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Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

288 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Nathalia e Iasmim | Documentadas

    Amor de Tatuagem - Nathalia e Iasmim clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Anik e Isabelle | Documentadas

    Amor de Desaguar - Anik e Isabelle clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Luana e Gabrielle

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isabela e da Camila, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Luana e a Gabi são mulheres que amam amar mulheres. Gabi brinca sobre como o sexo não tem comparação, mas o sentimento acaba indo bem além disso: querem ver mulheres ocupando espaços de poder (judiciários, públicos…) porque acreditam que só assim a sociedade poderia mudar de verdade. Depois, ela ressalta que sonha com lugares que acolham pessoas em situações de vulnerabilidade (moradores de rua, crianças sem creches públicas), dando um futuro diferente para elas. Falam, também, sobre a importância de darmos oportunidades para as mães poderem trabalhar e gerenciar suas independências financeiras. No fim, mas não menos importante, não gostaria de deixar de fora o momento em que elas comentaram que foram no show do Lenine, tempos depois de já estarem juntas, sempre lembrando de quando cantaram a música naquele primeiro dia, no fanchokê. ♥ A Luana tem 22 anos, é designer (e está se formando agora!) e ama jogar Roller Derby. Ela veio de São Paulo fazer faculdade no Rio, é filha de uma mãe solo e tem quatro irmãos. Quando ela chegou morou em república, dividiu apartamentos, deu muito corre para se virar. Foi ter uma casa de verdade quando decidiu dividir um lar com a Gabi e, mesmo tendo uma parceria e construindo a família juntas, elas já passaram por períodos bem difíceis, como quando estavam desempregadas. Elas decidiram morar juntas em agosto de 2020, estava muito difícil manter as coisas na pandemia (a distância, os gastos sozinhas…) e optaram pela vinda da Gabi, com os três filhos, para uma casa que alugaram. A relação delas foi ficando cada vez mais concreta, as crianças entendendo melhor o novo ritmo e a mãe da Gabi acompanhando tudo de pertinho (e ajudando bastante também!). Hoje em dia, elas sonham com o momento em que vão se estabilizar na casa para começarem novos planos (como montar uma empresa juntas - já que trabalham em ramos bem próximos). Os filhos lidam de forma bem tranquila com o relacionamento e a Luana brinca que, antes de conhecer eles, jamais pensava em ter filhos (e na responsabilidade de educar crianças) dessa forma, mas o relacionamento delas virou o porto seguro deles... e completa com um sorriso no rosto: “o mais novo já chama as duas de mãe”. Quando perguntei sobre o que a Luana e a Gabi pensam sobre o amor, a Luana logo se identificou enquanto uma amante do amor. Ela adora ler sobre e pensar sobre. Entende que o amor é risada, porque risada é algo que todo indivíduo é capaz de dar desde o primeiro minuto que nasce, até o último minuto de vida. Mas é aquela risada, sabe? aquela que toma conta de tudo. Amar, além de tomar conta, é se importar em querer fazer alguém rir. É querer, em qualquer situação, que a pessoa esteja ali com você - uma apoiando a outra, se sentindo bem. A Gabi acredita que amor “é não querer desistir... porque você consegue ver valor”. Ela comenta que no começo as coisas são romantizadas, sim (e tudo bem ser!), mas é depois, quando tudo se transforma em desafios diários e que você se vê enfrentando, que a recompensa chega com o sentimento de se estar vivendo algo valioso, algo que sempre traz um quentinho para o coração. E assim é o amor entre mulheres: um corre o tempo todo. Brincam que a mãe da Luana só aceitou a homossexualidade dela quando viu as duas lavando um tapete, juntas, no quintal. E disse “ah, então é bom namorar mulher! Porque aí vocês limpam as coisas juntas! Tô gostando, então!” e enquanto ríamos sobre a situação chegamos à conclusão de que a vida assim, de fato, fica mais leve. Porque não temos essa coisa de limpar a casa enquanto a função do homem é prover o dinheiro, só se envolver com a cozinha na hora de fazer churrasco ou coisas masculinas. Sendo mulheres, como já somos criadas nos ajudando na cozinha, o casal trata com normalidade a atitude de se ajudar, cuidar da casa, do lar, educar as crianças, trabalhar de home office e dar conta disso tudo… e mil outras coisas. Gabi tem 32 anos, é desenvolvedora web, já tocou bateria (e inclusive é algo que ela pensa em voltar a fazer), é da baixada fluminense (mais especificamente, de Belford Roxo) e é mãe de três filhos. “Uma de 14, outra de 12 e um de 9”. Hoje em dia ela mora com a mãe dela, com as crianças e com a Luana, em uma casa grande, no Rio de Janeiro. Na internet, além de jogar sinuca (coisa que a Luana disse que é o maior dos hobbies), ela gosta de acompanhar pessoas como a Nataly Neri e o Jonas - diz que o relacionamento deles faz ela acreditar no amor. Além disso, não possui muitas referências de pessoas famosas que sejam lésbicas, acredita que esse conteúdo não acaba chegando tanto nela. Elas se conheceram de uma forma muito aleatória, no Arco do Teles (local, inclusive, que fizemos as fotos!). Luana, que estava acompanhada, foi pedir um isqueiro durante uma festa e acabou conversando com a Gabi… ela reconhece que se interessou pela Gabi logo de cara, mas a vida pregou uma peça: a Gabi, por outro lado, se interessou pela menina que a Luana estava ficando. Um tempo depois, a Luana viu a Gabi e a menina juntas e entendeu que não tinha mais esperanças. A Gabi e a menina começaram um relacionamento (nessa história, quem nunca foi um pouco Luana - sozinha vendo as duas juntas - que atire a primeira pedra!), mas a relação não deu tão certo quanto esperavam e terminaram um tempo depois. O tempo passou e a Gabi foi falar com a Luana sobre a menina, abrir o coração, já que era uma ex em comum. Elas conversaram, se mantiveram nas redes sociais e um tempo depois a Lu postou um storie com uma música da Duda Beat, pois naquele dia seria o show dela no Circo Voador, e a Gabi respondeu dizendo um “ei, também vou! vamos nos ver lá?!”. Enfim, nem preciso dizer que se encontraram, né?! Quando elas finalmente ficaram, foi um dia muito feliz para a Luana. Ela fez até um café da manhã e levou na cama, no dia seguinte. A noite anterior tinha sido num ‘fanchokê ’, o karaokê das sapatão. Elas cantaram Lenine juntas. Depois, tomaram um banho de chuva e foram para a casa. Gabi brincou que para ela jamais faria sentido que isso fosse alguma coisa séria, a Luana passava uma impressão de ser muito solta, muito livre de relacionamentos. Gabrielle Luana

  • Taynah e Estrella | Documentadas

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  • Ignez e Yasmin

    Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Yasmin Ignez

  • Julia e Eduarda

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Julia e Eduarda, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Júlia e Eduarda estão juntas há 8 anos e no momento da documentação estavam morando em uma casa na Ilha do Governador, junto com seus cães Boris e Caju. Contam sobre quantas Júlias e quantas Dudas já existiram durante esses anos de relação, vidas já viveram e muito amadureceram. Nunca foram pessoas que dão muito valor aos bens materiais - desejando o carro do ano, a viagem mais cara… - suas prioridades envolvem a casa cheia de gente, almoço em família, um domingo recebendo os amigos e as confraternizações em si. Duda conta que quando chegou na família da Júlia descobriu que por lá tudo era ‘muito’. Sempre foram muito unidos, sempre contavam um com o outro para tudo. São pessoas intensas. No relacionamento e na vida em si elas enfrentaram muitos desafios desde o primeiro momento (cuidar dos avós da Júlia, viver com o luto, começar um novo empreendimento em meio à pandemia…) e sentem que tudo isso só foi possível de sobreviver por conta do amor. As relações que mantém são pautadas no amor. E isso está longe de representar algo sempre feliz, mas sim um espaço cabível de erros, que nos dias mais difíceis ou mais rudes o amor continue ali. É uma coisa natural: se sentir aceita da forma que você é. Júlia, no momento da documentação, estava com 31 anos. É natural do Rio de Janeiro e trabalha enquanto professora de matemática e física, dando aulas particulares. Já trabalhou em escolas, mas prefere seguir com aulas particulares porque acredita que cada criança possui uma maneira de aprendizado. Tem vários alunos adolescentes e crianças, entre eles alguns com espectro autista e desenvolve um trabalho específico individual, atendendo suas demandas. Trabalha na cidade do Rio de Janeiro, mas também faz aulas online. No mais, preenche sua semana com a grande paixão pelo Fluminense e não perde um jogo. Eduarda, no momento da documentação, estava com 30 anos. Trabalha enquanto maquiadora, fazendo maquiagens sociais e artísticas há mais de 8 anos. Fez faculdade de teatro, mas acabou num curso de maquiagem e percebeu que a maquiagem sempre esteve presente na sua vida. Além disso, adora diversas outras formas de arte, como pintar, fazer miçangas, artesanato… E também passa bastante tempo cuidando das plantas ou cozinhando. Foi em 2015 que elas se conheceram, por conta de uma amiga em comum que queria muito apresentá-las. Depois que Duda terminou um namoro, elas conversaram pelo Facebook e decidiram se encontrar. Começaram a namorar com o passar dos meses e viviam muito tempo juntas no primeiro ano de relacionamento, até que decidiram morar na casa da família da Júlia. Inicialmente moravam no quarto da Júlia - e a Duda chegou mudando algumas coisas, tirando vários posters do fluminense… afinal, se iria morar lá, precisava estar à vontade no local. Tudo sempre foi muito conversado, ela foi se sentindo parte… e a casa em si foi mudando também. Surgiram demandas para cuidar do avô da Júlia, que estava muito doente, então a mãe acabou indo morar no apartamento ao lado com os avós da Júlia e as duas ficaram no apartamento em companhia do irmão. Foi então que começaram a mudar algumas coisas para além do quarto, sentir pela primeira vez que moravam num lugar delas e que as coisas eram responsabilidade delas. Mas ainda não havia completa noção sobre os gastos, as contas, já que tudo era feito em conjunto - viviam entre o apartamento em que moravam e o apartamento ao lado em que estava o restante da família. Depois de viverem o processo de adoecimento do avô, Júlia perdeu o pai para a Covid-19, em sequência o avô e a avó por outras doenças. Foi uma série de lutos em um ano muito difícil de lidar, principalmente pela avó, que foi algo inesperado e era a mulher que unia a família, uma base de admiração e carinho muito grande. Vivendo o luto entenderam que seria bom morar numa nova casa, ter um espaço só delas, algo que ainda não tinham tido a oportunidade de vivenciar. Respeitaram o processo da mãe da Júlia, que também sofria pelas perdas, e não queriam deixá-la sozinha - a solução foi arranjar um lar pertinho do apartamento, assim podem visitar o tempo todo. Só depois do luto em que vivenciaram, começaram a viver uma relação que era mais focada nas duas - e não que antes elas não vivessem juntas e com todo o carinho envolvido, mas a família sempre foi parte da vida. Contam que quando iam comer um pastel, por exemplo, não era um pastel > eram dez, levavam para todos. Uma pizza não era uma pizza pra elas, era uma pizza pra todos em casa. Sorvete sempre foi uma alegria comprar diversos potes e sabores… A relação sempre foi pensando em todos. Ter um novo lar é reaprender a pensar sobre elas e o que elas desejam. Duda conta sobre uma lembrança de um momento em que quebrou uma coisa na casa da Julia e que começou a chorar, porque na sua criação era muito cobrada para ter cuidado, brigavam se quebrava algo, era ruim, desastroso. Quando aconteceu, a sogra olhou e falou: “É bom quebrar, assim uma hora acaba o jogo e a gente compra um novo!”. Nunca tinha esperado isso ou pensado dessa maneira, foi aprendendo aos poucos a ter uma nova relação com as coisas e valorizar as pessoas. Júlia completa lembrando também do início, conta que para ela é muito importante as pessoas da casa almoçarem juntas à mesa, e que como isso nunca fez parte da criação da Duda, para ela não tinha diferença, às vezes não fazia questão. Isso deixava Júlia muito magoada. Foram alinhando isso, entendendo que era algo importante na relação. Medindo suas criações diferentes enquanto algo que pode somar uma à outra… e assim começaram a estabelecer uma melhor comunicação. Destacam o quanto se apoiam em tudo. Desde o primeiro ano de relacionamento, por exemplo, quando decidiram fazer uma viagem para o Uruguai e Argentina e decidiram que fariam maquiagens artísticas vendendo glitter no carnaval para conseguir bancar, até durante a pandemia, quando se viram sem emprego e fundaram uma empresa de doces que foi um verdadeiro sucesso e o sustento da casa durante um bom tempo. Entendem que precisamos doar o que queremos receber e que ouvir, acolher, são atos de amor também. Enxergam o amor enquanto tempo de qualidade na relação e se esforçam para compartilhar até o que não têm, por exemplo: sorrir num dia que as coisas não estão boas. Júlia cita “mesmo que a gente se embole amanhã, a gente continua sendo a gente” e explica que o amor está nisso, numa dedicação contínua e num entendimento/respeito pelo outro. Por fim, destacam o quanto vivem uma relação baseada no cuidado. Duda arruma os lanches da Júlia antes dela sair para dar aula… às vezes quando Júlia acorda já tem até café na cafeteira com um bilhete ao lado. Isso faz diferença porque passou muitos anos se alimentando mal quando saía para dar aula e agora sente que, para além de saudável, é um gesto que envolve muito carinho. ↓ rolar para baixo ↓ Eduarda Julia

  • Ane e Thelassyn | Documentadas

    Amor de Persistência - Ane e Thelassyn clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Pethra e Marcia

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Pethra e Marcia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Pethra tem 34 anos e Márcia 29. Hoje em dia, Pethra é vendedora e Márcia é formada em moda, trabalha enquanto analista de qualidade. São pessoas que não ligam para o que os outros pensam, saem na rua de mãos dadas e entendem a importância disso. Se pudessem, fariam com que as crianças fossem educadas com maior consciência, visto que são seres que não veem a maldade. Pethra já participou de eventos sobre a diversidade nas escolas e Márcia fala sobre a importância de também se falar sobre educação sexual. Como Pethra sempre se vestiu de forma mais masculinizada, entende que não sofrerem tanta homofobia nas ruas é resultado de um certo machismo - os homens não mexem com elas porque veem a Pethra enquanto homem também. E, por outro lado, cita a importância de ter mais banheiros unissex pela cidade, porque também já se sentiu mal entrando em um banheiro de shopping, com mulheres olhando atravessado pelo jeito que ela se veste. Falando em shoppings, no fim, isso é uma das coisas que elas mais gostam de fazer - e motivo de ter gerado muitas risadas, porque quando perguntei o que era mais a cara delas, responderam: ir na Renner. Elas adoram andar em shopping, ir nas lojas, restaurantes, conhecer novos espaços (leia-se: novas lojas Renners……….) e, mais que tudo, encontrar os amigos para saírem juntos. Quando falei pela primeira vez com a Márcia, chamando elas para fazerem parte do Documentadas, tivemos a ideia de reunirmo-nos com as suas melhores amigas, a Tayna e a Jú. Elas fazem parte de um grupo de 4 amigos, que virou 8, porque chegaram os “agregados” (ou seja, viraram casais). A Márcia e a Tayna são amigas há mais de 10 anos e se ajudam em todos os momentos possíveis…. uma acompanhou toda a história da outra, entre os relacionamentos e os momentos mais felizes e tristes. Decidimos tirar fotos das duas com suas “agregadas” e fizemos toda a conversa em grupo. Elas têm uma amizade incrível. O processo de aceitação da Pethra começou bem nova, quando gostou de uma menina pela primeira vez e entendeu que era isso que ela queria. Não foi fácil contar para a família e ela se sentiu bastante pressionada, mas chamou a mãe dela para sair e contou. O que deixa a situação engraçada é que a mãe dela esperava ouvir que ela estava grávida e quando ouviu algo tão diferente disso, ficou quieta um bom tempo, processando. Entendeu que se era isso que fazia a Pethra feliz, estava tudo bem, mas que ela precisaria se assumir para o restante da família também. Para a Márcia, o processo foi um pouco diferente. Ela não sabia que gostava de ficar com meninas até conhecer a Pethra. Então, passou por maior incerteza, por um maior choque. Decidiu contar para a família uns dias depois de começarem o namoro. Elas brincam que a família já tinha aceitado a Márcia antes mesmo dela se aceitar, porque a mãe já esperava que ela estivesse namorando a Pethra. A única questão, foi o pai quem trouxe: “agora você precisará se assumir para todos. Levar ela nas festas da família. Viver normalmente. Não vá se esconder”. Márcia brinca que jurava que o namoro não iria durar nem 6 meses - inclusive, falava isso para todo mundo. Ela achava que o amor era algo gigantesco, romantizado, que ela não sentiria naquele momento. Aos poucos, com o decorrer do relacionamento, foi entendendo que o amor no fim pode ser gigante, mas que ele é construído aos poucos e diariamente, com muito respeito e principalmente gerando felicidade. Antes da Pethra ser contratada, ela procurava emprego porque queria se mudar para Florianópolis (já estava com as malas compradas e tudo), mas precisava trabalhar alguns meses para juntar dinheiro e poder ir. Numa sexta-feira, ela fez entrevista, passou e foi chamada na empresa que queria trabalhar (e começaria na segunda!), mas recebeu uma ligação de outra loja querendo marcar uma entrevista - também para segunda. Decidiu ir na loja, sem avisar, dizendo que “estava passando por ali” e queria ver se conseguiria fazer a entrevista na hora. E conseguiu! Chegando em casa, ligou para a empresa que tinha passado e disse que não iria mais começar a trabalhar lá - detalhe: ela não tinha a resposta da loja ainda, ou seja, se estivesse desistindo e se não passasse na entrevista da loja, voltaria a estar desempregada. Por fim, ela passou… e começou a trabalhar com a Márcia. No começo elas conversavam, mas não tinha um sentimento envolvido. Com o tempo e com um amigo da Márcia que se aproximou delas, foram saindo, convivendo mais juntas, passaram a conversar direto, fazer umas brincadeirinhas… até que deram o primeiro beijo. Um mês depois, saindo do BRT (o sistema de transporte rápido do Rio de Janeiro), a Pethra organizou com os amigos o pedido de namoro: quando a Márcia saísse do ônibus, lá estariam eles, esperando com uma plaquinha. Ela aceitou e, neste ano, completaram 6 anos juntas. Quando a Márcia apareceu na vida da Pethra, ela chegou chutando a porta…. ou, quando a Pethra apareceu na vida da Márcia, ela chegou chutando a porta…. Foi tão mútuo que a gente nem sabe dizer quem chutou primeiro. Além disso, algo até mais potente na vida das duas é como elas teriam que, uma hora ou outra, se encontrar. A Márcia pode revirar os olhos não acreditando tanto nas coincidências do mundo (e nos sininhos! hahaha), mas essa é praticamente um fato: elas tinham que se encontrar. Acabaram se conhecendo quando Pethra foi trabalhar na loja em que Márcia gerenciava e, depois de um tempo, descobriram que a Pethra é amiga da melhor amiga da Márcia há mais de 10 anos e que a Márcia conhece a irmã da Pethra há muito tempo também - e que elas deveriam ter se esbarrado em várias festas e encontros, mas sempre acontecia algum imprevisto. Enfim, mesmo com tantas coisas em comum, foram se conhecer de uma forma totalmente diferente. Márcia Pethra

  • Isabela e Camila

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isabela e da Camila, quando o projeto passou por São Paulo! Hoje em dia, quando elas se encontram, tentam passar o máximo de tempo que conseguem juntas. Já rolou uma semana, mas geralmente investem nos feriados. Como ambas estão trabalhando presencialmente, a distância ainda é um problema difícil. Tentam também diminuir o peso da saudade conversando bastante e curtindo o começo do namoro da melhor forma possível. Fazem chamada de vídeo todos os dias, jantam juntas, se falam sempre antes de dormir e nos finais de semana conversam a maior parte do tempo em vídeo também, principalmente ao anoitecer, quando podem virar a noite assim ou praticamente dormir em ligação. A Isa comenta que, para ela, o amor demonstra ser acompanhado desse respeito e companheirismo, e ela sentiu que nasceu o amor quando entendeu que podia confiar plenamente, que podia se entregar e pegar na mão, estar de verdade com a Cami. E a Cami conta que amar uma mulher, mesmo não romanticamente, significa se sentir completa. É amando que ela encontra o carinho, a identificação, o cuidado, a escuta, o acolhimento… é tudo o que ela sempre quis e que nunca imaginou que conseguiria ter com alguém. Juntas aprendem diariamente um novo modelo de se relacionar, também. De estarem dispostas, de se doar. Foi sóóóó no fim de janeiro que elas realmente conseguiram aceitar que esse sentimento existia e que o próximo passo era fazer o encontro acontecer, afinal, já estava na hora. Até a família da Camila já sabia da existência da Isa e dessa paixão à distância (e apoiava que elas se encontrassem!), então ela embarcou no avião e voou até Guarulhos. Elas se encontraram no dia 13 de fevereiro e no dia 14 estavam namorando. Foi assim, literalmente, encontrou > namorou. Hoje em dia ambas famílias gostam bastante e apoiam, Inclusive a família da Isa, que adora todas as vezes que a Cami vem até São Paulo. Elas já andam com aliança e tudo. Fizemos mil piadas sobre a corrida e sobre o tanto que a Isa correu de dezembro até fevereiro, em círculos, foi formando a aliança. Depois foi só parar de correr e vestir no dedo. Simples assim. Sem traumas. Ela entendeu que foi isso mesmo, só ela não enxergou, no fim estava na cara que isso aconteceria, sempre esteve. Mas respeita também porque foi o tempo dela e fica feliz da Cami ter entendido isso e não imposto nada que ela não se sentisse realmente à vontade de viver. A Cami e a Isa se conheceram através do Instagram, de uma forma bastante aleatória. A Cami, no começo de 2020, postou uma foto com uma atriz que tanto ela, quanto a Isa, gostavam muito: a Renata Toscano. Ela marcou a Renata e a Isa viu essa foto, por conta de ser administradora de uma página de fãs dela. Como ela ainda era pouco conhecida no Brasil, decidiu seguir a Cami e as duas se falaram rapidamente e a Cami compartilhou que que também tinha vontade de criar conteúdos enquanto fã, então mantiveram breves contatos, mas ainda sobre coisas pontuais. Com o início da pandemia e a agenda da artista no Brasil não dando continuidade, a Isa até deu dicas para a Cami fazer um Twitter porque era uma rede social mais fácil para fãs se comunicarem que o Instagram; ela fez, mas com o tempo elas foram deixando de se falar aos poucos. No decorrer do ano e, dessa vez, no Twitter, elas se deram um pouco melhor e entenderam que ambas se relacionavam com mulheres, o que fez com que se identificassem mais, já que o restante do meio ainda era bastante heterossexual, então aos poucos acabaram fazendo uma amizade. Nessa época, a Camila namorava e era muito fechada sobre o seu relacionamento, elas falavam muito pouco e não havia possibilidades da amizade delas ser mais que uma amizade, nem se passava pela cabeça de ambas um flerte ou algo do tipo, o assunto era realmente sobre fã clube. Depois de um tempo, elas descobriram outras séries em comum e, entre setembro e novembro, quando a Cami passou pelo processo de término, começou a se abrir sobre seu relacionamento para a Isa. Foi entre dezembro e o ano novo, um tempo depois do término e de já estar solteira, que ambas começaram a perceber que poderia surgir um sentimento a mais na amizade das duas. A Cami tentou falar sobre e conversar com a Isa, que reagiu da forma que soube: correndo. Hahaha! Ambas brincam sobre, mas a verdade é que ela correu o máximo que conseguiu. Evitou sentir, falar, mas ao mesmo tempo não deixou de conversar diariamente com a Camila. Ou seja, uma hora, iria ter que lidar com isso. A Isabela e a Camila, mesmo estando há pouquinho tempo juntas, constroem uma relação muito bonita ligando São Paulo, capital, com Itajaí, cidade no interior de Santa Catarina. Elas se conheceram pouco tempo antes da pandemia, de forma online e aleatória, através do Instagram, ficaram amigas e só foram desenvolver um sentimento e se encontrar realmente em 2021! E, neste ano, além do relacionamento estar acontecendo, se permitiram também viver um novo tipo de relação, de comunicação e de cuidado. ♥ Isabela tem 25 anos, mora em São Paulo e trabalha enquanto auxiliar financeira em uma imobiliária. Tem sua formação em direito, mas nunca atuou e nem pretende seguir carreira na área. Sonha mesmo em fazer pedagogia. Foi por isso que deu início a esse trabalho na imobiliária, para conseguir bancar os estudos e ter maior independência financeira. Ela brinca que esses ERAM os planos, porque hoje em dia, nem sabe se vai continuar morando em São Paulo e, enquanto ouço essa frase, a Camila fala no fundo “ela vai mudar pra Itajaí!!! Vai mudar!!!”. A Camila tem 20 anos, mora em Itajaí, interior de Santa Catarina e trabalha enquanto analista de crédito, em contato direto com o cliente. Ela cursa ciências contábeis e gosta bastante de morar em Santa Catarina, por mais que esteja gostando das idas para São Paulo de vez em quando também. Isabela Camila

  • Karine e Clara

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Karina e da Clara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Clara e Karine são muito amigas, conversam sobre tudo. Hoje em dia entendem o que passaram e respeitam o papel importante que isso teve na história delas. São muito parceiras e, mesmo de um jeito tímido, transmitem muito afeto. Sentem que o amor entre mulheres significa resistência. Elas amam ir para o parque de Madureira, para o cinema, para lugares com natureza e olhar para horizonte enquanto conversam. Quando perguntei qual modelo de cidade elas gostariam de viver, disseram que sonham em poder andar na rua sem medo, sem comentários ruins - “que a gente pudesse ser livre de verdade”. A Karine tem 26 anos, é formada em administração e hoje em dia trabalha com contabilidade. Ela sempre foi uma daquelas pessoas únicas que encantam todo mundo, sabe? daquelas que são amadas por todos. E a Clara tem 24 anos, é professora de geografia e além de sala de aula convencional, atua no Emancipa - um curso popular. Está bastante envolvida na militância e disse que isso não é um hobbie, mas um papel que ela cumpre enquanto educadora. Elas se inspiram muito na história da Marielle e da Mônica Benício. Não só pela figura que a Marielle representa (sempre com cuidado e respeitando o verdadeiro significado que ela tem), mas também pela coragem da Mônica - elas citam que pensam muito na bravura e em tudo o que ela faz para conseguir ocupar o espaço que ocupa agora. Antes de terminarmos a conversa, me falaram uma das coisas que mais soou na minha cabeça nos dias seguintes: “A gente não tá fazendo nada de errado. A gente tá amando.” a palavra está com elas Karine: Eu nunca imaginei que me descobriria como uma mulher lésbica. A vida foi me dando várias dicas que foram sendo ignoradas pela falta de conhecimento e também por conta da invisibilidade que envolve o amor entre mulheres. Não ser hetero não é uma coisa que é ensinada para gente como uma possibilidade, mas eu me permiti viver, me permiti seguir o que eu estava sentindo. Me joguei de cabeça com muito medo de todo preconceito e julgamento, tanto pelas amizades que eu tinha quanto pela minha família, mas fui me aceitando do jeito que sou, acreditando no que eu sentia pela Maria Clara e no que ela sentia por mim. Se permita ser feliz, se permita viver a vida do jeito que você quer viver, nem sempre vai ser fácil, mas eu tenho certeza que pra tudo existe um jeito, uma outra perspectiva, tudo vai acontecendo até chegar no ponto em que dá certo. Com luta e persistência iremos conseguir uma sociedade sem preconceito e cheia de amor. Clara: O que posso afirmar é: se permita a viver o amor. Crescemos em uma sociedade que nos impõe sentimentos como culpa ou vergonha por qualquer ação que expresse a liberdade de nós mulheres. E isso é refletido na nossa capacidade de amar também. O amor é uma escolha diária e quando você escolhe amar outra mulher você se liberta. Sinto na alma o quanto é desafiador amar alguém e correr o risco de ser agredida ou morta apenas por ser quem eu sou, mas luto pela liberdade de ser uma mulher lésbica que apenas deseja amar sua companheira e ter uma casa com dois gatinhos. Foi depois de um tempo e respeitando o espaço de cada uma que começaram a aceitar a paixão que estava acontecendo entre elas. Porém, quanto mais se assumiram juntas, mais problemas no trabalho aconteceram. Como a Karine trabalhava na loja há anos, o baque foi mais forte - todas as colegas passaram a olhar para ela de forma diferente, fazer comentários ruins sobre a Clara, excluírem elas de conversas. O problema não era namorar alguém do trabalho, mas sim duas mulheres estarem namorando. A Clara era vista como a “sapatão destruidora de lares”, como se estivesse desvirtuando a Karine (que nesse meio tempo também estava passando pela aceitação própria). Toda essa pressão gerou diversas crises e problemas de saúde nelas (enxaqueca forte e ansiedade, por exemplo). Isso tudo tem nome e esse nome precisa ser dado: assédio moral no trabalho. Foi aí que surgiu a Praça Nossa Senhora da Paz, o lugar em que tiramos as fotos. Ao mesmo tempo que era muito difícil aguentar o trabalho oito horas por dia, era na praça que o fortalecimento delas surgia. Todo dia, no fim da tarde, elas sentavam e conversavam, descansavam, se cuidavam. Mesmo com a dor, a memória afetiva pela praça ressignificou tudo. O começo do namoro foi o mais difícil, mas foi nesse momento em que entenderam que juntas dividiriam o peso e passariam por isso. O mais difícil em toda a situação que viveram no trabalho foi o fato de sofrerem homofobia através de outras mulheres. Todas nós sabemos que somos hipersexualizadas por homens diariamente, que já sofremos muito na rua… mas sofrer isso num grupo de mulheres que tinham acesso à informação e que eram jovens, foi muito difícil. Eram nas saídas do trabalho que percebiam que podiam estar gostando uma da outra, pois chegavam no metrô, se despediam e ficavam uma de frente para outra em lados opostos da estação (sentido zona sul > sentido zona norte), por um bom tempo se olhando. O beijo, ou melhor, “o melhor beijo da minha vida”, segundo elas, foi numa dessas idas à casa da Karine. Dessa vez assistiram um filme grudadas e na hora de dormir, quando as colegas não estavam mais por perto, aconteceu. No dia seguinte, Clara tomou uma decisão ruim: ter uma DR (discutir a recém relação) porque não estava entendendo o que tinha acontecido. A Karine estava lidando como se tudo tivesse sido um sonho (ou um surto?) e não quis conversar, não conseguiu agir bem. Hoje em dia entende que ela só estava nervosa e que não conseguiu dizer ou demonstrar o que sentia, foi tudo muito repentino, era um misto de sentimentos e precisava se entender primeiro. Clara se sentiu muito frágil e triste. Então, foram embora e a cena do metrô foi diferente: ela entrou, o metrô fechou e pelo vidro olhou Karine do outro lado, até que ele se locomovesse. E aí, pra fechar essa baita cena de cinema, veio o quê? o play no Medo Bobo no fone de ouvido (e a lágrima querendo escorrer). Você já ouviu Medo Bobo, da Maiara e Maraisa? Então solta o play para ler essa história com uma trilha sonora digna. Ok, agora sim. Podemos começar. . . “Eu não queria encostar meu corpo no da Karine porque tinha medo dela sentir meu coração, de tão forte que estava batendo” Assim, entre risadas, Clara conta como foi o primeiro beijo. Clara conheceu Karine quando começou a trabalhar em uma loja, eram colegas e a Karine era a pessoa com mais experiência, então acabou sendo sua supervisora. A loja ficava no meio de Ipanema, bairro da zona sul do Rio de Janeiro. Clara morava de um lado da cidade, Karine do outro. Suas vidas eram bem diferentes, mas ali, dentro da loja, se encontraram. Clara sempre entendeu que gostava de mulheres, mas tinha medo de falar sobre isso no trabalho. Sempre se referia a alguém como “uma pessoa”, e não “a menina que estou ficando/minha namorada”. Karine se identificava enquanto heterossexual, não tinha sentido paixões por outras mulheres, mesmo que já tivesse beijado. Quanto mais a Clara sentia que não se encaixava nos padrões das mulheres que trabalhavam na empresa, mais ela sentia algo pela Karine. Trocavam olhares e aumentava a ansiedade, porque logo pensava que seria impossível rolar alguma coisa. Se sentia algum sinal, com a Karine demonstrando mais afeto, achava logo que era coisa da sua cabeça e assim seguia num amor quase que platônico. A verdade é que não era platônico, mas recíproco. A Karine estava começando a sentir algo por ela também e começou a criar situações para que pudessem ficar juntas. Desde chamar o pessoal para ir ao cinema - detalhe: isso no início empolgou muito a Clara, até que ela se viu sentada entre a prima e a irmã da Karine e assistindo um filme de anjos (!!) e saiu frustrada… (pode rir, mas com respeito kkk) - até convidar as colegas para passar uma noite na sua casa. < Karine Maria Clara

  • Juliana e Nicolli

    A Ju e a Nicolli sempre se apoiam muito, principalmente se os problemas são externos - dificuldades financeiras, saúde, família… quando falamos sobre outras coisas, além das nossas vidas, como a sociedade e a cidade (ou os problemas sociais), elas falam sobre o sul e o sudeste ainda serem muito privilegiados (e em geral, as capitais) por podermos andar na rua com as mãos dadas, por não termos tanto medo, por ao menos termos a coragem de darmos as mãos. Reiteram a necessidade do quanto ainda precisamos mudar o preconceito, o medo de sermos mulheres andando nas ruas sozinhas... e o quanto é preciso seguir uma apoiando a outra, seguir com as mãos dadas, não soltar. No fim da conversa percebemos o quanto a palavra coragem ficou em evidência durante todo o papo. Falamos em coragem por todos os momentos que elas passaram e que enfrentaram, por todos os problemas, todas as coisas boas também e tudo o que se é compartilhado. Além do mais, coragem por ser quase como um sinônimo de resistência também, e por reconhecermos o quanto fazemos isso o tempo todo: resistimos. Ambas sempre tiveram a família muito presente, das suas formas diferentes, com suas leituras diferentes, mas sempre estiveram ali. A Ju não é muito ligada em paixões tipo músicas ou filmes, o negócio dela sempre foi os bichos e a família. Ela comenta que a mãe dela é a maior inspiração de vida, por ter criado sozinha os filhos, sempre ter se mantido financeiramente da forma que foi possível, ter enfrentado tudo… e sempre ter ensinado todos à serem independentes e fazerem tudo dentro de suas próprias casas. Já a Nicolli, por mais que tenha como sua paixão maior o Grêmio, entende que um ponto mais difícil do seu relacionamento com a família foi o fato de performar a masculinidade ser visto com certo incômodo. Ela nunca recuou, entendia e respeitava seu corpo, enfrentou isso com coragem - e fala sobre o quanto ter coragem de usar bermuda, de cortar o cabelo curto, se você se sente bem, é fundamental. Hoje ela compreende um pouco mais, mas foi se mantendo firme e tendo uma relação mais independente, foi morando sozinha que as coisas realmente mudaram. Além de tudo, a família entendeu que ela é uma mulher adulta, que a sociedade também tem caminhado para entender mais sobre o amor entre mulheres e a mãe dela confia muito na relação dela com a Ju, então todas lidam de uma forma muito melhor com tudo. “Aos poucos o coração vai acalmando e as coisas vão se encaminhando”, ela completa. Foi por causa da família, inclusive, que a Juliana e a Nicolli se conheceram… ou melhor, elas se conhecem quase que desde sempre! Porque a Ju é uma das melhores amigas de infância da irmã da Nicolli. Ela brinca, inclusive, o quanto a Nicolli era uma criança daquelas insuportáveis - que a gente atura porque é obrigada. Ela ia buscar a Nicolli no colégio, tinha que ajudar a amiga a cuidar enquanto a mãe saía de casa… esteve por perto enquanto ela era menor, até a fase da pré-adolescência. Mesmo elas se conhecendo desde a infância, passaram muitos anos sem se encontrar, porque a irmã da Nicolli se casou, foi morar em outro estado e elas perderam o contato entre si. Depois de mais de 10 anos, aconteceu o divórcio e ela voltou para Porto Alegre querendo reunir algumas amigas (entre elas, a Ju)... e foi aí o momento em que as duas se encontraram novamente, saindo para festas e bares. Logo de início não rolou nada, elas conversaram pouco, ficaram amigas, a Nicolli até se fez de cupido e apresentou uma amiga para a Ju. O momento aconteceu mesmo no fim de uma festa open bar, em janeiro de 2019, em que a irmã da Nicolli foi ficar com um cara e elas queriam ir embora, e aí se olharam, foram naquela ideia de “não tinha nada para fazer”, estavam super bêbadas e resolveram ficar sem compromisso algum. Nos dias seguintes começaram a se relacionar, se beijavam de vez em quando em algumas festas, desenvolveram um sentimento… até que no primeiro dia de carnaval a Nicolli pediu a Ju em namoro, mas com uma condição: ela pediria em namoro desde que, no futuro, fosse a Ju quem fizesse o pedido de casamento! Alguns meses depois, passavam tanto tempo juntas que já praticamente moravam na mesma casa. Até que em novembro chegou o momento mais planejado e esperado: o pedido de casamento. Não sei vocês, mas eu não estava (nunca estou, na verdade) preparada para ver esse vídeo. O pedido rolou na Arena do Grêmio, lugar importantíssimo na vida delas, durante um GreNal (clássico Grêmio X Internacional), ao vivo para mais de 45 mil pessoas, no intervalo do jogo. Foi o primeiro pedido de casamento LGBT na história do Futebol. A família foi junto para apoiar, foi uma suuuuuuuuuper surpresa. Enfim, fica aqui o vídeo. ♥ O pedido ficou conhecido em todo o Brasil e para sempre ficará marcado na história do futebol, dxs LGBTs e nossa, das mulheres. É um gesto a ser muito comemorado e lembrado. O futebol ainda nos é muito negado por ser um espaço de predominância masculina, vermos duas mulheres num gesto de amor e carinho tão bonito, apoiado e aplaudido por tantas pessoas, de forma tão diversa, é único e vitorioso. Quando cheguei no apartamento da Juliana e da Nicolli, que fica em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a Nicolli também estava chegando, logo após fazer uma entrega. Fiquei curiosa para saber o que era e elas começaram a me contar sobre a Home (clica aqui pra conferir!! ), uma empresa que criaram juntas pela necessidade de terem uma renda fixa, após as duas ficarem desempregadas na pandemia. A Ju tem 31 anos e é analista financeira, a Nicolli tem 24 e é cozinheira. A Home é um projeto que envolve criarem um cardápio a cada dois meses e comercializarem enquanto opções de alimentação saudáveis, ricos em sabor, ousados, com bastante diálogo sobre o vegetarianismo e sobre comidas que envolvem qualidade. Começou como um jeito também de praticar diferentes técnicas na cozinha, e hoje, quase um ano depois, já montaram vários cardápios: árabes, massas, pizzas, comidas de botecos, padocas… tudo é super artesanal e se dedicar a isso virou a principal renda da casa. Foi encantador ver a forma que elas se organizam para fazer a empresa - e suas rotinas - acontecer. A Ju conta que foi na pandemia em que oficialmente começaram a morar juntas também e como as coisas têm se fortalecido assim. Claro, nem tudo é fácil. Para todos, ocorrem os momentos difíceis e incertos, trazendo diversas inseguranças e nos fazendo perceber tanto defeitos, quanto qualidades. São novos pensamentos que precisamos lidar, mas elas sentem que também estão aprendendo a conviver com seus espaços, construindo seu lar e alimentando esse sentimento de família que sempre foi tão importante. . Juliana Nicolli

  • Mariana e Barbara | Documentadas

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  • Alyce e Manu

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Alyce e Manu, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Em um momento prévio da nossa conversa a Alyce contou sobre um domingo em que ela e a Manu saíram de manhã para comprar chocolate e passaram por uma manifestação bolsonarista na praia. Ela ressalta que em nenhum momento elas pegaram na mão, nem se tocaram, mal falaram. E quando está falando sobre amar uma mulher, relembra dessa manifestação, sobre não tocar na Manu e diz uma frase que ecoou na minha cabeça por um bom tempo: “estar com uma mulher, infelizmente, é estar em um lugar que a qualquer momento pode ser tirado de você”. Ainda quando falávamos sobre este episódio da manifestação, falamos também sobre hoje em dia estarmos muito ocupadas tentando nos manter vivas, e que isso é o nosso foco e tem que ser o nosso foco, por mais que soe exagerado. Quando pergunto a elas o que elas mais gostariam de mudar no cenário atual sobre a sociedade em que estamos, elas respondem que dentre esse governo, ainda se sentem invisíveis. Exigem respeito, e para termos respeito precisaríamos investir em políticas de educação, em seguranças para acabar com as milícias (que, na realidade de São Gonçalo, por exemplo, toma cada vez mais espaço) (porém, não só, visto que cresce desenfreadamente por todo o Brasil). Comentam também sobre não se sentirem seguras, sobre sentirem falta de coletivos de mulheres lésbicas que possam acolher, gerar segurança, comunicação, para além dos meios acadêmicos, para as mulheres que ainda estão nas periferias. E que gostariam também de ver mais cultura sendo explorada em São Gonçalo porque só a cultura é capaz de unir e dar conta de salvar as pessoas de muitas coisas que nem conseguimos dimensionar que possam estar acontecendo. A história da Manuela e da Alyce te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quando falamos sobre o amor entre mulheres, a Manu diz sentir o amor enquanto algo desafiador e importante, mas que mais que isso, o amor entre mulheres, é um gesto político e revolucionário. Ela já se viu em muitos momentos refletindo sobre a quantidade de coisas que precisou enfrentar (e que as amigas ou que outras mulheres que já conheceu/que já se relacionou também precisaram enfrentar) para que pudessem viver o amor de forma livre e para que também pudessem aceitar esse amor em seus próprios corpos de forma livre. Estar vivendo um amor de verdade de forma tão saudável, hoje em dia, é algo muito grandioso. Já a Alyce, se refere ao amor enquanto acolhimento. Ela diz que amar é ter um lugar para voltar. É sobre revisitar também, porque você se revisita, revisita o outro, revisita momentos. E amar outra mulher é muito intenso porque essa pessoa sabe penetrar muito fundo no que você é, sabe entender e compreender. “Além de que, às vezes, você fala algo para a pessoa que você se relaciona e em pouco tempo depois ela consegue descrever tão perfeitamente coisas que são tão íntimas, porque ela compreende, se coloca no seu lugar, tem empatia”. Na época em que elas se conheceram, a avó da Manu, que mora no interior, estava pelo Rio, por conta da Manu estar passando por alguns momentos mais delicados devido ao psicológico não estar totalmente saudável e feliz. Então elas acabaram tendo um contato com a avó que criou a Manu e esse laço familiar foi naturalmente nascendo no relacionamento. Como em março de 2020 foi declarado o início da pandemia, elas só tiveram 4 meses de namoro em espaços de convívio social antes da quarentena. Conseguiram aproveitar vendo os amigos, indo para bares, shows, espaços de lazer, porém contam que ainda era um momento bastante inicial. Foi muito desafiador realmente conhecer alguém nesse contexto pandêmico e adaptar convivências com as famílias. A relação virou uma relação do agora, do presente, porque tudo foi acontecendo e elas foram se colocando dia após dia, “ninguém sabia como iria ser, só fomos vendo e vivendo”. Elas contam dos aniversários que passaram juntas e das formas que usaram a criatividade para se inventar, mas também falam sobre a maior dificuldade ser já estar aqui, mais de um ano após tudo ter começado, e ainda não enxergar um fim em saber quando que realmente poderão fazer algo fora de casa, planejar algo realmente na rua. Tentam se apoiar na ideia de agora estarem voltando a trabalhar fora aos poucos e de não estarem mais tão trancadas no apartamento, até pela importância da rotina ter mudado pelo fato de estarem vendo outras pessoas no trabalho/no transporte/na rua e o quanto isso melhora o nosso estado de espírito, e também comentam que o que faz com que elas segurem as barras e as dificuldades que sentem é poder conversarem sobre isso, terem uma comunicação aberta para falarem sobre suas inseguranças e sobre o que sentem perante a própria pandemia e os desafios que nos são colocados diariamente. A história da Manu e da Alyce aconteceu de uma forma aleatória, por conta de uma amiga que elas tinham em comum e que estava na casa da Manu, junto com outras pessoas em uma noite. Todo mundo comendo, bebendo, até que tocou uma música da Ana Carolina e essa amiga falou “gente, tenho uma amiga que é muito parecida, assim, de jeito, com a Ana Carolina…”, e a Manu respondeu “e por que você ainda não me apresentou???”, então a amiga mostrou o Instagram dessa amiga teoricamente parecida com a Ana Carolina, que era, a Alyce, cujo a Manu nem achou tão parecida, mas se interessou da mesma forma, então seguiu. A Alyce não seguiu ela de volta e na época a Manu tentava acompanhar o que ela postava nos stories para tentar puxar algum assunto, mas ela só postava sobre o trabalho, até que um dia postou uma selfie e o flerte estava lançado! Agora, pergunto, vocês acham que ela respondeu? Claro que não. Ou melhor, até respondeu, mas não correspondeu ao flerte. Elas conversaram, a Manu chamou ela para sair e ela topou, mas disse que sairia sem segundas intenções, porque não estava interessada. Combinaram assim, mas a Manu conta que na cabeça dela estava tudo planejado, quando chegasse o momento a intenção iria acontecer, era quase que uma questão de honra… “vai rolar, em algum momento, vai rolar”. A conversa seguiu por mais uns dias e a Manu chamou a Alyce para ir na casa dela beber, mas a Alyce achou meio absurdo, ficou pensando como ela iria lidar com os pais da menina logo no primeiro dia, não pensou na possibilidade dela morar sozinha, disse que preferiria ir em algum local público e o encontro não aconteceu. Mais um tempo passou e finalmente, depois de uma viagem da Manu e com a Alyce já entendendo que ela não teria que lidar com familiares, ela topou encontrar a Manu na volta da viagem e foi almoçar no apartamento assim que ela desembarcou. Elas brincam que foi o primeiro encontro mais aleatório possível. A Manu chegou de viagem do nordeste. A Alyce chegou com um engradado de cerveja e chocolates. Elas se encontraram ao meio dia, ela foi embora às onze horas da noite. E nesse meio tempo, o que aconteceu? elas beberam, em algum momento se sentiram com sono e, sim, dormiram. Abraçadas. Ou seja. Conhecer algum familiar no primeiro encontro? Jamais! Local público! Dormir abraçada no meio do dia com alguém que até então “não tínhamos interesse”? Aceitamos! Hahahaha. Tudo bem, Alyce. A gente te entende. ♥ Foi esse dormir abraçadas que conquistou tudo, depois desse dia, em outubro de 2019, não tinha mais volta, ficaram juntas. A Alyce e a Manuela são duas pessoas muito calmas e encantadoras. Visitei o apartamento da Manu em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, local em que passaram a morar juntas, mas a Alyce é natural de São Gonçalo, cidade vizinha. Foi um fim de tarde muito acolhedor, elas se apresentaram, eu falei sobre o projeto, caminhamos juntas na praia e conheci o lar. A Alyce tem 22 anos, é técnica em química, trabalha na FioCruz fazendo o controle de qualidade das vacinas da Covid-19. Seu trabalho envolve o laboratório biofármaco - e além das vacinas da covid, também fazem controle de outras vacinas como a da poliomielite, sarampo, febre amarela, etc. Além disso, como hobbie, em casa, ela ama cozinhar, é algo que realmente a distrai. Gosta de testar novas receitas e explorar novas coisas. Antes da pandemia trabalhava com pesquisas em meio ambiente e comenta sobre a responsabilidade e a importância que é trabalhar com uma causa tão nobre em tempos tão difíceis como os que vivemos atualmente. A Manu tem 23 anos, faz faculdade de estudos de mídias e atualmente está estagiando enquanto jornalista em uma escola. Lá ela faz cobertura de eventos, já trabalhou também em agências de publicidade e, pasmem, já publicou um livro. Alô, literatura LGBT, ela manda MUITO bem. O livro se chama ‘Diário de Guernica e Cartas de Amor’ e é só clicar aqui para comprar ♥ (apoia o trabalho dela!). Tanto a Manu, quanto a Alyce, desde o começo da conversa, ainda na praia, falaram coisas muito interessantes sobre a pandemia e sobre o tempo em que estão juntas, por passarem muito em casa e por estarem sempre se reinventando e se ajudando. Passar tanto tempo juntas em um apartamento fez com que elas se redescobrissem de muitas formas, mas fez com que, mais que tudo, elas sempre estivessem tentando se puxar para cima, se fortalecer e servir de apoio, de abraço, uma para a outra. . Manuela Alyce

  • Vanessa e Denise | Documentadas

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  • Clara e Karine | Documentadas

    Amor de Parceria - Clara e Karine clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Melina e Karyne | Documentadas

    Melina e Karyne se conheceram há cerca de dois anos, mas só começaram a se relacionar de fato no ano passado. Foi num famoso bar com karaokê em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, que elas se esbarraram. Sem amigos ou conhecidos em comum, Melina viu Karyne cantando e falou para os amigos dela o quanto “era bonita e poderia ser a mulher da minha vida”. Depois que ela saiu do palco, Melina ficou procurando ela pelo bar mas não encontrou, até que na hora de ir embora viu ela numa mesa, com alguns amigos… criou coragem, foi falar com ela e pediu um beijo. O beijo aconteceu e ficaram juntas um tempo, depois trocaram perfis no Instagram (e Karyne estava com seu perfil desativado, acabou passando um que usa para publicar seus desenhos), trocaram algumas conversas e começaram a se encontrar aos poucos. Como havia uma boa comunicação quando saiam juntas, falavam sobre não estarem em um momento que desejavam um relacionamento, não era prioridade para as duas. Se encontrar da maneira que estava rolando, uma vez por mês, quando a Karyne respondia as mensagens que Melina enviada, acabava sendo confortável - e quando saiam se divertiam juntas, iam à cinemas de rua (como o lugar em que fizemos as fotos), espaços culturais e bares. Assim seguiram durante um ano. Hoje em dia, estabelecer essa comunicação franca ainda está nos seus principais objetivos enquanto casal. Entendem que são pessoas culturalmente diferentes, que uma é mais fechada que a outra e que só vão se abrindo aos poucos. É por isso, também, que tratam com muito cuidado os momentos difíceis porque sabem que possuem formas diferentes de lidar. Melina estava com 26 anos no momento da documentação, é natural de Niterói - RJ e é atriz. Atualmente está se formando numa escola de teatro (como curso técnico) e este ano vai iniciar os estudos em teatro na universidade. Independente do estudo acadêmico, faz teatro desde os 8 anos de idade e já deu aulas tanto de teatro, quanto de violão (e adora trabalhar com o que envolve educação e arte) explica que foi educada envolta de muita arte e não se vê longe disso. Quanto aos hobbies, adora jogar vôlei e desenhar. Karyne estava com 24 anos no momento da documentação, é natural de São Gonçalo - RJ e se formou em Publicidade. Hoje em dia, faz uma pós-graduação em comunicação e linguagem visual em semiótica, e por mais que não esteja trabalhando no momento, possui experiência como social media, professora de inglês e comunicadora em agências. Seus hobbies permeiam a arte, o desenho, a pintura e a moda. Adora criar coisas. Inclusive, junto com a Melina, trocam diversos presentes cheios de detalhes e coisas que elas mesmo fizeram. Quando começaram a sair, em março de 2022, o primeiro encontro foi num evento circense no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) no Rio de Janeiro. Por mais que já haviam se beijado no bar, estavam muito nervosas e mal conseguiram chegar perto uma da outra. Karyne explica que Melina foi a primeira menina que ela beijou depois de se assumir, pois passou muito tempo na igreja e foi na pandemia que ela entendeu e se abriu com a família sobre quem era, então ficava bastante nervosa, era tudo bem novo. Todos os primeiros encontros eram marcados pelo nervosismo de ambas e ficavam se cobrando que “não precisava desse nervosismo todo, era só viver o encontro”, mas quando chegava a hora ele falava mais alto. Por conta disso, demoraram um tempo para se beijarem novamente, mas todos os encontros eram muito divertidos e sempre sentiam vontade de se ver mais. No início de 2023 foram ao cinema e tiraram a primeira foto juntas. Karyne, depois desse dia, passou um tempo em São Paulo e elas começaram a interagir mais de forma online, conversar bastante e sentem que foi aí que tudo mudou. Quando ela voltou, saíram novamente, foram em espaços culturais e não pararam de se encontrar por conta da conversa que mantinham o tempo todo online. Entendem que precisavam desse tempo até a relação começar porque realmente não estavam preparadas/e nem queriam se relacionar antes. Depois que começaram a se aproximar mais, fizeram piquenique juntas e já se viam completamente apaixonadas. Num dia foram ao show da cantora Liniker, que aconteceu de forma gratuita na praia e por mais que tenham passado muito perrengue para conseguir voltar para casa, se divertiram e entendem que nesse dia já queriam começar o namoro. Foi no evento, também, que Karyne conheceu a irmã da Melina e muitos dos amigos delas. Além dos amigos, Karyne conheceu toda a família da Melina logo no começo do relacionamento, esteve presente em aniversários e todos adoram ela. Nessa mesma época em que estava introduzindo Karyne na sua vida, Melina fazia provas e apresentação de teatro no curso e Karyne ia assistir. Foi num dia desses, quando chegaram em casa que Karyne pediu Melina em namoro e Melina cantou uma música que fez pra ela. Falaram “eu te amo” juntas. Tanto a Melina, quanto a Karyne, desejam seguir caminhos na relação que não refletem coisas que já viram ou vivenciaram, por exemplo: briga dos pais. Por isso, fazem muita questão de sentar, conversar, escutar, compreender… Karyne não tem a aceitação da família - e já até perdeu as esperanças quanto à isso - porque possuem um pensamento muito conservador e seguem os padrões da igreja, mas entende que isso leva tempo. Para Melina a realidade é outra, por mais que tenha sido muito difícil ter se assumido, os pais possuem uma cabeça mais aberta e, por mais que também frequentem a igreja, acreditam que elas precisam se sentir seguras em casa antes de qualquer outro lugar. Independente da não-aceitação da família da Karyne, ela se assumir e conversar com a família fez também com que se aproximasse de outros familiares que a aceitaram (como a prima que também é casada com uma mulher e a tia que já reivindicou o amor delas como algo natural, sem problema algum) e nesse sentido é muito bom ter apoio. Ela entende que existem coisas que precisou ceder para ser ela mesma, principalmente se as pessoas não respeitam, e está disposta a ser o que ela é, se aproximando de quem a respeita e quer ela bem. ↓ rolar para baixo ↓ Karyne Melina

  • Carol e Joyce

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Carol e da Joyce, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quando conheci a Carol e a Joyce nos encontramos num museu em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro e ficamos um tempo por ali, conversando e fotografando. Passamos a manhã juntas e logo entendi que elas seriam pessoas das quais eu gostaria de ter como amigas de verdade, como uma das conexões que o Documentadas propõe trazer para todas nós. Um tempo antes da história delas ser lançada aqui no site, estive no aniversário da Carol e ouvi uma fala, vindo de uma amiga próxima, sobre elas, que ecoou durante alguns dias: “São pessoas que adicionam na sua vida. Sabe? Pessoas que acrescentam. Não estão ali por estar. Elas sempre somam em algo. Sempre te trazem algo, não passam despercebidas”. Ouvir essa fala sem-querer (até porque foi realmente sem querer, já que a pessoa não falou para mim, eu ouvi de puro enxerimento) foi como ouvir um conselho - e levei a sério: desde então Joyce e Carol já frequentaram minha casa, compartilhamos rotinas, chamamos para almoços de família e planejamos incansavelmente andar de skate aos sábados de manhã. Começo esse texto dessa forma não por ego e vontade de mostrar um começo de amizade, mas por acreditar que isso descreve muito sobre quem as duas são. Quando conversamos, aquele dia lá em Niterói, Joyce falou sobre o quanto, para ela, amor significa compartilhar. Também ceder, doar, mas principalmente pensar nesse coletivo. O amor delas é sempre coletivo, elas abraçam sonhos. Tudo o que uma sente, a outra sente, então nunca é “meu”, vira “nosso”. Elas falam no coletivo - e, quando eu falo com elas, também falo no coletivo. É um “tudo bem com vocês?” mesmo que eu esteja falando com uma pessoa só no Whatsapp. Essa partilha fala sobre a forma que elas querem sentir as trocas e as vivências e na nossa conversa a Carol explica também o quanto ela aprende sobre olhar mais o outro, ouvir mais o outro lidando com todas as pessoas, mesmo fora do relacionamento. Elas destacam o quanto esse “doar” e ser “coletivo” não é apenas sobre coisas materiais, sobre dinheiro e sobre posse. Mas doar tempo, doar afeto, estar presente. Contribuir de alguma forma para deixar as coisas um pouquinho melhores. E ver a diferença que isso faz, entender o quanto isso acaba refletindo na vida de quem é atingido pelas atitudes e por quem toma a iniciativa… o quanto elas se ajudam profissionalmente, o quanto as amizades delas são agregadas por pessoas com propósito e o quanto a relação delas é construída por puro afeto. A Joyce tem 35 anos e é carioca, natural de Duque de Caxias, na baixada do Rio. Ela é topógrafa, mas trabalha com muitas coisas - pedreira, marceneira, costureira, restauradora, faz-tudo, decoração… mexer com coisas em casa é com ela mesmo! Já a Carol tem 37 anos e é vendedora em uma operadora de celulares. Ela sempre morou no mesmo bairro (e na mesma casa!) em Niterói, por mais que a gente brinca muito por antigamente ela ter tido uma alma burguesa e vivido na utopia de quem morava no Leblon. Essa brincadeira existe porque elas se conheceram há 12 anos atrás numa festa em Madureira, lugar que a Carol jamaaaais frequentaria (justamente por só frequentar festas na Zona Sul, consideradas para um público burguês) e estava lá por um acaso, quando desceu para ir ao banheiro. Foi nesse caminho que viu uma menina atrás da Joyce e achou ser uma conhecida, foi em direção dela e a Joyce a “puxou”, lançou um papinho e elas ficaram logo de cara! A Carol brinca que o baque foi grande, a perna ficou bamba e ela nunca tinha sentido isso na vida! Então chegaram à conclusão de que precisavam do contato uma da outra, né? Mas para a juventude de plantão, a gente explica: lá no ano de 2009, não era tão normal sair com o celular, ou seja, nenhuma das duas tinha como anotar telefone ou MSN. Foi aí que elas chamaram uma amiga que também estava sem telefone, mas que garantiu que decoraria o número… e não é que decorou?! Na segunda-feira elas se ligaram (assim, por linha móvel) e começaram a conversar. Ou melhor, ficou uma coisa meio estranha, né? Segundo a Carol, existem fases: teve a fase do monólogo, a fase de ficar horas, a fase de não saber o que falar… foram momentos super diferentes, mas o ponto é: elas não queriam namorar, apenas estavam curtindo aquilo. A Carol saia para outros lugares e depois ia pra casa da Joyce em Caxias, a Joyce também saia… ficaram um tempo assim até que Joyce começou a namorar outra pessoa, ligou um dia e pediu que a Carol não ligasse mais para ela e nem aparecesse mais na casa dela. Assim. Foi forte, mesmo, viu?! E aí a Carol logo pensou “Como assim, namorando??” e a ficha dela caiu por completo: “mas quem quer namorar você sou eu!”. Ela foi atrás e investiu: deixou claro o sentimento e pediu a Joyce em namoro. A Joyce aceitou e elas começaram essa aventura que vem durando 12 anos. Nesse tempo todo elas já moraram em Caxias, já foram para o interior do Pará por conta do trabalho da Joyce e ficaram lá por 1 ano (mas, pela adaptação difícil, voltaram ao Rio) e hoje em dia estão morando juntas em Niterói, com seus dois gatos e um lar muito aconchegante. A Carol comenta que acredita agora estar vivendo a melhor fase de todas no relacionamento delas, ou pelo menos, a mais saudável. Elas adoram andar de skate, de bike, acampar, fazer trilha, cross, rapel e pegaram muito gosto pela corrida. A Joyce passou por uma cirurgia para redução de peso e a Carol a acompanhou nesse processo passando também pelas dietas alimentares. Elas falam sobre como é um corpo gordo estar no esporte, como se sentem felizes fazendo trilha, andando de skate, fazendo rapel. E como se sentiam inseguras quando vestiam os equipamentos e recebiam olhares. Hoje em dia, tentam reafirmar cada vez mais o esporte como uma necessidade e um hábito para o corpo ser saudável e motivo de felicidade semanal para as duas. A Carol brinca sobre o espírito aventureiro da Joyce tornar a frase mais utilizada ultimamente ser “Joyce, cuidado!”, mas mesmo ficando preocupada, sabe que ela faz porque ama. E reforça o quanto a corrida têm salvo ela do estresse, principalmente em meio a pandemia. Por mais que elas já viveram diversas fases no relacionamento, sendo baladeiras, viajadas, morando em outros lugares e se permitindo outras coisas, viver algo mais voltado à saúde agora também está sendo prioridade porque elas começaram a perceber algumas coisas ao redor estarem um pouco diferentes. Isso aconteceu por pensarem sobre o envelhecimento. Elas querem se ver com saúde ao envelhecer e querem estar dispostas para fazerem as coisas sozinhas. Entendem que serão só as duas, que não podem contar com muitas pessoas, então o corpo é um aliado fundamental e precisa estar bem. No fim da nossa conversa a Carol falou sobre a união delas e sobre o amor - o amor em si ela enxerga como Deus, porque Deus está em tudo o que ela faz e quando ela coloca Deus nas coisas, essas coisas dão certo - e a união delas é como a luz da vida dela. A Joyce é uma pessoa que sempre traz ela de volta para onde ela deve estar (e o relacionamento traz muita vida à ela). Quando pergunto sobre onde é esse lugar que ela deve estar ela explica que é: “No pensar nos outros, na natureza, nos meus propósitos e justamente em me envolver com os meus propósitos. Me envolver no que estamos querendo deixar para as próximas pessoas, as próximas gerações, porque nada é em vão também. É reinício, reconstrução, fortalecimento.” Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Joyce Carol

  • Anne e Larissa

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Anne e da Larissa, quando o projeto passou por São Paulo! Foi trabalhando juntas que Anne e Larissa se conheceram, numa rede escolar, enquanto professoras de inglês. Trabalhavam em unidades distintas (ainda que em regiões próximas) e tinham uma amiga em comum, mas não se conheciam. Até que numa reunião entre equipes a Lari viu a Anne e se interessou, achou ela linda e decidiu falar com a amiga sobre. Se adicionaram no Instagram e aos poucos a amiga foi percebendo que realmente combinavam e decidiu ir criando uma ponte, instigando que uma fizesse contato com a outra. Até que aconteceu um evento na escola em que a Anne trabalha, em Campinas, e quando a Lari soube que precisavam de professores para participar do evento prontamente se disponibilizou. Trabalharam juntas o dia todo, no fim trocaram um “Nice to meet you” amigável, sem jeito… mas a verdade é que já estavam interessadas uma pela outra. Depois do dia de trabalho juntas, começaram a conversar de fato pelo Instagram demonstrando o interesse. Na versão da Anne, todo mundo no trabalho sabia o que estava acontecendo entre elas e colocava muita pressão, do tipo “Olha lá, a Larissa tá chegando!!”. Por isso ela até tentou puxar um papo, falar de uma tatuagem, mas não rendeu. Depois, quando começaram a conversar, o apoio foi imenso. Todos adoram elas juntas. Antes de assumirem o namoro, Anne teve Covid-19 e Lari acabou sendo a professora substituta dela na unidade escolar, então se falavam ainda mais. Contam como foi divertido também trocar nessa questão de trabalho, conversando sobre tudo - e nessa época Lari ficou mais próxima dos colegas de trabalho da Anne, descobrindo assim como ela é uma pessoa muito amiga de todos (e percebendo como eles também já sabiam da existência do romance delas). Não descartam o quanto estavam tensas por serem do mesmo trabalho (e por esse trabalho ser uma escola) ao assumir que estavam juntas. São profissionais, sabem das regras. No começo, concordaram que se não desse certo, Anne iria sair porque ela nunca teve a ambição de subir de cargo e trabalhar na coordenação (diferente da Lari, que sempre quis). No fim, Lari foi contar para a coordenadora. Contou enquanto também a convidava para ir ao seu aniversário e a reação não poderia ter sido melhor: Ela disse que já imaginava, tinha visto elas interagindo no Instagram, e tudo bem! Desde o primeiro momento entenderam que queriam construir um relacionamento juntas e isso ser aceito no ambiente de trabalho significou muito. Todos brincavam positivamente com elas, os colegas sempre quiseram ver o casal feliz. No momento da documentação, Larissa estava com 28 anos e segue enquanto professora de inglês - agora já está trabalhando parte do dia na coordenação. Além do trabalho, é muito ligada à família. Ama ficar em casa, com os gatinhos, dormir, tirar um tempo para fazer nada. Hoje em dia reside em Santa Bárbara d’Oeste, interior de São Paulo, mas nasceu em Americana e é lá que trabalha. Anne, no momento da documentação, estava com 33 anos. Nasceu na Bahia, numa cidade interiorana chamada Caetité, mas desde criança mora em Campinas. Segue trabalhando enquanto professora de inglês. Desde o começo o relacionamento vem representando uma série de mudanças para elas. Pela primeira vez, a Lari contou para os pais sobre a sua bissexualidade e Anne foi super bem recebida em casa, elas inclusive adoram esses momentos em família. Lari começou a gostar de futebol, assistir Star Wars e já tem até uma camiseta do Flamengo. Descobriu que é muito bom viver tudo isso ao lado da Anne porque como são coisas que ela ama, enxerga com muito brilho no olhar. Anne veio de uma família bastante religiosa e conservadora, então o assunto de se relacionar com uma mulher é muito mais delicado. Lari foi a única pessoa que ela resolveu dizer: “Estou namorando e quero trazer ela aqui em casa”. A primeira vez que contou para os pais sobre a sua sexualidade foi há anos atrás, mas não teve boa aceitação e desde então viveu como um silêncio. Um hiato enorme, uma agressão disfarçada porque não aceita quem ela é. Hoje em dia, depois de ter assumido novamente - dessa vez com a Lari - sentiu uma vontade de quebrar preconceitos vindo do pai, que se mostrou muito mais aberto a entender. Atualmente a Lari frequenta sua casa e elas sentem que tudo evolui aos poucos, mesmo não sendo fácil. Para o relacionamento dar certo, entendem que precisam respeitar seus tempos. Lari tem uma postura mais combativa nos momentos de desafio, enquanto Anne prefere ficar em silêncio, processando, mesmo que tendo companhia. Lari explica que é um aprendizado acompanhar a Anne nos seus processos e que nunca abrem mão da comunicação. Comunicam tudo, o tempo todo, desde coisas básicas (como o que querem fazer juntas) até conversas intensas sobre o que sentem. Pela primeira vez, Anne enxerga o relacionamento enquanto paz. Sente que em outras vezes que se relacionou, não só amorosamente, precisou fazer muito esforço para ser ela mesma, se sentir bem. Com a Lari não existe dificuldade para a paz existir. E amar também é isso, se sentir bem sem querer mudar o outro e nem se mudar para agradar. Uma grande compreensão de como somos, não de forma descartável, mas de ter tolerância. Lari completa dizendo que sente um amor que gostaria que todos vivenciassem. Lembra de um momento que o pai dela viu elas desenhando juntas e disse “Como vocês combinam, né?!”. Sempre teve sua referência de amor baseada na família e acredita que a Anne já atingiu isso: se tornou família pra ela, o amor que sempre acreditou. Um núcleo, algo muito mais íntimo. ↓ rolar para baixo ↓ Anne Larissa

  • Natasha e Jéssica

    Por mais que a história da Jéssica e da Natasha só tenha virado um registro no Documentadas depois de 6 meses de projeto no ar, ela chegou aqui lá no começo, antes mesmo de nos conhecermos, logo na segunda vez em que coloquei o corpo na rua e me dediquei a fotografar um casal: Quando a Rebecca e a Priscila, duas mulheres que já apareceram por aqui, me contaram empolgadas que havia uma história que eu precisava conhecer. Eu ouvi um “É tipo aquelas histórias de mulheres que tão juntas há muito tempo! Que a vida deu várias voltas. Elas se reencontraram e agora ela se mudou para Porto Alegre e se casou nesse reencontro! É a minha prima! Vou te passar o contato dela!” e bem que pensei “É possível! Eu vou passar por Porto Alegre em breve.” Quando encontrei a Natasha e a Jéssica em Porto Alegre e conheci toda a grandiosidade da história entendi que as mulheres realmente fazem tudo - e que a vida sempre dá uma forcinha quando quer nos juntar, né? A Natasha e a Jéssica se conheceram há muitos anos atrás, por conta de uma amiga em comum, quando eram adolescentes. A Jéssica é natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e a Natasha é natural do Rio de Janeiro, a capital. Ambas conversavam pela internet e participavam de comunidades no Orkut sobre gostos em comum, entre eles, uma série chamada Buffy. O que tinha de mais especial que unia a série é que elas já gostavam muito, até que em certo momento a série virou uma febre e aconteceu o surgimento de um casal LGBT, sendo uma referência muito grande para diversas adolescentes daquela época. Foi por conta desse casal, da série e das comunidades no Orkut e dos grupos no MSN que a Jéssica e a Natasha realmente se aproximaram, mas a Jéssica tinha uma visão de que a Natasha era meio “doidinha”... ela chegava das festas de madrugada e ficava online, era muito agitada… enquanto a Jéssica era mais tímida e mais quieta. A Jéssica se envolveu com uma amiga em comum da Natasha, um tempo depois elas terminaram e, como ela conversava muito com a Natasha, surgiu o convite de conhecer o Rio de Janeiro. Elas eram super jovens, tinham 18 anos e ela decidiu ir passar as férias por lá. Assim que se encontraram no aeroporto entenderam que havia algo diferente e, no fim das férias, já estavam namorando. Naquela época, sem a existência dos sinais de wi-fi ou internet móvel, o que restavam eram as contas de telefone - por sinal, caríssimas. Então acabaram assumindo o relacionamento à distância quando a Jéssica voltou até Porto Alegre e se encontravam cerca de três em três meses, dependendo das circunstâncias. Até 2009 o namoro aconteceu nessa distância, quando os pais da Natasha se mudaram para o interior fluminense e a Jéssica decidiu morar no Rio de Janeiro. Foi uma realidade bem diferente. Elas dividiram o apartamento, porém entendem que eram muito jovens, tinham 19/20 anos, eram bastante imaturas, trabalhavam como estagiárias, queriam ser independentes mas na verdade ganhavam pouco e os pais eram quem bancavam as contas da casa. Elas também construíam uma relação com bastante ciúme, então criavam desgastes e atritos que acabavam gerando desconfiança, era muito difícil suportar. Foi quando a Jéssica começou a se sentir sem liberdade dentro do relacionamento e entendeu que era o momento do término e voltou a morar em Porto Alegre. Hoje em dia, a Jéssica e a Natasha estão com 33 anos. Jéssica trabalha como administradora e logística na parte de planejamento de produção em uma empresa de laticínios e Natasha é formada em gestão financeira, mas atua na área de planejamento e controle orçamentário. Elas brincam que não são o tipo de casal que gosta de ficar em casa dormindo, mas aquele que ama viajar. Que cria roteiros, que quer comprar um carro e andar pelo mundo! Elas gostam de se movimentar, de conhecer lugares, desbravar a alimentação local, conhecer as culturas e viver cada lugar, cada ambiente e cada espaço como uma experiência única. Em um momento da conversa elas me contaram sobre se permitirem sonhar e sobre uma situação que viveram juntas quando eram mais novas… e que esse sonho não precisava ser um sonho grandioso, mas se permitir pensar no futuro, mesmo. A situação era um show da Ana Carolina que foram quando moravam juntas no Rio e que estavam naquela primeira fase do namoro, sendo bem jovens e se conhecendo… Contam que viram vários casais de mulheres mais velhas, elegantes, bem sucedidas e se perguntaram “Será que um dia vamos ser assim?” e que hoje em dia são. Além de se reconhecerem e de reconhecerem o quanto conquistaram juntas, falam sobre ter sido a primeira vez que viram mulheres lésbicas bem sucedidas, lésbicas mais velhas se amando. “Foi muito marcante porque era muito longe de nós essa realidade”. Depois do término, quando a Jéssica já estava em Porto Alegre, elas mantiveram contato e até tentaram voltar e seguir o relacionamento à distância. Durou alguns meses, mas acabaram terminando de vez, em comum acordo. Este foi o terceiro e último término (o primeiro foi lá no começo, por iniciativa da Natasha)... e dessa vez, como última, parecia ser definitivo. Ficaram 5 anos separadas. Viveram a vida, seguiram amigas, tiveram outro relacionamento, ou melhor, casamentos (!) e tal. Até que conversaram em 2016. A Natasha estava solteira e elas mantinham amizade e se falavam raramente nesses 5 anos, por mais que nunca tivessem se visto e não havia maldade, de verdade, era apenas um querer-bem. E num dia, no Rio de Janeiro, ao se arrumar para sair com a prima (a Rebeca!) a Natasha conversando sobre ex namoradas comentou que a única namorada que seria capaz de se ver voltando a ter um relacionamento seria a Jéssica, mas que isso jamais aconteceria, até porque a Jéssica estava “casadíssima”, vivendo outra vida, sendo feliz “lá no sul”. Não sei se por coincidência ou que nome vocês querem dar a isso, mas literalmente no dia seguinte a Natasha descobriu que a Jéssica terminou o relacionamento - quem contou foi a própria Jéssica, em uma mensagem toda sem jeito. Elas voltaram a conversar e a Jéssica tinha uma viagem marcada, mas cancelou e decidiu fazer uma ida até o Rio e São Paulo para não perder as férias. Preciso contar o resto? São Paulo que lute, né? Ela ficou foi pelo Rio mesmo, com a Natasha… mas nos últimos dias de férias aqui, decidiu: “Não quero voltar a morar no Rio. Dessa vez, se for para ficarmos juntas, você vai para Porto Alegre comigo”. E a Natasha? Aceitou na hora. A Jéssica disse que nem acreditou no que ouviu, nem esperava um “Sim” tão rápido! A mudança, de fato, aconteceu. E não só a mudança, mas o casamento! Que foi exatamente na mesma data, 10 anos depois, do dia em que começaram a namorar - lá em 2007. A vida é cíclica. ♥ No dia do casamento, elas se juntaram aos amigos e fizeram um churrasco. Inclusive, também neste dia a Natasha recebeu a notícia de que havia passado em uma entrevista de emprego lá em Porto Alegre. Foi tudo acontecendo em conjunto e elas foram se adaptando à cidade e ao novo momento da vida. Hoje em dia, se enxergam muito diferente do que há tantos anos atrás, mas em geral entendem que o amor só ficou tão forte porque sempre foi muito moldado com respeito e admiração - e claro, a confiança e o apoio foram chegando como um bônus e crescendo na base também. Elas brincam, no fim, sobre já terem ouvido colegas de trabalho falarem sobre não aguentarem mais os maridos dentro de casa em seus casamentos e acrescentam como amar mulher é algo maravilhoso: são mais de dez anos e nem passa pela cabeça um dia em que se torne insuportável viver um amor tão bom. ♥ Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Jéssica Natasha

  • Luciana e Viviane

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luciana e da Viviane, quando o projeto passou por São Paulo! Luciana, Viviane e a pequena Ester moram em Campinas, interior de São Paulo e constroem o que chamam de “família real”, sem coisas artificiais envolta. Amam cozinhar, comer, brincar, ler e assistir TV. A casa é cheia desses detalhes que fazem elas serem quem são. Depois de saírem de São Paulo e mudarem para Campinas por conta do trabalho da Lu, viveram um relacionamento à distância e aos poucos a Vivi foi se mudando para lá, até conseguirem um apartamento só delas. Nesse período, começaram a reformar o novo lar pelas próprias mãos - queriam que tivesse lembranças de viagens, uma biblioteca-bar, decorações que as representassem… A Ester, inclusive, escolheu a cor do quarto e ajudou a pintar. Tudo na relação começou do zero e pessoalmente (sem internet auxiliando) e isso, pela visão delas, foi ótimo porque proporcionou uma grande comunicação. Além disso, Vivi conta que depois do relacionamento com a Lu aprendeu a ter fé. Lu é muito ligada na fé em geral - não só a religião, mas a fé de todas as formas. Em Exu, nos orixás e também em Deus. Lu completa que tem essa fé por tudo o que já viveu e construiu, mas que não espera nada sentada, batalha o tempo todo pelas melhores coisas. Luciana, no momento da documentação, estava com 38 anos. É natural de São Paulo e chegou em Campinas por conta de um concurso, há cerca de dois anos atrás. É professora de rede pública. Começa a história contando que em 2020 teve uma conversa com uma entidade chamada Exu Caveira e que isso virou a vida dela de cabeça para baixo em muitos aspectos. Soube de uma força que estava na hora de despertar, libertar e recomeçar um modo de vida. Em 2015 tinha passado no concurso de Campinas mas nunca foi chamada, eis que recebe o e-mail chamando depois da própria data limite do concurso ter expirado. Cronologicamente, aconteceu assim: a conversa foi em novembro de 2020, conheceu a Viviane em dezembro de 2020 e em janeiro de 2021 decidiu a mudança para Campinas. Viviane, no momento da documentação, estava com 30 anos. Também é natural de São Paulo, residindo agora em Campinas, trabalha enquanto agente de viagens. Há 14 anos é DJ e agora em Campinas tem um novo hobbie: o teatro. Em dezembro de 2020, Vivi estava vivendo uma fase bem difícil. Passou por um relacionamento abusivo, não estava se sentindo bem. Depois do término, uma amiga em comum que tinha com a ex-namorada quis manter contato com ela, afinal, sempre se deram bem e tinham hobbies muito fortes como a paixão por Harry Potter em comum. Num sábado a amiga convidou para ir no aniversário da sócia dela, que era adivinha quem? Luciana. Vivi não deu muita bola, já que não conhecia a Lu, mas considerou porque o local era perto da casa dela. Começou o sábado bebendo whisky com o pai - uma tradição que manteve durante muito tempo - e decidiu ir. Chegou lá nem sabendo o nome da aniversariante, mas ficou muito surpresa porque foi bem recebida, acolhida e amada. Foi com a Ester sua primeira interação no aniversário. Ester estava brincando e ela entrou na brincadeira, também dividiram brigadeiros. Quando foi interagir com a Luciana, perguntou sobre o pai da Ester e entendeu que não havia mais relação com ele, Lu estava solteira. Durante a festa, tiveram uma interação mais próxima e entenderam: queriam se beijar. Dançaram, interagiram e o beijo aconteceu. Ninguém entendeu nada ao redor e Vivi ficou completamente suja de batom vermelho. Destacam sobre uns homens que tinham chegado com bebidas achando que iriam ficar de par e ofereceram um copo gigante de vodka com energético para a Lu, por ser aniversariante. Ela negou e bebeu o whisky da Vivi na hora (virando o copo!) e foi aí que Vivi sentiu a pontada de paixão chegando. Ficaram juntas naquela noite e antes do fim do ano decidiram se reencontrar. Quando 2021 começou, Vivi foi passar as férias no interior com a família e recebeu a notícia do concurso/da mudança para Campinas que a Lu iria viver. Estavam conformadas de viver uma relação à distância, já que desejavam estar juntas, mas tudo era uma incógnita. Vivi decidiu viajar com a Lu até Campinas para assinarem os documentos, conhecerem a escola e a cidade, deu muito apoio. Quando Lu fez a mudança, viveu um mês em airbnb com a Ester (que estava também procurando uma escola para estudar) e nesse período Vivi ficou com elas durante uma semana, mas foi uma experiência bem difícil. Ester sentiu muito ciúme, reagiu mal, ignorou a presença da Vivi durante dias. Num momento, Vivi chorou porque entendeu que não iria ser fácil. Ester, nesse momento da nossa conversa, deixa tudo às claras: superou o ciúme e hoje são melhores amigas. Depois desse primeiro mês, conseguiram alugar um apartamento (que fica no mesmo condomínio que elas moram hoje em dia). Vivi ajudou na mudança e passou um bom tempo intercalando entre São Paulo x Campinas. Em 2022, Vivi estava dando uma caminhada pelo condomínio e viu alguns apartamentos à venda. Pensou que seria muito bom terem um lar só delas ali, a Ester já estava adaptada e adora brincar no parquinho, tudo já estava bem instalado. Visitou um apartamento e decidiu que seria delas. Começaram os contatos com contabilidade, advogados, banco, indo atrás de documentações… e foi tudo absurdamente rápido, se encaixando. Quando viu já estava com as chaves em mãos. Foi aí que decidiu se mudar definitivamente para Campinas. Nesses processos, aconteceram os pedidos de namoro e de casamento. No pedido de casamento, Lu fez uma surpresa, Vivi nem imaginou. Quando estavam no restaurante, viu um garçom passando com um buquê gigante e disse “Nossa que legal! Certamente alguém vai ser pedido em casamento hoje!” até que viu o buquê vindo para ela. Brincou com a Lu que ela teria que ajoelhar, fazer tudo direitinho. No pedido, a Ester fez um vídeo convidando-a para fazer parte da família. E Vivi finaliza contando que sempre quis casar e sempre soube que gostaria de ser mãe - sente que agora estão completando seus sonhos. ↓ rolar para baixo ↓ Viviane Luciana

  • Lilian e Marcella | Documentadas

    O encontro da Lilian e da Marcela com o Documentadas aconteceu poucos dias antes do casamento delas - que não seria nada convencional - um casamento temático de festa junina! Nos encontramos em sua casa (que também é o lugar onde trabalham sendo padeiras) e estavam entre muitos preparos: desde as últimas encomendas da padaria, pois sairiam de férias/e lua de mel logo após a cerimônia, até as preparações do casório porque tudo foi feito entre muitas mãos - comidas, decorações, lembranças… não contrataram buffet ou empresas para isso, contaram com os próprios serviços e de amigos que também trabalham com gastronomia. A festa foi dedicada a reunir pessoas que amam e fazer todas se sentirem bem: que vistam se sentindo bem, comam bem, dancem, brinquem, se divirtam. Todos estavam muito empolgados, inclusive as contratadas, que são apenas mulheres - fizeram questão disso e foram atrás até de banda de forró sapatão, que fez com que a festa ficasse muito mais animada. Conversamos sobre entender a instituição casamento com o recorte de se tratar de duas mulheres e em tudo o que isso envolve. Por mais que existam várias críticas sobre essa instituição e seus conservadorismos, existe também o lado político pela importância de ter um documento que afirma esse amor. É muito importante o evento, a celebração. Reconhecer que os familiares estão viajando de longe para celebrar esse amor que sempre nos foi negado, que toda relação heteronormativa é celebrada e comemorada o tempo todo, mas entre duas mulheres fomos colocadas num espaço de não-celebração, ficamos minguadas, podemos até beijar mas não demonstrar tanto, não abusar da demonstração… Então celebrar um casamento é celebrar MESMO. Celebrar com vontade. Ter quem você ama celebrando com vocês. Celebrar duas mulheres amando. E, para elas, o casamento só faria sentido se fosse vivido assim como será: com todas as pessoas lá, de forma coletiva. Elas construíram essa relação pensando no mundo que acreditam. Se sentem confortáveis, acolhidas. Sentem que a relação é uma grande mesa com comida e todos ao redor, compartilhando. Lilian, no momento da documentação, estava com 30 anos. Nasceu no interior do Espírito Santo, num município chamado Pinheiros, mas cresceu em Vitória, na capital. Ao completar o ensino médio foi para Mariana, em Minas Gerais, cursar história e durante a faculdade descobriu a disciplina de antropologia da alimentação. Quanto mais estudava, mais se interessava e ao finalizar a graduação começou a estudar gastronomia. Ao se mudar para Minas Gerais, não tinha conhecimentos em culinária, mas aprendeu pela necessidade e a primeira receita que fez por vontade própria foi pão de fermentação natural. Começou a ser um hobbie, mas logo se viu pesquisando mais sobre panificação e misturando a panificação com seus outros estudos dentro da gastronomia. Foi então que conheceu uma pesquisadora chamada Neide Rigo, que explica sobre plantas, hortas na cidade, sobre o que plantar > o que comer, e consumindo os conteúdos que essa pesquisadora publicava conheceu um restaurante em São Paulo, o Maní. Viu que estavam com inscrições abertas para trabalhar por um período, se inscreveu e passou, foi assim que sua mudança para São Paulo aconteceu, em 2018. O período de trabalho seria, inicialmente, de 4 meses, mas virou uma contratação e ela se oficializou enquanto padeira. Conta como foi incrível, não conhecia mulheres padeiras - ou melhor, conhecia uma só que acompanhava o trabalho e admirava. Foi uma grande realização profissional. E, para além da padaria, ela segue adorando cozinhar e descobrir receitas, inventar festas temáticas com comidas temáticas para reunir os amigos e familiares, pesquisar sobre culinárias e culturas. Marcela, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é natural de São Bernardo do Campo, mas cresceu em uma cidade pequena chamada Dracena, no interior de São Paulo, onde viveu até os 17 anos. Cresceu numa família bastante grande e tradicional e passou pelo seu entendimento de gênero e sexualidade bastante cedo, então não se sentia bem no lugar onde morava, decidiu sair da cidade e se mudar para Campinas, também em São Paulo, para cursar faculdade de Artes Cênicas. Lá, durante 4 anos, se sentiu muito feliz e viveu diversas descobertas. Em 2018, precisava de maior independência financeira e procurou uma nova fonte de renda: começou a fazer pão de fermentação natural em casa. Depois disso, procurou trabalho na área, indo em padarias e oferecendo o seu serviço. Conseguiu trabalhar em uma padaria e depois disso se organizou financeiramente para se mudar para São Paulo (capital), até que em 2019 a mudança aconteceu. Logo que chegou na cidade, fez o mesmo que havia feito em Campinas: foi de lugar em lugar oferecendo seu trabalho. O primeiro lugar que ofereceu foi na padaria do Maní e a chamaram para alguns freelancers, então vez ou outra ela ia cobrir alguém, inclusive a Lilian, quando tirou alguns dias de férias. Depois desses freelas, ela foi contratada de fato. Quando começaram a trabalhar juntas, conversavam bastante. Lilian é muito acolhedora, conta que isso vem de família, aprendeu a acolher, conversar, receber bem as pessoas porque sua família é assim. Na época, ela morava em um apartamento dividindo lar com amigos e apresentou essas pessoas para a Marcela, inseriu ela na sua vida e logo viraram amigas. Marcela também foi se abrindo, contou que recém estava solteira, que queria desbravar São Paulo, aproveitar a cidade, não queria namorar. Aos poucos, às vezes se olhavam de um jeito diferente enquanto trabalhavam. Lilian percebia um jeito da Marcela observar… Até que um dia Marcela chegou um presentinho para ela, entregou e disse: “Não significa nada”. Quando Lilian chegou em casa, contou para a amiga e a amiga disse: “Significa!!! Ela te quer!!”. Num dia, saindo juntas, alguns meses depois de terem começado a trabalhar, se divertiram, foram em vários lugares até que Lilian perguntou o que estava significando aquilo. Marcela respondeu algo que Lilian até hoje acha muito legal, ela disse que achava que estava apaixonada pela Lilian, não sabia se era romanticamente, mas que adorava passar um tempo com ela, estar ali, adora a amizade e que sentia vontade de beijá-la. Lilian disse que sentia também, e assim elas se beijaram. Desde então elas ficaram juntas, mas Lilian tinha uma mudança de vida planejada: ela iria para a Espanha. Já havia desfeito a casa que compartilhava, vendido suas coisas, pedido demissão da padaria… Sua vida havia se resumido em uma mala. Passaram o final de 2019 juntas e em fevereiro de 2020 Lilian saiu de fato do trabalho, até lá elas estavam apenas vivendo, se divertindo, sabiam que a separação viria em breve. Os planos da Lilian eram visitar seus amigos em Minas Gerais, a família no Espírito Santo e se mudar de vez para a Espanha. Porém, dias antes, chegou a pandemia de Covid-19. Quando isso aconteceu, ela estava hospedada na casa de um amigo, uma kitnet em São Paulo, esse amigo havia acabado de se mudar para cursar medicina na USP e ele orientou: “Estão correndo boatos de que isso aí vai durar uns dois anos no mínimo”. Ele decidiu não ficar em São Paulo e deixou a kitnet com ela. Ela chamou a Marcela e ficaram juntas, mas não tinha nada: trabalho, roupa, perspectiva… os primeiros meses foram de espera, até que a ficha foi caindo porque o restaurante que ela iria estagiar na Espanha fechou, precisou devolver as passagens da viagem e entendeu aos poucos que o sonho acabou. Marcela também foi demitida, precisavam repensar tudo. Em abril decidiram anunciar aos amigos que iriam fazer pão para vender e, logo no primeiro anúncio, foram dois dias de fornadas. Depois, perceberam que trabalharam mais de duas semanas sem parar - e se organizaram melhor. Transformaram a kitnet numa padaria, assim foi seu sustento até novembro, quando se mudaram para um lugar maior. Ressaltam como foi muito importante as pessoas terem comprado de quem faz durante a pandemia. Esse foi o contato humano, foi o que nos uniu mais. Entre o final de 2020 e 2021 moraram em uma casa que possuía mais espaço e lá produziam em maior escala, até que chegaram no lugar que estão agora. Hoje em dia, possuem um espaço separado na casa onde acontece a produção e destinam suas vendas principalmente para pessoas jurídicas, ou seja, outras empresas e restaurantes. Se dão muito bem trabalhando juntas, adoram o que fazem e Marcela acredita muito que o amor entre mulheres está presente nessa torcida que uma tem pela outra, nesse fortalecimento. Vivem uma amizade muito potente dentro desse amor. Lilian concorda: talvez por ser tão poderosa é que muitos temem. São muito matriarcais, cuidam e zelam umas pelas outras. ↓ rolar para baixo ↓ Marcella Lilian

  • Priscila e Rebecca

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Priscila e Rebecca, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Perante as questões dentro de casa, elas sentem que não existem problemas entre elas - na relação em si. Os problemas são sempre sobre o cotidiano e sobre a moradia, mas elas, enquanto casal, tem uma conversa aberta e se apoiam muito juntas. Sonham com o momento em que a Rebecca vai se formar (em breve!) e que poderão deixar de fazer o DogHero, para assim poderem alugar um apartamento e viver entre suas profissões, nos hospitais e nas indústrias. Elas passaram por muito terror psicológico pelo medo de trocarem carinhos dentro de casa, por conta do preconceito. A Rebecca, durante a nossa conversa, comenta sobre a LGBTfobia e sobre como a dor fica mais forte sendo vivida dentro de casa. Mas entendem que este é um período provisório e que logo vão se estabilizar e ter seu próprio cantinho. Para a Priscila, amor é se doar. Doar tempo, doar cuidado, doar atenção. Elas comentam que isso sabem fazer muito bem: amar (e por decorrência, se doar). Se doam para ver a família bem, o relacionamento bem, a amizade entre o casal sempre cultivada e cuidada. Se tem uma coisa que gostam muito de fazer, essa coisa é conhecer novos lugares. Gostam de ir para os bares, mesmo quase não tendo feito isso em 2020 por conta da pandemia. Gostam de viajar, de ver gente. O que mais fica claro, durante toda a conversa, é o quanto o amor delas significa parceria. Tentam dividir qualquer tipo de peso juntas, não soltam as mãos nunca. A mudança da Priscila para o Rio foi muito significativa e extremamente fundamental para o relacionamento delas. Estava muito difícil manter a distância e a Pri já estava em busca de faculdade e trabalho pelo RJ, foi então que a avó e a tia da Rebecca estavam morando num apartamento da família dela e estava sobrando um quarto lá e surgiu a ideia dela fazer a mudança. Foi tudo planejado com cuidado, então a Priscila chegou na cidade já tendo emprego e estudo garantido. Porém, no meio da mudança, ainda existia um problema: ninguém da família sabia que elas namoravam. Aos poucos foi ficando mais claro, a tia da Rebecca hoje em dia adora a Priscila, e por problemas de saúde, acabaram todas se mudando daquele apartamento: foram morar na casa da Rebecca e dos pais dela. É uma casa grande, com os pais, a avó, a irmã, a tia, os bichos… e elas. Até o momento elas não possuem autonomia enquanto casal, porque mesmo que todos já saibam que elas namoram, acabam vivendo como amigas dentro de casa. Sentem falta da privacidade, de poderem trocar algum carinho. A pandemia têm sido um desafio muito grande, primeiramente pela Rebecca ser da área da saúde e estar trabalhando em hospital, depois por serem as mais jovens elas acabam fazendo tudo na rua para que os outros familiares não precisem sair. Como um todo, é desgastante e cansativo a rotina de cuidar da casa, da saúde dos parentes e dos cachorros, mas elas têm levado isso juntas. A Priscila faz de tudo para agradar a família da Rebeca e assim vai conquistando mais confiança também. Hoje em dia, mesmo a sogra tendo diversos problemas envolvendo preconceito, ela está muito mais tranquila e aceitando dia após dia a relação. Rebecca tem 26 anos e está terminando a faculdade de medicina, mas também adora mexer com design gráfico e sente muita vontade de um dia fazer um curso de fotografia. Priscila tem 28 anos, é engenheira e trabalha em uma indústria fazendo a programação da produção, mas sua paixão mesmo são ourives (trabalhar com ouro) e sonha em fazer engenharia de minas. Elas amam animais, principalmente cachorros. Além da Agnes, sua petfilha, existem diversos outros cachorros na casa da mãe da Rebecca, local em que elas moram. Acabam atuando enquanto DogHero também, por garantir uma renda extra e aumentar o amor pelos bichanos. A Agnes foi adotada e chegou como um presente da Priscila para a Rebecca, ela é totalmente companheira das duas, não deixa elas sozinhas, ama igualmente. É uma relação de muito carinho. A Agnes ama a praia - e foi esse um dos motivos por termos escolhido este local para nos encontrarmos. Mas, além disso, a praia significa liberdade para elas. É o local que elas costumam ir muito, foi palco do pedido de namoro, o lugar onde abraçam e beijam sem medo e sem vergonha. É onde passam o dia felizes. A Priscila sentia muito receio de se envolver com alguém… e foi vindo para o Rio durante alguns meses quando percebeu que seu sentimento estava se fortalecendo, causando um grande medo (leia-se, desespero) por não querer se envolver num relacionamento. Quando a ficha caiu já era um pouco tarde, pois estavam, com todas as amigas, embarcando em uma viagem para a serra. A única reação da Pri nessa viagem foi se afastar brutalmente da Rebecca... falava pouco, ficava longe, se fechava de tudo. E aí, mais uma vez, entra quem? Natasha. Natasha conversou com a Priscila durante um bom tempo, incentivando uma nova chance para a Rebecca, falando sobre o quanto ela era uma pessoa legal e o quanto elas mereciam ser felizes juntas. Ela resolveu dar essa chance, mas o começo foi muito turbulento, porque toda vez em que a ficha caia, ela automaticamente tentava se afastar. Lidava com bastante medo. Até que a Rebecca colocou um basta por não querer mais viver esse “efeito sanfona” e disse que elas deveriam conversar abertamente cada vez que isso acontecesse para que assim pudessem encontrar o melhor caminho juntas. Foi no ano novo, alguns meses depois, que rolou o pedido de namoro. De 2016 para 2017, em meio ao réveillon na praia, a Rebecca fez o pedido. A Pri aceitou, foi lindo. Mas todo bom ano novo começa com uma boa história, e nesse caso, a Priscila ficou tão bêbada ao ponto de esquecer do pedido. No dia seguinte soube porque a Rebecca contou, rindo muito. Se vocês acreditarem que existe algum cupido por trás de cada amor, com toda a certeza, nessa história, o cupido se chama Natasha. Natasha é prima da Rebecca e foi a grande incentivadora da formação desse casal. Para vocês entenderem melhor como isso tudo começou, a Priscila morava no Espírito Santo e a Rebecca no Rio de Janeiro. A Pri era amiga da Natasha, se conheceram através de um grupo online. Em 2012 a amizade se desenvolveu e em 2014 resolveram ir juntas para alguns shows que teriam no Rio. Foi aí que a Natasha apresentou a Pri e a Rebecca, mas de cara elas não se deram bem, ou melhor, nem se olharam direito. Com as vindas da Priscila para o Rio se tornando mais frequentes, a Natasha praticamente obrigou as duas a conviverem, então elas passaram a fazer parte do mesmo grupo. Viagem vem, viagem vai. E aí te pergunto, elas passaram a ser amigas? Claro que não. A Natasha fazia de tudo para juntá-las, mas elas ainda interagiam pouco e não se davam muito bem. Como elas acabaram juntas? te respondo aqui. Elas estavam em uma viagem e as amigas insistiam para que ficassem com duas meninas aleatórias, mas elas não estavam afim, então, dos males o menor: vamos ficar entre nós para não termos que beijar as meninas - porque mesmo não indo com a cara, ao menos a gente se conhece. E foi desse jeito que passaram toda a viagem sendo um casal. Foi como uma válvula de escape, mas contam que a Natasha, se pudesse, teria soltado fogos. Esse começo é muito engraçado e desajeitado, mas foi a partir daí que a Priscila começou a vir aos poucos do Espírito Santo para o Rio, fazendo viagens estilo bate-e-volta no fim de semana para ver a Rebecca. Rebecca Priscila

  • Carol e Marlise

    Foi num impulso pelo início (e pela incerteza) da pandemia que a Carol e a Marlise começaram oficialmente o relacionamento. A Carol tinha acabado de se mudar para São Paulo, mas é natural de Porto Alegre e foi lá que conheceu a Marlise, um tempo antes dessa viagem. Entre a decisão, o ato de comprar a passagem e a mudança em si, elas viveram shows, um réveillon, saídas com amigos e a Marlise viveu até com muletas porque tinha quebrado a perna. Mas não teve jeito: o dia chegou e a Carolina foi para São Paulo. A primeira reação foi mais abrupta: não se falaram mais. Acharam melhor deixar para trás os momentos bons que tinham dividido e seguir cada uma suas novas vidas de 2020 em diante. Mas é aquela coisa, né? A gente não escolhe coisas do coração (pra quem é de coração) e nem de destino (pra quem é de destino). E quando elas voltaram a conversar, a Marlise combinou de ir até São Paulo fazer uma visita e comemorarem seus aniversários, visto que as datas são bastante próximas. Porém, um pouco antes do dia da viagem chegar, foi anunciada a quarentena e o isolamento social em São Paulo, ou seja, tudo estaria cancelado e a Carol ficaria lá sozinha - enquanto não fazíamos ideia de como isso seria, quanto tempo levaria e como reagiríamos. Foi por todas as incertezas que a pandemia (e, principalmente, o começo dela) nos causou, que a Carol decidiu comprar a passagem e voltar para Porto Alegre. Quando elas se reencontraram, ficaram juntas e cá estão, até então. Houve um momento do qual a Carol chegou a voltar para São Paulo, alguns meses depois, para buscar coisas que tinham ficado por lá, mas decidiu que ficaria de fato em Porto Alegre com a Marlise. Elas contam que sempre se deram muito bem e que isso sustenta muito o relacionamento. Conversar sobre tudo e ser realmente uma parceria, independente das situações externas, é o mais importante. Falam como haviam muitas coisas colaborando no entorno para que desse errado: elas estavam dentro de um apartamento relativamente pequeno - estavam num processo de conhecimento ainda - a pandemia gerava muitas pressões e ansiedades - o país enfrentava momentos muito ruins - e todo o sentimento de luto presente naquele momento… mas que, mesmo com todas as condições adversas, elas mantinham uma relação de muita conversa e se divertiram muito juntas. Durante as rotinas e os dias a Carol é uma mulher que adora cozinhar e está sempre preocupada com a alimentação. Ela brincou que de repente muda até de carreira, se continuar recebendo os elogios pelas comidas que faz, mas a verdade é que sua paixão mesmo é pela escrita. Ela entende que se comunica melhor escrevendo e que a literatura é uma grande aliada. Já a Marlise adora inventar coisas. Ela disse que isso é muito para “tirar as coisas da cabeça”, por se sentir sobrecarregada com auto questões, acaba inventando coisas, mudando móveis, fazendo e produzindo o que movimente o corpo fisicamente. Juntas, elas adoram passar um tempo com os animais em casa e contam que eles foram grandes responsáveis pela casa ter se mantido tão feliz durante o período de isolamento que vivemos. A Carol estava com 29 anos no dia em que fizemos a documentação, ela é natural de Porto Alegre, cursou letras, mas trancou a faculdade, não completando-a. De qualquer forma, trabalha na área desde 2012, traduzindo textos, livros e também faz trabalhos autônomos. A Marlise também estava com 29 anos no dia da documentação. Ela cursa medicina, é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, e nos contou sobre o impacto da pandemia nos estudos dela e na faculdade. Mas também, sobre a importância do trabalho enquanto uma ferramenta sob o que ela acredita, enquanto assistência social às pessoas. Durante uma live da cantora Ludmilla, na quarentena, a Marlise pediu a Carolina em casamento. Na hora, ela nem acreditou e a Marlise teve que refazer o pedido no dia seguinte! Hoje em dia, os planos estão sendo feitos e pretendem fazer a comemoração e a celebração assim que a pandemia finalmente acabar. Tanto a Carol, quanto a Marlise, acreditam que a vida não precisa ser tão imediatista e egoísta como tem sido. Elas falam sobre estarmos num espaço muito desorganizado, que não pensa no que realmente é importante… e esquecemos do que deveria ser essencial, como termos mais afeto e cuidado. Entendem que por serem duas mulheres que já enfrentaram muitos preconceitos, olham as coisas sob um novo olhar, pois não normalizam a violência ou a falta de educação e também não deixam de ser quem são por olhares tortos na rua (e por não serem aceitas em alguns ambientes). Entendem que a mudança só vai existir com compreensão histórica e cultural. Para Marlise, uma relação como a delas é muito pautada no respeito e na identificação, mas ela também traz muito uma admiração e inspiração que enxerga na Carol. Ela fala sobre essa inspiração por quem a Carol é, em tudo que ela já passou, e porque também se vê nela, mesmo que as trajetórias sejam diferentes. “O amor é o que guia a gente a ser diferente: ser melhor no que acreditamos ser o certo”. Para Carol, a relação delas está sempre envolvida de compreensão (e as relações entre mulheres, na grande maioria das vezes), porque acabamos tendo caminhos parecidos e encontramos em nós semelhanças e identificações. Mas em geral, essa compreensão fala sobre a capacidade de ver quem as pessoas são, o que são, e entender o que elas estão dispostas a trocar, não exigindo algo impossível de dar. Marlise Carolina

  • Bruna e Sophia

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Bruna e da Sophia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Sophia quando pensa em inspiração vem logo a mãe dela na cabeça porque sempre foi a figura que representa todas as superações ao decorrer da vida (beijo, dona Maria Antônia!). Bruna também fala muito sobre a mãe e sobre a bisa - a pessoa que ela mais admira. Pensar na bisa é pensar na paz - era uma pessoa muito boa e querida por todas as pessoas, cujo também pensam nela com esse carinho enorme. A família delas têm lidado de forma respeitosa, tentando, aos poucos, entender. Elas também dão esse espaço e o tempo delas processarem as coisas. A mãe da Bruna hoje em dia adora a Sophia e até sente um pouco de ciúme. E o pai da Sophia chamou a Bruna para passar o último natal na casa deles. A relação delas é formada por uma comunicação muito aberta, falam sobre as outras relações, os traumas de vida, criam laços de fortalecimento. Acreditam que o amor é físico e inatingível. Sentem o amor e consideram algo muito sagrado - por ser imaterial mas por você conseguir sentir. “É um sentimento com vida própria”. Antes da pandemia voltaram mais uma vez ao MAM, durante uma abertura de exposição. Fizemos questão de fotografar exatamente no local que aconteceu o primeiro beijo, naquele quadrado, cheio de memória afetiva. Cantarolei Minha Pequena Eva enquanto fotografava. Conversamos muito sobre o nosso corpo ser político enquanto mulher lésbica e tudo o que isso envolve. Elas acreditam que o amor entre mulheres envolve um cuidado muito maior e acreditam que as relações requerem sempre uma manutenção, uma atenção diária. “O amor entre mulheres é algo que vem na gente, porque ninguém nunca nos ensinou como amar as mulheres, você apenas sente, e então ama”, diz Sophia. Ela comenta que não sabe olhar para o corpo de uma mulher como olham os homens e que já ouviu amigos falando “pô, então você nem gosta de mulher tanto assim, se não acha ela gostosa, se não olha pra bunda...”, e mesmo que ela saiba que isso não signifique nada, entende que ela não liga pra isso porque ela nunca foi ensinada a gostar de mulher como os homens são, ainda jovens, de acordo com o patriarcado - ou seja, não existe regras para nós gostarmos de mulher, nem manual de instruções, porque nem nos consideram (nós, mulheres que se relacionam com mulheres) dentro do sistema patriarcal. A Bruna conta que amigos homens já fizeram ela parar de trabalhar para olhar mulher bonita passando... e que o sentimento sentido foi de desrespeito e desconforto. Bruna contou que uma cidade feliz e ideal para ela seria uma cidade da qual ela possa andar na rua sem medo - que ninguém olhe feio, solte comentários quando ela passa. Ela quer andar com paz. Desde pequena ela se entende enquanto mulher lésbica e comenta que na escola, quando perguntavam o menino que ela gostava, dizia logo o nome do mais bonito e disputado, para assim ficar no canto com um descargo de consciência por saber que ele não daria bola para ela. Sophia tem 21 anos e é lojista, mas cursa Cenografia. É aí que acontecem seus trabalhos no carnaval: ajudando a montar os carros alegóricos. Bruna tem 21 anos também, é cozinheira em um restaurante na Barra da Tijuca, mesmo morando em Niterói - e faz essa jornada diariamente. Ela tem uma cabeça muito aberta, fala sobre amor, diz que amar é muito diverso e que quando você percebe, já aconteceu. Ela demonstra muito cuidado com a Sophia, principalmente cozinhando as comidas favoritas dela e fazendo receitas bem elaboradas (leia-se, um pão cor de rosa, com massa natural, porque é a cor favorita dela…………. pois é, não tem coração que aguente ler isso, foi difícil pra mim também segurar a vontade de abraçá-las). Ambas amam maquiagem e seu maior hobbie é fazer vídeos para o tiktok. Estão na rede social desde antes do grande boom durante a pandemia. Inclusive, vale citar, que o pedido de namoro foi feito por lá, já que estavam separadas pela quarentena. Carnaval no Rio, dia de chuva, tinder ligado, glitter no corpo, bloco lotado, passando pelo Museu de Arte Moderna (MAM). Imaginou a cena? Quando a música toca embaixo do concreto do MAM o eco é imenso. Você sente seu corpo todo tremer. Pessoas em cima de pernas de pau dançam ao redor no espaço entre a grama e a calçada. Ali, tudo faz sentido: de fato, é carnaval no Rio. Foi assim que Bruna e Sophia se conheceram pela primeira vez, entre chuva, tinder e bloco. Se encontraram no meio da multidão… e sabe o que faz tudo ser tão característico de uma cena real do carnaval? o primeiro beijo ter sido ao som de Minha Pequena Eva, contando com todas as pessoas ao redor cantando e pulando muito. Acho que uma das coisas mais instigantes nessa história toda é que a Sophia era crítica assídua do Tinder. Dizia que jamais serviria para algo e que não dava para esperar nada “dessas pessoas”. Melhor ainda é o fato de que elas moram muito longe uma da outra, se encontraram porque foi um dia do qual a Sophia foi até o centro da cidade e assim que a Bruna apareceu ela deu ‘like’ pensando: é bonita, mas sei que não vai dar em nada. A Bruna, pelo outro lado, assim que descobriu que a Sophia trabalhava em um barracão de escola de samba já queria pedir logo em casamento. Apaixonada pelo carnaval e pela Sapucaí, ficou empolgada ouvindo as histórias que Sophia contava. Bruna Sophia

  • Mariana e Thalassa

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mari e da Thalassa, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Entenderam que para o relacionamento acontecer de verdade precisavam ter uma comunicação muito ativa e transparente. Mesmo em dias ruins, tentam conversar antes de dormir e dormem abraçadas. Thalassa diz o quanto se sente completa: na casa, com os cachorros, as plantas, tendo o carro, tudo. Entende que é uma mulher adulta que conquistou o que sonhava. Ela fala também sobre o quanto aprendeu a admirar a Mari, a persistência dela e a forma que lida com as coisas. Para a Mari, amar é ter cuidado, ter respeito. Tenta sempre entender o ponto de vista da Thay sobre as coisas do mundo. Amar é um exercício diário. Por fim, falamos sobre o amor ser um mosaico - tem a risada, o tempo, o respeito, a compreensão, a lealdade… não tem como falar dele sem todas as coisas que completam. Cada parte é importante para construir o todo. A história da Thay e da Mari te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Thalassa tem 32 anos, é professora de biologia e ciências para alunos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Está atualmente no chamado “ensino híbrido”, do qual a carga de trabalho é muito maior que em tempos comuns (que já é grande!). Ela trabalha em Niterói e mora próximo ao Recreio, é uma distância longa, costuma demorar 2h para chegar (mas já chegou a demorar 5h, em dias de trânsito). Fala sobre como é ser professora no Brasil e como os desafios triplicaram na pandemia. Mariana tem 27 anos, é bancária, trabalha com abertura de empréstimos. Está cursando psicologia e fala sobre a vontade de ouvir e poder auxiliar pessoas. Trabalhar com o público não é fácil, ainda mais em grande escala. Existem muitos desafios e com a modernização dos aparelhos bancários e precisamos sempre exercitar o cuidado com todos os tipos de público, entendendo suas especificidades. Mari cuida muito de si, quer viver com tranquilidade. A maior dificuldade que elas passaram foi quando decidiram morar juntas, em janeiro de 2015. O dinheiro era muito curto e precisavam mobiliar a casa, Thalassa chegou a pegar diversos freelas - sendo Uber, professora em outros lugares... foi um momento bastante turbulento. Se conheceram de uma forma um tanto quanto aleatória. A Thay ainda mantinha uma amizade com a ex namorada e a Mari ficava com essa menina (tá ouvindo esse barulho???? é o som do rebuceteio!). Na época, a Thay já namorava outra pessoa e conhecia a Mari porque já estiveram entre amigos algumas vezes. A menina (amiga/ex de Thay e amiga/atual da Mari) estava de aniversário e elas foram numa festa comemorar (a Thay e a namorada + a Mari e a aniversariante), mas ambas se meteram em confusão, a Thay já não andava bem no relacionamento, brigaram na festa e ela optou pelo término. Enquanto a Mari acabou ficando no canto e um pouco chateada por outros acontecimentos simultâneos. Ambas se viram sozinhas e o que restava era aproveitar a festa juntas. Alguns outros amigos chegaram para aproveitar a noite com elas e numa brincadeira, inventaram de todo mundo se beijar. Até então tudo bem, afinal, estavam só se divertindo. Mas quando a Mari e a Thay se beijaram, logo se sentiram totalmente diferentes, algo único. Não entenderam muito bem o que era esse sentimento/essa sensação, mas passaram a noite juntas aproveitando a festa. Nos dias seguintes elas continuaram se encontrando. Por um momento foi até meio escondido, com medo das pessoas saberem, mas depois entenderam que não tinha outra saída, ficariam juntas. Hoje, 7 anos depois, o sentimento é o mesmo. Quando fui encontrar a Mari e a Thay, não imaginava que iria gostar tanto (delas e do lugar). Marcamos num horto, no Rio de Janeiro. Com espaço para café (e cervejas), foi lá que nos sentamos para conversar. Elas tinham escolhido este lugar porque amam plantas, cuidam de vários tipos e espécies e falam sobre a importância de respeitar o tempo da terra e da natureza. O amor que passam para as plantinhas é de um jeito muito especial, gostam de usar os temperos na hora de fazer comida, esperam ansiosamente as frutas crescerem… acreditam que mexer na terra e acompanhar esse processo faz com que a gente aprenda a ter mais respeito pelo mundo. Depois que elas descobriram o horto, na primeira vez que vieram (ainda moravam longe), se apaixonaram. Agora, por morarem muito próximo dele, criaram uma memória afetiva forte e tentam frequentar o máximo que podem. Tanto a Mari, quanto a Thay são pessoas muito tranquilas. Moram com seus bichos, têm suas rotinas de trabalho… e também são mulheres muito divertidas. Elas acreditam que o encontro que tiveram nessa vida foi um fenômeno da natureza - a partir do primeiro beijo tiveram certeza que ficariam juntas. < Mariana Thalassa

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