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Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

294 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Maiara e Vitoria

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Maiara e da Vitória, quando o projeto passou por São Paulo! A Vitória e a Maiara possuem um relacionamento a distância, vivendo entre as capitais do Rio de Janeiro e de São Paulo. A Vitória veio para o Rio uma vez só, enquanto a Mai vai com maior frequência, adora São Paulo e pretende morar lá em breve. Nos encontramos no Parque Ibirapuera. Elas gostam de estar em parques, com a canga no chão, sentadas ou deitadas, falando sobre a vida. Adoram visitar museus e restautantes também. Além disso, a Vi gosta de fotografia, faz poledance, escreve bastante e antigamente elas até trocavam poemas. Enquanto a Mai jogava bastante futsal e adora cozinhar. Elas acreditam que hoje em dia tudo tende a ser mais acelerado (os áudios, as rotinas, os fluxos das coisas) e isso acaba fazendo com que a gente não preste tanta atenção no outro. Então talvez o que elas querem de verdade parece ser mínimo, mas se trata de uma essência: se cuidar. Resgatar um senso coletivo - sermos menos robotizados, acelerados nas ruas - e olhar pra você sabendo quem você é, para então poder amar o outro sendo quem o outro é também, sem medo de sofrer por conta disso. A Vitória tem 21 anos, mora em São Paulo e faz faculdade de moda, com estágio em figurino. Já a Maiara tem 27 anos, mora no Rio de Janeiro e faz faculdade de engenharia química. É assistente em uma grande empresa de cosméticos, trabalha na área de análise de dados. Elas se conheceram no início de 2016, através do Facebook. Na época, adicionavam várias pessoas que possuíam amigos em comum. A Maiara achou a foto da Vitória muito bonita, porém o status dela estava como “relacionamento sério” e ela não puxou nenhuma conversa. A verdade por trás dessa história é que não existia nenhum relacionamento, tudo era uma brincadeira entre a Vitória e uma amiga dela por conta de um homem que estava dando em cima dela. Por fim, o tempo passou, a Mai também se envolveu com uma menina em um relacionamento que acabou não sendo muito bom pra ela e desistiu de puxar assunto com a Vitória. Um tempo depois, no Snapchat, rede social pioneira nas postagens em formato de storie, a Vitória postou vídeo recitando um poema dela. A Mai respondeu sobre o jeito que ela falava a palavra “amor”, por conta do “r” ser puxado, e achar isso muito fofo. Elas conversaram um pouco e isso foi o bastante para desenvolver o interesse. Um tempo depois, começaram a se relacionar de forma online, pois para ambas ainda era muito difícil se encontrarem pessoalmente por questões financeiras e o alto custo das passagens de São Paulo para o Rio de Janeiro. Quando se encontraram pessoalmente pela primeira vez, já em 2017, a Maiara foi até São Paulo. Ambas passaram por processos para contar aos familiares que estavam se relacionando, a Maiara contou para a irmã que já imaginava e que acompanhou ela nessa viagem, então foi a primeira a saber e foi logo no início. A Vitória contou um tempo depois, imprimiu umas fotografias que tiraram e mostrou para a mãe, contando ser a namorada. A mãe processou isso durante um tempo, o irmão dela já sabia (e até já conhecia a Mai), então ajudou na conversa também. Ela deixou a Mai frequentar a casa e depois da primeira vez que foi mais delicada, passou a adorar as visitas. Hoje em dia a Mai vai bastante para lá e elas se dão muito bem, prepara feijão preto, saladas e tudo na mesa vira discussão quando ela não come muito. Quando a Vi foi uma vez ao Rio, em 2018, passou um feriado. A frequência que elas se encontram depende muito, antes era cerca de três vezes ao ano, agora aumentou um pouco porque pelo homeoffice a Mai pode ficar um tempo a mais em São Paulo. Mas a distância ainda apresenta dificuldades, as despedidas não são fáceis, por isso desejam a mudança. A Maiara fala que, por ser muito fã da Maria Rita, sempre que pensa no amor lembra quando ela canta: ‘’Se perguntarem o que é o amor pra mim, não sei responder, não sei explicar… Só sei que o amor nasceu dentro de mim, me fez renascer, me fez despertar’’. Ela entende que essa é a sensação que o amor traz, principalmente o amor que elas estão criando juntas. Despertando um novo mundo, uma nova possibilidade. “A Vi é meu primeiro relacionamento sério com mulher. Não que eu tivesse um histórico grande com homens. A Vi é meu relacionamento concreto. É essa relação de cumplicidade e suporte, sabendo que tô fazendo bem pra ela e que ela também tá me fazendo bem.” A Vi fala que além da construção, é política e luta. No dia anterior à nossa conversa, por exemplo, elas foram em um bar sapatão. Ela conta o quanto foi importante ter ido lá, o quanto foi diferente ter ido num ambiente confortável pra gente. “Me senti confortável pra amar e poder fazer o que todo mundo faz.” a Mai complementa com “Poder dar a mão, beijar, fazer carinho. O que é trivial pra todo mundo…” Para a Vitória, estar com a Maiara é se sentir em casa. Ela sabe seus defeitos, mas ela não vai embora por causa disso. Ela ama e isso é o que importa. Maiara Vitória

  • Rennata e Vanessa

    A Renata e a Vanessa se conheceram em 2016, mas até começarem a namorar, quaaase em 2018, viveram um roteiro digno de novela intensa. Elas são de Fortaleza, capital do Ceará. Ou melhor, a Renata é de Maracanaú, uma cidade que pertence à região metropolitana. Foi na Praça da Gentilândia que escolheram fazer as fotos, a praça (e o bairro de Benfica em si) possui muitos significados na história das duas e durante a conversa fomos revivendo diversos momentos. Nessa história existe uma versão sobre o dia que elas se conheceram da qual a Renata não se lembra - sim, ela não se lembra de ter conhecido a Vanessa - mas calma que as reviravoltas chegam. Esse dia aconteceu entre diversos eventos na universidade (tinham calouradas, manifestações políticas…) e muitas pessoas circulavam pelos Centros de Humanidades do campus. Foi ali que elas se esbarraram, entre amigos em comum e a Vanessa até deu um cigarro para a Renata, mas ela justifica com o álcool o fato de não lembrar desse encontro rápido. Um tempo depois, a Renata estava cursando fotografia num lugar que propõe diversos cursos gratuitos e conheceu uma menina do curso de jiu-jitsu (ela até se aventurou no jiu-jitsu depois dessa amizade!), elas ficaram amigas e na época a Renata saía com uma oooutra menina, então decidiram marcar de se encontrar e beber um dia na Praça. A amiga disse que levaria outra amiga, para não ficar sobrando entre as duas e, quando chegou lá, essa amiga era a Vanessa. Renata até brinca que quando viu a Vanessa ela sentiu um forte impacto, então ok não lembrar do cigarro, né?! Já que esse dia é o verdadeiro dia do impacto! Elas conversaram durante a noite toda e a Vanessa brincou várias vezes que jamais conseguiria se envolver com alguém que tem o mapa astral como o da Renata… Isso despertou na Renata a certeza de que ela nunca teria chances com a Vanessa, ficou até pensativa sobre, mas depois desse dia se adicionaram no Facebook e a Vanessa chamou ela para alguns eventos. Demorou um pouco para que saíssem e quando aconteceu pela segunda vez, foi novamente na Praça o ponto de destino. Elas passaram a noite com diversos amigos e uma comunicação totalmente atravessada, principalmente porque a Renata não assimilava nada enquanto um flerte, já que havia aceitado que não teria chances, por mais que a Vanessa insistisse e deixasse (na versão dela) claro. Então, quanto mais amigas elas ficavam, em outros eventos elas se encontravam e o resultado era igual: sempre saíam e beijavam outras pessoas. No dia 17 de maio de 2017 (sim, quase um ano depois!), na mesma Praça, teria um evento em referência ao Dia Internacional Contra a Homofobia e a Vanessa convidou a Renata, que já estaria por lá fazendo um trabalho. Elas foram juntas, mas as pessoas demoraram a chegar e ficaram sozinhas no evento, sentadas. Foi então que a Vanessa soltou a frase: “E esse beijo?! Vai sair que horas?!” e a Renata se desconcertou por completo, abrindo um sorriso. Foi logo depois desse momento que, finalmente, elas se beijaram. Elas contam que nesse dia estavam todos aguardando acontecer o impeachment do Michel Temer (aquele famoso momento em que ele entrou ao vivo e disse, depois de uma pausa enorme: Não renunciarei). Portanto, nem rolaram as gravações que a Renata iria participar trabalhando na Praça e elas ficaram juntas mais tempo, depois foram embora. Depois do primeiro beijo elas começaram a conversar todos os dias, num ritmo muito diferente do que era anteriormente, além de se encontrar em todos os intervalos possíveis na Universidade. Na época, a Renata estava “de rolo/ficando” com um menino e elas contam que, mesmo amando esse primeiro momento de conhecimentos e conversas, foi também um período muito conturbado. Passaram 7 meses num relacionamento sem rótulos, ficavam com outras pessoas e acabavam brigando muito, era uma comunicação bastante difícil porque envolvia um respeito em saber os limites e no querer deixar livre, mas por outro lado uma carga muito intensa entre elas. Hoje em dia, elas recordam o quanto as duas terem um acompanhamento terapêutico na época foi fundamental para entenderem o que estavam vivenciando e conseguirem visualizar tudo com maior clareza. A chave só virou quando, depois de uma briga por coincidência, elas se encontraram em um ensaio fotográfico do qual a Vanessa estava sendo modelo. Quando a Renata chegou, deu de cara com ela já em frente à câmera posando e surgiu um clima muito estranho. Depois do ensaio elas saíram e a Renata contou sobre um sonho que ela teve, do qual elas caminhavam em um lugar e a Vanessa olhava para ela e dizia “E é por isso que eu te amo.”, e ela se sentia totalmente surpresa, porque não era algo que esperava ouvir da Vanessa. Enquanto ela contava a Vanessa ficava olhando, bastante atenta em cada detalhe. Um tempo depois do sonho, elas estavam conversando online sobre 5 coisas que gostavam uma na outra, e a resposta da Vanessa foram as 5 coisas e um extra: a 6. estava escrita: “E é por isso que eu te amo.”. Ler a declaração foi algo que fez a Renata ficar completamente surpresa, ela estava na faculdade e contou para um amigo, que perguntou se ela também amava a Vanessa e ela respondeu sem hesitar que sim. Foi então que muita coisa mudou. Quando elas perceberam esse amor que sentiam e se permitiram falar isso, a comunicação ultrapassou diversas barreiras. Elas ficaram mais próximas e se enxergaram de uma forma diferente, sendo carinhosas e estando confortáveis uma com a outra. A partir disso, assumiram o relacionamento, não se envolveram mais com outras pessoas e se viram dispostas a estarem juntas. A Renata tem 24 anos, faz Biblioteconomia, adora basquete e tem uma loja de camisetas (que vocês podem conferir clicando aqui!). Ela faz estágio em um Instituto de relações internacionais que dialoga entre o Brasil e alguns lugares da África e seu papel é organizar a biblioteca do lugar. Além disso, é apaixonada por fotografia e por audiovisual. A Vanessa tem 24 anos, é psicóloga, possui uma loja de acessórios e também ama fotografia. Ela dedica boa parte do seu tempo aos estudos sobre diversidade e relações raciais (com foco nas mulheres negras - que inclusive foi o tema do seu TCC) e, junto com a Renata, participa de um Coletivo LGBT em Fortaleza. A Vanessa fala sobre como foi se entender enquanto uma mulher negra e que suas referências vieram desde dentro de casa - pela mãe - até por figuras representativas na história e na literatura, como Marielle Franco, Djamila Ribeiro, Ângela Davis e Sueli Carneiro. Falamos também sobre as diversas coisas que fizemos e a importância de destacarmos isso dentro da nossa comunidade (como elas, que trabalham com suas profissões mas têm muitas outras profissões e já fizeram muita coisa por fora de uma palavra só que define formação) e de como precisamos incentivar o mercado de trabalho para quem faz de tudo nessa sobrevivência ao cotidiano. A Renata também lembra da mãe e, além disso, no âmbito artístico, diz que o primeiro professor de cinema é quem inspira e quem contribuiu para o reconhecimento próprio. Além disso, uma professora da faculdade a inspirou muito a seguir no curso de biblioteconomia. Hoje em dia, elas sentem que a comunicação foi um dos maiores saltos no relacionamento. E, por mais que ainda existam desavenças, conseguem dialogar e ficar bem. Nesse momento fica mais claro o sentimento de amor para a Vanessa, porque volta ao que falamos inicialmente, de que precisa ser vivido com respeito. Ela acrescenta também o fato de que um problema delas é delas, mas um problema vivido por cada uma é compartilhado quando elas se sentem à vontade para isso (e por isso a comunicação serve para também trazer confiança no amor). Por fim, a Renata enxerga o quanto evoluíram, enquanto um casal e enquanto indivíduos. Ela acredita que o amor entre mulheres é mais carinhoso e cuidadoso e que, se pensado de uma forma romântica, ela se sente muito mais à vontade com mulheres. Já viveu situações em que homens abordaram a forma de se relacionar não-monogâmica dela enquanto algo sem limites, sem pudor e sem responsabilidade afetiva, enquanto ela não enxerga o amor assim. E, de uma forma não romântica, sente que as mulheres se identificam e se encontram, pensando nas relações familiares que construiu e no quanto o apoio é absolutamente natural entre as mulheres da casa. Rennata Vanessa

  • Viviane e Darlene | Documentadas

    Amor de Não Viver Sem - Viviane e Darlene clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Elis e Vandréa

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Elis e da Vandréa, quando o projeto passou por São Paulo! Fui até a casa da Elis, da Vandréa, do Akin e da Aluá, num final de semana de junho em São Paulo. Quando cheguei, sendo recepcionada pelas crianças já contando histórias e mostrando as plantas, cômodos e coisas da casa, me deparei com a alegria contagiante do que iriam fazer aquele dia: balões e decorações para o Dia de São João, que comemoraram com uma grande festa junina. Tomamos um café e depois as fotos começaram, com todos muito empenhados na decoração. Akin e Aluá são crianças afro-indígenas, do povo Xukurus, assim como Elis e possuem muita clareza de pertencerem ao povo indígena. A família é encantada pelo carnaval, pela cultura popular, adoram os bichos e as simbologias. Estudam tupi guarani online, além de frequentar espaços culturais em São Paulo. Adoram acolher amigos e parentes em casa. Durante a nossa conversa, inclusive, contam que vão receber amigos do povo Pataxós que estão chegando para realizar um trabalho com as crianças na escola. Para Vandréa, o amor está nessa forma que o cotidiano se reinventa, nos detalhes desenhados, pintados (que inclusive representam os colegas deles cada um como um pássaro) no momento que cozinham as comidas que as crianças gostam, na forma que constroem o lar. Elis é natural de Recife, mora em São Paulo desde 2007. No momento da documentação, estava com 36 anos. Trabalha enquanto professora de educação infantil na rede pública da cidade e também desenvolveu um projeto sobre saberes ancestrais com os seus alunos, onde cada um leva a história da sua família. Elis fala sobre a xenofobia e o racismo que sofreu quando chegou e que por isso faz de tudo para que as crianças se sintam parte das suas culturas originárias e não se sintam excluídas na cidade. Assim, usam muito os grafismos, desenham, pintam as roupas, cozinham juntos e fazem esse resgate cultural. Vandréa é natural de São Paulo. No momento da documentação estava com 42 anos, trabalhando enquanto médica de família e comunidade, que acredita ser uma forma humana de olhar para a família. Trabalhou a maior parte da sua vida no SUS, hoje em dia está em um hospital privado. Akin e Aluá estão com 4 anos no momento da documentação. Possuem uma diferença de idade de alguns meses, sendo Akin nascido em outubro e Aluá em janeiro. Quando Elis e Vandréa se conheceram, ela trabalhava no terceiro setor com formação de professores na área de direitos humanos, nos eixos de formação de direitos sexuais e reprodutivos, políticas públicas de juventude, área de educação e gênero. Fazia um trabalho de acompanhar alguns estados, e não imaginava que Vandréa trabalhava com coisas semelhantes, também viajando e acompanhando estados. Chegaram a fazer viagens que envolviam amigos em comum, mas Elis viajou para trabalhos com indígenas e Vandréa para trabalhos com famílias ribeirinhas. Foi num aplicativo de relacionamentos que deram ‘match’, mas já tinham muitos amigos em comum por conta desses trabalhos. Sentem que cruzavam suas histórias o tempo todo, por estarem nos lugares com essas pessoas em comum, mas que ainda não tinham se esbarrado. Naquela época, Elis já estava em processo de adoção. Desejava adotar individualmente, vivia enquanto uma mulher solteira que sempre desejou a maternidade. Quando se encontraram pessoalmente e começaram a se apaixonar uma pela outra, Vandréa estava procurando um apartamento para se mudar e ao conhecer o prédio que a Elis morava, se encantou. Decidiu alugar um apartamento no mesmo local, então moravam em andares de distância. Mesmo morando no mesmo prédio, elas não se viam com a frequência que desejavam. Trabalhavam muito nas missões em comunidades quilombolas na Bahia, então começaram um relacionamento quase que à distância. Nessa época, já falavam muito sobre a maternidade. Elis decidiu encerrar o processo de adoção solo, uns meses depois elas marcaram uma consulta numa clínica de fertilização e decidiram morar no mesmo apartamento, já não fazia mais sentido os dois aluguéis mensais. Tiveram que lidar com a papelada na hora da gestação e entenderam a importância do casamento. Vandréa não queria só uma união estável, se fosse para estarem casadas, desejava uma festa e sentia que elas mereciam a celebração. Mesmo sem dinheiro, fizeram o evento acontecer e os amigos ajudaram em tudo - a festa aconteceu num terreiro de umbanda, os padrinhos eram os amigos em comum (que também trabalhavam com comunicação e fizeram as mídias do evento) e tudo foi organizado em 3 meses, de forma muito autónoma. A cerimônia aconteceu em 2017. Logo depois do casamento, as duas engravidaram. Vandréa não queria ceder, achava uma loucura a ideia das duas ficarem grávidas ao mesmo tempo, mas com o tempo se convenceu. Por nunca menstruarem juntas, ela faria o processo primeiro, depois a Elis. Quando finalmente menstruaram juntas, entenderam que era um sinal. Foi inclusive no aniversário da Vandréa que deram início ao processo que deu certo - as duas engravidaram. Um tempo depois, viajaram de férias e durante a viagem Elis teve um sangramento muito forte, perdendo o bebê. Foi um baque muito grande, a perda reviveu outros lutos que já teve na família, ficou muito mal. Era difícil viver a dicotomia do luto e da outra vida se gerando, as pessoas em geral não entendiam e sempre tentavam consolar dizendo ou que era muito pequeno, como se não fosse uma vida ainda, ou para valorizarem o bebê que estava na barriga da Vandréa. Elis não desistiu, tentou novamente (e por isso o Akin e a Aluá possuem o intervalo de idade). Conseguiu engravidar, eram gêmeos, mas um não se desenvolveu nessa nova gestação. Por fim, nasceu Aluá, e são muito gratas pelas gestações e pelos filhos maravilhosos que possuem hoje em dia. Elis enxerga o amor como o grande construtor do mundo que elas querem para os filhos. Seja na militância no trabalho, na vida, em tudo o que fazem tentando tornar o mundo melhor, é lá que o amor está. Deseja que as pessoas sejam mais humanitárias - e acredita ser esse o fator que aproximou elas desde o primeiro momento. Seus propósitos se unem, querem mudar as coisas na mesma proporção e sabem que podem contar uma com a outra. Nessa confiança está o partilhar das felicidades e das dores. Citam situações em que chegam do trabalho, falam o que aconteceu no dia, choram, riem, se indignam juntas. Compartilham sobre racismo, questões políticas, se movimentam. Elis explica que “A liberdade só é possível quando conseguimos abrir as asas sem ferir os outros” e que isso nem sempre é possível ou fácil. Aprende muito com as crianças e com o quanto elas estão dispostas a serem encantadoras. Por fim, entendem que o processo de educar é muito desafiador, como fazer com que não sejam machistas, racistas, que tenham respeito. Falam sobre o Akin ter cabelo grande, unha colorida, e preparam ele para enfrentar o machismo que vai existir da porta para fora de casa. Além disso, educar é também preparar os professores e a própria sociedade para lidar com a liberdade deles. ↓ rolar para baixo ↓

  • Paula e Mariana

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Paula e da Mariana, quando o projeto passou por São Paulo! A história da Paula e da Mariana chega enquanto algo muito poderoso no Documentadas. E quando digo poderoso, quero me referir à grandiosidade que temos aqui: primeiramente, uma denúncia que precisamos fazer sobre a forma que as instituições religiosas tomam o corpo das mulheres e manipulam suas ideias, culpabilizam seus desejos. Grandiosa é também pelo seu afeto, que rompeu as barreiras e trouxe cor, trouxe amor, trouxe uma nova vida para as duas que se permitiram descobrir o mundo juntas. No momento do nosso encontro, Ma e Paula estavam morando em Jundiaí, interior de São Paulo. Mari veio de Cascavel, no Paraná, em 2018 até Campinas, casada com um homem que desejava se tornar pastor e resolveu cursar psicologia. Não teve muito apoio da família para começar a faculdade, mas sempre amou conversar e ouvir as pessoas, então decidiu iniciar seu sonho. Paula, por sua vez, cresceu e viveu na igreja: seguiu a risca os princípios da religião. Foi presidente, missionária, louvava todo domingo - e também, todo domingo, pedia perdão porque achava que tinha uma doença, a de sentir atração por mulheres. Não teria como começar esse texto sem explicar o quanto esse amor representa: cor. Por maiores que sejam os desafios relatados, é muito gratificante olhar para elas e ver as roupas coloridas, o afeto (muito afeto!), as mãos dadas enquanto conversam sentadas na grama, tudo muito enfeitado, cuidado. Contam como era a vida antes, como realmente achavam que não podiam usar cores fortes, sair em certos lugares, beber certas bebidas, estar com certas pessoas, usar roupas ou ter cortes de cabelo. E como agora se permitir vestir, se conhecer, descobrir o que querem usar/quem são é o que gostam de fazer - de forma perceptível e feliz. Por mais que Paula pedisse perdão para Deus por sentir atração e se sentia uma aberração, uma doença ou algo tão ruim quanto, a verdade é que nunca tinha beijado uma mulher ou sequer conversado com alguém sobre esse desejo, pelo medo da repressão que poderia sofrer ou dos homens não a desejarem mais. Naquela época, o tanto que Paula era envolvida com a música na igreja, a Mari era envolvida com as pessoas porque adorava conversar, ouvir as mulheres, aconselhar… Há alguns anos atrás, antes da mudança para Campinas, Ma teve uma vivência de beijar mulheres e casou justamente pela “cura”, falava sobre isso abertamente, se orgulhava de ter sido curada, afinal, era isso que a igreja pregava. Quando a Paula soube, pensou: “Posso falar pra ela, ela não vai me julgar”. Demorou alguns meses para tomar coragem e, na metade de 2019, marcaram de caminhar num final de tarde. A Paula contou, mas como se já tivesse passado por isso, no sentido de: “Sentia atrações, já não sinto mais… Uma vez aconteceu. Já passou.” Paula, que sempre foi muito fechada, começou a se abrir e permitiu conversar com a Mari. Tinham diversas coisas em comum, inclusive a irmã da Paula estava morando em Curitiba na época - e Mari é do Paraná… essa questão geográfica as aproximou ainda mais. Foi num momento muito difícil em que a avó da Mariana faleceu, que ela precisou ir ao sul, estava muito vulnerável, se sentindo triste, não quis ir sozinha e a Paula foi sua companhia dando suporte e apoio onde elas passaram mais tempo juntas e se aproximaram de fato. Depois da viagem sentiram muita saudade uma da outra e foi um período de sofrimento muito grande, não só pela saudade, mas entraram numa angústia misturada com negação e questionamento, se viam em constante conversa com Deus: “Você não tinha me curado? O que tá acontecendo?” e no caso da Mari: “Eu fiz de tudo, eu até casei”. Sentiam muita falta da outra no dia a dia e queriam se ver em qualquer brecha que tinham, seja para caminhar, almoçar, jantar… Foi quando Mari resolveu conversar com o marido sobre o que estava sentindo. Sua reação foi de ficar muito magoado, bravo, foi para o Paraná e contou para a família dela e para os pastores. Foi nesse cenário que ela foi para Jundiaí, na casa dos tios, como um “tirar a Mariana de cena”. Obviamente isso respingou na Paula, chegou até a igreja em Campinas, nos pastores e na família dela. O ano já era 2020, a pandemia de Covid-19 estava começando e tudo estava parado/se adaptando para o mundo online. O pastor chamou Paula para conversar, anunciando que iria afastá-la de todos os ministérios, que ela iria precisar passar por várias “disciplinas”. A mãe dela sabia e também negava, colocava bíblias grifadas na cama dela, tudo estava muito difícil, foi quando Paula decidiu ir até Curitiba passar uns meses na casa da irmã. Precisava se ouvir, se encontrar, entender o que queria fazer. Entre o tempo que Paula estava em Curitiba e que Mariana estava em Jundiaí, elas conversavam online, mas tudo era muito confuso. Ainda viviam períodos turbulentos por conta da religião e das suas famílias, além de que elas nunca tinham se beijado. Tudo acontecia por conta da atração que elas sentiam, mas existia a possibilidade de dar errado, de não ser bom, de não se suportarem juntas, simplesmente. Quando Paula decidiu voltar para São Paulo, foi para Jundiaí encontrar a Mari. Lá, ela vivia bem com os tios. Eles são pessoas muito respeitadoras - que inclusive não apoiavam o casamento dela enquanto “cura” - e deram apoio para ela começar essa nova vida, buscaram emprego, apoiam também a relação dela com a Paula. Foram a primeira rede de apoio que elas tiveram. Depois de se reencontrarem, Paula fez uma carta de desligamento da igreja, principalmente quando soube que o pastor queria que ela fizesse uma disciplina pública - expondo para todos que, se fosse ficar, seria “curada”. Depois de quase um ano vivendo esse processo entre a viagem que fizeram no falecimento da avó e a aceitação de quem são, relembram como tudo foi muito intenso. Paula conta como o corpo dela falava: tinha crises alérgicas, muito stress, se culpava o tempo todo. Foi muito bom se libertar. Aceitar que não são doentes, entender, encarar, começar o namoro em si e começar a viver as coisas novas - beber com os tios pela primeira vez, por exemplo. Depois do início do namoro, foram 6 meses em que a Paula morava com os pais em Campinas e namorava a Mari. A mãe não falava sobre o assunto dentro de casa, mas deixava claro que Paula iria se arrepender. O pai acabava confortando. Depois de muita violência psicológica, ela precisou dar um basta. Entendeu até o último momento que isso era um processo para a mãe, que leva tempo mesmo para entender, respeitar, aceitar… mas as coisas precisam ter limites, porque machucam. Foi quando decidiu sair de casa e morar com a Mari, em Jundiaí. Quando se mudaram, os problemas reais chegaram. Mari tinha uma vivência diferente, já foi casada, morava fora há tempos… Paula morou com os pais a vida toda, nunca tinha tido um relacionamento. Foram aprendendo tudo no dia a dia. Em 2022 moraram sozinhas o ano todo num apartamento, adotaram o Théo, um cachorrinho [primeiro cachorrinho da Paula], e sentem que tudo o que viveram foi muito aprendizado. Nesse apartamento a Mari pediu Paula em casamento. Foi lá que aprenderam que dependiam uma da outra, que estavam realmente juntas. No começo da relação achavam que todos iriam ter que aceitar o amor delas, que a família iria ter que engolir… e lá no apartamento, não… viram que a vida era mais sobre elas, mesmo. Que elas já estavam felizes daquela maneira, naquele tempo. O pedido foi simbólico por tudo o que estava representando. No momento da documentação, Paula estava com 27 anos. Trabalha enquanto engenheira de alimentos numa empresa alimentícia, fazendo a qualidade do produto. Já jogou badminton, joga beach tennis e adora tocar música. Brinca que se tornou engenheira de alimentos porque adora comer. Mariana, no momento da documentação, estava com 28 anos. É psicóloga e está transicionando dentro da carreira. Adora falar sobre saúde sexual da mulher e prazer feminino. No tempo livre, ama estudar e também passa muito tempo na Netflix. Hoje em dia, elas moram com os tios da Mari, numa chácara com duas casinhas e um espaço só delas. Se veem reconstruindo a rede de apoio, fazem parte de grupos de amigas em Campinas, não querem se sentir sozinhas e compartilham o que sentem, as questões, vão nos bares, nos eventos e adoram conhecer gente nova. Dentre o peso de terem vivido achando que são uma doença, Paula e Mari falam sobre como a religião nos coloca em muitos momentos contraditórios de vez em quando. Paula relembra como se fala muito em amar ao próximo, já foi missionária e ajudava muito os outros, mas tudo era sempre pensando nela: como ela estava ajudando, como estava fazendo o bem, garantindo sua boa ação. E o quanto isso não é o que de fato Deus ensina. O certo é ajudarmos o outro porque nos preocupamos com o outro, porque amamos quem ele é, queremos cuidar. Hoje em dia, ela faz tudo pensando de fato na outra pessoa, não de forma superficial. E acredita só ter aprendido isso com a profundidade do amor. Mari explica que esse amor é um amor que não pesa. Traz o exemplo que não curte café da manhã, mas que adora levantar e fazer o café para a Paula, que acorda cedo para trabalhar. É algo muito natural, que gosta e faz por gostar. Uma profundidade que nunca tinha experimentado. Grandiosa. Muda a forma de olhar o mundo. E deseja que as pessoas vivenciem isso, sintam esse amor. Por fim, ainda sentem que Deus é amor e que é preciso ter muita coragem para se amar tanto. Acredito que é muito incrível elas manterem esse carinho pela fé, não guardam mágoas ou ódio, até porque foram criadas assim. É normal sentir rancor pela religião porque de fato é errado, criminoso e injusto o que fazem com os nossos corpos. Mas acreditam nas coisas boas que aprenderam e se apegam nisso, não tem como apagar e construir uma nova personalidade, então acrescentaram cor na que já existia, se tornaram pessoas melhores. ↓ rolar para baixo ↓ Paula Mariana

  • Clara e Karine | Documentadas

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  • Joyce e Lorrayne | Documentadas

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  • Clara e Mariana | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Clara e Mariana são as duas meninas mais novas que já passaram pelas histórias do Documentadas - e também as duas meninas com o olhar mais atento aos detalhes artísticos ao nosso redor. Clara tem 18 anos, nasceu em Criciúma - Santa Catarina, é estudante de pré-vestibular e trabalha como jovem aprendiz enquanto almoxarife. Sonha em cursar cinema, sua grande paixão e arte responsável por mudar a perspectiva e visão de mundo sobre todas as coisas que já viveu. Em um momento da conversa, a Clara compartilhou que possui uma vontade muito grande de estudar cinema justamente por querer se envolver em projetos que atuem no país integrando culturas e trazendo oportunidade de expressão para que as pessoas coloquem para fora o que sentem/como se sentem, pois acredita no cinema para muito além que um produto: uma forma de expressão das mais potentes. Mariana tem 17 anos, também nasceu em Criciúma - Santa Catarina, também é estudante pré-vestibular, atualmente ela dá aulas de ballet e jazz. A dança sempre esteve muito presente na sua vida, desde criança é seu maior divertimento e sonha em seguir carreira. No tempo livre, a Mari também participa de um projeto chamado “Ela”, que distribui kits de higiene pessoal e absorventes para mulheres na região carbonífera do Sul de Santa Catarina e a ideia é que o projeto se amplie cada vez mais. ♥ A inspiração da Mariana vem muito de dentro de casa, tendo uma mãe feminista que ela sempre viu com olhar de admiração e que a insinou a ser quem ela quer ser. Além disso, toda a vivência das duas juntas mostra diariamente que estão dispostas a evoluir e se posicionarem com as suas opiniões, estarem abertas às mudanças e às novas percepções. Ela comenta o quanto segue, junto à mãe, ensinando e compartilhando muito uma com a outra. Já a inspiração da Clara vem da arte. É através de diretoras de cinema que ela encontra sua inspiração sobre o que gostaria de ser no futuro - e entre esses sentimentos, o que mais a desperta é a coragem. Além da arte, a mãe dela também a inspira muito diariamente para conseguir contar e enfrentar as dificuldades no cotidiano. A relação da Clara e da Mari de contar sobre o relacionamento para a família foi diferente para cada uma, a Mari foi contando aos poucos e hoje em dia todos têm uma boa relação. Já a Clara, conta que a mãe dela acabou descobrindo a partir de uma carta que a Mari tinha dado à ela. Foi um baque a descoberta em si, porque ela já estava planejando contar e o momento acabou vindo antes do preparado, mas acabou saindo do armário de alguma forma. Hoje em dia, ambas famílias se dão bem e juntas elas adoram cozinhar, passar um tempo deitadas sem fazer nada, apenas se curtindo e conversando sobre coisas aleatórias. Clara e Mariana se conheceram na escola em 2019, eram de turmas separadas, mas o destino deu um jeitinho e uniu as duas na mesma turma… Ficaram bem próximas e a Clara começou a gostar da Mari, mas a Mari estava bastante confusa sobre o que sentia, se gostava de meninas ou não, se gostava da Clara ou de outra menina… Eram muitos sentimentos novos para administrar… E aí na conversa a Clara diz: “É a típica história de se apaixonar pela amiga!” Sim, é. E a Clara já sabia que gostava de mulheres, mas até então imaginava ser bissexual. Ela conta que a Mari foi essencial para sua descoberta pessoal, foi uma grande ajuda nesse processo de auto entendimento e aceitação. Aos poucos elas foram evoluindo, se descobrindo e se desenvolvendo. Mesmo que não tivessem muita noção sobre o que estava exatamente acontecendo, elas nunca deixaram de estar juntas. Quando a Mari entendeu que precisava escolher e se abrir com a Clara sobre o que sentia por ela antes que a perdesse, decidiu se declarar e foi aí que elas ficaram realmente juntas num relacionamento. Assumiram isso para todo o colégio (Que inclusive, diga-se de passagem, é um colégio católico, administrado por freiras e bastante conservador) e seguiram cada vez mais juntas. Elas entendem que amar é, também, respeitar suas individualidades e seus momentos. Então, por mais que nos momentos difíceis se apoiem, elas sabem respeitar suas particularidades e seus espaços mais reservados. Contam que dão mais valor ao apoio e ao companheirismo quando se juntam fisicamente, corpo-a-corpo, e que dentre os momentos mais difíceis que passaram está o começo do namoro, quando a coordenação da escola pediu para que elas cuidassem com as demonstrações de carinho por conta das possíveis incomodações com pais de alunos dentro da escola (Mas que elas souberam lidar firmemente e tiveram apoio da família) e com a própria pandemia, que nos desperta muitos sentimentos de incerteza e ansiedade perante o futuro. Para a Mari, amar é se sentir bem, transmitir bem-estar e felicidade. Amar pode trazer algumas preocupações e momentos não-tão-bons também porque isso faz parte das relações humanas, mas isso não pode se transformar e ser maior do que a gente. “O amor é leve!”. A Clara completa que no amor a gente se sente seguro e sereno, mesmo com a preocupação, é quase sem preocupação (risos) “Porque até com preocupação a gente se sente bem e é acolhida”. O amor entre mulheres, para elas, é sobre ter conexão e entendimento único. Por fim, mas não menos importante, a Mari e a Clara escolheram essa praça porque foi o local onde deram o primeiro beijo, na cidade em que elas moram, lá em Criciúma! Um local que elas amam frequentar e fazer piqueniques. Por mais que elas queiram estudar na capital, elas não esquecem da importância de levar e de debater mais cultura para a cidade onde moram, trazer de volta a história da cidade (Que no momento encontra-se abandonada) e incentivo aos artistas locais e das escolas municipais. Um olhar para a cultura da melhor forma: construtiva. Construindo uma nova cidade que saiba de onde veio. Mariana Clara

  • Marcela e Karine

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marcela e Karine, quando o projeto passou por São Paulo! A Karine e a Marcella são aquelas pessoas que jamais conseguiriam viver sem arte na vida. Arte em todos os aspectos: a cultura no cotidiano, passando pela pintura, pelo teatro, pelo cinema ou pela dança. Dentro do apartamento em que elas moram em São Paulo fazem uma produtora acontecer - e dessa produtora já saiu websérie, ideia para Canal no Youtube, filme, peça… tudo vira vida. A produtora criada em 2018/2019, com nome La Loba, vindo do livro Mulheres que Correm com Lobos, foi um passo muito importante também para elas colocarem em frente o que acreditam: a liberdade no criar. Roteirizar, filmar, dialogar com novos atores. Criar cenas e redescobrir aspectos de criatividade, ainda mais dentro de casa, é um desafio divertido. Quando falamos sobre as ferramentas de gravar dentro de casa (por elas terem as ferramentas necessárias, desde equipamento técnico até o suporte para lançar, como o YouTube ou outras plataformas), elas comentam também que não admitem a ideia do artista pobre, essa coisa de que o artista precisa vender o almoço para comprar a janta. Não que precisem viver o luxo, mas que querem suas profissões respeitadas e valorizadas para que tenham uma vida confortável e saudável: “Ter o trabalho reconhecido”. Suas competências artísticas são enormes, estudaram (e estudam!) há anos para construir isso e é um exercício diário relembrar o quanto o teatro, a peça, o filme, a dança, a música, a expressão artística é tão importante para o nosso dia-a-dia quanto tantas outras coisas que fazemos. Karine é de Tatuí, cidade intitulada como Capital da Música, interior de São Paulo. No momento da documentação ela estava com 33 anos e contou sobre um projeto do Governo do Estado de São Paulo em que estava fechando diversos cursos universitários lá na cidade natal dela (local que a família reside até hoje), incluindo o curso que ela fez, de Artes Cênicas, que já estava encerrado. Falou sobre a dificuldade de se ver longe e ver uma cidade com tantas potências, com um dos maiores conservatórios de música da América Latina, resistindo, mas sem muitas forças perante um poder tão maior que é o legislativo. Mas que, mesmo com todas essas sensações de cultura sendo levada “embora”, não desistiria, pois da mesma forma que ela esteve lá por tanto tempo ainda há pessoas muito boas fomentando a arte nessas cidades - e não só: a arte, a história, os eventos culturais, os projetos de voluntariado, etc. A Marcella também tem uma trajetória de busca pela cultura no interior de São Paulo, mas dessa vez em Piracicaba. Ela estava com 32 anos no dia em que nos encontramos e contou que a sua trajetória na arte da cidade foi impulsionada quando começou a fazer um curso no SENAC (e, nesse curso, também conheceu a Karine). O ano era 2016, encenaram uma peça sobre A Paixão de Cristo, aprenderam muito e até ficaram amigas, mas o tempo passou e não se falaram mais. Como a cidade é pequena e todos acabam se encontrando nos espaços, em 2018 elas fizeram outra peça novamente. Estavam solteiras, interagiram e o interesse surgiu. No fim, (ou melhor, no começo) começaram a namorar. A vida em Piracicaba, mesmo que confortável, estava um pouco limitada para a carreira da Karine e da Marcella. Foi então que surgiu a oportunidade de morar em São Paulo (capital). A Karine já tinha morado em São Paulo por um tempo, sabia como a cidade funcionava, a alta opção de cursos, abrangência para novas áreas e também a concorrência muito maior de artistas chegando de todos os lugares, mas lá em Piracicaba não via mais a carreira andar no momento em que estava… e a Marcella topou o desafio. Juntas, com o incentivo de uma amiga, realizaram a mudança. Logo no começo da pandemia encontraram a casa que moram agora, um lar maravilhoso e que foi se completando com o jeito delas em cada cantinho. Foi lá que gravaram a websérie, é lá que possuem as melhores (e piores!) ideias para as próximas produções e brincam que a casa é uma grande geradora de ideias. Elas se veem como parceiras. São muito amigas e sobretudo essa companhia se torna uma âncora. Sentem amor pela companhia. Além do amor que compartilham pela arte em si e por tudo o que são envolvidas, existe o amor que sentem por estarem juntas. A arte é um refúgio e a relação delas é uma parceria. Em casa adoram assistir Simpsons, Friends, cozinhar e durante o preparo da comida fazer pausas para dançar… Também trocam momentos de criação pintando telas, criando plaquinhas e decorações para a casa, amando os filhos de quatro patas e cuidando das plantas na varanda. Não só juntas, elas também falam da importância dos momentos de solidão. De reflexão e estudo - tanto de livros quanto de estudar a si mesmo. Para a Karine, o amor veio num entendimento sobre quem ela é e isso levou muito tempo, porque ser uma mulher lésbica artista já é um processo de autoconhecimento imenso para sair de muitos padrões e “caixinhas” que nos são colocadas. “Estar livre disso e aberta para que alguém possa te olhar e te amar é um dos passos mais importantes”. Então amar a si mesma e amar a Marcella foi um processo que aconteceu de forma natural (não fácil, claro), mas na dor ou na felicidade, foi acontecendo diariamente. Essa relação de autoconhecimento reflete na Marcella através do respeito a si própria, pois ela conta que antes ela não se via com tanto respeito - hoje ela aceita que adora dançar, por exemplo, e dança! Ela respeita quem é e respeita quem a Karine é. E isso é um dos maiores aprendizados que tira da relação. No fim da nossa conversa tiramos um outro aprendizado, sobre a expressão artística em si no que envolve esse amor além do preço que colocamos nas coisas, pelo puro sentimento de quem somos e do que gostamos/amamos fazer. A Karine dá o exemplo de que uma vendedora pode continuar sendo vendedora e cantar super bem, ou um motorista de ônibus pode ser o melhor motorista e mesmo assim um ótimo pintor… a arte deveria ser vista enquanto uma conscientização social sobre a importância de fazer arte, da expressão artística, do quão essencial para o ser humano ela é - para isso, enfim, gerar coisas boas para o nosso redor enquanto sociedade. E viver essa arte, para fora do capitalismo (ou seja, você não precisar vendê-la para ganhar dinheiro/nem tudo o que você tocar precisa virar ouro) é o que elas gostariam de ver sendo refletido por aí. Marcella Karine

  • Camila e Rafaela

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Rafaela e da Camila, quando o projeto passou por São Paulo! Rafa e Camila começaram o relacionamento entre passear no parque, ir em livrarias, tomar cafés e caminhar pela rua. Hoje em dia, compartilham o dia com os filhos da Camila, adoram fazer tatuagens (inclusive possuem algumas juntas), debater sobre leituras (e livros escritos por mulheres), tirar fotos e frequentar o local que nos encontramos. Entendem que o relacionamento (e os processos individuais que viveram no período em que se relacionam) fizeram entender o amor sob uma nova perspectiva. Camila agora enxerga o amor enquanto um fenômeno, uma ação que está dentro de tudo o que você faz. Depois que viveu a depressão passou a ver como abertura de diálogo também, ou seja, amar é conviver com conversas difíceis, passar pelas coisas. Sente que é uma pessoa que se fecha nos momentos ruins e a Rafa vem ensinando ela a se resgatar, voltar e compartilhar as dores também no amor. Rafa complementa, fala que respeita a liberdade. Estar presente nesses momentos não é para invadir qualquer espaço, mas sim dizer: “Tô aqui para o que precisar”. Rafaela, no momento da documentação, estava prestes a fazer aniversário. Como a data já aconteceu, o texto foi lançado no momento em que completou 40 anos. Ela é natural de Santos, litoral paulista, mas reside em São Paulo há mais de 10 anos. Trabalha enquanto tradutora e adora música e fotografia, considera grandes hobbies. Camila, no momento da documentação, estava com 39 anos. Ela é natural de São Paulo e trabalha enquanto produtora de eventos. Brinca que seu grande hobbie é dedicar 100% do tempo aos filhos (de 10 e 7 anos), já que ser mãe é o maior desafio que vive. Enquanto pensávamos em hobbies surgiu a brincadeira de que um grande hobbie é o quanto elas gostam de fazer tatuagens, então contaram a história de uma tatuagem em específico, quando tudo começou indo num sebo e achando um livro da Virginia Woolf com uma dedicatória escrito “E isso é só o começo”. Compraram o livro porque acharam lindo, ficaram com isso na cabeça e, numa viagem para a Patagônia, Rafa escreveu isso num guardanapo e mandou para a Camila. Rafa disse que estava doida para dizer que a amava, mas queria dizer pessoalmente, então acabou mandando só a frase numa foto. Resultado: virou uma de suas tatuagens favoritas. Elas se viram pela primeira vez num parque, mesmo já se conhecendo pelas redes sociais. Conversavam online e tinham uma expectativa em se conhecerem, estavam bastante ansiosas - Rafa até levou um presente e conta que falou sem parar. Saíram com a sensação de “Ufa! Aconteceu! Nos encontramos.” Encontraram-se diversas vezes depois disso, foram passeios em cafés, livrarias, praças… conversavam muito e nunca se beijavam. Decidiram então viajar juntas, foram para Visconde de Mauá (uma viagem feita para um casal, com quarto de casal, no inverno, lugar romântico…) e finalmente se beijaram antes do dia da viagem! Ficaram mais tranquilas, com a certeza de que daria certo. Cerca de três meses depois, se afastaram. Camila se sentia muito deprimida por diversas questões em sua vida e se isolou de muitas pessoas. Passou meses triste, em tratamento, e quando decidiu sair desse espaço, nas palavras dela, “do fundo do poço”, contou para todos o que tinha passado: as violências, a depressão… Expôs isso em suas redes e sentiu que quem gostaria de ficar, quem estaria ao lado dela, ficaria. Na versão da Rafa, ela sentiu um baque muito forte com o afastamento da Camila, mas respeitou e tentou curar isso aos poucos. Depois de meses, quando viu o retorno às redes, decidiu que iria mandar uma mensagem. Não queria surgir ‘do nada’ e lembrou que elas tinham um show para irem, pois compraram os ingressos juntas. Decidiu falar “Vamos no show? Não precisamos conversar sobre coisas pesadas, só curtir”… Camila topou e elas foram. O show era do Harry Styles e Rafa não conhecia nada sobre ele, mas Camila apresentou, até hoje ela gosta e escutam bastante juntas. Foi nesse momento, pós show, que se reaproximaram, então ficaram juntas novamente. Aos poucos foram introduzindo as crianças na rotina - e Camila explica que como já teve experiências se relacionando com outras pessoas depois de ser casada e que se afastar dessas pessoas representa um corte abrupto para as crianças, isso precisava ser alinhado com a Rafa; Que a relação com os pequenos é uma relação diferente, o carinho, afeto e vínculo continuam existindo mesmo se um dia elas terminarem. Rafa compreendeu tudo e foi abraçando isso aos poucos, no começo era uma amiga da mãe, então foi introduzindo afetos, elas foram percebendo, perguntando e ficando à vontade com isso. O dia em que contaram mesmo foi no parque (local que inclusive fizemos as fotos), elas estavam sentadas bebendo um vinho, as crianças correndo brincando, um dia bastante frio e todos estavam bastante felizes. Hoje em dia, a Rafa e eles dividem muitos gostos em comum, por exemplo futebol, curiosidades sobre sistema solar… Camila, quando fala sobre a vida socialmente, conta o quanto gostaria de ver o programa educacional mudando, entende que hoje em dia perdemos muito das coisas que realmente devemos aprender. Queria ver as pessoas respeitarem as diferenças de seus filhos, não fazendo-os entrar nas caixinhas. Cita sobre o problema que a filha enfrenta aprendendo a leitura e a escrita, se sentindo algumas vezes excluída, enquanto ela tem muitas coisas incríveis que sabe fazer e que poderia ter isso sendo explorado e valorizado. Deseja ver ela sendo respeitada por completo. ↓ rolar para baixo ↓ Rafaela Camila

  • Aline e Aya

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Maternidade Sapatão, quando o projeto passou por São Paulo! Na segunda edição da festa a Alê foi enquanto expositora por conta da confeitaria e a Aline estava ajudando as organizadoras, então elas tiveram uma oportunidade para conversar. Enquanto ela pediu uma água, a Aline jogou uma gracinha e rolaram umas brincadeiras. A Aline sempre deixou muito claro o quanto queria e tinha interesse, mas a vibe da Alê era bastante diferente, então ela desviava, achava que tudo era só uma brincadeira e não dava continuidade. A chance realmente aconteceu quando elas se adicionaram no Instagram e conversaram, marcaram de se encontrar e saíram. No encontro a Alê de cara já entendeu que não ia rolar nada porque a Aline era bastante o oposto dela: uma menina mais nova, super agitada, urbana, num pique bastante paulista. Enquanto ela estava em um momento muito mais naturezas e coisas calmas, algo mais pausado e pensado. A Aline quis chegar beijando e ela disse: espera aí, não é assim! Hahaha. Só que quando o beijo aconteceu, todos os argumentos que ela tinha foram embora, ela quis continuar. Aos poucos elas continuaram os encontros, continuaram ficando e a Aya foi percebendo que o relacionamento aberto que ela tinha foi tendo menos espaço. Foi então que, por todo o respeito que esse relacionamento envolvesse e toda a conversa, ela percebeu que ele não cabia mais e que era um momento de seguir outro caminho. Quando escolheu ficar somente com a Aline foi se abrindo para novas coisas, ocupando novos espaços e tendo novos olhares, inclusive religiosos, algo que elas cuidam muito e prezam por manter sempre em harmonia, visto que a religião é prioridade. Aline trouxe Aya até um novo centro de umbanda e, dentre todas essas mudanças, essa foi uma das que mais se destacou, porque significou uma entrada diferente, uma nova ligação com orixá e um novo caminho religioso na vida dela. Alessandra (Mama Aya) tem 30 anos, é de São Paulo, trabalha como confeiteira na @tabuleirodalirio (que agora passou por um bom tempo parada por conta da licença maternidade dos meninos, mas em breve voltará com tudo! Então já sigam para dar aquela força e encomendar comidinhas incríveis!) e além de ser uma pessoa super leve e com um sorrisão no rosto, é também uma cantora incrível e faz parte do grupo Ilu Oba de Min. Aline Exu tem 24 anos, é natural de Santos, interior de São Paulo e trabalha enquanto educadora social. Aline chegou na capital em 2016, encantada com a militância estudantil, os atos e a forma totalmente urbana e corrida de São Paulo acontecer. Começou a fazer faculdade na Zumbi dos Palmares, universidade comunitária paulista e foi a cada dia mais conquistando espaço por onde passava. Foi em um desses espaços que elas se conheceram, mais especificamente, em uma festa para o público les-bi. Aline estava na porta e contou que, por mais que nunca tenha acreditado em amor à primeira vista, ali realmente aconteceu. Quando viu a Alê, já sabia que queria casar e ter filhos. Ela ficou olhando, ali da porta, e a Alê estava com outro grupo de amigas, mais distante… durante a festa ela chegou até a Alê e perguntou se ela estava acompanhada e recebeu um “sim” como resposta, porque a Alê vivia um relacionamento aberto na época. Elas contam que a Aline não esperava essa resposta e que na hora ela ficou muda, triste, abaixou a cabeça e saiu, quieta. Seguiu o baile. Conheci a Alê (mais conhecida como a Mama Aya) e a Aline (também chamada de Aline Exú) através de um perfil que elas mantêm no Instagram, chamado @maternidadesapatao . A primeira vez que tive acesso ao perfil foi quando estava planejando o Documentadas e elas me pareceram muito fazer total sentido para o projeto. Desejei com todas as forças chegar até elas, então entrei em contato e desde o começo de 2021 estamos tentando fazer isso acontecer. O encontro, finalmente rolou, na ida do .doc até São Paulo, no primeiro semestre do ano. <3 O Maternidade Sapatão surgiu no começo da gravidez. Aline conta que com a gravidez da Aya e a barriga crescendo ela começou a postar stories no seu perfil pessoal e compartilhar como estava sendo viver isso, os detalhes cotidianos, os perrengues e os corres. Com os conteúdos no storie começou a perceber que muitas pessoas perguntavam e que chegava cada vez mais um público novo no seu perfil pessoal, pessoas que ela não conhecia e que nunca tinha visto e que isso se dava por conta da gravidez. Foi então que surgiu a ideia, já que sentia uma demanda de dúvidas de muitas pessoas que queriam entender como foi o processo delas de engravidarem e acompanhar diariamente até o nascimento dos gêmeos - o Jamal e o Jawari. Quando o perfil do Maternidade Sapatão de fato foi lançado, muitas outras coisas começaram a fazer sentido. Entenderam que o público da maternidade homoafetiva, primeiramente, era maior do que elas imaginavam - existiam muitas outras famílias, muitas outras crianças sendo criadas por duas mães - porém também ainda era muito embranquecido. Além do mais, o público que decide engravidar ainda é um público muito carente de informações e também faltam muitas informações a se passar aos profissionais de saúde que dão atendimento, à nós LGBTs, às mulheres que querem conhecer melhor seus corpos… enfim, temos um longo caminho pela frente. No começo, com o passar a terem uma busca muito grande e o perfil crescendo rapidamente, chegaram a pensar “será que somos as primeiras mulheres pretas, de quebrada, a estarem fazendo uma fertilização aqui em São Paulo?” e comentam também sobre a mulher negra periférica muitas vezes estar numa situação em que assume o filho de outra mulher que já engravidou em um outro casamento\em um outro relacionamento e que isso também é família, que isso também é muito representativo e importante (visto que esses filhos jamais são considerados “agregados” momentâneos e sim realmente parte da família), mas que elas (Aya e Aline) queriam e lutaram pela fertilização. Mas que nunca deixaram de se questionar: se os nossos filhos já fossem de um casamento antigo ou fossem adotados, nosso perfil teria tamanha visibilidade? Rolar Mama Aya Aline Exú

  • Nathalia e Iasmim | Documentadas

    Amor de Tatuagem - Nathalia e Iasmim clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Karol e Beatriz

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Karol e Beatriz, quando o projeto passou por São Paulo! Não tem jeito, preciso começar essa história falando sobre como a Karol e a Beatriz se conheceram. Poderia dar uma introdução dizendo quem elas são, o que elas gostam de fazer, enrolar vocês… mas não tem como. Não tem. Essa história é insuperável pra mim. Talvez por ser uma daquelas que eu queria ter transformado num podcast porque o áudio é muito mais engraçado do que eu escrevendo (alô, roteiristas dos streamings do momento, estão preparadxs?)... ou talvez porque não seria nenhum pouco justo deixar o melhor para o final mesmo. Só algumas informações importantes: hoje em dia a Karol tem 27 anos e a Beatriz 26 anos. Ambas são do interior de São Paulo, mas de cidades interioranas diferentes. A década (meu deus, a década é ótimo. risos) era de 2000-2010 e uma das coisas que fazia muito sucesso era o famoso bate-papo UOL... foi lá que Karol conheceu uma pessoa chamada Tânia. A conversa entre elas fluiu bem e ela adicionou a Tânia no MSN, no Orkut e a Tânia foi apresentando de forma virtual outros amigos dela (a Maiara, a Poliana e o Gustavo). A Karol, com o passar do tempo e o “convívio” diário, descobriu um interesse pela Tânia, foi aí que elas começaram a webnamorar (SIM, jovens, a Karol praticamente fundou o webnamoro). Quando todos os amigos conversavam em grupo no MSN o ícone de webcam ficava visível, então ela sabia que todos ali possuíam webcam, mas por algum motivo os amigos não gostavam de ligar e sempre quem ligava na chamada era ela e o Gustavo (ou seja, ela só conhecia a Tânia por fotos). Isso já faz muito tempo, né gente? Então precisamos lembrar que naquela época era super normal as pessoas se mostrarem muito menos que hoje em dia na internet (e serem muito menos cobradas por isso também). Com o passar do tempo e do webnamoro se desenvolvendo, todos ali criaram laços muito fortes. Na época, a Karol estava na escola, o Gustavo estudava teatro e viajava por São Paulo e a Tânia passou por um período muito difícil em que a mãe ficou muito doente. Foi um tempo em que o Gustavo (que morava na mesma cidade) a acolheu em casa, já que a mãe dela foi internada e depois de um tempo a mãe dela veio a falecer. Isso gerou um choque bem grande para todo o grupo, já que eles trocavam muitas mensagens diárias e, principalmente na Karol, pelos sentimentos que ela tinha pela Tânia, somados ao fato de ser menor de idade, estar em uma cidade distante e não saber como poderia ajudar nesse momento. Ela conta que lembra de nessa época uma outra menina do grupo, a Poliana, também estar passando por dificuldades e o quanto ela comentava em casa com a mãe sobre essas amigas, sobre querer ajudá-las… e o quanto isso também a angustiava. Mais uma vez o tempo seguiu e um belo dia, alguém a adicionou no MSN… o MSN, pra quem não sabe, não é uma rede social da qual você posta coisas... era tipo um Whatsapp, apenas um bate-papo. Ninguém adicionava lá sem te conhecer. E então, essa pessoa que adicionou a Karol do nada, chegou logo soltando um: “POR QUE VOCÊ ESTÁ NAMORANDO A MINHA NAMORADA?”. Que? Pois é. Eu também soltei isso quando eu ouvi. Essa pessoa, é a Beatriz. Vamos à versão da Beatriz. Beatriz conheceu a Tânia jogando um jogo, o Habbo (só quem viveu, sabe, né? como era bom ser jovem nos anos 2000). As duas conversavam bastante e a Tânia também apresentou o Gustavo para ela… com o passar do tempo as coisas se desenvolveram na conversa e elas também começaram a webnamorar (as precursoras do webnamoro, parte 2). No caso, a Karol e a Beatriz foram as precursoras do webnamoro e da traição do webnamoro, ou seja, o webcorno. Até que um dia O GUSTAVO (gente… a balbúrdia) chamou a Beatriz para dizer “que tinha uma menina dizendo que estava namorando a Tânia” (!!) e ela disse “como assim, eu sou namorada da Tânia, não tem essa!!” (risos) e então ela foi tirar satisfação com a Karol, assim, adicionando no MSN. Se fosse o MSN Plus na versão 2009, garanto que tinha até aquele efeito de som no fundo que dizia “eu estou sentindo uma treta!!!” Quando a Karol e a Bea conversaram elas entenderam que não ia dar certo e decidiram de alguma forma se afastar da Tânia. Elas não lembram especificamente como aconteceu, mas o afastamento rolou. A Karol começou a se envolver com uma menina na cidade em que ela morava e a Bea foi seguir a vida dela também, sem mais contatos com a Tânia e os webamigos dela. Mas calma, aí você pensa… ah, só isso? a Tânia nunca mais apareceu? kkkk meu amor… o mundo não dá uma volta, não. Ele dá um duplo twist carpado. Pois um dia chega o Gustavo (logo quem…) chama a Bea no MSN e dá a triste notícia: a Tânia morreu. .. que²? Ela estava enfrentando um período de muita tristeza e depressão após a morte da mãe dela e cometeu suicídio. Ao saber da notícia, tanto a Bea, quanto a Karol, ficaram muito mal. Foram dias de choro, um sentimento de dor estranha e uma sensação de perda imensa. Novamente venho lembrar que: hoje em dia é muito fácil para nós, que vivemos em uma década depois, num momento em que a internet está muito mais avançada, pensar que algo nessa história estava muito estranho. Mas precisamos nos transportar para os anos 2000-2010 e lembrar que por lá estava tudo bem as coisas não terem muito encaixe, né? Foi no momento após o luto que a Bea teve uma luz e entendeu que as coisas não tinham encaixe, que a história que o Gustavo estava contando era muito ríspida, muito estranho falar sobre uma depressão assim… e foi então que resolveu dar uma de stalker. Ela começou a ler o Orkut da Tânia que ainda estava ativado, pesquisou pelo nome do colégio que aparecia na foto dela de uniforme e viu que o colégio não ficava em São Paulo… TCHARAM! Começou a ir mais a fundo nas buscas do próprio colégio e… finalmente achou o perfil da menina verdadeira, descobrindo, assim, que a Tânia nunca existiu. Gente. Vocês têm noção??? A pinta nunca existiu. Se ela nunca existiu, ninguém ao redor dela existia também! Com isso caindo por terra, ela foi descobrindo uma série de fakes que o Gustavo tinha. Inclusive, por um momento, pensou que até mesmo a Karol fosse um dos fakes, mas entendeu que não era e chamou ela para conversar e contou tudo… e ela ajudou nessa busca por mais fakes. Até hoje elas acreditam que a única verdade em toda a história é que o Gustavo trabalhava com teatro (não por ele ser um ótimo personagem, porque o que ele era tem nome: criminoso, rs) mas porque ele viajava bastante pelo interior de São Paulo fazendo peças. A primeira atitude que elas tiveram foi falar com a menina que ele usava as fotos para se passar por Tânia, mas ela nem ligou, não deu bola. Então elas não souberam mais o que fazer. Elas desmascararam ele nas redes sociais e alertaram as meninas que estavam próximas dele para que se afastassem, mas naquela época os crimes virtuais não eram considerados, então era realmente muito difícil conseguir barrar o Gustavo, ainda mais elas sendo menores de idade e ele não. Foi muito engraçado pensar em toda a história e ouvir toda a história sendo contada por elas, da mesma forma que é muito incrível ver a forma que elas ressignificam algo que poderia ter sido traumático e horrível (como foi o período conversando com esse cara e com seus vários personagens), mas a única coisa que elas tentam pensar sobre, é que foi por conta disso que elas se conheceram e que passaram a ficar todos esses anos juntas e que isso, sim, foi bom. De qualquer forma, não queremos NUNCA, JAMAISSSSS, deixar de lembrá-las que os tempos atuais são outros e que precisamos denunciar homens iguais o Gustavo! Ele tinha um perfil MUITO claro: meninas, novas, lésbicas (que estavam se descobrindo) e provavelmente em algum momento usaria de tudo o que sabia sobre elas para se aproximar fisicamente, então, por favor: denunciem! Hoje em dia já temos leis, já temos um preparo e uma consciência maior e não podemos deixar nenhum caso passar. Além disso, Gustavo, se um dia você ler isso: a gente ainda consegue te enquadrar em crimes cibernéticos, seu escroto! :) Agora, sim. Ufa, essa história é boa demais. Depois que o crime foi desvendado e que as duas ficaram iguais aos integrantes do Scooby-doo tirando as máscaras dos inimigos e descobrindo que são todos a mesma pessoa, a Karol, que vivia um relacionamento um tanto quanto abusivo, foi meio que “proibida” de continuar conversando com a Bea porque a namorada estava com ciúmes… mas ela estava muito intrigada com essa história, não estava acreditando no que tinha vivido (também pudera… né?) e deu um jeito de continuar falando (!!hahahahaha). Elas resolveram se encontrar pessoalmente um tempo depois numa cidade que ficava entre as cidades em que elas moravam (Praia Grande e Vargem Grande Paulista), e essa cidade foi Cotia. Lá elas se viram para ficar em silêncio, basicamente (kkkk), porque estavam com vergonha e não tinham o que dizer. No fim, elas não se beijaram (obviamente, porque a Karol namorava, né? se não conversaram, imagina beijar kk) e na hora de ir embora pra ter um grand finale a Karol li-te-ral-men-te caiu no colo da Bea dentro do ônibus (!!!) quando ele freiou. Nessa época, a Bea começou a fazer faculdade em São Paulo, então ela ia diariamente e voltava para a capital (ou, algumas vezes, ficava na casa da tia). Era uma rotina exaustiva e durou muito tempo. Por outro lado, a Karol terminou o relacionamento e cerca de um mês depois a Bea soltou um “ah então agora a gente pode namorar, né?” e ela disse um “é.” pois foi assim que começaram a namorar. Quando se viram pela segunda vez, já estavam namorando. Com as fundadoras do webnamoro não se brinca, né? A Bea ainda teve a patchorra de soltar um “primeiro a gente namora, depois a gente beija” hahhahaha. Quando elas já estavam namorando, a Karol passou em um curso que acontecia em São Paulo também, então elas acabavam se encontrando durante a semana na capital. Elas contam que o começo do namoro foi bastante difícil porque tinham realidades muito diferentes. A Karol tinha uma condição financeira mais conflituosa, precisava correr muito atrás para conseguir as coisas e pela condição da Bea ser mais favorável ela não tinha consciência de classe e consciência dos privilégios que o dinheiro trazia. A Karol se sentia bastante triste, não conseguia acompanhar e trazia muito do antigo relacionamento junto com ela… para elas mudarem isso e se equilibrarem exigiu um esforço em conjunto de cederem e se entenderem aos poucos. Entenderem os limites, abrirem mão de algumas coisas para ouvir mais a outra… e por aí vai. Foi nesse período de equilíbrio e de entenderem que estaria dando certo que a Bea sentiu que era o momento de contar à família sobre o relacionamento delas. Ela deixou uma carta para a mãe antes de sair de casa a caminho da aula em São Paulo e, quando a mãe dela acordou e leu, ligou para ela e elas conversaram. Foi um momento que misturou um choque, com um “é isso mesmo que você quer?” e um tentar respeitar ao máximo. Com o tempo, a mãe e o pai da Bea foram entendendo e respeitando, assim como o resto da família e hoje em dia super apoiam as duas ♥ Depois do fim da faculdade, elas decidiram que seria legal escolher um apê e irem dividir uma vida sob um lar. Foram morar juntas em Cotia, a famosa cidade, lá da primeira vez em que se viram. A Karol trabalha lá até hoje escrevendo notas no cartório, mas elas já estão morando em outro apartamento, na cidade de São Paulo. Hoje em dia, adotaram gatinhos, se desenvolveram profissionalmente e a Bea é analista de marketing. Hoje em dia, a Karol e a Bea fundaram uma marca de camisetas para o público lésbico (que inclusive já apareceu no Documentadas), a @vestsapatao! Conversando sobre marcas LGBTs, elas comentaram que geralmente produtos LGBTs focam no público masculino, desde o nome (gay gay gay gay gay) até as coisas serem sempre arco-íris, unicórnios, coisas de homens afeminados, confetes e quando pensam na sapatão é só a mulher tipo caminhoneira e/ou a Ana Carolina/Maria Gadu. Automaticamente imaginam a lésbica como masculina. Enquanto elas não se enxergam nem enquanto masculina, nem enquanto feminina, mas enquanto duas mulheres que se amam, apenas. Além disso, falam também sobre a importância de fazerem roupas em modelos maiores porque só encontram coisas pequenas que caminham entre o P e o M e que elas pensam em corpos grandes porque se identificam assim. A VestSapatão é da gente e para a gente. ♥ As duas também estão noivas! O pedido foi feito em Ubatuba, num comecinho de dia super fofo e estão planejando uma boa festa depois da pandemia. A Karol, quando fala no amor, acredita que amar é transparente e verdadeiro. Completa que sente que não existe nada que não possa ser compartilhado com a Bea. A Bea diz que a relação exige muito respeito, respeito por quem elas são e por quem querem ser. Esse respeito resume a liberdade. E diz que aprendeu a amar e a respeitar com as mulheres da família dela, porque a mãe dela tem 8 irmãs, que são muito diferentes, mas que são grandiosas de amor, de criação e de laço, porque sempre tiveram respeito. Quando pergunto se elas gostariam de mudar algo na cidade em que elas moram, sendo São Paulo a residência, ou Cotia na convivência, elas dizem que gostariam de mudar a forma que são tratadas pelos homens, por sempre ouvirem comentários (ou por sermos colocadas como quem quer roubar o lugar deles). Além disso, falam que gostariam de um lugar com segurança, porque lá em Cotia não conseguem caminhar nas ruas de mãos dadas. Bea comenta a importância de ver escolas falando sobre a diversidade e o quanto isso mudaria as nossas vidas, traria consciência para as pessoas desde a educação de base. É algo que ela gostaria de ver diretamente. Ela acredita que ninguém quer ser ignorante e fala sobre a família dela, no caso, as avós, estarem querendo entender e se esforçando ao máximo para compreender o relacionamento que ela têm com a Karol - e que o papel dela, nessa história, é de ensinar e explicar, dar o suporte para que elas entendam e vejam que está tudo bem… para conseguirmos, assim, quebrar o preconceito. A história da Bea e da Karol te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Beatriz Karol

  • Carol e Cris | Documentadas

    Carol e Cris possuem um estúdio em Criciúma/Santa Catarina, onde fazem cabelos, unhas, body piercings e, junto com uma amiga, tatuagens. Foi conversando com essa amiga, inclusive, que planejaram o lugar: tiveram várias ideias para sair do padrão e criar um ambiente cada vez mais acolhedor. O estúdio começou quando elas foram para São Paulo, em 2023, viver o Lollapalooza. Descobriram que estava tendo uma feira de produtos de salão e tinham um cartão de crédito com limite disponível, chegaram lá e compraram muitos utensílios, desde potes até acessórios e montaram o estúdio assim. Jogaram ao universo. Quando chegaram no hotel, colocaram as compras em cima da cama e falaram em voz alta: “O que que a gente fez? Onde vamos colocar tudo isso?!” Quando voltaram para Criciúma acharam a sala que alugaram porque ficava na rua onde a Cris morava. O local era bem diferente, elas decoraram do jeito que gostavam, foram reinventando tudo. Agora, um ano depois, entendem o crescimento, o poder do sonho. Fazem questão de refletir isso em tudo: na escuta, acolhimento e cuidado com cada cliente. E entendem que é revolucionário ter um espaço voltado ao público LGBT+ e para as mulheres numa cidade conservadora. Não querem negociar os pontos que as fizeram criar este lugar: ser um espaço seguro para as pessoas se abrirem, conversarem, rirem, chorarem. Ser quem são sem medo de julgamento e sair de lá se sentindo empoderadas. E é isso que desejam para a cidade em si. Mesmo sendo uma salinha pequena, lá existe verdade. Se sentem felizes. E desejam isso para além: não querem mais olhares tortos por onde andam, serem julgadas pelas tatuagens, por andarem de mãos dadas… querem que o espaço seguro ultrapasse as barreiras do estúdio. Cristina, no momento da documentação, estava com 31 anos e é natural de Criciúma. Trabalha como cabeleireira, com foco em cabelos com curvatura. Se formou com o cabeleireiro Rodrigo Vizu, de São Paulo, e alguns outros cabeleireiros que ela tanto admira. Acredita que a questão do cabelo com curvatura veio dela mesmo, tinha o cabelo alisado e pouco depois da pandemia resolveu mudar, não se identificava mais. Estava começando a namorar com a Carol e ela super apoiou a transição. Além de trabalhar, gosta de descansar, assistir séries, ficar no sol, passear, tomar café, provar coisas diferentes. Veio de uma família tradicional evangélica, saiu de casa com 26 anos, morou em Balneário Camboriú e depois voltou para Criciúma, dividiu apartamento com uma amiga, foi bem difícil entender que não havia mais espaço na sua casa pra ela, e então passou a respeitar o seu corpo e quem ela é de verdade. Carol, no momento da documentação, estava com 29 anos e também é natural de Criciúma. Tem sua formação em administração, sempre gostou da área administrativa e financeira, mas aos poucos foi desconstruindo essa visão “executiva” e heteronormativa de vida que ela tinha e entendendo uma nova personalidade que condizia mais com quem ela realmente era. Trazia muitas vivências da igreja também, então aos poucos foi mudando a aparência, entendendo do que realmente gostava… Logo depois conheceu a Cris, foi um processo de descobrimento em conjunto. E hoje em dia ela também trabalha no estúdio, tanto como manicure/pedicure quanto como body piercing. Depois de 4 anos juntas, elas estão morando no mesmo lar, junto com seus três gatos e uma cachorra. Sentem que podem morar em qualquer lugar, desde que levem eles. E, no lar, cada uma continua com seu espaço: como seu guarda-roupa, por exemplo. Acreditam que isso contribui muito para suas individualidades. Foi num aplicativo de relacionamentos que se cruzaram oficialmente em 2020, mas já haviam muitos amigos em comum e os caminhos estavam entrelaçados há muito tempo. Carol já havia trabalhado no local em que Cris trabalhava, já tinham se esbarrado na igreja (e Carol aparecia no fundo de uma foto da Cris dentro da igreja!)... existiam vários ambientes e amigos, mas sempre muito heterossexualizados. Em um período, logo no começo da relação, ficaram desempregadas e buscavam essa rotina CLT, então surgiu um salão de beleza em que Cris foi trabalhar enquanto cabeleireira e Carol foi trabalhar na recepção. Ficaram lá bastante tempo, mas em algum momento sentiram que não era mais o ambiente ideal, estavam exaustas pela rotina, era um lugar muito diferente do que elas queriam estar… Sentiam que precisavam mudar o rumo das coisas. Na época, Carol sempre fazia as unhas da Cris e ela elogiava, dizia que deveria investir nisso. Coincidentemente, mulheres lésbicas que elas conheciam sempre iam fazer as unhas no salão que trabalhavam e acabava rolando alguns comentários complicados, elas não se sentiam bem, pensaram o quanto seria incrível ter um lugar acolhedor. Carol resolveu fazer um curso de manicure e pedicure tradicional para entender se gostava mesmo de trabalhar com aquilo e deu certo. Iniciou e depois chegou a ideia das perfurações corporais: o body piercing. Sair do salão que trabalhavam e abrir o seu próprio negócio não foi nada fácil. Quando escolheram o local e começaram do zero, precisavam atrair novas clientes, e começaram pelo marketing mais antigo (e melhor) que existe: o boca a boca. No prédio havia uma agência e chamaram as trabalhadoras para conhecer o salão, elas adoraram e começaram a frequentar. Logo em seguida foram surgindo novas pessoas, indicações e o negócio foi dando certo. Acreditam que a energia atrai coisas boas e possuem a sorte de ter essa energia boa. Deixam claro a preferência por mulheres e pelo público LGBT+, Cris também adora atender adolescentes, pessoas jovens que trazem a família e vai gerando trocas… Acha muito legal esse momento no salão; e também toma muito o cuidado em agendar pessoas que combinam no mesmo horário, que tenham a mesma ‘vibe’, que vão se dar bem nos papos. Falamos como é difícil apostar nesse sonho, viver essa rotina de trabalho e no meio disso ir morar juntas, captar novos clientes, enfrentar todos os novos desafios que nem imaginavam lidar. E como lidar com isso? Como enfrentar esses desafios? Elas respondem sobre a importância da terapia, de entender que as coisas levam tempo para se consolidar, de que nem tudo vai ser o fim do mundo, que vai fechar o salão na primeira baixa de cliente… E que é muito importante manter o pensamento positivo de que vai dar certo, de que vão dar um jeito, nem que o jeito seja parcelando o cartão, ainda assim é um jeito, estão juntas e as coisas vão acontecer. Sobre o tempo que levaram para morarem juntas e os processos acontecerem em si, entendem que foi o tempo necessário de amadurecimento da relação, ainda mais que convivem muito. Rindo, contam que conversam o dia todo e que quando chegam em casa continuam conversando, “haja assunto!”, mas adoram isso. No começo do namoro não tinham muitas amigas mulheres lésbicas ou bissexuais, as poucas que tinham perfumavam muito machismo, eram referências negativas, então quando viam mulheres respeitando outras mulheres ficavam muito empolgadas e pensavam “Que legal que isso existe!”, eram verdadeiras inspirações. Cris lembra como sexualizaram a sua relação, como recebeu perguntas muito invasivas e depois foi perdendo suas amizades aos poucos. Por isso, acreditam que o relacionamento que possuem está entre muito respeito desde o primeiro momento, foi a coisa pontual que definiram como inegociável. Esse respeito respinga na relação que possuem com os amigos, com os clientes, transparece com todos ao redor. Respeitam os bichinhos em casa, respeitam suas decisões, suas formas de ser, não se anulam ou se atropelam. Foi no relacionamento a primeira vez que viram um amor tranquilo. Possuiam uma ideia de que precisavam brigar para ser amor, ter ciúmes… E a relação mostrou o contrário: sossego, à vontade, ser quem se é sem medo de julgamento, sem modelo de relação heteronormativa para se guiar. Gostam do poder do companheirismo que permite dizer: “Hoje não quero ser forte o tempo todo”. ↓ rolar para baixo ↓ Cris Carol

  • Raquéis | Documentadas

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  • Renata e Marcela | Documentadas

    Amor de Arte - Renata e Marcela clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Kelly e Maíra

    Para a Kelly e a Maíra, lar significa o lugar que elas estão juntas. Esse pensamento teve início desde o começo da relação, em que elas se conheceram/se encontraram/e vivenciaram todo o início da pandemia de Covid-19 juntas. Para superar os desafios, estabeleceram o que chamam de “protocolos de bem-estar”: se uma está num dia mais corrido, a outra passeia com o cachorro, por exemplo, fazem de tudo para que a casa esteja harmonizada, assim como a relação entre elas. Kelly conta de um dia que ela levou uma “bronca” de um chefe e que a Maíra rastejou - para não aparecer na câmera - até chegar ao lado, pegar na mão e dar apoio durante aquele momento que sabia que estava sendo muito difícil para ela. Desde o começo da relação enfrentaram vários desafios e dificuldades. A Maíra, por exemplo, estava sem trabalhar porque seus atendimentos ainda não haviam migrado para o mundo online e estava bem difícil sustentar, enquanto a Kelly estava finalizando uma empresa que passava pela crise. Foi um suporte e apoio mútuo que uma proporcionou à outra. Elas relembram que isso ficou claro desde o início: partilharam felicidades e dores. Não houve um jogo único e exclusivo de sedução/de mostrar que a vida é só incrível, até porque estavam ali, literalmente sem maquiagens, desde o início. Hoje em dia, o relacionamento é um lugar seguro para ambas - serve de auxílio também. Elas sentem que terem se encontrado foi a mola propulsora para que vários outros ciclos se fechassem (como a Kelly parar de fumar, melhorar a relação familiar e encontrar sua família biológica). Entendem que nesse encontro algo realmente se encaixou e, não à toa, tatuaram um triângulo que se completa quando estão juntas. No momento da documentação a Maria estava com 32 anos. Ela é psicóloga e é natural de Curitiba, no Paraná. Já Kelly estava com 39 anos. Ela é natural de Governador Valadares, em Minas Gerais, e passou por algumas cidades até chegar em Curitiba, no Paraná. Hoje em dia trabalha enquanto programadora e estuda engenharia de software (esse, um sonho antigo, mas que nunca achava que seria capaz. Voltou a estudar através de um processo de incentivo que a Maíra colaborou muito para que acontecesse ♥). Quando elas deram match num aplicativo de relacionamentos nem imaginavam que teriam tanta coisa em comum: foram 5 horas conversando (e brincam que não pararam de conversar até hoje!). Entre a conversa, foram descobrindo que frequentavam muitos espaços em comum, mas que não se conheciam pessoalmente, por exemplo: a Maíra fazia pós graduação no prédio que a Kelly trabalhava, elas já moraram em lugares muito próximos e, além disso, a Kelly morou no prédio que a mãe da Maíra morava. Também descobriram que ambas são formadas em artes cênicas como primeira graduação e ficaram chocadas com tantas coincidências. Se pegaram pensando: será que já pegaram o elevador juntas? Ou foram na farmácia na mesma hora? Mas entendem que o momento certo de se encontrarem foi aquele, no aplicativo. Depois de alguns dias conversando, foram pensando em protocolos de segurança que poderiam enfrentar para se encontrarem - estavam ambas isoladas em suas casas e gostariam de ficar isoladas numa casa só. Na época, não tínhamos informações precisas sobre a Covid-19 então tudo era muito perigoso, contagioso, mas ao mesmo tempo havia uma sensação de que “na semana que vem” tudo iria acabar. Num sábado a Kelly mandou uma foto para a Maíra de um frango com batatas, chamando-a para a janta, e ela decidiu ir. Foi a primeira vez que se encontraram: tirando a roupa que achavam estar contaminada (porque teve contato com a rua) na porta, colocando na máquina de lavar e correndo para o chuveiro para tomar banho. Assim, elas ficaram de sábado até segunda juntas. Como a pandemia não estava nem perto de dar uma trégua, o relacionamento delas foi acontecendo, elas se encontravam e passavam dias juntas e decidiram depois de pouco mais de um mês fazer uma mudança mais sensata de viver na mesma casa. Maíra pensava nas comorbidades e temia o Covid-19, perante ser uma mulher com um corpo sobrepeso, então elas cuidavam ainda mais do isolamento e decidiram juntar os gatos com o cachorro e ficar em casa, no estúdio em que a Kelly morava. Foi um momento bastante intenso de estarem num espaço, juntas, 24h por dia. Porém deu tão certo que até hoje vivenciam essa realidade trabalhando de home office, numa rotina bastante caseira. Hoje em dia, elas têm um cuidado com a espiritualidade bem grande, por mais que não possuam religiões específicas. Já chegaram a estabelecer um ciclo de 52 semanas (um ano) com rituais espirituais entre textos, propostas, conversas etc. e a Maíra também faz parte do círculo sagrado feminino. Entre a fé e a espiritualidade, elas adoram comemorar as datas: desde casamento, aniversários e outras datas importantes. Não necessariamente com festas, mas celebrando rituais como banhos de ervas, revendo anotações, trocando conversas… acreditam na valorização da trajetória que estão traçando juntas. Nesse caminho que está sendo o relacionamento, lavaram muita roupa suja de vivências anteriores que tiveram - e isso tudo aconteceu dentro de casa - então sentem que esses rituais colaboram na criação de um lar muito seguro, que nem sequer imaginavam ter. Kelly acredita que só o amor é capaz de transformar as coisas - se você consegue amar, você consegue propor mudanças reais no mundo. Maíra acrescenta que amor não é hierarquia, é algo mais democrático. Tem espaço para a verdade e o papel de estabelecer conexão com as coisas que estão ao redor. Entre mulheres, amar é também nos protegermos, não é algo violento, é um elo. Ela cita um exemplo da presença do bolsonarismo no condomínio onde moram e da política do medo que isso implica ao ver bandeiras do Brasil nas janelas - a importância que há no nosso amor porque ele vira algo revolucionário, que demanda coragem. A Kelly conta que foi percebendo ao longo da relação o quanto a visibilidade lésbica é importante. Este foi o primeiro relacionamento que ela assumiu de verdade, que não diz que divide o apartamento com uma amiga, que trata a Maíra enquanto esposa. Termos atendimento num posto de saúde, por exemplo, acontece a partir do momento que mostramos a nossa existência e que as pessoas entendem o quanto é necessário ter atendimentos voltados à saúde da mulher lésbicas. A visibilidade é muito importante para mostrar que existimos porque isso reflete em termos documento, constatação social, políticas públicas, conhecimento e reconhecimento das nossas vidas. ↓ rolar para baixo ↓ Maíra Kelly

  • Elis e Vandréa | Documentadas

    Amor de Ancestralidade - Elis e Vandréa clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Anne e Larissa

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Anne e da Larissa, quando o projeto passou por São Paulo! Foi trabalhando juntas que Anne e Larissa se conheceram, numa rede escolar, enquanto professoras de inglês. Trabalhavam em unidades distintas (ainda que em regiões próximas) e tinham uma amiga em comum, mas não se conheciam. Até que numa reunião entre equipes a Lari viu a Anne e se interessou, achou ela linda e decidiu falar com a amiga sobre. Se adicionaram no Instagram e aos poucos a amiga foi percebendo que realmente combinavam e decidiu ir criando uma ponte, instigando que uma fizesse contato com a outra. Até que aconteceu um evento na escola em que a Anne trabalha, em Campinas, e quando a Lari soube que precisavam de professores para participar do evento prontamente se disponibilizou. Trabalharam juntas o dia todo, no fim trocaram um “Nice to meet you” amigável, sem jeito… mas a verdade é que já estavam interessadas uma pela outra. Depois do dia de trabalho juntas, começaram a conversar de fato pelo Instagram demonstrando o interesse. Na versão da Anne, todo mundo no trabalho sabia o que estava acontecendo entre elas e colocava muita pressão, do tipo “Olha lá, a Larissa tá chegando!!”. Por isso ela até tentou puxar um papo, falar de uma tatuagem, mas não rendeu. Depois, quando começaram a conversar, o apoio foi imenso. Todos adoram elas juntas. Antes de assumirem o namoro, Anne teve Covid-19 e Lari acabou sendo a professora substituta dela na unidade escolar, então se falavam ainda mais. Contam como foi divertido também trocar nessa questão de trabalho, conversando sobre tudo - e nessa época Lari ficou mais próxima dos colegas de trabalho da Anne, descobrindo assim como ela é uma pessoa muito amiga de todos (e percebendo como eles também já sabiam da existência do romance delas). Não descartam o quanto estavam tensas por serem do mesmo trabalho (e por esse trabalho ser uma escola) ao assumir que estavam juntas. São profissionais, sabem das regras. No começo, concordaram que se não desse certo, Anne iria sair porque ela nunca teve a ambição de subir de cargo e trabalhar na coordenação (diferente da Lari, que sempre quis). No fim, Lari foi contar para a coordenadora. Contou enquanto também a convidava para ir ao seu aniversário e a reação não poderia ter sido melhor: Ela disse que já imaginava, tinha visto elas interagindo no Instagram, e tudo bem! Desde o primeiro momento entenderam que queriam construir um relacionamento juntas e isso ser aceito no ambiente de trabalho significou muito. Todos brincavam positivamente com elas, os colegas sempre quiseram ver o casal feliz. No momento da documentação, Larissa estava com 28 anos e segue enquanto professora de inglês - agora já está trabalhando parte do dia na coordenação. Além do trabalho, é muito ligada à família. Ama ficar em casa, com os gatinhos, dormir, tirar um tempo para fazer nada. Hoje em dia reside em Santa Bárbara d’Oeste, interior de São Paulo, mas nasceu em Americana e é lá que trabalha. Anne, no momento da documentação, estava com 33 anos. Nasceu na Bahia, numa cidade interiorana chamada Caetité, mas desde criança mora em Campinas. Segue trabalhando enquanto professora de inglês. Desde o começo o relacionamento vem representando uma série de mudanças para elas. Pela primeira vez, a Lari contou para os pais sobre a sua bissexualidade e Anne foi super bem recebida em casa, elas inclusive adoram esses momentos em família. Lari começou a gostar de futebol, assistir Star Wars e já tem até uma camiseta do Flamengo. Descobriu que é muito bom viver tudo isso ao lado da Anne porque como são coisas que ela ama, enxerga com muito brilho no olhar. Anne veio de uma família bastante religiosa e conservadora, então o assunto de se relacionar com uma mulher é muito mais delicado. Lari foi a única pessoa que ela resolveu dizer: “Estou namorando e quero trazer ela aqui em casa”. A primeira vez que contou para os pais sobre a sua sexualidade foi há anos atrás, mas não teve boa aceitação e desde então viveu como um silêncio. Um hiato enorme, uma agressão disfarçada porque não aceita quem ela é. Hoje em dia, depois de ter assumido novamente - dessa vez com a Lari - sentiu uma vontade de quebrar preconceitos vindo do pai, que se mostrou muito mais aberto a entender. Atualmente a Lari frequenta sua casa e elas sentem que tudo evolui aos poucos, mesmo não sendo fácil. Para o relacionamento dar certo, entendem que precisam respeitar seus tempos. Lari tem uma postura mais combativa nos momentos de desafio, enquanto Anne prefere ficar em silêncio, processando, mesmo que tendo companhia. Lari explica que é um aprendizado acompanhar a Anne nos seus processos e que nunca abrem mão da comunicação. Comunicam tudo, o tempo todo, desde coisas básicas (como o que querem fazer juntas) até conversas intensas sobre o que sentem. Pela primeira vez, Anne enxerga o relacionamento enquanto paz. Sente que em outras vezes que se relacionou, não só amorosamente, precisou fazer muito esforço para ser ela mesma, se sentir bem. Com a Lari não existe dificuldade para a paz existir. E amar também é isso, se sentir bem sem querer mudar o outro e nem se mudar para agradar. Uma grande compreensão de como somos, não de forma descartável, mas de ter tolerância. Lari completa dizendo que sente um amor que gostaria que todos vivenciassem. Lembra de um momento que o pai dela viu elas desenhando juntas e disse “Como vocês combinam, né?!”. Sempre teve sua referência de amor baseada na família e acredita que a Anne já atingiu isso: se tornou família pra ela, o amor que sempre acreditou. Um núcleo, algo muito mais íntimo. ↓ rolar para baixo ↓ Anne Larissa

  • Leticia e Giovanna | Documentadas

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  • Carol e Marlise | Documentadas

    Amor de Construção - Carol e Marlise clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Lorrayne e Mari

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Lorrayne e da Mariane, quando o projeto passou por São Paulo! Lorrayne conta que Mariane chegou num momento em que tudo estava muito difícil e logo foi deixando as coisas mais leves. Mari apresentou a sua família, que ensinou para a Lo uma nova forma de amor, e para além disso, adotaram os gatos, estão mobiliando o apartamento, construindo um lar. São parceiras e muito amigas. Amam o quanto parece que estão juntas há muito tempo por tudo o que já viveram - e por isso se agarram na confiança que depositam no relacionamento. Compartilham muitas coisas, dão risada o tempo inteiro. Conversam sobre a importância de valorizar o quanto são novas e já possuem certa estabilidade. Como é precioso terem uma à outra, um trabalho, uma casa… e como entendem o quanto batalham para ter isso. Não querem perder. Mesmo que tudo tenha acontecido de forma rápida (o relacionamento em si, por exemplo) possuem noção de que ainda está no começo, que ainda são jovens e que querem viver muita coisa juntas. Trazem o exemplo da virada do último ano (no réveillon) que só queriam ficar dentro de casa, porque tinham acabado de se mudar e valorizavam muito aquele espaço. O apartamento era composto por um sofá, uma cama, uma pilha de roupas e um jogo de lençol (que ganharam da tia), mas amavam tudo o que tinham. E isso também fala sobre a valorização de tudo o que adquiriram juntas desde então. Lorrayne, no momento da documentação, estava com 22 anos. Ela nasceu em São Paulo, morou até os 14 anos no interior da Bahia, depois se mudou para Minas Gerais e aos 19 voltou para São Paulo para estudar, cursando psicologia, ganhando uma bolsa de estudos e vivendo com uma tia de consideração. Lo vive com o transtorno de borderline, e conta que foi muito difícil encontrar alguém que lidasse com ela de forma paciente, que estivesse disposta a entender suas condições. Mariane, no momento da documentação, também estava com 22 anos. Ela é de São Paulo, nasceu e viveu na zona leste da capital e hoje em dia mora (e está adorando viver) na zona norte. Mari trancou a faculdade e está na descoberta de um novo curso para iniciar. Por um mês, antes de 2022, Lorrayne ficou na casa dos pais, querendo desistir da vida em São Paulo. Mas voltou e fez a inscrição para uma nova empresa, onde passou rapidamente e começou a trabalhar com a Mari (empresa da qual trabalham até hoje). Mari já trabalhava na empresa antes da Lorrayne chegar, mas sempre foram de áreas diferentes. Como a empresa é terceirizada para outras marcas, atuam em escritórios/setores diferentes, mas o atual chefe da Lo é ex chefe/e muito amigo da Mari, então ela vivia fazendo visitas e conversando muito com ele. Em março de 2022, numa dessas visitas, passou pelo andar dele e viu a Lorrayne pela primeira vez. Ela usava máscara facial (por conta da pandemia de Covid-19, usar máscara era norma da empresa) e o pensamento da Mari foi achar ela uma mulher muito bonita, mas naquele momento não interagiu. Na época, Mari não estava se sentindo confortável na área em que estava trabalhando. Não sentia que seu rendimento era bom e tinha medo de ser demitida. Decidiu pedir uma oportunidade para ser trocada de área, saiu de férias e quando voltou teve o retorno positivo de transferência. No final de maio teve um novo encontro aleatório com a Lorrayne pelos corredores do escritório, em que trocaram olhares e dessa vez a Lo notou ela de volta, até chegou na mesa e comentou com suas colegas em tom de brincadeira “É o seguinte, estou namorando!” e as meninas responderam “Mas você fala isso sempre! Quem é a próxima?!” “É a que tá ali naquela mesa, de cabelo azul!”, se referindo à Mari. Naquele dia, Lorrayne não perguntou pra ninguém o nome dela. Foi tentando encontrar o perfil no instagram, achou e seguiu. Porém, nos dias seguintes foi atestada com Covid-19, ou seja, ficou 10 dias afastada do trabalho e elas não se encontraram mais. Depois que Lorrayne voltou para a empresa, soube que haveria uma festa junina. Mari, por sua vez, sabendo da festa, deu um jeito para estar presente (lembrando que ela não trabalhava na mesma unidade/mesmo escritório que a Lo e deu um jeito de ir até lá no dia da festa, pensando em participar do correio elegante - ato de mandar uma cartinha, brincadeira comum em festas juninas). Nem imaginava que a Lorrayne teria a mesma ideia e mandou um bilhete pelo correio antes mesmo dela. Pesquisou a letra de uma música da banda favorita que descobriu através de postagens no seu Instagram. O bilhete foi lido em voz alta, o que deixou elas suuuuper envergonhadas, mas seguiram em frente. Mari respondeu com a sequência da música que falava “Vamos viver uma aventura?” e pelo Instagram Lorrayne perguntou quando elas poderiam começar a viver isso. Mari explica que tinha uma sensação muito forte de que, a partir do momento que começassem a conversar, algo muito sério aconteceria. Não seria só um flerte, só alguém que ela iria ficar… e sentiu um certo receio. Demorou alguns dias para responder essa mensagem… Mas respondeu. Marcaram de sair, foram numa praça perto do trabalho, estavam sem dinheiro, mas deu tudo certo. Depois disso, sentem que nunca mais se desgrudaram. Na época, ficavam muito na casa em que a Lo morava com a tia, justamente por ela não estar muito presente. Porém, ambas falavam sobre o desejo de morar sozinha - e foi quando decidiram morar juntas. Em dezembro conseguiram o apartamento que moram hoje e, um tempo depois, na frente do Museu do Ipiranga a Mari pediu a Lorrayne em casamento. Hoje em dia, seguem com os planos… mas não só planos, afinal constroem o dia a dia juntas a cada mês que passa dentro dessa relação. ↓ rolar para baixo ↓ Mariane Lorrayne

  • Sara e Vitória | Documentadas

    Sara Ruth estava com 22 anos no momento da documentação. É natural de Criciúma e trabalha enquanto professora de dança. Sempre amou o meio artístico, aprendeu a dançar ainda criança e passou por diversos movimentos - desde o balé clássico, moderno, jazz, contemporâneo, as danças urbanas… Hoje em dia dá aulas em diversos estilos e também ajuda na produção artística de shows e coreografias de clipes. Brinca que é “muito metida”, adora estar em qualquer movimento. Mas a verdade é que nem sempre conseguiu viver de arte, precisou trabalhar em diversos empregos formais para conseguir conciliar com a dança e manter as contas pagas. Chegou até mesmo a iniciar uma faculdade de ciências contábeis, mas não concluiu porque soube que seu caminho era mesmo na dança. Foi entre os 17 e 18 anos que saiu de casa, e hoje, além de toda sua trajetória profissional, também entende seu diagnóstico de ser uma mulher autista, ressalta o quanto isso é importante e central na sua história, pois entende seu próprio tempo, encontrando mais equilíbrio e autonomia. Vinda de uma família cristã, o processo de se entender enquanto mulher lésbica foi atravessado por conflitos e pela heteronormatividade compulsória - naquele caminho: primeiro se identificou como bissexual, mas sempre teve dificuldade em sustentar essa identidade, porque a bissexualidade não chegava no desejo do homem, mas numa “esperança cristã” de que talvez um homem chegue e “conserte tudo”. Faz pouco tempo, há cerca de um ano e meio, que passou a se reconhecer como lésbica, embora só tenha conseguido verbalizar isso aos poucos, no seu processo - e tudo bem. Esse percurso é marcado por dúvidas, silêncios e pela sensação compartilhada por muitas mulheres, afinal, essa heterossexualidade é socialmente nos colocada desde sempre. Vitória estava com 27 anos no momento da documentação. Nasceu e cresceu em Criciúma e, diferente da Sara que gosta de estar nos palcos, ela brinca que prefere sempre ocupar os bastidores. Trabalha na área administrativa de confecção de jeans e tecidos planos e, assim como Sara, também iniciou a faculdade de Contábeis, mas não seguiu adiante por não se identificar. Define como hobby acompanhar a intensidade e a movimentação da vida da companheira, reconhecendo que sua rotina era mais parada antes de começarem o relacionamento. Hoje, compartilha com Sara um cotidiano atravessado por criatividade, movimento e descobertas constantes. Foi por meio de amigos em comum que Sara e Vitória se conheceram, em uma festa, no meio de 2023. Se cumprimentaram rapidamente. Na época, Vi estava no fim de uma relação, e Sara celebrava o próprio aniversário na festa e dançando profissionalmente com uma DJ que acompanhava em algumas festas. Depois desse dia, passaram a seguir uma à outra nas redes sociais e rapidamente interagiram numa postagem. A partir desse primeiro contato, não pararam mais de conversar. A conversa atravessou a madrugada, seguiu pelo dia seguinte e, ainda naquela mesma semana, decidiram se encontrar. O primeiro encontro aconteceu em uma parada de ônibus (e até brincaram que esse deveria ser o local da documentação, por ter sido muito simbólico). A ideia era que fosse um encontro breve, porque ambas tinham compromissos logo após, mas foram comer um lanche juntas e a conversa rolou como se já se conhecessem há anos. Tudo aconteceu com naturalidade, sem esforço. Explicam que desde o início a relação foi marcada por abertura e alinhamento. Sara reconhece Vitória como sua primeira namorada, primeira noiva e futura esposa, e sempre teve uma percepção muito clara sobre o que buscava em um relacionamento: a vontade de se entregar a alguém com quem fosse possível imaginar um futuro, entendendo o amor como construção, escolha e convivência entre o que é bom e o que é difícil. Essa visão compartilhada sobre afeto, compromisso e crescimento conjunto fez com que tudo fluísse com segurança desde as primeiras conversas. Naquele mesmo dia, pegaram o ônibus juntas. O primeiro beijo aconteceu na parada, em frente a um mercado. A partir dali, não se desgrudaram mais. O relacionamento seguiu como um processo de descoberta mútua, atravessado por diálogo, presença e pela sensação constante de reconhecimento uma na outra. Um mês depois do primeiro encontro, Vitória e Sara já estavam namorando. Pouco tempo depois, decidiram morar juntas: segundo a explicação delas, foi literalmente o primeiro mês ficando, o segundo namorando e, no terceiro, dividindo a mesma casa. A relação avançou com a mesma intensidade com que se reconheciam. Enquanto Vitória já carregava o desejo antigo de ter um lugar próprio para chamar de lar, Sara, dançante e de alma livre, queria ganhar o mundo. A ideia de uma casa própria foi sendo construída aos poucos, como um porto possível para quem quisesse ir, mas também precisasse ter para onde voltar. Sara aos poucos foi considerando a ideia de um lugar próprio junto com a Vi e, quando completaram um ano, decidiram comprar um apartamento. No fim de 2024, se mudaram para o apartamento que compraram juntas e, junto com ele, vieram também dois gatos: um preto, um branco. Foi assim que deram início para uma nova fase na relação. A saída de casa, para ambas, esteve diretamente ligada à sexualidade. Sara vinha de uma família cristã, onde o amor era possível desde que fosse distante, nunca dentro de casa. Durante muito tempo, sustentou a identidade bissexual como uma forma de negociação afetiva com a família, uma tentativa de manter pontes enquanto sobrevivia ao medo de ser rejeitada novamente. Já Vitória carregava uma história de independência mais precoce e limites mais claros: para ela, viver um amor exigia verdade e visibilidade. Essa diferença se tornou um ponto sensível do relacionamento, não como imposição, mas como conversa. Não havia obrigação de se assumir para a família, mas havia o desejo de viver sem se esconder. Com paciência e firmeza, Sara escolheu enfrentar esse processo outra vez. Estabeleceu limites em casa, recusou espaços onde a Vi não pudesse estar e passou a se posicionar com clareza. O tempo fez o que precisava ser feito. Aos poucos, o contato foi retomado, as regras foram revistas e o afeto foi entendido. A mãe, que nunca deixou de amar, precisou aprender e enxergar como a relação era boa para a Sara e a Vi. O primeiro grande gesto veio quando aceitou que Vitória estivesse presente numa festa da família. O encontro foi tranquilo, respeitoso e abriu caminho para um vínculo que é gigante - hoje elas conversam e ela vive dizendo que gostaria que a Vi fosse filha dela, de tanto que se parecem. Para Vi e Sara, o amor sempre foi entendido como um gesto revolucionário. Não como ideal romântico abstrato, mas como decisão cotidiana: estar uma para a outra, construir, sustentar, fazer dar certo. Desde o início, enxergam o relacionamento como um caminho compartilhado, feito de compromisso e presença. Reconhecem os próprios extremos, as diferenças de temperamento, a razão e a emoção num equilíbrio possível que amadurece o vínculo. Essa visão não ignora as partes difíceis. Pelo contrário: inclui o amor que dói, que exige esforço, conversa e atravessamento. Pensam o futuro juntas, detalham planos, fazem tudo com muito diálogo. Na verdade é isso: tudo passa pela conversa. Avaliam prós e contras, entendem que alguém vai precisar ceder, e não é uma disputa, explicam que existe um sistema de porcentagem: até decisões simples passam por acordos, como medir o quanto cada uma deseja ir para um evento - “hoje eu quero 50% e você?” “eu quero 80%” “então nós vamos porque você quer bastante”, para que saibam quando insistir, quando ceder e quando cuidar. Isso transforma o cotidiano em um espaço seguro, previsível e afetuoso para ambas. Criaram dinâmicas próprias para tornar tudo mais claro, especialmente considerando a vivência de Sara como mulher autista, que precisa de comunicação direta, literal e transparente. Nada fica subentendido. Desejos, limites e vontades são verbalizados sem jogos. Esse cuidado também se expressa no acolhimento das vulnerabilidades. Vitória se tornou suporte nos momentos de crise, colo, presença constante. O amor delas se mostra sem esforço performático, no modo como se sustentam e se respeitam diante dos outros. Pessoas ao redor percebem essa leveza e, muitas vezes, as elogiam e tomam como referência. Até a própria mãe da Sara, que ultrapassou o preconceito e hoje em dia é grande apoiadora. Para finalizar, elas contam que a Vi, nessa troca de afeto, tatuou a boca de Sara, uma das coisas que ela mais admira nela. E elas também tatuaram o símbolo do autismo com um coração, mostrando o afeto e o carinho nesse suporte. ↓ rolar para baixo ↓ Vitória Sara Ruth

  • Joyce e Lorrayne

    A Joyce e a Lorrayne entendem que o relacionamento delas já chegou numa fase em que não existe mais a ansiedade da expectativa, ou seja, querem estar juntas porque estão dispostas a isso. Não despejam uma expectativa gigantesca uma na outra, sentem que fazem o que gostam e não precisam se vestir de forma impecável ou estar sempre de bom humor todos os dias. Com a maturidade, a naturalização dos corpos foi se construindo aos poucos. Hoje em dia moram em uma casa que elas mesmo construíram. Na zona periférica de Belo Horizonte, vivem em uma ocupação de terras que antes era um local improdutivo e hoje recebe centenas de famílias. Na ocupação sempre foram tratadas enquanto uma família - e ressaltam como essa representatividade é importante. Por alguns anos, todos os salários que ganhavam voltava ao lar: na compra de materiais de construção, mantendo as contas em dia e pensando em uma decoração para a casa. Hoje em dia, dentre todos os cômodos que construíram e tudo o que aprenderam (fazer massa, assentar forma) é a parede de tijolinhos que mais se orgulham. Sempre sonharam em ter uma parede desse jeito, com os desenhos, pinturas e bordados que fazem pendurados nela. Foram anos planejando porque haviam outras prioridades a serem feitas e hoje se orgulham de finalmente ter conquistado. Quando relembram tudo o que já viveram juntas, falam que realmente amam a companhia uma da outra, fato que ficou ainda mais evidente na pandemia, quando dentro de casa o vínculo se fortaleceu perante as dificuldades que enfrentaram. Não sentem que vivem entre controles, ciúmes possessivos ou coisas do tipo entre elas ou familiares e amigos. Entendem que estarem juntas é algo que escolhem diariamente e depositam sua fé nesse sentimento. Claro que valorizam muito as conversas, a terapia, o cuidado com o corpo e a mente para se manterem bem. Não querem projetar as relações dos outros nas suas, então exercem a conversa e verbalizam o que sentem. Entendem que amar é se sentir feliz, assim como ver e querer o outro feliz. Por isso, não se enxergam numa relação solitária. A Lorrayne conta que tinha uma ideia de amor muito romântica, ligada aos livros de romance que lia… e que essa ideia também é um tanto doentia: A sensação de não ter a pessoa amada é igual a morte, o pedestal que existe para o amor, etc. Hoje em dia enxerga tudo de forma mais leve. Cita que ama os almoços de domingo, os dias que passam juntas sem fazer nada em específico e que assim ela se sente muito mais realizada amando a Joyce. No momento da documentação a Joyce estava com 31 anos. Ela é bordadeira e, além de vender os bordados, começaria um trabalho enquanto vendedora em breve. A Lorrayne, no momento da documentação, estava com 28. Ela trabalha enquanto desenvolvedora de sistemas, na área da tecnologia, fazendo estágio - mas também consegue diversos freelas, o que acaba ocupando todo o seu dia. Brincam que são duas velhas, amam ficar em casa e na pandemia isso se agravou ainda mais. Além disso, por morarem em um lugar distante do centro, se torna inacessível estar saindo o tempo todo pelo valor do transporte, acabam se apegando em atividades mais caseiras. Quando se conheceram, de forma online há muitos anos atrás - mais especificamente na transição do Orkut para o Facebook - interagiram numa postagem que a Lo fez dizendo que estava se sentindo triste. A Joyce soube quem era a Lo e a adicionou nas redes por conta de um amigo em comum, que falava muito sobre ela, e acabou descobrindo um blog que ela escrevia textos, poemas, contos e desabafos. Naquela época, Joyce nunca tinha ficado com uma mulher, mas até comentou com o amigo que se ficaria, gostaria que fosse com a Lo. Um tempo depois de terem interagido na postagem, se adicionaram no MSN (saudades, né?) e conversaram por três horas, falando de músicas e outros assuntos que surgiam, onde perceberam que tinham muito em comum. No decorrer daquele ano (2011) conversavam de vez em quando durante a semana; A Joyce passou pela experiência de ficar com a primeira mulher (que não foi a Lo! mas uma pessoa na Parada LGBT de Belo Horizonte), passou um mês na casa da bisavó de férias e, quando voltou para Belo Horizonte, ainda na rodoviária, ligou para a Lo diretamente de um orelhão marcando um encontro. Se encontraram no dia seguinte na pracinha de bairro próxima aos locais em que moravam, Joyce estava super insegura de ir, mas encarou e levou uma flor para a Lorrayne, que estava sentada na pracinha desenhando e achando que iria levar ‘um bolo’. Joyce brinca com a música da cantora Letrux que diz “Meu look eu pensei o dia inteiro/Só pra te encontrar” e quando chegou lá toda arrumada viu a Lorrayne vestida de qualquer jeito, com chinelo e meio desengonçada. No momento não falou nada, mas a piada surge até hoje. Joyce era muito comunicativa, enquanto a Lo ficava mais tímida, mas deu certo. No segundo encontro marcaram de ir ao cinema, em Contagem (cidade da região metropolitana de Belo Horizonte) e tiveram a infelicidade de serem assaltadas. Depois disso, passaram a se encontrar pontualmente nas segundas-feiras, porque a Lorrayne fazia aula de desenho próximo à casa da Joyce e, como não era assumida, elas conseguiam se encontrar sem precisar dar muitas desculpas. Nesse período começaram o namoro e assim seguiram pelos próximos dois anos, namorando e estudando na mesma faculdade. Foi durante o processo de estudos que aconteceu a ocupação de terras onde elas residem hoje. Nessa época, a Lo cuidava dos irmãos mais novos, enquanto ela e Joyce desejavam morar juntas pelos problemas que enfrentavam com a família. Sendo jovens e com muitos sonhos, decidiram procurar casa para alugar desesperadamente. Estavam com 21 e 18 anos, enfrentavam diversas barreiras na hora de alugar e o fato de terem um cachorro (o Vovô, que aparece nas imagens documentadas) acabava piorando pois nenhum lugar aceitava animais. Adotarem o Vovô, inclusive, foi um processo muito importante para elas; Ele ficava próximo do trabalho da Joyce e era um animal muito bravo, portanto tinham medo que acabassem matando-o pela agressividade que tinha ao atacar as pessoas. Foram 2 meses tentando a aproximação até conseguir acolher e levá-lo para a casa, portanto, jamais abririam mão dele. A mãe e a irmã da Lorrayne conseguiram casa na ocupação e ela e a Joyce ajudavam na luta: desde as reuniões, os atos e as manifestações pela terra. No momento inicial a Lo até morou com elas, em uma época que tinham um cômodo apenas, o banheiro e cozinha eram espaços coletivos da ocupação. Nesse momento, Lo até aponta para o sofá em que está sentada, falando que ele vem desde àquela época: o espaço em que dormiam. Como a irmã acompanhava a saga delas por uma casa em que pagassem aluguel, deu (e insistiu) na ideia de que elas colocassem seus nomes na lista de famílias da ocupação e tentassem um local para construir e morar. Acabaram conseguindo por algumas desistência e/ou outras famílias que não seguiam as regras de convívio. O terreno era pequeno, havia uma vizinha bastante bagunceira e acabaram enfrentando muitas dificuldades no início - não havia janelas, entravam muitos bichos como ratos e acabavam não conseguindo ver aquele local como uma casa de verdade. Até que conseguiram trocar de moradia - pagavam somente o material de construção usado - e, depois de duas mudanças, chegaram na casa em que estão hoje, o lugar que entendem como lar. Logo de início fizeram um muro para soltar os cachorros, depois uniram dinheiro para construir um banheiro e outros cômodos. Hoje em dia, nessa última (e atual) casa, com os cômodos mais elaborados e da forma que sonhavam (construíram o segundo andar, fizeram um mezanino etc), entendem que tudo foi muito árduo, mas necessário. Estão completando cinco anos nesse novo local e agora a irmã mais nova da Lo divide a casa junto com elas. Dentre todas as dificuldades, contam como foi construir em meio à pandemia. Naquele ano (2020) choveu muito em Belo Horizonte, então a obra que duraria 2 meses acabou triplicando em tempo, enquanto elas viviam em três pessoas sob um espaço que chovia dentro, tinha cimento para todos os lados e toda a sujeira incomodava muito. Entre o trabalho, faziam parte do corpo de funcionárias da creche da comunidade, então conseguiram receber auxílio mesmo nos tempos mais fortes de Covid-19, mas a regra era simples: todo o dinheiro ia para a construção. Durante a pandemia, também, o grupo de teatro que a Lorrayne faz parte passou em um edital para realizar apresentações na comunidade, o que ajudou muito a se manter em contato com a arte e trazer renda para a casa. Entendem como é bom ter realizado as coisas. Não foi nenhum pouco fácil viver todas as dificuldades que viveram, mas sentem muito orgulho em ver a casa montada. Ressaltam que fazer isso, enquanto mulheres, é ainda mais grandioso. Sempre existe alguém para apontar e dizer que não será possível, homens querendo nos ensinar a fazer coisas mínimas, opinando em algo que não cabe à eles e fazer a casa da forma que sonham é um firmamento muito grande sobre quem são. Hoje em dia, adoram os processos artísticos que fazem juntas (mesmo que a Lo faça parte do time de tecnologia, ela estudou artes por seis anos) e se dedicam aos bordados, à pintura e ao desenho. Além disso, amam jogos, no tempo livre gostam de assistir séries e filmes e fazer refeições juntas. Mesmo com as grandes dificuldades financeiras e desentendimentos que aconteciam no começo do namoro por depositarem muito de relações alheias sobre elas, hoje dão muito valor ao entendimento do corpo e da relação enquanto algo político. Lo comenta que a sociedade não as considera uma família, então fazem questão de trazer a naturalização do amor delas para todos, seja no ambiente de trabalho, entre a comunidade ou a família. Ao ver as pessoas da creche que trabalhavam (mães, pais, funcionários e crianças) tratando o amor delas enquanto algo natural, como merece ser tratado, percebeu o quanto importa essa luta coletiva. Por fim, fazem questão de dizer o quanto a sociedade precisa de mais acolhimento mental. Pouco se vê de investimentos nessa área, as terapias são caras e não há propagandas governamentais sobre isso, portanto desejam viver num país em que principalmente as mulheres que estão na base tenham cuidados mentais garantidos. ↓ rolar para baixo ↓ Lorrayne Joyce

  • Jamyle e Rebeca

    Ao assumir o relacionamento, a Rebeca e a Jamy passaram por uma série de desafios e preconceitos em relação à aceitação dentro de suas casas. Foi quando entenderam que a única forma possível de estarem juntas era alugando um apartamento e formando um novo lar, com seus trabalhos e com uma vida financeira independente, visto que dessa forma teriam maior liberdade para agir sendo quem são. Quando foram morar juntas, poucas pessoas realmente acreditaram que daria certo. Ouviram críticas por serem mulheres/jovens/estar muito cedo, mas para elas, era algo muito além de uma simples “escolha” - na verdade, era exato o contrário: não parecia ter outra escolha. Hoje em dia, dois anos depois estarem com o apartamento mobiliado, os gatinhos adotados e a casa cada vez mais ganhando um jeitinho delas é motivo para muito orgulho. A sensação é também de que as coisas não são em vão e vale a pena, de uma forma ou de outra, só elas sabem o que elas passam juntas. Os dias de folga em casa são cheios de receitas novas e a Rebeca finaliza o papo falando sobre a casa, narrando o sentimento de paz que é pra ela chegar do trabalho. O que ela sente no momento em que chega, que vê os gatinhos e que pode ficar bem, com a sua companheira, dentro de casa, é o significado de lar. As duas se conheceram de uma forma bastante comum: em uma festa e por ter um amigo que as apresentou… o que foi totalmente diferente, nessa história, é o que vem depois de se conhecerem: o intervalo entre o primeiro beijo e o início do namoro: 4 anos! (sim, 4 anos de insistência) A festa rolou lá em 2015, em Benfica (bairro boêmio de Fortaleza e bastante conhecido pelo público LGBT). A Rebeca ficou afim da Jamyle, mas ela não quis... pois estava ficando com outra pessoa nessa mesma festa… e aí, tudo bem, né? Acontece, só que aí a Jamy mudou de ideia e voltou atrás, deu um beijão na Rebeca lá mesmo. E pronto! Depois desse dia, se adicionaram nas redes, conversaram e até marcaram de sair e foram ao cinema, mas não chegaram a ficar e nem nada. Por mais que a Rebeca quisesse e tivesse sentimentos pela Jamy, ela ainda estava se curando de um ex-amor e não conseguia se envolver com ninguém novamente. Então ela respeitou e entendeu que seria uma amizade… Mas preciso mesmo explicar?? Era claro que em todas as festas que elas estavam juntas, na hora que o álcool batia, elas ficavam. A Rebeca conta, gargalhando, que sóbria a Jamy fugia dela como o cão foge da cruz. E assim, foram, ao menos, uns 3 anos. Até que Rebeca começou outro relacionamento e foi aí que Jamyle entendeu que gostava realmente dela, que sentia falta e que queria estar com ela. Foi então que a Rebeca fez um cruzeiro e deixou as duas meninas para trás: a Jamy e a outra, não queria mais viver essa confusão e ficou em alto mar incomunicável. Quando voltou, em março de 2018, elas se encontraram numa festa… e foi a partir desse momento em que finalmente começaram a namorar! A Rebeca e a Jamyle são duas mulheres que constroem um relacionamento incrível e moram juntas há 2 anos, num bairro periférico dentro de Fortaleza, no Ceará. Por mais que tenham uma rotina de trabalho intenso dentro de empresas privadas, - ambas com atendimento (na área de call center e SAC) - a Rebeca e a Jamy possuem diversos hobbies e trabalhos extras que preenchem a rotina e também trazem divertimento. Quando pergunto sobre como têm sido conciliar a vida com seus milhões de afazeres e com a pandemia em si, elas comentam o quanto não é fácil, e que existem momentos de maior desânimo ou cansaço, mas fazem o exercício de olhar ao redor e perceber o quanto crescem juntas e o quanto o cantinho delas é montado dia após dia com muito carinho, com a presença dos gatinhos, como a forma que a casa e a vida delas têm ficado mais aconchegante nesses últimos anos e como tudo se molda com o tempo. Jamyle tem 22 anos, estuda biologia e além do trabalho ela deseja fazer um curso de barista futuramente. Nos hobbies, é amante dos livros e também já fez teatro. Rebeca tem 23 anos e além do trabalho também atua enquanto DJ. Começou aprendendo com um amigo e se destacou na área, já viajou o estado do Ceará todo tocando em muitas festas e, hoje em dia, além dela estudar para concursos públicos, passa o tempo livre na cozinha aprendendo confeitaria. Como hobby, adora fazer muay thai. Jamyle Rebeca

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