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Durante o tempo que passei documentando a Tamires e a Fran, tivemos várias conversas sobre a vida, o amor que elas sentem uma pela outra, a história delas em si, as brincadeiras, a vida individualmente, trabalhos, amigos… mas o que vi se destacando o tempo todo, indo e voltando nos assuntos, foi a família. São muito ligadas às suas famílias e às famílias uma da outra, nem fazem mais separação enquanto “a família da Fran” ou “a família da Tami”, virou uma só.

 

A lista é extensa quanto aos elogios à forma como Tamires foi acolhida na família da Fran desde o momento em que assumiram o namoro. Hoje em dia, aos domingos, a rotina do casal é ir até à loja de frango assado que os pais dela possuem no bairro para ajudar nas vendas - o que elas realmente adoram fazer. 

 

Ressaltamos a importância de falar sobre isso em espaços como o Documentadas e mostrarmos como é possível que mulheres que amam outras mulheres tenham o apoio de suas famílias e relações saudáveis, incluindo chá de casa nova quando compram um apartamento, rede de apoio, etc. Tami explica que por mais que hoje em dia tudo isso tenha sido construído e que essas questões estejam realmente muito bem, ela (diferente da Fran) precisou passar por vivências difíceis em casa quando se entendeu enquanto mulher lésbica. Saiu de casa muito jovem, viveu o preconceito e ficou dois anos afastada dos pais. Reformulou, fez o esforço da reaproximação e reconstruiu tudo, foram quebrando cada preconceito. Hoje em dia, vivem bem e a mãe adora a Fran (e também já passou por contato com outras ex-companheiras), o que pra ela é uma conquista gigante. 

 

Enxergar o amor enquanto ação é fundamental na relação e isso também está voltado à família. Quando foram morar juntas, decidiram configurar como seria o contato com os pais, não queriam dar menos atenção ou deixar de lado. Precisavam manter o afeto e o cuidado. Dão risadas quando lembram que a família da Fran mandava mensagem sobre tudo, até sobre como se mudava o canal da TV. Entendem que isso também é apoio, é sobre estar perto. Hoje em dia a autonomia é outra, mas o amor se mantém. 

Foi na escola que se conheceram, eram colegas desde a 4° série do ensino fundamental. Não eram super amigas, principalmente porque a Fran era mais próxima dos meninos e a Tami era mais patricinha. Na pré-adolescência, Tami chegou a “ficar” com um amigo da Fran, enquanto Fran nutriu uma paixonite por ela na 7° série. 

 

Até a chegada do Ensino Médio foram colegas, depois se afastaram com as mudanças de escola. Em 2021, na pandemia de Covid-19, fizeram um grupo no Whatsapp pelos 10 anos de formatura e por conta do tédio da pandemia em si ficavam conversando bastante. Começaram a falar sobre Tinder, mandaram a foto dos seus perfis, até que a Tami cruzou com a Fran no Tinder, deu um ‘superlike’ nela e enviou a foto no grupo. Deram match, mas não sabiam se era de brincadeira ou não. Quando a Tami lançava um flerte, Fran respondia com memes e ela nunca sabia se levava a sério. 

 

Em um certo momento, Tami chamou a Fran para sair, mas como ainda não haviam tomado vacina (a vacinação estava sendo por idade), Fran não topou. Demorou um tempo, até que se vacinaram e se encontraram na casa de uma amiga. Fran decidiu contar sobre a paixão que tinha na 7° série - e quando se encontraram pessoalmente já achavam que estavam apaixonadas também. 



 

No momento da documentação, Tamires estava com 30 anos e trabalhava num programa de prevenção à violência na Secretaria do Município de Canoas, enquanto assessora jurídica. Além disso, faz doutorado na PUC-RS, pesquisa sobre violência contra a população LGBT+. É natural de Porto Alegre e no tempo livre gosta de ver os amigos, a família, ir ao cinema, ficar em casa, ler e assistir documentários. 

 

Francielli estava com 30 anos no momento da documentação e também é natural de Porto Alegre. Trabalhava enquanto analista de suporte, em tecnologia da informação (TI). Ama jogar videogame, gosta de livros de ficção, adora acompanhar a Tami vendo os amigos dela e gosta de cozinhar em conjunto (Tami corta os legumes e ela prepara a comida, por exemplo).  

 

Foi numa prainha no bairro em que elas estudavam em que fizemos as fotos, neste lugar se beijaram e, tempo depois, tiveram a primeira discussão sobre os primeiros passos da relação. Sentem que o bairro em si é muito importante porque esteve presente em toda a vida delas. Essa discussão, em especial, foi logo que começaram a se envolver. Na época, Tami não tinha relacionamentos há um bom tempo e se questionava de que forma iria se relacionar com alguém novamente… não sabia se estava preparada… por um bom tempo sentia que não conseguia se doar nas relações e tinha medo das pessoas não conseguirem lidar com suas questões de saúde mental. Mas ao mesmo tempo, estava apaixonada pela Fran e queria muito estar com ela. Precisava entender se ela queria também, se estava sentindo o mesmo e se desejava a relação com ela, mas tinha medo. Tiveram uma longa conversa e Fran se mostrou disposta. 


Tami e Fran namoraram durante um ano, até que Tami estava decidida a sair novamente da casa dos pais (já havia morado sozinha e dividido apartamento algumas vezes) e conversou com a Fran sobre morarem juntas. 

 

Fran nunca tinha saído da casa dos pais, mas não queria alugar um apartamento. Comentou sobre a possibilidade de comprarem um espaço. Tinha um dinheiro guardado, a família poderia ajudar um pouco e o resto quitariam. Tami não gostou da ideia no início, principalmente por elas nunca terem tido uma vivência juntas e a Fran não saber como seria morar longe da família. Brinca que a Fran nem “sabia de que lado o sol nascia, de que lado gostava do sol nascendo em casa”, por só ter morado em um lugar a vida toda. Foram amadurecendo a ideia, os pais da Fran ajudaram e elas começaram a procurar lugares para morar, até que chegaram no condomínio que moram hoje e gostaram bastante. 

 

A mudança aconteceu e entendem que está dando certo a vida na casa nova. Conseguiram mobiliar com a ajuda da rede de apoio - família e amigos - e aos poucos estão pagando este apartamento que é delas (e que a Tami às vezes nem acredita, risos). Entendem que por mais que a Fran ainda tenha uma grande dificuldade de demonstrar sentimentos e faça piada com tudo, Tami sempre instiga, pergunta, faz questão de saber como ela está se sentindo, sobre o que ela deseja e se estão ou não em sintonia. 

 

Explicam que nunca foram de brigar, muito menos de estar aos berros, mas que possuem muitas conversas sérias sobre o relacionamento, a vida, o que querem e onde querem chegar. As conversas difíceis precisam existir para se alinhar. E isso também é sobre o amor e a parceria que possuem. Explicam que às vezes tem coisas que “nem precisaria”, algumas discussões ou ações… trazem o exemplo de que uma está com um problema de saúde e precisa ir na academia, então ambas vão, não precisaria que fossem juntas, mas estão indo. Por parceria e por apoio. Por alinhamento. Acreditam que as coisas ficam melhores assim. 




 

Recentemente, fizeram uma viagem juntas para São Paulo, e quando pergunto sobre como elas se sentem sendo mulheres que amam mulheres dentro de uma cidade como Porto Alegre, Tamires rapidamente cita essa viagem. Ela conta que ama estar em SP e vai sempre que possível, gosta principalmente porque lá ela não se sente estranha, deslocada… se sente parte de tudo. Não se sente divergente. Entende que em todas as cidades as pessoas são múltiplas, mas que lá isso está bem misturado ao ponto de não nos destacarmos. Ela sempre se viu enquanto alguém que é muito urbano e também enxerga Porto Alegre enquanto uma cidade muito urbana, viva, dinâmica e cheia de cultura, mas fica triste por se sentir deslocada por ser quem ela é. Sempre foi a pessoa diferente, ainda mais estudando direito, era a deslocada. Para o futuro, não deseja mais ser. Quer ver cada vez mais pessoas negras em todos os espaços que ela frequenta, casais de mulheres, “mais de nós”.

 

Por fim, falamos também sobre as importantes mudanças que podemos fazer nas nossas relações, nos reinventarmos sem as heteronormatividades, fazermos do nosso jeito, reconstruímos uma relação entre mulheres que nos represente de verdade. 

 Francielli 
 Tamires 
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