Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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- Jéssica e Priscila | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. No começo de 2023, Jessica era promoter de uma festa lésbica no Rio de Janeiro e criou um grupo no WhatsApp para informar sobre os descontos e ingressos especiais. Um amigo da Priscila soube do grupo e indicou para ela, que entrou e pouco interagiu, mas sempre visualizava as mensagens da Jessica desejando bom dia, interagindo com as pessoas e, mesmo não sabendo que era o trabalho dela, achou ela muito interessante. Numa interação no grupo, as pessoas mandaram seus perfis no Instagram e a Priscila viu o perfil da Jessica, mas não seguiu. Como nunca tinham interagido, achou que seria estranho seguir, mas vez ou outra entrava lá e via se ela postava alguma coisa com alguém (para entender se estava namorando ou solteira). O final de semana de uma das festas chegou e Priscila foi com os amigos. Viu a Jessica lá, achou ela interessante, mas não relacionou a pessoa que estava vendo com a pessoa que tinha visualizado o Instagram. Comentou com os amigos sobre ter interesse nela e eles incentivaram que ela puxasse um papo, mas mais uma vez ela achou estranho e não foi. Depois disso, viu que Jéssica estava acompanhada. A pessoa que acompanhava Jessica não era sua namorada, mas alguém que ela ficou um dia antes e que não deu certo, não estava legal, ela não estava se sentindo bem e sabia que não continuariam. Entre a Priscila ter interesse, comentar com os amigos e desistir de puxar papo, uma das amigas tomou iniciativa por ela e chamou a Jessica, apontando para Priscila e dizendo “Ela quer falar com você!”. Mas na hora que Jessica chegou, não entendeu nada, ficou uma situação estranha, ela achava que tinha sido chamada por conta do trabalho (afinal, estava trabalhando no evento) e acabou saindo sem entender. Priscila seguiu olhando ela pela festa e percebeu que o clima não estava legal com a acompanhante, achou até que esse desconforto era por causa da situação que havia acabado de acontecer. A amiga decidiu conversar com a Jessica e pedir desculpas pela situação, foi quando comentou que Priscila estava interessada, Jessica notou a Priscila e disse que também estava, mas que no momento estava acompanhada e por mais que não estivesse legal, não queria deixar as coisas piores. Passou o Instagram para a amiga entregar à Priscila. Priscila, quando viu o perfil, percebeu que era a mesma pessoa que ela “stalkeava” e não seguiu novamente. Após a festa, Jessica encontrou o perfil dela, seguiu e começaram a interagir. No começo, elas achavam que não iria acontecer nada para além do primeiro encontro de forma casual. Se veem enquanto mulheres muito diferentes, de culturas muito diferentes… e achavam que não iriam render. Aos poucos, foram gostando uma da outra, passando os finais de semana juntas e estabelecendo uma comunicação diferente. Se apaixonaram. Priscila estava com 29 anos no momento da documentação, é natural de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Estuda para ser comissária de voo e também cursa relações internacionais. É uma mulher muito livre, foi criada numa família muito solta, sem preconceitos e gosta muito disso. Preenche seu tempo livre com seus amigos, bebendo, passeando e deseja ao máximo viajar e conhecer novas culturas. Mesmo sendo brincalhona e risonha, acredita ter uma personalidade muito forte. Jessica estava com 26 anos no momento da documentação, é natural de Belford Roxo, baixada fluminense. É técnica em enfermagem e está terminando a faculdade de biomedicina, então optou por não trabalhar na área de enfermagem e seguir com os estágios e foco na faculdade até a finalização. É uma mulher que gosta muito de estar em família, demonstra seu amor no toque físico e nas palavras o tempo todo. Também adora sair de casa, ir para a praia, cinema, ver os amigos… E sonha em fazer um mochilão, deseja conhecer melhor o estado do Rio de Janeiro e o Brasil. Por mais que suas casas sejam bem distantes fisicamente (São Gonçalo e Belford Roxo), elas passam muito tempo na casa da Priscila, por Jessica fazer estágio em Niterói e ser um caminho próximo. Estar nessa relação significa a primeira vez que elas se sentem tratadas da forma que sempre desejaram - e por mais que considerem isso o mínimo, raramente identificavam tamanho carinho nas outras relações. Fazem questão de trabalhar a comunicação. Priscila explica que é difícil conseguir falar o que sente, compartilhar as coisas, principalmente pela independência da qual ela foi criada. Enquanto Jessica faz questão de demonstrar e compartilhar, desperta justamente o contrário: que podem criar novas linhas de conversa. Jessica sempre instiga Priscila a falar, compartilha o que sente e o que acha. Brincam que às vezes se sentem muito intensas e emocionadas, mas logo a razão vem e colocam o pé no chão entendendo o momento que vivem, entre desempregos e fim da faculdade. Parte desses momentos é refletir também que as coisas levam tempo para se estabelecer, que logo estarão conquistando seus sonhos, suas vontades de dividirem um lar e terem uma melhor vida financeiramente. Estabeleceram quase-que um código para demonstrar que algo não está bem, falam que “tá calor”, e nisso entendem que precisam de espaço, que estão se sentindo um pouco sufocadas. Respeitam esse tempo e desejam a presença uma da outra para passar pelos momentos difíceis, entendem o quanto isso é importante, mas sempre com suas individualidades preservadas. Nesse tempo de relação (pouco menos de um ano) já enfrentaram diversas situações difíceis e perceberam o quanto se fortaleceram juntas. É através das atitudes diárias que elas identificam o amor. Comentam que por mais que palavras sejam importantes, é muito mais fácil você dizer algo e não cumprir. Por isso, se apegam nas demonstrações diárias. Priscila não é tanto do toque quanto Jessica, mas demonstra o amor no cuidado e na presença, tratando bem. O amor que sente existe de uma forma muito natural, não é obrigação, é sobre o que gostaria de viver e como gostaria também de ser tratada, sempre pensa de maneira recíproca. Quando pergunto sobre a realidade delas em suas regiões (São Gonçalo, Belford Roxo) e sobre os locais que estão juntas, como se sentem e o que gostariam de ver mudar, elas respondem explicando a importância de ter mais respeito, educação e consideração nos espaços de convívio. Por serem mulheres (ou no caso da Priscila, mulher negra de religião de matriz africana) o medo do preconceito anda ao lado delas o tempo todo. E nesses momentos entre o medo entra também a coragem, a necessidade de falarmos sobre os nossos amores para que nos olhem com mais respeito, de nos impormos, de não deixarmos o preconceito ser mais alto. ↓ rolar para baixo ↓ Jessica Priscila
- Jamile e Raquel
Jamile e Raquel moram no mesmo condomínio, ainda que em apartamentos distintos, em Brasília. Jamile é super brincalhona, está sempre rindo, é extrovertida, faz palhaçadas e isso quebra bastante a seriedade da Raquel, fazendo ela rir o tempo todo. Jamile sente muito frio, Raquel se permite viver nas cobertas por puro agrado. Juntas, elas adoram jogar The Sims, ler livros, brincar com os filhos da Raquel e ficar com os bichos que ambas adotaram - elas amam animais, principalmente os cães e gatos. Raquel já trabalhou em uma ONG de cuidados e é uma grande defensora da adoção, foi assim que influenciou Jamile a adotar suas gatinhas (juntando as gatas de ambas, são: Leci, Selene, Aurora, Íris e Bebete). Elas acreditam que animais são peças muito importantes no auxílio ao combate à depressão e ansiedade, e com as gatas, tudo passou a ter outro sentido dentro de casa. Por mais que morem em Brasília, nem a Jamile, nem a Raquel nasceram lá. Raquel é antropóloga, finalizou o mestrado recentemente e está se preparando para o doutorado. Já foi doula e é mãe de dois filhos. Ela tem 30 anos e sua família é de Minas Gerais, parte de Belo Vale e outra parte de Belo Horizonte, local onde ela nasceu. Jamile é jornalista e nos conta o quanto ser jornalista exige da vida - exige do que ela é - mesmo sendo apaixonada pela profissão (e, dentro da profissão, pelo jornalismo esportivo). Ela nasceu em Piracicaba, interior de São Paulo e chegou em Brasília com a família aos 16 anos descobrindo uma cidade totalmente diferente das outras que conhecia. Quando elas se conheceram, em 2019, o que sentiam (e o que poderiam sentir) ainda era muito incerto. Foi através de um aplicativo de relacionamentos que se conheceram e marcaram um encontro e, neste dia, a Jamile estava se sentindo um pouco triste, não queria ir. Foi num aniversário antes e uma amiga a incentivou, disse que poderia ser uma pessoa legal, era uma oportunidade. Por estar no aniversário antes, já estava com pessoas, bebendo e conversando, então quando ela chegou trouxe consigo uma animação que descontraiu o primeiro momento sem conhecer a Raquel. Elas se deram bem, ficaram e começaram a se relacionar a partir daí. Mesmo que um relacionamento vá se construindo de forma natural no começo, elas contam como foi lidar com a ansiedade e a depressão e entender os limites de cada uma. Para a Jamile, por exemplo, entender que não seria uma carga, um peso a mais ou algo do tipo na vida da Raquel. E, também, a Raquel explica sobre esse momento de assumir um namoro, que a fez refletir em várias coisas entendendo que era uma mãe solo, que precisava diariamente dar conta de muitas coisas na vida e do que isso iria demandar, se estava realmente preparada e sentiu medo de não conseguir estar cem por cento na relação. Ambas tinham seus medos, mas conseguiram equilibrar tudo aos poucos, mostrar uma para a outra o que sentiam e conversar sobre isso. Entender seus limites, colocá-los de forma amorosa e visualizar as diferenças com amor também. Segundo a Raquel: “Olhar e dizer: te aceito e tô aqui.” Morar tão próximas facilitou diversas coisas, ainda mais no momento mais intenso da pandemia de Covid-19, em 2020 e 2021. Os filhos da Raquel ficaram um ano sem escola, todos estavam dentro de casa e ter a Jamile por perto era muito importante. Elas também têm o apoio da família (Raquel, inclusive, ama a família da Jamile e eles se dão muito bem), mas para a Jamile viver o processo de “saída do armário” foi um processo prévio bastante intenso. Hoje em dia, para além da família, Jamile conta sobre como as pessoas questionam ela sobre ela assumir e maternar os filhos da Raquel. Ela explica que nunca se colocou neste lugar e que não quer ter filhos, também não gostaria de se ver o tempo todo nesse questionamento. Ambas valorizam a independência, o tempo sozinhas ou juntas e sabem que, se assim desejarem, vão ter uma relação saudável com as crianças. Essa relação já existe, inclusive - elas adoram a Jamile, o quanto ela brinca com eles, eles visitam as gatinhas dela… Tudo é uma questão de naturalidade sobre o relacionamento que as duas possuem, enquanto mulheres que se amam, e que as crianças acolhem também. Elas falam o quanto falta conhecer mais mulheres que têm filhos ou que estão em situações como as que elas vivem, ser uma mãe solo e namorar outra mulher. Jamile explica que sempre viveu uma heterossexualidade compulsória e ter essa noção a fez mudar muitas coisas, inclusive o entendimento sobre a forma de se relacionar com alguém. Ela nem conseguia imaginar uma relação saudável como a que tem hoje ou de que alguma pessoa a conheceria como a Raquel conhece e escolheria ficar, não iria embora na primeira oportunidade, que segue ali e ama de verdade. Já viveu muitas relações “de vidro”, como ela mesma colocou: são relações que na hora do conflito, se ela não ceder, a pessoa pode pegar, jogar no chão e quebrar toda a relação. Com a Raquel, aprendeu que as relações podem ser “de borracha", serem maleáveis, se caírem no chão, juntam, limpam e cuidam, com conversa e afeto, tentando entender a dor. Raquel completa a fala da Jamile, explicando que o ato de gostar de alguém era sempre algo envolvendo interpretar um papel. Ficar comprovando algo, ser o que a pessoa queria, pois se não fosse, teria medo dela ir embora… e que agora não é mais assim. Elas estão juntas porque ambas querem, independente de qualquer papel. Estão conectadas e são gratas à isso. Jamile Raquel
- Melina e Acácia | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Melina estava com 34 anos no momento da documentação, é professora de música e artista. Atua em diversos eventos na cidade, dá aulas (inclusive para pessoas com deficiência) e trabalha com diferentes etapas da produção musical: da escrita de partituras à edição e masterização de áudios. Está finalizando a graduação em licenciatura em música pela UFPA. Nasceu em Belém do Pará e possui uma trajetória muito ligada à arte e à cena musical paraense. Acácia estava com 28 anos no momento da documentação. Também é paraense, nascida e criada em Belém. Psicóloga, atua na área clínica de reabilitação e é apaixonada pela cultura. E foi justamente essa cultura (mais especificamente a cena musical LGBT) que aproximou as duas. Melina toca há anos no Rebuw, bar conhecido por acolher o público LGBT - especialmente as mulheres. Durante os domingos, o espaço recebia o projeto Sapa Session, um ‘pagode de sapatão’ que lotava o bar com mulheres se apresentando no palco. Acácia frequentou algumas dessas edições e, em uma delas, viu Melina tocando. Já conhecia Melina por vê-la na cena artística da cidade, até que em novembro de 2023, depois do Sapa Session, resolveu segui-la no Instagram. Melina, ao ver a notificação, achou Acácia linda e seguiu de volta, mas nenhuma das duas puxou conversa. No evento seguinte, novamente no Rebuw, Melina a reconheceu na plateia com uma amiga e, sem querer, ficou reparando demais nela, brinca que era quase deselegante, o que causou uns “gays panics”. Quando o show terminou e foi guardar o equipamento, criou coragem, foi até Acácia e se apresentou, mas não continuou uma conversa, disse seu nome, prazer, e saiu em seguida. A situação foi tão inusitada que nenhuma das duas entendeu direito o que tinha acontecido. Acabou sendo uma situação engraçada. Nunca fazia isso com ninguém… Nem Acácia, nem a amiga entenderam direito. Em dezembro, pouco tempo após a primeira interação no bar, Melina e Acácia se reencontraram em um evento que misturava show e festa, em outro local da cidade. Com amigas em comum, passaram a noite bebendo e curtindo. Quando começou a tocar o brega paraense com seus melodys, tecnobrega e clássicos regionais, as duas - que amam dançar - se encontraram e passaram duas horas dançando sem parar. Não conversaram, não se beijaram, não fizeram nada além de dançar muito. Mesmo depois de tanto tempo dançando, foram embora sem trocar palavras. Melina elogiou o quanto Acácia era cheirosa e só. Quando o dia já estava quase amanhecendo, Acácia mandou uma mensagem para Melina agradecendo pela dança e pela noite. A partir daí, começaram a conversar e passaram todo o domingo trocando mensagens. Na segunda, Acácia não estava se sentindo bem, e Melina, que estava dando aula perto do trabalho dela, decidiu levar algo para ela comer. Para Acácia, foi uma surpresa total, ela não acreditou quando Melina disse que estava lá embaixo com comida esperando por ela. Ela nem esperava esse tipo de gesto vindo de alguém que conhecia há tão pouco tempo. Ficou tão inacreditada que quando desceu já foi com o celular gravando. Tinha dez minutos de intervalo entre um trabalho e outro e foi o bastante para conversarem rapidamente. Acham engraçado essa primeira interação, foi diferente e especial. Melina também não entendia direito como tinha tido coragem de ir até lá, não era algo que ela fazia, mas sabia que já gostava de Acácia de algum jeito. Mesmo sem planos de namorar ou de tomar iniciativas, algo ali já era diferente. Melina e Acácia seguiram se conhecendo nos dias que seguiram e tudo foi bastante rápido, mas com a leveza que queriam. Conversavam muito sobre trabalho, a rotina e a vida. Quando pensavam em se encontrar para comer algo, escolhiam o Rebuw, bar que já fazia parte da vida de ambas e que amavam. Acácia conta que o Rebuw virou um espaço de conforto: além da comida boa e da proximidade com o trabalho, passou a se sentir acolhida, antes mesmo de conhecer Melina. Lá criou laços com quem trabalha no bar, e a frequência dos eventos faz dar vontade de frequentar cada vez mais. Para ela, é fundamental que existam espaços como esse, voltados para mulheres, onde possam se sentir seguras… saírem dos ambientes tradicionais que muitas vezes são pensados para nos acolher. Mesmo com a conexão entre elas aumentando consideravelmente, Melina e Acácia ainda não haviam se beijado. Passavam o dia conversando e, às vezes as noites também, por chamadas de vídeo ou pessoalmente. Melina havia decidido que só se envolveria de novo se pudesse conhecer alguém de verdade antes, e assim foi. Conversaram sobre planos de vida, limites, sonhos, opiniões sobre assuntos polêmicos… e perceberam que não queriam parar de conversar. Tanto que foram duas semanas de convivência intensa: já conheciam até ambas famílias. Entenderam que estavam gostando uma da outra, mudaram até a notificação dos celulares para não perder suas notificações a cada mensagem. Depois desse tempo, o beijo aconteceu: Acácia dormiu na casa de Melina após um show e finalmente se beijaram. Foi um momento de cuidado, carregado de afeto, responsabilidade e principalmente a escuta, o que priorizam até hoje. Poucos dias depois do primeiro beijo, Acácia adoeceu e Melina ficou visivelmente apreensiva. Acácia estranhou a reação, mas não comentou muito. O que não sabia era que Melina já estava preparando um pedido de namoro todo elaborado: aconteceria no show que ela faria no final de semana seguinte, no Rebuw, claro! Queria que tudo estivesse perfeito (inclusive a saúde de Acácia). Mobilizou amigas, combinou com a equipe do Rebuw e montou um repertório romântico único. Quando chegou ao show, Acácia percebeu que havia algo diferente no ar, mas nem imaginava que era o pedido. Até que, em meio à apresentação, o momento chegou: o bar estava lotado, recebeu um buquê com as alianças e Melina anunciando o pedido. Ficou em choque, emocionada. A filmagem do pedido viralizou nas redes sociais e, por dias, elas viveram esse momento recebendo mensagens afetuosas. Sentiram que aquele gesto ultrapassou o próprio namoro porque inspirou outros casais e fez diversas mulheres se sentirem representadas. Como tudo aconteceu às vésperas do Natal, passaram a celebração juntas, em família. Brincam que a ceia foi quase um banquete em homenagem ao novo relacionamento. Mas foi, também, um momento simbólico: estar entre as famílias, de forma aberta, dizendo quem são e quem amam. Isso é o mais importante. Melina, por exemplo, levou quase dez anos para ser aceita e nunca tinha vivido uma celebração dessa forma. Esse início, marcado por cuidado, coragem… selou o que buscavam: estavam vivendo um amor para ser visto, não escondido. Queriam celebrar. E sentia que poderia confiar na relação. Melina e Acácia reconhecem que o início foi acelerado, mas foi o tempo certo. Tudo fluiu de forma intensa e natural. Depois disso, passaram a seguir os próximos passos com mais calma. Quando surgiu a possibilidade de morarem juntas, Acácia ainda tinha medo. Estava terminando de mobiliar um apartamento alugado e Melina propôs: “bora, bora juntas.” Ela disse não no início, o medo existia por conta de outros relacionamentos em que viveu dividindo um lar. Melina resolveu insistir, ao menos para conhecer o lugar. Quando chegou, sentaram no chão, com a sala ainda vazia e conversaram sobre o que significaria dividir a vida naquele espaço. O começo da relação foi como se vivessem antes do mundo acabar: faziam tudo a todo tempo. Era muito intenso, acelerado. Até que olharam uma para a outra e entenderam: estavam cansadas. Não dava para viver em ritmo de maratona todos os dias. Decidiram ir ao cinema para desacelerar, mas o cansaço era tanto que dormiram durante o filme. Resolveram ouvir o cansaço e pisar mais lento. A mudança para o apartamento veio no início de 2024. Fizeram um chá de casa nova e, depois, foram morar mais afastadas do centro da cidade. Hoje, brincam sobre como tudo mudou: já não vivem naquele ritmo, são mais caseiras e estão em paz com isso. Melina diz que essa é a relação mais saudável que já viveu. Admira a inteligência emocional de Acácia e juntas encontram um equilíbrio leve. Sente que é muito bonito e verdadeiro o quanto querem crescer - e crescem - nessa caminhada. ↓ rolar para baixo ↓ Melina Acácia
- Documentadas - O Livro | Documentadas
Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! documentadas - o livro quer ver ele por aí? seja na livraria mais próxima de você, em um bate-papo na sua cidade ou na estante da sua casa: entre em contato com a editora ou adquira um exemplar no site da Funilaria! clica aqui! como ele surgiu? no livro sobre o documentadas há uma seleção de histórias que trazem um pouco da grandiosidade do amor. ele é a materialização desse projeto que está há anos percorrendo o brasil em busca de contar nossas histórias e reconhecer as mulheres sáficas brasileiras enquanto mulheres diversas - com infinitas histórias, realidades e recortes. nas histórias presentes no livro temos diversas cidades do brasil, classes, idades, mas o que une tudo é o fato das mulheres estarem dispostas e serem corajosas em nome do amor. este livro é o primeiro documento brasileiro que se dispõe a contar histórias reais em forma de fotolivro sobre casais formados apenas por duas mulheres. um motivo de celebração para toda a comunidade lgbt. monica benício "esse livro e esse projeto não são apenas peças importantes para nossa história e a nossa cultura. eles são, antes de tudo, ferramentas para a transformação do nosso mundo. um mundo para as mulheres." contando com um prefácio de monica benício, que tanto nos representa na política brasileira (mas não só - numa trajetória de militância que transpassa a política), na sua escrita traz recortes sobre a representatividade e a documentação finalmente nos contarem essa história que foi tão apagada. e dessa vez através do amor, de forma corajosa, com histórias de mulheres inspiradoras que nos impulsionam a desejar seguir nossos sonhos em frente. mariana mortani "uma afirmação da beleza e da profundidade desses relacionamentos que muitas vezes foram deixados de lado." prefácio & posfácio contando com o posfácio da mari mortani, que tem uma trajetória incrível na literatura LGBT+ como roteirista, tradutora e produtora de conteúdos sobre literatura sáfica, ela também fundou o clube sáfico e o podcast chá das quatro, que o doc tanto ama e admira. ter ela no livro é parte importantíssima, explicando o motivo da representatividade e da documentação caminharem juntos. encontre o livro aqui ficha técnica que fez o livro ser possível: todas as pessoas que acreditam na potência do doc, obrigada! autora do livro: fernanda piccolo huggentobler coordenação editorial: caio valiengo, marilia jahnel, renata dei vecchio revisão: caroline fernandes e daniel moreira safadi capa: angela mendes projeto gráfico: angela mendes diagramação: camila provenzi áudios: isadora volino o livro conta com + de 35 casais documentados
- Cynhia e Leylane | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Cynthia estava com 33 anos no momento da documentação, é natural de Recife, nascida e criada no bairro que fizemos as fotos: em Santo Amaro, na Universidade de Pernambuco. Formou-se em Educação Física, mas hoje em dia trabalha na área de finanças individuais e comportamentais, junto da sua companheira Leylane, que no momento da documentação estava com 38 anos, também formada em Educação Física e que além de atuar na questão financeira sendo consultora e ensinando organização e planejamento financeiro pessoal, também faz parte da saúde pública integrada ao SUS num serviço chamado Academia da Cidade. Leylane entrou na faculdade de Educação Física em 2005, fazendo o curso de licenciatura, depois especialização, bacharelado e mestrado. Como a universidade faz parte da sua vida há tantos anos e gosta muito desse espaço, passava muito tempo por lá. Cynthia, por sua vez, fazia parte de um projeto social da universidade que trabalhava com crianças e adolescentes da comunidade - ela, no caso, uma moradora da comunidade, frequentava a universidade antes mesmo de ser uma aluna. Ou seja, ambas viviam na universidade tanto tempo que nem sabem dizer quando de fato se conheceram, é como se sempre estivessem ali. Por mais que exista 6 anos de diferença na idade entre elas, ainda eram muito jovens e Cynthia, alguns anos depois (em 2011) passou para o vestibular. Nesse momento, todos já se conheciam - ela era amiga tanto dos professores, quanto dos amigos em comum da Leylane - e torciam para ela entrar no curso de educação física. Nessa época, Leylane já havia se formado em licenciatura e cursava bacharelado, foi quando se encontraram enquanto colegas. Leylane conta que se reencontraram num dia que ela foi jogar handebol e Cynthia fazer uma aula de dança, soube que ela estudaria na Universidade e parabenizou, disse que seria muito legal estudarem juntas… Quando as aulas começaram, ficaram na mesma turma e começaram a passar mais tempo do que imaginavam conversando. Leylane chegava do trabalho e Cynthia separava uma cadeira ‘de pessoa canhota’ para ela sentar, sempre faziam os trabalhos de aula juntas, passaram o semestre todo muito próximas, conversavam muito por SMS e, na época, “Oi Torpedo”… Até então se viam apenas como amigas, até que um dia conversaram sobre essa amizade estar “muito colorida” e sobre o medo do que poderia acontecer. Pensaram: “É muito bom, mas se melhorar estraga, então acho melhor ser só isso mesmo.” Porém, ao mesmo tempo, não queriam ficar longe uma da outra. Cederam à vontade e ficaram juntas. Mesmo com medo e pensando que não daria certo, dez dias se passaram e ficaram novamente. Desde então, continuaram. No início não nomearam aquela relação - ou o que sentiam. Aos poucos, como se entendiam enquanto mulheres heterossexuais, chegou num momento que conversaram sobre e decidiram não manter relações com os homens que mantinham antes, até porque iriam se machucar se continuassem. Eram muito mais felizes juntas, não precisavam de nenhum tipo de heterossexualidade compulsória. Todo o relacionamento de Cynthia e Leylane, no começo, era em segredo. Havia muito medo sobre o que as pessoas iriam dizer - elas mesmo estavam descobrindo aquele sentimento, tudo era novidade, e lidar com julgamentos não seria algo fácil. Só dois amigos sabiam (os mais antigos) e desde antes mesmo delas se relacionarem eles sentiam que existia algum sentimento ali e já “avisaram” sobre, então de alguma forma demonstraram apoio (e até hoje são amigos). Como outros amigos e, principalmente familiares, não imaginavam, o refúgio e local seguro delas era o campus da Universidade. A faculdade de educação física se tornou o lugar onde poderiam estar juntas sendo quem elas são, num cantinho - e, durante a documentação, lembram saudosamente os lugares que sentavam e ficavam juntas passando o tempo - só para poderem viver sem esse julgamento. Cerca de 6 meses depois, a mãe da Cynthia acabou descobrindo o namoro e, por mais que no momento ela tenha negado, no dia seguinte resolveu contar a verdade. Na hora, a relação dela foi bem ruim, disse coisas difíceis de ouvir, e mesmo gostando da Leylane (porque a conhecia enquanto amiga da Cynthia) verbalizou que preferiria ver sua filha se relacionando com uma pessoa que não tivesse uma boa vida (se envolvesse com drogas, por exemplo). Na hora, Cynthia defendeu a relação que elas possuem e a realidade da comunidade onde viviam, então saiu e buscou ajuda na casa de uma amiga. Um dia depois, a mãe da Cynthia contou para a mãe da Leylane e, por mais injusto que fosse elas não terem tido o momento e o processo do seu próprio tempo para conversarem com suas famílias sobre seus relacionamentos, foram proibidas de se encontrar. Novamente, a faculdade seguia sendo o refúgio dos encontros. Depois de cerca de quatro anos e diversas formas de lidar, Cynthia e Leylane foram seguindo o relacionamento e enfrentando o preconceito familiar, até que a mãe de Cynthia cedeu e resolveu voltar a aceitar Leylane em sua casa. Foram anos se encontrando na faculdade, na casa de amigos - que sempre foram grandes parceiros e colaboraram para que elas tivessem locais seguros onde ficar - ou em pousadas por Olinda e Recife. Aos seis anos de relação, Leylane passou em um concurso na cidade de Moreno. Financiaram um apartamento numa cidade próxima, Jaboatão, região metropolitana de Recife, e se mudaram. Brincam que queriam tanto morar juntas que já tinham um móvel em casa (guarda-roupa) que guardava só coisas de cozinha (panela, colher, vasilhas…) esperando o momento chegar - e entendendo que não teriam ajuda para a mobília. Então de tempos em tempos compravam coisas e guardavam. Conseguiram, no fim, alguns presentes da família - como eletrodomésticos - e ficaram bem felizes por isso. Em 2018, alguns anos depois, oficializaram o casamento com os documentos e direitos civis respeitados, pensando na importância que isso representa por serem respeitadas enquanto uma unidade familiar. Não iriam fazer festa, mas a mãe da Leylane deu a ideia de comemorarem com um bolo de noivas, chamou alguns familiares; O primo cozinhou, a prima ajudou, alugaram um salão de festas, compraram bebidas e comemoraram como mereciam. No momento da documentação, Cynthia e Leylane já estavam morando em Recife novamente. Desejavam trabalhar com algo que fosse delas, mesmo na área de educação física, e quando Cynthia conheceu o marketing digital e a educação financeira entendeu que gostava de trabalhar nessa área. Leylane havia feito alguns cursos de finanças para uso pessoal, administrando as próprias contas e sempre soube ensinar por conta de ser professora, então resolveu começar a compartilhar os estudos… foi assim que acabaram entrando de vez na área. Admiram o quanto dão certo trabalhando juntas e acreditam que isso é reflexo de tanto tempo de relação e de tudo o que já enfrentaram nesses anos. Ficam muito felizes quando veem os amigos e os familiares admirando o amor que possuem, quando voltam na universidade e os professores ficam felizes em revê-las depois de tanto tempo, sabendo que esse amor começou ali. Hoje em dia adoram andar de bicicleta, ler, sair para beber, dançar pagode, reunir os amigos, conversar (problematizar as coisas… inventar conversas complexas) ou compartilhar os assuntos que estão lendo. Confessam, também, que adoram passar o tempo trabalhando juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Cynthia Leylane
- Roberta e Laura | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Laura estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Sapiranga, uma cidade interiorana do Rio Grande do Sul, mas mora em Porto Alegre há cerca de 8 anos. Chegou na cidade para estudar dança e hoje em dia trabalha com dança dando aula em alguns projetos para pessoas com deficiências intelectuais e para crianças. Paralelamente, também é professora de inglês, trabalha em uma instituição que promove imersões na língua inglesa. Nessas imersões, ela mistura a dança, outros professores entram com esporte, culinária e a ideia é fazer o inglês ser praticado em um ambiente de “vida real”. Fora do meio profissional, Laura entende que é uma pessoa bastante ligada à família. Foi sua família quem a colocou na dança, alguns familiares são músicos e sempre agradece o ambiente cultural que cresceu e que vive até hoje, percebe o quanto isso fez com que ela se tornasse alguém que adora estar entre as pessoas, gosta de se aventurar e de conhecer o mundo. Roberta estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Canoas, região metropolitana de Porto Alegre. Durante a adolescência se mudou para a capital para estudar na faculdade e começou a trabalhar como educadora social num clube para pessoas com deficiência. Esse trabalho durou seis anos (e é um dos lugares que a Laura trabalha hoje em dia). Conta que foi trabalhando lá onde mudou sua forma de pensar sobre a vida, ainda mais no mundo que vivemos hoje em dia com redes sociais onde tudo tem filtro e é tão perfeito - pensado o tempo todo, medido e tendo que estar sempre lindo. Lidar com pessoas com deficiência é entender a sinceridade e a realidade da vida: elas falam o que querem falar, de uma forma simples e muito mais fácil, então aos poucos Roberta sentiu que era melhor ser assim do que viver nesse “filtro” que não era real. Falar o que sentia, ir onde quer ir, não ir onde não quer, ser mais real consigo mesmo. No meio desses aprendizados, criou um curso chamado “Ação Caminhos Para a Diversidade” sobre anti capacitismo, abordando temas como sexualidade da pessoa com deficiência, oportunidades de trabalho e privação da maternidade. Todo esse processo de estudo fez Roberta entender muito sobre si, sobre quem ela é e estudar sobre seus comportamentos sociais. Hoje em dia, observa que existe outra Roberta, principalmente depois da pandemia de Covid-19. Uma Roberta muito mais caseira, que adora arrumar a casa, fazer decorações, pintar e criar coisas manuais. Quando Laura chegou na faculdade, em 2017, entrou para um projeto de extensão chamado Diversos Corpos Dançantes, uma proposta de dança com habilidades mistas envolvendo pessoas com e sem deficiência. Laura era bolsista e foi a primeira vez que trabalhou com práticas de danças acessíveis, lá conheceu uma amiga e passaram a estudar bastante sobre acessibilidade juntas. Em 2019, Laura fez uma mobilidade acadêmica e foi estudar em Salvador, nos meses que ficou fora sua amiga começou a trabalhar num lugar novo - e conheceu Roberta. Na versão de Roberta, quando ela conheceu a amiga de Laura, só ouvia falar sobre Laura: “Tu me lembra muito a Laura”, “Nossa você e a Laura iriam se dar muito bem!”... Era tanto que passava um pouco dos limites. Quando Laura voltou de Salvador, soube da existência da Roberta e, durante uma Mostra de Dança Inclusiva, em novembro, elas se conheceram. Roberta ia se apresentar com os alunos, estava com uma roupa azul, toda pintada, brinca que parecia um grande pavão. Quando viu Laura entendeu o motivo de todos aqueles elogios que ouviu por meses. Mas, naquela época, Roberta vivia um relacionamento, estava noiva e só entendeu o nervosismo porque achou Laura admirável, mas não aconteceu nada além. Naquele contexto começaram a se seguir nas redes, mas não interagiram. Nos meses seguintes a pandemia de Covid-19 chegou, Laura voltou para a casa dos pais no interior, Roberta terminou o relacionamento e suas vidas passaram por grandes mudanças. Um tempo depois, no meio da pandemia, Roberta estava respondendo uma brincadeira no Instagram e postou sobre estar solteira. Laura respondeu a brincadeira, iniciando um flerte… Roberta jamais esperava essa resposta e ficou bastante nervosa, ignorou ela por alguns meses, não se sentia preparada para flertar, enfrentava momentos delicados na pandemia e quando se sentiu pronta começou a interagir melhor. Durante uma parte da pandemia, Laura trabalhou com algumas ações de dança na internação psiquiátrica do hospital, então acabava tendo um grande contato com a área da saúde e precisava fazer testes a cada 3 dias. Isso influenciou na demora para se encontrarem, até que marcaram um almoço num feriado. Depois do almoço, Laura queria logo comer as outras coisas que seriam para comer mais tarde (pão, bolo…) e pediu se Roberta se importaria. Ela achou positivamente engraçado, mas disse que não, que adoraria, e na hora que Laura se levantou do sofá disse que gostaria de fazer algo antes de buscar o bolo, assim beijou Roberta pela primeira vez. Hoje em dia, virou um bordão: quando levantam do sofá, soltam o “mas antes, quero fazer uma coisa” e se beijam. O começo do namoro foi bem rápido e aconteceu depois de alguns encontros e conversas onde alinharam o que sentiam sobre o que estavam tendo e o que pensavam sobre as relações humanas e amorosas. Num dia, Roberta saiu da casa da Laura e deixou ela no apartamento ‘trancada’ pois só tinham uma chave, precisou comprar uns remédios, entregar um objeto e no caminho encontrou um amigo que chamou para sentar num bar e atualizar as novidades. Ela contou: “Conheci a mulher da minha vida, tô apaixonada!”. Demorou mais que o previsto para voltar, quando chegou encontrou Laura fazendo yoga na sala com um olhar sério, chamando-a para conversar. Pensou: “Meu Deus, ela vai terminar tudo, acabei de falar que tô apaixonada e que é a mulher da minha vida e agora vou voltar lá no bar e dizer: acabou!”. Laura disse que não queria mais ser uma “futura namorada” para Roberta, que cansou desse termo, e que estava disposta a namorar agora. Roberta lembra da sensação de pavor que sentiu, falou “Nossa, guria, que cagaço tu me deu!”. Começaram o namoro e meses depois foram morar juntas por questões financeiras, num apartamento que viveram durante pouco mais de um ano. Sentem que tudo fluiu muito bem, mesmo sendo no começo da relação, morarem juntas foi a escolha mais racional. A única coisa que se arrependeram foi o fato de Laura ter virado a síndica do prédio, isso causava mais stress que qualquer outra coisa, e não compensou o desconto nas contas. Mas hoje, é uma parte até cômica da história, virou “história boa pra contar - a síndica sapatão do prédio”. Roberta e Laura contam como o período das enchentes em Porto Alegre foi impactante e marcante para elas, como é importante documentar esse momento vivido, além da importância histórica e política, mas também pela forma que se cuidaram e seguem apoiando até hoje por contas das marcas e atravessamentos que causou. Já estavam morando no apartamento que residem atualmente - e consideram isso fato importante porque no local que moravam meses antes da enchente certamente teriam perdido muitos itens pessoais e móveis, por ser no térreo e numa região que foi bastante atingida. Porém, mesmo nesse novo lar em andares superiores, ainda estavam sem água e luz, com a rua alagada. Foram para a casa de amigas em um bairro vizinho. Três dias depois, o bairro também foi afetado e as águas subiram rapidamente. Ficaram sem saber para onde ir, até conseguirem um apartamento vazio e irem juntas para lá. Foram dias dormindo no chão, comendo coisas prontas porque não havia como cozinhar, ficando sem tomar banho… Chegaram no limite, até Laura pedir para a mãe dela vir de Sapiranga buscá-las. Era um caminho delicado porque as estradas estavam difíceis, ela tinha bastante medo. Um caminho que leva até menos de 1h em dias comuns, levou 6h naquele dia. Quando chegaram na casa da família de Laura e tomaram um banho, comeram arroz, se olharam entre todas as mulheres e refletiram tudo aquilo que estavam vivendo, viram o significado de união e de família. Entendem que a experiência das enchentes foi muito sensorial: ouviam os helicópteros, as ambulâncias, sentiam a falta d’água, a falta das coisas nos mercados… Todas as dores de ver quem amam perdendo suas coisas, o medo, a insegurança. Foram momentos muito difíceis. Era muito importante reconhecer estar vivendo esse momento com mais duas mulheres, se ver enquanto amigas se apoiando, LGBTs, nossas famílias. Foram duas semanas vivendo em Sapiranga até voltarem para Porto Alegre e participarem da reconstrução da cidade - e entendem que tudo o que acontece até hoje é parte dessa reconstrução. Até hoje pagam as contas de luz daquela época (porque passaram meses sem conseguirem medir), Laura passou a trabalhar muito mais depois do acontecimento, entendem que existem várias consequências que silenciosamente estão presentes no cotidiano e na saúde mental, por isso o acolhimento e o lar enquanto lugar seguro são prioridades dentro da relação. Laura sente o amor presente na rotina, na construção da relação. Quando lembraram sobre a vivência das enchentes em Porto Alegre, reforçaram quanto apoio existiu. Brincam que tinha um dia para cada uma ficar mal “Hoje estou mais triste, então você me apoia, amanhã você fica mais triste que aí já vou estar fortalecida e te apoio…”. Era a forma que encontravam de segurarem a barra no momento extremo, mas entendiam que era uma forma de proteção também. Agora, após alguns anos juntas, visualizam que passaram pelas suas finalizações na universidade, pela pandemia, pelas enchentes, por duas casas, montaram um novo lar juntas… Então, foram encontrando o balanço, a rede de apoio, formaram a família que gostariam de ter. Laura comenta que quando começaram a namorar, fazia apenas dois meses que seu pai faleceu por conta da Covid-19, e Roberta acompanhou seu luto recente. Eram dois sentimentos conflitantes: a dor grande por perder um amor e uma paixão chegando com um novo amor. Foi um processo novo para Laura e, ao mesmo tempo, um processo que Roberta acompanhou de perto a família de Laura vivendo, visto que são muito unidos. O amor também esteve nesse lugar de acolher desde o início. Roberta conta que aprendeu uma nova forma de amar, com uma nova comunicação, com maior liberdade e saindo de lugares traumáticos. Aprendeu a sair de lugares em que precisava fazer tudo sozinha, aprendeu que pode confiar, aprendeu a dividir algumas tarefas que parecem tão básicas mas que sobrecarregam… Nas palavras dela: descobriu que o amor é possível. E, junto da relação, ganhou a nova família - a família da Laura e a família que deseja construir com a Laura, agora que estão com os planos de entrar na fila de adoção em breve. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Roberta
- Opa, tão nos copiando por aí? | Documentadas
Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! • como copiar o doc • que esse projeto é lindo a gente já sabe que todo mundo deseja ter um doczinho pra chamar de seu? é óbvio! mas tem gente ultrapassando os limites para chegar nesse objetivo papo reto: o doc é estudado projetado desenhado... não vamos aceitar cópia barata & cafona por aí. então, decidimos: opa, mas calma. caiu aqui de paraquedas e não tá entendendo nadinha? vem conhecer o doc antes! ♥ agora sim, parte 1: a nossa fonte > os nossos lambes a frase "toda mulher merece amar outra mulher" foi adotada pelo .doc a partir de uma documentação que fizemos na casa de um casal [e fotografamos ela em um objeto] em 2021. na época, postamos algumas vezes e recebemos alguns comentários dizendo que deveríamos fazer um adesivo com ela estampada. e não é que deu certo? foi crescendo, crescendo, e virou a cara do documentadas, sendo usada principalmente nos nossos lambes. até então, não disponibilizávamos esses lambes para colarem por aí, acreditamos que ele é a forma que o doc ocupa as ruas enquanto arte. mas agora você pode obter ele clicando aqui: baixar moldes dos lambes aqui #olha a dica! para colar os lambes direitinho, se liga nisso aqui: - pincel ou rolinho na mão; - superfícies lisas >> e não inventa de colar lambe em local privado sem autorização! por favor! dê preferência à postes e converse com o dono do local antes de sair colando por aí; - cola tipo PVA + água, misturadas em um recipiente, não deixando nem muito denso, nem muito líquido; - chama alguém para te acompanhar, não indicamos fazer a colagem sozinha; - deixa o lambe liso com a cola bem espalhada, assim garante a durabilidade :D espalhar a frase por aí com a nossa fonte e a nossa logo é importante para garantir a identidade e a representatividade do projeto, fazendo com que ele seja reconhecido facilmente e amplamente divulgado - afinal, é assim que chegamos em mais mulheres , né? não edite esse material nem recorte a nossa logo dele. colabore com a arte. parte 3: outros produtos do .doc temos outros produtos de alta qualidade que só a gente faz: quadros, camisetas e postais. esses, você encontra na nossa loja. ó a loja do doc, que linda • para entender melhor • por que a pirataria é mais barata? - material de baixa qualidade; - produção em escala absurdamente maior; - possuem fabricação própria; - não estudam e desenvolvem o material, apenas pegam o que já existe de artistas que produzem; - não possui serviço online de retorno (atendimento) - não enviam para todo o Brasil por que os produtos do .doc custam esse valor? - temos um material de melhor qualidade - não possuímos fabricação própria, inclusive temos gasto de frete buscando na cidade de fabricação; - pagamos uma plataforma de venda; - pagamos taxas bancárias a cada venda; - não temos equipe, tudo é feito por uma pessoa (humana & artista); - pagamos pelos materiais que acompanham a ecobag (panfleto pôster + adesivos brindes) + embalagem + etiquetas; - a ecobag é um produto que garante o projeto a se manter em funcionamento, ainda com margem de lucro pequena; - enviamos para todo o Brasil; - qualquer problema que você tiver com o produto (rasgou, não serviu, foi cobrado errado) estaremos aqui para te atender; vamos ensinar a copiar o doc. //como diria nossa mãe: "quer fazer? faz direito". parte 2: nossas ecobags são elas, as queridinhas da pirataria. para a nossa tristeza: porque a ecobag é o nosso principal produto. que vacilo, né? ainda por cima piratearam ela em comic sans. pô, não dá. pega aqui o molde pra fazer a tua. faz bonito, tá? baixar moldes das ecobags aqui [quer vender com a nossa autorização em alguma feirinha? manda um e-mail para nós através do nosso site ou diretamente para fernanda@documentadas.com ] ah, mas que trabalhão fazer, né? também acho. por isso, nossa ecobag está com 60% de desconto no site depois desse furacão que vivemos. sim, é para zerar o estoque. bora com a gente? vamos encarar a pirataria de frente e fazer a nossa ecobag estar pelo Brasil todo. o que faz do doc uma marca incomparável com a pirataria? somos um projeto artístico, estudado e executado com respeito. além disso, em cada produto adquirido você contribui para que mais mulheres tenham suas histórias registradas por todo o Brasil, num documento inédito e que, até o início do projeto, era inexistente. adquirindo um produto pirata, você só contribui para a desvalorização da arte.
- Mundana e Mel | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Melina nasceu em Fortaleza, mas cresceu dividindo a vida entre o Ceará e a Serra Gaúcha. Desde os 10 anos de idade passava alguns meses do ano no Rio Grande do Sul com a família, até que, depois dos 20, decidiu se mudar de vez. Primeiro foi para a Serra e, em 2023, chegou em Porto Alegre. Gosta de arte e de criação em diferentes formas: já experimentou vários instrumentos musicais, mas foi na guitarra que o amor permaneceu. Também gosta de fotografia e começou recentemente a cursar Psicologia. Atualmente, constroi uma carreira como streamer de jogos. Mundana é natural da região metropolitana de Porto Alegre. Saiu de casa aos 16 anos, depois que a família não aceitou sua sexualidade. Conta que viveu uma infância marcada por negligências e que a situação piorou quando se apaixonou por uma mulher. Na tentativa de afastá-la desse relacionamento, a família chegou a levá-la para o interior de Santa Catarina, acreditando que deixá-la longe do contato com a cidade poderia “corrigi-la”. Mas ela encontrava caminhos para escapar até Florianópolis e viver a vida queer que desejava. Foi na noite, nas festas underground, nas galerias de arte e nos movimentos artísticos que encontrou pertencimento. Quando voltou sozinha para Porto Alegre, ainda adolescente, começou a construir sua própria vida dentro desse universo criativo. Hoje trabalha como drag queen, atriz e criadora de conteúdo, tanto para si quanto para marcas. Moda, maquiagem e estética fazem parte do seu cotidiano e também como um grande hobbie: ela adora maquiar a Mel, brinca que a transforma em uma grande Barbie pessoal. Também cultiva hobbies onde pode simplesmente existir sem cobrança: faz cerâmica fria, colagens, cria objetos para casa e mergulhou no design de interiores decorando o novo lar - talvez esse até seja seu novo maio passatempo: imaginar e construir espaços. No começo de 2026, Mel e Mundana se conheceram através de um aplicativo. Antes mesmo do primeiro encontro, começaram a conversar sobre o que estavam buscando ali. Mundana comentou que era monogâmica e romântica incurável (algo que hoje, segundo ela, parece quase fora de moda nos aplicativos). Mel sentiu um alívio imediato ao ouvir isso, porque também procurava o mesmo tipo de conexão. As duas estavam desacreditadas dos relacionamentos, mas ainda abertas à possibilidade de encontrar alguém que valesse a pena. O primeiro date foi simples: saíram para beber cerveja e conversar. Mas chegaram ansiosas e emocionalmente distantes. 2025 foi um ano muito duro para elas. Mundana havia saído de um relacionamento longo e conturbado, e Mel também havia tido um término recente. Nenhuma das duas se sentia exatamente pronta para se apaixonar. Mesmo assim, alguma coisa aconteceu logo que se encontraram. Mel descreve a sensação como algo quase químico, imediato. Mundana percebeu outra coisa: o silêncio entre elas não era desconfortável. Elas conseguiam simplesmente existir juntas, em paz. No dia seguinte ao encontro, Mundana viajou para Florianópolis para passar o carnaval. Tentou aproveitar a solteirice, sair, curtir a festa, mas não conseguia parar de pensar em Mel. Enquanto se arrumava para os blocos, fazia chamadas de vídeo, mostrava looks, pedia opinião sobre maquiagem. Mel, do outro lado, também tentava se conter para não parecer emocionada cedo demais. Mesmo tentando “não queimar a largada”, as duas seguiram conversando o tempo inteiro. Quando Mundana voltou de Floripa, Mel foi buscá-la na rodoviária levando seus chocolates favoritos de presente. Mundana conta como aquilo marcou e ela achou extremamente fofo, e foi um dia especial porque de lá, não se desgrudaram mais. Os encontros passaram a ser diários, dormiam uma na casa da outra, a relação cresceu de forma natural, como se encontrassem um descanso uma na outra. Depois do carnaval, elas praticamente passaram a viver uma na casa da outra. Mel dormia no apartamento de Mundana quase todos os dias, Mel buscava ela no trabalho e a rotina começou a se construir sem que precisassem planejar muito. Em determinado momento, Mundana começou a ajudar Mel a procurar um apartamento, pois ela precisava se mudar e seria ótimo se morassem mais próximas. Foram visitar alguns lugares juntas, encontraram alguns apartamentos, mas todos pareciam muito grandes. Aos poucos, perceberam que a conversa tinha mudado de direção: estavam começando a desejar morarem juntas. Mel já tinha pensado nisso, embora tentasse se convencer de que estava sendo “emocionada demais”, querendo dividir uma casa com alguém que conhecia havia menos de um mês. Mundana, inclusive, tinha estabelecido limites para si mesma depois das experiências anteriores. Queria ir devagar, não repetir padrões impulsivos. Mas, entre elas, tudo parecia acontecer de forma muito natural. Aos poucos, foram percebendo que a confiança que sentiam uma na outra não vinha de impulso, mas de uma sensação muito concreta de segurança. Além do desejo de estarem juntas, havia também a vida prática acontecendo. Cada uma tinha seu apartamento, cada uma tinha um gato, e manter duas casas enquanto passavam todo o tempo juntas começou a ficar cansativo. Um dia, tentando preparar um jantar, perceberam que metade dos ingredientes estava em uma casa e metade na outra. Precisaram atravessar a cidade várias vezes buscando coisas esquecidas e, no meio do estresse, entenderam que talvez aquilo tudo já fosse, de certa forma, uma vida compartilhada. Mundana conta que foi percebendo algo novo dentro daquela relação: pela primeira vez amar parecia fácil. Mesmo nos relacionamentos bons que teve antes, sempre existia a sensação de estar forçando alguma coisa, indo rápido demais ou sendo intensa demais. Com Mel, isso não acontecia. Claro que existia medo, principalmente porque ambas vinham de relações longas e difíceis, mas o amor não parecia pesado. Pelo contrário: parecia simples. Conforme conversavam sobre o futuro, descobriram que queriam as mesmas coisas. Viajar, morar fora do Brasil por um tempo, construir uma vida criativa, trabalhar na mesma área, compartilhar uma casa bonita cheia de referências estéticas, arte e conforto. Aos poucos, tudo foi se encaixando de um jeito tão natural que nenhuma das duas precisou decidir exatamente quando deixou de ser um começo e virou um lar. Mundana conta sobre um vídeo que gravou descolorindo a sobrancelha da Mel e, ao editar depois, perceberam a expressão impossível de esconder: a “cara de apaixonada” dela todo o momento no vídeo. Neste dia, ainda que fosse no começo da relação, Mel deixou escapar falando que estava realmente apaixonada. Ao perceber que disse tão naturalmente, sem pensar, as duas riram um pouco tímidas pela exposição - ainda era cedo demais para nomear aquilo em voz alta, mas o sentimento já estava ali, atravessando os pequenos gestos, os silêncios e a forma como se olhavam. Mesmo apaixonada, Mundana ainda carregava muitos medos. No começo da nossa conversa ela disse que nunca viu o amor como algo fácil de lidar. E, depois de relações difíceis, ela sentia necessidade de observar quem Mel era no cotidiano, principalmente na maneira como tratava outras pessoas. Prestava atenção em como ela falava com desconhecidos na rua, como conduzia o fim do relacionamento anterior e como lidava com alguém com quem já não existia amor romântico, mas ainda existia cuidado. Foi aí que começou a confiar de verdade. Via em Mel uma gentileza muito rara, quase excessiva às vezes, uma forma genuína de tratar as pessoas com respeito. Pela primeira vez, ela sentia que talvez pudesse se entregar sem medo de ver tudo desmoronando depois - e isso a tranquilizou. As conversas entre as duas passaram então a ser muito honestas. Existia amor, mas também existia realidade: diferenças financeiras, traumas antigos, medo de abandono e a necessidade de construir segurança concreta, formas de lidar com o próprio corpo... Mundana precisava saber que, se um dia acabasse, não perderia tudo de novo. Precisava sentir que não seria deixada desamparada. E, aos poucos, foi entendendo que o amor que Mel oferecia não funcionava na lógica da condição. Não era um amor que dependia de desempenho, perfeição ou obediência. Era presença, apoio e acolhimento. No momento da documentação, a mudança para o novo lar havia acontecido há apenas duas semanas, então pergunto sobre como elas estão se sentindo neste começo de lar. Elas entendem que a casa fala de algo que já existia antes mesmo das paredes. Existe uma sensação muito forte de pertencimento ali. Elas contam que fizeram um esforço consciente para transformar rapidamente o apartamento em lar: escolher móveis, pensar decoração, reformar, reorganizar espaços e deixar tudo com a cara das duas. Estão em processo de adaptação das gatas… O que antes parecia um apartamento qualquer agora parece extensão delas. E talvez por isso exista tanta naturalidade na forma como ocupam aquele espaço. Mel fala sobre finalmente se sentir segura dentro de uma casa, segura dentro da convivência e segura ao lado de alguém. Ainda estão se conhecendo enquanto aprendem simultaneamente como é dividir uma rotina, uma cama, um silêncio, uma cozinha e um cotidiano inteiro. Mas, ao contrário do medo que normalmente acompanha mudanças rápidas, elas falam sobre conforto. Nenhuma das duas repensa a decisão de morar juntas. Pelo contrário: existe uma sensação constante de que aquilo fazia sentido desde o começo. E mesmo quando aparecem pequenas questões naturais da convivência, elas percebem que conseguem atravessar tudo sem violência. Sem gritos, sem humilhações, sem disputa de ego. Elas conversam, se escutam e dão espaço quando necessário. Existe uma tentativa muito consciente de acolher a outra antes de tentar vencer uma discussão. As duas também falam sobre como a neurodivergência atravessa o relacionamento de forma muito importante. Mel é autista, e Mundana é bipolar. Ao invés de transformarem isso em rótulos ou acusações, constroem compreensão. Aprendem uma sobre os limites da outra, levam as questões para a terapia, ajustam rotinas e criam espaços de acolhimento quando uma percebe que a outra está desregulada. Existe um esforço constante para não transformar conflito em violência. Quando precisam de espaço, respeitam. Por fim, elas ressaltam como o relacionamento criou um espaço de aprendizado mútuo sobre os próprios corpos, limites e necessidades. Mel é uma mulher trans, Mundana é uma mulher cis, e existe algo muito bonito na maneira como descrevem o processo de descobrirem o próprio corpo: explicar coisas aparentemente óbvias sobre si mesma para a outra, descobrir novas formas de cuidado, entender sensibilidades e perceber que algumas inseguranças deixam de existir quando são olhadas com carinho. Nenhuma delas parece interessada em moldar a outra. Existe uma curiosidade amorosa, uma disposição constante para compreender e uma vontade muito sincera de ver a outra crescer. O amor entre elas aparece menos como idealização e mais como presença. ↓ rolar para baixo ↓ Mundana Melina
- ilscrgo
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- Maju e Alícia | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. A história da Maju e da Alícia fala muito sobre aquele período que vivemos quando estamos descobrindo quem somos, ainda entre a pré-adolescência e a adolescência, elas se conheceram e vivem até hoje juntas, enfrentando muitos desafios (que outros adolescentes nem sonham em viver) e, principalmente, se fortalecendo juntas. Maju hoje em dia tem 17 anos e está se formando no terceiro ano do Ensino Médio, Alícia tem 16 e está no primeiro ano. Mas tudo começou bem antes, quando Alícia tinha cerca de 12 anos de idade e estava numa praça em Rio das Ostras, matando o tempo, com uma amiga. Nessa praça, diversos meninos andavam de skate, entre eles tinha uma menina, a Maju. No primeiro momento, Alícia não entendeu se a Maju era menino ou menina, perguntou para a amiga (que a conhecia, mas que também não sabia dizer o que ‘era’ a Maju) e isso automaticamente despertou uma curiosidade enorme na Alícia, que fazia de tudo para observá-la. Quando a Maju entendeu que estava sendo observada, quis chamar atenção. Caiu logo de bunda no chão. Mas levantou, se reergueu e foi lá falar com as meninas. Se apresentou para a Alícia e disse: vem cá, deixa eu te mostrar uma pessoa muito linda aqui de Rio das Ostras - e então entrou no Instagram dela mesma, curtiu todas as suas fotos (pelo perfil da Alícia) e depois saiu, andando de skate de novo. Nesse dia, a Maju levou uma bronca da mãe dela por ter faltado à fisioterapia, mas a resposta em desculpa que ela deu, foi: eu conheci a menina mais bonita da cidade. A Maju é natural de Goiás, mas está no Rio de Janeiro - mais especificamente em Rio das Ostras - há mais de 9 anos. Já a Alícia, é do Rio de Janeiro, capital, mora em Rio das Ostras mas intercala com alguns períodos no Rio, visitando familiares. Depois que elas tiveram o primeiro encontro na praça, a Alícia passou seis meses morando no Rio de Janeiro. Nesse período ficou olhando o Instagram da Maju, mas não interagiram nenhuma vez. Quando ela voltou para Rio das Ostras, começou a namorar um menino (esse que, a pediu em namoro na frente da escola toda, fazendo um vídeo que viralizou o Brasil - um namoro super arranjado com o auxílio da mãe) e duas semanas depois ela e a Maju se encontraram no aniversário de uma amiga em comum. Nesse primeiro encontro, a Maju tentou ficar com ela, mas não tinha como, ainda mais ela estando num namoro tão recente… então ela desviou de todas as formas. Depois disso, começou-se uma amizade, então elas saíram muitas vezes. A Maju dava em cima dela sempre, isso era um fato, mas era quase uma brincadeira também porque elas sabiam que enquanto estivesse namorando não ia rolar. O namorado da Alícia, enquanto isso, morria de ciúmes. E em casa, a Alícia não parava de falar na Maju, deixando a mãe dela muito desconfiada, dizendo: “Tu não vai se apaixonar por ela não, hein, Alícia??!!”. O tempo passou e o relacionamento da Alícia foi ficando muito difícil. Ela estava se sentindo numa relação completamente invasiva, tóxica, e todas as vezes que tentava terminar o namorado não a deixava. Ele simplesmente dizia que não permitia. Numa noite, foram num aniversário e ela já tinha tentado terminar três vezes, a situação estava péssima, um amigo dele passou mal e ele foi embora. Alícia ficou no aniversário, a Maju estava também e num momento determinado da noite elas decidiram dar um basta, chutar o balde: se beijaram. Porém, como era escondido, numa confusão a Maju fingiu que passava mal, a Alícia fingiu que ajudava, elas desligaram a luz da festa toda sem querer e aí virou confusão de verdade. Depois delas se beijarem, a Alícia viu a Maju dando em cima de outra menina e então ficou muito triste. No fim da festa, já com o dia amanhecendo, o namorado (ou quase ex?) fez questão de buscar a Alícia e ela não quis ir embora com ele, então ele gritou e brigou com ela. Quem deu suporte, novamente, foi a Maju. Depois dessa situação eles terminaram, afinal, não tinha como manter esse relacionamento. A Alícia passou um tempo breve no Rio de Janeiro e quando voltou para Rio das Ostras voltou a se encontrar com a Maju. Nesses encontros, ela entendeu que gostava de verdade da Maju, e isso, naquela época, era mais um problema do que algo bom. Ambas não sabiam como lidar com a situação, sabiam que a Maju não buscava relacionamentos, mas também já estavam muito envolvidas. Sentiam que precisavam encarar a situação. Decidiram seguir se encontrando, mesmo sem ninguém saber. Com o tempo, os amigos que sabiam, não torciam para que elas ficassem juntas: não confiavam que elas seriam fiéis uma a outra, ou melhor, incentivaram que não fossem - e assim não haveria relação saudável que se sustentasse. No período em que poucos apostavam no relacionamento delas, um pedido de namoro chegou a acontecer. Namoraram, mas entre situações caóticas, sentiam que não se acertavam. A mãe da Alícia descobriu, fez um escândalo na porta da escola, a agrediu. Tudo ficava muito difícil para que elas se encontrassem e nisso, a pandemia de Covid-19 começou. Elas chegaram a ficar um tempo distantes por conta da quarentena, mas não tanto tempo, como nas grandes cidades, pois lá os encontros foram voltando a acontecer aos poucos. A Alícia, junto com a família dela, abriu uma hamburgueria, e esse local virou um ponto de encontro... porém, todas as intrigas externas foram o bastante para que o namoro não seguisse em frente. Elas terminaram, ainda, em 2020. Foram cerca de 9 meses distantes. Nesses meses, por completa influência familiar, Alícia se relacionou com um menino extremamente abusivo, agressivo, que forçava presença. Ela chegou a pesar menos de 40kg. Ele, sabendo que no fundo ela ainda gostava da Maju, ameaçava bater na Maju quando a encontrava na rua. Alícia fez de tudo para sair desse relacionamento e quando conseguiu, conversou com a Maju. Elas se acertaram, mas não enquanto um casal, apenas voltaram a conversar. Nisso, a Maju encontrou a mãe da Alícia, tomou coragem e decidiu pedir permissão: para num futuro, se tudo desse certo, elas voltarem a se relacionar. Ela respondeu que se a Alícia estivesse feliz, ela estaria feliz também - porque ela percebia que o jeito que a Alícia olha para a Maju é diferente - e no fim elas se abraçaram. Elas voltaram a se envolver e a Maju pensou em a pedir em namoro novamente e dessa vez com tudo o que o brega permite: balões, chocolates, etc. Aconteceu! Porém, infelizmente, ainda passaram por muitas situações horríveis envolvendo o ex. Ele invadia a casa da Alícia, quebrava as coisas e obrigava ela a manter a relação com ele. Foi numa atitude extrema da mãe dela em expulsar ele de lá para que finalmente isso acabar. Porém, esses conflitos já tinham afetado demais a relação da Alícia com a Maju, era difícil que as confusões não as envolvessem. A Alícia seguia pensando na Maju e no relacionamento delas, enquanto a Maju, mais uma vez, se afastara. No natal, elas voltaram a se falar, por conta de uma coincidência. E assim, voltaram de verdade. Conversaram, se encontraram, conversaram também com suas famílias, decidiram que, se era para estarem juntas, dessa vez, era para ser de um jeito diferente - e com apoio de todos, com maior confiança, diferente de todas as outras tentativas. Hoje, acreditam que deu certo. No último ano passaram diversos perrengues que as fizeram crescer e se fortalecer enquanto um casal, juntas, e também enquanto uma família. Alícia e Maju deram apoio às suas mães, chegando a morar com a mãe da Alícia, todas num apartamento, num momento difícil. Alícia também morou com a mãe da Maju. E todas se dão muito bem, valorizam o relacionamento das filhas. Nesse último ano de estudo, finalmente estão na mesma escola. Os planos são, assim que concluírem, se mudarem para o Rio e estudarem Belas Artes. Hoje entendem que a confiança e a comunicação mudou muito e que isso é o principal para que o relacionamento delas funcione. Antes, tudo se quebrava, principalmente com 'picuinhas' ou comentários alheios, hoje, não há nada entre elas que não possa ser conversado. A intimidade que elas criaram juntas não há como ser quebrada e também faz com que elas não se julguem. Acreditam que, pelo tanto que já passaram uma ao lado da outra, o que viram entre seus momentos mais frágeis faz com que também possuam muita liberdade para serem quem são, sem medo. Antes, pensavam muito sobre serem perfeitas, buscavam perfeição, hoje aceitam seus corpos e a si como são. Isso também faz com que a confiança na relação mude, a segurança, a base no amor. Quando entendemos a recapitulação de tantas coisas que viveram sendo tão novas, estando juntas, elas entendem que esse amor é o que importa. A forma que se amam e que se apoiam é o mais importante nesse processo. E se surpreendem, o quanto isso é maneiro. Visualizar a linha do tempo e entenderem que seguem aqui - recapitulam o quanto pensaram em desistir porque era muito difícil se relacionar, mas que hoje é muito legal ver o quão bonito é o que criaram. E, então, sonham com novos passos: a mudança, um casamento, uma adoção. ↓ rolar para baixo ↓ ♥ manda uma mensagem de apoio aqui ☼ entre em contato com elas por aqui! ☺ vem construir esse projeto com a gente! < Alícia Maria Júlia
- Amanda e Julia | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Amanda e Júlia se conheceram no ensino médio. Estudavam no mesmo colégio que os pais da Amanda se conheceram, mas em turmas diferentes. Júlia conta que desde a primeira vez que se viram sentiu que seria algo especial, como se já soubessem que ficariam juntas. Amanda, na época, ainda não havia se relacionado com mulheres. Júlia já tinha se relacionado brevemente com uma amiga de Amanda, mas não tinham os grupos de amigos como ligação em comum, era apenas este fato que as unia. O primeiro contato mais marcante aconteceu na orla de Imperatriz, justamente no local onde anos depois fizemos essa documentação acontecer. Júlia estava com um problema: um ‘chupão’ no pescoço - e morria de medo que a família descobrisse. Amanda se ofereceu para ajudar, deu dicas de como disfarçar e depois seguiram juntas para pegar o ônibus. A partir desse dia, começaram a conversar mais online, se aproximaram no colégio e, pouco a pouco, também juntaram os grupos de amigos. Ainda que, no começo, muitos (para não dizer todos) acreditavam que o relacionamento que ali se formava seria só algo passageiro. Quando a mãe de Amanda descobriu, a situação ficou tensa. Foi então que Júlia tomou a iniciativa: decidiu ir até a casa de Amanda para conversar com a família e oficializar o pedido de namoro. A questão é que, sem que Amanda soubesse, no dia seguinte cedinho já estava lá, falando com os pais. Amanda levou um susto quando acordou e ouviu a voz de Júlia dentro da própria casa, já pedindo a mão dela em namoro. No início, os pais de Amanda até aceitaram a relação das duas, mas não acreditavam que o relacionamento fosse durar. Deixavam elas namorarem apenas na porta de casa, sentadas, sob supervisão. Hoje em dia elas riem lembrando, mas a verdade é que ninguém sabia direito como lidar com o início da relação. Quando os pais perceberam que o namoro duraria meses, afinal, seguia firme semana após semana, começaram a proibir as saídas juntas ou parar de aceitar os namoros na porta de casa. Isso justifica o quanto acreditavam que era apenas uma fase, uma brincadeira jovem… e que não iriam lidar com uma relação de verdade entre duas mulheres; Mas, mesmo depois das proibições, Amanda e Júlia continuaram se encontrando na escola e aproveitavam para escapar das aulas e passar tempo na orla da beira do rio Tocantins. Com as restrições aumentando, precisaram encontrar novas maneiras de continuarem se encontrando além da escola. Muitas vezes, enquanto os pais de Amanda saíam nos finais de semana, Júlia ia para a casa dela e, quando eles chegavam, corria para se esconder embaixo da cama. Foram várias noites em que os pés dos pais de Amanda chegaram a passar bem perto dela embaixo da cama, sem desconfiarem de nada. Hoje em dia, essa história é contada com humor - inclusive pela mãe da Amanda já sabe que isso tudo acontecia e se nega a acreditar. Com o fim do ensino médio e o início da independência financeira, Amanda e Júlia decidiram morar juntas. Essa mudança trouxe mais autonomia e diminuiu as interferências da família no relacionamento. Ao longo dos anos, passaram por algumas mudanças de casa, entre imprevistos e ajustes da vida, mas hoje vivem um momento de maior estabilidade: conseguiram juntar dinheiro e dar entrada na primeira casa própria, só delas. Ainda parecem não acreditar que o sonho está se concretizando, lembrando que começaram com quase nada, uma cama e poucos móveis, e agora conseguem enxergar, na prática, tudo o que construíram lado a lado. Reconhecem que o início não foi fácil. Como eram bastante jovens, as brigas por ciúmes eram constantes, era muita “intensidade adolescente”. Hoje, com mais maturidade, conseguem rir de muitas discussões que pareciam grandes, mas eram apenas inseguranças. Entendem que o vínculo delas é mais forte do que qualquer conflito e que existe uma “fissura” que sempre as faz escolher uma à outra. Com o tempo, aprenderam a transformar a relação em parceria: compartilham jogos em casa, passeios, almoços simples e a rotina com cuidado. Este cuidado se tornou parte essencial, uma base. Quando uma acorda mais cedo compra pães e lanche para a outra levar ao trabalho, dividem cafés da manhã, tarefas em casa, acolhem os medos, sonham alcançar novos lugares (seja no trabalho, na faculdade ou na vida pessoal)... Quando uma enfrenta dificuldades no trabalho, a outra é quem primeiro ouve, aconselha e acalma. Para elas, esse equilíbrio é o que faz com que a história dure dos tempos de escola até a conquista da casa própria. Amanda estava com 24 anos no momento da documentação, nasceu e cresceu em Imperatriz, no interior do Maranhão. Atualmente cursa Engenharia Civil e estagia na área. Aos 18 anos, decidiu sair da casa dos pais, em meio ao desejo de viver a relação dela com a Júlia de forma livre e independente. Gosta de programas simples do dia a dia, como assistir televisão e jogar jogos de tabuleiro. Júlia estava com 25 anos no momento da documentação, nasceu em Belém do Pará, mas ainda criança se mudou para Imperatriz, onde construiu a maior parte de sua vida. Trabalha como assessora de crédito em um banco e conta que começou a trabalhar muito jovem, próximo dos 14 anos, então já passou por diversos trabalhos diferentes. Parte da família ainda vive em Belém e em cidades do interior do Pará, enquanto outra parte está em Imperatriz, fortalecendo os vínculos na cidade. Ambas compartilham a experiência de terem saído cedo da casa dos pais e de terem buscado independência desde jovens. Suas histórias se mesclam com orgulho e vontade de serem independentes, formando um lar. ↓ rolar para baixo ↓ Julie Amanda
- Silvana e Márcia | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Márcia estava com 49 anos no momento da documentação. É professora dos anos iniciais, educadora e feminista. Cresceu em uma família marcada pela militância política: seu pai foi preso político durante a ditadura e essa história atravessa diretamente sua própria trajetória, conta que “foi feita” na biblioteca do presídio em Porto Alegre e que durante sua infância era a mãe quem a cuidava, por ponta do pai seguir preso. Hoje, sua militância acontece sobretudo na sala de aula, no trabalho com crianças e no poder da literatura infantil como ferramenta de transformação - desenvolve uma coleção de livros para o público infantil (mas não só, afinal, todos nós temos nossa criança ainda viva dentro da gente). Em alguns destes livros, aparece um casal formado por duas mulheres, apostando na narrativa como forma de ampliar repertórios e contar outras histórias possíveis desde a infância. // comprem o livro dela! é muito legal! Silvana estava com 61 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre e trabalhou como professora na educação pública desde os 15 anos, trajetória que não surgiu como escolha romântica, mas como resultado de concurso público e dedicação integral. Ao longo da vida, construiu uma militância que ultrapassa a luta por direitos individuais e se ancora no desejo de transformar estruturalmente o mundo. Aposentada há dez anos da rede municipal de Porto Alegre, seguiu estudando: concluiu um mestrado em políticas sociais, com foco nas mulheres negras servidoras públicas, e atualmente cursa doutorado em educação, pesquisando educação antirracista e as relações entre raça, gênero, sexualidade e o contexto político contemporâneo. O cotidiano de Márcia é atravessado tanto pelo trabalho, quanto pelo cuidado. Sua mãe, com 90 anos, mora com ela e com Sil, o que exige atenção constante e reorganiza afetos, tempos e prioridades. Nesse cenário, Silvana aparece como parceira fundamental: alguém que escuta, acolhe e incentiva. Sil é uma grande apoiadora do trabalho de Márcia, inclusive nos processos de escrita. Parte de seus livros foi escrita durante a pandemia, na casa da praia do casal, em momentos de recolhimento, silêncio e criação compartilhada. E Márcia também é uma grande apoiadora do trabalho de Sil - e de toda a sua militância. Silvana é uma das fundadoras da Liga Brasileira de Lésbicas e há anos atrás percorreu o país participando da construção do movimento lésbico organizado. Mesmo após divergências políticas que a afastaram formalmente da Liga, mantém vínculos afetivos e reconhecimento da importância desse período. Hoje em dia, a vida dela com Márcia é atravessada pelos propósitos e paixões em comum: o fortalecimento e a construção cotidiana onde o amor e a política não se separam. Antes mesmo de se conhecerem - e se relacionarem - de fato, Márcia conhecia Silvana de nome e de trajetória, conta que ela sempre teve um nome famoso pela cidade e já a admirava: era professora da rede municipal, diretora de uma escola da periferia de Porto Alegre, sendo uma figura conhecida, respeitada e também marcada por sua visibilidade como mulher lésbica em um espaço público e político. Márcia desejava trabalhar nessa escola por ela ser reconhecida pelo trabalho étnico-racial e pela proposta pedagógica diferenciada, e foi em 2010, quando passaram a trabalhar juntas. A aproximação aconteceu primeiro pelo trabalho, pela gestão, pela militância cotidiana dentro da escola. Foi nesse convívio que o interesse ganhou forma. Um bom tempo depois, em uma festa da escola, elas interagiram de uma forma direta e o interesse ficou claro. Márcia nunca havia se relacionado com mulheres e se sentiu atravessada, entre a curiosidade e o interesse. Decidiu dar uma chance. Na época, Sil viajava muito por conta da sua militância na LBL (Liga Brasileira de Lésbicas) e tinha a fama de ser mulherenga - e até mesmo a família da Márcia, por conta da aproximação com a militância, sabia dessa fama. Então quando souberam do namoro o choque maior não foi por conta de ser com uma mulher, mas por ser com a Sil. Logo alertaram: “Isso aí não deve durar muito tempo!”. Pelo contrário, né? Foram cada vez mais se fortalecendo. A curiosidade alheia sempre apareceu como uma tentativa de silenciamento. As pessoas perguntam, comentam, sugerem que não é preciso dizer, que a sexualidade é algo privado, como se nomear uma relação lésbica fosse excesso. Mas afirmar-se também é um gesto político. Enquanto a família tradicional fala de si o tempo todo, espera-se que mulheres lésbicas permaneçam discretas, invisíveis, quietas. Sejam nas mídias ou nas ruas. Por isso, dizer em voz alta que amamos não é exposição gratuita: é afirmação de existência, de amor e de escolha. A vida a duas, no entanto, nunca foi romantizada. Não é um território idealizado nem isento de conflitos. São duas mulheres feministas, educadoras, que sabem que o diálogo precisa existir também dentro de casa. Discordam, revisam posições, atravessam fases difíceis (inclusive ressaltam como é necessário falar sobre a dificuldade de passar pela menopausa e pelas mudanças do corpo) e constroem diariamente uma relação possível, real e cuidadosa. Quando o casamento se tornou legalmente possível, em 2013, se casaram no mês da visibilidade lésbica, simbolizando uma união política, no local em que terminam muitos atos em Porto Alegre. Uma juíza esteve presente, amigas e amigos fizeram parte, cantaram uma música simbólica feminista e, sem vestidos brancos, de forma confortável, celebraram o amor. Nessa época, saíram do apartamento em que moravam e encontraram a casa perfeita, num condomínio. Foi neste novo lar que se sentiram realmente em casa e que a mãe de Márcia passou a fazer parte da vida - e da rotina - com cuidado e afeto. Quando conversamos sobre, entendemos que o amor entre mulheres não é apenas o amor romântico: é presença, escuta, aprendizado contínuo, vida. Mulheres são ensinadas a servir, não a amar. Quando amam outras mulheres, aprendem sozinhas. Por isso, dividir a vida, o cuidado e o afeto entre três mulheres é também reparação. É prova de que mulheres não apenas dão, elas merecem amar e ser amadas, como nessa relação familiar. No ambiente escolar houve um impacto profundo porque ao viverem a relação de forma aberta, sem recuos, provocaram deslocamentos importantes entre as colegas. Houve estranhamento, curiosidade excessiva, afastamentos, mas também libertações. Outras professoras passaram a se permitir viver quem eram, separações aconteceram, novas configurações surgiram. Silvana investiu conscientemente em uma escola plural: contratou um homem trans para a portaria, havia um casal de lésbicas na cozinha… a diversidade deixou de ser exceção para se tornar parte da estrutura. A escola virou referência. Quando Silvana saiu, para ser uma candidata na política de Porto Alegre, a mudança foi sentida, mas o que ficou foi a lembrança de como existir de forma diversa é possível. Ainda sobre a diversidade, Sil conta: “Eu sempre fiz questão que os meus alunos e alunas soubessem quem eu sou. E nunca tivemos problemas. Tinha dias que eu ia de bermuda de homem, tinha essas de surfista, com as pernas cabeludas que eu uso, de boné, e eu era diretora da escola. Sem problema nenhum. Aí chegava um vendedor, perguntava se a diretora estava. Eu respondia: “Sou eu, por quê? Vamos sentar.” Sabe? Eu acho que naturalizar faz muito bem, principalmente pras crianças, né? E pras pessoas adultas compreenderem que o problema são elas, né? E elas não gostam.” Quando Sil foi disputar as candidaturas nos processos eleitorais em que viveu, Márcia apoiou muito, mas também foram momentos de aprendizados, reconhecimentos e medo. Houveram ameaças, dias em que ela não se sentia segura para ficar sozinha, necessidade de reforçar a segurança. Estar junto nesses momentos tornou-se uma escolha consciente, uma forma de proteção e de parceria. A presença pública, afinal, não era apenas dela: passou a ser das duas. Há uma consciência clara do tempo histórico que atravessaram. No início dos anos 2000, afirmar publicamente o amor e o desejo entre mulheres era um ato de confronto direto, coisa que a Silvana fazia muito com a Liga Brasileira de Lésbicas, capaz de fechar lojas, chamar a polícia e provocar ameaças físicas - seja em Porto Alegre ou em outros lugares do Brasil. Diziam em voz alta: Nós que amamos e trepamos com mulheres”. Hoje em dia pensa: “Nossa, precisávamos dizer isso?” e entende que sim, era exatamente esse ponto de incômodo que precisava existir. Foram gestos que abriram caminhos para que outras pudessem existir com um pouco mais de liberdade depois. Com o avanço dos anos, a sensação de segurança oscilou. Houve o reconhecimento profissional, depois o avanço do ódio no último (des)governo. Por isso, a militância segue sendo uma questão de sobrevivência: nenhuma história é construída sozinha. É preciso compromisso com a transformação real das estruturas que produzem desigualdade e violência. A luta segue porque a vida, a dignidade e a possibilidade de felicidade ainda dependem disso. ↓ rolar para baixo ↓ Silvana Márcia
- Banco de Images | Documentadas
Aqui documentamos a história de mulheres por todo o Brasil. Vanessa e Kris amor de persistência. Mundana e Mel amor de segurança. Raíssa e Stephanie amor de rotina. Camila e Lian amor de dias solares. Letícia e Rossana amor de bicho. Silvana e Márcia amor de educação. Vitória e Sara amor de porcentagens Tainá e Fabi amor de rotina no lar. Naiara e Mary amor de uma vida inteira. Carla e Paula amor de tagarelar. Paola e Tai amor de 'não' que virou 'sim' Patrini e Gabi amor de conversa. Juliana e Luísa amor de desassombro Jess e Amanda amor de desabafos. Susy e Pâmela amor de último ddd. Amanda e Julie amor de juventude. Cláudia e Vanessa amor de vida inteira. Yula e Rebeca amor de bairro. Melina e Acácia amor de marcante. Tamiris e Ágata amor de tempo. Camila e Rafaela amor de etapas. Joyce e Gabi amor de persistência. Gabi e Raffa amor de ficar à vontade. Laura e Camila amor de presente. Babi e Maria amor de companhia. Vivi e Darlene amor de não viver sem. Jaque e Tainá amor de novo olhar. Thacia e Ju amor de cuidado. Anik e Isabelle amor de desaguar. Raquel e Dandara amor de mudanças. Aline e Isabela amor de novidades. Luiza e Milena amor de paciência. Marcela e Jana amor de liberdade. Mariana e Viviane amor de manhã na praça. Clara e Laura amor de cuidado. Aline e Nathalia amor de paródia. Iana e Amanda amor de salvador. Yaskara e Jade amor de conversas. Daniella e Flávia amor de futuro. Isadora e Isabelle amor de equação. Luanna e Laira amor de cicloativismo. Ellen e Bianca amor de confraternização. Lorrayne e Joyce amor de casa. Mari e Jéssica amor de cura. Elis e Vandréa amor de ancestralidade. Carol e Sofia amor de hobbie. Letícia e Giovanna amor de persistência. Ane e Ari amor de companhia. Lorrayne e Mari amor de bilhete. Sarah e Rosa amor de novidade. Jamile e Raquel amor de leitura. Raquel e Rachel amor de pedidos. Aline e Aya amor de maternidade. Cassia e Kercya amor de marinar. Gabriela e Mariana amor de mãos dadas. Luiza e Maria Pérola amor de nebulosas. Lara e Ana amor de âncora. Sharon e Vivian amor de natureza. Yasmin e Juliana amor de diálogo. Isa e Camila amor de fã. Mari e Rey amor de outros lugares. Manu e Alyce amor de abraço. Cecilia e Jady amor de riso esvoaçante. Clara e Rayanne amor de jeito. Maria Clara e Antônia amor de cinema. Priscilla e Raphaela amor de conexões. Mari e Vivi amor de música. Júlia e Milena amor de reencontro. Talita e Louise amor de história. Juliana e Tercianne amor de teatro. Ju e Nicoli amor de vida toda. Luana e Maiara amor de domingo no parque. Tânia e Clarissa amor de trajetória. Ju e Marci amor de tempo. Rennata e Vanessa amor de impacto. Bruna e Flávia amor de suporte. Bibi e Emily amor de mãos dadas. Clara e Mayara amor de doce. Carol e Joyce amor de propósito. Thaysmara e Leticia amor de pôr do sol Júlia e Ana Carolina amor de cuidado ao detalhe. Natasha e Jéssica amor de ciclos. Rafa e Gizelly amor de acordar juntas. Carla e Yasmin amor de expressão. Yasmin e Ignez amor de encontro. Nathi e Emanu amor de força. Camila e Samantha amor de evento. Lu e Joana amor de flor. Nath e Carla amor de parque. Karol e Beatriz amor de webnamoro. Clara e Mariana amor de sétima arte. Jamyle e Rebeca amor de festa. Dani e Aline amor de oposto complementar. Camilla e Karol amor de calma e maresia. Bia e Marina amor de conversa. Amanda e Thaís amor de lagoa. Ju e Yasmin amor de compaixão. Wan e Lívia amor de lugares. Vanessa e Denise amor de pretitude. Mari e Marie amor de estrada. Marcela e Karina amor de refúgio. Ana e Paula amor de almoço no domingo. Thaty e Lari amor de descrição. Melissa e Sofia amor de sítio. Carol e Marlise amor de construção. Fabi e Dani amor de brilho. Isa e Carina amor de versões. Taynah e Estrella amor de ano novo. Glauci e Alice amor de casa. Maiara e Vitória amor de sol e lua. Joyce e Malu amor de renovar. Gabi e Dani amor de gatos. Marcia e Kamylla amor de faculdade. Luiza e Mariah amor de produção artística. Drika e Jana amor de dia após dia. Thay e Louise amor de samba. Jeniffer e Renata amor de aventura. Ana Clara e Evelyn amor de nascer do sol. Bruna e La Salle amor de confirmação. Mariana e Bárbara amor de interior. Maíra e Kelly amor de estar em casa. Janelle e Gyanny amor de fé. Lia e Thalita amor de lar. Alessandra e Roberta amor de diversão. Iasmin e Natalia amor de tatuagem. Bruna e Mari amor de arte na rua. Carla e Cynthia amor de diferença. Inara e Nina amor de recomeço. Hinde e Renata amor de intercâmbio. Thay e Cami amor de afeto. Luana e Marília amor de corpo. Fernanda e Ana amor de tentativas. Gabi e Gabriela amor de coragem. Jéssica e Priscila amor de diferença. Melina e Karyne amor de frio na barriga. Mariana e Fabiola amor de redescoberta. Luana e Bruna amor de emoção e razão. Ane e Thelassyn amor de persistência. Nayara e Jamyle amor de geek. Tami e Fran amor de casa nova. Gabi e Pamela amor de ajuste. Tay e Beatriz amor de elevação. Alice e Fernanda amor de apoio. Julia e Duda amor de muito. Luciana e Viviane amor de recomeços. Kelly e Amanda amor de tempos. Anne e Lari amor de paz. Júlia e Vitória amor de moda. Paula e Mari amor de cor. Luma e Stefany amor de árvore. Anne e Talita amor de oportunidade. Uine e Denise amor de aliança. Larissa e Claricy amor de ritual. Laiô e Íris amor de horizontalidade. Brenda e Jéssica amor de aventura. Dalila e Andréia amor de "praciar". Carla e Laura amor de porto seguro. Vanessa e Vitória amor de nova perspectiva. Carol e Cris amor de energia. Angélica e Jaque amor de segundo encontro. Kétule e Beatriz amor de cachoeira. Alissa e Rafaela amor de recomeços. Lilian e Marcella amor de padaria. Natália e Bruna amor de ano novo. Rachel e Larissa amor de paciência. Jade e Laura amor de segurança. Barbara e Isadora amor de cativar. Marina e Patrícia amor de pedidos rápidos. Gabi e Aline amor de aposta. Débora e Paula amor de comentário. Bruna e Vanessa amor de transformação. Cintia e Carmen amor de cultura. Dállete e Dyanne amor de redescobrir. Keziah e Patricia amor de compartilhar Cynthia e Leylane amor de esporte. Rafa e Helena amor de dia. Emilly e Thuane amor de maracatu. Sue e Sil amor de teatro. Fernanda e Talita amor de som. Carol e Gabi amor de fotografia Carol e Andressa amor de lugar. Ingrid e Cecília amor de estrada. Vanessa e Dayanne amor de caminho. Emily e Raissa amor de tentativa. Beatriz e Kika amor de são joão. Bruna e Tereza amor de sonho realizado. Juliana e Bianca amor de tempo. Clara e Marina amor de céu aberto. Samara e Rebeca amor de impulso. Raíssa e Lorena amor de experimentar. Laura e Dedê amor de samba. Maria Vitória e Fernanda amor de carro. Manô e Bruna amor de vivência. Denise e Julia amor de cerveja&cinema. Maíra e Duda amor de tatuagem. Marina e Luiza amor de cumplicidade. Juliana e Tayna amor de mil histórias. Bruna e Fran amor de resistência. Marcia e Pethra amor de pé na porta. Mari e Nonô amor de escola. Joana e Ana Clara amor à primeira vista. Priscila e Rebecca amor de mar. Bruna e Sophia amor de carnaval. Renata e Marcela amor de arte. Clara e Karine amor de parceria. Bela e Maitê amor de risadas. Victoria e Gabi amor de praia. Brenda e Jhéssica amor de destinos. Carol e Gabi amor de militância. Beatriz e Tamara amor de esporte. Paula e Luiza amor de plantas e pássaros. Luana e Gabrielle amor de família. Mariana e Thalassa amor de plantinhas. Carol e Beanca amor de acompanhamento. Rita e Dede amor de 10 reais. Cilla e Fabi amor de luz Bruna e Brena amor de axé. Stefannie e Jaque amor de decisão. Marianna e Bruna amor de coisas em comum. Natália e Talita amor de admiração. Ingra e Lara amor de diversidade. Roberta e Laura amor de ser possível amar. Yulli e Nadine amor de profissão em comum. Sandra e Larissa amor de oceanos. Vanessa e Suélen amor de simplicidade. Rhanna e Lais amor de festa popular. Inara e Juliana amor de samba. Juliana e Priscila amor de grande família. Clarissa e Agnis amor de crescimento. Ariadne e Barbara amor de faculdade. Karol e Hémely amor de abrir portas. Nayara e Mayara amor de educação. Vivian e Dani amor de nova visão de si. Olga e Flávia amor de política. Clarissa e Roberta amor de são joão.
- Gerando Renda | Documentadas
Gerando renda é uma forma de conectar mulheres através do mercado de trabalho. gerando renda para o projeto Manter o projeto não é tarefa fácil! Fazer viagens, pegar metrôs, ônibus, barcas... disponibilizar tempo e conseguir manter as contas pagas é um grande desafio. E como queremos documentar o maior número de casais possíveis, disponibilizamos o nosso PIX e aceitamos qualquer valor como quantia de doação! Qualquer valor MESMO. Tem 2 reais e pode aplicar no projeto? é super válido! De quantias pequenas a quantias maiores, se cada uma e cada um de nós ajudar um pouquinho, conquistamos o Brasil todo! Colabore com a documentação histórica do amor entre mulheres! Para doar é muito fácil! - Entre no aplicativo do seu banco e clique em PIX > transferir PIX. - Escolha o tipo de chave: o nosso é e-mail :) - Digite o nosso e-mail, você pode copiar aqui: fernanda@documentadas.com - Digite o valor desejado da doação :D - Aparecerá o nome da idealizadora do projeto: Fernanda Piccolo Huggentobler. Então é só conferir e confirmar! Prontinho, a partir de agora você estará ajudando a documentar o amor entre mulheres no Brasil todo! Ah! Uma coisa importante. Quer saber como funciona os nossos gastos e ver como a sua doação está sendo utilizada? dá uma olhada nos nossos destaques do Instagram, lá tem um chamado: Prestação de Contas ♥ quer conferir a prestação de contas no Instagram? clica aqui! gerando renda para a comunidade LGBT Acreditamos que - além de que contar histórias de mulheres - podemos conecta-las. Falarmos sobre seus trabalhos, compartilharmos situações, momentos e, enfim, gerarmos renda. O mercado de trabalho segue difícil e podemos nos apoiar contratando trabalhos de mulheres da comunidade LGBT, certo? certo! Tá precisando de uma arquiteta? de uma chefe de cozinha para um evento do qual você tá promovendo? ou quem sabe quer fazer uma tatuagem nova e queria escolher uma tatuadora inspiradora? aqui temos! No nosso espaço de 'busca', clicando AQUI você consegue pesquisar pela palavra-chave (o serviço que você precisa), ver qual profissional está à disposição, ler sua história e entrar em contato com ela. O contato pode ser feito clicando no botão aqui na tela indicando a profissional que você leu, conheceu a história e deseja contratar/solicitar um orçamento. Nosso papel será te conectar diretamente com ela! Bora fortalecer a profissional que você admira! quer conhecer o serviço de alguma profissional? clica aqui!
- Tainá e Fabielly | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Fabielly estava com 26 anos no momento da documentação. Nasceu em Porto Alegre, mas cresceu em Esteio, onde vive desde criança. Estudou psicologia por um tempo, onde conheceu Tainá, mas logo percebeu que aquele curso já não conversava com o que sentia. Trabalhou em uma loja por um tempo, flertou com a possibilidade de estudar moda, testou possibilidades enquanto lidava com o peso de não saber exatamente para onde ir. O estresse da rotina intensa a afastou do trabalho, e, nesse vazio, encontrou espaço para o que sempre esteve ali: a inclinação artística. Foi assim que chegou ao design gráfico, onde finalmente começou a se reencontrar. Tainá estava com 25 anos no momento da documentação. Nasceu em Sapucaia do Sul, cidade ao lado de Esteio, onde mora hoje em dia. Estudou psicologia e hoje em dia trabalha na clínica, atendendo exclusivamente mulheres, tanto de forma online quanto presencial, num consultório integrado ao apartamento - que foi uma das razões para a escolha do lugar onde vivem. Fora do trabalho, cultiva o corpo e o espírito: pratica Muay Thai, lê, pinta, e se aproxima cada vez mais do budismo, depois de anos se considerando ateia. Juntas, constroem um cotidiano que mistura busca e estabilidade, sensibilidade, arte e cuidado. O que compartilham é esse desejo de fazer sentido para si mesmas, para o mundo ao redor e para a vida que dividem. Fabi e Tai se conheceram em 2020, no estágio do programa Primeira Infância Feliz, uma iniciativa estadual, inspirada em práticas de cuidado voltadas ao desenvolvimento integral de famílias em situação de vulnerabilidade. Era um trabalho multidisciplinar que reunia psicologia, nutrição, fisioterapia, pedagogia e fonoaudiologia, que levava as estagiárias diretamente às casas das famílias. No meio da pandemia de Covid-19, com máscaras, álcool gel e as primeiras doses de vacina, Fabi e Tai, ainda que de faculdades diferentes e não sendo tão próximas, se conheceram atendendo territórios e cruzando caminhos na cidade de Esteio, região metropolitana de Porto Alegre. Foi só em 2021, quando estavam solteiras e com uma relação mais construída por trabalharem juntas há alguns meses, quando começaram a interagir mais. Vez ou outra, se encontravam para auxiliar nos territórios - sempre caminhando muito ou andando de bicicleta, porque eram locais muito extensos, então dividiram longos trajetos e conversas. Aos poucos, esse cotidiano criou espaço para que a amizade se transformasse, puxando assunto aqui, criando vínculo ali, até o dia de uma confraternização de trabalho na casa de um amigo em que, finalmente, se beijaram pela primeira vez. E dali em diante tudo aconteceu depressa: em dez dias, já estavam namorando. Fabi lembra que, no início do namoro, ainda se entendia como bissexual e carregava uma dificuldade de aprofundar relações com mulheres. Com homens, havia sido ensinada desde cedo sobre comportamento, desejo. Era como se existisse um roteiro; Com mulheres, existia um medo, quase um pânico, de dar certo e não saber o que fazer depois. Ela fala sobre o bloqueio, sobre a estranheza de um aprendizado que nunca veio, e de como, ao perceber que gostava de Tainá, de ver que as conversas fluíam, que existia alinhamento e desejo, decidiu não deixar passar: era uma oportunidade rara de viver uma história que fazia sentido. Entre amigas bissexuais, via esse debate se repetir (hoje até transformado em piada na internet, mas uma piada bem real) sobre como “com homens, qualquer um serve, mas com mulheres dá pavor”. Falamos sobre a importância de refletir e de verbalizar tudo isso, porque muito vemos essas “piadas”, mas pouco vemos conversas sobre o motivo delas existirem. Fabi explica que entendeu na relação com a Tai o motivo dos seus relacionamentos com homens sempre esbarrarem em uma sensação de inadequação: nunca estava bom, sempre havia um incômodo e um defeito. No fim, sempre iria haver, porque o problema eram eles serem homens, e ela ser lésbica. Muitos vínculos tinham sido apenas comodidade. Ainda que já tivesse ficado com homens legais e tido relações legais, e com mulheres legais que viraram amigas, porque travava diante do desconhecido (o medo de assumir, o medo de dormir juntas e não saber como conduzir a intimidade, o medo do julgamento na vida adulta). Sabia que muitas mulheres lésbicas tinham preconceito com mulheres bissexuais, e isso também pesava. Na família, o processo também não foi fácil. E foi a família da Tai quem acolheu Fabi quando a família dela reagiu com homofobia ao saber da relação das duas. A família de Tai sempre soube das suas relações e lidou bem, e o pai dela, vendo Fabi passar por momentos difíceis em casa nos primeiros meses, sugeriu: “Por que vocês não moram juntas aqui em casa?”. Sem prazo, sem peso, apenas oferecendo um lugar seguro enquanto elas construíam juntas o que já era amor. Quando Fabi contou à família que estava em um relacionamento com uma mulher, o processo foi confuso, cheio de camadas e silêncios. Houve acolhimento por parte da Tainá e da sua família, por isso optou em ir morar com eles. Era uma decisão dela de não viver mais sob o peso dos preconceitos. Alguns meses depois de ficar sem se falar com a mãe, as duas já estavam bem, e no Natal daquele mesmo ano (em 2021) tudo voltou a fluir. A mãe chamou para almoçar e conversaram novamente. Depois de um ano morando juntas na casa da família da Tainá, elas decidiram que seria o momento de alugar o próprio apartamento. Em 2022, quando começaram a movimentação, isso acabou gerando um conflito grande na casa da Tainá. Eles esperavam que elas só saíssem de casa quando estivessem formadas, não concordaram com a mudança e trataram mal a Fabi por conta disso. Fabi precisou sair da casa da qual foi acolhida, se viu sem lar novamente, e foi para a casa da sua avó. Só quase um ano depois, num convite inesperado para comer pizza, os pais de Tainá voltaram a recebê-la na casa que morou, apenas retomando o convívio até que tudo se ajeitasse. Bem semelhante à como foi com a sua mãe quando pararam de se falar - mas nessa época, ela e Tainá já moravam no seu primeiro lar, um apartamento pequeno e simples, em Esteio. A vida foi se ajeitando, elas decidiram celebrar a relação com um casamento no civil e uma pequena celebração com os amigos e a família - e nesse dia a verdadeira reconciliação aconteceu. A mãe da Fabi pediu perdão pela forma que lidou no início da relação, não justificou, não se alongou, apenas pediu perdão. E foi o bastante, gesto que faltava para fechar um ciclo e abrir outro, mais gentil, mais sincero e mais possível entre elas três. Depois da transição de lar conturbada e de um primeiro ano nada fácil, Tai e Fabi construíram uma rotina juntas, começando com pouco dinheiro e lazer nos momentos que conseguiam. Enquanto Tainá era estagiária, Fabi trabalhava em loja, e o orçamento mal cobria as contas básicas. Com o tempo, tudo foi se estabilizando: Fabi se formou, as oportunidades melhoraram, celebraram o casamento com uma janta, os amigos e os familiares e em 2025 se mudaram para um apartamento maior. Hoje, com suas três gatinhas, amam cultivar as pequenas rotinas e os cuidados diários: os almoços, os cafés (ainda que corridos, ou uma preparando café para a outra), as séries no fim do dia, as pinturas, o cinema quando dá, e a descoberta compartilhada do budismo, que já faz parte da vida delas há um ano. Essas vivências moldaram um amor que se mostra, sobretudo, nos momentos difíceis. As duas enfrentaram momentos difíceis no trabalho, na família, períodos de dor que nem sempre conseguiram ser o melhor de si, mas ainda assim permaneceram. Existe nelas um amor que atravessa erros, cansaços e histórias. Fabi explica que é um amor que perdoa não só quem está ao lado, mas também quem feriu - como as famílias, que hoje fazem parte da vida das duas com afeto renovado. Nesse percurso, aprenderam a amar a si mesmas, amar uma à outra e amar de novo o mundo ao redor, construindo uma vida onde tolerância, cuidado e crescimento caminham juntos. ↓ rolar para baixo ↓ Tainá Fabielly
- Oi, eu sou o doc! | Documentadas
Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! chega pra cá, vai ser um prazer te conhecer! O Documentadas é um banco de documentação sobre mulheres que amam outras mulheres, com o intuito de registrar historicamente o amor entre lésbicas, bissexuais e pansexuais (cis e/ou transsexuais), construindo uma literatura que até então era inexistente sobre essa população. Completando quatro anos em março de 2025, o projeto já documentou mais de 460 mulheres em 15 estados brasileiros. Para além de contar as histórias de casais brasileiros, o .doc acredita em 4 vias para atingir mudanças reais na nossa sociedade brasileira: gerar empregabilidade, divulgando as profissões e trabalhados exercidos pelas mulheres que participam do projeto; Gerar conexão com encontros presenciais e online; Espalhar artes pelas ruas falando sobre o amor entre mulheres combatendo o preconceito em espaços públicos; Gerar atendimento psicológico através da plataforma, contando com 25 profissionais oferecendo serviços de apoio psicológico e psicanalítico online por valores populares (atualmente, mais de 200 mulheres já passaram pelos nossos atendimentos). > para além da documentação > Acreditamos que a igualdade de gênero pode ser alcançada por meio do combate ao machismo e através da equidade de oportunidades de fala/escuta. Além disso, entendemos que criar um banco de dados de fácil acesso, para a divulgação de ofícios exercidos por mulheres que amam outras mulheres possibilita, assim, oportunidades de contratação dos serviços prestados pelas mesmas, uma vez que os ambientes de trabalho tendem a ser espaços de conflito e preconceito quando não oferecem diálogos e reeducação social. Visibilizar as histórias de mulheres de diferentes corpos, raças e classes sociais exerce um papel fundamental para o reconhecimento dessas populações vivas. o .doc já passou por 15 estados brasileiros, contando histórias de mais de 460 mulheres. QUER COLABORAR COM O DOC PARA QUE ELE TENHA MAIS LAMBES POR AÍ OU NOS CHAMAR PARA UMA EXPOSIÇÃO EM ALGUM LOCAL? ENTRA EM CONTATO PELO SITE OU NO E-MAIL: FERNANDA@DOCUMENTADAS.COM o .doc para além do .doc Entendemos também que a representatividade é algo extremamente importante para construção da subjetividade, tendo como intuito divulgar histórias que inspirem e motivem outras mulheres a se reconhecerem e valorizarem suas próprias histórias e histórias de amor, quando a coerção social, imposta pela heteronormatividade, diz o contrário. ainda podemos ser podcast cursos ou palestras exposições produtos curtas referência em saúde mental LGBT+ cartilhas inclusivas e muito mais! empregabilidade, psicologia, conexão, arte urbana viu a gente pela cidade? Estar na rua nos abriu a possibilidade de troca com públicos antes inalcançáveis. Passamos entre universidades, boêmias e comunidades. Se as mulheres amam outras mulheres em múltiplos espaços, acreditamos que nossa arte também deva ocupar múltiplos espaços. Foi através das técnicas arte urbana como lambe-lambe e stickers que começamos a espalhar uma frase famosa por aqui: “Toda mulher merece amar outra mulher”, além de uma tiragem de 1500 fotografias de casais que já participaram do projeto, com intervenções gráficas escritas por cima e o @documentadas, identificando nosso Instagram/site. quer contratar o documentadas para uma palestra na sua empresa, propor parcerias, fazer alguma reportagem ou conhecer mais sobre o nosso trabalho? entre em contato aqui pelo site ou mande um e-mail para fernanda@documentadas.com
- Karol e Hémely | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Karol e Hémely se conheceram no ensino médio, em 2008. Tinham cerca de 14 anos, eram amigas e tinham várias interações na escola. Mas, depois que se formaram, romperam bruscamente o contato e Karol não entendeu o motivo. Mais de dois anos depois voltaram a se falar, em 2014, quando a avó de Karol (quem a criou) estava internada e Hémely soube. Sabia o quanto isso era importante para ela, então mandou uma mensagem. Karol aproveitou a mensagem e perguntou o que havia acontecido para aquele afastamento brusco acontecer e a resposta era a pressão familiar da Hémely. Eles tratavam a Karol com muito preconceito, falavam que ela era diferente, que elas namoravam… Sendo que elas nunca haviam sentido nada além da amizade (ou não identificavam isso até então), entendiam sim que era uma amizade muito forte, unida, que prometiam não se deixar, mas ainda assim não era um lugar romântico. A avó de Karol sempre foi uma pessoa muito tranquila e aberta, aceitava ela como ela é. Queria que ela fosse feliz sendo era, sozinha ou com alguém. Já a família de Hémely, sempre teve sua cultura moldada pela religião, não deixava Hémely ter acesso a muita coisa. Quando voltaram a se falar, com a avó de Karol no hospital, Hémely pensou no quanto Karol deveria estar triste, então se dispôs a comprar comidas, preparar lanches e chegou na casa dela com sacolas, frutas, muito apoio, disposta a ajudar e a voltar para sua vida, independente se sua família gostasse disso ou não. A avó de Karol infelizmente faleceu alguns dias depois da internação. Foi um baque gigantesco. Naquele momento Karol tinha apenas 20 anos, perdeu sua família, sua base. Hémely foi o principal suporte, junto com o apoio de outra amiga. A avó de Karol sempre a criou dizendo que quando ela morresse, ninguém seria por ela, que ela precisaria aprender a se virar… E assim o fez. O primeiro ano foi muito difícil, passou por diversas violências e precisou reaprender a viver. Ainda nesse primeiro ano, entre o luto, o suporte e tantas coisas que aconteciam, Karol e Hémely começaram a se envolver romanticamente e decidiram assumir o relacionamento. Entenderam que gostavam uma da outra há muito tempo, eram suas redes de apoio e construíam um amor, queriam investir no que sentiam. Porém, Hémely foi criada sob um olhar preconceituoso e ainda se via com preconceito, via outras pessoas gays com preconceito, levou muito tempo para quebrar seus bloqueios e entender que estava tudo bem viver esse amor, não era um pecado e ela não era uma pessoa estranha, só era ela mesma e estava fazendo algo bom, vivendo algo feliz. O começo do namoro envolveu diversos desafios simultâneos: a vida da Karol estava virada de cabeça para baixo - o luto, a violência com os familiares que não possuía contato tendo que lidar depois da morte da avó, ela se reconhecendo nessa nova vida, um relacionamento acontecendo - e a vida de Hémely em redescoberta sobre a sua sexualidade, um novo amor, o medo que seu próprio preconceito causara e sua família descobrindo tudo isso. Seu pai desconfiava, deixou de falar com ela ao ver ela se reaproximando da Karol e viveram um rompimento muito difícil, principalmente por terem sido muito próximos a maior parte da vida. Cada vez mais, a relação entre elas virava um ponto de apoio mais forte e necessário. Como a relação entre Hémely e a sua família piorava com o tempo, a partir de 2016 ela e Karol começaram os planos de morar juntas, mas só em 2019 Hémely conseguiu morar na casa de Karol. A mudança ocorreu de fato alguns meses depois, quando alugou um caminhão e buscou suas coisas na casa da sua família. Foi um processo longo, superando medos, com terapia e respeito ao próprio tempo, porque são vários contextos de violência e é preciso ter dinheiro também para alugar um novo espaço, mas conseguiram dividir um lar. Logo depois, moraram juntas num apartamento um pouco maior: esse que fizemos as fotos e que adoram estar, passear na pracinha, olhar as árvores… É um lugar que se sentem bem. Alguns meses após estarem dividindo a casa, Karol trabalhava enquanto técnica de enfermagem e precisou estar na linha de frente do combate ao Covid-19 durante a pandemia, então a rotina mudou um pouco e vieram novos desafios, mas afirmam o tempo todo: ‘o caminho é para frente, não tem outra opção, não tem como parar ou voltar, estamos seguindo e seguindo juntas, ainda que devagarinho’. Falam também da importância da arte nesse processo todo que viveram. Karol recebeu o diagnóstico de autismo nos últimos anos e pôde entender um pouco mais sobre si mesma e sobre como lida com a vida. Lembra hoje em dia das violências e pensa como a arte foi a grande aliada. As músicas que ouvia (cita Maria Bethânia, Francisco El Hombre…) e o quanto elas sempre se apagaram nas múltiplas expressões artísticas para conseguir respirar e sentir que os processos passariam. Hémely completa que juntas sempre combinaram de serem suporte, não desistir, sobreviver. Karol estava com 31 anos no momento da documentação, trabalha enquanto psicóloga e adora ler, é seu maior hobbie. Gosta de praticar atividades físicas porque acredita que isso mantém o corpo regulado, é uma pessoa metódica e gosta da rotina. Tem uma moto, adora mexer nela e se sentir um pouco mecânica, descobrir como as coisas na moto funcionam. É natural de Recife e morou muito tempo da sua vida em Abreu e Lima, então a moto foi de grande ajuda para se locomover entre as cidades, dando maior independência. Hémely estava com 31 anos no momento da documentação. Trabalha como escrevente extrajudicial no cartório, é formada em direito e hoje em dia cursa ciências sociais. Se formar em direito foi uma batalha, por conta de diversos entraves com seu pai, mas depois de muita luta conseguiu terminar o curso - e hoje em dia estuda o que realmente ama. Além dos estudos, adora assistir filmes, ou melhor, dormir no sofá enquanto assiste filmes… e ler. Para Karol e Hémely, a história que elas constroem e o amor presente nela serve de base para abrir portas para que outras pessoas não precisem viver o mesmo. Ou seja, não querem que o preconceito siga existindo, que outras pessoas passem pelas violências que elas passaram. Querem que seus familiares se espelhem no amor verdadeiro que elas vivem, que seus amigos saibam que ali existe com quem contar, que outras pessoas possam ouvir suas histórias e que não precisem passar por tanta dor como elas passaram para ficarem juntas… Acreditam que vivemos coisas para aprender e devolver o aprendizado de alguma forma, compartilhar para mudar as realidades, e esse também é um ato de amor, de estarem dispostas a mudar as coisas. Karol vê o amor no cotidiano, no presente, no respeito que existe na relação, no companheirismo que atravessa o dia-a-dia, os problemas e os desafios. Alinhando as expectativas, as conversas difíceis e as individualidades. Adora cultivar a relação, compartilhar o sonho. Fica feliz de viver um relacionamento que constroem com tanto carinho, fazendo essa escolha diária. Entendem que isso é o tempo, uma parte da história, mas que até então agora é a melhor de todas as partes que já viveram. Hémely fala sobre o relacionamento ser marcado por vários recomeços, e dentre esses recomeços, várias conquistas. Essa é a parte que a deixa mais feliz. O amor que vive com Karol mudou a forma que ela enxerga o mundo e foi um despertar para ela própria também, foi quando ela olhou para os próprios vazios, se acolheu, olhou para outras relações de forma diferente. E segue os processos porque acredita o quanto ainda podem crescer. ↓ rolar para baixo ↓ Karol Hémely
- Beatriz e Kika | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Beatriz estava com 25 anos no momento da documentação. Nasceu em Moita Bonita, povoado de Sergipe, mas cresceu em Aracaju, onde vive atualmente. Advogada criminal, ela atua no tribunal do júri, lidando com casos de homicídio - uma área desafiadora, especialmente para mulheres, que enfrentam o machismo diariamente na profissão. Reitera que sempre ao encontrar outras mulheres no júri, sente um misto de alívio e alegria, um sinal de que os espaços estão sendo conquistados. Também integra a Comissão de Diversidade da OAB em Aracaju, e desde que se entendeu enquanto mulher lésbica viu sua profissão unida à jornada pessoal de enfrentar a homofobia. Jornada essa que partiu de dentro de casa, desde os primeiros relacionamentos, lidando com invalidações da sua identidade e terapias de cura. Hoje em dia, no seu relacionamento com a Kika, pela primeira vez sua mãe aceitou conhecer a namorada, chamá-la pela forma correta e interagir como a família que são, conta, sorrindo, como têm sido legal viver essa experiência. Jirlana, ou Kika, como é chamada pelos amigos, estava com 30 anos no momento da documentação e é natural de Poço Redondo, cidade interiorana de Sergipe. Quando nos encontramos, estava em processo de mudança para Aracaju. Depois de cursar zootecnia e trancar a faculdade, ela planeja começar enfermagem na capital. Criada em um ambiente conservador, enfrentou um questionamento único quando se abriu sobre a sexualidade: “Existe tratamento pra isso?” e com calma e firmeza explicou que amar mulheres não é algo a ser "tratado", pois não é doença. A decisão de mudar envolve tanto a vontade de estar mais próxima de Beatriz quanto o desejo de liberdade que uma cidade maior oferece. São apaixonadas por cafeterias, principalmente para provar chocolates quentes. Conhecem várias em Aracaju, como o lugar onde fizemos as fotos, e quando viajam fazem questão de passear nelas pelos locais onde passam. Também costumam anotar as melhores, dando notas, para um dia voltar. Beatriz sente que seu relacionamento com Kika a faz viver plenamente, explorando juntas todas as possibilidades. Ela compartilha que, no dia anterior da documentação, foram juntas a um evento do trabalho, algo que antes parecia impensável. Em outros momentos da vida, Beatriz se sentiria mais retraída ao ir sozinha, mas Kika é sua parceira em tudo, alguém que a impulsiona na carreira, é amiga de seus amigos e ambas conquistam com o jeito extrovertido. Adoram sair, se divertir e fazer amizades. "A gente gosta de se amostrar", brinca Beatriz, destacando que se esforçam para tratar os outros com simpatia, como gostariam de ser tratadas. Sempre juntas, não perdem a oportunidade de aproveitar qualquer passeio ou evento, dispostas. Beatriz relembra como, antes de Kika, não conseguia se imaginar em um futuro ao lado de alguém. Agora, tudo mudou. Elas se sentem livres para sonhar com uma vida compartilhada: construir uma família, ter filhos e morar juntas. Beatriz se descreve hoje como "grudenta" e ri ao contar que vive perguntando: "Vamos casar quando? Está demorando muito! Já pegou sua certidão de nascimento pra gente casar?" Kika conheceu Beatriz por acaso e o início da conexão foi marcado por coincidências e resistências. Após uma festa perto de sua cidade, Kika conheceu novos amigos e viveu uma noite suuuuuper intensa, mas estava sem celular e no dia seguinte resolveu procurá-los no Instagram para compartilhar as histórias engraçadas que viveram. Beatriz era a melhor amiga de uma dessas pessoas que Kika tinha conhecido, então aparecia frequentemente como sugestão de amizade para Kika, que sempre recusava. Até que um dia cedeu e a seguiu, achando que Beatriz, com tantos seguidores, não retribuiria. Para sua surpresa, Beatriz seguiu de volta, viu alguns stories, puxou papo e a conversa começou. No dia da conversa inicial, Kika estava curtindo uma “farra” na cidade - festa que acontece com paredões de som, só que em terrenos mais afastados da cidade, para que ninguém reclame do barulho - mas decidiu voltar para casa mais cedo e postou um storie assistindo um filme, tomando sopa. Bia respondeu, puxando um assunto. Conversaram um pouco, porém, com a proximidade das festividades de São João, viviam entre trinta dias ininterruptos de festas de forró, então não mantiveram um clima de conversas frequente, era tudo muito esporádico, quando sobrava um tempo entre um show e outro, uma festa e outra. Até que, numa madrugada, enquanto Kika voltava de uma festa em um povoado próximo, Beatriz, sem conseguir dormir, mandou mensagem. Conversaram até o amanhecer, e desde então, nunca mais pararam. Naquela época, Beatriz estava prestes a se mudar para Santa Catarina, mas o sentimento entre as duas cresceu tão rapidamente que desistiu da mudança. Elas brincam que começaram a namorar antes mesmo de se conhecerem pessoalmente, tornando o início da história tão inesperado quanto único. Após semanas de conversas intensas, Kika decidiu ir até Aracaju encontrar Beatriz pessoalmente e dar início ao que já parecia ser um namoro. Ambas sentiam o amor florescendo, mas precisavam daquele encontro para confirmar que não era apenas um delírio das redes sociais. Nervosas, se encontraram pela primeira vez e, no mesmo instante, souberam que aquilo seria real e duradouro. Passaram o fim de semana juntas, mas Kika precisou voltar para casa - mesmo querendo ficar. Na segunda-feira, já de volta, Kika enviou flores para Bia com um pedido de namoro, explicando que queria mesmo era ter feito isso pessoalmente. Desde então, vivem esse amor, mesmo com algumas horas de distância entre suas cidades. Viajam frequentemente para se encontrar e agora, com a mudança de Kika para Aracaju encaminhada, a rotina promete ficar ainda mais leve. No momento da documentação estavam bem empolgadas pensando em como tudo tende a ser mais tranquilo morando próximas, construindo juntas uma nova vida na capital. Amam organizar os looks combinando, até as capinhas dos celulares são pensadas com cuidado. Gostam de se ver como uma meta de casal - recentemente, marcaram presença na parada LGBT de Aracaju e reafirmam que vivem a relação que sempre sonharam: um casal clichê, apaixonado e, como brincam, inimigo do fim. ↓ rolar para baixo ↓ Beatriz Kika
- Quem faz o doc? | Documentadas
Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! QUEM FAZ O DOCUMENTADAS ACONTECER? O Documentadas é o primeiro banco de registros sobre o amor entre mulheres. Suas histórias são acolhidas através da escuta e da fotografia - essas, feitas por mim, a Fernanda. Idealizei o projeto em 2020 e desenvolvo ele desde então. Sou fotógrafa, fotojornalista, artista e entusiasta a mudar as visões das pessoas sobre o mundo. O .doc, hoje, representa um banco de dados online, disponível para todas as pessoas interessadas na proposta de conhecer mulheres que amam ou amaram outras mulheres na historiografia. Acredito que o Documentadas não é feito apenas por mim, mas por diversas pessoas que, ao longo dos meses, se dedicaram a doar um valor simbólico para que ele seguisse acontecendo e chegando em cada vez mais casais, pessoas que colaboram da forma que podem e que acreditam na potência do doc. Sem essas doações, o projeto jamais seguiria existindo. Portanto, reafirmo: o Documentadas é nosso. Um projeto vivo que segue em transformação. Com essas doações o projeto já chegou em centenas de mulheres por todo o Brasil. São as colaboradoras e os colaboradores: Adriana Bueno Valente Alana Laiz Alana Palma Pereira Alessandra Orgando Alessandro dos Santos Alice Cordeiro Alice Sbeghen Tavares Aline Vargas Escobar Allana Fraga Gonçalves Botelho Alyce Carolyne Porto Leal Amanda Fleming Batista Amanda Garcez Amanda Moura Ana Carolina Araujo Soares Ana Carolina Costa da Silva Pinheiro Ana Carolina Cotta Ana Carolina de Lima Ana Carolina de Souza Santos Ana Cecília Resemini Esteves Ana Clara Bento Ruas Ana Clara Piccolo Ana Clara Tavares Ana Flávia Pereira Ana Júlia Cardoso Daer Ana Milene Ana Parreiras Ana Paula Boso Ana Paula Costa Roncálio Ândria Seelig Ane Salazar de Aguiar Anelise Seren Angela Lacerda Anne de Araújo Baliza Anne Mathias Antônia Magno Aria Maria Mendes de Carvalho Augusto Pellizzaro Barbara Fadini Bárbara Fernandes Vieira Dias Beatriz Costa Nogueira Bianca de Souza Rodrigues Francisco Bianca dos Santos Zrycki Bianca Hamad Choma Bibiana Nodari Borges Brenda Eduarda Bruna Dantas Bruna Lourenco Reis Bruna Miranda do Amaral Camila Fernanda da Silva Camila Lobo Camila Monteiro de Oliveira Camila Nishimoto Camila Pereira Silva Camila Petro Camila Santiago Camilla Borges da Costa e Mello Caren Laurindo Carla Correa Carla Murielli Vieira Crispim Carolina Pasin Carolina Peres Caroline Barbosa Rodrigues Caroline Brum Caroline Corrêa Cecilia Couto Cecília Vieira de Paiva Cindy Lima Clara Campos Martins Clara Silva Claudio Daniel Tenório de Barros Cleiciane da Silva Figueiredo Cleiciane Figueiredo Cleicy Guião Cristiane Becker Damares Mendes Rosa Dandara Gonçalves Daniela Maldonado Daniele Silva Caitano Débora Queiroz Denize Dagostim Denyse Filgueiras de Alencar Diego Tomasi Dom Bittencourt Edilene Maria da Silva Elins Daiane Valenca Elis Lua Elisa Tenchini Elisabete Pereira Lopes Ellen Melo Santos Emanuelly Alves dos Santos Emily Blanco Fagundes Estela Caroline Freitas Evelyn Pereira Fabi de Aragão Fabiana Aparecida Peres Felicia Miranda Fernanda B Cardoso Fernanda Carrard Belome Fernanda Cristina Fiore Lessa Fernanda Frota Correia Fernanda Gomes Bergami Fernanda Lopes Fernanda Marques dos Santos Fernanda Uchida Francini Rodrigues da Silva Fredy Alencar Peres Colombini Gabriel Py Gabriela Biazini Talamonte Gabriela Fleck Gabriela Mancini Mainardes Gabriela Montenegro Gabrielle Schmidt Barbosa Gabrielle Secco Sampaio Geovana Maria de Lima Gomes Gilian Rodrigues Ventura Gisele Basquiroto Giulia Baptista Gizelle Cruz Glauciene Nunes Gloria La Falce Glória Lafalce Graciliene Nunes Guacira Fraga dos Santos Hailla Sianny Krulicoski Souza Sena Heloisa Silva Neves Henrique Standt Iana Aguiar Iana Oliveira da Silva Iasmim de Oliveira Isabela Arantes Costa Isabela Cananéa Isabela Damasceno Isabela Pereira Silveira Isabella Acerbi Isabella Bueno Isabella Milena Nascimento da Cunha Isabelle Rocha Nobre Isabelle Rosa Furtado Pereira Izadora Emanuelle Maizonetti Jady Marques Jamyle Rocha Silva Janaina Calu Janaina Dutra Janaina Monteiro Jéssica Bett Jéssica Brandelero Jéssica de Almeida Fernandes Jéssica Dornellas Jéssica Gladzik Jessica Rosa Trindade Jessica Soares Garcia Jéssica Spricigo Joana Cardoso Jose Schwengber Joyce Marinho Jucineia Beatriz Julia Alves Pinheiro Julia Barros Julia Caetano Julia Câmara Julia de Castro Barbosa Julia Marques Tomaz Julia Oliveira Silveira Júlia Rodrigues Júlia Silveira Barbosa Juliana Figueiredo Juliana Poncioni Juliana Scotti Juliane Gomes Kamilla Siciliano Vargas Kamylla Cristina Santos Karine Veras Karoline Camargo Rocha Karoline Camargo Rodrigues Katia Alves de Melo Laira Rocha Tenca Laís Tiburcio Lara Beatriz Nascimento Larissa Sayuri Laura Luiza Rodrigues Nogueira Laura Serpa Palomero Layssa Belfort Letícia Alves Morais Santos Letícia Moreira das Neves Letícia Ribeiro Caetano Letícia Rocha Lia Tostes Liane Mendes Lilian Dina Linnesh Rossy Lorena Vidal Louise dos Santos Martins Louise Valiengo Luana Corrêa Tourino Luana de Lima Marques Luana Moreira Luana Ramalho Martins Luana Riboura Luciana de Sousa Santos Luciana Isabelle Luciana Patrício Luisa Rabelo Cruz Luiza Chaim Luiza Eduarda dos Santos Luíza Vieira Luiza Vieira Moura Maiara Scheila Freitas Santos Maíra de Oliveira Sampaio Maíra Godoy de Carvalho Manuela Almeida Seidel Manuela Teteo Natal Maria Clara Pimentel ATÉ AGORA, 317 PESSOAS JÁ COLABORARAM Maria de Fátima Piccolo Maria Gabriela Medina Maria Gabriela Schwengber Maria Geyze Andrade Barbosa Monteiro Maria Vitoria Candiotto Mariah de Faria Barbosa Mariana Coutinho Mariana Ferreira Dias Mariana Gomes Mariana Gomes dos Santos Mariana Matias de Sousa Mariana Souza Pão Mariane Mendes Lima Marianna Novaes Martins Marília Alves Marina da Silva Maristela Valdivino dos Santos Maurício Oliveira Mayara de Souza Santos da Silva Melissa de Miranda Mérope Messias Miguel Angel Milena Abdala Milena dos Santos Ferreira Milena Pitombo Monique Barbosa Costa Monique Silva de Figueiredo Moreira Natali Alves Lima Natalia Correa Montagner Natalia da Silva Brunelli Natalia Kleinsorgen Natasha Torres G Morgado Nathalia Nascimento Nathalia Silva Nascimento Neuza Ferreira Rodrigues Paloma Gomes da Silva Paula C Vital Mattos Paula Silveira Petra Herdy Pollyana Carvalhaes Ribeiro Priscila Ribeiro Priscilla Bitinia de Araujo Amorim Rafael da Silva Pereira Rafaela de Carvalho Marques Raquel Dantas Rayanne Cristina Nunes Moraes Rayssa Padilha Rebeca Fortunato Santos Ferreira Rebecca Pedroso Monteiro Rebecca S Morgado Bianchini Rejane Rodrigues Renata Canini Renata Del Vecchio Gessullo Renata Martho Renata Santos Lima Maiato Renata Silveira Vidal Reybilis Ismaryen Blanco Espin Roberta Teodoro de Oliveira Barbosa Sabrina Alves de Santana Samantha Moretti Sâmela Amorim Aquino Santiago Figueroa Sarah Nadyne de Codes Oliveira Sharon Werblowsky Simone Ambrósio Sofia Amarante Sofia Conchester Sophia Chueke Stephanie Estrella Taciane Duarte Dias Taina Fernanda Moraes Taina Oliveira Talita Marques Talyta Mendonça Tamiris Ciríaco Társila Elbert Tayami Fonseca Franca Tayana Costa Tercianne de Melo Ferreira Thabatta Alexandra Possamai Thais Agda Rodrigues da Cruz Primo Thais Cristine V Souza Thaissa Mezzari Thatiely Laisse de Queiroz Silva Thayanne Ernesto Thaysmara de S. Araújo Triscya Tamara Lima de Souza Ramos Ursula Inara Mayca Vanessa Pirineti Vania da Silva Victoria Bandeira Moreira Victoria Catharina Dedavid Ferreira Victoria Maciel Farias Victoria Mendonça Vitória Maria de Oliveira Vivian Franco Viviane Lafene Viviane Lima Viviane Otelinger Viviane Rangel Wanessa Gomes Wanessa Oliveira Weila Oliveira Noronha Yasmin da Cunha Martins Yasmin de Freitas Dias FAÇA PARTE DESSA HISTÓRIA. DOE ATRAVÉS DO NOSSO PIX: FERNANDA@DOCUMENTADAS.COM Fernanda Piccolo Huggentobler - Idealizadora
- Mah e Bruna | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Foi num clube de leitura voltado às mulheres lésbicas que Mari e Bruna se conheceram, no começo de 2024. O clube funciona online, Bruna era uma das mediadoras e organizava um grupo de Whatsapp, quando Mari entrou e se apresentou. Surgiu o interesse porque Bruna sentiu tudo em comum: ela já tinha ido para o japão e Bruna ama viajar, gostam de coisas nerds, de gatos… Então decidiu seguir ela no Instagram. No decorrer dos dias, puxou assunto e a conversa fluiu. Brincam que é uma história bem moderna, essa ‘coisa de se conhecer online’. Mari correspondia ela no Instagram até que perguntou: “Mas afinal, de onde a gente se conhece?” E Bruna explicou que era do grupo de leitura. Como Mari chegou lá se apresentando, achou justo que agora fosse a vez de Bruna se apresentar também. Dias depois, Mari postou que adorava fazer brunchs e tomar bons cafés da manhã e Bruna a convidou para tomar um brunch no Theatro Municipal de São Paulo - local que inclusive fizemos a documentação acontecer. Se encontraram no domingo, 11h da manhã, e mesmo achando bastante chique esse primeiro encontro ele foi emendado em vários outros acontecimentos: depois do Theatro passaram o dia caminhando em eventos culturais que aconteciam pela cidade. Quando já era noite, foram para um bar e demonstraram que queriam se beijar, mas ainda não haviam tomado atitude. Acabaram ficando juntas até 3h da manhã: um date que estava quase virando 24h. Se sentiam muito felizes por estarem se conhecendo, não queriam que o dia acabasse. No segundo encontro, Bruna cozinhou para Mari sua comida favorita. Sentiram-se cada vez mais próximas com o passar dos dias. Quando estavam completando um mês que se conheceram, Bruna contou que iria fazer uma grande viagem ao Sri Lanka e à Índia - parte por trabalho, parte por realizar um sonho e querer conhecer ambos lugares - Mari via sua preparação, a parte que iria tirar férias lá, toda a expectativa e perguntou “e se eu for?”. Foi uma grande felicidade para a Bruna. Sentem que poderia dar muito errado ou muito certo. Estariam num lugar com uma cultura muito diferente, sozinhas, sem se conhecer tão bem… Antes de viajarem tiveram conversas muito profundas sobre a relação e sobre começarem de fato a se relacionar, nomear como um namoro, lidando com seus medos, trazendo suas bagagens. A viagem aconteceu com 4 meses de relação ao todo. Depois do trabalho que Bruna fez no Sri Lanka, Mari chegou e viveram uma semana por lá, depois mais 15 dias na índia. Foram muitas experiências diferentes, muitos perrengues e muitos momentos felizes. A viagem foi para o lado bom: o lado que deu certo. Elas até comentam durante a documentação: “A viagem em si deu várias coisas erradas, mas a gente nunca deu errado”. Entendem que a viagem só funcionou porque se ajudaram muito, principalmente nos dias mais ansiosos e difíceis - e assim seguem até hoje porque nos momentos difíceis se apoiam, nos momentos felizes comemoram e adoram descobrir e explorar juntas, como foram nesses dias longe do Brasil. Tanto Mari, quanto Bruna, adoram conversar. São pessoas tranquilas e não se veem brigando, discutindo algo de forma grandiosa… gostam de refletir bastante sobre a relação que constroem para melhorar ela e entender o que pode ser diferente. Se sentem muito à vontade para dizer o quanto estão ou não prontas para as coisas - Bruna cita o exemplo de que no momento não se sente pronta para morar junto, e que está tudo bem, com o tempo a relação irá amadurecer e isso acontecerá em fluxo. Amam estar juntas, assim como amam suas individualidades e seus espaços pessoais, suas rotinas intensas. Respeitam cada lugar e tentam não se atropelar no tempo, para que a relação se torne algo pesado no cotidiano. Mari entende que o amor que elas constroem é uma base, uma família, um acolhimento. Sente que a família da Bruna também à acolheu muito, foi “adotada” ganhando uma família nova, com um carinho enorme nessa aproximação. Adora fazer presentes de dia das mães para a mãe e para a avó da Bruna, saber que realmente pode contar com essa família e aprender um novo amor com elas. Bruna completa que essa sensação que a Mari tem pela família dela, ela sente pelos amigos da Bruna. Ganhou novos amigos que adora, que troca meme, mensagens queridas, se sente acolhida e que realmente ama. Enxerga a relação de uma forma muito livre: não faz as coisas com a Mari porque está preenchendo uma “tabela de normas” e sente que precisa fazer, faz porque se sente bem, porque estão felizes juntas. Marianna estava com 32 anos no momento da documentação. É natural do Rio de Janeiro mas reside em São Paulo há oito anos. Trabalha como designer, sendo formada em publicidade e é apaixonada pela parte visual de conteúdos e por formar comunidades sobre, compartilhando conteúdos. Adora o mundo nerd, jogar videogame, assistir filmes e passar um tempo com o seu gatinho. Bruna estava com 34 anos no momento da documentação. É natural de São Paulo, adora conversar, é formada em história e entende que pertence à área de humanas, adora ler, escrever, trabalha e estuda as religiões e gosta de estar com pessoas. Assim como a Mari, Bruna também adora o mundo nerd, está sempre pesquisando e escrevendo algo sobre. Ela também adora viajar, já conheceu diversos países - parte por turismo, parte por trabalho, atuando diretamente na área dos direitos humanos. No tempo livre, Mari e Bruna adoram aproveitar as múltiplas coisas que São Paulo oferece: seja uma agenda cultural diversa, um restaurante ou café. Adoram conhecer novos lugares ou aproveitar a cultura local. ↓ rolar para baixo ↓ Marianna Bruna
- Clarissa e Roberta | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Clarissa estava com 31 anos no momento da documentação, é natural de Carpina, cidade interiorana de Pernambuco. Chegou em Recife para fazer faculdade de farmácia, fez um intercâmbio para o estado de Minas Gerais onde passou um ano e meio lá estudando - e conhecendo um pouco mais de si, do mundo, tendo influências positivas diferentes das que possuía na cidade pequena ou em Recife - e quando voltou já se sentia muito diferente. Começou a viajar mais pelo Brasil, se inscreveu em congressos e cursos, aconteceram também suas primeiras experiências com mulheres, seu primeiro relacionamento e, assim, morou em outras cidades… sentiu que passou a conhecer mais quem ela era de verdade. Depois do seu primeiro relacionamento não ter dado certo e não ter sido tão bom quanto esperava, decidiu voltar para Recife, e voltou com um olhar totalmente diferente daquela primeira vez quando chegou. Se reconectou com a cidade, conheceu novas pessoas e se permitiu fazer uma viagem que sempre sonhou: para a Amazônia. Quando voltou: conheceu Roberta. Hoje em dia, moram juntas e parte do seu trabalho é compartilhado em casa com ela, numa sala com máquinas impressoras 3D montando recursos terapêuticos para auxiliar pessoas com dificuldade em mobilidade. Roberta estava com 28 anos no momento da documentação. Ouvindo Clarissa contar sua parte no momento da nossa conversa, ela comenta que seu momento de descoberta não foi assim aos poucos como o da companheira, sempre se viu 100% hétero. Suas amigas comentavam que ela deveria ficar com meninas para experimentar, mas ela nos padrões heteronormativos não concordava, até comentava que achava uma mulher ou outra bonita, mas era admiração, não atração. No íntimo, confessa: tinha curiosidade, mas não pensava em explorar. Pensava que se encontrasse uma mulher que realmente chamasse a atenção ela se permitiria, enquanto isso, não pensaria sobre. Foi um processo de muito autoconhecimento até se relacionar com Clarissa. Roberta é natural de Recife, morou muitos anos em Jaboatão dos Guararapes e fez uma especialização enquanto terapeuta ocupacional em reabilitação física. Hoje em dia, é responsável pela Ocupacional 3D, onde fazem os produtos citados no início do texto e também dá palestras e cursos sobre recursos terapêuticos. Quando Clarissa chegou em Pernambuco após a viagem, era época de São João e decidiu instalar um aplicativo de relacionamentos para encontrar alguém e ir nas festas dançar um forrozinho. Foi assim que conheceu Roberta. Na época, Roberta já havia desconstruído - ou melhor, construído - um pouco a ideia de se relacionar com mulheres, já passara por algumas experiências e entendeu que poderia, sim, estar numa relação com uma mulher. Às vezes deixava seu app voltado para homens, às vezes para mulheres… não tentava se enquadrar em algo. E em 2023 estava num momento de cura, depois de períodos difíceis vividos em 2021 e 2022, queria conhecer pessoas novas. O primeiro encontro foi o bastante para entender que iriam se conectar (o primeiro mesmo que deu certo, ainda bem! Porque o primeiro que a Clarissa havia sugerido era um encontro que nitidamente daria errado, uma ação social de catar lixo no rio…). Mas ufa, o primeiro encontro foi o forrozinho sonhado, conversas com conexão e tudo mais. Até comentaram com os amigos que provavelmente iriam ouvir falar mais o nome uma da outra nas conversas… porque provavelmente não seria algo passageiro. Continuaram se encontrando, descobriram coisas semelhantes, foram sentindo que tudo poderia virar um namoro, mas não falaram sobre isso diretamente, aos poucos introduziram o assunto, até que um mês depois estavam de fato namorando. Depois do início do namoro, passavam muito tempo juntas. Não ficavam mais de três dias sem se encontrar. Foi quando decidiram dividir o lar. Cerca de um ano depois, já estavam noivas. Num pedido de casamento, Clarissa criou um cordel inspirado na história delas e presenteou Roberta. O São João é muito significativo para elas, afinal, é a data que se conheceram e o período preferido do ano. Mas não podemos deixar de citar: entre os presentes, desde o começo do namoro Clarissa se destaca pelas ideias criativas. Tudo foi caminhando com intensidade, afirmam a rapidez quando relembram, mas entendem que o aprofundamento da relação foi feito à vontade. A própria família da Clarissa, que nos outros relacionamentos nunca se aproximou, fez questão de conhecer a Roberta e estar próxima durante a mudança, conhecendo o lar que elas moram. Para elas, isso mostra o quanto esse relacionamento é diferente. Apesar da família ainda ter seus limites, é muito importante ver como tudo já caminhou com disposição, como as pessoas ao redor já mudaram suas percepções e seus preconceitos nesses últimos anos através do amor. Roberta conta que no começo ela sentia bastante medo da rapidez e da proximidade, mas que de alguma forma se sentia à vontade e gostava do que vivia, queria dar uma chance para essa relação. Por mais assustadora que fosse a velocidade, praticamente avassaladora, possuía a sensação de que já se conheciam. E não queria mais estar distante. Foi estranho ver uma pessoa chegando “de mala e cuia” na sua casa aos poucos, encaixando suas coisas, compartilhando sua rotina. Depois seria estranho não ter mais essa pessoa. Hoje explica como foi importante a existência da Clarisse na sua vida para tantas outras coisas, como a questão das impressoras 3D que possuem em casa, que ela sempre sonhou em ter para fazer os produtos com adaptações para pessoas com deficiência. Foi Clarissa quem incentivou a busca pelo sonho e hoje são companheiras de estudos e sócias, criaram a empresa da Roberta, que explica o quanto o trabalho a salva diariamente. Ela é uma pessoa que se move pelo cuidado, seja com a família ou os amigos, está sempre zelando por quem ama. É dedicada e sente que isso está na sua cultura, aprendeu a ser assim desde criança, tanto que escolheu essa profissão. Fizemos questão de documentar esse sonho nas fotos também, nessa parceria num dos quartos de casa é onde mora uma parte muito grande desse amor. ↓ rolar para baixo ↓ Clarissa Roberta
- Letícia e Rossana | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Letícia estava com 32 anos no momento da documentação. É veterinária e costuma dizer que isso resume muita coisa da sua vida. Nascida em Belo Horizonte, mudou-se para o Rio de Janeiro no começo de 2023, movida por uma sensação antiga de que precisaria viver ali em algum momento, somada à uma oportunidade de trabalho. O sol, o calor e a praia sempre pareceram combinar com quem ela é. Além de veterinária, é tutora de quatro pets, gosta de ler, vive cronicamente online e adora os memes e o mundo digital. Rossana estava com 30 anos no momento da documentação. Também é veterinária, mineira até o último detalhe e carrega com orgulho os estereótipos: café, queijo, prosa e afeto. Nascida e criada em Belo Horizonte, mudou-se para o Rio há cerca de oito meses, depois de um período em que viveram o relacionamento à distância. Enquanto Letícia veio primeiro, Rossana permaneceu em BH cuidando dos pets - os que já estavam com elas e os que foram aparecendo pelo caminho. Hoje em dia, morando no Rio, conta que sempre gostou muito da cidade, principalmente do movimento, do calor que convida a estar na rua e dos encontros simples em bares ao ar livre - quase sempre acompanhados de uma cerveja e boas conversas. O primeiro ano da Letícia no Rio foi o mais difícil, especialmente pela distância entre elas e pela saudade da família. Com a mudança definitiva da Rô, a rotina ganhou outro ritmo e mais leveza. Ainda que estejam criando novos vínculos na cidade, a maior parte da rede afetiva segue em Belo Horizonte: a família e as amizades antigas. Até mesmo dos amigos que estão no Rio, vários vieram de BH. Por isso, as viagens de volta são frequentes, quase mensais, mantendo viva a conexão com o lar. Foi na Faculdade de Veterinária da UFMG que Letícia e Rossana se conheceram, ou melhor, não foi na faculdade - foi no Bar do Cabral. Um famoso bar estilo copo-sujo em frente à universidade. Elas estudavam na mesma época, mas em prédios e rotinas diferentes. Letícia entrou na faculdade em 2014 e, por um período, esteve em intercâmbio, o que fez com que não se cruzassem antes. Foi apenas em 2016 que os caminhos se alinharam. Na primeira vez em que se viram no bar, houve interesse, mas nenhuma conversa. Algum tempo depois, voltaram a se encontrar no mesmo lugar e trocaram olhares. Ainda assim, não se falaram naquela noite. Mais tarde, Letícia tomou a iniciativa e enviou uma mensagem pelo Facebook, já sabia quem era a Rô e encontrou o perfil dela. Comentou que havia percebido a troca de olhares e perguntou se ela ainda estava por ali. Ela já tinha ido embora, mas começaram a conversar online. Sem muitos recursos, sendo jovens e ainda morando com a família, combinaram de se encontrar pela primeira vez na biblioteca da faculdade. Depois de uma aula, se encontraram e, numa cabine da biblioteca, deixaram o tempo passar. Se beijaram - depois de Rô ter insistido um beijo, porque sentia que Letícia estava tímida - e depois foram caminhando até onde pegariam a van para ir embora. Em 2026 elas completam dez anos juntas, construindo essa história passo a passo. Pouco tempo depois do primeiro beijo, começaram a namorar e, desde então, a vida foi sendo compartilhada de forma contínua. A convivência veio naturalmente, mas morar juntas aconteceu mais adiante, em 2021, durante a pandemia. Até então, ambas viviam com as famílias e já conversavam sobre esse desejo, mas parecia que ainda não era a hora certa - precisavam terminar os estudos, priorizar a carreira por um tempo. Durante esses anos, quase tudo foi vivido em conjunto. Elas se formaram na mesma faculdade em tempos próximos, depois ingressaram juntas na residência da UFMG (em especialidades diferentes, mas no mesmo ciclo) e trabalharam no mesmo hospital veterinário. Foram anos de rotina compartilhada, de muito tempo lado a lado e de um vínculo intenso. A mudança para o primeiro apartamento, em Belo Horizonte, marcou um novo capítulo: foi ali que construíram, de fato, uma casa. Compraram a própria cama, mesa, móveis, escolheram cada detalhe. Brincam que não são minimalistas. Gostam de casa com cara de lar. Esse processo foi muito simbólico. Antes viviam em um universo muito voltado à faculdade, aos amigos e então deram um passo à um processo diferente: a moradia. Foi também nessa fase que começaram a adotar animais, algo que fala muito sobre elas e a relação. O primeiro pet foi uma gatinha que acabou ficando com a mãe de uma delas; depois vieram outros gatos, adotados ainda em 2018, quando moravam separadas. Desde o início, cuidar (da casa, da profissão, dos animais e uma da outra) sempre fez parte do jeito delas de estarem juntas. Já na nova casa, vieram as novatas: a gatinha e a cachorrinha. Letícia conta que já fazem anos que ela deseja casar - e morar junto. O processo começou de fato quando sentiram que existia estabilidade, a mãe dela ajudou bastante e são muito gratas pelo apoio que possuem da família e dos amigos. Depois que já moravam juntas e estavam bem adaptadas, em 2023, Letícia recebeu a proposta para vir para o Rio de Janeiro. Ela sempre amou o Rio e desejou morar aqui, então foi uma decisão conjunta aceitar a proposta e se jogar na nova oportunidade. Não foi fácil viver o relacionamento à distância, mas em 2025 Rô também se mudou, com os pets e com o restante da casa, recomeçando a vida em um novo lar. Foi também quando o pedido de casamento se concretizou: Letícia preparou tudo a partir de um álbum de fotos antigo que elas completavam juntas aos poucos, mas que foram deixando de lado. Ela completou as páginas que faltavam e, na última, escreveu a pergunta: “Quer casar comigo?”. Ajoelhou-se, entregou o álbum e improvisou a aliança - porque sabia que a escolha definitiva precisaria ser conjunta (e porque estava muito indecisa para isso). No fim, noivado feito, planos traçados, casamento sonhado para 2027. São dez anos de uma construção longa, marcada por conversa, aprendizado e flexibilidade. Com o tempo, vieram a maturidade, o respeito à individualidade e a compreensão de que ceder também é forma de ganhar. Hoje em dia, a vida a duas se faz junto dos bichos (Pavê, Pudim, Pimentinha e Pitanga) e dos bichinhos que foram lar temporário ou que já partiram (cada um deixando sua marca, sua história, seu amor). ↓ rolar para baixo ↓ Rossana Letícia
- Sue e Sil
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Sue estava com 64 no momento da documentação e nasceu em Salvador. Quando seus pais se separaram, mudou-se para Maceió com a mãe, que trabalhava na Petrobras. Em seguida, viveu no Rio de Janeiro sua maior infância até os 25 anos, formando-se com forte influência carioca. Em 1998, retornou à Maceió para atuar no Teatro Deodoro, onde conheceu Silvana. Hoje, compartilham a vida e o trabalho, dirigindo juntas uma produtora cultural. Silvana estava com 58 anos no momento da documentação, nasceu em Maruim, Sergipe, e chegou em Maceió no ano de 1982. Jornalista, radialista e produtora cultural, sempre esteve ligada ao meio artístico. Criou o primeiro caderno de cultura do principal jornal da cidade e, posteriormente, trabalhou no Teatro Deodoro. Como frequentadora assídua das artes cênicas, encontrou lá uma verdadeira realização profissional. A relação entre elas começou pela admiração no trabalho. Durante as trocas na rotina do Teatro Deodoro, Sue já nutria sentimentos por Silvana. Juntas, fizeram uma verdadeira revolução artística na cidade, reabrindo um teatro centenário que ficou 11 anos fechado e que nem era mais considerado. Sem a facilidade da internet, num mundo de comunicações por fax, enfrentaram desafios para recolocar o espaço no circuito cultural nacional. Entre projetos, parcerias e grandes aprendizados, construíram um vínculo que ultrapassou o trabalho, tornando-se um amor sólido, baseado no respeito, na arte e na construção de um legado cultural alagoano. Sue conta que a relação sempre esteve entrelaçada ao trabalho, especialmente no início, quando chegou de Salvador após uma outra relação turbulenta que havia acabado. Trouxe consigo uma bagagem cultural fresca da Bahia e do Rio de Janeiro, que se refletiu no que estavam construindo no Teatro Deodoro. Juntas, ela e Sil levantaram diversos espetáculos e recolocaram o teatro no mapa cultural do Brasil, elevando o profissionalismo artístico em Alagoas - tudo isso sob a liderança de duas mulheres lésbicas, importante ressaltar. Ambas sempre se entenderam como lésbicas e viveram essa identidade de forma natural dentro dos meios culturais que frequentavam. Nos anos 70, 80 e 90, Sue no Rio e Sil em Sergipe encontraram espaços onde a sexualidade não era um tabu. No entanto, conversam muito e sentem que hoje as coisas estão dentro de muitas “gavetas” Estas “gavetas” estão aí para realmente trazer liberdade, identidade, autonomia e auto afirmação do que cada um é, mas muitas vezes acabam dividindo mais, se tornando uma separação. “E eu não gosto de separação. Eu gosto de tudo misturado. Não gosto de ambientes que são só isso ou só aquilo. Gosto de gente.” Por conta do trabalho, Sue e Sil abriram mão de viver uma rotina mais romântica. Como passam a maior parte do tempo juntas, lidando com demandas intensas e muitas pessoas (ainda mais agora, com o escritório dentro de casa), aprenderam a valorizar os momentos de tranquilidade a sós. Para elas, esses instantes de calma são essenciais para manter o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Elas reconhecem o impacto do que fizeram: duas mulheres liderando espetáculos em Alagoas era algo inédito. Foi assim que se encontraram, criando projetos culturais transformadores, como o “Teatro é o Maior Barato”, que democratizou o acesso ao teatro com ingressos a R$ 1,99, e espetáculos que circulavam pelo estado. Além de movimentar a cena artística, construíram uma relação de pertencimento com o público, que passou a ver o teatro como um espaço acessível e vibrante. Sil sempre teve paixão pelo jornalismo e adorava sair pelo estado imaginando matérias, transformando a busca por pautas em uma brincadeira. Como o mercado era novo, havia muito a explorar: tudo era cultura. Até os anos 90, Alagoas sequer tinha uma coluna dedicada ao tema nos jornais, sendo reduzido a notas esporádicas indicando filmes ou menções na coluna social. Criar um espaço fixo para a cultura se tornou um vício, um compromisso de dar voz e visibilidade à produção artística local. A relação começou de forma intensa, marcada por um gesto simbólico: Sue morava em um lugar muito quente, sem estrutura porque havia recém se mudado, e Sil apareceu com um ar-condicionado de presente. “A gente já tinha começado a namorar, ela chegou lá em casa, um forno! No outro dia, chega com o ar-condicionado… e depois ela.” Foram se envolvendo e percebendo que compartilhavam o mesmo ritmo e gostos. Hoje, olham para trás e se surpreendem: “25 anos de relação! É muito tempo! Mas, ao mesmo tempo, a gente vai se descobrindo e redescobrindo.” Atualmente, moram ao lado da família de Sil, para estarem próximas da mãe idosa, em uma vila acolhedora e repleta de gatos. Recentemente passaram por uma grande reforma em casa, o que exigiu ainda mais energia e paciência. Refletem sobre as inúmeras crises que enfrentaram - principalmente financeiras, pela instabilidade do trabalho em um país que não valoriza a cultura - e reconhecem que nem todo casal suportaria esses desafios. Mas atravessar tudo isso juntas fortaleceu ainda mais o amor. Entre noites que se olham antes de dormir e percebem o cansaço e momentos de conexão, sabem exatamente como lidar uma com a outra, guiadas por maturidade e intimidade construídas ao longo desses 25 anos. Sue sente que Sil trouxe um chão para sua vida, mesmo quando ela mesma diz se sentir insegura. “A Sil trouxe para mim, apesar dela dizer que não lida, que enlouquece, que fica insegura, mas ela trouxe para mim, para a minha vida, uma segurança em um lastro, um chão, que é tão importante. Eu nem sei se estaria nesse plano ainda. Porque eu era muito desligada, muito apaixonada por tudo, entrava de cabeça em tudo, de tudo, de trabalho. E a Sil, sem impor nada. Ela veio, foi amor mesmo, com o amor dela. E ela me acolheu de uma forma que eu cresci. Me tornei uma pessoa muito melhor. Para mim mesma.” ↓ rolar para baixo ↓ Sil Sue
- Mariana e Marie | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Conheci e documentei a Mariana e a Marie numa ida muito breve até Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no fim de dezembro de 2021. Não prevíamos a ida, quem dirá o encontro, mas estávamos em contato antes mesmo do Documentadas inaugurar, desde fevereiro do mesmo ano, quando comecei algumas movimentações na internet sobre o lançamento do projeto e elas entraram em contato comigo porque gostariam de se inscrever. De pronto, pensei: “Nunca fui ao Mato Grosso do Sul e não vejo como ir agora, acho bem difícil acontecer", eis que elas estiveram no Rio de Janeiro e mesmo assim não conseguimos nos encontrar… tudo desandou, mas se encontrou de novo: foi no Parque das Nações Indígenas, numa tarde típica, entre calor, sol e chuva, muitas araras e boas conversas, que fizemos a nossa documentação. Por mais que esse encontro realmente tenha acontecido no Mato Grosso do Sul, a verdade é que nem a Mariana, nem a Marie são de lá. Mariana tem 28 anos, é do Rio de Janeiro mas mora lá, ou melhor, mora em Sidrolândia, interior do estado. Já a Marie é de Fortaleza, mas está em Campo Grande há cerca de 6 anos, entre estudos e trabalho. Marie faz diversas brincadeiras por ter um estilo surfista e por não ter mar em Campo Grande, então elas contam que a relação é cheia de sonhos - esses, possíveis de alcançar: morar em um lugar confortável litorâneo, ter uma casa para elas estarem com a husky que adotaram, fazerem novos amigos, vivenciar o amor que acreditam ser compartilhado na relação que elas constroem diariamente. Com o começo da pandemia, a Mari e a Marie se viram em uma situação que não imaginavam viver antes: pela Mari ser servidora pública estadual, ela passou a trabalhar de home office e a Marie também, sendo assim, elas ficaram juntas em casa durante todo o período de isolamento. Este período fez com que muitas coisas fossem repensadas. Foi como um período teste para saber se elas dariam certo morando juntas, claro, porque nem todo mundo dá certo (e tá tudo bem!), mas o repensar foi sobre um futuro mais distante. Elas nunca tinham pensado, por exemplo, sobre o envelhecimento. Marie conta que foi um processo sobre se entender e entender a Mari enquanto uma companheira de vida, foi morando junto com ela neste período que ela percebeu que queria envelhecer junto, ter essa companhia, não se ver mais sozinha como se via anteriormente… Com o passar dos meses, foram amadurecendo essa ideia. Hoje, comentam sobre o casamento e, por mais que a Mari trabalhe em outra cidade e que isto não permita morarem na mesma casa, nada é fixo. Estão sempre dispostas a mudar ou a melhorar a rotina da forma que podem. Por mais que as duas fizeram a mesma faculdade, de Direito, em Campo Grande, não foi no curso que se conheceram. Na verdade, há algumas versões disso - ou melhor, elas foram se conhecendo por etapas. Quando pergunto se alguma delas possui algum hobbie, a Mari conta, rindo, que o grande hobbie da Marie é fazer o ENEM. A graça por trás disso é que a Marie fez o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) por muitos anos, assim, por fazer, mesmo já estando na graduação e foi numa dessas provas que a Mari era fiscal e elas caíram na mesma sala. A Marie achou a Mari muito bonita e notou que ela estava usando o moletom do curso de Direito e, como fazia parte do curso também, foi pesquisar nos grupos do Facebook até achar o perfil dela. O que ela não imaginava é que justamente naquela época a Mari tinha dado um tempo das redes sociais e desativado o perfil do Facebook, então não apareceria mais nesses grupos, ou seja, a Marie não encontrou e desistiu. Um tempo depois, Marie voltou a treinar muitos esportes (rugby, polo aquático, handebol…) e participou de um grupo de meninas que jogavam. Nesse grupo, perguntou se alguém era da mesma região que ela, para conseguir companhia na ida-volta ou até mesmo uma carona e a Mari respondeu, quando encontrou ela pessoalmente viu quem era e ficou chocada, logo pensou “Eita, é a menina do ENEM!! A Mariana não deu muito papo no começo. Ao menos, não na versão da Marie. Ela tentou puxar alguns assuntos em vão e até adicionou no Instagram, mas ela não aceitou, nem chegou a ver a solicitação. Meses depois ela viu a solicitação, aceitou e quando começou a aparecer no Instagram da Marie, ela logo puxou um assunto respondendo um storie. O que, obviamente, a Mari não interpretou como um flerte. Foi preciso continuarem conversando e desenrolando assuntos até que as coisas foram acontecendo. Ah, e um detalhe importante! Claro que a Mari lembrava que conhecia a Marie de algum lugar, antes do esporte, mas nunca do ENEM. Ela até perguntou aos amigos, se alguém conhecia ela, se já tinham ido a algum evento em comum… mas ninguém sabia dizer. Durante a conversa o mistério foi desvendado e ela lembrou de tudo. Um tempo depois de conversarem pelo Instagram, elas se encontraram pessoalmente e tudo começou a fluir muito bem. Nessa época, a Marie ficou um pouco receosa, pois vivia um pós término em que ainda morava/dividia apartamento com a ex namorada, por questões de estarem se organizando com as contas. Elas moravam juntas antes do término e eram mulheres que não tinham base familiar na cidade de Campo Grande, então era difícil sair de casa sem ter para onde ir tão repentinamente. Precisava-se de um tempo para achar um novo imóvel, assumir os gastos, etc. Falar tudo isso pode ser delicado para alguém que está começando a conhecer, ainda mais no caso dela e da Mari, que demorou tanto para finalmente acontecer e que ela estava se sentindo tão envolvida… Então ela sentiu um pouco de medo da Mari desconfiar ou achar que isso fosse um papo sobre uma relação que não tivesse realmente acabado. Foi com um diálogo muito aberto e sincero que conseguiu falar sobre isso e estabelecer uma confiança legal sobre o que estava acontecendo. A Mari acompanhou o processo e tudo acabou sendo tranquilo, a mudança aconteceu no tempo que tinha para acontecer e sem desconfianças, enquanto as duas se conheciam melhor também. A Mari comenta que, para ela, amar é o que move as relações - e o que aproxima os seres humanos. Ela já teve relacionamentos com homens e mulheres e pela dificuldade que sentiu na identificação da última vez que tentou se relacionar com um homem, acabou entendendo que a relação entre mulheres envolve uma desconstrução muito maior. Mas que o amor está/atinge à todos - envolve empatia no dia a dia e no convívio. Marie conta as relações da identificação dela com o amor… Como ela foi aprendendo isso na vida e a ler essas interpretações - ela explica que, por muito tempo, buscou parâmetros de amor que não viveu. Pela vivência com a mãe não envolver um afeto físico, nunca entendia o motivo exato disso, até que com essas leituras passou a entender as vivências da mãe, fazer recortes, ter consciência de classe, raça, ler detalhes dentro da história de uma mulher. Ela diz que: “Mesmo com esses recortes, têm coisas - como o amor - que a gente não precisa abrir uma enciclopédia para explicar… uma mulher sabe amar a outra porque isso naturalmente acontece.” Marie Mariana
- Juliana e Priscila | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Juliana estava com 40 anos no momento da documentação e é natural de Olinda, cidade pernambucana em que fizemos as fotos. Formada em administração, trabalhou por alguns anos em um banco privado e hoje em dia trabalha numa empresa familiar que é responsável por recicláveis. Juntam os materiais (plástico, papel, papelão, vidro…) em outras empresas e encaminham para o destino correto. Além do trabalho, adora assistir filmes, viajar, ficar com os bichos em casa… Comenta que são tantos anos de relação, praticamente a metade da vida juntas, que faz com que se veem fazendo tudo juntas. Adoram viver a rotina. Priscila é natural de Paulista, cidade vizinha de Olinda. Quando conheceu Ju, Priscila trabalhava na área de merchandising, mas acabou prestando serviços para a família da Ju na empresa de recicláveis e descobrindo o ramo, se encontrou e trabalha com isso até hoje. Também adora gastronomia, sua verdadeira paixão que começou como um hobbie e vêm se desenvolvendo - de vez em quando criam alguns jantares e recebe até encomendas de comidas italianas para produzir. Pergunto para Ju e Pri como funciona uma empresa de reciclados, acho muito incrível esse ser o trabalho delas e poder compartilhar sobre um assunto tão necessário por aqui. Elas explicam que trabalham com empresas como supermercados que reciclam papelão - e papelão vira papelão novamente - ou editoras que reciclam livros didáticos por conta deles precisarem ser renovados por novas normas ortográficas ou atualizações de conteúdos - então fazem separação de papel… E assim encaminham cada material para as indústrias. Por exemplo: um papel branco pode virar papel higiênico, papel toalha, guardanapo… É um trabalho útil, rentável e necessário para o mundo. Em 2008, Priscila havia acabado de se mudar para Olinda e estava dividindo casa com um grupo de amigas. Logo na primeira semana da mudança, junto com essas amigas, decidiram sair para se divertir em Recife, ir beber uma cerveja, curtir e comemorar. Porém, era no meio da semana, os bares fechavam cedo… Sempre foram ‘inimigas do fim’, decidiram parar em Olinda num barzinho que ficava aberto até mais tarde chamado “Estação Maxambomba”. Ju, por sua vez, saía do trabalho em Olinda e ia encontrar suas amigas que tinham uma banda tocando coco e maracatu, gêneros musicais tradicionais de Pernambuco. Do ensaio, iam direto para o bar, algo que virou tradição semanal. Lá, as amigas de Ju e Pri se interessaram umas nas outras, Priscila ficou um pouco chateada porque preferia algo mais reservado, a amiga dela já bêbada brincava de fazer um sotaque carioca, acabaram juntando as mesas e foi assim que Ju e Priscila se conheceram. Foram comprar cigarros juntas, voltaram de braços dados mas sentaram longe quando chegaram na mesa… No final da noite, trocaram o número de telefone. Quando estavam indo embora, Priscila pegou a moto e as amigas começaram a zoar a Ju porque ela estava “flertando” com uma motoqueira… Depois começaram a conversar, na época ainda por SMS, contaram onde trabalhavam (Ju ainda estava trabalhando no banco e pouco conseguia tempo para mexer no telefone), mas marcaram de se encontrar novamente. Não se encontraram no primeiro momento combinado, mas marcaram um almoço no apartamento em que Priscila dividia com as amigas. O almoço durou o dia todo no domingo. Brincam que não seriam elas a mudar a história das lésbicas, então desde que ficaram juntas já não se separaram mais, Ju foi voltando nos dias que seguiram e assim não se desgrudaram. Ju foi morar sozinha quando trabalhava no banco porque sentia que já era a hora de ter sua independência e porque tinha uma cachorra que destruía tudo na casa dos seus pais. Acabou que não conseguiu ficar com a cachorra por conta dela precisar de mais espaço, mas cuidou dela através de uma amiga até ela ficar velhinha. Mesmo Ju tendo sua própria casa, vivia na casa da Priscila e das suas amigas, mas o apartamento estava ficando cada vez mais caótico com o tempo pelo fato de todas serem bastante jovens, faziam várias festas e a casa sempre estava cheia de gente. Até o momento que decidiram que precisavam de um novo lar, era bagunça demais até para elas - que eram inimigas do fim. Em 2009 conseguiram uma casa em Maracaípe, um lugar tranquilo que iam passar os finais de semana. Levaram algumas coisas no caminhão da empresa da família da Ju, já estavam morando juntas em um apartamento e os outros móveis encaminharam para essa casinha “de praia”. Em 2009, também, adotaram o Marvin, primeiro cachorrinho de muitos animais que vieram depois - e fiel companheiro que acompanhou quase toda a relação, faleceu no último ano. Depois de Marvin, chegou Frida, para lhe fazer companhia. Em seguida, num dia saindo para almoçar, ouviram alguns miados e encontraram um gatinho embaixo de uma árvore… Até tentaram não pegar na ida para o almoço, mas na volta não teve jeito, seria Diego. E, um tempo depois, surgiu Magali, uma gatinha que fizeram um resgate e deram uma nova vida. E assim, a família só foi aumentando… Foi chegando o Hulk, a Fiona, Rutinha, Ratinha, Olga, Mingau, o Snoop… Hoje em dia ainda possuem alguns animais em casa, entre gatos e cachorros, mas todos com o mesmo destaque: o direito a boa e a longa vida. Em 2012 chegaram à casa que moram hoje em dia, com os bichos e uma vida relação já construída. Depois que estavam com uma mentalidade mais madura sobre essa construção, começaram a pensar na unidade familiar que estavam construindo e resolveram cogitar a maternidade e a adoção. No começo do processo de adoção, estavam pensando que gostariam de adotar um bebê. Foram atrás, frequentaram as reuniões, começaram a pensar um pouco em outras possibilidades. Mas aconteceu uma situação da qual as deixou muito chateada e as fez voltar atrás, não quiseram seguir com o processo. Depois que cuidaram de uma cachorrinha, a Ratinha, durante alguns anos com cuidados diários desde todas as alimentações com mamadeira, até problemas respiratórios, nos olhos, vitaminas… Viram que estavam dispostas a serem mães e pensarem novamente sobre a disposição de terem alguém para cuidar e amar todos os dias. Foi quando, em 2020, anos depois da primeira tentativa, cogitaram entrar para a adoção novamente. Porém, diferente das ideias iniciais de ter um bebê, já haviam amadurecido outras possibilidades e decidiram adotar um adolescente. Aurelino, que hoje em dia já está com 18 anos, chegou com 13 anos na família. Tudo começou com a ideia de um apadrinhamento, já que quando os meninos completam 18 anos e saem dos orfanatos existe uma mobilização para que eles tenham condições de viverem sozinhos por um tempo. Elas foram até o local onde ele estava, conheceram todos os meninos junto da assistente social, mas havia uma condição: você não pode demonstrar interesse em adotar a criança que quer apadrinhar. Então decidiram mergulhar de vez na adoção. Conversaram com ele para saber se ele teria interesse em fazer parte da família, foi bem legal por conta de serem duas mães e ele já ter uma bagagem de vida, opinião, cultura formada, diferente de uma criança muito pequena… e ele ficou bastante animado. Queria fazer parte da família. Sempre foi carinhoso e atencioso. Ju e Priscila fizeram questão de manter as origens familiares de Aurelino antes de sua adoção também. Entendem que a bagagem que ele trás é única e é sobre quem ele é, sobre a vida dele. Assim como, os momentos que constroem juntos, são muito importantes para essa nova pessoa que ele está se tornando. Hoje em dia, a documentação dele já consta o nome das duas mães, inclusive recentemente quando ele foi se alistar ao exército houve um questionamento sobre e ele tratou de forma completamente natural e elas se orgulharam disso. Da mesma forma que ele enfrenta suas novas questões na fase da adolescência e adultez e elas tentam acompanhar isso da melhor forma, porque também é uma novidade para a primeira vivência na maternidade. São novos diálogos, desafios, vivências escolares, conversas sobre a profissão e o trabalho que deve seguir, relacionamentos… Também foi muito difícil pela primeira vez conviver com um homem dentro de casa, os recortes são outros, aprenderam, viveram muitas mudanças sendo mães, e se deram conta de coisas que ninguém havia ensinado durante o processo de adoção também: a saúde dele era muito mais frágil por conta da sua vivência e da sua alimentação na infância e levou alguns anos para ser fortificada, a educação precisou ser reforçada, a saúde mental, o vocabulário… Fazem muita questão de conversar tudo o tempo todo, entendem que não há tempo a ser desperdiçado em deixar uma conversa para depois. Ju entende que depois de tantos anos de relação, essa família tão forte que formaram reflete o quanto podem contar uma com a outra sem competição, sem disputarem quem é melhor dentro da relação. Vivem um companheirismo que quer o crescimento de todos. Enxergam a amizade, o incentivo, os projetos que dividem, o quanto a família é importante. Hoje em dia a mãe da Priscila mora com elas e foi para todas se fortalecerem, Priscila já ficou fora do Brasil para trabalhar por alguns meses em 2023 e Pri, Aurelino toda a família super apoiaram para que ela fosse porque sabiam que seria importante… Tudo é lutado em conjunto porque entendem que estão caminhando juntos. E o amor que vivem é o que mantém essa luta fazendo sentido. ↓ rolar para baixo ↓ Priscila Juliana





