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Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

288 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Quero participar! | Documentadas

    Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! QUERO PARTICIPAR! COMO FAÇO PARA ME INSCREVER? É muito mais fácil que você imagina ♥ Você e sua companheira gostariam de ser fotografadas e participar do projeto? Preencha os campos a seguir e em breve entraremos em contato com você! É importante ressaltar três coisas: 1. Só documentamos e registramos casais. Entendemos a importância de cada mulher enquanto um ser único nesse mundão! Mas nosso objetivo é registrar o amor entre mulheres.* 2. Acabamos registrando mais casais entre o Rio de Janeiro e Porto Alegre devido aos locais de residência, mas o projeto vive em movimento com o intuito de documentar o amor entre mulheres por todo o Brasil, então: não desanima se você morar longe! Pelo contrário: têm casais de amigas que topariam participar também? Chama elas e se inscrevam juntas! Assim, quanto mais pedidos, mais chance de ir até vocês. 3. Fazer o Documentadas dá trabalho! Sou em uma fotógrafa só (mulher, artista-independente) com um projeto artístico e social que demanda muito financeiramente. E por isso, cobramos um valor simbólico. Explicamos tudo no link da inscrição, mas você pode tirar dúvidas sempre ♥ Sua participação é muuuuito importante para nós. * caso você queira muuuuuito ser fotografada de forma individual, pode adquirir nossos serviços pedindo um orçamento de ensaio fotográfico. manda mensagem pra gente através da aba 'contato', ok? até logo! INSCREVA-SE AQUI

  • livro | Documentadas

    Aline e Aya audio

  • Sandra e Larissa | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Sandra é natural da Espanha, de uma cidade chamada Algeciras, localizada no sul do país. Se mudou para o México depois de morar em alguns lugares e foi lá que conheceu Larissa, começaram o relacionamento e fizeram seu primeiro lar. Hoje em dia, decidiram passar uma temporada no Brasil por conta de Lari ser brasileira, sua família morar no Rio Grande do Sul e, como formam uma família junto ao Otto, filho de Lari que Sandra adotou desde pequeno, entenderam também que seria bom para a educação dele estudar em uma escola brasileira por um tempo. Sandra estava com 32 anos no momento da documentação. É professora de espanhol, dá aulas online para estrangeiros e possui um foco em ter alunas mulheres, pessoas queers e não-binárias. Larissa, com 40 anos, trabalha com comunicação corporativa, de forma remota, e adora essa liberdade de poder viajar e não precisar estar em um lugar fixo por conta do trabalho. Lari sempre foi apaixonada pela América Latina e se dedicou à viajar por um bom tempo, pegando caronas, conseguindo trabalhos… Não tinha pretensão de ficar no México durante muito tempo, acabou ficando onze anos por conta das mudanças que aconteceram na sua vida. Engravidou, seu relacionamento de 15 anos chegou ao fim depois de se entender enquanto uma mulher que ama outra mulher, mudou as formas de ver o seu corpo e se enxergar na sociedade. Foi quando começou a conhecer novas pessoas e frequentar novos espaços no México - e, assim, conheceu Sandra. Logo que Sandra se mudou para o México, no fim de 2018, fez algumas amizades na cidade em que estava morando - Mérida - e foi num festival (que contava inclusive com algumas atrações brasileiras). Lá, lembra de ter conhecido Larissa, mas não chegaram a interagir muito. Um tempo depois, as duas entraram em um projeto de ativismo muito forte, por conta da onda de feminismo que estava acontecendo no México. Aconteciam muitos atos políticos, atividades e debates, então decidiram formar um grupo para pintar fachadas de casas e lugares com frases feministas. Começaram a ter amigas em comum e se encontrar com frequência, até que em 2019, no dia da Marcha do Orgulho, elas se envolveram pela primeira vez. Se reuniram com as amigas depois da Marcha e, mesmo Lari dizendo que não percebia que Sandra tinha interesse por ela, viu Sandra dançando uma dança espanhola e achou muito bonita, sentiu algo diferente. Depois, na festa, as pessoas estavam se beijando e ela não sentia que queria participar, mas queria beijar Sandra, foi quando ficaram juntas. Na hora nem imaginavam, mas ali começaria uma longa relação. Lari explica que hoje em dia entende o “clichê sapatônico”, mas na época nunca havia vivido algo assim e foi muito simbólico, principalmente pelo fato de ela ter um filho e isso soar como delicado para muitas mulheres. Para ela era muito importante entender a maternidade, o quanto isso faz parte de quem ela é, sendo protagonista da sua própria vida. E ver que Sandra abraçou quem era por completo e continuaram se encontrando com intensidade foi muito importante. No começo, Sandra não pensava em ficar no México por tanto tempo. Queria viver lá apenas um ano. Enquanto elas foram passando mais tempo juntas e se apaixonando, de alguma forma, isso foi virando um conflito, porque não levavam a relação tão a sério visto que havia um certo “prazo de validade”. Sandra, por mais que acolhia Lari em totalidade (ela sendo uma mulher, mãe, com um filho ainda pequeno), não entendia que estava entrando de fato em uma família. Demorou um bom tempo para que conversassem e pontuassem: ‘não podemos alimentar e gerar essa insegurança no que vai acontecer, desgasta, desperdiça energia. Ficaremos juntas ou não?’. Sandra teve o tempo que foi preciso para decidir se ficaria no México ou não, nesses meses que se passaram alugou uma casa. Lari também já tinha sua casa - que era uma casa mais antiga, meio colonial. Até que em setembro, no meio da pandemia de Covid-19, tiveram fortes chuvas e a casa estava velha, não havia preparo para aguentar aquele tempo e tanto volume de água, tudo alagou. Foram para o apartamento de Sandra e, por conta desse acidente, começaram a morar juntas, pelo menos até arranjarem um novo lar. Quando encontraram uma nova casa, num processo devidamente rápido, viram que ela era espaçosa o bastante para que Sandra morasse junto - com a condição de que cada uma tivesse um quarto. Com o passar dos anos, Otto cresceu e mudaram as ordens: Sandra e Lari ficaram juntas num quarto, Otto ganhou o próprio quarto só para ele. Entenderam que já estavam prontas para dividir o mesmo espaço. As vindas para o Brasil aconteciam de vez em quando para visitar a família da Lari. Sempre tentavam ficar alguns meses para Otto ter bastante contato com a cultura, conhecer pessoas novas e para Sandra também conhecer novos lugares - principalmente porque antes de namorar Lari ela nunca havia vindo para cá. Acontece que Otto passou por alguns problemas na escola, ele é bastante tímido e tem um jeito muito seu, que obviamente elas apoiam e incentivam que ele seja quem ele quiser ser, mas durante a pandemia era difícil ele ser alfabetizado através das telas. Ele não queria ligar a câmera, não era uma metodologia de fato acolhedora para as crianças e ele se sentia desconfortável. Acharam melhor tirar ele da escola por um tempo, fazer a alfabetização em casa e, quando ele voltou, também foi difícil a readaptação por conta de diversos preconceitos nas escolas mexicanas. Desde a primeira vez que visitaram o Brasil juntas, percebem o quanto ele se sente feliz aqui e muito adaptado com a liberdade que a cultura brasileira oferece. Foi crescendo a ideia de que ele poderia ser feliz estudando em uma escola brasileira, por isso, decidiram morar um tempo no Brasil e entender como seria a adaptação. Inicialmente a ideia era passar um ano, agora estenderam e será um ano e meio, visto que está dando certo: todos estão felizes. E, por mais que ainda existam julgamentos sobre o modelo de família que são, ele está cercado de pessoas que o apoiam, e isso que importa. Sandra conta que tem adorado o Brasil, fica muito feliz em conhecer cada vez mais um pouquinho da diversidade brasileira e que a própria rotina em casa tem sido muito mais leve com a mãe da Lari morando próximo e ajudando na educação do Otto. No entanto, ainda sente muita falta de terem amigas por aqui, sejam compartilhando a maternidade, a lesbianidade ou companhias para sambas e eventos pela cidade. Quando conversamos sobre o amor que constroem e também sobre as referências de amizade - suas amigas que ficaram no México - Lari conta que por ter vivido muitos anos uma relação heterossexual que estava num molde (que era feliz, tinha seus momentos ótimos, mas ainda sim estava num lugar confortável), então passou a descobrir muitas coisas quando amou outra mulher pela primeira vez. Foi num lugar de carinho imenso que a relação com Sandra aconteceu, e também de autoconhecimento. Nunca pensaram que se casariam, por exemplo, mas fizeram questão ao entender o significado disso, por questões políticas, sociais, burocráticas… pelo nosso merecimento ao amor. Brincam que existe um oceano que as separa e foi uma forma de irem deixando essas águas mais curtas. Hoje em dia, entendem que vem de realidades e culturas muito diferentes, mas instigam o melhor uma da outra. Sandra, por exemplo, sempre colabora para que Lari descubra um novo hobbie, possa sair um pouco da ideia de que só é mãe… Acreditam que o amor mora nesse lugar de incentivo, de parceria, família e crescimento. ↓ rolar para baixo ↓ Larissa Sandra

  • Dalle e Dyanne | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Dállete estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de União dos Palmares, interior de Alagoas e, sendo uma mulher descendente de indígenas/quilombolas, carrega isso muito forte em seu corpo. Foi criada por sua mãe e por parte da família materna numa cidade chamada Carpina, localizada na zona da mata norte pernambucana, onde morou até os últimos anos quando decidiu cursar direito no campus do sertão de Pernambuco, sendo a primeira pessoa da família a cursar faculdade. Dálle adora fotografar e durante a faculdade conseguiu se sustentar e realizar diversos trabalhos acadêmicos com a fotografia - criou um projeto fotografando as comunidades indígenas e quilombolas que tinha acesso, viajou para Brasília, Amazonas e Bahia, apresentou os registros em diversos lugares e ganhou prêmios. Até hoje cultiva o hobbie e a veia artística. Dyanne estava com 27 anos no momento da documentação, é natural de Carpina, zona da mata norte de Pernambuco, e conta sobre sua infância ter sido toda na igreja. Não lembra de algum momento antes dos 11 anos de idade não ter sido dentro da Igreja Petencostal do Sétimo Dia, foi só durante a pandemia de Covid-19 (com ela já sendo uma mulher adulta), quando tudo estava fechado, que viu a oportunidade de sair da religião e conhecer outros lugares. Entre as tarefas na religião, gostava de cantar e tocar violão. Foi lá, também, que conheceu Dálle. Dálle foi cristã muitos anos, quando entrou na universidade entendeu a grandiosidade do mundo - e do que era a sua vida em si: as violências que já havia sofrido, a cultura que carregava e o que significava seu corpo. Foi quando entendeu que poderia gostar de mulheres - de pessoas em geral - e que a sexualidade não define caráter. Dyanne sempre achou mulheres muito bonitas, entendia isso desde a adolescência, mas nunca soube como era o mundo para além da sua família e da igreja. Quando apareciam coisas para fora “da sua bolha” na televisão, o pai trocava de canal… Foi uma pessoa muito protegida. Entendeu o que era o contato físico entre as pessoas no ensino médio - e foi também quando pensou sobre a possibilidade de sentir algo por outra mulher. Mas, logo cortou a possibilidade, até porque não era sobre mulheres em geral, era sobre uma mulher especificamente. Mesmo assim, nunca chegou a acontecer nada, o medo que sentia do “pecado” era muito maior. Na época em que tudo isso aconteceu na escola, Dyanne chegou a conversar com uma psicóloga sobre: contou que estava conversando com uma menina e que achava que gostava dela. Coincidentemente, os pais estavam em separação e a psicóloga orientou que ela estava depositando a falta que sentia da mãe na busca por um afeto feminino, dizendo que ela “confundia as coisas”, mas não, que não gostava de mulheres, apenas estava confusa. Ela entendeu isso como um diagnóstico e, toda vez que sentia isso, ainda que anos depois, pensava “Nossa, ainda não passou?!”. Por mais que no decorrer dos anos tivesse admiração por outras mulheres, a primeira mulher que de fato se envolveu foi Dálle. [mais uma vez, fica claro a importância de buscarmos profissionais da saúde que nos enxerguem e nos acolham de verdade] Por mais que Dálle e Dyanne começaram a sua relação amorosa já adultas, são amigas de infância por conta da igreja e da vida no interior pernambucano. Sempre foram amigas confidentes, se tratavam com muito carinho e dividiam uma paixão imensa pela leitura de O Pequeno Príncipe, mas nunca haviam se olhado além da amizade (ou compartilhado a paixão por mulheres em suas conversas, pelo contrário, se entendiam enquanto mulheres héteros… e nem conheciam outras possibilidades). Fizeram uma prova de ENEM juntas - e essa prova para quem é da religião Adventista era totalmente diferente porque os sábados são guardados, então era feita durante um dia inteiro. Elas relembram o quanto se cuidavam durante a prova, nas filas e nos intervalos. Entendem que há 6 anos vivem essa relação amorosa e há 6 anos descobrem diariamente quem são, porque sempre viveram longe das outras culturas. Só em 2024, por exemplo, furaram as orelhas para colocar brincos pela primeira vez. Lembram dos primeiros eventos que foram: junto de um grupo que formaram com outros amigos LGBTs que saíram da igreja por não serem aceitos, foram ao carnaval pela primeira vez e achavam que seria horrível, o caminho todo passando mal com o medo do caos, o pensamento de que era o “Satanás” tomando tudo… e quando chegaram era lindo, muito colorido, com muitas crianças na rua e todos dançando maracatu. Dálle sempre foi uma mulher que performa feminilidade, usando roupas coloridas e maquiagem. Enquanto Dyanne possui um estilo que não gostava de usar batons diariamente, usava mais as cores preto e cinza… e todos falavam muito dela por conta disso, como se “já esperassem” que ela não fosse performar a heterossexualidade desejada. Porém, foi Dálle quem “saiu do armário” primeiro e contou para Dyanne que havia beijado uma menina. Quando estavam juntas, numa situação em casa, se encostaram e sentiram um frio na barriga. Não foi intencional, estranharam e pensaram “O que aconteceu ali?” mas, quando passaram próximas de novo, fizeram questão de encostar novamente para ver se iriam sentir. E deu certo. Naquele mesmo dia, algumas horas depois, Dálle estava na casa de um amigo e mandou um meme brincando para Dyanne, no desenrolar da conversa ela demonstrou o interesse em beijá-la. Acabaram não falando mais sobre isso, só deixaram a vida seguir o rumo, até que surgiu uma viagem para Recife à passeio, junto de outra amiga. Nessa viagem provaram cerveja pela primeira vez, já se sentiram diferentes uma à outra, conversaram a noite toda e finalmente ficaram juntas. A partir desse momento sabiam que queriam seguir juntas, acreditavam muito no que sentiam, mas havia o medo perante tudo o que aprenderam na igreja e de tudo o que precisariam enfrentar com suas famílias. O começo do namoro girou um ano em torno do medo e do preconceito com que a família (e a igreja) olharia o relacionamento e o amor que viviam. Contam o quanto foi doloroso, passaram muito tempo afastadas, depressivas e morando em lugares distantes. Questionavam o tempo todo “Será que é isso mesmo que Deus quer pra gente?!”. Se apegaram muito aos livros, liam no telefone juntas e isso amenizava a distância. Também pensavam em todas essas regras criadas na sociedade, esses julgamentos sobre elas, quem tem o poder sobre isso? Em suas palavras: “A gente entendeu que o amor de Cristo superava esse preconceito, sabe, e que Ele queria ver a gente livre. E tem um versículo da Bíblia que fala, né, de que foi para a liberdade que Ele nos criou. E ser livre é ser quem a gente é. Então, a gente decidiu que iríamos ficar juntas. E depois dessa decisão, estamos aqui, até hoje, assumidas.” Viveram longos processos conversando com suas famílias sobre o relacionamento. Alguns, inclusive, que só foram acontecer aos quatro anos de relação. Mas quando entenderam que o amor supera o medo e permite sonhar novamente, decidiram criar novos sonhos - e assim chegaram até Recife morando juntas, adotaram os bichinhos, criaram um lar… a vida tomou outra forma. Hoje em dia comemoram cada detalhe: desde passar datas comemorativas como um Natal juntas, até postar uma foto nas redes sociais, receber os familiares em casa, pegar nas mãos andando nas ruas… todas as coisas que por tanto tempo não puderam fazer. Dyanne pediu Dálle em casamento no Rio de Janeiro, num pedido que inicialmente deu errado mas depois deu certo, no show do Coldplay. Também fizeram união estável durante a pandemia de Covid-19, inicialmente por questões burocráticas de plano de saúde, mas hoje entendem a importância que isso representa. Sonham em realizar uma cerimônia em algum momento, com seus amigos, familiares, fazendo jus ao amor tão acolhedor que compartilham. Por mais que a história que viveram não foi fácil, tentam não demonizá-la, porque é intrínseca ao que elas são. Cuidam da mente e do coração para seguir sendo boas uma à outra e se permitem viver, experimentar, sentir as coisas… já que passaram tantos anos sem acesso ao mundo de verdade. Entendem que estão sempre em ressignificação: ressignificam a religião, Deus, o lar, a família, o amor… E querem encontrar a liberdade de viver a própria vida, o direito de cada um ser quem é. ↓ rolar para baixo ↓ Dállete Dyanne

  • Fernanda e Talita

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Fernanda e Talita se conheceram no início de 2014, apresentadas por um amigo em comum - o melhor amigo de ambas. O interesse surgiu aos poucos, mas nenhuma das duas falou nada no começo, achando que poderia ser coisa da própria cabeça. Fernanda já tinha experiência em se relacionar com mulheres, então Tatá achou que, se houvesse algo ali, ela tomaria a iniciativa. Mas foi o contrário: depois de meses nessa dúvida silenciosa, Tatá percebeu que precisava agir. No verão de 2015, finalmente ficaram juntas. Na época, Talita morava em São Paulo, onde fazia residência médica. Fernanda, por outro lado, sonhava em se mudar para lá, mas a vida deu uma reviravolta. Tatá decidiu voltar para Maceió, e Fernanda acabou ficando também. Foi uma escolha que transformou tudo, e de lá para cá, já se passaram quase dez anos de companheirismo, desafios e conquistas. O início do relacionamento foi um processo para Talita. Demorou um tempo para aceitar que estava apaixonada por uma mulher, e até mesmo quando voltou para Maceió não foram de cara morar juntas. Passaram alguns meses morando em lugares diferentes, até que, em 2017, compartilharam o lar. Quando finalmente assumiu esse sentimento, não teve mais dúvidas e encarou tudo sem olhar para trás, de cabeça erguida, principalmente pelos preconceitos familiares. Entendem, também, que morar juntas trouxe a oportunidade de se conhecerem de verdade, lidando com as diferenças e descobrindo o quanto se parecem em visão de mundo, mesmo tendo personalidades diferentes. Fê lembra de uma conversa que aconteceu com Tatá logo no início sobre o machismo e como aí ela percebeu que, ao se relacionar com uma mulher, os desafios e as trocas eram diferentes. Até compôs uma música na época, falando sobre compartilhar tanto as alegrias quanto os momentos difíceis - e o relacionamento trouxe essa conexão profunda, onde não apenas se amam, mas também se apoiam em questões que só elas entendem. Tatá nunca havia morado com alguém antes, enquanto Fernanda já tinha experiência em dividir um lar com outras companheiras. No início, Fernanda fez questão de deixar espaço para que Tatá se adaptasse sem pressão, mas riem lembrando como eram diferentes as vivências. Ela admira o jeito da Tatá que está sempre disposta a crescer e se transformar, sem medo da mudança. “Tem coisas que a gente não consegue mudar, mas a maioria dá para ajustar”, diz Fernanda, reconhecendo que essa abertura para evoluir é um dos traços mais bonitos de Tatá. Fernanda entende que não é fácil mudar: as pessoas são mais resistentes à mudança, mas que Tatá muda porque entende que a mudança a torna uma pessoa melhor (e que sempre está disposta a ser melhor). É um desprendimento muito interessante. E uma das coisas que mais admira nela. Cartola, o cachorro, é parte essencial da família que construíram juntas. Fazem questão de levá-lo para todos os lugares possíveis, sempre respeitando seu bem-estar, reforçando esse vínculo. Ele as acompanha em shows, restaurantes, encontros com amigos e passeios. Para elas, amor está na lealdade e na confiança, no equilíbrio entre o vínculo profundo e a liberdade individual. Não precisam estar juntas o tempo todo, fazer tudo lado a lado, porque o amor não é sobre posse, mas sobre autonomia. “A gente ama quem a pessoa é e dá autonomia para que ela continue sendo, e isso faz com que o amor permaneça.” Essa segurança mútua torna a relação duradoura, sem a necessidade de provar constantemente algo que já está solidificado. Sentem orgulho em inspirar outros casais e reconhecem a amorosidade particular dos relacionamentos entre mulheres. Criadas por mulheres fortes, aprenderam a escutar e acolher. Suas histórias ajudaram a transformar as famílias, quebrando barreiras de preconceito e culpa cristã. Hoje, são admiradas pelos que antes hesitavam em aceitar. Demonstraram que o amor não precisa se restringir a guetos, que podem ocupar qualquer espaço, vivendo uma relação bela e legítima, sem constrangimento ou necessidade de esconder quem são. Fernanda estava com 43 anos no momento da documentação. É natural de Maceió, sempre foi cantora, desde a adolescência, e a música virou sua profissão e sua vida. Mas em determinado momento, sem perceber, passou a ouvir música apenas como estudo ou trabalho, perdendo o prazer diário da escuta que antes sentia. Foi Thalita quem a fez reaprender a ouvir música com emoção, a cantar alto, a abrir os braços para sentir o som. Um resgate que trouxe de volta muitas sensações sobre a música enquanto arte, não apenas trabalho na sua vida. Além disso, ama praia - seria muito difícil mora longe a água - e ama passar o tempo com Cartola, seu cachorro. Talita estava com 40 anos no momento da documentação. É médica cardiologista pediátrica, equilibra sua rotina intensa na medicina com os momentos que compartilha com Fernanda. A música é o que as une: cantam juntas, fazem carnaval, organizam blocos. Se estressam no processo, mas no fim do dia dormem juntas, acordam e encontram no amor um alívio para os desafios. Vivem Maceió, entre consultas e palcos, o amor e a arte se entrelaçam. Fundaram um bloco de carnaval na cidade muito importante para a narrativa da diversidade, fazem questão da população LGBT+ ser ouvida e acreditam que isso reverbera para diversos corpos e para a história da cidade ser cada vez mais reconhecida. ↓ rolar para baixo ↓ Talita Fernanda

  • Clarissa e Roberta | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. ↓ rolar para baixo ↓ Clarissa estava com 31 anos no momento da documentação, é natural de Carpina, cidade interiorana de Pernambuco. Chegou em Recife para fazer faculdade de farmácia, fez um intercâmbio para o estado de Minas Gerais onde passou um ano e meio lá estudando - e conhecendo um pouco mais de si, do mundo, tendo influências positivas diferentes das que possuía na cidade pequena ou em Recife - e quando voltou já se sentia muito diferente. Começou a viajar mais pelo Brasil, se inscreveu em congressos e cursos, aconteceram também suas primeiras experiências com mulheres, seu primeiro relacionamento e, assim, morou em outras cidades… sentiu que passou a conhecer mais quem ela era de verdade. Depois do seu primeiro relacionamento não ter dado certo e não ter sido tão bom quanto esperava, decidiu voltar para Recife, e voltou com um olhar totalmente diferente daquela primeira vez quando chegou. Se reconectou com a cidade, conheceu novas pessoas e se permitiu fazer uma viagem que sempre sonhou: para a Amazônia. Quando voltou: conheceu Roberta. Hoje em dia, moram juntas e parte do seu trabalho é compartilhado em casa com ela, numa sala com máquinas impressoras 3D montando recursos terapêuticos para auxiliar pessoas com dificuldade em mobilidade. Roberta estava com 28 anos no momento da documentação. Ouvindo Clarissa contar sua parte no momento da nossa conversa, ela comenta que seu momento de descoberta não foi assim aos poucos como o da companheira, sempre se viu 100% hétero. Suas amigas comentavam que ela deveria ficar com meninas para experimentar, mas ela nos padrões heteronormativos não concordava, até comentava que achava uma mulher ou outra bonita, mas era admiração, não atração. No íntimo, confessa: tinha curiosidade, mas não pensava em explorar. Pensava que se encontrasse uma mulher que realmente chamasse a atenção ela se permitiria, enquanto isso, não pensaria sobre. Foi um processo de muito autoconhecimento até se relacionar com Clarissa. Roberta é natural de Recife, morou muitos anos em Jaboatão dos Guararapes e fez uma especialização enquanto terapeuta ocupacional em reabilitação física. Hoje em dia, é responsável pela Ocupacional 3D, onde fazem os produtos citados no início do texto e também dá palestras e cursos sobre recursos terapêuticos. Quando Clarissa chegou em Pernambuco após a viagem, era época de São João e decidiu instalar um aplicativo de relacionamentos para encontrar alguém e ir nas festas dançar um forrozinho. Foi assim que conheceu Roberta. Na época, Roberta já havia desconstruído - ou melhor, construído - um pouco a ideia de se relacionar com mulheres, já passara por algumas experiências e entendeu que poderia, sim, estar numa relação com uma mulher. Às vezes deixava seu app voltado para homens, às vezes para mulheres… não tentava se enquadrar em algo. E em 2023 estava num momento de cura, depois de períodos difíceis vividos em 2021 e 2022, queria conhecer pessoas novas. O primeiro encontro foi o bastante para entender que iriam se conectar (o primeiro mesmo que deu certo, ainda bem! Porque o primeiro que a Clarissa havia sugerido era um encontro que nitidamente daria errado, uma ação social de catar lixo no rio…). Mas ufa, o primeiro encontro foi o forrozinho sonhado, conversas com conexão e tudo mais. Até comentaram com os amigos que provavelmente iriam ouvir falar mais o nome uma da outra nas conversas… porque provavelmente não seria algo passageiro. Continuaram se encontrando, descobriram coisas semelhantes, foram sentindo que tudo poderia virar um namoro, mas não falaram sobre isso diretamente, aos poucos introduziram o assunto, até que um mês depois estavam de fato namorando. Depois do início do namoro, passavam muito tempo juntas. Não ficavam mais de três dias sem se encontrar. Foi quando decidiram dividir o lar. Cerca de um ano depois, já estavam noivas. Num pedido de casamento, Clarissa criou um cordel inspirado na história delas e presenteou Roberta. O São João é muito significativo para elas, afinal, é a data que se conheceram e o período preferido do ano. Mas não podemos deixar de citar: entre os presentes, desde o começo do namoro Clarissa se destaca pelas ideias criativas. Tudo foi caminhando com intensidade, afirmam a rapidez quando relembram, mas entendem que o aprofundamento da relação foi feito à vontade. A própria família da Clarissa, que nos outros relacionamentos nunca se aproximou, fez questão de conhecer a Roberta e estar próxima durante a mudança, conhecendo o lar que elas moram. Para elas, isso mostra o quanto esse relacionamento é diferente. Apesar da família ainda ter seus limites, é muito importante ver como tudo já caminhou com disposição, como as pessoas ao redor já mudaram suas percepções e seus preconceitos nesses últimos anos através do amor. Roberta conta que no começo ela sentia bastante medo da rapidez e da proximidade, mas que de alguma forma se sentia à vontade e gostava do que vivia, queria dar uma chance para essa relação. Por mais assustadora que fosse a velocidade, praticamente avassaladora, possuía a sensação de que já se conheciam. E não queria mais estar distante. Foi estranho ver uma pessoa chegando “de mala e cuia” na sua casa aos poucos, encaixando suas coisas, compartilhando sua rotina. Depois seria estranho não ter mais essa pessoa. Hoje explica como foi importante a existência da Clarisse na sua vida para tantas outras coisas, como a questão das impressoras 3D que possuem em casa, que ela sempre sonhou em ter para fazer os produtos com adaptações para pessoas com deficiência. Foi Clarissa quem incentivou a busca pelo sonho e hoje são companheiras de estudos e sócias, criaram a empresa da Roberta, que explica o quanto o trabalho a salva diariamente. Ela é uma pessoa que se move pelo cuidado, seja com a família ou os amigos, está sempre zelando por quem ama. É dedicada e sente que isso está na sua cultura, aprendeu a ser assim desde criança, tanto que escolheu essa profissão. Fizemos questão de documentar esse sonho nas fotos também, nessa parceria num dos quartos de casa é onde mora uma parte muito grande desse amor. Clarissa Roberta

  • Kétule e Beatriz | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Kétule, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela é natural de Turvo, uma cidade interiorana catarinense, e atualmente mora em Criciúma enquanto estuda medicina. Conta que já trabalhou em vários lugares, de atendente de loja à garçonete, mas hoje está se dedicando à sua loja de bordados e vive em um apartamento com sua gata Luna, visitando a família aos finais de semana na sua cidade natal. Beatriz estava com 22 anos no momento da documentação. É natural de Criciúma e trabalha enquanto fisioterapeuta. Sempre quis um trabalho na área da saúde e é apaixonada por isso, mas também já foi atleta de natação. Para além, no tempo livre, gosta de ser uma pessoa tranquila, caseira, adora sair para comer, ver o mar e fazer trilhas. Entendem que são pessoas com vários pontos em comum, mas ao mesmo tempo vivências e jeitos muito diferentes, temperamentos que refletem suas criações. Kétule tem uma relação muito aberta com sua família, principalmente porque já saiu de casa. Antes de assumir o relacionamento, pensou que se isso não fosse algo aceito para eles, iria acabar se afastando mais por já não morarem próximos, então tinha um grande receio, mas ainda maior uma vontade de falar sobre esse amor vivido e resolveu contar. Para Bia, Kétule adentrou como uma amiga, para depois ser namorada, então ficou um pouco mais difícil lidar. Sempre existiu a dúvida: “Será que a gente vai assumir? Será que um dia vai poder realmente falar: somos namoradas?” Faz pouco tempo que elas estão fazendo essa movimentação de se assumirem dentro de casa enquanto um casal, que começaram a ter uma relação com mais afeto na frente dos familiares. Acreditam que tudo faz parte de um crescimento. Foi através da internet que tiveram a primeira interação, tinham amigas em comum no Twitter e apareceu um tweet da Beatriz falando sobre a área da saúde, um estágio que iria abrir na UTI. Ela se interessou (pelo tweet e pela Bia) e começou a seguir ela, depois procurou o Instagram, ela seguiu de volta e começaram a conversar. Era dia 1 de abril de 2023, dia da UTI. Desde o primeiro papo as coisas fluíram, viram que estudavam na mesma faculdade e marcaram um café. O café aconteceu, se deram bem e marcaram um novo encontro, na casa da Kétule - um apartamento muito pequeno, onde criaram vários apelidos sobre ser um cantinho escuro depois de um longo corredor (caverna, corredor da morte, e por aí vai). Lá, beberam um vinho que só bebem em ocasiões especiais, comeram comidas gostosas e foi a primeira vez que se beijaram. Depois disso, se viam com frequência até que viveram os jogos da faculdade de medicina, um evento onde vem delegações de outros estados para competir em Criciúma. Kétule tocava na banda dos jogos e elas conversaram sobre esse evento, Beatriz disse que já estava perto do final do curso, que viveu tudo o que tinha para viver, mas que Kétule merecia se permitir experimentar o que a faculdade tem para oferecer, porque poderia se arrepender de entrar em uma relação. Ela fez a escolha, viveu os jogos (ainda assim sem deixar a Beatriz de lado) e depois que os jogos passaram decidiram entender aquela nova relação enquanto um namoro. Todos os amigos já adoravam elas juntas e elas sabiam que queriam namorar, mas precisavam daquele tempo para decidir e processar isso. Foi então que, ao comemorar o aniversário de uma amiga viajando para Garopaba/SC, depois de 3 meses juntas, elas selaram o pedido de namoro. Tanto Beatriz quanto Kétule namoravam homens antes de se relacionarem e já tinham apresentado esses namorados à família. Quando começaram a relação, pensaram muito sobre como iriam contar e abrir essa conversa sobre a bissexualidade. Aos poucos, Kétule contou para a mãe dela, e sentiu que toda a família foi compreensível, precisavam de tempo para entender mas nada na relação entre eles iria mudar. Para Beatriz foi mais complexo, o pai soube aos poucos e aceitou, mas a mãe tinha muitos preconceitos relacionados à elas. Foi só quando a relação estava quase completando um ano que elas conversaram sobre, quando a mãe perguntou se era um relacionamento e ela afirmou que sim. Mesmo tendo esse tempo, as coisas ainda não são fáceis, e só dia após dia elas se permitem tratar com algum afeto perto da família e permitir que a situação seja digerida. Todos os finais de semana dedicam um tempo para estar com os familiares, seja na casa da Beatriz ou na casa dos pais da Kétule, e acreditam que mostrando estar por perto esses preconceitos serão quebrados. Hoje em dia a rotina durante de semana entre estudos e trabalho é bem intensa, então o final de semana é o momento de aproveitar a relação, seja cozinhando, visitando a família, recebendo amigos e planejando o que ainda desejam viver juntas. Entendem que são pessoas bem diferentes: Kétule é mais agitada, a cabeça não para, comunicativa… Enquanto Beatriz é calma, sempre pensa muito antes de agir e não vê maldade nas pessoas. Kétule explica que na relação ela aprende o tempo todo a desacelerar, enquanto Beatriz também aprende a se abrir mais, se permitir viver mais coisas. Adoram planejar a vida juntas: desejam investir na carreira, casar, ter filhos. Criar uma família investindo em quem são e respeitando suas dificuldades, mas não fazendo com que isso se torne uma barreira. Adoram a perspectiva de vida que criaram juntas, explicaram durante a documentação que o pedido de casamento foi dividido em 4x, já que para poder casar vai levar uns 5 anos e porque numa vida heterossexual o homem pede em casamento e tudo se encaminha, para elas o melhor é fazer do jeito delas. A primeira parte do 1/4 do pedido já foi feita, Kétule presenteou Beatriz comprando uma aliança, em São Paulo. Riem dizendo que já estão 25% noivas. Kétule sempre foi uma pessoa clichê no amor, que gosta de surpresas, de ser romântica, das demonstrações… Beatriz já não é assim, acredita no amor nas ações pequenas, nos atos diários, então tiveram que adequar para entender suas linguagens. Hoje o amor delas é uma junção das duas coisas - das formas que entendem o amar. Se enxergam enquanto muito amigas, companheiras acima de tudo. Brincam que Kétule futuramente vai ganhar mais que a Bia, por ser médica, mas hoje é ela quem está mais estruturada, então o que elas plantam agora vai ser colhido no futuro. Entendem que o relacionamento foi uma grande adaptação e que seguem se adaptando, se descobrindo… e vão se descobrir o tempo todo, é constante. ↓ rolar para baixo ↓ Kétule Beatriz

  • Vanessa e Bruna | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. O primeiro beijo que a Vanessa deu em uma mulher foi com a Bruna, quando ainda eram pré-adolescentes, descobrindo seu corpo e todos esses novos sentimentos. Eram vizinhas num bairro afastado do centro, em Criciúma - Santa Catarina. Com o tempo, Vanessa sabia que estava se apaixonando por Bruna, sempre admirou ela e eram bastante amigas, participavam muito da vida da outra, mas não chegaram a viver um romance. Hoje em dia, completando oito anos juntas, contam que são mais de vinte anos de amizade. Entendem que Vanessa tinha uma vida na igreja, enquanto Bruna era muito mais independente, os cenários eram outros, não estavam preparadas para ter um relacionamento amoroso, mas adoravam ser amigas e existia uma mútua admiração muito grande. Contam, rindo, que todos os relacionamentos da Bruna duravam dois anos. Quando começaram, a mãe da Bruna olhou para a Vanessa e falou: “Ih, dois anos, hein?! Dois anos!”. Depois desse tempo, a mãe retornou: “Tu me quebrou, hein?! Durou mais de dois anos!”. Sempre mantiveram a conversa e acreditam que isso é o que faz a relação ser tão forte. Vanessa entende que Bruna é a pessoa que acredita nela. Pegou pela mão e atravessou tudo o que foi preciso ao seu lado. No começo terminaram dez vezes (como é citado no decorrer desse texto) e ela poderia ter desistido em alguma dessas vezes, ou poderia ter desistido nos tantos preconceitos que enfrentaram. Considera, inclusive, que ela já tinha passado por isso, já vivia sua vida, era independente, mas voltou atrás, deu as mãos e começou novamente o caminho. Admiram, juntas, essa construção, a relação e tudo o que foi vivido (com momentos difíceis mas também com muitas risadas e coisas boas misturadas). Vanessa repete inúmeras vezes a admiração pela Bruna, o quanto ela é uma pessoa disposta a ajudar e finaliza com o quanto essa ajuda fez ela evoluir sendo um ser humano melhor. Juntas, elas não chegam nem perto de enxergar a relação enquanto algo descartável, se doam o máximo que podem, criaram algo fortalecido, sólido, unido. Vanessa, no momento da documentação, estava com 32 anos. É arquiteta e trabalha com reformas residenciais/prediais de forma autônoma (tá procurando uma arquiteta?! chama ela!). É natural de Criciúma, Santa Catarina. Adora praticar esportes, se movimentar, conhecer pessoas, viajar e tocar bateria. Bruna, no momento da documentação, estava com 31 anos. Trabalha enquanto personal organizer e como consultora/organizadora financeira. É natural de Porto Alegre, mas mora em Criciúma desde a infância. Comenta que não é tão sociável quanto a Vanessa, gosta mesmo de ficar em casa com o Potter, o golden, filho-pet delas, curtindo o lar e cuidando da casa. A história delas começou aproximadamente em 2003, eram vizinhas de bairro. Por incrível que pareça, era o contrário: Vanessa não era sociável, gostava de ficar no quarto assistindo clipes da MTV, com uma vassoura fingindo ser a guitarra, se imaginando numa banda de rock, enquanto as crianças brincavam na rua. Foi um dia depois da festa de aniversário de um ano do seu irmão que ela conheceu a Bruna, que adorava bebês/crianças e frequentava sua casa para vê-lo. Mesmo sendo muito jovens, Vanessa conta que já sabia que a Bruna era lésbica, rolava uma identificação, enquanto a irmã da Bruna comentava com ela em casa: “Aquela nossa vizinha ali é ‘também’”. Bruna conta que quando beijou a primeira menina, foi para a mãe da Vanessa que ela contou, já que vivia lá. Ela reagiu dizendo que a amava muito, mas que não queria mais ela frequentando sua casa. Vanessa também sofreu um pouco quando assumiu sua sexualidade, mas tudo foi mudando com conversas e hoje em dia elas têm uma relação familiar muito legal. O mesmo com a Bruna, que voltou a frequentar a casa, até mesmo naquela época - quando a Vanessa começou a namorar uma menina escondida, foi para a Bruna que a mãe foi tirar dúvidas, inclusive. Hoje, a relação da mãe com as duas é muito boa. Depois do primeiro beijo e de seguirem amigas, a amizade continuou pela adolescência e a vida adulta. Em vários momentos elas conversavam e entendiam que tinham sentimento uma pela outra. Foram vários desencontros. Houveram outros namoros, nos términos conversavam. Em 2016, Vanessa passou por um término e estava muito desesperançosa sobre as relações, conversou com a Bruna e nesse momento Bruna resolveu colocar um ponto final (ou, o contrário): Você decide > ou ficamos juntas agora ou não ficamos mais. Mesmo com tantos anos de amizade, o primeiro ano de relacionamento foi o mais difícil. A Bruna vivia de forma independente, assumida, era organizada com suas demandas e finanças, enquanto Vanessa vivia o contrário. Em um ano passaram por dez términos, praticamente todos os meses terminaram. Explicam que não havia medo ou arrependimento de terem estragado a amizade, de qualquer forma entendiam que queriam estar juntas, mas era uma realidade nova cheia de desafios, não queriam mentir para a família. Depois de passar por isso, conseguiram engatar, enfrentar o preconceito familiar - foram quatro anos “amolecendo” - nas palavras delas - o preconceito. Agora, verbalizando a história, é muito mais fácil olhar tudo o que já passou. Antes de morarem juntas no lar onde estão, Bruna passou por dois assaltos em suas casas, um deles no começo da pandemia, e acreditam que os bandidos focaram em assaltar a casa por serem duas mulheres vivendo nela. Foram experiências traumatizantes e a Vanessa foi essencial em fazer companhia e ajudar nesse processo, foi quando elas decidiram morar juntas em um apartamento. Nesse processo, chegaram a morar com a mãe da Bruna, na casa da adolescência onde tudo começou, no bairro que se conheceram, até encontrarem o apartamento onde estão hoje. Todo o processo, mesmo que ainda caótico no contexto de pandemia, foi essencial para enfrentarem a família da Vanessa e serem reconhecidas também enquanto família, dividirem seu próprio lar. Faz apenas dois anos que estão no apartamento. É muito interessante entender o trajeto, pensar o quanto foi uma saga chegar até aqui e talvez por isso gostem tanto dessa casa, valorizam ela. É, literalmente, o lar. É o lugar. Brincam que o interfone toca e demoram para atender porque querem ficar igual um bichinho na toca. Potter, o cachorro simpático que nos acompanhou o tempo todo durante a conversa - a não ser uns breves segundos de pausa para fofocar na janela - surgiu através do sonho da Bruna, que era ter um golden. Ela falava muito sobre isso, por mais que não pensasse em nada para além disso, sobre todo o trabalho e o espaço que precisaria administrar, queria ter. Um dia estavam no mercado (ela, Vanessa e um amigo), ela recebeu o salário, passou numa vitrine e viu um golden. Vanessa falou: “Compra”. Assim, chegou o Potter. Ela e Vanessa estavam completando um ano juntas. No momento da documentação, Potter estava enfrentando um câncer, então elas estão em um momento de muita luta, cuidado e amor. Conversamos muito sobre como eles (os animais em geral, o Potter e elas enquanto família) merecem o melhor até o último segundo, porque no fim, este é o verdadeiro sentido. Por mais que o câncer nos traga o sentimento do luto previamente e não paramos para pensar sobre isso em vida, antes de sabermos sobre uma doença que pode ser terminal, a vida (e a morte) nos servem o tempo todo para lembrar que temos uns aos outros e a oportunidade de compartilhar coisas boas, amor e afeto. [O .doc deseja que o Potter tenha muito carinho, petiscos e brincadeiras e que elas tenham todo o amor. ♥] Bruna explica que sente algumas dificuldades nas demonstrações de amor e/ou no entendimento do amor em si. Ela sente que ama a Vanessa, que ama o sobrinho dela… mas sente muito medo da perda e que isso se entrelaça com o medo de amar: se eu te amo, em algum momento irei te perder, então prefiro não amar para não perder. Está em processo de entendimento sobre tudo isso. Parte desse entendimento, é perceber que ela demonstra seu amor nos atos de serviço, se doa para quem ama. Vanessa sente o amor na confiança. Para ela, é fácil confiar, fazer amizades. Nasceu em um lar com muito amor, que demonstrou muito e entende que essas relações refletem na cultura dela hoje. Demonstra amor na presença, na escuta… e também no quanto se doa. Quando conversamos sobre a cidade em que elas vivem e sobre a cultura de Criciúma, elas comentam sobre a falta de inclusão que existe. Não se sentem representadas na grande maioria dos espaços. Vanessa explica que na arquitetura (sua profissão) se fala muito sobre a ocupação dos espaços - e deseja isso para a cidade. Ocupar os espaços com corpos como os nossos, corpos que demonstram diversidade e vida. Hoje em dia, elas sentem medo de andar de mãos dadas, medo das reações que as pessoas podem ter. Tentam frequentar as capitais quando querem opções de divertimento e lazer “alternativos”. Entendem que Criciúma não é uma cidade pequena, que ali tem muita coisa acontecendo, mas que a mentalidade ainda está muito pequena e que o pensamento em maioria é: “Incomodados que se mudem” - e isso não está certo. Por fim, Bruna sempre quis ser mãe. Foi por conta do irmão, ainda neném, que elas se conheceram, Bruna ama crianças e querem investir na fertilização. Hoje em dia criaram um grupo de amigas, onde um casal tem um bebê, e há uma rede de apoio muito legal. Ficam felizes em acompanhar essa evolução, ver o crescimento de todas, observar os processos e as vivências. E desejam crescer juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Bruna Vanessa

  • Página de erro 404 | Documentadas

    404 error vish maria. como você veio parar aqui?! nem eu, que sou o site, sabia que essa página existia. acho que isso é um erro. vem cá, vamos lá para o início. o lugar que você queria chegar é outro, né? pesquise aqui o lugar que você deseja

  • Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Toda mulher merece amar outra mulher. Olá; AQUI REGISTRAMOS O AMOR ENTRE MULHERES ATRAVÉS DA FOTOGRAFIA. Portfólio Para conhecer nossas histórias, clique aqui > sobre 02 sobre nós O documentadas começou através de diversos estudos e da percepção de que as mulheres são pouquíssimo registradas em toda a sua história, principalmente tratando-se de mulheres que se relacionam afetivamente com outras mulheres. Para dar um basta e contar nossa própria história, percorro o país registrando casais e através desse site criamos conexões e laços de fortalecimento. Para conhecer quem faz o documentadas, clique aqui > lançamos um livro! vem saber mais sobre aqui Banco de images QUER PARTICIPAR DO PROJETO? vem por aqui! :P Mariana Musicista Leia mais Mari, além de ser uma pessoa extremamente doce, é uma musicista e compositora incrível! Ela tem um canal com a Vivi e juntas compõem histórias no Canta Minha História! Iasmim Advogada Iasmin, além de uma mulher super sorridente e alto astral, é também uma grande advogada. Natural de Duque de Caxias, baixada fluminense, hoje trabalha em um escritório no centro do Rio de Janeiro. Leia mais Carla Professora Carla, além de ser grande amante das artes e do teatro, também é professora e pedagoga em escolas públicas de Rio das Ostras e Macaé. Leia mais gerando renda para a comunidade Acreditamos que - além de que contar histórias de mulheres - podemos conecta-las. Falarmos sobre seus trabalhos, compartilharmos situações, momentos e, enfim, gerarmos renda. O mercado de trabalho segue difícil e podemos nos apoiar contratando trabalhos de mulheres da comunidade LGBT. Sendo assim, no nosso espaço de 'busca' você consegue pesquisar pela palavra-chave (o serviço que você precisa), ver qual profissional está à disposição, ler sua história e nos mandar uma mensagem. Nosso papel será te conectar diretamente com a profissional desejada! gerando renda para o projeto Manter o projeto não é tarefa fácil! Fazer viagens, pegar metrôs, ônibus, barcas... disponibilizar tempo e conseguir manter as contas pagas é um grande desafio. E como queremos documentar o maior número de casais possíveis, disponibilizamos o nosso PIX e aceitamos qualquer valor como quantia de doação! Você pode nos ajudar clicando aqui e fazendo a doação (qualquer valor!) de forma voluntária direto pelo aplicativo do seu banco! Colabore com a documentação histórica do amor entre mulheres! Contato

  • Yulli e Nadine | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Yulli foi mãe muito nova então por muitos anos pensou que se ela era mãe, ela era hétero. Passou por um processo diferente onde foi entendendo sua liberdade, individualidade e possibilidade de amar outras mulheres… Conheceu Nadine num momento muito bom, onde já conseguia falar abertamente sobre aceitação - de amar outras mulheres e de amar a si mesma. Foi um momento em que estava aberta a viver um amor tranquilo. Estavam em um bloco carnavalesco bastante conhecido em Porto Alegre, o Bloco da Laje, em 2024. O evento estava no fim, foi na fila do banheiro químico. Nadine sempre amou o Bloco, enquanto Yulli ia pela primeira vez, com um grupo de amigas professoras. Antes de ir embora, Nadine foi ao banheiro e ouviu o grupo de amigas da Yulli falando que eram professoras e interagiu, por ser professora também. Entre aquela fila, o clima de carnaval e toda festa ao redor, elas se olharam e arrumaram uma forma de conversar. Foi quando Nadine perguntou a profissão da Yulli, ela disse que era professora também, lançou uma cantada e elas se beijaram. Trocaram Instagram, seguiram a festa. Aos poucos, interagiram com algumas curtidas no Instagram, puxaram alguns assuntos sobre política e marcaram de sair na semana seguinte. Não sabiam muito o que esperar desse encontro, poderiam se dar bem… mas também poderia ser algo completamente aleatório. Não se conheciam, não tinham amigos em comum ou sabiam os gostos. Só sabiam a opinião política, que trabalhavam na área da educação e que gostavam de músicas semelhantes - pelo o que viram nas redes sociais. Quando conversaram sentiram que tinham muitos pensamentos semelhantes, Yulli resume: “Eu pensei assim... Meu Deus, você conhece isso? Como assim? E aí... Nosso encontro... Foi muito bom”. Seguiram se encontrando. No segundo encontro, dias depois do primeiro, conversaram até às cinco da manhã num bar. Continuaram se vendo com frequência, mas Nadine garante que desde o segundo dia já estava apaixonada. Até verbalizou isso um dia para Yulli. Cerca de duas semanas depois, marcaram um encontro na Casa de Cultura Mario Quintana (local em que fizemos a documentação acontecer) para assistirem um filme no cinema, mas o filme foi péssimo, não entenderam nada, então decidiram sair e beber alguma coisa. Naquele dia foram ao mercado depois de beber, compraram coisas, montaram um jantar, dormiram juntas e pela primeira vez tiveram a experiência de ter um contato enquanto um casal. Acordarem, Nadine foi trabalhar, viveram o dia… Depois disso algo despertou sobre a vontade de viverem a relação, se conhecerem e estabelecerem essa intimidade maior. Num final de semana pouco tempo depois desse dia, estavam num bar com uma amiga da Yulli e enquanto Nadine foi ao banheiro, Yulli comentou: “Se der tudo certo em mais um mês, eu vou pedir ela em namoro”. Mal sabia ela que, ao voltar do banheiro, Nadine faria o pedido. Ela decidiu que estava sendo tão legal, tranquilo, que poderiam começar a namorar. Com pouco tempo desde o início do relacionamento, aconteceram as enchentes em Porto Alegre e a família da Yulli morava em um ponto muito vulnerável que foi tomado pelas águas. Nadine foi muito importante indo até a casa da irmã de Yulli, ajudando a limpar e estando presente. Nadine morava em Canoas, cidade que também foi muito afetada pelas enchentes, mas sempre fez questão de ajudar a família da Yulli. Em alguns momentos o trajeto que faziam em 15 minutos de carro chegou a demorar três horas. Reforçam como foi importante todo o tempo que passaram juntas, porque estavam muito vulneráveis não só pelo momento em si que era um momento doloroso, inseguro, mas pela falta d’água, por ver a família e os amigos em situações delicadas, por ter que ficar dentro de casa muitas vezes isoladas… No momento mais difícil a saída que arranjaram foi ir para o litoral, como boa parte da população, principalmente pela falta de água e luz. No meio de toda a dor, Yulli passou por um luto, Nadine foi grande suporte para que ela tivesse acolhimento e ajuda nos cuidados com os filhos. Nesse momento da documentação, inclusive, perguntei sobre a adaptação com os meninos. Como era o início da relação, como foi a apresentação de Nadine para os filhos de Yulli e como é a convivência hoje, visto que moram juntos. Nadine contou que nunca havia se relacionado com alguém que tivesse filhos, mas nunca foi um empecilho, sempre quis vivenciar isso. Eles demoraram dois meses para conhecê-la, mas ela usou uma tática que foi: levar seu cachorrinho, o Joaquim, já que criança adora bichos, assim já conquistaria eles de cara, e marcaram de passear no parque. Deu certo. O mais velho, Pedro, é mais observador, mas o Fernando é conversador e foi tranquilo. Foram construindo a relação e aos poucos surgiram as falas “O Fernando perguntou de ti…” “O Pedro perguntou de ti…”. Agora brincam muito juntos e Nadine adora a forma que foi recebida. Eles nunca nem cogitaram questionar o fato da mãe estar se relacionando com outra mulher. Yulli estava com 31 anos no momento da documentação, é professora e trabalha com alfabetização, ama sua profissão e é muito feliz nela. Também é mãe de dois meninos, o Pedro (com 9 anos) e o Fernando (com 5 anos). É natural de Porto Alegre, adora correr, praticar yoga e divide seu tempo de qualidade com os filhos e com o entendimento de não se esquecer enquanto mulher, indivíduo, que possui suas necessidades e que quer estar sempre em crescimento - ser uma profissional melhor, uma mãe melhor, uma companheira melhor. Nadine estava com 24 anos no momento da documentação, é formada em história e estudante de letras. Sempre esteve muito ligada à educação, política, ao movimento social e acredita que a educação é capaz de mudar qualquer pessoa. Adora estar com os amigos, na rua, conhecendo pessoas. Se entende desde muito nova enquanto mulher lésbica e sempre foi muito aberta quanto à isso, com seus pais e as pessoas com quem convive. É uma mulher neurodivergente, uma pessoa com TDAH e conta que aprendeu a viver com isso, e também está aprendendo a ser madrasta, construindo essa troca de amor com os meninos. Hoje em dia, Yulli e Nadine já adotaram outra cachorrinha, a Laika, e indo morar juntas uniram o Joaquim (que era cachorrinho da Nadine) com o Sombra, gato da Yulli e os meninos, Fê e Pedro, viraram uma grande família. Yulli enxerga o amor que vivem dentro dessa família no poder da escuta, da conversa e do cuidado - é onde conseguem se olhar e conviver sem apontamentos, julgamentos, sendo acolhedor estando confortável na liberdade de poder ser quem você é. Explica que surgem questões e que conseguem separar o que é da relação e o que não é, por exemplo: isso aqui vem de antes, preciso trabalhar na minha individualidade. E entende que isso também é cuidado e responsabilidade afetiva. Nadine explica que vê política em tudo e às vezes fica até mal com isso, Yulli acaba tendo que consolar ela sobre o quanto a política afeta sua vida. Mas não consegue não vincular o amor que vivem com um impacto extremamente político. Não saberia viver esse amor hoje se não tivesse construído várias etapas na sua vida, sendo a adolescente que se entendeu lésbica, se não tivesse tido todas as conversas que já viveu com sua família, se não passasse por sua militância que a construíu como mulher… Hoje em dia vê o amor que constroem chegando nos seus pais e na família de Yulli, eles brincando com os meninos, os meninos tomando banho de mangueira, é uma experiência única porque é o amor reverberando para outros lugares - virando a educação deles e virando um espaço seguro para todos eles viverem enquanto uma família. ↓ rolar para baixo ↓ Yulli Nadine

  • Mariana e Marie | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Conheci e documentei a Mariana e a Marie numa ida muito breve até Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no fim de dezembro de 2021. Não prevíamos a ida, quem dirá o encontro, mas estávamos em contato antes mesmo do Documentadas inaugurar, desde fevereiro do mesmo ano, quando comecei algumas movimentações na internet sobre o lançamento do projeto e elas entraram em contato comigo porque gostariam de se inscrever. De pronto, pensei: “Nunca fui ao Mato Grosso do Sul e não vejo como ir agora, acho bem difícil acontecer", eis que elas estiveram no Rio de Janeiro e mesmo assim não conseguimos nos encontrar… tudo desandou, mas se encontrou de novo: foi no Parque das Nações Indígenas, numa tarde típica, entre calor, sol e chuva, muitas araras e boas conversas, que fizemos a nossa documentação. Por mais que esse encontro realmente tenha acontecido no Mato Grosso do Sul, a verdade é que nem a Mariana, nem a Marie são de lá. Mariana tem 28 anos, é do Rio de Janeiro mas mora lá, ou melhor, mora em Sidrolândia, interior do estado. Já a Marie é de Fortaleza, mas está em Campo Grande há cerca de 6 anos, entre estudos e trabalho. Marie faz diversas brincadeiras por ter um estilo surfista e por não ter mar em Campo Grande, então elas contam que a relação é cheia de sonhos - esses, possíveis de alcançar: morar em um lugar confortável litorâneo, ter uma casa para elas estarem com a husky que adotaram, fazerem novos amigos, vivenciar o amor que acreditam ser compartilhado na relação que elas constroem diariamente. Com o começo da pandemia, a Mari e a Marie se viram em uma situação que não imaginavam viver antes: pela Mari ser servidora pública estadual, ela passou a trabalhar de home office e a Marie também, sendo assim, elas ficaram juntas em casa durante todo o período de isolamento. Este período fez com que muitas coisas fossem repensadas. Foi como um período teste para saber se elas dariam certo morando juntas, claro, porque nem todo mundo dá certo (e tá tudo bem!), mas o repensar foi sobre um futuro mais distante. Elas nunca tinham pensado, por exemplo, sobre o envelhecimento. Marie conta que foi um processo sobre se entender e entender a Mari enquanto uma companheira de vida, foi morando junto com ela neste período que ela percebeu que queria envelhecer junto, ter essa companhia, não se ver mais sozinha como se via anteriormente… Com o passar dos meses, foram amadurecendo essa ideia. Hoje, comentam sobre o casamento e, por mais que a Mari trabalhe em outra cidade e que isto não permita morarem na mesma casa, nada é fixo. Estão sempre dispostas a mudar ou a melhorar a rotina da forma que podem. Por mais que as duas fizeram a mesma faculdade, de Direito, em Campo Grande, não foi no curso que se conheceram. Na verdade, há algumas versões disso - ou melhor, elas foram se conhecendo por etapas. Quando pergunto se alguma delas possui algum hobbie, a Mari conta, rindo, que o grande hobbie da Marie é fazer o ENEM. A graça por trás disso é que a Marie fez o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) por muitos anos, assim, por fazer, mesmo já estando na graduação e foi numa dessas provas que a Mari era fiscal e elas caíram na mesma sala. A Marie achou a Mari muito bonita e notou que ela estava usando o moletom do curso de Direito e, como fazia parte do curso também, foi pesquisar nos grupos do Facebook até achar o perfil dela. O que ela não imaginava é que justamente naquela época a Mari tinha dado um tempo das redes sociais e desativado o perfil do Facebook, então não apareceria mais nesses grupos, ou seja, a Marie não encontrou e desistiu. Um tempo depois, Marie voltou a treinar muitos esportes (rugby, polo aquático, handebol…) e participou de um grupo de meninas que jogavam. Nesse grupo, perguntou se alguém era da mesma região que ela, para conseguir companhia na ida-volta ou até mesmo uma carona e a Mari respondeu, quando encontrou ela pessoalmente viu quem era e ficou chocada, logo pensou “Eita, é a menina do ENEM!! A Mariana não deu muito papo no começo. Ao menos, não na versão da Marie. Ela tentou puxar alguns assuntos em vão e até adicionou no Instagram, mas ela não aceitou, nem chegou a ver a solicitação. Meses depois ela viu a solicitação, aceitou e quando começou a aparecer no Instagram da Marie, ela logo puxou um assunto respondendo um storie. O que, obviamente, a Mari não interpretou como um flerte. Foi preciso continuarem conversando e desenrolando assuntos até que as coisas foram acontecendo. Ah, e um detalhe importante! Claro que a Mari lembrava que conhecia a Marie de algum lugar, antes do esporte, mas nunca do ENEM. Ela até perguntou aos amigos, se alguém conhecia ela, se já tinham ido a algum evento em comum… mas ninguém sabia dizer. Durante a conversa o mistério foi desvendado e ela lembrou de tudo. Um tempo depois de conversarem pelo Instagram, elas se encontraram pessoalmente e tudo começou a fluir muito bem. Nessa época, a Marie ficou um pouco receosa, pois vivia um pós término em que ainda morava/dividia apartamento com a ex namorada, por questões de estarem se organizando com as contas. Elas moravam juntas antes do término e eram mulheres que não tinham base familiar na cidade de Campo Grande, então era difícil sair de casa sem ter para onde ir tão repentinamente. Precisava-se de um tempo para achar um novo imóvel, assumir os gastos, etc. Falar tudo isso pode ser delicado para alguém que está começando a conhecer, ainda mais no caso dela e da Mari, que demorou tanto para finalmente acontecer e que ela estava se sentindo tão envolvida… Então ela sentiu um pouco de medo da Mari desconfiar ou achar que isso fosse um papo sobre uma relação que não tivesse realmente acabado. Foi com um diálogo muito aberto e sincero que conseguiu falar sobre isso e estabelecer uma confiança legal sobre o que estava acontecendo. A Mari acompanhou o processo e tudo acabou sendo tranquilo, a mudança aconteceu no tempo que tinha para acontecer e sem desconfianças, enquanto as duas se conheciam melhor também. A Mari comenta que, para ela, amar é o que move as relações - e o que aproxima os seres humanos. Ela já teve relacionamentos com homens e mulheres e pela dificuldade que sentiu na identificação da última vez que tentou se relacionar com um homem, acabou entendendo que a relação entre mulheres envolve uma desconstrução muito maior. Mas que o amor está/atinge à todos - envolve empatia no dia a dia e no convívio. Marie conta as relações da identificação dela com o amor… Como ela foi aprendendo isso na vida e a ler essas interpretações - ela explica que, por muito tempo, buscou parâmetros de amor que não viveu. Pela vivência com a mãe não envolver um afeto físico, nunca entendia o motivo exato disso, até que com essas leituras passou a entender as vivências da mãe, fazer recortes, ter consciência de classe, raça, ler detalhes dentro da história de uma mulher. Ela diz que: “Mesmo com esses recortes, têm coisas - como o amor - que a gente não precisa abrir uma enciclopédia para explicar… uma mulher sabe amar a outra porque isso naturalmente acontece.” Marie Mariana

  • Ste e Jaque | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Stefannie e Jaqueline são naturais de Belém do Pará, trabalham como terapeutas ocupacionais - Jaque num hospital cardiológico, sendo especialista em cardiologia, Ste no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), sendo mestre em terapia ocupacional. Jaque adora uma vida mais caseira, curtindo o lar, assistindo séries e lendo. Está começando a gostar de viajar agora, nunca foi de passar muito tempo fora de casa. A primeira viagem que fizeram juntas foi para Mosqueiro (lugar que fizemos a documentação acontecer) e que no começo da relação foi um grande refúgio para elas - era um lugar que iam e se sentiam bem. Mosqueiro não era só uma viagem, se tornou parte da relação que construíram. Lá passavam o fim de semana com os primos da Jaque, comemoravam os aniversários, encontravam os amigos em comum, ocupavam uma casa da família e sentiam que poderiam ser quem são sem medo ou julgamento. Até hoje Mosqueiro é referência de um lugar feliz - seja nas festas de verão, na praia de água doce ou nas lembranças boas do início da relação. Foi na faculdade que Jaque e Stefannie se conheceram. Jaque entrou um pouco antes e recepcionou a turma de Ste, em 2011. Não ficaram muito próximas de início, foi aos poucos e principalmente frequentando o Centro Acadêmico que passaram mais tempo juntas. Em 2015 ficavam o dia todo na faculdade e conviviam muito, no mesmo grupo de amigos. Foi aí que a UFPA se tornou uma segunda casa. Jaque nunca havia se relacionado com mulheres, Ste brinca sobre o quanto precisou se esforçar para que ela desse uma chance para viver esse amor. Jaque complementa: na verdade, desde 2012 ela já notava Ste… mas nunca pareceu uma possibilidade, então ignoraram os sentimentos e seguiram a vida. Em 2015 começaram de fato o envolvimento e lembram com muita saudade de como era bom passar o dia na universidade. Nessa época, Ste tinha o desejo de sair de Belém quando finalizasse a faculdade, fazia muitos planos… Sua família já sabia sobre o relacionamento, enquanto Jaque ainda não havia contado, mas levava Ste para todos os eventos familiares enquanto amiga - seja aniversários, Natal, ano novo… Era como se já soubessem, só não falavam sobre. Quando finalizou a faculdade, Ste decidiu cumprir os planos que fazia há tantos anos de sair de Belém e passou para uma residência acadêmica no Maranhão. Como o namoro com Jaque já estava caminhando há mais de um ano, foi um passo importante não só pela distância que se inseriram, mas pela maturidade que foram construindo nessa mudança. Como não era tão longe, se encontravam com certa frequência, Jaque viajava sozinha até o Maranhão, Ste construiu um lar tendo sua independência pela primeira vez… e viveram dois anos a relação dessa forma. Em 2020, prestes a completar 5 anos de relação (e um pouco antes da pandemia de Covid-19 começar), Ste conversou com Jaque sobre a vontade de voltar à Belém, porém com uma condição: que a vida delas fosse diferente. Já amadureceram com o passar dos anos, era o momento de caminhar com os próprios pés, assumir o que viviam para a família de Jaque, ter seu próprio lar, não viver com tanto receio. O maior medo da Jaque era a reação de seus avós, porque sua irmã já sabia e apoiava, seus pais conviviam com ela e com a Ste então não seria uma grande surpresa… Acabou que seu pai ajudou a contar para os avós, no começo foi delicado, mas como a convivência era muito grande e o namoro já durava cinco anos, tudo foi amenizando com o passar dos dias. Como a pandemia de Covid-19 aconteceu logo que Stefannie chegou, os planos de ficarem juntas logo de início não deram certo. Foi como se continuassem numa relação à distância, principalmente por Jaque trabalhar no hospital e não poder ter contato com ninguém. Passaram meses sem se encontrar, depois se encontravam e ficavam distantes de novo… e assim discorreu o ano de 2020. No fim do ano, Ste conseguiu um trabalho em São Miguel do Guamá, interior do estado do Pará, e precisou se mudar, dando seguimento ao relacionamento à distância, então mais uma vez os planos de morar juntas foram adiados. São Miguel do Guamá é relativamente próximo de Belém (há cerca de 3h) e Stefannie já dirigia na época, então sempre que podia voltava para matar as saudades da Jaque e dos seus familiares. Por mais que tenha surgido esse novo trabalho, elas sempre planejavam: “Assim que eu voltar de São Miguel, a gente vai morar junto!”. Quando terminou o período de trabalho, um ano depois, e ela realmente voltou para Belém e antes mesmo de planejarem se ficariam na cidade ou se mudariam para uma capital maior, Jaque recebeu uma proposta de continuar trabalhando no hospital em um bom cargo e foi então que decidiram seguir na região. Começaram a procurar apartamentos, casas… e em 2022, com 7 anos de relacionamento, compraram uma casa em Ananindeua, cidade vizinha de Belém. Ficam felizes em ver como tudo caminhou, ainda que pareceu demorar muito, refletiu como o relacionamento é: calmo, com muita estabilidade. Elas prezam por isso, não querem uma montanha-russa, respeitam seus espaços, seus jeitos… quando uma quer ficar quieta, ou quando a outra quer viajar… sentem que isso é se dar bem. Desejam a companhia, desejam compartilhar a vida, mas entendem todos os limites da individualidade. Em 2024 se casaram oficialmente. Contam que foi “do nada”, Jaque estava no hospital e recebeu uma mensagem da Ste falando “E se a gente fizesse um casamento?”... Só soube responder “Me diga valores”. E dou um spoiler pra vocês: ela disse um valor que obviamente deu errado, mas deu certo também, porque Jaque topou e isso que importa. Em seis meses realizaram uma festa incrível - e em seis meses viveram por essa festa. Sentem a certeza de estarem juntas, que esse é o caminho, que estão no lugar certo e usam a palavra: decisão. É a decisão de estarem juntas, Ste até fala para a Jaque durante a documentação: “A gente é muito decisão mesmo, né?!” e conta que o próximo passo é formar uma família, seguir o caminho da fertilização. Ste comenta como é forte a conexão que possuem e que às vezes uma escuta o que a outra pensa, Jaque ri e completa que pede: “As vezes a gente fala assim: Eu posso ter o meu próprio pensamento? Porque a gente pensa a mesma coisa, fala a mesma coisa. E é muito engraçado, é confortável”. É um amor que tem o desejo, a paixão e o companheirismo, há dez anos construindo e sabendo que ainda há muito a se construir. ↓ rolar para baixo ↓ Jaqueline Stefannie

  • Cintia e Carmen | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. ↓ rolar para baixo ↓ Cintia Carmen

  • Mah e Bruna | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Foi num clube de leitura voltado às mulheres lésbicas que Mari e Bruna se conheceram, no começo de 2024. O clube funciona online, Bruna era uma das mediadoras e organizava um grupo de Whatsapp, quando Mari entrou e se apresentou. Surgiu o interesse porque Bruna sentiu tudo em comum: ela já tinha ido para o japão e Bruna ama viajar, gostam de coisas nerds, de gatos… Então decidiu seguir ela no Instagram. No decorrer dos dias, puxou assunto e a conversa fluiu. Brincam que é uma história bem moderna, essa ‘coisa de se conhecer online’. Mari correspondia ela no Instagram até que perguntou: “Mas afinal, de onde a gente se conhece?” E Bruna explicou que era do grupo de leitura. Como Mari chegou lá se apresentando, achou justo que agora fosse a vez de Bruna se apresentar também. Dias depois, Mari postou que adorava fazer brunchs e tomar bons cafés da manhã e Bruna a convidou para tomar um brunch no Theatro Municipal de São Paulo - local que inclusive fizemos a documentação acontecer. Se encontraram no domingo, 11h da manhã, e mesmo achando bastante chique esse primeiro encontro ele foi emendado em vários outros acontecimentos: depois do Theatro passaram o dia caminhando em eventos culturais que aconteciam pela cidade. Quando já era noite, foram para um bar e demonstraram que queriam se beijar, mas ainda não haviam tomado atitude. Acabaram ficando juntas até 3h da manhã: um date que estava quase virando 24h. Se sentiam muito felizes por estarem se conhecendo, não queriam que o dia acabasse. No segundo encontro, Bruna cozinhou para Mari sua comida favorita. Sentiram-se cada vez mais próximas com o passar dos dias. Quando estavam completando um mês que se conheceram, Bruna contou que iria fazer uma grande viagem ao Sri Lanka e à Índia - parte por trabalho, parte por realizar um sonho e querer conhecer ambos lugares - Mari via sua preparação, a parte que iria tirar férias lá, toda a expectativa e perguntou “e se eu for?”. Foi uma grande felicidade para a Bruna. Sentem que poderia dar muito errado ou muito certo. Estariam num lugar com uma cultura muito diferente, sozinhas, sem se conhecer tão bem… Antes de viajarem tiveram conversas muito profundas sobre a relação e sobre começarem de fato a se relacionar, nomear como um namoro, lidando com seus medos, trazendo suas bagagens. A viagem aconteceu com 4 meses de relação ao todo. Depois do trabalho que Bruna fez no Sri Lanka, Mari chegou e viveram uma semana por lá, depois mais 15 dias na índia. Foram muitas experiências diferentes, muitos perrengues e muitos momentos felizes. A viagem foi para o lado bom: o lado que deu certo. Elas até comentam durante a documentação: “A viagem em si deu várias coisas erradas, mas a gente nunca deu errado”. Entendem que a viagem só funcionou porque se ajudaram muito, principalmente nos dias mais ansiosos e difíceis - e assim seguem até hoje porque nos momentos difíceis se apoiam, nos momentos felizes comemoram e adoram descobrir e explorar juntas, como foram nesses dias longe do Brasil. Tanto Mari, quanto Bruna, adoram conversar. São pessoas tranquilas e não se veem brigando, discutindo algo de forma grandiosa… gostam de refletir bastante sobre a relação que constroem para melhorar ela e entender o que pode ser diferente. Se sentem muito à vontade para dizer o quanto estão ou não prontas para as coisas - Bruna cita o exemplo de que no momento não se sente pronta para morar junto, e que está tudo bem, com o tempo a relação irá amadurecer e isso acontecerá em fluxo. Amam estar juntas, assim como amam suas individualidades e seus espaços pessoais, suas rotinas intensas. Respeitam cada lugar e tentam não se atropelar no tempo, para que a relação se torne algo pesado no cotidiano. Mari entende que o amor que elas constroem é uma base, uma família, um acolhimento. Sente que a família da Bruna também à acolheu muito, foi “adotada” ganhando uma família nova, com um carinho enorme nessa aproximação. Adora fazer presentes de dia das mães para a mãe e para a avó da Bruna, saber que realmente pode contar com essa família e aprender um novo amor com elas. Bruna completa que essa sensação que a Mari tem pela família dela, ela sente pelos amigos da Bruna. Ganhou novos amigos que adora, que troca meme, mensagens queridas, se sente acolhida e que realmente ama. Enxerga a relação de uma forma muito livre: não faz as coisas com a Mari porque está preenchendo uma “tabela de normas” e sente que precisa fazer, faz porque se sente bem, porque estão felizes juntas. Marianna estava com 32 anos no momento da documentação. É natural do Rio de Janeiro mas reside em São Paulo há oito anos. Trabalha como designer, sendo formada em publicidade e é apaixonada pela parte visual de conteúdos e por formar comunidades sobre, compartilhando conteúdos. Adora o mundo nerd, jogar videogame, assistir filmes e passar um tempo com o seu gatinho. Bruna estava com 34 anos no momento da documentação. É natural de São Paulo, adora conversar, é formada em história e entende que pertence à área de humanas, adora ler, escrever, trabalha e estuda as religiões e gosta de estar com pessoas. Assim como a Mari, Bruna também adora o mundo nerd, está sempre pesquisando e escrevendo algo sobre. Ela também adora viajar, já conheceu diversos países - parte por turismo, parte por trabalho, atuando diretamente na área dos direitos humanos. No tempo livre, Mari e Bruna adoram aproveitar as múltiplas coisas que São Paulo oferece: seja uma agenda cultural diversa, um restaurante ou café. Adoram conhecer novos lugares ou aproveitar a cultura local. ↓ rolar para baixo ↓ Marianna Bruna

  • Bruna e Brena | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Brena estava com 43 anos no momento da documentação, atua como secretária em uma organização do movimento negro e também é percussionista da Banda Afro Axé Dudu e do bloco do Terreiro de Candomblé que fazem parte. Dentro da casa de santo, é Iaôci (o lado esquerdo do peito do pai de santo) e exerce suas funções com responsabilidade e firmeza, guiada pelo axé. Bruna Suelen estava com 37 anos no momento da documentação. É mãe de Valentina e Ernesto. Filósofa de formação, atua como professora de filosofia, com mestrado e doutorado em arte. Também trabalha com produção executiva e direção criativa, tendo uma trajetória voltada principalmente para a cultura popular e as tradições afro-brasileiras. Iniciada no Candomblé Ketu, faz parte da mesma casa que Brena, carregando o cargo de Iyarobá, (como são chamadas as Ekedis dentro da tradição Gantois/Gantuá) – e também ocupa o posto de Ya Oju Odé, os olhos de Oxóssi, responsável por observar e administrar tudo que acontece para o orixá. Juntas, compartilham o prazer pela boa comida (principalmente, porque amam degustar, saborear novas comidas), a boa cervejinha gelada, o carinho pela praia, churrascos e encontros. Dividem não só a casa de axé, mas também a vida, o cuidado e o afeto. Cultivam um cotidiano cheio de axé e amor. A história da Bruna e da Brena começou quando ainda eram amigas, em 2019. Na época, Brena tinha um relacionamento e quando Bruna chegou para fazer sua iniciação no terreiro, foi Brena quem a acompanhou por algum tempo, ensinando e guiando na religião. Toda a relação começou num processo de amizade e confiança, com o passar dos meses foram sentindo uma paixão se transformando, mas com Brena sendo casada e Bruna tendo uma relação (ainda que não-monogâmica), sabiam que era muito complicado deixar o sentimento evoluir. A ex-companheira de Brena também frequentava o espaço da religião, era mãe de santo de uma outra casa e conhecia Bruna, então era uma situação ainda mais delicada. Tentaram negar o afeto que sentiam uma pela outra por bastante tempo, mas ficou insustentável. Cada vez mais, Brena sentia muita vontade de sair daquela relação, independente de estar com Bruna ou não, então os fatos se somaram. Bruna fez sua iniciação no santo, ficou 21 dias no terreiro e o que inicialmente afastaria ela de Brena, acabou aproximando mais. Nesse ponto, o desgaste do ex-relacionamento de Brena já era imenso, insustentável, foi quando ela tomou coragem e terminou, assumindo a paixão pela Bruna tempos depois. Todo o processo, até se assumirem enquanto um casal, demorou cerca de dois anos. Por mais que foram ficar próximas enquanto amigas e, depois, namoradas, no terreiro, Bruna e Brena se conheceram num festival chamado Amazônia Negra, onde estavam em um grupo formado por amigas do movimento negro e do terreiro. Depois do evento, seguiram juntas para alguns bares e acabaram dormindo em uma instituição próxima, já que estavam longe de casa. Foi ali que se olharam diferente pela primeira vez, mas nada aconteceu, Bruna soube do relacionamento de Brena e se tornaram amigas. Só mais tarde, já no terreiro, é que começaram a conviver e ter uma amizade de fato. Depois de todos os desafios para ficarem juntas, se casaram oficialmente há um ano, completando o primeiro ano de casamento em julho. Planejam ainda fazer uma festa, da forma que merecem. Contam que vivem hoje uma relação com uma maturidade que não haviam experimentado antes, marcada por muita conversa, honestidade e escuta. Reconhecem que brigam, sim, mas até nisso existe um afeto: “Às vezes a gente briga só pra fazer as pazes”, brinca Brena. Há um entendimento de que o diálogo é o alicerce, conversam o tempo todo. Bruna diz que nunca tinha vivido com uma mulher em relações duradouras antes e que com Brena foi a primeira vez que sentiu o que é uma escuta real, profunda. Com Brena, se sente alcançada, escutada, compreendida. Acredita que isso também se construiu pela base de amizade que têm. “No fim das contas, a gente é muito amiga. E se ama muito. É muito companheira. É muito gostoso.” Bruna e Brena moram juntas, com os filhos de Bruna, que entendem o relacionamento delas e tratam Brena enquanto ‘tia’ e uma ‘segunda mãe’. Ainda que a rotina com as crianças seja de muitas tarefas, aprendem a ser leves também. Brena se tornou um ponto de referência para elas e o axé também ajuda muito, já que elas participam das atividades no terreiro. Em 2025, no dia das mães, elas convidaram Brena para participar das homenagens na escola, e a defenderam quando um colega falou que ela era “o pai” deles, afirmando que: “Ela é a nossa mãe!”. Bruna e Brena entendem que isso tudo também faz parte desse processo e tentam fazer o processo ser leve, ainda que não seja isento de turbulências. Falam, também, sobre como construíram uma relação baseada em liberdade. Respeitam profundamente a individualidade uma da outra, seja para acordar mais tarde, sair, viajar ou simplesmente viver o dia no próprio ritmo. “Tu quer tomar café? Vai. Eu não quero.” Esses pequenos gestos mostram como se apoiam sem exigir uniformidade. Não se trata de se afastar, mas de permitir espaço. Acreditam que muitas relações fracassam ao tentar encaixar tudo no tempo e vontade de apenas uma pessoa - e elas se recusam a seguir esse padrão. Reconhecem que essa liberdade só é possível porque construíram, com muitas conversas, uma base de segurança e confiança. Entendem que inseguranças existem, ciúmes também, mas o importante é comunicar: “Isso aqui é grave pra mim”, ou “Me avisa, não me deixa esperando.” é o lugar onde uma aprende a respeitar o jeito da outra, sem tentar mudar, mas sim buscando uma forma mais generosa de olhar e aprender quem são. “A gente não se cobra mudança, a gente se cobra um novo jeito de ver.” Por fim, Bruna também reconhece o quanto mudaram em formas políticas de se relacionar. Brena é de uma família que funda o movimento negro em Belém, então pulsa uma veia ativista, anti-racista, que traz muitas questões em como conduzir a vida. Enquanto Bruna a traz visões sobre ser menos machista, não normalizar condutas patriarcais. E assim crescem juntas - refletindo também na educação das crianças. ↓ rolar para baixo ↓ Brena Bruna

  • Cilla e Fabiana | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Fabiana estava com 37 anos no momento da documentação. É professora de química e está atualmente fazendo doutorado na Universidade Federal do Pará. Além das aulas na universidade, também dá aulas particulares para estudantes do ensino fundamental e médio, ensinando química, física e matemática. É uma pessoa caseira, apaixonada por tarot, astrologia e espiritualidade, se considerando católica não praticante. Acredita que existem saberes para além das religiões tradicionais, e gosta de explorar esses caminhos esotéricos. Nos momentos livres, ama maratonar filmes e torcer para o Palmeiras, seu time do coração. Sua trajetória acadêmica é o grande motivo de orgulho, sempre quis estudar e se formar numa universidade federal. É licenciada em química e formada também em química industrial, se dedicou muito, por vezes abdicou de ter vida social e preferiu os estudos. Sabendo dessa prioridade, também, sempre é grata à sua família por ter apoiado, sido base para que ela conseguisse conquistar esse sonho. Cila estava com 34 anos no momento da documentação. É fotógrafa, filmmaker e social media. Apaixonada por fotografia desde a época das câmeras analógicas, além de ter uma forte ligação com a música: compõe, canta e toca alguns instrumentos. Tem músicas autorais publicadas até nas plataformas de streaming e já fez apresentações que envolviam outros artistas autistas. Atualmente, estuda produção multimídia na UFPA e também jornalismo, fazendo a modalidade EAD. Já morou em lugares como Paraíba e Canadá, mas enfrentando algumas situações difíceis, precisou voltar para Belém. Hoje em dia passou a entender seu modo de aprender, se acolher de melhor forma… Passou cinco anos cuidando do pai, já idoso, que estava bastante doente (uma fase que exigiu muito emocionalmente), agora reingresso na faculdade e se dedica ao que realmente ama: a fotografia, a arte e a comunicação. Cila fez a cirurgia bariátrica em 2024 e a recuperação não foi nenhum pouco fácil. Após muitos anos sendo militante contra a gordofobia, viu sua saúde prejudicada e optou pela cirurgia, sendo necessário passar por todo um processo desafiador. Fabi foi uma presença fundamental: se reinventou em coisas que não sabia, aprendeu a cozinhar, Cila a representa como uma luz: sempre aparece quando a escuridão ameaça tomar conta. Com ela, encontrou uma parceira de verdade, em todas as dificuldades. E mais do que isso: ganhou uma nova família - as tias da Fabi, por exemplo. Os vínculos, as famílias que se agregaram, a casa que constroem juntas, para as duas se tornou uma relação saudável que nem imaginava que poderia existir. Fabi, por sua vez, nunca tinha tido um relacionamento antes (com mulheres ou com homens). Nem imaginava que relações amorosas pudessem ser tão tranquilas. Conheceu Cila em 2022, por um aplicativo de relacionamentos. Já estava quase desistindo da ideia de usar os aplicativos, na verdade, porque as conversas não fluíam. Mas Cila fez de tudo para chamar sua atenção e começaram a conversar. O papo foi fluindo de forma positiva e a primeira proposta de encontro foi ir ao circo. Fabi adorou, achou super criativo, divertido. Infelizmente não deu certo, mas a outra proposta também foi legal: uma peça musical sobre Queen no teatro. Foram e, durante o intervalo, a conversa entre elas foi tão leve e espontânea que se sentiram em casa. Nas palavras de Fabi, pareciam se conhecer há muito tempo. O encontro teve que terminar cedo porque Fabi tinha uma prova no dia seguinte, mas antes de irem embora, Cila a convidou para sua festa de aniversário que seria nos próximos dias. Fabi foi, levou um presente, e esse gesto mexeu com Cila: ela quem sempre tomava as atitudes de presentear, se dedicar aos outros, pela primeira vez se via sendo cuidada. “Ela nem tinha me beijado ainda e já se preocupava em me agradar”, lembra. Não era pelo valor financeiro, era pela atitude. Depois que ficaram juntas pela primeira vez, no aniversário da Cila, elas continuaram se encontrando e nutrindo a paixão que ia acontecendo. Fabi viu em Cila o que ela nem sabia que era possível buscar em alguém, mas que admirava: uma pessoa responsável, carinhosa, dedicada ao trabalho, aos estudos e à família, principalmente, por ela cuidar do seu pai que estava doente, sendo a principal responsável por ele. Fabi, que por muito tempo adiou a vida amorosa por conta de estudos e trabalho, desejava uma parceira que entendesse esse ritmo, que tivesse paciência e vontade de construir uma vida compartilhada. Com Cila sentiu que isso pela primeira vez poderia ser possível. Em maio, durante o aniversário de uma amiga que sempre apoiou o casal, a amiga incentivou Fabi a pedir Cila em namoro. Cila chegou um pouco depois, direto do trabalho, e Fabi fez o pedido na frente de todos. Contam como foi legal, inesperado e simples. Sentiram-se respeitadas, celebradas, e desde então vivem uma relação de parceria. Juntas, já viajaram ao Rio de Janeiro, estudaram espanhol e foram para a Argentina…. Estão sempre topando o novo. Passaram por vários momentos difíceis, deixaram a comunicação afiada, e não largaram as mãos. Fabi também adotou as gatas que Cila trouxe do Canadá, agora são delas e tratam com muito carinho. Hoje vivem uma parceria sólida, com poucas brigas e muita escuta. Quando uma está em crise, a outra sabe exatamente o que fazer: um abraço forte, um gesto de cuidado, uma palavra certa, dar um tempo para uma ficar no quarto processando... São lugares de respeito. Quando Cila convidou Fabiana para morarem juntas, em maio de 2023, depois de um ano de relação, Fabi hesitou. Não faltava vontade, mas havia um medo de sair de casa. Ao mesmo tempo, sempre que passava o fim de semana com Cila e precisava ir embora, sentia uma tristeza, sabia que queria ficar lá. Foi conversando com a tia que recebeu o incentivo: se esse era o que o coração sentia, deveria seguir em frente, sem esperar aprovação dos outros. O medo existia por não saber como o mundo reagiria. Aos poucos viu que os medos eram pequenos (talvez nem fizessem tanto sentido assim) perante a relação legal que construiam. Cila sempre demonstrou muita maturidade e foi com ela que Fabi aprendeu a se libertar dessas inseguranças. Mesmo com o apoio da maioria da família, algumas pessoas se afastaram, mas as que permaneceram sempre estão presentes e são bastante respeitosas, carinhosas… A família de Cila também foi acolhedora. A mãe e irmã moram fora do Brasil, mas mandam presentes para Fabi, quando visitam estão sempre com as duas e fazem questão de incluir elas nos planos. Apenas a avó da Fabi ainda passa pelo processo de aceitação, o que traz dor, a ausência da Cila nos momentos felizes entre família quando ela está a deixa triste, não consegue entender como algo tão bonito como amar não pode ser aceito por uma das pessoas que ela mais ama e admira - como a avó - mas entende também que com o tempo isso pode ser mudado. Entendem que ela e Cila são um casal feliz, e isso deveria bastar. ↓ rolar para baixo ↓ Fabi Cilla

  • Flavia e Olga | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Olga estava com 34 anos no momento da documentação, é natural de Recife e mora em Paulista, Pernambuco. Formada em Engenharia Química, possui mestrado e doutorado em Engenharia Mecânica e atualmente trabalha com Engenharia de Software. Entende que não é só das engenharias e das exatas, mas também das artes: adora desenhar, cantar e escrever. Recentemente recebeu o diagnóstico tardio de autismo e TDAH, o que a fez entender diversas coisas e melhorar sua qualidade de vida, podendo visualizar e respeitar seus limites. No tempo livre, adora ler, praticar esportes, ter conversas longas e consumir arte. Flávia estava com 31 anos no momento da documentação, é natural de Recife, mas ainda adolescente se mudou para Paulista e cresceu na cidade. É professora de história por formação e estava ocupando o cargo enquanto vereadora na cidade de Paulista quando nos encontramos. Flávia começou sua militancia no movimento estudantil, participou de alguns movimentos que buscam assistência estudantil para estudantes de origem popular, fez parte de movimentos sociais e se tornou a primeira vereadora negra e lésbica da cidade. É apaixonada pela rua, por estar com as pessoas conversando, no barulho, ouvindo música, falando sobre política… Gosta de fazer política de verdade, até nas folgas está lendo, vendo vídeos e debatendo com alguém. Depois da pandemia de Covid-19, Flávia fez questão de ter sua militância mais voltada para a cidade de Paulista. Sempre saía de casa e se deslocava à capital para participar das atividades, até que começou a pensar em atividades para sua própria cidade, desde ações do Dia da Consciência Negra, até debates pensando mudanças que queriam para a cidade em si. Foi então que, aos poucos, começou a se desenvolver em Paulista, conhecer mais lideranças - e até mesmo se tornar uma - entender que essa era a prioridade. Hoje em dia, a vida em Paulista é muito mais que o trabalho e a casa: é o terreiro, a avó, a irmã, a família, a política que constroem e acreditam, o filho, o relacionamento, o lar. Olga sempre gostou de fazer poesias, em sua maioria tratando sobre temas políticos, e foi quando descobriu o Slam das Minas que começou a se aproximar do movimento de rua e da militância. Em 2018, ano de eleição, Flávia foi para a reunião de candidaturas do partido e percebeu que todas as pessoas eram brancas, metade era composta por homens. Tomou iniciativa porque não se sentiu representada, decidiu colocar seu nome, se tornar candidata à Deputada Federal. Não tinha ideia de como seria fazer uma campanha, mas começaram a se organizar. Nessa organização, criaram um evento de lançamento e chamaram algumas mulheres para participar, inclusive o Slam das Minas, fazendo o convite para Olga recitar um poema. Olga pesquisou um pouco sobre quem era Flávia, para não chegar lá, num evento de política, sem saber onde estava se metendo. Queria estar alinhada, ouvir as propostas. Decidiu conhecer Flávia pessoalmente antes do evento acontecer. Na época, a campanha foi feita como dava: Flávia foi morar no comitê, que era um apartamento bem pequeno no centro de Recife. Estava num dia tentando descansar nessa casa/comitê/escritório e Olga apareceu para conhecê-la. Como esperava ver uma pessoa com pose de Deputada, ficou logo na dúvida se era mesmo Flávia ou não… Achou melhor perguntar logo: “Tu é Flávia, é?!”. E ela respondeu que sim, que talvez conhecesse Olga de algum lugar. Claro, ela sabia que conhecia do Slam das Minas. Sentaram para conversar, falou dos projetos, mostrou panfletos… Pensaram juntas: “Finalmente uma pessoa que pensa como eu!”. Olga conta que o discurso vago na política era algo que a incomodava muito, sempre falavam o quanto a diversidade é importante, o quanto era importante fazer algo, mas nunca era feito, nunca havia proposta efetiva. E ali, independente de um mandato ou não, era o movimento que estava sendo proposto: nós somos o povo, nós quem precisamos fazer algo. O lançamento da Flávia foi um sucesso, coisa que nem o próprio partido esperava, muita gente da cultura estava presente, pessoas representando a militância negra… e quando terminou foram todos para um bar comemorar. Flávia estava muito feliz, estava abraçando as pessoas e abraçou muito Olga. Conta que não é uma pessoa afetuosa fisicamente, mas naquele dia estava muito contente, ficava demonstrando muito para Olga essa felicidade. A vida seguiu depois do lançamento, seguiram os compromissos e começaram a interagir pelas redes sociais. Entre curtidas, comentários e conversas, surgiu um novo evento que seria a inauguração do comitê de campanha. Se beijaram pela primeira vez neste dia, depois de tentarem entender se iria rolar ou não, porque queriam mas estavam tímidas (e as coisas estavam acontecendo todas ao mesmo tempo). Flávia deixou Olga em casa e, no dia seguinte partiu para o Sertão, para trabalhar com a campanha eleitoral por alguns dias. O tempo que a campanha durou, Flávia morou no centro de Recife, próximo de Olga, e elas ficaram juntas. Quando a campanha acabou e ela não foi eleita, voltou para Paulista e pensaram que era muito mais longe, não se veriam mais todos os dias, a rotina mudaria muito… O Miguel, filho de Flávia, estaria muito mais presente - e no começo, por receios, ele não tinha sido apresentado enquanto filho, estava longe dela por conta da campanha, então foi outra questão na relação… Precisaram de um tempo para se entender, entender suas comunicações, suas realidades que ficariam bem diferentes de uma hora para a outra. Flávia começou a mostrar quem ela era de fato: moradora da comunidade, com diversas questões familiares, sem emprego depois de uma campanha… não tinha o conforto de morar no centro da capital como estava tendo por alguns meses. Precisariam repensar a relação. Flávia acreditava que só ia conseguir se relacionar com alguém quando o Miguel tivesse uns cinco anos… assim ele já seria um pouco mais independente e a pessoa que estaria com ela entenderia um pouco melhor também. Na sua visão, quem iria se relacionar com alguém que tem um filho de dois/três anos? Quando Olga chegou com uma comunicação clara, as coisas foram mudando rápido. Ela gostou muito da força, da independência, das coisas que Olga fazia e de como era estar junto com ela. Mas não queria que ela “assumisse um B.O” que não era dela tendo que lidar com seus problemas. Porém, aos poucos, Olga deixou claro que eles, Flávia e Miguel, eram um só. E não eram um problema. Quando conheceu Miguel se deram bem logo de cara e tiveram uma conexão. Aos poucos, Olga seguiu sua vida nos estudos e Flávia conseguiu um emprego depois da campanha eleitoral, foi quando decidiram de fato seguirem juntas e Olga se mudou para Paulista, morando no bairro em que a família de Flávia morava. A mudança para Paulista foi para ajudarem a mãe da Flávia por conta dela estar doente, mesmo ela não aceitando o relacionamento, Flávia pedia para que morassem juntas lá porque não aguentaria ficar longe de sua família. Olga cedeu e refez sua vida e sua rotina em Paulista, entraram num acordo, seu pedido em troca seria que Flávia começasse a fazer terapia e que mantivessem uma comunicação saudável, uma troca pensando em construir um relacionamento confortável juntas. Brincam que demorou um pouco, mas que deu certo. Durante a pandemia de Covid-19 decidiram morar numa casa para reformular mais uma vez a rotina, pois tudo estava sendo feito sob o mesmo teto: os estudos, o trabalho e a vida do Miguel. Começaram a terapia de fato, estavam reaprendendo a se comunicar, foi um divisor de águas. A qualidade de vida mudou muito morando numa casa. Começaram a curtir o espaço, fazer churrascos, exercícios, brincar mais com o Miguel… Não se sentiam presas dentro de um apartamento. Com a pandemia, veio também a segunda eleição, em 2021. Dessa vez já tinham a experiência de uma campanha que Flávia teve uma votação expressiva. Porém, uma campanha eleitoral que exige contato com a população em meio à pandemia era um desafio imenso. Olga conta o quanto foi difícil para ela lidar com as questões do vírus, ver as pessoas sem máscara ou os momentos em que usavam a máscara errado, todos os contatos com as pessoas na rua… tudo mexia demais com ela e causava muito medo. Além de todo o estresse que uma campanha eleitoral já produz, isso era um dos pontos mais difíceis, lidar um um “inimigo invisível” sendo tão direto para a saúde. Mas, a campanha foi feita com sucesso e Flávia foi eleita. No começo, Flávia estava muito destinada a não ser como os outros políticos que só aparecem de quatro em quatro anos. Então seguiu aquele ritmo frenético, trabalhando sem parar todos os dias. Olga entendeu que em algum momento ela adoeceria, estava impossível acompanhar - e entristecendo ver a companheira trabalhar tanto em seu primeiro ano de mandato, mesmo sabendo o quão importante isso é. Foi com muita conversa (e muita terapia) que Flávia entendeu o ritmo, os processos e as propostas. Hoje em dia, Flávia e Olga estão morando num novo lar, apartamento que financiaram juntas pensando na segurança de vida e em parar de pagar aluguel, depois de problemas que tiveram nos lugares que alugaram. Se aproximaram de um terreiro - e a aproximação começou por conta de uma luta contra intolerância religiosa no mandato de Flávia - e sentem que tudo melhorou depois disso. Hoje frequentam as festas, as cerimônias e os ritos, se sentem muito bem cuidando do seu ori. Foi através da religião, também, que chegaram até um terreno onde estão construindo - e reformando com suas próprias mãos - uma casa em Abreu e Lima, local que serve de refúgio, no meio de uma mata frutífera. Fomos até esse local e fizemos parte dessa documentação, pois é lá que se sentem realmente felizes. Flávia conta que pretende continuar trabalhando nas lutas que acredita, pois esse é o seu propósito. Olga deseja seguir seus trabalhos e suas escritas, inclusive, lançou seu novo livro de poesias. E Miguel, agora com nove anos, conta o quanto adora jogar videogame, brincar com Lula, o cachorrinho, e brincar de futebol - com Flávia, ele destaca que gosta de jogar no celular, com Olga, ele gosta de seguir a rotina fazendo as tarefas de casa. Quando perguntamos sobre a casa do sítio, ele responde: gosta de ir lá pra ser feliz, inclusive, é onde quer ir agora. ↓ rolar para baixo ↓ Flávia Olga

  • Silvana e Márcia | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Márcia estava com 49 anos no momento da documentação. É professora dos anos iniciais, educadora e feminista. Cresceu em uma família marcada pela militância política: seu pai foi preso político durante a ditadura e essa história atravessa diretamente sua própria trajetória, conta que “foi feita” na biblioteca do presídio em Porto Alegre e que durante sua infância era a mãe quem a cuidava, por ponta do pai seguir preso. Hoje, sua militância acontece sobretudo na sala de aula, no trabalho com crianças e no poder da literatura infantil como ferramenta de transformação - desenvolve uma coleção de livros para o público infantil (mas não só, afinal, todos nós temos nossa criança ainda viva dentro da gente). Em alguns destes livros, aparece um casal formado por duas mulheres, apostando na narrativa como forma de ampliar repertórios e contar outras histórias possíveis desde a infância. // comprem o livro dela! é muito legal! Silvana estava com 61 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre e trabalhou como professora na educação pública desde os 15 anos, trajetória que não surgiu como escolha romântica, mas como resultado de concurso público e dedicação integral. Ao longo da vida, construiu uma militância que ultrapassa a luta por direitos individuais e se ancora no desejo de transformar estruturalmente o mundo. Aposentada há dez anos da rede municipal de Porto Alegre, seguiu estudando: concluiu um mestrado em políticas sociais, com foco nas mulheres negras servidoras públicas, e atualmente cursa doutorado em educação, pesquisando educação antirracista e as relações entre raça, gênero, sexualidade e o contexto político contemporâneo. O cotidiano de Márcia é atravessado tanto pelo trabalho, quanto pelo cuidado. Sua mãe, com 90 anos, mora com ela e com Sil, o que exige atenção constante e reorganiza afetos, tempos e prioridades. Nesse cenário, Silvana aparece como parceira fundamental: alguém que escuta, acolhe e incentiva. Sil é uma grande apoiadora do trabalho de Márcia, inclusive nos processos de escrita. Parte de seus livros foi escrita durante a pandemia, na casa da praia do casal, em momentos de recolhimento, silêncio e criação compartilhada. E Márcia também é uma grande apoiadora do trabalho de Sil - e de toda a sua militância. Silvana é uma das fundadoras da Liga Brasileira de Lésbicas e há anos atrás percorreu o país participando da construção do movimento lésbico organizado. Mesmo após divergências políticas que a afastaram formalmente da Liga, mantém vínculos afetivos e reconhecimento da importância desse período. Hoje em dia, a vida dela com Márcia é atravessada pelos propósitos e paixões em comum: o fortalecimento e a construção cotidiana onde o amor e a política não se separam. Antes mesmo de se conhecerem - e se relacionarem - de fato, Márcia conhecia Silvana de nome e de trajetória, conta que ela sempre teve um nome famoso pela cidade e já a admirava: era professora da rede municipal, diretora de uma escola da periferia de Porto Alegre, sendo uma figura conhecida, respeitada e também marcada por sua visibilidade como mulher lésbica em um espaço público e político. Márcia desejava trabalhar nessa escola por ela ser reconhecida pelo trabalho étnico-racial e pela proposta pedagógica diferenciada, e foi em 2010, quando passaram a trabalhar juntas. A aproximação aconteceu primeiro pelo trabalho, pela gestão, pela militância cotidiana dentro da escola. Foi nesse convívio que o interesse ganhou forma. Um bom tempo depois, em uma festa da escola, elas interagiram de uma forma direta e o interesse ficou claro. Márcia nunca havia se relacionado com mulheres e se sentiu atravessada, entre a curiosidade e o interesse. Decidiu dar uma chance. Na época, Sil viajava muito por conta da sua militância na LBL (Liga Brasileira de Lésbicas) e tinha a fama de ser mulherenga - e até mesmo a família da Márcia, por conta da aproximação com a militância, sabia dessa fama. Então quando souberam do namoro o choque maior não foi por conta de ser com uma mulher, mas por ser com a Sil. Logo alertaram: “Isso aí não deve durar muito tempo!”. Pelo contrário, né? Foram cada vez mais se fortalecendo. A curiosidade alheia sempre apareceu como uma tentativa de silenciamento. As pessoas perguntam, comentam, sugerem que não é preciso dizer, que a sexualidade é algo privado, como se nomear uma relação lésbica fosse excesso. Mas afirmar-se também é um gesto político. Enquanto a família tradicional fala de si o tempo todo, espera-se que mulheres lésbicas permaneçam discretas, invisíveis, quietas. Sejam nas mídias ou nas ruas. Por isso, dizer em voz alta que amamos não é exposição gratuita: é afirmação de existência, de amor e de escolha. A vida a duas, no entanto, nunca foi romantizada. Não é um território idealizado nem isento de conflitos. São duas mulheres feministas, educadoras, que sabem que o diálogo precisa existir também dentro de casa. Discordam, revisam posições, atravessam fases difíceis (inclusive ressaltam como é necessário falar sobre a dificuldade de passar pela menopausa e pelas mudanças do corpo) e constroem diariamente uma relação possível, real e cuidadosa. Quando o casamento se tornou legalmente possível, em 2013, se casaram no mês da visibilidade lésbica, simbolizando uma união política, no local em que terminam muitos atos em Porto Alegre. Uma juíza esteve presente, amigas e amigos fizeram parte, cantaram uma música simbólica feminista e, sem vestidos brancos, de forma confortável, celebraram o amor. Nessa época, saíram do apartamento em que moravam e encontraram a casa perfeita, num condomínio. Foi neste novo lar que se sentiram realmente em casa e que a mãe de Márcia passou a fazer parte da vida - e da rotina - com cuidado e afeto. Quando conversamos sobre, entendemos que o amor entre mulheres não é apenas o amor romântico: é presença, escuta, aprendizado contínuo, vida. Mulheres são ensinadas a servir, não a amar. Quando amam outras mulheres, aprendem sozinhas. Por isso, dividir a vida, o cuidado e o afeto entre três mulheres é também reparação. É prova de que mulheres não apenas dão, elas merecem amar e ser amadas, como nessa relação familiar. No ambiente escolar houve um impacto profundo porque ao viverem a relação de forma aberta, sem recuos, provocaram deslocamentos importantes entre as colegas. Houve estranhamento, curiosidade excessiva, afastamentos, mas também libertações. Outras professoras passaram a se permitir viver quem eram, separações aconteceram, novas configurações surgiram. Silvana investiu conscientemente em uma escola plural: contratou um homem trans para a portaria, havia um casal de lésbicas na cozinha… a diversidade deixou de ser exceção para se tornar parte da estrutura. A escola virou referência. Quando Silvana saiu, para ser uma candidata na política de Porto Alegre, a mudança foi sentida, mas o que ficou foi a lembrança de como existir de forma diversa é possível. Ainda sobre a diversidade, Sil conta: “Eu sempre fiz questão que os meus alunos e alunas soubessem quem eu sou. E nunca tivemos problemas. Tinha dias que eu ia de bermuda de homem, tinha essas de surfista, com as pernas cabeludas que eu uso, de boné, e eu era diretora da escola. Sem problema nenhum. Aí chegava um vendedor, perguntava se a diretora estava. Eu respondia: “Sou eu, por quê? Vamos sentar.” Sabe? Eu acho que naturalizar faz muito bem, principalmente pras crianças, né? E pras pessoas adultas compreenderem que o problema são elas, né? E elas não gostam.” Quando Sil foi disputar as candidaturas nos processos eleitorais em que viveu, Márcia apoiou muito, mas também foram momentos de aprendizados, reconhecimentos e medo. Houveram ameaças, dias em que ela não se sentia segura para ficar sozinha, necessidade de reforçar a segurança. Estar junto nesses momentos tornou-se uma escolha consciente, uma forma de proteção e de parceria. A presença pública, afinal, não era apenas dela: passou a ser das duas. Há uma consciência clara do tempo histórico que atravessaram. No início dos anos 2000, afirmar publicamente o amor e o desejo entre mulheres era um ato de confronto direto, coisa que a Silvana fazia muito com a Liga Brasileira de Lésbicas, capaz de fechar lojas, chamar a polícia e provocar ameaças físicas - seja em Porto Alegre ou em outros lugares do Brasil. Diziam em voz alta: Nós que amamos e trepamos com mulheres”. Hoje em dia pensa: “Nossa, precisávamos dizer isso?” e entende que sim, era exatamente esse ponto de incômodo que precisava existir. Foram gestos que abriram caminhos para que outras pudessem existir com um pouco mais de liberdade depois. Com o avanço dos anos, a sensação de segurança oscilou. Houve o reconhecimento profissional, depois o avanço do ódio no último (des)governo. Por isso, a militância segue sendo uma questão de sobrevivência: nenhuma história é construída sozinha. É preciso compromisso com a transformação real das estruturas que produzem desigualdade e violência. A luta segue porque a vida, a dignidade e a possibilidade de felicidade ainda dependem disso. ↓ rolar para baixo ↓ Silvana Márcia

  • Beatriz e Kika | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Beatriz estava com 25 anos no momento da documentação. Nasceu em Moita Bonita, povoado de Sergipe, mas cresceu em Aracaju, onde vive atualmente. Advogada criminal, ela atua no tribunal do júri, lidando com casos de homicídio - uma área desafiadora, especialmente para mulheres, que enfrentam o machismo diariamente na profissão. Reitera que sempre ao encontrar outras mulheres no júri, sente um misto de alívio e alegria, um sinal de que os espaços estão sendo conquistados. Também integra a Comissão de Diversidade da OAB em Aracaju, e desde que se entendeu enquanto mulher lésbica viu sua profissão unida à jornada pessoal de enfrentar a homofobia. Jornada essa que partiu de dentro de casa, desde os primeiros relacionamentos, lidando com invalidações da sua identidade e terapias de cura. Hoje em dia, no seu relacionamento com a Kika, pela primeira vez sua mãe aceitou conhecer a namorada, chamá-la pela forma correta e interagir como a família que são, conta, sorrindo, como têm sido legal viver essa experiência. Jirlana, ou Kika, como é chamada pelos amigos, estava com 30 anos no momento da documentação e é natural de Poço Redondo, cidade interiorana de Sergipe. Quando nos encontramos, estava em processo de mudança para Aracaju. Depois de cursar zootecnia e trancar a faculdade, ela planeja começar enfermagem na capital. Criada em um ambiente conservador, enfrentou um questionamento único quando se abriu sobre a sexualidade: “Existe tratamento pra isso?” e com calma e firmeza explicou que amar mulheres não é algo a ser "tratado", pois não é doença. A decisão de mudar envolve tanto a vontade de estar mais próxima de Beatriz quanto o desejo de liberdade que uma cidade maior oferece. São apaixonadas por cafeterias, principalmente para provar chocolates quentes. Conhecem várias em Aracaju, como o lugar onde fizemos as fotos, e quando viajam fazem questão de passear nelas pelos locais onde passam. Também costumam anotar as melhores, dando notas, para um dia voltar. Beatriz sente que seu relacionamento com Kika a faz viver plenamente, explorando juntas todas as possibilidades. Ela compartilha que, no dia anterior da documentação, foram juntas a um evento do trabalho, algo que antes parecia impensável. Em outros momentos da vida, Beatriz se sentiria mais retraída ao ir sozinha, mas Kika é sua parceira em tudo, alguém que a impulsiona na carreira, é amiga de seus amigos e ambas conquistam com o jeito extrovertido. Adoram sair, se divertir e fazer amizades. "A gente gosta de se amostrar", brinca Beatriz, destacando que se esforçam para tratar os outros com simpatia, como gostariam de ser tratadas. Sempre juntas, não perdem a oportunidade de aproveitar qualquer passeio ou evento, dispostas. Beatriz relembra como, antes de Kika, não conseguia se imaginar em um futuro ao lado de alguém. Agora, tudo mudou. Elas se sentem livres para sonhar com uma vida compartilhada: construir uma família, ter filhos e morar juntas. Beatriz se descreve hoje como "grudenta" e ri ao contar que vive perguntando: "Vamos casar quando? Está demorando muito! Já pegou sua certidão de nascimento pra gente casar?" Kika conheceu Beatriz por acaso e o início da conexão foi marcado por coincidências e resistências. Após uma festa perto de sua cidade, Kika conheceu novos amigos e viveu uma noite suuuuuper intensa, mas estava sem celular e no dia seguinte resolveu procurá-los no Instagram para compartilhar as histórias engraçadas que viveram. Beatriz era a melhor amiga de uma dessas pessoas que Kika tinha conhecido, então aparecia frequentemente como sugestão de amizade para Kika, que sempre recusava. Até que um dia cedeu e a seguiu, achando que Beatriz, com tantos seguidores, não retribuiria. Para sua surpresa, Beatriz seguiu de volta, viu alguns stories, puxou papo e a conversa começou. No dia da conversa inicial, Kika estava curtindo uma “farra” na cidade - festa que acontece com paredões de som, só que em terrenos mais afastados da cidade, para que ninguém reclame do barulho - mas decidiu voltar para casa mais cedo e postou um storie assistindo um filme, tomando sopa. Bia respondeu, puxando um assunto. Conversaram um pouco, porém, com a proximidade das festividades de São João, viviam entre trinta dias ininterruptos de festas de forró, então não mantiveram um clima de conversas frequente, era tudo muito esporádico, quando sobrava um tempo entre um show e outro, uma festa e outra. Até que, numa madrugada, enquanto Kika voltava de uma festa em um povoado próximo, Beatriz, sem conseguir dormir, mandou mensagem. Conversaram até o amanhecer, e desde então, nunca mais pararam. Naquela época, Beatriz estava prestes a se mudar para Santa Catarina, mas o sentimento entre as duas cresceu tão rapidamente que desistiu da mudança. Elas brincam que começaram a namorar antes mesmo de se conhecerem pessoalmente, tornando o início da história tão inesperado quanto único. Após semanas de conversas intensas, Kika decidiu ir até Aracaju encontrar Beatriz pessoalmente e dar início ao que já parecia ser um namoro. Ambas sentiam o amor florescendo, mas precisavam daquele encontro para confirmar que não era apenas um delírio das redes sociais. Nervosas, se encontraram pela primeira vez e, no mesmo instante, souberam que aquilo seria real e duradouro. Passaram o fim de semana juntas, mas Kika precisou voltar para casa - mesmo querendo ficar. Na segunda-feira, já de volta, Kika enviou flores para Bia com um pedido de namoro, explicando que queria mesmo era ter feito isso pessoalmente. Desde então, vivem esse amor, mesmo com algumas horas de distância entre suas cidades. Viajam frequentemente para se encontrar e agora, com a mudança de Kika para Aracaju encaminhada, a rotina promete ficar ainda mais leve. No momento da documentação estavam bem empolgadas pensando em como tudo tende a ser mais tranquilo morando próximas, construindo juntas uma nova vida na capital. Amam organizar os looks combinando, até as capinhas dos celulares são pensadas com cuidado. Gostam de se ver como uma meta de casal - recentemente, marcaram presença na parada LGBT de Aracaju e reafirmam que vivem a relação que sempre sonharam: um casal clichê, apaixonado e, como brincam, inimigo do fim. ↓ rolar para baixo ↓ Beatriz Kika

  • Patrini e Gabi | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Patrini estava com 30 anos no momento da documentação. É natural de São Sebastião do Caí, interior do Rio Grande do Sul, e mora em Porto Alegre há pouco mais de três anos. Trabalha como psicóloga e desde o início da carreira já se dedicava ao trabalho com foco em sexualidade e gênero, participando de coletivos e acolhendo pessoas LGBTs em seus atendimentos, mas foi nos últimos anos que fora do consultório olhou para si e também permitiu o entendimento da sua própria sexualidade enquanto uma mulher que ama outra mulher - ainda que, nesse processo, nunca havia imaginado namorar outras pessoas porque sempre se via sozinha e não-monogâmica, até começar a relação com a Gabi. É no tempo livre que Patrini encontra o ritmo e o descanso na música: sendo percussionista. Filha de baterista, explica que o som sempre foi um modo de se manter viva. Religiosa de matriz africana, costuma dizer que o orixá orienta seus caminhos… e talvez por isso veja na vida, na música e no amor um lugar de movimento, de cruzamentos, de liberdade. Gabriela estava com 23 anos no momento da documentação. É natural de Taquara, interior do Rio Grande do Sul, e cursa psicologia. Quando começou a se relacionar com mulheres, na adolescência e antes de se mudar para Porto Alegre, enfrentou uma reação violenta dos pais, que só mudou com o tempo, com a maturidade e a terapia. Aos 18 chegou em Porto Alegre para cursar a faculdade e desde então constrói sua carreira. Para além da psicologia, Gabi adora fazer crossfit e surfar. Sonha em unir o esporte à psicologia, principalmente na praia, onde se sente completa. Foi em 2023 que Patrini e Gabi se conheceram, sem marcar encontros ou sair de casa com grandes expectativas, estavam apenas com suas amigas curtindo o Bloco da Laje, famoso bloco carnavalesco gaúcho. Uma delas havia ido ao evento com uma antiga ficante, mas acabou se afastando para reencontrar uma amiga. A outra chegou mais tarde, apenas querendo se divertir e rever conhecidos. O encontro aconteceu quando uniram os grupos de amigos e trocaram olhares, sorriram uma para a outra e puxaram alguns assuntos falando sobre o glitter que usavam. Depois de uma rápida conversa descobriram que tinham a psicologia em comum, até que Patrini questionou: “Vem cá, você tem quantos anos hein?!”. A troca que tiveram no bloco foi curta, trocaram o Instagram rapidamente e logo se perderam nos grupos. Patrini foi para casa em seguida, pois morava perto, e no dia seguinte trocaram mensagens no Instagram para se encontrar novamente. Ela achava que não iria dar em nada, principalmente pela diferença de idade, mas topou o encontro, que foi em um pagode, num lugar bastante aleatório. Se deram bem, seguiram se encontrando e entrando aos poucos uma na rotina da outra. Brincam que o que era ficarem juntas durante o fim de semana se estendeu para segunda, depois segunda e terça, depois quinta até segunda… até que não fazia mais sentido dormir separadas. A convivência se intensificou entre risadas, cafés, cachorros indo e vindo, e o caos afetuoso das diferenças também se revelaram com o tempo. Patrini, que há anos morava sozinha, estranhou o ritmo de uma casa mais cheia. Gabi, que morava com mais pessoas, mostrava outra forma de ver as coisas. Em meio a conversas sinceras, falaram sobre os limites da relação, sobre monogamia e liberdade, com respeito e escuta. Foi um tempo depois de ficarem pela primeira vez - e de terem se conhecido no bloco - que Patrini e Gabi começaram o namoro, ainda em 2023. Um ano e meio depois, decidiram morar juntas, primeiro porque a logística de idas e vindas para ambas casas não fazia mais sentido, e segundo porque coincidiram suas datas de encerramentos de contratos dos imóveis locados. Um ultimato que virou oportunidade: se já se escolhiam na prática, por que não oficializar na rotina? O novo lar, porém, trouxe seus próprios ruídos: um bairro que não era o favorito, era escolhido por necessidade. Deslocamentos maiores. Outras adaptações. Ainda assim, ficaram. E seguem planejando, inclusive mudar de novo quando a vida permitir. Nesse tempo que estão juntas passaram por muitas coisas, entre felicidades, tristezas, desafios e coisas que só o tempo comporta. Foram lutos, roubos, ansiedades, burnouts, reflexões sobre si, crescimento profissional… Nasceu a percepção de companhia: um porto seguro. Uma base que não é só idealizada, ela atravessa vulnerabilidade com presença. A terapia entrou como ferramenta e como espelho. Falou sobre conflitos antigos, influências familiares, a dificuldade de separar individualidade e dependência. Foi como colocar tudo sob a mesa. Coisas até que nem estavam preparadas para ver - e entender isso também. Entender que são pessoas, que compromisso não é cobrança. Perceberam que estar juntas implica aceitar também o que a outra é no mundo: sua história, suas crenças, suas formas de amar. E que essa decisão, apesar de exigir disposição, devolve amor de um jeito que faz sentido. Com o tempo, a relação começou a transbordar para fora das duas. Olharam para as relações alheias com menos julgamento, entenderam acordos, nuances, possibilidades. A diferença de idade virou aprendizado mútuo: uma traz estabilidade e perspectiva, a outra traz experimentação e futuro em construção. Uma aprende organização financeira, aprende a respirar mais; a outra ganha calma, confiança, orientações de quem já ocupou alguns caminhos antes. A rotina é como um ritual para Patrini e Gabi: o chimarrão ao fim do dia, o café da manhã, as conversas que acontecem nesses momentos… Gostam de cozinhar juntas, viver o dia sem pressa aos sábados. Ir na feira. Dormir um pouco a mais. Cuidar da casa, viver o dia com a cachorrinha. Cuidar das plantas. Há uma alegria tranquila em estar cuidando do lar, em organizar e ver tudo no lugar, sentindo que aquilo as representa. A rotina, antes dividida entre deslocamentos e urgências, hoje é feita de pausas, tendo cuidado no descanso. De certa forma isso reflete o amor que amadureceu junto da relação, entre as conquistas nos dias comuns, os momentos de perdas. Um cotidiano que vai se construindo em coisas boas, em dias mais vulneráveis, sobretudo na companhia e numa intimidade que antes nem imaginavam conquistar: estar uma com a outra, e em casa. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Patrini

  • 0000 | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Rebeca e Samara se conheceram em outubro de 2023, durante uma live de uma página voltada ao público lésbico e bissexual. A proposta da live era conectar mulheres, seja para amizades ou relacionamentos. Samara tinha saído de um relacionamento - que não havia sido fácil - há cerca de seis meses, tomou coragem e decidiu participar para conhecer pessoas novas. Foi então que Rebeca a notou e começou a seguir no Instagram. Começaram a conversar imediatamente e se deram super bem, as conversas se tornaram diária e vieram chamadas de vídeo e ligações. Construíram um vínculo à distância - uma morando na Bahia, a outra no Piaui - que durou seis meses, e decidiram se relacionar de forma virtual. Em abril de 2024, Rebeca disse para Samara que faria uma viagem para visitar o pai no interior. No entanto, dias depois, veio a surpresa: Rebeca não estava no interior, mas sim a caminho de Salvador. Com a ajuda de familiares, ela arquitetou uma mudança e aproveitou a ocasião para surpreender Samara em seu aniversário, deixando claro que já tinha os planos de conseguir um emprego por lá e ficar de vez. A falta de aceitação de sua sexualidade pela família, somada aos seis meses de conexão intensa com Samara, desencadeou o impulso de recomeçar. Tinha o medo de não dar certo por não se conhecerem pessoalmente? Claro. Mas arriscar era preciso. Após algumas entrevistas, conseguiu um emprego e começou a se estruturar. Como ela mesma diz: "Já vim com os planos de ficar perto da Sam, não queria mais voltar para o Piauí." Desde então, elas têm vivido juntas, transformando aquela conexão inicial em uma história de amor real e corajosa, e Rebeca não se arrepende e nem deseja voltar. Quando chegou em Salvador, Rebeca ficou na casa dos seus familiares que moravam na cidade, mas também foi recebida com carinho pela família da Sam. Após uns meses, decidiram começar uma vida juntas, em um lar só delas. Os primeiros móveis foram adquiridos com pressa, mas com a ajuda preciosa da família para facilitar o início dessa nova etapa, ainda que pagando em várias prestações. Com alegria, contam como frequentemente refletem sobre essa decisão e afirmam, sem hesitar, que não se arrependem - principalmente a Rebeca, de ter deixado o Piauí para construir essa história ao lado de Samara. O amor, que começou de forma tão inesperada, revelou uma força que surpreende até elas mesmas. O que torna a relação única, segundo Sam, é a forma como se sentem ouvidas e reconhecidas uma pela outra. "Não vale só assinar embaixo. Ela deixa eu falar," diz Samara, expressando a dinâmica de respeito mútuo que construíram. E isso que é muito interessante, no dia-a-dia, além de desafiador, mostra o quanto representa crescimento para elas e para a família. E nesse crescimento também aprendem a lidar com questões que nem sabiam que era possível: como os ciúmes, a vida financeira, a ter paciência e entender que conquistam as coisas aos poucos, de acolher nos momentos difíceis, não procrastinar a luta dos estudos… uma puxa a outra nos sonhos. O amor delas também se revela nos pequenos impulsos do cotidiano. Desde Sam que gasta todos os caracteres na hora de se declarar, até a forma mais tímida de Rebeca, que prefere ações a palavras. É o mesmo impulso que levou Rebeca a mudar de estado e que ainda as guia em decisões, como comprar coisas sem tanto planejamento ou dizer “sim, vamos” antes de pensar duas vezes. Esses gestos espontâneos mostram que, mesmo com os desafios, o que importa é fazer dar certo. Samara, no momento da documentação, estava com 26 anos. É formada em História pela UBA e vive em Salvador, onde trabalha como professora em uma escola particular. Apesar de amar sua formação, sonha em cursar Direito, algo que pretendia fazer desde o início, antes de se apaixonar por História. Determinada e cheia de sonhos, Samara ainda planeja voltar à faculdade e realizar esse desejo. No tempo livre, ela adora ir ao cinema, shows, ouvir música, ler e assistir séries. Rebeca estava com 21 anos no momento da documentação. Nasceu em Salvador, mas passou a maior parte da vida no Piaui. Recentemente, em abril de 2024, decidiu voltar para Salvador motivada pelo amor que construiu com Samara. Atualmente, trabalha como operadora de telemarketing e cursa Ciências Biológicas, mas seu grande sonho é estudar Medicina. Rebeca é apaixonada por música e se destaca ao tocar violão, guitarra e bateria. Embora não seja fã de leitura como Samara, ela ama ir ao estádio de futebol – um hábito que aprendeu com Samara, e agora ambas torcem juntas pelo Vitória. A praia é um dos cenários mais especiais para as duas. Apaixonadas pelo mar, elas encontram nesse ambiente o refúgio para criar memórias juntas. Assim como o futebol no estádio, os passeios à beira-mar se tornaram um dos momentos mais significativos do relacionamento, por isso escolheram o lugar para fazermos as fotos na documentação. ↓ rolar para baixo ↓ Samara Rebeca

  • Nayara e Mayara | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. ↓ rolar para baixo ↓ Nayara Mayara

  • Psicólogas disponíveis | Documentadas

    O Documentadas oferece apoio psicológico para mulheres que amam mulheres e fazem parte da comunidade LGBT. nossas profissionais disponíveis Ana Carolina Psicóloga Psicóloga pela Universidade Federal Fluminense - mestrado em Psicologia Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. CRP 05/58463 Leia mais Talyta Psicóloga Psicóloga - graduada pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) - estudos em psicanálise. CRP 06/169049 Leia mais Marina Albuquerque Psicóloga Psicóloga graduada pelo Centro Universitário IESB e especialista em Psicologia Humanista. CRP-01/19203. Leia mais Mariana Milan Psicóloga Psicóloga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina. CRP 12/26613 Leia mais Camila Psicanalista Psicanalista. Membro provisório do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre/RS (CEPdePA) e Advogada Especialista em Direito Público Leia mais Ana Clara Ruas Psicóloga Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói. CRP 05/66226 Leia mais Maria Clara Goes Psicóloga Psicóloga mestra sobre saúde sexual de mulheres cis lésbicas, pela Universidade Federal da Bahia. Praticante da Psicanálise - CRP 03/27093 Leia mais Maria Freire Psicanalista Psicanalista pela Escola Letra Freudiana. Doutorado em filosofia. Leia mais Viviane Psicóloga Psicóloga graduada pela PUCRS, especialista em Clínica Psicanalítica (UFRGS) e mestre em Psicologia Social na UFRGS. CRP: 07/23395 Leia mais Júlia Psicóloga Psicóloga - Mestrado na Universidade Federal Fluminense em Psicologia - CRP 05/60076 Leia mais Larissa Psicóloga Psicóloga formada pela Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo. CRP 06/161422 Leia mais Ariadne Sitaro Psicóloga Psicóloga Pós Graduanda em Gestalt Terapia e Reprodução Humana Assistida. CRP 02/28387 Leia mais Thays Waichel Psicóloga Psicológa graduada pela Universidade Luterana do Brasil - Canoas/RS Ênfase em Orientação Psicanalítica. CRP 07/37003 Leia mais Ana Flávia Psicanalista Pedagoga pela Universidade Federal do Paraná e psicanalista pela Associação Livre Centro de Estudos em Psicanálise Leia mais Raquel Psicóloga Psicóloga formada pela Faculdade de Pato Branco/FADEP Pós-graduação em Gênero e Sexualidade. CRP 12/23076 Leia mais Gabryella Neves Psicóloga Psicóloga Clínica, formada pela Universidade da Amazônia CRP 10/10695. Leia mais Priscila Dornelas Psicóloga Formada em 2022 pela UNIBRA – Centro Universitário Brasileiro. Atuo pela Abordagem Centrada na Pessoa. CRP 02/29904 Leia mais Jamyle Psicóloga Psicóloga - Mestrado em lesbianidades a partir de uma perspectiva interseccional, pela Universidade Federal do Ceará. CRP 11/18191 Leia mais Deyse Van Der Ham Psicóloga Psicóloga - Especialista em Políticas Públicas e Assistência Social pela PUCRS. CRP 07/24426 Leia mais Laís Tiburcio Psicóloga Psicóloga Clínica, Pós-graduanda em Gênero & Sexualidade, formação em Politica Nacional de Saúde LGBT. Estudos em Psicanálise. CRP 05/57276 Leia mais Paula Martins Psicóloga Psicóloga, formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pós graduanda em Psicopedagogia. CRP 05/63682 Leia mais Caroline Afonso Psicóloga Psicóloga - formada pela Universidade Luterana do Brasil Canoas/RS. CRP 07/38059 Leia mais Rayanne Moreira Psicóloga Psicóloga clínica, Pós-graduada em Gestalt-terapia. CRP 05/57973 Leia mais Gabriela Nunes Psicóloga Psicóloga formada pela UNISINOS e pós-graduanda em Psicologia Clínica pela PUCRS. CRP 07/41102 Leia mais Kíssila Psicóloga Psicóloga formada pela UFF e pós-graduanda em Fenomenologia Decolonial e Clínica Ampliada pelo NUCAFE. CRP 05/69513 Leia mais Maria Célia Psicóloga Psicóloga clínica e social, PUC Minas (campus Poços de Caldas) e mestre em Psicologia pela UFMG. CRP: 04/78352. Leia mais Jade Psicóloga Psicóloga pela Universidade Federal Fluminense - mestrado em Psicologia Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. CRP 05/58463 Leia mais para fazer cadastro, basta ler sobre as psicólogas disponíveis, preencher o formulário em cada "Ler Mais" e aguardar o nosso contato! caso tenha alguma dúvida, nos mande um alô por aqui :)

  • Claudia e Vanessa | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Cláudia estava com 54 anos no momento da documentação. É natural de Castanhal, interior do Pará, mas mora há anos em São Miguel do Guamá e é apaixonada pela cidade e pela região. Sua vida sempre foi atravessada pela arte, caminho que se intensificou quando morou em São Paulo por 15 anos. A mudança inicialmente era temporária, planejada para apenas dois anos de trabalho, mas acabou se prolongando quando ela decidiu continuar morando lá. Antes mesmo de se sentir sozinha em São Paulo, encontrou acolhimento na comunidade budista (que já fazia parte desde sua moradia no interior paraense) e decidiu seguir na capital, sabendo que tinha com quem contar. Nesse período, ingressou em uma escola de cerâmica, primeiro como agente administrativa. Aos poucos, sua curiosidade pela prática cresceu, até que se aproximou do laboratório e do torno. Um dia, vendo o laboratório vazio enquanto limpava, se arriscou e sentou para moldar uma peça. Como ela mesmo diz, “levantou” a peça do barro. E surpreendeu: quando voltaram, perguntaram quem foi que havia feito aquilo, pois havia ficado muito bom. O fato é que enquanto outros levavam anos para conseguir levantar a primeira forma, ela, apenas observando o processo, levantou de primeira. Apaixonada pelo barro, a cerâmica passou a ocupar um lugar central em sua vida. Depois de cinco anos distante do Pará, sem contato com conhecidos da região, decidiu retornar. Foi nesse reencontro com suas raízes que retomou o contato com a Vanessa (que conhecia desde criança). E é nessa volta que mais um momento da vida delas se cruza, mas não chega ainda a caminhar lado a lado. Vanessa e Cláudia se conheceram ainda crianças, quando tinham seis e nove anos. Cresceram muito unidas e, na pré-adolescência, a ligação entre as duas era tão perceptível que a mãe de Cláudia decidiu afastá-las, mandando ela para Manaus, com a desculpa de que iria trabalhar. O que seria uma temporada curta, apenas uma viagem como um experimento, acabou se estendendo por dois anos. Mesmo assim, sempre que Cláudia retornava (dessa ou de outras viagens que vieram a acontecer com frequência), as duas encontravam formas de se falar, ainda que de maneira breve e improvisada. Na adolescência e já adultas, mantiveram os encontros, guiados pelo boca a boca das pequenas cidades - todo mundo contava que Cláudia estava chegando, seja de barco ou de ônibus, até porque não havia celular ou internet para que se comunicassem. E nisso, havia também os desencontros: vez ou outra, Vanessa sabia tarde demais, Cláudia já havia partido de volta. Essa história, que foi se estendendo por boa parte da vida delas, também foi marcada por afastamentos. Ambas viveram outros casamentos, outras relações, construindo trajetórias paralelas. Um episódio marcante aconteceu quando tinham cerca de 30 anos: se reencontraram em Santa Maria, no interior do Pará. Cláudia chegou uma semana antes do que havia avisado à família, apenas para garantir o encontro com Vanessa, não deixando ninguém imaginar. No momento da documentação, Vanessa estava com 51 anos. Nascida em Salinas, vive há muitos anos em São Miguel do Guamá e também é apaixonada pela cidade e pela região. Foi pioneira numa das principais rádios locais, é uma figura importante falando sobre os direitos da mulher na cidade e tem diversas histórias relacionadas às figuras políticas locais. Sua trajetória e de Cláudia se entrelaçam o tempo todo com as histórias da cidade, afinal, desde que estão juntas dedicam todo o seu tempo para melhorar o lugar em que vivem. Vanessa lembra de uma cena que marcou a relação e a juventude delas: a mãe de Cláudia procurando sua mãe, conhecida como ‘Tia Alice’, para propor um trato: “Fique de olho na Vanessa, que eu vou ficar de olho na Cláudia, porque nessa idade pode acontecer qualquer coisa”. Para Vanessa e Cláudia, ainda adolescentes, aquilo foi doloroso e confuso. Não compreendiam ao certo o que havia por trás da vigilância. Faltava conhecimento, consciência e até mesmo uma certa malícia. Não sabiam nomear o que sentiam. Com o passar dos anos, Vanessa se casou, mas quando sua mãe adoeceu enfrentou muitos problemas na relação. A pessoa com quem se relacionava entendia que o adoecimento da mãe era um problema só dela e, por isso, ela não via mais sentido na relação, não se sentia numa relação de parceria. Nesse período, do nada, enquanto estava no hospital com a mãe, recebeu um telefonema: de Cláudia. Ela chegou a duvidar do que via na tela do telefone. “É você mesmo?”. Claudia chegou não só trazendo a lembrança de algo que ainda estava vivo, mas a companhia de poder compartilhar o cuidado, o carinho. Juntas, viveram o tempo do cuidado à mãe de Vanessa até ela falecer. Foi nesse reencontro que o amor, tantas vezes interrompido, reencontrou também seu espaço para existir. A mãe de Cláudia nunca conseguiu compreender como esse amor sobreviveu a tantas tentativas de separação - ela mesmo confessa. Hoje, porém, dá o braço a torcer e reconhece a força de um sentimento que resistiu ao tempo e às distâncias. Vanessa e Cláudia, por sua vez, também não sabem explicar com exatidão como, depois de tantos desencontros e caminhos diferentes. Talvez, precisasse mesmo ser assim. O que importa é que agora vivem “a vida é de nós duas”, como elas mesmo dizem, sem a necessidade da aprovação ou opinião de terceiros. Com a decisão de viverem juntas, assumiram não apenas o relacionamento, mas também uma paixão em comum: a cerâmica. Aos poucos, foram conquistando espaço e reconhecimento na cidade, criando laços através do trabalho artístico. Mantiveram seus empregos formais, mas logo passaram a ser conhecidas como ceramistas talentosas, com diversas encomendas. Há cerca de oito anos, Vanessa adoeceu. Foi diagnosticada com uma doença raríssima, esclerosante e degenerativa, somada à fibromialgia. O quadro grave fez com que Cláudia precisasse deixar o trabalho para cuidar dela em tempo integral, numa rotina com muita incerteza e sofrimento. No começo, desmaiava muitas vezes por dia, foi cogitado estar com câncer durante oito meses e chegaram a se despedir algumas vezes antes de terem o diagnóstico correto, mas Cláudia sempre dizia o quanto elas batalharam muito para ficarem juntas, não era agora que ela ficaria sozinha. Depois do diagnóstico e de acertarem os remédios, Vanessa respondeu com firmeza: teve uma melhora e pode seguir o tratamento em casa. Sem poder trabalhar e enfrentando limitações severas, elas sobreviveram graças às doações dos amigos. Pessoas das cidades vizinhas se mobilizaram, trazendo frutas, legumes, roupas e alimentos de bicicleta, partilhando o que tinham em suas casas. Mesmo sem nunca pedirem, a rede de afeto se formou de maneira natural, mostrando como eram queridas e como o amor que construíram ao longo da vida foi retribuído. Hoje, a doença está mais controlada, ainda que não consigam seguir uma rotina de trabalho, conseguem produzir algumas peças de cerâmica. A casa foi adaptada, o ateliê também. Celebram a chance de viver plenamente um amor que resistiu a tantas tentativas de apagamento e sentem a realização não só por estarem juntas, mas por verem o amor transbordando para os amigos, aproximando a família e inspirando os que conhecem suas histórias. ↓ rolar para baixo ↓ Cláudia Vanessa

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