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Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

292 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Leticia e Giovanna

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Leticia e da Giovanna, quando o projeto passou por São Paulo! Acredito que a história da Letícia e da Giovanna fala muito sobre a forma que elas lidam com as coisas felizes e, sobretudo, difíceis. Não é nenhum pouco fácil ter uma história que já tenha passado por tantos desafios como a delas e seguir com tanta fé no sentimento que vivem, na relação que constroem e no que sentem uma pela outra, ainda mais sendo algo que ainda não passou por completo: vivem uma rotina delicada diariamente. Claro, a cada mês que passa conseguem enxergar o quanto evoluem juntas, mas é algo que vivenciam, e não que já passou por completo. Essa dificuldade girou sempre em torno da não aceitação do namoro por parte de uma das famílias. Como elas se conhecem desde a infância e moram na mesma rua, Letícia há alguns anos já era bastante próxima, frequentava a casa da Giovana e criou um laço de amizade forte com a mãe da Giovana, foi auxílio para a família em diversos momentos difíceis, era amada por todas e tratada como uma filha postiça. A mãe algumas vezes questionou, tinha um receio de que as duas se envolvessem, mas como ainda era um momento inicial de descoberta para elas e tinham medo da reação, negavam. Num dia, Giovanna decidiu contar a verdade, até que tudo saiu do controle. Infelizmente, vivenciaram situações difíceis de não aceitação e desrespeito. Foram meses sendo ignorada pelo pai dentro de casa, o que deixou Giovana muito triste e culpada. Não ter mais ele como um amigo, ela deixar de ser a filha idealizada, tudo machucava muito. Foi preciso muito tempo - e muita paciência das duas para as coisas mudarem aos poucos. Com isso e com a insistência eles foram entendendo o relacionamento delas (e até incluindo a Letícia em alguns dos planos e eventos que aconteciam). Mas tudo ainda é um processo. Letícia, no momento da documentação, estava com 24 anos. Ela é de São Paulo, capital, e trabalha enquanto biomédica, intercalando entre o trabalho em laboratório e a sala de aula; No tempo livre, adora jogar vôlei. Giovana, no momento da documentação, estava com 22 anos. Também é de São Paulo e está se formando em veterinária, trabalha no estágio e faz plantões aos finais de semana; Adora cuidar do corpo, já praticou lutas e hoje em dia ocupa parte do seu dia na academia. Elas estão juntas sempre que podem. Adoram tudo o que é relacionado à natureza. Gostam de cachoeiras, de jardins. Na cidade, adoram coisas simples como ir ao supermercado, passear em lojas. Brincam que até comprar pão de queijo vira um grande evento. Letícia conta que sua cultura familiar é bem diferente, entende que por lá as coisas sempre foram mais fáceis. Já tinha outros LGBTs na família e quando viveu seu processo contou para a irmã primeiro. Por mais que nenhuma vivência inicial seja fácil, entende que a dela não tenha sido tão difícil porque houve maior respeito. Porém, ter sua cultura mais libertadora, faz com que seja mais difícil aceitar alguns limites que foram impostos para a Giovanna e ter mais vontade do imediatismo. Foi preciso aprender a ser mais paciente do que imaginava. Como estudaram na mesma escola e moravam na mesma rua, Giovanna e Letícia se conheceram desde muito novas. Letícia, por ser alguns anos mais velha, era amiga do irmão da Giovanna. Não se falavam muito porque, segundo a Gi, Letícia tinha cara de brava… mas, depois de adolescentes, Letícia se apaixonou por uma amiga da Gi e isso fez com que se aproximassem e ficaram amigas. Em outubro de 2018, bom tempo depois, Giovanna entendeu que sentia algum tipo de atração pela Letícia e resolveu se abrir com ela. Enviou um texto gigante explicando o que sentia… e ela… sumiu. Letícia conta que chegou a responder, mas que ficou em choque, não sabia como reagir e se sentiu muito insegura. Meses depois, em janeiro, respondeu com outro texto. Elas conversaram e a Letícia a convidou para ir num casamento, como acompanhante. Neste dia, depois da festa, se beijaram pela primeira vez. Porém, sentiram que o beijo não encaixou e fingiram que nada tinha acontecido, seguiram amigas. Com a amizade voltando, se encontravam todos os finais de semana. Até que se beijaram outras vezes, e outras, outras… tornou-se frequente. Foram 6 meses de encontros. Nesses meses, Giovanna se dizia hétero, mas estava ficando com a Letícia. Depois, até entender e processar, no seu tempo, começaram de fato a namorar. Quando a família da Giovanna descobriu sobre o namoro e tudo ficou muito difícil, ela estava no começo do estágio e foi bastante acolhida pela chefe. Conta também que foi muito importante tudo isso não ter acontecido durante a pandemia (e sim antes) porque seria tudo mais difícil, como um cárcere privado. Ela vivia entre regras muito rígidas de horários para chegar, satisfações para dar, colocavam uma culpa muito grande em cima dela e também da amizade que a Letícia tinha com a mãe dela. Prometiam dar carro de presente se elas terminassem ou coisas do tipo. Mantiveram o namoro marcando encontros em lugares aleatórios e pensaram em desistir várias vezes, mas seguiram juntas em todos os momentos. Aos poucos, a família toda da Giovanna foi aceitando (para além dos pais). Em um evento importante, por exemplo, foram todos juntos de carro. Com o passar do tempo, a Letícia conseguiu até abraçar o pai dela (coisa que nunca imaginaria no início), foi realmente um processo, por mais que não se falem muito, reconhecem o grande avanço. Na pandemia em si, mesmo a Letícia não podendo estar dentro da casa da Gi, ela ia até o portão, fazia de tudo para se mostrar uma pessoa presente, fazia as compras do mercado para eles e eles foram reconhecendo seu esforço. Por um tempo, a mãe da Giovanna precisou de cuidados de saúde e foi a Letícia quem ajudou, trazendo também uma amiga enfermeira para dentro de casa. Acreditam que mesmo com as situações ainda difíceis - porque nem tudo passou - continuam aqui e não desistem porque cada vez mais falta menos para a Giovanna se formar e conquistarem tudo o que sonham: principalmente, a independência. Letícia acredita que amar é a essência do ser humano e que mesmo as pessoas não sendo carinhosas, elas podem demonstrar o amor de outras formas. Traz sua mãe como exemplo, que não demonstra tanto amor nos atos de carinho em si, mas que sempre a ensinou a amar. Diferente da mãe, ela ama beijar, abraçar e demonstrar. Se vê totalmente disposta a ajudar. Giovanna sente que pelas marcas da vida passou muito tempo se blindando de sentir coisas, não se permitindo demonstrar afeto. Aos poucos, tem se permitido cuidar mais, sentir mais o toque, mas ainda mantém o pé no chão, cuida de quem se permite confiar. Por fim, verbalizam o quanto desejam ficar juntas, construir uma família e viver coisas juntas. E concluímos: merecem tudo isso. ♥ ↓ rolar para baixo ↓ Letícia Giovanna

  • Thacia e Ju

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Thacia e da Juliana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! No relacionamento da Juliana e da Thacia, o que prevalece é o cuidado. Primeiro, porque estão sempre cuidando uma da outra; Segundo, porque estão sempre tomando cuidado nos lugares que frequentam. Thacia e Ju são policiais, formadas pelo BOPE. Juliana trabalha enquanto policial penal há 9 anos, enquanto Thacia é policial civil, trabalhando na delegacia de homicídios e fazendo operações. Além disso, logo no começo do relacionamento, Ju descobriu uma anemia muito agressiva e o cuidado entre elas redobrou: Thacia aprendeu a cozinhar para ajudar a companheira, Ju brinca que se sente até infantilizada de tanto cuidado - desde o pijama preparado, até as frutas cortadas. “É tudo uma forma de carinho, é maior que eu, não faço de propósito.”, justifica. Tanto na cadeia, quanto na delegacia, todos sabem que elas são esposas. A vida particular não tem nada a ver com a instituição, ou seja, elas trabalham e são casadas. Por mais que amam o que fazem, acreditam que existem outras alegrias na vida além do trabalho, como por exemplo o hobbie da Ju de fazer acrobacias nos tecidos ou o quanto são devotas à religião. Juliana, no momento da documentação está com 44 anos e trabalha enquanto policial penal num manicômio judicial que serve a ambos os gêneros. Quando fez concurso trabalhou num presídio feminino, com cerca de 700 presas. Atualmente, neste trabalho, explica que todos os presos têm transtornos mentais e os crimes são bastante pesados. O juiz é quem determina a pessoa que irá para lá, isso serve como uma medida de segurança. O preso, então, se torna paciente do hospital, entrando em em tratamento junto à equipe técnica composta por psicólogo, psiquiatra, assistente social e terapeuta ocupacional, para tentar formas de compreender como aconteceu, identificar e tratar psicologicamente. Conta sobre as interações, a função dela e o fato de ser um local que também tem espaço para pessoas trans e travestis, oferecendo tratamento hormonal e coordenação específica LGBT+. Para Juliana, o governo do RJ faz um bom trabalho em relação ao cárcere. Thacia, no momento da documentação, está com 36 anos e trabalha enquanto policial civil na delegacia de homicídios, além de fazer operações de rua em todo o Rio de Janeiro. Para ela, é bom ter a mesma profissão que a companheira, pois assim se entendem em muitos aspectos, frequentam os mesmos cursos, a mesma área. Ju entende a sua rotina, que não é fácil… às vezes precisa sair para operações na madrugada. Explica que dificilmente em outras relações as pessoas entenderam isso. São um casal que não proíbe as vontades uma da outra e se respeitam, nesse sentido. Por mais que trabalhassem na mesma área, não se conheceram no ambiente de trabalho, mas pela mãe da Thacia, que as apresentou. Thacia tem uma família envolvida na profissão, a mãe dela é policial penal aposentada e ensinou muita coisa para a Ju, foi sua mentora. Em 2018 Thacia e Ju se reencontraram e começaram o relacionamento. Ju conta que no mesmo ano que começaram o relacionamento, o filho dela foi morar nos Estados Unidos e ela se sentiu muito sozinha. Em 2019, no dia das namoradas, a Thacia deu uma cachorrinha de presente para ela não se sentir tão solitária: a Kira. Desde então, tratam a Kira como uma filha… ela tem berço, plano de saúde, festa de aniversário e nunca fica sozinha. Quando está só com uma delas, fazem chamada de vídeo para matar a saudade. No momento da documentação o filho já tinha voltado ao Brasil e brincam que ao invés dele ter uma cachorra, tinha uma irmã. “Ela é muito mimada. Ela arranca sorrisos, é uma benção. Faz você se sentir a pessoa mais amada do mundo. Você sempre ri com a presença dela”, diz Ju. Adoram a rotina que vivem. Gostam de dormir cedo, entre 21h ou 22h já estão na cama, depois acordam às 05h30 da manhã, saem para trabalhar com o café já pronto, ou tomam café na cama. Ainda de madrugada, passeiam com a cachorra. Thacia mora em Maricá (diferente da Ju, que mora em Niterói) e fala sobre lá ser uma cidade muito única. Vê bastante público LGBT, as coisas geralmente são gratuitas e tem uma qualidade de vida muito boa. Sentem que já erraram muito nos relacionamentos anteriores, então quando resolvem ficar juntas querem fazer dar certo. E querem se colocar uma no lugar da outra. Para Ju, o amor é entrega, tempo, dedicação, construção. Com a Thacia, o amor significa companheirismo. Thacia vê o amor que elas possuem como uma amizade, acima de tudo. O relacionamento é a coisa mais preciosa que ela tem. A Ju conhece ela por completo, são parceiras. Nunca tinha encontrado isso, sempre se viu separando relacionamento de amizade e com ela encontrou essa junção - tem uma melhor amiga e uma esposa. Diz que isso faz toda a diferença. Ela não sabia cuidar de ninguém, além de si própria, e agora aprendeu a fazer tudo pela outra pessoa. Juliana diz: “Ela deixa a parada boa, aquilo que é ruim, ela deixa boa”. E Thacia completa: “Antes de pensar em você, você pensa e se preocupa com o outro. Eu não ligo pra saber onde ela, só ligo pra saber se ela tá bem, se chegou bem. Amor é o desprendimento, ver a pessoa bem, feliz, voe. Você quer que pessoa voe e eu quero tá do lado pra acompanhar.” Thacia explica que elas nunca sofreram discriminação, agradece à Deus por isso e conta que também não possuem o costume de ir em festas e Paradas LGBTs justamente por causa do tumulto e da exposição. Pela profissão, o tempo todo tomam cuidado sobre os locais que frequentam e o que pode acontecer ao seu redor. De qualquer forma, acham que andar na rua de mãos dadas e se beijar em público não tem problema nenhum e por isso fazem com naturalidade. Depois, ela lembra de uma situação, em que foram numa churrascaria juntas e um homem ficou encarando por muito tempo. Ela ficou muito desconfortável, não sabia se ele as conhecia, se estava sendo preconceituoso… No fim, trocaram de mesa. Sente que não podem ir para qualquer lugar, visitar qualquer amigo… É uma questão de preservar a vida delas e de quem tá com elas. ↓ rolar para baixo ↓ Thacia Juliana

  • Paula e Mariana

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Paula e da Mariana, quando o projeto passou por São Paulo! A história da Paula e da Mariana chega enquanto algo muito poderoso no Documentadas. E quando digo poderoso, quero me referir à grandiosidade que temos aqui: primeiramente, uma denúncia que precisamos fazer sobre a forma que as instituições religiosas tomam o corpo das mulheres e manipulam suas ideias, culpabilizam seus desejos. Grandiosa é também pelo seu afeto, que rompeu as barreiras e trouxe cor, trouxe amor, trouxe uma nova vida para as duas que se permitiram descobrir o mundo juntas. No momento do nosso encontro, Ma e Paula estavam morando em Jundiaí, interior de São Paulo. Mari veio de Cascavel, no Paraná, em 2018 até Campinas, casada com um homem que desejava se tornar pastor e resolveu cursar psicologia. Não teve muito apoio da família para começar a faculdade, mas sempre amou conversar e ouvir as pessoas, então decidiu iniciar seu sonho. Paula, por sua vez, cresceu e viveu na igreja: seguiu a risca os princípios da religião. Foi presidente, missionária, louvava todo domingo - e também, todo domingo, pedia perdão porque achava que tinha uma doença, a de sentir atração por mulheres. Não teria como começar esse texto sem explicar o quanto esse amor representa: cor. Por maiores que sejam os desafios relatados, é muito gratificante olhar para elas e ver as roupas coloridas, o afeto (muito afeto!), as mãos dadas enquanto conversam sentadas na grama, tudo muito enfeitado, cuidado. Contam como era a vida antes, como realmente achavam que não podiam usar cores fortes, sair em certos lugares, beber certas bebidas, estar com certas pessoas, usar roupas ou ter cortes de cabelo. E como agora se permitir vestir, se conhecer, descobrir o que querem usar/quem são é o que gostam de fazer - de forma perceptível e feliz. Por mais que Paula pedisse perdão para Deus por sentir atração e se sentia uma aberração, uma doença ou algo tão ruim quanto, a verdade é que nunca tinha beijado uma mulher ou sequer conversado com alguém sobre esse desejo, pelo medo da repressão que poderia sofrer ou dos homens não a desejarem mais. Naquela época, o tanto que Paula era envolvida com a música na igreja, a Mari era envolvida com as pessoas porque adorava conversar, ouvir as mulheres, aconselhar… Há alguns anos atrás, antes da mudança para Campinas, Ma teve uma vivência de beijar mulheres e casou justamente pela “cura”, falava sobre isso abertamente, se orgulhava de ter sido curada, afinal, era isso que a igreja pregava. Quando a Paula soube, pensou: “Posso falar pra ela, ela não vai me julgar”. Demorou alguns meses para tomar coragem e, na metade de 2019, marcaram de caminhar num final de tarde. A Paula contou, mas como se já tivesse passado por isso, no sentido de: “Sentia atrações, já não sinto mais… Uma vez aconteceu. Já passou.” Paula, que sempre foi muito fechada, começou a se abrir e permitiu conversar com a Mari. Tinham diversas coisas em comum, inclusive a irmã da Paula estava morando em Curitiba na época - e Mari é do Paraná… essa questão geográfica as aproximou ainda mais. Foi num momento muito difícil em que a avó da Mariana faleceu, que ela precisou ir ao sul, estava muito vulnerável, se sentindo triste, não quis ir sozinha e a Paula foi sua companhia dando suporte e apoio onde elas passaram mais tempo juntas e se aproximaram de fato. Depois da viagem sentiram muita saudade uma da outra e foi um período de sofrimento muito grande, não só pela saudade, mas entraram numa angústia misturada com negação e questionamento, se viam em constante conversa com Deus: “Você não tinha me curado? O que tá acontecendo?” e no caso da Mari: “Eu fiz de tudo, eu até casei”. Sentiam muita falta da outra no dia a dia e queriam se ver em qualquer brecha que tinham, seja para caminhar, almoçar, jantar… Foi quando Mari resolveu conversar com o marido sobre o que estava sentindo. Sua reação foi de ficar muito magoado, bravo, foi para o Paraná e contou para a família dela e para os pastores. Foi nesse cenário que ela foi para Jundiaí, na casa dos tios, como um “tirar a Mariana de cena”. Obviamente isso respingou na Paula, chegou até a igreja em Campinas, nos pastores e na família dela. O ano já era 2020, a pandemia de Covid-19 estava começando e tudo estava parado/se adaptando para o mundo online. O pastor chamou Paula para conversar, anunciando que iria afastá-la de todos os ministérios, que ela iria precisar passar por várias “disciplinas”. A mãe dela sabia e também negava, colocava bíblias grifadas na cama dela, tudo estava muito difícil, foi quando Paula decidiu ir até Curitiba passar uns meses na casa da irmã. Precisava se ouvir, se encontrar, entender o que queria fazer. Entre o tempo que Paula estava em Curitiba e que Mariana estava em Jundiaí, elas conversavam online, mas tudo era muito confuso. Ainda viviam períodos turbulentos por conta da religião e das suas famílias, além de que elas nunca tinham se beijado. Tudo acontecia por conta da atração que elas sentiam, mas existia a possibilidade de dar errado, de não ser bom, de não se suportarem juntas, simplesmente. Quando Paula decidiu voltar para São Paulo, foi para Jundiaí encontrar a Mari. Lá, ela vivia bem com os tios. Eles são pessoas muito respeitadoras - que inclusive não apoiavam o casamento dela enquanto “cura” - e deram apoio para ela começar essa nova vida, buscaram emprego, apoiam também a relação dela com a Paula. Foram a primeira rede de apoio que elas tiveram. Depois de se reencontrarem, Paula fez uma carta de desligamento da igreja, principalmente quando soube que o pastor queria que ela fizesse uma disciplina pública - expondo para todos que, se fosse ficar, seria “curada”. Depois de quase um ano vivendo esse processo entre a viagem que fizeram no falecimento da avó e a aceitação de quem são, relembram como tudo foi muito intenso. Paula conta como o corpo dela falava: tinha crises alérgicas, muito stress, se culpava o tempo todo. Foi muito bom se libertar. Aceitar que não são doentes, entender, encarar, começar o namoro em si e começar a viver as coisas novas - beber com os tios pela primeira vez, por exemplo. Depois do início do namoro, foram 6 meses em que a Paula morava com os pais em Campinas e namorava a Mari. A mãe não falava sobre o assunto dentro de casa, mas deixava claro que Paula iria se arrepender. O pai acabava confortando. Depois de muita violência psicológica, ela precisou dar um basta. Entendeu até o último momento que isso era um processo para a mãe, que leva tempo mesmo para entender, respeitar, aceitar… mas as coisas precisam ter limites, porque machucam. Foi quando decidiu sair de casa e morar com a Mari, em Jundiaí. Quando se mudaram, os problemas reais chegaram. Mari tinha uma vivência diferente, já foi casada, morava fora há tempos… Paula morou com os pais a vida toda, nunca tinha tido um relacionamento. Foram aprendendo tudo no dia a dia. Em 2022 moraram sozinhas o ano todo num apartamento, adotaram o Théo, um cachorrinho [primeiro cachorrinho da Paula], e sentem que tudo o que viveram foi muito aprendizado. Nesse apartamento a Mari pediu Paula em casamento. Foi lá que aprenderam que dependiam uma da outra, que estavam realmente juntas. No começo da relação achavam que todos iriam ter que aceitar o amor delas, que a família iria ter que engolir… e lá no apartamento, não… viram que a vida era mais sobre elas, mesmo. Que elas já estavam felizes daquela maneira, naquele tempo. O pedido foi simbólico por tudo o que estava representando. No momento da documentação, Paula estava com 27 anos. Trabalha enquanto engenheira de alimentos numa empresa alimentícia, fazendo a qualidade do produto. Já jogou badminton, joga beach tennis e adora tocar música. Brinca que se tornou engenheira de alimentos porque adora comer. Mariana, no momento da documentação, estava com 28 anos. É psicóloga e está transicionando dentro da carreira. Adora falar sobre saúde sexual da mulher e prazer feminino. No tempo livre, ama estudar e também passa muito tempo na Netflix. Hoje em dia, elas moram com os tios da Mari, numa chácara com duas casinhas e um espaço só delas. Se veem reconstruindo a rede de apoio, fazem parte de grupos de amigas em Campinas, não querem se sentir sozinhas e compartilham o que sentem, as questões, vão nos bares, nos eventos e adoram conhecer gente nova. Dentre o peso de terem vivido achando que são uma doença, Paula e Mari falam sobre como a religião nos coloca em muitos momentos contraditórios de vez em quando. Paula relembra como se fala muito em amar ao próximo, já foi missionária e ajudava muito os outros, mas tudo era sempre pensando nela: como ela estava ajudando, como estava fazendo o bem, garantindo sua boa ação. E o quanto isso não é o que de fato Deus ensina. O certo é ajudarmos o outro porque nos preocupamos com o outro, porque amamos quem ele é, queremos cuidar. Hoje em dia, ela faz tudo pensando de fato na outra pessoa, não de forma superficial. E acredita só ter aprendido isso com a profundidade do amor. Mari explica que esse amor é um amor que não pesa. Traz o exemplo que não curte café da manhã, mas que adora levantar e fazer o café para a Paula, que acorda cedo para trabalhar. É algo muito natural, que gosta e faz por gostar. Uma profundidade que nunca tinha experimentado. Grandiosa. Muda a forma de olhar o mundo. E deseja que as pessoas vivenciem isso, sintam esse amor. Por fim, ainda sentem que Deus é amor e que é preciso ter muita coragem para se amar tanto. Acredito que é muito incrível elas manterem esse carinho pela fé, não guardam mágoas ou ódio, até porque foram criadas assim. É normal sentir rancor pela religião porque de fato é errado, criminoso e injusto o que fazem com os nossos corpos. Mas acreditam nas coisas boas que aprenderam e se apegam nisso, não tem como apagar e construir uma nova personalidade, então acrescentaram cor na que já existia, se tornaram pessoas melhores. ↓ rolar para baixo ↓ Paula Mariana

  • Juliana e Tayna | Documentadas

    Amor de Mil Histórias - Juliana e Tayna clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Priscila e Raphaela

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Priscila e da Raphaela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Sobre a casa, elas chegaram a alugar o espaço ideal, se mudaram e infelizmente as coisas deram errado. A estrutura do local deixou muito a desejar, não era como prometido. Os móveis mofaram, elas perderam muita coisa. Tiveram que devolver e voltar para o apartamento que a Rapha morava. Foi tudo muito conturbado, ficaram sem ter onde morar um tempo. Foram quatro mudanças em um mês. Por mais difícil que tenha sido esse momento, serviu muito para que elas se fortalecessem também, porque pelo fato de terem perdido colchão, móveis e outras coisas, precisaram se restabelecer. Foi um momento delicado, cada centavo passou a valer muito, e se apoiaram o tempo todo também. A Pri falou sobre o relacionamento delas e sobre esse amor realmente significar resistência, não ser só uma palavra bonita usada na internet. E sobre como a pandemia, vindo com muita dor, de forma geral também nos ensina a olhar mais para o lado, a amar mais. A Rapha completa a fala dela falando sobre acolhimento, sobre ajuda, sobre as coisas mais pesadas acontecerem para nos ensinarem a pegar junto, a dar valor a quem está do nosso lado, porque isso também é sobre amor. É sobre saber dar muito valor ao que se tem agora, não ficar num discurso clichê de só agradecer, mas de reconhecer a importância de cada coisa que temos porque batalhamos muito para ter. E não amar o próximo só até onde nos convém, amar o próximo sendo ele quem for. Amar o próximo sendo preto, sendo sapatão, sendo a amiga que tá passando perrengue, sendo a vizinha que precisa de ajuda… é esse o sentido e o objetivo. Mais de um ano depois elas estavam no Tinder e deram match! Não se reconheceram de cara porque a foto da Rapha aparecia mais a cara do gato, que a cara dela. Não tinha bio, era da Ilha, a Pri pensou: se nada der certo, vou ter uma amiga que mora perto! Elas conversaram, viram que tinham uma amiga em comum e a Rapha disse “bem que eu acho que já saímos juntas uma vez!”. O primeiro encontro foi no apartamento em que nos encontramos, que é o lugar que elas moram hoje em dia. Foi no dia 4 de janeiro, comecinho do ano. A Pri estava começando a descobrir que tinha intolerância à lactose, estava doentinha, por isso acharam melhor ficar em casa. Foi um encontro quietinho. Mas, você quer sapatão emocionada? aqui temos. Dia 11, sim, de janeiro, a Rapha pediu ela em namoro. Mais emoção? Em março, sim, do mesmo ano, o pedido de casamento chegou. Só que em março também começou a pandemia e elas passaram um bom tempo sem se encontrar. Entenderam que a melhor opção seria passar algumas semanas juntas com a Pri indo para a casa da Rapha e depois algumas semanas a Pri ficando em casa com a mãe dela. Por mais que o pedido de casamento tivesse sido aceito, ela só ia morar junto depois de casar, porque ela não queria se acomodar. Ela quer tudo certinho: a festa, o vestido, o bolo. Querem adaptar todos os bichos em uma casa e em uma vida confortável. E aí sim, será um casamento. Não vai morar junto para “um dia, quem sabe, fazer uma festa…”, quer a festa, depois a casa. E então ela organizou toda a festa, está tudo prontinho e assim que a vacina permitir, terá casório! O maior sonho da Rapha atualmente é montar o seu próprio negócio, trabalhar na Cozinha Parucker, montar a marca, fazer algo legal e bonito. Ela cuida de tudo com muito carinho, trabalha e cozinha na casa da mãe dela por conta do espaço e para evitar o contato do alimento com os animais em casa e investe em estar sempre aprendendo o máximo que pode. Ela conta que chegou a passar na PUC, há uns anos atrás, em publicidade. Fez um semestre, não se sentiu feliz. Não se sentia segura no caminho, sofreu assaltos, assédios, entendeu que não era o que ela queria fazer para a vida. É muito difícil porque com a condição social que temos faz com que precisamos nos esforçar em níveis muito maiores e nos submeter a coisas muito mais difíceis para alcançar nossos objetivos. E colocar a vida dela em risco daquele jeito não era mais uma opção. Ela comenta sobre o governo, sobre a corrupção, sobre as diferenças morando na Ilha perante a não ser tão violento, mesmo tendo tráfico e favelas, mas que mesmo assim entendia que não estava valendo a pena. Foi nessa época que ela começou a trabalhar em um Freeshop no aeroporto Galeão, lugar onde a Pri também trabalhou, e por isso se conheceram. Ou melhor, por isso não se conheceram, porque a Pri trabalhou lá três meses, não se adaptou, achou tudo muito doido, pegou gripe suína em pleno 2018, não curtiu, pediu demissão. E a Rapha entrou no lugar dela. Ela saiu, mas manteve as amizades, que contaram: “entrou uma menina muito legal aqui que você precisa conhecer, a Rapha!”, enquanto falavam para a Rapha que ela tinha que conhecer a menina que trabalhava lá antes dela. Na época, a Rapha namorava e a Pri conseguiu um emprego no shopping. Em um fim de semana chamaram a Pri para beber depois do trabalho, ela topou, conheceu a Rapha rapidamente e ficou no bar com o pessoal, mas praticamente não conversaram. A Priscilla e a Raphaela são duas mulheres muito incríveis. Conheci as duas no apartamento delas, na Ilha do Governador. Com um lugar cheio de gatinhos e uma cachorra medrosa e dócil, elas me receberam em um domingo de manhã. A Rapha tem 24 anos, quer começar a formação em gastronomia e a Pri tem 29 anos e é designer de moda. Ambas nasceram e sempre moraram na Ilha, um bairro na zona norte do Rio de Janeiro. Quando a Rapha começou a gastronomia, ela decidiu fazer umas trufas e colocar para vender, a Pri levava para o trabalho e vendia por lá também. Deu super certo, todos elogiavam e em datas comemorativas elas lançavam cardápios com doces maiores. Até que no começo da pandemia ambas perderam seus empregos. A Rapha chegou a pegar um trabalho em um bar, fazendo freelancer e a Pri em um petshop, mas estava muito difícil sustentar a casa e as contas dessa forma, foi quando elas decidiram criar a Cozinha Parucker (segue aqui! tem entrega por toda a Ilha!), uma empresa em que a Rapha monta cardápios e vende seus doces e salgados. Ela sabe fazer comidas muito diversas e por lá focam em empadões e doces ♥ é tudo muito lindo! A Pri faz uma pós em marketing e curte muito ajudar a Rapha nessa área. Adora produzir conteúdo, criar lettering nas sacolas, criar mídias digitais… ela também gosta de investir enquanto digital influencer no seu perfil pessoal. Adora dar dicas de maquiagem, fotografia e falar sobre assuntos voltados à própria Ilha do Governador.

  • Malu e Joyce

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Malu e da Joyce, quando o projeto passou por São Paulo! Tudo o que envolve a arte une a Joyce e a Malu. Elas amam mexer com tintas, cantar juntas, fotografar, pintar, fazer customização de roupas, assistir filmes… enfim, respiram arte o tempo todo. São pessoas que se enxergam de formas diferentes e que entendem que possuem alguns jeitos diferentes, mas sabem admirar e respeitar os diversos detalhes uma na outra. E, através desses detalhes, elas se encontraram em 2019. Foi uma mecha de cabelo na cor verde da Malu que chamou a atenção da Joyce, que estava sentada na mesa de bar com uns amigos. Na época, a Malu não cogitava em engatar novamente em um relacionamento, visto que tinha recém saído de um e estava ainda se recompondo e reestruturando. Mas hoje, ela conta que chegou a viver momentos em que foi reparando cada palavra e cada gesto, através da presença ativa que construíram no relacionamento, onde entendeu e agradeceu o presente que foi ter aceitado viver essa relação. Ela olha para a Joyce e diz: “Que mulher incrível, que mulher forte” e a Joyce complementa dizendo que nesses momentos, ela também pensou “Meu deus, não acredito que to tendo essa conexão que eu sempre quis ter”. As duas se viram pela primeira vez no bar, em 2019, enquanto cada uma estava na sua mesa, com os seus amigos. A mecha de cabelo verde da Malu chamou a atenção da Joyce, que sempre quis pintar o cabelo de verde. Ela ficou olhando, olhando e olhando… a Malu percebeu os tantos olhares, retribuiu alguns e a Joyce resolveu ir até ela e perguntar sobre o cabelo. O fato é que, quem fez a mecha foi a própria Malu, já que ela é cabeleireira! Então, ela deu um cartãozinho, com o contato profissional para que a Joyce mandasse uma mensagem. Elas brincam porque ambas sabem que o contato no cartão não era apenas por conta do cabelo, mas ele de fato aconteceu: elas conversaram e marcaram de se encontrar. Logo a caminho do local do encontro, o primeiro beijo aconteceu e sentiram que as coisas dariam certo. Na época, a Joyce trabalhava no bar em que elas estavam, mas era dia de folga e ficaram por lá se divertindo com os amigos e conhecidos dela. Ao decorrer do começo do namoro e dos primeiros meses, passaram por muitas coisas juntas e entendem que ao mesmo tempo que o relacionamento em si era algo que trazia o sentimento de leveza, ao redor delas aconteciam muitas coisas, e acabaram passando por todas essas coisas juntas. No período que a pandemia começou, tiveram que enfrentar mudanças, sentiram muitas saudades uma da outra e isso fez parte de um processo grande sobre autoconhecimento também. Nos momentos mais difíceis, não deixaram de se ajudar e de seguir enfrentando os desafios, mesmo entre perrengues e apertos. No fim, mesmo com o começo tendo esse sentimento leve entre as duas, elas se fortaleceram o tempo todo no apoio mútuo. A Joyce tem 30 anos, trabalha como tatuadora e atendente. Atualmente ela mora em Barão Geraldo, distrito de Campinas, interior de São Paulo. Também é cantora e musicista, toca violão, guitarra e ukulele. A Maria Luiza tem 20 anos, é formada enquanto cabeleireira e também trabalha atendendo em uma loja. Mora em Barão Geraldo, também, e no tempo livre ama fotografar e restaurar móveis. Junto com a Joyce, ela criou um projeto para também restaurar e customizar roupas, que se chama Lava. Além disso, elas fazem pulseiras e colares de miçangas. Em novembro de 2020 elas ficaram noivas, durante uma viagem para o Rio de Janeiro, que intitularam como “A melhor viagem da vida!”. O amor de forma leve surgiu porque tanto a Joyce, quanto a Malu, já passaram por relacionamentos que foram mais conturbados e abusivos. Logo no começo do relacionamento, pelo receio de se envolverem com novas pessoas, foi como um trato: só podemos acontecer se formos leves. Um trato que seguiu de forma natural, até porque, a leveza não deve ser forçada. O trato era para que tentassem resolver atritos ou questões sempre da melhor maneira possível, com diálogo, escuta e carinho. A Joyce entende que amar é respeitar e ter confiança, enquanto a Malu entende que amar é ser sincero e ter fidelidade. “Não é uma questão de ser fiel só naquela ideia de traição” ela diz “mas fiel para o que a pessoa se propõe. Se você é um amigo, seja um amigo fiel. É uma escolha”. Comentamos sobre nos sentirmos mais à vontade entre mulheres, porque já vivemos em situação de medo o tempo todo. Elas contam o quanto se sentem bem quando consomem algo feito por mulheres, quando se sentem seguras quando chamam um carro no aplicativo e a motorista é mulher e como a presença feminina em si traz paz. Concluem a conversa dizendo que as mulheres podem chegar aonde quiserem porque têm uma força incrível, só precisamos nos acreditar e nos impulsionar. Temos muita capacidade e maturidade. Além de que, tudo que é feito por mulher é nítido e intenso, sabe ser bonito e forte. Maria Luiza Joyce

  • Talita e Anne

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Talita e da Anne, quando o projeto passou por São Paulo! Talita e Anne acreditam que, depois de batalhar tanto por esse amor, o relacionamento que possuem hoje é o único que aconteceu de forma saudável na vida delas - e por isso, mas não só, é o melhor. O amor é a base de tudo o que fazem e nele está a presença, a paciência, o acolhimento.. Não querem passar raiva. A paz que encontram juntas não trocam por nada. É com os passeios dos cachorros na rotina que detalham vivenciar na casa “do meio do mato” que elas sorriem contando sobre o amor. Pensam como sempre desejaram isso: viver com alguém que aceitasse a forma como são. Pela religião que eram inseridas, acreditavam que isso não era possível - não para elas. Sempre foi negado. O encontro que possuem e o fato de terem achado seu lugar no mundo é sempre um motivo de celebração. Sobre a religião, Talita lembra do dia que a mãe dela perguntou no telefone como a Anne estava. Era um ato simples, mas a validação da existência da Anne, sabendo a importância que ela possui para a Talita, mesmo existindo o preconceito, foi o divisor de águas e um dos maiores atos de amor. Tanto Anne, quanto Talita e suas famílias eram da igreja petencostal Congregação Cristã (mas calma, não foi lá que se conheceram). Acredito que essa é uma informação bastante relevante porque a Congregação é uma das religiões mais conservadoras do Brasil. Suas famílias seguem frequentando a igreja (e comentam que isso, inclusive, aproxima as mães que perguntam uma sobre a outra), mas acreditam que foi justamente por conta do grande tabu e do próprio preconceito contra seus corpos que demoraram tanto para se entender enquanto mulheres que amam outras mulheres. Anne, apenas aos 32 anos de idade, conseguiu sentir coragem de assumir que estava num relacionamento. Até essa idade, tratou namoradas como amigas, não enfrentou ninguém da família e teve medo. Precisou de muita coragem, ter 100% de sustento e independência para conseguir falar sobre. No primeiro momento, a mãe ficou bastante triste. Dois anos depois, conheceu Talita e hoje em dia elas se amam, passam dias juntas e possuem uma ótima relação, mas entende o quanto o processo foi longo, resgata tudo isso com muito pesar. Talita também demorou para entender e aceitar o que estava vivendo, até mesmo conversar com suas amigas, sua psicóloga, mudar o Tinder para “mulheres” e não “homens”. Foi só aos 32 anos que conseguiu se permitir. Anne comenta que na igreja falavam em tom de alerta que as meninas lésbicas chegavam fazendo carinho no cabelo para seduzir as meninas héteros e levar para um caminho ruim… e acrescenta sobre a solidão em que passou por tudo isso: “Quem me dera se alguém tivesse me feito um carinho no cabelo quando eu era jovem”. No momento da documentação, Talita estava com 34 anos. Ela é natural do sul de Minas Gerais, mas mora em Campinas há vários anos, quando se mudou para estudar. De qualquer forma, sua família ainda mora em Minas, numa região bastante próxima de São Paulo, então brinca que é mais paulista que mineira. Hoje em dia, ela trabalha enquanto jornalista e funcionária pública, adora tirar fotos de natureza e bichos, também escreve para uma revista de engenharia elétrica. Anne, por sua vez, estava com 37 anos no momento da documentação. Ela é natural de Campinas, interior de São Paulo. Trabalha enquanto técnica judiciária e vai se formar em direito em 2024. Anne adora cozinhar, plantar e formar jardins. Possui um hobbie do qual mistura raízes, descobre novas plantas e até faz uma espécie de alquimia, com raízes, plantas, álcool… Mora em uma casa grande, então adora pesquisar, encontrar plantas em extinção e plantar, cuidar, descobrir cheiros, sabores e espécies brasileiras. Anne também é apaixonada por romances lésbicos - os brasileiros, já leu todos - e está desbravando internacionais… são mais de 150 livros lidos. A história delas começou por conta de amigas que tinham em comum (mais especificamente, a prima da Anne), mas não sabiam da existência uma da outra. Foi em 2019 num aplicativo de relacionamento, que de fato, se conheceram, descobriram as amizades que ligavam, conversaram, se acharam interessantes e decidiram se encontrar. Adoravam a mesma cantora em comum (que não era alguém conhecida), a Anne apareceu na casa da Talita cheia de sacolas com comidas, estavam grudadas demais em pouco tempo e… quando viram já estavam apaixonadas. Quando a pandemia começou elas quase não se encontravam. Anne ia até a prefeitura onde Talita trabalhava, elas sentavam uma ao lado da outra em um banco, ambas de máscara, ficavam conversando, mas havia muito medo do Covid-19. E assim seguiram por meses. Hoje, enxergam tudo diferente. Sentem que estão num período muito bom. Possuem seu relacionamento de forma assumida, se sentem livres para viver esse amor. Talita explica que por mais doloroso que tenha sido, foi bonito também… Entende que existiu respeito. De alguma forma, a família passou por cima da fé para acolher elas… E isso foi muito importante. Em muitos momentos difíceis, Anne se isolou para passar por eles de forma sozinha e Talita teimou em estar junto. Tentava sempre explicar que queria estar em todos os momentos - nos felizes e nos tristes - e que não adiantava ela se reclusar. Hoje, Anne não faz mais os movimentos de sair. Ela explica que não teve mais momentos tão tristes, mas que mesmo se tivesse, já se acostumou com a Talita enquanto companhia e vai querer a companhia dela para dividir a dor. Numa pausa, ela conta como enxerga Talita enquanto uma mulher muito forte. Talita rebate, diz que ela não é forte, só não pensa muito, vai lá e resolve. Sempre se viu assim, muito prática. Anne completa: “É forte.” Na rotina, elas dividem o tempo entre ficar no apartamento da Talita e na “casa do mato” da Anne. Lá, adoram passear com os cachorros, ficar no sofá assistindo filme e dormindo. Talita ajuda a sogra a fazer ‘Duo Lingo’ (porque está aprendendo inglês), organizam as coisas da Anne (que é bagunceira) e Anne faz comidas gostosas. Por fim, adoram viajar juntas (e começaram a viajar no começo do namoro, o que era novo para as duas). Entendem que o namoro foi intenso desde o começo, talvez foi por isso que deu tão certo. Talita conta que gosta de como tudo aconteceu, de como estão agora, das amizades dela (várias amigas senhoras de idade, acha isso o máximo e Anne brinca zoando ela) e do cotidiano bastante caseiro que possuem enquanto um casal. ↓ rolar para baixo ↓ Talita Anne

  • Natália e Bruna | Documentadas

    Bruna diz que ficou até surpresa quando a Natália contou o desejo de inscrever elas no Documentadas, brincou dizendo “Quem te viu, quem te vê, hein?!” porque no começo da relação, principalmente na primeira viagem que fizeram juntas, Natália tinha bastante receio até de pegar nas mãos em público… E agora quer mostrar ao mundo que o amor que vivem é lindo. Entendemos que esse medo é legítimo, assim como essa vontade de afirmação. Bruna completa: a história de amor delas também é a história de descoberta da Natália. Para Nat, o amor precisa ser por completo, ou seja, as pessoas merecem ser amadas como são. Se uma pessoa só te ama se você for heterossexual, ela não está te amando. Existe uma busca na perfeição do que criamos em cima dos outros, mas a verdade é que precisamos aceitar quem eles se tornam, quais profissões escolhem, a forma que entendem o amor, com quem se sentem bem ao relacionar, como vão compartilhar a vida… Isso tudo também é amar. Ela explica que a Bruna traz liberdade, foi um combo: a Bruna + a gatinha dela + o lar é o jeito que elas são felizes. Tudo fica nítido, é estampado a forma que se sentem confortáveis juntas. Não existe um julgamento dentro de casa. Quando uma relação existe e se fortifica é porque ali está o amor, assim enxerga Bruna. O amor a gente encontra na rotina, na construção das pequenas coisas, crescendo, cuidando, estando ali diariamente para se ajudar. Com a Natália foi a primeira vez que ela sentiu de forma plena o equilíbrio: ela pode se doar e vai receber de volta, é acolhedor. Natália, no momento da documentação, estava com 34 anos. Nasceu em Barra do Piraí, interior do Rio de Janeiro, mas foi ainda criança para Niterói e seguiu sua vida na cidade. É formada em jornalismo e fez transição de carreira recentemente, está estudando nutrição. Adora ver filmes, séries, ler e estudar o vegetarianismo e o veganismo. Atualmente, mora no Rio de Janeiro, junto à Bruna, e estão desbravando a cidade, conhecendo novos teatros, parques e outros lugares. No dia seguinte à nossa documentação elas iriam participar da primeira corrida juntas, pois estão focando em atividades físicas no momento. Bruna, no momento da documentação, estava com 36 anos. É natural do Rio de Janeiro, da zona oeste da cidade. Trabalha enquanto enfermeira e atua no ambiente corporativo, cuidando da saúde no trabalho. Além disso, faz trabalhos de marketing digital, adora a área do design e também está estudando tarot, que sempre foi um hobbie. No dia a dia, gosta de praticar exercícios dinâmicos (esportes em geral) e também curte dirigir, se sente calma quando dirige. Entre o réveillon de 2022 para 2023, durante a festa da virada de ano, Bruna e Natália se conheceram. Inicialmente não era nessa festa que Natália iria, ela e a amiga haviam comprado ingresso para outra, mas foi cancelada, então deram a opção de reembolso ou de transferência para uma festa que aconteceria na Barra da Tijuca. Elas, saindo de Niterói, acharam bem ruim a opção de ir para a Barra, mas com o valor do reembolso não conseguiriam comprar outra festa então toparam. Bruna, diferente delas, tinha macado com os amigos para ir na festa da Barra mesmo, sabia que era uma festa com um público muito hétero, que só iria ela e um amigo gay, mas topou ir porque queria se divertir. Logo que chegou, Bruna olhou para Natália. Elas não possuíam amigos em comum, estavam apenas próximas e trocaram olhares. Natália estava apenas com a amiga e percebeu os olhares, mas até então se entendia enquanto uma mulher héterossexual e achou estranho, até engraçado isso acontecendo… A festa seguiu e os olhares também. Bruna então comentou com o amigo sobre elas trocarem olhares e quando ele percebeu, disse que estava sim e a incentivou a ir falar com ela. Quando ela ia tomar iniciativa, um homem chegou até à Nat, e quando ela se livrou dele, Bruna não estava mais lá. Depois da meia noite se reencontraram porque o amigo da Bruna fez amizade com um grupo de meninos gays que a amiga da Natália também havia feito amizade, e assim elas se percebem neste grupo. Dançaram juntas, Bruna chegou rápido na Natália e ela indagou: “Que isso, não vai nem perguntar meu nome?” - então elas falaram os nomes e se beijaram. Natália já tinha ficado com uma menina antes, quando era adolescente, mas seus relacionamentos sempre haviam sido com homens. A festa foi acontecendo e elas não tiveram muitas interações, se encontraram novamente 6h da manhã quando tomaram café e a Bruna foi solicita ajudando a Nat a levar café da manhã para a amiga. Foi quando Nat perguntou como a Bruna se identificava e ela respondeu “Enquanto mulher lésbica, e você?” e ela disse que era bissexual. Ela não pensou muito, isso chegou muito naturalmente e pontual. No dia seguinte conversaram bastante e assistiram à posse do Lula juntas, de forma online. Na semana seguinte ao réveillon tiveram um encontro, se divertiram bastante e passaram a se encontrar com frequência. Ainda em janeiro viajaram juntas e na semana seguinte, dia 4 de fevereiro, começaram a namorar. Quando Bruna soube que Natália não havia ficado com mulheres antes, resolveu ir com mais calma, mas não adiantou, o namoro já estava encaminhado. Foram muitos meses no início da relação indo da zona oeste até Niterói, um caminho bastante longo, para se encontrar - ou melhor, a Bruna indo e voltando buscando a Natália para passar o final de semana na casa dela. Existia um receio muito grande de contar para a família da Nat, então tudo foi acontecendo aos poucos. Somente no começo de 2024, mais de um ano depois de se conhecerem, Nat se abriu para seus familiares. Desde então, não possui mais contato com a sua mãe. Por mais que os outros familiares ainda conversem e acompanhem (ainda que não queiram saber sobre o relacionamento) ela sente muito sobre, é muito triste ficar longe de uma das pessoas que mais ama. Entendem que eles terão seu próprio tempo para processar, assimilar e superar o preconceito, mas que nesse tempo elas não podem deixar de viver o amor mais bonito que já sentiram. Para Natália, o amor que vive com a Bruna é o sentimento mais bonito que já presenciou, que já viu acontecer… é respeitoso, é companheiro e não existe opinião que vá tirá-lo do caminho. Entende também que isso não apaga o que tanto ela, quanto a Bruna, já viveram em outros momentos da vida, em outras relações (que também já foram boas) ou em outras formas de viver, que isso tudo faz parte da construção de serem quem são, e que se esforçam muito para serem as melhores pessoas possíveis, mas que em nenhum momento sucumbirão à um pensamento preconceituoso. Então respeitam o tempo, por mais que doa muito, mas se permitem viver. Pela parte da família da Bruna, recebem muito suporte da mãe, que as trata com muito carinho e afeto. ↓ rolar para baixo ↓ Natália Bruna

  • Uine e Denise | Documentadas

    Uine estava com 31 anos no momento da documentação, é psicóloga e atua na área clínica. Natural de Salvador, mas boa parte da família reside em Minas Gerais, o que faz frequentar muito o estado e estar sempre nesses caminhos. Uine conta que uma coisa importante sobre sua vida é o processo de compreensão de sua negritude, que começou há cerca de seis anos, impulsionado por lacunas na sua vivência familiar – parte de sua família é branca – e pela autonomia adquirida ao morar sozinha e trilhar um caminho independente. Na época, Uine já estava em um relacionamento de 10 anos com um homem, que sempre foi de muita amizade e companheirismo. Porém, em dado momento sentiram a necessidade de abrir a relação, percebendo que ela não seria sustentável a longo prazo. Esse momento foi um divisor de águas: começaram a fazer terapia de casal e a explorar novos formatos de relação, incluindo a possibilidade de Uine se envolver com outras pessoas – e pela primeira vez, com mulheres. Essa fase de descobertas marcou os últimos três anos da relação. Denise estava com 37 anos no momento da documentação, nasceu em Salvador, mas vive em Lauro de Freitas, na região metropolitana. Formada em arquitetura, trabalhou por anos na construção civil, o que a levou a se mudar para Recife em determinado momento da carreira. Foi lá que vivenciou grandes transformações de vida, incluindo a descoberta de sua homossexualidade, de novas rotinas e de um novo modo de ser. Determinada a começar um novo ciclo, matriculou-se em diversos esportes, mas foi o crossfit que realmente despertou sua paixão. Ao retornar para Salvador, percebeu que o mercado da construção civil já não fazia mais sentido para ela e que estava em baixa no geral. Notando a ausência de boxes de crossfit em sua cidade, decidiu seguir um sonho e fundou a Crossfit Agreste, o primeiro box de Lauro de Freitas. Uine conta que os últimos três anos do relacionamento aberto trouxeram desafios intensos que refletiram diretamente em sua saúde. Sentia que tudo o que havia aprendido na faculdade era apenas a ponta do iceberg diante da complexidade que vivia. Esse período foi marcado por adoecimentos e pela necessidade de um cuidado maior consigo mesma, tanto na saúde mental quanto física. Em 2021, ainda em meio à pandemia, ela descobriu o crossfit, uma atividade que não só ajudou a manter o corpo em movimento, mas também proporcionou uma válvula de escape para conhecer pessoas e criar novas conexões. Mesmo após o término do relacionamento, Uine e seu ex-companheiro prezaram pela amizade construída ao longo de uma década. A honestidade continuou sendo um pilar importante em sua vida, especialmente com sua mãe. Quando ainda estava no relacionamento aberto, teve longas conversas para contar sobre seu envolvimento com mulheres, o que já foi um impacto para a família. Mais recentemente, seu relacionamento com Denise trouxe novamente essa necessidade de diálogo e enfrentamento de preconceitos, mas também marcou um novo tipo de aceitação. Denise, por sua vez, estava em um momento de recomeço. Após o término de um casamento de 8 anos, que havia começado junto com o sonho da Crossfit Agreste, Denise decidiu que o carnaval de 2023 seria o momento para se redescobrir. Era seu primeiro carnaval solteira e assumidamente lésbica, e estava pronta para aproveitar. Mas antes do carnaval, no dia 2 de fevereiro, foi até a praia e pediu para Iemanjá um amor tranquilo e outras coisas que são de importância para sua vida. Hoje em dia, brinca que foi quase delivery: no dia 3 de fevereiro, no bairro do Carmo, enquanto estava em um bloco com uma amiga, avistou Uine. Entre uma fila de banheiro e alguns passos de dança ao som de uma música, elas tiveram a primeira interação. Depois, já no mesmo grupo de amigos, dançaram e se beijaram. Foram ficando, o tempo passou, até que Uine comentou sobre os amigos dela que estavam ali e o marido. Denise disse: “O que? Tá maluca?” e se desesperou. Uine riu e explicou que estava tudo bem. Naquele dia, mesmo com Denise um pouco desconcertada depois de saber da relação, elas seguiram ficando, se adicionaram nas redes sociais e começaram a conversar. Ainda no bloco, a amiga em comum de Uine e Denise, disse para Uine: “Você não tava querendo uma dupla pra treinar no crossfit? E agora, a dona do crossfit?”, então foi assim que Uine descobriu sobre o trabalho de Denise e sobre a Crossfit Agreste. Nos dias seguintes, enquanto conversavam, viram que tinham coisas em comum e queriam logo se reencontrar. Porém, ambas iriam viajar no carnaval e Uine precisava preparar suas fantasias e de seus amigos. Deram um jeito, reorganizaram suas agendas e conseguiram se encontrar, num jantar em casa. Passaram a noite juntas e, antes da viagem, Denise ainda foi fazer uma surpresa para Uine no aeroporto. O carnaval passou com ambas ansiosas por um novo reencontro. Denise nunca havia experimentado uma relação não-monogâmica e, no início, lidou com inseguranças e crises sobre como seria vivenciar isso. A ideia de algo tão aberto e com tantas possibilidades parecia difícil de assimilar. No entanto, com tempo e diálogo, elas foram construindo uma base sólida de entendimento e respeito mútuo, ajustando os ritmos conforme as necessidades de cada uma. A confirmação de que queriam algo mais duradouro veio apenas dois meses depois. Denise presenteou Uine com a aliança que havia ganho de sua mãe, o anel mais importante que tinha - era a aliança que a própria mãe havia usado. O gesto simbólico marcou um compromisso emocional e o desejo de construir algo que fosse além de uma simples relação passageira, era o significado de: “Eu quero você na minha vida, me imagino casando com você”. Esse momento foi um divisor de águas, despertando nelas a vontade de ficarem juntas de forma mais definitiva, com planos e sonhos compartilhados. Atualmente, Uine mora em Salvador e Denise em Lauro de Freitas, mas passam a maior parte do tempo juntas. Essa proximidade tem levado Uine a considerar uma mudança definitiva para morar com Denise. Encerrar a relação anterior foi uma escolha consciente de Uine, ao perceber que já não cabiam mais as relações anteriores em sua vida. Ainda assim, os aprendizados desse período seguem presentes, ajudando a moldar a relação atual. Individualidade, comunicação e a desconstrução de expectativas sociais são pilares que fortalecem a conexão das duas. Para Uine, esse processo de transição trouxe mais liberdade, tanto no mundo quanto na relação afetivo-sexual. Ela percebe a importância de cultivar relações que vão além do romantismo, como aquelas com amigas, família e outras pessoas queridas. Para ela, o amor deve transbordar em todas as conexões às quais nos dedicamos, especialmente nos momentos difíceis. Esse entendimento reforça que o cuidado e o afeto não são exclusivos das relações românticas, mas algo que permeia toda a nossa rede de apoio. Uine também reflete sobre a relevância de ser uma mulher bissexual assumida e de estar à frente de um negócio. Para ela, é uma oportunidade de inspirar e quebrar estereótipos, mostrando que mulheres LGBTs são igualmente capazes, responsáveis e bem-sucedidas. No box de crossfit de Denise, essa visibilidade se torna ainda mais significativa, pois as famílias, incluindo crianças, reconhecem e respeitam o amor delas como parte de quem são. Demonstrar afeto abertamente e sem reservas não só fortalece o vínculo entre elas, mas também quebra preconceitos de forma concreta e faz com que todos admirem. ↓ rolar para baixo ↓ Uine Denise

  • Denise e Júlia

    A história da Denise e da Julia te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Sobre a cervejaria, Julia fala que além da Oripacha, sua marca, ela já desenvolveu várias outras e está no mundo cervejeiro há bastante tempo (que é muito forte em Porto Alegre). Ela fundou um coletivo chamado Ceva das Minas e lá promovem a cultura cervejeira para mulheres (não só produzirem, mas consumirem também) através de eventos e encontros. É um espaço muito importante que tem crescido consideravelmente na cidade. Por fim, elas adoram viajar juntas de carro e conhecer novos lugares, ou revisitar seus favoritos. A Denise já viajou bastante e morou em alguns lugares (São Paulo e Bahia, por exemplo). Com o amor pela viagem em comum, criaram um jogo em que toda semana sorteiam um país da América para fazer um jantar temático com um prato típico do lugar selecionado. Denise ensinou a Julia a ver o cinema brasileiro com um novo olhar, e Julia ensinou a Denise a apreciar as cervejas e os detalhes bons da vida. Julia ama andar de bicicleta. Denise ama escrever, fotografar e estudar japonês. Elas tentaram morar juntas por um tempo, mas tiveram algumas dificuldades e resolveram manter cada uma no seu espaço. Tudo serviu para amadurecerem e entenderem seus limites, serem mais honestas e sinceras sobre seus sentimentos. Elas entendem também o quanto a quarentena deixou tudo mais pesado e intenso, falam sobre cada relacionamento e cada ser tem suas especificidades e conversam bastante sobre tudo. Julia diz que o amor é como se fosse um canal para as coisas acontecerem. Não é algo que precisa ser dito o tempo todo, mas sentido. E entende que o amor está sendo demonstrado mais na nossa geração, que antigamente parecia ser menos expressado, menos falado. Ao mesmo tempo em que discursos de ódio estão mais discutidos, o amor também está nos libertando. Além disso, se sente mais acolhida se relacionando com outra mulher, sente mais empatia, proximidade e leveza. Enquanto isso, Denise acredita que o amor que se fala, na ideologia, é muito distante da realidade. Amor representa para ela um ideal de bondade com o mundo - a forma que nos relacionamos com o espaço, com a natureza, com as pessoas… não de uma forma super ‘gratidão’ e ‘namastê’, mas de sabedoria e cumplicidade. Ela acha que o amor romântico existe com qualquer pessoa, todos são capazes de se apaixonar e viver uma relação com alguém, mas que ao mesmo tempo todos são completos enquanto indivíduos: a “metade da laranja” não vem para nos completar, mas para nos acolher e nos deixar melhores. Julia e Denise se conheceram em uma cervejaria comandada por duas mulheres em Porto Alegre, a Macuco. Julia tem 29 anos e é cervejeira, Denise tem 34 anos e é cineasta. Ambas estavam com seus amigos no bar, até que a amiga da Julia foi embora e ela ficou batendo papo com as donas, que são amigas dela e, por coincidência, da Denise também. Um pouco antes de serem apresentadas, a Denise estava envolvida numa discussão sobre não se considerar bissexual por nunca ter realmente se envolvido (tido uma relação de longa data) com uma mulher, enquanto sua amiga estava dizendo que isso era um absurdo e que você não precisa ter ‘uma regra’ de namorar tanto tempo para se considerar bi. Nisso, ela foi pegar uma das cervejas preferidas dela e as donas do bar falaram “ah, Denise, quem fez essa cerveja que você tanto gosta foi a Julia”. Assim, se conheceram. Denise brinca que sempre foi de se apaixonar rápido e na hora já sentiu a paixão. A noite foi passando e sobraram elas, as donas e os amigos da Denise no bar. Em algum momento da conversa, a Júlia (que é muito tímida), encostou levemente na Denise - sinal o bastante (ao menos, na hora foi! hahaha) para ela entender que poderia rolar algo - ela estava certa, era um sinal de que a Ju queria, mas foi por um leve equívoco que elas se beijaram: o bar estava fechando e a Júlia disse “e ai, pra onde a gente vai agora?!” o ‘a gente’ da Júlia era: todo mundo… já o ‘a gente’ que a Denise entendeu era: nós duas. Antes de descobrir para onde iriam, Denise tomou a iniciativa e o beijo aconteceu. Denise Julia

  • Carla e Cynthia | Documentadas

    Amor de Diferença - Carla e Cynthia clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Gabriela e Aline | Documentadas

    Gabriela e Aline se conheceram durante a pandemia de Covid-19, em 2021, se esbarrando online num aplicativo de relacionamentos.. Elas moravam sozinhas e estavam em suas casas seguindo todos os protocolos exigidos pelas organizações de saúde, então colocaram pequenas distâncias de quilometragens para o aplicativo encontrar apenas quem estava próximo - a ideia era não precisar pegar um meio de transporte para “ter um encontro/um date”. Enquanto Aline fez questão de analisar o perfil da Gabi e dar um ‘like’ proposital, Gabi deu sem prestar muita atenção, porque estava mesmo assistindo à novela. Mas o que importa é: começaram a conversar, e ainda melhor: viveram, pela primeira vez, uma paixão de verdade, dessas intensas, “clássico sapatão, que a gente sempre ouve falar”. Viram que tudo foi fluindo, ainda que bem rápido, construíram acordos, falavam sobre seus valores, o que desejavam, como se viam, sobre suas terapias, se viam de forma saudável e comentam como era diferente serem adultas e terem relacionamentos saudáveis pela primeira vez [finalmente, né?!!]. Criaram uma série de protocolos, por conta da pandemia, e em meio à sentirem a paixão chegando, mandando comidinhas por carro de aplicativos uma para a outra, o envolvimento aconteceu, chegou o momento de se conhecerem pessoalmente e os encontros seguirem acontecendo. Sentem que o começo envolveu muitas situações simultâneas: eram muitos ajustes e desafios a serem feitos/cumpridos. Se conheceram dentro de casa. Nos primeiros três meses passaram por mudanças, finalização de doutorado, decidiram firmar uma união estável por conta de vários processos burocráticos (e políticos também), a pandemia acontecia, o (des)governo, tudo somava. Gabi conta que era a pessoa que bagunçava para depois arrumar, enquanto Aline era quem se esforçava para não bagunçar. Foram aprendendo uma com a outra. Estavam sempre apostando na relação, mostrando que o relacionamento era a maior aposta delas naquele momento. Sentem que o mundo estava em catástrofe e que conhecer alguém num momento como esse, de alguma forma, é “puro”, é conhecer o estado mais puro de uma pessoa. É muito diferente de conhecer alguém quando está tudo bem. É conhecer a pessoa por inteiro, conhecer ela lidando com algo difícil. Conhecer alguém assim é entender que a pessoa está disposta à reconstrução, é mesmo sabendo que não há controle, querer ficar. Gabriela, no momento da documentação, estava com 34 anos. Ela trabalha enquanto assistente social e possui diversos estudos como mestrado e doutorado voltados à área da saúde. É natural de Porto Alegre e morou na cidade sua vida toda. Ama estudar, viver cercada de pessoas (amigos/família) e acredita ser um grande elo para quem a cerca. Brinca, junto da Aline, que na época em que se casaram quase abriram um processo seletivo para decidir os convidados, de tantos que seriam. Praticou dança aérea durante um bom tempo, adora arte e tudo o que é relacionado à música e a dança. Aline estava com 35 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre, mas desde a infância já morou em diversas cidades brasileiras como Guarulhos (SP), Arroio do Meio (RS) e Brasília (DF). Voltou para Porto Alegre para estudar e hoje em dia fundou uma empresa que oferece serviço de soluções organizacionais para outras empresas. Ela e a Gabi moram no principal bairro boêmio da cidade e adoram a relação que possuem com os vizinhos, todos se conhecem, se sentem num bairro de cidade pequena. Ela adora tocar instrumentos como violão, ukulelê, também se aventura na cozinha, gosta de experimentar receitas, inventar coisas, passar horas… e transformar a casa num verdadeiro lar. Como a relação e a casa surgiram no decorrer da pandemia, diversos hobbies (como o próprio ato de cozinhar) foram surgindo em convivência com o lar. Entre eles, alguns mantém até hoje: como tomar um café da manhã demorado, passar bastante tempo com as gatas e dar valor à intimidade. Isso faz a rotina delas ser única. Sentem que, hoje em dia, existe esse lugar de segurança muito único dentro do relacionamento pelo fato de terem vivido muitas coisas no início e por sempre conversarem abertamente sobre tudo. É um lugar muito aberto, livre de julgamentos. Um espaço que deixa o relacionamento empoderado, fortalecido e amadurecido para falar sobre qualquer assunto. Quando pergunto sobre como entendem o amor que vivem, Aline explica que depois que começou a viver a relação com a Gabi, passou a falar muito mais sobre o amor. Acredita que esse falar/pensar em amor vem justamente por conta dessa aposta que fazem (e que falamos desde o início da nossa conversa). É o que nutre e o que faz bem, não é como uma certeza, um destino, algo que está dado, mas é algo moldado diariamente, construído, cuidado. É uma ação que precisa estar sempre sendo feita e pensada. Ainda mais entre mulheres porque se trata de um amor vigilante, um cuidado sobre onde podem amar e como será demonstrado esse amor: “Porque não são todos os lugares que se pode amar, apesar do amor estar sempre ali”. Gabi explica que trabalha com política de primeira infância e que nesse local sempre é criado ambientes acolhedores com vínculos seguros “que gerem autonomia para a criança saber explorar” e quando elas se conheceram ela estava estudando sobre isso e ficou muito tempo pensando como criaria essa liberdade dentro da relação, no sentido de estabelecer ambientes seguros para estarem confortáveis, possibilitar uma relação que pensa em conjunto e permite carinho, falar sem julgamento, expor as ideias e pensar diferentes rumos. E acredita que foi possível criar isso. E é em parte disso - somado a todo esse cuidado que possuem diariamente em manter o que foi feito até aqui - que está o amor. Com aproximadamente três meses de relação, fizeram uma união estável, por vários motivos: para a Aline entrar no plano de saúde da Gabi, para conseguirem morar juntas reduzindo burocracias, por questões políticas que acreditavam… Logo no começo da relação, quando caminhavam pelo bairro, elas sempre passavam pela rua que moram hoje (uma rua completamente aleatória, mas cismavam em entrar) e olhavam os apartamentos procurando algum para alugar, até que um dia encontraram e entraram em contato só para saber quanto custava. Não era uma opção mudar, ambas já tinham suas casas e Gabi estava rumo à entrega do seu doutorado, uma mudança não era cabível. Mas elas acabaram recebendo uma mensagem sobre esse apartamento, decidiram fazer uma proposta e não esperavam ter a proposta aceita. Descobriram que conheciam a dona. Tudo caminhou para que desse certo - e deu! Descobriram também que ele tinha até um pátio com plantas frutíferas. No começo rolou uma crise de ansiedade forte (também, como não rolaria, né? tudo estava acontecendo muito rápido) e as perguntas eram: Como iriam morar juntas? E como a família iria lidar com isso? Eram duas mulheres. Também iriam ser vistas como uma unidade familiar. Pensaram na união estável como saída. E aí chegam novos acordos e combinações. Quando decidiram casar, por exemplo, tiveram que pensar em outras coisas: “Se sofrermos uma situação de violência/preconceito aqui, indo fazer a aliança, por exemplo, damos as costas e não fazemos ou fazemos por ser o lugar mais barato e não termos a opção de fazermos em outro local?” Enfim, como agir se tiver um preconceito aqui? São novos pensamentos a começar a se “planejar” caso algo venha a acontecer. Por fim, se casaram embaixo de uma figueira, num evento incrível. Riem contando que metade da relação foi planejando essa festa. Mas destacam, também, o quanto demorou tanto para planejar porque não achavam referências de um casamento que representassem quem elas são. Não queriam que fosse tudo LGBT com bandeiras e tudo mais, não porque não precise ter uma bandeira (tudo bem ter), mas porque o grande símbolo são elas. O grande símbolo é o amor delas. Queriam celebrar o amor e comemorar com quem amam. Destacam que como se conheceram na pandemia, muitos dos seus amigos/familiares não se conheciam ainda e o evento foi para juntar todos numa grande festa, então era uma celebração que representasse o jeito delas de amar. Foi muito difícil criar isso sem preconceito ou sem fazerem questão de colocarem em alguma caixinha. Mas era necessário e quando aconteceu foi incrível. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Aline

  • Taynah e Estrella | Documentadas

    Amor de Ano Novo - Taynah e Estrella clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Denise e Rita

    Rita e Dede são as pessoas mais engraçadas possíveis. Confesso que esse foi um dos textos mais difíceis de fazer, porque a nossa história não começou através do Documentadas: conheço elas há anos, quando começaram a namorar, e quando eu, Fernanda, estava começando a me entender. O que o Documentadas é hoje em dia, essa vontade de fazer o projeto ser representativo para outras mulheres e meninas que estejam se descobrindo, vêm também do privilégio que tive ao ter contato com esse casal quando era mais nova e de ter entendido que sim, eu poderia ser uma mulher adulta, amando outra mulher adulta, sendo feliz, tendo qualidade de vida. Nosso encontro foi regado de muito riso. Ou melhor, talvez uns 85% do tempo tenha sido puro riso. Fui recebida na casa/no sítio onde elas moram, em Criciúma - Santa Catarina. Seria impossível começar a contar a história sem dois fatos importantes a serem ressaltados: Não sabemos realmente como tudo começou. 10 reais é um investimento que pode valer muito a pena. Explicando: Rita e Dede se conheceram através do famoso (e tão presente) rebuceteio, em 2012. Rita ainda morava com o pai do Caio (o filho, que agora, é delas ♥) e estava com mudança de planos, iria se mudar para outra cidade, porém teve um problema de saúde na família e precisou se manter em Criciúma. Ela ficava com uma menina de outra cidade, que conhecia outra menina, que estava ficando com “uma pessoa de Criciúma que estava precisando de uma psicóloga”... preciso falar quem era essa pessoa? a Denize, é claro. Na hora que a Dede chamou ela no MSN, ainda pensou “ai que louca né, coitada” porque foi tudo muito aleatório. Elas acabaram criando uma amizade, conversavam bastante pelo MSN. Não se conheciam pessoalmente ainda e seguiam ficando com outras pessoas. Se viram, uma vez rapidamente, na Marcha das Vadias (evento responsável por eu ter conhecido a Rita também!) e depois marcaram de ir num jogo pela diversidade, na UNESC (a Universidade que a Rita trabalha). Rita sempre esteve entre seus amigos drags, gays e travestis. Para ela, sempre foi muito importante estar com essas pessoas (e inclusive é um objeto de pesquisa dela, com o mestrado falando sobre crianças e adolescentes transgêneros). E Denize era de um lugar bem diferente, não tinha amigos nesse meio e mantinha um preconceito pelo forte estigma desses corpos. Chegando no jogo, quando Dede viu os amigos da Rita, logo se assustou. Não quis ficar naquele ambiente. Tinha recém se assumido, ainda sentia certo medo e, ainda mais em cidade pequena, não queria ser vista lá. Ela disse para a Rita que iria no posto beber cerveja com uma amiga, mas na verdade tomou o rumo de casa. Elas realmente não sabem quando a amizade virou flerte. Quando o sentimento se despertou mesmo. Brincam que o relacionamento começou na base do “duvido”, porque a Rita ia numa festa, a VOGUE (que inclusive eu também estava!). A Dede não iria, mas acabou brigando com a menina que estava ficando e a Rita disse “duvido você ir na festa”, então de última hora ela resolveu sair de casa. Brincamos que, se eu fizer uma clipagem no meu HD, posso ilustrar toda a história delas com fotos que eu mesma fiz, de vários momentos diferentes dessa relação . No fim, o 'duvido' deu certo. A Dede foi e como não precisaria pagar a entrada, levou só os 10 reais que tinha em casa. Aí começa o investimento. Ao invés de perguntar para a Rita o que ela estava bebendo, perguntou para um amigo dela. Quis fazer um gesto de “cavalheirismo” pensando que iria gastar 2 reais numa Antártica Sub Zero e que estaria tudo bem, mas na verdade a Rita tomava whisky com guaraná, ou seja, o combo custava dez reais. Decidiu comprar e fazer o agrado, mas passou o resto da festa se virando nos 30 para entreter - e a Rita ainda ficou chocada porque pensou que Dede tinha acertado a bebida favorita dela. A gente tenta, né? Elas ficaram na festa. Dede foi embora mais cedo, Rita achou engraçado uma pessoa que não ficava na festa até amanhecer. Nos dias que seguiram, sempre achavam um jeito de se encontrar. Denize conquistou o Caio logo de cara, ficaram inseparáveis (e são até hoje). Ambas moravam no centro da cidade e Rita começou a chamá-la para tomar um mate todo fim de tarde na praça, enquanto o Caio brincava, depois do colégio. Virou uma rotina: todo dia, Rita ia com o Caio para a praça e levava uma paçoquinha para a Denize, que saia do trabalho que ia direto ao encontro. Rita tem 43 anos, é psicóloga, mestre em saúde coletiva e divide seu tempo entre trabalhar na empresa de contabilidade que elas abriram juntas e ser coordenadora da secretaria de diversidades e políticas de ações afirmativas na UNESC (a universidade local). Nas palavras dela: “trabalho 20 horas na UNESC e 246 horas no ecritório, mas a Denize não me dá um déciminho terceiro…” Denize tem 38 anos - e brinca que não chega aos quarenta nunca! Queria alcançar a idade da Rita, mas nunca consegue porque sempre que tá chegando mais perto ela inventa de querer ficar mais velha também. Dede é administradora e contadora. Elas estão sempre juntas, seja em casa, cozinhando, conversando pela casa, trabalhando, assistindo TV… ou seja na universidade. Denize acaba levando a Rita para uma vida social mais ativa (e agora, em pandemia, sente muita saudade de sair e ver gente). Em casa, elas aprenderam a fazer diversas coisas: construir, reformar, pintar. Fazer tudo. De vez em quando, a Rita coloca a mesa na rua e passa um longo tempo pintando, enquanto a Dede está construindo algum móvel ou montando coisas. No começo do relacionamento, Rita ajudou muito a Dede a se reaproximar da família. Foi algo muito importante, pois depois dela terminar um casamento e se assumir houve um afastamento brusco. Hoje em dia são muito próximas e felizes. No começo, também, Dede ajudou muito a Rita. Ela precisou sair de casa e acabou indo provisoriamente morar com a Denize. Não teve um começo exato, foi a necessidade. O Caio sempre foi muito apaixonado pela Dede e a relação delas estava indo bem, decidiram segurar o tranco juntas, mas com um prazo: duraria dois meses. Não preciso nem dizer que estão juntas até hoje, né? nem elas acreditaram que seria só dois meses. Passaram um tempo com o dinheiro bastante contado, Rita conseguiu um emprego de professora de matemática financeira (o que certamente foi um surto coletivo, porque ela mal consegue contar o dinheiro que têm na carteira) e ao menos o trabalho tinha plano de saúde. Desde a mudança, até as primeiras semanas, já sentiram que estavam se transformando em uma família - “foi tudo muito divertido”, elas descrevem. Em 2013 decidiram que estavam prontas para assinar uma união estável e sonhavam com ter “uma casinha para sempre”. A casinha chegou, no sítio, e elas construíram cada pedaço juntas. Desde colocar o piso, montar estantes, sofás… até fazer a piscina (que era o sonho da Dede). Hoje em dia, elas entendem que tudo possui o seu próprio tempo. Na empresa, cultivam clientes muito fiéis, gostam de trabalhar juntas. Na casa, tratam tudo com mais calma: plantam, colhem, constroem. Falam sobre nós, LGBTs, não queremos privilégios, mas sim nosso direito básico de viver com qualidade. A Dede comenta sobre a palavra não ter mais poder, o uso da violência se banalizou, normalizou. Gostaria de mudar, que as pessoas voltassem a lidar com as situações absurdas que vivemos como elas deveriam ser lidas. Visitei a casa delas logo depois da Rita defender seu mestrado e ganhar um carro de presente da Dede. A chave veio no meio de um livro que obviamente a Rita não leria, só para fazer a surpresa ser mais divertida. Por fim, mas não menos importante: o Caio quis muito, elas também, e formalizaram a adoção dele. Hoje em dia ele tem o nome das duas mães e do pai na certidão. São, oficialmente, uma família.

  • Natielli e Emanueli

    A Nati e a Emanueli são duas mulheres com muita bagagem. Nos mostram que a idade, algumas vezes, não quer dizer tanto assim. Que a vida dá seu jeito de nos fazer viver muito em pouco tempo...E são duas mulheres que, desde sempre, entenderam o mundo através de muita força, de muita correria diária e de muita batalha. Natieli tem 22 anos e trabalha como vigilante em um ponto turístico/mercantil de Porto Alegre. No tempo livre adora jogar futebol, andar de bicicleta e curtir o tempo com a Ayla, a filha dela e da Manu (também conhecida como: criança mais desconfiada & linda possível!!). Já a Emanueli, tem 19 anos, é natural de Lagoa Vermelha, cidade no interior do Rio Grande do Sul com pouquíssimos habitantes, mas mora em Porto Alegre com a família há bastante tempo. Ela faz bastante coisa e adora ser uma pessoa que aprende tudo/explora tudo. Hoje em dia trabalha como manicure, no salão que a mãe dela construiu em casa, mas tem cursos enquanto astróloga e taróloga. Ela adora ver vídeos sobre a maternidade entre mulheres (foi assim que chegou até o Documentadas, inclusive) e dialoga bastante sobre. É muito legal ver as trocas que ela faz com a Ayla e o sentimento de família e de apoio que elas construíram juntas. ♥ A Nati e a Manu se conheceram através de uma amiga em comum, lá em 2019. Foi num show da Iza, que a Manu foi com essa amiga, num espaço aberto em Porto Alegre, que a amiga delas resolveu ligar para a Nati e convidá-la para o evento. Até então a Manu não sabia quem era e quando a Nati chegou, com um jeitão mais fechado e na dela, a Manu logo pensou: “Que guria bem antipática!! Mal educada”. A amiga resolveu dar uma de cupido e juntar as duas, mas, além da pré-antipatia, a Natielli já estava ficando com outra pessoa (Pode entrar, o famoso: Rebuceteio!) e a Emanueli também já tinha outra pretendente… No fim, não rolou. Acabou que o tempo passou, o show acabou e outro dia a Nati mandou mensagem para a Manu. Ia rolar uma festa de aniversário na casa dessa ‘amiga’ e chamaram ela… Lá, elas se beijaram. Com uma certa frequência começaram a se encontrar nos lugares e aos poucos o sentimento surgiu. Foi em outro show que elas se encontraram e entenderam o que sentiam enquanto a paixão. A Nati disse que não queria que a Manu fosse embora e, então, no dia seguinte elas se viram na casa dela (Detalhe: a Nati foi CAMINHANDO até a casa da Manu e era uma distância muito longa!! Ela não contou que não ia de carro ou de ônibus e só avisou quando estava chegando lá, como se estivesse no carro… e a Nati nem percebeu que a menina tinha caminhado quilômetros. Já diria a Sandy, né minha gente: “Olha o que o amor me faz...”). Um mês depois do encontro em casa (e da caminhada) a Natielli fez o pedido de namoro ♥. O processo da vinda da Ayla ao mundo foi muito cuidadoso e delicado e, antes de tudo, sei o quanto isso é importante para a Nati e para a Emanueli. Então queria agradecer a elas terem me concedido permissão para falar aqui, de forma não necessariamente romantizada e sim como parte verdadeiramente documental, sobre o processo da maternidade de duas mulheres e o que representou isso para as duas - em sua melhor forma de ressignificar. ♥ obrigada e admiração por vocês três. No decorrer do ano de 2019 e logo no começo da relação das duas, a Nati sofreu uma situação de abuso. Foi um grande desespero e elas estavam sem saber o que fazer. A reação da Emanueli foi acolher e tentar ajudar como soube na hora, mesmo sendo algo muito difícil e traumático. Elas ressaltam que, nos momentos em que mulheres estão fragilizadas, geralmente o que podemos fazer é tentar estar por perto e segurarmos uma nas mãos da outra. Diante toda a gravidade da situação, elas conversaram muito, tentaram se acalmar e buscar as providências corretas judicialmente. Nesse meio-tempo, a família da Emanueli recebeu a Nati em casa e elas se tornaram uma família só. Foi acontecendo uma movimentação natural da mãe, da avó e da própria Manu em torno do acolhimento e de entenderem o momento de fragilidade. Foi então que veio um sentimento das duas pensarem que elas não possuem condição para uma fertilização em clínicas e que gostariam muito de serem mães, de gerar, educar, criar e amar. E foi aí que a Nati perguntou: “você quer ter esse filho comigo?”. A Manu aceitou. E, meses depois, a Ayla veio ao mundo. Hoje em dia, a Ayla é a maior alegria em casa e, mesmo entendendo que o momento tenha sido de muito trauma e muita dor, é com terapia que elas procuram construir e literalmente dar outro significado para isto. Procuramos, também, alertar outras mulheres para que estejam sempre em apoio, uma das outras, que nunca soltem as mãos e que fortaleçam seus laços. A forma que o amor encontrou a vida dessas mulheres mostra que o amor entre mulheres consegue mover muita coisa no mundo. Quando a Manu e a Nati se casaram foi algo não-oficial, mas muito importante para elas. Fizeram um documento, em casa mesmo, com chocolates e comemoraram juntas. Sentem que estar juntas é o resumo de tudo. Ali, tudo é 8 ou 80. Decidem as coisas, conversam sobre o que pensam e se entendem porque o diálogo é aberto. Elas zoam muito também, a conversa (quase) não dava para ser levada à sério, porque metade do tempo era risada de uma atiçando a outra, falando bobagem e fazendo piada. Para Emanueli, o amor, acima de tudo, é a parceria que elas construíram juntas no relacionamento. Essa parceria entende a individualidade, respeita os momentos, os espaços, mas não larga as mãos quando precisa. Está sempre ali. A Nati completa que o amor para ela é muito forte, capaz de superar distâncias e dificuldades. Elas acreditam que o amor entre mulheres é diferente porque ele sabe apoiar nas horas boas e ruins. E que a maternidade delas mostra como é isso na prática - por mais que não tenha sido nenhum pouco fácil (e que diariamente não seja fácil). São mulheres periféricas, são mães de uma criança negra, mães negras, parte de uma maternidade que não estava nos planos… E falam o quanto isso implica em tantas mudanças repentinas na nossa forma de pensar e de enxergar o mundo. E o quanto, também, implica na forma que queremos o mundo diferente para a Ayla viver. Elas, em especial, querem um mundo mais emancipado, em que as pessoas tenham mais condições e que os nossos direitos sejam respeitados, assim como desde cedo ensinam a Ayla a respeitar cada detalhe de cada pessoa: que a Ayla respeite cada ser como ele é. ♥ Natielli Emanueli

  • Taynah e Estrella

    Particularmente falando, fazer o texto da Taynah e da Estrella foi um dos mais difíceis que já fiz no Documentadas, visto que a Taynah é uma das minhas melhores amigas (e inspirações!) dessa vida. Desde muito antes de lançar o Documentadas eu compartilhei com ela essa ideia, quando o projeto ainda não tinha nome (ou pior, tinha um nome bem ruim, rs. fases). Além disso, sempre brinquei também: “Agora você precisa arranjar alguém para aparecer no site, né amiga?!” Pois bem. Fui embora de Porto Alegre no dia 7 de março de 2021 para que o Documentadas lançasse no dia 10, no Rio de Janeiro. Naquele dia, a Estrella tinha acabado de chegar na casa da Taynah e foi naquela semana que o relacionamento delas começou. Hoje, subir essa história na plataforma e ver minha amiga de tantos anos, que admiro e que representa tanto na militância lésbica brasileira, com sua companheira, amando e sendo feliz, é, para mim e para todas nós, sim, um marco muito potente. Que vocês sejam felizes e que amem muito! ♥ Agora que já dei uma breve introdução sobre o assunto, rs, posso também dar uma introdução sobre quem é a Taynah e quem é a Estrella. A Taynah estava com 25 anos no dia que fizemos as fotos. Ela trabalha como militante, política há muitos anos e representa o PSOL em espaços como a Assembleia Legislativa. Dentro do partido, ela fica responsável pela produção de eventos e diversas outras tarefas. Ela é natural de Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre. Toda a família mora em um sítio e ela brinca que fugiu de lá para militar. É toda da área de exatas, mesmo debatendo o tempo todo ciências políticas. É também uma pessoa bruta, muito justa, com um jeitão fechado, mas um coração gigantesco que na primeira oportunidade tá soltando uma gargalhada. A Estrella estava com 23 anos no dia que fizemos as fotos. Ela é estagiária de direito e também atua o tempo todo enquanto militante. Nasceu em Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul, e por mais que grande parte da sua família mora lá, ela reside em Porto Alegre. Estrella adora coisas manuais, como tricotar e bordar. Também adora passar parte do dia com os seus cachorros, o Banguelinha e o Guri. A Estrella conta que tem como referência uma amiga, a Carlinha, que é amiga de militância e uma figura importante na vida das duas (não só enquanto um casal), é alguém que a inspira. A Taynah completa que para ela, as referências femininas estão por perto também, são a Gabi e a Mari, duas dirigentes que possuem um nível de militância e organização política que ela almeja ter. Foi impossível desvincular nosso papo do dia a dia militante em que elas estão inseridas. Foi na militância que elas se conheceram. Não lembram o momento em si porque foi cotidiano, há bastante tempo atrás. Mas foi um pouco antes do ano novo, já durante a pandemia, que elas se aproximaram. Um grupo de amigos em comum, do mesmo coletivo, não tinha onde passar o ano novo porque estavam num momento ruim financeiramente. Eles já se encontravam na casa da Taynah com frequência porque ela costuma receber amigos, mas não queriam ficar lá durante a virada de ano. Alguns desses amigos jogavam vôlei na orla do guaíba para movimentar o corpo durante a pandemia e teve um dia que a Estrella apareceu por lá... Depois do volêi foram todos para a casa da Taynah e ficaram jogando UNO, lá, elas contam que a Estrella deu a “primeira pedrada”, ou seja, lançou o primeiro flerte. Assim, de cara. Na época ela estava saindo de um relacionamento, colocou um ponto final. Nisso, o pessoal passou um tempo reclamando de relacionamentos, ou melhor, de homens. Foi aí que a Taynah falou, “Ah, com mulher também não é fácil!’’ e a Estrella respondeu “É, porque tu não namorou comigo ainda.” e depois de soltar isso ela foi embora. Sim, ela só falou isso quando já estava indo embora. Os amigos até se assustaram de tão direto que foi. Uns dias depois desse susto na saída, chega o famigerado ano novo. Todos foram para uma casa do irmão da Taynah, próximo do sítio em que a família dela mora. Eles chamaram os amigos e a Estrella foi incluída na lista. No último dia do ano novo elas ficaram, numa brincadeira de verdade ou consequência que foi a maior armação dos amigos (afinal, quem tem amigo, tem tudo né). [Eu, enquanto amiga, saindo um pouco desse caráter documentário, posso afirmar que só recebi uma mensagem dizendo assim “Amiga, a gente tem que fazer uma chamada pra eu te contar do Ano Novo!” E respondi com certo receio sabendo do histórico… “Aí… O que aconteceu?” “Aí, muitas coisas” (Risos). Então eu falei “Taynah, tenta dar uma explicada…” e ela foi me contar de CERVEJA. Posso com isso? Quando ela falou o nome da Estrella passei a entender tudo.] Um tempo depois, elas se encontraram novamente, no fim de janeiro, na casa de uma das amigas em comum, mas não se beijaram. Foram enrolando a situação por mais um mês, até que a Estrella foi novamente para a casa da Taynah, exatamente com as pessoas que estavam no ano novo, e finalmente elas ficaram. A partir do momento que elas ficaram, nunca mais desgrudaram. Foram ficando dias e dias juntas, a clássica história da paixão arrebatadora. Inclusive, existiu um super elaborado pedido de namoro, com a participação dos amigos [eu, Fernanda, que escrevo, inclusive, participei] muito lindo e brega. É muito interessante e legal revivermos o brega, de um jeito ótimo, do pedido de namoro, visto que a Taynah sempre teve um bloqueio de não se jogar de fato nas relações, no sentido de sempre ser muito racional. O bloqueio chegava a ser um certo ranço de casais muito apaixonados, dizia que nunca iria viver algo desse tipo. Quando eu falava para ela aparecer no Documentadas, era uma gargalhada e um sinal negativo com a cabeça… E agora ela conta que é um relacionamento totalmente diferente do que já pensou viver. A única dificuldade encontrada é no trabalho e na militância excessiva, por conta das demandas de reuniões até tarde e espaços pequenos para estarem juntas. A Estrella brinca dizendo que às vezes elas precisam marcar na agenda… Marcar e dar uma enrolada, pra dar mais tempo de poder ficarem juntas. Sobre isso, especificamente, elas entendem que vivem fases diferentes dentro da própria militância, a Estrella está no que chamamos de “juventude”, que é algo muito mais dinâmico. A Taynah entende que ela tem que passar por essa parte do trabalho, viver e aproveitar mesmo, inclusive porque não é um problema pra ela militar demais, que admira e também trabalha, mas que precisam entender os limites delas também para que possam ficar juntas um tempo. Esse limite está em não pegarem no celular quando estão aproveitando o tempo unidas, terem um vínculo de conversas ativas, de aproveitar o que gostam e de se doarem à relação. Estão sempre bebendo uma cerveja juntas, jogando um UNO com os amigos, cuidando dos cachorros, jogando jogos online e assistindo Greys Anatomy ou outras séries. São momentos só delas, que elas fazem de tudo para aproveitar esses detalhes. Dentro da militância LGBT, a Taynah teve muito contato com diversos âmbitos diferentes sobre as nossas pautas e ela fala da importância de coisas mais básicas, como a escola e a educação para a diversidade, desde coisas mais pontuais, como os abrigos para LGBTs expulsos de casa. Ela entende a necessidade de um abrigo que dê teto mas que também forneça formação, atendimento psicológico e social, faça o trabalho completo. E um serviço que seja feito pelo estado, por mais que existam ONGs, isso precisa ser oferecido pelo estado! Precisa ser visto como um direito. A Estrella fala sobre esse ser o primeiro relacionamento dela com uma mulher e como isto abriu o olhar para algo dentro da própria maneira de militar, porque ela sempre foi do movimento feminista, mas nunca atuou diretamente em pautas LGBTs. Quando a Taynah falou sobre os abrigos para LGBTs, na mesma hora ela pensou sobre e chegou à conclusão de que no Rio Grande do Sul só tem 14 casas para abrigar mulheres, enquanto LGBTs não há nenhuma. “E a mesma importância que eu dou hoje pra mulheres, porque é onde tô mais inserida na militância, seria o mesmo apontamento que eu daria pra LGBTs porque eles sabem da realidade serem expulsos de casa e não terem nenhum tipo de assistência, seja familiar ou social.” Por fim, para a Estrella, o amor está muito baseado na compreensão, no respeito e na confiança. A compreensão de entender as necessidades do outro, entender o que o outro está passando e querer ajudar. Sem que isso seja uma obrigação, mas por querer ver a pessoa bem. Independente da pessoa ser namorada, amiga ou família. Respeitar a própria personalidade da pessoa, saber respeitar, lidar e mediar. A Taynah conta que por ser uma pessoa lida enquanto bruta, ela nunca encontrou o amor no afeto carinhoso. “Acho que o amor é muito mais na doação do que tu tem em relação a outra pessoa. Então por isso, concordo muito com a Estrella sobre a questão de fazer com que a pessoa se sinta bem, de evitar magoar as pessoas ou se doar mesmo de uma forma pra sociedade, né?”. Ela fala que enquanto vivermos em sociedade, estamos sempre compartilhando, mesmo que num mundo que compete o tempo todo. “Pra nós é diferente o afeto que é ensinado e colocado. Eu acho que é uma coisa totalmente diferente, e eu apesar de ser uma pessoa muito racional, também sinto muito. Sou uma pessoa que sente bastante. Acho que talvez o amor entre mulheres seja um amor revolucionário de fato. Não só de uma frase feita, né? É uma relação onde tu tem que te explicar o tempo todo, te afirmar o tempo todo e por isso acho revolucionário mesmo. Porque tipo, eu já milito há oito anos e faz sete que eu saí do armário e eu não vivi um dia até hoje onde eu não tivesse que me afirmar.” Fora da galeria Estrella Taynah

  • Tania e Clarissa

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Tânia e da Clarissa, quando o projeto passou por São Paulo! Queria contar a história da Tânia e da Clarissa (e do Gael, claro) de uma forma que tudo se completasse, porque a vida delas acontece assim. Diversas vezes, desde que nos encontramos em São Paulo - cidade em que elas nasceram e moram com o Gael - falamos no sentimento que existe sobre a vida tê-las preparado para a chegada dele. E isso não significa que ter um filho e educar uma criança de forma inclusiva é tarefa fácil ou, que nesse caso, venha com receita pronta, mas que elas estavam de braços abertos e muito dispostas para receber tudo o que aprendem e compartilham diariamente. A forma de começar a contar essa história vai ser pelas fotos porque escolhemos fazê-las num local muito especial, um café, localizado no bairro da Mooca. Esse café foi a Tânia quem pintou, com giz de cera, cada uma das paredes. Quando ela pintou, não imaginava que adotaria o Gael, mas já estava com o processo de adoção bastante avançado no fórum e tinha feito uns murais na escola em que trabalhava, quando o dono do café foi matricular a filha, os viu e decidiu contratá-la; foram dez dias de muitos desenhos nas paredes… mas um desenho em especial, de frente para a cozinha, era o preferido do casal (e também da Tânia!): uma menina no balanço, lendo um livro. Enquanto pintava, Tânia resolveu perguntar o motivo deles terem gostado tanto do desenho e a resposta foi que remetia à uma criança com síndrome de down (a esposa do dono do café é fisioterapeuta e tem essa especialização). A menina, com seus dedinhos curtos, segurando o livro, de olhinho puxado… remetia a eles e trazia algo tão bom. Enquanto para a Tânia, pelo vestido fazendo um contorno circular longo, via logo um barrigão, não pensava na criança, mas numa gestação. Não sabia ela que exatamente naquele dia da pintura, em um estado vizinho, o Gael nascia. As fotos da Tânia e da Clarissa, junto ao Gael, hoje em dia com dois anos, saudável, sorridente, muito inteligente e simpático, conversam com cada uma das pinturas do café. E é muito incrível ver como, de todas as formas, elas estavam esperando por ele. A Clarissa tem 37 anos, é bancária, adora mexer com plantas, reviver plantas, replantar e cultivar. Ela também toca violão e canta (gravou em estúdio a música para a Tânia entrar no casamento! Olha que incrível!). Ela adora esses detalhes, trata-os com muita atenção e carinho. A Tânia tem 43 anos, é historiadora e pedagoga, brinca que é artista plástica autodidata, porque dá aula de artes e de pintura há muitos anos também. Antes dos murais, ela nunca tinha pintado usando giz de cera, sua especialidade era tecido e madeira. A história do giz começou por uma reforma na escola e pela falta de dinheiro para comprar materiais para a pintura acontecer, então ela viu que tinha muito giz e pensou que poderiam inventar algo novo. Enquanto a história dos tecidos, essa vêm de longa data: ela já apresentou até programa na TV ensinando outras pessoas a pintarem seus próprios tecidos em casa. A Tânia e a Clarissa são mulheres muito atenciosas e logo que você chega é completamente impossível não se contagiar pela energia delas. São pessoas que se movem por afeto e contam histórias de vezes que já comemoraram datas com violinistas, de votos de amor que fazem por aí, das aventuras de anos casadas… são muitas risadas que vamos trocando ao longo das conversas, porque mesmo que os assuntos não sejam tão fáceis ou que existam os perrengues, fica claro o tempo todo que elas querem fazer o bem. Por fazer o bem que elas se conheceram, inclusive. Foi num grupo de Whatsapp onde LGBTs se reuniam para promover doações que quebravam o preconceito. Infelizmente ainda existe um olhar para nós de que só queremos festas, coisas vistas como “libertinagens” e não levamos nada à sério (e tudo bem querer festa, viu gente?), mas para quebrar essa ideia tão retrógrada esse grupo se uniu visitando lares de idosos, praticando doações, distribuindo coisas, etc. A Clarissa se interessou pela Tânia, chamou ela no Whatsapp e passaram quatro horas conversando. Marcaram de sair e foram ao teatro, já que ambas amam teatro. E, dessas saídas ao teatro, já se passaram mais de 8 anos, né? Cá estamos. Depois que elas se conheceram, se apaixonaram e namoraram por um tempo, resolveram morar juntas. A Tânia já tinha dois filhos maiores de vinte anos e isso fez com que fosse ainda mais difícil para a mãe da Clarissa a aceitação do relacionamento, portanto elas passaram o primeiro um ano e meio sem contato direto com as famílias. Mas não foi por falta de tentativa, não, viu? Tânia tentou, mandou e-mails, fez o que estava ao seu alcance, mas não conseguiu. Depois de um tempo, o irmão da Clarissa começou a namorar e foi apresentar a namorada, então elas resolveram dar um basta: só iremos se a Tânia puder ser apresentada também. Ok, baixamos a guarda. A Tânia foi convidada. E ela? Viveu um dia de gala! Foi ao salão, comprou até roupa nova para a ocasião. Deu tudo certo, todos se deram bem. O mais curioso é que a mãe da Clarissa e a Tânia se parecem muito, não só no jeito, mas ambas são professoras e artistas, então a mãe sempre soube quem era a Tânia por ver ela na TV, mas não dava o braço a torcer. Depois, quando se conheceram e se deram bem, tudo foi ficando mais tranquilo, mas levou muito tempo para que elas não se sentissem mais pisando em ovos. Desde o começo a adoção sempre estava em pensamento, por ser um sonho de muitos anos da Tânia. A Clarissa adorava a ideia, mas ambas achavam muito cedo. Deixaram a hipótese ao futuro, para amadurecer depois do casamento. Quando o casamento chegou, a notícia foi dada num almoço de família, depois de três anos juntas. A mãe da Clarisse perguntou “Mas por que vocês vão casar? Se já moram juntas há três anos?!” e ela respondeu: “Por que a senhora casou? Então. A motivação é a mesma.” = aí, ninguém argumentou mais nada. Sobre o casamento, o assunto já estava vencido, mas ainda sentia-se uma dor porque tiveram pouquíssima participação familiar no envolvimento em si… pouco perguntava-se sobre o evento, elas organizaram tudo sozinhas, cada detalhe, e foi difícil lidar com esse sentimento de solidão. Na data da festa, o pai da Clarissa entrou com ela e foi muito receptivo com os convidados, enquanto a mãe ficou mais reclusa. Recordam que a cerimonialista falou coisas muito profundas e importantes sobre o amor e sobre quem nós somos, e citam que isso despertou uma mudança comportamental na forma que a mãe da Clarissa vê o relacionamento das duas, portanto, valeu sim, muito a pena. Em relação à adoção, elas contaram da mesma forma que o casamento: o irmão da Clarissa ajudou e elas organizaram uma pizza entre a família para dar a notícia. No começo, o maior medo que surgiu foi em relação ao processo, como seria, e de certa forma sobre alguns preconceitos que envolvem a adoção, como “Como será que vai ser quando a criança crescer? / E se ele/ela quiser procurar a família biológica? / etc”, além disso, existia um pensamento sobre a Clarissa nunca ter filhos pelo o que ela representa socialmente, uma mulher que não se mostra feminina, não encaixa num padrão socialmente colocado que desde criança não mostrava brincar de bonecas e nem ser muito materna… [E justamente nesse momento nos surge a dúvida: Por que isto vira um debate quando a Clarissa anuncia o desejo de adoção e nunca vira um debate em famílias no momento em que os homens contam que vão ser pais? Nunca um homem é cobrado sua paternidade, já para nós, mulheres, sempre nos é cobrada uma posição materna e se não temos uma boneca em casa nos é descartada a possibilidade ao crescer. Ainda bem que Clarissa seguiu o sonho porque hoje em dia ela é uma mãezona!] Enfim, o sentimento que os familiares ficaram foi de: quando acontecer, a gente vê. Foi então que elas entraram com os papéis no fórum e acompanharam mensalmente os encontros em grupo sobre adoção. Depois de um ano, os pais (avós do Gael) estiveram também nesses encontros, o que foi muito legal porque mudou bastante a visão sobre a adoção, e lá foram reaprendendo formas de enxergar e de se preparar para recebê-lo da melhor forma possível. Depois de um ano e meio elas estavam aptas a entrar num grupo de busca ativa por crianças para adoção. Lá, chegaram a tentar uma criança, enviaram os documentos, mas não tiveram retorno judicial (em agosto de 2019), então voltaram à busca. Em novembro, dia 20, de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra, elas estavam em uma peça de teatro (olha aí, o primeiro date voltando à tona), e quando pegaram o celular para fotografar um momento da peça porque Tânia queria mostrar aos alunos na escola, viram no Whatsapp a foto do Gael. Tânia, em lágrimas, conta que sentiu o coração palpitar muito forte e só conseguiu dizer: é o meu filho! A informação que tinham era de que o Gael não estava em São Paulo e que era um neném com síndrome de down, possuindo também uma bolsa de colostomia. Elas nunca tinham pensado na hipótese da síndrome de down porque não existia essa opção no questionário que responderam, mas na mesma hora não havia mais dúvidas, apenas a certeza que o Gael era o filho que elas estavam buscando. A Clarissa brinca que não conseguiram mais nem ver a peça, choravam e ela tentava conversar para acalmar e ser um pouquinho mais pé no chão, saber se era isso mesmo que elas queriam, mas ambas estavam muito emocionadas. Ao fim, foram para o estacionamento, conversaram e ligaram para a filha da Tânia. Na hora que ela viu a foto, não deu nem tempo, só disse “Mãe, é ele, né??? É o meu irmão! Pega ele! A gente estimula ele, mãe!! Vai dar certo!”, naquele momento tudo foi se encaixando, a filha dela trabalha com crianças que possuem síndrome de down e na época auxiliava 6 crianças numa escola. Em seguida, ligaram para o filho, que também apoiou. Foi o bastante: deram o sim para a assistente social. Os dias seguintes se resumiram em pura ansiedade. Enviaram os documentos e o processo demorou mais de uma semana, passaram por entrevistas, por assistentes sociais… Tânia estava tão ansiosa que resolveu ir até a casa de duas amigas mais velhas, maiores de 80 anos, cujo ela apelida de yabás. Elas falaram: “Calma que ele é teu, ele já vem”. Foi quando ela chegou em casa que recebeu a ligação do fórum e falaram: chegamos à conclusão de que não existem mães melhores para ele do que vocês duas. Compraram as passagens aéreas, alugaram airbnb, marcaram audiência e o mais rápido possível foram conhecê-lo. Conversaram muito com as assistentes, com o fórum, afinal, tudo precisa ser minimamente acertado. A família (como um todo) ainda não sabia, porque o medo de não dar certo era grande, deixaram para contar quando já estivessem lá. E finalmente chegou o momento aprovado de conhecê-lo: lá estava o Gael, neném pequenino, gordinho, com os olhos super curiosos, acompanhado de uma sacolinha de plástico com suas roupas. Elas foram com ele até o apartamento onde estavam hospedadas. Todos estavam enviando mil mensagens para o celular, mas fizeram chamada de vídeo com a filha da Tânia. Gael, quando a viu, abriu um sorrisão. Foi o primeiro sorriso dele, como se já a conhecesse. Ele foi muito bem recebido por todos na família e é uma criança muito amada. Elas afirmam: “Ele nos ensina coisas que nenhuma faculdade ensinaria, nenhum curso”. A vida gira em torno do Gael, que ao todo faz 6 terapias, hidro, fono, fisio, uma rotina intensa! É sempre de sorriso no rosto! E vai melhorando a cada dia. Hoje ele já não usa mais a bolsa de colostomia, passou pela cirurgia e correu tudo bem! Falamos sobre a importância de darmos valor aos pequenos grandiosos acontecimentos ao nosso redor, como as necessidades fisiológicas diárias. E tudo o que isso nos ensina. Nesse momento, a Tânia conta que no dia do casamento elas fizeram votos falando sobre o quanto são pessoas melhores depois que se conheceram… mas que depois do Gael, elas sentem que são pessoas que nem imaginavam conhecer/e ser. Sentem que vão sair dessa vida muito melhores. Hoje, também, depois de tantos anos, ambas famílias se dão super bem. No mais, elas mantém o Instagram do Gael, para falar sobre educação inclusiva, famílias homoafetivas e crianças com síndrome de down. O @ é @gael.t21 a palavra está com elas Acreditamos que o amor supera tudo, nele não tem raiva, não tem inveja, não tem maldade. Eu (Tânia) vivi uma situação que me lembra do amor. Foi com a minha sogra. Ela é muito parecida comigo e um dia eu fui viajar para o interior sozinha à trabalho. Por mais que eu já namorasse a Clarissa há anos e já conversasse com a minha sogra, ela nunca tinha falado comigo no Whatsapp, mas nesse dia, especificamente, ela me mandou uma mensagem perguntando se eu cheguei bem. Ou seja, ela ficou preocupada, né? Me surpreendeu e eu agradeci. Aí ela disse que, ah, era assim mesmo, “com o tempo ela ia vendo como são as coisas”... e eu disse que o amor é só isso, mesmo, mas que amor também é tudo isso. É essa coisa que une, que move, que faz com que a gente se preocupe e que faz passar por esses desafios. Nós,mulheres, amarmos outras mulheres, nos faz passar por muitas coisas e muitos desafios, então o amor surpreende e fica muito latente. Mas nem sempre a gente sabe como demonstrar, então é importante saber ler também. E o Gael estar numa família homoafetiva é maravilhoso porque já passamos por tantas coisas que ele será completamente acolhido aqui, voltamos a realmente aquele ponto: nos preparamos a vida toda pra isso. post Começou 2022! Precisamos começar o ano fazendo todos vibrarem com uma das maiores histórias que já tivemos o prazer de documentar, então, preparou o lencinho? Chegou a hora. Aproveitem ♥ Queria contar a história da Tânia e da Clarissa (e do Gael, claro) de uma forma que tudo se completasse, porque a vida delas acontece assim. Diversas vezes, desde que nos encontramos em São Paulo - cidade em que elas nasceram e moram com o Gael - falamos no sentimento que existe sobre a vida tê-las preparado para a chegada dele. E isso não significa que ter um filho e educar uma criança de forma inclusiva é tarefa fácil ou, que nesse caso, venha com receita pronta, mas que elas estavam de braços abertos e muito dispostas para receber tudo o que aprendem e compartilham diariamente. A forma de começar a contar essa história vai ser pelas fotos porque escolhemos fazê-las num local muito especial, um café, localizado no bairro da Mooca. Esse café foi a Tânia quem pintou, com giz de cera, cada uma das paredes. Quando ela pintou, não imaginava que adotaria o Gael, mas já estava com o processo de adoção bastante avançado no fórum e tinha feito uns murais na escola em que trabalhava, quando o dono do café foi matricular a filha, os viu e decidiu contratá-la; foram dez dias de muitos desenhos nas paredes… mas um desenho em especial, de frente para a cozinha, era o preferido do casal (e também da Tânia!): uma menina no balanço, lendo um livro. Enquanto pintava, Tânia resolveu perguntar o motivo deles terem gostado tanto do desenho e a resposta foi que remetia à uma criança com síndrome de down (a esposa do dono do café é fisioterapeuta e tem essa especialização). A menina, com seus dedinhos curtos, segurando o livro, de olhinho puxado… remetia a eles e trazia algo tão bom. Enquanto para a Tânia, pelo vestido fazendo um contorno circular longo, via logo um barrigão, não pensava na criança, mas numa gestação. Não sabia ela que exatamente naquele dia da pintura, em um estado vizinho, o Gael nascia. As fotos da Tânia e da Clarissa, junto ao Gael, hoje em dia com dois anos, saudável, sorridente, muito inteligente e simpático, conversam com cada uma das pinturas do café. E é muito incrível ver como, de todas as formas, elas estavam esperando por ele. A história completa está no nosso site! O caminho até lá você já sabe, né? O link tá na bio!

  • Dani e Aline

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Dani e da Aline, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Hoje em dia elas brincam que não chegaram a namorar porque a Aline não deixava elas namorarem, nunca quis assumir esse namoro porque não queria prender alguém naquela vida. Mas brincam porque passavam o dia das namoradas juntas e inclusive a Aline comprou um presente de dia das namoradas pra ela e desistiu de dar por esse medo de assumir algo que fosse contra o que ela ideologicamente dizia - mesmo que elas soubessem que, no fundo, estavam juntas. Acreditamos que a brincadeira existe hoje em dia justamente por entendermos que isso era um processo dela entender o seu próprio tempo, porque naquele dia mesmo, a mãe dela inclusive estava radiante e super feliz por elas estarem juntas ali comemorando o dia. E a própria relação da Dani com a mãe da Aline era algo que sempre mexia e tocava muito ela também. Nesse começo de relacionamento que não era relacionamento (mas era! hahaha só não conta pra elas, tá?), a Dani se mudou de Friburgo para Miguel Pereira, também no interior do Rio, e depois, em Miguel, surgiu a oportunidade de voltar a morar no Rio de Janeiro. Nessa época a Aline havia se mudado para o Rio há pouco tempo atrás com a mãe e, quando elas já estavam aqui, tudo foi acontecendo e acharam um local perfeito do qual conseguiriam adaptar todo ele para que fosse confortável manter a nova vida delas enquanto um casal, a mãe com suas necessidades e poderem bancar financeiramente as cuidadoras e enfermeiras que o momento pedia para auxiliar no dia a dia dentro de casa. Era muito natural que a mãe da Aline fosse pensada em primeiro lugar e isso nunca foi visto como um peso ou algo sofrido para a Dani. Inclusive, era bastante o contrário. O carinho com que ela trata e relembra dos momentos que tiveram juntas é algo realmente emocionante. A mãe da Aline era uma pessoa que, mesmo enfrentando um momento muito difícil, nunca deixou de ser risonha, leve e brincalhona… e a Dani a acompanhava nas brincadeiras. Estavam sempre se divertindo. As cuidadoras mesmo, até hoje, frequentam a casa delas e dizem o quanto sentem saudade do lugar onde moravam todas juntas. A Dani comenta sobre ter sido um encontro, realmente, um encontro de pessoas que estavam dispostas. Ela entende que talvez se fosse outra pessoa, não conseguiria aguentar ou não estaria disposta. Mas para as três foi natural, elas estavam ali. Não era nenhum pouco fácil, mas a Dani era um contraponto, era uma alegria, uma diversão, alguém que chegava e alegrava. Quando se conheceram, a Dani morava em Friburgo, no interior do Rio de Janeiro e a Aline morava em Nilópolis, na baixada fluminense. Elas conversaram rapidamente no aplicativo e a Dani não continuou muito o assunto, se sentiu com pouca confiança, com o papo chato. Por outro lado, a Aline nem se quer pensou que ela tinha papo chato, pelo contrário, se questionou com um “nossa, por que será que ela parou de falar?” e tudo ao redor colaborou com o afastamento porque a Dani ficou sem internet e era feriado de Páscoa… porém a Aline aproveitou o feriado e puxou um novo assunto, mandou um simples: “Feliz Páscoa!”. E era o bastante para a Dani entender que ela não estava sendo chata, que a Aline queria conversar e seguir aquele papo deixado de lado anteriormente… deu certo! A partir de então, conversaram dias e dias até se encontrarem pessoalmente, no Rio de Janeiro. É impossível falar de como começou a história da Aline e da Dani (ou contar a história da Aline e da Dani, sendo o começo ou não), sem citar a presença da mãe da Aline. Durante dez anos, a mãe dela passou por uma doença desmielinizante que era incurável, ou seja, gradativamente ela foi perdendo a voz, os movimentos, se tornou dependente… e quando a Aline conheceu a Dani ela já passava pelo momento de dedicar 100% da vida aos cuidados da mãe. Por mais que ela conhecesse pessoas e fizesse amizades, era uma pessoa muito arredia e fechada aos relacionamentos. Já tinha vivido um casamento e não se via embarcando em uma nova relação (não só por ela, mas por achar injusto com a outra mulher… por achar que ninguém merece se ver em uma situação assim). E mesmo encontrando pessoas legais que desejassem ter algo sério ou montar um projeto de futuro, ela criava barreiras para que isso não acontecesse porque não era capaz de enxergar esse futuro naquela circunstância. No meio disso tudo, a Dani chegou trazendo uma perspectiva totalmente diferente. A ideia era não precisar escolher entre abrir mão de tudo pelos cuidados da mãe ou abrir mão da mãe para poder aproveitar a vida, mas sim, incluir a mãe nos projetos de vida. Com muita persistência a Dani foi mostrando isso diariamente (mas não de forma incisiva obrigatória, foi uma persistência que acontecia naturalmente por querer ver as coisas bem), ela foi atrás de uma cadeira de rodas, de uma readaptação à vida e ao mundo novamente já que a mãe da Aline não tinha contato com a rua (para divertimento) há muito tempo… elas passaram a trazer muita vida de volta ao lar. Jantares, viagens, sorrisos, piadas, animação e divertimento. Aline tem 38 anos, é jornalista, carioca, faz mestrado em Mídias Criativas e tem uma rotina suuuuper intensa no trabalho! Enquanto a Dani tem 53 anos, também é carioca e trabalha enquanto designer… nos hobbies, adora cozinhar e deseja ainda se dedicar um dia a estudar mais sobre gastronomia, na área voltada à padaria e confeitaria. É na cozinha - e mais especificamente, no café da manhã - o ponto de encontro mais importante do dia. Quando sentam à mesa, junto com o sobrinho que mora com elas, é que constroem o espaço de conversa, de partilha da comida, de acolhimento e de debates sobre tudo o que está acontecendo no dia a dia. Elas comentam que são pessoas que adoram agregar as coisas - desde a família, os assuntos e o afeto - tudo é muito agregador. A Dani e a Aline se conheceram em um aplicativo para mulheres, no ano de 2016. A Dani não sabia da existência de aplicativos que mulheres poderiam usar além do famoso Tinder, foi então que a tia dela (que também é lésbica) indicou e insistiu para que ela instalasse para conhecer novas pessoas. Ela se convenceu, instalou mas percebeu que não tinha quase ninguém e quis desistir, mas mais uma vez a tia insistiu e disse que talvez ela devesse baixar a faixa etária que estava colocando e procurar por algumas mulheres mais novas. Ela achou isso absurdo, mas colocou e então apareceu a Aline. O que mais chamou atenção no perfil da Aline foi a frase em destaque, que era algo como: gayzista, esquerdopata, feminazi, etc. Achou divertido e começaram a conversar logo sobre eles: os opostos complementares dos signos. Para explicar o amor entre a Aline e a Dani é importante destacar que uma é o oposto complementar da outra. E esse papo de oposto complementar, por mais que tenha muito sentido pra quem adora falar de signos (e sabemos que entre as mulheres que beijam mulheres é um assunto muito comum), no caso delas, vai muito além de astros: elas se complementam em seus elementos o tempo todo. A Aline é mais pé no chão, explosiva e sentia dificuldades de se entregar à diversas coisas antes da chegada da Dani. E a Dani chegou com muita leveza, muita fé, um alívio na própria presença e no deixar fluir. Juntas elas foram se encontrando (uma encontrando a outra e ambas se reencontrando em si) e a Aline foi ensinando muito para a Dani também (a receber críticas, a ouvir os outros de formas diferentes e a estar vivendo algo novo). Tudo aconteceu porque elas sempre tiveram propósito. E ter propósito não quer dizer que será fácil - até porque não foi, elas enfrentaram muitas barreiras juntas e não romantizam as dores e os perrengues diários - mas durante a conversa, diversas vezes ambas falam o quanto a vida melhorou por escolherem se permitir viver isso e o quanto isso continua refletindo no querer estar junto e seguir criando planos e construindo uma vida lado a lado. A Aline e a Dani falam, por fim, sobre a urgência de termos uma cidade que fale com seu povo, que respeite sua população de verdade - mas respeitar não significa apenas que duas mulheres consigam sair de mãos dadas na rua à tarde em um bairro nobre se quando voltam está tendo tiroteio na porta de casa e não conseguem entrar em segurança. Falamos de uma cidade em que conseguiremos viver com dignidade pela nossa existência. Com menos violência e menos guerras, menos violência contra mulher, menos genocídio nas favelas. Com comida, água, saneamento básico, acesso às educações e saúdes. É uma urgência de mudar as coisas pela base, de acreditar nas pessoas, de tirar o foraBolsonaro do poder e de não desacreditar, de fazer a nossa parte. De não normalizar a questão de tudo estar errado. É uma cidade em que esse respeito chegue para todo mundo, e principalmente: até onde hoje em dia ele não chega. Quando falamos sobre a pandemia e sobre o que estamos vivendo atualmente, elas falam que diariamente enfrentamos muitos problemas e que não há como enxergar algo de positivo na pandemia ou no governo foraBolsonaro em si, mas que é muito importante reconhecermos onde estamos: se estamos aqui, se elas estão juntas ainda, se superamos isso dia após dia e se nossos relacionamentos resistem é porque estamos realmente dispostas, é porque queremos muito. E além disso, é também porque queremos construir nossos planos… não queremos só nos imaginar com a pessoa que amamos, mas estar lá ainda, viver o que sonhamos, querer seguir construindo coisas tão boas e tão bacanas como, no caso delas, foram esses anos juntas. A Dani conta o quanto estar dentro de casa também tem feito repensar e se comunicar de formas tão diferentes. Às vezes ela vê algo de uma forma e a Aline enxerga por outro ângulo, analisa com um olhar muito diferente, com outra cabeça, outra vivência, outra idade. É uma forma de expressão que está sempre em aprendizado. E juntas elas acabam virando referência para as sobrinhas, para as crianças da família, vão construindo confianças e conversando também com elas sobre todos os tipos de assuntos, porque isso é também falar de amor. A Aline comenta uma frase, que é: “nada que você confessar vai me fazer te amar menos”, e então completa “mas eu sei que você não tem nada para confessar (porque eu já sei de tudo sobre você)” e isso, para ela, fala sobre o quanto a gente se entrega quando ama e o quanto está disposto para ouvir do outro também, conhecer o outro com todas as formas dele. E a Dani diz que, para ela, amar é ter parceria, resiliência, respeito e resignação. É ceder para ganhar lá na frente. E é também uma mistura de preocupação, de afeto e de abraço. Na época em que moravam juntas (as três) e que cuidavam da mãe da Aline, a Dani trabalhou por um tempo enquanto motorista de aplicativo e falou muito sobre a realidade dura dos trabalhadores autônomos no Brasil. Como é uma correria ter alguém debilitado em casa, estar trabalhando durante horas, passar por diversas situações de risco e mesmo assim chegar em casa disposta. Ela cita novamente a sensação que era chegar e ver um sorriso ou chegar e ter um tempo com a Aline também, porque de certa forma elas tinham um momento delas, um tempo para que pudessem se conectar e estarem juntas e o quanto esse momento era precioso. Elas comentam que são muito felizes pela forma que a história se construiu, pois entendem que cada casal possui a sua história e que a história delas tem uma pessoa tão importante no meio que é a mãe da Aline e que para sempre possuirá um carinho gigante no coração delas. Identifico na história delas uma potencia gigante de entendimento sobre o que é o amor entre mulheres, não só romanticamente enquanto mulheres que se relacionam em suas relações sexuais, mas sobre algo que só poderia ser explicado por uma relação baseada entre três mulheres: a forma que elas se encontraram, se ajudaram e se amaram. A troca entre a Dani e a Aline é o amor entre um casal e o acolhimento delas com a mãe da Aline é algo que só o amor entre mulheres é capaz de fazer. Por mais que os homens saibam acolher, nunca seria dessa mesma forma, nunca caberia nessa mesma relação, porque não teria esse olhar. Por mais que fosse uma pessoa incrível, a forma colocada seria diferente. E se fosse um pai, ao invés de uma mãe? Seria totalmente diferente. Se a Aline fosse um filho homem ela teria que procurar uma esposa para ajudar a cuidar e não o contrário, como ela fez, porque essa esposa é a mulher que faz o papel do cuidado que nos é socialmente imposto e designado. Mas não, nessa relação, não. Tudo, enquanto três mulheres, foi completamente natural: elas se encontraram, se acolheram e se amaram. Daniela Aline

  • Kelly e Maíra

    Para a Kelly e a Maíra, lar significa o lugar que elas estão juntas. Esse pensamento teve início desde o começo da relação, em que elas se conheceram/se encontraram/e vivenciaram todo o início da pandemia de Covid-19 juntas. Para superar os desafios, estabeleceram o que chamam de “protocolos de bem-estar”: se uma está num dia mais corrido, a outra passeia com o cachorro, por exemplo, fazem de tudo para que a casa esteja harmonizada, assim como a relação entre elas. Kelly conta de um dia que ela levou uma “bronca” de um chefe e que a Maíra rastejou - para não aparecer na câmera - até chegar ao lado, pegar na mão e dar apoio durante aquele momento que sabia que estava sendo muito difícil para ela. Desde o começo da relação enfrentaram vários desafios e dificuldades. A Maíra, por exemplo, estava sem trabalhar porque seus atendimentos ainda não haviam migrado para o mundo online e estava bem difícil sustentar, enquanto a Kelly estava finalizando uma empresa que passava pela crise. Foi um suporte e apoio mútuo que uma proporcionou à outra. Elas relembram que isso ficou claro desde o início: partilharam felicidades e dores. Não houve um jogo único e exclusivo de sedução/de mostrar que a vida é só incrível, até porque estavam ali, literalmente sem maquiagens, desde o início. Hoje em dia, o relacionamento é um lugar seguro para ambas - serve de auxílio também. Elas sentem que terem se encontrado foi a mola propulsora para que vários outros ciclos se fechassem (como a Kelly parar de fumar, melhorar a relação familiar e encontrar sua família biológica). Entendem que nesse encontro algo realmente se encaixou e, não à toa, tatuaram um triângulo que se completa quando estão juntas. No momento da documentação a Maria estava com 32 anos. Ela é psicóloga e é natural de Curitiba, no Paraná. Já Kelly estava com 39 anos. Ela é natural de Governador Valadares, em Minas Gerais, e passou por algumas cidades até chegar em Curitiba, no Paraná. Hoje em dia trabalha enquanto programadora e estuda engenharia de software (esse, um sonho antigo, mas que nunca achava que seria capaz. Voltou a estudar através de um processo de incentivo que a Maíra colaborou muito para que acontecesse ♥). Quando elas deram match num aplicativo de relacionamentos nem imaginavam que teriam tanta coisa em comum: foram 5 horas conversando (e brincam que não pararam de conversar até hoje!). Entre a conversa, foram descobrindo que frequentavam muitos espaços em comum, mas que não se conheciam pessoalmente, por exemplo: a Maíra fazia pós graduação no prédio que a Kelly trabalhava, elas já moraram em lugares muito próximos e, além disso, a Kelly morou no prédio que a mãe da Maíra morava. Também descobriram que ambas são formadas em artes cênicas como primeira graduação e ficaram chocadas com tantas coincidências. Se pegaram pensando: será que já pegaram o elevador juntas? Ou foram na farmácia na mesma hora? Mas entendem que o momento certo de se encontrarem foi aquele, no aplicativo. Depois de alguns dias conversando, foram pensando em protocolos de segurança que poderiam enfrentar para se encontrarem - estavam ambas isoladas em suas casas e gostariam de ficar isoladas numa casa só. Na época, não tínhamos informações precisas sobre a Covid-19 então tudo era muito perigoso, contagioso, mas ao mesmo tempo havia uma sensação de que “na semana que vem” tudo iria acabar. Num sábado a Kelly mandou uma foto para a Maíra de um frango com batatas, chamando-a para a janta, e ela decidiu ir. Foi a primeira vez que se encontraram: tirando a roupa que achavam estar contaminada (porque teve contato com a rua) na porta, colocando na máquina de lavar e correndo para o chuveiro para tomar banho. Assim, elas ficaram de sábado até segunda juntas. Como a pandemia não estava nem perto de dar uma trégua, o relacionamento delas foi acontecendo, elas se encontravam e passavam dias juntas e decidiram depois de pouco mais de um mês fazer uma mudança mais sensata de viver na mesma casa. Maíra pensava nas comorbidades e temia o Covid-19, perante ser uma mulher com um corpo sobrepeso, então elas cuidavam ainda mais do isolamento e decidiram juntar os gatos com o cachorro e ficar em casa, no estúdio em que a Kelly morava. Foi um momento bastante intenso de estarem num espaço, juntas, 24h por dia. Porém deu tão certo que até hoje vivenciam essa realidade trabalhando de home office, numa rotina bastante caseira. Hoje em dia, elas têm um cuidado com a espiritualidade bem grande, por mais que não possuam religiões específicas. Já chegaram a estabelecer um ciclo de 52 semanas (um ano) com rituais espirituais entre textos, propostas, conversas etc. e a Maíra também faz parte do círculo sagrado feminino. Entre a fé e a espiritualidade, elas adoram comemorar as datas: desde casamento, aniversários e outras datas importantes. Não necessariamente com festas, mas celebrando rituais como banhos de ervas, revendo anotações, trocando conversas… acreditam na valorização da trajetória que estão traçando juntas. Nesse caminho que está sendo o relacionamento, lavaram muita roupa suja de vivências anteriores que tiveram - e isso tudo aconteceu dentro de casa - então sentem que esses rituais colaboram na criação de um lar muito seguro, que nem sequer imaginavam ter. Kelly acredita que só o amor é capaz de transformar as coisas - se você consegue amar, você consegue propor mudanças reais no mundo. Maíra acrescenta que amor não é hierarquia, é algo mais democrático. Tem espaço para a verdade e o papel de estabelecer conexão com as coisas que estão ao redor. Entre mulheres, amar é também nos protegermos, não é algo violento, é um elo. Ela cita um exemplo da presença do bolsonarismo no condomínio onde moram e da política do medo que isso implica ao ver bandeiras do Brasil nas janelas - a importância que há no nosso amor porque ele vira algo revolucionário, que demanda coragem. A Kelly conta que foi percebendo ao longo da relação o quanto a visibilidade lésbica é importante. Este foi o primeiro relacionamento que ela assumiu de verdade, que não diz que divide o apartamento com uma amiga, que trata a Maíra enquanto esposa. Termos atendimento num posto de saúde, por exemplo, acontece a partir do momento que mostramos a nossa existência e que as pessoas entendem o quanto é necessário ter atendimentos voltados à saúde da mulher lésbicas. A visibilidade é muito importante para mostrar que existimos porque isso reflete em termos documento, constatação social, políticas públicas, conhecimento e reconhecimento das nossas vidas. ↓ rolar para baixo ↓ Maíra Kelly

  • Renata e Marcela | Documentadas

    Amor de Arte - Renata e Marcela clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Joana e Luciana

    A Luciana e a Joana são de Fortaleza, capital do Ceará, mas já moraram em lugares diferentes do Brasil e hoje em dia voltaram para Fortaleza para o nascimento da Maria Flor, a criança mais comunicativa, espontânea e engraçada que o Documentadas poderia ter o prazer de documentar. ♥ Lu tem 37 anos, é médica ginecologista e obstetra, responsável por trazer muuuuuitos bebês para esse mundo e deixar muitas mamães seguras na hora do parto. Além da vida profissional incrivelmente disputada, ela é uma mulher que se preocupa em fazer do mundo um lugar melhor em cada detalhe - trata tudo com muito acolhimento, é carinhosa, tem um sorrisão e esteve o tempo todo muito aberta a encaixar o encontro com o Documentadas no meio da rotina de plantões, maternidade e compromissos diários. Joana tem 41 anos, é artista visual e arquiteta. A Jô trabalha tanto para produtoras de Fortaleza e São Paulo (fazendo instalações efêmeras, cenários, conceitos e conteúdos visuais), quanto sendo artista independente, tendo seu próprio escritório e seus projetos autorais enquanto produtora de arte. Nos encontramos no seu ateliê, lugar onde todas ficamos à vontade (principalmente a Flor, que se diverte muito entre as cores e as expressões artísticas) e é muito legal ver como os trabalhos da Joana são diversos e o quanto conseguem conversar entre si. Além das suas profissões e da correria do cotidiano, elas amam passar o dia se divertindo com o crescimento da Flor, dando espaço para ela explorar as coisas e nas folgas gostam muito de plantar (estão construindo jardins durante a pandemia), viajar (colocar tudo no carro, bagunçar e ir para algum lugar!) conhecer cachoeiras e praias. Além disso, contam que amam cozinhar juntas e que, ao plantar jardins, começaram um projeto sobre o lixo no lugar em que moram, mobilizando os outros moradores do bairro sobre sustentabilidade - usando a arte da Jô nessa conscientização. O encontro da Lu e da Jô aconteceu como uma “paixão à segunda vista”, porque já eram amigas há muitos anos. A Joana teve um relacionamento longo com uma amiga de infância da Luciana e elas se conheciam desde então, mas cada uma vivia seu relacionamento e nunca se olharam de forma diferente. O tempo passou, elas terminaram seus relacionamentos em momentos diferentes, passaram períodos solteiras e, depois de um tempo, se reaproximaram - surgindo assim, pela primeira vez, um olhar de interesse. Por um certo receio de suspeitarem de uma traição ou de algo que viesse de antes, visto que de fato se conheciam há muitos anos, elas demoraram quase 1 ano para conseguir oficializar ou assumir esse relacionamento para o grupo de amigas em comum, mas deu tudo certo! Começaram a namorar em 2013 e, como as duas já tinham tido relacionamentos longos o suficientes e decepções amorosas longas o suficientes também, sentaram e conversaram de maneira franca e madura sobre o que desejavam nessa relação: seus medos, seus sonhos, seus desejos e suas inseguranças. Elas dizem que de certa forma foi tudo até rápido - porque em 2015 elas estavam se casando. A Lu passou em uma residência médica lá em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, no mesmo momento em que a organização do casamento estava no auge, então elas combinaram assim: a Joana ia dar um jeito na organização e na decoração e a Lu ia para Ribeirão organizar as coisas da residência e dos estudos. Foi corrido, mas deu certo! A família da Luciana sempre apoiou e sempre admirou a forma que ela lutou pela liberdade e pelo direito de ser quem ela é e de amar quem ela quiser amar. Já a família da Joana, de alguma forma dava apoio à quem ela era enquanto mulher que amava outra mulher, mas no momento do casamento não entendia o porquê daquilo, por qual motivo precisava mostrar aquilo, fazer uma festa assim… Ela insistiu e a festa aconteceu. Mas não só pela festa, pela importância de assinar um documento, de comemorar sim o amor, de celebrar o nosso amor e de ter um documento que nos prove enquanto um casal e que lutamos tanto para ter direito (a algo tão burocrático). Não só aconteceu, como foi incrível! O casamento teve ajuda de vários amigos que doaram um pouquinho de cada coisa para elas - e cada pessoa que estava lá, realmente queria estar. Todos estavam muito felizes, torciam muito pelo amor das duas. Foi um dia muito forte e emocionante, com um pôr do sol maravilhoso. Elas contam que todos que estavam presentes sempre falam de como aquele dia vibrou, que sentiam uma vibração muito forte. E que, no meio da cerimônia, se abriu um arco-íris gigante na praia. ♥ Depois do casamento, as duas se mudaram para São Paulo e então começaram uma vida totalmente nova por lá. Fizeram muitos amigos, criaram uma nova rotina e, desde o primeiro momento a Lu nunca escondeu que se relacionava com uma mulher dentro do meio em que vivia (a área da medicina), então todas as pessoas ao redor delas sabiam que eram um casal, sabiam do casamento, de tudo! Isso era bastante novo, se tratando de uma cidade interiorana e de pessoas mais conservadoras, mas era bastante legal ver esse impacto e outras pessoas se inspirando nelas para saírem do armário também. Como desde sempre a Jô sabia da existência do desejo da Luciana em ser mãe (visto que ela sempre sonhou com isso) e que lá em Ribeirão Preto era o lugar referência para que elas fizessem todo o tratamento de fertilização in vitro (FIV) pelo SUS, então as duas captaram óvulos, o mesmo sêmem, o mesmo doador, e deram início ao processo da maternidade. Tudo foi registrado por elas em um caderno-livro que se mantém até hoje e que conta essa história para a Flor, sobre como ela foi desejada e amada desde o primeiro momento, por todos ao redor. O processo todo entre tentativas de gravidez durou cerca de dois anos, não foi nenhum pouco fácil, requer muito e as duas se doaram muito para isso, mas também se apoiaram muito e sonharam muito em conjunto. O livro é incrível e muito delicado, conta detalhes desde os sentimentos, até os gastos que envolvem cada pedacinho desses dias tão longos. A Flor, mesmo ainda sendo muito pequena, adora olhar e mexer no livro e fizemos algumas fotos das três com ele em mãos. [No dia em que nos encontramos, a Jô estava dando início a uma nova bateria de exames, pois estão começando o processo para vir aí uma parceira ou um parceiro irmã ou irmão para a Maria Flor. Só temos muita luz e muita vida a desejar! Vocês são uma família incrível!] A Joana conta que para ela, o amor é a base de tudo. Não só o amor romantizado, mas o amor de fato construído, porque o amor é muita luta, muita garra. O amor, dela com a Lu, é um amor de parceria, de entendimento. E, nessa hora, a Lu completa: “É um amor realmente revolucionário. Não existe outra definição senão essa, pela capacidade de transformação que faz numa pessoa.” Quando passam por momentos difíceis, elas conversam sobre tudo, mas entendem que são seres individuais e que têm momentos em que precisam estar sozinhas. A Joana gosta muito de conversar e a Luciana entende e contribui pra isso também. Briga, chora e se abraça! Sempre olha no olho, dá espaço, volta e abraça. É um movimento natural que o próprio corpo tende a fazer. No fim da nossa conversa, chegamos à conclusão de que quando duas mulheres se juntam para construir uma família, elas saem quebrando tantas barreiras, tantas coisas que socialmente estão na nossa frente há tantos anos, sem nem ver, que é na base da revolução mesmo. Temos o exemplo de como a família da Jô não ter entendido o casamento delas no começo por não ter visto uma “necessidade” e não ter se proposto a ir, porém, com a chegada da Maria Flor, ser puro grude e reconhecê-la, amá-la e não se ver longe dela - a revolução se mostra nessa construção de família e de amor quando formada pelas mulheres, o segurar a neta no colo consegue quebrar qualquer outra coisa que existe antes, qualquer “muro” colocado, qualquer barreira realmente preconceituosa ou inconscientemente preconceituosa. É uma revolução através do afeto. E para a Maria Flor é isso que elas desejam: um futuro livre. Sem medo e com respeito, sem julgamentos estruturados. Que ela siga sendo como ela é agora: empática com o mundo e com ela mesma. Luciana Joana

  • Carina e Isabelle

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Carina e Isabelle, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Existem três versões sobre como a Isabelle e a Carina se conheceram. Todas começam igual, com um famoso match no Tinder, em 2020, mas possuem desenrolar diferentes. Na versão da Carina, ela já estava se envolvendo emocionalmente com outra pessoa quando deu match e lembra de ter “subido” a foto da Isa. Logo pensou o quanto ela era linda e enviou uma mensagem falando isso, porém, em seguida enjoou de estar ali e desinstalou o aplicativo. Um tempo depois, até retornou, mas nunca olhou os matchs antigos. Em seguida, começou a namorar com a pessoa que estava envolvida emocionalmente, foi um relacionamento rápido e muito conturbado, mas sente que era necessário e que também foi construtivo. Um dia depois do término, baixou o Tinder novamente e revisitou os matchs, percebendo que aquela menina que ela havia mandado mensagem seguia ela no Instagram. A versão da Isa já explica toda uma história por trás não contada. Ela não usava muito o Tinder, mas recebeu a mensagem da Carina lá no começo, achou ela linda e respondeu, ficou esperando aquela conversa acontecer, mas não teve retorno. Nesse período, a Isa estava em um relacionamento aberto há alguns anos e diz que não se sentia completa, pois vivia com uma pessoa muito diferente dela. Depois do match e da conversa não realizada, passou a pensar na Carina, mas não tinha informações o suficiente para entrar em contato por outros meios, por isso, enviou outra mensagem, mas seguiu sem respostas. A pandemia começou e enquanto a Isa passava um tempo no Instagram achou um sorteio de tatuagens da qual uma menina foi ganhadora e ela se interessou por essa menina, seguindo o perfil dela viu que ela namorava (ou talvez, já tivesse namorado um dia e mantinha fotos) uma outra menina que ela sentia conhecer de algum lugar… e não é que era a Carina?! Entrando no perfil percebeu que Carina estava namorando, e que a namorada não era a mesma, ou seja, era de fato uma ex da ganhadora do sorteiro, rs. Deu pra entender? Fez o mapa? É o famoso rebuceteio. E ela ainda pensou sobre a Carina: “Deixa quieto, o que é meu, tá guardado.”, então, passou a segui-la no Instagram. Stalkeou suas redes e começou a ver algumas postagens. Nesse meio tempo, por conta da pandemia acabou se desempregando e teve que retornar para casa da mãe. Se sentia muito ansiosa e estava vivendo um momento de crises na sua vida, terminou o relacionamento e, literalmente no dia seguinte, recebeu uma mensagem da Carina no tinder, perguntando: “Como você me achou no Instagram?”. A Isa conta que viu um vídeo da Carina e quando ouviu a voz dela, se encantou ainda mais. Quanto mais conversavam, mais se impressionavam com todas as reviravoltas da história. Perceberam que terminaram os seus respectivos relacionamentos no mesmo dia, que tinham coisas em comum e estavam se dando bem... Mas viviam momentos diferentes, a Isa já havia superado o relacionamento e Carina ainda estava muito, muito mal. Ficaram conversando durante dois meses e Carina, por estar muito mal, se aproximou enquanto uma amizade - sentia que não conseguia flertar naquele momento. Isa conta que entendia o quanto precisava ser paciente com o momento da Carina e apoiá-la e a Carina completa dizendo que construíram no início uma conversa muito boa, deixando claro que tinham interesses em comum, mas que apenas não cabia no momento. Aos poucos, fizeram até um “webdate”, do qual a Isa brinca dizendo o quanto Carina estava linda, mesmo estando muito triste. Isa fez sopa, enquanto Carina tomava um vinho e elas assistiam a live da Ana Carolina. Enfim, os tempos de início da pandemia. Elas continuaram conversando, trocando sobre os relacionamentos e sustentando uma rede de apoio para outra. Até que Carina veio pro Rio de Janeiro (visto que mora em Friburgo, interior do Rio) e tomaram a iniciativa de se encontrar, em julho de 2020. No caminho, Carina se perdeu, acabaram se encontrando em Botafogo e foram até a Mureta da Urca. Passaram um tempo conversando e depois se beijaram. Carina conta que neste dia Isadora lhe mostrou o Rio de Janeiro, foram pela Zona Sul até à Rocinha. Passaram a semana seguinte sem se encontrar, pois Carina retornou para casa e depois voltou ao Rio na sexta e ficaram sozinhas na casa de uma amiga (inclusive, a amiga é a ex que fez com que a Isa encontrasse a Carina no Instagram!). Contam que o que ia durar um dia de fim de semana juntas na casa da amiga, se tornou quatro. A Isa queria ter gravado aqueles dias, pois tudo fluiu tão bem, conversaram muito, depois ficaram em silêncio compartilhando a companhia no sol e comeram e beberam juntas. Tudo fluiu de maneira muito tranquila. Após este encontro, elas não se falaram durante uma semana. Carina diz que ficou preocupada, pois ficou muito envolvida nestes quatro dias, ficou considerando a distância de uma cidade pra outra, além dos conflitos familiares sobre a homossexualidade da Isa. Por sua vez, Isa conta que estava respeitando o tempo de Carina, pois sabia dos conflitos internos que ela estava vivenciando entre as superações do antigo relacionamento e o medo de se apaixonar. Diz que ambas são muito diferentes, mas que sempre incentivou a Carina a se jogar na relação. Por isso, desde o início sempre conversaram muito, tendo sensibilidade para escutar e falar o que sentem e pensam. O que, também, necessita muita paciência. Carina conta que conversam muito sobre sentimentos ditos negativos… como ciúmes, inveja e raiva, para conseguirem entender uma à outra. Também dizem que tem muito carinho e respeito e acabam estendendo isso para os outros na sua volta. Em geral, a distância é tranquila, pois a família da Carina é muito calma e elas podem ficar juntas na casa dela. Mas a dinâmica de idas e vindas em si está cada vez mais cansativa, pois estão menos tolerantes a ficarem separadas. Costumam ficar em casa, ir nos amigos ou em Lumiar, cidade vizinha, tomar uma cerveja e conversar… Quando se encontram no Rio, dormem na casa de alguma amiga da Isa ou alugam um espaço. Contudo, há semanas que ficar distante é muito sofrido, pois estão vivenciando suas dificuldades individuais e gostariam muito de ter a companhia uma da outra. A Carina tem 25 anos, é formada em Direito e mestranda em Sociologia e Direito na UFF. Por ser uma mulher com deficiência, participa de uma comissão em Friburgo, cidade em que mora, fazendo palestras sobre acessibilidade e inclusão, observando demandas de acessibilidade. Ela conta que o mestrado vem a partir do desejo de dar aula, pois não se identifica com o Direito enquanto profissão por um espaço extremamente elitizado, então quis buscar a Sociologia para dentro do Direito pra poder expandir seu conhecimento e quebrar com esse viés da elite. Além de tudo, faz também pesquisa sobre pessoas com deficiência dentro do sistema penitenciário e dá aulas na graduação. A Isabelle tem 22 anos, faz faculdade de Produção Cultural e trabalhou em comércio por alguns anos. Desde o ensino médio desejou fazer produção cultural, mas não tinha condições de pagar a faculdade e precisava trabalhar para se sustentar. Sentiu que estava em um momento muito exaustivo da vida e se demitiu do trabalho no shopping, mesmo gostando muito de trabalhar lá (considerando, claro, que o trabalho era exaustivo, principalmente pelas horas e pelo deslocamento). Hoje em dia, através das fotografias feitas pelo celular, descobriu um olhar muito sensível, uma habilidade de produzir vídeos e fotos e um novo hobbie. Conta que uma amiga percebeu essa habilidade nela e a Carina a incentivou. Isa nos contou bastante sobre sua avó ser a maior fonte de inspiração na hora da criação, por gostar de registrá-la. Gosta muito de gravar momentos na cozinha, familiares e pessoas próximas cozinhando, entende que é uma confraternização muito significativa e afetiva. Comentou que seu avô era poeta e diretor da Academia Brasileira de Letras, mas que pouco sabe sobre ele e que gostaria de ter mais informações, sendo essa uma das motivações para gravar sua avó, então registra conversas importantes com ela, sobre fatos que ocorreram ao longo da vida, conversas com a família e enxerga isso como uma descoberta da sua própria história. Para a Isa, amor é estar junto sem ter medo, ou seja, poder falar qualquer coisa sem que isso seja um grande problema. No amor se encontra acolhimento, se sente confortável… e que tudo bem, se às vezes acontecerem desconfortos, mas que isso não pode ser a maioria. Entende que os relacionamentos precisam ser confortáveis, pois a vida e a adultez por si só já são muito difíceis. Traz que sua avó sempre brilha o olho quando fala sobre as pessoas e coisas e comenta que as pessoas lhe dizem que ela também tem essa mania de “brilhar os olhos”. “Amor é você brilhar os olhos pra um animal, casa, família, amigos, relacionamento…” Carina conta que amor é resistência. Há um jogo dúbio nas relações e as características de cada uma delas: conhecer as profundidades do outro, saber a existência disto e acolher. Acolher o sentimento do outro. Ter a resistência de fazer dar certo e respeitar as diferenças. Entende que mulheres são resistentes o tempo inteiro, assim o amor entre mulheres têm um respeito enquanto gênero e luta feminina com formas de amor diferentes. Por fim, a Isa comenta que pensa muito na sua família quando pensa em amor e nas relações que nós mulheres temos com ele. Traz o livro ‘’Mulheres Que Correm Com Os Lobos’’, entende a ancestralidade nas relações, pois às vezes a mulher apaga e vem outra mulher e ajuda a acender, incentivando e estimulando. Entende que sua família é muito diferente, mas se ama muito e se respeita muito. O amor é como um estado de espírito. Comentamos sobre a importância de estarmos ligadas na movimentação social da cidade, e a Carina diz que em Friburgo, onde mora, isso é fundamental, pois a cidade infelizmente é composta por poucos movimentos sociais e muitas pessoas racistas e homofóbicas. Além de querer igualdade e oportunidade para todos, precisamos formar uma conscientização melhor sobre o outro, respeitar e ter empatia com suas individualidades. Isa completa, sobre enxergar as pessoas como seres humanos, que sentem, sofrem, cansam, trabalham, sagram. É comum que as pessoas esqueçam o sofrimento e vivências dos outros. “As pessoas precisam se respeitar mais, nos seus momentos, sofrimentos, lutos (e lutas), felicidades, entender suas necessidades e assim, a partir do momento que entende suas necessidades, você irá devolver isso para o outro. O respeito é transmitido.” Isabelle Carine

  • Cássia e Kercya

    Por mais que a família da Kercya não tenha ido ao casamento delas, eles estão completamente apaixonados e empolgados com a vinda da Marina. E a família da Cássia já é maluca (no ótimo sentido) e vibrante por natureza, então está todo mundo feliz e empolgadíssimo diariamente. Um pouco antes delas saberem da gravidez, estiveram na praia e postaram uma foto com a legenda: marinando. O destino deu seu jeito e tudo se juntou ao nome. Hoje em dia, vivem um novo momento, por conta da gravidez, de terem ficado sem emprego durante a pandemia, de estarem reaprendendo a se virar. Mas não deixam de aproveitar cada segundo com muita felicidade e muito amor. Sonham com um mundo em que a Marina possa ser completamente respeitada sendo quem ela é, porque é isso que vão ensinar a ela desde sempre: a respeitar os outros como eles são. Pensam muito na vida dela na escola, no mundo, em tudo. Entendem que o amor pode muitas vezes caminhar próximo da dor, mas que ele é mais que um sentimento, é uma experiência, e por isso sempre estarão dispostas a dar tudo o que puderem a ela. Um amor que o olho brilha, que é de verdade e que sustenta. A gravidez foi um desejo sempre pensado e sempre sonhado por ambas, a Cássia conta que sentia que queria gerar com a Kercya desde o primeiro momento porque quando olhava para ela e para a forma que ela lidava com as crianças já vinha dentro dela uma sensação de “é ela.”, e a Kercya completa que sempre quando elas viam casais com filhos pequenos falavam que “logo será a nossa vez”. Porém, contam também que a própria gravidez em si, por mais que muito pensada, foi também muito rápida, por conta de ter acontecido logo na primeira tentativa. Quando começaram as pesquisas entenderam que seria muito difícil, por envolver muito dinheiro, tanto na fertilização, quanto na inseminação. Os custos de clínicas privadas eram bastante altos e o SUS (no caso da fertilização) mais próximo de Fortaleza/do Ceará, seria em Natal/RN, o que era muito longe e caro para elas. Foi então que chegaram no processo de inseminação caseira, mas entenderam que envolvem muitos riscos e por isso precisam de muito cuidado e muita pesquisa. Foi mais de um ano de exames e acompanhamento médico, até que conseguiram contato com um doador em Fortaleza e resolveram fazer a primeira tentativa no período de ovulação. O procedimento foi em casa, envolvendo ejaculação, seringa, luvas, tudo direitinho. No momento exato, estavam só as duas. Elas contam que se apegaram mais na possibilidade de não dar certo, pelo medo da frustração, por saberem das chances (que não eram altas), mas a partir do momento que tiveram o olho no olho, ali, juntas, mesmo com o não, era um momento bastante marcante. Tudo aconteceu no dia 30 de novembro. Algumas semanas depois, a menstruação não desceu, 8 testes foram feitos, todos deram positivos. O exame de sangue comprovou: estavam grávidas! Marina surgiu nesse mundo! O melhor de toda essa história é que o ponto chave em que elas começam a conversar prova que o amor está disposto a enfrentar MUITOS desafios particulares, e um deles é que nessa época a Cássia estava voltando para a casa de moto, porque não se sentia bem pegando ônibus - ela desenvolveu uma fobia e não conseguia ficar dentro do transporte. Mas, em um dia específico, a Kercya ficou sem carro e na hora em que estavam saindo do trabalho perguntou que ônibus ela pegava, e no impulso a Cássia respondeu que pegaria o mesmo ônibus que a Kercya apenas para que elas pudessem ir juntas para passarem mais tempo, puxarem conversa, poderem ter alguma interação. O fato é que, desde o momento em que entraram no ônibus, a menina suou tanto frio que nem prestava atenção em nada do que a Kercya falava, de tão nervosa que estava. Só lembrou de antes de se despedir, pedir o Whatsapp para avisar quando chegar em casa e quando chegou mandou mensagem, desde então, começaram a conversar. A Kercya não tinha noção de que a Cássia era lésbica, mas já havia compartilhado sobre o relacionamento que vivia e sobre as condições dele não estarem boas e as dificuldades que passava, foi num momento em que conversavam na escola que a Cássia puxou um “acho melhor falarmos disso em outro ambiente, vamos um dia lá em casa!”, a Kercya achou ok e topou, no fim de semana seguinte, estava lá. Nesse dia, elas ficaram. Ou melhor, a Cássia atacou ela! Hahahaha! Foi assim mesmo! Ela disse que “vai ou racha!”. E foi. A Kercya terminou o relacionamento por ligação mesmo, visto estar insustentável e desde então elas não se desgrudaram mais. Se viam todos os dias, uns meses depois foram morar juntas e depois de um tempo se casaram, tanto no civil, quanto no religioso (no dia do casamento, inclusive, quando elas entraram, rolou um arco-íris de presente da natureza no céu!). ♥ Com o passar dos dias, a Cássia foi sustentando a paixão secreta e chegava cedo no trabalho, tentava sempre puxar assunto na recepção, fazia de tudo para soltar um sorriso da Kercya, mas ela não dava muita bola. Na época, tinha um relacionamento à distância com uma mulher que morava na Bahia e esse relacionamento era bastante escondido para ela, era algo bem difícil também, estava bem conflituoso, então conta que acabava se fechando bastante. O fim do ano chegou e com ele a festa de confraternização da escola também, seria numa pizzaria e a Cássia armou toda uma situação para ficar sozinha com a Kercya no carro (que, infelizmente, deu errado). No dia, a Kercya tinha batido o carro, tido um dia difícil também no relacionamento, não estava se sentindo nenhum pouco bem, acabou que isso só foi descontado na Cássia e ela se sentiu mal e foi embora. Mais uma vez, em uma desilusão amorosa, agora no fim de ano, ela cogitou o pensamento novamente da ida para a Itália... com o passar dos dias e a chegada do réveillon, ela fez uma viagem até a Paraíba e lá chorou vendo os fogos. Enquanto a Kercya, em sua virada, também passou o ano novo triste, chorando. Ambas sem saber o que seria de 2017 e sem boas expectativas. A Cássia pensou muito sobre a volta para a escola no começo do ano e pensou em voltar nem que fosse para pedir demissão. Quando chegou no local, viu logo o sorriso da Kercya e sentiu tudo aquilo de novo, então não tinha jeito, resolveu ficar. Com o passar dos dias percebeu que ela (a Kercya) estava permitindo sorrir mais, ser mais simpática, mais aberta… e assim começou o ano letivo. Foi depois de rodar o Brasil e voltar para casa que Cássia teve uma decepção amorosa e decidiu que sairia do país. Era fim de 2016, ela conseguiu uma rescisão boa em um emprego, conheceu uma mulher que organizava passagens de ida para a Itália (não vendia, mas organizava questões de baixa no euro) e se inscreveu na lista de espera. Até que surgiu um lugar que precisava de uma pessoa para fazer um trabalho de um dia para uma colônia de férias escolar, como um freelance, e ela topou, pois seria uma forma de entrar mais dinheiro. Essa escola, sem ela sequer imaginar, pertencia à irmã de Kercya, pessoa que ela conheceu logo no primeiro dia, pois trabalhava na recepção. Quando ela chegou, animada, dando bom dia, foi respondida com um oi um pouco ríspido e já não entendeu muito qual era o clima, mas o dia seguiu bem e acabaram convidando-a para voltar no dia seguinte, ela topou pela questão financeira. A proposta se estendeu para terça e quinta da semana seguinte e nesse segundo dia, ouviu uma conversa por alto da diretora comentando com outra pessoa sobre estarem procurando alguém para trabalhar de forma fixa ali, enquanto pedagoga. Um tempo depois, ela estava na rua e ouviu uma gargalhada muito gostosa vindo da sala da recepção, disse sentir algo único, era uma gargalhada única, e perguntou para um menino que estava por perto de quem era essa gargalhada, ele só olhou e respondeu “ihhhhhhh…” e então, quando ela passou pela sala, viu a Kercya de costas, com uma trança no cabelo, rindo. Preciso continuar explicando a cena? Foi paixão à primeira gargalhada, né. Ela conta que sentiu o coração amolecer. Quando viu a diretora (que nem imaginava que era irmã da Kercya), simplesmente resolveu dizer que ela não precisava mais procurar alguém para trabalhar ali, não!! Mas sim, que já havia encontrado! A diretora riu, achou que estava brincando, e ela confirmou que não era brincadeira, que a pessoa era ela mesma, pois estava estudando pedagogia e era a pessoa certa para o cargo. A diretora confiou, aceitou e ela foi contratada (hoje em dia, elas dão risadas e comentam que essa decisão foi bem criticada pela própria Kercya inclusive, que disse “como você contrata alguém assim, sem conhecer direito?!”). Conheci e fotografei a Cássia, a Kercya e a Marina durante a passagem do Documentadas por Fortaleza, no mês de maio. As duas escolheram batizar a Marina com esse nome porque Marina significa o que vem do mar, além de ser o nome que se dá àquela linha do horizonte que divide o céu da água, e foi no mar também que nos encontramos, na praia, conversando, com os pés na areia. Elas já chegaram falando “a gente olha pra cá e só consegue imaginar a Marina aqui, engatinhando”, foi assim que começaram a contar a grande aventura que foi planejar essa gravidez. Por mais que tudo tenha sido bastante pesquisado e feito com cuidado, elas brincam que as coisas meio que aconteceram, como tudo na vida delas… “o destino sempre dá uma ajudadinha”. A Cássia tem 34 anos, é animadora de festa infantil e recreadora, trabalhava com festas de aniversários e já fez de tudo um pouco (há boatos que até participar de trio estilo carreta furacão participou! hahaha!). Ela já rodou o Brasil com mochila nas costas sem um tostão no bolso vendendo arte por aí, já empreendeu, já conheceu muita gente… e sempre sonhou em ser mãe. A Kercya tem 31 anos, é gestora de recursos humanos, chegou a acompanhar o trabalho de animações por um tempo (dando vários auxílios, principalmente na produção), trabalhou em uma loja enquanto gestora até o meio da pandemia, adora fotografar (hobbie um pouco criticado pela companheira por motivos de falta de enquadramento, risos) e é uma eterna apaixonada por cinema. Kercya Cássia

  • Debora e Paula | Documentadas

    ↓ rolar para baixo ↓ Foi através de um post (de uma pessoa que a Débora nem seguia, mas apareceu no Instagram), em que uma menina explicava a origem do termo “sapatão”, que ela viu o comentário da Paula dizendo que era “sapatão com orgulho” e respondeu. Se interessou pelo perfil da Paula, viu que moravam em cidades próximas, no Rio Grande do Sul, e seguiu puxando um assunto. A conversa fluiu por alguns dias. Na época, Débora trabalhava em um café e tinha folga aos domingos, então resolveram marcar um chopp. Paula, por sua vez, estava muito atarefada, cansada, não tinha dormido à noite e decidiu descansar 40 minutos antes do encontro acontecer. Resultado: pegou no sono. Quando acordou, achou que Débora teria bloqueado, nunca mais olharia na sua cara por conta do bolo, mas Débora entendeu. Na terça seguinte decidiram sair e como é mais difícil arranjar um local durante a semana resolveram encontrar na Casa de Cultura Mario Quintana, local que fizemos as fotos, no dia em que as chuvas históricas começaram no Rio Grande do Sul (nem imaginávamos). No começo, antes mesmo de namorar, já deixaram claro o que queriam: Débora disse que buscava alguém para casar, para construir algo sólido. Enquanto Paula disse que não pensava em casar novamente. Débora viveu um relacionamento onde a pessoa não era assumida e sentia muita falta de não poder viver uma “vida de verdade”, não poder passar datas importantes com a pessoa, não poder conviver em família… e depois lembra que comentou com a psicóloga o quanto tinha medo da Paula pensar que ela era louca por dizer algo assim, mas que no fundo era simples: se ela sabe o que ela quer, precisa comunicar, não tem porque não dizer para a pessoa e ficar numa relação “perdendo tempo”. Paula entendeu. E nosso dia foi tão marcante, mesmo com tanta chuva, justamente por isso: o pedido de casamento chegou. Elas decidiram firmar essa união em meio à nossa documentação. Para Débora, a parte mais importante do amor é se sentir amada, falar sobre o amor, demonstrar. Conta que quando era criança aconteceu um acidente de carro na sua família e algumas pessoas morreram, um dia antes ela tinha dito para um dos tios, que faleceu, o quanto ela amava ele e ele respondeu “eu sei”, então ela questionou “como você sabe, se eu nunca havia te dito?” e ele explicou “porque eu sinto, você demonstra isso”. Desde então, faz muita questão de demonstrar o amor para todos que ama, entende a importância das pessoas se sentirem amadas sempre. Brinca que a primeira vez que disse para a Paula que achava que a amava, ela disse: “Sim, eu sou muito amável!” e que essa quebra de expectativas que ela provoca faz tudo ser ainda melhor, faz rir, faz a parceria e o diálogo aumentar, faz com que ela se sinta muito mais amada também. Paula conta que por diversos traumas de infância/adolescência via muitas barreiras na hora de sentir e demonstrar afeto. Para ela, Débora pegou esse muro de concreto e derrubou num empurrão só. Então, um relacionamento com comunicação, expressão, sem julgamentos é algo muito novo, mas também importante e difícil. Ela ama as convivências com as famílias (rituais muito específicos com merengue na cara e tudo mais), a forma que estão dispostas e como podem contar uma com a outra. Contam também sobre a Paula estar trabalhando em uma imobiliária (que já trabalhou há anos atrás, voltou agora) e que decidiram assinar a união estável num dia, sem combinar muito ou planejar. Acabaram chamando os colegas dela para serem testemunhas, eles ficaram bem empolgados e emocionados, toparam na hora. E isso fala muito sobre as formas que elas levam a relação. É o espírito: Bora? Bora! Débora, no momento da documentação, estava com 33 anos. É natural de Porto Alegre, mas morou nas cidades metropolitanas de Cachoeirinha e, agora com a Paula, em Sapucaia do Sul. Formou-se em relações públicas, atua na área de vendas. Ama bichos, tem um coelho e uma cachorra. Adora dedicar o tempo livre para ler, visitar museus, comer, dormir, passear pelo centro histórico de Porto Alegre e também participa de um projeto que caminha por pontos em que aconteceram situações da ditadura na cidade, fazendo esse resgate histórico. Paula, no momento da documentação, estava com 43 anos. Nasceu em Esteio, região metropolitana de Porto Alegre e hoje mora em Sapucaia do Sul. Trabalhou na indústria e fez uma migração para o setor imobiliário. Como hobbie, é árbitra de atletismo, fazendo também cronometragem de corrida de rua. Além disso, adora passear por Porto Alegre e sente que está redescobrindo a cidade junto com a Débora. Depois do início do relacionamento, Débora trocou de trabalho e conseguiu um que ficava “no caminho” da casa da Paula (considerando que as distâncias eram bem mais longas antes) e foi então que decidiram morar juntas. Foram juntando as coisas aos poucos e, pra falar a verdade, até hoje quando vão visitar os pais de Débora voltam com alguma mochila no carro pegando um pouco mais de coisas. Comentam bastante sobre essa adaptação familiar, também, porque Paula tem um filho de 21 anos. Débora fala sobre o quanto ela gostaria de ter uma família e que Paula chegou com “um combo completo”: filho, sogra incrível, família grande, etc. Citam um ano novo que passaram juntos, na casa dos pais da Débora, jogando, rindo, muito parceiros, ele com a namorada e quando ela se deu conta, entendeu: “É isso que eu quero pra minha vida”. Débora Paula

  • Ingra e Lara | Documentadas

    Lara estava com 25 anos no momento da documentação. É natural de Ilhéus, morou lá a vida toda e atualmente trabalha enquanto psicóloga infantil atuando com crianças neurodivergentes. É uma área que ama trabalhar: lidando com crianças portadoras de autismo, acompanha principalmente as que estão na transição para a adolescência. Adora estudar e acolher todas as questões, analisar os comportamentos e estar nos ambientes escolares, no dia-a-dia da criança em si, sair do espaço da clínica num momento de consulta. Além do trabalho, também adora estar em Salvador visitando os amigos (inclusive foi lá que fizemos a documentação acontecer) e também gosta de ir até Itacaré fazer alguns passeios. Ingra estava com 24 anos no momento da documentação. Também é natural de Ilhéus e conta que cresceu com muitas referências femininas - dentro e fora de casa. Morou em São Paulo durante dois anos depois de terminar o ensino médio, enquanto ainda escolhia o que cursaria na faculdade. Quando voltou para Ilhéus, resolveu cursar psicologia. É apaixonada pelas múltiplas formas artísticas e sabe que isso influencia diretamente sua forma de ser: a arte ajuda ela a viver seus melhores momentos. Além disso, sempre soube que gostava de mulheres, mas de alguma forma não insistia nisso porque pensava que iria passar com o tempo. Ingra lembra de uma situação, quando ainda era criança, que sentia algo diferente por mulheres e escreveu num papelzinho, confessando na igreja “que por mais que sentisse que isso fosse errado por pressão social, não deveria pedir desculpas para Deus por isso, porque não era de fato maldoso”. Escondeu o papel atrás de uma santa e anos depois achou o papel novamente. Adora acessar essas partes suas que estão no passado e que complementam quem ela é hoje, de alguma forma acolhe a criança que era e a adulta que se está se tornando. Ingra procura voltar seus estudos em psicologia para gênero e sexualidade, mas também trabalha enquanto assistente terapêutica. Sua irmã mais nova possui uma síndrome rara, chamada de síndrome de rett, precisando 100% de suporte, então isso influencia na sua vontade de fazer diversos cursos e especializações - e também foi o que aproximou a relação dela com Lara. Ingra e Lara se conhecem desde a adolescência, pois estudavam no mesmo colégio, mas eram de turmas diferentes. Não eram próximas, no máximo se cumprimentavam. Lara lembra do processo de Ingra ir para São Paulo porque havia amizades em comum que comentavam. Depois de formada na faculdade, Lara já atendia crianças com deficiência (e já se entendia enquanto uma mulher lésbica também), enquanto a mãe de Ingra procurava uma nova acompanhante para sua irmã (que possui síndrome de rett). Lara conta o quanto a irmã de Ingra é famosa em Ilhéus por conta da síndrome rara que possui e diversos profissionais têm interesse em estudar o caso dela. Quando soube que Ingra estava de volta na cidade, em 2023, nem imaginava que ela se relacionava com mulheres - até lembra do seu estilo meio surfista mais jovem, dos amigos que tinha, não “dava muitos sinais” - mas uma amiga em comum comentou e surgiu um interesse. Logo em seguida, soube que Ingra havia ingressado na faculdade de psicologia e a amiga comentou “o quanto elas eram parecidas e tinham coisas em comum”. Quando Ingra chegou em Ilhéus, se sentia muito insegura sobre a sexualidade. Como se relacionar com outras mulheres na cidade em que nasceu? Conversou com sua mãe sobre, ela foi uma forte aliada, mas ainda existia muito medo das reações das pessoas na rua, principalmente por ela ser vista o tempo todo como uma mulher muito feminina. A amiga em comum que havia com Lara também foi muito importante nesse processo para desmistificar a ideia de que mulheres que se vestem e performam feminilidade não podem amar outras mulheres e viver de forma livre esse amor. Foi a amiga quem falou sobre Lara para Ingra, e assim elas interagiram no Instagram pela primeira vez - mesmo Ingra tendo certeza que provavelmente não iria dar em nada. Foi num restaurante o primeiro encontro de Lara e Ingra, depois de conversarem alguns dias online. Antes de sair, Ingra estava tão nervosa se arrumando que a mãe logo notou e perguntou se ela iria encontrar alguma mulher. Ela havia comprado até uma roupa especial, que conseguiu garimpando em algumas lojinhas do centro. Chegou ansiosa, atrasada e mais arrumada do que Lara esperava - o que, de toda forma, não era ruim. Lara, que não é de ficar nervosa, ficou. Conversaram e foram desenrolando a ansiedade, o que foi muito legal porque sentiram tudo mais leve. Mesmo Ingra sendo tímida e não gostando de se abrir sobre a vida logo de cara, adorou que Lara fez tudo fluir, as conversas seguiram bem. Acabaram se beijando no primeiro encontro, algo que até então não era comum para Ingra, mas ela se mostrou confortável e até saiu de mãos dadas do local. Foi algo marcante porque nos dias seguintes demonstraram o quanto gostaram e queriam continuar se encontrando. Lara apresentou seu primo para Ingra, passaram o ano novo juntas de um jeito simples e calmo, no mês seguinte oficializaram o início do namoro e por mais que fosse um início rápido, sentem que a dinâmica foi tradicional e no tempo que se sentiram bem. Ingra fala sobre o amor que a sua família criou por Lara e como isso foi fundamental para quebrar muitos medos que tinha enquanto uma mulher que ama outra mulher ao se pensar vivendo coisas tão básicas como apresentar a namorada para a família e/ou ter momentos em família. Quando contou para sua mãe que estava indo encontrar Lara, ela ficou feliz por saber quem Lara era, conhecer seu trabalho e admirá-la enquanto profissional, então desde sempre apoiou, mas respeitou/esperou elas começarem a namorar para serem apresentadas oficialmente. Marcaram uma janta na casa da família de Ingra para que Lara fosse apresentada oficialmente enquanto namorada, mas dois dias antes esbarraram com a mãe dela, na pracinha do bairro, comendo acarajé, então se conheceram antes do previsto. O dia era de comemoração:a mãe dela havia acabado de se matricular na faculdade de psicologia - curso que tanto Lara, quanto Ingra, já cursaram. A janta aconteceu de qualquer forma e foi até melhor que o esperado: Lara chegou e a mãe de Ingra já apresentou a filha mais nova sabendo que Lara iria gostar de conhecer. Haviam outras crianças em casa porque ela chamou alguns vizinhos para comemorar um aniversário de bonecas que criou de última hora com os brinquedos da pequena, Ingra estava focada em cozinhar a janta, e Lara se divertiu com a criançada. Ao mesmo tempo que estava nervosa por conhecer uma família grande e muitas crianças, estava num lugar muito confortável por estar com o que mais ama - as crianças. Comenta, também, que mesmo a irmã da Ingra não verbalizando, ela tem um olhar muito marcante e ficou nítido o quanto elas se deram bem naquele primeiro momento, era o que a deixava mais feliz saber que tinha dado certo. E foi apresentada como namorada de Ingra, recebeu um sorriso de todos, sente que foi aceita desde o início. Na família de Lara, elas sentem que sua mãe sabe mas ainda está no processo de aceitação, então vivem isso frequentando a casa e entendendo que o tempo age aos poucos. Desejam cada vez mais construir o relacionamento que possuem enquanto uma família - seja unindo suas famílias, se vendo enquanto uma unidade familiar sendo duas mulheres que se amam e, esperam que daqui um tempo, adotando uma nova vida sendo mães e gerando uma nova família. ↓ rolar para baixo ↓ Ingra Lara

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