Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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- Fernanda e Alice
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Fernanda e Alice, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Alice e Fernanda adoram a rotina que vivem, o tempo que passam juntas dentro de casa (já que ambas trabalham de home office), as organizações que mantém, a forma que o dia começa com um café e termina deitando na cama com um longo suspiro. Comentam sobre um dia que estavam conversando com uma amiga e ela notou o quanto se comunicavam o tempo todo - se olhando, fazendo carinho, não necessariamente em conversas longas… mas sempre com um “Está tudo bem? / Quer ir embora? / Quer ficar aqui? / Quer alguma coisa?”. E como, nesses atos, estão muito presentes o amor e o equilíbrio que buscam. Nem sempre estão bem, confortáveis ou dispostas, mas sempre há apoio. Se conectaram desde o início do relacionamento através dos traumas já vividos, também. Deixaram claro suas limitações por conta de situações que já viveram, conversaram sobre as dores, acreditam no quão importante é falar para que exista o respeito e a compreensão de onde dói. Alice, completa que a Fernanda virou um suporte emocional, não no sentido de depósito ou de necessidade, mas de companheirismo. Enxerga Fernanda enquanto a pessoa mais gentil e amável com todos ao seu redor e isso sempre a fez querer ficar. Fernanda, no momento da documentação, estava com 35 anos. Ela é natural de Duque de Caxias, região da baixada fluminense, no Rio de Janeiro. Trabalha com atendimento ao cliente numa empresa de cursos online. Ama futebol, jogou durante anos e hoje em dia esportes em geral são seus grandes hobbies. Adora acompanhar eventos, estudar e ler sobre. É flamenguista - e virou sócia do Vasco para incentivar Alice e conseguir ingressos para ela ir aos jogos. Quando mais nova, Fernanda demorou muito no processo de aceitação sobre quem era, e achou importante contar sobre isso. Inclusive, parte de não investir no futebol foi porque era “coisa de sapatão” e ela não se via dessa maneira. Começou a se permitir sair da bolha quando conheceu um grupo de pessoas que gostavam muito da novela Rebelde (RBD) e a grande maioria eram LGBTs, saía com eles e deixou de viver a rotina dela em Caxias, descobriu outras vivências, outros espaços, etc. Quando beijou uma mulher pela primeira vez foi ok, mas quando se apaixonou foi diferente. Demorou muito tempo para se aceitar, aceitar que poderia, mas estar com essas pessoas, nesses novos lugares, foi fundamental. Alice, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é natural do Rio de Janeiro, trabalha enquanto líder de um time comercial numa empresa de empréstimos. É muito unida à família e aos seus irmãos. Diferente da Fê, Alice vem de uma família evangélica e foi criada na Igreja Batista, estudando em colégios específicos e tendo essa vivência bem regrada. Na pré-adolescência se apaixonou por algumas meninas, mas fez de tudo para que isso não tivesse ‘importância’. Quando beijou a primeira menina, tudo fez sentido, mas sofreu muito pelo peso na consciência. Terminou o ensino médio e decidiu: iria parar com isso, seguir os caminhos de Deus. Resolveu conversar com a esposa do pastor, que era psicóloga, e a mulher disse que seria obrigada a contar para sua mãe. Viveu momentos difíceis, na madrugada ouvia sussurros e era sua mãe rezando no pé da cama. O tempo passou, a mãe soube de outra mulher com quem ela se envolveu e acabou saindo de casa, foi morar na comunidade do Jacarezinho num momento muito difícil de fortes guerras, em 2016/2017, vivendo uma realidade difícil e morando com o pai, que também não aceitava. Até que um dia ele cedeu e chamou a namorada para um churrasco. A mãe, em compensação, só aceitou o relacionamento com a Fernanda, recentemente. Fernanda viveu um momento da vida em que saía muito, bebia e esquecia do que vivia. Ia nas festas, estava sempre cheia de amigos… Nessa época, conheceu Alice por conta de uma amiga em comum, sabia da existência dela, mas não lembrava muito de interações. Foi no carnaval de 2020, pré pandemia de Covid-19, que elas se beijaram, no meio de um famoso bloco no Rio de Janeiro. Não mantiveram muitos papos online, até que se viram um dia na praia antes da pandemia realmente acontecer e, com ela, a quarentena. Alice puxou assunto pelas redes sociais (brincam que ainda bem, já que Fernanda é péssima nisso) e finalmente começaram a conversar. As estradas principais que ligam as cidades foram fechadas por conta da quarentena e para que a família da Fernanda não ficasse sozinha em Duque de Caxias, a irmã chamou para que todos viessem ao Rio. Foi quando, estando na mesma cidade e Alice sozinha no apartamento, decidiram se encontrar. Ainda não havia informações sobre a gravidade do Covid, ninguém sabia ao certo, então Fernanda deu a desculpa de que iria doar sangue, realmente foi e depois foi encontrar Alice. Desde então, já estavam apaixonadas. Seguiram alguns meses de pandemia assim… Conseguiram um carro particular para buscar a Fernanda em Caxias quando precisava e diminuírem os riscos de exposição à Covid, e passavam um tempo juntas sempre que conseguiam. is do início do namoro, Fernanda conseguiu um emprego no centro do Rio. A pandemia estava acontecendo e era muito ruim sair da baixada fluminense, pegar diversos transportes e se expor ao Covid-19 para trabalhar. Foi então que uniram a vontade de morar juntas com a necessidade e ela foi dividir um lar com a Alice. Tempos depois se mudaram para o novo apartamento - onde estão hoje - e lugar que amam. Fernanda conta que imagina o relacionamento para a eternidade, porque ele se encaixa em tudo o que deseja. Elas adoram a rotina, adoram planejar e também adoram o que já possuem. Foram viajar pela primeira vez juntas para fora do Brasil e planejaram cada passo da viagem, contam como foi bom de se viver, mas que para além de coisas “grandiosas” assim, o que mais gostam é de deitar na cama de casa junto com a gatinha que divide lar com elas e pensar “Esse é o melhor lugar do mundo”. ↓ rolar para baixo ↓ Fernanda Alice
- Inara e Marina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Inara e Marina, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A documentação da história da Inara e da Marina veio a acontecer com uma pressa maior que a da maioria dos casais que passam pelo Documentadas, mas por um motivo bastante especial: elas se inscreveram sabendo que, no próximo mês, já não estariam mais morando no Brasil. As duas decidiram começar uma nova vida em Portugal. No começo do namoro era uma brincadeira boba de usar a dupla cidadania da Nina, mas depois virou um sonho concreto. Casaram-se e começaram a organizar como seria a nova vida. Nos encontramos no momento de venda de todos os objetos que elas possuem por aqui e, agora, com a história no ar, elas já estão começando os primeiros passos no novo país. Durante a conversa, elas relembram que quando a Inara foi apresentar a Nina para as melhores amigas dela, comentou algo que nunca tinha falado sobre nenhuma outra pessoa com quem se relacionou: “Anotem aí! Eu vou casar com essa mulher!”. No casamento, essas amigas eram as madrinhas. Assim, elas falam sobre o poder das palavras, do querer estar junto de alguém e, de alguma forma, do curso da vida. Inara e Nina se conheceram naquele aplicativo de relacionamentos super citado por aqui, o Tinder. Elas deram match e conversaram, depois sumiram, voltaram, sumiram de novo… A conversa não saiu de lá. Falavam sobre trabalho, família, diversos assuntos nessas idas e vindas, e foi num dia que a Nina cansou do aplicativo e decidiu sair de forma definitiva que avisou a Inara e pediu o Instagram, para que elas mantivessem o contato e se encontrassem em algum momento. Esse momento chegou, ainda que demorou mais um tanto - o encontro foi ótimo. Na época elas estavam em momentos bem diferentes… a Nina saía de um relacionamento bastante abusivo, a Inara estava numa solteirice contínua do qual ficava com várias pessoas, mas sentia que não se aprofundava com ninguém - e calhou de na época conversar com uma amiga (que, futuramente, viria a dividir apartamento com elas por anos) sobre essa sensação de fazer encontros à troco de nada. A amiga aconselhou a desmarcar o encontro, mas a Inara disse que não tinha como desmarcar, que seria desrespeitoso porque a Nina parecia ser muito legal, era melhor ir e ver no que iria dar - Ela disse: “de qualquer forma, vai ser o último”. E, por fim, foi. Essa história de dividirem apartamento surgiu logo depois, quando a Nina pediu a Inara em namoro elas já estavam praticamente indo morar juntas. O contrato estava por vencer e elas iriam se mudar. Até poderiam ir para o apartamento da Inara, que tinha uma vista ótima, ou optar pelo da Nina, que era grande, mas preferiram alugar um novo, recomeçar. Não queriam lugares que tivessem vivido outras histórias e outras dores. Assim, a amiga da Inara também estava em busca de apartamento e elas foram dividir um imóvel na Lapa, no centro do Rio de Janeiro. Elas contam que mesmo morando juntas, mantinham cada uma o seu quarto, até porque tudo estava muito no início quando alugaram e não sabia o que poderia dar certo. Acabou que juntas, com a companhia da amiga, no apartamento enfrentaram toda a pandemia, compartilharam diversas histórias e viveram muitas coisas. A amiga, por sua vez, confessou no casamento que não chegou nem a desabilitar o aplicativo do Zap Imóveis do celular, imaginando que no começo, pós mudança, elas brigariam, se separaríam, e ela quem teria que arranjar um novo lar. Mas a verdade é que isso não passava na cabeça delas, tinham uma responsabilidade em mãos e queriam estar juntas. Da mesma forma que um apartamento novo significava viver um recomeço, a viagem e a mudança para Portugal significava outro. Não está sendo fácil vender absolutamente tudo, desapegar das coisas que foram compradas e conquistadas ao longo dos anos. Mas é um esforço em conjunto para entender que isso abre caminhos para novas experiências. Elas contam que é uma possibilidade maravilhosa pensar em ter Portugal completamente do zero. Comprar coisas novas, mobiliar com a cara delas o novo lar, construir tudo novamente. É excitante, também, pensar na segurança de viver fora do Brasil. Hoje, viver no Rio de Janeiro, pela concepção delas, está muito difícil. Recentemente passaram por assaltos e criaram medos e traumas de vivenciar a rua. Pensam em viver Portugal por retomar o que amavam fazer aqui e que abdicaram pela violência: andar de bicicleta, curtir a cidade, sair sem medo do que pode acontecer a qualquer momento. Inara explica o quanto isso também dialoga com o trabalho dela, que é explorar o lado criativo: vai ser muito feliz podendo fotografar a rua, usar o celular, filmar mais em vias públicas e produzir mais conteúdos. Inara tem 39 anos, é natural do Rio Grande do Sul, mas desde criança se mudou para o Rio de Janeiro com a família. Ela trabalha com fotografia. Marina tem 39 anos, é natural do Rio de Janeiro e trabalha num site de música digital, sendo head de operações. No período da pandemia agravado pela quarentena, elas viveram momentos muito difíceis e também momentos muito bonitos (como o pedido de noivado e, posteriormente, o casamento). Foi logo no começo, quando ninguém sabia o que era a doença do Covid-19 e que havia-se um sentimento generalizado de luto, de desespero e de incerteza, que no dia do aniversário da Inara, elas juntaram os amigos online e a Nina fez o pedido de casamento. Foi como um sopro de esperança brotando: ver os amigos ali, através de uma vídeo chamada, e sentir que um dia estariam todos juntos novamente na festa, inclusive alguns com seus filhos (pois crianças estavam sendo geradas) era como brotar esperança em meio àquele caos. O casamento de fato aconteceu, cheio de detalhes sobre o que elas gostavam, como sapinhas nos buquês, tudo de mais clássico e que representava elas verdadeiramente. O casamento também inspirou amigos LGBTs próximos a se casarem. Entre os momentos mais delicados que uma relação envolve, como estar uma para a outra passando por coisas difíceis, enfrentando lado a lado e estando juntas de verdade, a Inara viveu uma cena, como ela mesmo diz, de novela, que foi bastante dolorida e que não saberia ter passado por isso sem todo o apoio da Nina. Reencontrou sua mãe depois de muitos anos sem contato, porém, ela estando em um leito de UTI, na fase terminal de um câncer. Foram algumas semanas de contato direto, apoio, em meio às ondas muito fortes de Covid-19 e, mesmo assim, as duas fazendo o possível acreditando com todas as forças que teria algum jeito dela melhorar. A Inara e a Nina acreditam muito no amor em forma de cuidado, em observar a necessidade do outro para além da sua. Isso, na relação delas, está desde os detalhes como a comida preferida da Inara ser o pão com mortadela que a Nina prepara nas manhãs, ou a força que elas tiveram nesses momentos mais difíceis. A Inara nunca tinha conhecido um amor que proporcionasse tanto apoio como quando elas passaram por isso - e, não só pela parte mais técnica e burocrática que sabemos que esses momentos infelizmente impõem - mas pela dor, também. Receber o acolhimento de uma forma que nem sabia que era possível tê-lo. Um cuidado realmente saudável, um amor único - e também calmo. A mãe da Nina, por sua vez, respeita as duas mas ainda não entende o relacionamento delas enquanto uma relação amorosa, de fato. Elas compreendem que isso é por motivos religiosos que são colocados acima de tudo e que, com o tempo, vai se apaziguando da melhor forma. ↓ rolar para baixo ↓ < Marina Inara
- Julia e Milena
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Julia e da Milena, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! No começo do relacionamento foi um pouco mais difícil manter os encontros, por conta da família não saber, não lidar muito bem e a pandemia não permitir que saíssem de casa. Agora, mesmo com a distância intermunicipal, elas acabam se vendo a cada 15 dias ou nos fins de semana. Entendem que essa escolha faz parte da relação e que o relacionamento está sendo construído com muito respeito e conforto, tendo cumplicidade. Nesse momento, a Milena disse que nunca teve alguém na vida que olhasse ela e tratasse ela da forma que a Júlia a olha e a trata, e que isso já resume toda a diferença e tudo o que o relacionamento vem significando para ela. “Todo o carinho. Todo o cuidado. Ninguém nunca se preocupou comigo assim." No começo da conversa, a Júlia tinha comentado sobre uma mulher que estava no metrô olhando as duas no caminho que fizeram até o local que nos encontramos. O olhar que ela fez foi um olhar específico de julgamento, não chegou a ser vulgar, foi algo do tipo “nossa, mas duas meninas? por que elas não estão com homens?”. Ela estava realmente bem incomodada com esse olhar, falou dele várias vezes na conversa. Comentamos sobre a diferença de olhar que nós mulheres recebemos quando estamos sozinhas, quando estamos com nossas companheiras, quando são dois homens, quando é um homem gay, quando é uma mulher nos olhando e quando é um homem nos olhando… sobre como todos os olhares são diferentes, mas como todos eles são violentos. Ela disse que queria que as coisas LGBTs fossem mais divulgadas para que tivéssemos mais espaços de fala, não só para “nos mostrarmos”, mas para educarmos essas pessoas, para explicarmos “sim, somos duas mulheres, amamos, está tudo bem, viu? não precisa do homem”. A divulgação pela nossa própria representatividade, porque precisamos disso, porque é importante para nós. Elas comentam também o quanto o fato de ocuparmos esse espaço as coisas já vão mudando naturalmente, como na própria família: os familiares que antes nunca usavam o termo “namorada da Milena” ou “namorada da Júlia”, ou que substituíam por “amiga”, hoje em dia já estão verbalizando isso… e que elas já estão podendo se referir à mãe da companheira enquanto sogra. O quanto faz diferença para a gente nos considerarem enquanto uma família e enquanto parte da família. O quanto elas vibram em cada pequena conquista que acontece quando uma está na casa da outra e sentem que avançam um pouquinho nessa conquista de território, que é diária. Sabe aquela famosa frase que nos acostumamos a ouvir? “e ai depois veio a pandemia.”, pois é. Foi logo em seguida, então os sentimentos se misturaram novamente: o término da Jú, ela tinha recém começado em um novo emprego, as várias coisas acontecendo mundialmente, tempos de incertezas, mudanças bruscas e todos dentro de casa. Elas foram voltando a conversar com maior frequência, de forma online, e só puderam se encontrar no início de junho. Quando se encontraram foi certeiro: começaram a namorar na mesma semana. Hoje em dia a Júlia está com 23 anos e a Milena também, a Jú faz muitas coisas, é fotógrafa, trabalha como social media e faz produtos digitais. Começou uma graduação em jornalismo e adora a área de criação (faz orçamento com ela, gente!), enquanto a Milena está desempregada, mas possui técnico em administração (mandem jobs e vagas por aqui também! estamos super na busca!). A Jú acredita que a fotografia entrou na vida dela como um grande hobby, acabou virando profissão, mas ela ainda faz em grande parte por diversão, porque gosta mesmo é de treinar, desbravar, se aventurar. E a Milena brinca que o hobbie da vida dela é o esporte, jogar e praticar. Elas entendem que cada vez mais querem estabelecer um nível de relação totalmente diferente das que já tiveram antes. Algo muito mais saudável em diversos âmbitos. Desde a família - antes a mãe da Jú não aceitava, por exemplo, e hoje ela adora a Milena. Assim como a família da Milena demorou um tempo para processar também e hoje adora a Jú - até os próprios preconceitos internos que ainda podem existir em nós. E falam sobre querer enfrentar os desafios que surgirem juntas, crescerem e se apoiarem. Desde o começo, quando eram apenas amigas, sempre falaram sobre absolutamente tudo (e por isso se deram tão bem), então agora não será diferente. Elas podem contar uma com a outra para entender seus processos internamente sem julgamentos. Quando falamos sobre isso, a Júlia logo disse em seguida sobre o arrependimento da escolha de ter voltado àquele relacionamento, por conta do ano de 2019 ter sido um ano muito difícil em diversos sentidos, incluindo o relacionamento. Mas como podemos saber se ela e a Milena teriam dado certo se tivessem ficado juntas naquele ano? de alguma forma, as coisas foram caminhando. O ano serviu para que ambas, em seus caminhos distintos, construíssem um amadurecimento muito maior, enfrentando coisas que não enfrentariam estando juntas. Ela também comenta que mesmo reatando o namoro, a Milena nunca deixou de ser uma prioridade na sua vida, e que isso foi algo totalmente novo, ou seja, que ela nunca tinha sentido por alguém. Ela sempre procurou saber como a Milena estava, se estava precisando de algo… sempre deixou amigos por perto dela. No meio do ano, alguns meses depois do afastamento, elas voltaram a conversar. Durante todo o ano de 2019 a vida da Milena também passou por idas e vindas, ela reatou o ex namoro, também passou por mudanças, processos diferentes. Se viu andando em círculos, processos muitos semelhantes aos da Jú. Nos meses em que elas conversavam se identificavam com algumas questões, se encontravam quando ela poderia estar pelo Rio, já que seguia morando em Magé, e conversavam muito sobre como os caminhos tinham sido separados e como mesmo com situações tão diferentes elas ainda se identificavam. Foi em Janeiro de 2020 que a Milena tomou a iniciativa de romper o relacionamento dela, por não sentir que fazia mais sentido continuar naquela forma que estava. Em março a Júlia terminou também. Uma semana antes da pandemia elas se encontraram em um show do cantor Delacruz, no Circo Voador, porque gostavam de uma música dele que sempre teve um significado muito forte para elas. Esse dia foi um divisor de águas, elas consideram que a partir dele e a partir daquele momento queriam passar a fazer as coisas serem diferentes. A Milena olhou no fundo do olho da Jú e disse: eu realmente gosto muito de você. A história da Milena e da Júlia começou oficialmente durante a pandemia, em 2020. Mas elas se conheceram em 2018, durante um curso, enquanto eram jovens aprendizes. A Júlia é natural do Rio de Janeiro, enquanto a Milena é de Magé, no interior, mas toda semana chegava até o centro do Rio para o curso. Na época elas não tinham nada em comum, a Júlia já sabia que se interessava por mulheres e estava num relacionamento com uma menina, enquanto a Milena nunca tinha se interessado por nenhuma mulher, estava em um relacionamento heteronormativo e pensava que não teria muito assunto em comum para conversar com a Jú. Aos poucos, foram criando uma amizade. Na versão da Jú, ela conta que logo no primeiro dia sentiu atração e uma paixonite pela Milena, por isso tentou investir na amizade começando com piadinhas e tentando se aproximar… assim elas se seguiram nas redes sociais e começaram a conversar além do ambiente do cursinho. Com o tempo passando e a frequência ao se verem semanalmente no curso acontecendo, acabaram criando um grupo de amigas e a amizade foi se fortalecendo. Elas passaram a manter uma rotina de conversas ativas, se ligavam por chamadas de vídeos, viraram confidentes. A Milena se sentiu à vontade para contar para a Júlia que estava sentindo algum tipo de atração por ela (Júlia que não à toa ficou com um sentimento de “eu sempre soube que você gostava de mulheres também!!!!”) e então ela contou que não sabia que gostava de mulheres e que essa estava sendo a primeira vez que sentia isso. Como a Júlia estava em um relacionamento, elas até chegaram a sair juntas depois disso, mas não se beijaram ou algo do tipo, apenas continuaram tendo contato. Em janeiro de 2019, o relacionamento não estava indo bem, ela acabou dando um tempo a ex e foi o momento em que finalmente pode ficar com a Milena. Por mais que elas estivessem ficando e se encontrando durante o mês de janeiro, tudo ainda era novo para a Júlia, porque o relacionamento recém tinha acabado, ela ainda se sentia muito dividida. Foi quando a ex-namorada soube que ela estava se envolvendo com alguém nesse período de “dar um tempo” e a pressionou, como quem diz “e aí, você vai começar algo com ela? ou nós vamos voltar a seguir o que já tínhamos construído?”. Foi então que a escolha de voltar ao relacionamento em que estava foi feita. Ela parou de falar com a Milena, parou de frequentar o curso e mudou totalmente a rotina.
- Joyce e Gabi
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Joyce e da Gabi, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Na intensa rotina de trabalho que Gabriela e Joyce possuem, nos encontramos num final de semana no centro do Rio de Janeiro. Gabi trabalha em farmácia, Joyce em supermercado, são horários bastante cheios e cotidianos exaustivos. Elas moram em Duque de Caxias, região da baixada fluminense, e o que mais gostam de fazer juntas - além de cozinhar (sempre acompanhadas de vinhos) e tirar fotos das coisas por aí, é também ir até o Rio para aproveitar a praia e descobrir lugares novos - ser turista na própria cidade. É justamente entre a dinâmica pouco fácil de uma rotina cheia, de horários de trabalho que não nos dão muitos momentos de descanso e de uma vida agitada que elas entendem o quão é importante se esforçar para enxergarem o amor na relação que vivem. Já são mais de 6 anos morando juntas, Joyce acredita que o amor está nos pequenos gestos do dia que demonstram uma pela outra - uma somatória de coisas que vão se acumulando, fazendo com que a paixão siga existindo. Conta que desde o começo, como não tinha dinheiro, demonstrava escrevendo cartas, imprimindo fotos, criando coisas personalizadas… Hoje em dia, mesmo odiando café, por exemplo, sabe o quanto a Gabi ama e faz café pra ela, compra cafés diferentes quando vê no mercado, sempre quando sai sozinha traz algo que lembrou a Gabi para demonstrar o quanto ela estava presente em pensamento… e sente que nesses pequenos gestos estão vivos os significados do amor. No momento da documentação Gabi estava com 33 anos e Joyce com 24. Por mais que hoje em dia essa idade ainda tenha seu peso pelas diferenças, quando elas começaram o relacionamento, tudo era ainda mais conflituoso. Na época, Joyce nunca tinha se relacionado com mulheres. Gabi tinha uma vida mais agitada, era uma mulher independente, trabalhava numa drogaria próxima à casa da Joyce e foram assim que se viram pela primeira vez. Foi Joyce quem se interessou pela Gabi - e Gabi estava num momento de querer sossego, pensou que era melhor não retribuir interesses, principalmente pela diferença de idade. Mas quando se deu conta já estava entregue e interagindo. Não foi um início fácil, bem pelo contrário. Viveram muitos problemas vindo por conta da não aceitação familiar da Joyce. Ela até então era uma mulher que vivia uma cultura cristã, com padrões sociais, e pensava que no momento que descobrissem até poderia ficar tudo bem pois tinha um tio gay que era casado há anos e aceito na família… mas não foi apoiada nem por ele. Todos foram contra, gerando confusão ainda maior. Gabi foi a mais prejudicada, pois envolveram o trabalho dela, passando por uma grande exposição. Precisou mudar de loja e só não foi demitida porque era uma funcionária exemplar. Todos os conflitos familiares que viveram começaram quando tinham cerca de 6 meses juntas, e duraram mais de um ano e meio, quando Joyce já tinha 18 anos e sem terem outras opções, decidiram morar juntas. Joyce conta que foi num domingo, se sentiu exausta após uma discussão muito grande e saiu de casa. Hoje em dia, aliviada, a família se dá muito bem. A mãe pediu desculpas para a Gabi, entende que a visão que tinha sobre a relação delas era muito distorcida e que a Gabi não era a pessoa que ela pensava. Gabi entende também que as coisas mudam com o tempo e que a base para que tudo mude é o diálogo. Sente muito por não ter tido isso na infância, não foi ensinada a dialogar dentro de casa e não era algo instigado pela sua família. Ao decorrer da vida adulta tenta mudar isso de todas as formas e conversa o tempo todo: sempre está disposta a falar o que sente. Gabi entende que amar é respeitar, em qualquer âmbito. Pensa que talvez na família, no modelo em que vive, as pessoas não respeitam tanto - elas aceitam. Já nos amigos e no relacionamento, aí sim, é diferente: se sente respeitada de verdade, pode ser quem ela é, sem julgamentos, de forma livre. Num momento da conversa, lembram de um filme evangélico que viram uma vez e que fala sobre amar ser uma forma de não desistir, de passar pelas fases, persistir. Sempre pensam no filme quando as coisas estão difíceis, se impulsionam a acreditar no relacionamento, reforçam o amor que sentem. Joyce, por fim, fala sobre o quanto gostaria de mudar algumas vivências que possuem nos dias de hoje no dia a dia morando em Duque de Caxias e tendo as rotinas de passeios pelo Rio também, como o fato de que gostaria muito de sair andando na rua em paz. Comentou que quando vieram me encontrar para registrarmos essa documentação, desceram na rodoviária e estavam caminhando na rua em direção ao lugar que nos encontramos, nisso passaram dois homens de moto e gritaram “Quatro é par” em alusão à elas estarem ‘sozinhas’ e eles também. Reforça que o assédio que sofremos quando estamos na rua enquanto um casal de mulheres (ou enquanto mulheres quando estamos sozinhas) é uma das piores coisas que podemos sentir. E que só queriam estar vivendo bem enquanto um casal que sai na rua, sem essa violência, esse medo. Queriam sair de casa a hora que quisessem (muito cedo ou muito tarde) sem o medo acompanhando o tempo todo. ↓ rolar para baixo ↓ Joyce Gabriela
- Jéssica e Brenda | Documentadas
Brenda estava com 31 anos no momento da documentação. Nasceu no Rio de Janeiro, passou a maior parte da vida na Rocinha e veio de uma família evangélica, com valores políticos conservadores dos quais ela não concorda, que nunca refletiram sua essência. Antes de se mudar para Arraial D’ajuda, em Porto Seguro/BA, era bancária e trabalhava no setor administrativo. Foi nessa rotina, durante 6 anos, que se sentiu consumida física e emocionalmente. A saúde começou a dar sinais de alerta: problemas de visão, ansiedade, ganho de peso e cansaço. Tudo culminou no esgotamento. Em meio à pandemia de Covid-19, decidiu mudar de vida, um impulso que começou após férias na Bahia, onde ela e Jéssica vislumbraram um novo modelo de existência. Em novembro daquela viagem, a Bahia mostrou um estilo de vida mais simples e feliz, livre da pressão do consumismo das grandes cidades: conheceram pessoas que viviam como nômades ou em home office, e, em Arraial d'Ajuda, sentiram uma conexão especial. Foi ali que o sonho começou a tomar forma. Jéssica, no momento da documentação, estava com 34 anos. É natural de Belford Roxo, baixada fluminense. Nutricionista de formação, é apaixonada por cozinhar e estudar alimentos, mesmo sem atuar diretamente na área. Antes da mudança, dirigia para aplicativos de transporte e trabalhava com energia solar e reformas de elevadores. Para ela, a família sempre foi tudo, apesar das dificuldades em aceitar sua orientação sexual no início. Hoje, sua mãe não só aceita, mas admira Brenda, reconhecendo nela alguém que inspira e impulsiona Jéssica. Na hora de partir para a Bahia, foi certeiro - ainda que Jéssica tenha sentido medo - vendeu o carro e Brenda retribuiu o apoio que teve nos momentos de dificuldade anteriores: disse “Vambora!”. Alugaram uma casa, partiram para um novo negócio. Agora, o sucesso ali não é uma obrigação, mas uma possibilidade. Se não der certo, sabem que podem recomeçar em outro lugar, porque ficar paradas já não é uma opção. Foi por meio de um aplicativo de relacionamentos que Brenda e Jéssica se conheceram. Jéssica, natural de Belford Roxo, não deixou que a distância fosse um obstáculo. "Vale a pena investir porque sou uma pessoa legal". E estava certa. Em apenas 13 dias, já estavam namorando. Foi tudo tão intenso que, após os primeiros encontros, Jéssica deu a Brenda um anel feito com folha de bananeira, em um passeio no Parque Lage, no Rio de Janeiro. Juntas, adoravam passar o tempo na Lagoa, um lugar que se tornou ponto de encontro nos primeiros meses. O primeiro lar que dividiram foi no Engenho Novo, onde começaram com pouco: dois colchões e duas televisões. Brenda já vivia no bairro com sua mãe - que via Jéssica como uma amiga. Aos poucos, enfrentaram desafios e momentos importantes com a família de Brenda, construindo laços e superando diferenças. Foram mobiliando a casa com muito esforço e dedicação, cada item, desde a decoração até os utensílios mais simples, ganhou um valor especial. Cada conquista representava a luta diária das duas. Depois de outras mudanças, anos mais tarde, moraram na Rocinha, voltando ao bairro onde Brenda nasceu. "Vamos embora. Não sei o que vai acontecer, mas vamos embora. E estamos juntas nessa." É assim que elas resumem as mudanças. No começo, Brenda era mais reservada, mas com o tempo, Jéssica viu nela uma transformação que trouxe muito orgulho. "Hoje vejo a Brenda conversando com minhas amigas e fico feliz de como ela mudou", conta. Com oito anos de relacionamento, ambas destacam a importância de se comunicarem com abertura e respeito. Por mais que nem sempre concordem, sabem que haverá compreensão. Essa base sólida de apoio e admiração mútua é também reconhecida pelos amigos, que veem na relação delas algo natural, leve e inspirador. Conversamos sobre não ser apenas sobre compartilhar a vida juntas, mas algo maior: um espaço onde é possível ser amiga de si mesma, aceitar as diferenças ao redor e, acima de tudo, viver em verdade. Planejando o que seria a nova vida em Arraial d'Ajuda, Brenda e Jéssica encontraram, pelo Facebook, a casa onde moram atualmente e decidiram transformá-la em um espaço acolhedor para mulheres viajantes. A ideia foi criar algo intimista, um hostel diferenciado, com uma rotatividade máxima de 06 hóspedes, permitindo conexões mais profundas, trocas e um ambiente propício ao aprendizado e segurança. Mais do que uma hospedagem, o sonho delas é um espaço que acolha e empodere mulheres. “Queremos mostrar que o mundo também é para nós. Que a gente pode, a gente merece”. As mulheres enfrentam muito pedo de viajarem sozinhas por conta de assédios, abusos e desconfortos, então lá seria o local ideal para estarem hospedadas. Para o futuro, querem implementar práticas como yoga, terapias e atividades na rua que cuidem do corpo e da mente. Fecharam o contrato da casa à distância, na “cara e na coragem”, sem sequer visitá-la antes. “Estamos rindo mais do que chorando, e isso é muito importante” - quando Brenda diz isso, resume o sentido da jornada que têm trilhado: ganhar mais do que perder, viver plenamente com o que têm hoje. Para ela, deixar o emprego que possuíam foi um divisor de águas. Sem a pressão da rotina exaustiva, não precisou mais de remédios ou óculos. Perdeu peso e ganhou saúde, no corpo e na alma. A mudança foi além da geografia – foi interna, profunda. “A gente é criado para acreditar que o dinheiro importa mais. Que o dinheiro vai te trazer qualidade de vida. Mas não era sobre isso”. Para Jéssica, estar com Brenda permitiu que ela expandisse suas próprias percepções sobre afeto. É algo que vai além do relacionamento: é sobre construir, juntas, um tipo de amor que inspira e transforma. Brenda complementa: "Acho muito legal quando as pessoas olham e falam: ‘Caraca, elas são parceiras mesmo!’" Seja em pequenos gestos, como carregar caixas lado a lado, ou no apoio e amor que compartilham diariamente, elas mostram o significado de uma relação baseada em parceria verdadeira. Mais do que um casal, elas se veem como militantes do amor e da proteção às mulheres. Não militantes políticas, mas militantes do dia a dia, mesmo. Vivem seu amor como um ato político. Uma forma de reivindicar respeito e espaço para as mulheres em um mundo que ainda carrega tantas barreiras. Enaltecem e protegem outras mulheres sempre que podem, fazendo de sua própria relação uma inspiração para quem cruza seus caminhos. Embora já se vejam como uma família, sonham em maternar no futuro. É um desejo que vem acompanhado de receios: o medo de não serem compreendidas ou aceitas enquanto família por seus próprios parentes. Ainda assim, acreditam na força que construíram juntas para enfrentar desafios e realizar sonhos. "Nosso amor é sobre isso", refletem. "Construir, apoiar, e, acima de tudo, lutar. Por nós e pelas mulheres que ainda precisam de coragem para serem quem realmente são." ↓ rolar para baixo ↓ Brenda Jéssica Quittéria
- Rhanna e Lais | Documentadas
Rhanna viu Lais pela primeira vez numa prova de concurso em Salvador, em 2017. Na época, tinha um relacionamento aberto com a companheira, que morava no Rio, e achou as duas muito parecidas… Um tempo depois, foi visitar a companheira e viu Lais novamente, numa coincidência estranha, num bar na Lapa. Ela nem imaginava, mas Lais morava no Rio também. Lais foi morar em Feira de Santana em 2018, por ter conseguido um trabalho novo. Durante o período de São João conheceu a festa O Bando Anunciador, um cortejo que acontece na cidade - e que era tema da pesquisa de Rhanna, nascida (e criada) em Feira. Nos dias que antecederam a festa, participaram de um evento juntas: uma mesa de debates. Quando Rhanna chegou e viu Lais, contou que a conhecia, já tinha visto ela nessas duas situações aleatórias em lugares tão diferentes. Lais achou bastante estranho, engraçado ao mesmo tempo, mas se deram bem e foram dividir a mesa de convidadas. Quando se encontraram novamente, na festa do Bando Anunciador, Lais foi roubada. Ficou indignada porque foi roubada por um menino, um “moleque”, que quis sair correndo na rua atrás dele, mas não o encontrou. Viu Rhanna, mas mal a cumprimentou. Quando chegou em casa se sentiu até mal, sabia que ela estava empolgada com a festa, era um dia que queria ter vivido. Foi pesquisar por ela nas redes sociais, pedir desculpas… mas não achava de jeito nenhum, principalmente pela dificuldade de escrever o nome: H, dois Ns… só conseguiu quando achou uma divulgação do evento que participaram juntas. Mandou uma mensagem se desculpando por estar emburrada daquela forma, contou o ocorrido e assim começaram a conversar. Desde antes da relação virar uma relação, amizade, ou qualquer outra coisa, o que deu certo e fez acontecer foi o fato delas sempre toparem as coisas. Tanto Rhanna, quanto Lais, são pessoas que falam: “Bora? Bora!”. A primeira vez que saíram foi para um show que geralmente as pessoas não iriam, mas a festa tinha a ver ainda com o cortejo do Bando Anunciador. Se divertiram por lá e começaram uma amizade. Lais sabia da relação de Rhanna e sempre pensava que não queria se meter, achava que poderia resultar em alguma confusão, por mais que sim, se sentisse um pouco envolvida por Rhanna. Demorou alguns meses para que começassem a se envolver de fato, houve o processo da paixão, de encerrar o outro relacionamento, de se permitirem viver a paixão e de transformar isso em namoro… Sentem que o tempo foi colaborando no processo, o fato de morarem próximas e estarem sempre juntas também foi grande aliado. Durante a pandemia de Covid-19 estiveram juntas em Feira de Santana, se mantiveram isoladas em uma casa com quintal, com um gatinho, cozinhando, com muito tempo para se conhecer… sentem um pouco de falta agora que a dinâmica do trabalho intenso toma conta. Em 2020, ainda durante a pandemia, fizeram parte de uma campanha política - que começou de forma online e passou por uma parte nas ruas. Ficaram boa parte do ano em campanha dentro de casa. Depois, quando foi necessário ir às ruas, alugaram uma kitnet em Salvador e chegaram para trabalhar presencialmente. A candidata para quem elas fizeram campanha foi eleita e no ano seguinte, em 2021, foram convidadas para fazer parte do novo mandato que se construiria na cidade. O apartamento que haviam alugado era temporário, apenas para a campanha, depois voltaram para Feira de Santana, mas como aceitaram a proposta de trabalho voltaram para Salvador no início do ano. Ficaram de 2021 até 2022, quando se mudaram oficialmente para o Rio de Janeiro, nessa nova proposta de trabalho diretamente com cultura e comunicação. Quando nos encontramos, no fim de 2024, estavam na preparação para a festa de casamento que aconteceria no começo de 2025 em Salvador. Lais sempre quis casar, brinca que tem essa vontade de fazer as coisas como uma família tradicional brasileira, mas a verdade é que quer ter tudo o que tem direito e o casamento é uma dessas coisas, casar é importante porque faz parte de um processo político, um reconhecimento de que essa relação existe. Lais enxerga o amor que vivem como algo revolucionário, ainda mais no momento em que estavam se preparando para o casamento. É muito importante falar sobre o amor com todas as letras. Explica que sempre falamos sobre o nosso amor “pela metade”, sempre falamos pouco, com medo de julgamento, com cuidado sob quem vai ouvir… e agora é o momento que estão falando abertamente e naturalmente sobre uma relação tão bonita que vivem. O casamento é o momento das famílias, dos amigos, de unir tantos mundos diferentes. Refletiu bastante ao convidar a família toda para a cerimônia. E viu que o dia se tornou uma afirmação, um dia que puderam reafirmar e sentirem celebradas, apoiadas por esse amor. Falamos sobre como o amor entre mulheres pode ser capaz de inverter uma lógica masculina, não precisamos nos guiar por ela - por mais que somos criadas num mundo patriarcal e que desde pequenas somos guiadas por questões masculinas - em relacionamentos com mulheres podemos nos reinventar e fazer diversas coisas como nos sentirmos melhor. Lais e Rhanna, por exemplo, possuem uma comunicação muito aberta sobre suas vivências, seja cotidiana em casa, seja suas relações no trabalho por trabalharem juntas… E tudo isso existe por não se cobrarem nos moldes de um sistema que nos coloca numa posição inferior. Já criaram seus próprios mecanismos internos na relação que para estarem sempre se impulsionando, admirando e principalmente se apaixonando uma pela outra pelas coisas que se “completam”, pelos seus detalhes. Finalizamos a conversa contando a história de Raj, que veio somar na família, cachorrinho que encontraram na estrada, levaram para a casa e tentaram buscar adoção, mas conquistou o coração. Ou seja: ele quem adotou elas. Lais estava com 33 anos no momento da documentação. É produtora cultural, trabalha com políticas públicas para a cultura na FUNARTE. É natural de Salvador, mas mora no Rio de Janeiro e fez sua mudança por conta do trabalho. Já havia morado no Rio em 2015, ficou até 2017 e se mudou para Feira de Santana, onde trabalhou no SESC. Adora teatro, fez teatro por alguns anos e acredita que escolheu sua profissão por conta disso. Rhanna estava com 33 anos no momento da documentação. É natural de Feira de Santana, interior da Bahia. Formou-se em direito, fez mestrado em Antropologia e começou a pesquisar sobre festas. Hoje em dia trabalha com cultura e comunicação na FUNARTE e gosta de transitar entre as festas populares, culturas, histórias… Já trabalhou com fotografia, arte de rua… Como ela e Lais se mudaram ao Rio para trabalhar, a rotina vive em torno do trabalho e da vida profissional, no tempo livre desejam descansar e planejar o momento de estar com suas famílias na Bahia. Nesse tempo de relação, foram 5 anos e 5 casas, contam que a vida é assim mesmo, corrida. Desde 2016, Lais conta que participou da ocupação do Ministério da Cultura no Rio, foi construindo sua vida e seus caminhos de lá pra cá, e hoje comemoram o fato de estarem completando quase dois anos num só lugar. ↓ rolar para baixo ↓ Rhanna Lais
- Gabi e Gabriela | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Começo essa história dizendo que é muito difícil documentar duas pessoas com o mesmo nome, então para ser uma leitura mais fácil, vou identificá-las de forma diferente, ok? Gabriela e Gabi. Gabriela tem cabelos longos, um black cacheado. Ela estava com 27 anos no momento da documentação, estuda Letras na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (local em que fizemos as fotos), possui dois filhos (gêmeos) e ama livros, poesia, literatura… também ama dançar - algo que vê em comum com a Gabi - e andar de patins. É natural de Duque de Caxias, na baixada fluminense. Gabi tem cabelo curto, também cacheado. Ela é natural de Nilópolis, baixada fluminense. Estava com 31 anos no momento da documentação e trabalha como cinegrafista e editora de vídeo. Adora andar de skate e fala sobre ser uma mulher tranquila, “de boas”, não é uma pessoa que faz muitos planos, mas está sempre disposta a fazer algo. O hobbie pelo patins e pelo skate foi algo que aproximou bastante elas no começo. Antes mesmo de engatar o namoro, já se imaginavam andando juntas por aí. Gabriela tinha muito receio sobre como seria o namoro e a reação das crianças ao saber. Foi o primeiro relacionamento que viveu desde a separação, procurou páginas sobre madrastas e queria entender como seria. No fim, tudo foi de forma muito natural. Entende que as crianças são genuínas, ficam felizes ao receber amor e retribuem num sentimento puro. Foi assim, numa saída ao shopping, que se conheceram e adoraram a Gabi. Se sentiram confortáveis, o que fez elas entenderem que só os adultos enxergam problema no amor. Também acham incrível ter dois meninos em contato com uma relação tão bonita fazendo-os crescer longe de preconceitos. Gabi conta a maior parte da história e depois pergunta se era pra ser assim, eu rio e digo que pode ser, sim. E ela completa: “É que me empolgo muito falando de nós.” Em outubro de 2024, num aplicativo de relacionamento, conversaram pela primeira vez. Gabi estava desacreditada, achava que aplicativos serviam apenas para fazer amizade (e olhe lá!). Gabriela, por sua vez, demorava um pouco para responder (o que alimentou o sentimento de que não ia dar em nada). Achava que Gabi respondia muito seca e não alimentava tanto assim as conversas. Foi num momento, falando sobre as regiões onde moram, que Gabi analisou e disse “É muito longe!”, quando Gabriela respondeu: “Depende do ponto de vista”. A partir disso, o tom da conversa mudou. Gabi entendeu que Gabriela queria conhecê-la. Passaram alguns dias conversando online, até que Gabriela comentou que teria um horário vago na faculdade no dia seguinte e perguntou se Gabi não queria ir lá, passarem um momento juntas. Gabi pensou “Já?? Essa menina quer mesmo me conhecer??”, então pediu conselhos aos amigos e topou o encontro. Quando chegou, pensou que reconheceria ela pelo cabelo e quando viu ela chegando virou de costas para fingir surpresa. Decidiram almoçar num fast-food próximo, Gabriela teve seu lanche lotado de alface e ficou com vergonha de comer - isso vira piada até hoje. Riem lembrando e pontuando que no fim Gabi disse que não precisava ter vergonha e toda a situação acabou fazendo com que elas ficassem mais à vontade. Durante as conversas comentaram sobre relacionamentos que já tinham tido e sempre que a Gabriela falava dos seus, se referia à homens. Então Gabi pensou: “Essa menina é hétero, tudo bem, vamos ser só amigas”. Depois do primeiro encontro, que não rolou beijo, comentaram online que gostariam de ter se beijado e que seria ótimo se reencontrar. Foi quando Gabi convidou Gabriela para ir à Feira de Tradições Nordestinas, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, junto com suas amigas. Pensou: “Ou ela fica comigo, ou não vai me ver nunca mais - porque minhas amigas são doidas!”. Gabi dançou, se divertiu e Gabriela ficou mais quietinha. Tentaram se beijar, mas o nervosismo falou mais alto. O beijo aconteceu, finalmente, no fim da noite, madrugada adentro. Continuaram se encontrando e na virada do ano, estando em lugares diferentes, Gabi enviou um vídeo com vários momentos das duas, pedindo Gabriela em namoro. Ela aceitou. Entendem que mesmo sendo um relacionamento recente, já passaram por vários momentos importantes, inclusive o preconceito familiar sobre terem uma relação sendo duas mulheres. Gabriela vem de uma família cristã e em casa tem sua relação ignorada, não falam sobre. Ela explica que não deseja romper com sua família, afinal são unidos e suportes uns dos outros, então está priorizando entender o espaço e o tempo que as pessoas levam para processar. Ambas ficam tristes porque queriam estar se introduzindo mais na vida familiar, mas possuem a esperança de isso acontecer com o tempo. Por outro lado, Gabi apoia muito a maternidade da Gabriela, adora os momentos que vivem juntas com as crianças, andando de mãos dadas, por exemplo. Se alguém perguntar se Gabi está feliz, ela só sorri: está explícito. Entendem que um dos pontos altos da relação é a conversa. Se sentem muito bem juntas, brincam, riem, sentem que são parecidas e ao mesmo tempo diferentes. Nunca brigaram, mas já tiveram conversas bem difíceis e entendem a importância disso. A relação veio como algo muito novo para a Gabriela. Ela conta que sempre sentiu atração por mulheres, mas foi criada num lar que achava muito errado esse tipo de amor. Foi retraindo esse sentimento e só depois da sua separação chegou à conclusão de que muitas vivências são dela enquanto indivíduo, não precisa passar pelo o que a família ou a sociedade acha sobre. Decidiu ser cada vez mais fiel ao que ela realmente é. Não quer mais sentir rivalidades entre mulheres ou viver pensando no que um homem gostaria. Gabi, mesmo já tendo vivido outros relacionamentos com mulheres, sente que esse é o mais leve, com uma comunicação aberta que possibilita ela ser quem é sem medo. Não sente que está abandonando seu “eu” para ser o que os outros querem, ama a Gabriela da forma que ela é e entende que as duas ficam à vontade juntas. Acha muito bacana quando encontra o amor no dia a dia: fazendo uma comida esperando a Gabriela chegar, ou nos momentos juntas, com as crianças… Entende que por mais que isso seja o básico, muita gente não conhece esse tipo de cuidado, então sabem valorizar. Gabi sempre quis ser mãe de gêmeos, dois meninos, e entende que a relação é um presente do destino. Adora quando as crianças pedem pra ela ficar. Explica que existe e Gabriela e mais dois serzinhos nesse “combo”, três pessoas diferentes que ela ama e respeita. Gabriela fala sobre como é diferente sentir o preconceito racial e de gênero quando estão juntas na rua, sendo duas mulheres negras se amando. Cita um dia na praia, uma mulher encarando-as de ‘cara feia’, apenas por estarem juntas e felizes. Não entende porque esse amor incomoda tanto e também não vai mudar por conta dos olhares. Deseja - e tenta manter a esperança - de que um dia esse preconceito saia da sociedade, é por isso, também, que cria seus filhos de maneira diferente para que eles sejam símbolo de mudança. O racismo está sempre presente nos lugares de vivência e de trabalho, então Gabi completa sobre tudo ser mais simples quando se existe o respeito. Respeitar as conquistas, as escolhas. Não gosta de se sentir impotente diante às situações que vivem. Sente que precisa se esforçar muito mais para ser reconhecida no meio profissional, que não adianta ter um trabalho bom, precisa entregar um resultado melhor ainda que o esperado para quebrar o preconceito sobre quem ela é, como se veste, etc. Entendem que viver esse amor juntas é quebrar muitas questões sociais. Mesmo não sendo uma escolha, reconhecem que isso faz o amor que sentem ficar ainda mais forte e revolucionário. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Gabi
- Bruna e Flávia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Bruna e da Flávia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Bruna e a Flávia são duas mulheres que se encontram nessa vida através de um amor muito parceiro (e quase nômade, devido ao tanto que se mudaram nos últimos anos). Nos encontramos no Rio de Janeiro, local em que elas passaram a morar no meio do ano e que estão apaixonadas - pela praia, pela nova casa e pelos novos amigos - mas contam que já passaram por Curitiba, Belo Horizonte e por algumas cidades do interior de São Paulo. A paixão e a parceria voltam a aparecer nesse segundo parágrafo (e desculpa, mas vai ser bem difícil não soar repetitivo nesse texto porque é muito presente a forma que elas transparecem esses dois pontos) pois logo no começo da conversa a Flávia destaca que, por elas terem se mudado por conta do trabalho da Bruna, a parceria delas é algo que não abrem mão. Estão sempre caminhando juntas, se sentindo dispostas a enfrentar os desafios que encontram. A Bruna tem 26 anos e é atleta profissional de vôlei. No momento é a levantadora do Fluminense (e já esteve enquanto uma das levantadoras oficiais da seleção brasileira!). A Flávia tem 34 anos, é Personal Trainer e Fisiologista, mulher que domina muito o Crossfit e dá aula em academias. Juntas, elas gostam muito de viajar e conhecer lugares, de estar com os amigos… e de, principalmente, aproveitar a companhia uma da outra: se curtindo e dando risada. Todos os dias, tentam manter um momento só delas: deixam o celular e a TV de lado, sentam no sofá e curtem a companhia uma da outra. É algo único na relação. Flávia conta que no começo era a mais tímida e a Bruna a mais extrovertida - que as pessoas naturalmente gostam muito da Bruna - e que era mais difícil elas quererem sair com os amigos, geralmente elas faziam de tudo para estarem sozinhas. Pelo fato do relacionamento ser à distância, acreditamos que isso também influenciava nelas quererem um momento só delas, claro. Mas hoje ela enxerga tudo com outro olhar, se sente mais aberta, mais à vontade e gosta de estar fazendo novas amizades, saindo por aí, sente que inclusive se permite ter mais confiança nas pessoas… É algo que destaca o quanto foi bom (e que nela acrescentou) ter aprendido ao longo dos anos. No começo do relacionamento foram dois anos à distância e por conta da pandemia os campeonatos de vôlei foram suspensos, fazendo com que Bruna tivesse um tempo sem planos para novas mudanças. Por mais que os pais dela estivessem morando em Curitiba, ela nasceu em São Paulo e elas já tinham passado por Piracicaba e Osasco, então alugaram um apartamento em Piracicaba e conseguiram ficar lá alguns meses. Foi uma experiência muito feliz morando juntas (inclusive, viram que deu super certo e decidiram realizar a União Estável). A relação da Bruna e da Flávia vem, como elas mesmo intitulam: “num encontro de almas”. Ambas passaram por dois relacionamentos longos e bastante tóxicos, sendo mais jovens e isso acabou gerando um certo trauma e uma insegurança ao se envolver novamente com alguém. Elas se conheceram em 2016, quando ainda estavam em seus relacionamentos, em meio aos campeonatos esportivos (e inclusive torceram uma pela outra), mas só vieram a ter interesse em se conhecer melhor dois anos depois, através de um dos melhores amigos em comum. Por mais que se sentissem machucadas e desacreditadas no amor, quando se conheceram algo ali fez florescer a possibilidade de algo dar certo. Foram com muito cuidado para não cometer os erros do passado, sempre investindo ao máximo em comunicação e em serem sinceras sobre os sentimentos, não deixar para depois ou empurrar algo... esconder alguma coisa… assim, conseguiriam consolidar confiança. Desde então, já passaram por muitas coisas - e elas devem estar pensando “Ufa! Coloca MUITA coisa nisso!”. A Bruna se assumiu para a família (que naquela época jamais aceitaria e hoje vivem uma relação bem bacana ♥) (e que, também, teve um apoio muito legal das colegas de time e do técnico, importantíssimo de ressaltar), além disso tiveram as mudanças, a mãe da Flávia passou por uma situação de doença familiar bastante difícil afetando sua autonomia, Bruna inclusive viajou para a China nesse período, mas nunca deixou de dar apoio e suporte. Enfim, todas essas situações (e tantas outras, né?) serviram para que elas chegassem à conclusão do significado de suporte: elas se entendem enquanto uma balança. Quando uma não tá muito bem, a outra dá o apoio, assim vice-versa. Elas estão ali realmente como um impulso uma para a outra, um levantamento diário. Comentam sobre a pandemia em relação ao esporte, o trabalho, as mudanças, como isso diariamente vai afetando e como diariamente também elas se impulsionam, é um esforço que vai do levantar até o ir dormir e que é conjunto, não parte apenas parte de uma dentro do relacionamento. Para elas, o amor é puro. É como uma entrega gratuita que vem de dentro para fora. E é sobre essa troca diária que elas fazem: necessita dedicação e muita entrega, mas você também recebe. Isso engloba amigos, famílias, relacionamentos românticos… E essa troca é justamente fazer sem esperar nada em troca. Na hora, a gente ri, porque parece não fazer sentido, mas faz, né? Achamos que faz. Elas entendem que a sociedade precisa de muito mais amor porque o amor e carinho são capazes de salvar as pessoas (e sobretudo, ajudá-las). Bruna entende que o amor acontece naturalmente, mas que em um casamento com o convívio diário se torna uma escolha: Escolher amar o outro pelo compromisso, responsabilidade e respeito mesmo nos momentos de dificuldades e discordâncias. Flávia comenta o quanto sente o amor latente pela mãe dela, pois sua família é a sua base e sempre estiveram por perto, sendo sua mãe seu braço direito, sua amiga. E o quanto foi forte o baque da doença. O amor é também um processo de amadurecimento - e esse amor, que elas têm, é como o que abraça todas as outras coisas: o acolhimento, o cuidado, o suporte e um verdadeiro “tô contigo para o que for”. O que vale também para a Bruna, que desde o começo acompanha e dá suporte e forças para enfrentar: não tem jeito, eu disse que ia ficar repetitivo, porque é isso o que elas realmente são > é amor de parceria. Bruna Flávia
- Marilia e Luana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marilia e Luana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Marília e Luana se encontram através das coisas que acreditam. Dentre tudo o que conversamos, o principal, talvez seja a forma que enxergam as pessoas. Poderia ser o trabalho - porque trabalham com o corpo - poderia ser o hobbie no skate ou até mesmo a família que construíram unindo suas famílias, mas no fim, toda a nossa conversa se resumiu em incentivar, de alguma forma, quem está ao nosso redor. Marília tem 34 anos, é do Rio de Janeiro e se formou em Educação Física. Atua enquanto professora de lutas e jiu-jitsu, dando aulas em escolas, academias e também em programas sociais. Ela circula por diversas áreas da cidade, da zona sul à zona norte, e gosta de debater sobre as diversas realidades. Durante a nossa conversa, disse que “O problema não é ser playboy, o problema é ser playboy otário. Não ter noção do que acontece fora da bolha da zona sul, não circular em outros lugares, não sair da realidade. É ótimo estar no conforto, mas é preciso estar sempre ajudando quando se têm pra ajudar” e é por isso que na posição dela de professora, faz de tudo para levar os alunos até outras escolas menos favorecidas e circular entre espaços, para que todos conheçam novas realidades. Marília é uma mulher que vive de luta e da luta, conheceu a luta através da escola pública e por conta disso faz questão de sempre voltar aos espaços sociais dando aulas gratuitas para mulheres e LGBTs de defesa pessoal, por exemplo, para incentivar mais pessoas. Luana tem 30 anos e é natural de Nova Iguaçu, baixada fluminense. Formou-se em turismo e também em dança e hoje dá aula para três segmentos - crianças (com ballet, por exemplo), mulheres (aula de ritmos, fit e powerdance) e coreografias para eventos (casamentos, bodas etc), atuando em Nova Iguaçu. Antes ela via a dança como um hobbie, porque junto da música a dança sempre esteve na sua vida; Mas entendeu que era diferente, a música está lá pela família dela ser composta de musicistas, ela adora cantar, mas nunca se viu na música enquanto cantora ou tocando instrumentos… já a dança, fazia parte do que ela era diariamente. Quando ela entendeu que isso não era um hobbie, a vida melhorou muito. Ambas são completamente apaixonadas pelo o que fazem e isso fica cada vez mais claro quando contam casos que aconteceram com alunas que tiveram por perto ou coisas que vivenciaram. A Marília, por exemplo, cita uma aula de defesa pessoal que deu para idosas no SESC de Madureira. Já a Luana, logo em seguida, engata no assunto sobre a forma que a mulher se enxerga diferente depois, “né?”, e que a dança também tem esse poder, não é só por uma questão de estética por exemplo, é uma autoestima para além do físico, que agrega à vida. Marília também contou sobre uma aluna específica, a primeira aluna que teve, uma mulher que ela formou desde o princípio e que acompanhou até virar faixa preta. Viu ela sair de um relacionamento abusivo, viu ela passar por vários momentos com seus filhos, foi muita história de vida acontecendo ali… e que incrível foi acompanhar tudo. Contou como é bom quando mulheres se impulsionam. Que a Luana teve um papel assim na vida dela também, quando recentemente ajudou a irmã dela a enfrentar desafios com o próprio corpo e que agora elas percebem a irmã se amando mais, estando mais disposta e que ela também se vê admirando ainda mais a Luana. Mesmo que elas se entendam enquanto pessoas bastante diferentes, se dão muitas chances de encontros pelo o que possuem em comum, principalmente no momento de propor coisas boas às outras pessoas. Nesses momentos, já se organizaram em abrigos do qual uma deu aula de dança e a outra deu aula de luta, a Marília já incentivou a Luana a trabalhar com crianças (ela topou e se apaixonou!)... e assim, elas ficam cada vez mais felizes em ver o quanto o relacionamento traz coisas tão boas às relações em volta delas. Luana não conhecia muitas mulheres no meio lésbico e foi seguindo um bloco de carnaval no Instagram, o Rebu, que ela viu a foto da Marília (cujo era musa do bloco) e, encantada pelo sorriso, procurou o perfil e resolveu segui-la. Marília seguiu de volta e elas começaram a interagir nos stories quando a pandemia começou. Foi num dia que Luana estava triste, por conta de um ocorrido por homofobia que sofrera em casa com o pai, que sentiu que precisava conversar com uma pessoa diferente dos amigos de sempre. Viu a Marília nas redes e cismou com ela, disse que ela passava certa confiança e então puxou um assunto. Foi pelo Instagram mesmo que elas conversaram e lá a Luana desabafou sobre o que estava sentindo naquele dia. A Marília conta que acolheu, mas que ao mesmo tempo pensava que era doido analisar/discutir sobre a homofobia familiar, porque no caso dela, é longe da realidade. Toda a família dela/das amigas lésbicas e bissexuais ao redor aceita e abraça o que elas são. Mas mesmo assim ela ficou ali do lado, conversou e no dia seguinte a Luana acordou se sentindo melhor. A Marília pensou: "Puts, cai na friendzone! Não vai mais rolar nada entre a gente!”, mas a Luana não cogitou isso. Elas começaram a conversar todos os dias. Naquela época, tudo ainda estava acontecendo pelas “lives” e chamadas de vídeo, mas a Marília não tinha se adaptado à isso e num dia específico tudo tinha dado errado: as aulas, as chamadas do Zoom, tudo tinha saído do ar e o que ela já não se adaptava estava pior. Foi quando ela falou pra Luana diretamente algo como: ‘estou afim de você, mesmo estando à distância, ok?’ e a Luana respondeu ‘ok, também tô’ e então ela pensou consigo mesmo ‘ufa!’. Uns meses depois, quando foi possível, elas conseguiram se encontrar pessoalmente. ♥ Depois do encontro, foram deixando tudo rolar e fazendo as realidades se encaixarem também, já que uma era mais caseira, outra era mais de eventos e de estar sempre na rua. O principal objetivo era não invadir privacidades ou atropelar coisas, mas sim deixar o tempo fluir tranquilamente. Isso não quer dizer que seja pleno o tempo todo, é claro, mas que elas escolheram fazer o encontro acontecer. A família da Luana é enorme e super acolheu a Marília como namorada. Até mesmo o avô, de 93 anos. Toda a família foi muito receptiva e a Marília conta como ter uma nova família, grandona, é muito legal pra ela. A questão do pai ser a única pessoa que elas não possuem contato é muito ressignificada, elas se acolhem por isso, não julgam, entendem que é uma escolha que ele (enquanto uma pessoa adulta) fez e tentam ao máximo levar outras coisas em consideração. Aproveitam o que há ao redor e todos os outros familiares. Marília reitera que fomos criadas num ambiente heteronormativo, achando que o homem manda e a mulher obedece, então é normal titubearmos de vez em quando porque estamos o tempo todo nos reeducando. Estamos em busca de nos libertarmos disso, de sermos donas dos nossos destinos. A relação delas se baseia numa questão de confiança uma da outra, e de ir aprendendo como isso funciona diariamente, também. Entre os momentos favoritos que elas possuem juntas, andar de long está entre os primeiros. Foi a Marília quem ensinou a Luana a andar e, no aniversário dela, a presenteou com um long. Nos momentos que estão andando juntas, Marília diz que amar é ver o outro feliz também e Luana completa que é uma construção, que exige respeito e paciência, para estar sempre se cuidando. Quando Marília conta sobre situações em que sentiu o amor, ela lembra de um momento que envolveu a irmã dela. Nesse dia ela sentiu tudo o que o amor propõe: temeu, mas cuidou. Elas estavam fazendo uma trilha (as três) e numa parte da trilha havia uma pedra que precisavam ultrapassar. Tanto a Marília quanto a Luana já haviam ultrapassado e faltava a irmã, mas ela estava com bastante medo e realmente era perigoso, não era fácil, num momento ela chorou, a Marília ficou com medo, mas a encorajou. A Luana pediu cuidado e muita calma, mas não parava de incentivar. Era um desafio para todas elas ali e nenhuma delas largou, desistiu ou achou que não fosse possível, por mais que o medo existisse… e quando ela passou, ela gritou, comemorou! Foi tanta felicidade! Ela fez aquilo ali. Realizou. Elas comemoraram juntas, torceram juntas. Aquele caminho ali, para elas, o processo, é um significado de amor entre as três. Marília fala que existem erros nos relacionamentos entre mulheres, até porque não há pessoas perfeitas, mas é muito bom saber que não estão num relacionamento que funciona como prisão. Numa existência de um relacionamento feminista, que entende o corpo enquanto um corpo com vontades, com postura, com verdades e pensamentos - um corpo que pensa e se comunica - isso sempre volta a ser o mais importante entre elas: querer fazer dar certo. Luana Marília
- Luiza e Milena
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luiza e da Milena, quando o projeto passou pela Bahia!. Foi numa manhã que se emendou para um começo de tarde em Salvador que encontrei a Milena e a Luiza (e a Tapioca, claro!). Fizemos as fotos na Praia da Paciência, sentamos num bar para conversar e fui convidada para ir até a casa delas almoçar e conhecer um pouquinho do espaço que conquistaram e construíram juntas nesses anos que se relacionam. Lugar que me contaram com muito entusiasmo existir espaço para cuidar das plantas, para a Tapi correr e brincar, para compartilhar legumes e frutas com os vizinhos, mas que também foi um caminho árduo de percorrer até chegar nele, com perrengues e apartamentos completamente diferentes que passaram. Luiza conta como é diferente a relação que ela aprendeu a construir com Milena, começando pelo o quanto conversam: conversar mudou a sua vida. Nunca tinha se visto num espaço de tanta conversa e de conforto. Sente que respiram juntas, podem ter conversas que duram dias, mas seguem juntas. Fala também da importância de terem começado a terapia nesses processos que viveram (entre mudanças, casamentos, saírem de casa…) e o quanto foi fundamental para processar seu próprio tempo. Hoje em dia, aprenderam a pedir desculpas. Não gostam de joguinhos, entendem que não há orgulho próprio na relação, tendem a ter mais parceria assumindo erros ou assumindo funções na casa para que elas aconteçam na rotina. Deixam claro que são esposas, não amigas. Não querem que o relacionamento caia numa amizade, por isso respeitam os espaços individuais e sempre voltam ao lar entendendo o encontro único que possuem enquanto uma família. Milena no momento da documentação estava com 40 anos, ela é natural de Salvador, trabalha como atriz e coordena/faz produção de palcos numa casa de eventos no Rio Vermelho. Como hobby, adora fazer jiu jitsu. Luiza no momento da documentação estava com 29 anos, também é natural de Salvador, já trabalhou (e trabalha de vez em quando) enquanto atriz, mas hoje em dia seu foco é enquanto designer. Na pandemia, precisou fazer a transição de carreira porque tudo estava sem perspectiva na área das artes cênicas, o dinheiro apertou e ela foi trabalhar enquanto designer numa orquestra. Como hobby, Luiza pratica tecidos acrobáticos. Milena também teve seu momento de começar novos trabalhos na pandemia por conta de estar sem perspectivas, foi quando fundou uma marca de sabonetes naturais. Hoje em dia, vende apenas aos mais próximos. Foi durante o ano de 2018 que se conheceram, quando Milena chegou na companhia de teatro que a Lu fazia parte. De início elas se tornaram muito amigas, se davam bem em cena e sempre queriam contracenar juntas. Acreditam numa sintonia muito grande porque sempre “jogavam” bem juntas, desde cenas de improviso, até cenas já marcadas. E assim foram criando suas amizades. Ambas tinham seus relacionamentos - e ambos relacionamentos tinham seus momentos bons e ruins. Durante o carnaval, Milena abriu o relacionamento com a ex-companheira dela, e na quarta-feira de cinzas durante uma festa a ex-companheira da Luiza comentou sobre Milena e a Luiza fazerem um casal bonito. Na hora, as duas acharam isso estranhíssimo. Nunca tinham se visto com outro olhar, sempre foram só amigas e não deram muita bola. No decorrer da festa se beijaram, mas também acharam estranho. Nunca haviam se olhado enquanto paixão ou de um jeito com segundas intenções e só ficou um clima estranho. Como a festa estava sendo em casa, a Milena saiu e foi fazer coisas de casa, ignorando as pessoas que estavam ali, e na hora da Luiza ir embora foi se despedir. Naquele momento, eram só as duas, e aí elas se beijaram novamente. Naquele ano em diante trabalharam juntas fingindo que nada tinha acontecido e seguindo seus relacionamentos. Saiam, bebiam e até de vez em quando trocavam olhares ou algum carinho, mas nunca chegavam tão perto e no dia seguinte fingiam que nada tinha acontecido. Ambas viviam processos de separação, conversavam bastante quando se encontravam, mas era confuso o que sentiam. Foi quando Lu precisou viajar e antes decidiu conversar com Milena sobre tudo o que estava sentindo. Marcaram na praia (inclusive, a praia que fizemos as fotos) e quando chegou lá recebeu a notícia da Milena: “Vou casar. Você vai se separar. Isso não tem nada pra dar certo.” e nesse ponto concordaram, beleza. Mas concordaram também que sentiam alguma coisa uma pela outra, né?! Só que não iria dar certo, então entraram num acordo que era isso, que teriam que engolir esse sentimento e seguir a vida. Foram para um bar, tomaram uma cerveja e depois, quando precisaram ir embora, chegaram no ponto de ônibus e a Luiza perguntou se elas não iam dar um beijo só. Milena indignada disse “Você não ouviu NADA do que falamos até agora né????” porque acordo é acordo. Deram um abraço e foram embora. Com o tempo, seguiram se encontrando no trabalho, saindo, vivendo como viviam. As coisas não mudaram muito. Até um dia que se beijaram e chamam de “Beijo consciente”, visto que já tinham consciência do que poderia acontecer, tinham conversado e sabiam do que sentiam. A conversa desde aquele dia na praia também deixou claro que elas se gostavam, e daí foi o caminho de entender o sentimento, finalizar os outros laços e trabalharem esse processo interno para darem o beijo consciente. Antes do “Beijo consciente” Luiza conta o quanto a Milena terminava com ela diariamente. Ela falava “Lu, a gente não pode se falar mais.” E depois de uma hora falava “Esse silêncio tá fazendo sentido pra você?” risos. Era uma confusão. Mas uma confusão que precisavam viver também. Viveram muitos momentos de instabilidade referentes não só a relação das duas, mas os términos dos outros relacionamentos, questões familiares… estava tudo misturado. Em agosto daquele mesmo ano começaram a namorar, quando já tinham saído de suas antigas relações. Durante a pandemia ficaram na casa de uma/da outra, com suas mães… e em fevereiro de 2021 elas se casaram. Foram alugar uma kitnet, da qual visitaram iluminando com a lanterna do celular, vendo baratas no chão, tudo super estranho, mas falaram: é aqui! Juntaram o que conseguiram, compraram o que deu para comprar, construíram o espaço e adotaram a Tapi, uma vira-lata já na fase adulta. Para a Luiza, a única coisa capaz de mudar o mundo é o amor - e junto dele está o respeito, a liberdade. Na relação com a Milena consegue enxergar o quanto elas se amam e querem se ver crescendo juntas. Hoje em dia estão conversando sobre engravidar, construir uma família, ver o amor crescendo no lar e gerando coisas, ver a entrega que as duas podem ter gerando coisas para além delas. Desejam, também, ter uma base de amor. Hoje em dia enxergam a casa enquanto a base, um lugar seguro para serem quem são. Têm segurança de que são amadas. Pensam em gerar e educar porque desejam uma cidade que estejam representadas, que seja educada e que também eduque os homens. Falam sobre o quanto é cansativo ouvir coisas dos homens o tempo todo na rua e o quanto também se sentem muito menos seguras ao redor dos homens. Comentam que foram no Festival de Verão de Salvador (um dia antes de nos encontrarmos) e estavam rodeadas de LGBTs e o quanto se sentiram seguras, o quanto isso foi representativo. Desejam uma cidade que não seja violenta. ↓ rolar para baixo ↓ Luiza Milena
- Beatriz e Tamara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beatriz e da Tamara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Beatriz e Tamara são um casal muito incrível. A forma que elas se ajudam, se permitem desconstruir e passam um sentimento de calma é muito verdadeira. São pessoas muito diferentes também. Beatriz é mais comunicativa e costuma dizer que elas terem se conhecido foi um encontro de almas. Ela é super de passar horas nas redes sociais, de dormir até tarde… Tamara, pelo contrário, é muito quietinha e disciplinada; Tem hora para dormir, acordar, comer, treinar… gosta de ficar mais no canto dela. Revira um pouco o olho e balança a cabeça, rindo, quando a Bea fala sobre o encontro de almas. Mesmo com todas as diferenças, elas passam muito tempo juntas. Sua grande paixão é o esporte. Tamara pratica todos os esportes possíveis e a Bea acompanha treinando também. Se conheceram assim, na atlética da universidade. Na época, Tamara namorava e Beatriz tinha acabado de entrar na faculdade. Pelo convívio, acabaram cultivando uma amizade. Beatriz estava recém chegando no mundo universitário e decidiu passar um tempo curtindo a vida, conhecendo pessoas, festas, etc. Um tempo depois, Tamara vinha passando por diversos problemas no relacionamento anterior, optou pelo término e isso criou uma brecha para que ela e Bea pudessem tentar algo num futuro próximo. Tamara tem 26 anos, é formada em administração e faz biblioteconomia. Trabalha numa emissora de TV cuidando da parte administrativa, é treinadora de futsal e tem uma doceria com a mãe - a empresa nasceu do sonho de venderem o que cozinham juntas. Ela costuma fazer os doces, enquanto a mãe faz os salgados. No mais, é absurdamente apaixonada por todos os tipos de esporte e se inspira muito em figuras relacionadas a isso quando pensa em inspirações, desde familiares que já se desenvolveram no esporte, até figuras famosas que representam esse desenvolvimento de carreira através da disciplina, como o Cristiano Ronaldo. Bea tem 24 anos, é formada em design gráfico e cursa história e marketing. Atualmente trabalha enquanto social media e web designer. Ao perguntar sobre em quem ela se inspirava, disse que adora acompanhar a jogadora Cris Rozeira nas redes, não só por ser jogadora da seleção, mas por ser uma mulher lésbica, muito representativa, que enfrentou lutas sobre a saúde mental e construiu a própria família. Além disso, disse que aprendeu a se inspirar diariamente na Tamara também, por ser uma mulher muito incrível e por terem uma relação de muita parceria. Por terem essa ligação com o esporte, falamos muito sobre o quanto eles podem mudar a vida das pessoas, principalmente dar um futuro para diversas crianças. Tamara ressaltou que a base para que um dia as coisas possam dar certo é a educação, para termos mais liberdade, mais respeito, mais segurança... tudo começaria pela reeducação. Bea completou, educação é um assunto que elas conversam muito sobre e ela acredita que só a educação realmente nos levaria à uma revolução. A Tamara era capitã do time em que elas jogavam na faculdade, enquanto a Bea era coordenadora. Elas conversavam muito, passavam muito tempo juntas. O primeiro beijo delas aconteceu em 2016, depois do término da Tamara, quando ela resolveu dar uma chance para a Beatriz... mas elas estavam vivendo ritmos completamente diferentes. A Bea estava na fase de beijar todo mundo, curtir as festas nesse sentido... enquanto a Tamara não curtia isso e preferiu manter só a amizade. Um tempo depois a Bea foi acalmando, elas foram criando um sentimento próprio, acabaram estabelecendo algumas coisas e decidiram tentar o namoro. Já passaram por situações mais difíceis que envolveram quebra de algumas confianças, da qual a Tamara se sentiu mais machucada. Foi com muita conversa e força de vontade que o relacionamento se construiu e deu certo. Hoje em dia elas entendem que a comunicação ainda precisa melhorar em diversos pontos, mas que se ajudam, amadurecem... é algo que precisa ser cultivado todos os dias.
- Karol e Camilla
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Karol e Camilla, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quando a Cami decidiu entrar no internato militar, ela não passou na primeira vez porque precisava fazer uma prova de corrida e ela não conseguiu um bom desempenho, mas se dedicou e no ano seguinte já estava preparada. O primeiro ano lá dentro é realmente difícil, uma prova sobre quem tem psicológico e aguenta ficar, mas depois foi ficando mais tranquilo e ela decidiu seguir lá dentro. A vontade e a empolgação que tinham vendo os navios e a maior interação quando puderam conviver mais com as outras pessoas foi colaborando com a vontade de estar lá também. E quando ela entrou, por ter tido uma boa colocação na prova (as pessoas que passam em primeiro lugar viram líderes de pelotões), virou líder e passou a ter uma presença muito forte, sendo muito cobrada. Foi assim que a Karol a conheceu, ouvindo falar dela e vendo ela circulando pelo espaço. Elas não podiam conversar por um tempo, mas na primeira oportunidade, a Karol lançou diversos elogios por realmente ser uma figura que admirava: falou sobre a ver como uma guerreira lá dentro - e a Cami abriu um sorriso (que, diga-se de passagem, levou o coração da Karol embora). Como elas não eram do mesmo ‘camarote’ (do mesmo espaço/pelotão), ficavam organizadas em ambientes diferentes e tinham pouco contato, mas com o passar do tempo passaram a se ver mais. Aos fins de semana a Cami saía para visitar a família e a Karol ficava lá e, durante a nossa conversa, conta que lembra de vê-la com outra roupa sem ser a farda e o quanto isso a marcou, dizendo o quanto era bonita e o quanto ela mexia com os sentimentos dela. Além de que, sempre foi completamente apaixonada por mulheres inteligentes e nessa posição a Cami já estava com a luta ganha. Para quem não faz ideia do que seja a EFOMM, ela é a Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante. Lá, as pessoas passam por um concurso, fazem uma formação que dura cerca de três anos + um período de um ano em embarcações e, então, se formam. Hoje em dia, a Karol e a Cami seguem trabalhando embarcadas (enquanto oficiais de máquinas da marinha mercante - área de engenharia da embarcação), mas não possuem mais ligações diretas com a área militar, por mais que para sempre sejam consideradas militares da reserva não-remuneradas, ou seja, fora de serviço oficial. É muito importante resgatarmos o quanto é um trabalho braçal e pesado, pouquíssimo feito por mulheres. Elas relatam a pouca presença de mulheres nos navios e como se sentem no meio disso tudo. Vemos as diferenças de tratamento entre a Cami, que transmite um estereótipo mais feminino e a Karol, que possui um estereótipo de jeito mais despojado e cabelo curto. Como os comportamentos masculinos mudam ao lado delas e como as posições em alto mar também. Além disso, elas contam como é a vida de decorar um apartamento e viverem juntas enquanto passam tanto tempo longe fisicamente. A Camilla decorou boa parte do apartamento enquanto a Karol estava embarcada, desenhou as almofadas, fez muitas coisas nos cantinhos da casa. E cada vez mais compartilham as coisas quando as agendas se encaixam e elas conseguem ficar juntas. Gostaria que esse texto pudesse expressar o sentimento que tenho de carinho pela tarde que tive na casa da Karol e da Camilla, pela admiração que sinto pela história delas e, também, pela gratidão (sem clichês nessa palavra) que tenho por elas me permitirem registrar esses tantos anos de relacionamento que começou de forma tão pouco provável. Antes de escrevê-lo, não sei se de fato ele irá cumprir o papel, mas espero que ele sirva como um abraço à quem elas são e um presente à quem irá conhecê-las agora. Aproveitem e acreditem nas histórias improváveis! ♥ Acho que podemos começar assim: a Karol e a Cami se conheceram em um internato militar. Mas antes de falar sobre o amor delas, queria explicar quem elas são. A Karol é natural de Rondônia, de uma cidadezinha chamada Alta Floresta D’Oeste, mas como a família é de uma mistura brasileiríssima, ela foi morar em São Paulo quando era mais nova. Ela sempre curtiu bastante a área de exatas, mas não era muito dos estudos. Curtia também a área militar e queria fazer parte da esquadrilha da fumaça. Ela viveu o momento em que as mulheres começaram a ser incentivadas a participar do exército e nunca pensou em trabalhar em escritório ou alguma profissão relacionada a isso - inclusive, acha muito cedo a época em que somos obrigadas a escolher qual carreira seguir. Porém, antes mesmo de decidir o que iria fazer, aconteceu o que não esperava: ela foi expulsa de casa. E foi aí que ela investiu em estudar e passar no internato militar, afinal, era uma ótima opção para quem não tinha lugar para morar e nem para onde ir. Veio ao Rio de Janeiro para estudar na EFOMM. A Camilla tem 24 anos, é natural do Rio de Janeiro e morou (quase) a vida toda na mesma casinha. Ela é uma mulher apaixonada pelas artes e pelo artesanato, já estudou na UERJ e descobriu o internato militar e a vida nas embarcações por conta do avô, que era dessa área e também trabalhava em navios. Ele contava das viagens, então ela conhecia as histórias e sabia que era uma profissão que pagava bem, foi por isso que decidiu se inscrever na EFOMM. Nunca foi algo muito sonhado, mas sempre foi algo que esteve ali. Se dedicou e passou no curso. Hoje em dia, ainda arrasa (e muito!) nos artesanatos. Hoje em dia, no apartamento com os gatinhos, o cachorro e várias decorações lindíssimas feitas pela Camilla, elas vivem entre os encontros e reencontros um espaço de lar muito confortável. A Cami comenta que sonha em juntar dinheiro e fazer alguma outra coisa voltada à arte e a Karol complementa: “qualquer coisa que ela pegar pra estudar, vai arrasar!”. Quando pergunto sobre o lar e sobre o que, nesse momento da vida delas, elas identificam como amor, a Cami diz que amar é uma escolha. Desde escolher estar com a pessoa até aceitar essa pessoa e se sentir disposta a compartilhar a vida com essa pessoa. Ela sente que amar uma mulher é também uma escuta ativa, um entender, uma empatia. Está sempre se inspirando em outras mulheres e sente que as mulheres se entregam com muito mais facilidade. Disse também que, por mais que tenha tentado, não se viu capaz de amar um homem ainda, mas que não generalizaria no sentido de ser totalmente incapaz - mesmo reconhecendo o quanto as mulheres mostraram que a completam mais em muitos sentidos. A Karol entende que o amor é feito na base da amizade e do diálogo e fica sempre muito feliz pensando no quanto ela e a Cami são realmente amigas. Por mais que o relacionamento delas já tenha envolvido brigas e já tenha sido essa montanha russa, para ela, tudo isso faz parte porque se trata de um amadurecimento conjunto. Não acha que o amor tenha gênero e forma para acontecer, que possa ser melhor entre mulheres ou não, porque muitas mulheres também podem ser bastante abusivas e trazer traços de machismos e do patriarcado que estão dentro delas de uma forma cultural. Por fim, completa que o relacionamento não se resume sempre só em amor, mas na forma como a vida se construiu e se constrói diariamente. ♥ Hoje, antes de postar o texto aqui no site, falando com a Karol, ela me trouxe a notícia em primeira mão de que elas deram mais um passo nesse meio tempo desde que nos encontramos: e estão noivas! Muito amor pra vocês! Perguntei para a Karol como era, para ela, essa sensação inicial de ser uma mulher, sapatão assumida, chegando num internato militar. Ela disse que sentiu um medo no começo, mas que nunca pensou em esconder a orientação sexual dela. Quando chegou lá, logo no segundo dia, as mulheres já vieram perguntar para ela se ela realmente gostava de outras mulheres e ela achou tudo muito engraçado. No fim, ela não fazia questão de se relacionar com alguém na frente de todo mundo ou deixar os relacionamentos explícitos nos espaços em comum, mas também não se escondia. Fala que não sentia as coisas de forma absurda, mas que a vivência, em geral, foi tranquila. “As pessoas sabem que existimos e está tudo bem.” Quando elas começaram o relacionamento, foi uma montanha russa de sensações. Nesses mais de 6 anos juntas, praticamente os primeiros 4 anos foram de relacionamento aberto, porque permitiam que ainda precisassem viver outras coisas. Não foi nenhum pouco fácil, mas conversavam muito e trabalhavam muito sobre o que sentiam. Enfrentaram distâncias, preconceitos muito pesados e por um tempo a Cami tentou se entender, se descobrir sobre o que sentia enquanto uma mulher que se relaciona com outras pessoas… foram muitos momentos diferentes entre duas pessoas que crescem e amadurecem. E somente quando a Karol foi para o estágio dela (o período de um ano embarcada) que elas conversaram muuuuuuito e entenderam que realmente já tinha esgotado o tempo e que agora querem estar sozinhas - mas juntas. Foi então o momento que decidiram assumir um relacionamento sério, pensar em um lar, um apartamento aos pouquinhos, a vida e tudo foi acontecendo. Com o tempo e com elas conversando enquanto amigas, a Karol foi entendendo quem ela era e como a cabeça dela funcionava, como ela foi criada e como as duas estavam em realidades diferentes. Enquanto eram amigas, a Cami chegou a se envolver com um menino e a Karol conheceu algumas meninas e saiu para várias festas no Rio. Foi um tempo depois, durante um fim de semana no internato, em que a Cami estava lá por ter ficado de serviço, que elas estavam juntas e que já eram amigas o bastante para trocarem carinhos e serem mais próximas nas conversas (sem malícias, justamente, pela Karol entender que a Cami não a via com malícia), que elas passaram bastante tempo conversando juntas em uma noite. E, depois de uma amiga alertar a Karol algo como “você não vai mesmo ficar com a Cami???” e ela cismar que não porque jamais a Cami ficaria com uma mulher, ela tomou coragem para investir e com muita calma o beijo aconteceu! Ressalto a calma porque tudo aconteceu muito aos poucos, com cuidado e respeito à primeira experiência da Cami e pela Karol saber que não era algo que ela já tivesse pensado sobre. Não queria um sentimento de invasão, de arrependimento no dia seguinte, de desconforto na amizade. Elas comentam que, se estão juntas há 6 anos, foi graças há tudo ser feito com tanto respeito à amizade lá no começo, não saindo atropelando todas as coisas, porque era um dos maiores medos da Karol naquele momento. Depois daquela noite, elas passaram a ficar juntas todas as noites em seus camarotes, ou seja, em seus espaços dentro do internato. ♥ Por mais que a Cami tivesse uma posição muito importante e que exigisse uma maturidade imensa dentro do internato, ela sempre foi uma pessoa muito ingênua e teve uma realidade muito diferente. Poucas vezes alguém lhe ensinou alguma malícia ou maldade no mundo. Ela foi criada por uma avó que casou absurdamente jovem e viveu a vida toda com a mesma pessoa, nunca foi alertada sobre sexo, sobre relações amorosas e sobre como essas coisas acontecem. A mente dela funcionava tal qual a ideia de que chegaria um príncipe encantado e que tudo ficaria bem, que o homem sempre seria perfeito e a respeitaria. Ela nunca tinha conhecido o próprio corpo ou pensado sobre isso e também sobre mulheres ficarem com outras mulheres (na verdade, na nossa conversa ela falou sobre já ter visto uma menina lésbica no programa Ídolos quando era mais nova e que a família dela repulsou, mas que ela entendeu que pessoas se apaixonavam por pessoas, porém nunca se permitiu pensar sobre quem ela gostaria de ficar). E essa ingenuidade e desconhecimento da Cami fez com que ela tivesse muitos casos de desconforto na vida sob relacionamentos - desde coisas que, para quem já se envolveu sexualmente, são realmente muito básicas e ela achava muito desrespeitosas, até colocar inúmeras barreiras que faziam com que os relacionamentos não acontecessem de fato. No começo, quando a Karol teve sua paixão quase que platônica por ela e lançou uma brincadeira em estilo de cantada, recebeu em troca um corte gigantesco. E, quem dera, ela soubesse, que esse corte nem planejado tivesse sido, porque de tamanha ingenuidade a Cami nem se dava conta das coisas serem assim levadas na maldade. Era tudo muito mais simples na cabeça dela. Karoline Camilla
- Clara e Laura
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Clara e da Laura, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Clara e Laura, por mais que estejam há pouco tempo juntas, entendem que já passaram por muitas coisas. Seja pelo fato de que vivem a grande maioria dos dias na casa da Clara, ou por serem muito dispostas uma para a outra, acabam todos os dias topando diversos eventos diferentes, desde que estejam juntas. É na rotina que criaram que Laura entende o que é o amor. Quando lembra de ter se assumido durante o período que estão juntas, também reflete que foi ali que se permitiu viver detalhes cotidianos: dormir e acordar com quem se gosta, compartilhar o dia com a família, sair com os cachorros para passear sem medo e receio de que alguém pudesse ver… São coisas muito simples, porém que não poderia viver antes, e hoje em dia encontra seu sentido de amor no cotidiano. Clara complementa que para além dos fatos diários, tem o ponto chave para ela: o cuidado. Elas cuidam muito uma da outra e de quem amam: sejam os amigos, a família, os bichinhos, o curso que estudam na faculdade. Tratam tudo com muito cuidado, até mesmo nas palavras, e é no carinho que uma demonstra pela outra ao ter cuidado que enxerga o amor. = Laura, no momento da documentação, estava com 20 anos. Ela estuda Relações Internacionais na PUC-Rio, é carioca, adora ler e escrever. Clara, no momento da documentação, estava com 22 anos. Ela também é carioca e estuda Psicologia na PUC-Rio, se forma esse ano e está completando o estágio na clinica social da universidade. Clara também ama escrever, já lançou até um livro, mas hoje em dia se vê um pouco distante do hobbie, pretende voltar. Ambas são muito próximas das suas famílias, contam que suas mães são as maiores amigas e inspirações que possuem e admiram tudo o que já foi conquistado por elas. E hoje em dia, como ambas as mães sabem sobre suas relações, gostam bastante de conviver em família. = Laura gosta de pensar que a história delas é dividida em duas partes: uma da qual elas não se encontravam mesmo estando nos mesmos lugares durante meses (e tendo amigos em comum/vivendo situações em comum) e outra em que elas finalmente se encontram e começam a se envolver. A primeira vez que se esbarraram foi nos jogos universitários, que aconteceram no interior do Rio de Janeiro. Ambas fazem parte de atléticas dos seus cursos e, lá, durante os dias de jogos, se viram na arquibancada pela primeira vez. Até esperaram se encontrar nas festas que tinham no fim do dia, mas não aconteceu. Voltaram para o Rio sem ao menos conversar. Laura achou o perfil da Clara nas redes sociais e adicionou - enquanto Clara achou que era apenas uma menina hétero com amigos em comum e aceitou. = Um tempo depois, com suas vidas seguindo rumos bem distintos, começaram a conversar através do Instagram. Enquanto o tempo foi passando Clara já tinha entendido que a Laura era uma mulher que se relacionava com outras mulheres e que estava solteira, foi quando começou a demonstrar interesse. Passaram muito tempo conversando e não conseguiam se encontrar: quando uma chegava na faculdade a outra estava saindo, nas festas de universidades quando uma estava a outra não ia, e assim seguiram até que um dia Clara chamou a Laura para um date. Ela topou, mas novamente não conseguiram se encontrar por imprevistos no dia e o tempo foi passando. Clara brinca sobre o quanto é uma pessoa emocionada e apegada, então mesmo sem encontrar a Laura já sentia corações saindo dos olhos… Os amigos, por sua vez, orientavam: “Tenha calma!”, mas quando ela percebia já estava se deixando levar novamente. Foi quando marcaram de sair em uma confraternização dentro da própria faculdade. Havia muita gente, estava um tanto quanto caótico, mas junto com todos os amigos (que já sabiam da existência uma da outra, de tanto que conversavam), conseguiram se encontrar e tiveram o primeiro beijo. = Desde que se beijaram pela primeira vez, seguiram conversando. No dia seguinte, Clara mandou uma foto que tiraram juntas para a Laura e marcaram de se reencontrar na próxima semana. Numa quarta-feira foram beber cerveja em um bar qualquer, depois viram o jogo do Flamengo e seguiram numa sequência de fechar bares até às 4h da madrugada. Sentiam que não queriam se separar, encerrar a noite: queriam ficar juntas. Antes do encontro ficaram com muito medo de uma falar demais, a outra ser tímida, mas eram duas tagarelas e acreditam que se dão até melhor por conta disso: quando uma está quieta é porque tem algo errado. E entender o que está errado nesses momentos também é um novo desafio. São pessoas que se veem entre muitos diálogos, sentem as coisas de forma parecida, mas desejam cada vez mais um relacionamento comunicativo, que entende seus tempos, dores e individualidades. = Fizemos as fotos na casa da Clara e também numa rotina que as representa muito: sair com os cachorros. E, dentre o encontro, outros detalhes estiveram presentes também: como os símbolos da lhama e do pato, animais que representam suas atléticas, e que acompanharam nos pedidos de namoro e escritas na parede da casa. Hoje em dia planejam viagens, gostam de misturar os amigos (que viraram um grupo só) e também de ficar em casa, comendo e assistindo filmes e séries. São mulheres muito dispostas, desde acordar cedo para tomar café uma com a outra antes dos seus afazeres começarem, a vivenciar coisas que nunca imaginaram só pela alegria de estarem juntas. ↓ rolar para baixo ↓ < Laura Clara
- Brenda e Jhéssica
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Brenda e da Jhéssica, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Se conheceram pelos seus gostos em comuns, mas dessa vez, musicais: são fãs de Fifth Harmony, uma girl band estadunidense. Se conheceram na Quinta da Boa Vista, um parque na região central do Rio, em um encontro de fãs. Jhéssica descobriu o evento através do Twitter e uma amiga a convidou para ir, foi um bate volta do interior pra cá. Brenda decidiu ir ao evento também, com suas outras amigas. Quando chegou no evento viu a Jhéssica e logo se interessou, tentou puxar assunto, ou, como ela mesmo diz, uma péssima cantada. Trocaram seus números de Whatsapp e na hora de ir embora brincou com uma das amigas: “se ela quiser eu vou para o interior, fácil fácil”. Na época, Jhéssica namorava, então ela e Brenda eram apenas amigas. Foram em outros encontros de fãs juntas e a Brenda chegou a ir até Três Rios para um aniversário de amigas em comum. Um tempo depois, Jhéssica terminou o namoro e elas se encontraram novamente, dessa vez no Rio. Era uma festa num sítio, então sentaram, viram as estrelas e acabaram se beijando. O tempo passou e mais uma vez vieram à Quinta da Boa vista, depois a Brenda passou o carnaval em Três Rios, mas a Jhéssica se sentia muito confusa ainda, um tempo depois, acabou voltando com a sua ex. Brenda ficou muito chateada e desesperançosa de que qualquer coisa pudesse voltar a dar certo. Por mais que o relacionamento da Jhéssica estivesse passando por um momento sanfona, entre idas e vindas, achou melhor esperar. A Jhéssica, por outro lado, não estava conseguindo entender tudo o que acontecia, mas de uma coisa tinha certeza: realmente gostava da Brenda. Várias amigas apoiavam elas enquanto casal, o tempo foi passando e decidiram dar um basta: se declararam. Assumir um relacionamento à distância não foi muito fácil, principalmente por ambas trabalharem e estudarem. É uma rotina bastante corrida, o tempo que sobra para ficarem juntas acaba sendo pouco - e a passagem acaba sendo cara. A pandemia, por mais que com diversas incertezas e dificuldades, fez com que pudessem trabalhar em formato home office e conseguiram passar mais tempo juntas em casa. Brenda e Jhéssica são duas mulheres incríveis. Brenda é de Nova Iguaçu, cidade da baixada fluminense. Jhéssica é de Três Rios, interior do Rio. Elas comentaram que se pudessem, fariam de tudo para trazer a cidade mais pra perto da gente. Termos projetos que quebrem o preconceito, que eduquem e tornem as mentes mais abertas. Não acreditam que as pessoas mais velhas não possam aprender modelos novos sobre respeito e convivência social, bem pelo contrário, falam sobre a avó da Brenda, que tem 85 anos e uma mentalidade muito desenvolvida para aceitar as pessoas como elas são. Jhé comentou também sobre as cidades interioranas não terem tanto foco, tanta abertura para falar sobre diversidade. Brenda tem 24 anos e é jornalista, Jhéssica tem 23, é estudante de direito e apaixonada por jogos, adora streamings e descobrir partes técnicas de montagem de computadores (inclusive, têm montado alguns). Elas são muito grudadas em suas famílias, amam testar receitas culinárias que encontram na internet e depois fazerem para os familiares experimentarem. Brenda é muito grudada na avó, por ser uma mulher que veio do Maranhão e ter uma história de muita bravura. Jhé tem como inspiração a mãe dela, que engravidou muito jovem, aos 15 e que sempre a defendeu e mostrou que ela pode ser o que quiser ser. Elas têm uma relação muito tranquila e cheia de companheirismo. Amam sentar, beber cerveja e ouvir Fifth Harmony. Agora, no fim da graduação, tiveram um momento mais difícil por conta da entrega de TCC e das responsabilidades, mas foi importante para também entenderem o quanto se apoiam e fortalecerem a relação. Brenda acredita que o amor é compartilhar coisas na vida e apoiar independente da situação que estiver, ou melhor, amar por quem a pessoa é. A Jhéssica acha q o amor tem que ser leve, não ser levado como obrigação. E que ele pode acontecer de muitas formas, inclusive à distância, como é o caso delas. Brenda Jhéssica
- Luiza e Maria Pérola
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luiza e Maria Pérola, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quando elas se encontraram tiveram um dia bom e logo em seguida e Luiza viajou de volta para o Rio de Janeiro, elas seguiram conversando de forma online e surgiu uma nova oportunidade: dessa vez, um colega de apartamento da Maria que viajava muito iria até o Rio e ela poderia ir junto, então ela topou, avisou a Luiza e elas conseguiram se encontrar novamente. Quando o encontro aconteceu, elas entenderam que queriam novos encontros e que, melhor que isso, não queriam parar de se encontrar. Enquanto o relacionamento da Luiza já estava em um ponto que era muito mais amizade que relação amorosa em si, ela optou por conversar sobre a bissexualidade e pelo término. O namorado entendeu, realmente, inclusive incentivou as duas, por ver o quanto isso estava fazendo bem à ela - e hoje eles são bastante amigos (ele quem instalou as prateleiras no apartamento delas! haha) e no fundo eles comentam que sabiam que a relação não iria mais para frente e que ambos estariam mais felizes em novos caminhos, era o mais justo a ser feito. A Luiza nunca foi uma pessoa impulsiva e diz que essa foi a coisa que ela mais teve certeza ao fazer em toda a vida. Elas começaram a namorar em dezembro de 2019 e a maior dificuldade na época foi enfrentar a forma dos amigos e da família de lidar, tanto pelo relacionamento anterior ter terminado, quanto pelo fato da Luiza ter ficado com uma mulher. Ao mesmo tempo, como tudo era muito claro para ela, o jogo foi quase que ao contrário, ela sabia que quem estava passando por “uma fase” eram os amigos e a família: a fase de lidar com a mudança e aceitar, porque ela, a Maria e o ex namorado estavam muito felizes e bem resolvidos. Existe uma troca muito genuína entre as duas, desde os escritos, as músicas, as composições… a Luiza também participa de uma roda de choro e samba feita apenas por mulheres no Rio, que é um estilo musical muito presente e está aprendendo e desenvolvendo a música popular para além da música erudita, coisa que a Maria Pérola ajuda muito! É sempre um aprendizado. Quando a Luiza e a Maria Pérola se conheceram, ambas já viviam de música e moravam no sudeste. A Maria viu um conteúdo que um amigo em comum entre elas publicou sobre mulheres artistas e seguiu as pessoas que ele marcou, para acompanhar o trabalho delas, sendo que uma delas era a Luiza. Na época elas trocaram uma ideia quando se adicionaram e foram, com o decorrer do tempo, acompanhando o trabalho aos poucos uma da outra. A Luiza postava algo e a Maria interagia, vice versa, era um troca profissional de admiração. Nisso mais de um ano se passou, até que aconteceu delas conversarem de fato, por conta do poema… e aí foi tudo muito rápido: interagiram durante um mês quase que diariamente e a Luiza foi chamada para fazer uma apresentação com a orquestra em São Paulo, convidou a Maria Pérola e ela foi assistir. A Maria conta que tentou não criar muitas expectativas no encontro das duas sob o viés amoroso, porque a Luiza vivia um relacionamento de três anos, com um homem, e não tinha ficado com uma mulher. Por mais que eles estivessem vivendo um relacionamento aberto e ela já tivesse compartilhado com ele sobre os sentimentos que estava desenvolvendo pela Maria, tudo era muito novo e elas não sabiam o que poderia acontecer, então ela apenas tentou não nutrir expectativas. Maria Pérola tem 27 anos, é pernambucana e nasceu em Jaboatão dos Guararapes, cidade da região metropolitana de Recife. Morou num local chamado Alto da Colina e foi lá onde passou toda sua infância. Como sua família viajava bastante para São Paulo por conta do trabalho, ela acabava fazendo essa ponte aérea e foi aos poucos se familiarizando. Sempre gostou de música, mas se formou em psicologia e só depois, quando se mudou para SP, decidiu que seu caminho e sua carreira eram, de fato, cantando. Por muito tempo a família não aceitou que ela seguisse o caminho da música popular periférica nordestina, acreditavam que ela precisava de uma “profissão de verdade” e que a música não traria um futuro profissional digno, mas ela seguiu atrás desse sonho e dessa paixão. Hoje em dia, vive sendo uma artista e é uma entusiasta da música autoral. Adora ouvir gente cantando. Vou deixar as redes da Maria Pérola aqui, porque vale MUITO (muito mesmo!) ouvir, é sensacional: YOUTUBE SPOTIFY INSTAGRAM Luiza tem 26 anos e é natural de São João del Rei, uma cidade histórica localizada no interior de Minas Gerais. Por lá ela estudou música no conservatório desde criança e decidiu se mudar para o Rio de Janeiro em 2014, quando entrou no Conservatório Brasileiro, por conta de alguns contatos que criou com professores da UFRJ. A Luiza é uma violinista incrível! Já fez parte de várias orquestras, inclusive a Orquestra Sinfônica Cesgranrio e a Orquestra de Mulheres do Rio de Janeiro, das quais faz parte/fez ativamente antes de entrarmos em pandemia, e também a Nova Orquestra, com quem se apresentou no Rock In Rio. Além disso, ela dá aulas particulares de violino e há pouco começou um projeto social ensinando violino para crianças em uma vila militar no bairro de Realengo, na zona oeste do Rio. A Luiza, além da sua ligação intensa com a música, também escreve desde pequena. A poesia foi talvez um dos pontos chave que tenha conectado ela com a Maria Pérola logo de início, fazendo com que ela voltasse a escrever mais e que também despertasse a vontade de postar suas poesias na internet. A Maria tem uma poesia que a Lu fez pra ela tatuada (e que inclusive tatuou antes de elas se conhecerem pessoalmente!) e isso fala muito sobre essa troca que elas possuem (entre as poesias que a Lu escreve para a Maria, e as músicas que a Maria compõe para a Luiza) - inclusive, brincam que dá para escrever um livro e lançar um CD com tudo o que já produziram. Explicar sobre o amor da Maria Pérola e da Luiza é um desafio imenso porque elas representam aquele tipo de encontro que você não sabe como dimensionar, como colocar dentro de palavras ou expressões, porque são acontecimentos e experiências muito grandiosos. São encontros que quando você bate o olho, passa a entender e tudo faz sentido. A Maria comentou duas coisas que talvez expliquem um pouco sobre esse amor, a primeira é que ela nunca tinha pensado em morar no Rio, mas ao mesmo tempo ela nunca tinha se sentido realmente pertencente à algum lugar, e a partir do momento que passou a morar com a Luiza entendeu que o apartamento era o lugar dela - ou melhor, não o apartamento, nem o Rio em si, mas a Luiza. O lar que ela sente é muito mais pela expansão do encontro dela com a Lu do que por todo o resto, é isso que fez ela realmente se sentir em casa. E a segunda é que a Luiza é a pessoa que ela mais confia no mundo e com ela, aos poucos, foi aprendendo a gostar de tanta coisa que se viu gostando de coisas que antes ela até mesmo odiava (desde o furo no queixo que lhe causava muita insegurança na pressão estética, até detalhes na convivência familiar). O amor foi acontecendo porque elas se apoiam muito, tentam resolver as coisas juntas e de forma rápida e por mais que em algum momento até existiu uma resistência sobre morarem juntas, hoje em dia não mais se veem morando longe. Entendem que o amor transparece no que são: muito acolhedoras e cuidadosas. O ato de estarem juntas sempre significou muita coragem e quando falamos de amor, surge essa palavra. Como elas já estiveram em outros relacionamentos, falam sobre alguns terem sido abusivos, por exemplo: a Maria já esteve em relacionamentos com outras mulheres que não gostavam que ela cantasse… que não a “permitiam” cantar, não apoiavam. E explica como é diferente estar com alguém que te apoia e te impulsiona, como foi importante ter a Luiza na vida dela sempre incentivando ela na música. Falamos muito sobre a presença de relacionamentos abusivos e como é muito fácil mascararmos eles, não verbalizamos o que estamos vivendo ou como estamos nos sentindo, sendo que muitas vezes nos vemos privadas de fazer algo tão nosso, como é o ato de cantar para ela, e que não merecemos mais viver relações assim, que é importante procurarmos apoio, procurarmos ajuda para sairmos desse tipo de relacionamento, seja hetero ou homoafetivo. “Amor entre mulheres é uma revolução. Você ama reafirmando. Você ama existindo. Eu não consigo olhar para o amor sem pensar no amor entre mulheres. É coragem, pra mim, o amor… pra gente amar… tem que ter muita coragem.” A Luiza diz que o amor tem a ver com entrega e com estar aberto porque você entrega e também recebe muita coisa de volta. E no amor ela se viu disposta a ajudar, a doar, a ser intensa e potente. E que isso exige muito da gente, que não é fácil, que também significa muita resistência. Mas que também acontece muito reconhecimento nesse encontro, que a Maria Pérola trouxe muita leveza na vida dela, desde saber que ela está em casa tudo já fica mais leve… e que o amor no fundo envolve o tanto que elas se dividem e se entregam. A Maria Pérola trouxe uma história interessante sobre uma vez que o Dominguinhos foi numa rádio se apresentar e no intervalo começou a tocar Chopin na sanfona. E então todos ficaram surpresos, chocados, como se ele não pudesse gostar de uma música considerada clássica por tocar forró, e quando ele é questionado sobre isso ele explica que ele é músico, um artista, que ele é gente, que pode gostar de tudo. Com esse assunto, começamos a falar sobre as múltiplas formas de cultura, não só a música ou a escrita, por ser mais presente na vida delas enquanto mulheres artistas, mas na cultura desde o circo, a feira de rua, as artes cênicas, tudo. O quanto essa inclusão e essa valorização é muito importante. A Luiza trouxe informações da roda de choro e samba que ela participa e sobre o acesso à elas, só que como ao mesmo tempo é difícil a cultura chegar até as pessoas, desde o erudita até o próprio popular, e o questionamento: o que de fato é considerado “cultura”? Ela conta também que por mais que ame participar de orquestras, hoje em dia não se vê mais longe dos trabalhos sociais e de levar música para as pessoas - e ressalta que isso não quer dizer que todo mundo tenha que gostar de orquestras, mas que todo mundo possa ter a oportunidade de gostar, possa ter acesso aos teatros, roupas para entrar nesses lugares e tempo para consumir cultura. Rolar . . . Luiza Maria Pérola
- Laiô e Íris | Documentadas
A história da Laiô e da Íris começou de maneira inesperada, conectando caminhos por meio das redes sociais. Íris mantinha uma página onde compartilhava reflexões sobre relacionamentos não-monogâmicos e experiências pessoais. Laiô, que estava em um momento de autodescoberta após o término de uma relação, passou a acompanhar esse conteúdo. Entre os conteúdos postados, chamava muita atenção a forma que a Íris se expressava, não inicialmente por interesse romântico ou flerte, mas por admiração genuína, curiosidade e vontade de aprender sobre esse novo ‘universo’. Mas, por mais que acompanhasse os conteúdos, Laiô nunca interagiu com a página. Algum tempo depois, Íris apareceu no perfil de Laiô, e ambas começaram a se seguir. Trocaram algumas mensagens e, entre essas interações, perceberam que tinham amigas em comum, iam em lugares em comum - e até outros lugares que Laiô nunca tinha conhecido, o que deixou ela muito intrigada, pensando “Como essa menina chegou aqui em tão pouco tempo e tem conhecido mais coisas que eu?”. Quando finalmente se esbarraram, em setembro de 2023, foi num samba em Itacaré, onde fizemos a documentação acontecer. Foi Íris quem reconheceu Laiô (e até checou no Instagram pra ver se era ela mesmo). Se apresentou, dançaram juntas, mas a interação foi breve. Dias depois, se esbarraram novamente num show que Laiô estava fazendo, dessa vez em Serra Grande, município próximo à Itacaré e local onde Íris morava. Foi lá que Íris sentiu algo diferente, pensou: “Que pessoa interessante”. Cerca de 15 ou 20 dias depois se esbarraram novamente, dessa vez em Salvador. Laiô estava na cidade para mais shows e Ísis ia para lá com frequência, mas não esperava encontrá-la. Foi a terceira coincidência e então decidiram: era hora de marcar um encontro intencional. Tomaram café da manhã juntas e ali começou a se desenhar uma história que parecia ter sido escrita pelo acaso – ou pelo destino. Íris estava com 32 anos no momento da documentação. É natural do Rio de Janeiro, mas, com apenas seis meses de idade, mudou-se para Salvador, onde viveu a maior parte da sua vida. Psicóloga de formação, dedica seu trabalho ao atendimento da comunidade LGBTQIAPN+ e às questões relacionadas à não-monogamia. Teve sua trajetória profissional transformada ao longo do tempo, principalmente quando começou a se reconhecer como uma pessoa LGBT. Esses aspectos foram se refletindo em sua prática clínica, até se tornarem o foco integral de seus atendimentos. Durante a pandemia de Covid-19, com a migração para o formato online, surgiu também o desejo de sair da cidade grande e buscar um estilo de vida mais tranquilo e conectado à natureza, decidiu passar um tempo na Chapada Diamantina, voltou à Salvador, viajou mais um pouco e, finalmente, decidiu se estabelecer em Serra Grande, na Bahia. Hoje, ela vive com Laiô em Ilhéus - uma escolha que inicialmente não fazia parte de seus planos, já que considerava Ilhéus grande demais para o estilo de vida que idealizava - mas a vida e o trabalho de Laiô faziam mais sentido na cidade, e assim encontraram um equilíbrio. Laiô, no momento da documentação, estava com 37 anos. Nasceu em Ilhéus e foi criada em Uruçuca, vindo de uma família de produtores rurais das fazendas de cacau. Essa mesma família, acolheu sua identidade artística e acredita plenamente na pessoa que ela se tornou, investindo na sua educação com o desejo de oferecer um futuro diferente. Hoje ela trabalha enquanto cantora e compositora. Entende que é através da arte que define a forma como se expressa no mundo. Foi em Itacaré o local onde ela se descobriu artista, cantando pela primeira vez. O início do romance entre Íris e Laiô aconteceu num ritmo diferente, entre viagens e deslocamento, no que elas apelidaram de “romance viajante”. Íris precisou dividir seu tempo entre Serra Grande, Salvador e a Paraíba, para dar suporte à família em um processo de luto. Tudo aconteceu logo nas primeiras semanas em que estavam juntas e foi nesse vai e vem que viveram um amor viajante, encaixando encontros entre as viagens, sem saber ao certo o quanto aquilo duraria. Seguiram os primeiros meses assim, até o início de 2024, quando perceberam que os sentimentos estavam se enraizando e intensificando. Laiô apresentou Ilhéus para Íris e os encontros começaram a ganhar um significado maior. Uma situação marcou esse momento: em março, a mãe de Laiô fazia aniversário no dia 9, mas Laiô tinha um show importante em Salvador no dia 8. A única forma de voltar em tempo seria de carro e Íris prontamente se ofereceu para dirigir entendendo a importância da relação de Laiô com a mãe. Foi nesse momento que ambas perceberam o quanto a parceria entre elas já tinha se fortalecido, transformando o que antes era um romance casual em algo mais sólido. Laiô pensou: “Essa não é qualquer pessoa”. O encontro das duas aconteceu em um momento de transformações pessoais para ambas, e essa vulnerabilidade criou uma base de acolhimento e parceria. Mesmo com pouco tempo juntas, já havia um grande cuidado uma com a outra. Nos momentos difíceis de Íris, Laiô enviava músicas e poesias, fortalecendo o vínculo por meio dos gestos afetuosos. E esses detalhes fortaleceram o vínculo que era recente e que não estava fisicamente próximo. No dia em que documentaram essa história, inclusive, estavam finalizando a mudança para o apartamento onde passariam a viver juntas. Conversamos sobre como a convivência traz desafios, as mudanças não são fáceis; mas destacaram a importância de respeitar os tempos e ritmos individuais, enfrentando os conflitos com leveza e comunicação. Dividir o lar, para elas, é um aprendizado constante – e uma forma de construir, juntas, um lugar seguro. Foi ajustando suas rotinas para aproveitar os momentos em que Laiô e Íris encontraram a melhor forma de se adequar à semana corrida, já que trabalham em horários opostos – Laiô à noite, Íris durante o dia. Valorizam muito os cafés da manhã, que se tornaram quase um ritual de conexão. Mesmo quando Iris tem atendimentos mais cedo, ela dá um jeito de sentar à mesa, entre um compromisso e outro, para compartilhar esse momento. É ali que conversam, trocam olhares e se equilibram, criando um espaço de calma e proximidade no meio das rotinas agitadas. Elas veem sua relação como um convite constante à reflexão e ao cuidado mútuo. Foi através desse encontro que aprenderam mais sobre a não-monogamia, a horizontalidade dos afetos e a importância do tempo de qualidade com quem amam - sejam familiares, amigos ou seus animais de estimação. Por mais que estejam apaixonadas e vivam a intensidade de uma relação jovem, entendem que é essencial valorizar a liberdade individual e os outros vínculos que cada uma tem. Esse amor, cuidadoso e maduro, desafia o discurso a ser vivido na prática, lembrando-as de nunca abandonar o cuidado e a atenção com as pessoas ao seu redor. No dia anterior à documentação, Laiô viveu uma situação que as fez refletir sobre os desafios ainda presentes na cidade em que vivem. Enquanto caminhavam pelo centro indo comprar coisas da mudança, de mãos dadas, um homem que passava com sua esposa e seu filho disse: “Não pode não, só pode homem com mulher.” Inicialmente, Laiô pensou ser uma brincadeira vindo de alguém que a conhecia, estava distraída conversando algo sério com a Íris e só percebeu uns passos à frente a seriedade do comentário. Apesar da vontade de reagir, sentiu medo e seguiu em frente. Mais tarde, ficou pensando: o que fazia aquele homem se sentir confortável em dizer algo assim? Por que o simples ato de caminhar de mãos dadas era visto como uma afronta? Onde ela está vendo menos amor entre as duas do que ali, na família dela? Elas só estavam andando na rua. Num calçadão cheio de gente. Elas desejam que o futuro traga mais coragem e menos medo - elas caminhando de mãos dadas conseguiram ofender mais que se um casal heterossexual-cis estivesse se beijando de forma vulgar. O desejo que fica é mais coragem para amar e viver livremente, um mundo onde expressar afeto não seja motivo de ofensa, um lugar onde não tenhamos medo. ↓ rolar para baixo ↓ Laiô Íris
- Ane e Thelassyn | Documentadas
Foi na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro onde Ane e Thelassyn se conheceram (e onde fizemos as fotos para o Documentadas), no polo de Nova Iguaçu, na baixada fluminense. Em 2018, quando Ane cursava história e Thethe cursava pedagogia, frequentavam muito os centros acadêmicos dos seus cursos e possuíam diversos amigos em comum. Contam o quanto gostavam de se envolver em tudo o que podiam na faculdade, inclusive na causa animal: no campus há diversos cachorros e gatos abandonados e então participavam dos coletivos que cuidavam dos bichinhos. Ane morava numa república e estava hospedando uma cachorrinha que tinha sido atropelada e precisava de cuidados, até que Thelassyn foi doar um remédio que estava faltando e se encontraram pela primeira vez. Ane achou Thethe linda demais, ficou encantada. Por mais que Thethe brinca que não tenha acontecido nada demais, só entregou o remédio e foi embora, depois disso se encontravam de vez em quando e Ane sempre ficava nervosa. Até que um dia, durante uma manifestação política por conta do Museu Nacional ter pego fogo, se encontraram e interagiram no centro do Rio de Janeiro, conversaram e foram juntas até o ponto de ônibus, onde deram um selinho. Uns dias depois aconteceria uma festa na faculdade e Ane convidou a Thethe, elas se arrumaram juntas, lá na república em que ela morava. Depois, na festa, quando Ane finalmente achou que elas iriam se beijar, Thethe chegou até ela e disse: “Minha amiga quer ficar com você!”. Ela não entendeu nada, respondeu que na verdade queria era ficar com a Thethe, não com a amiga. E enfim o beijo aconteceu. Depois da festa e do primeiro beijo, passaram o fim de semana conversando. Até que a semana começou e decidiram se encontrar na faculdade e, depois da aula, assistir um filme na casa da Ane. Na faculdade ficaram novamente - no local em que fizemos as fotos, inclusive - e depois foram para a república, na casa da Ane. No dia seguinte, quando acordaram, a Ane convidou Thelassyn para almoçar e assim tudo foi acontecendo… passou o dia, a noite, o dia seguinte… e foi ficando. Ela ia para a casa, pegava roupas, visitava e voltava para dormir com a Ane. Depois de 15 dias, já tinha ganho até uma gaveta no guarda-roupa. Num dia, na faculdade, estava acontecendo um evento no hall de entrada, então Ane pegou o microfone e pediu Thethe em namoro - mesmo que elas já estivessem com a gaveta compartilhada no guarda-roupa. Naquela época, contam que quando não estavam juntas na república, os amigos que dividiam casa até estranhavam. Foi então que, depois de dois meses, decidiram se mudar para uma “casa de verdade”. Querendo ou não, era muito ruim na república: muita gente, uma cama de solteiro, sem ventilador.. passavam muito perrengue. Conseguiram um apartamento próximo da faculdade, dividindo com uma amiga. A mudança aconteceu sem rede de apoio, começo de namoro, sem móveis, sem programação. Ganharam alguns eletrodomésticos, mas lembram que no primeiro dia não tinham nem vassoura, prato, copos… A vida no bandejão da faculdade salvou tudo. Passaram um ano morando neste apartamento. Foram comprando móveis usados, trabalhando muito… Até que conseguiram se mudar para uma casa só delas. Neste novo lar, adotaram duas cachorrinhas, fizeram suas primeiras viagens… Ao total, até hoje, já se mudaram mais de 6 vezes. Entendem que por mais que tenha existido muito perrengue, hoje em dia estão no lar que mais amam e que mais desejaram viver. No momento da documentação, Thelassyn estava com 28 anos, terminando as faculdades de pedagogia e enfermagem. Por mais que sejam áreas bastante diferentes, conta que deseja trabalhar com o que tiver mais demanda de trabalho primeiro, mas que se for com educação, sua prioridade é escolas públicas. Infelizmente na rede particular sofreu um caso de lesbofobia, sendo demitida depois de descobrirem o relacionamento. Ane, no momento da documentação, estava com 25 anos. Ela é natural de Campo Grande, no Rio de Janeiro e se mudou para Nova Iguaçu para fazer faculdade em 2016. Hoje em dia, cursa mestrado, também na UFFRJ, no campus de Seropédica. Lidar com as adversidades no cotidiano não é fácil, principalmente por serem pessoas bastante diferentes - Ane, por exemplo, sente que precisa de mais tempo para processar as coisas, enquanto Thethe é mais ansiosa e deseja resolver os problemas logo. É preciso cuidado para não desequilibrar ou se atropelar. Explicam que o que faz elas continuarem juntas é a vontade de continuar juntas. Parece simples, mas é o que define a grande determinação de passar por cima de todos os perrengues que já passaram em nome do amor que sentem. Explicam que o mais difícil é não ter uma rede de apoio presente, acabam sendo o apoio uma da outra e, como resultado, o impulso também para o amor que acreditam. No começo, foram muito criticadas. As pessoas falavam que o relacionamento não iria durar, tiveram que se afastar da família por não terem apoio (com exceção da avó e da irmã da The, que são boas aliadas)... foi muito difícil enfrentar tudo. Hoje, ficam felizes em relembrar o que viveram desde o início e ver como superaram e passaram por cima desses comentários mostrando o amor que vivem e o que estão disposta a viver, principalmente agora, que estão noivas. Sonham com o casamento, que pretendem realizar em breve, e se permitem planejar uma vida juntas. No Instagram, é através do perfil @morandocomela que relatam o dia a dia que vivem. Foi da vontade natural de registrar os detalhes do cotidiano, quase como uma documentação, que surgiu. Não numa linha influencer, mas de mostrar as conquistas, as fotos, gravar o que acontece, as cenas com as cachorras... No começo, Ane pouco aparecia, ficava envergonhada… hoje em dia adora. Thelassyn acredita que amar uma mulher é resistir sempre. Entende que o mundo ao nosso redor ainda é muito hetero, feito por pessoas héteros e para pessoas héteros. Quando se ama outra mulher e se mostra isso, se demonstra muita coragem. Ane faz o recorte racial quando fala sobre o amor que vivem, afinal, são um casal interracial e estudam sobre o amor também enquanto política - escolher quem você ama fala sobre quem você é e sobre o próprio racismo. Conversam muito sobre práticas, falas e sobre a Ane não ser uma “wikipédia preta”. Thethe está sempre disposta a quebrar os preconceitos que são culturalmente colocados em nós e assim encontram diversas formas de viverem um amor honesto. Entendem que a homofobia está em vários cantos, desde quando saem de casa de mãos dadas e os vizinhos olham diferente, até não serem convidadas para as festas de família - “As pessoas tentam fingir que não é, mas sabemos que é”. Tentam ressignificar todo dia, trazer amor para a relação delas a fim de lidar com as coisas ruins do mundo: não gritar, brigar o mínimo possível, buscar se entender e se respeitar ao máximo. Ressignificar com amor em vários espaços. Thethe fala sobre ver muito o amor no dia a dia, com as cachorras, em casa, na varanda com a chuva caindo. Ressaltam que sempre que chovia, nas outras casas que moravam, era um tormento porque alagava tudo e hoje em dia ter a casa com varanda fez a chuva virar uma alegria… Quando chove correm para observar juntas, é um momento só delas. ↓ rolar para baixo ↓ Thelassyn Ane
- Natália e Bruna | Documentadas
Bruna diz que ficou até surpresa quando a Natália contou o desejo de inscrever elas no Documentadas, brincou dizendo “Quem te viu, quem te vê, hein?!” porque no começo da relação, principalmente na primeira viagem que fizeram juntas, Natália tinha bastante receio até de pegar nas mãos em público… E agora quer mostrar ao mundo que o amor que vivem é lindo. Entendemos que esse medo é legítimo, assim como essa vontade de afirmação. Bruna completa: a história de amor delas também é a história de descoberta da Natália. Para Nat, o amor precisa ser por completo, ou seja, as pessoas merecem ser amadas como são. Se uma pessoa só te ama se você for heterossexual, ela não está te amando. Existe uma busca na perfeição do que criamos em cima dos outros, mas a verdade é que precisamos aceitar quem eles se tornam, quais profissões escolhem, a forma que entendem o amor, com quem se sentem bem ao relacionar, como vão compartilhar a vida… Isso tudo também é amar. Ela explica que a Bruna traz liberdade, foi um combo: a Bruna + a gatinha dela + o lar é o jeito que elas são felizes. Tudo fica nítido, é estampado a forma que se sentem confortáveis juntas. Não existe um julgamento dentro de casa. Quando uma relação existe e se fortifica é porque ali está o amor, assim enxerga Bruna. O amor a gente encontra na rotina, na construção das pequenas coisas, crescendo, cuidando, estando ali diariamente para se ajudar. Com a Natália foi a primeira vez que ela sentiu de forma plena o equilíbrio: ela pode se doar e vai receber de volta, é acolhedor. Natália, no momento da documentação, estava com 34 anos. Nasceu em Barra do Piraí, interior do Rio de Janeiro, mas foi ainda criança para Niterói e seguiu sua vida na cidade. É formada em jornalismo e fez transição de carreira recentemente, está estudando nutrição. Adora ver filmes, séries, ler e estudar o vegetarianismo e o veganismo. Atualmente, mora no Rio de Janeiro, junto à Bruna, e estão desbravando a cidade, conhecendo novos teatros, parques e outros lugares. No dia seguinte à nossa documentação elas iriam participar da primeira corrida juntas, pois estão focando em atividades físicas no momento. Bruna, no momento da documentação, estava com 36 anos. É natural do Rio de Janeiro, da zona oeste da cidade. Trabalha enquanto enfermeira e atua no ambiente corporativo, cuidando da saúde no trabalho. Além disso, faz trabalhos de marketing digital, adora a área do design e também está estudando tarot, que sempre foi um hobbie. No dia a dia, gosta de praticar exercícios dinâmicos (esportes em geral) e também curte dirigir, se sente calma quando dirige. Entre o réveillon de 2022 para 2023, durante a festa da virada de ano, Bruna e Natália se conheceram. Inicialmente não era nessa festa que Natália iria, ela e a amiga haviam comprado ingresso para outra, mas foi cancelada, então deram a opção de reembolso ou de transferência para uma festa que aconteceria na Barra da Tijuca. Elas, saindo de Niterói, acharam bem ruim a opção de ir para a Barra, mas com o valor do reembolso não conseguiriam comprar outra festa então toparam. Bruna, diferente delas, tinha macado com os amigos para ir na festa da Barra mesmo, sabia que era uma festa com um público muito hétero, que só iria ela e um amigo gay, mas topou ir porque queria se divertir. Logo que chegou, Bruna olhou para Natália. Elas não possuíam amigos em comum, estavam apenas próximas e trocaram olhares. Natália estava apenas com a amiga e percebeu os olhares, mas até então se entendia enquanto uma mulher héterossexual e achou estranho, até engraçado isso acontecendo… A festa seguiu e os olhares também. Bruna então comentou com o amigo sobre elas trocarem olhares e quando ele percebeu, disse que estava sim e a incentivou a ir falar com ela. Quando ela ia tomar iniciativa, um homem chegou até à Nat, e quando ela se livrou dele, Bruna não estava mais lá. Depois da meia noite se reencontraram porque o amigo da Bruna fez amizade com um grupo de meninos gays que a amiga da Natália também havia feito amizade, e assim elas se percebem neste grupo. Dançaram juntas, Bruna chegou rápido na Natália e ela indagou: “Que isso, não vai nem perguntar meu nome?” - então elas falaram os nomes e se beijaram. Natália já tinha ficado com uma menina antes, quando era adolescente, mas seus relacionamentos sempre haviam sido com homens. A festa foi acontecendo e elas não tiveram muitas interações, se encontraram novamente 6h da manhã quando tomaram café e a Bruna foi solicita ajudando a Nat a levar café da manhã para a amiga. Foi quando Nat perguntou como a Bruna se identificava e ela respondeu “Enquanto mulher lésbica, e você?” e ela disse que era bissexual. Ela não pensou muito, isso chegou muito naturalmente e pontual. No dia seguinte conversaram bastante e assistiram à posse do Lula juntas, de forma online. Na semana seguinte ao réveillon tiveram um encontro, se divertiram bastante e passaram a se encontrar com frequência. Ainda em janeiro viajaram juntas e na semana seguinte, dia 4 de fevereiro, começaram a namorar. Quando Bruna soube que Natália não havia ficado com mulheres antes, resolveu ir com mais calma, mas não adiantou, o namoro já estava encaminhado. Foram muitos meses no início da relação indo da zona oeste até Niterói, um caminho bastante longo, para se encontrar - ou melhor, a Bruna indo e voltando buscando a Natália para passar o final de semana na casa dela. Existia um receio muito grande de contar para a família da Nat, então tudo foi acontecendo aos poucos. Somente no começo de 2024, mais de um ano depois de se conhecerem, Nat se abriu para seus familiares. Desde então, não possui mais contato com a sua mãe. Por mais que os outros familiares ainda conversem e acompanhem (ainda que não queiram saber sobre o relacionamento) ela sente muito sobre, é muito triste ficar longe de uma das pessoas que mais ama. Entendem que eles terão seu próprio tempo para processar, assimilar e superar o preconceito, mas que nesse tempo elas não podem deixar de viver o amor mais bonito que já sentiram. Para Natália, o amor que vive com a Bruna é o sentimento mais bonito que já presenciou, que já viu acontecer… é respeitoso, é companheiro e não existe opinião que vá tirá-lo do caminho. Entende também que isso não apaga o que tanto ela, quanto a Bruna, já viveram em outros momentos da vida, em outras relações (que também já foram boas) ou em outras formas de viver, que isso tudo faz parte da construção de serem quem são, e que se esforçam muito para serem as melhores pessoas possíveis, mas que em nenhum momento sucumbirão à um pensamento preconceituoso. Então respeitam o tempo, por mais que doa muito, mas se permitem viver. Pela parte da família da Bruna, recebem muito suporte da mãe, que as trata com muito carinho e afeto. ↓ rolar para baixo ↓ Natália Bruna
- Thacia e Ju
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Thacia e da Juliana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! No relacionamento da Juliana e da Thacia, o que prevalece é o cuidado. Primeiro, porque estão sempre cuidando uma da outra; Segundo, porque estão sempre tomando cuidado nos lugares que frequentam. Thacia e Ju são policiais, formadas pelo BOPE. Juliana trabalha enquanto policial penal há 9 anos, enquanto Thacia é policial civil, trabalhando na delegacia de homicídios e fazendo operações. Além disso, logo no começo do relacionamento, Ju descobriu uma anemia muito agressiva e o cuidado entre elas redobrou: Thacia aprendeu a cozinhar para ajudar a companheira, Ju brinca que se sente até infantilizada de tanto cuidado - desde o pijama preparado, até as frutas cortadas. “É tudo uma forma de carinho, é maior que eu, não faço de propósito.”, justifica. Tanto na cadeia, quanto na delegacia, todos sabem que elas são esposas. A vida particular não tem nada a ver com a instituição, ou seja, elas trabalham e são casadas. Por mais que amam o que fazem, acreditam que existem outras alegrias na vida além do trabalho, como por exemplo o hobbie da Ju de fazer acrobacias nos tecidos ou o quanto são devotas à religião. Juliana, no momento da documentação está com 44 anos e trabalha enquanto policial penal num manicômio judicial que serve a ambos os gêneros. Quando fez concurso trabalhou num presídio feminino, com cerca de 700 presas. Atualmente, neste trabalho, explica que todos os presos têm transtornos mentais e os crimes são bastante pesados. O juiz é quem determina a pessoa que irá para lá, isso serve como uma medida de segurança. O preso, então, se torna paciente do hospital, entrando em em tratamento junto à equipe técnica composta por psicólogo, psiquiatra, assistente social e terapeuta ocupacional, para tentar formas de compreender como aconteceu, identificar e tratar psicologicamente. Conta sobre as interações, a função dela e o fato de ser um local que também tem espaço para pessoas trans e travestis, oferecendo tratamento hormonal e coordenação específica LGBT+. Para Juliana, o governo do RJ faz um bom trabalho em relação ao cárcere. Thacia, no momento da documentação, está com 36 anos e trabalha enquanto policial civil na delegacia de homicídios, além de fazer operações de rua em todo o Rio de Janeiro. Para ela, é bom ter a mesma profissão que a companheira, pois assim se entendem em muitos aspectos, frequentam os mesmos cursos, a mesma área. Ju entende a sua rotina, que não é fácil… às vezes precisa sair para operações na madrugada. Explica que dificilmente em outras relações as pessoas entenderam isso. São um casal que não proíbe as vontades uma da outra e se respeitam, nesse sentido. Por mais que trabalhassem na mesma área, não se conheceram no ambiente de trabalho, mas pela mãe da Thacia, que as apresentou. Thacia tem uma família envolvida na profissão, a mãe dela é policial penal aposentada e ensinou muita coisa para a Ju, foi sua mentora. Em 2018 Thacia e Ju se reencontraram e começaram o relacionamento. Ju conta que no mesmo ano que começaram o relacionamento, o filho dela foi morar nos Estados Unidos e ela se sentiu muito sozinha. Em 2019, no dia das namoradas, a Thacia deu uma cachorrinha de presente para ela não se sentir tão solitária: a Kira. Desde então, tratam a Kira como uma filha… ela tem berço, plano de saúde, festa de aniversário e nunca fica sozinha. Quando está só com uma delas, fazem chamada de vídeo para matar a saudade. No momento da documentação o filho já tinha voltado ao Brasil e brincam que ao invés dele ter uma cachorra, tinha uma irmã. “Ela é muito mimada. Ela arranca sorrisos, é uma benção. Faz você se sentir a pessoa mais amada do mundo. Você sempre ri com a presença dela”, diz Ju. Adoram a rotina que vivem. Gostam de dormir cedo, entre 21h ou 22h já estão na cama, depois acordam às 05h30 da manhã, saem para trabalhar com o café já pronto, ou tomam café na cama. Ainda de madrugada, passeiam com a cachorra. Thacia mora em Maricá (diferente da Ju, que mora em Niterói) e fala sobre lá ser uma cidade muito única. Vê bastante público LGBT, as coisas geralmente são gratuitas e tem uma qualidade de vida muito boa. Sentem que já erraram muito nos relacionamentos anteriores, então quando resolvem ficar juntas querem fazer dar certo. E querem se colocar uma no lugar da outra. Para Ju, o amor é entrega, tempo, dedicação, construção. Com a Thacia, o amor significa companheirismo. Thacia vê o amor que elas possuem como uma amizade, acima de tudo. O relacionamento é a coisa mais preciosa que ela tem. A Ju conhece ela por completo, são parceiras. Nunca tinha encontrado isso, sempre se viu separando relacionamento de amizade e com ela encontrou essa junção - tem uma melhor amiga e uma esposa. Diz que isso faz toda a diferença. Ela não sabia cuidar de ninguém, além de si própria, e agora aprendeu a fazer tudo pela outra pessoa. Juliana diz: “Ela deixa a parada boa, aquilo que é ruim, ela deixa boa”. E Thacia completa: “Antes de pensar em você, você pensa e se preocupa com o outro. Eu não ligo pra saber onde ela, só ligo pra saber se ela tá bem, se chegou bem. Amor é o desprendimento, ver a pessoa bem, feliz, voe. Você quer que pessoa voe e eu quero tá do lado pra acompanhar.” Thacia explica que elas nunca sofreram discriminação, agradece à Deus por isso e conta que também não possuem o costume de ir em festas e Paradas LGBTs justamente por causa do tumulto e da exposição. Pela profissão, o tempo todo tomam cuidado sobre os locais que frequentam e o que pode acontecer ao seu redor. De qualquer forma, acham que andar na rua de mãos dadas e se beijar em público não tem problema nenhum e por isso fazem com naturalidade. Depois, ela lembra de uma situação, em que foram numa churrascaria juntas e um homem ficou encarando por muito tempo. Ela ficou muito desconfortável, não sabia se ele as conhecia, se estava sendo preconceituoso… No fim, trocaram de mesa. Sente que não podem ir para qualquer lugar, visitar qualquer amigo… É uma questão de preservar a vida delas e de quem tá com elas. ↓ rolar para baixo ↓ Thacia Juliana
- Dede e Laura | Documentadas
Laura, no momento da documentação, estava com 23 anos. É natural de Salvador. Artista multifacetada, ela canta, compõe, escreve poesias e também é empreendedora com sua própria marca de roupas e acessórios. Como mulher de axé, conectada ao Candomblé, sua arte e espiritualidade se entrelaçam. Além disso, Laura é autora do e-book “Fôlegos” e taróloga. Deise - Dede - estava com 42 anos no momento da documentação e também é de Salvador. Percussionista, toca com diversos artistas como Larissa Luz e a banda onde Laura também atua cantando. É artista e escritora do livro “Lesbiandade”, publicado pela coleção Feminismos Plurais. Foi através da arte que começou a compreender as estruturas de gênero, raça, classe e sexualidade, desenvolvendo uma visão crítica sobre como o machismo atravessa a vida das mulheres, especialmente as negras e as que desafiam normas ao assumirem sua sexualidade. A música não só transformou seu olhar, mas também fortaleceu sua luta contra as opressões. Além de seu trabalho artístico, Dede é assistente social e dedica-se ao apoio à população em situação de rua. Mestra em Estudos sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia, ela combina sua experiência acadêmica com sua vivência artística para construir espaços de resistência e transformação Em novembro de 2021, Laura foi a um show onde Dede se apresentava. Nunca tinha visto ela antes, mas assim que a viu tocando, algo a prendeu. Conhecia a banda, mas Dede era uma novidade, e Laura se sentiu vidrada. Naquela época, Laura ainda namorava, mas a presença de Dede deixou uma marca. Foram apresentadas rapidamente após o show, mas Laura sentiu que havia passado despercebida. Nos dias seguintes, tentou encontrar Dede nas redes sociais, mas acabou “deixando quieto”. No entanto, não conseguiu evitar voltar ao perfil dela de tempos em tempos, atraída por algo que ainda não conseguia explicar. Quase um ano depois, Laura já estava solteira, mas como Dede não havia mostrado interesse antes, decidiu não ir atrás. Enquanto isso, em outubro de 2022, Dede estava na praia quando uma amiga a chamou para um samba de mulheres pretas. Quando chegou, Dede viu uma mulher linda cantando e ficou hipnotizada. Sem hesitar, virou para a amiga e disse: "Vou casar com essa mulher!" A amiga achou graça e respondeu: "Tá doida?", mas Dede reafirmou, convicta. Aquela mulher no palco era Laura. Dede conta que o que a encantou foi algo subjetivo - talvez o swing, os gestos, ou a presença marcante de Laura no palco. Como já trabalhava com música, era mais fácil ela perceber essas coisas. Sentiu algo diferente naquele momento. Não sendo uma pessoa que paquera, ganhou coragem de ir falar com ela depois do show graças às cervejas que já tinha tomado. Quando chegou para conversar, elogiando a atuação de Laura no palco, ela respondeu dizendo que também conhecia o trabalho de Dede. Quando Laura disse que conhecia o trabalho de Dede, ela ficou surpresa e perguntou: “Que trabalho?”. Foi então que Laura relembrou o momento em que haviam se conhecido, um ano antes, naquele show em que Dede parecia não “dado muita bola”. Durante essa conversa inicial, Laura ficou confusa: “Será que ela está me paquerando ou só veio me elogiar?”. Dede, pouco depois, voltou a procurar Laura e foi direta: “Olha, eu não sei paquerar, mas te achei linda, então vim aqui falar com você”. Laura explicou que estava solteira, mas que naquele momento estava acompanhada. Mesmo assim, garantiu: “Te procuro no Instagram depois”. Melhor ser honesta que mentir, né? No início, a comunicação online foi complicada. Dede demorava para responder, enquanto Laura tentava chamar sua atenção de forma sutil. Aos poucos, começaram a conversar com mais frequência. Em novembro, se esbarraram por acaso em um show. Dede viu Laura, mas não foi notada e acabou mandando uma mensagem. Depois desse dia, combinaram um encontro no mesmo lugar onde a documentação aconteceu. O primeiro encontro foi intenso e muito especial. Passaram os primeiros dias juntas, conversando e criando uma conexão forte. Logo falaram sobre como estavam lidando com outras relações, mas depois de uns dias tiveram um desentendimento que as afastou por cerca de três meses. Em abril do ano seguinte, reabriram o diálogo, viajaram juntas e perceberam: estavam apaixonadas. Decidiram que só fazia sentido ficar juntas se fosse para namorar. Na viagem, criaram diversas músicas e, a partir delas, sonham em lançar um EP. Além das canções, adoram produzir poesias e outras formas artísticas uma para a outra, construindo não apenas uma relação, mas também um universo criativo compartilhado. Hoje, Laura e Dede dividem a vida entre Abrantes e Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador. No novo apartamento, chegaram praticamente sem móveis, começando do zero: primeiro um colchão, depois os móveis e, por fim, as mesas e decorações. No primeiro final de semana, dormiram em um tapete de yoga, com o sol da manhã iluminando a casa vazia. Agora, com cada canto ganhando forma e se transformando em lar, sentem uma alegria imensa ao verem o espaço refletir a história que estão construindo juntas. Durante a conversa, conversamos como o amor delas ecoa na família quebrando barreiras. Laura menciona o exemplo de seu pai, pastor, que apesar dos preceitos religiosos e do julgamento externo, abre a casa para as duas com o coração cheio de acolhimento. Para ela, isso demonstra que o amor pode ser maior do que as convenções. Dede também destaca como esse apoio é um reflexo da conexão que construíram, que respeita a individualidade de Laura, sua religião e sua jornada pessoal. Dede complementa que o amor delas está nos detalhes do cotidiano. Desde o cuidado em lembrar a toalha esquecida no banheiro até os gestos que fortalecem a parceria diária, o carinho está sempre presente. Apesar da diferença de idade, Dede sente que isso não interfere na relação. Ela conta que Laura, com sua coragem e enfrentamento à vida, a inspirou a apresentar, pela primeira vez, uma namorada oficialmente à família, não apenas como “amiga”. Para Dede, esse passo foi poderoso, pois reconhece que dar nome ao amor é uma forma de enfrentamento ao patriarcado e ao preconceito. Mais do que isso, a forma como elas expressam seu afeto na música e na arte se torna uma inspiração para outras mulheres, especialmente mulheres negras, a se permitirem viver plenamente e lutarem por seus amores e suas existências. Dede completa sobre o amor nos detalhes do dia a dia, desde a toalha que uma esquece e a outra sempre faz questão de lembrar e deixar no box, detalhes de cuidados cotidianos. fala que mesmo com as diferenças de idade não sente isso latente no convívio, que tomou coragem de apresentar laura para sua família como namorada porque laura representa essa coragem no enfrentamento à vida. por mais que sua família sempre soube da lesbianidade, apresentava suas companheiras enquanto amigas, e agora apresenta enquanto namorada, esposa, companheira. entende o significado disso. a importância de chamar de amor ao invés de amiga. entende que estar falando do amor que elas sentem na música, na arte, é algo muito além que a relação que vivem, é algo que inspira outras mulheres - principalmente mulheres negras - a se permitirem viver o amor e combaterem o patriarcado. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Dedê
- Vitoria e Vanessa | Documentadas
↓ rolar para baixo ↓ Vitória, no momento da documentação, estava com 25 anos. Nasceu em Fortaleza, mas passou a maior parte da vida em Salvador. É estudante de administração e está procurando emprego atualmente, pois deixou seu último trabalho para fazer a mudança para Trancoso, acompanhando a Vanessa. No tempo livre, se dedica a estudar inglês, buscar freelas, e também adora ir à praia, uma de suas atividades favoritas. Vanessa, no momento da documentação, estava com 24 anos. Nasceu em Mutuípe, no interior da Bahia, mas viveu grande parte da vida em Brasília. Há dois anos, se mudou para Salvador à trabalho, e depois disso para Trancoso. Vanessa é engenheira civil e trabalha na área de obras. Assim como Vitória, ela ama estar na praia, e também gosta de acampar, embora ainda não tenha explorado essa parte em Trancoso. Vanessa compartilha o objetivo de melhorar seu inglês, algo que considera essencial para os planos que tem em mente: viajar pelo mundo. Foi em Trancoso que elas encontraram uma nova fase da vida, unindo os desafios profissionais e pessoais. Além disso, ambas têm em comum a paixão por viagens, então constantemente poupam dinheiro com o propósito de realizar seus sonhos pelo mundo, planejando novas experiências juntas. Vanessa conta que ainda na época em que vivia em Brasília, recebeu a notícia de que a empresa que trabalhava abriria uma filial em Salvador, fazendo obras. Em fevereiro de 2022, mudou-se para a capital baiana por conta do trabalho, deixando a família em Brasília. Apesar de ter parentes na Bahia, eram mais distantes, o que levou a buscar novas conexões, então baixou um aplicativo de relacionamentos para conhecer pessoas e foi ali que encontrou Vitória - ou Vick, mais carinhoso, né? O primeiro encontro aconteceu em março, e desde então as duas não se desgrudaram mais. Inicialmente, os encontros aconteciam apenas nos finais de semana. Vitória, que morava com a mãe, o padrasto e o irmão, costumava passar boa parte do tempo no apartamento de Vanessa, fornecido pela empresa. Lá, o ambiente era tranquilo, juntas compartilhavam momentos em casa, festas, passeios… e durante a semana a rotina voltava ao normal. Até que com o tempo a frequência dos encontros aumentou. O que antes era apenas nos finais de semana passou a incluir as sextas-feiras, segundas e, depois, quintas… quartas… Até que as roupas da Vick já estavam lá, já tinham uma escova de dente de casal… Apesar dessa convivência intensa, o relacionamento ainda não era chamado de namoro. Vanessa, que no começo queria curtir, se viu surpresa com a rapidez de tudo. Era uma experiência muito nova - ela nunca tinha se relacionado com outra mulher - e também já era muito independente, morava sozinha há um tempo. Do nada era chapinha para um lado, escova para o outro… ficou pensando: “O que está acontecendo aqui?!”. Tudo mudou em junho, quando decidiram oficializar o namoro. Nesse ponto, Vitória praticamente já dividia o apartamento com Vanessa, pegando suas coisas da casa da mãe e voltando para lá. Elas já sabiam o quanto se gostavam, por mais que o começo ainda fosse um desafio. Aos poucos, o carinho pela Vick tornou o processo mais leve. Apesar do susto inicial, Vanessa percebeu que gostava muito da companhia, e juntas, encontraram uma forma de transformar aquele início despretensioso em uma relação sólida. No começo da relação, Vitória e Vanessa enfrentaram algumas discussões enquanto ajustavam suas rotinas e expectativas. Quando brigavam, Vitória costumava voltar para a casa da mãe. Essa dinâmica deu a elas a impressão de que ainda não moravam juntas de fato. No entanto, tudo mudou no final do ano, quando decidiram passar o natal em Fortaleza com a família da Vick. O padrasto dela estava enfrentando um câncer e havia se mudado para a cidade para fazer o tratamento, levando parte da família junto. Durante esse período, Vick permaneceu com a Vanessa em Salvador e, então, ambas entenderam: estavam oficialmente morando juntas - e por consequência, quando brigavam, não havia mais para onde voltar. A virada do ano foi o marco de uma nova fase. Viveram intensamente o verão e o carnaval, celebrando estarem juntas. Em 2023 completaram um ano de namoro, mudaram de casa, ajustaram suas rotinas de trabalho, compraram uma moto no nome das duas… Entenderam que estavam fortalecidas, ali havia um compromisso mútuo. No final de 2023, decidiram comemorar os dois anos de namoro com uma viagem ao Chile, a primeira vez que sairiam do Brasil. Ralaram muito para pagar cada detalhe: passagens, hospedagem e passeios. Enquanto isso, a vida profissional da Vanessa passava por transformações. No mesmo período em que se formou em Engenharia Civil, ela enfrentava desânimo com o trabalho e a distância da família. Escolheu não realizar cerimônias de formatura, optando por uma colação de grau online, sem grandes celebrações. Se sentia esgotada, então começou a buscar novas oportunidades, enviando currículos para outras empresas. Em março de 2024, Vanessa foi surpreendida por duas notícias simultâneas: recebeu uma proposta de trabalho em Trancoso no mesmo dia em que foi desligada da empresa em que trabalhava. Para ela, aquilo foi um sinal. Vick deu o total apoio. Em duas semanas, Vanessa reorganizou sua vida e estava morando em Trancoso. A mudança para Trancoso foi (mais) um grande fortalecimento entre a Vanessa e a Vick, principalmente pelos desafios que enfrentaram. Como o apartamento onde Vanessa morava em Salvador pertencia à empresa, precisou ser devolvido logo após a demissão. Em Trancoso, encontrou inicialmente uma kitnet, já que o custo de vida na região é alto. Durante esse período de transição, Vitória permaneceu em Salvador para resolver pendências relacionadas ao trabalho e à viagem para o Chile, planejada há meses. A viagem ao Chile foi mágica. Ambas decidiram que seria o momento perfeito para um pedido de casamento, e, coincidentemente, planejaram o mesmo cenário: um ponto turístico em Santiago. Contaram para uma amiga, que tentou ajudar evitando gastos - sugeriu que comprassem alianças mais acessíveis, deixando para comprar algo mais sofisticado na cerimônia de casamento. O plano funcionou, mas a experiência acabou sendo ainda mais inesperada por conta de uma nevasca. O passeio ao local planejado foi cancelado e o pedido aconteceu na neve. Vanessa colocou o celular para filmar e pediu que Vitória olhasse para o horizonte para registrar a cena. Enquanto Vitória se virava, Vanessa se ajoelhou, mas foi surpreendida quando Vitória também tirou uma aliança do bolso. No total ficaram com quatro alianças, três solitárias e hoje elas usam tudo de forma misturada. Ao voltar de viagem, Vick pediu demissão do trabalho que tanto gostava em Salvador para se mudar definitivamente para Trancoso. Os três meses em que ficaram separadas, vivendo em cidades diferentes, foram desafiadores para a relação. E agora estavam noivas, né?! No dia 11 de julho, aniversário da Vick, ela finalmente chegou em Trancoso. A Vanessa e a Vick refletem um amor construído diariamente, superando barreiras da convivência e das diferenças na criação. Para Vanessa, o que elas têm vai muito além de um amor idealizado ou de momentos bons. "Não é só o amor bonito - por mais que seja também - é um amor que está presente todos os dias, nos bons e nos ruins.” Ela acredita que o verdadeiro amor está na escolha de estar ao lado de alguém em qualquer circunstância, sem fugir nos momentos difíceis, como era no início. Fala do sentimento de amor como uma mãe possui por um filho: "A mãe ama o filho na pior fase dele, e isso é o que define o amor para mim. Não é algo que apaga e acende. É duradouro, e é isso que torna os dias especiais." Para Vitória, o relacionamento foi uma jornada de amadurecimento e coragem. Ela admite que, no início, era mais fácil evitar os problemas e se distanciar. Porém, a construção dessa parceria a ensinou a enfrentar os desafios e a valorizar a força que elas têm juntas. "É isso que é casamento, essa parceria de segurar a mão e enfrentar o que vier. Com o tempo, você percebe que agora não é mais só você. Existe um 'nós' que se torna a prioridade". Vitória vê esse compromisso como algo natural e poderoso: "No começo, é abstrato pensar se a pessoa vai estar ao seu lado ou não. Mas com o tempo, você entende que agora é Vanessa e Vitória juntas, sempre." Elas reconhecem que suas origens familiares são muito diferentes. Enquanto uma cresceu em um ambiente de compreensão, afeto e diálogo, a outra viveu em um contexto mais rígido, onde decisões eram tomadas com base em punição. Apesar disso, encontram na relação um equilíbrio. Brincam sobre como será a criação de um futuro filho e especulam sobre qual traço de personalidade a criança puxaria de cada uma. Vanessa Vitória
- Larissa e Claricy | Documentadas
Larissa estava com 33 anos no momento da documentação. É natural de Salvador, viveu a maior parte de sua vida na cidade grande, mas durante a pandemia de Covid-19 deixou para trás a agitação e se mudou para um lugar menor e mais tranquilo, o Vale do Capão, na Chapada Diamantina. Antes, havia sido dona de uma floricultura em Salvador e, embora sua formação fosse em arquitetura, sua atuação profissional se voltava para uma área um pouco distinta, mas sempre conectada à forma como os espaços se comunicam. Em Capão e nas viagens seguintes, Lari retomou sua carreira, direcionando seu olhar para a integração entre arquitetura e natureza. Inicialmente, morando com amigas, dedicou-se profundamente ao estudo da bioconstrução. Foi isso que a levou até Serra Grande, município próximo à Itacaré (onde nos encontramos): um amigo engenheiro desempenhou um papel importante na sua rede de apoio, chamou ela para trabalhar com bioconstrução por lá. Claricy no momento da documentação estava com 37 anos. Nasceu em Niteroi, no Rio de Janeiro, e se formou em economia. Após anos trabalhando no setor corporativo, começou a refletir sobre como poderia equilibrar sua vida profissional com seus valores pessoais em uma sociedade hipercapitalista. Decidiu, então, fazer uma mudança significativa: se mudar para Itacaré, em busca de uma vida mais simples, saudável e reconectada com o que realmente importava. Chegou à cidade sozinha, sem influências externas de amigos ou familiares, em uma tentativa de ‘resetar’ e se reconectar consigo mesma. O que inicialmente era para ser uma estadia de apenas um ou dois meses acabou se transformando em uma permanência de dois anos. No começo, Clari se encantou pela variedade de eventos e atividades que a cidade oferecia, mas logo sua paixão se voltaria para a natureza ao redor e para o estilo de vida mais tranquilo e genuíno que passou a adotar. Assim que Claricy chegou em Itacaré, cruzou com a Lari num aplicativo de relacionamentos e começaram a conversar. Trocaram seus perfis nas redes sociais, mas não marcaram um encontro de fato. Entenderam que Itacaré é um local muito pequeno e que provavelmente iriam se esbarrar em breve. Foi o que aconteceu, acabavam se esbarrando com certa frequência e sempre aos finais dos eventos - naqueles momentos meio que de bar em bar, fim de noite. Acontece que, por mais que interagissem online, pessoalmente mal se cumprimentavam, Lari nunca trocava olhares com a Clari e isso deixava ela num misto de chocada, intrigada… Não entendia o motivo. O tempo passou e num dia Lari interagiu com ela pelo Instagram e ela respondeu falando a verdade: “Você conversa comigo a beça aqui mas pessoalmente finge que nem me vê”. E então a ficha da Lari caiu: ela não fingia, ela realmente não via. Não estava percebendo as pessoas ao redor com a atenção que deveria. O tempo seguiu passando e Clari foi ficando mais difícil. Segundo ela, é porque Lari estava sempre se envolvendo com algum ‘carinha’ por aí. Lari confessa que era verdade: ela nunca tinha namorado e vivido de verdade uma relação com alguma mulher… e isso era um empecilho para Clari. Até que chegou um dia específico que um samba estava no fim, naquela mesma linha de encontros “de bar em bar” que viviam, caiu uma chuva muito intensa e Lari estava indo embora, quando ouviu um samba e avistou Clari dançando - mesmo que na chuva torrencial altas horas da manhã. O samba estava bom, embaixo da marquise, ela resolveu ficar. Chegou logo do lado da Clari. Já tinham se passado meses desde a última conversa, estavam diferentes e foi naquela noite que ficaram (e se conheceram, de fato). Amanheceram na rua, depois do samba. Clari conta que ela até poderia ter ido embora porque morava próximo, mas não queria, de tão legal que estava sendo aquele dia. Foi um dia muito bom para todos, muito divertido. Quando começaram a se envolver, foi tudo diferente do que imaginavam e Lari conta como isso foi importante - a forma em si como aconteceu foi sendo um guia para fazer com que ela entendesse os abusos que sofria nas relações de uma heterossexualidade compulsória; “Porque mesmo amando me relacionar com mulheres, mesmo vivenciando isso desde cedo, aquilo nunca era credibilizado”. Desde que começaram a ficar juntas, caminharam um longo trajeto até o momento da nossa documentação. Lari, por exemplo, é uma mulher não-monogâmica que acredita nessa política, enquanto Clari tem algumas dificuldades com a prática da não-monogamia, ainda possui muitas amarras, reproduções. Então o começo foi caminhando de uma forma muito delicada e comunicativa, entendem que não poderia estar apertado nem para a Claricy, nem para a Larissa, ao mesmo tempo que deveria caber e estar gostoso, confortável. Aos poucos tudo foi caminhando e tomaram a decisão de morarem juntas. Lari já morava mais distante de Itacaré, na região onde hoje em dia possui um terreno - em que fizemos as fotos e que estão planejando construir - e foi morando juntas que se aproximaram definitivamente, ficaram no que chamaram de “grude sapatônico”. Aos poucos foram amadurecendo a ideia de construir a casa no terreno, uma bioconstrução nos moldes que Lari estuda e trabalha. E, depois do primeiro ano de relacionamento, também optaram por uma nova casa, em Serra Grande, enquanto a construção toma forma no terreno. Antes de irem para Serra Grande, passaram um tempo entre o Rio de Janeiro e Salvador, ficando com suas famílias e fechando o primeiro ano de relação. Depois do primeiro ano de relação e das viagens, moraram em uma casa em Serra Grande, mas foi uma vivência muito difícil. Não havia cômodos, por mais que elas tentassem se comunicar da melhor forma, tudo era muito misturado, apertado, sentiam que eram pessoas muito diferentes tentando viver num espaço. Por isso, optaram pela separação por um tempo. Seguiram se relacionando, mas morando em cidades diferentes - Lari voltou para Salvador, Claricy ficou na região de Serra/Itacaré. No final, as rotinas estando tão diferentes ajudavam as coisas a ficarem descompensadas. Aos poucos, tudo foi se normalizando e reconheceram o momento. Foi difícil ter a maturidade de entender o que era preciso, mas nesse processo Clari entendeu muito sobre a solidão, sobre os amigos que vivem na cidade grande e teve novas percepções sobre o que desejava para a relação. Entenderam também novas importâncias de comunicações - é preciso saber comunicar e resolver, demonstrar a emoção, terem que lidar (e que bom lidar), resolverem, melhorarem e evoluírem. Desde o começo do relacionamento, Clari ouvia muito a Larissa falar sobre sua vontade de fazer uma comunidade unindo vários terrenos no lugar em que tinha comprado o seu, no quilômetro, próximo à itacaré. Ela sempre pensava: “Eu vou ser uma visitante? Eu vou morar lá? O que eu serei nesse terreno?”. Até que Lari fez a proposta delas morarem juntas e dela ajudar em toda a construção: arquitetar e construir a própria casa. O projeto, que já está em andamento, está sendo muito bem feito e frequentemente elas vão até o local, que tem nome - “Casa Jussara” - por conta da palmeira-juçara, nativa da mata atlântica, que possui em abundância no terreno. O terreno em si ainda está em mata fechada e a ideia é preservar o máximo que der. Abriram a parte da frente para entender os pontos de construção e desejam em pouco menos de um ano ter tudo pronto. Por fim, elas acreditam que o amor está nessa forma de viver que estão construindo juntas, desde a rotina, os rituais, o saber lidar com um monte de coisa e mesmo assim conseguir desacelerar. Não se torna algo utópico, uma ideia de que tudo é perfeito, mas algo que vem se construindo mesmo em tantos desafios. É no ritual que se tem ao acordar, no ritual que se tem cuidando dos bichos, no ritual de pensar como será a casa, no ritual de colher os alimentos que plantaram por tanto tempo. Ficam muito felizes quando percebem que finalmente vivem uma relação que desejaram por tanto tempo e que merecem viver. Clari conta que já tinha lido muito sobre filosofia, muitos livros, muita coisa, pensava que entendia um pouquinho sobre amor, mas agora percebe que vive um amor muito diferente, onde precisa se amar também, e vê o quanto está sendo bom para si e para os outros. ↓ rolar para baixo ↓ Larissa Claricy
- Thay e Camila
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Thay e Camila, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Thayanne e Camila vieram de lugares bem distantes, mas se encontraram em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, em 2017, entre aplicativos, amigos, universidade e gostos em comum. Thay é de Barbacena, Minas Gerais, mas se mudou para o Rio de Janeiro com a família que foi para Cabo Frio quando ela era mais nova. Na faculdade, passou para a UFF (Universidade Federal Fluminense) e se mudou para Niterói. Cami é de Salvador, chegou até Niterói também por conta da faculdade (que também era na UFF) e passou oito anos morando lá. Hoje em dia, ela e a Thay moram no Rio, num apartamento que comemoram juntas terem conquistado depois de tanto tempo que passaram entre repúblicas e casas compartilhadas com amigos. Foi por conta de um aplicativo de relacionamento que elas se conheceram, mas quando deram ‘match’ resolveram, nas suas palavras, “brincar de rebuceteio”: abriram o Instagram e foram ver os amigos e amigas que tinham em comum. Nem imaginavam quanta coisa teriam em comum, na verdade: a Thay estudou no Ensino Médio com um dos melhores amigos da Cami, ela também conhecia e frequentava casas de outros amigos em comum e assim foram descobrindo que conheciam as mesmas pessoas, as mesmas histórias e os mesmos eventos, mas nunca se encontravam nos espaços. Sem contar nos gostos para as coisas, que eram muito parecidos, mas que também nunca tinham se cruzado até então. Nessa época que se encontraram, em 2017, a Cami ainda estava saindo de um relacionamento aberto do qual não se sentia confortável e era um desafio viver um novo relacionamento com alguém. Elas brincam que o verdadeiro incentivo por trás do namoro acontecer foi o fato de que começaram a pegar a barca Rio x Niterói todos os dias juntas, quando ambas conseguiram trabalhos na capital. Como iam e voltavam no mesmo horário, se ver diariamente foi um empurrãozinho ao romance ser criado. Viviam momentos muito difíceis também em relação aos perrengues financeiros. Ambas moravam em repúblicas e tinham pouco dinheiro para se manter. No primeiro encontro, por exemplo, beberam literalmente um chopp porque era o que poderiam pagar. Passavam por várias crises e sentem que foi um encontro que só falaram sobre problemas, mas que mesmo assim se deram muito bem, porque se sentiram em um espaço seguro para compartilhar as coisas. Tudo virou logo no início do namoro, quando elas conseguiram um emprego. Foi uma grande felicidade, um momento muito eufórico - e não, não era só porque com o emprego elas passaram a se encontrar todos os dias nas barcas. Com um salário elas poderiam começar a fazer coisas juntas, mesmo que sobrasse muito pouco, elas aproveitavam cada centavo: foram em vários museus, passearam em todos os lugares gratuitos possíveis, tomavam mesmo que fosse apenas uma cerveja, mas se divertiam muito. Com o tempo, passaram a ficar escondidas na república uma da outra, porque pelas regras não podiam receber visitas - porém, contudo, entretanto (!!!) a regra dizia visitas masculinas, então elas não estavam tão contra assim. Aos poucos entenderam que não valia a pena continuarem gastando cada uma em sua república e que seria mais fácil morarem juntas dividindo apartamento com outras amigas, foi assim que se mudaram para um novo lugar. Depois, o desejo virou outro: morar numa casa com janelas, que entrasse sol, que tivessem espaço (mais de um cômodo) e que pudessem se sentir em casa realmente. Isso aconteceu recentemente, agora, na casa do Rio, e elas não poderiam estar mais felizes. Decoram tudo juntas, aproveitam a cidade e o ambiente ao redor. Inclusive, estão noivas! Ficaram noivas durante a pandemia, quando entenderam que mesmo que estivesse tudo errado ao redor, o relacionamento era uma fonte de felicidade muito grande e dentro desse lar constróem mais um pedacinho do relacionamento. É como se um novo momento de euforia estivesse acontecendo. O momento de euforia é reflexo do quanto cresceram juntas. Amadureceram, viram suas vidas mudar profissionalmente. Agora, estão conseguindo construir planos verdadeiros pela primeira vez, entendendo o que querem se tornar. Já passaram por muitas vivências juntas desde 2017 até hoje: apresentar a ambas as famílias uma namorada pela primeira vez, até conquistar pequenas e grandes coisas que sempre sonharam. Ainda querem, dentro dessas mudanças, viver as coisas de forma saudável. Falam sobre suas relações com seus empregos e com a cidade em que vivem. A Cami, que no momento está com 26 anos, trabalha com consultoria estratégica e deseja ser feliz para além do trabalho, ter uma relação boa com seu ambiente e com a sua rotina, mas não depender dele por completo. Ela também deseja ser mais ouvida e ser mais considerada enquanto mulher numa sociedade. Já a Thay fala sobre como tenta diariamente transformar a sua rotina na relação mais saudável possível para que as 8h diárias que passa trabalhando na empresa não seja algo que ultrapasse o limite do próprio corpo. Ela comenta que hoje vivemos um momento de desigualdade e de pessoas que demonstram ser pró desigualdade - as pessoas falam o que pensam ser vergonha alguma - e ela gostaria muito de ver as coisas mudarem, ver a vida com mais esperança. Tanto a Thay, quanto a Cami, são muito ligadas à família e acreditam que nessa base aprendem os ensinamentos do que é o amor. Thay conta que remete amor à relação que os pais dela possuem, pois são pessoas simples, trabalhadoras e com eles aprende muito sobre a vida. Para ela, também, o amor envolve carinho e cuidado. Já a relação com a Cami mostra pura leveza, mesmo nos momentos difíceis foi leve e prezando pela liberdade de cada uma. Cami traz o exemplo do amor desde momentos corriqueiros, como a avó contando sempre as mesma história, às memórias afetivas que sente quando está em casa, a família que recebeu a Thay tão bem quando ela visitou Salvador e também o que aprendeu com a mãe, sobre sempre deixar uma marca boa pelas pessoas com quem ela cruza: uma felicidade/fazer algum bem - assim é uma forma de amar também. Dentro da relação ela entende junto com a Thay que ninguém é feliz sozinho e que juntas elas conseguem muito mais, por isso, estão sempre rodeadas de afeto e deixando também afetos por onde passam. Camila Thayanne
- Stephanie e Raíssa | Documentadas
Raíssa estava com 32 anos no momento da documentação. Nasceu em Salvador e adora a cidade. É uma pessoa caseira, trabalha em casa, sendo psicóloga, e quando não está na sua rotina gosta de ocupar o tempo assistindo séries, aproveitando o espaço e a tranquilidade do lar. Quando sai, gosta de visitar amigos, praticar algum esporte e ir à praia. Para ela, o conforto está justamente nesse ritmo mais íntimo. Stephanie estava com 29 anos no momento da documentação e é dentista - uma profissão que confessa, logo de primeira, amar e fazer parte importante da sua vida e da sua rotina. Diferente de Rai, ela gosta bastante de estar em movimento, encontrando amigos, fazendo programas diurnos e experimentando coisas novas. Nos primeiros meses de 2026, tem se permitido viver bastante, ocupando o tempo com encontros e experiências. Ela também é natural de Salvador, nasceu e cresceu no Largo do Dois de Julho, uma região bem central da cidade, lugar histórico que carrega boemia e muitas memórias. Conta que ter crescido ali significa conhecer as pessoas, as ruas e os ritmos do bairro, já que seus pais também vivem o bairro e a região. Ela adora o quanto isso molda sua personalidade: uma pessoa conectada com a cidade, engraçada e observadora do mundo ao redor. Stephanie e Raíssa se conheceram em 2015, na faculdade. Estudavam na mesma instituição, mas em cursos diferentes e em momentos distintos da graduação: Stephanie era caloura e Raíssa já estava perto de se formar. Foi quando se inscreveram para ser monitoras em uma mostra científica (porque precisavam cumprir carga horária) que acabaram na mesma sala e começaram a se conhecer. Na época, Stephanie ainda se entendia como heterossexual, mas estava acompanhada de amigos LGBTs, viu Raíssa (que por sua vez tinha terminado recentemente seu primeiro namoro com uma mulher e atravessava um período de coração partido) e questionou aos amigos se eles achavam que ela era do ‘vale’: todos responderam de forma unânime > “sim”. Durante aquela semana da mostra, trocaram números para resolver questões do evento e começaram a conversar. Stephanie tentava flertar, mas Raíssa não percebia. Ou até percebia, mas entendia que Ste era hétero e acreditava que ela estava apenas com curiosidade. Pegavam ônibus juntas… e depois das insistências, chegaram a se beijar algumas vezes. Mas nunca se tornou uma relação de fato. Depois disso, o vínculo entre elas passou a existir em idas e vindas: às vezes conversavam, às vezes se encontravam, ficavam, depois cada uma seguia sua vida e se relacionava com outras pessoas. Brincam que as duas sempre foram muito “namoradeiras”, então, entre 2015 e a pandemia, passaram cerca de cinco anos nesse movimento de se aproximar, ficar vez ou outra, se afastar, e voltar a se encontrar. Em 2022, novamente solteiras, voltaram a conversar sobre relacionamentos e decidiram se encontrar novamente. Ste chamou Rai para conversar e brincou: “Não percebeu nada de diferente no meu perfil, não?! Estou solteira!”. Foram se encontrar mais uma vez. Acharam que iria ser como das outras vezes, mas foi diferente: começaram a ficar com mais frequência, mas ainda sem assumir nada sério. Uma dizia que queria namorar, construir uma família e ter filhos, enquanto outra não se sentia pronta para assumir um relacionamento ou pensar nesse tipo de futuro. Nesse meio tempo, quando viram que existia a possibilidade de se afastarem de novo e se relacionarem com outras pessoas, surgiu um medo real de perder alguém importante que até então não havia existido nos outros anos. Algo estava diferente. Ste foi viajar enquanto elas ainda não haviam começado o namoro de fato e, quando voltou para Salvador, enfrentava um momento difícil com o cachorro doente. Rai estava muito confusa entre ciúmes que sentia por ver Ste ficando com outras pessoas, entre não saber se a relação delas viraria um namoro, entre muitas questões... Achou melhor separar as coisas de Ste na sua casa e deixar para que, em algum momento, ela fosse buscar. Mas, quando ela chegou, precisava mesmo era de apoio. Independente da relação que estavam construindo recentemente, já estavam na vida uma da outra há 10 anos. Agora ela precisava de Rai como amiga, como acolhimento. Verbalizou isso e Rai permaneceu. Foi enfrentando esse processo difícil, depois de tantos anos e tantos momentos diferentes de vida, onde decidiram se dispor verdadeiramente em uma relação amorosa. Seguiram juntas por mais um tempo e entenderam que estavam dispostas a tentar de verdade: em pouco tempo estavam oficialmente namorando e, logo depois, Stephanie já estava morando na casa de Raíssa. A relação começou a se estruturar de um jeito muito consciente, baseada principalmente em conversas longas e sinceras. Desde o início, as duas perceberam que precisavam falar abertamente sobre tudo: expectativas, sentimentos, limites e inseguranças. Questões que muitas vezes aparecem de forma silenciosa em outros relacionamentos como ciúmes, interesse por outras pessoas ou o formato da relação (se seriam monogâmicas, não-monogâmicas, como sentem os desejos por outras pessoas…) eram colocadas na mesa e discutidas com cuidado. Essa disposição constante para o diálogo acabou se tornando uma das bases mais fortes da relação, permitindo que o vínculo continuasse crescendo com confiança, carinho e respeito. Stephanie conta algo importante do início da relação: sempre quis viver um amor que pudesse ser dito em voz alta. Queria se sentir amada dessa forma, sem dúvidas, sem esconderijos. Quando Raíssa soube disso, decidiu preparar algo especial. Procurou as melhores amigas de Ste para descobrir do que ela gostava, o que a faria feliz, que tipo de surpresa combinaria com ela. Com a ajuda delas, pensou em cada detalhe para fazer um pedido de namoro, seria o ato oficial. Ela montou uma playlist pensando em todo o trajeto que Ste fazia até em casa, para que cada música acompanhasse o trecho. Depois, em casa, havia uma caça ao tesouro com post-its espalhados contendo os trechos das músicas e pequenos recados carinhosos. Ao final, ela encontraria o pedido, acompanhado de um jantar simples, à luz de velas, mas com um detalhe: as velas eram de plástico, por conta do cachorrinho, que transforma qualquer momento em bagunça. Por muito tempo, elas seguiram usando as velas nos momentos do lar e contam que, de fato, ele mordeu todas. Era preciso mesmo que elas fossem de plástico. Morar juntas foi um passo natural para Raíssa e Ste, mas outras decisões exigiram mais alinhamento. Rai, por exemplo, sempre disse que não fazia muita questão de casar, que via o casamento mais como uma formalidade burocrática. Já Ste tinha o desejo de viver esse momento, de construir um casamento como parte do seu projeto de vida. Em vez de virar um impasse, isso também virou tema de conversa: o que cada uma imaginava, quais expectativas estavam envolvidas e como poderiam construir algo que fizesse sentido para as duas. Aos poucos, o significado do casamento também foi mudando. Além do desejo por uma celebração romântica, surgiu a dimensão política de duas mulheres decidirem se casar, ocupar esse espaço e afirmar um direito conquistado. Quando ficaram noivas, algumas pessoas da família estranharam, já que elas já moravam juntas. Para as duas, porém, o noivado representava exatamente o contrário: não era o fim de um processo, mas o começo de um novo passo. Ainda haverá cerimônia, festa, celebração… E a vontade de marcar publicamente a construção da vida que escolhem compartilhar. Stephanie e Raíssa contam que a relação delas é marcada pelo cuidado e pela forma amorosa como se tratam. Até entre as amigas a relação delas já se tornou uma referência de amor tranquilo. E esse cuidado se estendeu às amizades: para elas, os amigos fazem parte da família que escolheram construir ao longo da vida. Ste costuma dizer para a Raíssa que o amor que vivem não é uma paixão avassaladora, mas também está longe de ser morno. É simplesmente real. Existem momentos românticos, claro, mas também há rotina, e essa rotina não diminui o sentimento. Pelo contrário: nela existe sossego. É muito bom chegar em casa e saber que vai estar tudo bem. Depois de experiências anteriores marcadas por confusão, a calmaria chegou a assustá-las por um momento. Com o tempo, entenderam que a tranquilidade também é uma forma de amor. Essa estabilidade, longe dos altos e baixos constantes, tornou-se um dos pilares da relação. Há também algo que consideram muito especial: elas compartilham tudo. Qualquer acontecimento, pequeno ou grande, é dividido primeiro entre as duas. Isso construiu o espaço seguro, onde não há medo de julgamento. Além disso, há também o incentivo: uma apoia os sonhos da outra, mesmo os mais inesperados. Ideias que surgem de repente “E se eu mudar de carreira?” “E se eu começar uma residência?” “É possível?! Então bora!”. Saber que a outra estará ali, sustentando o caminho, faz toda a diferença. No fim, completam com uma frase: “É muito bom saber que as nossas terapias, individuais, serão sobre outros problemas e não sobre o nosso relacionamento”. ↓ rolar para baixo ↓ Raíssa Stephanie
- Beatriz e Marina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marina e Beatriz, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quando estávamos fazendo as fotos ela brincou com a Bia dizendo para fazermos algumas fotos dançando e a Bia argumentou que ela não dançava com ninguém “só contigo”, e na fala da Marina ela traz essa ocasião, sobre a Bia se permitir à dança. E nesse permitir-se damos gancho ao assunto de que estamos em busca de nos permitirmos porque queremos justamente nos entender, nos cavucar, nos desvendar. E chegamos ao questionamento de: por que, na sociedade em geral, tão pouco as pessoas se permitem? Então entendemos também que o amor, de alguma forma, dialoga com estar dispostas a despertar coisas na gente para mudar o outro também. Um não-querer ser quadrado o tempo todo, estar limitado ou não ser um ser-pensante. Brincamos com a palavra “gelecas” porque Marina diz se sentir uma geleca, sempre em mil movimentos e não-sólida, como algo que consegue se moldar - mudar. Por fim, ficou a sensação de não querer nunca que essa “geleca” cristalize, se conforme, se adeque. Estejam sempre se transformando para que transforme, também, os outros. Por fim, entramos em um papo muito importante sobre o amor e sobre como as relações acontecem - não só afetivamente, mas como nos permitimos estar uns com os outros. A Bia entende o amor enquanto reconhecimento e enquanto uma força muito grande, uma vontade de estar de verdade com alguém - no companheirismo, na vontade de fazer coisas juntas - e de reconhecer, mesmo se não entender. Ela acha que a base do amor é a confiança e o diálogo e que, para além disso, nas relações com mulheres, sejam amigas, as mulheres da família, ou relações amorosas, existe uma força em querer se fazer o bem sempre. Essa força envolve o zelo, a escuta e o querer-justiça. São relações que ela preza muito. Para a Marina, existem duas coisas que estão muito relacionadas com o amor: a permissão e a pressa. A pressa, na verdade, é a espera, o ritmo, o tempo. Temos que aprender a esperar as coisas, a entender o ritmo do outro, a se adaptar ao ritmo do outro também… porque quando temos pressa, acabamos por cortar um pouco a graça das coisas, atropelar e deixar sem sentido. Já a permissão entra enquanto uma importância em se entregar, em tirar tabus, tanto sexual quanto emocionalmente: ter a confiança e a leveza de se permitir. Em seguida do começo do namoro (e no dia seguinte que o foraBolsonaro foi eleito), elas alugaram um carro e fizeram uma viagem para a Bahia. Foi muito importante ter esse momento não só pela situação tensa que todas nós mulheres estávamos passando (e elas, tendo uma a outra, estando juntas, se acolhiam e se ajudavam), mas por ser uma forma diferente de dar início ao relacionamento. Ao decorrer de toda a relação tudo sempre foi construído com muito diálogo e conversa. Elas estão juntas em muitos momentos e contam uma com a outra para tudo. Inclusive, o apartamento surgiu em um momento muito especial de mudanças e de olharem para si e entenderem que seria um passo importante morarem juntas. Foram meses procurando um lugar que fizesse sentido, que elas pudessem arcar com os valores e quando acharam esse, foi um completo acolhimento. Tudo nele tem a carinha delas e cada detalhe é pensado em conjunto. As duas são mulheres muito divertidas e acreditam que isso possa estar ligado à forma que, tanto elas foram criadas, quanto ao meio que estão inseridas. Acreditam no corpo enquanto livre e sem julgamentos e para elas é muito importante que as pessoas estejam realmente à vontade. A Bia conta que sua construção enquanto ser e suas maiores inspirações vêm da irmã e também da amiga, Mariana, que é colega de trabalho e quem a colocou dentro da agência. É uma pessoa que traz bastante admiração pelo estilo de vida, pelas questões profissionais dentro da fotografia e por tudo o que já ensinou. Já a Marina contou que ter feito balé desde criança a fez ter muita disciplina e aprender muito sobre a forma de lidar com os outros e ter responsabilidades, por isso também as professoras que a acompanharam durante todo esse processo são de grande importância para que ela tenha se tornado a mulher que se tornou. Ela fala sobre o quanto o olhar das professoras moldou o olhar que ela tem sobre as coisas. Além disso, a avó dela também é fonte de inspiração diária, por ser uma mulher da roça, sempre muito alegre, e sendo uma mulher não-branca, muito forte, que carrega muitas coisas na sua existência. No começo do relacionamento delas, ou melhor, antes de ser realmente um relacionamento sério, quando perceberam que estavam bastante envolvidas, surgiu uma certa insegurança. E aí dialogaram sobre o que fazer: encaravam? desistiam e seguiam suas vidas? Foi quando entenderam que estavam dispostas a encarar e começar algo em conjunto. Um tempo depois de ter terminado um relacionamento, a Bia se reconectou com uma amiga da escola e essa amiga estava namorando uma menina que era de Vitória e trabalhava na mesma empresa que a Marina, então a amiga e a namorada tiveram a ideia de apresentar as duas e uni-las enquanto um casal. A versão da história contada pela Bia é bastante simples: a amiga dela mandou uma mensagem falando da Marina e passando o Instagram dela para a Bia seguir e conhecer. Ela achou a Marina bonita, curtiu, mas não começou a seguir na hora. Um tempo depois a Marina começou a seguir ela e ela seguiu de volta. Foi isso. A versão da Marina, por mais que seja com o fim semelhante, começou de outra forma. Ela estava em uma fase que se permitiu se envolver e conhecer novas pessoas, mas estava indecisa ainda e uma amiga aleatória, naquela semana, chegou dizendo que tinha alguém para lhe apresentar. Quando mostrou o Instagram de uma menina, ela olhou e achou ok, mas não teve muito interesse, porém a menina tinha uma foto com outras pessoas marcadas e nessa foto estava a Bia, foi aí que ela entrou no Instagram da Bia, se interessou e passou a segui-la. No dia seguinte, ao encontrar a amiga em comum que ela e Bia tem, essa amiga disse que queria apresentar uma pessoa para ela e ela ainda brincou “nossa, o que tá acontecendo essa semana, que todo mundo quer me apresentar alguém?!” e quando viu o Instagram ficou em choque, porque era logo a menina que ela tinha seguido. Pensou: ok, eu realmente preciso conhecer essa menina, de alguma forma ou de outra, a gente vai ter que se encontrar! E foi então que Bia começou a segui-la de volta. Numa interação de stories sobre gatos, elas marcaram de sair. E o que era para ser um encontro em um restaurante todo bonito, bacana e conceituado, deu errado, mas deu certo: o restaurante estava fechado e o único lugar próximo era um boteco super “pé sujo”. Elas se deram tão bem que ficaram no bar até 4h da manhã, foram para a casa da Marina, a Bia saiu de lá no dia seguinte e, para fechar com chave de ouro o date de sucesso, saiu com as roupas da Marina porque o gato tinha feito xixi em todas as roupas dela. A Bia e a Marina são duas mulheres incríveis em cada detalhe do que constróem dentro do relacionamento e dentro do lar, desde o cuidado que têm com a casa, com o preparo da comida, com a forma que se tratam, até em suas visões de mundo, de poder de escuta ativa e da forma que lidam com as pessoas e com os animais. O encontro delas aconteceu por intermédio das amigas, mas ao decorrer da explicação a gente entende que era mesmo para ter acontecido. A Bia tem 24 anos, é carioca, fotógrafa e trabalha enquanto assistente em uma agência que presta trabalhos visuais para marcas de moda. Adora videogame, sonecas durante o dia, ler e acompanhar a Marina nas aventuras na cozinha. Marina tem 29 anos, é natural de Vitória, no Espírito Santo, mas mora no Rio de Janeiro desde 2014, quando cursou a pós-graduação. Ela trabalha enquanto publicitária e produtora, ama cozinhar, principalmente inventar receitas, quase como uma alquimia, testando comidas e temperos. O que ela e a Bia mais amam fazer juntas é assistir reality shows: de todos os tipos possíveis. Bia Marina

