Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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- Cynhia e Leylane | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Cynthia estava com 33 anos no momento da documentação, é natural de Recife, nascida e criada no bairro que fizemos as fotos: em Santo Amaro, na Universidade de Pernambuco. Formou-se em Educação Física, mas hoje em dia trabalha na área de finanças individuais e comportamentais, junto da sua companheira Leylane, que no momento da documentação estava com 38 anos, também formada em Educação Física e que além de atuar na questão financeira sendo consultora e ensinando organização e planejamento financeiro pessoal, também faz parte da saúde pública integrada ao SUS num serviço chamado Academia da Cidade. Leylane entrou na faculdade de Educação Física em 2005, fazendo o curso de licenciatura, depois especialização, bacharelado e mestrado. Como a universidade faz parte da sua vida há tantos anos e gosta muito desse espaço, passava muito tempo por lá. Cynthia, por sua vez, fazia parte de um projeto social da universidade que trabalhava com crianças e adolescentes da comunidade - ela, no caso, uma moradora da comunidade, frequentava a universidade antes mesmo de ser uma aluna. Ou seja, ambas viviam na universidade tanto tempo que nem sabem dizer quando de fato se conheceram, é como se sempre estivessem ali. Por mais que exista 6 anos de diferença na idade entre elas, ainda eram muito jovens e Cynthia, alguns anos depois (em 2011) passou para o vestibular. Nesse momento, todos já se conheciam - ela era amiga tanto dos professores, quanto dos amigos em comum da Leylane - e torciam para ela entrar no curso de educação física. Nessa época, Leylane já havia se formado em licenciatura e cursava bacharelado, foi quando se encontraram enquanto colegas. Leylane conta que se reencontraram num dia que ela foi jogar handebol e Cynthia fazer uma aula de dança, soube que ela estudaria na Universidade e parabenizou, disse que seria muito legal estudarem juntas… Quando as aulas começaram, ficaram na mesma turma e começaram a passar mais tempo do que imaginavam conversando. Leylane chegava do trabalho e Cynthia separava uma cadeira ‘de pessoa canhota’ para ela sentar, sempre faziam os trabalhos de aula juntas, passaram o semestre todo muito próximas, conversavam muito por SMS e, na época, “Oi Torpedo”… Até então se viam apenas como amigas, até que um dia conversaram sobre essa amizade estar “muito colorida” e sobre o medo do que poderia acontecer. Pensaram: “É muito bom, mas se melhorar estraga, então acho melhor ser só isso mesmo.” Porém, ao mesmo tempo, não queriam ficar longe uma da outra. Cederam à vontade e ficaram juntas. Mesmo com medo e pensando que não daria certo, dez dias se passaram e ficaram novamente. Desde então, continuaram. No início não nomearam aquela relação - ou o que sentiam. Aos poucos, como se entendiam enquanto mulheres heterossexuais, chegou num momento que conversaram sobre e decidiram não manter relações com os homens que mantinham antes, até porque iriam se machucar se continuassem. Eram muito mais felizes juntas, não precisavam de nenhum tipo de heterossexualidade compulsória. Todo o relacionamento de Cynthia e Leylane, no começo, era em segredo. Havia muito medo sobre o que as pessoas iriam dizer - elas mesmo estavam descobrindo aquele sentimento, tudo era novidade, e lidar com julgamentos não seria algo fácil. Só dois amigos sabiam (os mais antigos) e desde antes mesmo delas se relacionarem eles sentiam que existia algum sentimento ali e já “avisaram” sobre, então de alguma forma demonstraram apoio (e até hoje são amigos). Como outros amigos e, principalmente familiares, não imaginavam, o refúgio e local seguro delas era o campus da Universidade. A faculdade de educação física se tornou o lugar onde poderiam estar juntas sendo quem elas são, num cantinho - e, durante a documentação, lembram saudosamente os lugares que sentavam e ficavam juntas passando o tempo - só para poderem viver sem esse julgamento. Cerca de 6 meses depois, a mãe da Cynthia acabou descobrindo o namoro e, por mais que no momento ela tenha negado, no dia seguinte resolveu contar a verdade. Na hora, a relação dela foi bem ruim, disse coisas difíceis de ouvir, e mesmo gostando da Leylane (porque a conhecia enquanto amiga da Cynthia) verbalizou que preferiria ver sua filha se relacionando com uma pessoa que não tivesse uma boa vida (se envolvesse com drogas, por exemplo). Na hora, Cynthia defendeu a relação que elas possuem e a realidade da comunidade onde viviam, então saiu e buscou ajuda na casa de uma amiga. Um dia depois, a mãe da Cynthia contou para a mãe da Leylane e, por mais injusto que fosse elas não terem tido o momento e o processo do seu próprio tempo para conversarem com suas famílias sobre seus relacionamentos, foram proibidas de se encontrar. Novamente, a faculdade seguia sendo o refúgio dos encontros. Depois de cerca de quatro anos e diversas formas de lidar, Cynthia e Leylane foram seguindo o relacionamento e enfrentando o preconceito familiar, até que a mãe de Cynthia cedeu e resolveu voltar a aceitar Leylane em sua casa. Foram anos se encontrando na faculdade, na casa de amigos - que sempre foram grandes parceiros e colaboraram para que elas tivessem locais seguros onde ficar - ou em pousadas por Olinda e Recife. Aos seis anos de relação, Leylane passou em um concurso na cidade de Moreno. Financiaram um apartamento numa cidade próxima, Jaboatão, região metropolitana de Recife, e se mudaram. Brincam que queriam tanto morar juntas que já tinham um móvel em casa (guarda-roupa) que guardava só coisas de cozinha (panela, colher, vasilhas…) esperando o momento chegar - e entendendo que não teriam ajuda para a mobília. Então de tempos em tempos compravam coisas e guardavam. Conseguiram, no fim, alguns presentes da família - como eletrodomésticos - e ficaram bem felizes por isso. Em 2018, alguns anos depois, oficializaram o casamento com os documentos e direitos civis respeitados, pensando na importância que isso representa por serem respeitadas enquanto uma unidade familiar. Não iriam fazer festa, mas a mãe da Leylane deu a ideia de comemorarem com um bolo de noivas, chamou alguns familiares; O primo cozinhou, a prima ajudou, alugaram um salão de festas, compraram bebidas e comemoraram como mereciam. No momento da documentação, Cynthia e Leylane já estavam morando em Recife novamente. Desejavam trabalhar com algo que fosse delas, mesmo na área de educação física, e quando Cynthia conheceu o marketing digital e a educação financeira entendeu que gostava de trabalhar nessa área. Leylane havia feito alguns cursos de finanças para uso pessoal, administrando as próprias contas e sempre soube ensinar por conta de ser professora, então resolveu começar a compartilhar os estudos… foi assim que acabaram entrando de vez na área. Admiram o quanto dão certo trabalhando juntas e acreditam que isso é reflexo de tanto tempo de relação e de tudo o que já enfrentaram nesses anos. Ficam muito felizes quando veem os amigos e os familiares admirando o amor que possuem, quando voltam na universidade e os professores ficam felizes em revê-las depois de tanto tempo, sabendo que esse amor começou ali. Hoje em dia adoram andar de bicicleta, ler, sair para beber, dançar pagode, reunir os amigos, conversar (problematizar as coisas… inventar conversas complexas) ou compartilhar os assuntos que estão lendo. Confessam, também, que adoram passar o tempo trabalhando juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Cynthia Leylane
- livro | Documentadas
Aline e Aya audio
- Ariadne e Barbara | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Barbara estava com 35 anos no momento da documentação. Natural de Recife, mora na casa em que fizemos a documentação desde que nasceu. É psicóloga, atende casais e trabalha também numa luderia - uma casa com jogos - que começou como um grande hobby e que se tornou um empreendimento com mais dois amigos. Lá é um dos lugares onde ela e Ari se sentem mais felizes, junto com os amigos, descobrindo novos jogos ou jogando os mesmos de sempre que adoram. Bárbara também é apaixonada por sua família e por seus bichos. Ariadne estava com 33 anos no momento da documentação. É formada em publicidade e também em psicologia, atua enquanto psicóloga atendendo na área da gestalt terapia (inclusive atende no documentadas!). É natural do Rio de Janeiro, mas cresceu em Recife e entende que precisou ser adulta muito cedo, saindo de casa e encarando a vida. É apaixonada por jogos, por literatura, crochê, artesanato… está sempre aprendendo algo novo. Em 2018, quando Ari e Barbara se conheceram, Ari estava num relacionamento que já durava cerca de seis anos com um homem e havia uma mudança planejada para São Paulo para morarem juntos. Fez uma entrevista de emprego, conseguiu passar, estava com a data marcada para começar o trabalho. No processo da ida para São Paulo, decidiram abrir a relação, já que estavam longe, e Ari entrou em um aplicativo de relacionamentos. Foi quando viu uma pessoa que estudava com ela na faculdade - a Barbara. Porém, na sala de aula, Ari não interagia com os colegas, ficava no seu canto e não chamava atenção. Quando começaram a conversar no aplicativo, Barbara não lembrava da Ari ser sua colega, e a foto da Ari era meio escura, não mostrava muito seu rosto porque ela não queria se expor… Barbara até sondou com os amigos: “Gente, quem é essa pessoa?!” mas ninguém soube dizer… até que uma amiga em comum a reconheceu. Durante o final de semana elas conversaram e marcaram um encontro na terça-feira, mas segunda iriam se ver na faculdade de qualquer forma e ficaram nervosas porque não sabiam como reagiriam. Brincam que foi a coisa mais vergonhosa que já fizeram, não se cumprimentaram na sala, Ari chegou a sentar próximo da Barbara/do grupo de amigos dela e piorou a situação porque o celular da Bárbara quebrou e ela queria uma forma de comunicar Ari sobre isso, mas ao invés de simplesmente dizer para ela, escrever um bilhete ou qualquer coisa semelhante, ela resolveu falar muito alto “EITA galera!! Meu celular quebrou!!!” jogando o celular no chão. E depois, deu todo um jeito de conseguir o número dela com um amigo, para falar com ela sobre o encontro. Hoje em dia dão muita risada sobre a imaturidade, era realmente só falar, mas faz parte do nervosismo que estavam tendo com a situação. Ari conta que Barbara foi o primeiro encontro dela tendo um relacionamento aberto, e ainda era a menina da sala dela na faculdade… Isso era motivo o bastante para estar ansiosa. Fumou um cigarro antes de chegar, depois se arrependeu por conta do cheiro do cigarro que iria ficar na roupa… Já chegou falando “Eu não fumo!! Isso aqui é de vez em nunca!” antes mesmo da Barbara perguntar. Tiveram um encontro muito bom, Ari contou que estava com a viagem marcada para ir embora, a conversa fluiu por muito tempo, passaram a madrugada e viram o dia amanhecer. Quando se despediram, falaram que se encontrariam na faculdade à noite e combinaram: como se cumprimentar, como agir. Para que não se repetisse o que aconteceu na segunda-feira. Continuaram se encontrando na faculdade, tendo o romance “com prazo de validade”, até que um dia estavam voltando da aula, Ari olhou e disse: “Eu nem vou mais viajar pra São Paulo” numa naturalidade imensa. Ari explica que percebeu o quanto o relacionamento não era um lugar bom, que estava há muito tempo querendo sair e que abrir para conhecer outras pessoas foi quase que uma fuga para que seu ex companheiro arrumasse alguém e conseguisse ficar em São Paulo sendo feliz, assim a barreira física não seria mais um problema. Percebeu que estava apaixonada por Bárbara, que não fazia sentido dar continuidade na mudança e nem que estava preparada para se mudar e mudar toda sua vida. Decidiu primeiro cancelar a mudança, não terminar a relação de imediato, mas cancelar os planos. Ari contou para o ex companheiro que estava se relacionando com Barbara e aos poucos foi ficando evidente o quanto elas estavam juntas, até o momento em que entenderam que seria melhor terminar. Barbara conta que durante esse processo, aconteceram dois momentos importantes: o primeiro foi um dia que elas se embriagaram e se declararam, entenderam que não era uma paixão momentânea e que estavam sentindo algo real, mesmo sendo sinceras porque estavam bêbadas. E a segunda situação foi durante uma cerimônia de Ayahuasca, em que conversaram e que Ari estava incomodada por não terem uma definição sobre o que elas eram. Bárbara foi muito direta: “Você namora e eu estou solteira. Quando você resolver sua vida, a gente namora.” e no dia seguinte Ari terminou sua relação. Entendem que, no fim, o processo foi intenso e rápido. Viveram outras relações longas que exigiam muito menos coragem. E juntas, desde o primeiro dia, fizeram coisas que em outros relacionamentos não conseguiram fazer: andar de mãos dadas com outra mulher na rua, por exemplo, de uma forma muito natural, espontânea, corajosa. Apresentaram suas famílias, ficam felizes por todos se darem tão bem e conviverem juntos, romperam muitas barreiras de forma rápida. Depois de um ano de relação, Ari e Bárbara viveram a pandemia de Covid-19 ainda morando em casas separadas, mas Ari passou um tempo morando sozinha e por conta das dificuldades que a pandemia demandava em mobilidade decidiram passar mais tempo juntas na casa dela ou na casa de Barbara. Decidiram morar juntas por um tempo no fim da pandemia, até que Ari devolveu o apartamento e conversaram sobre alugar um apartamento e formar um lar. Viram que os custos eram bastante altos, então o pai de Barbara ofereceu parte da casa onde ele mora - e lugar que fizemos a documentação - para que elas morassem com os bichos em um lugar espaçoso e confortável. Estão há pouco mais de dois anos morando juntas nesse novo lar e há cerca de um ano e meio abriram a luderia, casa de jogos de tabuleiros que empreendem junto com outros dois amigos. A ideia surgiu porque durante a pandemia começaram a alugar alguns dos seus jogos, entenderam o potencial e a demanda, ainda mais por não haver algo assim em Recife, foi quando abriram o espaço físico junto com um bar. Contando sobre a luderia, elas dão um exemplo de como se dão bem na comunicação e nos planos: numa situação, ficaram muito tempo tentando explicar uma coisa uma para a outra. Ari tentava explicar sua visão e não entendia a visão da Bárbara de jeito algum, enquanto Bárbara passava pelo mesmo, mas elas não desistiram de tentar se comunicar. Foi quando Bárbara disse como era legal ver o quanto elas se esforçaram para ouvir e falar, explicar os pontos, serem didáticas, até desenharam. Acreditam que isso se espelha em toda a relação e na forma que conduzem as coisas. Nunca tiveram brigas pesadas, sempre prezam pelo respeito e pelo carinho, acreditam que o amor está nesse lugar que respeita quem a pessoa é e acompanha o crescimento dela. ↓ rolar para baixo ↓ Barbara Ariadne
- Stephanie e Raíssa | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Raíssa estava com 32 anos no momento da documentação. Nasceu em Salvador e adora a cidade. É uma pessoa caseira, trabalha em casa, sendo psicóloga, e quando não está na sua rotina gosta de ocupar o tempo assistindo séries, aproveitando o espaço e a tranquilidade do lar. Quando sai, gosta de visitar amigos, praticar algum esporte e ir à praia. Para ela, o conforto está justamente nesse ritmo mais íntimo. Stephanie estava com 29 anos no momento da documentação e é dentista - uma profissão que confessa, logo de primeira, amar e fazer parte importante da sua vida e da sua rotina. Diferente de Rai, ela gosta bastante de estar em movimento, encontrando amigos, fazendo programas diurnos e experimentando coisas novas. Nos primeiros meses de 2026, tem se permitido viver bastante, ocupando o tempo com encontros e experiências. Ela também é natural de Salvador, nasceu e cresceu no Largo do Dois de Julho, uma região bem central da cidade, lugar histórico que carrega boemia e muitas memórias. Conta que ter crescido ali significa conhecer as pessoas, as ruas e os ritmos do bairro, já que seus pais também vivem o bairro e a região. Ela adora o quanto isso molda sua personalidade: uma pessoa conectada com a cidade, engraçada e observadora do mundo ao redor. Stephanie e Raíssa se conheceram em 2015, na faculdade. Estudavam na mesma instituição, mas em cursos diferentes e em momentos distintos da graduação: Stephanie era caloura e Raíssa já estava perto de se formar. Foi quando se inscreveram para ser monitoras em uma mostra científica (porque precisavam cumprir carga horária) que acabaram na mesma sala e começaram a se conhecer. Na época, Stephanie ainda se entendia como heterossexual, mas estava acompanhada de amigos LGBTs, viu Raíssa (que por sua vez tinha terminado recentemente seu primeiro namoro com uma mulher e atravessava um período de coração partido) e questionou aos amigos se eles achavam que ela era do ‘vale’: todos responderam de forma unânime > “sim”. Durante aquela semana da mostra, trocaram números para resolver questões do evento e começaram a conversar. Stephanie tentava flertar, mas Raíssa não percebia. Ou até percebia, mas entendia que Ste era hétero e acreditava que ela estava apenas com curiosidade. Pegavam ônibus juntas… e depois das insistências, chegaram a se beijar algumas vezes. Mas nunca se tornou uma relação de fato. Depois disso, o vínculo entre elas passou a existir em idas e vindas: às vezes conversavam, às vezes se encontravam, ficavam, depois cada uma seguia sua vida e se relacionava com outras pessoas. Brincam que as duas sempre foram muito “namoradeiras”, então, entre 2015 e a pandemia, passaram cerca de cinco anos nesse movimento de se aproximar, ficar vez ou outra, se afastar, e voltar a se encontrar. Em 2022, novamente solteiras, voltaram a conversar sobre relacionamentos e decidiram se encontrar novamente. Ste chamou Rai para conversar e brincou: “Não percebeu nada de diferente no meu perfil, não?! Estou solteira!”. Foram se encontrar mais uma vez. Acharam que iria ser como das outras vezes, mas foi diferente: começaram a ficar com mais frequência, mas ainda sem assumir nada sério. Uma dizia que queria namorar, construir uma família e ter filhos, enquanto outra não se sentia pronta para assumir um relacionamento ou pensar nesse tipo de futuro. Nesse meio tempo, quando viram que existia a possibilidade de se afastarem de novo e se relacionarem com outras pessoas, surgiu um medo real de perder alguém importante que até então não havia existido nos outros anos. Algo estava diferente. Ste foi viajar enquanto elas ainda não haviam começado o namoro de fato e, quando voltou para Salvador, enfrentava um momento difícil com o cachorro doente. Rai estava muito confusa entre ciúmes que sentia por ver Ste ficando com outras pessoas, entre não saber se a relação delas viraria um namoro, entre muitas questões... Achou melhor separar as coisas de Ste na sua casa e deixar para que, em algum momento, ela fosse buscar. Mas, quando ela chegou, precisava mesmo era de apoio. Independente da relação que estavam construindo recentemente, já estavam na vida uma da outra há 10 anos. Agora ela precisava de Rai como amiga, como acolhimento. Verbalizou isso e Rai permaneceu. Foi enfrentando esse processo difícil, depois de tantos anos e tantos momentos diferentes de vida, onde decidiram se dispor verdadeiramente em uma relação amorosa. Seguiram juntas por mais um tempo e entenderam que estavam dispostas a tentar de verdade: em pouco tempo estavam oficialmente namorando e, logo depois, Stephanie já estava morando na casa de Raíssa. A relação começou a se estruturar de um jeito muito consciente, baseada principalmente em conversas longas e sinceras. Desde o início, as duas perceberam que precisavam falar abertamente sobre tudo: expectativas, sentimentos, limites e inseguranças. Questões que muitas vezes aparecem de forma silenciosa em outros relacionamentos como ciúmes, interesse por outras pessoas ou o formato da relação (se seriam monogâmicas, não-monogâmicas, como sentem os desejos por outras pessoas…) eram colocadas na mesa e discutidas com cuidado. Essa disposição constante para o diálogo acabou se tornando uma das bases mais fortes da relação, permitindo que o vínculo continuasse crescendo com confiança, carinho e respeito. Stephanie conta algo importante do início da relação: sempre quis viver um amor que pudesse ser dito em voz alta. Queria se sentir amada dessa forma, sem dúvidas, sem esconderijos. Quando Raíssa soube disso, decidiu preparar algo especial. Procurou as melhores amigas de Ste para descobrir do que ela gostava, o que a faria feliz, que tipo de surpresa combinaria com ela. Com a ajuda delas, pensou em cada detalhe para fazer um pedido de namoro, seria o ato oficial. Ela montou uma playlist pensando em todo o trajeto que Ste fazia até em casa, para que cada música acompanhasse o trecho. Depois, em casa, havia uma caça ao tesouro com post-its espalhados contendo os trechos das músicas e pequenos recados carinhosos. Ao final, ela encontraria o pedido, acompanhado de um jantar simples, à luz de velas, mas com um detalhe: as velas eram de plástico, por conta do cachorrinho, que transforma qualquer momento em bagunça. Por muito tempo, elas seguiram usando as velas nos momentos do lar e contam que, de fato, ele mordeu todas. Era preciso mesmo que elas fossem de plástico. Morar juntas foi um passo natural para Raíssa e Ste, mas outras decisões exigiram mais alinhamento. Rai, por exemplo, sempre disse que não fazia muita questão de casar, que via o casamento mais como uma formalidade burocrática. Já Ste tinha o desejo de viver esse momento, de construir um casamento como parte do seu projeto de vida. Em vez de virar um impasse, isso também virou tema de conversa: o que cada uma imaginava, quais expectativas estavam envolvidas e como poderiam construir algo que fizesse sentido para as duas. Aos poucos, o significado do casamento também foi mudando. Além do desejo por uma celebração romântica, surgiu a dimensão política de duas mulheres decidirem se casar, ocupar esse espaço e afirmar um direito conquistado. Quando ficaram noivas, algumas pessoas da família estranharam, já que elas já moravam juntas. Para as duas, porém, o noivado representava exatamente o contrário: não era o fim de um processo, mas o começo de um novo passo. Ainda haverá cerimônia, festa, celebração… E a vontade de marcar publicamente a construção da vida que escolhem compartilhar. Stephanie e Raíssa contam que a relação delas é marcada pelo cuidado e pela forma amorosa como se tratam. Até entre as amigas a relação delas já se tornou uma referência de amor tranquilo. E esse cuidado se estendeu às amizades: para elas, os amigos fazem parte da família que escolheram construir ao longo da vida. Ste costuma dizer para a Raíssa que o amor que vivem não é uma paixão avassaladora, mas também está longe de ser morno. É simplesmente real. Existem momentos românticos, claro, mas também há rotina, e essa rotina não diminui o sentimento. Pelo contrário: nela existe sossego. É muito bom chegar em casa e saber que vai estar tudo bem. Depois de experiências anteriores marcadas por confusão, a calmaria chegou a assustá-las por um momento. Com o tempo, entenderam que a tranquilidade também é uma forma de amor. Essa estabilidade, longe dos altos e baixos constantes, tornou-se um dos pilares da relação. Há também algo que consideram muito especial: elas compartilham tudo. Qualquer acontecimento, pequeno ou grande, é dividido primeiro entre as duas. Isso construiu o espaço seguro, onde não há medo de julgamento. Além disso, há também o incentivo: uma apoia os sonhos da outra, mesmo os mais inesperados. Ideias que surgem de repente “E se eu mudar de carreira?” “E se eu começar uma residência?” “É possível?! Então bora!”. Saber que a outra estará ali, sustentando o caminho, faz toda a diferença. No fim, completam com uma frase: “É muito bom saber que as nossas terapias, individuais, serão sobre outros problemas e não sobre o nosso relacionamento”. ↓ rolar para baixo ↓ Raíssa Stephanie
- Carol e Gabi
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. A conexão entre Carol e Gabi foi acontecendo aos poucos, quase por acaso. Frequentavam os mesmos espaços, Carol era amiga da irmã da Gabi e isso fez com que Gabi até fotografasse a Carol em um evento, mas nunca prestaram real atenção uma na outra. O primeiro contato mais direto aconteceu em um evento de fotografia, em 2017. Quando Gabi chegou e reconheceu Carol pela voz, se apresentou de forma animada dizendo que ela era a Gabi, que tinham amigas em comum. Ao contrário do que Gabi na hora esperou, Carol não demonstrou o menor interesse na informação. Ela ficou até um pouco sem jeito, desconcertada, pensou ter sido expansiva demais. Depois do evento e da situação, Carol decidiu seguir Gabi nas redes sociais. No evento em si, não trocaram mais nenhuma palavra. Mas, aos poucos, começaram a interagir online. Em 2018, sem ainda serem exatamente amigas, viajaram juntas para um congresso de fotografia. O motivo foi objetivo: dividir os custos (arrumar um hotel ou apartamento para ficar, dividir os transportes…). Mas essa convivência inesperada mudou a dinâmica entre elas. Gabi, que até então era casada, viveu seu relacionamento até 2019. Conversava muito com seu ex-marido e parceiro de tantos anos, até o momento que entendeu que não cabia mais estar em um relacionamento com um homem. Depois que se separou, viveu um ano de mudanças muito intensas em si. Em 2020, ela e Carol começaram a se relacionar. Aos poucos, foram compartilhando a novidade com os familiares - o maior medo de Gabi sempre foi a reação do filho - e, no dia da conversa, tomada pela emoção, chorava muito enquanto contava… mas ele agiu da melhor forma possível, dizendo: “Você tá chorando por quê, menina? Ah, deita aqui. Que besteira. É importante você ser feliz”. E descreve a sensação de alívio e de acolhimento. Desde então, ela e Carol seguem juntas, mas só em 2021 que de fato Carol começou a frequentar mais a casa de sua família e, em 2022, decidiram morar juntas. Gabi já vivia uma série de mudanças desde 2019, que foi um ano de transformação. Porém, em 2020 com a pandemia de Covid-19 sente que as mudanças deixaram de ser internas para serem externas, todos estavam em mudança (e ainda mais drásticas). Nos primeiros meses da quarentena, ficaram sem se encontrar. Em 2021, Gabi pegou Covid e sentiu muito medo. Ao mesmo tempo, havia os receios do relacionamento: como contar para a mãe, para a irmã? Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo e foi necessário se reorganizar em meio às inseguranças. A relação de Carol e Gabi trouxe transformações profundas para ambas. Gabi observa o quanto Carol mudou - antes, ela jamais aceitaria aparecer em frente a uma câmera, e agora, não só topou a documentação da história delas, como se empolgou com a ideia. Isso as fez refletir sobre como, apesar de fotografarem tantas famílias diariamente, pouco documentavam suas próprias vidas assim, contando a história. Dessa vez, entenderam a importância de registrar essa trajetória. O início não foi fácil. A mãe de Gabi se opôs à relação, mas, em 2020, tudo mudou. Com o diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica do pai, Gabi já havia vendido o carro após a separação, e Carol esteve presente em todos os momentos, ajudando Gabi e a mãe a levá-lo onde fosse necessário. Esse cuidado foi essencial para transformar a relação entre elas, e hoje, são muito próximas. Para Gabi, isso reflete a essência de Carol: alguém que se doa, cativa e constroi laços verdadeiros. Essas vivências só reforçaram que o amor entre elas é uma escolha diária. A maturidade trouxe essa certeza. Não é apenas o desejo de estar juntas, mas a decisão de construir algo sólido. Gabi sempre foi vista como uma pessoa alegre, mas, por muito tempo, sentia que não tinha sonhos, que não se via no futuro. Até perceber que essa falta de perspectiva vinha de sua própria história e que era possível mudar isso. Hoje, ao lado de Carol, ela se permite sonhar. Planeja. Visualiza o futuro. E percebe o impacto disso em todas as áreas das suas vidas (pessoal e profissional): uma impulsiona a outra a enxergar mais longe. Gabrielle estava com 37 anos no momento da documentação. É natural de Maceió, mãe de um adolescente de 15 anos. Sempre se reconheceu como bissexual, mas entende que parte dessa vivência foi moldada pela heterossexualidade compulsória e pelas expectativas da família tradicional brasileira. Quando seu filho completou 10 anos, tomou a decisão de se assumir e iniciar um novo capítulo ao lado de Carol. Atualmente, trabalha enquanto fotógrafa e artista visual, se destacando por seus trabalhos com retratos; Além disso, é funcionária pública há 17 anos, trabalhando como secretária em uma escola. Seu tempo livre é preenchido com literatura, música e artes, suas grandes paixões. Carolina estava com 37 anos no momento da documentação. Também fotógrafa, nasceu em Maceió, mas passou boa parte da vida no Rio de Janeiro, além de outras cidades antes de retornar à sua terra natal. Seu trabalho transita por diferentes universos (ensaios, shows, casamentos) e sua paixão por música a acompanha dentro e fora da fotografia. Adora assistir a shows ao vivo, sair para beber uma cerveja e explorar a cidade. O relacionamento entre elas trouxe transformações significativas, especialmente para Carol, que sempre teve hábitos muito fixos e gostos bem definidos. Com Gabi, passou a se permitir experimentar mais, explorar novos caminhos e redescobrir o prazer da novidade. Juntas, construíram uma relação baseada na troca, no respeito e no amadurecimento. Se impulsionam a sonhar, a expandir horizontes e a se reinventar todos os dias. ↓ rolar para baixo ↓ Gabi Carol
- Cilla e Fabiana | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Fabiana estava com 37 anos no momento da documentação. É professora de química e está atualmente fazendo doutorado na Universidade Federal do Pará. Além das aulas na universidade, também dá aulas particulares para estudantes do ensino fundamental e médio, ensinando química, física e matemática. É uma pessoa caseira, apaixonada por tarot, astrologia e espiritualidade, se considerando católica não praticante. Acredita que existem saberes para além das religiões tradicionais, e gosta de explorar esses caminhos esotéricos. Nos momentos livres, ama maratonar filmes e torcer para o Palmeiras, seu time do coração. Sua trajetória acadêmica é o grande motivo de orgulho, sempre quis estudar e se formar numa universidade federal. É licenciada em química e formada também em química industrial, se dedicou muito, por vezes abdicou de ter vida social e preferiu os estudos. Sabendo dessa prioridade, também, sempre é grata à sua família por ter apoiado, sido base para que ela conseguisse conquistar esse sonho. Cila estava com 34 anos no momento da documentação. É fotógrafa, filmmaker e social media. Apaixonada por fotografia desde a época das câmeras analógicas, além de ter uma forte ligação com a música: compõe, canta e toca alguns instrumentos. Tem músicas autorais publicadas até nas plataformas de streaming e já fez apresentações que envolviam outros artistas autistas. Atualmente, estuda produção multimídia na UFPA e também jornalismo, fazendo a modalidade EAD. Já morou em lugares como Paraíba e Canadá, mas enfrentando algumas situações difíceis, precisou voltar para Belém. Hoje em dia passou a entender seu modo de aprender, se acolher de melhor forma… Passou cinco anos cuidando do pai, já idoso, que estava bastante doente (uma fase que exigiu muito emocionalmente), agora reingresso na faculdade e se dedica ao que realmente ama: a fotografia, a arte e a comunicação. Cila fez a cirurgia bariátrica em 2024 e a recuperação não foi nenhum pouco fácil. Após muitos anos sendo militante contra a gordofobia, viu sua saúde prejudicada e optou pela cirurgia, sendo necessário passar por todo um processo desafiador. Fabi foi uma presença fundamental: se reinventou em coisas que não sabia, aprendeu a cozinhar, Cila a representa como uma luz: sempre aparece quando a escuridão ameaça tomar conta. Com ela, encontrou uma parceira de verdade, em todas as dificuldades. E mais do que isso: ganhou uma nova família - as tias da Fabi, por exemplo. Os vínculos, as famílias que se agregaram, a casa que constroem juntas, para as duas se tornou uma relação saudável que nem imaginava que poderia existir. Fabi, por sua vez, nunca tinha tido um relacionamento antes (com mulheres ou com homens). Nem imaginava que relações amorosas pudessem ser tão tranquilas. Conheceu Cila em 2022, por um aplicativo de relacionamentos. Já estava quase desistindo da ideia de usar os aplicativos, na verdade, porque as conversas não fluíam. Mas Cila fez de tudo para chamar sua atenção e começaram a conversar. O papo foi fluindo de forma positiva e a primeira proposta de encontro foi ir ao circo. Fabi adorou, achou super criativo, divertido. Infelizmente não deu certo, mas a outra proposta também foi legal: uma peça musical sobre Queen no teatro. Foram e, durante o intervalo, a conversa entre elas foi tão leve e espontânea que se sentiram em casa. Nas palavras de Fabi, pareciam se conhecer há muito tempo. O encontro teve que terminar cedo porque Fabi tinha uma prova no dia seguinte, mas antes de irem embora, Cila a convidou para sua festa de aniversário que seria nos próximos dias. Fabi foi, levou um presente, e esse gesto mexeu com Cila: ela quem sempre tomava as atitudes de presentear, se dedicar aos outros, pela primeira vez se via sendo cuidada. “Ela nem tinha me beijado ainda e já se preocupava em me agradar”, lembra. Não era pelo valor financeiro, era pela atitude. Depois que ficaram juntas pela primeira vez, no aniversário da Cila, elas continuaram se encontrando e nutrindo a paixão que ia acontecendo. Fabi viu em Cila o que ela nem sabia que era possível buscar em alguém, mas que admirava: uma pessoa responsável, carinhosa, dedicada ao trabalho, aos estudos e à família, principalmente, por ela cuidar do seu pai que estava doente, sendo a principal responsável por ele. Fabi, que por muito tempo adiou a vida amorosa por conta de estudos e trabalho, desejava uma parceira que entendesse esse ritmo, que tivesse paciência e vontade de construir uma vida compartilhada. Com Cila sentiu que isso pela primeira vez poderia ser possível. Em maio, durante o aniversário de uma amiga que sempre apoiou o casal, a amiga incentivou Fabi a pedir Cila em namoro. Cila chegou um pouco depois, direto do trabalho, e Fabi fez o pedido na frente de todos. Contam como foi legal, inesperado e simples. Sentiram-se respeitadas, celebradas, e desde então vivem uma relação de parceria. Juntas, já viajaram ao Rio de Janeiro, estudaram espanhol e foram para a Argentina…. Estão sempre topando o novo. Passaram por vários momentos difíceis, deixaram a comunicação afiada, e não largaram as mãos. Fabi também adotou as gatas que Cila trouxe do Canadá, agora são delas e tratam com muito carinho. Hoje vivem uma parceria sólida, com poucas brigas e muita escuta. Quando uma está em crise, a outra sabe exatamente o que fazer: um abraço forte, um gesto de cuidado, uma palavra certa, dar um tempo para uma ficar no quarto processando... São lugares de respeito. Quando Cila convidou Fabiana para morarem juntas, em maio de 2023, depois de um ano de relação, Fabi hesitou. Não faltava vontade, mas havia um medo de sair de casa. Ao mesmo tempo, sempre que passava o fim de semana com Cila e precisava ir embora, sentia uma tristeza, sabia que queria ficar lá. Foi conversando com a tia que recebeu o incentivo: se esse era o que o coração sentia, deveria seguir em frente, sem esperar aprovação dos outros. O medo existia por não saber como o mundo reagiria. Aos poucos viu que os medos eram pequenos (talvez nem fizessem tanto sentido assim) perante a relação legal que construiam. Cila sempre demonstrou muita maturidade e foi com ela que Fabi aprendeu a se libertar dessas inseguranças. Mesmo com o apoio da maioria da família, algumas pessoas se afastaram, mas as que permaneceram sempre estão presentes e são bastante respeitosas, carinhosas… A família de Cila também foi acolhedora. A mãe e irmã moram fora do Brasil, mas mandam presentes para Fabi, quando visitam estão sempre com as duas e fazem questão de incluir elas nos planos. Apenas a avó da Fabi ainda passa pelo processo de aceitação, o que traz dor, a ausência da Cila nos momentos felizes entre família quando ela está a deixa triste, não consegue entender como algo tão bonito como amar não pode ser aceito por uma das pessoas que ela mais ama e admira - como a avó - mas entende também que com o tempo isso pode ser mudado. Entendem que ela e Cila são um casal feliz, e isso deveria bastar. ↓ rolar para baixo ↓ Fabi Cilla
- Apoio Psicológico | Documentadas
O Documentadas oferece apoio psicológico para mulheres que amam mulheres e fazem parte da comunidade LGBT. saúde mental e apoio psicológico para mulheres de todo o Brasil Considerando a importância da representatividade para a construção da identidade de pessoas LGBTs e compreendendo as condições atuais do nosso país e do mundo, criamos no Documentadas uma rede de apoio psicológico. Através da psicoterapia ou da análise, uma profissional acompanhará, ouvindo e proporcionando um espaço de acolhimento para as vivências, sofrimentos e inquietações das mulheres que passam pelo projeto. Nesse primeiro momento, para atender mulheres que amam mulheres e que acompanham o projeto, criamos uma rede de psicólogas e psicanalistas que estão com vagas sociais para atendimentos individuais e online. Apostamos neste espaço porque sabemos o quão difícil é encontrar um ambiente seguro para ser escutada com atenção e cuidado. como funciona? Somos em mais de 25 profissionais - entre psicólogas e psicanalistas - e temos vagas à preços sociais, cada qual com a sua disponibilidade. Entendemos a importância de abrir essas vagas à valores mais baixos exatamente pela condição financeira particular de cada mulher, entendendo que o acesso à saúde mental deve ser democrático. Nosso propósito é atender mulheres que não encontram disponibilidade de atendimento de forma acessível nos meios particulares pagos. Toda mulher poderá se registrar na nossa plataforma acessando a área ao final dessa página. Assim, poderá consultar o perfil de cada profissional, escolher com quem mais se identifica e preencher um formulário. Todos os atendimentos partem do mesmo valor base, o que difere na hora da escolha é a profissional identificada através do breve currículo e da sua disponibilidade. Assim que o formulário for preenchido, a profissional escolhida entrará em contato para darem início ao atendimento psicológico ou psicanalítico. Para ler maiores informações sobre a nossa Política de Privacidade e os Termos de Uso de plataforma, clique aqui ♥ quer ter acesso à terapia/análise ou entrar em contato com a profissional? clica aqui
- Flavia e Olga | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Olga estava com 34 anos no momento da documentação, é natural de Recife e mora em Paulista, Pernambuco. Formada em Engenharia Química, possui mestrado e doutorado em Engenharia Mecânica e atualmente trabalha com Engenharia de Software. Entende que não é só das engenharias e das exatas, mas também das artes: adora desenhar, cantar e escrever. Recentemente recebeu o diagnóstico tardio de autismo e TDAH, o que a fez entender diversas coisas e melhorar sua qualidade de vida, podendo visualizar e respeitar seus limites. No tempo livre, adora ler, praticar esportes, ter conversas longas e consumir arte. Flávia estava com 31 anos no momento da documentação, é natural de Recife, mas ainda adolescente se mudou para Paulista e cresceu na cidade. É professora de história por formação e estava ocupando o cargo enquanto vereadora na cidade de Paulista quando nos encontramos. Flávia começou sua militancia no movimento estudantil, participou de alguns movimentos que buscam assistência estudantil para estudantes de origem popular, fez parte de movimentos sociais e se tornou a primeira vereadora negra e lésbica da cidade. É apaixonada pela rua, por estar com as pessoas conversando, no barulho, ouvindo música, falando sobre política… Gosta de fazer política de verdade, até nas folgas está lendo, vendo vídeos e debatendo com alguém. Depois da pandemia de Covid-19, Flávia fez questão de ter sua militância mais voltada para a cidade de Paulista. Sempre saía de casa e se deslocava à capital para participar das atividades, até que começou a pensar em atividades para sua própria cidade, desde ações do Dia da Consciência Negra, até debates pensando mudanças que queriam para a cidade em si. Foi então que, aos poucos, começou a se desenvolver em Paulista, conhecer mais lideranças - e até mesmo se tornar uma - entender que essa era a prioridade. Hoje em dia, a vida em Paulista é muito mais que o trabalho e a casa: é o terreiro, a avó, a irmã, a família, a política que constroem e acreditam, o filho, o relacionamento, o lar. Olga sempre gostou de fazer poesias, em sua maioria tratando sobre temas políticos, e foi quando descobriu o Slam das Minas que começou a se aproximar do movimento de rua e da militância. Em 2018, ano de eleição, Flávia foi para a reunião de candidaturas do partido e percebeu que todas as pessoas eram brancas, metade era composta por homens. Tomou iniciativa porque não se sentiu representada, decidiu colocar seu nome, se tornar candidata à Deputada Federal. Não tinha ideia de como seria fazer uma campanha, mas começaram a se organizar. Nessa organização, criaram um evento de lançamento e chamaram algumas mulheres para participar, inclusive o Slam das Minas, fazendo o convite para Olga recitar um poema. Olga pesquisou um pouco sobre quem era Flávia, para não chegar lá, num evento de política, sem saber onde estava se metendo. Queria estar alinhada, ouvir as propostas. Decidiu conhecer Flávia pessoalmente antes do evento acontecer. Na época, a campanha foi feita como dava: Flávia foi morar no comitê, que era um apartamento bem pequeno no centro de Recife. Estava num dia tentando descansar nessa casa/comitê/escritório e Olga apareceu para conhecê-la. Como esperava ver uma pessoa com pose de Deputada, ficou logo na dúvida se era mesmo Flávia ou não… Achou melhor perguntar logo: “Tu é Flávia, é?!”. E ela respondeu que sim, que talvez conhecesse Olga de algum lugar. Claro, ela sabia que conhecia do Slam das Minas. Sentaram para conversar, falou dos projetos, mostrou panfletos… Pensaram juntas: “Finalmente uma pessoa que pensa como eu!”. Olga conta que o discurso vago na política era algo que a incomodava muito, sempre falavam o quanto a diversidade é importante, o quanto era importante fazer algo, mas nunca era feito, nunca havia proposta efetiva. E ali, independente de um mandato ou não, era o movimento que estava sendo proposto: nós somos o povo, nós quem precisamos fazer algo. O lançamento da Flávia foi um sucesso, coisa que nem o próprio partido esperava, muita gente da cultura estava presente, pessoas representando a militância negra… e quando terminou foram todos para um bar comemorar. Flávia estava muito feliz, estava abraçando as pessoas e abraçou muito Olga. Conta que não é uma pessoa afetuosa fisicamente, mas naquele dia estava muito contente, ficava demonstrando muito para Olga essa felicidade. A vida seguiu depois do lançamento, seguiram os compromissos e começaram a interagir pelas redes sociais. Entre curtidas, comentários e conversas, surgiu um novo evento que seria a inauguração do comitê de campanha. Se beijaram pela primeira vez neste dia, depois de tentarem entender se iria rolar ou não, porque queriam mas estavam tímidas (e as coisas estavam acontecendo todas ao mesmo tempo). Flávia deixou Olga em casa e, no dia seguinte partiu para o Sertão, para trabalhar com a campanha eleitoral por alguns dias. O tempo que a campanha durou, Flávia morou no centro de Recife, próximo de Olga, e elas ficaram juntas. Quando a campanha acabou e ela não foi eleita, voltou para Paulista e pensaram que era muito mais longe, não se veriam mais todos os dias, a rotina mudaria muito… O Miguel, filho de Flávia, estaria muito mais presente - e no começo, por receios, ele não tinha sido apresentado enquanto filho, estava longe dela por conta da campanha, então foi outra questão na relação… Precisaram de um tempo para se entender, entender suas comunicações, suas realidades que ficariam bem diferentes de uma hora para a outra. Flávia começou a mostrar quem ela era de fato: moradora da comunidade, com diversas questões familiares, sem emprego depois de uma campanha… não tinha o conforto de morar no centro da capital como estava tendo por alguns meses. Precisariam repensar a relação. Flávia acreditava que só ia conseguir se relacionar com alguém quando o Miguel tivesse uns cinco anos… assim ele já seria um pouco mais independente e a pessoa que estaria com ela entenderia um pouco melhor também. Na sua visão, quem iria se relacionar com alguém que tem um filho de dois/três anos? Quando Olga chegou com uma comunicação clara, as coisas foram mudando rápido. Ela gostou muito da força, da independência, das coisas que Olga fazia e de como era estar junto com ela. Mas não queria que ela “assumisse um B.O” que não era dela tendo que lidar com seus problemas. Porém, aos poucos, Olga deixou claro que eles, Flávia e Miguel, eram um só. E não eram um problema. Quando conheceu Miguel se deram bem logo de cara e tiveram uma conexão. Aos poucos, Olga seguiu sua vida nos estudos e Flávia conseguiu um emprego depois da campanha eleitoral, foi quando decidiram de fato seguirem juntas e Olga se mudou para Paulista, morando no bairro em que a família de Flávia morava. A mudança para Paulista foi para ajudarem a mãe da Flávia por conta dela estar doente, mesmo ela não aceitando o relacionamento, Flávia pedia para que morassem juntas lá porque não aguentaria ficar longe de sua família. Olga cedeu e refez sua vida e sua rotina em Paulista, entraram num acordo, seu pedido em troca seria que Flávia começasse a fazer terapia e que mantivessem uma comunicação saudável, uma troca pensando em construir um relacionamento confortável juntas. Brincam que demorou um pouco, mas que deu certo. Durante a pandemia de Covid-19 decidiram morar numa casa para reformular mais uma vez a rotina, pois tudo estava sendo feito sob o mesmo teto: os estudos, o trabalho e a vida do Miguel. Começaram a terapia de fato, estavam reaprendendo a se comunicar, foi um divisor de águas. A qualidade de vida mudou muito morando numa casa. Começaram a curtir o espaço, fazer churrascos, exercícios, brincar mais com o Miguel… Não se sentiam presas dentro de um apartamento. Com a pandemia, veio também a segunda eleição, em 2021. Dessa vez já tinham a experiência de uma campanha que Flávia teve uma votação expressiva. Porém, uma campanha eleitoral que exige contato com a população em meio à pandemia era um desafio imenso. Olga conta o quanto foi difícil para ela lidar com as questões do vírus, ver as pessoas sem máscara ou os momentos em que usavam a máscara errado, todos os contatos com as pessoas na rua… tudo mexia demais com ela e causava muito medo. Além de todo o estresse que uma campanha eleitoral já produz, isso era um dos pontos mais difíceis, lidar um um “inimigo invisível” sendo tão direto para a saúde. Mas, a campanha foi feita com sucesso e Flávia foi eleita. No começo, Flávia estava muito destinada a não ser como os outros políticos que só aparecem de quatro em quatro anos. Então seguiu aquele ritmo frenético, trabalhando sem parar todos os dias. Olga entendeu que em algum momento ela adoeceria, estava impossível acompanhar - e entristecendo ver a companheira trabalhar tanto em seu primeiro ano de mandato, mesmo sabendo o quão importante isso é. Foi com muita conversa (e muita terapia) que Flávia entendeu o ritmo, os processos e as propostas. Hoje em dia, Flávia e Olga estão morando num novo lar, apartamento que financiaram juntas pensando na segurança de vida e em parar de pagar aluguel, depois de problemas que tiveram nos lugares que alugaram. Se aproximaram de um terreiro - e a aproximação começou por conta de uma luta contra intolerância religiosa no mandato de Flávia - e sentem que tudo melhorou depois disso. Hoje frequentam as festas, as cerimônias e os ritos, se sentem muito bem cuidando do seu ori. Foi através da religião, também, que chegaram até um terreno onde estão construindo - e reformando com suas próprias mãos - uma casa em Abreu e Lima, local que serve de refúgio, no meio de uma mata frutífera. Fomos até esse local e fizemos parte dessa documentação, pois é lá que se sentem realmente felizes. Flávia conta que pretende continuar trabalhando nas lutas que acredita, pois esse é o seu propósito. Olga deseja seguir seus trabalhos e suas escritas, inclusive, lançou seu novo livro de poesias. E Miguel, agora com nove anos, conta o quanto adora jogar videogame, brincar com Lula, o cachorrinho, e brincar de futebol - com Flávia, ele destaca que gosta de jogar no celular, com Olga, ele gosta de seguir a rotina fazendo as tarefas de casa. Quando perguntamos sobre a casa do sítio, ele responde: gosta de ir lá pra ser feliz, inclusive, é onde quer ir agora. ↓ rolar para baixo ↓ Flávia Olga
- Melina e Acácia | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Melina estava com 34 anos no momento da documentação, é professora de música e artista. Atua em diversos eventos na cidade, dá aulas (inclusive para pessoas com deficiência) e trabalha com diferentes etapas da produção musical: da escrita de partituras à edição e masterização de áudios. Está finalizando a graduação em licenciatura em música pela UFPA. Nasceu em Belém do Pará e possui uma trajetória muito ligada à arte e à cena musical paraense. Acácia estava com 28 anos no momento da documentação. Também é paraense, nascida e criada em Belém. Psicóloga, atua na área clínica de reabilitação e é apaixonada pela cultura. E foi justamente essa cultura (mais especificamente a cena musical LGBT) que aproximou as duas. Melina toca há anos no Rebuw, bar conhecido por acolher o público LGBT - especialmente as mulheres. Durante os domingos, o espaço recebia o projeto Sapa Session, um ‘pagode de sapatão’ que lotava o bar com mulheres se apresentando no palco. Acácia frequentou algumas dessas edições e, em uma delas, viu Melina tocando. Já conhecia Melina por vê-la na cena artística da cidade, até que em novembro de 2023, depois do Sapa Session, resolveu segui-la no Instagram. Melina, ao ver a notificação, achou Acácia linda e seguiu de volta, mas nenhuma das duas puxou conversa. No evento seguinte, novamente no Rebuw, Melina a reconheceu na plateia com uma amiga e, sem querer, ficou reparando demais nela, brinca que era quase deselegante, o que causou uns “gays panics”. Quando o show terminou e foi guardar o equipamento, criou coragem, foi até Acácia e se apresentou, mas não continuou uma conversa, disse seu nome, prazer, e saiu em seguida. A situação foi tão inusitada que nenhuma das duas entendeu direito o que tinha acontecido. Acabou sendo uma situação engraçada. Nunca fazia isso com ninguém… Nem Acácia, nem a amiga entenderam direito. Em dezembro, pouco tempo após a primeira interação no bar, Melina e Acácia se reencontraram em um evento que misturava show e festa, em outro local da cidade. Com amigas em comum, passaram a noite bebendo e curtindo. Quando começou a tocar o brega paraense com seus melodys, tecnobrega e clássicos regionais, as duas - que amam dançar - se encontraram e passaram duas horas dançando sem parar. Não conversaram, não se beijaram, não fizeram nada além de dançar muito. Mesmo depois de tanto tempo dançando, foram embora sem trocar palavras. Melina elogiou o quanto Acácia era cheirosa e só. Quando o dia já estava quase amanhecendo, Acácia mandou uma mensagem para Melina agradecendo pela dança e pela noite. A partir daí, começaram a conversar e passaram todo o domingo trocando mensagens. Na segunda, Acácia não estava se sentindo bem, e Melina, que estava dando aula perto do trabalho dela, decidiu levar algo para ela comer. Para Acácia, foi uma surpresa total, ela não acreditou quando Melina disse que estava lá embaixo com comida esperando por ela. Ela nem esperava esse tipo de gesto vindo de alguém que conhecia há tão pouco tempo. Ficou tão inacreditada que quando desceu já foi com o celular gravando. Tinha dez minutos de intervalo entre um trabalho e outro e foi o bastante para conversarem rapidamente. Acham engraçado essa primeira interação, foi diferente e especial. Melina também não entendia direito como tinha tido coragem de ir até lá, não era algo que ela fazia, mas sabia que já gostava de Acácia de algum jeito. Mesmo sem planos de namorar ou de tomar iniciativas, algo ali já era diferente. Melina e Acácia seguiram se conhecendo nos dias que seguiram e tudo foi bastante rápido, mas com a leveza que queriam. Conversavam muito sobre trabalho, a rotina e a vida. Quando pensavam em se encontrar para comer algo, escolhiam o Rebuw, bar que já fazia parte da vida de ambas e que amavam. Acácia conta que o Rebuw virou um espaço de conforto: além da comida boa e da proximidade com o trabalho, passou a se sentir acolhida, antes mesmo de conhecer Melina. Lá criou laços com quem trabalha no bar, e a frequência dos eventos faz dar vontade de frequentar cada vez mais. Para ela, é fundamental que existam espaços como esse, voltados para mulheres, onde possam se sentir seguras… saírem dos ambientes tradicionais que muitas vezes são pensados para nos acolher. Mesmo com a conexão entre elas aumentando consideravelmente, Melina e Acácia ainda não haviam se beijado. Passavam o dia conversando e, às vezes as noites também, por chamadas de vídeo ou pessoalmente. Melina havia decidido que só se envolveria de novo se pudesse conhecer alguém de verdade antes, e assim foi. Conversaram sobre planos de vida, limites, sonhos, opiniões sobre assuntos polêmicos… e perceberam que não queriam parar de conversar. Tanto que foram duas semanas de convivência intensa: já conheciam até ambas famílias. Entenderam que estavam gostando uma da outra, mudaram até a notificação dos celulares para não perder suas notificações a cada mensagem. Depois desse tempo, o beijo aconteceu: Acácia dormiu na casa de Melina após um show e finalmente se beijaram. Foi um momento de cuidado, carregado de afeto, responsabilidade e principalmente a escuta, o que priorizam até hoje. Poucos dias depois do primeiro beijo, Acácia adoeceu e Melina ficou visivelmente apreensiva. Acácia estranhou a reação, mas não comentou muito. O que não sabia era que Melina já estava preparando um pedido de namoro todo elaborado: aconteceria no show que ela faria no final de semana seguinte, no Rebuw, claro! Queria que tudo estivesse perfeito (inclusive a saúde de Acácia). Mobilizou amigas, combinou com a equipe do Rebuw e montou um repertório romântico único. Quando chegou ao show, Acácia percebeu que havia algo diferente no ar, mas nem imaginava que era o pedido. Até que, em meio à apresentação, o momento chegou: o bar estava lotado, recebeu um buquê com as alianças e Melina anunciando o pedido. Ficou em choque, emocionada. A filmagem do pedido viralizou nas redes sociais e, por dias, elas viveram esse momento recebendo mensagens afetuosas. Sentiram que aquele gesto ultrapassou o próprio namoro porque inspirou outros casais e fez diversas mulheres se sentirem representadas. Como tudo aconteceu às vésperas do Natal, passaram a celebração juntas, em família. Brincam que a ceia foi quase um banquete em homenagem ao novo relacionamento. Mas foi, também, um momento simbólico: estar entre as famílias, de forma aberta, dizendo quem são e quem amam. Isso é o mais importante. Melina, por exemplo, levou quase dez anos para ser aceita e nunca tinha vivido uma celebração dessa forma. Esse início, marcado por cuidado, coragem… selou o que buscavam: estavam vivendo um amor para ser visto, não escondido. Queriam celebrar. E sentia que poderia confiar na relação. Melina e Acácia reconhecem que o início foi acelerado, mas foi o tempo certo. Tudo fluiu de forma intensa e natural. Depois disso, passaram a seguir os próximos passos com mais calma. Quando surgiu a possibilidade de morarem juntas, Acácia ainda tinha medo. Estava terminando de mobiliar um apartamento alugado e Melina propôs: “bora, bora juntas.” Ela disse não no início, o medo existia por conta de outros relacionamentos em que viveu dividindo um lar. Melina resolveu insistir, ao menos para conhecer o lugar. Quando chegou, sentaram no chão, com a sala ainda vazia e conversaram sobre o que significaria dividir a vida naquele espaço. O começo da relação foi como se vivessem antes do mundo acabar: faziam tudo a todo tempo. Era muito intenso, acelerado. Até que olharam uma para a outra e entenderam: estavam cansadas. Não dava para viver em ritmo de maratona todos os dias. Decidiram ir ao cinema para desacelerar, mas o cansaço era tanto que dormiram durante o filme. Resolveram ouvir o cansaço e pisar mais lento. A mudança para o apartamento veio no início de 2024. Fizeram um chá de casa nova e, depois, foram morar mais afastadas do centro da cidade. Hoje, brincam sobre como tudo mudou: já não vivem naquele ritmo, são mais caseiras e estão em paz com isso. Melina diz que essa é a relação mais saudável que já viveu. Admira a inteligência emocional de Acácia e juntas encontram um equilíbrio leve. Sente que é muito bonito e verdadeiro o quanto querem crescer - e crescem - nessa caminhada. ↓ rolar para baixo ↓ Melina Acácia
- Gerando Renda | Documentadas
Gerando renda é uma forma de conectar mulheres através do mercado de trabalho. gerando renda para o projeto Manter o projeto não é tarefa fácil! Fazer viagens, pegar metrôs, ônibus, barcas... disponibilizar tempo e conseguir manter as contas pagas é um grande desafio. E como queremos documentar o maior número de casais possíveis, disponibilizamos o nosso PIX e aceitamos qualquer valor como quantia de doação! Qualquer valor MESMO. Tem 2 reais e pode aplicar no projeto? é super válido! De quantias pequenas a quantias maiores, se cada uma e cada um de nós ajudar um pouquinho, conquistamos o Brasil todo! Colabore com a documentação histórica do amor entre mulheres! Para doar é muito fácil! - Entre no aplicativo do seu banco e clique em PIX > transferir PIX. - Escolha o tipo de chave: o nosso é e-mail :) - Digite o nosso e-mail, você pode copiar aqui: fernanda@documentadas.com - Digite o valor desejado da doação :D - Aparecerá o nome da idealizadora do projeto: Fernanda Piccolo Huggentobler. Então é só conferir e confirmar! Prontinho, a partir de agora você estará ajudando a documentar o amor entre mulheres no Brasil todo! Ah! Uma coisa importante. Quer saber como funciona os nossos gastos e ver como a sua doação está sendo utilizada? dá uma olhada nos nossos destaques do Instagram, lá tem um chamado: Prestação de Contas ♥ quer conferir a prestação de contas no Instagram? clica aqui! gerando renda para a comunidade LGBT Acreditamos que - além de que contar histórias de mulheres - podemos conecta-las. Falarmos sobre seus trabalhos, compartilharmos situações, momentos e, enfim, gerarmos renda. O mercado de trabalho segue difícil e podemos nos apoiar contratando trabalhos de mulheres da comunidade LGBT, certo? certo! Tá precisando de uma arquiteta? de uma chefe de cozinha para um evento do qual você tá promovendo? ou quem sabe quer fazer uma tatuagem nova e queria escolher uma tatuadora inspiradora? aqui temos! No nosso espaço de 'busca', clicando AQUI você consegue pesquisar pela palavra-chave (o serviço que você precisa), ver qual profissional está à disposição, ler sua história e entrar em contato com ela. O contato pode ser feito clicando no botão aqui na tela indicando a profissional que você leu, conheceu a história e deseja contratar/solicitar um orçamento. Nosso papel será te conectar diretamente com ela! Bora fortalecer a profissional que você admira! quer conhecer o serviço de alguma profissional? clica aqui!
- Documentadas - O Livro | Documentadas
Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! documentadas - o livro quer ver ele por aí? seja na livraria mais próxima de você, em um bate-papo na sua cidade ou na estante da sua casa: entre em contato com a editora ou adquira um exemplar no site da Funilaria! clica aqui! como ele surgiu? no livro sobre o documentadas há uma seleção de histórias que trazem um pouco da grandiosidade do amor. ele é a materialização desse projeto que está há anos percorrendo o brasil em busca de contar nossas histórias e reconhecer as mulheres sáficas brasileiras enquanto mulheres diversas - com infinitas histórias, realidades e recortes. nas histórias presentes no livro temos diversas cidades do brasil, classes, idades, mas o que une tudo é o fato das mulheres estarem dispostas e serem corajosas em nome do amor. este livro é o primeiro documento brasileiro que se dispõe a contar histórias reais em forma de fotolivro sobre casais formados apenas por duas mulheres. um motivo de celebração para toda a comunidade lgbt. monica benício "esse livro e esse projeto não são apenas peças importantes para nossa história e a nossa cultura. eles são, antes de tudo, ferramentas para a transformação do nosso mundo. um mundo para as mulheres." contando com um prefácio de monica benício, que tanto nos representa na política brasileira (mas não só - numa trajetória de militância que transpassa a política), na sua escrita traz recortes sobre a representatividade e a documentação finalmente nos contarem essa história que foi tão apagada. e dessa vez através do amor, de forma corajosa, com histórias de mulheres inspiradoras que nos impulsionam a desejar seguir nossos sonhos em frente. mariana mortani "uma afirmação da beleza e da profundidade desses relacionamentos que muitas vezes foram deixados de lado." prefácio & posfácio contando com o posfácio da mari mortani, que tem uma trajetória incrível na literatura LGBT+ como roteirista, tradutora e produtora de conteúdos sobre literatura sáfica, ela também fundou o clube sáfico e o podcast chá das quatro, que o doc tanto ama e admira. ter ela no livro é parte importantíssima, explicando o motivo da representatividade e da documentação caminharem juntos. encontre o livro aqui ficha técnica que fez o livro ser possível: todas as pessoas que acreditam na potência do doc, obrigada! autora do livro: fernanda piccolo huggentobler coordenação editorial: caio valiengo, marilia jahnel, renata dei vecchio revisão: caroline fernandes e daniel moreira safadi capa: angela mendes projeto gráfico: angela mendes diagramação: camila provenzi áudios: isadora volino o livro conta com + de 35 casais documentados
- Sue e Sil
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Sue estava com 64 no momento da documentação e nasceu em Salvador. Quando seus pais se separaram, mudou-se para Maceió com a mãe, que trabalhava na Petrobras. Em seguida, viveu no Rio de Janeiro sua maior infância até os 25 anos, formando-se com forte influência carioca. Em 1998, retornou à Maceió para atuar no Teatro Deodoro, onde conheceu Silvana. Hoje, compartilham a vida e o trabalho, dirigindo juntas uma produtora cultural. Silvana estava com 58 anos no momento da documentação, nasceu em Maruim, Sergipe, e chegou em Maceió no ano de 1982. Jornalista, radialista e produtora cultural, sempre esteve ligada ao meio artístico. Criou o primeiro caderno de cultura do principal jornal da cidade e, posteriormente, trabalhou no Teatro Deodoro. Como frequentadora assídua das artes cênicas, encontrou lá uma verdadeira realização profissional. A relação entre elas começou pela admiração no trabalho. Durante as trocas na rotina do Teatro Deodoro, Sue já nutria sentimentos por Silvana. Juntas, fizeram uma verdadeira revolução artística na cidade, reabrindo um teatro centenário que ficou 11 anos fechado e que nem era mais considerado. Sem a facilidade da internet, num mundo de comunicações por fax, enfrentaram desafios para recolocar o espaço no circuito cultural nacional. Entre projetos, parcerias e grandes aprendizados, construíram um vínculo que ultrapassou o trabalho, tornando-se um amor sólido, baseado no respeito, na arte e na construção de um legado cultural alagoano. Sue conta que a relação sempre esteve entrelaçada ao trabalho, especialmente no início, quando chegou de Salvador após uma outra relação turbulenta que havia acabado. Trouxe consigo uma bagagem cultural fresca da Bahia e do Rio de Janeiro, que se refletiu no que estavam construindo no Teatro Deodoro. Juntas, ela e Sil levantaram diversos espetáculos e recolocaram o teatro no mapa cultural do Brasil, elevando o profissionalismo artístico em Alagoas - tudo isso sob a liderança de duas mulheres lésbicas, importante ressaltar. Ambas sempre se entenderam como lésbicas e viveram essa identidade de forma natural dentro dos meios culturais que frequentavam. Nos anos 70, 80 e 90, Sue no Rio e Sil em Sergipe encontraram espaços onde a sexualidade não era um tabu. No entanto, conversam muito e sentem que hoje as coisas estão dentro de muitas “gavetas” Estas “gavetas” estão aí para realmente trazer liberdade, identidade, autonomia e auto afirmação do que cada um é, mas muitas vezes acabam dividindo mais, se tornando uma separação. “E eu não gosto de separação. Eu gosto de tudo misturado. Não gosto de ambientes que são só isso ou só aquilo. Gosto de gente.” Por conta do trabalho, Sue e Sil abriram mão de viver uma rotina mais romântica. Como passam a maior parte do tempo juntas, lidando com demandas intensas e muitas pessoas (ainda mais agora, com o escritório dentro de casa), aprenderam a valorizar os momentos de tranquilidade a sós. Para elas, esses instantes de calma são essenciais para manter o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Elas reconhecem o impacto do que fizeram: duas mulheres liderando espetáculos em Alagoas era algo inédito. Foi assim que se encontraram, criando projetos culturais transformadores, como o “Teatro é o Maior Barato”, que democratizou o acesso ao teatro com ingressos a R$ 1,99, e espetáculos que circulavam pelo estado. Além de movimentar a cena artística, construíram uma relação de pertencimento com o público, que passou a ver o teatro como um espaço acessível e vibrante. Sil sempre teve paixão pelo jornalismo e adorava sair pelo estado imaginando matérias, transformando a busca por pautas em uma brincadeira. Como o mercado era novo, havia muito a explorar: tudo era cultura. Até os anos 90, Alagoas sequer tinha uma coluna dedicada ao tema nos jornais, sendo reduzido a notas esporádicas indicando filmes ou menções na coluna social. Criar um espaço fixo para a cultura se tornou um vício, um compromisso de dar voz e visibilidade à produção artística local. A relação começou de forma intensa, marcada por um gesto simbólico: Sue morava em um lugar muito quente, sem estrutura porque havia recém se mudado, e Sil apareceu com um ar-condicionado de presente. “A gente já tinha começado a namorar, ela chegou lá em casa, um forno! No outro dia, chega com o ar-condicionado… e depois ela.” Foram se envolvendo e percebendo que compartilhavam o mesmo ritmo e gostos. Hoje, olham para trás e se surpreendem: “25 anos de relação! É muito tempo! Mas, ao mesmo tempo, a gente vai se descobrindo e redescobrindo.” Atualmente, moram ao lado da família de Sil, para estarem próximas da mãe idosa, em uma vila acolhedora e repleta de gatos. Recentemente passaram por uma grande reforma em casa, o que exigiu ainda mais energia e paciência. Refletem sobre as inúmeras crises que enfrentaram - principalmente financeiras, pela instabilidade do trabalho em um país que não valoriza a cultura - e reconhecem que nem todo casal suportaria esses desafios. Mas atravessar tudo isso juntas fortaleceu ainda mais o amor. Entre noites que se olham antes de dormir e percebem o cansaço e momentos de conexão, sabem exatamente como lidar uma com a outra, guiadas por maturidade e intimidade construídas ao longo desses 25 anos. Sue sente que Sil trouxe um chão para sua vida, mesmo quando ela mesma diz se sentir insegura. “A Sil trouxe para mim, apesar dela dizer que não lida, que enlouquece, que fica insegura, mas ela trouxe para mim, para a minha vida, uma segurança em um lastro, um chão, que é tão importante. Eu nem sei se estaria nesse plano ainda. Porque eu era muito desligada, muito apaixonada por tudo, entrava de cabeça em tudo, de tudo, de trabalho. E a Sil, sem impor nada. Ela veio, foi amor mesmo, com o amor dela. E ela me acolheu de uma forma que eu cresci. Me tornei uma pessoa muito melhor. Para mim mesma.” ↓ rolar para baixo ↓ Sil Sue
- Oi, eu sou o doc! | Documentadas
Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! chega pra cá, vai ser um prazer te conhecer! O Documentadas é um banco de documentação sobre mulheres que amam outras mulheres, com o intuito de registrar historicamente o amor entre lésbicas, bissexuais e pansexuais (cis e/ou transsexuais), construindo uma literatura que até então era inexistente sobre essa população. Completando quatro anos em março de 2025, o projeto já documentou mais de 460 mulheres em 15 estados brasileiros. Para além de contar as histórias de casais brasileiros, o .doc acredita em 4 vias para atingir mudanças reais na nossa sociedade brasileira: gerar empregabilidade, divulgando as profissões e trabalhados exercidos pelas mulheres que participam do projeto; Gerar conexão com encontros presenciais e online; Espalhar artes pelas ruas falando sobre o amor entre mulheres combatendo o preconceito em espaços públicos; Gerar atendimento psicológico através da plataforma, contando com 25 profissionais oferecendo serviços de apoio psicológico e psicanalítico online por valores populares (atualmente, mais de 200 mulheres já passaram pelos nossos atendimentos). > para além da documentação > Acreditamos que a igualdade de gênero pode ser alcançada por meio do combate ao machismo e através da equidade de oportunidades de fala/escuta. Além disso, entendemos que criar um banco de dados de fácil acesso, para a divulgação de ofícios exercidos por mulheres que amam outras mulheres possibilita, assim, oportunidades de contratação dos serviços prestados pelas mesmas, uma vez que os ambientes de trabalho tendem a ser espaços de conflito e preconceito quando não oferecem diálogos e reeducação social. Visibilizar as histórias de mulheres de diferentes corpos, raças e classes sociais exerce um papel fundamental para o reconhecimento dessas populações vivas. o .doc já passou por 15 estados brasileiros, contando histórias de mais de 460 mulheres. QUER COLABORAR COM O DOC PARA QUE ELE TENHA MAIS LAMBES POR AÍ OU NOS CHAMAR PARA UMA EXPOSIÇÃO EM ALGUM LOCAL? ENTRA EM CONTATO PELO SITE OU NO E-MAIL: FERNANDA@DOCUMENTADAS.COM o .doc para além do .doc Entendemos também que a representatividade é algo extremamente importante para construção da subjetividade, tendo como intuito divulgar histórias que inspirem e motivem outras mulheres a se reconhecerem e valorizarem suas próprias histórias e histórias de amor, quando a coerção social, imposta pela heteronormatividade, diz o contrário. ainda podemos ser podcast cursos ou palestras exposições produtos curtas referência em saúde mental LGBT+ cartilhas inclusivas e muito mais! empregabilidade, psicologia, conexão, arte urbana viu a gente pela cidade? Estar na rua nos abriu a possibilidade de troca com públicos antes inalcançáveis. Passamos entre universidades, boêmias e comunidades. Se as mulheres amam outras mulheres em múltiplos espaços, acreditamos que nossa arte também deva ocupar múltiplos espaços. Foi através das técnicas arte urbana como lambe-lambe e stickers que começamos a espalhar uma frase famosa por aqui: “Toda mulher merece amar outra mulher”, além de uma tiragem de 1500 fotografias de casais que já participaram do projeto, com intervenções gráficas escritas por cima e o @documentadas, identificando nosso Instagram/site. quer contratar o documentadas para uma palestra na sua empresa, propor parcerias, fazer alguma reportagem ou conhecer mais sobre o nosso trabalho? entre em contato aqui pelo site ou mande um e-mail para fernanda@documentadas.com
- Beatriz e Kika | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Beatriz estava com 25 anos no momento da documentação. Nasceu em Moita Bonita, povoado de Sergipe, mas cresceu em Aracaju, onde vive atualmente. Advogada criminal, ela atua no tribunal do júri, lidando com casos de homicídio - uma área desafiadora, especialmente para mulheres, que enfrentam o machismo diariamente na profissão. Reitera que sempre ao encontrar outras mulheres no júri, sente um misto de alívio e alegria, um sinal de que os espaços estão sendo conquistados. Também integra a Comissão de Diversidade da OAB em Aracaju, e desde que se entendeu enquanto mulher lésbica viu sua profissão unida à jornada pessoal de enfrentar a homofobia. Jornada essa que partiu de dentro de casa, desde os primeiros relacionamentos, lidando com invalidações da sua identidade e terapias de cura. Hoje em dia, no seu relacionamento com a Kika, pela primeira vez sua mãe aceitou conhecer a namorada, chamá-la pela forma correta e interagir como a família que são, conta, sorrindo, como têm sido legal viver essa experiência. Jirlana, ou Kika, como é chamada pelos amigos, estava com 30 anos no momento da documentação e é natural de Poço Redondo, cidade interiorana de Sergipe. Quando nos encontramos, estava em processo de mudança para Aracaju. Depois de cursar zootecnia e trancar a faculdade, ela planeja começar enfermagem na capital. Criada em um ambiente conservador, enfrentou um questionamento único quando se abriu sobre a sexualidade: “Existe tratamento pra isso?” e com calma e firmeza explicou que amar mulheres não é algo a ser "tratado", pois não é doença. A decisão de mudar envolve tanto a vontade de estar mais próxima de Beatriz quanto o desejo de liberdade que uma cidade maior oferece. São apaixonadas por cafeterias, principalmente para provar chocolates quentes. Conhecem várias em Aracaju, como o lugar onde fizemos as fotos, e quando viajam fazem questão de passear nelas pelos locais onde passam. Também costumam anotar as melhores, dando notas, para um dia voltar. Beatriz sente que seu relacionamento com Kika a faz viver plenamente, explorando juntas todas as possibilidades. Ela compartilha que, no dia anterior da documentação, foram juntas a um evento do trabalho, algo que antes parecia impensável. Em outros momentos da vida, Beatriz se sentiria mais retraída ao ir sozinha, mas Kika é sua parceira em tudo, alguém que a impulsiona na carreira, é amiga de seus amigos e ambas conquistam com o jeito extrovertido. Adoram sair, se divertir e fazer amizades. "A gente gosta de se amostrar", brinca Beatriz, destacando que se esforçam para tratar os outros com simpatia, como gostariam de ser tratadas. Sempre juntas, não perdem a oportunidade de aproveitar qualquer passeio ou evento, dispostas. Beatriz relembra como, antes de Kika, não conseguia se imaginar em um futuro ao lado de alguém. Agora, tudo mudou. Elas se sentem livres para sonhar com uma vida compartilhada: construir uma família, ter filhos e morar juntas. Beatriz se descreve hoje como "grudenta" e ri ao contar que vive perguntando: "Vamos casar quando? Está demorando muito! Já pegou sua certidão de nascimento pra gente casar?" Kika conheceu Beatriz por acaso e o início da conexão foi marcado por coincidências e resistências. Após uma festa perto de sua cidade, Kika conheceu novos amigos e viveu uma noite suuuuuper intensa, mas estava sem celular e no dia seguinte resolveu procurá-los no Instagram para compartilhar as histórias engraçadas que viveram. Beatriz era a melhor amiga de uma dessas pessoas que Kika tinha conhecido, então aparecia frequentemente como sugestão de amizade para Kika, que sempre recusava. Até que um dia cedeu e a seguiu, achando que Beatriz, com tantos seguidores, não retribuiria. Para sua surpresa, Beatriz seguiu de volta, viu alguns stories, puxou papo e a conversa começou. No dia da conversa inicial, Kika estava curtindo uma “farra” na cidade - festa que acontece com paredões de som, só que em terrenos mais afastados da cidade, para que ninguém reclame do barulho - mas decidiu voltar para casa mais cedo e postou um storie assistindo um filme, tomando sopa. Bia respondeu, puxando um assunto. Conversaram um pouco, porém, com a proximidade das festividades de São João, viviam entre trinta dias ininterruptos de festas de forró, então não mantiveram um clima de conversas frequente, era tudo muito esporádico, quando sobrava um tempo entre um show e outro, uma festa e outra. Até que, numa madrugada, enquanto Kika voltava de uma festa em um povoado próximo, Beatriz, sem conseguir dormir, mandou mensagem. Conversaram até o amanhecer, e desde então, nunca mais pararam. Naquela época, Beatriz estava prestes a se mudar para Santa Catarina, mas o sentimento entre as duas cresceu tão rapidamente que desistiu da mudança. Elas brincam que começaram a namorar antes mesmo de se conhecerem pessoalmente, tornando o início da história tão inesperado quanto único. Após semanas de conversas intensas, Kika decidiu ir até Aracaju encontrar Beatriz pessoalmente e dar início ao que já parecia ser um namoro. Ambas sentiam o amor florescendo, mas precisavam daquele encontro para confirmar que não era apenas um delírio das redes sociais. Nervosas, se encontraram pela primeira vez e, no mesmo instante, souberam que aquilo seria real e duradouro. Passaram o fim de semana juntas, mas Kika precisou voltar para casa - mesmo querendo ficar. Na segunda-feira, já de volta, Kika enviou flores para Bia com um pedido de namoro, explicando que queria mesmo era ter feito isso pessoalmente. Desde então, vivem esse amor, mesmo com algumas horas de distância entre suas cidades. Viajam frequentemente para se encontrar e agora, com a mudança de Kika para Aracaju encaminhada, a rotina promete ficar ainda mais leve. No momento da documentação estavam bem empolgadas pensando em como tudo tende a ser mais tranquilo morando próximas, construindo juntas uma nova vida na capital. Amam organizar os looks combinando, até as capinhas dos celulares são pensadas com cuidado. Gostam de se ver como uma meta de casal - recentemente, marcaram presença na parada LGBT de Aracaju e reafirmam que vivem a relação que sempre sonharam: um casal clichê, apaixonado e, como brincam, inimigo do fim. ↓ rolar para baixo ↓ Beatriz Kika
- ilscrgo
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- Maju e Alícia | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. A história da Maju e da Alícia fala muito sobre aquele período que vivemos quando estamos descobrindo quem somos, ainda entre a pré-adolescência e a adolescência, elas se conheceram e vivem até hoje juntas, enfrentando muitos desafios (que outros adolescentes nem sonham em viver) e, principalmente, se fortalecendo juntas. Maju hoje em dia tem 17 anos e está se formando no terceiro ano do Ensino Médio, Alícia tem 16 e está no primeiro ano. Mas tudo começou bem antes, quando Alícia tinha cerca de 12 anos de idade e estava numa praça em Rio das Ostras, matando o tempo, com uma amiga. Nessa praça, diversos meninos andavam de skate, entre eles tinha uma menina, a Maju. No primeiro momento, Alícia não entendeu se a Maju era menino ou menina, perguntou para a amiga (que a conhecia, mas que também não sabia dizer o que ‘era’ a Maju) e isso automaticamente despertou uma curiosidade enorme na Alícia, que fazia de tudo para observá-la. Quando a Maju entendeu que estava sendo observada, quis chamar atenção. Caiu logo de bunda no chão. Mas levantou, se reergueu e foi lá falar com as meninas. Se apresentou para a Alícia e disse: vem cá, deixa eu te mostrar uma pessoa muito linda aqui de Rio das Ostras - e então entrou no Instagram dela mesma, curtiu todas as suas fotos (pelo perfil da Alícia) e depois saiu, andando de skate de novo. Nesse dia, a Maju levou uma bronca da mãe dela por ter faltado à fisioterapia, mas a resposta em desculpa que ela deu, foi: eu conheci a menina mais bonita da cidade. A Maju é natural de Goiás, mas está no Rio de Janeiro - mais especificamente em Rio das Ostras - há mais de 9 anos. Já a Alícia, é do Rio de Janeiro, capital, mora em Rio das Ostras mas intercala com alguns períodos no Rio, visitando familiares. Depois que elas tiveram o primeiro encontro na praça, a Alícia passou seis meses morando no Rio de Janeiro. Nesse período ficou olhando o Instagram da Maju, mas não interagiram nenhuma vez. Quando ela voltou para Rio das Ostras, começou a namorar um menino (esse que, a pediu em namoro na frente da escola toda, fazendo um vídeo que viralizou o Brasil - um namoro super arranjado com o auxílio da mãe) e duas semanas depois ela e a Maju se encontraram no aniversário de uma amiga em comum. Nesse primeiro encontro, a Maju tentou ficar com ela, mas não tinha como, ainda mais ela estando num namoro tão recente… então ela desviou de todas as formas. Depois disso, começou-se uma amizade, então elas saíram muitas vezes. A Maju dava em cima dela sempre, isso era um fato, mas era quase uma brincadeira também porque elas sabiam que enquanto estivesse namorando não ia rolar. O namorado da Alícia, enquanto isso, morria de ciúmes. E em casa, a Alícia não parava de falar na Maju, deixando a mãe dela muito desconfiada, dizendo: “Tu não vai se apaixonar por ela não, hein, Alícia??!!”. O tempo passou e o relacionamento da Alícia foi ficando muito difícil. Ela estava se sentindo numa relação completamente invasiva, tóxica, e todas as vezes que tentava terminar o namorado não a deixava. Ele simplesmente dizia que não permitia. Numa noite, foram num aniversário e ela já tinha tentado terminar três vezes, a situação estava péssima, um amigo dele passou mal e ele foi embora. Alícia ficou no aniversário, a Maju estava também e num momento determinado da noite elas decidiram dar um basta, chutar o balde: se beijaram. Porém, como era escondido, numa confusão a Maju fingiu que passava mal, a Alícia fingiu que ajudava, elas desligaram a luz da festa toda sem querer e aí virou confusão de verdade. Depois delas se beijarem, a Alícia viu a Maju dando em cima de outra menina e então ficou muito triste. No fim da festa, já com o dia amanhecendo, o namorado (ou quase ex?) fez questão de buscar a Alícia e ela não quis ir embora com ele, então ele gritou e brigou com ela. Quem deu suporte, novamente, foi a Maju. Depois dessa situação eles terminaram, afinal, não tinha como manter esse relacionamento. A Alícia passou um tempo breve no Rio de Janeiro e quando voltou para Rio das Ostras voltou a se encontrar com a Maju. Nesses encontros, ela entendeu que gostava de verdade da Maju, e isso, naquela época, era mais um problema do que algo bom. Ambas não sabiam como lidar com a situação, sabiam que a Maju não buscava relacionamentos, mas também já estavam muito envolvidas. Sentiam que precisavam encarar a situação. Decidiram seguir se encontrando, mesmo sem ninguém saber. Com o tempo, os amigos que sabiam, não torciam para que elas ficassem juntas: não confiavam que elas seriam fiéis uma a outra, ou melhor, incentivaram que não fossem - e assim não haveria relação saudável que se sustentasse. No período em que poucos apostavam no relacionamento delas, um pedido de namoro chegou a acontecer. Namoraram, mas entre situações caóticas, sentiam que não se acertavam. A mãe da Alícia descobriu, fez um escândalo na porta da escola, a agrediu. Tudo ficava muito difícil para que elas se encontrassem e nisso, a pandemia de Covid-19 começou. Elas chegaram a ficar um tempo distantes por conta da quarentena, mas não tanto tempo, como nas grandes cidades, pois lá os encontros foram voltando a acontecer aos poucos. A Alícia, junto com a família dela, abriu uma hamburgueria, e esse local virou um ponto de encontro... porém, todas as intrigas externas foram o bastante para que o namoro não seguisse em frente. Elas terminaram, ainda, em 2020. Foram cerca de 9 meses distantes. Nesses meses, por completa influência familiar, Alícia se relacionou com um menino extremamente abusivo, agressivo, que forçava presença. Ela chegou a pesar menos de 40kg. Ele, sabendo que no fundo ela ainda gostava da Maju, ameaçava bater na Maju quando a encontrava na rua. Alícia fez de tudo para sair desse relacionamento e quando conseguiu, conversou com a Maju. Elas se acertaram, mas não enquanto um casal, apenas voltaram a conversar. Nisso, a Maju encontrou a mãe da Alícia, tomou coragem e decidiu pedir permissão: para num futuro, se tudo desse certo, elas voltarem a se relacionar. Ela respondeu que se a Alícia estivesse feliz, ela estaria feliz também - porque ela percebia que o jeito que a Alícia olha para a Maju é diferente - e no fim elas se abraçaram. Elas voltaram a se envolver e a Maju pensou em a pedir em namoro novamente e dessa vez com tudo o que o brega permite: balões, chocolates, etc. Aconteceu! Porém, infelizmente, ainda passaram por muitas situações horríveis envolvendo o ex. Ele invadia a casa da Alícia, quebrava as coisas e obrigava ela a manter a relação com ele. Foi numa atitude extrema da mãe dela em expulsar ele de lá para que finalmente isso acabar. Porém, esses conflitos já tinham afetado demais a relação da Alícia com a Maju, era difícil que as confusões não as envolvessem. A Alícia seguia pensando na Maju e no relacionamento delas, enquanto a Maju, mais uma vez, se afastara. No natal, elas voltaram a se falar, por conta de uma coincidência. E assim, voltaram de verdade. Conversaram, se encontraram, conversaram também com suas famílias, decidiram que, se era para estarem juntas, dessa vez, era para ser de um jeito diferente - e com apoio de todos, com maior confiança, diferente de todas as outras tentativas. Hoje, acreditam que deu certo. No último ano passaram diversos perrengues que as fizeram crescer e se fortalecer enquanto um casal, juntas, e também enquanto uma família. Alícia e Maju deram apoio às suas mães, chegando a morar com a mãe da Alícia, todas num apartamento, num momento difícil. Alícia também morou com a mãe da Maju. E todas se dão muito bem, valorizam o relacionamento das filhas. Nesse último ano de estudo, finalmente estão na mesma escola. Os planos são, assim que concluírem, se mudarem para o Rio e estudarem Belas Artes. Hoje entendem que a confiança e a comunicação mudou muito e que isso é o principal para que o relacionamento delas funcione. Antes, tudo se quebrava, principalmente com 'picuinhas' ou comentários alheios, hoje, não há nada entre elas que não possa ser conversado. A intimidade que elas criaram juntas não há como ser quebrada e também faz com que elas não se julguem. Acreditam que, pelo tanto que já passaram uma ao lado da outra, o que viram entre seus momentos mais frágeis faz com que também possuam muita liberdade para serem quem são, sem medo. Antes, pensavam muito sobre serem perfeitas, buscavam perfeição, hoje aceitam seus corpos e a si como são. Isso também faz com que a confiança na relação mude, a segurança, a base no amor. Quando entendemos a recapitulação de tantas coisas que viveram sendo tão novas, estando juntas, elas entendem que esse amor é o que importa. A forma que se amam e que se apoiam é o mais importante nesse processo. E se surpreendem, o quanto isso é maneiro. Visualizar a linha do tempo e entenderem que seguem aqui - recapitulam o quanto pensaram em desistir porque era muito difícil se relacionar, mas que hoje é muito legal ver o quão bonito é o que criaram. E, então, sonham com novos passos: a mudança, um casamento, uma adoção. ↓ rolar para baixo ↓ ♥ manda uma mensagem de apoio aqui ☼ entre em contato com elas por aqui! ☺ vem construir esse projeto com a gente! < Alícia Maria Júlia
- Roberta e Laura | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Laura estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Sapiranga, uma cidade interiorana do Rio Grande do Sul, mas mora em Porto Alegre há cerca de 8 anos. Chegou na cidade para estudar dança e hoje em dia trabalha com dança dando aula em alguns projetos para pessoas com deficiências intelectuais e para crianças. Paralelamente, também é professora de inglês, trabalha em uma instituição que promove imersões na língua inglesa. Nessas imersões, ela mistura a dança, outros professores entram com esporte, culinária e a ideia é fazer o inglês ser praticado em um ambiente de “vida real”. Fora do meio profissional, Laura entende que é uma pessoa bastante ligada à família. Foi sua família quem a colocou na dança, alguns familiares são músicos e sempre agradece o ambiente cultural que cresceu e que vive até hoje, percebe o quanto isso fez com que ela se tornasse alguém que adora estar entre as pessoas, gosta de se aventurar e de conhecer o mundo. Roberta estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Canoas, região metropolitana de Porto Alegre. Durante a adolescência se mudou para a capital para estudar na faculdade e começou a trabalhar como educadora social num clube para pessoas com deficiência. Esse trabalho durou seis anos (e é um dos lugares que a Laura trabalha hoje em dia). Conta que foi trabalhando lá onde mudou sua forma de pensar sobre a vida, ainda mais no mundo que vivemos hoje em dia com redes sociais onde tudo tem filtro e é tão perfeito - pensado o tempo todo, medido e tendo que estar sempre lindo. Lidar com pessoas com deficiência é entender a sinceridade e a realidade da vida: elas falam o que querem falar, de uma forma simples e muito mais fácil, então aos poucos Roberta sentiu que era melhor ser assim do que viver nesse “filtro” que não era real. Falar o que sentia, ir onde quer ir, não ir onde não quer, ser mais real consigo mesmo. No meio desses aprendizados, criou um curso chamado “Ação Caminhos Para a Diversidade” sobre anti capacitismo, abordando temas como sexualidade da pessoa com deficiência, oportunidades de trabalho e privação da maternidade. Todo esse processo de estudo fez Roberta entender muito sobre si, sobre quem ela é e estudar sobre seus comportamentos sociais. Hoje em dia, observa que existe outra Roberta, principalmente depois da pandemia de Covid-19. Uma Roberta muito mais caseira, que adora arrumar a casa, fazer decorações, pintar e criar coisas manuais. Quando Laura chegou na faculdade, em 2017, entrou para um projeto de extensão chamado Diversos Corpos Dançantes, uma proposta de dança com habilidades mistas envolvendo pessoas com e sem deficiência. Laura era bolsista e foi a primeira vez que trabalhou com práticas de danças acessíveis, lá conheceu uma amiga e passaram a estudar bastante sobre acessibilidade juntas. Em 2019, Laura fez uma mobilidade acadêmica e foi estudar em Salvador, nos meses que ficou fora sua amiga começou a trabalhar num lugar novo - e conheceu Roberta. Na versão de Roberta, quando ela conheceu a amiga de Laura, só ouvia falar sobre Laura: “Tu me lembra muito a Laura”, “Nossa você e a Laura iriam se dar muito bem!”... Era tanto que passava um pouco dos limites. Quando Laura voltou de Salvador, soube da existência da Roberta e, durante uma Mostra de Dança Inclusiva, em novembro, elas se conheceram. Roberta ia se apresentar com os alunos, estava com uma roupa azul, toda pintada, brinca que parecia um grande pavão. Quando viu Laura entendeu o motivo de todos aqueles elogios que ouviu por meses. Mas, naquela época, Roberta vivia um relacionamento, estava noiva e só entendeu o nervosismo porque achou Laura admirável, mas não aconteceu nada além. Naquele contexto começaram a se seguir nas redes, mas não interagiram. Nos meses seguintes a pandemia de Covid-19 chegou, Laura voltou para a casa dos pais no interior, Roberta terminou o relacionamento e suas vidas passaram por grandes mudanças. Um tempo depois, no meio da pandemia, Roberta estava respondendo uma brincadeira no Instagram e postou sobre estar solteira. Laura respondeu a brincadeira, iniciando um flerte… Roberta jamais esperava essa resposta e ficou bastante nervosa, ignorou ela por alguns meses, não se sentia preparada para flertar, enfrentava momentos delicados na pandemia e quando se sentiu pronta começou a interagir melhor. Durante uma parte da pandemia, Laura trabalhou com algumas ações de dança na internação psiquiátrica do hospital, então acabava tendo um grande contato com a área da saúde e precisava fazer testes a cada 3 dias. Isso influenciou na demora para se encontrarem, até que marcaram um almoço num feriado. Depois do almoço, Laura queria logo comer as outras coisas que seriam para comer mais tarde (pão, bolo…) e pediu se Roberta se importaria. Ela achou positivamente engraçado, mas disse que não, que adoraria, e na hora que Laura se levantou do sofá disse que gostaria de fazer algo antes de buscar o bolo, assim beijou Roberta pela primeira vez. Hoje em dia, virou um bordão: quando levantam do sofá, soltam o “mas antes, quero fazer uma coisa” e se beijam. O começo do namoro foi bem rápido e aconteceu depois de alguns encontros e conversas onde alinharam o que sentiam sobre o que estavam tendo e o que pensavam sobre as relações humanas e amorosas. Num dia, Roberta saiu da casa da Laura e deixou ela no apartamento ‘trancada’ pois só tinham uma chave, precisou comprar uns remédios, entregar um objeto e no caminho encontrou um amigo que chamou para sentar num bar e atualizar as novidades. Ela contou: “Conheci a mulher da minha vida, tô apaixonada!”. Demorou mais que o previsto para voltar, quando chegou encontrou Laura fazendo yoga na sala com um olhar sério, chamando-a para conversar. Pensou: “Meu Deus, ela vai terminar tudo, acabei de falar que tô apaixonada e que é a mulher da minha vida e agora vou voltar lá no bar e dizer: acabou!”. Laura disse que não queria mais ser uma “futura namorada” para Roberta, que cansou desse termo, e que estava disposta a namorar agora. Roberta lembra da sensação de pavor que sentiu, falou “Nossa, guria, que cagaço tu me deu!”. Começaram o namoro e meses depois foram morar juntas por questões financeiras, num apartamento que viveram durante pouco mais de um ano. Sentem que tudo fluiu muito bem, mesmo sendo no começo da relação, morarem juntas foi a escolha mais racional. A única coisa que se arrependeram foi o fato de Laura ter virado a síndica do prédio, isso causava mais stress que qualquer outra coisa, e não compensou o desconto nas contas. Mas hoje, é uma parte até cômica da história, virou “história boa pra contar - a síndica sapatão do prédio”. Roberta e Laura contam como o período das enchentes em Porto Alegre foi impactante e marcante para elas, como é importante documentar esse momento vivido, além da importância histórica e política, mas também pela forma que se cuidaram e seguem apoiando até hoje por contas das marcas e atravessamentos que causou. Já estavam morando no apartamento que residem atualmente - e consideram isso fato importante porque no local que moravam meses antes da enchente certamente teriam perdido muitos itens pessoais e móveis, por ser no térreo e numa região que foi bastante atingida. Porém, mesmo nesse novo lar em andares superiores, ainda estavam sem água e luz, com a rua alagada. Foram para a casa de amigas em um bairro vizinho. Três dias depois, o bairro também foi afetado e as águas subiram rapidamente. Ficaram sem saber para onde ir, até conseguirem um apartamento vazio e irem juntas para lá. Foram dias dormindo no chão, comendo coisas prontas porque não havia como cozinhar, ficando sem tomar banho… Chegaram no limite, até Laura pedir para a mãe dela vir de Sapiranga buscá-las. Era um caminho delicado porque as estradas estavam difíceis, ela tinha bastante medo. Um caminho que leva até menos de 1h em dias comuns, levou 6h naquele dia. Quando chegaram na casa da família de Laura e tomaram um banho, comeram arroz, se olharam entre todas as mulheres e refletiram tudo aquilo que estavam vivendo, viram o significado de união e de família. Entendem que a experiência das enchentes foi muito sensorial: ouviam os helicópteros, as ambulâncias, sentiam a falta d’água, a falta das coisas nos mercados… Todas as dores de ver quem amam perdendo suas coisas, o medo, a insegurança. Foram momentos muito difíceis. Era muito importante reconhecer estar vivendo esse momento com mais duas mulheres, se ver enquanto amigas se apoiando, LGBTs, nossas famílias. Foram duas semanas vivendo em Sapiranga até voltarem para Porto Alegre e participarem da reconstrução da cidade - e entendem que tudo o que acontece até hoje é parte dessa reconstrução. Até hoje pagam as contas de luz daquela época (porque passaram meses sem conseguirem medir), Laura passou a trabalhar muito mais depois do acontecimento, entendem que existem várias consequências que silenciosamente estão presentes no cotidiano e na saúde mental, por isso o acolhimento e o lar enquanto lugar seguro são prioridades dentro da relação. Laura sente o amor presente na rotina, na construção da relação. Quando lembraram sobre a vivência das enchentes em Porto Alegre, reforçaram quanto apoio existiu. Brincam que tinha um dia para cada uma ficar mal “Hoje estou mais triste, então você me apoia, amanhã você fica mais triste que aí já vou estar fortalecida e te apoio…”. Era a forma que encontravam de segurarem a barra no momento extremo, mas entendiam que era uma forma de proteção também. Agora, após alguns anos juntas, visualizam que passaram pelas suas finalizações na universidade, pela pandemia, pelas enchentes, por duas casas, montaram um novo lar juntas… Então, foram encontrando o balanço, a rede de apoio, formaram a família que gostariam de ter. Laura comenta que quando começaram a namorar, fazia apenas dois meses que seu pai faleceu por conta da Covid-19, e Roberta acompanhou seu luto recente. Eram dois sentimentos conflitantes: a dor grande por perder um amor e uma paixão chegando com um novo amor. Foi um processo novo para Laura e, ao mesmo tempo, um processo que Roberta acompanhou de perto a família de Laura vivendo, visto que são muito unidos. O amor também esteve nesse lugar de acolher desde o início. Roberta conta que aprendeu uma nova forma de amar, com uma nova comunicação, com maior liberdade e saindo de lugares traumáticos. Aprendeu a sair de lugares em que precisava fazer tudo sozinha, aprendeu que pode confiar, aprendeu a dividir algumas tarefas que parecem tão básicas mas que sobrecarregam… Nas palavras dela: descobriu que o amor é possível. E, junto da relação, ganhou a nova família - a família da Laura e a família que deseja construir com a Laura, agora que estão com os planos de entrar na fila de adoção em breve. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Roberta
- Amanda e Julia | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Amanda e Júlia se conheceram no ensino médio. Estudavam no mesmo colégio que os pais da Amanda se conheceram, mas em turmas diferentes. Júlia conta que desde a primeira vez que se viram sentiu que seria algo especial, como se já soubessem que ficariam juntas. Amanda, na época, ainda não havia se relacionado com mulheres. Júlia já tinha se relacionado brevemente com uma amiga de Amanda, mas não tinham os grupos de amigos como ligação em comum, era apenas este fato que as unia. O primeiro contato mais marcante aconteceu na orla de Imperatriz, justamente no local onde anos depois fizemos essa documentação acontecer. Júlia estava com um problema: um ‘chupão’ no pescoço - e morria de medo que a família descobrisse. Amanda se ofereceu para ajudar, deu dicas de como disfarçar e depois seguiram juntas para pegar o ônibus. A partir desse dia, começaram a conversar mais online, se aproximaram no colégio e, pouco a pouco, também juntaram os grupos de amigos. Ainda que, no começo, muitos (para não dizer todos) acreditavam que o relacionamento que ali se formava seria só algo passageiro. Quando a mãe de Amanda descobriu, a situação ficou tensa. Foi então que Júlia tomou a iniciativa: decidiu ir até a casa de Amanda para conversar com a família e oficializar o pedido de namoro. A questão é que, sem que Amanda soubesse, no dia seguinte cedinho já estava lá, falando com os pais. Amanda levou um susto quando acordou e ouviu a voz de Júlia dentro da própria casa, já pedindo a mão dela em namoro. No início, os pais de Amanda até aceitaram a relação das duas, mas não acreditavam que o relacionamento fosse durar. Deixavam elas namorarem apenas na porta de casa, sentadas, sob supervisão. Hoje em dia elas riem lembrando, mas a verdade é que ninguém sabia direito como lidar com o início da relação. Quando os pais perceberam que o namoro duraria meses, afinal, seguia firme semana após semana, começaram a proibir as saídas juntas ou parar de aceitar os namoros na porta de casa. Isso justifica o quanto acreditavam que era apenas uma fase, uma brincadeira jovem… e que não iriam lidar com uma relação de verdade entre duas mulheres; Mas, mesmo depois das proibições, Amanda e Júlia continuaram se encontrando na escola e aproveitavam para escapar das aulas e passar tempo na orla da beira do rio Tocantins. Com as restrições aumentando, precisaram encontrar novas maneiras de continuarem se encontrando além da escola. Muitas vezes, enquanto os pais de Amanda saíam nos finais de semana, Júlia ia para a casa dela e, quando eles chegavam, corria para se esconder embaixo da cama. Foram várias noites em que os pés dos pais de Amanda chegaram a passar bem perto dela embaixo da cama, sem desconfiarem de nada. Hoje em dia, essa história é contada com humor - inclusive pela mãe da Amanda já sabe que isso tudo acontecia e se nega a acreditar. Com o fim do ensino médio e o início da independência financeira, Amanda e Júlia decidiram morar juntas. Essa mudança trouxe mais autonomia e diminuiu as interferências da família no relacionamento. Ao longo dos anos, passaram por algumas mudanças de casa, entre imprevistos e ajustes da vida, mas hoje vivem um momento de maior estabilidade: conseguiram juntar dinheiro e dar entrada na primeira casa própria, só delas. Ainda parecem não acreditar que o sonho está se concretizando, lembrando que começaram com quase nada, uma cama e poucos móveis, e agora conseguem enxergar, na prática, tudo o que construíram lado a lado. Reconhecem que o início não foi fácil. Como eram bastante jovens, as brigas por ciúmes eram constantes, era muita “intensidade adolescente”. Hoje, com mais maturidade, conseguem rir de muitas discussões que pareciam grandes, mas eram apenas inseguranças. Entendem que o vínculo delas é mais forte do que qualquer conflito e que existe uma “fissura” que sempre as faz escolher uma à outra. Com o tempo, aprenderam a transformar a relação em parceria: compartilham jogos em casa, passeios, almoços simples e a rotina com cuidado. Este cuidado se tornou parte essencial, uma base. Quando uma acorda mais cedo compra pães e lanche para a outra levar ao trabalho, dividem cafés da manhã, tarefas em casa, acolhem os medos, sonham alcançar novos lugares (seja no trabalho, na faculdade ou na vida pessoal)... Quando uma enfrenta dificuldades no trabalho, a outra é quem primeiro ouve, aconselha e acalma. Para elas, esse equilíbrio é o que faz com que a história dure dos tempos de escola até a conquista da casa própria. Amanda estava com 24 anos no momento da documentação, nasceu e cresceu em Imperatriz, no interior do Maranhão. Atualmente cursa Engenharia Civil e estagia na área. Aos 18 anos, decidiu sair da casa dos pais, em meio ao desejo de viver a relação dela com a Júlia de forma livre e independente. Gosta de programas simples do dia a dia, como assistir televisão e jogar jogos de tabuleiro. Júlia estava com 25 anos no momento da documentação, nasceu em Belém do Pará, mas ainda criança se mudou para Imperatriz, onde construiu a maior parte de sua vida. Trabalha como assessora de crédito em um banco e conta que começou a trabalhar muito jovem, próximo dos 14 anos, então já passou por diversos trabalhos diferentes. Parte da família ainda vive em Belém e em cidades do interior do Pará, enquanto outra parte está em Imperatriz, fortalecendo os vínculos na cidade. Ambas compartilham a experiência de terem saído cedo da casa dos pais e de terem buscado independência desde jovens. Suas histórias se mesclam com orgulho e vontade de serem independentes, formando um lar. ↓ rolar para baixo ↓ Julie Amanda
- Banco de Images | Documentadas
Aqui documentamos a história de mulheres por todo o Brasil. Raíssa e Stephanie amor de rotina. Camila e Lian amor de dias solares. Letícia e Rossana amor de bicho. Silvana e Márcia amor de educação. Vitória e Sara amor de porcentagens Tainá e Fabi amor de rotina no lar. Naiara e Mary amor de uma vida inteira. Carla e Paula amor de tagarelar. Paola e Tai amor de 'não' que virou 'sim' Patrini e Gabi amor de conversa. Juliana e Luísa amor de desassombro Jess e Amanda amor de desabafos. Susy e Pâmela amor de último ddd. Amanda e Julie amor de juventude. Cláudia e Vanessa amor de vida inteira. Yula e Rebeca amor de bairro. Melina e Acácia amor de marcante. Tamiris e Ágata amor de tempo. Camila e Rafaela amor de etapas. Joyce e Gabi amor de persistência. Gabi e Raffa amor de ficar à vontade. Laura e Camila amor de presente. Babi e Maria amor de companhia. Vivi e Darlene amor de não viver sem. Jaque e Tainá amor de novo olhar. Thacia e Ju amor de cuidado. Anik e Isabelle amor de desaguar. Raquel e Dandara amor de mudanças. Aline e Isabela amor de novidades. Luiza e Milena amor de paciência. Marcela e Jana amor de liberdade. Mariana e Viviane amor de manhã na praça. Clara e Laura amor de cuidado. Aline e Nathalia amor de paródia. Iana e Amanda amor de salvador. Yaskara e Jade amor de conversas. Daniella e Flávia amor de futuro. Isadora e Isabelle amor de equação. Luanna e Laira amor de cicloativismo. Ellen e Bianca amor de confraternização. Lorrayne e Joyce amor de casa. Mari e Jéssica amor de cura. Elis e Vandréa amor de ancestralidade. Carol e Sofia amor de hobbie. Letícia e Giovanna amor de persistência. Ane e Ari amor de companhia. Lorrayne e Mari amor de bilhete. Sarah e Rosa amor de novidade. Jamile e Raquel amor de leitura. Raquel e Rachel amor de pedidos. Aline e Aya amor de maternidade. Cassia e Kercya amor de marinar. Gabriela e Mariana amor de mãos dadas. Luiza e Maria Pérola amor de nebulosas. Lara e Ana amor de âncora. Sharon e Vivian amor de natureza. Yasmin e Juliana amor de diálogo. Isa e Camila amor de fã. Mari e Rey amor de outros lugares. Manu e Alyce amor de abraço. Cecilia e Jady amor de riso esvoaçante. Clara e Rayanne amor de jeito. Maria Clara e Antônia amor de cinema. Priscilla e Raphaela amor de conexões. Mari e Vivi amor de música. Júlia e Milena amor de reencontro. Talita e Louise amor de história. Juliana e Tercianne amor de teatro. Ju e Nicoli amor de vida toda. Luana e Maiara amor de domingo no parque. Tânia e Clarissa amor de trajetória. Ju e Marci amor de tempo. Rennata e Vanessa amor de impacto. Bruna e Flávia amor de suporte. Bibi e Emily amor de mãos dadas. Clara e Mayara amor de doce. Carol e Joyce amor de propósito. Thaysmara e Leticia amor de pôr do sol Júlia e Ana Carolina amor de cuidado ao detalhe. Natasha e Jéssica amor de ciclos. Rafa e Gizelly amor de acordar juntas. Carla e Yasmin amor de expressão. Yasmin e Ignez amor de encontro. Nathi e Emanu amor de força. Camila e Samantha amor de evento. Lu e Joana amor de flor. Nath e Carla amor de parque. Karol e Beatriz amor de webnamoro. Clara e Mariana amor de sétima arte. Jamyle e Rebeca amor de festa. Dani e Aline amor de oposto complementar. Camilla e Karol amor de calma e maresia. Bia e Marina amor de conversa. Amanda e Thaís amor de lagoa. Ju e Yasmin amor de compaixão. Wan e Lívia amor de lugares. Vanessa e Denise amor de pretitude. Mari e Marie amor de estrada. Marcela e Karina amor de refúgio. Ana e Paula amor de almoço no domingo. Thaty e Lari amor de descrição. Melissa e Sofia amor de sítio. Carol e Marlise amor de construção. Fabi e Dani amor de brilho. Isa e Carina amor de versões. Taynah e Estrella amor de ano novo. Glauci e Alice amor de casa. Maiara e Vitória amor de sol e lua. Joyce e Malu amor de renovar. Gabi e Dani amor de gatos. Marcia e Kamylla amor de faculdade. Luiza e Mariah amor de produção artística. Drika e Jana amor de dia ap ós dia. Thay e Louise amor de samba. Jeniffer e Renata amor de aventura. Ana Clara e Evelyn amor de nascer do sol. Bruna e La Salle amor de confirmação. Mariana e Bárbara amor de interior. Maíra e Kelly amor de estar em casa. Janelle e Gyanny amor de fé. Lia e Thalita amor de lar. Alessandra e Roberta amor de diversão. Iasmin e Natalia amor de tatuagem. Bruna e Mari amor de arte na rua. Carla e Cynthia amor de diferença. Inara e Nina amor de recomeço. Hinde e Renata amor de intercâmbio. Thay e Cami amor de afeto. Luana e Marília amor de corpo. Fernanda e Ana amor de tentativas. Gabi e Gabriela amor de coragem. Jéssica e Priscila amor de diferença. Melina e Karyne amor de frio na barriga. Mariana e Fabiola amor de redescoberta. Luana e Bruna amor de emoção e razão. Ane e Thelassyn amor de persistência. Nayara e Jamyle amor de geek. Tami e Fran amor de casa nova. Gabi e Pamela amor de ajuste. Tay e Beatriz amor de elevação. Alice e Fernanda amor de apoio. Julia e Duda amor de muito. Luciana e Viviane amor de recomeços. Kelly e Amanda amor de tempos. Anne e Lari amor de paz. Júlia e Vitória amor de moda. Paula e Mari amor de cor. Luma e Stefany amor de árvore. Anne e Talita amor de oportunidade. Uine e Denise amor de aliança. Larissa e Claricy amor de ritual. Laiô e Íris amor de horizontalidade. Brenda e Jéssica amor de aventura. Dalila e Andréia amor de "praciar". Carla e Laura amor de porto seguro. Vanessa e Vitória amor de nova perspectiva. Carol e Cris amor de energia. Angélica e Jaque amor de segundo encontro. Kétule e Beatriz amor de cachoeira. Alissa e Rafaela amor de recomeços. Lilian e Marcella amor de padaria. Natália e Bruna amor de ano novo. Rachel e Larissa amor de paciência. Jade e Laura amor de segurança. Barbara e Isadora amor de cativar. Marina e Patrícia amor de pedidos rápidos. Gabi e Aline amor de aposta. Débora e Paula amor de comentário. Bruna e Vanessa amor de transformação. Cintia e Carmen amor de cultura. Dállete e Dyanne amor de redescobrir. Keziah e Patricia amor de compartilhar Cynthia e Leylane amor de esporte. Rafa e Helena amor de dia. Emilly e Thuane amor de maracatu. Sue e Sil amor de teatro. Fernanda e Talita amor de som. Carol e Gabi amor de fotografia Carol e Andressa amor de lugar. Ingrid e Cecília amor de estrada. Vanessa e Dayanne amor de caminho. Emily e Raissa amor de tentativa. Beatriz e Kika amor de são joão. Bruna e Tereza amor de sonho realizado. Juliana e Bianca amor de tempo. Clara e Marina amor de céu aberto. Samara e Rebeca amor de impulso. Raíssa e Lorena amor de experimentar. Laura e Dedê amor de samba. Maria Vitória e Fernanda amor de carro. Manô e Bruna amor de vivência. Denise e Julia amor de cerveja&cinema. Maíra e Duda amor de tatuagem. Marina e Luiza amor de cumplicidade. Juliana e Tayna amor de mil histórias. Bruna e Fran amor de resistência. Marcia e Pethra-13_edited amor de pé na porta. Mari e Nonô amor de escola. Joana e Ana Clara amor à primeira vista. Priscila e Rebecca amor de mar. Bruna e Sophia amor de carnaval. Renata e Marcela amor de arte. Clara e Karine amor de parceria. Bela e Maitê amor de risadas. Victoria e Gabi amor de praia. Brenda e Jhéssica amor de destinos. Carol e Gabi amor de militância. Beatriz e Tamara amor de esporte. Paula e Luiza amor de plantas e pássaros. Luana e Gabrielle amor de família. Mariana e Thalassa amor de plantinhas. Carol e Beanca amor de acompanhamento. Rita e Dede-23_edited amor de 10 reais. Cilla e Fabi amor de luz Bruna e Brena amor de axé. Stefannie e Jaque amor de decisão. Marianna e Bruna amor de coisas em comum. Natália e Talita amor de admiração. Ingra e Lara amor de diversidade. Roberta e Laura amor de ser possível amar. Yulli e Nadine amor de profissão em comum. Sandra e Larissa amor de oceanos. Vanessa e Suélen amor de simplicidade. Rhanna e Lais amor de festa popular. Inara e Juliana amor de samba. Juliana e Priscila amor de grande família. Clarissa e Agnis amor de crescimento. Ariadne e Barbara amor de faculdade. Karol e Hémely amor de abrir portas. Nayara e Mayara amor de educação. Vivian e Dani amor de nova visão de si. Olga e Flávia amor de política. Clarissa e Roberta amor de são joão.
- Rafaela e Helena | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Desde o primeiro encontro, Lucia Helena e Rafaela sentiram uma conexão natural. Nenhuma das duas esperava iniciar um relacionamento tão cedo, mas a conversa fluiu de imediato e, poucos dias depois, já estavam marcando de se ver. Nena, como é chamada, havia saído recentemente de um casamento longo, enquanto Rafaela retornava ao Recife após uma experiência no Rio de Janeiro que não durou como esperava. Mesmo assim, decidiram se abrir para algo novo. Lucia Helena, estava com 37 anos no momento da documentação. É natural do Recife, trabalha enquanto motorista de aplicativo e é estudante de educação física. Adora acordar cedo e aproveitar o dia. Seu divertimento é praticar esportes, como jogar bola e andar de bicicleta. Rafaela estava com 23 anos no momento da documentação. Mora na cidade de Paulista, região metropolitana de Recife. Vivia um momento de recomeço na cidade e não planejava nada sério, mas percebeu que ao lado de Nena tudo se encaixava sem esforço. O relacionamento evoluiu rapidamente, mas sem pressa, no tempo certo das duas. O primeiro encontro aconteceu na Páscoa, de forma despretensiosa. Nena, muito ligada à sobrinha, saiu para comprar um chocolate de presente e aproveitou para passar perto da casa de Rafa, sugerindo um encontro rápido. Rafa deu algumas desculpas, alegando estar ocupada, mas Nena insistiu um pouco, dizendo que estava de carro e iria até ela. O que seria só um encontro no carro se alongou em uma conversa, até que, entre piadinhas, se beijaram pela primeira vez. Dias depois, Rafa comentava com uma amiga que não iria namorar ninguém, que “nem tão cedo iria ceder para o namoro”... até que o celular tocou com uma notificação em tom diferente, porque geralmente nem notificava… e ela tinha colocado especialmente para ver as mensagens da Nena… quando a amiga percebeu, ela disse “Tu não vai namorar não, né? E essa notificação aí que já mudou?”. Na semana seguinte, marcaram outro encontro, dessa vez para tomar um açaí. Desde então, não se desgrudaram mais. Entre conversas, descobertas e afinidades, perceberam o quanto se encaixavam. Hoje, Rafa passa mais tempo na casa de Nena, no Recife, do que na própria casa em Paulista. Rafa e Nena veem o relacionamento como algo genuinamente diferente do que já viveram. Desde o desejo constante de estarem juntas, após experiências anteriores (em outras relações) que viveram à distância, até a liberdade de viver esse amor de forma aberta. Pela primeira vez, não precisam se esconder ou restringir nada - família e amigos sabem, apoiam e participam. Postam fotos sem receio, falam sobre o que sentem, vivem a relação sem medo. Para elas, isso é essencial: poder mostrar um amor que é bonito de se viver. O apoio mútuo se manifesta em tudo, desde as pequenas rotinas, como sair para pedalar juntas ou assistir aos jogos dos times (que são rivais), até os desafios mais profundos da vida, como os estudos, o trabalho e as dificuldades familiares que acontecem paralelas à vida. Mesmo nos momentos difíceis, sabem que podem contar uma com a outra, seja para cuidar da cachorrinha ou para enfrentar os obstáculos da vida. O relacionamento se sustenta na parceria e no companheirismo diário. Quando pensam sobre o amor, lembram das vezes em que enfrentaram momentos de ansiedade juntas. O suporte mútuo foi essencial, tanto para acalmar quanto para ajudar a concretizar aquilo que parecia inatingível - e que era causador da ansiedade. Para elas, amar é aceitar, acolher e estar presente. É uma sensação de: eu te aceito como você é e estou aqui contigo. E ficam muito felizes, também, por verem esse amor reconhecido entre as pessoas ao redor, de tanto se apoiarem os amigos e familiares reconhecem: “Teu semblante ficou melhor depois que tu conheceu essa menina” ou “Agora tu tá indo pra frente e as tuas coisas estão progredindo”. Rafa e Nena contam o quanto o relacioamento delas é diferente em vários pontos: desde conviverem próximas, desejarem estarem muito juntas e terem tido experiências à distância antes, até o contato muito aberto que possuem com a família e que antes isso não era possível - a irmã e a sobrinha, o pai e a mãe, todos já sabem e não precisam se esconder ou restringir. Postam fotos livremente, falam sobre o seu amor. Não se sentem privadas de mostrar uma relação que é tão bonita de viver. Sentem a importância do apoio - desde numa rotina muito simples em acordar e sair para pedalar, vão juntas, até assistir jogos de futebol dos times rivais juntas.. até as coisas mais profundas da vida como os estudos, os desafios de trabalho, questões familiares que acontecem paralelas à vida, os cuidados com a cachorrinha de estimação… entendem a importância de contar com a pessoa que você se relaciona. Quando pensam sobre a relação e sobre o amor, citam momentos de ansiedade que passaram juntas e que uma apoiou muito a outra, tanto para estabilizar quanto para realizar o que estava causando a ansiedade. Nesses momentos, o amor está muito veiculado à verdade, ao suporte, à uma parceria que serve como familia e acolhimento. É uma sensação de: eu te aceito como você é e estou aqui contigo. E ficam muito felizes, também, por verem esse amor reconhecido entre as pessoas ao redor, de tanto se apoiarem os amigos e familiares reconhecem: “teu semblante ficou melhor depois que tu conheceu essa menina” ou “Agora tu tá indo pra frente e as tuas coisas estão progredindo”. ↓ rolar para baixo ↓ Rafaela Helena
- Sara e Vitória | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Sara Ruth estava com 22 anos no momento da documentação. É natural de Criciúma e trabalha enquanto professora de dança. Sempre amou o meio artístico, aprendeu a dançar ainda criança e passou por diversos movimentos - desde o balé clássico, moderno, jazz, contemporâneo, as danças urbanas… Hoje em dia dá aulas em diversos estilos e também ajuda na produção artística de shows e coreografias de clipes. Brinca que é “muito metida”, adora estar em qualquer movimento. Mas a verdade é que nem sempre conseguiu viver de arte, precisou trabalhar em diversos empregos formais para conseguir conciliar com a dança e manter as contas pagas. Chegou até mesmo a iniciar uma faculdade de ciências contábeis, mas não concluiu porque soube que seu caminho era mesmo na dança. Foi entre os 17 e 18 anos que saiu de casa, e hoje, além de toda sua trajetória profissional, também entende seu diagnóstico de ser uma mulher autista, ressalta o quanto isso é importante e central na sua história, pois entende seu próprio tempo, encontrando mais equilíbrio e autonomia. Vinda de uma família cristã, o processo de se entender enquanto mulher lésbica foi atravessado por conflitos e pela heteronormatividade compulsória - naquele caminho: primeiro se identificou como bissexual, mas sempre teve dificuldade em sustentar essa identidade, porque a bissexualidade não chegava no desejo do homem, mas numa “esperança cristã” de que talvez um homem chegue e “conserte tudo”. Faz pouco tempo, há cerca de um ano e meio, que passou a se reconhecer como lésbica, embora só tenha conseguido verbalizar isso aos poucos, no seu processo - e tudo bem. Esse percurso é marcado por dúvidas, silêncios e pela sensação compartilhada por muitas mulheres, afinal, essa heterossexualidade é socialmente nos colocada desde sempre. Vitória estava com 27 anos no momento da documentação. Nasceu e cresceu em Criciúma e, diferente da Sara que gosta de estar nos palcos, ela brinca que prefere sempre ocupar os bastidores. Trabalha na área administrativa de confecção de jeans e tecidos planos e, assim como Sara, também iniciou a faculdade de Contábeis, mas não seguiu adiante por não se identificar. Define como hobby acompanhar a intensidade e a movimentação da vida da companheira, reconhecendo que sua rotina era mais parada antes de começarem o relacionamento. Hoje, compartilha com Sara um cotidiano atravessado por criatividade, movimento e descobertas constantes. Foi por meio de amigos em comum que Sara e Vitória se conheceram, em uma festa, no meio de 2023. Se cumprimentaram rapidamente. Na época, Vi estava no fim de uma relação, e Sara celebrava o próprio aniversário na festa e dançando profissionalmente com uma DJ que acompanhava em algumas festas. Depois desse dia, passaram a seguir uma à outra nas redes sociais e rapidamente interagiram numa postagem. A partir desse primeiro contato, não pararam mais de conversar. A conversa atravessou a madrugada, seguiu pelo dia seguinte e, ainda naquela mesma semana, decidiram se encontrar. O primeiro encontro aconteceu em uma parada de ônibus (e até brincaram que esse deveria ser o local da documentação, por ter sido muito simbólico). A ideia era que fosse um encontro breve, porque ambas tinham compromissos logo após, mas foram comer um lanche juntas e a conversa rolou como se já se conhecessem há anos. Tudo aconteceu com naturalidade, sem esforço. Explicam que desde o início a relação foi marcada por abertura e alinhamento. Sara reconhece Vitória como sua primeira namorada, primeira noiva e futura esposa, e sempre teve uma percepção muito clara sobre o que buscava em um relacionamento: a vontade de se entregar a alguém com quem fosse possível imaginar um futuro, entendendo o amor como construção, escolha e convivência entre o que é bom e o que é difícil. Essa visão compartilhada sobre afeto, compromisso e crescimento conjunto fez com que tudo fluísse com segurança desde as primeiras conversas. Naquele mesmo dia, pegaram o ônibus juntas. O primeiro beijo aconteceu na parada, em frente a um mercado. A partir dali, não se desgrudaram mais. O relacionamento seguiu como um processo de descoberta mútua, atravessado por diálogo, presença e pela sensação constante de reconhecimento uma na outra. Um mês depois do primeiro encontro, Vitória e Sara já estavam namorando. Pouco tempo depois, decidiram morar juntas: segundo a explicação delas, foi literalmente o primeiro mês ficando, o segundo namorando e, no terceiro, dividindo a mesma casa. A relação avançou com a mesma intensidade com que se reconheciam. Enquanto Vitória já carregava o desejo antigo de ter um lugar próprio para chamar de lar, Sara, dançante e de alma livre, queria ganhar o mundo. A ideia de uma casa própria foi sendo construída aos poucos, como um porto possível para quem quisesse ir, mas também precisasse ter para onde voltar. Sara aos poucos foi considerando a ideia de um lugar próprio junto com a Vi e, quando completaram um ano, decidiram comprar um apartamento. No fim de 2024, se mudaram para o apartamento que compraram juntas e, junto com ele, vieram também dois gatos: um preto, um branco. Foi assim que deram início para uma nova fase na relação. A saída de casa, para ambas, esteve diretamente ligada à sexualidade. Sara vinha de uma família cristã, onde o amor era possível desde que fosse distante, nunca dentro de casa. Durante muito tempo, sustentou a identidade bissexual como uma forma de negociação afetiva com a família, uma tentativa de manter pontes enquanto sobrevivia ao medo de ser rejeitada novamente. Já Vitória carregava uma história de independência mais precoce e limites mais claros: para ela, viver um amor exigia verdade e visibilidade. Essa diferença se tornou um ponto sensível do relacionamento, não como imposição, mas como conversa. Não havia obrigação de se assumir para a família, mas havia o desejo de viver sem se esconder. Com paciência e firmeza, Sara escolheu enfrentar esse processo outra vez. Estabeleceu limites em casa, recusou espaços onde a Vi não pudesse estar e passou a se posicionar com clareza. O tempo fez o que precisava ser feito. Aos poucos, o contato foi retomado, as regras foram revistas e o afeto foi entendido. A mãe, que nunca deixou de amar, precisou aprender e enxergar como a relação era boa para a Sara e a Vi. O primeiro grande gesto veio quando aceitou que Vitória estivesse presente numa festa da família. O encontro foi tranquilo, respeitoso e abriu caminho para um vínculo que é gigante - hoje elas conversam e ela vive dizendo que gostaria que a Vi fosse filha dela, de tanto que se parecem. Para Vi e Sara, o amor sempre foi entendido como um gesto revolucionário. Não como ideal romântico abstrato, mas como decisão cotidiana: estar uma para a outra, construir, sustentar, fazer dar certo. Desde o início, enxergam o relacionamento como um caminho compartilhado, feito de compromisso e presença. Reconhecem os próprios extremos, as diferenças de temperamento, a razão e a emoção num equilíbrio possível que amadurece o vínculo. Essa visão não ignora as partes difíceis. Pelo contrário: inclui o amor que dói, que exige esforço, conversa e atravessamento. Pensam o futuro juntas, detalham planos, fazem tudo com muito diálogo. Na verdade é isso: tudo passa pela conversa. Avaliam prós e contras, entendem que alguém vai precisar ceder, e não é uma disputa, explicam que existe um sistema de porcentagem: até decisões simples passam por acordos, como medir o quanto cada uma deseja ir para um evento - “hoje eu quero 50% e você?” “eu quero 80%” “então nós vamos porque você quer bastante”, para que saibam quando insistir, quando ceder e quando cuidar. Isso transforma o cotidiano em um espaço seguro, previsível e afetuoso para ambas. Criaram dinâmicas próprias para tornar tudo mais claro, especialmente considerando a vivência de Sara como mulher autista, que precisa de comunicação direta, literal e transparente. Nada fica subentendido. Desejos, limites e vontades são verbalizados sem jogos. Esse cuidado também se expressa no acolhimento das vulnerabilidades. Vitória se tornou suporte nos momentos de crise, colo, presença constante. O amor delas se mostra sem esforço performático, no modo como se sustentam e se respeitam diante dos outros. Pessoas ao redor percebem essa leveza e, muitas vezes, as elogiam e tomam como referência. Até a própria mãe da Sara, que ultrapassou o preconceito e hoje em dia é grande apoiadora. Para finalizar, elas contam que a Vi, nessa troca de afeto, tatuou a boca de Sara, uma das coisas que ela mais admira nela. E elas também tatuaram o símbolo do autismo com um coração, mostrando o afeto e o carinho nesse suporte. ↓ rolar para baixo ↓ Vitória Sara Ruth
- Clarissa e Roberta | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Clarissa estava com 31 anos no momento da documentação, é natural de Carpina, cidade interiorana de Pernambuco. Chegou em Recife para fazer faculdade de farmácia, fez um intercâmbio para o estado de Minas Gerais onde passou um ano e meio lá estudando - e conhecendo um pouco mais de si, do mundo, tendo influências positivas diferentes das que possuía na cidade pequena ou em Recife - e quando voltou já se sentia muito diferente. Começou a viajar mais pelo Brasil, se inscreveu em congressos e cursos, aconteceram também suas primeiras experiências com mulheres, seu primeiro relacionamento e, assim, morou em outras cidades… sentiu que passou a conhecer mais quem ela era de verdade. Depois do seu primeiro relacionamento não ter dado certo e não ter sido tão bom quanto esperava, decidiu voltar para Recife, e voltou com um olhar totalmente diferente daquela primeira vez quando chegou. Se reconectou com a cidade, conheceu novas pessoas e se permitiu fazer uma viagem que sempre sonhou: para a Amazônia. Quando voltou: conheceu Roberta. Hoje em dia, moram juntas e parte do seu trabalho é compartilhado em casa com ela, numa sala com máquinas impressoras 3D montando recursos terapêuticos para auxiliar pessoas com dificuldade em mobilidade. Roberta estava com 28 anos no momento da documentação. Ouvindo Clarissa contar sua parte no momento da nossa conversa, ela comenta que seu momento de descoberta não foi assim aos poucos como o da companheira, sempre se viu 100% hétero. Suas amigas comentavam que ela deveria ficar com meninas para experimentar, mas ela nos padrões heteronormativos não concordava, até comentava que achava uma mulher ou outra bonita, mas era admiração, não atração. No íntimo, confessa: tinha curiosidade, mas não pensava em explorar. Pensava que se encontrasse uma mulher que realmente chamasse a atenção ela se permitiria, enquanto isso, não pensaria sobre. Foi um processo de muito autoconhecimento até se relacionar com Clarissa. Roberta é natural de Recife, morou muitos anos em Jaboatão dos Guararapes e fez uma especialização enquanto terapeuta ocupacional em reabilitação física. Hoje em dia, é responsável pela Ocupacional 3D, onde fazem os produtos citados no início do texto e também dá palestras e cursos sobre recursos terapêuticos. Quando Clarissa chegou em Pernambuco após a viagem, era época de São João e decidiu instalar um aplicativo de relacionamentos para encontrar alguém e ir nas festas dançar um forrozinho. Foi assim que conheceu Roberta. Na época, Roberta já havia desconstruído - ou melhor, construído - um pouco a ideia de se relacionar com mulheres, já passara por algumas experiências e entendeu que poderia, sim, estar numa relação com uma mulher. Às vezes deixava seu app voltado para homens, às vezes para mulheres… não tentava se enquadrar em algo. E em 2023 estava num momento de cura, depois de períodos difíceis vividos em 2021 e 2022, queria conhecer pessoas novas. O primeiro encontro foi o bastante para entender que iriam se conectar (o primeiro mesmo que deu certo, ainda bem! Porque o primeiro que a Clarissa havia sugerido era um encontro que nitidamente daria errado, uma ação social de catar lixo no rio…). Mas ufa, o primeiro encontro foi o forrozinho sonhado, conversas com conexão e tudo mais. Até comentaram com os amigos que provavelmente iriam ouvir falar mais o nome uma da outra nas conversas… porque provavelmente não seria algo passageiro. Continuaram se encontrando, descobriram coisas semelhantes, foram sentindo que tudo poderia virar um namoro, mas não falaram sobre isso diretamente, aos poucos introduziram o assunto, até que um mês depois estavam de fato namorando. Depois do início do namoro, passavam muito tempo juntas. Não ficavam mais de três dias sem se encontrar. Foi quando decidiram dividir o lar. Cerca de um ano depois, já estavam noivas. Num pedido de casamento, Clarissa criou um cordel inspirado na história delas e presenteou Roberta. O São João é muito significativo para elas, afinal, é a data que se conheceram e o período preferido do ano. Mas não podemos deixar de citar: entre os presentes, desde o começo do namoro Clarissa se destaca pelas ideias criativas. Tudo foi caminhando com intensidade, afirmam a rapidez quando relembram, mas entendem que o aprofundamento da relação foi feito à vontade. A própria família da Clarissa, que nos outros relacionamentos nunca se aproximou, fez questão de conhecer a Roberta e estar próxima durante a mudança, conhecendo o lar que elas moram. Para elas, isso mostra o quanto esse relacionamento é diferente. Apesar da família ainda ter seus limites, é muito importante ver como tudo já caminhou com disposição, como as pessoas ao redor já mudaram suas percepções e seus preconceitos nesses últimos anos através do amor. Roberta conta que no começo ela sentia bastante medo da rapidez e da proximidade, mas que de alguma forma se sentia à vontade e gostava do que vivia, queria dar uma chance para essa relação. Por mais assustadora que fosse a velocidade, praticamente avassaladora, possuía a sensação de que já se conheciam. E não queria mais estar distante. Foi estranho ver uma pessoa chegando “de mala e cuia” na sua casa aos poucos, encaixando suas coisas, compartilhando sua rotina. Depois seria estranho não ter mais essa pessoa. Hoje explica como foi importante a existência da Clarisse na sua vida para tantas outras coisas, como a questão das impressoras 3D que possuem em casa, que ela sempre sonhou em ter para fazer os produtos com adaptações para pessoas com deficiência. Foi Clarissa quem incentivou a busca pelo sonho e hoje são companheiras de estudos e sócias, criaram a empresa da Roberta, que explica o quanto o trabalho a salva diariamente. Ela é uma pessoa que se move pelo cuidado, seja com a família ou os amigos, está sempre zelando por quem ama. É dedicada e sente que isso está na sua cultura, aprendeu a ser assim desde criança, tanto que escolheu essa profissão. Fizemos questão de documentar esse sonho nas fotos também, nessa parceria num dos quartos de casa é onde mora uma parte muito grande desse amor. ↓ rolar para baixo ↓ Clarissa Roberta
- Quero participar! | Documentadas
Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! QUERO PARTICIPAR! COMO FAÇO PARA ME INSCREVER? É muito mais fácil que você imagina ♥ Você e sua companheira gostariam de ser fotografadas e participar do projeto? Preencha os campos a seguir e em breve entraremos em contato com você! É importante ressaltar três coisas: 1. Só documentamos e registramos casais. Entendemos a importância de cada mulher enquanto um ser único nesse mundão! Mas nosso objetivo é registrar o amor entre mulheres.* 2. Acabamos registrando mais casais entre o Rio de Janeiro e Porto Alegre devido aos locais de residência, mas o projeto vive em movimento com o intuito de documentar o amor entre mulheres por todo o Brasil, então: não desanima se você morar longe! Pelo contrário: têm casais de amigas que topariam participar também? Chama elas e se inscrevam juntas! Assim, quanto mais pedidos, mais chance de ir até vocês. 3. Fazer o Documentadas dá trabalho! Sou em uma fotógrafa só (mulher, artista-independente) com um projeto artístico e social que demanda muito financeiramente. E por isso, cobramos um valor simbólico. Explicamos tudo no link da inscrição, mas você pode tirar dúvidas sempre ♥ Sua participação é muuuuito importante para nós. * caso você queira muuuuuito ser fotografada de forma individual, pode adquirir nossos serviços pedindo um orçamento de ensaio fotográfico. manda mensagem pra gente através da aba 'contato', ok? até logo! INSCREVA-SE AQUI
- Carol e Andressa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Carol estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Campo Mourão, no interior do Paraná. Já passou pelos estudos enquanto gastronomia e psicologia, mas se encontrou mesmo na perfuração corporal, antes da pandemia de Covid-19 começar. Faz cerca de 5 anos que está morando em Maceió. Ama cozinhar, passar o tempo com o Treva, gatinho que trouxeram do Paraná (e que é mascote do estúdio) e a Mel, que adotaram já morando no nordeste. Adora ir à praia e conhecer lugares novos. Andressa estava com 33 anos no momento da documentação. Também é natural de Campo Mourão. Formada em publicidade e propaganda, trabalhou oito anos na área, mas sentia que sua vida era só ficar no computador, foi quando decidiu ir para Maringá, cidade próxima de onde nasceu, e começou a trabalhar com tatuagens, junto com um amigo que trabalhava como tatuador. Juntos, abriram um estúdio na sua cidade natal, em 2017. Nessa época, Carol e Andressa se conheceram através dele, o famoso - e temido por muitas - rebuceteio: se conheciam por conta das suas ex. Andressa soube que a Carol estava solteira porque falavam que ela era muito legal e muito bonita. Elas se conheceram, se deram bem, começaram a se envolver e nem perceberam de fato quando já estavam namorando. Tudo aconteceu. Pouco antes da pandemia de Covid-19, Carol e Andressa já dividiam a vida e os negócios. Andressa tocava o estúdio de tatuagem durante o dia, enquanto Carol botava a gastronomia em prática à noite, servindo pizzas em pedaços no bar. A rotina era intensa, mas funcionava. Maceió sempre esteve no radar da família de Carol, especialmente do pai, que sonhava em se aposentar e se mudar para lá. Quando visitaram a cidade juntas, começaram a pesquisar mais a fundo: o turismo, custo de vida, oportunidades. Até que decidiram mergulhar nesse sonho antes mesmo dos pais dela. Venderam tudo e partiram para Alagoas, no meio da pandemia. Chegar em uma cidade nova como tatuadora foi desafiador, mas a determinação era maior. Foram conquistando clientes aos poucos, mas o maior choque foi cultural. Mesmo dentro do Brasil, perceberam o quanto cada região tem suas particularidades. No fim, a mudança foi também um processo de renovação - queriam se descobrir em um novo ambiente, explorar novas versões de si mesmas, sobretudo descobrir sua melhor versão. O sucesso do estúdio em Maceió não foi “do nada”, bem pelo contrário: meses de muito trabalho e, nas palavras delas “veio da vontade de evoluir como pessoas”. Não começaram com tudo pronto, foram construindo aos poucos. Chegaram na cidade dispostas a qualquer ‘freela’, depois buscaram estúdios para trabalhar - Andressa tatuando, Carol com as perfurações. Guardaram dinheiro para investir no antigo estúdio no Paraná, mas acabaram apostando tudo em um novo começo no Nordeste. Pensaram em desistir várias vezes. Mas sempre que uma ficava triste, a outra lembrava: “Já viemos até aqui, já vendemos tudo. Vamos continuar.” Quando as coisas começaram a reabrir no pós-pandemia, entenderam que era o momento certo para abrir o próprio espaço. Alugaram um local pequeno perto da praia, com uma maca, um autoclave e poucas ferramentas. No começo, atendiam muitos turistas que passavam e faziam tatuagens por impulso ou porque queriam uma lembrança de Alagoas. Com o tempo, foram se conectando com a cultura local e decidiram criar um estúdio feminino. Muita gente duvidou, dizia que não durariam nem dois meses, até porque o mercado da tatuagem é cheio de machismo. Mas no momento da documentação, o estúdio já completava três anos, agora em um espaço maior, mais estruturado. E mais importante é que vai além da tatuagem e perfuração: oferece cursos, eventos, troca de experiências e, acima de tudo, acolhimento. O começo foi difícil. O primeiro estúdio, perto da praia, trouxe desafios pesados: alagamentos com as chuvas, roubos na vizinhança, insegurança constante. Choraram, duvidaram se conseguiriam sustentar o espaço. Até que decidiram que não podiam mais conviver com o medo. Foi quando encontraram o novo local, onde trabalham e moram. E quando querem um respiro, alugam um cantinho em praias mais afastadas ou vão para o terreno do pai da Carol (o mesmo onde ele sonha morar quando se aposentar). O estúdio não cresceu só pelo esforço delas, mas porque outras pessoas apostaram nesse espaço. Formaram uma rede de apoio: tatuadoras, cervejarias, clientes que acreditaram no propósito de um estúdio feito para mulheres, fazem muita questão de agradecer. E é bonito como o amor delas transborda no que construíram. Quem chega já chama de “O estúdio das meninas” - e quando são chamadas assim, se sentem representadas. Foi um amor erguido com maturidade, conversas, carinhos, em agradecimento quando fazem refeições juntas... A vida é absurdamente corrida e demanda muito diariamente, mas reconhecem que nas pausas diárias, compartilhadas com os bichinhos também, existe essa dose de amor. ↓ rolar para baixo ↓ Andressa Carol
- Jamile e Raquel
Jamile e Raquel moram no mesmo condomínio, ainda que em apartamentos distintos, em Brasília. Jamile é super brincalhona, está sempre rindo, é extrovertida, faz palhaçadas e isso quebra bastante a seriedade da Raquel, fazendo ela rir o tempo todo. Jamile sente muito frio, Raquel se permite viver nas cobertas por puro agrado. Juntas, elas adoram jogar The Sims, ler livros, brincar com os filhos da Raquel e ficar com os bichos que ambas adotaram - elas amam animais, principalmente os cães e gatos. Raquel já trabalhou em uma ONG de cuidados e é uma grande defensora da adoção, foi assim que influenciou Jamile a adotar suas gatinhas (juntando as gatas de ambas, são: Leci, Selene, Aurora, Íris e Bebete). Elas acreditam que animais são peças muito importantes no auxílio ao combate à depressão e ansiedade, e com as gatas, tudo passou a ter outro sentido dentro de casa. Por mais que morem em Brasília, nem a Jamile, nem a Raquel nasceram lá. Raquel é antropóloga, finalizou o mestrado recentemente e está se preparando para o doutorado. Já foi doula e é mãe de dois filhos. Ela tem 30 anos e sua família é de Minas Gerais, parte de Belo Vale e outra parte de Belo Horizonte, local onde ela nasceu. Jamile é jornalista e nos conta o quanto ser jornalista exige da vida - exige do que ela é - mesmo sendo apaixonada pela profissão (e, dentro da profissão, pelo jornalismo esportivo). Ela nasceu em Piracicaba, interior de São Paulo e chegou em Brasília com a família aos 16 anos descobrindo uma cidade totalmente diferente das outras que conhecia. Quando elas se conheceram, em 2019, o que sentiam (e o que poderiam sentir) ainda era muito incerto. Foi através de um aplicativo de relacionamentos que se conheceram e marcaram um encontro e, neste dia, a Jamile estava se sentindo um pouco triste, não queria ir. Foi num aniversário antes e uma amiga a incentivou, disse que poderia ser uma pessoa legal, era uma oportunidade. Por estar no aniversário antes, já estava com pessoas, bebendo e conversando, então quando ela chegou trouxe consigo uma animação que descontraiu o primeiro momento sem conhecer a Raquel. Elas se deram bem, ficaram e começaram a se relacionar a partir daí. Mesmo que um relacionamento vá se construindo de forma natural no começo, elas contam como foi lidar com a ansiedade e a depressão e entender os limites de cada uma. Para a Jamile, por exemplo, entender que não seria uma carga, um peso a mais ou algo do tipo na vida da Raquel. E, também, a Raquel explica sobre esse momento de assumir um namoro, que a fez refletir em várias coisas entendendo que era uma mãe solo, que precisava diariamente dar conta de muitas coisas na vida e do que isso iria demandar, se estava realmente preparada e sentiu medo de não conseguir estar cem por cento na relação. Ambas tinham seus medos, mas conseguiram equilibrar tudo aos poucos, mostrar uma para a outra o que sentiam e conversar sobre isso. Entender seus limites, colocá-los de forma amorosa e visualizar as diferenças com amor também. Segundo a Raquel: “Olhar e dizer: te aceito e tô aqui.” Morar tão próximas facilitou diversas coisas, ainda mais no momento mais intenso da pandemia de Covid-19, em 2020 e 2021. Os filhos da Raquel ficaram um ano sem escola, todos estavam dentro de casa e ter a Jamile por perto era muito importante. Elas também têm o apoio da família (Raquel, inclusive, ama a família da Jamile e eles se dão muito bem), mas para a Jamile viver o processo de “saída do armário” foi um processo prévio bastante intenso. Hoje em dia, para além da família, Jamile conta sobre como as pessoas questionam ela sobre ela assumir e maternar os filhos da Raquel. Ela explica que nunca se colocou neste lugar e que não quer ter filhos, também não gostaria de se ver o tempo todo nesse questionamento. Ambas valorizam a independência, o tempo sozinhas ou juntas e sabem que, se assim desejarem, vão ter uma relação saudável com as crianças. Essa relação já existe, inclusive - elas adoram a Jamile, o quanto ela brinca com eles, eles visitam as gatinhas dela… Tudo é uma questão de naturalidade sobre o relacionamento que as duas possuem, enquanto mulheres que se amam, e que as crianças acolhem também. Elas falam o quanto falta conhecer mais mulheres que têm filhos ou que estão em situações como as que elas vivem, ser uma mãe solo e namorar outra mulher. Jamile explica que sempre viveu uma heterossexualidade compulsória e ter essa noção a fez mudar muitas coisas, inclusive o entendimento sobre a forma de se relacionar com alguém. Ela nem conseguia imaginar uma relação saudável como a que tem hoje ou de que alguma pessoa a conheceria como a Raquel conhece e escolheria ficar, não iria embora na primeira oportunidade, que segue ali e ama de verdade. Já viveu muitas relações “de vidro”, como ela mesma colocou: são relações que na hora do conflito, se ela não ceder, a pessoa pode pegar, jogar no chão e quebrar toda a relação. Com a Raquel, aprendeu que as relações podem ser “de borracha", serem maleáveis, se caírem no chão, juntam, limpam e cuidam, com conversa e afeto, tentando entender a dor. Raquel completa a fala da Jamile, explicando que o ato de gostar de alguém era sempre algo envolvendo interpretar um papel. Ficar comprovando algo, ser o que a pessoa queria, pois se não fosse, teria medo dela ir embora… e que agora não é mais assim. Elas estão juntas porque ambas querem, independente de qualquer papel. Estão conectadas e são gratas à isso. Jamile Raquel




