Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
292 resultados encontrados com uma busca vazia
- Alessandra e Roberta
Tanto a Roberta, quanto a Alessandra, sempre sonharam em ser mães e ter uma família. Nos 16 anos em que estão juntas, planejaram e enfrentaram diversos desafios para terem seus filhos: o Alexandre, a Sofia e a Rafa. Hoje em dia, morando na cidade de Contagem - Minas Gerais, elas dividem seu tempo entre o trabalho (sendo professoras em escolas públicas), a rotina das crianças, os encontros com a família, as responsabilidades na igreja e os momentos de divertimento - esses, as crianças mesmo contam quais são: brincar com a Amora (a porquinho da índia), ir ao clube, assistir filmes e passear no parque. Alessandra vê o relacionamento delas com muita cumplicidade, parceria, perdão, união e companheirismo. São companheiras em todas as horas, contam o quanto mudaram juntas nesses anos de relação e o quanto pretendem sempre evoluir. Roberta fala sobre enxergar o amor enquanto algo único, mas entende que o nosso - de mulheres que amam outras mulheres - precisa estar sempre em enfrentamento ao preconceito. Cada vez mais entendem a importância de se ver representadas: desde nas mídias, até nos trabalhos. E o quanto fazem questão de mostrar que são capazes em tudo o que podem fazer, para que o preconceito nunca abra espaço para alguma discriminação por serem quem são. Foi através da pedagogia que elas se conheceram - e acreditam que foi Deus quem colocou uma na vida da outra - elas não estudavam na mesma universidade, até que a Alê conseguiu transferência para a universidade que a Roberta estudava. Nessa época, a Roberta tinha um problema grave no joelho e passou por diversas cirurgias, ficava bastante tempo fora das aulas por conta disso e o dia que elas se conheceram foi devido à uma comemoração pela volta da Roberta. As amigas do curso resolveram tirar uma foto, comemorando, e a Alê sem nunca ter conversado com a Roberta participou da foto, e pior: foi tão empolgada que quase bateu no joelho imobilizado dela. Um tempo depois, entre a vida acadêmica, começaram a conversar. Tudo se intensificou numa viagem que realizaram até Ouro Preto, da qual a Alê levou a sobrinha e a Roberta estava ainda sem andar por conta do joelho, então acabaram ficando juntas muito tempo, não seguindo a maioria dos passeios. No semestre seguinte, para surpresa de ambas, visto que nunca tinham se relacionado com uma mulher, entenderam que estavam apaixonadas uma pela outra. Sentem que tudo foi uma descoberta muito íntima e vivendo no tempo delas, entendendo limites e construindo uma nova forma de amar. Depois que assumiram o relacionamento, tudo foi caminhando com o tempo: se formaram, passaram em concursos, guardam dinheiro para investir em um apartamento… Para a Roberta foi mais difícil sair de casa, ela é a única filha mulher e sempre foi muito ligada à família. A Roberta, por ter diversos irmãos, teve uma mudança mais facilitada. Eles estavam guardando dinheiro porque o plano de terem uma família estava cada vez mais próximo. Contam que não foi fácil, ainda mais com o salário de professoras de escolas públicas, mas encontraram clínicas e conseguiram parcelar os exames. Na época, como as duas queriam engravidar, tentaram fazer o processo juntas - hoje em dia entendem que provavelmente não daria certo, pela quantidade de hormônios e tudo o que envolve a gravidez simultânea. Portanto, a Roberta gerou o Alexandre e logo depois (cerca de 6 meses) a Alessandra engravidou das meninas. Eles possuem cerca de 1 ano e 1 mês de diferença. Elas contam que sendo educadoras, tendo muito contato com crianças no trabalho e também na família (os sobrinhos, por exemplo) achavam que isso seria um facilitador na hora de educar os próprios filhos, mas que na verdade tudo é bem diferente - você participa de todos os processos existentes, desde alimentação, até ensinar tudo o que eles sabem (e que vão construir o ser social que são), enquanto os sobrinhos o contato era como um passeio no shopping. A educação é um dos maiores desafios e o que elas mais cuidam e se preocupam também. Desde o momento de gerar até o momento de educar elas vivenciaram diversos preconceitos: na clínica, na escola na hora de matricular as crianças, no registro do Alexandre que foi muito difícil de conseguir… mas transformaram isso em oportunidades também. O caso do Alexandre, por exemplo, por não conseguir registrá-lo perderam o convênio que elas tinham, nisso sempre que precisavam levar ele para algum lugar e estavam sem documento, eram vistas com péssimos olhares. Depois da batalha que travaram, a juíza da cidade autorizou o caso dele e em seguida das meninas, e isso abriu diversas portas para as crianças que estavam sem registro e que tinham mães e pais LGBTs terem seus processos realizados. Entendem que tudo o que viveram foi muito entre elas, ou seja, uma apoiando a outra. Foram períodos bem difíceis, como também problemas de saúde durante a gravidez de ambas, mas suportaram porque sabiam que não estavam sozinhas. Por mais que hoje tenham a família que sempre sonharam, entendem que nem tudo é romântico e feliz, valorizam cada passo que deram juntas até aqui. Hoje em dia, mesmo morando em Contagem, trabalham em cidades próximas. A Roberta, pela primeira vez, foi trabalhar numa escola em que a diretora é casada com uma mulher. Assim ela se sentiu à vontade para falar que se relaciona com uma mulher e sente que está sendo tudo diferente: o acolhimento, o trabalho em si, a forma que a Alê praticamente faz parte da escola porque visita e é super bem recebida. Ela entende que essa é a importância da representatividade vir “de cima” também, estar em cargos de poder. Além do trabalho, a rotina delas envolve a presença na Igreja Contemporânea. Contam que quando se conheceram eram católicas, mas a partir do momento que ficaram juntas pararam de comungar (porque quando se toma a hóstia, se confessa, e a relação que elas tinham era lida enquanto pecado). Eram mulheres muito ativas na igreja, desde grupo de jovens até retiros, e por mais que ninguém chegou a falar diretamente que elas não poderiam ir, não se sentiam mais parte, então decidiram se afastar. Passaram um tempo procurando igrejas evangélicas, até tinham um certo preconceito inicial e não encontraram nenhuma que gerasse identificação. Foi através de uma entrevista que conheceram um pastor e decidiram saber mais sobre a igreja - que tinha sede em Belo Horizonte, mas era num hotel e elas acharam isso muito estranho, não foram - quando a igreja passou a ter um espaço físico decidiram ir, chegaram lá e foram bem recebidas, adoraram e decidiram fazer parte. Dentre as prioridades com certeza está a fé. Acreditam que, além do encontro delas, as crianças também são presentes de Deus e que tudo se encaixa com a crença. ↓ rolar para baixo ↓
- Mariana e Thalassa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mari e da Thalassa, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Entenderam que para o relacionamento acontecer de verdade precisavam ter uma comunicação muito ativa e transparente. Mesmo em dias ruins, tentam conversar antes de dormir e dormem abraçadas. Thalassa diz o quanto se sente completa: na casa, com os cachorros, as plantas, tendo o carro, tudo. Entende que é uma mulher adulta que conquistou o que sonhava. Ela fala também sobre o quanto aprendeu a admirar a Mari, a persistência dela e a forma que lida com as coisas. Para a Mari, amar é ter cuidado, ter respeito. Tenta sempre entender o ponto de vista da Thay sobre as coisas do mundo. Amar é um exercício diário. Por fim, falamos sobre o amor ser um mosaico - tem a risada, o tempo, o respeito, a compreensão, a lealdade… não tem como falar dele sem todas as coisas que completam. Cada parte é importante para construir o todo. A história da Thay e da Mari te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Thalassa tem 32 anos, é professora de biologia e ciências para alunos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Está atualmente no chamado “ensino híbrido”, do qual a carga de trabalho é muito maior que em tempos comuns (que já é grande!). Ela trabalha em Niterói e mora próximo ao Recreio, é uma distância longa, costuma demorar 2h para chegar (mas já chegou a demorar 5h, em dias de trânsito). Fala sobre como é ser professora no Brasil e como os desafios triplicaram na pandemia. Mariana tem 27 anos, é bancária, trabalha com abertura de empréstimos. Está cursando psicologia e fala sobre a vontade de ouvir e poder auxiliar pessoas. Trabalhar com o público não é fácil, ainda mais em grande escala. Existem muitos desafios e com a modernização dos aparelhos bancários e precisamos sempre exercitar o cuidado com todos os tipos de público, entendendo suas especificidades. Mari cuida muito de si, quer viver com tranquilidade. A maior dificuldade que elas passaram foi quando decidiram morar juntas, em janeiro de 2015. O dinheiro era muito curto e precisavam mobiliar a casa, Thalassa chegou a pegar diversos freelas - sendo Uber, professora em outros lugares... foi um momento bastante turbulento. Se conheceram de uma forma um tanto quanto aleatória. A Thay ainda mantinha uma amizade com a ex namorada e a Mari ficava com essa menina (tá ouvindo esse barulho???? é o som do rebuceteio!). Na época, a Thay já namorava outra pessoa e conhecia a Mari porque já estiveram entre amigos algumas vezes. A menina (amiga/ex de Thay e amiga/atual da Mari) estava de aniversário e elas foram numa festa comemorar (a Thay e a namorada + a Mari e a aniversariante), mas ambas se meteram em confusão, a Thay já não andava bem no relacionamento, brigaram na festa e ela optou pelo término. Enquanto a Mari acabou ficando no canto e um pouco chateada por outros acontecimentos simultâneos. Ambas se viram sozinhas e o que restava era aproveitar a festa juntas. Alguns outros amigos chegaram para aproveitar a noite com elas e numa brincadeira, inventaram de todo mundo se beijar. Até então tudo bem, afinal, estavam só se divertindo. Mas quando a Mari e a Thay se beijaram, logo se sentiram totalmente diferentes, algo único. Não entenderam muito bem o que era esse sentimento/essa sensação, mas passaram a noite juntas aproveitando a festa. Nos dias seguintes elas continuaram se encontrando. Por um momento foi até meio escondido, com medo das pessoas saberem, mas depois entenderam que não tinha outra saída, ficariam juntas. Hoje, 7 anos depois, o sentimento é o mesmo. Quando fui encontrar a Mari e a Thay, não imaginava que iria gostar tanto (delas e do lugar). Marcamos num horto, no Rio de Janeiro. Com espaço para café (e cervejas), foi lá que nos sentamos para conversar. Elas tinham escolhido este lugar porque amam plantas, cuidam de vários tipos e espécies e falam sobre a importância de respeitar o tempo da terra e da natureza. O amor que passam para as plantinhas é de um jeito muito especial, gostam de usar os temperos na hora de fazer comida, esperam ansiosamente as frutas crescerem… acreditam que mexer na terra e acompanhar esse processo faz com que a gente aprenda a ter mais respeito pelo mundo. Depois que elas descobriram o horto, na primeira vez que vieram (ainda moravam longe), se apaixonaram. Agora, por morarem muito próximo dele, criaram uma memória afetiva forte e tentam frequentar o máximo que podem. Tanto a Mari, quanto a Thay são pessoas muito tranquilas. Moram com seus bichos, têm suas rotinas de trabalho… e também são mulheres muito divertidas. Elas acreditam que o encontro que tiveram nessa vida foi um fenômeno da natureza - a partir do primeiro beijo tiveram certeza que ficariam juntas. < Mariana Thalassa
- Julia e Vitória
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Júlia e da Vitória, quando o projeto passou por São Paulo! Júlia e Vitória são apaixonadas por moda, saúde da mulher, conversas longas, besteiras que fazem rir por horas, gatos e pela vida social com as amigas na cidade que moram, Campinas, interior de São Paulo. Possuem uma história de vida totalmente diferente: Júlia adora debater política e acredita que os atos políticos estão presentes em tudo o que fazemos. Sempre foi instigada pela família a ser uma pessoa argumentativa, questionadora. Vitória, por sua vez, vem de uma família muito conservadora. Frequentou a igreja até a adolescência, o pouco que sabia sobre política não achava que era tão importante - e era em ano eleitoral. O relacionamento significa uma revolução para as duas. Vitória aprendeu a olhar tudo sob uma nova perspectiva, reconheceu a importância dos debates e do pensamento crítico, enquanto Júlia aprende a compreender sua praticidade: nem tudo é tão direto, tão incisivo. Precisa entender o tempo das pessoas de processar, enfrentar e saber lidar com seus processos. Júlia conta que sempre viu o amor no lugar de incentivo, de afeto, de impulso e entende que amar é sempre algo coletivo, nunca individual. A família sempre incentivou (a ler, escrever, ouvir músicas, ter contato com o mundo). Depois da separação dos pais ficou cada vez mais próxima da mãe e percebe que sempre foi fácil entender as relações de gênero, o cuidado que uma mulher tem por outra. Sendo assim, não consegue separar o amor de algo político, sendo ele o familiar ou o romântico, que possui pela Vitória - e quando cita ela, só consegue dizer o quanto a admira, o quanto é fácil amá-la, se orgulha da força que possui e do quanto estão crescendo juntas. Finaliza com um “que mulher foda!.” Vitória, no momento da documentação, estava com 25 anos. É natural do Paraná, mas mora em Campinas, São Paulo, desde criança. Trabalha enquanto fisioterapeuta, focada na saúde da mulher, adora falar sobre sexualidade e tudo o que envolve o corpo feminino. Juntas conversam muito sobre os assuntos que envolvem sua profissão, dentre eles o parto. Ressaltam a importância de ter mulheres que estudem sobre mulheres porque até hoje a maioria das coisas que temos foram homens que decidiram. Falando sobre isso, Vitória faz o recorte sobre o quanto poder conversar e enxergar esses debates no relacionamento acrescenta na vida dela: impulsiona e demonstra o quanto querem crescer em conjunto. Júlia, no momento da documentação, estava com 34 anos. É natural de Campinas, São Paulo e trabalha com comunicação social, unindo o jornalismo e relações públicas, num ateliê. Conta que pela primeira vez pode ser ela mesma num ambiente de trabalho e como isso tem sido gratificante. Juntas elas adotaram um gato - o Kovu - e dividem vários hobbies em comum, entre eles o amor pela moda. Acreditam que a forma de se vestir também é um ato político. Amam performar feminilidade e o “choque”/a reação que as pessoas demonstram ao saber que são duas mulheres muito femininas se relacionando amorosamente. Foi em 2020 que elas se conheceram num bar. Não tinham muitas coisas abertas por conta da pandemia de Covid-19, mas foram num aniversário e se viram. Na época, Vitória estava se envolvendo com uma pessoa, mas lembra de ter visto a Júlia de tranças, dançando. Num segundo encontro, se esbarraram e ficaram, mas tudo foi muito confuso, passaram a conversar, Vitória viu a Júlia ficando com uma pessoa um tempo depois, chorou e entenderam que estavam apaixonadas uma pela outra. Ficaram mais algumas vezes, até que no começo de 2021 começaram o relacionamento. Foi um início difícil por conta da Vitória morar com os pais e eles não saberem da orientação sexual dela, além de não darem muita abertura para a conversa. Porém, estava cada vez mais insustentável ela não se sentir bem dentro de casa. Por mais que o amor entre a família exista, ela tinha medo de como iriam reagir, e também de como iria sair de casa, se sustentar… Vivia sob constante pressão. Aos poucos se estabeleceu financeiramente, procurou uma casa e foi criando coragem. Contou para a família num sábado, fez a mudança na terça e manteve a relação da melhor forma possível. Hoje, segue no mesmo lar, com o gatinho e com a Júlia visitando o tempo todo. Vitória fala sobre como a religião é difícil, mas sempre fez parte do que ela foi. Nunca se julgou, nunca achou que fosse um erro ou uma aberração ser quem ela é, diferente do que pregam. Em certo momento, entendeu que o que ouvia na igreja não fazia mais sentido pra ela, então decidiu parar de frequentar. A parte mais difícil foi explicar isso para a família, sente que colocavam uma expectativa muito grande nela, então acabou decepcionando os pais, arranjava desculpas para não ir ao invés de falar diretamente o que sentia e o processo demorou muito mais para acontecer. Quando conheceu a Júlia, vivia um momento diferente, mas complicado. Explica que a Júlia ter enxergado ela e dado uma chance para que vivessem um amor tão bom como vivem só faz admirar e amar cada vez mais tudo o que ela é (e o que são juntas). Além disso, acredita que amar independe de quem as pessoas são. Você deve sempre apoiar quem se ama. Júlia conta que sua descoberta para ter uma relação com mulheres foi praticamente inesperada, porque aconteceu enquanto uma “zoeira”, numa experiência de trisal. Não entendia e nem pensava muito sobre o que estava acontecendo. Foi entender quando ficou sozinha com a mulher e viu que isso incomodou o homem. Debateu, pensou sobre, entendeu o próprio corpo e então tomou protagonismo na história. Hoje, fala muito sobre as formas que o patriarcado toma conta das relações – ainda que sobre duas mulheres. E na sua relação com a Vitória dividem o máximo que podem, se comunicam e tentam traçar um caminho diferente. ↓ rolar para baixo ↓ Júlia Vitória
- Sofia e Carol
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Sofia e da Carol, quando o projeto passou por São Paulo! Entre tudo o que gostam de fazer juntas na rotina caseira num apartamento no centro de da cidade, Sofia e Carolina descobriram o maior dos hobbies em comum: o gosto pelo café. Apelidaram carinhosamente de “ritual”, mas estudam, adoram organizar todos os equipamentos e descobrir novos tipos de grãos. É o momento mais precioso dentro de casa. Sofia, no momento da documentação, estava com 47 anos. Ela é natural de São Paulo, trabalha com um blog de viagens e morou um tempo em Salvador. Carol, no momento da documentação, estava com 38 anos. Ela também é natural de São Paulo e trabalha enquanto fisioterapeuta. Brincam sobre como são pessoas preguiçosas, porque só vão em shows que tenham assentos e que não são muito festeiras, não curtem muito viver o carnaval. Por outro lado, adoram explorar a cidade de outras formas, como andar de bicicleta e de moto. Desejam em breve começar viagens juntas de moto para lugares um pouco mais distantes que o comum. Carol entende que foi Sofia quem trouxe ela de volta à vida através do amor. Foi esse amor que permitiu um redescobrimento sobre quem ela era: desde usar o cabelo que sempre quis (mas que nunca pode por conta de outro relacionamento bastante abusivo), até usar as roupas que deseja sem sentir medo de acharem que ela “está muito sapatão”. Entende, agora, que isso nem é um problema - o problema era ela não viver a vida antes. Hoje, acredita nas energias, nas espiritualidades. Sente que o caminho delas estava para se cruzar há muito tempo e que isso só aconteceu para crescerem juntas, pois estão sempre dispostas uma para a outra. Foi através do Happn, um aplicativo de relacionamentos, que o caminho delas literalmente se cruzou. Sofia, antes de entrar no aplicativo, foi casada por 11 anos. Decidiu baixar e se render à tecnologia porque antes, em outra época, isso não era possível. O ‘match’ aconteceu no final de dezembro, dia 28, mas não se encontraram até o réveillon (ela tentou, Carol não se sentiu confortável sendo tão rápido). Dia 31, foi para Salvador, passar a virada do ano. Conversaram pelo Whatsapp por um tempo, compraram um ingresso para o show do Milton Nascimento que teria em São Paulo (e era uma boa desculpa para se encontrarem pela primeira vez). Porém, a conversa foi esfriando até a data chegar. Sofia estava decidida: iria se mudar para Salvador. Conseguiu um apartamento lá para alugar, conheceu pessoas e se interessou afetuosamente por uma delas… Quando voltou, não sentia mais tanto clima para interagir com a Carol, então marcaram de pegar o ingresso e tomar um café antes do show, como amigas. Inicialmente, a ideia não era nem verem o show juntas, se não sentissem à vontade. Mas ao chegar no café, conversaram por duas horas e se deram muito bem. Decidiram ir ao show, encontraram uma amiga da Carol antes, beberam cerveja e depois do show continuaram a noite em um buteco. Porém, mesmo ficando até 4h da madrugada na noite, existia uma questão: a mudança para Salvador era na manhã seguinte do show. Depois do buteco/e do show, quando chegaram em casa, se falaram pelo Whatsapp e abriram o jogo: sentiram muita vontade de se beijar. Até cogitaram se reencontrar, mas o dia estava quase amanhecendo, a mudança teria que acontecer, Sofia também pensou na pessoa que gostava em Salvador e seguiu seu caminho. Carol ficou triste, passou uns dias bastante abatida, parecia que tinha vivido um término de namoro. No dia 2 de fevereiro, logo em seguida, chegou a ir para Salvador porque já tinha a viagem agendada com uma amiga, mas lá não encontrou Sofia. Depois disso, a pandemia começou e ficou tudo mais difícil. Sofia começou relacionamentos por lá, mas seus planos de viver a cidade em si não deram certo, acabava a maior parte do tempo trancada em casa. Carol, por sua vez, vivia outra situação em São Paulo. Conta que por cerca de 6 anos se relacionou com uma pessoa, que chegou a morar com ela. Não era um namoro porque elas não assumiam (nem publicamente, nem aos mais próximos). Ela já tinha rompido essa relação, porém, quando a pessoa descobriu a existência da Sofia, ‘mudou’ suas atitudes e quis estar de volta. Acontece que as atitudes não mudaram, de fato. Aos poucos Carol entendia o quanto isso era abusivo. O fato de ter gostado de alguém virou um fantasma na vida dela, uma sombra. A pessoa olhava o celular dela o tempo todo, tudo virava uma briga, o nome da Sofia sempre rondava a casa. Acabou bloqueando Sofia no Instagram, como forma de tentar cessar as brigas. A importância que Carol vê em falar sobre essa vivência vai muito de encontro ao que ela viu na Sofia como uma oportunidade de viver algo que sempre quis, um relacionamento assumido, com afeto, sem cobranças sobre como ela deve se vestir, que respeita como ela é, com comunicação. Mas além disso, fala muito também sobre precisarmos falar que existem relacionamentos abusivos entre mulheres e que precisamos nos conscientizar. Não relativizar quando as pessoas nos fazem sentir mal, nos cobram, nos ditam o que devemos ser, desconfiam. É preciso buscar acolhimento e sair dessas situações. Depois desse hiato em que Sofia viveu Salvador na pandemia e Carol se livrou mais uma vez daquele relacionamento que vivia, decidiu adicioná-la no Instagram novamente, porém por outro perfil. Conversaram sobre a pandemia, sobre a vida, e passaram a se comunicar novamente todos os dias. Um tempo depois, Carol comprou uma passagem e foi para Salvador. Elas não sabiam se iriam se dar bem, era uma primeira convivência de dias, mas tudo deu certo. Depois disso, Sofia também veio a São Paulo, ficou um bom tempo. Aos poucos, foi conhecendo sobre a relação que Carol viveu e trazendo acolhimento. Queria muito pedir ela em namoro, achava que ela merecia isso, e o pedido acabou acontecendo nessa vinda, quando aproveitaram e foram para um chalé na serra paulistana. Viveram a distância Salvador - São Paulo por um tempo, ainda na pandemia, e estava tudo bem difícil. O contrato da Sofia estava próximo de vencer, então pensou em voltar para São Paulo. Decidiram morar juntas, justificam: “Se a Carol fosse morar em Salvador, ela iria morar comigo. Por que eu vindo pra cá não poderia morar com a Carol?”. Depois da mudança, casaram-se. No dia de Iemanjá. Sofia e Carol adoram as coincidências que possuem juntas. Para além do café, as músicas, os lugares… Sofia fala como é importante poder ser quem ela é de verdade com a Carol, como ela nunca tinha vivido isso de forma tão plena, a forma que se sente à vontade com alguém, em liberdade. Carol só conseguiu entender a relação que viveu depois que passou por tudo. Hoje em dia, valoriza o quanto ela e a Sofia podem ser quem são na rua, nas redes sociais, podem pegar na mão quando saem pela cidade. E aprende diariamente a viver uma relação saudável, a superar os traumas e a não querer pesar as coisas. Adora a rotina agradável que vivem. Ambas mudaram muito suas visões sobre o amor depois que passaram a se relacionar. Não são muito próximas de suas famílias e nem possuem um número extenso de amigos, mas os que existem são pessoas que amam, confiam, que estão na vida delas há anos. Entende respeitar o tempo de cada pessoa, o limite das coisas, é o essencial para que tudo dê certo. Querem um amor leve, que conversa e que entende. ↓ rolar para baixo ↓ Carolina Sofia
- Mariana e Reylibis
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mari e da Reylibis, quando o projeto passou por São Paulo! A Rey hoje em dia trabalha enquanto arquiteta em um escritório em São Paulo, ela sonha em se mudar para a Bahia e conta o quanto ama morar no Brasil. Ela aprendeu a se aceitar morando no Brasil e aprendeu também a gostar de todo o tipo de diversidade. Fala sobre a sua vivência na Venezuela e sobre lá ser tudo muito escondido, sobre jamais poder demonstrar qualquer tipo de afeto com outra mulher na rua e não ter um espaço do qual ela possa se sentir à vontade. Aqui ela encontrou esse espaço. Mas, agora que ela já mora aqui, também entende que ainda assim existe o medo, os olhares, a violência, o aumento de um certo conservadorismo nos últimos tempos… mas que não é hora de abaixar a cabeça porque temos que seguir caminhando para vencer totalmente esse medo. Elas acreditam que o amor que cultivam significa e sempre significou: compartilhar. Porque começou por estarem compartilhando os detalhes do dia a dia. E que mesmo não sendo fisicamente presente, ele existe de forma intensa e sempre foi vivo, porque elas sempre se preocuparam, sempre tiveram empatia em pensar não só no que sentem, mas na forma em como faziam uma a outra se sentir. A relação também serviu como um processo de cura, aconteceu de forma natural. E por mais que já receberam olhares na rua, já passaram por certas violências sendo mulheres, entendem que o amor entre elas gera força e sintonia, é político e também é sobre se recusarem a se envolver com homens, é sobre reverter uma situação de uma sociedade que coloca os homens no centro de tudo. Por fim, a Mari é urbanista e faz parte de alguns projetos super legais, como mobilizadora da Rede de Ativismo Nossas Cidades (clica aqui!), e também integra a organização TODXS Brasil como articuladora política LGBTQIA+, e é colaboradora do projeto Nossa Fala, onde desenvolve conteúdos sobre território, gênero e interseccionalidades. Ela fala sobre a importância de, para mudarmos realmente a cidade, precisarmos colocar mulheres que fazem cidades para mulheres - desde arquitetas, urbanistas, pensadoras de mobilidade, cultura, política, educação, enfim, de tudo. Aí, sim, viveremos em um lugar seguro para nós mesmas. Quando a Mari voltou da Espanha, em junho de 2019, logo no mês seguinte elas conseguiram se encontrar, foi quando a Reylibis veio ao Brasil, passar alguns meses. Foi tudo muito bom, elas moraram juntas por um tempo e decidiram que ela voltaria para a Venezuela para terminar algumas matérias da faculdade e organizar o trabalho de conclusão de curso entre o fim de 2019 e o meio de 2020 e assim que estivesse formada se mudaria de vez para o Brasil. Foram algumas idas e vindas, até que ela embarcou no dia 6 de março para apresentar o trabalho lá e voltar em maio e no dia 14 aconteceu o que jamais esqueceremos… foi declarado o início da pandemia. O que era maio, virou novembro. Mais uma vez elas se viram em países diferentes. E dessa vez foi muito pior, porque a Mari estava sozinha no apartamento e a Rey acabou apresentando o trabalho online, ou seja, ela poderia ter continuado no Brasil. Foram todos esses meses tentando comprar passagens, mas ninguém poderia sair da Venezuela, as fronteiras estavam fechadas por conta da situação política e não haveriam voos para o Brasil por conta dos nossos governos não se reconhecerem (Bolsonaro não reconhece o governo Maduro, e vice-versa). Mesmo que elas pedissem auxílio em espaços de imigrantes refugiados e embaixadas, não conseguiram ajuda, e no fim só foi possível por terem viajado para outros países até conseguirem chegar ao Brasil. Enquanto elas relembram cada detalhe sobre como foi muito difícil passar por isso no meio da pandemia, lembram que no começo jamais teriam cogitado um relacionamento à distância. Nem sabem me explicar como ocorreu, ambas nunca teriam topado ou acreditado se contassem à elas que iriam viver isso, simplesmente aconteceu. E é também por isso que dão tanto valor a todos os momentos que estão juntas. Desde os momentos em casa, até qualquer ida ao mercado, viagens, almoços, momentos em família… não querem mais passar momentos distantes, estão sempre juntas. A Mari conta, inclusive, que por mais que elas agissem de forma sensata antes da despedida do tipo “não podemos ter nada.”, elas já estavam se sentindo diferentes, e que a Reylibis, enquanto ela fazia as malas, estava deitada na cama e disse que por mais estranho que isso pudesse soar, de alguma forma, ela sentia que estava amando a Mari. No momento a Mari ficou quietinha, não disse nada de volta, mas se sentia balanceada também. Ela nunca tinha se sentido assim por uma mulher, então isso também era bastante novo, também era uma posição bem diferente. Quando ela chegou na Espanha foi compartilhando tudo com a Rey, desde mandar fotos, fazer ligações… virou uma companhia à distância. Elas almoçavam e jantavam juntas, contavam sobre seus dias e sobre as novidades de tudo o que estavam aprendendo. Por mais que ainda não possuíssem um compromisso de relacionamento, elas até tentaram se encontrar na europa, mas não foi possível por conta de todas as dificuldades políticas que a Rey enfrentava toda vez que tentava sair da Venezuela. É muito importante lembrarmos que a Venezuela passa por uma situação de ditadura militar e crise econômica muito forte, dos quais os militares acabam barrando e fazendo dura fiscalização sobre quem circula dentro do país, de quem entra e sai do país, pelas mulheres, LGBTs, jovens, pelas pessoas não terem condições de guardar dinheiro e por tudo ser muito escasso. A Rey comenta que o plano dela sempre foi sair de lá o mais rápido possível - e que inclusive sempre foi muito apoiada pela família - porque essa é a principal saída para todos os jovens. Infelizmente, no momento não há oportunidades para quem fica lá. Com o passar do tempo e com a relação delas se estruturando, elas foram entendendo que queriam ficar juntas, e isso abriu maiores possibilidades para a Rey pensar sobre fazer o trabalho de conclusão da faculdade no Brasil (em alguns quilombos na Bahia) e encontrar novamente a Mari. Abram alas para a nossa primeira documentação internacional ♥♥♥♥ A Reylibis é venezuelana, natural de Carúpano, mas morava em Caracas antes de (finalmente!) se mudar ao Brasil. Digo finalmente porque vocês vão entender o quanto as duas (ela e a Mari) passaram por muitas batalhas juntas para fazer essa mudança acontecer. Ela tem 25 anos e conheceu o Brasil através de um intercâmbio da faculdade de arquitetura, que durou 14 meses, durante os anos de 2017 e 2018, na cidade de São Paulo. Lá fez muitos amigos, frequentou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (a FAU, local que fizemos as fotos), da USP e, no último mês antes de retornar ao seu país, conheceu a Mari. A Mari também tem 25 anos, é paulista, urbanista e conheceu a Rey por conta de todos os amigos que tinham em comum na faculdade. Elas passaram meses frequentando os mesmos espaços, saindo com as mesmas pessoas, mas nunca conversavam de fato. Foi durante uma janta, um mês antes da Rey voltar para a Venezuela e a Mari dar início ao seu intercâmbio para a Espanha, que elas se conheceram de fato, em uma janta com os amigos. Elas brincam que “a janta começou com uma conversa e quando vimos já estávamos uma no colo da outra, fazendo cafuné na cabeça e rindo de bobagem”... naquela noite ficaram e no mês todo que se passou também. Quando a despedida aconteceu e elas seguiram para países distantes não pensavam em assumir algum tipo de relacionamento e nem achavam que o contato seguiria sendo mantido, até porque sabiam que não tinham data para se encontrar novamente, mas o tempo foi passando e as coisas aconteceram ao contrário: elas se falaram cada vez mais. Reylibis Mariana
- Lara e Ana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Lara e da Ana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Lara comenta que o amor entre mulheres pode envolver maior cuidado pelo reconhecimento que uma mulher possui pela luta da outra, mas também comenta a não-generalização justamente tanto por ela quanto pela Ana já terem passado por relações com pessoas que acabaram sendo bastante tóxicas. Além do amor em si, comenta sobre a necessidade de olharmos para nós e para o que somos, as pressões que nossos corpos passam, nossa estética, nos olharmos com cuidado, entendermos nossas inseguranças, nossos medos… não desacreditarmos no amor de forma geral. Elas entendem que o preconceito existe pela falta de conhecimento e pelas pessoas tirarem conclusões precipitadas, julgarem por algo que não tentam conhecer. Falam que o amor lésbico deveria ser olhado com mais afeto e menos hipersexualização, menos olhar de indústria pornográfica, porque no fim as pessoas precisam apenas saber querer conhecer, ter essa proatividade de reconhecer que precisam buscar mais, mudar as coisas, quebrar preconceitos… e que a partir do momento que elas perceberem que é tão simples, que tá tudo bem, que isso tudo é “só” amor, as coisas vão ser muito mais fáceis para todo mundo. Mas que para isso acontecer temos um longo caminho ainda. Não à toa, elas tentam estar sempre abertas à dialogar e mudar cenários, independente de tudo. Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Hoje em dia, a Lara trabalha em uma loja de roupas, é modelo plus size e estudante pré-vestibular. Sonha em fazer relações públicas para se especializar em marketing digital. Sua ligação com a mãe é absurdamente forte, assim como a fé e a religião. Frequenta a umbanda/candomblé e ama cultivar os momentos em que está no centro de religião. Além disso, também é uma grande fazedora-de-poemas. A Ana trabalha em uma farmácia de manipulação e também possui uma ligação muito forte com a religião. Foi algo que ela sempre se encontrou e que o relacionamento potencializou de um jeito transformador para ambas. Ela comenta que se viu muito tempo distante do que mais gostava, se sentia perdida, longe dos amigos e não se sentia bem nos outros relacionamentos e por muito tempo falar com a Lara, mesmo que rapidamente pelas redes sociais, acabava trazendo de volta o que ela sentia falta e não sabia nomear. Hoje em dia disse que se encontrou de novo e que sente uma paz muito grande, algo muito saudável. “Meu lar se ancorou nos olhos dela”. A história da Ana e da Lara te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! A Lara conta que nessa época começou a entender que quando beijasse a Ana, iria se apaixonar. Elas sempre tiveram muita sintonia, a amizade ia além, o afeto conectava, se encaixava… e elas se pareciam muito também. Então surgia até um certo receio do momento em que isso fosse acontecer, por mais que ambas sentissem vontade. Com a chegada de 2020 e o início da pandemia, elas tiveram um afastamento automático na amizade, que só voltou após o término do relacionamento da Ana e de ela passar por momentos bem difíceis, já próximos ao fim do ano. A Lara ofereceu muito suporte nessa época, elas voltaram a se aproximar e foi aí que decidiram finalmente dar uma chance a essa história de amor acontecer (no começo, em forma de amizade colorida, pra ver se daria certo!!!! e hoje em dia estão de aliança e tudo!). Perguntei para a Ana se não foi difícil assumir um relacionamento logo depois de ter passado por algo assim, justamente por ela ter proposto a amizade colorida, e ela comentou que sim, que não pensava em se envolver dessa forma, mas como gostava da Lara há tantos anos e desde tão nova, sentiu esse momento como finalmente uma oportunidade de estarem juntas, não havia formas de deixar isso passar. No dia primeiro de janeiro de 2021 elas estavam conversando e a Ana mandou uma música para a Lara (Mirrors, do Justin Timberlake), dizendo que era uma música que sempre ouvia e a fazia pensar nela. Essa música secretamente é a música favorita da vida da Lara e ela nunca tinha compartilhado isso com ninguém, o que a fez ficar muito emocionada, porque sempre quis que alguém a visse como a música descreve. Foi a partir da música que elas ficaram juntas e que o pedido de namoro também aconteceu, meses depois, cheio de jantar, vinhos, painel de led, comidas gostosas e preparativos. ♥ O romance das duas, teoricamente, começou ainda láááá no ensino fundamental, mas só de um lado. Elas estavam em um grupo de amigos e a Lara chegou para a Ana e disse “ei, escuta uma música chamada Segredos, da Manu Gavassi”, até aí ok, Ana foi pra casa e quando decidiu ouvir viu que a música era super romântica e pensou que pudesse ser algum tipo de indireta para ela, sendo que na verdade não envolvia nenhuma maldade, era realmente só uma indicação, mas a menina se deixou levar, criou um sentimento, desenvolveu um interesse e ficou com isso guardado no peito. O tempo se passou, elas não eram tão próximas e quando chegaram no ensino médio foi criado um grupo e a amizade foi se desenvolvendo, enquanto simultaneamente estavam se descobrindo nas suas vidas também. Hoje em dia, a Ana conta que naquela época percebia que o corpo automaticamente, como se fossem instintos, respondia às ações da Lara - cada vez que ouvia a voz, ou que ela saía para ir ao banheiro… coisas do tipo - o coração disparava, as borboletas batiam no estômago… e assim, a relação ficava mais próxima. Porém, aconteceram uma série de situações que fez com que esse grupo acabasse se envolvendo em discussões e todo mundo optou pelo afastamento, então as duas acabaram se afastando nisso também e interromperam a amizade. Ambas se envolveram com pessoas e acabaram criando relações bastante tóxicas, a Ana enquanto um namoro, e a Lara por mais que não chegasse a namorar de fato, acabava tendo envolvimentos, idas e vindas e não se sentia bem no que vivia. Foi quando ela resolveu retomar um contato com a Ana, saber como ela estava e as duas voltaram a conversar frequentemente. Foi nesse momento em que a Ana passou a olhar a Lara com novos olhares, a relação que antes mostrava o interesse surgindo só dela agora parecia ser diferente, sempre tinha uma implicância de brincadeira, uma bobagem à toa para ver a Lara sorrindo, uma palhaçada… e naquele momento parecia ser diferente, com o passar dos anos e já no fim do ensino médio, elas também estavam diferentes. Foi quando ela tentou um primeiro flerte e foi correspondido, mas elas nunca chegaram a se beijar, terminaram o ensino médio, a Ana começou a namorar outra pessoa, se envolveu em outro relacionamento do qual não se sentia tendo algo saudável e toda vez que parava para analisar e pensar sobre a situação em que estava, se via caminhando em círculos. A história da Lara e da Ana faz acontecer uma boa mistura na nossa cabeça porque envolve muita coisa, mesmo elas sendo tão tão tão novinhas, já se conhecem há 7 anos! Elas se conheceram no colégio, ainda no ensino fundamental. Sim, geração 2000! (se você não está se sentindo velha, é porque você provavelmente também faz parte dessa geração). A Lara tem 19 anos, a Ana tem 20 e por mais que no colégio fossem amigas, lá, no auge dos 14 aninhos, elas não eram tããão próximas assim. A Ana conta que já era capaz de se sentir mexida com algumas coisas que a Lara fazia, mas não sabia que nome dar para isso, porque tudo é muito novo quando se está na adolescência. Ela foi se entender e se descobrir mesmo aos 16, quando beijou uma mulher pela primeira vez. Começamos a conversa falando sobre isso, esse momento que envolve o descobrimento da sexualidade, do corpo, dos sentimentos… e sobre como a tendência é nos levarmos à uma heteronormatividade compulsória. A Ana comenta que passou por muitos problemas enquanto bullying, problemas com o próprio corpo, chegou a namorar um menino e só em 2017/2018 que começou a entender o que era de fato se relacionar com mulheres, foi um processo muito delicado conhecer e se identificar com o movimento LGBT. Já a Lara, conta que o processo da bissexualidade foi também caminhando e se desenvolvendo um tempo depois, no ensino médio. Hoje em dia, a Ana é a sua primeira namorada e isso implica em desafios diários - ela está começando a contar para as pessoas, começando um processo de realmente assumir quem é, como se sente. E por mais que ambas famílias apoiam e reconheçam este relacionamento, ela entende que não é a maioria da realidade no Brasil e que não é a realidade das ruas também, que pode enfrentar preconceitos e outras barreiras por conta da sua orientação. < Lara Ana
- Samantha e Camila
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Samantha e da Camila, quando o projeto passou por São Paulo! Quando lancei o Documentadas uma mulher lá de Campinas entrou em contato comigo dizendo que queria que eu fosse para lá registrar ela e a namorada e eu respondi aquilo que todas encontram aqui no site quando se inscrevem: se arranjarmos mais casais que topem participar, maior a chance de eu ir (pela possibilidade de organizarmos vakinhas, pela demanda, organização, etc). Passaram três meses e, por mais que a Camila vez em quando aparecia inbox dizendo "não esqueci de vocês, tá?" eu pensava "tá! hahaha vamos organizar!" e achava que de fato iríamos organizar, porém não naquela hora… ATÉ QUE ela surgiu dizendo que tinha organizado 10 casais que topariam participar, com horário, agenda, local, doação garantida e tudo o que tinha direito. Fiquei chocada, pensando: será que ela realmente existe??? E aí ela me contou o motivo: eu quero que o Documentadas venha para Campinas porque preciso do Documentadas registrando o pedido de casamento que vou fazer para a Samantha! Tá explicado, né? O casamento de duas mulheres é capaz de mover o que for, inclusive levar o Documentadas até Campinas. Depois que confirmamos a ida e que comprei as passagens, comecei a participar ativamente da preparação do pedido de noivado das duas - que até então seria uma surpresa para a Samantha. Precisávamos manter a seriedade e o segredo para que ela não desconfiasse de nada (e eu não poderia deixar escapar nenhum detalhe pelo perfil do .doc), então deixei para divulgar só quando já estivesse lá. Fiquei hospedada na casa dela, tomando todos os cuidados, detalhadamente, perante à pandemia. E diferente dos outros casais com quem tenho contato e converso, fiz uma imersão na vida dessas duas ♥ - foram três dias vivendo a realidade delas, ouvindo suas histórias, vivendo a rotina e trocando conhecimento. Ao chegar lá, minha mala virou a mala do noivado, enquanto a Sá trabalhava fomos em lojas de decoração, compramos confetes, comidas, acessórios de festas... e a ansiedade da Camila virou a minha - então fiquei a responsável por organizar como seria o momento - e bloquear a Samantha no perfil do Documentadas no Instagram (fingindo que eu estava sem internet!) para que ela não visse as publicações em que eu contava para o público da página que o pedido de casamento seria feito durante as fotografias do .doc (e que eu iria transmiti-lo ao vivo). Bom, aconteceu! Deu tudo certo. Fomos para uma chácara, junto com a Clara e a Mayara, que também estarão com suas histórias aqui no Documentadas e que auxiliaram em toda a surpresa. A Cami estava tão, tão, tão ansiosa que quase colocou tudo a ser descoberto várias vezes? Sim. Eu fingi que estava irritada para a Samantha não desconfiar de tanta ansiedade 'à toa' no ar? Também! [O que a gente não faz... né?] E ela realmente não esperava, foi lindo. Vocês podem conferir as fotos do momento aqui ♥ Camila tem 35 anos, atualmente trabalha como barbeira e tem um espaço em que atende os clientes lá em Campinas, mas conta que já trabalhou com quase tudo nessa vida: já trabalhou em navio, já foi babá, já foi garçonete, é longa a lista! Morou muitos anos na Europa, em alguns lugares diferentes, foi lá que se entendeu enquanto uma mulher lésbica e decidiu voltar para o Brasil um pouco antes da pandemia pela necessidade de se ver um pouco mais próxima da família e cuidar da saúde mental. Foi aqui que ela conheceu a Samantha, que tem 27 anos, é bancária mas também não perde a oportunidade de fazer um freelance no fim de semana e ganhar uma renda extra! Falando em renda, juntas elas lançaram o Laricas.com, uma marca de comida, vendem salgados de festas, salgados maiores e alguns doces também. A mãe e a avó da Sá participam do empreendimento, ajudando nas vendas e na produção. Quem começou tendo a ideia, na verdade, foi a mãe; As duas toparam, a avó que é super conhecida no bairro por ter várias amizades e organizar bingos decidiu ajudar nas vendas e na divulgação e então todas começaram a vender juntas. A Cami costuma fazer as entregas e elas vendem pelo próprio Instagram (no Instagram no .doc, você chega até elas e por lá pode encomendar, se morar em Campinas ♥ garantimos: é bom demais!). As duas nasceram no mesmo bairro, cresceram na mesma região e descobriram muitas coisas em comum, mas só foram se conhecer mesmo há 2 anos e meio atrás, através de um aplicativo de relacionamento para mulheres, o Wapa. Conversaram pouco por lá, cerca de uma semana e a Cami lembra que tinha algo no perfil da Sá sobre ela gostar de queijo, então decidiu que iria mandar uma foto de uma tatuagem que ela tem que é um queijinho e pensou "ah, vai que rola, né???". E rolou. De lá, ela comentou sobre uma festa que iria acontecer, com música eletrônica em uma parte da cidade, era uma festa cheia de drags, um público bastante ‘underground’... E a Samantha contou que estaria fazendo um freelancer nessa festa! Foi então que elas marcaram rapidamente de se encontrar. A Cami estava enfrentando um momento muito sério e difícil na depressão, não se sentia bem e inclusive, ir para a festa, foi bem delicado. Não queria estar lá, não estava legal e até pediu para que a mãe a levasse porque não poderia ir dirigindo e também não tinha dinheiro para o Uber ou o táxi. Quando ela chegou, encontrou uns amigos e comprou uma cerveja para impressionar, porque o dinheiro era limitadíssimo, mas o charme ela não abriu mão e quando foi fumar na rua a Sá passou por trás dela e encostou a mão nas suas costas, dando um 'oi', mostrando que a viu... e ela brinca 'Aí garanti minha carona para ir embora'. No dia da festa ela realmente garantiu a carona para ir embora, a Sá deixou ela em casa e perguntou o que ela ia fazer durante a semana, se elas podiam se ver... E bom, ela estava totalmente trancada num quarto escuro em depressão, claro que não tinha nada agendado para fazer durante a semana. Topou o encontro. Esse encontro virou outro, e outro, e outro. 28 dias depois elas começaram a namorar, no dia dxs namoradxs de 2019. As famílias admiram muito o relacionamento das duas e elas entendem que é pelo tanto que se ajudam. A Sá chegou naquele quarto escuro, literalmente, trazendo luz. Ela chegava e abria as janelas, falava "nossa, tá muito escuro aqui!" e saía abrindo tudo. Mudava as coisas de lugar, fazia ser diferente. E a Cami se permitia mudar. Da mesma forma que a Cami, nesses 2 anos, vêm trazendo diversas novas perspectivas para a Sá - trouxe a terapia, um novo olhar sobre o trabalho, a vida dela, a forma que ela vê os outros... tudo é muito mais saudável. Desde o primeiro momento em que eu estive com elas percebi o quanto as realidades delas são diferentes, a Cami vem de uma família onde o pai é provedor, enquanto a Samantha é uma casa que só tem mulheres fortes e independentes. O tempo todo a Cami lembra o quanto conviver na casa da Samantha muda o olhar dela sobre as coisas e o quanto aprende sobre a sociedade. A mãe da Cami, por sua vez, considera tanto ambas famílias uma coisa só que sempre fala: ‘’A Samantha é gente da gente’’. Juntas, a Samantha e a Camila adotaram duas cachorras, a Cacau e a Tulipa (Tuli, para os íntimos). Elas amam a rotina com as "crianças": cuidar delas, assistem vídeos de adestramento, sonham em trabalhar com animais, ter alguma creche de cães ou um hotel... em casa tem as duas cachorras, o cachorro da avó e um papagaio também da avó, todos encantadores (Principalmente a vó! Que é um amor e joga bingo como ninguém!). Elas adoram, no fim da tarde, ir na Pedreira do Garcia com as cachorras brincar, correr e se divertir. Além disso, costumam comemorar coisas dentro da própria rotina. Comemorar de um jeito único. Desde aniversários de namoro, aniversários das cachorras, datas que elas adotaram, momentos que elas consideram especiais... Comemoram o crescimento, a conquista, o sonho em conjunto. A Cami completa "Tem outra coisa que a gente faz, a gente ri muito. Tipo, toda a noite junto, é engraçado. A Sa riu tanto ontem que disse ’Mor, eu não tô enxergando’’. Eu amo fazer ela rir." Por fim, elas sonham com um dia em que vão fazer esse casamento acontecer de fato e ter filhos, para além das "crianças" caninas. Querem que seus filhos vivam num mundo diferente do que vivemos. A Cami demorou 27 anos para se assumir lésbica, para se permitir esse entendimento também e não quer mais ver as pessoas passando pelo mesmo que passou, não quer ver as pessoas dentro desse armário. Deseja que as pessoas vivam com respeito e dignidade. Ela quer permitir a educação de forma livre, como não foi permitida à ela, porque acredita que assim seria o mundo ideal: livre. E que isso seja ensinado na escola, que ao redor dos filhos delas o contato com o mundo seja plural e diverso. A Sá conta que quer espelhar a realidade dela para o mundo: com mulheres fortes, guerreiras e independentes, que não abaixam a cabeça e não se diminuem. Ela sempre teve um círculo LGBT muito presente, desde pela melhor amiga da mãe ser solteira com um filho gay, até a avó que também tem amigas lésbicas... E sobre como tudo sempre foi visto com a naturalidade que é. Ela quer isso para o mundo, até porque, o amor, em si, é simples. E o que nós, LGBTs, fazemos é: amar. Ambas falam do amor e do respeito como base de tudo, desde a família (a Cami relembra em alguns momentos que todos os dias quando era criança a mãe dela acordava ela falando o quanto ela era muito linda. E que isso é uma coisa que ela carrega como referência de afeto, para si e para os outros), até os amigos ou um desconhecido por quem sentiu empatia. Elas falam também da importância do amor próprio e do autoconhecimento. Você aprende a se respeitar também, entender o seu limite. O amor próprio vem com muito custo, é uma jornada bastante longa, mas que vale a pena porque respinga nos outros amores de um jeito positivo. Para finalizar, deixo um trecho em que a Camila fala sobre amor que me marcou bastante perante o diagnóstico dela de ansiedade, o que ela sente sobre o amor e a forma que ela entende o amor entre mulheres: "A Sá me trouxe um amor diferente, que é um amor calmo. Sei que não vai ser só calmo, mas a gente vai enfrentar. Teve uma coisa que ela me falou e me marcou muito, é que eu sempre fiquei muito na defensiva e ela olhou pra mim e falou e disse ‘’A gente tá no mesmo time’’. Aí eu posso puxar essa deixa pra falar sobre o amor entre mulheres: por mais que a gente tenha caminhado juntas, dessa vez é de igual, é entender de uma forma que eu nunca antes fui entendida." Samantha Camila
- Renata e Marcela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Renata e da Marcela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Hoje em dia elas entendem que isso fez parte da história, mas tentam sempre ressignificar o sentido de família. A Marcela passou o último natal com a família da Renata, os amigos estão sempre por perto, inclusive, são grandes admiradores do casal. Elas fomentam o lar, o amor e o cuidado. Tudo o que viveram serve de fortalecimento não só na relação, mas também enquanto seres humanas. Quando perguntei sobre o amor, me disseram que o amor, mesmo que de forma geral, é político, porque ele está em tudo. Identificam esse atual momento como o pior que já viveram em relação ao ódio e à ignorância disseminada e que, mais perigoso que isso, é sobre o “agressor” estar gerando o nosso país. “O amor tem que ser colocado em prática. Não responder o ódio com mais ódio.” Renata comenta o quanto o ódio é tentador, o quanto nos deixamos levar pelo impulso do ódio. O amor, não. Ele é muito maior que a gente. O amor está entre as relações de pessoas conhecidas (amigos, familiares) e também nas relações sociais. “Quem ama não coloca uma calçada com espinhos em cimento para as pessoas em situação de rua não poderem deitar embaixo do viaduto. Como que chegamos nesse ponto?! Se chegamos, foi porque alguém normalizou o ódio nesse nível. E o nosso maior desafio é não deixar o primeiro passo ser dado para chegarmos onde estamos, ou, agora, revertermos a situação.” Marcela comenta que amar mulheres é ter um tipo de amizade único também. É uma relação muito mais completa - é ter respeito, trocar, entender, ter vontade de estar junto e querer que funcione, mesmo que nem tudo sejam flores. É entender que são pessoas incríveis separadas, mas que estando juntas são ainda mais. Quanto mais a relação delas se desenvolvia, mais a Marcela achava injusto que seus pais não soubessem do relacionamento. Ela já era uma mulher financeiramente e emocionalmente independente, mas acabava tendo uma vida ‘dupla’ por dentro de casa não poder demonstrar seu amor por outra mulher. O pai reagiu de uma forma mais tranquila, mas a mãe não lidou (e não lida) bem. Marcela costuma contar que foi a madrugada mais longa que ela já viveu. A mãe não aceitou e ela decidiu sair de casa. Renata deixou a porta de casa aberta, para que ela pudesse, ao voltar, entrar. Ela voltou com uma mochila cheia de roupas e assim passaram os meses seguintes, juntas, tentando se cuidar. Marcela começou a fazer terapia (inclusive, o pai acompanhou algumas sessões também), e começou a dividir o apartamento com a Renata. Ela contou que não acha justo mentir. Não queria dizer que estava num bar se estava na casa da Renata, por exemplo. Além do mais, elas sentem algo tão bonito, tão bom, que merece ser compartilhado, por mais que existisse o medo de contar. Hoje em dia, ela ainda tenta, aos poucos, ficar bem com a família, mas comenta sobre o quanto é difícil. Hoje em dia, elas sentem muito que os pais não estejam presente nos detalhes bons da vida, como a forma que elas montam o apartamento delas, os motivos que dão risada, as plantinhas que acabaram morrendo mas que elas estão determinadas a aprender a cuidar, os gatos e o que as fazem felizes ou tristes. E o quanto valem esses detalhes, afinal? Vale a pena não tentar quebrar esse preconceito que existe em troca de conviver e compartilhar a vida com os filhos? Perder essa fração de vida? E tudo isso por não aceitar que o amor? No fim, a conta não fecha. Renata tem 39 anos, ama andar de bicicleta, dançar e escrever. Marcela tem 25 anos e na quarentena tem descoberto que gosta de trabalhar com edição. Elas vivem num apartamento juntas, com seus dois gatinhos e os milhões de pássaros agapornis que chegam até a janela para fazer uma visita e comer umas sementinhas. São mulheres que possuem uma vida cultural e social muito ativa, sempre estiveram entre teatro, cinema, bares, etc. Tiveram um primeiro encontro meio sem querer - queriam assistir uma peça juntas, mas não conseguiram chegar em tempo. E aí decidiram ver uma peça chamada ‘40 Anos Essa Noite’, que fala sobre vivências LGBTs. Depois da peça pegaram um uber para o bar e era engraçado que no caminho, como uma não sabia se a outra se considerava hétero ou LGBT, acabaram contando suas experiências, para deixar bem claro, estilo “uma vez vivi isso com A minhA namoradAAAA/e ai elAAA/na perspectiva delAAA”. Depois disso começaram a se permitir conhecer, se apaixonar e viver a relação. Enquanto estudavam juntas no Tablado, os exercícios cênicos eram sempre feitos através de grupos e as cenas improvisadas com temas da atualidade. Os grupos eram escolhidos de forma aleatória, então elas nunca acabavam caindo juntas. A primeira cena que fizeram de verdade foi uma cena de Orange Is The New Black, da qual interpretavam a "Pennsatucky” e a “Boo” no dia das mães. Após atuarem juntas no Tablado, se juntaram com um grupo de amigos e decidiram fundar uma companhia de teatro, os Banalizadores do Evoé, que durou alguns meses antes da pandemia. "O Amor entre duas mulheres e a rejeição social desse "comportamento" gera a dor gigante daquela cujo sentimento só sabe ser livre..." Foi através de ‘O Efeito Urano’ que Fernanda Young chegou até a Renata e a Marcela e se tornou uma das primeiras cenas que fizeram juntas, no começo do relacionamento, após se encontrarem no teatro Tablado. Renata e Marcela são atrizes, além de professora e de advogada. Elas se conheceram estudando teatro juntas, já em palco. A Renata sempre se viu um pouco na Fernanda Young, as obras dela permitiram com que entendesse que seu corpo também era livre. Fernanda sempre dizia que não cabia nos lugares, enquanto, Renata, também se sentia assim… até que ambas entenderam que não precisamos caber em lugar algum, mas que criar nosso próprio lugar. Renata apresentou O Efeito Urano para a Marcela. Virou o livro delas. Marcela leu e Renata releu, simultaneamente - assim grifaram tudo o que achavam importante, depois juntaram os papéis, no chão de casa, separando em três atos: a paixão, o relacionamento e o ato final. Foram para a praia, com os textos em mãos, e passaram o dia ensaiando. Depois disso, qualquer momento se tornou oportuno: passaram o texto enquanto estavam cozinhando, dirigindo e andando por aí. Se tornaram muito parceiras em ensaios, sempre trocando muito aprendizado. Hoje em dia o livro virou a parede do quarto delas, literalmente.
- Kamylla e Marcia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Kamylla e Marcia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Marcia e Kamylla se conheceram na faculdade, ambas cursando Engenharia na UFRJ, quando um amigo em comum perguntou para a Márcia se ela se interessava pela Kamylla (e por qual motivo elas nunca teriam ficado) e ela contou que não sabia quem era/que também nunca tinha pensado na possibilidade, foi aí, então, que se adicionaram nas redes sociais. Na época, final de 2019, Kamylla começou a se envolver com uma mulher e logo namoraram brevemente - o que descartou qualquer possibilidade para Márcia - mas elas seguiram ali, uma na rede social da outra. Foi um tempo depois, já na pandemia de Covid-19, que a Kamylla fez um post de madrugada no Facebook, dizendo se sentir uma idiota por conta de um desastre na cozinha e Márcia respondeu, obrigando-a pedir desculpa para si própria, porque ela não era uma idiota, não deveria se tratar assim. Nessa madrugada, elas começaram a conversar. Com a abertura da primeira conversa, surgiram outras: falavam principalmente sobre dúvidas que tinham em relação à faculdade. Márcia sentia que não queria falar apenas sobre a faculdade e sim demonstrar algum interesse além, foi quando pediu o Whatsapp da Kamylla, mas ela numa brincadeira/num flerte equivocado, disse que não iria passar. Continuaram conversando pelo Instagram e pelo Facebook, até que descobriram que moravam próximas e tinham coisas em comum. Como estavam num período de aulas interrompidas pelo início da pandemia, elas conversavam o tempo todo. Era uma conversa que durava o dia todo, tanto que, quando iam dormir, sonhavam que ainda estavam conversando. Por morarem próximas, depois de um tempo entre conversa e aproximação, decidiram se encontrar ao ar livre, indo até o local caminhando e usando máscaras. Tinham muito medo, pois seus familiares pertenciam aos grupos de risco, então tomaram muitos cuidados e se encontraram em praças do bairro. Aos poucos, com os encontros, foram se apaixonando e se permitindo uma aproximação mais física, mesmo que envergonhadas e tímidas, até que finalmente se envolveram. Desde que o namoro começou, já vivenciaram diversos momentos difíceis. Para a Kamylla, foi a partir dessas dificuldades que ela aprendeu a entender o que era o amor - e amar de verdade. Não diz isso com romantizações, pelo contrário, é de uma forma bem direta e real. Tudo o que elas já enfrentaram juntas, entre problemas de saúde física, saúde mental como depressão, ansiedade, vida financeira, ou outros extremos como felicidades e bons detalhes cotidianos - mas principalmente, as dificuldades - a faz entender que não é qualquer pessoa que conseguiria aguentar isso com ela. O sentimento que faz a coisa acontecer, elas continuarem ali e a vida seguir é o amor. E hoje em dia, ela não consegue se imaginar fazendo qualquer coisa sem a Márcia porque as coisas são mais divertidas com ela, uma segue ensinando a outra aos poucos o propósito do que é a vida. No lugar onde estávamos, o Forte de Copacabana, foi onde elas comemoraram o primeiro ano de namoro. Lá, Márcia deu um colar de concha para a Kamylla, essa concha representa um dia que foram até a praia e a encontraram na areia. O colar foi feito pela própria Márcia e, desde então, a Kamylla por trabalhar na Marinha e ter contato com a Baía de Guanabara encontra algumas conchas e traz para a Márcia de presente. É um símbolo que sempre as une. A relação que tanto a Kamylla, quanto a Márcia possuem com suas famílias é muito forte, e esse laço também se faz presente no quanto a família de ambas apoiam o relacionamento delas. Kamylla acredita que por serem pessoas humildes, sempre farão de tudo para ajudar uma à outra. Para ela, amar é também sempre estar disposta a ajudar, é a forma que ela pode demonstrar esse amor presente: se apresentar com disposição quando existir alguma dificuldade. Assim, ela já ajudou diversas formas não só a Márcia, como a família dela, e teve a ajuda da Márcia e de sua família como retorno - é uma grande parceria. Elas entendem que estarem juntas é o mais importante e, para a Márcia, não há como aceitar pouco no amor. “Quando amamos, amamos de verdade”. Ela explica que amar o próximo também fala muito sobre amor próprio, porque não podemos aceitar menos do que merecemos, e amar a si próprio faz com que você ame o outro melhor - até para evitar traços tóxicos, abusivos, ter mais carinho e melhor comunicação. Márcia gostaria de viver em um lugar com menos violência contra mulher. Está cansada de ver tantas situações diárias em que somos violentadas. Cita o caso recente do anestesista que violentou uma mulher grávida durante o parto, os casos de violência contra mulher que acontecem diariamente nas ruas ou dentro de casa, o racismo que não é levado a sério, os homens que não pagam pensão e não são punidos por isso… tudo é passado batido e não é cobrado como deveria ser, tratado com respeito e seriedade. Nos cansa lutar diariamente, mas é o que ela gostaria de ver mudando para que pudéssemos viver em um país mais justo. Já a Kamylla, fala um pouco sobre a sua rotina no trabalho, entre o que ela vivencia na Marinha. Lá, ela não é militar, mas também não vive em espaços de subordinação. Entende que isso é o correto: todos são tratados iguais e, mesmo que ela seja a única mulher e a única lésbica dentre todos os homens do seu setor, segue sendo tratada bem e é assim que precisa ser. Porém, também não há representatividade. Sente muita falta de ver mulheres em posição de liderança, de protagonismo, de voz. Cita Jaqueline Góes, biomédica que ela leva como referência, e o quanto é importante ver trabalhos de mulheres atingindo espaços que antes eram predominantemente masculinos. ↓ rolar para baixo ↓ Márcia Kamylla
- Inara e Marina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Inara e Marina, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A documentação da história da Inara e da Marina veio a acontecer com uma pressa maior que a da maioria dos casais que passam pelo Documentadas, mas por um motivo bastante especial: elas se inscreveram sabendo que, no próximo mês, já não estariam mais morando no Brasil. As duas decidiram começar uma nova vida em Portugal. No começo do namoro era uma brincadeira boba de usar a dupla cidadania da Nina, mas depois virou um sonho concreto. Casaram-se e começaram a organizar como seria a nova vida. Nos encontramos no momento de venda de todos os objetos que elas possuem por aqui e, agora, com a história no ar, elas já estão começando os primeiros passos no novo país. Durante a conversa, elas relembram que quando a Inara foi apresentar a Nina para as melhores amigas dela, comentou algo que nunca tinha falado sobre nenhuma outra pessoa com quem se relacionou: “Anotem aí! Eu vou casar com essa mulher!”. No casamento, essas amigas eram as madrinhas. Assim, elas falam sobre o poder das palavras, do querer estar junto de alguém e, de alguma forma, do curso da vida. Inara e Nina se conheceram naquele aplicativo de relacionamentos super citado por aqui, o Tinder. Elas deram match e conversaram, depois sumiram, voltaram, sumiram de novo… A conversa não saiu de lá. Falavam sobre trabalho, família, diversos assuntos nessas idas e vindas, e foi num dia que a Nina cansou do aplicativo e decidiu sair de forma definitiva que avisou a Inara e pediu o Instagram, para que elas mantivessem o contato e se encontrassem em algum momento. Esse momento chegou, ainda que demorou mais um tanto - o encontro foi ótimo. Na época elas estavam em momentos bem diferentes… a Nina saía de um relacionamento bastante abusivo, a Inara estava numa solteirice contínua do qual ficava com várias pessoas, mas sentia que não se aprofundava com ninguém - e calhou de na época conversar com uma amiga (que, futuramente, viria a dividir apartamento com elas por anos) sobre essa sensação de fazer encontros à troco de nada. A amiga aconselhou a desmarcar o encontro, mas a Inara disse que não tinha como desmarcar, que seria desrespeitoso porque a Nina parecia ser muito legal, era melhor ir e ver no que iria dar - Ela disse: “de qualquer forma, vai ser o último”. E, por fim, foi. Essa história de dividirem apartamento surgiu logo depois, quando a Nina pediu a Inara em namoro elas já estavam praticamente indo morar juntas. O contrato estava por vencer e elas iriam se mudar. Até poderiam ir para o apartamento da Inara, que tinha uma vista ótima, ou optar pelo da Nina, que era grande, mas preferiram alugar um novo, recomeçar. Não queriam lugares que tivessem vivido outras histórias e outras dores. Assim, a amiga da Inara também estava em busca de apartamento e elas foram dividir um imóvel na Lapa, no centro do Rio de Janeiro. Elas contam que mesmo morando juntas, mantinham cada uma o seu quarto, até porque tudo estava muito no início quando alugaram e não sabia o que poderia dar certo. Acabou que juntas, com a companhia da amiga, no apartamento enfrentaram toda a pandemia, compartilharam diversas histórias e viveram muitas coisas. A amiga, por sua vez, confessou no casamento que não chegou nem a desabilitar o aplicativo do Zap Imóveis do celular, imaginando que no começo, pós mudança, elas brigariam, se separaríam, e ela quem teria que arranjar um novo lar. Mas a verdade é que isso não passava na cabeça delas, tinham uma responsabilidade em mãos e queriam estar juntas. Da mesma forma que um apartamento novo significava viver um recomeço, a viagem e a mudança para Portugal significava outro. Não está sendo fácil vender absolutamente tudo, desapegar das coisas que foram compradas e conquistadas ao longo dos anos. Mas é um esforço em conjunto para entender que isso abre caminhos para novas experiências. Elas contam que é uma possibilidade maravilhosa pensar em ter Portugal completamente do zero. Comprar coisas novas, mobiliar com a cara delas o novo lar, construir tudo novamente. É excitante, também, pensar na segurança de viver fora do Brasil. Hoje, viver no Rio de Janeiro, pela concepção delas, está muito difícil. Recentemente passaram por assaltos e criaram medos e traumas de vivenciar a rua. Pensam em viver Portugal por retomar o que amavam fazer aqui e que abdicaram pela violência: andar de bicicleta, curtir a cidade, sair sem medo do que pode acontecer a qualquer momento. Inara explica o quanto isso também dialoga com o trabalho dela, que é explorar o lado criativo: vai ser muito feliz podendo fotografar a rua, usar o celular, filmar mais em vias públicas e produzir mais conteúdos. Inara tem 39 anos, é natural do Rio Grande do Sul, mas desde criança se mudou para o Rio de Janeiro com a família. Ela trabalha com fotografia. Marina tem 39 anos, é natural do Rio de Janeiro e trabalha num site de música digital, sendo head de operações. No período da pandemia agravado pela quarentena, elas viveram momentos muito difíceis e também momentos muito bonitos (como o pedido de noivado e, posteriormente, o casamento). Foi logo no começo, quando ninguém sabia o que era a doença do Covid-19 e que havia-se um sentimento generalizado de luto, de desespero e de incerteza, que no dia do aniversário da Inara, elas juntaram os amigos online e a Nina fez o pedido de casamento. Foi como um sopro de esperança brotando: ver os amigos ali, através de uma vídeo chamada, e sentir que um dia estariam todos juntos novamente na festa, inclusive alguns com seus filhos (pois crianças estavam sendo geradas) era como brotar esperança em meio àquele caos. O casamento de fato aconteceu, cheio de detalhes sobre o que elas gostavam, como sapinhas nos buquês, tudo de mais clássico e que representava elas verdadeiramente. O casamento também inspirou amigos LGBTs próximos a se casarem. Entre os momentos mais delicados que uma relação envolve, como estar uma para a outra passando por coisas difíceis, enfrentando lado a lado e estando juntas de verdade, a Inara viveu uma cena, como ela mesmo diz, de novela, que foi bastante dolorida e que não saberia ter passado por isso sem todo o apoio da Nina. Reencontrou sua mãe depois de muitos anos sem contato, porém, ela estando em um leito de UTI, na fase terminal de um câncer. Foram algumas semanas de contato direto, apoio, em meio às ondas muito fortes de Covid-19 e, mesmo assim, as duas fazendo o possível acreditando com todas as forças que teria algum jeito dela melhorar. A Inara e a Nina acreditam muito no amor em forma de cuidado, em observar a necessidade do outro para além da sua. Isso, na relação delas, está desde os detalhes como a comida preferida da Inara ser o pão com mortadela que a Nina prepara nas manhãs, ou a força que elas tiveram nesses momentos mais difíceis. A Inara nunca tinha conhecido um amor que proporcionasse tanto apoio como quando elas passaram por isso - e, não só pela parte mais técnica e burocrática que sabemos que esses momentos infelizmente impõem - mas pela dor, também. Receber o acolhimento de uma forma que nem sabia que era possível tê-lo. Um cuidado realmente saudável, um amor único - e também calmo. A mãe da Nina, por sua vez, respeita as duas mas ainda não entende o relacionamento delas enquanto uma relação amorosa, de fato. Elas compreendem que isso é por motivos religiosos que são colocados acima de tudo e que, com o tempo, vai se apaziguando da melhor forma. ↓ rolar para baixo ↓ < Marina Inara
- Anik e Isabelle | Documentadas
Amor de Desaguar - Anik e Isabelle clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Leticia e Thaysmara
A Thaysmara tem 22 anos, é natural de Fortaleza, capital do Ceará e trabalha na empresa que fundou junto com a Letícia, a Trevo. Lá, elas são artesãs, produzem diversos acessórios - e mais que isso, são empreendedoras, fazem artes gráficas, engajam com o público nas redes e enviam para todo o Brasil (vou deixar o Instagram aqui, então pra seguir é só clicar!). A Letícia tem 25 anos, é formada em Educação Física e no momento em que eu fotografei e conheci elas ela estava trabalhando em escala de ensino híbrido, ou seja, entre a escola e o home office. Letícia mora em Maracanaú, uma cidade que está localizada na região metropolitana de Fortaleza e se desloca diariamente até a capital. Conversando sobre esse método de trabalho híbrido e sobre tudo o que a educação brasileira enfrentou durante o período que vivemos - de pandemia - ela conta que se sente trabalhando muito mais que antes, principalmente, por estar atenta ao Whatsapp o tempo todo. “Temos que responder em qualquer horário, porque é o horário que o aluno está estudando. E se não responder, talvez ele não faça mais. Se eu responder só no dia seguinte vou perder o tempo, aí ele vai perder o interesse, pode estar ocupado, não vai voltar na dúvida que tinha antes… e eu vou perder meu propósito. Eu quero que ele aprenda”. Antes da pandemia, a Thays trabalhava com confeitaria junto com a madrinha dela, mas com a fundação da Trevo e os pedidos acontecendo, acabaram focando apenas em uma empresa. E a Letícia estava trabalhando enquanto auxiliar de treinadora no time de basquete que jogou por muitos anos - inclusive, é um dos seus hobbies: praticar diversos esportes como vôlei, futebol e, claro, basquete. No final de 2018, um pouquinho antes do natal, elas se conheceram. Foi por conta de um velho conhecido (Digo isso pelo tanto de vezes que ele já apareceu no site do Documentadas): o Tinder. Elas deram “match” e conversaram pelo Whatsapp, viram que moravam relativamente perto e comentaram de se encontrar. O encontro só aconteceu mesmo cerca de duas semanas depois. Se encontraram em um bar (o que estava marcado para às 16h, virou 21h por conta de um atraso da Thays) e o encontro foi um pouco desajustado pela soma de fatos de que a Thays estava bastante tímida e a Letícia falando a maior parte do tempo para que tivessem assuntos. Depois do bar elas se beijaram, ali por perto e no final, acabou que não teve desajuste nenhum! Foi tudo bem positivo. Elas se viram nos dias seguintes do primeiro encontro e, mesmo que a Thays não fosse assumida para a família, ela chamou a Letícia para ir na casa dela (enquanto uma “amiga”). Ainda em dezembro, começaram a namorar. Mais especificamente, no dia 22. Porém, aconteceu algo bastante inesperado nessa história: Um dia depois do pedido de namoro elas saíram com alguns amigos para comemorar e foram em um restaurante. Na volta para a casa, estavam de moto e sofreram um acidente. A moto derrapou e elas caíram, se machucaram levemente (no sentido de ralaram o corpo, mas não tiveram fraturas) e estavam conscientes para ligar para os amigos. A Letícia chorou bastante, sentiu vergonha e achou que era ali mesmo o fim do namoro mais rápido que ela já teve, até que a Thays soltou a frase: “Agora a gente só termina quando a cicatriz sair”. E, bom, a cicatriz tá ali… E elas estão juntas. Não preciso falar mais nada, né? Porém, neste natal, para ninguém desconfiar e ver os machucados, tiveram que passar usando roupas de mangas compridas. Foi no começo do ano de 2019 que, ao vê-las saindo juntas o tempo todo, os familiares começaram a desconfiar que não seria apenas uma amizade. O padrinho da Thaysmara chamou-a para conversar e ela acabou contando. Não foi nenhum pouco fácil se abrir para a família, mas aos poucos, tudo foi acontecendo e ela passou a voltar a morar com a avó nesse meio tempo, também somando no processo do começo de relacionamento das duas. Hoje em dia, elas passam muito tempo na casa da Letícia, porque a mãe dela é muito tranquila (Inclusive, foi a mãe quem ‘tirou ela do armário’!) e gostam bastante de passar a semana toda juntas por lá. A Letícia conta que existiram muitos momentos difíceis nesses anos de relacionamento, mesmo que elas sejam pessoas super tranquilas e estão sempre rindo por aí. São nos atritos que elas entendem que lidam de forma diferente: ela prefere conversar na hora para resolver, já a Thays tem que ter um momento para pensar sobre o que está acontecendo. No fim das contas, sempre se entendem. A Thays completa que cada vez menos as discussões acontecem, num sentido de ‘briga’, porque sempre tentam prezar por um relacionamento mais equilibrado e tranquilo, já que as duas possuem personalidades assim. Elas entendem que não é um cabo de guerra, então quando elas 'cedem', não estão perdendo, mas estão cedendo porque uma tá precisando um pouquinho mais de atenção, de tempo, de cuidado que a outra. E que a briga é diferente da conversa, é aí que encontram bastante do amor que sentem, porque confiam para falar bobagem e dar risada, como também para ter assuntos sérios e confidenciar inseguranças que sentem. mar água de coco e ver o pôr do sol. A Letícia diz que amor, para ela, é um sentimento que não deve nos remeter a dor. E que quando você se sente amada, você vai sentir isso da forma que você é - e pelo jeito que você é. Já a Thays pensa no amor e lembra logo da infância. Do cheiro da comida e do carinho da avó. Ela diz que desde criança gosta muito de observar o céu… então pensa por um tempo e conclui: é isso que ela sente sobre o amor. Quando falamos sobre mulheres, ambas dizem se sentir muito mais seguras falando com uma mulher sobre qualquer coisa. Não que seja realmente uma relação mais fácil, porém você se sente num ambiente acolhedor, porque há mais empatia. A Letícia lembra da mãe, da avó e da tia… fala sobre as mulheres que participaram da sua criação. E a Thaysmara conta a diferença que sentiu quando se relacionou com uma mulher, principalmente, na conversa em si - foi o espaço em que ela conseguiu se abrir de forma tranquila, sem o medo do pré-julgamento. Por fim, mas não menos importante, perguntei para as duas o que elas gostariam de ver acontecendo em Fortaleza e elas citaram mudanças na questão de infraestrutura e do transporte público. A Letícia conta que não conseguia ter dois empregos por conta da mobilidade não dar conta de levar as pessoas em um tempo útil atravessando alguns cantos da cidade e que, agora, tendo a moto, entende que é muito perigoso pelo risco que as estradas representam com a quantidade de buracos nas vias e pouca qualidade no trânsito. A Thays complementa que, além do que enfrentamos no cotidiano quando tentamos sair de casa, ela queria ver mais lazer nas comunidades e conseguir mais cursos voltados para a arte, pois todas as vezes que tentou se inscrever, enfrentou dificuldades - e que esses cursos realmente nos profissionalizem enquanto artistas - para que o mercado de trabalho também se prepare para nos receber. https://www.instagram.com/trevoacs/ entregam em todo o BR . Letícia Thaysmara
- Karol e Beatriz
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Karol e Beatriz, quando o projeto passou por São Paulo! Não tem jeito, preciso começar essa história falando sobre como a Karol e a Beatriz se conheceram. Poderia dar uma introdução dizendo quem elas são, o que elas gostam de fazer, enrolar vocês… mas não tem como. Não tem. Essa história é insuperável pra mim. Talvez por ser uma daquelas que eu queria ter transformado num podcast porque o áudio é muito mais engraçado do que eu escrevendo (alô, roteiristas dos streamings do momento, estão preparadxs?)... ou talvez porque não seria nenhum pouco justo deixar o melhor para o final mesmo. Só algumas informações importantes: hoje em dia a Karol tem 27 anos e a Beatriz 26 anos. Ambas são do interior de São Paulo, mas de cidades interioranas diferentes. A década (meu deus, a década é ótimo. risos) era de 2000-2010 e uma das coisas que fazia muito sucesso era o famoso bate-papo UOL... foi lá que Karol conheceu uma pessoa chamada Tânia. A conversa entre elas fluiu bem e ela adicionou a Tânia no MSN, no Orkut e a Tânia foi apresentando de forma virtual outros amigos dela (a Maiara, a Poliana e o Gustavo). A Karol, com o passar do tempo e o “convívio” diário, descobriu um interesse pela Tânia, foi aí que elas começaram a webnamorar (SIM, jovens, a Karol praticamente fundou o webnamoro). Quando todos os amigos conversavam em grupo no MSN o ícone de webcam ficava visível, então ela sabia que todos ali possuíam webcam, mas por algum motivo os amigos não gostavam de ligar e sempre quem ligava na chamada era ela e o Gustavo (ou seja, ela só conhecia a Tânia por fotos). Isso já faz muito tempo, né gente? Então precisamos lembrar que naquela época era super normal as pessoas se mostrarem muito menos que hoje em dia na internet (e serem muito menos cobradas por isso também). Com o passar do tempo e do webnamoro se desenvolvendo, todos ali criaram laços muito fortes. Na época, a Karol estava na escola, o Gustavo estudava teatro e viajava por São Paulo e a Tânia passou por um período muito difícil em que a mãe ficou muito doente. Foi um tempo em que o Gustavo (que morava na mesma cidade) a acolheu em casa, já que a mãe dela foi internada e depois de um tempo a mãe dela veio a falecer. Isso gerou um choque bem grande para todo o grupo, já que eles trocavam muitas mensagens diárias e, principalmente na Karol, pelos sentimentos que ela tinha pela Tânia, somados ao fato de ser menor de idade, estar em uma cidade distante e não saber como poderia ajudar nesse momento. Ela conta que lembra de nessa época uma outra menina do grupo, a Poliana, também estar passando por dificuldades e o quanto ela comentava em casa com a mãe sobre essas amigas, sobre querer ajudá-las… e o quanto isso também a angustiava. Mais uma vez o tempo seguiu e um belo dia, alguém a adicionou no MSN… o MSN, pra quem não sabe, não é uma rede social da qual você posta coisas... era tipo um Whatsapp, apenas um bate-papo. Ninguém adicionava lá sem te conhecer. E então, essa pessoa que adicionou a Karol do nada, chegou logo soltando um: “POR QUE VOCÊ ESTÁ NAMORANDO A MINHA NAMORADA?”. Que? Pois é. Eu também soltei isso quando eu ouvi. Essa pessoa, é a Beatriz. Vamos à versão da Beatriz. Beatriz conheceu a Tânia jogando um jogo, o Habbo (só quem viveu, sabe, né? como era bom ser jovem nos anos 2000). As duas conversavam bastante e a Tânia também apresentou o Gustavo para ela… com o passar do tempo as coisas se desenvolveram na conversa e elas também começaram a webnamorar (as precursoras do webnamoro, parte 2). No caso, a Karol e a Beatriz foram as precursoras do webnamoro e da traição do webnamoro, ou seja, o webcorno. Até que um dia O GUSTAVO (gente… a balbúrdia) chamou a Beatriz para dizer “que tinha uma menina dizendo que estava namorando a Tânia” (!!) e ela disse “como assim, eu sou namorada da Tânia, não tem essa!!” (risos) e então ela foi tirar satisfação com a Karol, assim, adicionando no MSN. Se fosse o MSN Plus na versão 2009, garanto que tinha até aquele efeito de som no fundo que dizia “eu estou sentindo uma treta!!!” Quando a Karol e a Bea conversaram elas entenderam que não ia dar certo e decidiram de alguma forma se afastar da Tânia. Elas não lembram especificamente como aconteceu, mas o afastamento rolou. A Karol começou a se envolver com uma menina na cidade em que ela morava e a Bea foi seguir a vida dela também, sem mais contatos com a Tânia e os webamigos dela. Mas calma, aí você pensa… ah, só isso? a Tânia nunca mais apareceu? kkkk meu amor… o mundo não dá uma volta, não. Ele dá um duplo twist carpado. Pois um dia chega o Gustavo (logo quem…) chama a Bea no MSN e dá a triste notícia: a Tânia morreu. .. que²? Ela estava enfrentando um período de muita tristeza e depressão após a morte da mãe dela e cometeu suicídio. Ao saber da notícia, tanto a Bea, quanto a Karol, ficaram muito mal. Foram dias de choro, um sentimento de dor estranha e uma sensação de perda imensa. Novamente venho lembrar que: hoje em dia é muito fácil para nós, que vivemos em uma década depois, num momento em que a internet está muito mais avançada, pensar que algo nessa história estava muito estranho. Mas precisamos nos transportar para os anos 2000-2010 e lembrar que por lá estava tudo bem as coisas não terem muito encaixe, né? Foi no momento após o luto que a Bea teve uma luz e entendeu que as coisas não tinham encaixe, que a história que o Gustavo estava contando era muito ríspida, muito estranho falar sobre uma depressão assim… e foi então que resolveu dar uma de stalker. Ela começou a ler o Orkut da Tânia que ainda estava ativado, pesquisou pelo nome do colégio que aparecia na foto dela de uniforme e viu que o colégio não ficava em São Paulo… TCHARAM! Começou a ir mais a fundo nas buscas do próprio colégio e… finalmente achou o perfil da menina verdadeira, descobrindo, assim, que a Tânia nunca existiu. Gente. Vocês têm noção??? A pinta nunca existiu. Se ela nunca existiu, ninguém ao redor dela existia também! Com isso caindo por terra, ela foi descobrindo uma série de fakes que o Gustavo tinha. Inclusive, por um momento, pensou que até mesmo a Karol fosse um dos fakes, mas entendeu que não era e chamou ela para conversar e contou tudo… e ela ajudou nessa busca por mais fakes. Até hoje elas acreditam que a única verdade em toda a história é que o Gustavo trabalhava com teatro (não por ele ser um ótimo personagem, porque o que ele era tem nome: criminoso, rs) mas porque ele viajava bastante pelo interior de São Paulo fazendo peças. A primeira atitude que elas tiveram foi falar com a menina que ele usava as fotos para se passar por Tânia, mas ela nem ligou, não deu bola. Então elas não souberam mais o que fazer. Elas desmascararam ele nas redes sociais e alertaram as meninas que estavam próximas dele para que se afastassem, mas naquela época os crimes virtuais não eram considerados, então era realmente muito difícil conseguir barrar o Gustavo, ainda mais elas sendo menores de idade e ele não. Foi muito engraçado pensar em toda a história e ouvir toda a história sendo contada por elas, da mesma forma que é muito incrível ver a forma que elas ressignificam algo que poderia ter sido traumático e horrível (como foi o período conversando com esse cara e com seus vários personagens), mas a única coisa que elas tentam pensar sobre, é que foi por conta disso que elas se conheceram e que passaram a ficar todos esses anos juntas e que isso, sim, foi bom. De qualquer forma, não queremos NUNCA, JAMAISSSSS, deixar de lembrá-las que os tempos atuais são outros e que precisamos denunciar homens iguais o Gustavo! Ele tinha um perfil MUITO claro: meninas, novas, lésbicas (que estavam se descobrindo) e provavelmente em algum momento usaria de tudo o que sabia sobre elas para se aproximar fisicamente, então, por favor: denunciem! Hoje em dia já temos leis, já temos um preparo e uma consciência maior e não podemos deixar nenhum caso passar. Além disso, Gustavo, se um dia você ler isso: a gente ainda consegue te enquadrar em crimes cibernéticos, seu escroto! :) Agora, sim. Ufa, essa história é boa demais. Depois que o crime foi desvendado e que as duas ficaram iguais aos integrantes do Scooby-doo tirando as máscaras dos inimigos e descobrindo que são todos a mesma pessoa, a Karol, que vivia um relacionamento um tanto quanto abusivo, foi meio que “proibida” de continuar conversando com a Bea porque a namorada estava com ciúmes… mas ela estava muito intrigada com essa história, não estava acreditando no que tinha vivido (também pudera… né?) e deu um jeito de continuar falando (!!hahahahaha). Elas resolveram se encontrar pessoalmente um tempo depois numa cidade que ficava entre as cidades em que elas moravam (Praia Grande e Vargem Grande Paulista), e essa cidade foi Cotia. Lá elas se viram para ficar em silêncio, basicamente (kkkk), porque estavam com vergonha e não tinham o que dizer. No fim, elas não se beijaram (obviamente, porque a Karol namorava, né? se não conversaram, imagina beijar kk) e na hora de ir embora pra ter um grand finale a Karol li-te-ral-men-te caiu no colo da Bea dentro do ônibus (!!!) quando ele freiou. Nessa época, a Bea começou a fazer faculdade em São Paulo, então ela ia diariamente e voltava para a capital (ou, algumas vezes, ficava na casa da tia). Era uma rotina exaustiva e durou muito tempo. Por outro lado, a Karol terminou o relacionamento e cerca de um mês depois a Bea soltou um “ah então agora a gente pode namorar, né?” e ela disse um “é.” pois foi assim que começaram a namorar. Quando se viram pela segunda vez, já estavam namorando. Com as fundadoras do webnamoro não se brinca, né? A Bea ainda teve a patchorra de soltar um “primeiro a gente namora, depois a gente beija” hahhahaha. Quando elas já estavam namorando, a Karol passou em um curso que acontecia em São Paulo também, então elas acabavam se encontrando durante a semana na capital. Elas contam que o começo do namoro foi bastante difícil porque tinham realidades muito diferentes. A Karol tinha uma condição financeira mais conflituosa, precisava correr muito atrás para conseguir as coisas e pela condição da Bea ser mais favorável ela não tinha consciência de classe e consciência dos privilégios que o dinheiro trazia. A Karol se sentia bastante triste, não conseguia acompanhar e trazia muito do antigo relacionamento junto com ela… para elas mudarem isso e se equilibrarem exigiu um esforço em conjunto de cederem e se entenderem aos poucos. Entenderem os limites, abrirem mão de algumas coisas para ouvir mais a outra… e por aí vai. Foi nesse período de equilíbrio e de entenderem que estaria dando certo que a Bea sentiu que era o momento de contar à família sobre o relacionamento delas. Ela deixou uma carta para a mãe antes de sair de casa a caminho da aula em São Paulo e, quando a mãe dela acordou e leu, ligou para ela e elas conversaram. Foi um momento que misturou um choque, com um “é isso mesmo que você quer?” e um tentar respeitar ao máximo. Com o tempo, a mãe e o pai da Bea foram entendendo e respeitando, assim como o resto da família e hoje em dia super apoiam as duas ♥ Depois do fim da faculdade, elas decidiram que seria legal escolher um apê e irem dividir uma vida sob um lar. Foram morar juntas em Cotia, a famosa cidade, lá da primeira vez em que se viram. A Karol trabalha lá até hoje escrevendo notas no cartório, mas elas já estão morando em outro apartamento, na cidade de São Paulo. Hoje em dia, adotaram gatinhos, se desenvolveram profissionalmente e a Bea é analista de marketing. Hoje em dia, a Karol e a Bea fundaram uma marca de camisetas para o público lésbico (que inclusive já apareceu no Documentadas), a @vestsapatao! Conversando sobre marcas LGBTs, elas comentaram que geralmente produtos LGBTs focam no público masculino, desde o nome (gay gay gay gay gay) até as coisas serem sempre arco-íris, unicórnios, coisas de homens afeminados, confetes e quando pensam na sapatão é só a mulher tipo caminhoneira e/ou a Ana Carolina/Maria Gadu. Automaticamente imaginam a lésbica como masculina. Enquanto elas não se enxergam nem enquanto masculina, nem enquanto feminina, mas enquanto duas mulheres que se amam, apenas. Além disso, falam também sobre a importância de fazerem roupas em modelos maiores porque só encontram coisas pequenas que caminham entre o P e o M e que elas pensam em corpos grandes porque se identificam assim. A VestSapatão é da gente e para a gente. ♥ As duas também estão noivas! O pedido foi feito em Ubatuba, num comecinho de dia super fofo e estão planejando uma boa festa depois da pandemia. A Karol, quando fala no amor, acredita que amar é transparente e verdadeiro. Completa que sente que não existe nada que não possa ser compartilhado com a Bea. A Bea diz que a relação exige muito respeito, respeito por quem elas são e por quem querem ser. Esse respeito resume a liberdade. E diz que aprendeu a amar e a respeitar com as mulheres da família dela, porque a mãe dela tem 8 irmãs, que são muito diferentes, mas que são grandiosas de amor, de criação e de laço, porque sempre tiveram respeito. Quando pergunto se elas gostariam de mudar algo na cidade em que elas moram, sendo São Paulo a residência, ou Cotia na convivência, elas dizem que gostariam de mudar a forma que são tratadas pelos homens, por sempre ouvirem comentários (ou por sermos colocadas como quem quer roubar o lugar deles). Além disso, falam que gostariam de um lugar com segurança, porque lá em Cotia não conseguem caminhar nas ruas de mãos dadas. Bea comenta a importância de ver escolas falando sobre a diversidade e o quanto isso mudaria as nossas vidas, traria consciência para as pessoas desde a educação de base. É algo que ela gostaria de ver diretamente. Ela acredita que ninguém quer ser ignorante e fala sobre a família dela, no caso, as avós, estarem querendo entender e se esforçando ao máximo para compreender o relacionamento que ela têm com a Karol - e que o papel dela, nessa história, é de ensinar e explicar, dar o suporte para que elas entendam e vejam que está tudo bem… para conseguirmos, assim, quebrar o preconceito. A história da Bea e da Karol te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Beatriz Karol
- Bruna e Flávia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Bruna e da Flávia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Bruna e a Flávia são duas mulheres que se encontram nessa vida através de um amor muito parceiro (e quase nômade, devido ao tanto que se mudaram nos últimos anos). Nos encontramos no Rio de Janeiro, local em que elas passaram a morar no meio do ano e que estão apaixonadas - pela praia, pela nova casa e pelos novos amigos - mas contam que já passaram por Curitiba, Belo Horizonte e por algumas cidades do interior de São Paulo. A paixão e a parceria voltam a aparecer nesse segundo parágrafo (e desculpa, mas vai ser bem difícil não soar repetitivo nesse texto porque é muito presente a forma que elas transparecem esses dois pontos) pois logo no começo da conversa a Flávia destaca que, por elas terem se mudado por conta do trabalho da Bruna, a parceria delas é algo que não abrem mão. Estão sempre caminhando juntas, se sentindo dispostas a enfrentar os desafios que encontram. A Bruna tem 26 anos e é atleta profissional de vôlei. No momento é a levantadora do Fluminense (e já esteve enquanto uma das levantadoras oficiais da seleção brasileira!). A Flávia tem 34 anos, é Personal Trainer e Fisiologista, mulher que domina muito o Crossfit e dá aula em academias. Juntas, elas gostam muito de viajar e conhecer lugares, de estar com os amigos… e de, principalmente, aproveitar a companhia uma da outra: se curtindo e dando risada. Todos os dias, tentam manter um momento só delas: deixam o celular e a TV de lado, sentam no sofá e curtem a companhia uma da outra. É algo único na relação. Flávia conta que no começo era a mais tímida e a Bruna a mais extrovertida - que as pessoas naturalmente gostam muito da Bruna - e que era mais difícil elas quererem sair com os amigos, geralmente elas faziam de tudo para estarem sozinhas. Pelo fato do relacionamento ser à distância, acreditamos que isso também influenciava nelas quererem um momento só delas, claro. Mas hoje ela enxerga tudo com outro olhar, se sente mais aberta, mais à vontade e gosta de estar fazendo novas amizades, saindo por aí, sente que inclusive se permite ter mais confiança nas pessoas… É algo que destaca o quanto foi bom (e que nela acrescentou) ter aprendido ao longo dos anos. No começo do relacionamento foram dois anos à distância e por conta da pandemia os campeonatos de vôlei foram suspensos, fazendo com que Bruna tivesse um tempo sem planos para novas mudanças. Por mais que os pais dela estivessem morando em Curitiba, ela nasceu em São Paulo e elas já tinham passado por Piracicaba e Osasco, então alugaram um apartamento em Piracicaba e conseguiram ficar lá alguns meses. Foi uma experiência muito feliz morando juntas (inclusive, viram que deu super certo e decidiram realizar a União Estável). A relação da Bruna e da Flávia vem, como elas mesmo intitulam: “num encontro de almas”. Ambas passaram por dois relacionamentos longos e bastante tóxicos, sendo mais jovens e isso acabou gerando um certo trauma e uma insegurança ao se envolver novamente com alguém. Elas se conheceram em 2016, quando ainda estavam em seus relacionamentos, em meio aos campeonatos esportivos (e inclusive torceram uma pela outra), mas só vieram a ter interesse em se conhecer melhor dois anos depois, através de um dos melhores amigos em comum. Por mais que se sentissem machucadas e desacreditadas no amor, quando se conheceram algo ali fez florescer a possibilidade de algo dar certo. Foram com muito cuidado para não cometer os erros do passado, sempre investindo ao máximo em comunicação e em serem sinceras sobre os sentimentos, não deixar para depois ou empurrar algo... esconder alguma coisa… assim, conseguiriam consolidar confiança. Desde então, já passaram por muitas coisas - e elas devem estar pensando “Ufa! Coloca MUITA coisa nisso!”. A Bruna se assumiu para a família (que naquela época jamais aceitaria e hoje vivem uma relação bem bacana ♥) (e que, também, teve um apoio muito legal das colegas de time e do técnico, importantíssimo de ressaltar), além disso tiveram as mudanças, a mãe da Flávia passou por uma situação de doença familiar bastante difícil afetando sua autonomia, Bruna inclusive viajou para a China nesse período, mas nunca deixou de dar apoio e suporte. Enfim, todas essas situações (e tantas outras, né?) serviram para que elas chegassem à conclusão do significado de suporte: elas se entendem enquanto uma balança. Quando uma não tá muito bem, a outra dá o apoio, assim vice-versa. Elas estão ali realmente como um impulso uma para a outra, um levantamento diário. Comentam sobre a pandemia em relação ao esporte, o trabalho, as mudanças, como isso diariamente vai afetando e como diariamente também elas se impulsionam, é um esforço que vai do levantar até o ir dormir e que é conjunto, não parte apenas parte de uma dentro do relacionamento. Para elas, o amor é puro. É como uma entrega gratuita que vem de dentro para fora. E é sobre essa troca diária que elas fazem: necessita dedicação e muita entrega, mas você também recebe. Isso engloba amigos, famílias, relacionamentos românticos… E essa troca é justamente fazer sem esperar nada em troca. Na hora, a gente ri, porque parece não fazer sentido, mas faz, né? Achamos que faz. Elas entendem que a sociedade precisa de muito mais amor porque o amor e carinho são capazes de salvar as pessoas (e sobretudo, ajudá-las). Bruna entende que o amor acontece naturalmente, mas que em um casamento com o convívio diário se torna uma escolha: Escolher amar o outro pelo compromisso, responsabilidade e respeito mesmo nos momentos de dificuldades e discordâncias. Flávia comenta o quanto sente o amor latente pela mãe dela, pois sua família é a sua base e sempre estiveram por perto, sendo sua mãe seu braço direito, sua amiga. E o quanto foi forte o baque da doença. O amor é também um processo de amadurecimento - e esse amor, que elas têm, é como o que abraça todas as outras coisas: o acolhimento, o cuidado, o suporte e um verdadeiro “tô contigo para o que for”. O que vale também para a Bruna, que desde o começo acompanha e dá suporte e forças para enfrentar: não tem jeito, eu disse que ia ficar repetitivo, porque é isso o que elas realmente são > é amor de parceria. Bruna Flávia
- Melina e Karyne | Documentadas
Melina e Karyne se conheceram há cerca de dois anos, mas só começaram a se relacionar de fato no ano passado. Foi num famoso bar com karaokê em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, que elas se esbarraram. Sem amigos ou conhecidos em comum, Melina viu Karyne cantando e falou para os amigos dela o quanto “era bonita e poderia ser a mulher da minha vida”. Depois que ela saiu do palco, Melina ficou procurando ela pelo bar mas não encontrou, até que na hora de ir embora viu ela numa mesa, com alguns amigos… criou coragem, foi falar com ela e pediu um beijo. O beijo aconteceu e ficaram juntas um tempo, depois trocaram perfis no Instagram (e Karyne estava com seu perfil desativado, acabou passando um que usa para publicar seus desenhos), trocaram algumas conversas e começaram a se encontrar aos poucos. Como havia uma boa comunicação quando saiam juntas, falavam sobre não estarem em um momento que desejavam um relacionamento, não era prioridade para as duas. Se encontrar da maneira que estava rolando, uma vez por mês, quando a Karyne respondia as mensagens que Melina enviada, acabava sendo confortável - e quando saiam se divertiam juntas, iam à cinemas de rua (como o lugar em que fizemos as fotos), espaços culturais e bares. Assim seguiram durante um ano. Hoje em dia, estabelecer essa comunicação franca ainda está nos seus principais objetivos enquanto casal. Entendem que são pessoas culturalmente diferentes, que uma é mais fechada que a outra e que só vão se abrindo aos poucos. É por isso, também, que tratam com muito cuidado os momentos difíceis porque sabem que possuem formas diferentes de lidar. Melina estava com 26 anos no momento da documentação, é natural de Niterói - RJ e é atriz. Atualmente está se formando numa escola de teatro (como curso técnico) e este ano vai iniciar os estudos em teatro na universidade. Independente do estudo acadêmico, faz teatro desde os 8 anos de idade e já deu aulas tanto de teatro, quanto de violão (e adora trabalhar com o que envolve educação e arte) explica que foi educada envolta de muita arte e não se vê longe disso. Quanto aos hobbies, adora jogar vôlei e desenhar. Karyne estava com 24 anos no momento da documentação, é natural de São Gonçalo - RJ e se formou em Publicidade. Hoje em dia, faz uma pós-graduação em comunicação e linguagem visual em semiótica, e por mais que não esteja trabalhando no momento, possui experiência como social media, professora de inglês e comunicadora em agências. Seus hobbies permeiam a arte, o desenho, a pintura e a moda. Adora criar coisas. Inclusive, junto com a Melina, trocam diversos presentes cheios de detalhes e coisas que elas mesmo fizeram. Quando começaram a sair, em março de 2022, o primeiro encontro foi num evento circense no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) no Rio de Janeiro. Por mais que já haviam se beijado no bar, estavam muito nervosas e mal conseguiram chegar perto uma da outra. Karyne explica que Melina foi a primeira menina que ela beijou depois de se assumir, pois passou muito tempo na igreja e foi na pandemia que ela entendeu e se abriu com a família sobre quem era, então ficava bastante nervosa, era tudo bem novo. Todos os primeiros encontros eram marcados pelo nervosismo de ambas e ficavam se cobrando que “não precisava desse nervosismo todo, era só viver o encontro”, mas quando chegava a hora ele falava mais alto. Por conta disso, demoraram um tempo para se beijarem novamente, mas todos os encontros eram muito divertidos e sempre sentiam vontade de se ver mais. No início de 2023 foram ao cinema e tiraram a primeira foto juntas. Karyne, depois desse dia, passou um tempo em São Paulo e elas começaram a interagir mais de forma online, conversar bastante e sentem que foi aí que tudo mudou. Quando ela voltou, saíram novamente, foram em espaços culturais e não pararam de se encontrar por conta da conversa que mantinham o tempo todo online. Entendem que precisavam desse tempo até a relação começar porque realmente não estavam preparadas/e nem queriam se relacionar antes. Depois que começaram a se aproximar mais, fizeram piquenique juntas e já se viam completamente apaixonadas. Num dia foram ao show da cantora Liniker, que aconteceu de forma gratuita na praia e por mais que tenham passado muito perrengue para conseguir voltar para casa, se divertiram e entendem que nesse dia já queriam começar o namoro. Foi no evento, também, que Karyne conheceu a irmã da Melina e muitos dos amigos delas. Além dos amigos, Karyne conheceu toda a família da Melina logo no começo do relacionamento, esteve presente em aniversários e todos adoram ela. Nessa mesma época em que estava introduzindo Karyne na sua vida, Melina fazia provas e apresentação de teatro no curso e Karyne ia assistir. Foi num dia desses, quando chegaram em casa que Karyne pediu Melina em namoro e Melina cantou uma música que fez pra ela. Falaram “eu te amo” juntas. Tanto a Melina, quanto a Karyne, desejam seguir caminhos na relação que não refletem coisas que já viram ou vivenciaram, por exemplo: briga dos pais. Por isso, fazem muita questão de sentar, conversar, escutar, compreender… Karyne não tem a aceitação da família - e já até perdeu as esperanças quanto à isso - porque possuem um pensamento muito conservador e seguem os padrões da igreja, mas entende que isso leva tempo. Para Melina a realidade é outra, por mais que tenha sido muito difícil ter se assumido, os pais possuem uma cabeça mais aberta e, por mais que também frequentem a igreja, acreditam que elas precisam se sentir seguras em casa antes de qualquer outro lugar. Independente da não-aceitação da família da Karyne, ela se assumir e conversar com a família fez também com que se aproximasse de outros familiares que a aceitaram (como a prima que também é casada com uma mulher e a tia que já reivindicou o amor delas como algo natural, sem problema algum) e nesse sentido é muito bom ter apoio. Ela entende que existem coisas que precisou ceder para ser ela mesma, principalmente se as pessoas não respeitam, e está disposta a ser o que ela é, se aproximando de quem a respeita e quer ela bem. ↓ rolar para baixo ↓ Karyne Melina
- Brenda e Jhéssica
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Brenda e da Jhéssica, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Se conheceram pelos seus gostos em comuns, mas dessa vez, musicais: são fãs de Fifth Harmony, uma girl band estadunidense. Se conheceram na Quinta da Boa Vista, um parque na região central do Rio, em um encontro de fãs. Jhéssica descobriu o evento através do Twitter e uma amiga a convidou para ir, foi um bate volta do interior pra cá. Brenda decidiu ir ao evento também, com suas outras amigas. Quando chegou no evento viu a Jhéssica e logo se interessou, tentou puxar assunto, ou, como ela mesmo diz, uma péssima cantada. Trocaram seus números de Whatsapp e na hora de ir embora brincou com uma das amigas: “se ela quiser eu vou para o interior, fácil fácil”. Na época, Jhéssica namorava, então ela e Brenda eram apenas amigas. Foram em outros encontros de fãs juntas e a Brenda chegou a ir até Três Rios para um aniversário de amigas em comum. Um tempo depois, Jhéssica terminou o namoro e elas se encontraram novamente, dessa vez no Rio. Era uma festa num sítio, então sentaram, viram as estrelas e acabaram se beijando. O tempo passou e mais uma vez vieram à Quinta da Boa vista, depois a Brenda passou o carnaval em Três Rios, mas a Jhéssica se sentia muito confusa ainda, um tempo depois, acabou voltando com a sua ex. Brenda ficou muito chateada e desesperançosa de que qualquer coisa pudesse voltar a dar certo. Por mais que o relacionamento da Jhéssica estivesse passando por um momento sanfona, entre idas e vindas, achou melhor esperar. A Jhéssica, por outro lado, não estava conseguindo entender tudo o que acontecia, mas de uma coisa tinha certeza: realmente gostava da Brenda. Várias amigas apoiavam elas enquanto casal, o tempo foi passando e decidiram dar um basta: se declararam. Assumir um relacionamento à distância não foi muito fácil, principalmente por ambas trabalharem e estudarem. É uma rotina bastante corrida, o tempo que sobra para ficarem juntas acaba sendo pouco - e a passagem acaba sendo cara. A pandemia, por mais que com diversas incertezas e dificuldades, fez com que pudessem trabalhar em formato home office e conseguiram passar mais tempo juntas em casa. Brenda e Jhéssica são duas mulheres incríveis. Brenda é de Nova Iguaçu, cidade da baixada fluminense. Jhéssica é de Três Rios, interior do Rio. Elas comentaram que se pudessem, fariam de tudo para trazer a cidade mais pra perto da gente. Termos projetos que quebrem o preconceito, que eduquem e tornem as mentes mais abertas. Não acreditam que as pessoas mais velhas não possam aprender modelos novos sobre respeito e convivência social, bem pelo contrário, falam sobre a avó da Brenda, que tem 85 anos e uma mentalidade muito desenvolvida para aceitar as pessoas como elas são. Jhé comentou também sobre as cidades interioranas não terem tanto foco, tanta abertura para falar sobre diversidade. Brenda tem 24 anos e é jornalista, Jhéssica tem 23, é estudante de direito e apaixonada por jogos, adora streamings e descobrir partes técnicas de montagem de computadores (inclusive, têm montado alguns). Elas são muito grudadas em suas famílias, amam testar receitas culinárias que encontram na internet e depois fazerem para os familiares experimentarem. Brenda é muito grudada na avó, por ser uma mulher que veio do Maranhão e ter uma história de muita bravura. Jhé tem como inspiração a mãe dela, que engravidou muito jovem, aos 15 e que sempre a defendeu e mostrou que ela pode ser o que quiser ser. Elas têm uma relação muito tranquila e cheia de companheirismo. Amam sentar, beber cerveja e ouvir Fifth Harmony. Agora, no fim da graduação, tiveram um momento mais difícil por conta da entrega de TCC e das responsabilidades, mas foi importante para também entenderem o quanto se apoiam e fortalecerem a relação. Brenda acredita que o amor é compartilhar coisas na vida e apoiar independente da situação que estiver, ou melhor, amar por quem a pessoa é. A Jhéssica acha q o amor tem que ser leve, não ser levado como obrigação. E que ele pode acontecer de muitas formas, inclusive à distância, como é o caso delas. Brenda Jhéssica
- Priscila e Rebecca
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Priscila e Rebecca, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Perante as questões dentro de casa, elas sentem que não existem problemas entre elas - na relação em si. Os problemas são sempre sobre o cotidiano e sobre a moradia, mas elas, enquanto casal, tem uma conversa aberta e se apoiam muito juntas. Sonham com o momento em que a Rebecca vai se formar (em breve!) e que poderão deixar de fazer o DogHero, para assim poderem alugar um apartamento e viver entre suas profissões, nos hospitais e nas indústrias. Elas passaram por muito terror psicológico pelo medo de trocarem carinhos dentro de casa, por conta do preconceito. A Rebecca, durante a nossa conversa, comenta sobre a LGBTfobia e sobre como a dor fica mais forte sendo vivida dentro de casa. Mas entendem que este é um período provisório e que logo vão se estabilizar e ter seu próprio cantinho. Para a Priscila, amor é se doar. Doar tempo, doar cuidado, doar atenção. Elas comentam que isso sabem fazer muito bem: amar (e por decorrência, se doar). Se doam para ver a família bem, o relacionamento bem, a amizade entre o casal sempre cultivada e cuidada. Se tem uma coisa que gostam muito de fazer, essa coisa é conhecer novos lugares. Gostam de ir para os bares, mesmo quase não tendo feito isso em 2020 por conta da pandemia. Gostam de viajar, de ver gente. O que mais fica claro, durante toda a conversa, é o quanto o amor delas significa parceria. Tentam dividir qualquer tipo de peso juntas, não soltam as mãos nunca. A mudança da Priscila para o Rio foi muito significativa e extremamente fundamental para o relacionamento delas. Estava muito difícil manter a distância e a Pri já estava em busca de faculdade e trabalho pelo RJ, foi então que a avó e a tia da Rebecca estavam morando num apartamento da família dela e estava sobrando um quarto lá e surgiu a ideia dela fazer a mudança. Foi tudo planejado com cuidado, então a Priscila chegou na cidade já tendo emprego e estudo garantido. Porém, no meio da mudança, ainda existia um problema: ninguém da família sabia que elas namoravam. Aos poucos foi ficando mais claro, a tia da Rebecca hoje em dia adora a Priscila, e por problemas de saúde, acabaram todas se mudando daquele apartamento: foram morar na casa da Rebecca e dos pais dela. É uma casa grande, com os pais, a avó, a irmã, a tia, os bichos… e elas. Até o momento elas não possuem autonomia enquanto casal, porque mesmo que todos já saibam que elas namoram, acabam vivendo como amigas dentro de casa. Sentem falta da privacidade, de poderem trocar algum carinho. A pandemia têm sido um desafio muito grande, primeiramente pela Rebecca ser da área da saúde e estar trabalhando em hospital, depois por serem as mais jovens elas acabam fazendo tudo na rua para que os outros familiares não precisem sair. Como um todo, é desgastante e cansativo a rotina de cuidar da casa, da saúde dos parentes e dos cachorros, mas elas têm levado isso juntas. A Priscila faz de tudo para agradar a família da Rebeca e assim vai conquistando mais confiança também. Hoje em dia, mesmo a sogra tendo diversos problemas envolvendo preconceito, ela está muito mais tranquila e aceitando dia após dia a relação. Rebecca tem 26 anos e está terminando a faculdade de medicina, mas também adora mexer com design gráfico e sente muita vontade de um dia fazer um curso de fotografia. Priscila tem 28 anos, é engenheira e trabalha em uma indústria fazendo a programação da produção, mas sua paixão mesmo são ourives (trabalhar com ouro) e sonha em fazer engenharia de minas. Elas amam animais, principalmente cachorros. Além da Agnes, sua petfilha, existem diversos outros cachorros na casa da mãe da Rebecca, local em que elas moram. Acabam atuando enquanto DogHero também, por garantir uma renda extra e aumentar o amor pelos bichanos. A Agnes foi adotada e chegou como um presente da Priscila para a Rebecca, ela é totalmente companheira das duas, não deixa elas sozinhas, ama igualmente. É uma relação de muito carinho. A Agnes ama a praia - e foi esse um dos motivos por termos escolhido este local para nos encontrarmos. Mas, além disso, a praia significa liberdade para elas. É o local que elas costumam ir muito, foi palco do pedido de namoro, o lugar onde abraçam e beijam sem medo e sem vergonha. É onde passam o dia felizes. A Priscila sentia muito receio de se envolver com alguém… e foi vindo para o Rio durante alguns meses quando percebeu que seu sentimento estava se fortalecendo, causando um grande medo (leia-se, desespero) por não querer se envolver num relacionamento. Quando a ficha caiu já era um pouco tarde, pois estavam, com todas as amigas, embarcando em uma viagem para a serra. A única reação da Pri nessa viagem foi se afastar brutalmente da Rebecca... falava pouco, ficava longe, se fechava de tudo. E aí, mais uma vez, entra quem? Natasha. Natasha conversou com a Priscila durante um bom tempo, incentivando uma nova chance para a Rebecca, falando sobre o quanto ela era uma pessoa legal e o quanto elas mereciam ser felizes juntas. Ela resolveu dar essa chance, mas o começo foi muito turbulento, porque toda vez em que a ficha caia, ela automaticamente tentava se afastar. Lidava com bastante medo. Até que a Rebecca colocou um basta por não querer mais viver esse “efeito sanfona” e disse que elas deveriam conversar abertamente cada vez que isso acontecesse para que assim pudessem encontrar o melhor caminho juntas. Foi no ano novo, alguns meses depois, que rolou o pedido de namoro. De 2016 para 2017, em meio ao réveillon na praia, a Rebecca fez o pedido. A Pri aceitou, foi lindo. Mas todo bom ano novo começa com uma boa história, e nesse caso, a Priscila ficou tão bêbada ao ponto de esquecer do pedido. No dia seguinte soube porque a Rebecca contou, rindo muito. Se vocês acreditarem que existe algum cupido por trás de cada amor, com toda a certeza, nessa história, o cupido se chama Natasha. Natasha é prima da Rebecca e foi a grande incentivadora da formação desse casal. Para vocês entenderem melhor como isso tudo começou, a Priscila morava no Espírito Santo e a Rebecca no Rio de Janeiro. A Pri era amiga da Natasha, se conheceram através de um grupo online. Em 2012 a amizade se desenvolveu e em 2014 resolveram ir juntas para alguns shows que teriam no Rio. Foi aí que a Natasha apresentou a Pri e a Rebecca, mas de cara elas não se deram bem, ou melhor, nem se olharam direito. Com as vindas da Priscila para o Rio se tornando mais frequentes, a Natasha praticamente obrigou as duas a conviverem, então elas passaram a fazer parte do mesmo grupo. Viagem vem, viagem vai. E aí te pergunto, elas passaram a ser amigas? Claro que não. A Natasha fazia de tudo para juntá-las, mas elas ainda interagiam pouco e não se davam muito bem. Como elas acabaram juntas? te respondo aqui. Elas estavam em uma viagem e as amigas insistiam para que ficassem com duas meninas aleatórias, mas elas não estavam afim, então, dos males o menor: vamos ficar entre nós para não termos que beijar as meninas - porque mesmo não indo com a cara, ao menos a gente se conhece. E foi desse jeito que passaram toda a viagem sendo um casal. Foi como uma válvula de escape, mas contam que a Natasha, se pudesse, teria soltado fogos. Esse começo é muito engraçado e desajeitado, mas foi a partir daí que a Priscila começou a vir aos poucos do Espírito Santo para o Rio, fazendo viagens estilo bate-e-volta no fim de semana para ver a Rebecca. Rebecca Priscila
- Camilla e Karol | Documentadas
Amor de Calma e Maresia - Camilla e Karol clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Marcela e Karine
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marcela e Karine, quando o projeto passou por São Paulo! A Karine e a Marcella são aquelas pessoas que jamais conseguiriam viver sem arte na vida. Arte em todos os aspectos: a cultura no cotidiano, passando pela pintura, pelo teatro, pelo cinema ou pela dança. Dentro do apartamento em que elas moram em São Paulo fazem uma produtora acontecer - e dessa produtora já saiu websérie, ideia para Canal no Youtube, filme, peça… tudo vira vida. A produtora criada em 2018/2019, com nome La Loba, vindo do livro Mulheres que Correm com Lobos, foi um passo muito importante também para elas colocarem em frente o que acreditam: a liberdade no criar. Roteirizar, filmar, dialogar com novos atores. Criar cenas e redescobrir aspectos de criatividade, ainda mais dentro de casa, é um desafio divertido. Quando falamos sobre as ferramentas de gravar dentro de casa (por elas terem as ferramentas necessárias, desde equipamento técnico até o suporte para lançar, como o YouTube ou outras plataformas), elas comentam também que não admitem a ideia do artista pobre, essa coisa de que o artista precisa vender o almoço para comprar a janta. Não que precisem viver o luxo, mas que querem suas profissões respeitadas e valorizadas para que tenham uma vida confortável e saudável: “Ter o trabalho reconhecido”. Suas competências artísticas são enormes, estudaram (e estudam!) há anos para construir isso e é um exercício diário relembrar o quanto o teatro, a peça, o filme, a dança, a música, a expressão artística é tão importante para o nosso dia-a-dia quanto tantas outras coisas que fazemos. Karine é de Tatuí, cidade intitulada como Capital da Música, interior de São Paulo. No momento da documentação ela estava com 33 anos e contou sobre um projeto do Governo do Estado de São Paulo em que estava fechando diversos cursos universitários lá na cidade natal dela (local que a família reside até hoje), incluindo o curso que ela fez, de Artes Cênicas, que já estava encerrado. Falou sobre a dificuldade de se ver longe e ver uma cidade com tantas potências, com um dos maiores conservatórios de música da América Latina, resistindo, mas sem muitas forças perante um poder tão maior que é o legislativo. Mas que, mesmo com todas essas sensações de cultura sendo levada “embora”, não desistiria, pois da mesma forma que ela esteve lá por tanto tempo ainda há pessoas muito boas fomentando a arte nessas cidades - e não só: a arte, a história, os eventos culturais, os projetos de voluntariado, etc. A Marcella também tem uma trajetória de busca pela cultura no interior de São Paulo, mas dessa vez em Piracicaba. Ela estava com 32 anos no dia em que nos encontramos e contou que a sua trajetória na arte da cidade foi impulsionada quando começou a fazer um curso no SENAC (e, nesse curso, também conheceu a Karine). O ano era 2016, encenaram uma peça sobre A Paixão de Cristo, aprenderam muito e até ficaram amigas, mas o tempo passou e não se falaram mais. Como a cidade é pequena e todos acabam se encontrando nos espaços, em 2018 elas fizeram outra peça novamente. Estavam solteiras, interagiram e o interesse surgiu. No fim, (ou melhor, no começo) começaram a namorar. A vida em Piracicaba, mesmo que confortável, estava um pouco limitada para a carreira da Karine e da Marcella. Foi então que surgiu a oportunidade de morar em São Paulo (capital). A Karine já tinha morado em São Paulo por um tempo, sabia como a cidade funcionava, a alta opção de cursos, abrangência para novas áreas e também a concorrência muito maior de artistas chegando de todos os lugares, mas lá em Piracicaba não via mais a carreira andar no momento em que estava… e a Marcella topou o desafio. Juntas, com o incentivo de uma amiga, realizaram a mudança. Logo no começo da pandemia encontraram a casa que moram agora, um lar maravilhoso e que foi se completando com o jeito delas em cada cantinho. Foi lá que gravaram a websérie, é lá que possuem as melhores (e piores!) ideias para as próximas produções e brincam que a casa é uma grande geradora de ideias. Elas se veem como parceiras. São muito amigas e sobretudo essa companhia se torna uma âncora. Sentem amor pela companhia. Além do amor que compartilham pela arte em si e por tudo o que são envolvidas, existe o amor que sentem por estarem juntas. A arte é um refúgio e a relação delas é uma parceria. Em casa adoram assistir Simpsons, Friends, cozinhar e durante o preparo da comida fazer pausas para dançar… Também trocam momentos de criação pintando telas, criando plaquinhas e decorações para a casa, amando os filhos de quatro patas e cuidando das plantas na varanda. Não só juntas, elas também falam da importância dos momentos de solidão. De reflexão e estudo - tanto de livros quanto de estudar a si mesmo. Para a Karine, o amor veio num entendimento sobre quem ela é e isso levou muito tempo, porque ser uma mulher lésbica artista já é um processo de autoconhecimento imenso para sair de muitos padrões e “caixinhas” que nos são colocadas. “Estar livre disso e aberta para que alguém possa te olhar e te amar é um dos passos mais importantes”. Então amar a si mesma e amar a Marcella foi um processo que aconteceu de forma natural (não fácil, claro), mas na dor ou na felicidade, foi acontecendo diariamente. Essa relação de autoconhecimento reflete na Marcella através do respeito a si própria, pois ela conta que antes ela não se via com tanto respeito - hoje ela aceita que adora dançar, por exemplo, e dança! Ela respeita quem é e respeita quem a Karine é. E isso é um dos maiores aprendizados que tira da relação. No fim da nossa conversa tiramos um outro aprendizado, sobre a expressão artística em si no que envolve esse amor além do preço que colocamos nas coisas, pelo puro sentimento de quem somos e do que gostamos/amamos fazer. A Karine dá o exemplo de que uma vendedora pode continuar sendo vendedora e cantar super bem, ou um motorista de ônibus pode ser o melhor motorista e mesmo assim um ótimo pintor… a arte deveria ser vista enquanto uma conscientização social sobre a importância de fazer arte, da expressão artística, do quão essencial para o ser humano ela é - para isso, enfim, gerar coisas boas para o nosso redor enquanto sociedade. E viver essa arte, para fora do capitalismo (ou seja, você não precisar vendê-la para ganhar dinheiro/nem tudo o que você tocar precisa virar ouro) é o que elas gostariam de ver sendo refletido por aí. Marcella Karine
- Beatriz e Karol | Documentadas
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- Mel e Sophia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mel e da Sophia, quando o projeto passou por São Paulo! A história da Sofia e da Melissa é (para não dizer uma das mais especiais que já documentamos por aqui - visto que todas são especiais) uma das mais desejadas - sabe por que? Elas decidiram se tornar o que ouço muito ser sonho de vocês: um casal que largou tudo e comprou um sítio. Nos encontramos no ano passado, nesse novo lar delas, que estava cada vez mais sendo construído e amado. Com as plantas, os animais e as decorações. A Mel estava com 34 anos, ela é jornalista e escritora. Já a Sofia estava com 31, é editora de vídeos e por hobbie adora fazer tatuagens. Tudo começou quando elas moravam em São Paulo, na capital, e entenderam que não dava mais para viver sob tanto trabalho: precisavam dedicar a vida um pouco mais para si, viver para se divertir, não para trabalhar e trabalhar. Foi aí que venderam o apartamento e compraram uma casinha no interior de Campinas, numa região bastante afastada com uma vista bonita, bastante árvores e um rancho bonito, assim surgiu o @ranchosapatao. Morar em um sítio não quer dizer que elas deixaram de trabalhar ou que abdicaram de suas profissões. A Mel, por exemplo, já trabalhou em ONGs internacionais de proteção animal e foi jornalista de grandes revistas e hoje em dia está focando sua carreira no término do seu (ou melhor, seus?!) livro(s). Para quem está no mundo sapatônico há mais tempo, desde os blogs, talvez já deva ter esbarrado com o trabalho dela: ela escrevia um blog chamado Fucking Mia, que virará livro e está em revisão nesse momento pandêmico que vivemos. No rancho, parte da rotina também é dedicada ao cuidado e amor aos bichinhos de quatro patas - todos resgatados da rua. O Mantiqueira e o Juazeiro, dois cachorros super simpáticos, e o Maceió e o Quito, dois gatos maravilhosos ♥ A Sofia e a Mel entendem que a relação delas é baseada na parceria, porque costumam ser pessoas práticas em momentos de aperto ou perrengue e sempre dão um jeito juntas. Nos momentos realmente mais difíceis, entendem que não há o que não possa ser conversado e isso faz com que se compreendam muito bem - porque sempre tentam ao máximo se colocar uma no lugar da outra. Conversamos sobre o quanto esse posicionamento é importante no momento de conversa para que não haja injustiça, e elas complementam que é essencial, também, para que exista o respeito no limite individual de cada uma. Elas se conheceram em 2015, através de uma amiga em comum. Todas foram juntas em um bar em São Paulo e se viram pela primeira vez. A Sofia sorriu para a Melissa e logo ela pensou: “Nossa, pegaria essa menina!”. Depois, se adicionaram no Facebook e no Instagram. Ambas tinham relacionamentos, e seguiram sem interações pelas redes sociais. Um tempo depois, mesmo que a Mel sempre tivesse essa queda pela Sofia e não interagisse, foi a Sofia quem respondeu um ‘storie’ dela, dizendo: “É muita crush para um vídeo só.” Como no vídeo era a Mel e a cachorra dela, ela fez uma brincadeira perguntando quem era a crush que ela se referia, e a Sofia disse que eram as duas! Elas conversaram, trocaram ideia por um tempo e combinaram de sair para se conhecer melhor. O encontro finalmente aconteceu, lá em 2018. Marcaram numa terça-feira, se encontraram e logo no começo se beijaram. Brincam que desde esse beijo estão juntas, não teve como desgrudar. Na época, a Sofia estava em um relacionamento aberto e acabou terminando, porque entendia que o envolvimento com a Mel era maior do que poderia ter previsto. E tudo foi se desenvolvendo, caminhando. Elas dizem que se sentem em um encontro de almas, foi realmente intenso - e isso mudou suas rotinas, vontades e futuros. Fizeram tatuagens, viagens e novos planos. A Mel diz que quando conheceu a Sofia se expandiu enquanto pessoa e elas viraram o casal do “Vamos?” “Vamos!”. Hoje em dia, o apoio e o grude seguem muito presentes. Em dias mais difíceis, uma ajuda a outra, desde deixar o computador preparadinho para o trabalho, até fazer uma comida mais gostosa no fim do dia. O jeito que elas preparam a casa, os cuidados, as reformas… tudo é pensado em conjunto e para o bem-estar. “O que é uma mulher sem pensar na referência que temos ao homem?” - Sofia trouxe esse questionamento à conversa. O questionamento foi para pensarmos na mulher de forma pura, como um lugar nosso, de apoio, enaltecimento, ajuda, sem hierarquia e tantas outras culturas que acabamos herdando do patriarcado. Ela acredita que as relações entre mulheres dizem muito sobre o amor e sobre o coletivo. Para a Mel, é algo muito libertador e engrandecedor o processo de descobrir o amor por outra mulher. Amar outra mulher é uma grande revolução, é entender como não temos limites, como podemos ser tudo. Vai além de todos os padrões. Elas tentam estar sempre rodeadas de mulheres ao redor: nas amizades, nos trabalhos, no cotidiano. E dizem que as coisas vão realmente mudar quando tivermos mais mulheres em cargos de poder. Além disso, vão mudar também no momento em que as pessoas tiverem mais auto-suficiência e acesso ao conhecimento, escutando outras pessoas que sofreram por muito tempo, historicamente, para construirmos uma sociedade que não vá pelo mesmo caminho que estamos - que seja realmente construída com empatia. Sofia Melissa
- Renata e Hinde
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Renata e Hinde, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! < Documentei a Hinde e a Renata num espaço muito querido para elas e para todos que frequentam (e já frequentaram), no Rio de Janeiro: a Feira da Glória. Passamos algumas horas do nosso domingo lá, em meio à feira, ao samba, aos artesanatos, às crianças, ao movimento de uma festa junina que acontecia por perto e ao público que passava de um lado para o outro. Hinde e Renata não se conheceram no Brasil, Hinde, inclusive, não é brasileira - veio do sul da França para cá por conta do amor que sente pela Renata. E é na Feira da Glória que ela adora provar comidas novas, comprar roupas e descobrir o que os cariocas chamam de shoppingchão: os produtos dos ambulantes espalhados pelos chãos das ruas. O tempo que passam juntas aos domingos servem para conhecerem mais uma a outra e também para ressignificar o que sentiam sobre a pressão de trabalhar nas segundas-feiras. Agora, longe do celular, curtem mais o tempo juntas, bebem uma cerveja, aproveitam a música, o ambiente e os amigos (que sempre surpreendem a Hinde no quesito: “como podem os brasileiros serem culturalmente tão sociáveis?!”). Foi durante o intercâmbio da Renata que ela conheceu a Hinde, em agosto de 2018. O intercâmbio era em uma cidade muito pequena e tradicional, no sul da França, e a chegada da Renata sendo a primeira brasileira a estudar por lá foi algo que despertou certo interesse nos franceses, por ela ser uma mulher que se impõe perante os desafios: é jovem, assume sua bissexualidade, traz consigo as pautas que acredita e dá suas opiniões quando preciso. Logo no início, um grupo de amigos se criou: um garoto que era apaixonado pelo Brasil e que virou amigo da Renata logo de cara, ela, mais algumas pessoas e a Hinde. Ela se sentia um pouco deslocada, achava a cidade pequena demais e as pessoas jovens demais, mas seguiu em frente. Com o tempo eles foram se dando bem, indo para diversas festas juntos e em algumas festas, quando ela e a Hinde estavam bêbadas, elas se beijavam. Hoje, a Hinde brinca: “O que é um ‘date’ para uma carioca? Você não sabe! Não dá para entender o que os cariocas sentem!” referindo-se àquela época, nunca entender o que a Renata queria. Aos poucos, a Renata sentia uma certa paixão pela Hinde acontecendo, mas como era algo que só se beijavam em festas e mantinham uma amizade nos outros momentos ela não deixava passar disso - e também não tocavam nesse assunto. Durante todo o intercâmbio foi assim. Nesse meio-tempo, a Renata chegou a se envolver com uma menina, o que até diminuiu esperanças na Hinde, mas não durou muito tempo e inclusive no momento de “término” elas trabalharam juntas em um evento. Neste dia, passaram muito tempo conversando, rindo e interagindo e a Renata disse “eu te amo” para a Hinde. Isso a pegou de surpresa, não imaginaria ouvir, assim, dessa forma. E tudo ficou muito suspenso, não tocaram no assunto depois, seguiram naturalmente. Nas festas seguintes continuaram se beijando quando estavam embriagadas e mantendo amizade sóbrias, até que, no fim do intercâmbio os jogos universitários aconteceriam e depois disso a Renata iria para Paris, comemorar o seu aniversário, e voltaria ao Brasil. Elas viveram os jogos e no fim, ao se despedirem na estação, entenderam que não se encontrariam mais. Choraram muito, se abraçaram e deram o primeiro beijo estando sóbrias e em público. Depois da despedida a Hinde chegou a conversar com a mãe dela pelo telefone, ainda chorando muito e a mãe tentou a acalmar um pouco, mas não entendia tanto o motivo de tamanha tristeza. Acabou que, ao chegar e viver os dias em Paris, a Renata decidiu não voltar ao Brasil após o aniversário. Conseguiu transferir a passagem e passou o verão por lá, trabalhando em sorveterias, sendo babá… Alugou um apartamento e viveu de freelancers durante a temporada. Durante o verão em que a Renata continuou na França, ela e Hinde conversaram muito pelo celular e se sentiram muito próximas, coisas que não costumavam fazer com outras pessoas. Essa frequência de se falar todos os dias fez com que surgisse uma nova vontade de se encontrarem. Logo após o verão, a Hinde precisava arranjar um projeto para ser voluntária por conta da faculdade, então ela encontrou um que conversava com o que precisava apresentar e que era localizado próximo de onde a Renata morava. Elas conversaram e a Renata topou hospedá-la por um tempo, para que ela conseguisse realizá-lo. Hinde comprou as passagens, foi para lá e depois de 15h de viagem chegou, usando vestido amarelo e salto alto (!!!). A Renata trabalhava em uma loja de souvenirs e a Hinde esperou ela sair para irem beber vendo o pôr do sol. Quando elas estavam juntas, ela cantou uma música que se chamava “I Wanna Be Your Girlfriend”, tomaram vinho na garrafa e não entenderam direito o que estava acontecendo, sentiam que eram amigas, mas ao mesmo tempo, o sentimento se misturava com outro. No dia seguinte, Hinde passou num brechó e viu um anel lindo, comprou e decidiu tomar a decisão que queria há tempos: pediu ela a Renata em namoro. Ela aceitou e foi assim que começaram a namorar. Mas tinha um problema: Renata só tinha mais dez dias na frança, ela precisava voltar ao Brasil para terminar a faculdade e já estava com a passagem marcada. Os dez dias aconteceram e foram incríveis. Viveram dias maravilhosos, muito felizes e a Renata voltou ao Brasil. Nessa volta, elas passaram 6 meses distantes. Se falavam todos os dias, mas não tinham ainda previsão de se encontrarem. Foi quando a Hinde decidiu fazer seu passaporte e comprar uma passagem para vir ao Brasil. Nessa mesma época, no dia da visibilidade bissexual, ela contou para a sua família sobre quem ela era, como ela se sentia e sua mãe perguntou: “É aquela menina brasileira que você está namorando?” por relacionar desde o dia em que ela chorou com a despedida da Renata na estação algum sentimento a mais que elas sentiam uma pela outra. Por mais que num primeiro momento a família não tenha tido uma boa reação, a mãe dela a apoiou e disse que era um ato muito corajoso o que ela estava tendo em se assumir e que admirava isso. Foi então que a Hinde veio ao Brasil em 2019 e, logo depois, no começo de 2020 a Renata voltou para a França para passar uns dias. Ela conseguiu voltar ao Brasil antes da pandemia fechar os aeroportos por aqui, mas começou um novo momento muito difícil entre as duas, que era entender que meses as separariam pela incerteza de quando iriam se encontrar novamente. O trabalho da Renata cobrava muito dela durante a pandemia, foram meses puxados e o fuso-horário entre ela e a Hinde não colaborava em nada. Foi então que ela se formou, conversou com o chefe e antes do ano encerrar e conseguiu uma ida para a França, tanto para desenvolver o mestrado por lá, quanto para encontrar a Hinde: ficaram dois meses juntas. Na volta, a Hinde retornou ao Brasil e seguiu aqui até nos encontrarmos. Hoje em dia os planos estão baseados nas duas se mudarem para a Europa, tentando estudos em Barcelona ou em novos caminhos que ainda chegarão por aqui. ♥ Atualmente, a Hinde está com 21 anos. Ela estudou ciências políticas e está se graduando. É natural de Saintes, mas também morou em Bordeaux. Independente da faculdade, seu sonho e seu maior talento é ser cantora. Quer viver da música, pagar suas contas, ser feliz no seu trabalho, se desenvolver na sua carreira através da sua voz. Ela acredita que todos os artistas possam ter direito de viverem da sua arte, não só os que já nasceram com o privilégio financeiro, e gostaria de ver artista pobre sendo reconhecido pelo o que ele é, por toda a arte que ele têm a oferecer. Renata está com 24 anos, é natural do Rio de Janeiro, economista e trabalha com avaliação de políticas públicas. Além disso, faz parte de um projeto que conecta mulheres vereadoras e prefeitas às mulheres academicistas, oferecendo cursos de capacitação nos projetos a se desenvolver, e também está ajudando na reforma da graduação de economia da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). Renata acredita que para mudar as coisas é preciso incorporar mulheres no orçamento público: um orçamento que olhe para mulheres trabalhadoras, homens que reconheçam suas paternidades, mulheres que sejam representadas pelas políticas públicas e mulheres que estejam ocupando cargos nos poderes públicos. Quando falamos sobre todos os momentos difíceis que passaram, como os primeiros seis meses distantes logo depois de terem os primeiros dez dias namorando, elas explicam que o que sempre as mantinha seguir em frente e suportar a distância, a rotina longe, ver os amigos e não ter uma-a-outra por perto, era manter o pensamento de “logo ela vai estar aqui comigo”. A Hinde brinca que esse pensamento na Renata era tão presente que quando ela chegou no Rio, se sentia famosa: a Renata contava para TODOS os amigos dela quem a Hinde era e todos já conheciam ela antes dela chegar (e ansiavam por isso). Se sentiu muito amada e acolhida. Elas entendem que sempre foram muito amigas e isso também colaborou para que as coisas dessem certo. Nos momentos difíceis o sentimento que surge é o de não parar, não estagnar, sempre dialogar, desenrolar… mesmo na hora da briga, não se deixar esfriar. A distância dificulta porque o físico não existe, então tudo gira em torno da conversa, da chamada de vídeo e da saudade, mas isso reverbera quando se encontram e tudo gira em torno de muito afeto e movimentos para que nada estrague, que não existam desavenças e todos os segundos sejam aproveitados. Elas sentem que estão sempre sorrindo juntas e que isso também é amor. As piadas em várias línguas e linguagens diferentes e o quanto se divertem. Para a Renata, o relacionamento dela com a Hinde significa estar em paz. Elas estão em paz entre elas e ela está em paz com ela mesma. Hinde Renata
- Fernanda e Alice
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Fernanda e Alice, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Alice e Fernanda adoram a rotina que vivem, o tempo que passam juntas dentro de casa (já que ambas trabalham de home office), as organizações que mantém, a forma que o dia começa com um café e termina deitando na cama com um longo suspiro. Comentam sobre um dia que estavam conversando com uma amiga e ela notou o quanto se comunicavam o tempo todo - se olhando, fazendo carinho, não necessariamente em conversas longas… mas sempre com um “Está tudo bem? / Quer ir embora? / Quer ficar aqui? / Quer alguma coisa?”. E como, nesses atos, estão muito presentes o amor e o equilíbrio que buscam. Nem sempre estão bem, confortáveis ou dispostas, mas sempre há apoio. Se conectaram desde o início do relacionamento através dos traumas já vividos, também. Deixaram claro suas limitações por conta de situações que já viveram, conversaram sobre as dores, acreditam no quão importante é falar para que exista o respeito e a compreensão de onde dói. Alice, completa que a Fernanda virou um suporte emocional, não no sentido de depósito ou de necessidade, mas de companheirismo. Enxerga Fernanda enquanto a pessoa mais gentil e amável com todos ao seu redor e isso sempre a fez querer ficar. Fernanda, no momento da documentação, estava com 35 anos. Ela é natural de Duque de Caxias, região da baixada fluminense, no Rio de Janeiro. Trabalha com atendimento ao cliente numa empresa de cursos online. Ama futebol, jogou durante anos e hoje em dia esportes em geral são seus grandes hobbies. Adora acompanhar eventos, estudar e ler sobre. É flamenguista - e virou sócia do Vasco para incentivar Alice e conseguir ingressos para ela ir aos jogos. Quando mais nova, Fernanda demorou muito no processo de aceitação sobre quem era, e achou importante contar sobre isso. Inclusive, parte de não investir no futebol foi porque era “coisa de sapatão” e ela não se via dessa maneira. Começou a se permitir sair da bolha quando conheceu um grupo de pessoas que gostavam muito da novela Rebelde (RBD) e a grande maioria eram LGBTs, saía com eles e deixou de viver a rotina dela em Caxias, descobriu outras vivências, outros espaços, etc. Quando beijou uma mulher pela primeira vez foi ok, mas quando se apaixonou foi diferente. Demorou muito tempo para se aceitar, aceitar que poderia, mas estar com essas pessoas, nesses novos lugares, foi fundamental. Alice, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é natural do Rio de Janeiro, trabalha enquanto líder de um time comercial numa empresa de empréstimos. É muito unida à família e aos seus irmãos. Diferente da Fê, Alice vem de uma família evangélica e foi criada na Igreja Batista, estudando em colégios específicos e tendo essa vivência bem regrada. Na pré-adolescência se apaixonou por algumas meninas, mas fez de tudo para que isso não tivesse ‘importância’. Quando beijou a primeira menina, tudo fez sentido, mas sofreu muito pelo peso na consciência. Terminou o ensino médio e decidiu: iria parar com isso, seguir os caminhos de Deus. Resolveu conversar com a esposa do pastor, que era psicóloga, e a mulher disse que seria obrigada a contar para sua mãe. Viveu momentos difíceis, na madrugada ouvia sussurros e era sua mãe rezando no pé da cama. O tempo passou, a mãe soube de outra mulher com quem ela se envolveu e acabou saindo de casa, foi morar na comunidade do Jacarezinho num momento muito difícil de fortes guerras, em 2016/2017, vivendo uma realidade difícil e morando com o pai, que também não aceitava. Até que um dia ele cedeu e chamou a namorada para um churrasco. A mãe, em compensação, só aceitou o relacionamento com a Fernanda, recentemente. Fernanda viveu um momento da vida em que saía muito, bebia e esquecia do que vivia. Ia nas festas, estava sempre cheia de amigos… Nessa época, conheceu Alice por conta de uma amiga em comum, sabia da existência dela, mas não lembrava muito de interações. Foi no carnaval de 2020, pré pandemia de Covid-19, que elas se beijaram, no meio de um famoso bloco no Rio de Janeiro. Não mantiveram muitos papos online, até que se viram um dia na praia antes da pandemia realmente acontecer e, com ela, a quarentena. Alice puxou assunto pelas redes sociais (brincam que ainda bem, já que Fernanda é péssima nisso) e finalmente começaram a conversar. As estradas principais que ligam as cidades foram fechadas por conta da quarentena e para que a família da Fernanda não ficasse sozinha em Duque de Caxias, a irmã chamou para que todos viessem ao Rio. Foi quando, estando na mesma cidade e Alice sozinha no apartamento, decidiram se encontrar. Ainda não havia informações sobre a gravidade do Covid, ninguém sabia ao certo, então Fernanda deu a desculpa de que iria doar sangue, realmente foi e depois foi encontrar Alice. Desde então, já estavam apaixonadas. Seguiram alguns meses de pandemia assim… Conseguiram um carro particular para buscar a Fernanda em Caxias quando precisava e diminuírem os riscos de exposição à Covid, e passavam um tempo juntas sempre que conseguiam. is do início do namoro, Fernanda conseguiu um emprego no centro do Rio. A pandemia estava acontecendo e era muito ruim sair da baixada fluminense, pegar diversos transportes e se expor ao Covid-19 para trabalhar. Foi então que uniram a vontade de morar juntas com a necessidade e ela foi dividir um lar com a Alice. Tempos depois se mudaram para o novo apartamento - onde estão hoje - e lugar que amam. Fernanda conta que imagina o relacionamento para a eternidade, porque ele se encaixa em tudo o que deseja. Elas adoram a rotina, adoram planejar e também adoram o que já possuem. Foram viajar pela primeira vez juntas para fora do Brasil e planejaram cada passo da viagem, contam como foi bom de se viver, mas que para além de coisas “grandiosas” assim, o que mais gostam é de deitar na cama de casa junto com a gatinha que divide lar com elas e pensar “Esse é o melhor lugar do mundo”. ↓ rolar para baixo ↓ Fernanda Alice
- Nathalia e Iasmim | Documentadas
Amor de Tatuagem - Nathalia e Iasmim clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Ane e Thelassyn | Documentadas
Foi na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro onde Ane e Thelassyn se conheceram (e onde fizemos as fotos para o Documentadas), no polo de Nova Iguaçu, na baixada fluminense. Em 2018, quando Ane cursava história e Thethe cursava pedagogia, frequentavam muito os centros acadêmicos dos seus cursos e possuíam diversos amigos em comum. Contam o quanto gostavam de se envolver em tudo o que podiam na faculdade, inclusive na causa animal: no campus há diversos cachorros e gatos abandonados e então participavam dos coletivos que cuidavam dos bichinhos. Ane morava numa república e estava hospedando uma cachorrinha que tinha sido atropelada e precisava de cuidados, até que Thelassyn foi doar um remédio que estava faltando e se encontraram pela primeira vez. Ane achou Thethe linda demais, ficou encantada. Por mais que Thethe brinca que não tenha acontecido nada demais, só entregou o remédio e foi embora, depois disso se encontravam de vez em quando e Ane sempre ficava nervosa. Até que um dia, durante uma manifestação política por conta do Museu Nacional ter pego fogo, se encontraram e interagiram no centro do Rio de Janeiro, conversaram e foram juntas até o ponto de ônibus, onde deram um selinho. Uns dias depois aconteceria uma festa na faculdade e Ane convidou a Thethe, elas se arrumaram juntas, lá na república em que ela morava. Depois, na festa, quando Ane finalmente achou que elas iriam se beijar, Thethe chegou até ela e disse: “Minha amiga quer ficar com você!”. Ela não entendeu nada, respondeu que na verdade queria era ficar com a Thethe, não com a amiga. E enfim o beijo aconteceu. Depois da festa e do primeiro beijo, passaram o fim de semana conversando. Até que a semana começou e decidiram se encontrar na faculdade e, depois da aula, assistir um filme na casa da Ane. Na faculdade ficaram novamente - no local em que fizemos as fotos, inclusive - e depois foram para a república, na casa da Ane. No dia seguinte, quando acordaram, a Ane convidou Thelassyn para almoçar e assim tudo foi acontecendo… passou o dia, a noite, o dia seguinte… e foi ficando. Ela ia para a casa, pegava roupas, visitava e voltava para dormir com a Ane. Depois de 15 dias, já tinha ganho até uma gaveta no guarda-roupa. Num dia, na faculdade, estava acontecendo um evento no hall de entrada, então Ane pegou o microfone e pediu Thethe em namoro - mesmo que elas já estivessem com a gaveta compartilhada no guarda-roupa. Naquela época, contam que quando não estavam juntas na república, os amigos que dividiam casa até estranhavam. Foi então que, depois de dois meses, decidiram se mudar para uma “casa de verdade”. Querendo ou não, era muito ruim na república: muita gente, uma cama de solteiro, sem ventilador.. passavam muito perrengue. Conseguiram um apartamento próximo da faculdade, dividindo com uma amiga. A mudança aconteceu sem rede de apoio, começo de namoro, sem móveis, sem programação. Ganharam alguns eletrodomésticos, mas lembram que no primeiro dia não tinham nem vassoura, prato, copos… A vida no bandejão da faculdade salvou tudo. Passaram um ano morando neste apartamento. Foram comprando móveis usados, trabalhando muito… Até que conseguiram se mudar para uma casa só delas. Neste novo lar, adotaram duas cachorrinhas, fizeram suas primeiras viagens… Ao total, até hoje, já se mudaram mais de 6 vezes. Entendem que por mais que tenha existido muito perrengue, hoje em dia estão no lar que mais amam e que mais desejaram viver. No momento da documentação, Thelassyn estava com 28 anos, terminando as faculdades de pedagogia e enfermagem. Por mais que sejam áreas bastante diferentes, conta que deseja trabalhar com o que tiver mais demanda de trabalho primeiro, mas que se for com educação, sua prioridade é escolas públicas. Infelizmente na rede particular sofreu um caso de lesbofobia, sendo demitida depois de descobrirem o relacionamento. Ane, no momento da documentação, estava com 25 anos. Ela é natural de Campo Grande, no Rio de Janeiro e se mudou para Nova Iguaçu para fazer faculdade em 2016. Hoje em dia, cursa mestrado, também na UFFRJ, no campus de Seropédica. Lidar com as adversidades no cotidiano não é fácil, principalmente por serem pessoas bastante diferentes - Ane, por exemplo, sente que precisa de mais tempo para processar as coisas, enquanto Thethe é mais ansiosa e deseja resolver os problemas logo. É preciso cuidado para não desequilibrar ou se atropelar. Explicam que o que faz elas continuarem juntas é a vontade de continuar juntas. Parece simples, mas é o que define a grande determinação de passar por cima de todos os perrengues que já passaram em nome do amor que sentem. Explicam que o mais difícil é não ter uma rede de apoio presente, acabam sendo o apoio uma da outra e, como resultado, o impulso também para o amor que acreditam. No começo, foram muito criticadas. As pessoas falavam que o relacionamento não iria durar, tiveram que se afastar da família por não terem apoio (com exceção da avó e da irmã da The, que são boas aliadas)... foi muito difícil enfrentar tudo. Hoje, ficam felizes em relembrar o que viveram desde o início e ver como superaram e passaram por cima desses comentários mostrando o amor que vivem e o que estão disposta a viver, principalmente agora, que estão noivas. Sonham com o casamento, que pretendem realizar em breve, e se permitem planejar uma vida juntas. No Instagram, é através do perfil @morandocomela que relatam o dia a dia que vivem. Foi da vontade natural de registrar os detalhes do cotidiano, quase como uma documentação, que surgiu. Não numa linha influencer, mas de mostrar as conquistas, as fotos, gravar o que acontece, as cenas com as cachorras... No começo, Ane pouco aparecia, ficava envergonhada… hoje em dia adora. Thelassyn acredita que amar uma mulher é resistir sempre. Entende que o mundo ao nosso redor ainda é muito hetero, feito por pessoas héteros e para pessoas héteros. Quando se ama outra mulher e se mostra isso, se demonstra muita coragem. Ane faz o recorte racial quando fala sobre o amor que vivem, afinal, são um casal interracial e estudam sobre o amor também enquanto política - escolher quem você ama fala sobre quem você é e sobre o próprio racismo. Conversam muito sobre práticas, falas e sobre a Ane não ser uma “wikipédia preta”. Thethe está sempre disposta a quebrar os preconceitos que são culturalmente colocados em nós e assim encontram diversas formas de viverem um amor honesto. Entendem que a homofobia está em vários cantos, desde quando saem de casa de mãos dadas e os vizinhos olham diferente, até não serem convidadas para as festas de família - “As pessoas tentam fingir que não é, mas sabemos que é”. Tentam ressignificar todo dia, trazer amor para a relação delas a fim de lidar com as coisas ruins do mundo: não gritar, brigar o mínimo possível, buscar se entender e se respeitar ao máximo. Ressignificar com amor em vários espaços. Thethe fala sobre ver muito o amor no dia a dia, com as cachorras, em casa, na varanda com a chuva caindo. Ressaltam que sempre que chovia, nas outras casas que moravam, era um tormento porque alagava tudo e hoje em dia ter a casa com varanda fez a chuva virar uma alegria… Quando chove correm para observar juntas, é um momento só delas. ↓ rolar para baixo ↓ Thelassyn Ane
