Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
294 resultados encontrados com uma busca vazia
- Denise e Rita
Rita e Dede são as pessoas mais engraçadas possíveis. Confesso que esse foi um dos textos mais difíceis de fazer, porque a nossa história não começou através do Documentadas: conheço elas há anos, quando começaram a namorar, e quando eu, Fernanda, estava começando a me entender. O que o Documentadas é hoje em dia, essa vontade de fazer o projeto ser representativo para outras mulheres e meninas que estejam se descobrindo, vêm também do privilégio que tive ao ter contato com esse casal quando era mais nova e de ter entendido que sim, eu poderia ser uma mulher adulta, amando outra mulher adulta, sendo feliz, tendo qualidade de vida. Nosso encontro foi regado de muito riso. Ou melhor, talvez uns 85% do tempo tenha sido puro riso. Fui recebida na casa/no sítio onde elas moram, em Criciúma - Santa Catarina. Seria impossível começar a contar a história sem dois fatos importantes a serem ressaltados: Não sabemos realmente como tudo começou. 10 reais é um investimento que pode valer muito a pena. Explicando: Rita e Dede se conheceram através do famoso (e tão presente) rebuceteio, em 2012. Rita ainda morava com o pai do Caio (o filho, que agora, é delas ♥) e estava com mudança de planos, iria se mudar para outra cidade, porém teve um problema de saúde na família e precisou se manter em Criciúma. Ela ficava com uma menina de outra cidade, que conhecia outra menina, que estava ficando com “uma pessoa de Criciúma que estava precisando de uma psicóloga”... preciso falar quem era essa pessoa? a Denize, é claro. Na hora que a Dede chamou ela no MSN, ainda pensou “ai que louca né, coitada” porque foi tudo muito aleatório. Elas acabaram criando uma amizade, conversavam bastante pelo MSN. Não se conheciam pessoalmente ainda e seguiam ficando com outras pessoas. Se viram, uma vez rapidamente, na Marcha das Vadias (evento responsável por eu ter conhecido a Rita também!) e depois marcaram de ir num jogo pela diversidade, na UNESC (a Universidade que a Rita trabalha). Rita sempre esteve entre seus amigos drags, gays e travestis. Para ela, sempre foi muito importante estar com essas pessoas (e inclusive é um objeto de pesquisa dela, com o mestrado falando sobre crianças e adolescentes transgêneros). E Denize era de um lugar bem diferente, não tinha amigos nesse meio e mantinha um preconceito pelo forte estigma desses corpos. Chegando no jogo, quando Dede viu os amigos da Rita, logo se assustou. Não quis ficar naquele ambiente. Tinha recém se assumido, ainda sentia certo medo e, ainda mais em cidade pequena, não queria ser vista lá. Ela disse para a Rita que iria no posto beber cerveja com uma amiga, mas na verdade tomou o rumo de casa. Elas realmente não sabem quando a amizade virou flerte. Quando o sentimento se despertou mesmo. Brincam que o relacionamento começou na base do “duvido”, porque a Rita ia numa festa, a VOGUE (que inclusive eu também estava!). A Dede não iria, mas acabou brigando com a menina que estava ficando e a Rita disse “duvido você ir na festa”, então de última hora ela resolveu sair de casa. Brincamos que, se eu fizer uma clipagem no meu HD, posso ilustrar toda a história delas com fotos que eu mesma fiz, de vários momentos diferentes dessa relação . No fim, o 'duvido' deu certo. A Dede foi e como não precisaria pagar a entrada, levou só os 10 reais que tinha em casa. Aí começa o investimento. Ao invés de perguntar para a Rita o que ela estava bebendo, perguntou para um amigo dela. Quis fazer um gesto de “cavalheirismo” pensando que iria gastar 2 reais numa Antártica Sub Zero e que estaria tudo bem, mas na verdade a Rita tomava whisky com guaraná, ou seja, o combo custava dez reais. Decidiu comprar e fazer o agrado, mas passou o resto da festa se virando nos 30 para entreter - e a Rita ainda ficou chocada porque pensou que Dede tinha acertado a bebida favorita dela. A gente tenta, né? Elas ficaram na festa. Dede foi embora mais cedo, Rita achou engraçado uma pessoa que não ficava na festa até amanhecer. Nos dias que seguiram, sempre achavam um jeito de se encontrar. Denize conquistou o Caio logo de cara, ficaram inseparáveis (e são até hoje). Ambas moravam no centro da cidade e Rita começou a chamá-la para tomar um mate todo fim de tarde na praça, enquanto o Caio brincava, depois do colégio. Virou uma rotina: todo dia, Rita ia com o Caio para a praça e levava uma paçoquinha para a Denize, que saia do trabalho que ia direto ao encontro. Rita tem 43 anos, é psicóloga, mestre em saúde coletiva e divide seu tempo entre trabalhar na empresa de contabilidade que elas abriram juntas e ser coordenadora da secretaria de diversidades e políticas de ações afirmativas na UNESC (a universidade local). Nas palavras dela: “trabalho 20 horas na UNESC e 246 horas no ecritório, mas a Denize não me dá um déciminho terceiro…” Denize tem 38 anos - e brinca que não chega aos quarenta nunca! Queria alcançar a idade da Rita, mas nunca consegue porque sempre que tá chegando mais perto ela inventa de querer ficar mais velha também. Dede é administradora e contadora. Elas estão sempre juntas, seja em casa, cozinhando, conversando pela casa, trabalhando, assistindo TV… ou seja na universidade. Denize acaba levando a Rita para uma vida social mais ativa (e agora, em pandemia, sente muita saudade de sair e ver gente). Em casa, elas aprenderam a fazer diversas coisas: construir, reformar, pintar. Fazer tudo. De vez em quando, a Rita coloca a mesa na rua e passa um longo tempo pintando, enquanto a Dede está construindo algum móvel ou montando coisas. No começo do relacionamento, Rita ajudou muito a Dede a se reaproximar da família. Foi algo muito importante, pois depois dela terminar um casamento e se assumir houve um afastamento brusco. Hoje em dia são muito próximas e felizes. No começo, também, Dede ajudou muito a Rita. Ela precisou sair de casa e acabou indo provisoriamente morar com a Denize. Não teve um começo exato, foi a necessidade. O Caio sempre foi muito apaixonado pela Dede e a relação delas estava indo bem, decidiram segurar o tranco juntas, mas com um prazo: duraria dois meses. Não preciso nem dizer que estão juntas até hoje, né? nem elas acreditaram que seria só dois meses. Passaram um tempo com o dinheiro bastante contado, Rita conseguiu um emprego de professora de matemática financeira (o que certamente foi um surto coletivo, porque ela mal consegue contar o dinheiro que têm na carteira) e ao menos o trabalho tinha plano de saúde. Desde a mudança, até as primeiras semanas, já sentiram que estavam se transformando em uma família - “foi tudo muito divertido”, elas descrevem. Em 2013 decidiram que estavam prontas para assinar uma união estável e sonhavam com ter “uma casinha para sempre”. A casinha chegou, no sítio, e elas construíram cada pedaço juntas. Desde colocar o piso, montar estantes, sofás… até fazer a piscina (que era o sonho da Dede). Hoje em dia, elas entendem que tudo possui o seu próprio tempo. Na empresa, cultivam clientes muito fiéis, gostam de trabalhar juntas. Na casa, tratam tudo com mais calma: plantam, colhem, constroem. Falam sobre nós, LGBTs, não queremos privilégios, mas sim nosso direito básico de viver com qualidade. A Dede comenta sobre a palavra não ter mais poder, o uso da violência se banalizou, normalizou. Gostaria de mudar, que as pessoas voltassem a lidar com as situações absurdas que vivemos como elas deveriam ser lidas. Visitei a casa delas logo depois da Rita defender seu mestrado e ganhar um carro de presente da Dede. A chave veio no meio de um livro que obviamente a Rita não leria, só para fazer a surpresa ser mais divertida. Por fim, mas não menos importante: o Caio quis muito, elas também, e formalizaram a adoção dele. Hoje em dia ele tem o nome das duas mães e do pai na certidão. São, oficialmente, uma família.
- Maria Vitória e Fernanda | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Quando ela era mais nova, aos 14, na época da novela Amor à Vida, com o personagem gay Félix, ao debater sobre homossexualidade a mãe da Fernanda chegou a desconfiar de algo, mas ela negou fielmente. Na vida da Maria Vitória, a referência veio mais tarde, na novela A Força do Querer, com a/o personagem Ivana/Ivan, da qual surgiu o debate com a avó e fez com que ela se abrisse sobre a sexualidade. Hoje em dia, ambas famílias lidam bem com os relacionamentos, elas brincam com eles que eles nem deixam elas cogitarem um término, são grandes entusiastas. Mas sabem respeitar e elas também entendem tudo o que passaram para chegar até o momento em que estão, tudo o que precisaram enfrentar, inclusive, seus próprios medos. Ainda sobre suas dificuldades, entendem que a maior delas também está relacionada à comunicação. Até hoje é algo que buscam explorar, cuidar e cultivar. O momento do pré vestibular da Mavi foi muito difícil, passar em medicina requer muita pressão, muito stress, saber colocar cada coisa no seu lugar, lidar com a distância… são muitas coisas que precisam estar em equilíbrio e nem sempre estão. A Fernanda faz o papel de sempre incentivar a Mavi a falar, enquanto a Mavi sempre foi uma pessoa que pouco falou sobre seus sentimentos. Cada vez mais ela tenta se abrir, mas ambas também entendem aquilo que eu comentei no começo, que possuem diferentes linguagens. Jeitos diferentes de ver as coisas. A melhor forma que encontram é enxergar o lado de cada uma, entender múltiplas interpretações, se encaixar de jeitos diferentes. Na linha de explorar e cultivar, entender que não precisam ser quadradas, que tudo tem seu tempo, que não precisam das coisas na hora, urgentes e emergentes. E que se precisarem, estarão dispostas também, porque tudo pode ser conversado e ultrapassado. ♥ Quando elas começaram a ficar, a Mavi entendeu logo de cara que queria namorar com a Fê, ela diz que sabia que o terceiro amor é o amor verdadeiro na vida e que a Fê é o terceiro amor da vida dela. Mas foi muito difícil elas começarem a namorar de fato, inclusive, brincam que foi preciso pedir vááárias vezes em namoro até a Fê aceitar (e que se a Fê não aceitasse, aquela seria a última vez, porque ela não iria mais pedir!). Ela sempre dava um jeito de adiar, até que foi colocado um limite... e adivinhem? O pedido aconteceu dentro do carro. O carro foi muito importante em vários momentos, não só nesse. É o local onde elas têm as conversas mais sérias, onde viajam, onde se sentem à vontade, onde estão sempre indo para Porto Alegre, Laguna… passam muito tempo lá. No começo do namoro elas não eram assumidas, então o carro era o lugar que representava segurança. "Às vezes quando a gente anda de carro, a gente não vê nada... mas também vê tudo” Como a Fê não era assumida, elas entendem que essa foi uma barra muito forte que passaram juntas. Ela não se aceitava, foi um período muito longo. A Mavi não quis mais ficar escondida, entendia que não era mais justo viver assim. Antes de começar a namorar, nem passava pela cabeça da Fernanda se assumir, não pensava em contar porque tinha muito medo da reação (e spoiler: hoje em dia a mãe dela gosta tanto das duas que se emociona vendo elas). A Fê odiava pensar em contar e em não contar, porque ama tanto a mãe dela, é tão próxima, mas tinha medo de alguma reação de não aceitação. Acredita que se não fosse a Maria fazer esse movimento, talvez ela não tivesse se assumido até hoje. E teria se privado de todos os momentos em família que já viveram, em todas as vezes que andam juntas pela cidade (porque isso era o que mais as incomodavam, passavam bastante tempo “escondidas” por medo de encontrar pessoas conhecidas)…até que chegou o momento que mais pesou, pelo falecimento de uma familiar da Maria, em que a Fê entendeu que gostaria de estar presente com ela, de estar dando apoio à ela, mas que não podia. E aí resolveu abrir o jogo, contar, não podia mais segurar isso, precisava mudar. Ela explica que quando o medo de não estar vivendo fica maior que o medo da mudança, a gente entende que precisa mudar. E foi isso que aconteceu. A Fernanda tem 22 anos e é natural de Criciúma, Santa Catarina. É designer, trabalha com branding e social media. Estuda psicologia, é apaixonada pela mente humana, ama estudar isso, pensar sobre como as relações acontecem. Também adora desenhar e estudar comunicação. Maria Vitória tem 23 anos e é natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. É estudante de medicina e estuda em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ela adora tudo o que envolve música, desde o piano (que toca e que aprendeu admirando a avó tocar), até a dança que vem de toda a família no palco. É entusiasta da história, sonha em um dia cursar uma faculdade de história também. Ambas adoram viver em Criciúma, são entusiastas da cidade, por isso, também, se preocupam em como seria importante levar mais cultura para lá. Mavi comenta que traria mais história, mais acesso à informação de verdade, conhecimento de verdade e formação de opinião. A Fê mora em um bairro mais afastado do centro e fala sobre como é bom sentir que vive em comunidade e os vizinhos serem considerados uma grande família, só que conta também como ainda falta o bairro ter a mesma visibilidade que o centro e ser tão valorizado quanto. Por fim, mas não menos importante, falam sobre a importância que seria ter na cidade um espaço que valorizasse a vida LGBT, a nossa cultura, os nossos valores, não só pela questão do medo de estarmos sempre em locais públicos, mas por ser um lugar nosso, com a nossa cara, um lugar que estivéssemos sendo nós mesmos, porque nós merecemos isso. Quando perguntei como a Mavi e a Fernanda se conheceram, elas disseram que foi por uma coincidência ou por um erro que deu em acerto, chamem como preferir. Vamos lá: A mãe da Mavi é professora de dança e trabalha também em uma universidade. A Mavi estava lá acompanhando uma audição e uma menina chegou atrasada, ela viu a menina, se interessou e fim. Um tempo depois, estava rolando um evento na principal praça da cidade, ela viu uma menina muito parecida e pediu para o amigo ir lá saber se a menina beijava mulheres. A menina disse que era bissexual, mas que namorava. A Mavi não sabia o nome da menina, mas sabia que ela tinha uma pinta no rosto e colocou, absolutamente do nada, na cabeça dela: acho que o nome é Fernanda. Decidiu desbravar no Facebook e achou uma Fernanda, com uma pinta no rosto. Que era quem? a Fê. Adicionou a Fê em todas as redes sociais, curtiu tudo o que ela postava: no Facebook, no Instagram, no Twitter… e a Fê pensando “meu Deus… quem é essa menina hétero curtindo tudo o que eu posto???”! Até que uns meses depois, em outro evento, nessa mesma praça, ela viu a Mavi e decidiu falar com ela, chegou dizendo “ei, você é a Maria Vitória do Twitter?”, que respondeu “não!” e foi descoberta pelos amigos “é ela sim!!!” e envergonhada, rebateu “e tu foi fazer teste na companhia de dança, né??”. As amigas da Fê gargalharam e ela só disse “não???”, então a Mavi entende que de fato, não era a guria da audição, mas achou a Fernanda muito mais bonita que a menina. Nesse dia elas acharam a situação muito engraçada, riram, conversaram e decidiram continuar se falando de forma online. Foi só um tempo depois que elas saíram pela primeira vez, tendo um primeiro encontro (que por sinal, foi fazendo as compras de natal no shopping), depois conversaram em um bar e entre o natal e o ano novo deram o primeiro beijo. Quando comecei a conversar com a Maria Vitória e a Fernanda, ouvindo elas falarem, eu ainda estava desacreditada de que o encontro tinha dado certo. Todos os planos foram, literalmente, por água abaixo - dois dias antes decretaram a volta do lockdown em Criciúma, cidade catarinense, onde estávamos - e uma hora antes de nos encontrarmos caiu a maior chuva possível. Além de que no dia seguinte, de manhã cedo, eu viajaria de volta para o Rio. Não tinha jeito, teríamos que cancelar. Aí elas falaram: “vamos fazer dentro do carro! É o nosso lugar. Sempre foi nosso lugar.” Quando eu saí do encontro com elas, pensei muito sobre o amor porque acredito que nunca falei tanto com um casal sobre as múltiplas formas de olharmos esse sentimento. Tudo começou porque uma vez a Fê compartilhou um post sobre as 5 linguagens do amor e disse quais que ela mais se identificava, que eram três, enquanto a Mavi disse quais que ela mais se identificava, que eram as únicas duas que a Fê não disse, ou seja, elas viam o amor de formas totalmente diferentes. Desse mesmo jeito, elas entenderam que vivem esse relacionamento porque o amor e as relações, como muitas coisas na vida, tem múltiplas interpretações e para entendê-las precisamos estar abertas a isso. A Fê entende que o amor é uma junção de coisas, o carinho, o olhar, a atenção. O amor é olhar reconhecendo os defeitos. Ela fala sobre em toda a construção do relacionamento dela com a Maria, desde o comecinho, ver o amor. Em cada detalhe, cada entendimento, cada passo que deram juntas, ela sempre soube onde esteve presente o amor. Fala também sobre o amor entre mulheres ser mais intenso porque quando um homem e uma mulher se relacionam eles estão em mundos que foram construídos socialmente diferentes, enquanto duas mulheres estão em mundo socialmente construídos iguais, então elas se identificam, se entendem, são corpos semelhantes. Já a Maria Vitória fala sobre como o amor pode ser doloroso também, como podem existir relações tóxicas transvestidas de amor. Como as pessoas podem se machucar em nome do amor, e como isso pode deixar pessoas mais ariscas, menos abertas a viver coisas boas. O amor tem que ser cuidadoso. Ela disse que o amor entre mulheres pode ser (e na maioria das vezes é) diferente, mas que o que difere realmente cada relação é o jeito que cada pessoa se olha, se vê, se respeita. Elas brincam o quanto foi difícil no começo da relação a Mavi também demonstrar carinho, ela não abraçava, dava dois tapinhas, como quem encontra um conhecido na rua. Foi preciso muita calma e investimento para ela entender que podia ter carinho. Enquanto, por outro lado, a Fê também não se entregava de cabeça, pisava em ovos, ia com calma demais. Uma foi tentando permitir a outra, até que por fim, pudessem caminhar juntas. Tudo foi muito novo. Fernanda Maria Vitória
- Bruna e Flávia | Documentadas
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- Angélica e Jaque | Documentadas
Angélica, no momento da documentação, estava com 34 anos. Ela é natural de São Miguel do Iguaçu, uma cidade no interior do Paraná, mas mora em Criciúma - Santa Catarina há bastante tempo. É apaixonada pela escrita, gosta de escrever poemas, ler e passar tempo com os seus bichinhos em casa. É formada em letras e trabalha na UNESC, universidade pertencente à cidade de Criciúma, no setor de educação e design instrucional. Sua função é receber o material didático que será passado ao aluno na modalidade de educação à distância e preparar este material para que ele fique mais didático, com elementos, esquemas, imagens, deixando-o mais interessante pensando no autoestudo do aluno, visto que ele estará estudando em casa sozinho. Além disso, Angélica também trabalha com a Jaque, sua companheira, enquanto produtora dos eventos que ela canta e toca. Ela monta o equipamento, cuida do som, faz alguns registros para redes sociais e faz os contatos para fecharem os próximos shows. Quer muito fazer da sua produtora um trabalho fixo, e inclusive, quando nos encontramos para a documentação ser feita, iria acontecer nos dias seguintes o primeiro evento oficial criado por elas. Jaqueline, no momento da documentação, estava com 25 anos. É natural de Sangão, interior catarinense, mas atualmente mora em Criciúma com Angélica. Estuda psicologia e trabalha como estagiária no setor de arte e cultura da UNESC, universidade já citada acima. Aos finais de semana se dedica aos eventos em que trabalha fazendo shows em estilo voz e violão ou com a sua banda. Adora cantar e observar as pessoas enquanto canta, além disso, sempre que pode está assistindo algum show e pegando referências para o seu próprio trabalho. Angélica levava uma vida bastante agitada quando conheceu Jaque. Conta que só queria saber de sair, beber, beijar na boca… Inclusive, estava procurando mulheres para beijar quando encontrou no Twitter um link que levava à um grupo e Whatsapp chamado “SAC Sapatão”. Lá havia gente do Brasil todo e logo perguntou: “Tem algum DDD 48 aqui?”. Alguns dias depois a Jaque respondeu ela no privado, falou: “E aí, Criciumense?!” porque já tinha visto o papo se desenrolar lá no grupo. Passaram duas semanas conversando sem parar, até que resolveram marcar um encontro para se conhecer em que Angélica buscaria a Jaque em sua cidade, próxima à Criciúma, elas beberiam em Criciúma e depois ela a levaria de volta. A questão foi: elas só beberam. E Jaque, pobrezinha, estava cheia de fome, pingava de bar em bar com a Angélica contando mil histórias e bebendo… e só via as comidinhas passando para as outras mesas. Jaque era muito tímida, não disse nada, mas também não comeu. Chegou em casa com fome, achou o date ruim. Deram um beijo na despedida e isso foi o bastante para Angélica, que não tinha noção da fome da Jaque, pensar: “Yes! Arrasei!”. Jaque resolveu dar mais uma chance, se encontraram novamente e dessa vez teve até uma bolachinha dentro do carro, caso a fome batesse. Foram até a cidade de Tubarão, próximo onde Jaque morava, para viverem uma festa. Na época, já se sentiam bastante envolvidas. Angélica via a Jaque cantando nos vídeos e sentia a paixão chegando, mas os amigos não colocavam fé, para eles era só mais uma paixão passageira. A partir do segundo encontro em que foram na festa e que depois da festa dormiram juntas, sentem que algo começou a se firmar. Se encontravam com frequência, Jaque na época cursava uma faculdade em Criciúma e isso fazia com que estivessem sempre juntas… Mas Angélica seguia com o seu jeito agitado, querendo sair e curtir a vida, até que foi preciso entender que não dava para continuar com tanta intensidade assim, foi “sossegando” aos poucos. Do momento em que se conheceram até o começo do namoro foi bem rápido, entre janeiro e fevereiro de 2019. Logo no começo, também, já se apresentaram para as famílias, compraram alianças de namoro e foram seguindo a relação, até que depois de alguns meses entenderam que namorar morando em cidades diferentes estava ficando muito difícil. Jaque se mudou para Criciúma e foi morar com Angélica, se estabilizou num emprego e a vida recomeçou… Até começar a pandemia de Covid-19, onde trabalhavam de casa e passavam o dia inteiro juntas. No meio de tudo o que viviam, para garantir direitos e também celebrar o amor que resistia em tempos pandemicos, casaram-se no papel. Queriam fazer uma grande festa, mas não foi possível. Contam, rindo, que saíram do trabalho num dia chuvoso, foram até o cartório assinar um papel e assim que saíram de lá comeram uma coxinha e beberam uma coca-cola, foi a forma de comemorar. Quando nos encontramos para a documentação haviam recém trocado as alianças de namoro para de casadas, mesmo depois de alguns anos, porque queriam ter condições financeiras para comprar alianças legais. Estavam felizes com isso e fizeram questão de registrar nas fotos. Por mais que já passaram por muitas coisas boas juntas, existem também as difíceis, como a própria pandemia. Angélica perdeu a avó, uma das pessoas mais importantes da sua vida, e por conta do trauma desenvolveu alguns medos e fobias. A relação passou a significar apoio para além do romântico, Jaque se tornou um suporte imenso, um cuidado e ajudou no entendimento desses medos, de viver esse processo. Juntas, elas se apoiam em tudo. É nesses momentos que enxergam o amor de forma clara, refletido no cuidado, companheirismo, ajuda diária a enfrentar a vida. Angélica conta que acorda mais tarde, então Jaque tem todo o cuidado de preparar o café, pensar na rotina uma da outra, deixar os lanches prontos… E isso fala muito sobre apoio. O amor não precisa estar sempre no afeto físico. Ele está, também, na forma que elas sonham em viver da música e fazem o sonho virar realidade, investem em equipamento, em editais de cultura, vão atrás de shows para fazer… em toda a vez que dão as mãos e acreditam uma na outra. Falamos sobre trabalharem juntas, morarem juntas, viverem uma rotina muito intensa. Até para a própria documentação acontecer, batalhamos por um horário. E foi aí que citaram a maior dificuldade que passam atualmente: o cansaço que a rotina demanda. Existem alguns meios que recorrem para que isso não pese tanto, como a terapia, as longas conversas - nunca se veem brigando ou discutindo, mas conversando. Confiam muito uma na outra e isso é o que as movimenta, que mantém tudo em segurança. Se a rotina já é pesada, não querem que a relação também vire um peso. Angélica tem muito cuidado com a limpeza e cita que às vezes sente necessidade de limpar, ainda mais com os bichos em casa, não quer deixar o ambiente sujo para a convivência deles. Mesmo chegando exausta, arrasta os móveis, começa a limpeza… E a Jaque “pega junto”, em suas palavras, para limpar. Não era o que gostariam, prefeririam o descanso, mas reconhecem como a ajuda faz a diferença. Isso também fala sobre o amor, sobre poder contar, sobre não deixar de lado. ↓ rolar para baixo ↓ Angélica Jaque
- Louise e Thayane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Louise e da Thayane, quando o projeto passou por São Paulo! Louise e Thayane constroem sua vida numa base de amor e afeto familiar muito grande - tanto que soa meio impossível falar delas sem falar em família. O tempo todo enquanto nos conhecíamos, visitando o lar em que moram no centro de São Paulo, a sensação mais presente era de que ali existe uma família. Elas são naturais do Rio de Janeiro, mas se mudaram há pouco tempo para São Paulo por conta do trabalho da Louise. A casa, aos poucos, vem tomando forma, mas o mais importante é o samba, que toca o dia todo, embalando as atividades cotidianas. A música, na vida de ambas, vem desde crianças: suas famílias são muito ligadas ao samba, nos encontros cantam, fazem bagunça, gostam do movimento. Para o futuro, planejam filhos, uma família cada vez mais unida, grande e que valoriza suas raízes. Acreditam que enxergar o futuro enquanto uma construção é também um ato de amor. Tanto a Thay, quanto a Louise, no momento da documentação, estavam com 30 anos. A mudança para São Paulo foi bem rápida, durante o processo seletivo que a Louise participou elas conversaram e decidiram que só daria certo se fossem juntas, não cogitaram viver num relacionamento à distância. Hoje em dia, o trabalho da Louise envolve coordenação de vendas, enquanto a Thay é geóloga, apaixonada por defesa civil e está estudando para o concurso público dos Bombeiros. Diariamente ela corre, nada, cuida do corpo para a prova física e estuda para a prova teórica. Ambas têm a paixão do samba e do futebol em comum, mas com isso vem o motivo das brigas na relação: uma é Flamengo, a outra, Vasco. Querendo ou não, o amor que elas possuem pelo Rio é enorme, são pessoas que iam muito à praia, amam o sol, os bares… então está sendo uma nova vivência descobrir São Paulo. Por outro lado, sentem o quanto são companheiras juntas, o quanto mesmo com as dificuldades e a saudade da família elas se apoiam e se fortalecem estando nesse novo local. Tentam explorar a cidade descobrindo novos restaurantes, botecos, eventos com samba e culinárias diferentes. Quando elas se conheceram, a Thay estava em um relacionamento que ia muito mal, chamou uma amiga para conversar porque precisava desabafar e a amiga perguntou se podia levar outra amiga. Na hora, ela pensou que não era o ideal, né? Afinal, teria uma desconhecida ouvindo suas lamúrias, mas tudo bem, aceitou. Quando chegou lá, a menina convidou uma pessoa que ela estava ficando para as encontrar e a Thay pensou “Pronto, mais uma desconhecida pra me ouvir desabafar…” e então chegou a Lou. A Lou estava um pouco irritada, tinha saído do trabalho num dia bem agitado, mas segundo a Thay ela estava com uma roupa maravilhosa e isso já a chamou atenção. Depois desse primeiro dia, a Thay terminou seu relacionamento e todas elas (a Thay, a amiga dela, a Lou e a pessoa com quem ela estava ficando) passaram a se encontrar com frequência. No início de 2019 surgiu um flerte entre a Thay, a Lou e a menina que ela se relacionava. Elas ficaram e o que era para ser um divertimento acabou se tornando um relacionamento entre as três: durou oito meses. Por fim, não deu mais certo, terminaram, mas a Thay e a Louise continuaram juntas - tiveram a ideia de recomeçar devagar, e quando perceberam já estavam 100% entregues e vivendo como casal. Um tempo depois, com o início da pandemia, o que tinham era uma a outra e um quintal para ver o céu. Isso foi um espaço de precisarem aprender a se comunicar de forma fluida, já que tudo dependia das duas. Uma foi contando cada vez mais com a outra. Elas acreditam que, por mais que tenha existido muita coisa ruim na pandemia, há o sentimento de que esse tempo serviu como um acelerador de futuros: se a coisa não foi pra frente, ela acabou ali - e o que foi pra acontecer, aconteceu de verdade. Foi um momento divisor de águas em que elas sentaram e repensaram o futuro: planejaram o que gostariam de ser, estando juntas, tendo filhos, uma carreira, etc. Hoje em dia, mesmo a Thay que não é de falar muito o que está sentindo, consegue colocar pra fora com a Lou. Elas sentem que, quanto mais se abre, mais geram apoio uma à outra. Lou conta do momento que ela contou para a mãe dela, já adulta, sobre se relacionar com uma mulher. O medo que existia, pois é muito próxima da mãe, mas entende que ela teve uma criação evangélica muito forte e poderia reagir de várias formas. No fim, ela ficou assustada, mas abraçou e tratou com afeto. Isso se tornou um exemplo do que a Lou espera ser para as pessoas, ela acha que isso é lidar com amor sobre as coisas, e também fala sobre o acolhimento que ela espera ter mesmo nos momentos mais delicados. ↓ rolar para baixo ↓ < Thayane Louise
- Luciana e Viviane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luciana e da Viviane, quando o projeto passou por São Paulo! Luciana, Viviane e a pequena Ester moram em Campinas, interior de São Paulo e constroem o que chamam de “família real”, sem coisas artificiais envolta. Amam cozinhar, comer, brincar, ler e assistir TV. A casa é cheia desses detalhes que fazem elas serem quem são. Depois de saírem de São Paulo e mudarem para Campinas por conta do trabalho da Lu, viveram um relacionamento à distância e aos poucos a Vivi foi se mudando para lá, até conseguirem um apartamento só delas. Nesse período, começaram a reformar o novo lar pelas próprias mãos - queriam que tivesse lembranças de viagens, uma biblioteca-bar, decorações que as representassem… A Ester, inclusive, escolheu a cor do quarto e ajudou a pintar. Tudo na relação começou do zero e pessoalmente (sem internet auxiliando) e isso, pela visão delas, foi ótimo porque proporcionou uma grande comunicação. Além disso, Vivi conta que depois do relacionamento com a Lu aprendeu a ter fé. Lu é muito ligada na fé em geral - não só a religião, mas a fé de todas as formas. Em Exu, nos orixás e também em Deus. Lu completa que tem essa fé por tudo o que já viveu e construiu, mas que não espera nada sentada, batalha o tempo todo pelas melhores coisas. Luciana, no momento da documentação, estava com 38 anos. É natural de São Paulo e chegou em Campinas por conta de um concurso, há cerca de dois anos atrás. É professora de rede pública. Começa a história contando que em 2020 teve uma conversa com uma entidade chamada Exu Caveira e que isso virou a vida dela de cabeça para baixo em muitos aspectos. Soube de uma força que estava na hora de despertar, libertar e recomeçar um modo de vida. Em 2015 tinha passado no concurso de Campinas mas nunca foi chamada, eis que recebe o e-mail chamando depois da própria data limite do concurso ter expirado. Cronologicamente, aconteceu assim: a conversa foi em novembro de 2020, conheceu a Viviane em dezembro de 2020 e em janeiro de 2021 decidiu a mudança para Campinas. Viviane, no momento da documentação, estava com 30 anos. Também é natural de São Paulo, residindo agora em Campinas, trabalha enquanto agente de viagens. Há 14 anos é DJ e agora em Campinas tem um novo hobbie: o teatro. Em dezembro de 2020, Vivi estava vivendo uma fase bem difícil. Passou por um relacionamento abusivo, não estava se sentindo bem. Depois do término, uma amiga em comum que tinha com a ex-namorada quis manter contato com ela, afinal, sempre se deram bem e tinham hobbies muito fortes como a paixão por Harry Potter em comum. Num sábado a amiga convidou para ir no aniversário da sócia dela, que era adivinha quem? Luciana. Vivi não deu muita bola, já que não conhecia a Lu, mas considerou porque o local era perto da casa dela. Começou o sábado bebendo whisky com o pai - uma tradição que manteve durante muito tempo - e decidiu ir. Chegou lá nem sabendo o nome da aniversariante, mas ficou muito surpresa porque foi bem recebida, acolhida e amada. Foi com a Ester sua primeira interação no aniversário. Ester estava brincando e ela entrou na brincadeira, também dividiram brigadeiros. Quando foi interagir com a Luciana, perguntou sobre o pai da Ester e entendeu que não havia mais relação com ele, Lu estava solteira. Durante a festa, tiveram uma interação mais próxima e entenderam: queriam se beijar. Dançaram, interagiram e o beijo aconteceu. Ninguém entendeu nada ao redor e Vivi ficou completamente suja de batom vermelho. Destacam sobre uns homens que tinham chegado com bebidas achando que iriam ficar de par e ofereceram um copo gigante de vodka com energético para a Lu, por ser aniversariante. Ela negou e bebeu o whisky da Vivi na hora (virando o copo!) e foi aí que Vivi sentiu a pontada de paixão chegando. Ficaram juntas naquela noite e antes do fim do ano decidiram se reencontrar. Quando 2021 começou, Vivi foi passar as férias no interior com a família e recebeu a notícia do concurso/da mudança para Campinas que a Lu iria viver. Estavam conformadas de viver uma relação à distância, já que desejavam estar juntas, mas tudo era uma incógnita. Vivi decidiu viajar com a Lu até Campinas para assinarem os documentos, conhecerem a escola e a cidade, deu muito apoio. Quando Lu fez a mudança, viveu um mês em airbnb com a Ester (que estava também procurando uma escola para estudar) e nesse período Vivi ficou com elas durante uma semana, mas foi uma experiência bem difícil. Ester sentiu muito ciúme, reagiu mal, ignorou a presença da Vivi durante dias. Num momento, Vivi chorou porque entendeu que não iria ser fácil. Ester, nesse momento da nossa conversa, deixa tudo às claras: superou o ciúme e hoje são melhores amigas. Depois desse primeiro mês, conseguiram alugar um apartamento (que fica no mesmo condomínio que elas moram hoje em dia). Vivi ajudou na mudança e passou um bom tempo intercalando entre São Paulo x Campinas. Em 2022, Vivi estava dando uma caminhada pelo condomínio e viu alguns apartamentos à venda. Pensou que seria muito bom terem um lar só delas ali, a Ester já estava adaptada e adora brincar no parquinho, tudo já estava bem instalado. Visitou um apartamento e decidiu que seria delas. Começaram os contatos com contabilidade, advogados, banco, indo atrás de documentações… e foi tudo absurdamente rápido, se encaixando. Quando viu já estava com as chaves em mãos. Foi aí que decidiu se mudar definitivamente para Campinas. Nesses processos, aconteceram os pedidos de namoro e de casamento. No pedido de casamento, Lu fez uma surpresa, Vivi nem imaginou. Quando estavam no restaurante, viu um garçom passando com um buquê gigante e disse “Nossa que legal! Certamente alguém vai ser pedido em casamento hoje!” até que viu o buquê vindo para ela. Brincou com a Lu que ela teria que ajoelhar, fazer tudo direitinho. No pedido, a Ester fez um vídeo convidando-a para fazer parte da família. E Vivi finaliza contando que sempre quis casar e sempre soube que gostaria de ser mãe - sente que agora estão completando seus sonhos. ↓ rolar para baixo ↓ Viviane Luciana
- Lia e Thalita
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Lia e da Thalita, quando o projeto passou por São Paulo! Lia e Thalita, quando se encontraram, sentiam que se conheciam há muito tempo - desde os gestos que tiveram uma com a outra, entendendo limites, carinhos e espaços, até o respeito e a paciência dos processos que viviam. Elas contam sobre a diferença de idade acabar quase não interferindo, pois entram em um equilíbrio visto que a Lia tem o jeito mais jovem e a Thalita, pelas vivências que passou, amadureceu muito rápido. No dia a dia, vivem diversos detalhes juntas: jogam badminton, andam de bicicleta, possuem uma rotina dentro de casa através do home office, se conectam intrinsecamente. Para Lia, o amor está em tudo; em todos os relacionamentos, no trabalho, na relação, na música que elas ouvem, nas coisas que fazem juntas… Sua percepção de amor esteve sempre com ela, nunca viu diferenças num amor entre homem-mulher, dois-homens, duas-mulheres, mesmo que só tenha vindo a se relacionar com uma mulher na vida adulta. Então, por mais que entenda a posição política disso, nunca deixou de ter o amor como uma ação presente em tudo o que ela naturalmente faz. Por mais que esse amor esteja nas ações, a relação com a Thalita trouxe algo diferente para a vida da Lia: o planejamento. Ela não era uma pessoa de fazer planos, tinha muita dificuldade de se ver no futuro, mas com a Thalita foi completamente diferente. Elas se apaixonaram rápido, namoraram rápido e foram construindo planos de vida juntas. Hoje, se sentem realizadas quando percebem que alguns já estão concretizados. Thalita tem 26 anos e é natural de Jaborandi, um município do interior da Bahia. Saiu de lá ainda na adolescência e se mudou para Brasília para ter uma base melhor de estudos. Sente que nunca se encaixou completamente em Jaborandi, pois é uma cidade pequena, conservadora, que vive de agricultura. Em Brasília, começou a trabalhar com restaurantes e decidiu que gostaria de se mudar para São Paulo. Chegou a fazer a mudança, ficou pouco tempo, pois era difícil se sustentar, fez uma viagem por diversos lugares do nordeste trabalhando em bares e na praia, até que voltou para São Paulo, decidida a ficar e seguir trabalhando como garçonete. Seguiu alguns anos assim, até recentemente fazer sua transição de carreira para Desenvolvedora Front-end e está trabalhando com qualidade de software. Ela fala como foi bom fazer a transição, voltar a estudar, viver uma rotina semanal (porque antes não havia espaços nos finais de semana ou feriados) e como fez bem para o relacionamento das duas, também. Lia tem 37 anos, é natural de Santo André, cidade localizada no ABC Paulista, em São Paulo, mas reside na capital há muitos anos. Ela trabalha enquanto Designer UX-UI em uma grande empresa. Thalita e Lia se conheceram no bar em que a Thalita trabalhava, em 2019. Nessa época, a Lia era casada e tinha um salão de beleza, que ficava relativamente próximo ao bar, então era um local bastante frequentado por ela e pelas amigas. Toda vez que ela ia ao bar, percebia que a Thalita não atendia a mesa dela, mas a seguia no Instagram, então achava isso minimamente engraçado - percebia uma certa vergonha/nervosismo vindo da Thalita. Na versão da Thalita, pela primeira vez que viu a Lia chegando, ficou toda encantada e serelepe, quis logo saber quem era. Quando descobriu que ela tinha um relacionamento, desistiu de tudo e ficou triste. Nisso, o tempo foi passando, elas sempre se viam no bar, mas ela nunca teve coragem de conversar com ela ou de atendê-la. Num dia, a pessoa com quem a Lia se relacionava foi ao bar sozinha e acabou fazendo amizade com a Thalita, e, quando em outra data a Lia chegou no bar viu a intimidade das duas e achou interessante a situação. Acabou que, numa falta de comunicação, aconteceu uma situação um tanto quanto desagradável inicialmente, mas essa situação fez com que a Thalita e a Lia começassem a conversar pela primeira vez. A partir daí, em uma nova oportunidade, a Thalita frequentou o salão que a Lia era dona (mesmo que ela não estivesse lá no momento), elas conversaram pelo Whatsapp e começaram um contato mais frequente. Neste momento, a Lia passava por uma crise muito grande no casamento, que já chegava próximo do término, e num dia, depois de uma briga forte (por motivos que não tinham relação com a Thalita, obviamente, até porque nada tinha acontecido), a Lia resolveu sair de casa. Ao sair, estava conversando com a Thalita pelo celular. Chamou um amigo e foi até o bar em que ela trabalhava. Lá, eles ficaram até o bar fechar. Elas conversaram - contam que tremiam como adolescentes - e a Thalia comenta que nunca sentiu algo como o que aconteceu naquele dia. Ela chamou a Lia para fumar (sendo que ambas não fumavam, mas era uma desculpa para estarem juntas na rua) e foi assim que se beijaram pela primeira vez. Lia conta que era como se a Thalita já conhecesse ela há tempos, desde o começo. E, já que estava fora de casa, foram para o apartamento em que a Thalita morava. Neste momento, a Lia foi sincera com a ex-companheira sobre o local que estava indo. De certa forma, não queria que as coisas acontecessem assim, preferiria passar pelo divórcio corretamente antes de tudo acontecer, mas foi algo muito mais forte e, então, ela preferiu ser sincera desde o primeiro momento - tanto que, ela e a Thalita, a partir daí, não se desgrudaram mais. Por mais que elas estivessem começando algo novo, precisamos considerar que não é nenhum pouco fácil sair de uma relação na posição que elas estavam - a Lia tinha um empreendimento, passou por uma série de abusos e, para embarcar em um novo relacionamento foi preciso muito cuidado. A Thalita, por sua vez, já viveu relacionamentos difíceis há anos atrás e estava solteira, num momento completamente diferente, um pouco mais estável, então conseguiu (e se disponibilizou para) ser um apoio neste processo. Com o tempo, passou a viver muito na casa da Lia. Foi levando algumas coisas para lá, mas seguiu dividindo apartamento. De qualquer forma, sempre se sentiu muito “em casa” na casa da Lia, e ver lá como um lar, junto com as gatas e com o ambiente, fez ela sentir cada vez mais vontade de ficar. A Lia sempre fez questão de que ela estivesse à vontade também, então juntas emolduraram quadros e passaram a redecorar as coisas, até que a mudança foi definitiva. Com o tempo passando, além do lar que representa em detalhes tudo o que são (como os cafés da manhã, os recadinhos, as decorações e as gatas), também fizeram diversas viagens juntas: coisa que elas entendem como uma reconexão. Qualquer viagem faz com que voltem muito mais íntimas, conectadas e estabilizadas. Durante a pandemia, elas se casaram. Foi num cartório, quando tudo ainda estava fechado, usando máscara e face shield, só com os padrinhos presentes, que assinaram os papéis. Antes de sair de casa, Lia fez uma maquiagem na Thalita e uma arrumou a outra. Depois do cartório almoçaram juntas e ao anoitecer fizeram uma live com os convidados - cerca de 300 pessoas estiveram na chamada ao vivo festejando-as. Contam o quanto foi legal, simbólico e divertido. Num momento como aquele, na pandemia, todos estavam trancados em casa sem perspectivas. Entrar numa chamada e celebrar o amor durante algumas horas foi um sopro de esperança. Elas choraram muito, jogaram buquê fake, cortaram bolo, ganharam muitos presentes e souberam aproveitar de verdade! E, um tempo depois de casadas, oficializaram com uma viagem de lua de mel para a Bahia. ♥ Por fim, fizeram questão de serem fotografadas pelas ruas de São Paulo - como fotos de casamento - como uma maneira de falar sobre a importância do nosso amor ocupar as ruas, estar em público. Não há como fecharem os olhos para o que acontece nas ruas e por isso estão sempre se envolvendo politicamente. Na pandemia, por morarem no centro da cidade, viram de perto como tudo piorou. Não há como esconder ou fechar os olhos para isso, e ao sair de casa elas não conseguem não se sentir afetadas pela falta de políticas públicas para a população. Seus posicionamentos também representam que enquanto não mudar para os outros, para toda a população que segue na rua, para cada povo marginalizado, também não mudará para elas. ↓ rolar para baixo ↓ Thalita Lia
- Mari e Reylibis | Documentadas
Amor de Outros Lugares - Mariana e Reylibis clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Carla e Cynthia | Documentadas
Amor de Diferença - Carla e Cynthia clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Kelly e Amanda | Documentadas
Amor de Tempos - Kelly e Amanda clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Bruna e La Salle
A Bruna é uma mulher que sempre quis uma relação leve, alguém que a acompanhasse nas suas aventuras de nômade pela vida e que as coisas fluíssem de uma forma sem brigas ou super cobranças, mas achava que isso seria praticamente impossível de encontrar, até que conheceu a La Salle. Inicialmente, foi através de um match num aplicativo de relacionamentos que se encontraram, mas moravam há mais de 200km de distância (entre Curitiba e Ponta Grossa, no interior do Paraná) e decidiram uniram o útil ao agradável: a Bruna procurava uma personal para fazer atividades durante a pandemia e a La Salle fazia atendimentos online, então começaram a ter uma relação profissional de treinos online. Durante seis meses se encontravam online, treinavam e também conversavam sobre outros projetos: a Bruna propôs uma ideia de criar uma academia voltada ao corpo enquanto uma ideia sexual, no sentido de valorizar a sexualidade dos corpos de forma consciente. Enquanto conversavam, Bruna chegou a pensar “Vou casar com essa mulher ainda!” mas o flerte não desenrolava muito porque a La Salle não dava muitas aberturas para além do contato profissional. Não há como não começar essa história falando da forma que elas se conheceram - dessa vez, pessoalmente. Numa das idas até Curitiba, a Bruna, depois de 6 meses de trocas online com a La Salle, falou sobre elas se encontrarem para pelo menos se verem frente a frente. A questão é que tinham pouco tempo: cerca de 8 minutos, entre uma agenda e outra da La Salle, e o encontro seria dentro do próprio carro da Bruna. Elas confessam que os 8 minutos se estenderam um tanto a mais, porém, naquele dia não se beijaram, mesmo com os flertes diretos da Bruna e assim ela voltou para Ponta Grossa sofrida, meio indignada que não tinha dado certo. Quando a La Salle percebeu que a Bruna iria desistir do flerte, resolveu abrir mão. Marcaram um segundo encontro e, como Bruna é muito religiosa, resolveu ir até o seu pai de santo consultá-lo para saber se esse casal tinha chances de dar certo. Aí veio a surpresa: ele disse que sim, que elas seriam bastante felizes juntas, mas que um acidente de trânsito iria acontecer e deixaria a La Salle sem o movimento das pernas. Pensando nas viagens e na distância que moravam uma da outra, não teve escapatória: o segundo encontro foi no terreiro, para benzer as pernas da La Salle e fazer com que esse acidente jamais acontecesse. [e podemos dizer que, mesmo inesperado, deu certo, né?] Depois da reza, comeram uma pizza com o pessoal do terreiro e finalmente deram o primeiro beijo - um beijo todo descompensado e errado, o que trouxe um segundo susto de “Isso não vai dar certo!”, mas nos beijos seguintes tudo se encaixou. Quando perguntei para a La Salle como ela se sentiu quando viu uma pessoa propondo um encontro para benzer as pernas dela, ela riu e disse que por mais estranho que soasse, ela reagiu de forma tranquila. Sua família sempre foi ligada à umbanda e sua avó ao candomblé, então sempre teve a religião por perto. Estava assustada com a questão do acidente, claro, mas não cogitou não ir até o terreiro. Depois disso, resolveram fazer um terceiro encontro: dessa vez, na casa da mãe da La Salle. Bruna levou algumas comidas que a mãe dela fez e fizeram um encontro-de-comidas-de-mães. Brincam sobre esse jeito nada convencional de começar algo ter sido muito gostoso porque fez ser único, nunca tinham experimentado algo assim e se sentem muito felizes de ter se permitido viver isso sem julgamentos. No momento da documentação, a Bruna estava com 43 anos e trabalha na direção de uma agência de marketing que possui sede em São Paulo, mas divide base em Curitiba já que muitos clientes são de lá. Quando ela morava em Ponta Grossa, também era por causa do trabalho e, mesmo não sendo natural do Paraná, ela adora a vida de nômade que leva com muitas mudanças e se permitindo estar em lugares diferentes. La Salle estava com 24 anos, ela é formada em educação física e atualmente cursa nutrição. Como trabalha com consultoria online e suplementação, isso também possibilita que possa estar em outros lugares, não necessariamente em Curitiba. Sendo assim, logo depois do começo do namoro, resolveu que se mudaria para Ponta Grossa e passaria um tempo com a Bruna. Quando chegou lá, a Bruna morava em um apartamento gigante e não tinha móveis, tudo era meio encaixotado e ela vivia lá com os gatos. A La Salle chegou com as coisas dela, a cachorrinha de estimação e foi trazendo também decorações, elas foram comprando móveis juntas e transformando o lugar em um lar de verdade. Depois de alguns meses, a mãe da Bruna teve um problema de saúde e foi para Ponta Grossa também para morar com elas. Bruna conta que a vida dela sempre foi intensa então não tinha porque ser diferente nesse momento de início de namoro. Quando chegou o momento de se mudar de Ponta Grossa, decidiram: “Vamos casar aqui”. Entendem que o relacionamento fluiu muito bem lá, elas adoravam a cidade e tudo o que viveram lá faz parte da história delas, então não encontravam um lugar que mais combinaria com a cerimônia do que estar lá. O único problema é que nenhum convidado morava lá. Isso fez com que os convidados que realmente confirmassem presença mostrassem o quanto amavam elas. No fim, deu tudo muito certo! Até hoje os convidados relembram do dia contando que foi o melhor casamento que já vivenciaram. A cerimônia aconteceu de forma religiosa numa cachoeira, com os pés dentro d’água, só com os padrinhos presentes - e depois, em forma de festa, num espaço aberto e super diferente, com os padrinhos vestidos com as cores do arco-íris e tudo pensado nos mínimos detalhes. A Bruna entende que o amor é a base de qualquer relação humana e que para ele acontecer é preciso muita doação. Quando pensa nas outras relações que teve, lembra que se sentia cansada de só doar e nunca sentir que recebia algo em troca, e talvez por isso conviver com a La Salle seja tão diferente: é muito equilibrado. Ela acredita que o amor entre as mulheres é uma base forte na sociedade, visto que a mulher é de fato a base da sociedade e quando uma mulher ama ela faz algo revolucionário, ela constrói e também desconstrói diversas coisas ao seu redor. Elas entendem que ser quem são e amar quem amam não é uma opção e para entender isso é preciso muito trabalho sobre a autoaceitação. La Salle vê a homossexualidade de forma tão normal quanto a heterossexualidade e trata o amor sempre enquanto universal. Porém, na sua vida, passou por diversos enfrentamentos à desigualdade. Já foi atleta profissional de fisiculturismo e depois de se assumir perdeu diversos seguidores e apoiadores, e se sentiu completamente desvalorizada. Até hoje, dentro da sua profissão, é muito difícil ser uma mulher entre os espaços predominantemente masculinos. Na universidade, por exemplo, sempre precisa tirar uma nota muito alta para mostrar que sabe sobre o conteúdo e por vezes é desvalorizada pelos próprios professores homens já que é uma das únicas mulheres da turma. Entende que é preciso seguir para ocupar os espaços de poder no meio acadêmico e mudar isso, incentivar que mais mulheres estudem musculação, suplementação, nos mostrar enquanto uma nova alternativa e trazer novos projetos com a sua presença. Bruna, dentro da diretoria de uma empresa, fala sobre a importância que sabe que o seu papel têm na representação e na busca por mais diversidade. Hoje a empresa é comandada por três mulheres, mas luta por estar sempre num ambiente mais inclusivo. Ela acredita no poder do cuidado - seja com a natureza, com os bichos ou com os humanos - e acredita que todos devem ser respeitados. Por fim, ela diz: “Desde pequenos passamos por um processo muito dolorido para nos encontrarmos. Passei por momentos que não conhecia ninguém gay, foi muito solitário me encontrar enquanto uma mulher lésbica. Se o mundo fosse mais acolhedor esse processo seria mais fácil”. ↓ rolar para baixo ↓ La Salle Bruna
- Thati e Larissa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Thati e Larissa, quando o projeto passou por São Paulo! Conheci a Thaty e a Lari no Parque Ibirapuera, em São Paulo, numa tarde de sábado. Estávamos andando, nos apresentando, quando a Lari disse: “Foi aqui que eu caí depois de beijar a Thaty pela primeira vez.” e eu perguntei “Mas caiu, caiu? Ou caiu, tropeçou?” e ela contou que caiu, mesmo, se ralou e teve que fazer curativos. Na hora, pensei: ok, quero muito ouvir essa história. Mas não vou começar por ela porque o começo se começa pelo começo, e, nesse caso, demorou um pouquinho até o beijo (e a queda no parque) acontecerem. A Thatiely e a Larissa trabalhavam juntas na TV Cultura, mas em horários diferentes. Elas se encontravam de vez em quando, a Thaty era estagiária de jornalismo e a Lari já estava lá há mais tempo. Na versão da Thaty, ela conta o quanto nunca tinha se visto numa relação com uma mulher porque vinha de uma cultura muito hétero (e especificamente “hétero top”), além de que naquele momento estava priorizando o estar-sozinha, por ter passado por um relacionamento bastante difícil do qual saiu bem machucada. O período que passou sozinha foi muito importante para aprender o que aprendeu e também para ver as coisas sob um novo olhar. Eis que, nesse meio tempo, ela encontrava a Larissa e sempre chamava atenção, por usar turbantes bonitos e brincos grandes, nas suas palavras: “É uma pessoa que chama atenção”, mas o olhar da Thaty para ela mesma, até então, não era o de ficar com uma mulher a ponto de ter um relacionamento… ou, pelo menos, ela não estava colocando nenhum rótulo na sexualidade - beijou mulheres em bares e foi entendendo o processo, se aceitando, afinal, foram 25 anos vivendo sob outro olhar e outra cultura, entender a bissexualidade era um tempo novo. Era janeiro e a Thaty trabalhou em um sábado - dia que ficavam pouquíssimas pessoas trabalhando, entre elas, a Larissa. Elas conversaram e surgiu o interesse, mas não sabia se era uma amizade ou uma paquera. Até que se adicionaram no Instagram, trocaram reações e quando chegou o carnaval elas tiveram a oportunidade de ir juntas num bloquinho com os amigos do trabalho. A Lari estava vivendo o momento dela sendo solteira no carnaval, ela conta que só se relacionou com mulheres na vida e foram poucas pessoas, então tinha recém saído de um relacionamento longo também, queria aproveitar o momento. A Thaty brinca que ficava não só observando, mas também se questionando, porque nunca tinha chego em ninguém. Na realidade heteronormativa em que ela estava inserida o costume era que os homens tomassem as iniciativas de chegarem até as mulheres, então ela não sabia como dar o primeiro passo com a Lari. Uma amiga até ofereceu ajuda, mas ela não quis, decidiu chegar lá e falar, mas na hora a Lari nem ouviu o que ela tinha pra dizer, as duas se beijaram logo. ♥ Porém, era um beijo de carnaval, né? No meio de um bloco acontecendo. Nesse mesmo dia elas beijaram outras pessoas - e por mais que a Lari em um momento tenha pego na mão da Thaty ela ainda brincou com um “Não me ilude, não!!”. Foi nessa hora que veio ele: o tombo. A Lari caiu porque estava muito bêbada e apostou corrida com uma amiga. Coisas de carnaval, né?! A Thati estava plena, disse que tinha um curativo e pediu pra eu escolher um machucado pra colocar, ou seja, eram vários. A Lari pedia: “Cuida de mim”, pra Thaty. E de alguma forma, deu certo o cuidado. Logo depois do carnaval a Thaty entrou de férias porque a melhor amiga dela estava tendo um neném e ela queria ajudar nos primeiros dias pós parto. Foram 15 dias sem ir trabalhar e, nesses dias, a Lari passou a trabalhar de manhã, no mesmo horário que ela trabalhava. Quando voltou das férias elas estavam sentadas numa mesa lado a lado, e por mais que isso inicialmente tenha despertado uma esperança, aos poucos foi fechando porque a Lari é uma pessoa bastante séria no trabalho. A Thaty justifica dizendo que a seriedade vem dela ser de capricórnio, porque leva o trabalho com muita lealdade, ficando muito fechada. Mas, como ela é mais tranquila, acabava conseguindo puxar alguns papos e distrair, então elas conversavam um pouco ali e continuavam a falar também pelo Instagram - além disso, todos os colegas incentivavam e apoiavam o casal que parecia surgir. Ainda sobre trabalhos, a Lari, no momento da documentação, possui 25 anos e é natural de São Paulo, ela trabalha como roteirista de audiodescrição, além de dar aulas de espanhol e fazer trabalhos com surdos e cegos. No cotidiano, também estuda para sua meta de vida, que é prestar mestrado em literatura (e, inclusive, dá aulas de literatura também em um cursinho pré-vestibular: o Maria Carolina de Jesus, que fica na capital). Já a Thaty, no momento da documentação estava com 26 anos, é natural de uma cidade chamada São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Thaty trabalha com marketing e experiência/expectativa do cliente em uma startup de alimentos e também dá aulas no cursinho pré-vestibular, porém de Redação. Atualmente, ela cursa Letras na Unifesp, mas já cursou jornalismo e odontologia em outros momentos. Por mais que ela acredite no poder da comunicação e usa muito isso nas suas aulas, não vê mais o jornalismo como uma profissão para si - pois entende que é muito difícil trabalhar com o jornalismo de fato. Sobre a odontologia, ela ainda pensa em voltar (e a Lari incentiva) - por mais que saiba do cansaço que envolve a rotina - acredita que é algo que vale a pena e que vai trazer muito orgulho à família também. Além disso, complementa que um dos motivos para voltar é que o conhecimento é algo que ninguém tira de nós. Foi com essa desculpa de muitos trabalhos e correrias que a Thaty resolveu pedir o Whatsapp da Lari para um projeto de audiodescrição. Por lá, durante a conversa, a Lari a convidou para o aniversário de um amigo em comum e novamente elas se encontraram, mas não ficaram juntas. Logo em seguida, a pandemia começou. E elas passaram todo esse momento inicial pandêmico conversando pelo Whatsapp e adaptando o trabalho para home office. Começaram com ligações à noite, o contato realmente aumentou até que a Lari foi até a casa da Thaty… e assim começaram uma relação que durava o período de se ver quinzenalmente. Até decidirem estar em um namoro, houve uma série de conversas sobre o que elas sentiam sobre isso, visto que a Thaty considerava que o período solteira após terminar uma relação era muito necessário para a pessoa se entender enquanto indivíduo, nos seus problemas íntimos. A Lari, por outro lado, queria viver de fato o romance, se entregar mais e se envolver. Rolou até aquela situação de confundir o ‘tchau’ com o ‘teamo’ e não entender o que está acontecendo de verdade entre elas. Mas foram se encaixando e conversando até chegar no ponto em que estaria tudo um pouco mais equilibrado… e então a Thaty foi apresentada para a família. Ao mesmo tempo que ser apresentada para a família da Lari era um ponto, para a Thaty, envolver a família, era outra questão. A família dela não fazia a menor existência da possibilidade dela se relacionar com uma mulher - e enquanto não acordassem que isso era um relacionamento, ela não sentia a necessidade de contar. Até o momento em que virou um namoro, e aí entenderam que esse passo deveria ser tomado. A primeira questão foi a mãe reagir como uma fase. Entendemos que é um processo familiar e que muitas pessoas passam por isso, que esse processo foi respeitoso sobre o que a filha sentia, mas que houve um certo afastamento - até certo ponto natural para o entendimento de cada uma com seus pensamentos. Contar para o pai que foi mais difícil, pois o passo teve que surgir de outra pessoa e a conversa não aconteceu de fato. Ela conta que, no fim, o processo não é tão doloroso por já não conviverem tanto presencialmente, já que mora em São Paulo há alguns anos. A única coisa que deseja - e luta - é por respeito, e por isso também respeita os processos familiares. Hoje em dia, a mãe dela já trata a Lari com bastante carinho, o que mostra que as coisas precisam de um tempo, e a mãe dela até brinca que as duas já estão se casando, com naturalidade. A família da Lari passou por outro processo, visto que é uma família que está mais próxima do relacionamento das duas e que sempre manteve a Lari muito perto. Desde mais nova eles sabem da sexualidade dela e não foi de uma forma fácil, pelo contrário: foi muito mais abrupta. Mas, também, foram processos. Ela falou algumas vezes na conversa a frase: “A educação me salvou.”, referindo-se à faculdade como um processo de libertação. No processo do relacionamento elas já passaram por muitas coisas, entre tentativas de morarem nos fundos da casa dos pais da Lari, até uma maturidade e um crescimento muito rápido das duas juntas nos primeiros meses de relação. Aprenderam a ter mais cuidado com os outros, não só em relação à empatia, mas em relação ao cuidado com quem se envolve, pois tinham suas energias rapidamente sugadas. Aprenderam a acreditar e ter mais fé na religião, no que está em volta e a serem mais elas por elas, juntas. Hoje em dia morar na mesma casa não significa casar. E casar, principalmente para a Thaty, tem um peso gigantesco. Ela sempre quis casar. Quis e idealizou a vida toda casar com um homem, naqueles moldes que conhecemos, mas hoje está feliz com uma mulher. “Eu quero casar com uma mulher. Quero fazer festa, convidar pessoas que gostamos. Quero viver esse momento, sempre sonhei com esse momento e quero viver isso com ela.” Elas falam sobre a naturalidade do relacionamento que possuem e que querem refletir isso no casamento, mesmo sendo socialmente tratadas diferentes, sabem que o amor que sentem é puro e natural. Por mais que existam idealizações no amor, a Thaty entende que tinha muita referência no amor que via em casa, entre os pais, pois eram muito cúmplices e amigos. Até hoje entende que o amor está na parceria e no cuidado, não nos grandes feitos: o amor é todo o dia. “O amor tá quando minha mãe manda o remédio pra Larissa quando ela tá gripada.” Hoje o relacionamento da Lari e da Thaty representa algo que elas conquistaram juntas, o melhor que elas puderam ser. Isso não quer dizer que não existam uma série de questões individuais próprias, de problemas a enfrentar ou de vida a acontecer, mas que o que era antes uma batalha solitária hoje em dia é uma força conjunta. A Lari conta sobre um livro do qual ela sentiu uma conexão muito forte, o “Amares”, do Eduardo Galeano, em que são crônicas sobre tudo que ele ama - e tudo que ele ama é literatura. Já estava tudo escrito de outros livros, ele só organizou. São várias esferas de amor. Ela fala, também, sobre o quanto encontrou o amor na religião e o quanto isso é importante para o entendimento dela enquanto pessoa: “Eu agradeço muito a Oxum e Oxalá que são os dois orixás que regem a cabeça dela (Thaty), pela vida dela e espero que muitas mulheres possam encontrar outro amor assim. Não só amor romântico, mas amor no geral porque eu acredito que o amor entre duas mulheres pode transformar a vida uma da outra porque tenho certeza que esse me transformou. Eu me sinto livre. Todos os dias eu quero fazer uma coisa nova e ela tá sempre me incentivando. Eu me sinto forte.”. Larissa Thatiely
- Jamy e Rebecca | Documentadas
Amor de Festa - Jamy e Rebecca clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Jade e Yáskara
Jade e Yáskara são duas psicólogas, gaúchas, que dividem a vida em Belo Horizonte. Chegaram na capital mineira em março de 2021, durante a pandemia. Entendem que, mesmo com o acaso de terem passado as últimas férias pré-covid em Minas Gerais, a razão da mudança foi única: uma nova oportunidade de trabalho. Yáskara, que no momento da documentação estava com 40 anos, é natural de Palmeira das Missões, interior do Rio Grande do Sul. Já morou em diversas cidades do RS e estava morando em Porto Alegre há alguns anos. Ela é psicóloga e dá aula em universidades, estava se sentindo esgotada porque seu trabalho preenchia os três turnos do dia e sentia que precisava desacelerar o ritmo. Jade no momento da documentação estava com 26 anos, é natural de Porto Alegre e por lá trabalhava com a psicologia dentro das políticas públicas, em uma casa-lar na Restinga, bairro periférico da Zona Sul. Seu trabalho também mudou com a ida para Belo Horizonte, decidiu atender de forma clínica e se voltar para um público específico: a comunidade LGBTQIA+ e pessoas em situação de pós-encarceramento. A oportunidade surgiu lida como uma brincadeira pela Yáskara, que chegou para a Jade contando: “Recebi essa proposta de trabalho, mas não tem como, né? Imagina, morar em Belo Horizonte…” e, para a surpresa, Jade respondeu: “Por que não?”. Depois disso, começaram a pensar melhor sobre e embarcaram nessa nova cidade. Hoje em dia, entende e enfatiza a importância de estar em espaços acadêmicos para mudar as coisas de dentro, trazendo representatividade, reinventando a psicologia. Jade e Yáskara se conheceram em 2016, mas só em 2018 foram se relacionar de fato. Na época, elas viviam relacionamentos distintos e, quando entenderam o que sentiam, precisaram encerrar as relações para ficarem juntas. Foi um momento muito delicado por conta das diversas emoções, misturadas com muito trabalho diário. Por outro lado, contam que gostaram tanto de ficar juntas que, ao dormirem na primeira noite, nunca mais se desgrudaram: sentem que desde então dormiram juntas todos os dias. Juntaram as coisas, os cachorros e foram morar juntas, logo no início. Sentem que a experiência da relação ser um casamento vem desde esse início. Não tiveram tantos momentos clichês de um começo de relação, mas sim momentos específicos que hoje em dia lembram dando risadas: no primeiro cinema juntas, dormiram, de tão exaustas que estavam. Na primeira vez na praia tomaram insolação, porque esqueceram o protetor. Dentro de casa, viveram toda a pandemia juntas. No começo foi difícil, estavam morando em um apartamento sem divisões em Porto Alegre, precisaram entender como seria a dinâmica. Hoje em dia, no novo lar em Belo Horizonte, deram muito valor a isso desde o começo: como trabalham bastante em home office, cada uma possui um espaço demarcado em casa que seja confortável para seus atendimentos e trabalhos. Pelas tantas vivências no início e depois já ter embarcado na pandemia e na mudança de estado, sentem que já viveram muitas coisas juntas. Contam que conversam sobre tudo (e imaginamos, né? duas psicólogas juntas!), compartilham muito sobre o que estão pensando, sentindo e como foram seus dias. Não costumam se desentender por coisas sobre o relacionamento, discutem mais por questões rotineiras: como o comportamento dos bichos em casa. Gostam muito da companhia uma da outra, de beber vinho ouvindo música, de estar compartilhando pensamentos e sentem que não são o tipo de casal que fica sozinha individualmente. Elas têm seus espaços, mas sempre que podem estão juntas desfrutando dos ambientes de convívio em comum. Em Belo Horizonte, procuram conhecer “espaços de respiro”, ou seja, lugares que sejam confortáveis para estarem enquanto mulheres da comunidade LGBT. Acreditam que se unem muito pelas questões políticas (a primeira foto que possuem é na manifestação contra o Bolsonaro/Ele Não em 2018, por exemplo) e também buscam lugares de militância na cidade. Além disso, gostam de assistir shows (e elogiam quanta cultura há em BH), além de ocupar espaços públicos como praças e eventos abertos pela cidade. Atualmente, além de viajar para o interior de Minas Gerais, também adotaram um gatinho mineiro, fazendo companhia para os cães da casa. Entendem que viver a mudança e o dia a dia da forma que vivem significa muita união. São elas por elas, ou como disseram: ‘nós por nós’. Estão abertas a fazer novas amizades e desbravar a cidade, mas acabam sentindo uma confirmação de amor ainda maior quando olham para trás e percebem o quanto já caminharam juntas. Jade acredita que é muito importante se referir à Yáskara como sua esposa, pela ressignificação de termos heterossexuais. Falam sobre a importância do casamento neste sentido também - em breve a cerimônia será realizada e, por mais que a Jade cresceu ouvindo sua mãe dizer “Não case! Depender de homem é muito ruim!” hoje entende que o que estão fazendo não fará que elas sejam dependentes financeiramente de alguém. Sente que o casamento LGBT+ vem em outro sentido, falando muito mais sobre uma ressignificação de direitos, um planejamento para a facilitação na burocracia de ter filhos e um direito que nós temos. Ambas vivenciaram relações heterossexuais duradouras e falam sobre agora encontrarem outro sentido para as relações amorosas enquanto estão juntas - coisas até que não cogitavam pensar, como ter filhos. Yáskara fala sobre estarem pensando na maternidade, algo que ela nunca tinha se visto desejar antes. Pensando juntas, adoram a ideia de ter um ou dois bebês, e comentam que o desejo de engravidar não chega enquanto uma questão heteronormativa estereotipada do qual um casal namora > casa > engravida, e sim como algo que temos direito, que querem vivenciar, conquistar juntas enquanto uma nova perspectiva de aprendizado, cultura e educação. Para Jade, o amor passa pelo afeto, porque é o afeto que nos move em tudo o que fazemos, faz ter propósito. Yáskara complementa que amar é ter também respeito pelas diferenças. O amor que constroem passa pelo respeito e pelo apoio sobre o que pensam, além de ser livre, não necessariamente no sentido monogâmico, mas livre para que estejam confortáveis e à vontade na relação, sem um ultra romantismo: que as permitam viver bem, que se ampliem juntas. Contam sobre uma situação que quando começaram a namorar foram para Salvador e decidiram jogar búzios antes de chegar lá. Neste momento, o pai de santo trouxe várias coisas interessantes sobre o relacionamento delas e perguntou se elas estavam preparadas para viver ‘uma metade só da laranja’, porque elas eram a mesma metade, por serem tão parecidas. Ao decorrer do relacionamento entenderam que isso faz muito sentido, se vêem muito uma na outra. Além disso ele disse que a Jade casaria aos 26, o que, sem elas perceberem, acabará se concretizando. ↓ rolar para baixo ↓ Yáskara Jade
- Raquel e Rachel
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Raquel e da Rachel, quando o projeto passou por São Paulo! O sorriso que ele soltou naquele momento foi revolucionário. A cada momento em que eles se permitiam, esse amor se tornou revolucionário. O casamento delas, os convidados, o significado diário da casa, tudo isso é revolucionário, porque para elas estarem ali em um momento tão importante, sendo respeitadas, amando e podendo unir-se perante o matrimônio em si, muitas pessoas tiveram que lutar. E seguimos lutando pelas tantas mulheres que um dia poderão amar livremente, com suas famílias apoiando e se emocionando. A Rachel, termina falando sobre esse momento, bastante emocionada, mas me disse algo que marcou bastante e ecoou durante semanas na minha cabeça, uma coisa simples que a gente esquece: a ideia de que a vida é uma só. E que a gente não pode parar. Não vale a pena deixar pra depois, tem que amar mesmo, amar com vontade. O único egoísmo que a gente tem que ter é o de querer fazer o bem pra nós mesmas. Infelizmente, o pai da Rachel se tornou uma das vítimas da Covid-19 no Brasil. O Documentadas gostaria de homenageá-lo enquanto o homem forte, durão, porém com sorrisão, que tanto ouvimos falar bem ♥ e temos a certeza de que, de onde ele estiver, ele está tão orgulhoso quanto o dia que viu a Rachel dizendo “sim” durante o casamento: com a certeza de que criou e educou uma filha bem demais! À todas e todos que perderam algum familiar ou amigo para o Covid-19, nosso abraço e carinho. Seguimos juntas. ♥ Rachel, você é. É porque acontece! É porque é grandiosa! É! É um montão de coisa boa. Ou melhor, Raquéis, vocês são! :D Falamos bastante aqui sobre os pais da Kel, mas a família da Rachel também tem um papel incrível e emocionante nessa história. A Rachel foi adotada ainda bebê e os pais dela são mais velhos, assim como os irmãos. O processo de descobrimento e de saída do armário dela, ainda mais nova, em tempos diferentes e realidades diferentes, exigem outra perspectiva e outro entendimento. Com a chegada da Kel e do relacionamento delas, foi a primeira vez em que a família da Rachel realmente se abriu para a aceitação da sexualidade dela enquanto uma nova formação de família e principalmente o pai, por ser um homem mais fechado, permitiu-se abrir a novos pensamentos e novas vivências, mas não só: as meninas brincam que toda vez que a Kel chegava na casa deles ele abria era logo um sorriso de orelha a orelha. Ressignificação de lar. Esse é o nome do que ela sentiu. A Kel trouxe um presente gigantesco: ajudar ela a ressignificar a relação com a família de uma forma única. Durante o casamento delas foi muito legal ver a forma que eles se permitiram e se entregaram. O maior presente de todos foi a presença deles lá, estando à vontade, felizes e orgulhosos. Existe um vídeo, do qual as duas estavam de costas para o público e de frente para o cerimonialista e tem a imagem do quanto ele se emociona estando feliz quando a Rachel diz sim. Poucas vezes temos exemplos tão nítidos do quanto o amor entre mulheres pode revolucionar a vida das pessoas, e esse, com certeza, é um dos melhores exemplos que temos. ♥ O relacionamento foi se desenvolvendo e com o passar do tempo cada vez mais as duas se viam apaixonadas e entendiam o quanto a vida é realmente feliz uma do lado da outra. A Rachel comenta o quanto sempre foi claro para ela o amor nítido que sentia, o quanto isso realmente significava algo revolucionário, desde aquela época. A Kel conta que sentia o amor enquanto um sentimento puro. Com respeito, com cuidado. E a Rachel completa que por mais que o amor não tenha gênero e nem sexo, ele acontece principalmente quando você se vê capaz de amar uma pessoa na íntegra. Por fim, a Kel diz que Deus nos fez para amar o próximo e ela realmente acredita que, além de nos amarmos por ser o melhor a ser feito, amar é também um encontro de almas. Mas que de qualquer forma, independente da relação que você tiver, ela não pode ser pesada. Os encontros nas nossas vidas devem servir para nos acrescentar, não para nos pesar - e serem leves. “Se nascemos sozinhas, temos que estar bem sozinhas. Se for pra ser pesado e fazer mal, não vá. Você tem que ser leve, em geral, tem que te fazer bem! Pode ser que tenha um dia ou outro ruim, mas nunca que te faça mal.” Foi em um período pensando sobre o amor e sobre o quanto gostaria de viver para sempre essa relação com a Kel que a Rachel tomou a decisão de fazer o segundo pedido, mas dessa vez, o de casamento! Para o pedido de casamento acontecer, contou com seus dois grandes aliados: os sogros! Então ela ligou para o pai da Kel e disse: “quero pedir a sua filha em casamento, mas quero pedir a sua bênção, a sua ajuda, a sua permissão. Ela não sabe e não pode saber. Quero ter certeza que para você está tudo bem.” Foi um novo choque, mas ele topou: “conta com a gente, estamos do teu lado! E eu quero te dar o champagne!”. Ela ligou para a sogra e o pedido também foi feito. Ambos ajudaram na preparação, escolheram alianças e a surpresa foi montada. No fim de 2018, a Rachel levou a Kel para ver um nascer do sol na praia, totalmente vazia, no interior de São Paulo. Quando elas chegaram, sentaram na areia, tudo estava no carro preparadinho e ela decidiu levantar e preparou uma cartinha para ler. Estava tremendo muito, a Kel achou fofo mas não imaginou que fosse logo um pedido assim… quando o pedido foi feito, o sol estalou e brilhou muito forte, se abriu e ela disse sim. ♥ Foram duas alianças de noivado e elas não ajoelharam, para que tudo fosse de igual para igual. Em São Paulo, todos já aguardavam notícias. O casamento aconteceu em setembro de 2019, em uma festa para os amigos mais queridos e em um dia muito especial. Tudo foi preparado pensando em cada detalhe e todos se divertiram muito. O encontro da Rachel com o pai da Kel foi muito importante para que ele também entendesse que a Kel nunca deixou de amar as pessoas enquanto seres humanos. Por mais que pudesse soar que ela estava em um momento mais carente, ele de alguma forma ficou preocupado pela Rachel ter terminado um noivado por alguém que pudesse estar “em dúvida”. A conversa foi muito importante para explicar a existência da bissexualidade em si e as formas de amar, de deixar ele mais tranquilo como um todo vendo a construção do relacionamento das duas. A conversa fez com que ele falasse com a mãe da Kel e ela foi se abrindo para a ideia, até chamou a Rachel para comer uma pizza com elas e se deram muito bem. Foi uma chuva de elogios gigantesca para esses dois ♥ pessoas muito generosas e que estiveram o tempo todo na base e no apoio dessas mulheres que esbanjam amor. Essa “saída do armário” aconteceu apenas com os pais da Kel, isso é bastante importante e legal de ressaltar. Ela nunca precisou fazer esse movimento com os amigos. Apenas disse que levaria alguém no bar/no churrasco/no evento e chegava com a Rachel, não precisava dar nenhum tipo de satisfação ou explicar, assim como uma pessoa heterossexual não explica que vai chegar com um namorado homem. Ela chegava de mãos dadas e em dois minutos todos já estavam adorando as duas, porque viam o quanto elas se davam bem, tratavam os outros bem e se divertiam juntas. A história da Kel e da Rachel começou um pouco antes e, por incrível que pareça, através do pai da Kel. O ano era 2016 e ele fazia aula de hidroginástica e quem dava essas aulas era a Rachel. Ambos se davam muito bem, brincavam, faziam piadas, se viam toda semana e ele sempre comentava com ela que queria muito levar a filha dele para fazer aula um dia porque acreditava que elas pudessem se tornar grandes amigas. Quando a Kel finalmente foi nessa aula, de fato elas se deram muito bem! A amizade surgiu logo de cara, não foi algo com segundas intenções. Primeiro porque a Rachel nunca cogitava se envolver com alguém em seu ambiente de trabalho e segundo porque ela também estava em um relacionamento de anos. Nas semanas seguintes a Kel iria voltar para as aulas, mas colocou alguns piercings e precisou ficar afastada da piscina por um tempo, então elas tiveram aquele contato inicial e passaram alguns dias afastadas. Neste meio-tempo, a Rachel, que estava no relacionamento, passava por um momento diferente. O relacionamento que vivia um processo muito mais de amizade que relação entre casal envolvendo paixão em si, foi surpreendido com um pedido de casamento! E esse pedido veio em um sentido de tentar dar um novo rumo para a relação, uma última chance. Envolvia um carinho bastante grande, mas não aquele impulso e desejo brilhando o olhar, foi uma tentativa de recuperação. Ela aceitou o pedido e colocou a aliança no dedo, mas não contou para os colegas de trabalho sobre. Estava em um processo mais intimista. Foi então, durante uma aula, que o pai da Kel logo observador e brincalhão percebeu o anel de ouro na mão e chegou perguntando o que era essa novidade que ela tinha para contar. Como ninguém sabia do seu relacionamento com uma mulher, ela - para todos os efeitos - estava noiva de um homem. Quando a Kel voltou, já sabendo da novidade pois o pai comentou em casa, teve a aula esperando que a Rachel comentasse. Animada, a cada intervalo esperava ouvir sobre o pedido, mas nada aconteceu... nem se quer comentou. E então ela questionou, já que gostava tanto de casamentos, não conseguia entender como alguém não compartilhava algo tão emocionante… e foi aí que a Rachel sentiu que podia confiar na amizade (mesmo que ainda breve) delas e elas marcaram um café depois da aula, lá que ela contou: “rolou sim o pedido e sim, aceitei. Mas eu vou me casar com uma mulher”. Logo depois do primeiro beijo a Kel foi para uma viagem com os pais, enquanto a Rachel conversou e terminou o seu relacionamento. Foi tudo com bastante comunicação e ambas entenderam que era o melhor a se fazer. Quando a Rachel e a Kel lembram sobre o começo do namoro, contam como tudo era muito especial. Os primeiros beijos foram muito marcantes, eram como os melhores beijos da vida, algo que elas nunca tinham sentido. Uns meses depois de estarem juntas e quando já se sentiram mais à vontade, relaxadas e tranquilas, a Rachel fez o pedido de namoro num lugar muito especial para elas e do jeito que a Kel sempre sonhou: aqueeeele pedido! Flores, champagne, alianças, tudo! Ela aceitou ♥ Um tempo depois, decidiram contar aos pais da Kel, visto que era muito importante para ela que a família soubesse do relacionamento. Elas não imaginavam como eles poderiam reagir, ainda mais por ser algo que nunca tivessem esperado e imaginado, mas compreendiam que eles fossem ter o tempo necessário para processar e elas estariam por perto dando suporte. No começo, eles sentiram um choque, ficaram mudos, não falaram nada. Mas também não brigaram, tentaram entender e ouvir ela. Os próximos dias foram difíceis pelo pai da Kel ter aula com a Rachel, mas em nenhum momento ele foi desrespeitoso, só deixou de fazer tantas brincadeiras com ela. No fim da aula, ela chamou ele para conversar e disse que estava disposta a tomar um café quando ele quisesse, no tempo dele, para falarem sobre. Ele agradeceu e explicou que ainda não estava preparado, mas que iria chamá-la quando estivesse. Uma semana depois o encontro aconteceu, tomaram um café e a Rachel se sentiu à vontade para contar a história dela, como ela se entendeu, se descobriu e o que ela sentia pela Kel. Explicou também que não era uma brincadeira, uma maldade, uma paixonite. Ele se mostrou muito aberto a entender o que ambas sentiam. A Kel conta que nesse dia, quando ela soube sobre a sexualidade da Rachel, algo nela despertou como “caramba, a primeira mulher que cheguei a pensar sobre achar interessante também fica com mulheres... mas está noiva e vai casar! Sigo meu baile, quem sabe com ela posso compartilhar esse tipo de coisa futuramente.” e com o passar do tempo a amizade entre elas foi crescendo. Depois da aula elas marcavam cafés, a Rachel dava caronas para a Kel até em casa e tudo era bastante saudável. Quanto mais aulas elas faziam juntas, mais se viam e conversavam, foi despertando vontades de se falar via Whatsapp e de se encontrar em outros momentos também - por mais que os encontros fossem sempre limitados às aulas. Mas isso fez com que surgisse algo como uma certa paixão antes mesmo de se envolverem fisicamente, já existia ali o começo de um sentimento. A Rachel não queria tomar nenhuma atitude por conta do seu relacionamento, não achava justo se envolver em uma traição. Nunca quis isso e por mais que estivesse cada vez mais claro que a relação não teria futuro, não queria que acabasse de forma tão ruim. Além disso, ela também não sabia se o sentimento era algo da cabeça dela ou se a Kel também estava envolvida da mesma forma, se um beijo colocaria em risco a amizade que elas construíram ou como ficariam. Não queria perder: nem o relacionamento, nem a amizade. Foi durante um feriado que resolveu conversar com a Kel e falar sobre o que estava sentindo e ambas concordaram que na próxima vez em que estivessem juntas resolveriam se aconteceria o beijo ou não. Até que o dia chegou e, no último minuto possível do tempo em que tinham para ficarem juntas, aconteceu! E a partir daí elas tinham certeza: era, realmente, para estarem juntas. Rachel e Raquel. Raquéis. Quando a Kel entrou em contato com o Documentadas, ela brincou: “queríamos contar nossa história para vocês! Temos poucas coisas em comum, além do nome, mas garantimos uma história legal!”. Achei que o nome se limitasse ao Raquel, mas quanta ingenuidade a minha. Depois do casamento virou o mesmo nome e sobrenome! Agora, ao menos para as autoridades, são quase-que a mesma pessoa. Na nossa documentação para que a história não fique confusa, identificamos a Rachel sempre dessa forma: com ch. E a Raquel enquanto Kel :) Bom, a Rachel é paulista, professora de natação, adora a natureza, sempre curtiu diversos esportes. Ela já teve outros relacionamentos com mulheres, mas nunca foi uma pessoa que falava sobre isso nos espaços de trabalho e que militava ativamente na pauta LGBT. Ela mantinha seus relacionamentos de forma estável fora do ambiente profissional (e tudo bem assim!). No mais, sempre foi apaixonada pelo mundo e por viagens, por conhecer lugares novos e por estar fazendo novas amizades. Já a Kel também é paulista, publicitária, sempre foi uma pessoa apaixonada por histórias de amor e por casais - sabe aquela amiga perfeita para ser madrinha de casamento? Aquela que se empolga na organização, quer saber todos os detalhes sobre o pedido e que cada momento seja perfeito? É ela. Na vida da Kel, antes de ela conhecer a Rachel ela nunca tinha se imaginado em um relacionamento com outra mulher - nem tinha afetivamente se envolvido por uma mulher - mas sempre soube que era apaixonada pelas pessoas em suas formas diversas de ser. Rolar Rachel Raquel
- Talita e Anne
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Talita e da Anne, quando o projeto passou por São Paulo! Talita e Anne acreditam que, depois de batalhar tanto por esse amor, o relacionamento que possuem hoje é o único que aconteceu de forma saudável na vida delas - e por isso, mas não só, é o melhor. O amor é a base de tudo o que fazem e nele está a presença, a paciência, o acolhimento.. Não querem passar raiva. A paz que encontram juntas não trocam por nada. É com os passeios dos cachorros na rotina que detalham vivenciar na casa “do meio do mato” que elas sorriem contando sobre o amor. Pensam como sempre desejaram isso: viver com alguém que aceitasse a forma como são. Pela religião que eram inseridas, acreditavam que isso não era possível - não para elas. Sempre foi negado. O encontro que possuem e o fato de terem achado seu lugar no mundo é sempre um motivo de celebração. Sobre a religião, Talita lembra do dia que a mãe dela perguntou no telefone como a Anne estava. Era um ato simples, mas a validação da existência da Anne, sabendo a importância que ela possui para a Talita, mesmo existindo o preconceito, foi o divisor de águas e um dos maiores atos de amor. Tanto Anne, quanto Talita e suas famílias eram da igreja petencostal Congregação Cristã (mas calma, não foi lá que se conheceram). Acredito que essa é uma informação bastante relevante porque a Congregação é uma das religiões mais conservadoras do Brasil. Suas famílias seguem frequentando a igreja (e comentam que isso, inclusive, aproxima as mães que perguntam uma sobre a outra), mas acreditam que foi justamente por conta do grande tabu e do próprio preconceito contra seus corpos que demoraram tanto para se entender enquanto mulheres que amam outras mulheres. Anne, apenas aos 32 anos de idade, conseguiu sentir coragem de assumir que estava num relacionamento. Até essa idade, tratou namoradas como amigas, não enfrentou ninguém da família e teve medo. Precisou de muita coragem, ter 100% de sustento e independência para conseguir falar sobre. No primeiro momento, a mãe ficou bastante triste. Dois anos depois, conheceu Talita e hoje em dia elas se amam, passam dias juntas e possuem uma ótima relação, mas entende o quanto o processo foi longo, resgata tudo isso com muito pesar. Talita também demorou para entender e aceitar o que estava vivendo, até mesmo conversar com suas amigas, sua psicóloga, mudar o Tinder para “mulheres” e não “homens”. Foi só aos 32 anos que conseguiu se permitir. Anne comenta que na igreja falavam em tom de alerta que as meninas lésbicas chegavam fazendo carinho no cabelo para seduzir as meninas héteros e levar para um caminho ruim… e acrescenta sobre a solidão em que passou por tudo isso: “Quem me dera se alguém tivesse me feito um carinho no cabelo quando eu era jovem”. No momento da documentação, Talita estava com 34 anos. Ela é natural do sul de Minas Gerais, mas mora em Campinas há vários anos, quando se mudou para estudar. De qualquer forma, sua família ainda mora em Minas, numa região bastante próxima de São Paulo, então brinca que é mais paulista que mineira. Hoje em dia, ela trabalha enquanto jornalista e funcionária pública, adora tirar fotos de natureza e bichos, também escreve para uma revista de engenharia elétrica. Anne, por sua vez, estava com 37 anos no momento da documentação. Ela é natural de Campinas, interior de São Paulo. Trabalha enquanto técnica judiciária e vai se formar em direito em 2024. Anne adora cozinhar, plantar e formar jardins. Possui um hobbie do qual mistura raízes, descobre novas plantas e até faz uma espécie de alquimia, com raízes, plantas, álcool… Mora em uma casa grande, então adora pesquisar, encontrar plantas em extinção e plantar, cuidar, descobrir cheiros, sabores e espécies brasileiras. Anne também é apaixonada por romances lésbicos - os brasileiros, já leu todos - e está desbravando internacionais… são mais de 150 livros lidos. A história delas começou por conta de amigas que tinham em comum (mais especificamente, a prima da Anne), mas não sabiam da existência uma da outra. Foi em 2019 num aplicativo de relacionamento, que de fato, se conheceram, descobriram as amizades que ligavam, conversaram, se acharam interessantes e decidiram se encontrar. Adoravam a mesma cantora em comum (que não era alguém conhecida), a Anne apareceu na casa da Talita cheia de sacolas com comidas, estavam grudadas demais em pouco tempo e… quando viram já estavam apaixonadas. Quando a pandemia começou elas quase não se encontravam. Anne ia até a prefeitura onde Talita trabalhava, elas sentavam uma ao lado da outra em um banco, ambas de máscara, ficavam conversando, mas havia muito medo do Covid-19. E assim seguiram por meses. Hoje, enxergam tudo diferente. Sentem que estão num período muito bom. Possuem seu relacionamento de forma assumida, se sentem livres para viver esse amor. Talita explica que por mais doloroso que tenha sido, foi bonito também… Entende que existiu respeito. De alguma forma, a família passou por cima da fé para acolher elas… E isso foi muito importante. Em muitos momentos difíceis, Anne se isolou para passar por eles de forma sozinha e Talita teimou em estar junto. Tentava sempre explicar que queria estar em todos os momentos - nos felizes e nos tristes - e que não adiantava ela se reclusar. Hoje, Anne não faz mais os movimentos de sair. Ela explica que não teve mais momentos tão tristes, mas que mesmo se tivesse, já se acostumou com a Talita enquanto companhia e vai querer a companhia dela para dividir a dor. Numa pausa, ela conta como enxerga Talita enquanto uma mulher muito forte. Talita rebate, diz que ela não é forte, só não pensa muito, vai lá e resolve. Sempre se viu assim, muito prática. Anne completa: “É forte.” Na rotina, elas dividem o tempo entre ficar no apartamento da Talita e na “casa do mato” da Anne. Lá, adoram passear com os cachorros, ficar no sofá assistindo filme e dormindo. Talita ajuda a sogra a fazer ‘Duo Lingo’ (porque está aprendendo inglês), organizam as coisas da Anne (que é bagunceira) e Anne faz comidas gostosas. Por fim, adoram viajar juntas (e começaram a viajar no começo do namoro, o que era novo para as duas). Entendem que o namoro foi intenso desde o começo, talvez foi por isso que deu tão certo. Talita conta que gosta de como tudo aconteceu, de como estão agora, das amizades dela (várias amigas senhoras de idade, acha isso o máximo e Anne brinca zoando ela) e do cotidiano bastante caseiro que possuem enquanto um casal. ↓ rolar para baixo ↓ Talita Anne
- Vanessa e Denise | Documentadas
Amor de Pretitude - Vanessa e Denise clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Samantha e Camila
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Samantha e da Camila, quando o projeto passou por São Paulo! Quando lancei o Documentadas uma mulher lá de Campinas entrou em contato comigo dizendo que queria que eu fosse para lá registrar ela e a namorada e eu respondi aquilo que todas encontram aqui no site quando se inscrevem: se arranjarmos mais casais que topem participar, maior a chance de eu ir (pela possibilidade de organizarmos vakinhas, pela demanda, organização, etc). Passaram três meses e, por mais que a Camila vez em quando aparecia inbox dizendo "não esqueci de vocês, tá?" eu pensava "tá! hahaha vamos organizar!" e achava que de fato iríamos organizar, porém não naquela hora… ATÉ QUE ela surgiu dizendo que tinha organizado 10 casais que topariam participar, com horário, agenda, local, doação garantida e tudo o que tinha direito. Fiquei chocada, pensando: será que ela realmente existe??? E aí ela me contou o motivo: eu quero que o Documentadas venha para Campinas porque preciso do Documentadas registrando o pedido de casamento que vou fazer para a Samantha! Tá explicado, né? O casamento de duas mulheres é capaz de mover o que for, inclusive levar o Documentadas até Campinas. Depois que confirmamos a ida e que comprei as passagens, comecei a participar ativamente da preparação do pedido de noivado das duas - que até então seria uma surpresa para a Samantha. Precisávamos manter a seriedade e o segredo para que ela não desconfiasse de nada (e eu não poderia deixar escapar nenhum detalhe pelo perfil do .doc), então deixei para divulgar só quando já estivesse lá. Fiquei hospedada na casa dela, tomando todos os cuidados, detalhadamente, perante à pandemia. E diferente dos outros casais com quem tenho contato e converso, fiz uma imersão na vida dessas duas ♥ - foram três dias vivendo a realidade delas, ouvindo suas histórias, vivendo a rotina e trocando conhecimento. Ao chegar lá, minha mala virou a mala do noivado, enquanto a Sá trabalhava fomos em lojas de decoração, compramos confetes, comidas, acessórios de festas... e a ansiedade da Camila virou a minha - então fiquei a responsável por organizar como seria o momento - e bloquear a Samantha no perfil do Documentadas no Instagram (fingindo que eu estava sem internet!) para que ela não visse as publicações em que eu contava para o público da página que o pedido de casamento seria feito durante as fotografias do .doc (e que eu iria transmiti-lo ao vivo). Bom, aconteceu! Deu tudo certo. Fomos para uma chácara, junto com a Clara e a Mayara, que também estarão com suas histórias aqui no Documentadas e que auxiliaram em toda a surpresa. A Cami estava tão, tão, tão ansiosa que quase colocou tudo a ser descoberto várias vezes? Sim. Eu fingi que estava irritada para a Samantha não desconfiar de tanta ansiedade 'à toa' no ar? Também! [O que a gente não faz... né?] E ela realmente não esperava, foi lindo. Vocês podem conferir as fotos do momento aqui ♥ Camila tem 35 anos, atualmente trabalha como barbeira e tem um espaço em que atende os clientes lá em Campinas, mas conta que já trabalhou com quase tudo nessa vida: já trabalhou em navio, já foi babá, já foi garçonete, é longa a lista! Morou muitos anos na Europa, em alguns lugares diferentes, foi lá que se entendeu enquanto uma mulher lésbica e decidiu voltar para o Brasil um pouco antes da pandemia pela necessidade de se ver um pouco mais próxima da família e cuidar da saúde mental. Foi aqui que ela conheceu a Samantha, que tem 27 anos, é bancária mas também não perde a oportunidade de fazer um freelance no fim de semana e ganhar uma renda extra! Falando em renda, juntas elas lançaram o Laricas.com, uma marca de comida, vendem salgados de festas, salgados maiores e alguns doces também. A mãe e a avó da Sá participam do empreendimento, ajudando nas vendas e na produção. Quem começou tendo a ideia, na verdade, foi a mãe; As duas toparam, a avó que é super conhecida no bairro por ter várias amizades e organizar bingos decidiu ajudar nas vendas e na divulgação e então todas começaram a vender juntas. A Cami costuma fazer as entregas e elas vendem pelo próprio Instagram (no Instagram no .doc, você chega até elas e por lá pode encomendar, se morar em Campinas ♥ garantimos: é bom demais!). As duas nasceram no mesmo bairro, cresceram na mesma região e descobriram muitas coisas em comum, mas só foram se conhecer mesmo há 2 anos e meio atrás, através de um aplicativo de relacionamento para mulheres, o Wapa. Conversaram pouco por lá, cerca de uma semana e a Cami lembra que tinha algo no perfil da Sá sobre ela gostar de queijo, então decidiu que iria mandar uma foto de uma tatuagem que ela tem que é um queijinho e pensou "ah, vai que rola, né???". E rolou. De lá, ela comentou sobre uma festa que iria acontecer, com música eletrônica em uma parte da cidade, era uma festa cheia de drags, um público bastante ‘underground’... E a Samantha contou que estaria fazendo um freelancer nessa festa! Foi então que elas marcaram rapidamente de se encontrar. A Cami estava enfrentando um momento muito sério e difícil na depressão, não se sentia bem e inclusive, ir para a festa, foi bem delicado. Não queria estar lá, não estava legal e até pediu para que a mãe a levasse porque não poderia ir dirigindo e também não tinha dinheiro para o Uber ou o táxi. Quando ela chegou, encontrou uns amigos e comprou uma cerveja para impressionar, porque o dinheiro era limitadíssimo, mas o charme ela não abriu mão e quando foi fumar na rua a Sá passou por trás dela e encostou a mão nas suas costas, dando um 'oi', mostrando que a viu... e ela brinca 'Aí garanti minha carona para ir embora'. No dia da festa ela realmente garantiu a carona para ir embora, a Sá deixou ela em casa e perguntou o que ela ia fazer durante a semana, se elas podiam se ver... E bom, ela estava totalmente trancada num quarto escuro em depressão, claro que não tinha nada agendado para fazer durante a semana. Topou o encontro. Esse encontro virou outro, e outro, e outro. 28 dias depois elas começaram a namorar, no dia dxs namoradxs de 2019. As famílias admiram muito o relacionamento das duas e elas entendem que é pelo tanto que se ajudam. A Sá chegou naquele quarto escuro, literalmente, trazendo luz. Ela chegava e abria as janelas, falava "nossa, tá muito escuro aqui!" e saía abrindo tudo. Mudava as coisas de lugar, fazia ser diferente. E a Cami se permitia mudar. Da mesma forma que a Cami, nesses 2 anos, vêm trazendo diversas novas perspectivas para a Sá - trouxe a terapia, um novo olhar sobre o trabalho, a vida dela, a forma que ela vê os outros... tudo é muito mais saudável. Desde o primeiro momento em que eu estive com elas percebi o quanto as realidades delas são diferentes, a Cami vem de uma família onde o pai é provedor, enquanto a Samantha é uma casa que só tem mulheres fortes e independentes. O tempo todo a Cami lembra o quanto conviver na casa da Samantha muda o olhar dela sobre as coisas e o quanto aprende sobre a sociedade. A mãe da Cami, por sua vez, considera tanto ambas famílias uma coisa só que sempre fala: ‘’A Samantha é gente da gente’’. Juntas, a Samantha e a Camila adotaram duas cachorras, a Cacau e a Tulipa (Tuli, para os íntimos). Elas amam a rotina com as "crianças": cuidar delas, assistem vídeos de adestramento, sonham em trabalhar com animais, ter alguma creche de cães ou um hotel... em casa tem as duas cachorras, o cachorro da avó e um papagaio também da avó, todos encantadores (Principalmente a vó! Que é um amor e joga bingo como ninguém!). Elas adoram, no fim da tarde, ir na Pedreira do Garcia com as cachorras brincar, correr e se divertir. Além disso, costumam comemorar coisas dentro da própria rotina. Comemorar de um jeito único. Desde aniversários de namoro, aniversários das cachorras, datas que elas adotaram, momentos que elas consideram especiais... Comemoram o crescimento, a conquista, o sonho em conjunto. A Cami completa "Tem outra coisa que a gente faz, a gente ri muito. Tipo, toda a noite junto, é engraçado. A Sa riu tanto ontem que disse ’Mor, eu não tô enxergando’’. Eu amo fazer ela rir." Por fim, elas sonham com um dia em que vão fazer esse casamento acontecer de fato e ter filhos, para além das "crianças" caninas. Querem que seus filhos vivam num mundo diferente do que vivemos. A Cami demorou 27 anos para se assumir lésbica, para se permitir esse entendimento também e não quer mais ver as pessoas passando pelo mesmo que passou, não quer ver as pessoas dentro desse armário. Deseja que as pessoas vivam com respeito e dignidade. Ela quer permitir a educação de forma livre, como não foi permitida à ela, porque acredita que assim seria o mundo ideal: livre. E que isso seja ensinado na escola, que ao redor dos filhos delas o contato com o mundo seja plural e diverso. A Sá conta que quer espelhar a realidade dela para o mundo: com mulheres fortes, guerreiras e independentes, que não abaixam a cabeça e não se diminuem. Ela sempre teve um círculo LGBT muito presente, desde pela melhor amiga da mãe ser solteira com um filho gay, até a avó que também tem amigas lésbicas... E sobre como tudo sempre foi visto com a naturalidade que é. Ela quer isso para o mundo, até porque, o amor, em si, é simples. E o que nós, LGBTs, fazemos é: amar. Ambas falam do amor e do respeito como base de tudo, desde a família (a Cami relembra em alguns momentos que todos os dias quando era criança a mãe dela acordava ela falando o quanto ela era muito linda. E que isso é uma coisa que ela carrega como referência de afeto, para si e para os outros), até os amigos ou um desconhecido por quem sentiu empatia. Elas falam também da importância do amor próprio e do autoconhecimento. Você aprende a se respeitar também, entender o seu limite. O amor próprio vem com muito custo, é uma jornada bastante longa, mas que vale a pena porque respinga nos outros amores de um jeito positivo. Para finalizar, deixo um trecho em que a Camila fala sobre amor que me marcou bastante perante o diagnóstico dela de ansiedade, o que ela sente sobre o amor e a forma que ela entende o amor entre mulheres: "A Sá me trouxe um amor diferente, que é um amor calmo. Sei que não vai ser só calmo, mas a gente vai enfrentar. Teve uma coisa que ela me falou e me marcou muito, é que eu sempre fiquei muito na defensiva e ela olhou pra mim e falou e disse ‘’A gente tá no mesmo time’’. Aí eu posso puxar essa deixa pra falar sobre o amor entre mulheres: por mais que a gente tenha caminhado juntas, dessa vez é de igual, é entender de uma forma que eu nunca antes fui entendida." Samantha Camila
- Ignez e Yasmin
Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Yasmin Ignez
- Vanessa e Denise
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Vanessa e da Denise, quando o projeto passou por São Paulo! Durante a documentação sobre quem a Vanessa e a Denise são, elas falaram algo que marcou muito: “Somou de contextos muito diferentes, mas temos sonhos muito semelhantes”. A Vanessa estava com 24 anos quando nos encontramos, ela é de São Bernardo, cidade que pertence à São Paulo e ela apelida como ‘batateira’, pois é a terra da plantação de batata. Sua formação foi em direito e sempre trabalhou na empresa da família, o que não era uma escolha muito pessoal, mas comenta o quanto se sente amedrontada por ver suas colegas negras que se formaram ainda na busca por emprego e o quanto o mercado de trabalho está difícil pela desvalorização da profissão como um todo. A Denise estava com 25 anos quando nos encontramos, ela é de São Paulo, capital, mas sua família é da Bahia e sua mãe se mudou para o sudeste quando estava grávida. Há pouco tempo ela deixou para trás a administração e apostou na mudança de carreira, se tornou programadora e está sendo desenvolvedora web. Dentro da empresa, já trabalhou em alguns projetos de diversidade e inclusão, com questões raciais e LGBTs. Além disso, no seu tempo livre, adora fazer crochet, mandalas de lã e artesanatos. Quando a Vanessa e a Denise se conheceram, demorou um pouco para as coisas acontecerem. A Vanessa brinca que estava no momento de “piriguetear”, porque teve um relacionamento que durou três anos e que agora era o momento de baixar aplicativos, conhecer gente nova, sair e se divertir. Ela também fala da importância da conclusão que chegou em que só se relacionaria com outra mulher negra, porque percebeu traços abusivos e racistas no antigo relacionamento e não queria vivenciar esse tipo de trato novamente. Foi em 2017 que as duas deram ‘match’ num aplicativo de relacionamento e a Denise chamou a Vanessa para uma festa, a “Sarrada no Brejo” (pelo nome, obviamente, uma festa sapatão). Ela nunca tinha ido e topou, então se encontraram no metrô e conta que quando a viu com o cabelão logo pensou “Nossa, que mulher maravilhosa!”. Algumas amigas da Denise foram junto e a Vanessa foi sozinha, brinca que as amigas de cara odiaram ela, porque ela tem uma “cara meio marrenta e nada amigável”. Na festa elas dançaram, se beijaram, mas Denise também beijou outras pessoas, foi tudo meio caótico. Elas brincam que não se gostaram logo de início, tudo levou tempo. Na mesma semana da festa, ou melhor, do primeiro encontro, elas viram que iria ter um show da Ana Carolina com a Maria Gadú e resolveram ir. Mas, detalhe: o show aconteceria só dois meses depois. Compraram o ingresso mesmo assim. Nesse intervalo não saíram mais e pouco se falaram. No show, não ficaram. Estavam como amigas e a Vanessa até levou a Denise para dormir na casa dela - algo bem raro, porque nem amiga dorme lá - mas nada aconteceu. Ficaram alguns meses sem se ver ou se falar e, do nada, cerca de 4 meses depois, se reencontraram. Com esse reencontro, o encontro delas finalmente aconteceu. Encontro, no sentido de, ficarem juntas. Elas começaram a sair de verdade, se conhecer, querer se encontrar. Se viam todos os finais de semana, compartilhavam amizades, faziam programas bons e ruins, se divertiam e topavam conhecer vários lugares. Quando entenderem que estavam gostando uma da outra, foram passar o ano novo juntas com alguns amigos, em Santos, e foi lá que o pedido de namoro aconteceu. Alguns meses depois a Vanessa apresentou a Denise para a família dela e, logo depois, ela também caiu (literalmente) no dia que foi apresentada para a família da Denise (como isso é bem peculiar, a gente precisa registrar por aqui). Depois de estarem se relacionando, a Denise passou por um momento bem difícil no qual saiu da empresa que trabalhava por estar passando por situações de preconceito e por não estar mais conseguindo se desenvolver. Isso desencadeou em crises de ansiedade e depressão, e foi fundamental o apoio da Vanessa e todo o suporte que ela deu. Quando a Denise conseguiu se desvincular do trabalho e receber seus direitos, elas juntaram as finanças e decidiram ir para a Nova Zelândia. Denise conta como era um sonho fazer uma viagem internacional, por ser a primeira da sua família a se formar no Ensino Superior, viajar ao exterior era algo praticamente impensável, mas ela queria fazer novamente algo que ninguém tinha feito antes. A Vanessa se incluiu nesse sonho, fez a pesquisa dos valores e disse: “A gente consegue!”. Por mais que a Vanessa e a Denise se encontrem em muitos caminhos, a vivência delas ainda era muito diferente: a Vanessa morava em uma mansão e a Denise morava na frente de um córrego, numa rua que não era asfaltada. Isso sempre trouxe recortes de classe muito fortes. No início foi muito difícil fazer o encaixe, mas aos poucos entenderam que era possível uma ensinar para a outra o que aprendeu com a vida. A Vanessa mostrava o caminho para chegar aos sonhos, mostrava uma nova realidade também, era uma outra forma de falar, outros costumes… Enquanto a Denise mostrava correrias diárias, mostrava que não entrava em casa como as da Vanessa a não ser para limpar, junto com a mãe dela, que a visão que ela tinha das coisas era diferente e que também precisava-se de calma para viver entre os dois mundos. Só com muita conversa diária elas foram se entendendo e aprendendo uma com a outra. A viagem para a Nova Zelândia aconteceu, e elas brincam: “Ou a gente volta casada ou a gente se separa de vez”. E foi acontecendo. Hoje em dia, a demonstração de afeto delas chega através das brincadeiras, das zoações, dos pequenos (grandes) carinhos e da parceria para tudo. Elas não foram crianças que conviveram com grandes afetos físicos demonstrados o tempo todo, então o afeto que sentem uma pela outra é colocado de outra forma, de uma forma que se combina e se entende. Hoje em dia, elas se entendem enquanto um casal que tem muita consciência. Se amam e querem se amar cada vez mais, e em relação aos outros - ou à vida, em sociedade - nunca mais irão deixar que alguém as coloquem para baixo. A Denise diz: “Acho que a nova geração tá vivendo uma coisa que não tivemos na nossa infância. A gente cresceu com aquela ideia de que ‘’preto é feio’’ ‘’seu cabelo é feio’’ ‘’sua pele é feia’’. Quando comecei a trabalhar num ambiente branco eu escutava que era nojenta, que não deveria trabalhar ali, que deveria trabalhar isolada porque eu incomodava. Eu não tive o suporte que ela teria porque a família dela tinha mais acesso, seria uma discussão diferente. Eu chegava muito abalada em casa e escutava ‘’filha, é isso, o mundo é esse e você se vira. Você precisa colocar comida em casa, então te vira’’.” Mas não é pela Vanessa estar num ambiente elitista que ela deixou de sofrer racismo, então ela também completa com a sua versão: “No meu caso foi o seguinte: uma das piores coisas que aconteceu comigo - fui numa balada, festa da minha faculdade. Um colega de classe sabia que eu me relacionava com mulheres e ele me agrediu. Estava bem no fim do ano, em época de prova. Meu pai todos os dias ia pra faculdade comigo, entrava na faculdade, sentava do meu lado, esperava eu terminar a prova pra ir embora comigo. No final, eu tive que mudar de horário, porque o branco, enfim, né…”. Depois de relatar sobre alguns casos de racismo vividos, Vanessa emenda logo no amor que as duas sentem: “Pra mim o amor é: liberdade e preto”. Liberdade porque o amor precisa ser livre para deixar a pessoa ser quem ela é e, também, para que a pessoa possa fazer o seu caminho. E Preto porque ela levou muito tempo para se amar enquanto mulher preta, e conta que depois que descobriu esse amor passou a amar muito mais seus familiares, amigos e a Denise de uma forma diferente. O amor preto não é só amar ao próximo, mas cuidar dos seus, estar por perto de verdade. Amar o que sempre foi ensinado que era feio. A Denise conta sobre a tatuagem “Idem”: “Então, eu tenho o meu Idem, minha tatuagem, o termo Idem eu sempre usei pra falar sobre reciprocidade. Acredito muito nisso em todas as minhas relações, sou uma pessoa de poucas relações afetivas. Penso no amor como algo recíproco, esse bem estar que você gera no próximo e que também quer gerar a si. Claro que as pessoas têm diferentes níveis, amores e reciprocidade. Me relacionar com uma mulher é exatamente isso, me reconhecer na outra, o que tem de mim na outra e o que tem na outra em mim.” Ela conta que nunca pensou que iria receber um amor afetivo até amar uma mulher. Amar uma mulher é ser reconhecida, respeitada e saber que tem alguém para te acolher. “Penso que amor também é sobre me sentir acolhida por amar uma mulher.” A Vanessa e a Denise entendem que é impossível se relacionar sem fazer o recorte de raça, classe e gênero. O amor preto é revolucionário, o amor entre mulheres é revolucionário. Por todas as dores que elas já passaram juntas e por nenhum momento mais que querem ser invizibilizadas, querem ter seu amor e seu corpo reconhecido, respeitado e humanizado. Vanessa Denise
- Ari e Ane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Ari e da Ane, quando o projeto passou por São Paulo! O encontro da Anelise, da Ariana e dos gêmeos Liz e Lucca com o Documentadas aconteceu num momento bem inicial da vida dos pequenos, antes mesmo de completarem 4 meses, num parque em São Paulo. Com entusiasmo, elas contam sobre como tem sido a vivência inicial da maternidade em dupla e como já ouviram diversas vezes as pessoas falando sobre os dois serem sortudos em ter duas mães. A partir do que vivem agora perceberam que qualquer mãe em um relacionamento heterossexual passa a ser uma mãe solo pelas necessidades básicas que enfrenta, muitas vezes sozinha/sem apoio para dividir intimidades - precisa fazer xixi, tem diversas questões com o corpo (a amamentação, o pós parto) - e como é diferente positivamente compartilhar isso com outra mulher na dupla maternidade, não é algo solitário. Também compartilham medos e situações inesperadas, como as primeiras noites, os choros e os momentos difíceis. Sabem que podem contar uma com a outra. Entendem que querem proporcionar coisas diferentes para as crianças, coisas que as famílias héteros talvez não precisem se preocupar porque não precisaram passar pelos desafios que passamos. Querem criar crianças conscientes. Ari comenta que viver a maternidade sem vincular à política é quase impossível, principalmente porque a fertilização de casais homoafetivos pelo SUS não é possível, o acolhimento do sistema único de saúde precisa melhorar, precisamos de representatividade, desde fisioterapia para a gestante até enfermeira que fale sobre amamentação. Ane completa que só está ali hoje porque brigou muito pela licença maternidade, mas que não deveria brigar, e sim ser lei, para então termos maneiras mais justas de vivenciarmos nossas formas de amor. Ane e Ari se conheceram em 2016. Ane sempre foi festeira, morava próximo à Av. Paulista e tinha uma vida agitada. Ari terminava a residência médica. No meio da semana, num feriado, Ane foi ao show da Preta Gil e Ane trabalhava no Hospital da Santa Casa, quando se cruzaram num aplicativo de relacionamento que funciona pela distância física (quando as pessoas passam uma pela outra em lugares próximos, elas aparecem no aplicativo). No dia seguinte, Ane acordou de ressaca e viu a Ariana no aplicativo. Deu um superlike, assim, apareceria logo que a Ari abrisse o app. Acabaram dando match - e afirmam que se não fosse essa “chamada de atenção”, provavelmente não teria rolado, já que Ari nem dava bola para os aplicativos (e nunca tinha saído com alguém assim). Decidiram sair, foram em um restaurante que não combinava nenhum pouco com elas, comeram salada e depois atravessaram a rua para ir num pub, que também não combinava com elas, mas ao menos tinha cerveja. Deu certo! Tudo fluiu e continuaram se encontrando aos poucos. Depois de dois meses, Ane estava com uma viagem agendada com um amigo para Cuba e chamou Ariana para ir. Ari recém tinha acabado a residência, estava querendo viajar e topou. Decidiram ir juntas e já entenderam que estavam se relacionando. Depois de um tempo de relacionamento, mas ainda no começo, Ane recebeu uma proposta de trabalho muito boa, porém que precisaria se mudar para Porto Alegre. Pensou muito, Ari apoiou, a encorajou, mas acharam que o relacionamento não iria durar pela distância. Ane acabou indo, morou lá por dois anos, e elas se encontravam aos finais de semana quando conseguiam, fazendo a ponte aérea POA X SP e usando uma manutenção diária para manter o relacionamento de todas as formas. Contam que não foi fácil, existia a saudade, a vontade de estar junto… Mas nesses momentos se usa todas as alternativas possíveis: se davam mais presentes, bilhetinhos, dedicatórias, chamadas de vídeos, aproveitavam 100% do tempo quando estavam juntas… Ari acrescenta que mesmo sendo pessoas diferentes, quando se conheceram, já se viam de formas completas. Isso auxiliou muito nesse processo. Já tinham suas profissões (e eram valorizadas), já valorizavam uma à outra, tinham suas redes familiares, seus amigos… Então tudo foi muito mais fluido, as cobranças quase não existiram. Depois dos dois anos em Porto Alegre, voltando à São Paulo, juntaram os animais de estimação, os móveis, a casa, e foram morar juntas. Anelise estava com 35 anos no momento da documentação. Ela é do interior de São Paulo, mas mora na capital há muitos anos e trabalha como advogada de empresas. Hoje em dia, o tempo livre é 100% ocupado pelos pequenos, mas também gosta de ir em rodas de samba, tocar violão e assistir filmes no cinema. Ariana estava com 38 anos no momento da documentação. É natural de São Paulo e trabalha enquanto médica pediatra. Conta que o tempo de agora é para fazer um conhecimento - conhecer os filhos e os filhos conhecer as mães. Nos primeiros momentos, o tempo era para fazer coisas básicas (comer, dormir, tomar banho…) e agora, com eles no carrinho, tem sido possível tomar café da manhã, por exemplo, o que é um grande prazer compartilhar esse momento com eles. Foi durante a pandemia que começaram a pensar sobre a maternidade, sobre quem iria engravidar e como seria. Tentaram uma vez e não deu certo. Depois, tentaram novamente, com aquela possibilidade - dois óvulos, podem ser gêmeos. Tinham medo pelas questões financeiras, mas encararam. Descobriram a gestação na semana da Parada LGBT de São Paulo, e agora, um ano depois, irão na Parada novamente - com eles no colo. Anelise conta que aprendeu com a Ari que o amor pode ser algo leve, com diálogo e respeito. Ela sempre foi muito afobada, atarefada… e hoje em dia é diferente. Não acha que só o amor sustenta relações, é preciso uma série de coisas, como respeito, carinho, atenção, um esforço orgânico, natural. Ambas entendem seus privilégios, mas entendem também que mesmo ocupando o local que ocupam ainda enfrentam diversas questões de preconceito por serem duas mulheres mães que se relacionam afetivamente. Por isso, aprenderam a enfrentar essas questões com o tempo. Falam também sobre como é importante a rede de apoio que possuem. Podem contar com os amigos, com a família, e isso facilita muito para a existência do privilégio de viver um amor leve. ↓ rolar para baixo ↓ Ariana Anelise
- Ingrid e Cecília
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Ingrid estava com 33 anos no momento da documentação. É natural de Pelotas, mas passou boa parte da vida adulta em Florianópolis, sempre alimentando o desejo de viajar. Sua primeira experiência com a estrada veio aos 21 anos, durante um intercâmbio na Austrália, onde vivenciou um motorhome pela primeira vez. Quando voltou, quis se aproximar da natureza e sonhava em ter uma Kombi, mas focou na carreira e adiou esse plano. Ainda assim, as viagens eram sua prioridade: trabalhava para poder estar sempre viajando. Foi há cerca de quatro anos que a Kombi Luz chegou, tornando-se um verdadeiro projeto de vida. Na época, já tinha o Teddy, um de seus cachorros, e também o Godinez, que faleceu em 2023. Com o tempo, sua vontade de se dedicar integralmente à estrada cresceu, então ela vendeu sua parte na empresa em que trabalhava e hoje em dia trabalha criando conteúdos para o YouTube, registrando o dia a dia com Cecília na moradia delas na Kombi atravessando o Brasil. O projeto trouxe um reencontro com o jornalismo, sua formação, e a sensação de finalmente concretizar o sonho que sempre teve. Cecília, no momento da documentação, estava com 30 anos. Nasceu em Itajubá, Minas Gerais, mas passou parte da vida em Taubaté. Não foi criada com uma referência de vida na estrada, mas passou por um momento divisor de águas que a fez enxergar a vida por outro lado: perdeu o pai aos 15 anos. Amadureceu, viveu um luto precoce e tudo a fez entender que ele era um homem cheio de sonhos, mas que infelizmente não teve a oportunidade de realizá-los, então queria ser uma pessoa diferente, se viu movida pela sede de viver. Sua percepção por viagens começou quando ela foi morar e trabalhar fora do Brasil, conhecendo um mundo bem diferente do que a vida e a cidade morava. Lá, guardou dinheiro, planejou mochilões, mas dias antes de começar suas novas viagens recebeu a notícia do falecimento da sua mãe. Decidiu voltar ao Brasil, fez uma pausa nos planos para se reorganizar e se reconectar com sua família e consigo mesma. Com 25 anos, já não tinha mais os pais e precisava redescobrir seu caminho. Cecília, depois de optar ficar no Brasil, se mudou para Ubatuba e trabalhou por um tempo enquanto representante de vendas, fazendo assim diversas viagens. Depois de um tempo, comprou uma caminhonete e adotou a Brisa, sua companheira de estrada. Junto de uma amiga, decidiu dividir uma vida de viagens por um tempo, e, reunindo outros amigos, compartilhou um desejo de se mudar para Florianópolis. Foi quando decidiram fazer a mudança e irem juntos. Em 2022, apenas dez dias depois de Cecília chegar a Florianópolis, ela e Ingrid se encontraram por meio de um aplicativo de relacionamentos. Desde o início, perceberam que suas vidas se encaixavam: Ingrid já estava no momento de largar tudo para cair na estrada, enquanto Cecília já havia vivido essa experiência. Ingrid brinca que, naquela época, a Kombi Luz era uma kombi de solteira - um espaço que tinha até mini biblioteca, sem a ideia fixa de ser uma casa. Mas o primeiro encontro dela com a Cecília já dizia muito: um pôr do sol na Kombi. A primeira grande viagem foi até Pelotas, cidade natal de Ingrid. Na época, ainda não tinham um status definido para a relação, mas Cecília foi apresentada ao pai de Ingrid. O plano era passar apenas alguns dias, mas ao chegarem, perceberam que algo não estava bem: o pai de Ingrid recebeu um diagnóstico de depressão e o que seria uma visita rápida se tornou um período de um mês dando suporte e cuidado. Elas e os três cachorros começaram a vivenciar a kombi enquanto casa. Cecília precisou retornar a Florianópolis, Ingrid ficou um pouco mais. Esse período trouxe muitas reflexões sobre a brevidade da vida, sobre momentos difíceis que já viveram e o desejo de viver intensamente. Mesmo sem uma longa história juntas, já tinham dividido muito - entre se conhecer, passar tantos dias juntas, mudanças e novas perspectivas. E foi justamente nessa intensidade que perceberam que queriam continuar seguindo viagem. Pouco tempo depois de passarem um tempo em Pelotas com o pai de Ingrid, o cachorro mais velho dela, Godinez, faleceu. Depois disso, ela voltou para Santa Catarina, percebeu as melhoras do seu pai e decidiu que oficialmente queria morar na Kombi. Foi então que organizou suas coisas no emprego fixo, tudo foi somada à demissão da Cecília do seu emprego e decidiram seguir o sonho juntas. A primeira grande viagem foi para o Rio de Janeiro, depois voltaram para Florianópolis para passar o ano novo com o pai da Ingrid (que foi até lá também) e no início de 2024 deram inicio, de fato, a morar 100% na kombi, sem mais apartamentos e outras casas. A transição para a vida na estrada aconteceu de forma gradual. No primeiro mês, acabaram morando na Kombi sem planejar, enquanto estavam em Pelotas. Depois, na viagem até o Rio, a experiência foi mais estruturada, mas ainda mantinham o apartamento. Ao voltar para casa, esperavam sentir alívio pelo conforto, mas perceberam que a sensação de pertencimento estava mesmo era na estrada. O lar, de fato, era a Kombi. A vida nômade fazia cada vez mais sentido, mas, talvez se tivessem tomado a decisão de uma hora para outra, não tivessem se sentido tão bem na kombi. Desde então, percorreram o Rio Grande do Sul, exploraram bastante Santa Catarina e subiram até o Nordeste. No caminho, fizeram um desvio para Minas Gerais, onde aprimoraram a Kombi. E foi em Alagoas que finalmente nos encontramos para registrar essa história (depois de várias tentativas de cruzarmos nossos caminhos entre o sul da Bahia e Maceió). A vida na estrada trouxe para Ingrid e Cecília a descoberta de um Brasil interiorano que nem imaginavam - e ainda melhor, o gosto pela vida interiorana. Entre uma viagem e outra, encontram cidades que não estavam nem no mapa, acampam em lugares lindos e tranquilos, e se encantam com a calmaria que só quem viaja sem pressa pode viver. Os cachorros também se adaptaram bem… na verdade, até estranham quando chegam em cidades grandes, sem saber lidar com tanto estímulo de som e movimento ao mesmo tempo. Sem prazos rígidos, vão sentindo cada lugar. Têm um roteiro em mente, mas se um destino as cativa, se permitem ficar mais. Criaram uma rotina própria, independente de onde estão, e isso dá uma sensação de estabilidade mesmo com a estrada. Para elas, o amor está presente em cada detalhe do cotidiano. O romantismo vira só um detalhe, porque a conexão é muito mais profunda. Relacionamentos entre mulheres têm essa intensidade - é o que dizem. E, para além da intensidade, têm a resistência. Em muitos lugares por onde passam o preconceito ainda é muito forte, mas fazem questão de seguir de mãos dadas. E, quando falam em mãos dadas, entendem que seguem de mãos dadas com os amigos também: as redes de apoio que seguem firmes, mesmo à distância. Se elas precisarem ou se os amigos precisarem, basta uma ligação. Fazem de tudo uns pelos outros. Já passaram por situações difíceis na estrada, e a presença dos cachorros não é só companhia, mas também segurança. Acima de tudo, o amor entre elas e a família que estão formando é força. É ele que as impulsiona a continuar vivendo esse sonho. ↓ rolar para baixo ↓ Cecília Ingrid
- 0000 | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Rebeca e Samara se conheceram em outubro de 2023, durante uma live de uma página voltada ao público lésbico e bissexual. A proposta da live era conectar mulheres, seja para amizades ou relacionamentos. Samara tinha saído de um relacionamento - que não havia sido fácil - há cerca de seis meses, tomou coragem e decidiu participar para conhecer pessoas novas. Foi então que Rebeca a notou e começou a seguir no Instagram. Começaram a conversar imediatamente e se deram super bem, as conversas se tornaram diária e vieram chamadas de vídeo e ligações. Construíram um vínculo à distância - uma morando na Bahia, a outra no Piaui - que durou seis meses, e decidiram se relacionar de forma virtual. Em abril de 2024, Rebeca disse para Samara que faria uma viagem para visitar o pai no interior. No entanto, dias depois, veio a surpresa: Rebeca não estava no interior, mas sim a caminho de Salvador. Com a ajuda de familiares, ela arquitetou uma mudança e aproveitou a ocasião para surpreender Samara em seu aniversário, deixando claro que já tinha os planos de conseguir um emprego por lá e ficar de vez. A falta de aceitação de sua sexualidade pela família, somada aos seis meses de conexão intensa com Samara, desencadeou o impulso de recomeçar. Tinha o medo de não dar certo por não se conhecerem pessoalmente? Claro. Mas arriscar era preciso. Após algumas entrevistas, conseguiu um emprego e começou a se estruturar. Como ela mesma diz: "Já vim com os planos de ficar perto da Sam, não queria mais voltar para o Piauí." Desde então, elas têm vivido juntas, transformando aquela conexão inicial em uma história de amor real e corajosa, e Rebeca não se arrepende e nem deseja voltar. Quando chegou em Salvador, Rebeca ficou na casa dos seus familiares que moravam na cidade, mas também foi recebida com carinho pela família da Sam. Após uns meses, decidiram começar uma vida juntas, em um lar só delas. Os primeiros móveis foram adquiridos com pressa, mas com a ajuda preciosa da família para facilitar o início dessa nova etapa, ainda que pagando em várias prestações. Com alegria, contam como frequentemente refletem sobre essa decisão e afirmam, sem hesitar, que não se arrependem - principalmente a Rebeca, de ter deixado o Piauí para construir essa história ao lado de Samara. O amor, que começou de forma tão inesperada, revelou uma força que surpreende até elas mesmas. O que torna a relação única, segundo Sam, é a forma como se sentem ouvidas e reconhecidas uma pela outra. "Não vale só assinar embaixo. Ela deixa eu falar," diz Samara, expressando a dinâmica de respeito mútuo que construíram. E isso que é muito interessante, no dia-a-dia, além de desafiador, mostra o quanto representa crescimento para elas e para a família. E nesse crescimento também aprendem a lidar com questões que nem sabiam que era possível: como os ciúmes, a vida financeira, a ter paciência e entender que conquistam as coisas aos poucos, de acolher nos momentos difíceis, não procrastinar a luta dos estudos… uma puxa a outra nos sonhos. O amor delas também se revela nos pequenos impulsos do cotidiano. Desde Sam que gasta todos os caracteres na hora de se declarar, até a forma mais tímida de Rebeca, que prefere ações a palavras. É o mesmo impulso que levou Rebeca a mudar de estado e que ainda as guia em decisões, como comprar coisas sem tanto planejamento ou dizer “sim, vamos” antes de pensar duas vezes. Esses gestos espontâneos mostram que, mesmo com os desafios, o que importa é fazer dar certo. Samara, no momento da documentação, estava com 26 anos. É formada em História pela UBA e vive em Salvador, onde trabalha como professora em uma escola particular. Apesar de amar sua formação, sonha em cursar Direito, algo que pretendia fazer desde o início, antes de se apaixonar por História. Determinada e cheia de sonhos, Samara ainda planeja voltar à faculdade e realizar esse desejo. No tempo livre, ela adora ir ao cinema, shows, ouvir música, ler e assistir séries. Rebeca estava com 21 anos no momento da documentação. Nasceu em Salvador, mas passou a maior parte da vida no Piaui. Recentemente, em abril de 2024, decidiu voltar para Salvador motivada pelo amor que construiu com Samara. Atualmente, trabalha como operadora de telemarketing e cursa Ciências Biológicas, mas seu grande sonho é estudar Medicina. Rebeca é apaixonada por música e se destaca ao tocar violão, guitarra e bateria. Embora não seja fã de leitura como Samara, ela ama ir ao estádio de futebol – um hábito que aprendeu com Samara, e agora ambas torcem juntas pelo Vitória. A praia é um dos cenários mais especiais para as duas. Apaixonadas pelo mar, elas encontram nesse ambiente o refúgio para criar memórias juntas. Assim como o futebol no estádio, os passeios à beira-mar se tornaram um dos momentos mais significativos do relacionamento, por isso escolheram o lugar para fazermos as fotos na documentação. ↓ rolar para baixo ↓ Samara Rebeca
- Qual é a desse lambe aí? | Documentadas
Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Toda mulher merece amar outra mulher. E esse lambe aí? Acreditando na potência do Documentadas para além das redes sociais e do mundo online, decidimos colocar o projeto na rua conversando com os espaços das cidades por onde passamos. Foi através das técnicas arte urbana como lambe-lambe e stickers que começamos a espalhar uma frase famosa por aqui: “Toda mulher merece amar outra mulher”, além de uma tiragem inicial de 300 fotografias de casais que já participaram do projeto, com intervenções gráficas escritas por cima e o @documentadas, identificando nosso Instagram/site. Estar na rua nos abriu a possibilidade de troca com públicos antes inalcançáveis. Passamos entre universidades, boêmias e comunidades. Se as mulheres amam outras mulheres em múltiplos espaços, acreditamos que nossa arte também deva ocupar múltiplos espaços. Tal fato foi - e está - sendo possível pela impressão/colagem por valores acessíveis (afinal, o projeto é independente) e também por permitirmos ouvir a linguagem das ruas. Seguimos monitorando os espaços colados através da localização nas redes sociais, vendo postagens com fotos que as pessoas tiram deles e quais são as reações positivas/negativas ao ver essa manifestação. POR QUE NOSSOS LAMBES NÃO DURAM NAS RUAS? Nossos lambes são arrancados, vandalizados, riscados… Isso fala sobre muitas pessoas ainda serem lesbofóbicas e terem ódio ao saber que duas mulheres podem - e merecem - se amar em público, infelizmente. Porém, em nenhum momento um lambe riscado é arrancado para que outro seja colado em cima, pelo contrário: é importante deixar ali para que o preconceito também fique escancarado perante uma manifestação de afeto les-bi. Não deixaremos de colar nossos cartazes e adesivos. O Documentadas é uma forma de combate ao preconceito, enquanto houver cartaz, cola, pincel e adesivo, estaremos colocando nossa arte na rua e ouvindo o que a rua tem a nos dizer. QUER COLABORAR COM O DOC PARA QUE ELE TENHA MAIS LAMBES POR AÍ OU NOS CHAMAR PARA UMA EXPOSIÇÃO EM ALGUM LOCAL? ENTRA EM CONTATO PELO SITE OU NO E-MAIL: FERNANDA@DOCUMENTADAS.COM
- Bruna e Brena | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Brena estava com 43 anos no momento da documentação, atua como secretária em uma organização do movimento negro e também é percussionista da Banda Afro Axé Dudu e do bloco do Terreiro de Candomblé que fazem parte. Dentro da casa de santo, é Iaôci (o lado esquerdo do peito do pai de santo) e exerce suas funções com responsabilidade e firmeza, guiada pelo axé. Bruna Suelen estava com 37 anos no momento da documentação. É mãe de Valentina e Ernesto. Filósofa de formação, atua como professora de filosofia, com mestrado e doutorado em arte. Também trabalha com produção executiva e direção criativa, tendo uma trajetória voltada principalmente para a cultura popular e as tradições afro-brasileiras. Iniciada no Candomblé Ketu, faz parte da mesma casa que Brena, carregando o cargo de Iyarobá, (como são chamadas as Ekedis dentro da tradição Gantois/Gantuá) – e também ocupa o posto de Ya Oju Odé, os olhos de Oxóssi, responsável por observar e administrar tudo que acontece para o orixá. Juntas, compartilham o prazer pela boa comida (principalmente, porque amam degustar, saborear novas comidas), a boa cervejinha gelada, o carinho pela praia, churrascos e encontros. Dividem não só a casa de axé, mas também a vida, o cuidado e o afeto. Cultivam um cotidiano cheio de axé e amor. A história da Bruna e da Brena começou quando ainda eram amigas, em 2019. Na época, Brena tinha um relacionamento e quando Bruna chegou para fazer sua iniciação no terreiro, foi Brena quem a acompanhou por algum tempo, ensinando e guiando na religião. Toda a relação começou num processo de amizade e confiança, com o passar dos meses foram sentindo uma paixão se transformando, mas com Brena sendo casada e Bruna tendo uma relação (ainda que não-monogâmica), sabiam que era muito complicado deixar o sentimento evoluir. A ex-companheira de Brena também frequentava o espaço da religião, era mãe de santo de uma outra casa e conhecia Bruna, então era uma situação ainda mais delicada. Tentaram negar o afeto que sentiam uma pela outra por bastante tempo, mas ficou insustentável. Cada vez mais, Brena sentia muita vontade de sair daquela relação, independente de estar com Bruna ou não, então os fatos se somaram. Bruna fez sua iniciação no santo, ficou 21 dias no terreiro e o que inicialmente afastaria ela de Brena, acabou aproximando mais. Nesse ponto, o desgaste do ex-relacionamento de Brena já era imenso, insustentável, foi quando ela tomou coragem e terminou, assumindo a paixão pela Bruna tempos depois. Todo o processo, até se assumirem enquanto um casal, demorou cerca de dois anos. Por mais que foram ficar próximas enquanto amigas e, depois, namoradas, no terreiro, Bruna e Brena se conheceram num festival chamado Amazônia Negra, onde estavam em um grupo formado por amigas do movimento negro e do terreiro. Depois do evento, seguiram juntas para alguns bares e acabaram dormindo em uma instituição próxima, já que estavam longe de casa. Foi ali que se olharam diferente pela primeira vez, mas nada aconteceu, Bruna soube do relacionamento de Brena e se tornaram amigas. Só mais tarde, já no terreiro, é que começaram a conviver e ter uma amizade de fato. Depois de todos os desafios para ficarem juntas, se casaram oficialmente há um ano, completando o primeiro ano de casamento em julho. Planejam ainda fazer uma festa, da forma que merecem. Contam que vivem hoje uma relação com uma maturidade que não haviam experimentado antes, marcada por muita conversa, honestidade e escuta. Reconhecem que brigam, sim, mas até nisso existe um afeto: “Às vezes a gente briga só pra fazer as pazes”, brinca Brena. Há um entendimento de que o diálogo é o alicerce, conversam o tempo todo. Bruna diz que nunca tinha vivido com uma mulher em relações duradouras antes e que com Brena foi a primeira vez que sentiu o que é uma escuta real, profunda. Com Brena, se sente alcançada, escutada, compreendida. Acredita que isso também se construiu pela base de amizade que têm. “No fim das contas, a gente é muito amiga. E se ama muito. É muito companheira. É muito gostoso.” Bruna e Brena moram juntas, com os filhos de Bruna, que entendem o relacionamento delas e tratam Brena enquanto ‘tia’ e uma ‘segunda mãe’. Ainda que a rotina com as crianças seja de muitas tarefas, aprendem a ser leves também. Brena se tornou um ponto de referência para elas e o axé também ajuda muito, já que elas participam das atividades no terreiro. Em 2025, no dia das mães, elas convidaram Brena para participar das homenagens na escola, e a defenderam quando um colega falou que ela era “o pai” deles, afirmando que: “Ela é a nossa mãe!”. Bruna e Brena entendem que isso tudo também faz parte desse processo e tentam fazer o processo ser leve, ainda que não seja isento de turbulências. Falam, também, sobre como construíram uma relação baseada em liberdade. Respeitam profundamente a individualidade uma da outra, seja para acordar mais tarde, sair, viajar ou simplesmente viver o dia no próprio ritmo. “Tu quer tomar café? Vai. Eu não quero.” Esses pequenos gestos mostram como se apoiam sem exigir uniformidade. Não se trata de se afastar, mas de permitir espaço. Acreditam que muitas relações fracassam ao tentar encaixar tudo no tempo e vontade de apenas uma pessoa - e elas se recusam a seguir esse padrão. Reconhecem que essa liberdade só é possível porque construíram, com muitas conversas, uma base de segurança e confiança. Entendem que inseguranças existem, ciúmes também, mas o importante é comunicar: “Isso aqui é grave pra mim”, ou “Me avisa, não me deixa esperando.” é o lugar onde uma aprende a respeitar o jeito da outra, sem tentar mudar, mas sim buscando uma forma mais generosa de olhar e aprender quem são. “A gente não se cobra mudança, a gente se cobra um novo jeito de ver.” Por fim, Bruna também reconhece o quanto mudaram em formas políticas de se relacionar. Brena é de uma família que funda o movimento negro em Belém, então pulsa uma veia ativista, anti-racista, que traz muitas questões em como conduzir a vida. Enquanto Bruna a traz visões sobre ser menos machista, não normalizar condutas patriarcais. E assim crescem juntas - refletindo também na educação das crianças. ↓ rolar para baixo ↓ Brena Bruna

