e a relação delas estava indo bem, decidiram segurar o tranco juntas, mas com um prazo: duraria dois meses. Não preciso nem dizer que estão juntas até hoje, né? nem elas acreditaram que seria só dois meses. Passaram um tempo com o dinheiro bastante contado, Rita conseguiu um emprego de professora de matemática financeira (o que certamente foi um surto coletivo, porque ela mal consegue contar o dinheiro que têm na carteira) e ao menos o trabalho tinha plano de saúde. Desde a mudança, até as primeiras semanas, já sentiram que estavam se transformando em uma família - “foi tudo muito divertido”, elas descrevem. Em 2013 decidiram que estavam prontas para assinar uma união estável e sonhavam com ter “uma casinha para sempre”. A casinha chegou, no sítio, e elas construíram cada pedaço juntas. Desde colocar o piso, montar estantes, sofás… até fazer a piscina (que era o sonho da Dede). Hoje em dia, elas entendem que tudo possui o seu próprio tempo. Na empresa, cultivam clientes muito fiéis, gostam de trabalhar juntas. Na casa, tratam tudo com mais calma: plantam, colhem, constroem. Falam sobre nós, LGBTs, não queremos privilégios, mas sim nosso direito básico de viver com qualidade. A Dede comenta sobre a palavra não ter mais poder, o uso da violência se banalizou, normalizou. Gostaria de mudar, que as pessoas voltassem a lidar com as situações absurdas que vivemos como elas deveriam ser lidas. Visitei a casa delas logo depois da Rita defender seu mestrado e ganhar um carro de presente da Dede. A chave veio no meio de um livro que obviamente a Rita não leria, só para fazer a surpresa ser mais divertida. Por fim, mas não menos importante: o Caio quis muito, elas também, e formalizaram a adoção dele. Hoje em dia ele tem o nome das duas mães e do pai na certidão. São, oficialmente, uma família.
- Louise e Thayane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Louise e da Thayane, quando o projeto passou por São Paulo! Louise e Thayane constroem sua vida numa base de amor e afeto familiar muito grande - tanto que soa meio impossível falar delas sem falar em família. O tempo todo enquanto nos conhecíamos, visitando o lar em que moram no centro de São Paulo, a sensação mais presente era de que ali existe uma família. Elas são naturais do Rio de Janeiro, mas se mudaram há pouco tempo para São Paulo por conta do trabalho da Louise. A casa, aos poucos, vem tomando forma, mas o mais importante é o samba, que toca o dia todo, embalando as atividades cotidianas. A música, na vida de ambas, vem desde crianças: suas famílias são muito ligadas ao samba, nos encontros cantam, fazem bagunça, gostam do movimento. Para o futuro, planejam filhos, uma família cada vez mais unida, grande e que valoriza suas raízes. Acreditam que enxergar o futuro enquanto uma construção é também um ato de amor. Tanto a Thay, quanto a Louise, no momento da documentação, estavam com 30 anos. A mudança para São Paulo foi bem rápida, durante o processo seletivo que a Louise participou elas conversaram e decidiram que só daria certo se fossem juntas, não cogitaram viver num relacionamento à distância. Hoje em dia, o trabalho da Louise envolve coordenação de vendas, enquanto a Thay é geóloga, apaixonada por defesa civil e está estudando para o concurso público dos Bombeiros. Diariamente ela corre, nada, cuida do corpo para a prova física e estuda para a prova teórica. Ambas têm a paixão do samba e do futebol em comum, mas com isso vem o motivo das brigas na relação: uma é Flamengo, a outra, Vasco. Querendo ou não, o amor que elas possuem pelo Rio é enorme, são pessoas que iam muito à praia, amam o sol, os bares… então está sendo uma nova vivência descobrir São Paulo. Por outro lado, sentem o quanto são companheiras juntas, o quanto mesmo com as dificuldades e a saudade da família elas se apoiam e se fortalecem estando nesse novo local. Tentam explorar a cidade descobrindo novos restaurantes, botecos, eventos com samba e culinárias diferentes. Quando elas se conheceram, a Thay estava em um relacionamento que ia muito mal, chamou uma amiga para conversar porque precisava desabafar e a amiga perguntou se podia levar outra amiga. Na hora, ela pensou que não era o ideal, né? Afinal, teria uma desconhecida ouvindo suas lamúrias, mas tudo bem, aceitou. Quando chegou lá, a menina convidou uma pessoa que ela estava ficando para as encontrar e a Thay pensou “Pronto, mais uma desconhecida pra me ouvir desabafar…” e então chegou a Lou. A Lou estava um pouco irritada, tinha saído do trabalho num dia bem agitado, mas segundo a Thay ela estava com uma roupa maravilhosa e isso já a chamou atenção. Depois desse primeiro dia, a Thay terminou seu relacionamento e todas elas (a Thay, a amiga dela, a Lou e a pessoa com quem ela estava ficando) passaram a se encontrar com frequência. No início de 2019 surgiu um flerte entre a Thay, a Lou e a menina que ela se relacionava. Elas ficaram e o que era para ser um divertimento acabou se tornando um relacionamento entre as três: durou oito meses. Por fim, não deu mais certo, terminaram, mas a Thay e a Louise continuaram juntas - tiveram a ideia de recomeçar devagar, e quando perceberam já estavam 100% entregues e vivendo como casal. Um tempo depois, com o início da pandemia, o que tinham era uma a outra e um quintal para ver o céu. Isso foi um espaço de precisarem aprender a se comunicar de forma fluida, já que tudo dependia das duas. Uma foi contando cada vez mais com a outra. Elas acreditam que, por mais que tenha existido muita coisa ruim na pandemia, há o sentimento de que esse tempo serviu como um acelerador de futuros: se a coisa não foi pra frente, ela acabou ali - e o que foi pra acontecer, aconteceu de verdade. Foi um momento divisor de águas em que elas sentaram e repensaram o futuro: planejaram o que gostariam de ser, estando juntas, tendo filhos, uma carreira, etc. Hoje em dia, mesmo a Thay que não é de falar muito o que está sentindo, consegue colocar pra fora com a Lou. Elas sentem que, quanto mais se abre, mais geram apoio uma à outra. Lou conta do momento que ela contou para a mãe dela, já adulta, sobre se relacionar com uma mulher. O medo que existia, pois é muito próxima da mãe, mas entende que ela teve uma criação evangélica muito forte e poderia reagir de várias formas. No fim, ela ficou assustada, mas abraçou e tratou com afeto. Isso se tornou um exemplo do que a Lou espera ser para as pessoas, ela acha que isso é lidar com amor sobre as coisas, e também fala sobre o acolhimento que ela espera ter mesmo nos momentos mais delicados. ↓ rolar para baixo ↓ < Thayane Louise
- Mayara e Clara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mayara e da Clara, quando o projeto passou por São Paulo! Foi através de um aplicativo de relacionamentos, em 2016, que a Mayara e a Maria Clara se conheceram. Elas conversaram um pouco, trocaram algumas ideias... e um tempo depois, a Clara estava numa roda de amigas, conversando, na rua, quando viu uma moça passando e identificou as tatuagens e o jeito parecido com “aquela que havia dado match no Tinder”. Ela conta que Mayara veio lhe encarando, mas que ambas não tinham certeza se eram mesmo quem imaginavam, então trocaram mensagens para se certificar, do tipo “eu passei por você agora há pouco?" e interpretaram aquele encontro como um sinal, para se encontrarem mesmo, com data e hora marcada, em breve. No fim de novembro de 2016 foi quando começaram a se relacionar e vivenciar momentos de altos e baixos, idas e vindas. Em setembro de 2017, quase um ano depois, foi quando realmente entenderam o que tinham enquanto um namoro. Esse entendimento e essas “idas e vindas” levaram tempo por conta de processos bastante internos e hoje, olhando para trás, percebem que o relacionamento mudou muito desde o início. Parte desse processo vinha de uma movimentação mais defensiva da May, que aos poucos foi compreendendo que elas estavam juntas para se ajudar. Nesse primeiro ano, a May sofreu um episódio de homofobia bem doloroso. Ela estava sozinha, num lugar até então seguro e foi agredida por pessoas que chegaram de fora da sua casa. Esse movimento de passar por violências muito graves que jamais imaginaria trouxe muito sofrimento e também um sentimento de querer encontrar a Clara por a entender como um apoio e alguém com quem poderia contar. Enquanto a Clara, por sua vez, respeitou e acolheu de forma essencial, deixando com que mesmo entre muitas dores, a May pudesse se sentir em segurança ali. Assim, com o passar do tempo e dessas turbulências, elas foram amadurecendo o sentimento. Outras coisas que envolviam a relação também foram amadurecendo naturalmente, como ciúmes, relações com familiares (que passaram a compreender e apoiá-las) e o próprio respeitar espaços de cada uma foi fundamental para que a relação pudesse ter maior conexão e intimidade. Tanto a Mayara, quanto a Maria Clara, possuem 28 anos. Mayara é de Rio Claro, mas foi morar em Campinas há 9 anos para ser publicitária - profissão que desenvolve em uma agência - trabalha com atendimento ao cliente também, além de alguns trabalhos com redação, que é o que ela mais gosta. A Clara é boleira, faz bolos por encomenda, tanto caseiros, quanto para festas (e são muuuuuuito gostosos!). Além disso, a Clara também faz alguns trabalhos temporários em atendimento e suporte ao cliente. Ah, outra informação sobre elas que não poderia faltar, né? Elas são opostos complementares nos signos: áries e libra - e isso sempre esteve presente nas conversas, desde que se conheceram. No momento que nos encontramos conversamos bastante sobre a pandemia, elas contam que a adaptação foi difícil, tanto no trabalho, quanto na relação, na vida, nas amizades, no dia a dia. O trabalho envolvia vendas na presencialidade e tiveram que trazer os clientes para o meio online, sendo um desafio imenso, sentindo desconfortos pelas videochamadas, desconhecimento de tecnologias, foi uma adaptação bem grande. Elas entenderam que trazer o conforto para a situação é o maior desafio em seus trabalhos, tentam descontrair e fazer os clientes se sentirem tranquilos, mas ligar uma câmera não é fácil (e possível) para todo mundo. Além disso, foi difícil parar de fazer o que mais gostavam, como sair com o Paçoca (o cachorrinho mais educado e querido desse mundo!), ir à praia e sair um pouco do mesmo espaço dentro de casa para conseguir se movimentar, então perceberam ansiedades aumentando, momentos de maiores cobranças e imediatismos. A forma de tentarem se ajudar e deixar tudo mais leve foi reinventando os espaços em casa, a May se mudou para dividir o lar com a mãe da Clara e a Clara e a partir disso elas passaram o tempo livre maratonando séries, compartilhando refeições e investindo nos instrumentos musicais. Elas têm se permitido sair para andar de bicicleta, brincar com o Paçoca, visitar a família e ir até a casa no sítio. Elas sempre se enxergaram dispostas a viver o amor e a estarem juntas e isso é o que mais se destaca para a Mayara. Ela diz que ambas sempre estão percebendo uma à outra de maneira inteira, com suas qualidades e defeitos. Quando enfrentam momentos em que as coisas se tornam um pouco mais sensíveis, entendem que é preciso encontrar força conversando e buscando uma na outra, porque o amor está também nessa persistência, nessa vontade de estar juntas e nesse encaixe que ele possibilita. A Clara percebe que o amor é desejar e entender o que queremos para o outro (a pessoa com quem nos relacionamos) e para a gente (a nossa relação) - e não só, para que isso se espelhe/se reflita nos outros também, nas nossas relações com as pessoas que estão ao nosso redor, visto que o amor não precisa envolver apenas o romântico e o sexual. Ela acredita que amor envolve companheirismo, incentivo, uma parceria mesmo. Isso faz com que as coisas permaneçam fortes e saudáveis ao longo dos anos, trazendo essa preocupação em relação ao bem estar… e, principalmente entre as mulheres, no que envolve afeto, porque acredita que o companheirismo e a escuta são nossas principais características. Tivemos várias conversas sobre como vimos as relações humanas hoje, além do relacionamento delas, mas como as pessoas se relacionam hoje em dia e, alguns dias depois, recebi uma mensagem falando como foi importante a participação no projeto porque fez com que elas olhassem para o relacionamento delas com maior respeito pela história que construíram juntas. Fiquei feliz pelo o que o Documentadas provoca na gente, esse autoconhecimento, mas também pelo reconhecimento que merecemos ter porque nos amarmos, enfrentarmos tantos preconceitos e termos uma história que resiste e que se permite conhecer, estar aberta e aprender com seus erros, é de fato, ter coragem. Obrigada por compartilharem a história e aproveitem o amor de vocês, meninas ♥ Mayara Maria Clara
- Wan e Lívia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Wan e da Lívia, quando o projeto passou por São Paulo! A Wanessa e a Lívia são duas mulheres que adoram viajar, desbravar lugares novos, cachoeiras, praias e vivenciar novas culturas. Foi numa dessas viagens que elas se conheceram, na Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte, em 2016. Wanessa é Pernambucana, mas na época morava em Natal, enquanto Lívia é paulista e desbravava as terras de João Pessoa, na Paraíba. Eu sei, muitos lugares para um primeiro parágrafo, né? Mas avisei que elas gostavam de viajar. Pois bem, foi na praia (ou melhor, nesse vilarejo), que elas se conheceram durante as férias. Se deram bem, o romance foi acontecendo, mas teriam que voltar para suas vidas, uma em Natal e outra em João Pessoa. Assim, à distância, viveram um ano. Quando em 2017 a Wan foi, junto com a filha, Alice, morar em João Pessoa. Durante a nossa conversa, Lívia e Wan falaram sobre como se veem enquanto muito parceiras, sobretudo porque os primeiros anos do relacionamento foram em um lugar que não tinham familiares por perto e conviviam com um grupo de amigos pequeno (do qual a maioria também não era de João Pessoa). Isso fez com que elas se conhecessem muito, convivessem um tempo maior juntas e que também gostassem muito da companhia. Descobriram, desde o início do relacionamento, uma forma de confiança direta, porque tinham como contar uma com a outra - ou melhor, em trio, junto com a Alice. ♥ Por mais que elas tenham morado 5 anos em João Pessoa, nosso encontro e a documentação ocorreu em um novo lar: São Paulo. Depois do início da pandemia, a Lívia já tinha concluído o mestrado (motivo que fez ela se mudar para a Paraíba) e passou para o doutorado em uma universidade paulistana, enquanto a Wan conseguiu um trabalho bem legal em São Paulo também. Com a mudança, vem um desafio que elas não tinham experimentado até então: conviver mais perto dos familiares e amigos, ter uma base próxima, diferente de João Pessoa. Elas até comentam que a chegada da pandemia, diferente do impacto que teve para quem convive com uma base grande de pessoas próxima, acabou sendo diferente para elas, pois já estavam acostumadas com esse núcleo menor, entre as três. O mais diferente mesmo, já chegando no novo lar, foi entrar numa nova rotina de conhecer vários amigos (que antes, eram amigos só da Lívia), ter a família por perto e novos compromissos. Elas brincam, inclusive, que geralmente os casais passam por isso no início - o processo de se adaptar à uma rotina familiar da parceira - e que elas passaram anos depois. Mas que, de toda forma, está sendo muito gostoso. Pela primeira vez os finais de semana estão cheio de eventos (visitar sobrinhos, festas de formaturas de primos, almoços em família…) mesmo que elas já estejam na cidade há meses. Durante a mudança, primeiro a Wanessa veio, para começar a trabalhar, enquanto a Lívia ficou organizando o que trazer e organizando a vinda da Alice também… e ah! É muito importante ressaltar: a Alice a-m-a viver em São Paulo com as duas. Durante as fotos, perguntamos em tom de brincadeira: “bora voltar para o Nordeste?” e ela respondeu “Só pra visitar!”. No momento da documentação, Lívia estava com 32 anos. Ela faz doutorado em Sociologia, com ênfase em Ciência Política e atua como socióloga. Wanessa também estava com 32 anos. Ela trabalha enquanto Analista de RH, sendo especialista em Diversidade e Inclusão - e atenção aqui! Está sempre em busca de mulheres que estejam na área das artes (redatoras, editoras, produtoras, diretoras de arte, etc) (olha a oportunidade aí!). Hoje em dia, em São Paulo, seus gostos e suas rotinas são em torno de sair para comer, descobrir lugares novos e - de vez em quando - ir para shows e parques. Lívia diz que o amor para ela é viver assim: sonhando, viajando e crescendo juntas. Na sociedade patriarcal e racista que vivemos, ter esse amor é muito difícil, então por mais que pareça simples o que elas vivem, é algo muito político e revolucionário. A Wan completa que não é nenhum pouco simples. Amar é compartilhar, elas são muito companheiras e isso envolve muito esforço. Quando a Lívia fala sobre as questões patriarcais e raciais, Wan traz o quanto é poderoso nos questionarmos. Explica quantas vezes, por exemplo, que por a Alice ter a pele um pouco mais clara pensam logo que ela é filha da Lívia e já fazem essa conclusão sem perguntar, e como dá um nó na cabeça das pessoas quando elas respondem que a Wan é a mãe. “A importância de nos questionarmos o tempo todo antes de agirmos, de pensarmos outros modelos de sociedade, de nos permitirmos viver fora de padrões já estabelecidos.” Por fim, elas contam também como tem sido viver em São Paulo, por ser uma cidade muito mais diversa e aberta sobre casais homoafetivos, em contrapartida do governo que vivemos, que representa cada vez mais a legitimação do fascismo e que nos coloca medo em muitos momentos que estamos nas ruas. Quando o foraBolsonaro foi eleito, sentiram uma tristeza absurda. E mesmo sabendo que seria muito ruim o que viria nos próximos quatro anos, é inexplicável o quanto piora a cada dia que passa em níveis que não saberíamos que era possível piorar. A Lívia fala sobre como as pessoas se sentem à vontade para expressar a raiva e o ódio que sentem, não existe pudor ou vergonha nos atos de violência, e a Wan complementa que mesmo que ela tenha um trabalho que fale sobre diversidade e que viva em São Paulo, as coisas mudaram muito nos últimos três ou quatro anos. Por fim, elas comentam também sobre a vivência que tinham em João Pessoa, por entender a cidade enquanto um espaço que carrega ainda traços colonialistas e que tinham medo de certas demonstrações. As pessoas ao redor delas, por exemplo, não sabiam que elas eram casadas - apenas um núcleo pequeno no trabalho ou amigos próximos. Hoje em dia, viverem como casal e falarem sobre isso é coragem e liberdade, mas também é sobre estarem em um espaço de segurança, num lugar que permite mais diversidade e com pessoas que pensam da mesma forma que a gente - que também se preocupam com elas, formando uma base próxima, de cuidado e afeto. Wanessa Lívia
- Beatriz e Tamara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beatriz e da Tamara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Beatriz e Tamara são um casal muito incrível. A forma que elas se ajudam, se permitem desconstruir e passam um sentimento de calma é muito verdadeira. São pessoas muito diferentes também. Beatriz é mais comunicativa e costuma dizer que elas terem se conhecido foi um encontro de almas. Ela é super de passar horas nas redes sociais, de dormir até tarde… Tamara, pelo contrário, é muito quietinha e disciplinada; Tem hora para dormir, acordar, comer, treinar… gosta de ficar mais no canto dela. Revira um pouco o olho e balança a cabeça, rindo, quando a Bea fala sobre o encontro de almas. Mesmo com todas as diferenças, elas passam muito tempo juntas. Sua grande paixão é o esporte. Tamara pratica todos os esportes possíveis e a Bea acompanha treinando também. Se conheceram assim, na atlética da universidade. Na época, Tamara namorava e Beatriz tinha acabado de entrar na faculdade. Pelo convívio, acabaram cultivando uma amizade. Beatriz estava recém chegando no mundo universitário e decidiu passar um tempo curtindo a vida, conhecendo pessoas, festas, etc. Um tempo depois, Tamara vinha passando por diversos problemas no relacionamento anterior, optou pelo término e isso criou uma brecha para que ela e Bea pudessem tentar algo num futuro próximo. Tamara tem 26 anos, é formada em administração e faz biblioteconomia. Trabalha numa emissora de TV cuidando da parte administrativa, é treinadora de futsal e tem uma doceria com a mãe - a empresa nasceu do sonho de venderem o que cozinham juntas. Ela costuma fazer os doces, enquanto a mãe faz os salgados. No mais, é absurdamente apaixonada por todos os tipos de esporte e se inspira muito em figuras relacionadas a isso quando pensa em inspirações, desde familiares que já se desenvolveram no esporte, até figuras famosas que representam esse desenvolvimento de carreira através da disciplina, como o Cristiano Ronaldo. Bea tem 24 anos, é formada em design gráfico e cursa história e marketing. Atualmente trabalha enquanto social media e web designer. Ao perguntar sobre em quem ela se inspirava, disse que adora acompanhar a jogadora Cris Rozeira nas redes, não só por ser jogadora da seleção, mas por ser uma mulher lésbica, muito representativa, que enfrentou lutas sobre a saúde mental e construiu a própria família. Além disso, disse que aprendeu a se inspirar diariamente na Tamara também, por ser uma mulher muito incrível e por terem uma relação de muita parceria. Por terem essa ligação com o esporte, falamos muito sobre o quanto eles podem mudar a vida das pessoas, principalmente dar um futuro para diversas crianças. Tamara ressaltou que a base para que um dia as coisas possam dar certo é a educação, para termos mais liberdade, mais respeito, mais segurança... tudo começaria pela reeducação. Bea completou, educação é um assunto que elas conversam muito sobre e ela acredita que só a educação realmente nos levaria à uma revolução. A Tamara era capitã do time em que elas jogavam na faculdade, enquanto a Bea era coordenadora. Elas conversavam muito, passavam muito tempo juntas. O primeiro beijo delas aconteceu em 2016, depois do término da Tamara, quando ela resolveu dar uma chance para a Beatriz... mas elas estavam vivendo ritmos completamente diferentes. A Bea estava na fase de beijar todo mundo, curtir as festas nesse sentido... enquanto a Tamara não curtia isso e preferiu manter só a amizade. Um tempo depois a Bea foi acalmando, elas foram criando um sentimento próprio, acabaram estabelecendo algumas coisas e decidiram tentar o namoro. Já passaram por situações mais difíceis que envolveram quebra de algumas confianças, da qual a Tamara se sentiu mais machucada. Foi com muita conversa e força de vontade que o relacionamento se construiu e deu certo. Hoje em dia elas entendem que a comunicação ainda precisa melhorar em diversos pontos, mas que se ajudam, amadurecem... é algo que precisa ser cultivado todos os dias.
- Barbara e Isa | Documentadas
Bárbara, no momento da documentação, estava com 30 anos. Trabalha enquanto comissária de bordo e é apaixonada por viajar. Antes de ser comissária, foi tatuadora e trabalhou bastante tempo com arte, começou pela necessidade de juntar dinheiro, foi seguindo a profissão e fez carreira, até fechar o estúdio durante a pandemia de Covid-19. Hoje em dia, a arte segue nos detalhes da sua casa, na decoração que faz, nos móveis que transformou e quando dança com a Isa pelos cômodos. Mas sua rotina mesmo, é voltada ao sonho de conhecer o mundo viajando - que realiza através do trabalho. Isadora, no momento da documentação, estava com 29 anos. Ela é atriz, narradora de audiolivros e foi bailarina por 11 anos. Sua rotina, atualmente, é trabalhar no Rio de Janeiro com a narração e edição de audiolivros, além de cuidar de diversas plantinhas em casa e querer ter cada vez mais - alimentando um sonho antigo da Bárbara de um dia morarem no campo. Isa explica que nunca desejou morar num lugar como um sítio ou campo, sempre quis o centro, mas é pelo fato de sempre morar longe da escola ou do trabalho e demorar muito tempo para chegar. Hoje em dia, ao analisar e pensar sobre, acha que seria feliz morando num lugar bem arborizado. Atualmente, elas moram juntas há cerca de um ano na Ilha do Governador, local em que Bárbara nasceu. Isa é natural do Rio de Janeiro, mas de bairros distantes da Ilha. Resolveram morar juntas depois que o namoro caminhou e pelo convívio delas/com os gatinhos irem crescendo. Antes da Isa chegar, Bárbara era muito bagunceira, não tinha uma casa com cara de lar e a bagunça era também uma das causas da sua ansiedade. Foi nessa mudança que viu sua casa virar lar, entendeu a ter mais cuidado com prazer, viu uma evolução acontecendo e hoje em dia, quando chega em casa entende a grandiosidade disso tudo. Ambas cuidam muito do seu cantinho, amam a parceria desse cuidado, dançam, fazem churrasco ouvindo pagode, vão à praia próxima, recebem amigos, curtem a casa e organizam com carinho. Foi no final de 2022 que Bárbara e Isa se conheceram. Bárbara tinha um grupo de amigas lésbicas que sempre saiam juntas, mas logo no dia que queria sair a maioria não topou e acabou indo só com uma delas num bar - este voltado ao público feminino que existia no Rio de Janeiro: o Boleia - porque estava com desejo de comer uma batata frita que só tinha lá. Quando chegou ele estava bem cheio, o clima agitado, não tinha mais a famosa batata frita, mas ela insistiu com a amiga: “Vamos ficar por aqui, quem sabe conhecemos alguém legal!”. E conheceram mesmo, o grupo de amigas que a Isadora estava. Bárbara chamou a Isa para dançar um forró e enquanto elas dançavam, no meio do barulho, até perguntou para a Isa se ela estava solteira, mas ela nem ouviu, não respondeu - e foi insistente, que bom, porque meses depois ficou sabendo que Isa não estava nem aí, não tinha muita disposição para conhecer alguém naquele momento. O bar já estava fechando e, em grupo, seguiram para outro lugar, mais calmo. Foi lá que conseguiram conversar, a Isa pensou: “Nossa, que menina interessante!” e as coisas se desenvolveram. Depois de se conhecerem nesse primeiro encontro, passaram 15 dias até conversarem novamente online e surgir o convite para se encontrarem novamente. Saíram, as coisas fluíram e seguiram se encontrando, mas confirmaram: não queriam nada sério. Dois meses depois, não tinham como negar, já estava sério. O pedido de namoro aconteceu no começo de 2023. A verdade é que tanto Bárbara, quanto Isa tinham bastante medo de se relacionar. Mas o que ajudou a enfrentar o medo foi observar o quanto eram pessoas que mereciam viver algo bom, que desejavam coisas boas para os outros e para si. Cativaram uma à outra. Acreditam que a dinâmica de relação que possuem é muito bem sucedida e Isa traz o exemplo da relação dos pais dela - conta que é a mais bonita que conhece, eles estão juntos desde a adolescência e são muito parceiros, são o maior exemplo de vida que possui. Aos poucos, ela enxerga o que deseja na relação com a Bárbara também e se orgulha muito disso. Para Bárbara, o amor sempre vai nos encontrar. É a força mais poderosa do mundo. Vai nos encontrar num animal que nos olha na rua, num café que bebemos, numa pessoa que amamos. O amor é a força criadora. É a proposta por estarmos aqui: para nos desenvolver no caminho do amor. Ela sempre teve a dualidade: ser uma pessoa um pouco solitária, mas também buscar o amor nas pessoas. No começo da relação, a mãe orientou: “Filha, vai com calma. Você se entrega muito.” E ela respondeu: “Mas a Isadora também é assim”. E a Isa também passou por isso com a mãe e com as amigas. Hoje em dia ela enxerga a relação que vive com a Isa como algo muito curativa: curando traumas, cuidando… alguém que abraça mesmo o que não é perfeito (como a questão da bagunça, citada no começo do texto) e te ajuda a melhorar. Para Isa, o amor de alguma forma é clichê. É uma transformação constante, ser a sua melhor versão para si e para o outro, para quem enxerga a melhor versão de você. Ter ternura e respeito, deixar a pessoa digerir no tempo dela, ter cuidado. Acha incrível o quanto as famílias delas se gostam e apoiam a relação delas e isso é muito valioso, acredita que o amor também mora nesses momentos. ↓ rolar para baixo ↓
- Pamela e Gabriela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Pamela e Gabriela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi num parque em meio à área florestal do Grajaú, no Rio de Janeiro, que encontrei Pamela, Gabi e Kauan. Ele completamente sorridente, com seus 5 meses de idade. Começamos a conversa com elas contando o quanto amam viajar. Sempre planejaram viagens e agora, depois de ter feito a primeira viagem breve com o Kauan, anseiam o primeiro andar de avião nas próximas semanas. Pamela explica como esse primeiro momento da maternidade não é fácil, por mais que tenha essa viagem que traga felicidade, a vida real demanda muito, envolve cansaço e esforço das duas, mas que mesmo nessas circunstâncias conseguem sentir as coisas leves porque sempre relembram o quanto sonharam com isso e o verdadeiro motivo de viverem tudo: resgatam o amor para o dia a dia. Entendem que o amor é muito político, principalmente na criação do Kauan. Citam os olhares, as burocracias que viveram e questões mais ‘invisíveis’, como o quanto pensavam sobre política muito antes de saber se era um menino ou uma menina que iria nascer. Gabi explica que se fosse menina, queriam criar uma menina forte, corajosa, que tivesse consciência do machismo, etc. Sendo menino, mudava de forte para sensível; Queriam a consciência e a coragem, mas ensinando que pode demonstrar sentimentos, chorar, ser gentil. Conta, também, sobre um dia que estavam numa padaria e um desconhecido brincou com ele e comentou: “Esse é macho, tem cara de macho!” e ela disse “Não… Ele é um bebê” e completa que não tem que ter cara alguma, além da cara de um bebê. Foi em 2015 que elas se esbarraram pela primeira vez, numa festa durante o carnaval. Pamela tinha saído com um amigo, estava recém solteira e perguntou se o amigo tinha alguém para apresentar. Ele apresentou a Gabi e elas se beijaram na noite, mas não conversaram, nem trocaram mensagens depois. Em 2017, se encontraram novamente no carnaval, de forma aleatória num bloco e com os mesmos amigos em comum. Perguntaram se estavam solteiras e ficaram. Isso já era de madrugada, estavam bêbadas e depois de terem ficado, a Gabi simplesmente comentou com o amigo: “Sabe quem eu queria encontrar?! A Pamela”. Ele ficou sem entender nada: “Ué?? Mas você acabou de ficar com ela!”. E ela não lembrava. Se esbarraram de novo, beijaram de novo, e o amigo chegou dizendo “E aí, Gabi, agora foi, né?”. Quando ela respondeu: “Não?! Não vi a Pamela”. Achavam que era alguma brincadeira dela, mas entenderam que ela realmente não estava relacionando/lembrando. Então combinaram: se elas se beijassem de novo, iriam fotografar. E assim foi. Depois do carnaval, ambas tiveram breves relações e no meio do ano estavam novamente solteiras, então começaram a se falar pelas redes sociais. Decidiram ter um encontro, a Pamela decidiu que não podia envolver álcool, porque queria ser lembrada, então chamou Gabi para ir ao cinema. Acabaram chegando cedo e só tinha o filme dos Minions para assistir, toparam mesmo assim e sentem que aquele dia foi o começo de tudo. Começaram a conversar, ficaram juntas mesmo. Nos próximos dias que seguiram desde o primeiro encontro, já entendiam que queriam namorar. Fizeram a primeira viagem e lá Gabi comprou uma aliança, na pracinha da cidade, e deu para a Pamela selando o início do namoro. O primeiro ano não foi fácil, contam que foi um ano de “ajustes”. Tinham muitas conversas para se entender, também não havia muita estrutura, ainda estavam na faculdade… Foi depois de completarem um ano que decidiram morar juntas, em Caxias, por ser mais acessível financeiramente. Sempre falaram sobre casar e ter filhos, então começaram uma conta poupança juntas, entendendo o quanto isso demandava, e os planos foram se concretizando. Em 2019 casaram, fazendo uma festa para amigos e familiares. Em seguida, se mudaram para um novo apartamento, entre o centro e a zona sul do Rio de Janeiro. Durante a pandemia o apartamento se tornou pequeno para o que desejavam. Ainda mais passando o dia todo em casa, se sentiam enclausuradas, sem tanta luz solar. Sendo assim, em 2021 conseguiram um novo lar, dessa vez na Tijuca, e lá a vinda do Kauan começou a ser planejada. Começaram com a bateria de exames, depois a primeira tentativa que já deu certo. Pamela gerou, Kauan nasceu em abril de 2023. Gabriela estava com 31 anos no momento da documentação, é natural do Rio de Janeiro e, mesmo tendo a formação em Engenharia Química, migrou de área e hoje atua enquanto Product Manager. Pamela, com 33 anos no momento da documentação, é natural de Duque de Caxias, baixada fluminense. Também formada em Engenharia Química, não atua na área, trabalha enquanto analista de negócios. Gabi conta que desde pequena sempre quis ter um filho com o nome Kauan. Falava isso tanto que, quando a mãe engravidou, perguntou se ela queria dar esse nome ao irmão e ela respondeu que não, Kauan seria o nome do filho dela. Quando deu essa ideia para a Pamela, ela adorou, principalmente pela escrita do nome. São duas mulheres muito diferentes: Gabi, por exemplo, passou o processo de gravidez todo chorando (seja por felicidade, medo, ansiedade…), enquanto Pam internalizou tudo e segurou a barra, foi muito racional, só chorou quando deu certo. Entendem que no dia a dia o exercício é fazer Pamela lidar com as emoções, se comunicar, falar o que sente. Gabi instiga a comunicação, sempre procura conversar. Para Gabi, o amor é muito mutável perante os períodos que as pessoas estão vivendo. Quando começaram a namorar, por exemplo, sabiam que se amavam e por mais que em muitos momentos estivesse sendo difícil se entender, o amor estava ali e queriam continuar juntas, por isso seguiam em frente. Hoje em dia é diferente, já passaram por questões difíceis no emprego, na família… e continuam juntas, se sentem fortalecidas. Vê muita parceria na forma que elas constroem a relação e a educação do Kauan. Atualmente, fazem parte de um grupo de dupla maternidade no Rio de Janeiro e querem muito que o Kauan viva com crianças da mesma configuração familiar que ele. Buscam o tempo todo espaços inclusivos, desde o grupo, até escolas que não tenham o dia das mães-dia dos pais, mas o dia da família. Pamela fala sobre todas as crianças, as tantas que vivem sem pais, por exemplo, e como esses dias podem se tornar algo ruim. Não queria ver o Kauan crescendo com esse sentimento, portanto, querem sempre propor algo melhor - e que elas não tiveram, na sua infância, como escolher. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Pamela
- Tania e Clarissa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Tânia e da Clarissa, quando o projeto passou por São Paulo! Queria contar a história da Tânia e da Clarissa (e do Gael, claro) de uma forma que tudo se completasse, porque a vida delas acontece assim. Diversas vezes, desde que nos encontramos em São Paulo - cidade em que elas nasceram e moram com o Gael - falamos no sentimento que existe sobre a vida tê-las preparado para a chegada dele. E isso não significa que ter um filho e educar uma criança de forma inclusiva é tarefa fácil ou, que nesse caso, venha com receita pronta, mas que elas estavam de braços abertos e muito dispostas para receber tudo o que aprendem e compartilham diariamente. A forma de começar a contar essa história vai ser pelas fotos porque escolhemos fazê-las num local muito especial, um café, localizado no bairro da Mooca. Esse café foi a Tânia quem pintou, com giz de cera, cada uma das paredes. Quando ela pintou, não imaginava que adotaria o Gael, mas já estava com o processo de adoção bastante avançado no fórum e tinha feito uns murais na escola em que trabalhava, quando o dono do café foi matricular a filha, os viu e decidiu contratá-la; foram dez dias de muitos desenhos nas paredes… mas um desenho em especial, de frente para a cozinha, era o preferido do casal (e também da Tânia!): uma menina no balanço, lendo um livro. Enquanto pintava, Tânia resolveu perguntar o motivo deles terem gostado tanto do desenho e a resposta foi que remetia à uma criança com síndrome de down (a esposa do dono do café é fisioterapeuta e tem essa especialização). A menina, com seus dedinhos curtos, segurando o livro, de olhinho puxado… remetia a eles e trazia algo tão bom. Enquanto para a Tânia, pelo vestido fazendo um contorno circular longo, via logo um barrigão, não pensava na criança, mas numa gestação. Não sabia ela que exatamente naquele dia da pintura, em um estado vizinho, o Gael nascia. As fotos da Tânia e da Clarissa, junto ao Gael, hoje em dia com dois anos, saudável, sorridente, muito inteligente e simpático, conversam com cada uma das pinturas do café. E é muito incrível ver como, de todas as formas, elas estavam esperando por ele. A Clarissa tem 37 anos, é bancária, adora mexer com plantas, reviver plantas, replantar e cultivar. Ela também toca violão e canta (gravou em estúdio a música para a Tânia entrar no casamento! Olha que incrível!). Ela adora esses detalhes, trata-os com muita atenção e carinho. A Tânia tem 43 anos, é historiadora e pedagoga, brinca que é artista plástica autodidata, porque dá aula de artes e de pintura há muitos anos também. Antes dos murais, ela nunca tinha pintado usando giz de cera, sua especialidade era tecido e madeira. A história do giz começou por uma reforma na escola e pela falta de dinheiro para comprar materiais para a pintura acontecer, então ela viu que tinha muito giz e pensou que poderiam inventar algo novo. Enquanto a história dos tecidos, essa vêm de longa data: ela já apresentou até programa na TV ensinando outras pessoas a pintarem seus próprios tecidos em casa. A Tânia e a Clarissa são mulheres muito atenciosas e logo que você chega é completamente impossível não se contagiar pela energia delas. São pessoas que se movem por afeto e contam histórias de vezes que já comemoraram datas com violinistas, de votos de amor que fazem por aí, das aventuras de anos casadas… são muitas risadas que vamos trocando ao longo das conversas, porque mesmo que os assuntos não sejam tão fáceis ou que existam os perrengues, fica claro o tempo todo que elas querem fazer o bem. Por fazer o bem que elas se conheceram, inclusive. Foi num grupo de Whatsapp onde LGBTs se reuniam para promover doações que quebravam o preconceito. Infelizmente ainda existe um olhar para nós de que só queremos festas, coisas vistas como “libertinagens” e não levamos nada à sério (e tudo bem querer festa, viu gente?), mas para quebrar essa ideia tão retrógrada esse grupo se uniu visitando lares de idosos, praticando doações, distribuindo coisas, etc. A Clarissa se interessou pela Tânia, chamou ela no Whatsapp e passaram quatro horas conversando. Marcaram de sair e foram ao teatro, já que ambas amam teatro. E, dessas saídas ao teatro, já se passaram mais de 8 anos, né? Cá estamos. Depois que elas se conheceram, se apaixonaram e namoraram por um tempo, resolveram morar juntas. A Tânia já tinha dois filhos maiores de vinte anos e isso fez com que fosse ainda mais difícil para a mãe da Clarissa a aceitação do relacionamento, portanto elas passaram o primeiro um ano e meio sem contato direto com as famílias. Mas não foi por falta de tentativa, não, viu? Tânia tentou, mandou e-mails, fez o que estava ao seu alcance, mas não conseguiu. Depois de um tempo, o irmão da Clarissa começou a namorar e foi apresentar a namorada, então elas resolveram dar um basta: só iremos se a Tânia puder ser apresentada também. Ok, baixamos a guarda. A Tânia foi convidada. E ela? Viveu um dia de gala! Foi ao salão, comprou até roupa nova para a ocasião. Deu tudo certo, todos se deram bem. O mais curioso é que a mãe da Clarissa e a Tânia se parecem muito, não só no jeito, mas ambas são professoras e artistas, então a mãe sempre soube quem era a Tânia por ver ela na TV, mas não dava o braço a torcer. Depois, quando se conheceram e se deram bem, tudo foi ficando mais tranquilo, mas levou muito tempo para que elas não se sentissem mais pisando em ovos. Desde o começo a adoção sempre estava em pensamento, por ser um sonho de muitos anos da Tânia. A Clarissa adorava a ideia, mas ambas achavam muito cedo. Deixaram a hipótese ao futuro, para amadurecer depois do casamento. Quando o casamento chegou, a notícia foi dada num almoço de família, depois de três anos juntas. A mãe da Clarisse perguntou “Mas por que vocês vão casar? Se já moram juntas há três anos?!” e ela respondeu: “Por que a senhora casou? Então. A motivação é a mesma.” = aí, ninguém argumentou mais nada. Sobre o casamento, o assunto já estava vencido, mas ainda sentia-se uma dor porque tiveram pouquíssima participação familiar no envolvimento em si… pouco perguntava-se sobre o evento, elas organizaram tudo sozinhas, cada detalhe, e foi difícil lidar com esse sentimento de solidão. Na data da festa, o pai da Clarissa entrou com ela e foi muito receptivo com os convidados, enquanto a mãe ficou mais reclusa. Recordam que a cerimonialista falou coisas muito profundas e importantes sobre o amor e sobre quem nós somos, e citam que isso despertou uma mudança comportamental na forma que a mãe da Clarissa vê o relacionamento das duas, portanto, valeu sim, muito a pena. Em relação à adoção, elas contaram da mesma forma que o casamento: o irmão da Clarissa ajudou e elas organizaram uma pizza entre a família para dar a notícia. No começo, o maior medo que surgiu foi em relação ao processo, como seria, e de certa forma sobre alguns preconceitos que envolvem a adoção, como “Como será que vai ser quando a criança crescer? / E se ele/ela quiser procurar a família biológica? / etc”, além disso, existia um pensamento sobre a Clarissa nunca ter filhos pelo o que ela representa socialmente, uma mulher que não se mostra feminina, não encaixa num padrão socialmente colocado que desde criança não mostrava brincar de bonecas e nem ser muito materna… [E justamente nesse momento nos surge a dúvida: Por que isto vira um debate quando a Clarissa anuncia o desejo de adoção e nunca vira um debate em famílias no momento em que os homens contam que vão ser pais? Nunca um homem é cobrado sua paternidade, já para nós, mulheres, sempre nos é cobrada uma posição materna e se não temos uma boneca em casa nos é descartada a possibilidade ao crescer. Ainda bem que Clarissa seguiu o sonho porque hoje em dia ela é uma mãezona!] Enfim, o sentimento que os familiares ficaram foi de: quando acontecer, a gente vê. Foi então que elas entraram com os papéis no fórum e acompanharam mensalmente os encontros em grupo sobre adoção. Depois de um ano, os pais (avós do Gael) estiveram também nesses encontros, o que foi muito legal porque mudou bastante a visão sobre a adoção, e lá foram reaprendendo formas de enxergar e de se preparar para recebê-lo da melhor forma possível. Depois de um ano e meio elas estavam aptas a entrar num grupo de busca ativa por crianças para adoção. Lá, chegaram a tentar uma criança, enviaram os documentos, mas não tiveram retorno judicial (em agosto de 2019), então voltaram à busca. Em novembro, dia 20, de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra, elas estavam em uma peça de teatro (olha aí, o primeiro date voltando à tona), e quando pegaram o celular para fotografar um momento da peça porque Tânia queria mostrar aos alunos na escola, viram no Whatsapp a foto do Gael. Tânia, em lágrimas, conta que sentiu o coração palpitar muito forte e só conseguiu dizer: é o meu filho! A informação que tinham era de que o Gael não estava em São Paulo e que era um neném com síndrome de down, possuindo também uma bolsa de colostomia. Elas nunca tinham pensado na hipótese da síndrome de down porque não existia essa opção no questionário que responderam, mas na mesma hora não havia mais dúvidas, apenas a certeza que o Gael era o filho que elas estavam buscando. A Clarissa brinca que não conseguiram mais nem ver a peça, choravam e ela tentava conversar para acalmar e ser um pouquinho mais pé no chão, saber se era isso mesmo que elas queriam, mas ambas estavam muito emocionadas. Ao fim, foram para o estacionamento, conversaram e ligaram para a filha da Tânia. Na hora que ela viu a foto, não deu nem tempo, só disse “Mãe, é ele, né??? É o meu irmão! Pega ele! A gente estimula ele, mãe!! Vai dar certo!”, naquele momento tudo foi se encaixando, a filha dela trabalha com crianças que possuem síndrome de down e na época auxiliava 6 crianças numa escola. Em seguida, ligaram para o filho, que também apoiou. Foi o bastante: deram o sim para a assistente social. Os dias seguintes se resumiram em pura ansiedade. Enviaram os documentos e o processo demorou mais de uma semana, passaram por entrevistas, por assistentes sociais… Tânia estava tão ansiosa que resolveu ir até a casa de duas amigas mais velhas, maiores de 80 anos, cujo ela apelida de yabás. Elas falaram: “Calma que ele é teu, ele já vem”. Foi quando ela chegou em casa que recebeu a ligação do fórum e falaram: chegamos à conclusão de que não existem mães melhores para ele do que vocês duas. Compraram as passagens aéreas, alugaram airbnb, marcaram audiência e o mais rápido possível foram conhecê-lo. Conversaram muito com as assistentes, com o fórum, afinal, tudo precisa ser minimamente acertado. A família (como um todo) ainda não sabia, porque o medo de não dar certo era grande, deixaram para contar quando já estivessem lá. E finalmente chegou o momento aprovado de conhecê-lo: lá estava o Gael, neném pequenino, gordinho, com os olhos super curiosos, acompanhado de uma sacolinha de plástico com suas roupas. Elas foram com ele até o apartamento onde estavam hospedadas. Todos estavam enviando mil mensagens para o celular, mas fizeram chamada de vídeo com a filha da Tânia. Gael, quando a viu, abriu um sorrisão. Foi o primeiro sorriso dele, como se já a conhecesse. Ele foi muito bem recebido por todos na família e é uma criança muito amada. Elas afirmam: “Ele nos ensina coisas que nenhuma faculdade ensinaria, nenhum curso”. A vida gira em torno do Gael, que ao todo faz 6 terapias, hidro, fono, fisio, uma rotina intensa! É sempre de sorriso no rosto! E vai melhorando a cada dia. Hoje ele já não usa mais a bolsa de colostomia, passou pela cirurgia e correu tudo bem! Falamos sobre a importância de darmos valor aos pequenos grandiosos acontecimentos ao nosso redor, como as necessidades fisiológicas diárias. E tudo o que isso nos ensina. Nesse momento, a Tânia conta que no dia do casamento elas fizeram votos falando sobre o quanto são pessoas melhores depois que se conheceram… mas que depois do Gael, elas sentem que são pessoas que nem imaginavam conhecer/e ser. Sentem que vão sair dessa vida muito melhores. Hoje, também, depois de tantos anos, ambas famílias se dão super bem. No mais, elas mantém o Instagram do Gael, para falar sobre educação inclusiva, famílias homoafetivas e crianças com síndrome de down. O @ é @gael.t21 a palavra está com elas Acreditamos que o amor supera tudo, nele não tem raiva, não tem inveja, não tem maldade. Eu (Tânia) vivi uma situação que me lembra do amor. Foi com a minha sogra. Ela é muito parecida comigo e um dia eu fui viajar para o interior sozinha à trabalho. Por mais que eu já namorasse a Clarissa há anos e já conversasse com a minha sogra, ela nunca tinha falado comigo no Whatsapp, mas nesse dia, especificamente, ela me mandou uma mensagem perguntando se eu cheguei bem. Ou seja, ela ficou preocupada, né? Me surpreendeu e eu agradeci. Aí ela disse que, ah, era assim mesmo, “com o tempo ela ia vendo como são as coisas”... e eu disse que o amor é só isso, mesmo, mas que amor também é tudo isso. É essa coisa que une, que move, que faz com que a gente se preocupe e que faz passar por esses desafios. Nós,mulheres, amarmos outras mulheres, nos faz passar por muitas coisas e muitos desafios, então o amor surpreende e fica muito latente. Mas nem sempre a gente sabe como demonstrar, então é importante saber ler também. E o Gael estar numa família homoafetiva é maravilhoso porque já passamos por tantas coisas que ele será completamente acolhido aqui, voltamos a realmente aquele ponto: nos preparamos a vida toda pra isso. post Começou 2022! Precisamos começar o ano fazendo todos vibrarem com uma das maiores histórias que já tivemos o prazer de documentar, então, preparou o lencinho? Chegou a hora. Aproveitem ♥ Queria contar a história da Tânia e da Clarissa (e do Gael, claro) de uma forma que tudo se completasse, porque a vida delas acontece assim. Diversas vezes, desde que nos encontramos em São Paulo - cidade em que elas nasceram e moram com o Gael - falamos no sentimento que existe sobre a vida tê-las preparado para a chegada dele. E isso não significa que ter um filho e educar uma criança de forma inclusiva é tarefa fácil ou, que nesse caso, venha com receita pronta, mas que elas estavam de braços abertos e muito dispostas para receber tudo o que aprendem e compartilham diariamente. A forma de começar a contar essa história vai ser pelas fotos porque escolhemos fazê-las num local muito especial, um café, localizado no bairro da Mooca. Esse café foi a Tânia quem pintou, com giz de cera, cada uma das paredes. Quando ela pintou, não imaginava que adotaria o Gael, mas já estava com o processo de adoção bastante avançado no fórum e tinha feito uns murais na escola em que trabalhava, quando o dono do café foi matricular a filha, os viu e decidiu contratá-la; foram dez dias de muitos desenhos nas paredes… mas um desenho em especial, de frente para a cozinha, era o preferido do casal (e também da Tânia!): uma menina no balanço, lendo um livro. Enquanto pintava, Tânia resolveu perguntar o motivo deles terem gostado tanto do desenho e a resposta foi que remetia à uma criança com síndrome de down (a esposa do dono do café é fisioterapeuta e tem essa especialização). A menina, com seus dedinhos curtos, segurando o livro, de olhinho puxado… remetia a eles e trazia algo tão bom. Enquanto para a Tânia, pelo vestido fazendo um contorno circular longo, via logo um barrigão, não pensava na criança, mas numa gestação. Não sabia ela que exatamente naquele dia da pintura, em um estado vizinho, o Gael nascia. As fotos da Tânia e da Clarissa, junto ao Gael, hoje em dia com dois anos, saudável, sorridente, muito inteligente e simpático, conversam com cada uma das pinturas do café. E é muito incrível ver como, de todas as formas, elas estavam esperando por ele. A história completa está no nosso site! O caminho até lá você já sabe, né? O link tá na bio!
- Alissa e Rafaela | Documentadas
Foi num período em meio a pandemia que Rafaela decidiu submeter seu projeto para estudar mestrado em Santa Catarina, ainda sem esperanças, porque não conhecia ninguém na universidade e no Estado. Ela e Alissa moravam em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e trabalhavam na área da saúde. Foi vivendo etapas longas do processo, e para a sua surpresa, passando em todas. Até que em dezembro de 2020 teve a resposta: foi aprovada! Se olharam e entenderam: “Vamos nos mudar para Santa Catarina!”. Organizaram toda a vida e no dia 7 de abril de 2021 estavam a caminho de Araranguá, cidade no interior do estado, onde começariam tudo de novo. Dizem que no começo foi difícil de “não endoidar”, era só elas, uma pandemia, a cidade conservadora e ninguém que conheciam. Mas aos poucos foram recebendo as visitas das suas famílias que adoram visitá-las por conta da praia (adoram tanto que parte da família hoje em dia se mudou também!) e criaram um grupo bem legal de amigos. Precisaram se apoiar muito, essa foi a base para tudo dar certo. Alissa voltou a estudar, desta vez em Criciúma, cidade próxima - e que hoje em dia é o lugar onde moram por conta da facilidade de mobilidade/trabalho/estudo - acharam fundamental se assumirem enquanto família, não escondiam mais quem eram, andavam de mãos dadas na rua, falavam nas entrevistas de emprego que tinham uma companheira, desde o início deixavam claro às novas amizades para combater o preconceito… Esconder-se não era mais uma opção. E, aos poucos, foram encaixando a vida nesse novo lar. No momento da documentação, Alissa estava com 25 anos. Ela é natural de São Luiz Gonzaga, no interior do Rio Grande do Sul. Estuda educação física e ama praticar exercícios. Antes de cursar educação física também estudou engenharia elétrica por 3 anos em Santa Maria, neste curso fez parte do time atlético de handebol e foi aí que começou a paixão pelo esporte. Rafaela, no momento da documentação, estava com 25 anos. É natural de Alegrete, também no interior do Rio Grande do Sul. É mestranda em ciências da reabilitação e pretende começar o doutorado em breve. Morou 7 anos em Santa Maria, onde fez faculdade e pós-graduação. Mudou-se para Araranguá, em Santa Catarina, por conta dos estudos, mas atualmente está em Criciúma, há cerca de um ano. Rafa nos conta que recentemente recebeu seu diagnóstico de TEA - transtorno do espectro autista - e que tem entendido mais as coisas depois que teve seu diagnóstico. Recebeu muito apoio da Alissa nesse momento, elas explicam que é muito difícil passar a vida inteira sendo algo que a gente não sabe o que é, não sabe nem nomear. Depois passou a entender suas oscilações de humor, ou sobre não gostar tanto assim do toque, de manter contato visual… Na relação, definiram detalhes para saber quando ela está bem ou não: como o bichinho de pelúcia, polvo do humor (Rafa coloca ele feliz ou bravo mostrando como está se sentindo no dia) e assim elas estão entendendo isso juntas. Em março de 2019, quando Alissa era atleta do time de handebol da faculdade, Rafa entrou como fisioterapeuta. Logo na primeira interação, Rafa achou Alissa muito chata: era domingo, 8h da manhã e ela chegou animada com uma lista em mãos… Rafa pensou: “Quem tá feliz num domingo de manhã?”. Na época, Alissa vivia um período de transição de entendimento enquanto mulher lésbica, achou a Rafa lindíssima, lembra que sentiu algo diferente e já comentou com uma amiga sobre. Os dias passaram e no final de semana de Páscoa elas precisaram viajar para jogar com o time, não teriam como visitar a família na volta e decidiram fazer um almoço em conjunto. Acabou que o almoço virou só delas. Conversaram muito e ficaram amigas. Por serem profissionais do time não podiam sair à noite, saiam escondidas. Demoraram um tempo para entender que não queriam ser apenas amigas, foi um processo natural de intimidade (e que Rafa, hoje com o entendimento de ser uma pessoa com TEA e TDAH, passa a visualizar diferentes os detalhes daquela época), tudo foi acontecendo até o beijo se tornar um desejo em comum. Depois que se beijaram, se relacionam um mês sem contar para ninguém, até irem se abrindo para os amigos e para algumas pessoas da família. Quando Alissa resolveu fazer o pedido, em junho do mesmo ano, preparou toda a casa, o quarto, fez várias coisas fofas… E na hora: travou. Brinca que era a primeira vez, ninguém a ensinou a fazer isso, não sabia o que dizer. Depois de algumas horas conseguiu pedir. Alissa e Rafa tiveram algumas questões logo no início do relacionamento, principalmente porque Alissa não estava mais indo para a faculdade e levando os estudos à sério. Na época, ela focava no handebol e em sair para bares, aproveitar a vida. Rafa, por sua vez, era bastante focada nos estudos e não queria se relacionar com uma pessoa que não desse o mesmo valor à carreira, então teve uma conversa séria da qual disse que faculdade pública não era bagunça, que alguém estava pagando por isso e que Alissa precisava “se ajeitar na vida” = ou ela contaria aos pais que não estava estudando, ou Rafa contaria. O problema é que se os pais soubessem que ela desejava cursar educação física, iriam fazer com que ela voltasse à sua cidade natal e estudasse lá. E se ela contasse, também, que estava namorando uma mulher, seria informação demais para assimilar ao mesmo tempo. O processo todo levou 8 meses para acontecer, e nesse meio tempo, a mãe da Rafa estava visitando ela e deu a ideia: “Chama a Alissa para morar aqui!”. Antes mesmo dela processar, Alissa chegou lá e a mãe mesmo fez o convite. Aos poucos a família foi entendendo - e reconhecem como é muito bom ter uma família que ama e apoia. Ao passar dos meses Rafa conseguiu um emprego para Alissa de secretária no mesmo lugar que ela trabalhava enquanto fisioterapeuta, e assim viveram até o final do ano. Quando a pandemia de Covid-19 chegou, no início do ano seguinte, seguiram trabalhando por ser da área da saúde, mas já estavam com a vida mais estável financeiramente e batalhando pelos estudos. Hoje em dia, entendem com clareza que Rafa trouxe a calmaria para Alissa, enquanto Alissa trouxe um pouco mais de agitação para a Rafa. A relação tirou ela de vários lugares (de conforto ou não) e trouxe um salto qualitativo. Alissa estava sem perspectiva, depressiva, Rafa a trouxe um novo olhar. Durante a nossa conversa, refletem que se não fosse a relação, talvez elas ainda estivessem naquela realidade ou vivendo ciclos de suas famílias, e que hoje saíram para crescerem juntas, estão muito maiores. No momento atual da documentação, já morando em Criciúma, vivem uma rotina mais tranquila. Sair de Araranguá foi decisivo para isso acontecer, lá estavam tendo horários bem difíceis e mal se encontravam perante as rotinas. Estão noivas, fizeram a primeira grande viagem juntas e estão construindo novos planos. Acreditam que celebrar o amor com uma festa de casamento é o que elas merecem por estarem há 5 anos construindo esse amor. Brincam que adoram ser emocionadas, que no começo as pessoas falavam que isso iria passar, mas que até hoje fazem café da manhã e levam na cama, gostam de estar juntas e alimentam essa paixão. Sentem que fazer isso é manter o propósito do amor - e por consequência, da vida. Alissa sempre se questionou muito sobre sua capacidade, enquanto Rafa sempre foi muito decidida, então aprende muito com ela. Rafa segura a sua mão e fala: “Vai, você consegue”. Agora constroem um legado juntas. “É: nós por nós”. Se apoiam nos medos, transformam em coragem. ↓ rolar para baixo ↓ Alissa Rafaela
- Debora e Paula | Documentadas
↓ rolar para baixo ↓ Foi através de um post (de uma pessoa que a Débora nem seguia, mas apareceu no Instagram), em que uma menina explicava a origem do termo “sapatão”, que ela viu o comentário da Paula dizendo que era “sapatão com orgulho” e respondeu. Se interessou pelo perfil da Paula, viu que moravam em cidades próximas, no Rio Grande do Sul, e seguiu puxando um assunto. A conversa fluiu por alguns dias. Na época, Débora trabalhava em um café e tinha folga aos domingos, então resolveram marcar um chopp. Paula, por sua vez, estava muito atarefada, cansada, não tinha dormido à noite e decidiu descansar 40 minutos antes do encontro acontecer. Resultado: pegou no sono. Quando acordou, achou que Débora teria bloqueado, nunca mais olharia na sua cara por conta do bolo, mas Débora entendeu. Na terça seguinte decidiram sair e como é mais difícil arranjar um local durante a semana resolveram encontrar na Casa de Cultura Mario Quintana, local que fizemos as fotos, no dia em que as chuvas históricas começaram no Rio Grande do Sul (nem imaginávamos). No começo, antes mesmo de namorar, já deixaram claro o que queriam: Débora disse que buscava alguém para casar, para construir algo sólido. Enquanto Paula disse que não pensava em casar novamente. Débora viveu um relacionamento onde a pessoa não era assumida e sentia muita falta de não poder viver uma “vida de verdade”, não poder passar datas importantes com a pessoa, não poder conviver em família… e depois lembra que comentou com a psicóloga o quanto tinha medo da Paula pensar que ela era louca por dizer algo assim, mas que no fundo era simples: se ela sabe o que ela quer, precisa comunicar, não tem porque não dizer para a pessoa e ficar numa relação “perdendo tempo”. Paula entendeu. E nosso dia foi tão marcante, mesmo com tanta chuva, justamente por isso: o pedido de casamento chegou. Elas decidiram firmar essa união em meio à nossa documentação. Para Débora, a parte mais importante do amor é se sentir amada, falar sobre o amor, demonstrar. Conta que quando era criança aconteceu um acidente de carro na sua família e algumas pessoas morreram, um dia antes ela tinha dito para um dos tios, que faleceu, o quanto ela amava ele e ele respondeu “eu sei”, então ela questionou “como você sabe, se eu nunca havia te dito?” e ele explicou “porque eu sinto, você demonstra isso”. Desde então, faz muita questão de demonstrar o amor para todos que ama, entende a importância das pessoas se sentirem amadas sempre. Brinca que a primeira vez que disse para a Paula que achava que a amava, ela disse: “Sim, eu sou muito amável!” e que essa quebra de expectativas que ela provoca faz tudo ser ainda melhor, faz rir, faz a parceria e o diálogo aumentar, faz com que ela se sinta muito mais amada também. Paula conta que por diversos traumas de infância/adolescência via muitas barreiras na hora de sentir e demonstrar afeto. Para ela, Débora pegou esse muro de concreto e derrubou num empurrão só. Então, um relacionamento com comunicação, expressão, sem julgamentos é algo muito novo, mas também importante e difícil. Ela ama as convivências com as famílias (rituais muito específicos com merengue na cara e tudo mais), a forma que estão dispostas e como podem contar uma com a outra. Contam também sobre a Paula estar trabalhando em uma imobiliária (que já trabalhou há anos atrás, voltou agora) e que decidiram assinar a união estável num dia, sem combinar muito ou planejar. Acabaram chamando os colegas dela para serem testemunhas, eles ficaram bem empolgados e emocionados, toparam na hora. E isso fala muito sobre as formas que elas levam a relação. É o espírito: Bora? Bora! Débora, no momento da documentação, estava com 33 anos. É natural de Porto Alegre, mas morou nas cidades metropolitanas de Cachoeirinha e, agora com a Paula, em Sapucaia do Sul. Formou-se em relações públicas, atua na área de vendas. Ama bichos, tem um coelho e uma cachorra. Adora dedicar o tempo livre para ler, visitar museus, comer, dormir, passear pelo centro histórico de Porto Alegre e também participa de um projeto que caminha por pontos em que aconteceram situações da ditadura na cidade, fazendo esse resgate histórico. Paula, no momento da documentação, estava com 43 anos. Nasceu em Esteio, região metropolitana de Porto Alegre e hoje mora em Sapucaia do Sul. Trabalhou na indústria e fez uma migração para o setor imobiliário. Como hobbie, é árbitra de atletismo, fazendo também cronometragem de corrida de rua. Além disso, adora passear por Porto Alegre e sente que está redescobrindo a cidade junto com a Débora. Depois do início do relacionamento, Débora trocou de trabalho e conseguiu um que ficava “no caminho” da casa da Paula (considerando que as distâncias eram bem mais longas antes) e foi então que decidiram morar juntas. Foram juntando as coisas aos poucos e, pra falar a verdade, até hoje quando vão visitar os pais de Débora voltam com alguma mochila no carro pegando um pouco mais de coisas. Comentam bastante sobre essa adaptação familiar, também, porque Paula tem um filho de 21 anos. Débora fala sobre o quanto ela gostaria de ter uma família e que Paula chegou com “um combo completo”: filho, sogra incrível, família grande, etc. Citam um ano novo que passaram juntos, na casa dos pais da Débora, jogando, rindo, muito parceiros, ele com a namorada e quando ela se deu conta, entendeu: “É isso que eu quero pra minha vida”. Débora Paula
- Natasha e Jéssica
Por mais que a história da Jéssica e da Natasha só tenha virado um registro no Documentadas depois de 6 meses de projeto no ar, ela chegou aqui lá no começo, antes mesmo de nos conhecermos, logo na segunda vez em que coloquei o corpo na rua e me dediquei a fotografar um casal: Quando a Rebecca e a Priscila, duas mulheres que já apareceram por aqui, me contaram empolgadas que havia uma história que eu precisava conhecer. Eu ouvi um “É tipo aquelas histórias de mulheres que tão juntas há muito tempo! Que a vida deu várias voltas. Elas se reencontraram e agora ela se mudou para Porto Alegre e se casou nesse reencontro! É a minha prima! Vou te passar o contato dela!” e bem que pensei “É possível! Eu vou passar por Porto Alegre em breve.” Quando encontrei a Natasha e a Jéssica em Porto Alegre e conheci toda a grandiosidade da história entendi que as mulheres realmente fazem tudo - e que a vida sempre dá uma forcinha quando quer nos juntar, né? A Natasha e a Jéssica se conheceram há muitos anos atrás, por conta de uma amiga em comum, quando eram adolescentes. A Jéssica é natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e a Natasha é natural do Rio de Janeiro, a capital. Ambas conversavam pela internet e participavam de comunidades no Orkut sobre gostos em comum, entre eles, uma série chamada Buffy. O que tinha de mais especial que unia a série é que elas já gostavam muito, até que em certo momento a série virou uma febre e aconteceu o surgimento de um casal LGBT, sendo uma referência muito grande para diversas adolescentes daquela época. Foi por conta desse casal, da série e das comunidades no Orkut e dos grupos no MSN que a Jéssica e a Natasha realmente se aproximaram, mas a Jéssica tinha uma visão de que a Natasha era meio “doidinha”... ela chegava das festas de madrugada e ficava online, era muito agitada… enquanto a Jéssica era mais tímida e mais quieta. A Jéssica se envolveu com uma amiga em comum da Natasha, um tempo depois elas terminaram e, como ela conversava muito com a Natasha, surgiu o convite de conhecer o Rio de Janeiro. Elas eram super jovens, tinham 18 anos e ela decidiu ir passar as férias por lá. Assim que se encontraram no aeroporto entenderam que havia algo diferente e, no fim das férias, já estavam namorando. Naquela época, sem a existência dos sinais de wi-fi ou internet móvel, o que restavam eram as contas de telefone - por sinal, caríssimas. Então acabaram assumindo o relacionamento à distância quando a Jéssica voltou até Porto Alegre e se encontravam cerca de três em três meses, dependendo das circunstâncias. Até 2009 o namoro aconteceu nessa distância, quando os pais da Natasha se mudaram para o interior fluminense e a Jéssica decidiu morar no Rio de Janeiro. Foi uma realidade bem diferente. Elas dividiram o apartamento, porém entendem que eram muito jovens, tinham 19/20 anos, eram bastante imaturas, trabalhavam como estagiárias, queriam ser independentes mas na verdade ganhavam pouco e os pais eram quem bancavam as contas da casa. Elas também construíam uma relação com bastante ciúme, então criavam desgastes e atritos que acabavam gerando desconfiança, era muito difícil suportar. Foi quando a Jéssica começou a se sentir sem liberdade dentro do relacionamento e entendeu que era o momento do término e voltou a morar em Porto Alegre. Hoje em dia, a Jéssica e a Natasha estão com 33 anos. Jéssica trabalha como administradora e logística na parte de planejamento de produção em uma empresa de laticínios e Natasha é formada em gestão financeira, mas atua na área de planejamento e controle orçamentário. Elas brincam que não são o tipo de casal que gosta de ficar em casa dormindo, mas aquele que ama viajar. Que cria roteiros, que quer comprar um carro e andar pelo mundo! Elas gostam de se movimentar, de conhecer lugares, desbravar a alimentação local, conhecer as culturas e viver cada lugar, cada ambiente e cada espaço como uma experiência única. Em um momento da conversa elas me contaram sobre se permitirem sonhar e sobre uma situação que viveram juntas quando eram mais novas… e que esse sonho não precisava ser um sonho grandioso, mas se permitir pensar no futuro, mesmo. A situação era um show da Ana Carolina que foram quando moravam juntas no Rio e que estavam naquela primeira fase do namoro, sendo bem jovens e se conhecendo… Contam que viram vários casais de mulheres mais velhas, elegantes, bem sucedidas e se perguntaram “Será que um dia vamos ser assim?” e que hoje em dia são. Além de se reconhecerem e de reconhecerem o quanto conquistaram juntas, falam sobre ter sido a primeira vez que viram mulheres lésbicas bem sucedidas, lésbicas mais velhas se amando. “Foi muito marcante porque era muito longe de nós essa realidade”. Depois do término, quando a Jéssica já estava em Porto Alegre, elas mantiveram contato e até tentaram voltar e seguir o relacionamento à distância. Durou alguns meses, mas acabaram terminando de vez, em comum acordo. Este foi o terceiro e último término (o primeiro foi lá no começo, por iniciativa da Natasha)... e dessa vez, como última, parecia ser definitivo. Ficaram 5 anos separadas. Viveram a vida, seguiram amigas, tiveram outro relacionamento, ou melhor, casamentos (!) e tal. Até que conversaram em 2016. A Natasha estava solteira e elas mantinham amizade e se falavam raramente nesses 5 anos, por mais que nunca tivessem se visto e não havia maldade, de verdade, era apenas um querer-bem. E num dia, no Rio de Janeiro, ao se arrumar para sair com a prima (a Rebeca!) a Natasha conversando sobre ex namoradas comentou que a única namorada que seria capaz de se ver voltando a ter um relacionamento seria a Jéssica, mas que isso jamais aconteceria, até porque a Jéssica estava “casadíssima”, vivendo outra vida, sendo feliz “lá no sul”. Não sei se por coincidência ou que nome vocês querem dar a isso, mas literalmente no dia seguinte a Natasha descobriu que a Jéssica terminou o relacionamento - quem contou foi a própria Jéssica, em uma mensagem toda sem jeito. Elas voltaram a conversar e a Jéssica tinha uma viagem marcada, mas cancelou e decidiu fazer uma ida até o Rio e São Paulo para não perder as férias. Preciso contar o resto? São Paulo que lute, né? Ela ficou foi pelo Rio mesmo, com a Natasha… mas nos últimos dias de férias aqui, decidiu: “Não quero voltar a morar no Rio. Dessa vez, se for para ficarmos juntas, você vai para Porto Alegre comigo”. E a Natasha? Aceitou na hora. A Jéssica disse que nem acreditou no que ouviu, nem esperava um “Sim” tão rápido! A mudança, de fato, aconteceu. E não só a mudança, mas o casamento! Que foi exatamente na mesma data, 10 anos depois, do dia em que começaram a namorar - lá em 2007. A vida é cíclica. ♥ No dia do casamento, elas se juntaram aos amigos e fizeram um churrasco. Inclusive, também neste dia a Natasha recebeu a notícia de que havia passado em uma entrevista de emprego lá em Porto Alegre. Foi tudo acontecendo em conjunto e elas foram se adaptando à cidade e ao novo momento da vida. Hoje em dia, se enxergam muito diferente do que há tantos anos atrás, mas em geral entendem que o amor só ficou tão forte porque sempre foi muito moldado com respeito e admiração - e claro, a confiança e o apoio foram chegando como um bônus e crescendo na base também. Elas brincam, no fim, sobre já terem ouvido colegas de trabalho falarem sobre não aguentarem mais os maridos dentro de casa em seus casamentos e acrescentam como amar mulher é algo maravilhoso: são mais de dez anos e nem passa pela cabeça um dia em que se torne insuportável viver um amor tão bom. ♥ Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Jéssica Natasha
- Babi e Maria
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Babi e da Maria, quando o projeto passou pela Bahia!. Maria e Bárbara enxergam o relacionamento como um grande divisor de águas: no começo, tinham muito medo de se relacionar. Os traumas, as inseguranças… tudo se misturava e acrescentava para que não quisessem um novo relacionamento. Não achavam justo começar algo se o passado ainda não havia curado. Aos poucos, foram tentando e acontecendo naturalmente. Acreditam que a amizade e o cuidado agiram curando os traumas de forma que nem sabiam que era possível e até mesmo quando os gatilhos eram despertados elas tomavam à frente e tentavam ter o máximo de cuidado uma com a outra. Por mais que se entendam enquanto pessoas muito diferentes, que possuem realidades, estilos e vidas diferentes, se encontram a partir dos propósitos que possuem em comum. Maria conta que desde o começo entraram de cabeça uma nos planos da outra e não se veem mais distantes, se incluem em absolutamente tudo. Compara-se frequentemente aos seus pais ou suas tias que possuem longos relacionamentos e amizades, sentindo que está desde já criando as próprias memórias com a Babi. Desejam ficar juntas de forma duradoura e ficam felizes em ver desde já as memórias iniciais que criam e compartilham. Bárbara, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela nasceu no interior de São Paulo, numa cidade chamada Espírito Santo do Pinhal, mas mora na Bahia há mais de dez anos. Trabalha enquanto modelo, é artista e babá. Também faz curso de enfermagem e quer muito ser doula - agora que a melhor amiga está grávida, finalmente está investindo nesse sonho que acabava deixando de lado. Maria, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é do sul da Bahia, foi morar em Salvador há alguns anos e atualmente mora em Abrantes, uma vila em Camaçari, região metropolitana de Salvador e mesmo lugar onde a Babi reside. Maria trabalha como professora de inglês. Quando já estavam juntas, numa época em que nada estava dando certo na vida da Maria, ela procurava apartamentos para morar em Salvador e não achava, então Babi falou sobre apartamentos muito mais baratos e seguros (por ser em condomínios) em Abrantes. Ela cogitou ir, já que nada mais a prendia na cidade grande já que suas aulas eram online, e conseguiu se mudar. Hoje em dia elas moram no mesmo condomínio, em casas diferentes. Foi em 2022 que Babi, mesmo nunca gostando de aplicativos de relacionamento, resolveu baixar o Tinder no auge de sua solteirice. Ela estava em Salvador visitando uma amiga e logo deu ‘match’ com a Maria. Maria mandou um “Oi, tudo bem?”, ela não respondeu e Maria pensou “Nossa, que rude!”... 10 minutos passaram e Babi respondeu pelo Instagram: “Tudo, e aí?". Conversa vai, conversa vem, elas viram pelo aplicativo que estavam muito próximas, descobriram que na verdade era na mesma rua e decidiram se encontrar. Contam que nunca tinham feito isso, estavam com medo de ser um homem e/ou uma pessoa casada, mas no fim deu tudo certo. Bárbara avisou que estava saindo, Maria nem conseguiu se arrumar, abriu a porta e ela já estava lá. Ficaram com os amigos em casa, tudo foi bem divertido. Conversaram a madrugada toda, só se beijaram na hora de dormir. No dia seguinte estavam pensando que “Ah, foi uma noite legal e só”, mas logo nos próximos dias já se viram, se viram, se viram… E até hoje o maior tempo que ficaram distantes foi no máximo por uma semana. Um mês depois do primeiro encontro o pedido de namoro saiu… e acreditam que justamente pelo tanto que vivem juntas sentem que o tempo de relacionamento parece ser muito maior do que realmente é. Hoje em dia, Maria voltou a dar aulas presencial. Estão vivendo mudanças bem legais, adoram cozinhar juntas, fazer coisas artesanais, escrever poemas, tocar instrumentos, ficar com os gatos… Maria conta que vê a Babi como alguém que entrou na vida dela para melhorar tudo. Sua vida deu um salto de qualidade gigantesco. Babi completa que foi recíproco, ambas melhoraram. Maria ajuda ela nas questões familiares, ensina sobre a independência, sobre correr atrás dos seus sonhos e lidar com os pais corujas. Para Maria, todo amor é uma construção, não é algo que acontece de um dia para o outro. Fala do amor dos pais, o quanto admira-os e o quanto precisou ser reconstruído dia após dia, por exemplo, quando ela se assumiu. Explica que se viu amando quando percebeu que confiava sua vida à Babi, e fica muito feliz que a construção delas tenha acontecido de forma leve, porque são uma para a outra o que sempre foram para os outros e que os outros nunca foram pra elas. Por fim, querem ressaltar que o relacionamento é marcado por “Primeiras vezes” desde que se conheceram, ou seja, sempre possuem primeiras experiências juntas. Como: primeira sessão de fotos, primeira vez viajando juntas, primeira vez que a família conheceu alguma companheira, primeira vez que foram no Festival de Verão de Salvador… e que escolheram ir nos brinquedos para tirarem as fotos porque é um lugar que amam muito, que se sentem felizes e que podem ser quem são de verdade. ↓ rolar para baixo ↓ Bárbara Maria
- Psicólogas disponíveis | Documentadas
O Documentadas oferece apoio psicológico para mulheres que amam mulheres e fazem parte da comunidade LGBT. nossas profissionais disponíveis Ana Carolina Psicóloga Psicóloga pela Universidade Federal Fluminense - mestrado em Psicologia Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. CRP 05/58463. Abordagem: esquizoanálise. Leia mais Viviane Psicóloga Psicóloga graduada pela PUCRS, especialista em Clínica Psicanalítica (UFRGS) e mestre em Psicologia Social na UFRGS. CRP: 07/23395. Abordagem: psicanálise. Leia mais Marina Albuquerque Psicóloga Psicóloga graduada pelo Centro Universitário IESB e especialista em Psicologia Humanista. CRP-01/19203. Abordagem: humanista. Leia mais Ariadne Sitaro Psicóloga Psicóloga Pós Graduanda em Gestalt Terapia e Reprodução Humana Assistida. CRP 02/28387. Abordagem: gestalt terapia. Leia mais Camila Psicanalista Psicanalista. Membro provisório do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre/RS (CEPdePA) e Advogada Especialista em Direito Público Leia mais Ana Clara Ruas Psicóloga Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói. CRP 05/66226. Abordagem: esquzoanálise Leia mais Maria Clara Goes Psicóloga Psicóloga mestra sobre saúde sexual de mulheres cis lésbicas, pela Universidade Federal da Bahia. Praticante da Psicanálise - CRP 03/27093. Abordagem: psicanálise. Leia mais Maria Freire Psicanalista Psicanalista pela Escola Letra Freudiana. Doutorado em filosofia. Abordagem: psicanálise. Leia mais Deyse Van Der Ham Psicóloga Psicóloga - Especialista em Políticas Públicas e Assistência Social pela PUCRS. CRP 07/24426. Abordagem: Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) Leia mais Larissa Psicóloga Psicóloga formada pela Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo. CRP 06/161422. Abordagem: analise de comportamento Leia mais Priscila Dornelas Psicóloga Formada em 2022 pela UNIBRA – Centro Universitário Brasileiro. Atuo pela Abordagem Centrada na Pessoa. CRP 02/29904. Abordagem centrada na pessoa. Leia mais Thays Waichel Psicóloga Psicóloga graduada, especialista em Garantia de Direitos e Políticas de Cuidado à Criança e ao Adolescente (UnB) e pós graduanda de Clínica Psicanalítica (UFRGS). CRP: 07/37003. Abordagem: psicanálise. Leia mais Ana Flávia Psicanalista Pedagoga pela Universidade Federal do Paraná e psicanalista pela Associação Livre Centro de Estudos em Psicanálise. Abordagem: psicanálise. Leia mais Laís Tiburcio Psicóloga Psicóloga Clínica, Pós-graduanda em Gênero & Sexualidade, formação em Politica Nacional de Saúde LGBT. Estudos em Psicanálise. CRP 05/57276. Abordagem: psicanálise. Leia mais Paula Martins Psicóloga Psicóloga, formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pós graduanda em Psicopedagogia. CRP 05/63682. Abordagem: Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Leia mais Kíssila Psicóloga Psicóloga formada pela UFF e pós-graduanda em Fenomenologia Decolonial e Clínica Ampliada pelo NUCAFE. CRP 05/69513. Abordagem fenomenológica-existencial. Leia mais Raquel Psicóloga Psicóloga formada pela Faculdade de Pato Branco/FADEP Pós-graduação em Gênero e Sexualidade. CRP 12/23076. Abordagem fenomenológica-existencial. Leia mais Rayanne Moreira Psicóloga Psicóloga clínica, Pós-graduada em Gestalt-terapia. CRP 05/57973. Abordagem: gestalt terapia. Leia mais Gabryella Neves Psicóloga Psicóloga Clínica, formada pela Universidade da Amazônia CRP 10/10695. Abordagem: psicanálise. Leia mais Júlia Psicóloga Psicóloga - Mestrado na Universidade Federal Fluminense em Psicologia - CRP 05/60076. Abordagem transdisciplinar. Leia mais Talyta Psicóloga Psicóloga - graduada pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) - estudos em psicanálise. CRP 06/169049 Leia mais Gabriela Nunes Psicóloga Psicóloga formada pela UNISINOS e pós-graduanda em Psicologia Clínica pela PUCRS. CRP 07/41102. Abordagem: psicanálise. Leia mais Maria Célia Psicóloga Psicóloga clínica e social, PUC Minas (campus Poços de Caldas) e mestre em Psicologia pela UFMG. CRP: 04/78352. Abordagem: psicanálise. Leia mais para fazer cadastro, basta ler sobre as psicólogas disponíveis, preencher o formulário em cada "Ler Mais" e aguardar o nosso contato! caso tenha alguma dúvida, nos mande um alô por aqui :)
- Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Toda mulher merece amar outra mulher. Olá; AQUI REGISTRAMOS O AMOR ENTRE MULHERES ATRAVÉS DA FOTOGRAFIA. Portfólio Para conhecer nossas histórias, clique aqui > sobre 02 sobre nós O documentadas começou através de diversos estudos e da percepção de que as mulheres são pouquíssimo registradas em toda a sua história, principalmente tratando-se de mulheres que se relacionam afetivamente com outras mulheres. Para dar um basta e contar nossa própria história, percorro o país registrando casais e através desse site criamos conexões e laços de fortalecimento. Para conhecer quem faz o documentadas, clique aqui > lançamos um livro! vem saber mais aqui Banco de images QUER PARTICIPAR DO PROJETO? vem por aqui! :P Rayanne Psicóloga Gestalt-terapia Leia mais Ray é natural do Rio de Janeiro e realiza atendimentos online com foco na população LGBT+ e negra. Ela acredita na potência transformadora da troca no encontro e de uma prática terapêutica que se contextualiza. Viviane Psicóloga Psicanalista Vivi é natural de Porto Alegre, é psicóloga e tem a psicanálise como referencial ético e teórico. Leia mais Marina Psicóloga Humanista Mari é natural de Brasília e na sua prática terapêutica valoriza a individualidade de cada pessoa, oferecendo um espaço de acolhimento e escuta sensível. Leia mais doc educa apoio educacional com ensino de idiomas para mulheres - conheça o acesse aqui gerando renda para a comunidade Acreditamos que - além de que contar histórias de mulheres - podemos conecta-las. Falarmos sobre seus trabalhos, compartilharmos situações, momentos e, enfim, gerarmos renda. O mercado de trabalho segue difícil e podemos nos apoiar contratando trabalhos de mulheres da comunidade LGBT. Sendo assim, no nosso espaço de 'busca' você consegue pesquisar pela palavra-chave (o serviço que você precisa), ver qual profissional está à disposição, ler sua história e nos mandar uma mensagem. Nosso papel será te conectar diretamente com a profissional desejada! gerando renda para o projeto Manter o projeto não é tarefa fácil! Fazer viagens, pegar metrôs, ônibus, barcas... disponibilizar tempo e conseguir manter as contas pagas é um grande desafio. E como queremos documentar o maior número de casais possíveis, disponibilizamos o nosso PIX e aceitamos qualquer valor como quantia de doação! Você pode nos ajudar clicando aqui e fazendo a doação (qualquer valor!) de forma voluntária direto pelo aplicativo do seu banco! Colabore com a documentação histórica do amor entre mulheres! Contato
- Camila e Lian | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Camila Marins estava com 41 anos no momento da documentação. É jornalista, mestra em políticas públicas e em direitos humanos. Sua trajetória é profundamente marcada pelo trabalho e pela militância. É idealizadora do projeto de lei Luana Barbosa, voltado ao enfrentamento do lesbocídio, e do projeto de lei Cassandra Rios, que propõe fomento à comunicação e à produção editorial lésbica, disputando orçamento público e articulando legislações para a população lésbica no Brasil. Integra a Rede Nacional de Proteção de Jornalistas e Comunicadores Populares, ligada ao Instituto Vladimir Herzog e é diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. Camila é natural de Santa Rita do Sapucaí, interior de Minas Gerais. Boa parte da infância foi dividida entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Já adulta, foi para Campinas estudar jornalismo, trabalhou como assessora da vereadora mais jovem eleita pelo PSOL na cidade, até que em 2009 participou da Brigada de Solidariedade a Cuba, experiência que a conectou à uma oportunidade profissional no Rio, para onde se mudou em 2010. Desde então, constrói atuação política em movimentos, partidos e articulações, principalmente voltadas para as pautas das mulheres. Lian estava com 43 anos no momento da documentação, nasceu em Goiânia e vive no Rio de Janeiro há duas décadas. Mudou-se para cursar mestrado em comunicação social, tornou-se doutora na área e atualmente também trabalha enquanto atriz, escritora e criou o podcast “Maternidade de Guerrilha”. É mãe da Paz, que está com sete anos no momento. Lian se define como solar: gosta do dia, do sol, da água e do ar livre. Ama trilhas, viagens, leitura, palavras cruzadas e atividades lúdicas… está sempre disposta à brincar, imaginar e criar. Juntas, compartilham o gosto pelas palavras e pelos jogos. É nas cruzadinhas que se encontram, como quem cultiva linguagem e cumplicidade. Entre militância, arte, maternidade e imaginação, constroem uma vida atravessada por política e por brincadeiras, onde o compromisso coletivo e o prazer do cotidiano caminham juntos. Camila e Lian já se conheciam de vista dos encontros do coletivo Slam das Minas, em parceria com a Brejeiras. Lian é envolvida no Slam, Camila representava a Brejeiras, mas nunca haviam conversado diretamente. Foi perto do aniversário de Camila que o primeiro passo foi dado: ela publicou nos stories do Instagram um convite da festa que iria acontecer e recebeu a resposta de Lian: “Taurines, as melhores pessoas”. As duas fazem aniversário com cinco dias de diferença. E o comentário virou convite: para a festa e para um almoço despretensioso. Mas ainda existia a dúvida: era um almoço para começar uma amizade ou era um date? Lian suspeitou do date, topou. No bar, o nervosismo delas tomou conta. Camila derrubou água, ri contando: estava apavorada. Lian mergulhou em conversas profundas sobre traumas familiares e experiências com ayahuasca, depois ficou temendo ter assustado Camila com tantos papos. Nenhuma das duas teve coragem de uma iniciativa de beijo, estava tudo meio confuso dentro de si. Dias depois, foi o aniversário da Camila, ela comemorou em um bar em Santa Teresa com muitas amigas, uma grande festa. Lian foi, era próximo da sua casa e decidiu passar por lá. Encontrou amigas em comum, celebrou, e foi naquele dia, em 2024, que elas se beijaram pela primeira vez: como as duas, um amor taurino - intenso e teimoso - começou. Mais tarde, conversando com calma, perceberam que o primeiro encontro esteve cheio de sinais: olhares, pausas, expectativas. O nervosismo, os traumas e a timidez impediram que enxergassem. Foi quando deram uma segunda chance no aniversário. Hoje entendem que o beijo não foi só impulso, foi coragem. Depois do primeiro beijo, os encontros se tornaram frequentes. Houveram cafés da manhã, Camila conheceu a Paz, filha da Lian, que na época estava com cinco anos (uma diferença enorme para os sete anos que está hoje). Vieram os cinemas, as visitas em casa, a convivência que foi se tornando natural. Ainda assim, pairava a dúvida silenciosa: era namoro ou não? No Dia dos Namorados, Camila convidou para passarem juntas assistindo um filme com a Paz, e fez a pergunta “Quer namorar comigo?”. Para Lian, era uma formalização do que já existiam, na cabeça dela elas já namoravam. Tempos depois, com a presença da Camila em casa, Lian conta de um episódio durante a sessão de terapia que estava falando sobre o relacionamento a Paz escutou. Depois ela perguntou: “A Camila é sua namorada? Uma menina?”. A Paz sempre conviveu com pessoas LGBTs, a confusão era em torno de organizar essas referências e entender que sua mãe também poderia namorar uma mulher. A questão mais difícil não foi o namoro com uma mulher, mas o ciúme em relação à mãe. Paz sempre demonstrou forte vínculo e proteção, recusando demonstrações de afeto que a excluíssem. Houveram momentos intensos, declarados com honestidade infantil: “Eu odeio a Camila, mas eu amo a Camila!”. A resposta nunca foi repressão, mas validação, afinal, as emoções são confusas mesmo e elas podem coexistir, não estão erradas, assim como Paz está descobrindo elas agora, não é fácil lidar. Hoje, ela acredita que o ciúme não desapareceu, mas se transformou. Paz consegue dizer quando sente as coisas - sejam boas ou ruins. Não há sentimentos proibidos, apenas sentimentos a serem compreendidos. E, sobretudo, ao invés de exigir racionalização precoce, há escuta. Talvez o maior aprendizado seja esse: permitir sentir antes de explicar. Afinal, até nós, adultas, ainda tentamos entender o que sentimos. Camila entende que o amor mora nos detalhes: na forma como Lian fala, no gesto de dividir uma comida gostosa, na semelhança que se revela quando leem juntas ou disputam palavras cruzadas. Foi assim desde o começo: sente que algo se assentou. Elas são competitivas, curiosas, gostam de trocar ideias sobre o que estão lendo, de descobrir coisas novas. O amor, para Camila, vive nesses instantes compartilhados. Lian nunca teve o hábito de beber e sempre se sentiu deslocada diante de uma vida adulta que parece girar em torno de bares e álcool. É diurna, prefere trilhas, cachoeiras, livros, jogos, imaginação, fantasia. Gosta de estar ao ar livre, de brincar, de criar. Por muito tempo, sentiu-se excluída por não caber nesse roteiro social. Com Camila, encontrou acolhimento: alguém que abraça quem ela é, que topa jogar, conversar, estar inteira. Há ainda a maternidade, a guarda alternada, os ciúmes e os atravessamentos próprios de quem constrói uma relação com uma criança no centro. Tudo é processual, conversado, escutado: entre elas, existe a possibilidade de falar de traumas, de histórico de vida, de medos e fragilidades com profundidade. Há uma busca compartilhada por presença: Lian sente a necessidade que a pessoa esteja ali de fato, aproveitando o momento, sem distrações. Camila, inclusive, reconhece que o relacionamento foi decisivo para retomar sua saúde: parar de beber foi um dos passos mais importantes da sua vida. As conversas sobre neuroplasticidade e psicodélicos, iniciadas ainda no primeiro encontro, também abriram caminhos de transformação e cuidado que impactaram sua forma de estar no mundo. Além disso, a convivência trouxe mudanças concretas: viver mais o dia, ao ar livre na natureza, fez com que o sedentarismo desse lugar ao movimento. O amor entre elas tornou-se uma prática cotidiana de cuidado, visando sempre a escolha do crescimento. ↓ rolar para baixo ↓ Lian Camila
- DOC EDUCA | Documentadas
O Documentadas oferece ensino de idiomas para mulheres que amam mulheres e fazem parte da comunidade LGBT. o doc educa estudo de idiomas para mulheres de todo o Brasil compreendemos que a comunicação nasce de uma pluralidade de expressões - são gestos, afetos, silêncios, imagens - isso é a linguagem. é por meio dela que nos nomeamos, nos posicionamos e nos tornamos legíveis no mundo. aprender uma nova língua não é apenas adquirir uma habilidade técnica, mas ampliar possibilidades de existência, circulação e pertencimento. a linguagem, expressa na oralidade e na escrita, atravessa relações, desejos e projetos de vida. para muitas mulheres que amam mulheres, acessar outros idiomas também significa ocupar espaços historicamente negados, atravessar fronteiras simbólicas, materiais e afirmar a própria voz em diferentes contextos: ela nos traz independência. neste sentido, o Documentadas criou uma rede de apoio educacional em linguagens: o DOC EDUCA. com aulas online de diversos idiomas, ministradas por professoras com diferentes metodologias e valores acessíveis. apostamos na educação como ferramenta de autonomia, troca e fortalecimento coletivo, entendendo que ensinar e aprender também são atos políticos. como funciona? somos uma rede de professoras de linguagens, com diferentes formações, oferecendo aulas de forma particular e online por valores acessíveis , de acordo com a disponibilidade de cada profissional/aluno. nosso propósito é ampliar o acesso ao aprendizado de idiomas para quem deseja estudar, mas encontra barreiras nos modelos tradicionais de ensino particular. toda mulher que acompanha o documentadas poderá se inscrever clicando no botão ao final dessa página que levará à área das escolhas de professoras. lá, elas estão separadas por idiomas - inglês, espanhol, francês, polonês e coreano. ao ler sobre cada professora, você escolherá com quem mais se identifica e preencherá um formulário para que ela entre em contato e as aulas possam começar. após o envio da inscrição, o contato é feito diretamente entre a professora e a aluna, que passam a conduzir juntas o processo de aprendizagem. e lembre-se: as aulas acontecem de forma online, com autonomia, cuidado e compromisso com a construção de um espaço seguro de troca e conhecimento - valorize esse espaço, ele foi muito batalhado para ser construído! Para ler maiores informações sobre a nossa Política de Privacidade e os Termos de Uso de plataforma, clique aqui ♥ conheça nossas professoras - inscreva-se! clica aqui
- Qual é a desse lambe aí? | Documentadas
Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Toda mulher merece amar outra mulher. E esse lambe aí? Acreditando na potência do Documentadas para além das redes sociais e do mundo online, decidimos colocar o projeto na rua conversando com os espaços das cidades por onde passamos. Foi através das técnicas arte urbana como lambe-lambe e stickers que começamos a espalhar uma frase famosa por aqui: “Toda mulher merece amar outra mulher”, além de uma tiragem inicial de 300 fotografias de casais que já participaram do projeto, com intervenções gráficas escritas por cima e o @documentadas, identificando nosso Instagram/site. Estar na rua nos abriu a possibilidade de troca com públicos antes inalcançáveis. Passamos entre universidades, boêmias e comunidades. Se as mulheres amam outras mulheres em múltiplos espaços, acreditamos que nossa arte também deva ocupar múltiplos espaços. Tal fato foi - e está - sendo possível pela impressão/colagem por valores acessíveis (afinal, o projeto é independente) e também por permitirmos ouvir a linguagem das ruas. Seguimos monitorando os espaços colados através da localização nas redes sociais, vendo postagens com fotos que as pessoas tiram deles e quais são as reações positivas/negativas ao ver essa manifestação. POR QUE NOSSOS LAMBES NÃO DURAM NAS RUAS? Nossos lambes são arrancados, vandalizados, riscados… Isso fala sobre muitas pessoas ainda serem lesbofóbicas e terem ódio ao saber que duas mulheres podem - e merecem - se amar em público, infelizmente. Porém, em nenhum momento um lambe riscado é arrancado para que outro seja colado em cima, pelo contrário: é importante deixar ali para que o preconceito também fique escancarado perante uma manifestação de afeto les-bi. Não deixaremos de colar nossos cartazes e adesivos. O Documentadas é uma forma de combate ao preconceito, enquanto houver cartaz, cola, pincel e adesivo, estaremos colocando nossa arte na rua e ouvindo o que a rua tem a nos dizer. QUER COLABORAR COM O DOC PARA QUE ELE TENHA MAIS LAMBES POR AÍ OU NOS CHAMAR PARA UMA EXPOSIÇÃO EM ALGUM LOCAL? ENTRA EM CONTATO PELO SITE OU NO E-MAIL: FERNANDA@DOCUMENTADAS.COM
- Carla e Paula | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Paula estava com 34 anos no momento da documentação. Nasceu em Porto Alegre, mas passou boa parte da vida em Maceió com a mãe, indo visitar a família no sul poucas vezes ao ano. Formada em Direito em Maceió, trabalhou em empregos temporários até retornar ao sul, onde hoje atua como servidora pública. Carrega consigo essa sensação de deslocamento - não é totalmente de Maceió, nem de Porto Alegre. Uma gaúcha nordestina - algo que molda uma personalidade mais fluida, tranquila e aberta às mudanças. Carla estava com 29 anos no momento da documentação. É natural de Maceió e foi lá que conheceu Paula, ainda no período em que ela morava no nordeste. É advogada, formada em sua cidade natal e concluiu a graduação já vivendo em Porto Alegre, após se mudar no meio da pandemia. Carla se destaca por ser cheia de hobbies: corre, borda, gosta das coisas manuais, dos esportes (é faixa preta no karatê desde os dez anos de idade) e entende que manter o corpo em movimento traz a disciplina e o equilíbrio que a hiperatividade demanda. O que as aproxima, além dos caminhos cruzados que a vida fez, é a forma como se completam: brincam com os signos, pois são opostas complementares, mas entendem que vai um pouco além disso. Paula é quieta, reservada, enquanto Carla transborda movimento e, como ela mesma diz, é tagarela - uma fala pelas duas quando necessário, a outra observa, absorve e oferece silêncio seguro. Carla sempre brinca dizendo que elas se conheceram porque ela era estagiária da Paula, gosta de começar a história assim. Mas Paula desmente porque ela era estagiária na empresa, não dela especificamente. Deixam interpretação livre: “Tu escolhe em quem tu vai acreditar!”. Fato é que as duas apenas trabalhavam no mesmo lugar, cada uma com sua rotina, seus horários, seus trajetos dentro do prédio. Para Paula, esse emprego era temporário, e foi num dia em 2018 que sua mãe anunciou: estava prestes a se aposentar e queria retornar ao sul, não moraria mais em Maceió, depois de tantos anos. O convite veio de forma natural: “Tu não quer voltar junto?” e a resposta foi natural também, ela acreditava que nada a prendia em Maceió, então pensou que poderia prestar algum concurso no sul e fazer a mudança para lá. Duas ou três semanas depois dessa conversa com a mãe, ela conheceu a Carla. A amizade foi o primeiro lugar. Ambas tinham terminado relacionamentos recentes, conversavam muito sobre suas dores, histórias em comum e até acompanharam as histórias das pessoas que ficaram depois dos términos. Como Carla era mais nova, Paula pensava que algo entre elas “jamais” aconteceria. Mas a convivência se estreitou - e a resistência capricorniana de Paula não resistiu aos quatro shots de tequila que beberam numa noite. Quando começaram a se envolver romanticamente, tentaram manter um pacto: não transformar isso em algo maior, sabendo que a Paula tinha data para ir embora. Bom, sabemos o resultado, né? Alguns meses se passaram e Paula tentava ao máximo ‘empurrar’ adiar a ida, mas precisou partir para Porto Alegre, em 2019. Dirigia muitos quilômetros chorando, até que sua mãe, vendo o sofrimento, falou: “Minha filha, se tiver que ser, vai ser. Vocês vão dar um jeito, vai dar tudo certo, se tiver. Também se não tiver, não vai.”. E assim elas começaram um novo passo na relação: o namoro à distância. Depois da mudança de Paula para Porto Alegre, Carla fez a primeira visita quando tudo se estabilizou. Foi em maio de 2019, o auge do frio para uma nordestina conhecer o sul, que desembarcou na capital querendo conhecer um destino romântico clássico: Gramado. Elas explicam que desde a primeira vez que concordaram em viver essa relação à distância, tinham uma coisa muito marcada: a escolha consciente de permanecer. Entre idas, vindas e incertezas, sempre escolheram ficar. E, embora a história pareça redonda contada assim, “depois que passou”, foi muito difícil enquanto estava passando… o caminho foi marcado por coisas além das distâncias, como homofobias, conflitos familiares e feridas que só foram cicatrizando com o tempo e com a convivência. Ao longo desses sete anos, elas seguiram escolhendo viver juntas, construindo algo sólido. Conversar sempre foi a essência de tudo. Carla brinca que elas não ficam quietas, estão dissecando cada pedacinho das coisas para estar 100% com tudo. São tagarelas assumidas. E o namoro à distância ajudou a moldar esse hábito: viviam conectadas, entre Skype e FaceTime, indo dormir em chamada, cozinhando ao mesmo tempo, até indo ao cinema cada uma no seu estado. Destacam também sobre como saber que são amigas é importante dentro de uma relação amorosa, é poder confiar muito em quem você ama. Até hoje, qualquer detalhe visto na rua é assunto e é compartilhado entre elas, entendem que o compartilhar é parte natural de amar. E Paula destaca também que nessas trocas, desde cedo falavam em casar e ter filhos, mesmo enquanto repetiam que viveriam um dia de cada vez. Havia uma certeza silenciosa: seguir adiante faria sentido porque o futuro delas já existia, mesmo quando ainda era só um plano. No final de 2019, Carla voltou para Porto Alegre para passar três meses, mas precisou retornar a Maceió no início de março de 2020 por conta das aulas na faculdade. Foi exatamente quando a pandemia de Covid-19 estourou: aeroportos fechados, voos cancelados e aquele período pequeno que iria resolver as coisas em Maceió viraram meses de isolamento. Além do medo e da incerteza do momento, havia também o peso das situações de homofobia dentro da própria família, que tornavam tudo ainda mais delicado. De qualquer forma, sabiam que nada poderia ser feito de forma precipitada. Era importante que Carla terminasse a faculdade, que cuidasse da própria vida individual antes de qualquer mudança definitiva, faltava muito pouco para conseguir o seu diploma. Quando, finalmente, em junho de 2020, conseguiu um voo, Carla veio de vez. Ficaram um tempo morando com a mãe de Paula, e foi ali que Carla apresentou o TCC, se formando de forma online na pandemia - e já residindo em Porto Alegre. Em março de 2021, com a OAB em mãos e já adaptada morando em Porto Alegre, Carla começou a procurar emprego como advogada e as duas decidiram que era hora de ter a própria casa. E foi nesse mesmo período que veio a vontade de celebrar o amor. Depois de tantos obstáculos, medos, partidas e retornos, parecia justo transformar tudo isso em um rito de afirmação. Optaram por um casamento simples, íntimo, com poucos convidados, mas cheio de significado. Marcaram a data exatamente no aniversário de três anos de namoro e foi assim, no terceiro ano juntas, que se casaram. Ainda que alguns familiares não tenham participado do casamento, outros estiveram presentes e os amigos da Carla vieram diretamente de Maceió, então foi um momento incrível de celebração. O casamento firmou o que elas constroem: a escolha, a continuidade e a coragem. Carla conta que quando elas andavam de mãos dadas como namoradas em Porto Alegre, as pessoas não olhavam muito… Mas, quando a barriga apareceu, tudo mudou. As pessoas entendiam, se surpreendiam, sorriam. E havia também aqueles pequenos gestos silenciosos: como o casal de meninas que, numa feira, se cutucou mutuamente ao vê-las juntas. Tipo: “Caramba, é possível!!”, uma esperança. Era bonito perceber que elas também podiam ser referência para outras mulheres, para outras famílias que ainda estavam começando a imaginar a própria possibilidade de existir. Porque, antes de tudo, elas sempre sonharam com isso: uma família, um lar, uma criança para amar. E porque pouco tivemos referências quando foi a nossa vez. O caminho até ali vinha sendo construído aos poucos, elas já eram uma família, com o cachorrinho, depois com a decisão de engravidar. Na primeira tentativa o teste deu positivo. E de um pontinho de luz, como dizia a médica, surgiu a Olivia.Decidiram viver os três primeiros meses só entre elas e os médicos, guardando o segredo como quem protege uma chama acesa no peito. Começaram a contar pela mãe da Paula, que ficou perdida, surpresa, feliz, curiosa, tudo junto! Falou: “Tá. Entendi. Mas tá em quem????” e riram. Tudo se ajeitava. A parte mais delicada foi contar para a família de Carla. Depois de anos de rupturas, medos e afastamentos, ela foi sem expectativa alguma. E, justamente por isso, a surpresa foi tão imensa. A mãe reagiu com alegria, tentou adivinhar o sexo, vibrou por haver mais uma menina na família, dizendo que “Nossa família é uma família de mulheres!”. Em nenhum momento reclamou pelo fato de Paula ser quem estava gerando, pelo contrário: houve carinho, acolhimento e vontade sincera de reparar o que havia sido quebrado. Quando Olivia nasceu, a avó veio até Porto Alegre, e foi assim que ela e Paula se conheceram pessoalmente. Hoje, se Carla passa um dia sem mandar foto, a mensagem chega rápida: “Cadê a Olivia?” Paula falou uma frase muito marcante na nossa conversa: “Que gostoso que é ver o amor da sua vida sendo mãe do amor da sua vida” e isso mostra como a Carla é uma mãe incrível para a Olivia. Ela só dorme com a Carla, o primeiro sorriso foi para ela, a primeira troca de fralda foi com ela. Nas noites difíceis elas se apoiam, nas crises de choro, na amamentação que machucou o peito ou nos medos do que ainda pode acontecer. E nos risos no meio do caos, lágrimas divididas, cansaço partilhado é onde está a força também. A maternidade não mudou quem elas eram (ok, talvez mudou um pouquinho pra melhor!), mas principalmente tornou mais nítido o que sempre existiu. ↓ rolar para baixo ↓ Paula Carla


