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Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

292 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Dalle e Dyanne | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Dállete estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de União dos Palmares, interior de Alagoas e, sendo uma mulher descendente de indígenas/quilombolas, carrega isso muito forte em seu corpo. Foi criada por sua mãe e por parte da família materna numa cidade chamada Carpina, localizada na zona da mata norte pernambucana, onde morou até os últimos anos quando decidiu cursar direito no campus do sertão de Pernambuco, sendo a primeira pessoa da família a cursar faculdade. Dálle adora fotografar e durante a faculdade conseguiu se sustentar e realizar diversos trabalhos acadêmicos com a fotografia - criou um projeto fotografando as comunidades indígenas e quilombolas que tinha acesso, viajou para Brasília, Amazonas e Bahia, apresentou os registros em diversos lugares e ganhou prêmios. Até hoje cultiva o hobbie e a veia artística. Dyanne estava com 27 anos no momento da documentação, é natural de Carpina, zona da mata norte de Pernambuco, e conta sobre sua infância ter sido toda na igreja. Não lembra de algum momento antes dos 11 anos de idade não ter sido dentro da Igreja Petencostal do Sétimo Dia, foi só durante a pandemia de Covid-19 (com ela já sendo uma mulher adulta), quando tudo estava fechado, que viu a oportunidade de sair da religião e conhecer outros lugares. Entre as tarefas na religião, gostava de cantar e tocar violão. Foi lá, também, que conheceu Dálle. Dálle foi cristã muitos anos, quando entrou na universidade entendeu a grandiosidade do mundo - e do que era a sua vida em si: as violências que já havia sofrido, a cultura que carregava e o que significava seu corpo. Foi quando entendeu que poderia gostar de mulheres - de pessoas em geral - e que a sexualidade não define caráter. Dyanne sempre achou mulheres muito bonitas, entendia isso desde a adolescência, mas nunca soube como era o mundo para além da sua família e da igreja. Quando apareciam coisas para fora “da sua bolha” na televisão, o pai trocava de canal… Foi uma pessoa muito protegida. Entendeu o que era o contato físico entre as pessoas no ensino médio - e foi também quando pensou sobre a possibilidade de sentir algo por outra mulher. Mas, logo cortou a possibilidade, até porque não era sobre mulheres em geral, era sobre uma mulher especificamente. Mesmo assim, nunca chegou a acontecer nada, o medo que sentia do “pecado” era muito maior. Na época em que tudo isso aconteceu na escola, Dyanne chegou a conversar com uma psicóloga sobre: contou que estava conversando com uma menina e que achava que gostava dela. Coincidentemente, os pais estavam em separação e a psicóloga orientou que ela estava depositando a falta que sentia da mãe na busca por um afeto feminino, dizendo que ela “confundia as coisas”, mas não, que não gostava de mulheres, apenas estava confusa. Ela entendeu isso como um diagnóstico e, toda vez que sentia isso, ainda que anos depois, pensava “Nossa, ainda não passou?!”. Por mais que no decorrer dos anos tivesse admiração por outras mulheres, a primeira mulher que de fato se envolveu foi Dálle. [mais uma vez, fica claro a importância de buscarmos profissionais da saúde que nos enxerguem e nos acolham de verdade] Por mais que Dálle e Dyanne começaram a sua relação amorosa já adultas, são amigas de infância por conta da igreja e da vida no interior pernambucano. Sempre foram amigas confidentes, se tratavam com muito carinho e dividiam uma paixão imensa pela leitura de O Pequeno Príncipe, mas nunca haviam se olhado além da amizade (ou compartilhado a paixão por mulheres em suas conversas, pelo contrário, se entendiam enquanto mulheres héteros… e nem conheciam outras possibilidades). Fizeram uma prova de ENEM juntas - e essa prova para quem é da religião Adventista era totalmente diferente porque os sábados são guardados, então era feita durante um dia inteiro. Elas relembram o quanto se cuidavam durante a prova, nas filas e nos intervalos. Entendem que há 6 anos vivem essa relação amorosa e há 6 anos descobrem diariamente quem são, porque sempre viveram longe das outras culturas. Só em 2024, por exemplo, furaram as orelhas para colocar brincos pela primeira vez. Lembram dos primeiros eventos que foram: junto de um grupo que formaram com outros amigos LGBTs que saíram da igreja por não serem aceitos, foram ao carnaval pela primeira vez e achavam que seria horrível, o caminho todo passando mal com o medo do caos, o pensamento de que era o “Satanás” tomando tudo… e quando chegaram era lindo, muito colorido, com muitas crianças na rua e todos dançando maracatu. Dálle sempre foi uma mulher que performa feminilidade, usando roupas coloridas e maquiagem. Enquanto Dyanne possui um estilo que não gostava de usar batons diariamente, usava mais as cores preto e cinza… e todos falavam muito dela por conta disso, como se “já esperassem” que ela não fosse performar a heterossexualidade desejada. Porém, foi Dálle quem “saiu do armário” primeiro e contou para Dyanne que havia beijado uma menina. Quando estavam juntas, numa situação em casa, se encostaram e sentiram um frio na barriga. Não foi intencional, estranharam e pensaram “O que aconteceu ali?” mas, quando passaram próximas de novo, fizeram questão de encostar novamente para ver se iriam sentir. E deu certo. Naquele mesmo dia, algumas horas depois, Dálle estava na casa de um amigo e mandou um meme brincando para Dyanne, no desenrolar da conversa ela demonstrou o interesse em beijá-la. Acabaram não falando mais sobre isso, só deixaram a vida seguir o rumo, até que surgiu uma viagem para Recife à passeio, junto de outra amiga. Nessa viagem provaram cerveja pela primeira vez, já se sentiram diferentes uma à outra, conversaram a noite toda e finalmente ficaram juntas. A partir desse momento sabiam que queriam seguir juntas, acreditavam muito no que sentiam, mas havia o medo perante tudo o que aprenderam na igreja e de tudo o que precisariam enfrentar com suas famílias. O começo do namoro girou um ano em torno do medo e do preconceito com que a família (e a igreja) olharia o relacionamento e o amor que viviam. Contam o quanto foi doloroso, passaram muito tempo afastadas, depressivas e morando em lugares distantes. Questionavam o tempo todo “Será que é isso mesmo que Deus quer pra gente?!”. Se apegaram muito aos livros, liam no telefone juntas e isso amenizava a distância. Também pensavam em todas essas regras criadas na sociedade, esses julgamentos sobre elas, quem tem o poder sobre isso? Em suas palavras: “A gente entendeu que o amor de Cristo superava esse preconceito, sabe, e que Ele queria ver a gente livre. E tem um versículo da Bíblia que fala, né, de que foi para a liberdade que Ele nos criou. E ser livre é ser quem a gente é. Então, a gente decidiu que iríamos ficar juntas. E depois dessa decisão, estamos aqui, até hoje, assumidas.” Viveram longos processos conversando com suas famílias sobre o relacionamento. Alguns, inclusive, que só foram acontecer aos quatro anos de relação. Mas quando entenderam que o amor supera o medo e permite sonhar novamente, decidiram criar novos sonhos - e assim chegaram até Recife morando juntas, adotaram os bichinhos, criaram um lar… a vida tomou outra forma. Hoje em dia comemoram cada detalhe: desde passar datas comemorativas como um Natal juntas, até postar uma foto nas redes sociais, receber os familiares em casa, pegar nas mãos andando nas ruas… todas as coisas que por tanto tempo não puderam fazer. Dyanne pediu Dálle em casamento no Rio de Janeiro, num pedido que inicialmente deu errado mas depois deu certo, no show do Coldplay. Também fizeram união estável durante a pandemia de Covid-19, inicialmente por questões burocráticas de plano de saúde, mas hoje entendem a importância que isso representa. Sonham em realizar uma cerimônia em algum momento, com seus amigos, familiares, fazendo jus ao amor tão acolhedor que compartilham. Por mais que a história que viveram não foi fácil, tentam não demonizá-la, porque é intrínseca ao que elas são. Cuidam da mente e do coração para seguir sendo boas uma à outra e se permitem viver, experimentar, sentir as coisas… já que passaram tantos anos sem acesso ao mundo de verdade. Entendem que estão sempre em ressignificação: ressignificam a religião, Deus, o lar, a família, o amor… E querem encontrar a liberdade de viver a própria vida, o direito de cada um ser quem é. ↓ rolar para baixo ↓ Dállete Dyanne

  • Yula e Rebecca | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Yula e Rebeca se conhecem desde a infância, quando eram bem pequenas e moravam na mesma rua. Enquanto Yula ficava sentadinha colhendo flores e brincando de miçangas, muito comportada por conta do olhar mais rígido de sua avó, Rebeca andava de bicicleta, brincava de polícia e ladrão e “vivia se quebrando”. Yula lembra que sua avó não deixava ela brincar com Rebeca, que era considerada “bagunceira demais”, praticamente uma má influência. Riem hoje quando lembram do oposto: uma quietinha, a outra apocalíptica. Com o tempo, acabaram se afastando. Rebeca se mudou para outra rua no bairro, mas nunca mais se encontraram… nem mesmo na adolescência, ainda que frequentando os mesmos espaços e conhecendo as mesmas pessoas. Rebeca chegou a morar na mesma rua onde Yula vivia com a avó, depois de ser expulsa de casa ao se assumir uma mulher lésbica, mas não se encontraram. Anos depois, também pegava o ônibus bem em frente à casa de Yula todos os dias, via os parentes, via amigos em comum, mas não via Yula. Foi muito tempo de caminhos separados. O reencontro aconteceu em 2024, quando Rebeca estava num bar com um amigo, recém-solteira. Ele super animado com a nova fase, resolveu criar um perfil em aplicativos de relacionamento para ela, mas ela não entendia nada disso, achou uma brincadeira besta. No meio da conversa e das cervejas, Rebeca abriu o Instagram e viu uma foto de Yula, comentou com ele como ela estava bonita - por serem amigos em comum - e ele contou que ela ainda morava ali perto, justamente onde ela frequentava pegando ônibus e tendo sua rotina. No fim da noite, entre risadas e já bêbados, Rebeca decidiu mandar uma mensagem para Yula puxando um assunto. Quando Yula e Rebeca começaram a conversar, depois de anos sem contato, reacenderam a conexão e combinaram de sair algumas semanas depois. Esse intervalo deixou Rebeca desesperada: não sabia puxar assunto, ou pior, manter o assunto online. Ela não é uma pessoa que gosta de ficar online, consumindo conteúdos ou conversando o tempo todo. Tinha um celular velho e um papo muito direto. Um amigo virou praticamente o cupido (ou salvador) do relacionamento: ajudava a formular respostas, dava ideias do que dizer… Yula lembra que Rebeca conversava mais durante as manhãs, que era justamente quando o amigo também estava por perto ajudando nas mensagens. O primeiro encontro foi no parque, fazendo uma longa atividade física. Não era o que Yula esperava, ela não era uma pessoa que fazia trilhas ou andava de bicicleta por aí, mas topou. Foram até um igarapé, se divertiram muito, e esse virou um dos programas favoritos delas: um pouco de parque, um pouco de café. Começaram a construir essa rotina de espaços tranquilos ao ar livre e momentos de conversa em cafés comendo comidas gostosas. Rebeca conta que tem esse impulso de fazer programas inusitados, adora tomar cafés em lugares diferentes. Com a facilidade da moto, ela decide e solta: “Bora tomar café na praia?” ou “Bora dirigir tantos quilômetros só pra tomar um café em tal lugar?”. Ela já fazia isso sozinha, mas agora, com Yula, esses momentos se tornaram ainda mais especiais. Desde o início, as duas toparam as ideias uma da outra e isso encanta a relação de uma forma afetiva. Rebeca conta como foi divertido a primeira vez que “se apresentou” para a mãe de Yula. Por terem crescido no mesmo bairro, a mãe já a conhecia desde criança e, ao vê-la, logo soltou: “Menina, eu te conheço!”, imitando a forma única que a Rebeca tem de andar. Ao compartilhar memórias, a relação foi se aproximando. No final daquele mesmo ano, já estavam passando as datas comemorativas em família. Mesmo com alguns meses, ainda não tinham nomeado a relação como um namoro oficial, o pedido só aconteceu mesmo em 2025. No momento da documentação, Rebeca compartilhou que estava juntando dinheiro há algum tempo para comprar uma casa, com planos para o ano seguinte. Mas, há uns dias, viu uma casa ideal à venda e descobriu que era de uma amiga, então começaram a conversar sobre e fez uma visita com calma. Ela e Yula amaram a localização, por ser no bairro que se conheceram e o preço estava dentro do que imaginavam. Sentiram que era uma oportunidade. Deram entrada na documentação e estavam vivendo esse início da nova fase de forma feliz, ainda um pouco anestesiadas e sem acreditar completamente no que estava acontecendo, entendem que o próximo ano será de construção. Para Yula e Rebeca o amor se manifesta no cotidiano, nos gestos simples que tornam a rotina prazerosa. Um exemplo disso são os cafés da tarde que compartilham (momentos diários que, mesmo repetidos diariamente, carregam afeto e tornam-se especiais). Para elas, amar é justamente aquilo que transforma a repetição em conforto, o hábito em alegria. O amor é o que faz a rotina ser boa. A mãe de Yula apelidou as duas de Professor Girafales e a Dona Florinda, já que, pela proximidade das casas, Rebeca passava todos os dias pela casa da Yula para tomar café após o trabalho. Acontece que com o tempo isso foi se estendendo… Primeiro era entrar e tomar um café, depois a conversa seguia até anoitecer… Agora, já sabe que o café se estende até a noite e ela dorme lá, brincam que nem lembram mais como é dormir sozinhas. O amor também trouxe mudanças no ritmo da vida de Rebeca, porque ela se sente uma pessoa agitada que gosta de fazer mil coisas ao mesmo tempo, então reconhece que o amor possibilita ela desacelerar. Estar apaixonada é conseguir viver o presente com mais consciência, paciência, equilíbrio e presença. E isso se estende não só no relacionamento, mas para encontrar equilíbrio nas outras relações da vida também. Rebeca estava com 24 anos no momento da documentação. Trabalha como enfermeira no pronto-socorro, cursa mestrado estudando a biologia amazônica e também é tutora online de um curso para agentes comunitários de saúde. Nasceu em Belém do Pará, mas passou alguns momentos da vida em Bragança, cidade interiorana no Pará. Seus hobbies envolvem construir ou consertar coisas: comprou uma moto em um leilão, por exemplo, só pelo prazer de reformá-la como ela gostaria. Está sempre reformando móveis ou fazendo instalações elétricas, adora trabalhar com diversos materiais, mexer com ferramentas e dar vida nova ao que parece velho. Yula estava com 22 anos no momento da documentação. É psicóloga clínica recém-formada, com atuação voltada para mulheres e pessoas LGBTs. Gosta de ler e está se reconectando, aos poucos, com as atividades físicas e a natureza, inspirada pelo relacionamento com Rebeca. Cresceu entre Belém e Bragança (também) e lá adorava o contato que tinha com a natureza, por isso também está tão feliz em aos poucos se reconectar. O parque em que nos encontramos para fazer a documentação acontecer tem sido o lugar onde elas passam uma parte do tempo caminhando, respirando, se divertindo e cuidando de si. ↓ rolar para baixo ↓ Yula Rebecca

  • Marina e Patrícia | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Patrícia, no momento da documentação, estava com 35 anos. É natural do Rio de Janeiro e trabalha em uma empresa de máquinas de cartões, enquanto líder de equipe de atendimento ao cliente. Ama praia, música, sair e ir até o bairro boêmio do Rio (a Lapa), assistir desenhos animados e estar com os amigos. Marina estava com 32 anos no momento da documentação. Também é natural do Rio de Janeiro, trabalha em uma empresa de moda, na área de logística, e gosta de passar seu tempo livre assistindo vídeos no YouTube, pesquisando coisas relacionadas à natureza e praticando esportes. Adora caminhar pela rua, ver pessoas e é apaixonada por assuntos holísticos e espirituais. Elas costumam dizer que não estão uma contra a outra, mas sim as duas contra o que for. Mari acredita que é uma pessoa que precisa parar para pensar, enquanto Pati precisa falar primeiro, mas fazem o tempo todo o exercício de caminhar ao contrário: uma para para pensar enquanto a outra tenta verbalizar. Se esforçam ao máximo para ter conversas difíceis, que impactam, porque entendem o quão importante é. E ressaltam que não tinham vivido algo assim até hoje. Aprendem, nessa relação, que amar é estimular o crescimento espiritual uma da outra. É o que mais acontece diariamente, mas não é linear: a vida em si implica altos e baixos. Estão juntas nesses processos e são neles que encontram as confianças que possuem. Neles, também, desenvolveram a liberdade em dizer não. Se permitem vivenciar, dividir tarefas, impor limites, saber seus direitos e suas vozes e, principalmente, amar todas as suas versões, respeitar o que verdadeiramente são. Foi em 2020 que Marina e Patrícia se conheceram, sendo colegas na empresa que Pati segue trabalhando até hoje. Chegaram a compartilhar o cargo de liderança, se tornando amigas, mas nunca muito próximas, até que em 2021 Patrícia tirou férias e quando voltou soube que Marina foi desligada da empresa. Teve uma crise de choro abrupta, ficou muito triste, mas nunca chegou a mandar uma mensagem, viveu aquela tristeza em silêncio. Por mais que não fossem super amigas e tivessem vidas bem diferentes - Marina era bem tímida enquanto Patrícia era muito sociável, vivia saindo com os colegas - rolava uma admiração mútua muito presente entre elas, e por isso se mantiveram nas redes sociais. Passados alguns meses, a vida da Marina seguiu diversos rumos diferentes e num dia ela resolveu mandar uma mensagem para a Patrícia perguntando o seguinte: “Amiga, como mulheres com mais de 30 anos, solteiras, flertam?”. Patrícia respondeu: “Olha, não sei, tô solteira há 10 meses e se eu soubesse eu não tava, né?!... “ Mas resolveu dar umas dicas de aplicativos de relacionamentos, flertes etc. Na versão da Mari, ela estava se curando porque passou por um período bem mal mentalmente e pensou na Pati porque era uma referência de pessoa legal pra ela, bem relacionada, queria voltar a ter pessoas legais por perto e também estava aproveitando sua própria companhia, a solitude… Pati aproveitou a retomada de contato e chamou-a para ir no seu aniversário, pensando que ela jamais toparia, já que não saía nem quando trabalhavam juntas… até que Marina topou, mesmo indo sozinha. Alugou um hotel na Lapa para já passar o final de semana pelo centro, poder beber sem pensar em voltar para o bairro mais distante que morava, foi pra curtir mesmo, sem passar perrengues. Quando ela apareceu no aniversário, Patrícia não acreditou. Estava dando atenção para os convidados, mas focada na Marina (e muito nervosa). Um amigo disse que ela estava dando mole, Pati foi ficando em pânico e o amigo incentivou, depois de muita insistência, elas se beijaram e aconteceu - até demais. Se beijaram a festa toda! Foi no aniversário dela, em 15 de julho de 2023, que tudo começou. E desde então: beijou, noivou, casou. Mari explica que quando entrou lá no aniversário sentiu: “Não sei o que tá acontecendo mas… Tô apaixonada pela Patrícia”. Patrícia fala sobre a insegurança, ela jamais esperava que a Marina estaria querendo ficar com ela. Teve a iniciativa de comprar 10 tequilas para todos beberem e ela e a Marina também, assim isso as aproximaria para o beijo acontecer. E mesmo com as bebidas, com os amigos em volta, Pati ainda estava paralisada, tinha medo de dar tudo errado. No fim, depois de dar certo e ficarem a festa toda, cada uma foi embora (Pati com as amigas e Mari para o hotel). No dia seguinte, sábado, Pati foi para a festa de família… e domingo, para um samba na feira com outros amigos. Queria muito mandar mensagem para a Marina, mas os amigos falaram para ela não mandar em tom de crítica, “porque sapatão já quer ficar junto, namorar etc”. Ela passou o dia esperando um sinal da Marina, um post, qualquer coisa… mas era óbvio que Marina não iria postar nada, estava em casa, geralmente não postava. Em resumo: ficou triste no samba, esperando uma mensagem chegar. Segunda, Marina, que também esperava uma mensagem, sinal de fumaça, ou qualquer coisa semelhante, tomou iniciativa: postou uma música que Patrícia gostava, esperando a interação acontecer. E deu certo. Logo nos primeiros dias, os amigos da Patrícia já estavam totalmente contra qualquer início de relação que poderia ser, pois achavam que ela poderia se machucar. Patrícia havia terminado um relacionamento longo há poucos meses e não havia se relacionado com muitas mulheres depois disso, entrar de cabeça numa relação era arriscado e ela já estava envolvida por uma mulher que tinha beijado apenas uma noite, por mais que conhecesse há anos, então eles eram totalmente contra. Mas de que adiantava falar? Ela continuava envolvida. Elas seguiram conversando e queriam muito se encontrar, mas não sabiam como. Foi numa conversa que Pati contou o quanto amava praias, sonhava morar em Búzios e disse que gostaria de estar com a Marina numa praia em algum momento. Ela respondeu que já estava nessa praia, era só dizer o dia e a hora e elas marcaram para o domingo seguinte. Quando chegou, Pati foi até um quiosque (onde nos encontramos para fazer as fotos), estava muito nervosa e bebeu uma cerveja como se fosse água no deserto. Sentia que Marina não chegava nunca, mandou uma mensagem para a amiga, dizendo: “Por que caralhos mulher atrasa?” E Marina chegou, vestindo a mesma roupa que usava no dia que nos encontramos para documentar essa história, lendo a mensagem por trás dela, dizendo em voz alta: “Não tô atrasada”. Mesmo com o nervosismo e o susto no primeiro momento, elas comeram, beberam, tiveram um encontro ótimo. Ficaram horas no quiosque. Foram na praia. Reservaram um hotel à noite, ficaram muito nervosas o dia todo. E deu tudo certo. Depois do primeiro encontro, seguiram se encontrando com maior frequência, trabalharam juntas no formato híbrido, um mês depois Pati pediu Marina em namoro (em agosto) e em outubro, numa viagem para Búzios, estavam no show do Leoni, cantor que a Pati adora e Marina olhou pra ela de um jeito muito diferente, depois perguntou qual era o lugar favorito dela da cidade e foram até o píer. Lá, ficou muito nervosa e soltou logo de uma vez: “Quer casar comigo?”. Tudo muito rápido, por mais que cheio de detalhes envolvidos, só aconteceu. Em janeiro de 2024 foram morar juntas em Oswaldo Cruz, bairro carioca, próximo à família da Marina. Sentem que a família têm sido um suporte imenso e admiram muito o que constróem juntos, não pensam mais em ir para outro bairro, estar próximos deles é qualidade de vida. Em fevereiro casaram no cartório e afirmam: foi a melhor coisa que já fizeram. No começo, não pensavam em engatar o namoro, mas aconteceu… e conversavam muito sobre isso, sobre o medo que possuíam, sobre como era importante conhecerem as famílias, entenderem seus processos, e aos poucos viram que queriam mesmo estar juntas. Foi muito claro. Sentiam que não tinham mais tempo a perder, o que sentiam estava nítido. ↓ rolar para baixo ↓ Patrícia Marina

  • Angélica e Jaque | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Angélica, no momento da documentação, estava com 34 anos. Ela é natural de São Miguel do Iguaçu, uma cidade no interior do Paraná, mas mora em Criciúma - Santa Catarina há bastante tempo. É apaixonada pela escrita, gosta de escrever poemas, ler e passar tempo com os seus bichinhos em casa. É formada em letras e trabalha na UNESC, universidade pertencente à cidade de Criciúma, no setor de educação e design instrucional. Sua função é receber o material didático que será passado ao aluno na modalidade de educação à distância e preparar este material para que ele fique mais didático, com elementos, esquemas, imagens, deixando-o mais interessante pensando no autoestudo do aluno, visto que ele estará estudando em casa sozinho. Além disso, Angélica também trabalha com a Jaque, sua companheira, enquanto produtora dos eventos que ela canta e toca. Ela monta o equipamento, cuida do som, faz alguns registros para redes sociais e faz os contatos para fecharem os próximos shows. Quer muito fazer da sua produtora um trabalho fixo, e inclusive, quando nos encontramos para a documentação ser feita, iria acontecer nos dias seguintes o primeiro evento oficial criado por elas. Jaqueline, no momento da documentação, estava com 25 anos. É natural de Sangão, interior catarinense, mas atualmente mora em Criciúma com Angélica. Estuda psicologia e trabalha como estagiária no setor de arte e cultura da UNESC, universidade já citada acima. Aos finais de semana se dedica aos eventos em que trabalha fazendo shows em estilo voz e violão ou com a sua banda. Adora cantar e observar as pessoas enquanto canta, além disso, sempre que pode está assistindo algum show e pegando referências para o seu próprio trabalho. Angélica levava uma vida bastante agitada quando conheceu Jaque. Conta que só queria saber de sair, beber, beijar na boca… Inclusive, estava procurando mulheres para beijar quando encontrou no Twitter um link que levava à um grupo e Whatsapp chamado “SAC Sapatão”. Lá havia gente do Brasil todo e logo perguntou: “Tem algum DDD 48 aqui?”. Alguns dias depois a Jaque respondeu ela no privado, falou: “E aí, Criciumense?!” porque já tinha visto o papo se desenrolar lá no grupo. Passaram duas semanas conversando sem parar, até que resolveram marcar um encontro para se conhecer em que Angélica buscaria a Jaque em sua cidade, próxima à Criciúma, elas beberiam em Criciúma e depois ela a levaria de volta. A questão foi: elas só beberam. E Jaque, pobrezinha, estava cheia de fome, pingava de bar em bar com a Angélica contando mil histórias e bebendo… e só via as comidinhas passando para as outras mesas. Jaque era muito tímida, não disse nada, mas também não comeu. Chegou em casa com fome, achou o date ruim. Deram um beijo na despedida e isso foi o bastante para Angélica, que não tinha noção da fome da Jaque, pensar: “Yes! Arrasei!”. Jaque resolveu dar mais uma chance, se encontraram novamente e dessa vez teve até uma bolachinha dentro do carro, caso a fome batesse. Foram até a cidade de Tubarão, próximo onde Jaque morava, para viverem uma festa. Na época, já se sentiam bastante envolvidas. Angélica via a Jaque cantando nos vídeos e sentia a paixão chegando, mas os amigos não colocavam fé, para eles era só mais uma paixão passageira. A partir do segundo encontro em que foram na festa e que depois da festa dormiram juntas, sentem que algo começou a se firmar. Se encontravam com frequência, Jaque na época cursava uma faculdade em Criciúma e isso fazia com que estivessem sempre juntas… Mas Angélica seguia com o seu jeito agitado, querendo sair e curtir a vida, até que foi preciso entender que não dava para continuar com tanta intensidade assim, foi “sossegando” aos poucos. Do momento em que se conheceram até o começo do namoro foi bem rápido, entre janeiro e fevereiro de 2019. Logo no começo, também, já se apresentaram para as famílias, compraram alianças de namoro e foram seguindo a relação, até que depois de alguns meses entenderam que namorar morando em cidades diferentes estava ficando muito difícil. Jaque se mudou para Criciúma e foi morar com Angélica, se estabilizou num emprego e a vida recomeçou… Até começar a pandemia de Covid-19, onde trabalhavam de casa e passavam o dia inteiro juntas. No meio de tudo o que viviam, para garantir direitos e também celebrar o amor que resistia em tempos pandemicos, casaram-se no papel. Queriam fazer uma grande festa, mas não foi possível. Contam, rindo, que saíram do trabalho num dia chuvoso, foram até o cartório assinar um papel e assim que saíram de lá comeram uma coxinha e beberam uma coca-cola, foi a forma de comemorar. Quando nos encontramos para a documentação haviam recém trocado as alianças de namoro para de casadas, mesmo depois de alguns anos, porque queriam ter condições financeiras para comprar alianças legais. Estavam felizes com isso e fizeram questão de registrar nas fotos. Por mais que já passaram por muitas coisas boas juntas, existem também as difíceis, como a própria pandemia. Angélica perdeu a avó, uma das pessoas mais importantes da sua vida, e por conta do trauma desenvolveu alguns medos e fobias. A relação passou a significar apoio para além do romântico, Jaque se tornou um suporte imenso, um cuidado e ajudou no entendimento desses medos, de viver esse processo. Juntas, elas se apoiam em tudo. É nesses momentos que enxergam o amor de forma clara, refletido no cuidado, companheirismo, ajuda diária a enfrentar a vida. Angélica conta que acorda mais tarde, então Jaque tem todo o cuidado de preparar o café, pensar na rotina uma da outra, deixar os lanches prontos… E isso fala muito sobre apoio. O amor não precisa estar sempre no afeto físico. Ele está, também, na forma que elas sonham em viver da música e fazem o sonho virar realidade, investem em equipamento, em editais de cultura, vão atrás de shows para fazer… em toda a vez que dão as mãos e acreditam uma na outra. Falamos sobre trabalharem juntas, morarem juntas, viverem uma rotina muito intensa. Até para a própria documentação acontecer, batalhamos por um horário. E foi aí que citaram a maior dificuldade que passam atualmente: o cansaço que a rotina demanda. Existem alguns meios que recorrem para que isso não pese tanto, como a terapia, as longas conversas - nunca se veem brigando ou discutindo, mas conversando. Confiam muito uma na outra e isso é o que as movimenta, que mantém tudo em segurança. Se a rotina já é pesada, não querem que a relação também vire um peso. Angélica tem muito cuidado com a limpeza e cita que às vezes sente necessidade de limpar, ainda mais com os bichos em casa, não quer deixar o ambiente sujo para a convivência deles. Mesmo chegando exausta, arrasta os móveis, começa a limpeza… E a Jaque “pega junto”, em suas palavras, para limpar. Não era o que gostariam, prefeririam o descanso, mas reconhecem como a ajuda faz a diferença. Isso também fala sobre o amor, sobre poder contar, sobre não deixar de lado. ↓ rolar para baixo ↓ Angélica Jaque

  • Ingrid e Cecília

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Ingrid estava com 33 anos no momento da documentação. É natural de Pelotas, mas passou boa parte da vida adulta em Florianópolis, sempre alimentando o desejo de viajar. Sua primeira experiência com a estrada veio aos 21 anos, durante um intercâmbio na Austrália, onde vivenciou um motorhome pela primeira vez. Quando voltou, quis se aproximar da natureza e sonhava em ter uma Kombi, mas focou na carreira e adiou esse plano. Ainda assim, as viagens eram sua prioridade: trabalhava para poder estar sempre viajando. Foi há cerca de quatro anos que a Kombi Luz chegou, tornando-se um verdadeiro projeto de vida. Na época, já tinha o Teddy, um de seus cachorros, e também o Godinez, que faleceu em 2023. Com o tempo, sua vontade de se dedicar integralmente à estrada cresceu, então ela vendeu sua parte na empresa em que trabalhava e hoje em dia trabalha criando conteúdos para o YouTube, registrando o dia a dia com Cecília na moradia delas na Kombi atravessando o Brasil. O projeto trouxe um reencontro com o jornalismo, sua formação, e a sensação de finalmente concretizar o sonho que sempre teve. Cecília, no momento da documentação, estava com 30 anos. Nasceu em Itajubá, Minas Gerais, mas passou parte da vida em Taubaté. Não foi criada com uma referência de vida na estrada, mas passou por um momento divisor de águas que a fez enxergar a vida por outro lado: perdeu o pai aos 15 anos. Amadureceu, viveu um luto precoce e tudo a fez entender que ele era um homem cheio de sonhos, mas que infelizmente não teve a oportunidade de realizá-los, então queria ser uma pessoa diferente, se viu movida pela sede de viver. Sua percepção por viagens começou quando ela foi morar e trabalhar fora do Brasil, conhecendo um mundo bem diferente do que a vida e a cidade morava. Lá, guardou dinheiro, planejou mochilões, mas dias antes de começar suas novas viagens recebeu a notícia do falecimento da sua mãe. Decidiu voltar ao Brasil, fez uma pausa nos planos para se reorganizar e se reconectar com sua família e consigo mesma. Com 25 anos, já não tinha mais os pais e precisava redescobrir seu caminho. Cecília, depois de optar ficar no Brasil, se mudou para Ubatuba e trabalhou por um tempo enquanto representante de vendas, fazendo assim diversas viagens. Depois de um tempo, comprou uma caminhonete e adotou a Brisa, sua companheira de estrada. Junto de uma amiga, decidiu dividir uma vida de viagens por um tempo, e, reunindo outros amigos, compartilhou um desejo de se mudar para Florianópolis. Foi quando decidiram fazer a mudança e irem juntos. Em 2022, apenas dez dias depois de Cecília chegar a Florianópolis, ela e Ingrid se encontraram por meio de um aplicativo de relacionamentos. Desde o início, perceberam que suas vidas se encaixavam: Ingrid já estava no momento de largar tudo para cair na estrada, enquanto Cecília já havia vivido essa experiência. Ingrid brinca que, naquela época, a Kombi Luz era uma kombi de solteira - um espaço que tinha até mini biblioteca, sem a ideia fixa de ser uma casa. Mas o primeiro encontro dela com a Cecília já dizia muito: um pôr do sol na Kombi. A primeira grande viagem foi até Pelotas, cidade natal de Ingrid. Na época, ainda não tinham um status definido para a relação, mas Cecília foi apresentada ao pai de Ingrid. O plano era passar apenas alguns dias, mas ao chegarem, perceberam que algo não estava bem: o pai de Ingrid recebeu um diagnóstico de depressão e o que seria uma visita rápida se tornou um período de um mês dando suporte e cuidado. Elas e os três cachorros começaram a vivenciar a kombi enquanto casa. Cecília precisou retornar a Florianópolis, Ingrid ficou um pouco mais. Esse período trouxe muitas reflexões sobre a brevidade da vida, sobre momentos difíceis que já viveram e o desejo de viver intensamente. Mesmo sem uma longa história juntas, já tinham dividido muito - entre se conhecer, passar tantos dias juntas, mudanças e novas perspectivas. E foi justamente nessa intensidade que perceberam que queriam continuar seguindo viagem. Pouco tempo depois de passarem um tempo em Pelotas com o pai de Ingrid, o cachorro mais velho dela, Godinez, faleceu. Depois disso, ela voltou para Santa Catarina, percebeu as melhoras do seu pai e decidiu que oficialmente queria morar na Kombi. Foi então que organizou suas coisas no emprego fixo, tudo foi somada à demissão da Cecília do seu emprego e decidiram seguir o sonho juntas. A primeira grande viagem foi para o Rio de Janeiro, depois voltaram para Florianópolis para passar o ano novo com o pai da Ingrid (que foi até lá também) e no início de 2024 deram inicio, de fato, a morar 100% na kombi, sem mais apartamentos e outras casas. A transição para a vida na estrada aconteceu de forma gradual. No primeiro mês, acabaram morando na Kombi sem planejar, enquanto estavam em Pelotas. Depois, na viagem até o Rio, a experiência foi mais estruturada, mas ainda mantinham o apartamento. Ao voltar para casa, esperavam sentir alívio pelo conforto, mas perceberam que a sensação de pertencimento estava mesmo era na estrada. O lar, de fato, era a Kombi. A vida nômade fazia cada vez mais sentido, mas, talvez se tivessem tomado a decisão de uma hora para outra, não tivessem se sentido tão bem na kombi. Desde então, percorreram o Rio Grande do Sul, exploraram bastante Santa Catarina e subiram até o Nordeste. No caminho, fizeram um desvio para Minas Gerais, onde aprimoraram a Kombi. E foi em Alagoas que finalmente nos encontramos para registrar essa história (depois de várias tentativas de cruzarmos nossos caminhos entre o sul da Bahia e Maceió). A vida na estrada trouxe para Ingrid e Cecília a descoberta de um Brasil interiorano que nem imaginavam - e ainda melhor, o gosto pela vida interiorana. Entre uma viagem e outra, encontram cidades que não estavam nem no mapa, acampam em lugares lindos e tranquilos, e se encantam com a calmaria que só quem viaja sem pressa pode viver. Os cachorros também se adaptaram bem… na verdade, até estranham quando chegam em cidades grandes, sem saber lidar com tanto estímulo de som e movimento ao mesmo tempo. Sem prazos rígidos, vão sentindo cada lugar. Têm um roteiro em mente, mas se um destino as cativa, se permitem ficar mais. Criaram uma rotina própria, independente de onde estão, e isso dá uma sensação de estabilidade mesmo com a estrada. Para elas, o amor está presente em cada detalhe do cotidiano. O romantismo vira só um detalhe, porque a conexão é muito mais profunda. Relacionamentos entre mulheres têm essa intensidade - é o que dizem. E, para além da intensidade, têm a resistência. Em muitos lugares por onde passam o preconceito ainda é muito forte, mas fazem questão de seguir de mãos dadas. E, quando falam em mãos dadas, entendem que seguem de mãos dadas com os amigos também: as redes de apoio que seguem firmes, mesmo à distância. Se elas precisarem ou se os amigos precisarem, basta uma ligação. Fazem de tudo uns pelos outros. Já passaram por situações difíceis na estrada, e a presença dos cachorros não é só companhia, mas também segurança. Acima de tudo, o amor entre elas e a família que estão formando é força. É ele que as impulsiona a continuar vivendo esse sonho. ↓ rolar para baixo ↓ Cecília Ingrid

  • Carla e Paula | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Paula estava com 34 anos no momento da documentação. Nasceu em Porto Alegre, mas passou boa parte da vida em Maceió com a mãe, indo visitar a família no sul poucas vezes ao ano. Formada em Direito em Maceió, trabalhou em empregos temporários até retornar ao sul, onde hoje atua como servidora pública. Carrega consigo essa sensação de deslocamento - não é totalmente de Maceió, nem de Porto Alegre. Uma gaúcha nordestina - algo que molda uma personalidade mais fluida, tranquila e aberta às mudanças. Carla estava com 29 anos no momento da documentação. É natural de Maceió e foi lá que conheceu Paula, ainda no período em que ela morava no nordeste. É advogada, formada em sua cidade natal e concluiu a graduação já vivendo em Porto Alegre, após se mudar no meio da pandemia. Carla se destaca por ser cheia de hobbies: corre, borda, gosta das coisas manuais, dos esportes (é faixa preta no karatê desde os dez anos de idade) e entende que manter o corpo em movimento traz a disciplina e o equilíbrio que a hiperatividade demanda. O que as aproxima, além dos caminhos cruzados que a vida fez, é a forma como se completam: brincam com os signos, pois são opostas complementares, mas entendem que vai um pouco além disso. Paula é quieta, reservada, enquanto Carla transborda movimento e, como ela mesma diz, é tagarela - uma fala pelas duas quando necessário, a outra observa, absorve e oferece silêncio seguro. Carla sempre brinca dizendo que elas se conheceram porque ela era estagiária da Paula, gosta de começar a história assim. Mas Paula desmente porque ela era estagiária na empresa, não dela especificamente. Deixam interpretação livre: “Tu escolhe em quem tu vai acreditar!”. Fato é que as duas apenas trabalhavam no mesmo lugar, cada uma com sua rotina, seus horários, seus trajetos dentro do prédio. Para Paula, esse emprego era temporário, e foi num dia em 2018 que sua mãe anunciou: estava prestes a se aposentar e queria retornar ao sul, não moraria mais em Maceió, depois de tantos anos. O convite veio de forma natural: “Tu não quer voltar junto?” e a resposta foi natural também, ela acreditava que nada a prendia em Maceió, então pensou que poderia prestar algum concurso no sul e fazer a mudança para lá. Duas ou três semanas depois dessa conversa com a mãe, ela conheceu a Carla. A amizade foi o primeiro lugar. Ambas tinham terminado relacionamentos recentes, conversavam muito sobre suas dores, histórias em comum e até acompanharam as histórias das pessoas que ficaram depois dos términos. Como Carla era mais nova, Paula pensava que algo entre elas “jamais” aconteceria. Mas a convivência se estreitou - e a resistência capricorniana de Paula não resistiu aos quatro shots de tequila que beberam numa noite. Quando começaram a se envolver romanticamente, tentaram manter um pacto: não transformar isso em algo maior, sabendo que a Paula tinha data para ir embora. Bom, sabemos o resultado, né? Alguns meses se passaram e Paula tentava ao máximo ‘empurrar’ adiar a ida, mas precisou partir para Porto Alegre, em 2019. Dirigia muitos quilômetros chorando, até que sua mãe, vendo o sofrimento, falou: “Minha filha, se tiver que ser, vai ser. Vocês vão dar um jeito, vai dar tudo certo, se tiver. Também se não tiver, não vai.”. E assim elas começaram um novo passo na relação: o namoro à distância. Depois da mudança de Paula para Porto Alegre, Carla fez a primeira visita quando tudo se estabilizou. Foi em maio de 2019, o auge do frio para uma nordestina conhecer o sul, que desembarcou na capital querendo conhecer um destino romântico clássico: Gramado. Elas explicam que desde a primeira vez que concordaram em viver essa relação à distância, tinham uma coisa muito marcada: a escolha consciente de permanecer. Entre idas, vindas e incertezas, sempre escolheram ficar. E, embora a história pareça redonda contada assim, “depois que passou”, foi muito difícil enquanto estava passando… o caminho foi marcado por coisas além das distâncias, como homofobias, conflitos familiares e feridas que só foram cicatrizando com o tempo e com a convivência. Ao longo desses sete anos, elas seguiram escolhendo viver juntas, construindo algo sólido. Conversar sempre foi a essência de tudo. Carla brinca que elas não ficam quietas, estão dissecando cada pedacinho das coisas para estar 100% com tudo. São tagarelas assumidas. E o namoro à distância ajudou a moldar esse hábito: viviam conectadas, entre Skype e FaceTime, indo dormir em chamada, cozinhando ao mesmo tempo, até indo ao cinema cada uma no seu estado. Destacam também sobre como saber que são amigas é importante dentro de uma relação amorosa, é poder confiar muito em quem você ama. Até hoje, qualquer detalhe visto na rua é assunto e é compartilhado entre elas, entendem que o compartilhar é parte natural de amar. E Paula destaca também que nessas trocas, desde cedo falavam em casar e ter filhos, mesmo enquanto repetiam que viveriam um dia de cada vez. Havia uma certeza silenciosa: seguir adiante faria sentido porque o futuro delas já existia, mesmo quando ainda era só um plano. No final de 2019, Carla voltou para Porto Alegre para passar três meses, mas precisou retornar a Maceió no início de março de 2020 por conta das aulas na faculdade. Foi exatamente quando a pandemia de Covid-19 estourou: aeroportos fechados, voos cancelados e aquele período pequeno que iria resolver as coisas em Maceió viraram meses de isolamento. Além do medo e da incerteza do momento, havia também o peso das situações de homofobia dentro da própria família, que tornavam tudo ainda mais delicado. De qualquer forma, sabiam que nada poderia ser feito de forma precipitada. Era importante que Carla terminasse a faculdade, que cuidasse da própria vida individual antes de qualquer mudança definitiva, faltava muito pouco para conseguir o seu diploma. Quando, finalmente, em junho de 2020, conseguiu um voo, Carla veio de vez. Ficaram um tempo morando com a mãe de Paula, e foi ali que Carla apresentou o TCC, se formando de forma online na pandemia - e já residindo em Porto Alegre. Em março de 2021, com a OAB em mãos e já adaptada morando em Porto Alegre, Carla começou a procurar emprego como advogada e as duas decidiram que era hora de ter a própria casa. E foi nesse mesmo período que veio a vontade de celebrar o amor. Depois de tantos obstáculos, medos, partidas e retornos, parecia justo transformar tudo isso em um rito de afirmação. Optaram por um casamento simples, íntimo, com poucos convidados, mas cheio de significado. Marcaram a data exatamente no aniversário de três anos de namoro e foi assim, no terceiro ano juntas, que se casaram. Ainda que alguns familiares não tenham participado do casamento, outros estiveram presentes e os amigos da Carla vieram diretamente de Maceió, então foi um momento incrível de celebração. O casamento firmou o que elas constroem: a escolha, a continuidade e a coragem. Carla conta que quando elas andavam de mãos dadas como namoradas em Porto Alegre, as pessoas não olhavam muito… Mas, quando a barriga apareceu, tudo mudou. As pessoas entendiam, se surpreendiam, sorriam. E havia também aqueles pequenos gestos silenciosos: como o casal de meninas que, numa feira, se cutucou mutuamente ao vê-las juntas. Tipo: “Caramba, é possível!!”, uma esperança. Era bonito perceber que elas também podiam ser referência para outras mulheres, para outras famílias que ainda estavam começando a imaginar a própria possibilidade de existir. Porque, antes de tudo, elas sempre sonharam com isso: uma família, um lar, uma criança para amar. E porque pouco tivemos referências quando foi a nossa vez. O caminho até ali vinha sendo construído aos poucos, elas já eram uma família, com o cachorrinho, depois com a decisão de engravidar. Na primeira tentativa o teste deu positivo. E de um pontinho de luz, como dizia a médica, surgiu a Olivia.Decidiram viver os três primeiros meses só entre elas e os médicos, guardando o segredo como quem protege uma chama acesa no peito. Começaram a contar pela mãe da Paula, que ficou perdida, surpresa, feliz, curiosa, tudo junto! Falou: “Tá. Entendi. Mas tá em quem????” e riram. Tudo se ajeitava. A parte mais delicada foi contar para a família de Carla. Depois de anos de rupturas, medos e afastamentos, ela foi sem expectativa alguma. E, justamente por isso, a surpresa foi tão imensa. A mãe reagiu com alegria, tentou adivinhar o sexo, vibrou por haver mais uma menina na família, dizendo que “Nossa família é uma família de mulheres!”. Em nenhum momento reclamou pelo fato de Paula ser quem estava gerando, pelo contrário: houve carinho, acolhimento e vontade sincera de reparar o que havia sido quebrado. Quando Olivia nasceu, a avó veio até Porto Alegre, e foi assim que ela e Paula se conheceram pessoalmente. Hoje, se Carla passa um dia sem mandar foto, a mensagem chega rápida: “Cadê a Olivia?” Paula falou uma frase muito marcante na nossa conversa: “Que gostoso que é ver o amor da sua vida sendo mãe do amor da sua vida” e isso mostra como a Carla é uma mãe incrível para a Olivia. Ela só dorme com a Carla, o primeiro sorriso foi para ela, a primeira troca de fralda foi com ela. Nas noites difíceis elas se apoiam, nas crises de choro, na amamentação que machucou o peito ou nos medos do que ainda pode acontecer. E nos risos no meio do caos, lágrimas divididas, cansaço partilhado é onde está a força também. A maternidade não mudou quem elas eram (ok, talvez mudou um pouquinho pra melhor!), mas principalmente tornou mais nítido o que sempre existiu. ↓ rolar para baixo ↓ Paula Carla

  • DOC EDUCA | Documentadas

    O Documentadas oferece ensino de idiomas para mulheres que amam mulheres e fazem parte da comunidade LGBT. o doc educa estudo de idiomas para mulheres de todo o Brasil compreendemos que a comunicação nasce de uma pluralidade de expressões - são gestos, afetos, silêncios, imagens - isso é a linguagem. é por meio dela que nos nomeamos, nos posicionamos e nos tornamos legíveis no mundo. aprender uma nova língua não é apenas adquirir uma habilidade técnica, mas ampliar possibilidades de existência, circulação e pertencimento. a linguagem, expressa na oralidade e na escrita, atravessa relações, desejos e projetos de vida. para muitas mulheres que amam mulheres, acessar outros idiomas também significa ocupar espaços historicamente negados, atravessar fronteiras simbólicas, materiais e afirmar a própria voz em diferentes contextos: ela nos traz independência. neste sentido, o Documentadas criou uma rede de apoio educacional em linguagens: o DOC EDUCA. com aulas online de diversos idiomas, ministradas por professoras com diferentes metodologias e valores acessíveis. apostamos na educação como ferramenta de autonomia, troca e fortalecimento coletivo, entendendo que ensinar e aprender também são atos políticos. como funciona? somos uma rede de professoras de linguagens, com diferentes formações, oferecendo aulas de forma particular e online por valores acessíveis , de acordo com a disponibilidade de cada profissional/aluno. nosso propósito é ampliar o acesso ao aprendizado de idiomas para quem deseja estudar, mas encontra barreiras nos modelos tradicionais de ensino particular. toda mulher que acompanha o documentadas poderá se inscrever clicando no botão ao final dessa página que levará à área das escolhas de professoras. lá, elas estão separadas por idiomas - inglês, espanhol, francês, polonês e coreano. ao ler sobre cada professora, você escolherá com quem mais se identifica e preencherá um formulário para que ela entre em contato e as aulas possam começar. após o envio da inscrição, o contato é feito diretamente entre a professora e a aluna, que passam a conduzir juntas o processo de aprendizagem. e lembre-se: as aulas acontecem de forma online, com autonomia, cuidado e compromisso com a construção de um espaço seguro de troca e conhecimento - valorize esse espaço, ele foi muito batalhado para ser construído! Para ler maiores informações sobre a nossa Política de Privacidade e os Termos de Uso de plataforma, clique aqui ♥ conheça nossas professoras - inscreva-se! clica aqui

  • Clarissa e Agnis | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Agnes estava com 33 anos no momento da documentação, é natural de São Gabriel, cidade interiorana do Rio Grande do Sul. Saiu de lá aos 17 anos e se mudou para Santa Maria por conta dos estudos, mas parte da família segue na sua cidade natal até hoje. Em Santa Maria se formou em nutrição, morou em Porto Alegre por um tempo, mas voltou à Santa Maria porque passou num concurso administrativo. Hoje em dia, mora novamente em Porto Alegre dividindo o lar com a Clarissa. Clarissa estava com 30 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre e conta que sempre foi criada dentro da igreja. Se assumiu aos 18 anos, sendo uma mulher desfeminilizada e passou por muitos processos para entender quem era e se sentir bem com a forma que se vestia e com quem se relacionava. Foi muito difícil enfrentar os preconceitos vindos de fora e de dentro de casa, ouvir a palavra da “cura gay”, lutar pela aceitação… mas fica muito feliz quando observa o quanto as coisas já caminharam e o quanto sua família hoje em dia é apaixonada pela Agnes - brinca que gostam mais da Agnes do que dela e que adotaram ela como filha. Começa falando sobre isso porque é uma das partes que mais admira na sua história e na história delas enquanto um casal, e ressalta o quanto faz parte do relacionamento tranquilo que possuem esse valor que dão aos seus corpos e às pessoas que amam. Agnes, quando conheceu Clarissa, era uma pessoa que não se permitia viver muito o presente. Ficava sempre presa ao passado ou ao futuro. Se preocupava com o que precisava fazer, com o que tinha que planejar. Clarissa a fez entender que a vida é o momento, na maioria das vezes, nas coisas mais simples - foi durante a relação que ela começou a bordar, que voltou a ler, que passou a amar os passeios na pracinha final de tarde e compartilhar tantas receitas novas juntas. Clarissa completa que elas viraram duas senhorinhas e que adoram isso. Clarissa também adora chegar em casa, ouvir música e apreciar o descanso sem a cobrança do dia-a-dia. Explica que quando uma está muito cansada, a outra faz o almoço ou a janta… ou dividem as tarefas para não ficar pesado para as duas. Entendem que isso é se fortalecer. E que aos poucos vão descobrindo novas coisas que gostam de fazer. Sentem que viviam num limbo, estavam sempre tentando agradar os outros, pouco faziam para si mesmas ou para buscar suas felicidades e que depois de começarem a relação descobriram o que realmente gostam e que as faz feliz na simplicidade do dia. Clarissa e Agnes se conheceram no final de 2021, ambas estavam num processo de autoconhecimento, depois de relacionamentos longos. Se conheceram num aplicativo de relacionamentos. Agnes nunca havia entrado em aplicativos e não achava que isso combinava muito com ela, mas resolveu testar coisas novas, queria alguma amizade ou companhia para sair, conversar. Clarissa também não era dos aplicativos, nunca havia tomado iniciativa com ninguém por lá e Agnes foi uma exceção que deu certo. Se encontraram para tomar um açaí - o açaí em si estava ruim, mas o encontro foi ótimo! E desde então ficaram juntas. Entendem que não estavam procurando um relacionamento, foram se conhecendo e visualizando seu processo de cura, sentiam medo e até demoraram para admitir o quanto estavam apaixonadas, mas o processo fluiu e encararam o medo até estarem dispostas à relação. Logo no início do namoro, Agnes voltou a morar em Santa Maria por conta do trabalho. Foi difícil porque era algo novo, sentiram bastante saudade e isso demandava uma viagem toda semana para se encontrarem. Mas foi nesse movimento que se fortaleceram enquanto casal e entenderam que realmente queriam estar juntas. Vivenciaram momentos que foram decisivos para se conhecerem em versões que ainda não tinham tido oportunidade de ver… E sempre quando pensam na temporalidade das coisas ou “como poderiam ter se conhecido antes”, “tal coisa poderia ter acontecido antes”, refletem que foi no momento certo, precisavam passar pelas vivências para que o amadurecimento acontecesse. Ao total, Agnes morou um ano e oito meses em Santa Maria. Quando Agnes voltou de Santa Maria, ela e Clarissa moraram no mesmo terreno que a família da Clarissa durante quase um ano, até que alugaram o apartamento que moram hoje em dia. Constroem o lar com muito carinho, nas decorações feitas com artesanato aproveitando os momentos juntas, na forma que se alinham para seguirem uma relação de respeito num espaço confortável e seguro… Além disso, fizeram questão de buscar a independência num lar que seja só delas porque entendem a importância de serem consideradas uma unidade familiar, mulheres adultas que trabalham, se amam e constroem um futuro com consciência, não duas amigas ou duas meninas que vivem “uma fase”. Quando nos encontramos para a documentação acontecer, Agnes havia apresentado Clarissa para seus familiares há poucos dias e ainda estava entendendo a situação. Conta que sonham em casar, projetam o futuro juntas e é muito importante que as pessoas que amam e que desejam o bem possam compartilhar a vida com elas de forma natural e feliz por desejo próprio, sem obrigação ou questão social. Querem por perto pessoas que realmente apoiem, celebrem o amor. O que Clarissa e Agnes querem refletir para os outros na relação, é o que mais aprendem juntas vivendo esse amor: o companheirismo. Foi compartilhando o olhar/a forma que se enxergavam que impulsionam o crescimento uma da outra, até mesmo o autoconhecimento, e cresceram de forma que antes nem imaginavam. Hoje se enxergam muito mais felizes, com propósito e se permitindo ser vulnerável, porque sabem com quem contar. Querem que as pessoas que amam também saibam que podem contar com esse apoio e esse amor, porque elas viram que o amor que criaram dentro da relação já expandiu para a forma que são individualmente em vida, virou algo muito maior que uma relação romântica. ↓ rolar para baixo ↓ Clarissa Agnis

  • Nayara e Mayara | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. ↓ rolar para baixo ↓ Nayara Mayara

  • 0000 | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Rebeca e Samara se conheceram em outubro de 2023, durante uma live de uma página voltada ao público lésbico e bissexual. A proposta da live era conectar mulheres, seja para amizades ou relacionamentos. Samara tinha saído de um relacionamento - que não havia sido fácil - há cerca de seis meses, tomou coragem e decidiu participar para conhecer pessoas novas. Foi então que Rebeca a notou e começou a seguir no Instagram. Começaram a conversar imediatamente e se deram super bem, as conversas se tornaram diária e vieram chamadas de vídeo e ligações. Construíram um vínculo à distância - uma morando na Bahia, a outra no Piaui - que durou seis meses, e decidiram se relacionar de forma virtual. Em abril de 2024, Rebeca disse para Samara que faria uma viagem para visitar o pai no interior. No entanto, dias depois, veio a surpresa: Rebeca não estava no interior, mas sim a caminho de Salvador. Com a ajuda de familiares, ela arquitetou uma mudança e aproveitou a ocasião para surpreender Samara em seu aniversário, deixando claro que já tinha os planos de conseguir um emprego por lá e ficar de vez. A falta de aceitação de sua sexualidade pela família, somada aos seis meses de conexão intensa com Samara, desencadeou o impulso de recomeçar. Tinha o medo de não dar certo por não se conhecerem pessoalmente? Claro. Mas arriscar era preciso. Após algumas entrevistas, conseguiu um emprego e começou a se estruturar. Como ela mesma diz: "Já vim com os planos de ficar perto da Sam, não queria mais voltar para o Piauí." Desde então, elas têm vivido juntas, transformando aquela conexão inicial em uma história de amor real e corajosa, e Rebeca não se arrepende e nem deseja voltar. Quando chegou em Salvador, Rebeca ficou na casa dos seus familiares que moravam na cidade, mas também foi recebida com carinho pela família da Sam. Após uns meses, decidiram começar uma vida juntas, em um lar só delas. Os primeiros móveis foram adquiridos com pressa, mas com a ajuda preciosa da família para facilitar o início dessa nova etapa, ainda que pagando em várias prestações. Com alegria, contam como frequentemente refletem sobre essa decisão e afirmam, sem hesitar, que não se arrependem - principalmente a Rebeca, de ter deixado o Piauí para construir essa história ao lado de Samara. O amor, que começou de forma tão inesperada, revelou uma força que surpreende até elas mesmas. O que torna a relação única, segundo Sam, é a forma como se sentem ouvidas e reconhecidas uma pela outra. "Não vale só assinar embaixo. Ela deixa eu falar," diz Samara, expressando a dinâmica de respeito mútuo que construíram. E isso que é muito interessante, no dia-a-dia, além de desafiador, mostra o quanto representa crescimento para elas e para a família. E nesse crescimento também aprendem a lidar com questões que nem sabiam que era possível: como os ciúmes, a vida financeira, a ter paciência e entender que conquistam as coisas aos poucos, de acolher nos momentos difíceis, não procrastinar a luta dos estudos… uma puxa a outra nos sonhos. O amor delas também se revela nos pequenos impulsos do cotidiano. Desde Sam que gasta todos os caracteres na hora de se declarar, até a forma mais tímida de Rebeca, que prefere ações a palavras. É o mesmo impulso que levou Rebeca a mudar de estado e que ainda as guia em decisões, como comprar coisas sem tanto planejamento ou dizer “sim, vamos” antes de pensar duas vezes. Esses gestos espontâneos mostram que, mesmo com os desafios, o que importa é fazer dar certo. Samara, no momento da documentação, estava com 26 anos. É formada em História pela UBA e vive em Salvador, onde trabalha como professora em uma escola particular. Apesar de amar sua formação, sonha em cursar Direito, algo que pretendia fazer desde o início, antes de se apaixonar por História. Determinada e cheia de sonhos, Samara ainda planeja voltar à faculdade e realizar esse desejo. No tempo livre, ela adora ir ao cinema, shows, ouvir música, ler e assistir séries. Rebeca estava com 21 anos no momento da documentação. Nasceu em Salvador, mas passou a maior parte da vida no Piaui. Recentemente, em abril de 2024, decidiu voltar para Salvador motivada pelo amor que construiu com Samara. Atualmente, trabalha como operadora de telemarketing e cursa Ciências Biológicas, mas seu grande sonho é estudar Medicina. Rebeca é apaixonada por música e se destaca ao tocar violão, guitarra e bateria. Embora não seja fã de leitura como Samara, ela ama ir ao estádio de futebol – um hábito que aprendeu com Samara, e agora ambas torcem juntas pelo Vitória. A praia é um dos cenários mais especiais para as duas. Apaixonadas pelo mar, elas encontram nesse ambiente o refúgio para criar memórias juntas. Assim como o futebol no estádio, os passeios à beira-mar se tornaram um dos momentos mais significativos do relacionamento, por isso escolheram o lugar para fazermos as fotos na documentação. ↓ rolar para baixo ↓ Samara Rebeca

  • Jessica e Amanda | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Jéssica estava com 34 anos no momento da documentação. É natural de Maceió, capital de Alagoas e trabalha como designer gráfica em uma escola, com foco na criação de materiais pedagógicos para a educação infantil. Apaixonada pela profissão, encontra na criatividade uma forma de se conectar ao universo das crianças. Fora do trabalho, seu hobbie é amar café e cerveja: adora explorar botecos ‘raiz’ e estar entre amigos. Também gosta de conhecer lugares diferentes e conta que isso se intensificou depois de conhecer Amanda, já que adoram fazer isso no tempo livre. Amanda estava com 29 anos no momento da documentação e é advogada. Nascida em Santana do Mundaú, interior de Alagoas, cresceu em uma família com 12 irmãos. Entre idas e vindas da faculdade, viveu períodos em Maceió e outros em sua cidade natal, que fica a cerca de uma hora e meia da capital, numa rotina bastante puxada. Apaixonada por praia, pela convivência com a família e por encontros entre amigos, gosta também de programas mais tranquilos, seja em casa ou em saídas leves. Entre cafés, botecos, família e amigos, Jess e Amanda construíram uma relação de simplicidade e afeto. Jess e Amanda se conheceram em 2017, através de uma amiga em comum. Na época, ambas estavam em outros relacionamentos e, num primeiro momento, não houve aproximação imediata porque Amanda era mais introspectiva. A convivência foi crescendo quando Jéssica se mudou para perto dessa amiga, vizinha de Amanda, no mesmo condomínio. As visitas constantes tornaram a presença inevitável e a amizade aconteceu aos poucos. Por mais que já estivessem se acostumando com a presença uma da outra, o vínculo começou em torno dos desabafos: as duas compartilhavam experiências semelhantes sobre os relacionamentos que viviam porque estavam passando por momentos difíceis em suas relações. A amiga em comum, ao ouvir os desabafos, comentava sobre como iriam se identificar por viverem situações muito semelhantes. Esse processo de dividir e verbalizar dores abriu novos olhares para si mesmas e para a vida que levavam. E, conversando, também acolhiam uma a outra. Em 2018, Amanda terminou o relacionamento e voltou para o interior. Estava num momento muito delicado e precisava sair de Maceió. Ainda que distante, manteve breve contato com Jess. Eventualmente, voltavam a se encontrar por meio de amigos em comum, quando ela ia para Maceió. Tempo depois, quando ambas estavam solteiras, perceberam que a aproximação se intensificou. Sentem que se admiravam muito - a forma que enxergavam a vida, lidavam com as situações e a leveza com que conduziam conversas e encontros. Demoraram um tempo para entender que a admiração era desejo, os amigos perceberam que os olhares mudaram antes mesmo delas se darem conta, e aos poucos elas também se permitiram tentar transformar a amizade em algo a mais. Foi em 2019 que Jess e Amanda ficaram pela primeira vez. Após ficarem algumas vezes em 2019, Jess e Amanda entenderam que gostavam uma da outra, mas o grande divisor de águas foi a pandemia de COVID-19, em 2020. Amanda ainda morava no interior e enfrentava dificuldades para trabalhar em home office na casa da mãe, onde viviam muitas pessoas. Jess, por sua vez, morava apenas com a mãe em Maceió e também trabalhava remotamente. Para aliviar a situação, convidou Amanda a passar uma semana em sua casa, assim relaxaria um pouco e teria um espaço mais silencioso para o trabalho. O que era temporário acabou se transformando em permanente. A pandemia se intensificou, Amanda chegou com uma mochila e aos poucos levou suas coisas, até que passou a morar de vez com Jess e sua mãe. De 2020 a 2025, elas dividiram casa com a mãe da Jess, o que trouxe diversos desafios. Apesar de ser um período de fortalecimento do relacionamento e construção de família, a convivência foi marcada por momentos delicados. Amanda precisou lidar com restrições, já que ocupava uma casa que não era de fato dela e não podia reagir a certas situações como gostaria. Para Jess, havia também o peso da relação familiar. O processo de se assumirem enquanto um casal - e um amor entre mulheres - trouxe dor e resistência, mas também acolhimento. Conversas difíceis e importantes com suas famílias, sabedoria e concessões. Foram anos desejando ter seu próprio lar, mas ainda não tinham condições financeiras para isso, então resistiram até se estruturarem. No começo de 2025, conseguiram se mudar para uma nova casa. A mudança representou liberdade e a chance de construir juntas o lar que sempre desejaram. Reconhecem o caminho percorrido, os aprendizados conquistados e celebram a vida que estão conseguindo viver: podendo ser quem são. Com o tempo, Jéssica e Amanda conquistaram uma nova forma de estar no mundo. Hoje, as pessoas olham para elas e reconhecem que são um casal, que estão construindo uma família com carinho e afeto. Já não existe mais o medo de precisar esconder gestos, olhares ou palavras (e lutaram muito por isso). Essa naturalidade se reflete para os ambientes familiares, o trabalho, a vida em geral. A segurança existe perante a coragem de viverem de forma transparente. Para elas, estar em um relacionamento significa disposição: a entrega, a clareza sobre o que querem construir juntas e a vontade de assumir isso sem necessidade de validação externa. O amor se manifesta tanto na intimidade quanto na postura, em uma escolha consciente de não se encolher diante do preconceito. Como se conheceram compartilhando fases difíceis, ressignificaram isso e constroem uma relação baseada em confiança, respeito e admiração. A trajetória revela que a construção de uma vida em comum não se resume ao romance, mas passa também pela decisão diária de enfrentar o mundo lado a lado, sem abrir mão de quem são. ↓ rolar para baixo ↓ Jess Amanda

  • Naiara e Mary | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Naiara estava com 58 anos no momento da documentação. Se dedicou 32 anos ao serviço público, sendo 29 deles no Tribunal do Trabalho, na área de Tecnologia da Informação, período em que participou da informatização completa do órgão, da migração do papel para os sistemas digitais. Antes de qualquer profissão, sempre se reconheceu militante: desde os 13 anos, quando começou a entender o que era ser mulher e pensar sobre gênero e sexualidade. Em toda sua vida esteve presente em movimentos políticos, sindicais, LGBTs e de mulheres, construindo muita participação na luta. Nasceu em São Jorge, no interior do Rio Grande do Sul, mas foi morar em Porto Alegre quando ainda era bebê e lá cresceu, trabalhou, conheceu a Mery, começaram esse relacionamento que já dura 40 anos… e criou suas raízes. Mary estava com 73 anos no momento da documentação. Nasceu em Porto Alegre, na rua Lima e Silva, uma das principais do bairro Cidade Baixa, mas confessa que nunca deixou de ser “bicho do mato”. Depois de um curto período morando com a avó, novamente na rua onde nasceu, voltou para Viamão, cidade vizinha de Porto Alegre, para viver com os pais, que estavam começando a construir a vida por lá. Trabalhou desde muito cedo, com carteira ‘de menor’ assinada, e se aposentou cedo por conta disso, aos 45 anos. Sua carreira se baseou mais de duas décadas em uma empresa imobiliária, no setor de microfilmagem - uma profissão que praticamente desapareceu com a tecnologia, mas ela explica: cada documento que passava pelo condomínio chegava às mãos dela, que filmava, e assim viravam um rolinho de filme. Quando começou a trabalhar, ainda sendo ‘de menor’, jogava vôlei e era apaixonada por esportes. Foi quando questionou sua sexualidade pela primeira vez também. Ainda que as dúvidas vieram na adolescência, Mary lembra que, ainda criança, “namorava as bonecas” e era reprimida pela mãe - e por si mesma. Da mesma forma era cobrada pelos pais e por si mesma. Mas no fundo, conta que se ganhava uma boneca ou um sapato, ficava magoada. Queria mesmo era uma bola. Quando começou a jogar vôlei, Mary ainda não havia se envolvido com nenhuma menina. Tinha apenas admirações platônicas difíceis de nomear… e o esporte se tornou também um espaço para entender o que estava acontecendo. Trabalhando muito cedo, ouvia conversas pelos cantos do refeitório na ‘firma’ sobre existir uma casa/uma boate cheio de bicha, de sapatão. Um dia, entre os seus 17/18 anos, criou coragem e foi lá. Era o início da década de 70. Conta que ficou nem quinze minutos, saiu assustada. Foi o impacto de ver no mundo real aquilo que tentava ignorar, a materialização de pensamentos que achava que não poderiam existir. Não eram só coisas da cabeça dela. Depois de uma viagem de férias, surgiu um jogo de futebol entre empresas e ela foi convidada a participar. Afinal, jogava bola desde criança nas ruas de Viamão e, apesar de se machucar nesse primeiro jogo, foi ali que começou a jogar de verdade e conhecer mulheres lésbicas de verdade. Diferente do vôlei, no futebol pareciam falar mais sobre as coisas. Lá se aproximou de uma amiga - que era a tia de Naiara e foi quem as apresentou - e passou a conviver frequentemente com as “entendidas” ou, em brincadeira, as “cebolas”, referência a um time de São José do Norte (cidade referência na plantação de cebolas) cujas jogadoras/treinadoras/diretoras eram todas lésbicas. No futebol, enfrentaram dificuldades e muitos preconceitos. Como Mary mesmo diz: “Nessa época, jogar futebol era perigoso”. Com a criação do Parque da Marinha, criaram o time Marinha do Brasil. Defendendo Porto Alegre no Citadino, um campeonato. Só conseguiam treinar depois das dez da noite porque a elite ocupava as quadras do Parque Marinha até tarde. Muitas vezes foram expulsas violentamente, quando tentavam chegar antes. Contaram com a ajuda dos homens negros de Alvorada, que também treinavam depois das 22h, e que as treinaram por quase um ano, ensinando fundamentos, jogadas e resistência. O ambiente era perigoso, e todas trabalhavam, então saiam cansadas e iam jogar bola. O futebol era coisa da periferia e não havia jogadora que vivesse apenas do esporte ou de estudos. Quando venceram o campeonato, foram junto aos homens negros, numa grande comemoração. Mary jogou durante muitos anos, tanto que, aos 33 conheceu Naiara - mais de dez anos depois de ter iniciado nos jogos. Quando já estavam juntas, namorando, houve um torneio de empresas e Mary sofreu o primeiro bullying que foi muito marcante em sua vida. Após atingir uma colega com a bola, ouviu insultos e comentários muito violentos, sendo humilhada diante de toda a empresa. Chorou muitas vezes ao lembrar, o que magoava era que poucas pessoas, como a Nai e mais alguns amigos, ficaram ao lado dela, ainda que ela não tivesse feito nada de errado. A culpa era ela ser uma mulher lésbica, como se isso a tornasse agressiva demais, como se quisesse ‘virar homem’. Fala sobre isso destacando a importância de terem se mantido sustentando juntas as dores - e as vitórias - de tantos momentos marcados por coragem, e de tanta história importante para a nossa própria comunidade LGBT. A vida delas mudou numa dessas noites de boate, quando Mary foi encontrar a tia da Nai e acabou esbarrando com ela. Tocava uma música brega que elas contam rindo, com vergonha, e a tia insistiu para que Mary tirasse Nai para dançar. Ela assim o fez e lançou logo uma cantada, horrível, e a Nai não retribuiu. Mary brinca: “Ela foi embora, me deixou no meio do salão!” mas Nai desmente, diz que não foi assim, só foi uma cantada ruim mesmo. Continuaram se encontrando aos poucos, até que finalmente deu certo. Mas tinham medo da reação da tia, afinal, se envolverem já era um passo a mais, Nai estava fazendo 18 anos e Mary já tinha 33. Levou meses, praticamente um ano, para se tornar de fato um namoro. Com a convivência crescendo, Mary começou a circular entre o grupo de amigos da Naiara - obviamente bem mais jovens - e que adorava a presença dela porque ela tinha carro, proporcionava carona e passeios mais adultos. A intimidade, porém, era difícil de dar certo: ambas moravam com os pais, não tinham muita privacidade, a não ser na casa da Mary. Foi então que alugaram um apartamento simples no bairro Menino Deus, entre 1984–1985. A verdade é que ninguém sabia sobre elas, sempre foi como se fossem boas amigas. Na rua, a dificuldade era outra porque Mary evitava qualquer demonstração de afeto em público, temendo que Nai fosse agredida por causa dela. Foi muito tempo para conseguirem conversar sobre e mudar os atos, sobretudo trabalhar a militância lésbica. Com o tempo, construíram uma vida conjunta. Nai fala uma coisa muito importante sobre essa formação: de que muitas mulheres lésbicas começaram a passar em concursos para poder ter a certeza que não seriam demitidas e, só assim, assumirem suas vidas, pegarem nas mãos na rua sem medo. Como foi o caso dela. Ela sempre pôde falar mais por ser concursada. Anos depois, compraram uma casa em Viamão - grande, acessível e perto da família da Mary - e ficaram ali por vinte anos. O lugar virou ponto de encontro: churrascos, aniversários, amizades que entravam e saíam como num clube familiar. E a própria convivência da relação também enfrentou diversas barreiras internas e externas. Nai admitia ter preconceitos em relação ao futebol de Mary, e ambas viveram momentos marcados pela transfobia estrutural da época. Mary, por exemplo, chegava a se travestir de homem para conseguir sair de Viamão até Porto Alegre durante a noite e voltar em segurança. Essas camadas mostravam como o relacionamento delas se entrelaçou com a construção de uma comunidade LGBT que buscava sobreviver, existir e ganhar voz. Ao longo dos anos, se reconheceram de muitas formas, algumas que não fazem mais parte de quem são (como essa visão transfóbica que existiu por um momento), e também se reconheceram nas muitas mudanças individuais. Mary e Nai carregam hoje uma família enorme: onze sobrinhos, dois sobrinhos-netos, e o reconhecimento, desde sempre, como um casal diante de todos eles. Agora voltando a morar em Porto Alegre, num apartamento menor, falam muito sobre o ato de envelhecer juntas: não com peso, mas com essa lucidez de quem olha o mundo e percebe o quanto ainda precisa mudar. Veem gente jovem repetindo ideias de décadas atrás, enquanto elas seguem se atualizando, se abrindo, se movendo. “A idade não engessa quem não quer”, dizem. Foram muitas coisas vividas nos últimos anos também: Nai enfrentou o câncer enquanto, no mesmo período, Mary sofreu dois aneurismas cerebrais. As marcas permanecem, especialmente para Nai, que ainda lida com dificuldades deixadas pelo tratamento. Mesmo assim, transforma tudo em ação: pensa em projetos de lei, busca articulação política, tenta abrir caminhos para outras pessoas viverem processos menos exaustivos que os seus. Conversamos sobre como cansa existir em estruturas que já são adoecedoras e, ainda assim, precisar lutar o tempo todo. O pai da Mary faleceu em 2025, aos 93, tendo passado os últimos anos sendo cuidado por elas. A mãe de Nai, agora com 90, segue sendo cuidada por elas também. E observando esse cuidado, elas não deixam de pensar e falar sobre como desejam viver a velhice juntas. Sem depositar nas irmãs, nos sobrinhos ou na família grande a responsabilidade pelo que virá. A mudança da casa para o apartamento veio desse pensamento: perceberam que viviam mais em função da manutenção do espaço do que da própria vida. Hoje, planejam o futuro com a serenidade possível. Sabem que o tempo diminui a agilidade, a disposição, a vontade… mas não diminui o amor. Ajustam rotinas, fazem escolhas, reorganizam o que for preciso para permanecerem lado a lado, do jeito que sempre quiseram: com lucidez, coragem e a leve rebeldia de quem nunca deixou de construir uma relação - diga-se de passagem, de mais de 40 anos. ↓ rolar para baixo ↓ Ana Naiara Mary

  • Vivian e Danielle | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vivian é natural de Araranguá, cidade interiorana de Santa Catarina. Estava com 25 anos no momento da documentação e trabalha com marketing, sendo social media. Cursa faculdade de letras, adora cinema, música, literatura e tudo o que é relacionado à arte. Danielle estava com 20 anos no momento da documentação, é natural de Jacinto Machado, cidade interiorana catarinense, mas mora em Araranguá. Estuda educação física e deseja ser professora. No momento trabalha enquanto auxiliar de faturamento e no tempo livre adora praticar esportes, jogar videogame e desenhar. Por mais que agora tenham trabalhos distintos, Vivi e Dani se conheceram trabalhando no mesmo lugar sendo estagiárias de educação infantil, em 2022. Vivi conta que não gostava muito da Dani, achava ela chata, porque ela era estagiária de uma coisa só, enquanto Vivi precisava dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo. Foi por causa das eleições presidenciais que começaram a conversar, sabendo dos seus posicionamentos políticos semelhantes. Dentro da escola, eram as únicas que possuíam um pensamento que não era conservador perante às eleições que se aproximavam. Conversavam sobre e se aproximavam através das ideologias em comum. Vivi ainda não sabia se realmente cedia para começar a gostar da Dani, primeiro como amiga, depois sentindo algo a mais… havia saído de um relacionamento héterossexual e passou por um processo para se ver sozinha e, depois, entender que estava gostando da Dani. Foi num passeio com os alunos da escola, quando Dani estava jogando bola com as crianças, caiu, e Vivi ficou muito preocupada… percebeu que sentia algo a mais. Na época a proximidade delas já era grande, Vivi ficava nas aulas de Educação Física auxiliando para estar mais próxima da Dani, brincavam com os alunos (e jogavam entre si)… Sentiam a relação crescendo naturalmente. Todos ao redor de Vivi tentavam dizer que ela não era uma mulher heterossexual, mas ela afirmava que era impossível. Hoje, percebe que só ela não havia percebido ainda - e que tudo bem, era o seu processo. Num dia, falou sobre isso numa rede social e Dani respondeu. Desde então, foram se permitindo acontecer enquanto um casal. Mas tudo levou o tempo que precisava levar, foi só em 2024 que ela se entendeu e assumiu de fato enquanto uma mulher que ama outra mulher. Na versão de Dani, o dia em que ela caiu brincando com as crianças sendo estagiária na escola também foi definitivo para entender que gostava da Vivi. Se sentiu meio solitária depois da queda, como se não tivessem dado muita bola, sendo que ela se machucou de verdade. E foi significativo Vivi ter se importado e realmente cuidado dela. Sente, também, que as crianças sempre souberam que as duas se gostavam - e sempre aceitaram. Não precisavam falar, não precisavam se justificar, era algo muito natural. Diferente das outras professoras e colegas, que eram preconceituosas, então precisavam esconder o máximo possível. Até quando assumiram o namoro, passaram a usar alianças e na escola não usavam ou disfarçavam. Tiveram algumas professoras com quem puderam contar - e alunos também, que sempre apoiavam, o que foi a salvação na maioria desse tempo. Como são pessoas jovens, sempre eram questionadas pelas outras professoras na escola, principalmente por uma delas estar com a aliança. Queriam ver fotos e saber “do namorado”. Foi mais de um ano de relacionamento vivendo uma realidade assim no trabalho, chegaram a morar juntas para facilitar a rotina por conta da casa da família da Vivi ser numa região mais central e Dani não precisar vir de tão longe para trabalhar e estudar, o que era melhor em alguns pontos, mas mais difícil para esconder o quão próximas estavam… até que saíram do estágio (em momentos diferentes) e puderam assumir o relacionamento de outra forma. Depois da escola, Vivi foi trabalhar em uma agência de marketing, ambiente totalmente diferente. Sente que não precisava se esconder, foi a primeira vez que chegou contando quem era e o relacionamento que tinha, sem restrição. E Dani voltou a morar com a família dela, comprou um carro, a qualidade de vida melhorou consideravelmente. Vivi conta sobre o quanto a relação com a Dani fez ela se enxergar de forma diferente. A autoestima dela não existia antes. Agora, conforme ela foi se conhecendo, conhecendo a Dani, permitindo que a Dani a conhecesse, foram evoluindo no amor de uma forma que ela nem sabia que poderia existir. Pôde se descobrir, ver quem era de verdade e encontrar um valor nessa existência. Antes não sentia que existia, agora sente que as pessoas vão gostar dela exatamente como ela é. Nas palavras de Vivi: “Tá tudo bem eu ser desse jeito. Inclusive pra ir comprar roupa, uma coisa básica, eu não conseguia escolher roupa. Eu não conseguia me olhar no espelho. E aí depois que ela apareceu, ela foi falando... Ai Vivian, tu é assim. Ai Vivian, te amo por causa disso. Eu gosto de ti por causa disso. Aí eu fui descobrindo que... Tudo bem, sabe? Agora eu consigo comprar roupa. Foi um processo que ela me ajudou muito. Com meu corpo, com as minhas inseguranças.” Para elas, o amor está no sentido mais completo, que abraça a família que possuem, os animais - a gata, o cachorro, o peixe, todos eles sendo da família - a forma que tratam e que são tratadas, como se incluem nos planos, em como tornam as pequenas coisas algo grande… Sempre foram mais fechadas, pessoas que não aceitam ajuda, não deixavam alguém fazer algo por elas porque davam conta sozinhas. Agora aprendem a compartilhar, entendem que não precisam ficar com todo o peso, soltam um alerta na comunicação quando está demais. E acreditam que nesses momentos o amor está presente também. No dia das fotos, Dani pediu Vivi em casamento, e foi uma honra para o doc ter participado desse momento. ♥ desejamos que esse amor siga feliz! ↓ rolar para baixo ↓ Vivian Danielle

  • Vanessa e Suelen | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Suélen estava com 27 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e cursa pedagogia, trabalhando enquanto monitora de inclusão. Mora com os pais e com duas gatas e uma cachorrinha, o que a faz ser apaixonada por animais (além de gateira de carteirinha). Também gosta muito de assistir séries no tempo livre - principalmente quando assiste em conjunto com a Vanessa. Vanessa estava com 24 anos no momento da documentação, também é natural de Porto Alegre e estuda psicologia, já prestes a completar a graduação. Adora falar sobre signos, sobre séries, filmes… e sobre seus dois animais, os cachorros Jake e a Malu. Além disso, seu hobby principal é o que envolve cozinha - não só cozinhar, mas assistir vídeos de pessoas cozinhando, realities etc. Os pais de Suélen se divertem vendo as tentativas de cozinhar, são sempre experiências. Vanessa e Suélen se encontraram em um aplicativo de relacionamentos, mas já se conheciam por conta de uma amiga em comum e se tinham nas redes sociais desde o Facebook, mas nunca haviam conversado. Durante a pandemia, participaram de um grupo e essa foi a primeira interação de fato, mas era algo muito superficial. Foi o aplicativo que fez elas entenderem o interesse para além da amizade. Desde a primeira conversa já se divertiram trocando figurinhas e contam que a paixão chegou bem rápido. Os assuntos foram fluindo entre signos, sobre a vida naquele período pandêmico… Por mais que demorassem um pouco para responder, gostavam de conversar com calma, atenção, e isso era algo que chamava atenção positivamente. Suélen conta que num dos dias durante as conversas, faltou luz na casa da Vanessa e ela mandou um SMS dizendo que não sumiu do nada, só estava meio incomunicável sem internet… e Suélen achou muito legal da parte dela, entendeu que ela estava se importando. A partir desse dia as conversas seguiram cada vez mais longas, até o momento que decidiram se encontrar pessoalmente - com cuidado e calma, por conta de ainda ser um momento de pandemia. O lugar escolhido para o encontro foi onde, anos depois, fizemos as fotos da documentação - mas ele era completamente diferente. Hoje em dia existe um shopping, na época era literalmente mato e a beira do rio, um lugar aberto, com árvores, gramado e a vista. Foi escolhido porque era perfeito para assistir ao pôr do sol. O dia do primeiro encontro foi o dia das namoradas, tomaram um café juntas e Suélen levou uma cartinha para Vanessa. Ela conta que, de alguma forma, sabia que iriam namorar. Antes de completar um mês do dia que tiveram o primeiro encontro, já assumiram o namoro. Estavam num shopping e entraram numa loja para olhar algumas alianças, quando comentaram com a atendente que nem estavam namorando ainda, só estavam de olho nos modelos e valores… Segundos depois, Suélen resolveu o problema: “Quer namorar comigo?” “Quero!”. Então pronto, agora podem ver os modelos já estando namorando. Para a família, Suélen já havia contado para a mãe e para as irmãs, que já estavam empolgadas para conhecer. O pai ainda estava na dele, ele via ela se arrumando para sair e comentava que ela iria encontrar um namorado, e ela afirmava que não era namorado, mas sabia que era um processo para ele entender e aceitar. Um tempo depois, Vanessa e a mãe de Suélen se conheceram numa ida ao shopping, tomando um café juntas, e a mãe deu a ideia de Vanessa ir à casa delas primeiro enquanto amiga, para o pai conhecer quem ela era primeiro, gostar dela, e depois processar que estavam juntas. Naquele dia, elas iriam dormir na casa da irmã da Suélen, até que quando saíram, o pai perguntou à mãe “ah, mas por quê elas vão dormir lá?” e a mãe respondeu “bom… tu sabes porquê”. Foi quando ele entendeu quem era a Vanessa. Como ele gostou dela logo de cara, mudou a postura e disse que não precisava dormir na casa da irmã, poderiam voltar e dormir ali, na casa deles. Foi um dia em que todos eles estavam aprendendo a se dar bem, medindo cada reação para tudo dar certo, todos meio sem jeito, mas entendem que foi legal da parte dele ter enfrentado o preconceito vendo como a filha estava feliz namorando alguém legal. E hoje em dia tudo já é muito mais tranquilo, tanto que eles se divertem e adoram a presença da Vanessa em casa. Para Vanessa, a aceitação em casa é mais difícil e caminha em passos diferentes. Sua família é bastante cristã, seu pai não sabe e sua mãe sabe, mas não acolhe. Passou muitos anos tentando tirar esse “demônio” que acredita existir na pessoa homossexual - e até Vanessa passou muito tempo não aceitando quem era. Hoje em dia, ela conhece Suélen, sabe que elas namoram e trata Suélen bem, inclusive é nítido que gosta de Suélen, o que ela não gosta é do fato delas namorarem. Mas entendem que isso também faz parte do processo de aceitação. Elas sabem que ela enxerga o quanto Vanessa é feliz no relacionamento. Tanto para Vanessa, quanto para Suélen, o que elas podem fazer é continuar mantendo esse amor existindo. O problema do preconceito é de quem tem o preconceito, elas sabem que isso vai amenizar com o tempo e com o afeto delas sendo demonstrado gerando coisas boas. Ainda que seja um processo difícil. Como tanto Vanessa, quanto Suélen ainda moram com os pais, ficam muito emocionadas quando percebem a família juntando algumas coisas e tratando elas enquanto um casal, pensando no momento de montarem o próprio lar. São duas mulheres que performam feminilidade então o tempo todo são tratadas como amigas. Os momentos que as pessoas e, principalmente, seus familiares, as entendem enquanto uma unidade familiar, significa muito. Contam que o pai de Suélen chama Vanessa de nora e já separou alguns kits de cozinha e decoração que ganha em promoções ou assinaturas de jornal e as presenteou dizendo ser para o lar quando morarem juntas. E, por mais que elas saibam que isso pode demorar um pouco porque querem estar formadas e com uma certa estabilidade, ficam muito felizes pela consideração e pelo apoio. Sentem que a relação dá certo pelo tanto que conversam. Quando não estão se encaixando, conversam com calma e decidem o que vão fazer sobre o problema em questão. No começo tinham muito receio das discussões, mas hoje entendem o fortalecimento disso. É como se uma “discussão”, ou melhor, uma “conversa séria” se torna um degrau a mais no relacionamento. Além disso, sempre buscam formas de manter a conexão, seja mantendo “dates” diferentes, presentes, palavras de afirmação… entendem suas linguagens de amor e querem que a relação seja leve com coisas boas, brincadeiras diárias, momentos felizes… mas principalmente com a segurança: não ter medo de que vá acabar o tempo todo, de poder confiar e poder contar uma com a outra para as coisas difíceis. Suélen explica que no começo, elas não sabiam viver uma relação que não fosse pisando em ovos, com medo da pessoa largar no primeiro deslize. Aprenderam juntas a ter uma relação realmente segura. E, para ela, um exemplo de amor seguro é o amor que sente pela família, que tá contigo independente das suas escolhas, porque te ama. Hoje em dia, enxerga Vanessa como sua família, um amor que se constroi ao longo do tempo e se projeta pra vida, sem medo de julgamento. ↓ rolar para baixo ↓ Vanessa Suélen

  • Jéssica e Priscila | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. No começo de 2023, Jessica era promoter de uma festa lésbica no Rio de Janeiro e criou um grupo no WhatsApp para informar sobre os descontos e ingressos especiais. Um amigo da Priscila soube do grupo e indicou para ela, que entrou e pouco interagiu, mas sempre visualizava as mensagens da Jessica desejando bom dia, interagindo com as pessoas e, mesmo não sabendo que era o trabalho dela, achou ela muito interessante. Numa interação no grupo, as pessoas mandaram seus perfis no Instagram e a Priscila viu o perfil da Jessica, mas não seguiu. Como nunca tinham interagido, achou que seria estranho seguir, mas vez ou outra entrava lá e via se ela postava alguma coisa com alguém (para entender se estava namorando ou solteira). O final de semana de uma das festas chegou e Priscila foi com os amigos. Viu a Jessica lá, achou ela interessante, mas não relacionou a pessoa que estava vendo com a pessoa que tinha visualizado o Instagram. Comentou com os amigos sobre ter interesse nela e eles incentivaram que ela puxasse um papo, mas mais uma vez ela achou estranho e não foi. Depois disso, viu que Jéssica estava acompanhada. A pessoa que acompanhava Jessica não era sua namorada, mas alguém que ela ficou um dia antes e que não deu certo, não estava legal, ela não estava se sentindo bem e sabia que não continuariam. Entre a Priscila ter interesse, comentar com os amigos e desistir de puxar papo, uma das amigas tomou iniciativa por ela e chamou a Jessica, apontando para Priscila e dizendo “Ela quer falar com você!”. Mas na hora que Jessica chegou, não entendeu nada, ficou uma situação estranha, ela achava que tinha sido chamada por conta do trabalho (afinal, estava trabalhando no evento) e acabou saindo sem entender. Priscila seguiu olhando ela pela festa e percebeu que o clima não estava legal com a acompanhante, achou até que esse desconforto era por causa da situação que havia acabado de acontecer. A amiga decidiu conversar com a Jessica e pedir desculpas pela situação, foi quando comentou que Priscila estava interessada, Jessica notou a Priscila e disse que também estava, mas que no momento estava acompanhada e por mais que não estivesse legal, não queria deixar as coisas piores. Passou o Instagram para a amiga entregar à Priscila. Priscila, quando viu o perfil, percebeu que era a mesma pessoa que ela “stalkeava” e não seguiu novamente. Após a festa, Jessica encontrou o perfil dela, seguiu e começaram a interagir. No começo, elas achavam que não iria acontecer nada para além do primeiro encontro de forma casual. Se veem enquanto mulheres muito diferentes, de culturas muito diferentes… e achavam que não iriam render. Aos poucos, foram gostando uma da outra, passando os finais de semana juntas e estabelecendo uma comunicação diferente. Se apaixonaram. Priscila estava com 29 anos no momento da documentação, é natural de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Estuda para ser comissária de voo e também cursa relações internacionais. É uma mulher muito livre, foi criada numa família muito solta, sem preconceitos e gosta muito disso. Preenche seu tempo livre com seus amigos, bebendo, passeando e deseja ao máximo viajar e conhecer novas culturas. Mesmo sendo brincalhona e risonha, acredita ter uma personalidade muito forte. Jessica estava com 26 anos no momento da documentação, é natural de Belford Roxo, baixada fluminense. É técnica em enfermagem e está terminando a faculdade de biomedicina, então optou por não trabalhar na área de enfermagem e seguir com os estágios e foco na faculdade até a finalização. É uma mulher que gosta muito de estar em família, demonstra seu amor no toque físico e nas palavras o tempo todo. Também adora sair de casa, ir para a praia, cinema, ver os amigos… E sonha em fazer um mochilão, deseja conhecer melhor o estado do Rio de Janeiro e o Brasil. Por mais que suas casas sejam bem distantes fisicamente (São Gonçalo e Belford Roxo), elas passam muito tempo na casa da Priscila, por Jessica fazer estágio em Niterói e ser um caminho próximo. Estar nessa relação significa a primeira vez que elas se sentem tratadas da forma que sempre desejaram - e por mais que considerem isso o mínimo, raramente identificavam tamanho carinho nas outras relações. Fazem questão de trabalhar a comunicação. Priscila explica que é difícil conseguir falar o que sente, compartilhar as coisas, principalmente pela independência da qual ela foi criada. Enquanto Jessica faz questão de demonstrar e compartilhar, desperta justamente o contrário: que podem criar novas linhas de conversa. Jessica sempre instiga Priscila a falar, compartilha o que sente e o que acha. Brincam que às vezes se sentem muito intensas e emocionadas, mas logo a razão vem e colocam o pé no chão entendendo o momento que vivem, entre desempregos e fim da faculdade. Parte desses momentos é refletir também que as coisas levam tempo para se estabelecer, que logo estarão conquistando seus sonhos, suas vontades de dividirem um lar e terem uma melhor vida financeiramente. Estabeleceram quase-que um código para demonstrar que algo não está bem, falam que “tá calor”, e nisso entendem que precisam de espaço, que estão se sentindo um pouco sufocadas. Respeitam esse tempo e desejam a presença uma da outra para passar pelos momentos difíceis, entendem o quanto isso é importante, mas sempre com suas individualidades preservadas. Nesse tempo de relação (pouco menos de um ano) já enfrentaram diversas situações difíceis e perceberam o quanto se fortaleceram juntas. É através das atitudes diárias que elas identificam o amor. Comentam que por mais que palavras sejam importantes, é muito mais fácil você dizer algo e não cumprir. Por isso, se apegam nas demonstrações diárias. Priscila não é tanto do toque quanto Jessica, mas demonstra o amor no cuidado e na presença, tratando bem. O amor que sente existe de uma forma muito natural, não é obrigação, é sobre o que gostaria de viver e como gostaria também de ser tratada, sempre pensa de maneira recíproca. Quando pergunto sobre a realidade delas em suas regiões (São Gonçalo, Belford Roxo) e sobre os locais que estão juntas, como se sentem e o que gostariam de ver mudar, elas respondem explicando a importância de ter mais respeito, educação e consideração nos espaços de convívio. Por serem mulheres (ou no caso da Priscila, mulher negra de religião de matriz africana) o medo do preconceito anda ao lado delas o tempo todo. E nesses momentos entre o medo entra também a coragem, a necessidade de falarmos sobre os nossos amores para que nos olhem com mais respeito, de nos impormos, de não deixarmos o preconceito ser mais alto. ↓ rolar para baixo ↓ Jessica Priscila

  • Carol e Andressa

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Carol estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Campo Mourão, no interior do Paraná. Já passou pelos estudos enquanto gastronomia e psicologia, mas se encontrou mesmo na perfuração corporal, antes da pandemia de Covid-19 começar. Faz cerca de 5 anos que está morando em Maceió. Ama cozinhar, passar o tempo com o Treva, gatinho que trouxeram do Paraná (e que é mascote do estúdio) e a Mel, que adotaram já morando no nordeste. Adora ir à praia e conhecer lugares novos. Andressa estava com 33 anos no momento da documentação. Também é natural de Campo Mourão. Formada em publicidade e propaganda, trabalhou oito anos na área, mas sentia que sua vida era só ficar no computador, foi quando decidiu ir para Maringá, cidade próxima de onde nasceu, e começou a trabalhar com tatuagens, junto com um amigo que trabalhava como tatuador. Juntos, abriram um estúdio na sua cidade natal, em 2017. Nessa época, Carol e Andressa se conheceram através dele, o famoso - e temido por muitas - rebuceteio: se conheciam por conta das suas ex. Andressa soube que a Carol estava solteira porque falavam que ela era muito legal e muito bonita. Elas se conheceram, se deram bem, começaram a se envolver e nem perceberam de fato quando já estavam namorando. Tudo aconteceu. Pouco antes da pandemia de Covid-19, Carol e Andressa já dividiam a vida e os negócios. Andressa tocava o estúdio de tatuagem durante o dia, enquanto Carol botava a gastronomia em prática à noite, servindo pizzas em pedaços no bar. A rotina era intensa, mas funcionava. Maceió sempre esteve no radar da família de Carol, especialmente do pai, que sonhava em se aposentar e se mudar para lá. Quando visitaram a cidade juntas, começaram a pesquisar mais a fundo: o turismo, custo de vida, oportunidades. Até que decidiram mergulhar nesse sonho antes mesmo dos pais dela. Venderam tudo e partiram para Alagoas, no meio da pandemia. Chegar em uma cidade nova como tatuadora foi desafiador, mas a determinação era maior. Foram conquistando clientes aos poucos, mas o maior choque foi cultural. Mesmo dentro do Brasil, perceberam o quanto cada região tem suas particularidades. No fim, a mudança foi também um processo de renovação - queriam se descobrir em um novo ambiente, explorar novas versões de si mesmas, sobretudo descobrir sua melhor versão. O sucesso do estúdio em Maceió não foi “do nada”, bem pelo contrário: meses de muito trabalho e, nas palavras delas “veio da vontade de evoluir como pessoas”. Não começaram com tudo pronto, foram construindo aos poucos. Chegaram na cidade dispostas a qualquer ‘freela’, depois buscaram estúdios para trabalhar - Andressa tatuando, Carol com as perfurações. Guardaram dinheiro para investir no antigo estúdio no Paraná, mas acabaram apostando tudo em um novo começo no Nordeste. Pensaram em desistir várias vezes. Mas sempre que uma ficava triste, a outra lembrava: “Já viemos até aqui, já vendemos tudo. Vamos continuar.” Quando as coisas começaram a reabrir no pós-pandemia, entenderam que era o momento certo para abrir o próprio espaço. Alugaram um local pequeno perto da praia, com uma maca, um autoclave e poucas ferramentas. No começo, atendiam muitos turistas que passavam e faziam tatuagens por impulso ou porque queriam uma lembrança de Alagoas. Com o tempo, foram se conectando com a cultura local e decidiram criar um estúdio feminino. Muita gente duvidou, dizia que não durariam nem dois meses, até porque o mercado da tatuagem é cheio de machismo. Mas no momento da documentação, o estúdio já completava três anos, agora em um espaço maior, mais estruturado. E mais importante é que vai além da tatuagem e perfuração: oferece cursos, eventos, troca de experiências e, acima de tudo, acolhimento. O começo foi difícil. O primeiro estúdio, perto da praia, trouxe desafios pesados: alagamentos com as chuvas, roubos na vizinhança, insegurança constante. Choraram, duvidaram se conseguiriam sustentar o espaço. Até que decidiram que não podiam mais conviver com o medo. Foi quando encontraram o novo local, onde trabalham e moram. E quando querem um respiro, alugam um cantinho em praias mais afastadas ou vão para o terreno do pai da Carol (o mesmo onde ele sonha morar quando se aposentar). O estúdio não cresceu só pelo esforço delas, mas porque outras pessoas apostaram nesse espaço. Formaram uma rede de apoio: tatuadoras, cervejarias, clientes que acreditaram no propósito de um estúdio feito para mulheres, fazem muita questão de agradecer. E é bonito como o amor delas transborda no que construíram. Quem chega já chama de “O estúdio das meninas” - e quando são chamadas assim, se sentem representadas. Foi um amor erguido com maturidade, conversas, carinhos, em agradecimento quando fazem refeições juntas... A vida é absurdamente corrida e demanda muito diariamente, mas reconhecem que nas pausas diárias, compartilhadas com os bichinhos também, existe essa dose de amor. ↓ rolar para baixo ↓ Andressa Carol

  • Paola e Taiane | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Paola estava com 37 anos no momento da documentação. Trabalha enquanto assistente social, sendo funcionária pública há mais de uma década, com trajetória marcada pelo compromisso com o cuidado e a proteção social. É natural de Porto Alegre, adora morar na cidade e foi criada na zona sul, morando agora na zona norte com a Tai. Jogou futebol por muitos anos e é apaixonada - um tanto quanto fanática - pelo Internacional. Além de dividir o lar com a Tai, também mora com seus pets: dois cachorros e um gato e nos momentos livres adora tocar violão. Brinca que é uma sapatona tradicional. Taiane estava com 30 anos no momento da documentação. Também é natural de Porto Alegre, da zona norte. Se formou em relações internacionais e trabalha com comércio, mas é marcada pelas suas grandes paixões: os idiomas, os livros e os estudos. Assim como a Paola, já passou pelo mundo dos esportes: desde criança praticou patinação artística, mas parou por questões de saúde (ainda que continue amando dançar). De forma tardia, Tai descobriu o diagnóstico de TDAH e autismo, o que fez reorganizar sua vida, ampliar compreensões e redesenhar a maneira que lê a si mesma e suas relações sociais. Hoje diz o quanto foi bom ter esse diagnóstico para entender melhor como a vida acontece ao seu redor, descobrindo novas formas de existir. Quando pergunto sobre a história da Tai e da Paola, elas explicam que tudo começou num aplicativo de relacionamentos, em janeiro de 2022, que funcionava por geolocalizações. Até hoje não entendem como foi possível, porque era bastante improvável elas se cruzarem via app porque estavam um pouco longe uma da outra, mas em algum momento o gps se esbarrou. Foi assim que conversaram e marcaram um encontro no local em que fizemos as fotos, o Parque da Redenção, no centro da cidade. Até hoje, quando voltam ao local, fazem um ritual que é reviver o momento que se viram pela primeira vez, lá no mesmo lugar, na entrada do parque. O primeiro encontro foi como deveria ser… superou as expectativas e a história começou a nascer de “nãos” que viraram “sims”: não queriam casar, não queriam morar com ninguém, não imaginavam dividir uma vida. Mas tudo começou a mudar. Ao decorrer desses anos juntas compraram um carro, formalizaram a união estável, dividiram o lar, assinaram o casamento. Misturaram universos. Cachorro, gato, outro cachorro. Muitos desafios novos. Tai conta que no dia seguinte do primeiro encontro, o afilhado da Paola nasceu. E o crescimento dele passou a caminhar lado a lado com o crescimento do relacionamento delas. Com um mês de vida dele, elas estavam se pedindo em namoro… Hoje em dia, com ele já sendo uma criança que corre, fala, entende quem elas são, elas pensam: “Caramba, como crescemos também!”. Logo no início do relacionamento entre Paola e Tai, chegaram diversos desafios. Desde os mais leves e até mesmo divertidos, como apresentar os bichos uns aos outros - e adotar um novo cachorrinho - aos mais intensos, como o diagnóstico do autismo da Tai e o preconceito vindo de familiares e amigos perante o diagnóstico. Começando com a vida compartilhada com os animais, o Max, pinscher da Paola, adotou Taiane imediatamente. Já a gata que era da Thai, virou amiga fiel da Paola. A questão maior foi o terceiro integrante, o Sirius, que chegou com muita energia criando uma nova dinâmica para todos dentro de casa. Elas confessam que às vezes rola uma confusão, porque ele ainda é muito jovem, mas deixa a casa muito mais animada. Sobre o diagnóstico tardio, a Tai já sabia o de TDAH desde os 17 anos, mas as particularidades da rotina, da rigidez com mudanças e da seletividade alimentar começaram a ser percebidas no início do relacionamento, levando elas a conversarem entre si, pesquisar e conversar mais com a terapeuta sobre. Elas lidaram bem com o diagnóstico, Tai sempre reforça como foi bom entender melhor o que vivia, redescobrir como lidar cada vez mais com os seus limites e respeitá-los. O problema foi descobrir como as pessoas podem ser tão preconceituosas com algo que não deveria existir preconceito. Pessoas que eram amigas da Paola reagiram de forma capacitista e cruel, como se ela tivesse assumindo o namoro com alguém que fosse eternamente dependente, como se virasse uma cuidadora. E pior: como se o diagnóstico fosse uma mentira. “Como a Tai tem autismo se ela consegue falar?” questionaram. A falta de informação era muito grande. E ainda que conversassem sobre, o preconceito firmava presença. A postura deles gerou afastamentos dolorosos, mesmo que necessários, fazendo com que elas se unissem cada vez mais no enfrentamento desses estigmas. Dentro das unidades familiares o processo foi doloroso também, mas mais tranquilo pelo fato de entenderem os comportamentos que existiam antes do diagnóstico. Tai conta sobre uma situação que viveram na praia, um tempo depois, quando chegaram e haviam comprado uma cama de casal para que elas pudessem ficar mais confortáveis num quarto que antes era formado por camas de solteiro. Foi como um conforto, um acolhimento e uma aceitação. Toda a relação foi se transformando, principalmente considerando os limites e não tratando com capacitismo: a Tai ajuda muito a Paola, e a Paola ajuda muito a Tai. É uma relação de troca. Uma relação que se transforma. O diagnóstico da Tai também transformou a vida cotidiana, trazendo novas compreensões sobre limites, questões sensoriais, rotinas e sobrecargas. Antes, situações simples como mudança de planos, uma festa ou um shopping cheio geravam desconfortos que ninguém entendia. Hoje, elas reconhecem gatilhos: exaustão, mudanças no humor. Paola muitas vezes percebe antes da própria Tai e “muda a rota” ou cria uma saída, acolhendo e garantindo segurança. A consciência sobre o autismo também trouxe novos gestos simbólicos, como a tatuagem que Paola fez entrelaçando, que tem o símbolo do espectro e duas mãos entrelaçadas. É sobre serem um casal, se amarem, se apoiarem, crescerem juntas em uma sociedade que insiste em questionar essa legitimidade. Elas contam também como o preconceito existe em momentos que as pessoas tentam infantilizar Tai e colocar a Paola nesse lugar de eterno cuidado, como se a relação sempre fosse se resumir à isso: não como esposa, mas num capacitismo que atravessa a leitura social sobre mulheres autistas independentes. A luta diária que elas travam envolve reafirmar a autonomia, identidade e o vínculo que construíram, sem precisar provar a existência de cuidado, suporte ou reciprocidade. Ainda assim, é nítido o quanto se amam. Independente das críticas. E sobretudo, o quanto crescem: as transformações são profundas - como quando Paola parou de fumar um dia antes de pedir a Tai em namoro, como quando ela redesenhou sua vida financeira com a ajuda da Tai ou como quando elas conversaram, melhorando cada vez mais a comunicação, sobre os lugares que a Tai se sentia bem ou não frequentando e entenderam os limites não “forçando a barra”. Foi em 2024 que Tai e Paola oficializaram a união com um casamento. A data foi cheia de significados: dia 26 porque ambas nasceram em um dia 26, começaram a namorar em um dia 26 e gostam da harmonia numérica. O pedido de casamento havia acontecido meses antes, em 2023, durante um período especial. A festa foi para as pessoas que realmente torciam por elas e acompanharam a relação - um dia para comemorar, genuinamente. Quando conversamos sobre o dia a dia e o amor nele presente, para além de todos os desafios que marcaram muito nossa conversa, elas contam sobre o quanto aprendem uma com a outra de forma leve. Riem muito juntas, brincam, se jogam água em dias quentes, implicam uma com a outra, mas também gostam de se mimar, de apoiar, tomar um café, deixar um bilhete. São apaixonadas por Harry Potter e tudo o que envolve o mundo da saga. Acreditam que nesses afetos de detalhes cotidianos está muito da essência da relação, porque é onde se apoiam quando acontece algo difícil. Geralmente a relação é composta por todas as “coisas pequenas” e não por coisas grandiosas. Cultivam essa manutenção delicada do amor, que impede que se tornem apenas colegas de apartamento e garante que a parceria siga viva, alegre e presente. Também aprenderam a respeitar e acolher as particularidades uma da outra, especialmente as rotinas e rituais estruturais. Depois de quatro anos juntas, projetam um futuro mútuo, consciente e responsável. ↓ rolar para baixo ↓ Paola Taiane

  • Opa, tão nos copiando por aí? | Documentadas

    Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! • como copiar o doc • que esse projeto é lindo a gente já sabe que todo mundo deseja ter um doczinho pra chamar de seu? é óbvio! mas tem gente ultrapassando os limites para chegar nesse objetivo papo reto: o doc é estudado projetado desenhado... não vamos aceitar cópia barata & cafona por aí. então, decidimos: opa, mas calma. caiu aqui de paraquedas e não tá entendendo nadinha? vem conhecer o doc antes! ♥ agora sim, parte 1: a nossa fonte > os nossos lambes a frase "toda mulher merece amar outra mulher" foi adotada pelo .doc a partir de uma documentação que fizemos na casa de um casal [e fotografamos ela em um objeto] em 2021. na época, postamos algumas vezes e recebemos alguns comentários dizendo que deveríamos fazer um adesivo com ela estampada. e não é que deu certo? foi crescendo, crescendo, e virou a cara do documentadas, sendo usada principalmente nos nossos lambes. até então, não disponibilizávamos esses lambes para colarem por aí, acreditamos que ele é a forma que o doc ocupa as ruas enquanto arte. mas agora você pode obter ele clicando aqui: baixar moldes dos lambes aqui #olha a dica! para colar os lambes direitinho, se liga nisso aqui: - pincel ou rolinho na mão; - superfícies lisas >> e não inventa de colar lambe em local privado sem autorização! por favor! dê preferência à postes e converse com o dono do local antes de sair colando por aí; - cola tipo PVA + água, misturadas em um recipiente, não deixando nem muito denso, nem muito líquido; - chama alguém para te acompanhar, não indicamos fazer a colagem sozinha; - deixa o lambe liso com a cola bem espalhada, assim garante a durabilidade :D espalhar a frase por aí com a nossa fonte e a nossa logo é importante para garantir a identidade e a representatividade do projeto, fazendo com que ele seja reconhecido facilmente e amplamente divulgado - afinal, é assim que chegamos em mais mulheres , né? não edite esse material nem recorte a nossa logo dele. colabore com a arte. parte 3: outros produtos do .doc temos outros produtos de alta qualidade que só a gente faz: quadros, camisetas e postais. esses, você encontra na nossa loja. ó a loja do doc, que linda • para entender melhor • por que a pirataria é mais barata? - material de baixa qualidade; - produção em escala absurdamente maior; - possuem fabricação própria; - não estudam e desenvolvem o material, apenas pegam o que já existe de artistas que produzem; - não possui serviço online de retorno (atendimento) - não enviam para todo o Brasil por que os produtos do .doc custam esse valor? - temos um material de melhor qualidade - não possuímos fabricação própria, inclusive temos gasto de frete buscando na cidade de fabricação; - pagamos uma plataforma de venda; - pagamos taxas bancárias a cada venda; - não temos equipe, tudo é feito por uma pessoa (humana & artista); - pagamos pelos materiais que acompanham a ecobag (panfleto pôster + adesivos brindes) + embalagem + etiquetas; - a ecobag é um produto que garante o projeto a se manter em funcionamento, ainda com margem de lucro pequena; - enviamos para todo o Brasil; - qualquer problema que você tiver com o produto (rasgou, não serviu, foi cobrado errado) estaremos aqui para te atender; vamos ensinar a copiar o doc. //como diria nossa mãe: "quer fazer? faz direito". parte 2: nossas ecobags são elas, as queridinhas da pirataria. para a nossa tristeza: porque a ecobag é o nosso principal produto. que vacilo, né? ainda por cima piratearam ela em comic sans. pô, não dá. pega aqui o molde pra fazer a tua. faz bonito, tá? baixar moldes das ecobags aqui [quer vender com a nossa autorização em alguma feirinha? manda um e-mail para nós através do nosso site ou diretamente para fernanda@documentadas.com ] ah, mas que trabalhão fazer, né? também acho. por isso, nossa ecobag está com 60% de desconto no site depois desse furacão que vivemos. sim, é para zerar o estoque. bora com a gente? vamos encarar a pirataria de frente e fazer a nossa ecobag estar pelo Brasil todo. o que faz do doc uma marca incomparável com a pirataria? somos um projeto artístico, estudado e executado com respeito. além disso, em cada produto adquirido você contribui para que mais mulheres tenham suas histórias registradas por todo o Brasil, num documento inédito e que, até o início do projeto, era inexistente. adquirindo um produto pirata, você só contribui para a desvalorização da arte.

  • Emilly e Thuane | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Tabata Thuane no momento da documentação estava com 33 anos, é natural de Paulista, na região metropolitana de Recife. É formada em design de interiores, mas acabou seguindo os passos da família de músicos e se dedicou à música e à cultura. Estudou violão no conservatório, além de canto e percussão, e hoje se apresenta em restaurantes e hoteis do Recife, além de construir uma forte atuação na cena cultural das cidades de Olinda e Recife entre dança, percussão e carnaval. Uma de suas maiores conexões com a tradição vem do pastoril, dança natalina de origem portuguesa que aprendeu com a avó e transformou em um bloco que percorre as ruas no Natal. Lá, também ensina percussão, e foi nesse caminho que se aprofundou no frevo, na ciranda e no maracatu. Hoje, divide o palco e a dança com Emelly, tocando juntas no pastoril e em diversos blocos desde ciranda, maracatu, coco e xaxado, onde Thuane cuida da harmonia e Emelly assume a percussão. Emelly estava com 22 anos no momento da documentação. Nasceu em Olinda, mas hoje mora em Paulista com Thuane e Otto, o filho delas. Estudante de pedagogia, trabalha na área e tem uma paixão especial por atuar com crianças neurotípicas. Paralelamente, dedica-se à cultura popular, tocando percussão nos blocos e eventos onde se apresentam. Além disso, adora maquiar, pintar o rosto, ler e escrever, mas reconhece que, no momento, toda a atenção e energia estão voltadas para Otto e para a construção de uma maternidade cuidadosa e afetuosa ao lado de Thuane. A música e a cultura popular são o elo que fortalece a relação das duas, mas entendem que o que vivem hoje vai além dos palcos e blocos. Enxergam a família que construíram como um reflexo da tradição e do amor que carregam, tanto na dança e no som, quanto na dedicação diária à criação de Otto. Encontraram na música um ponto de encontro, mas é no dia a dia que constroem, com cumplicidade, os laços mais importantes. Em 2019, Thuane entrou para o grupo percussivo Tambores de Saia, em Olinda, um coletivo de samba reggae formado apenas por mulheres. Incentivada pela namorada do pai, mergulhou na experiência e logo se encantou com a força do grupo. No fim daquele ano, conheceu Emelly tocando lá. Fizeram amizade rapidamente, descobriram amigos em comum e começaram a se aproximar. No início de 2020, ficaram pela primeira vez. Durante o carnaval, ainda estavam se conhecendo, mas então veio a pandemia de Covid-19. Emelly, recém-completados 18 anos, e Thuane, morando em lugares diferentes, decidiram se isolar juntas. Emelly ainda vivia com a família, enquanto Thuane morava com o pai, que sempre foi muito tranquilo e a recebeu em casa. Desde então, a relação seguiu crescendo e hoje as duas moram juntas num lar só delas - agora com Otto, que chegou transformando tudo. Elas contam que foi desafiador iniciar um relacionamento no meio do caos, com a sensação de que o mundo estava acabando. Entre elas, não houve grandes conflitos - sempre conversaram muito e se entendem bem. Mas o período trouxe desafios familiares: a irmã de Thuane também se mudou para a casa com os filhos pequenos, tornando a rotina intensa. A pandemia trouxe dificuldades, eram desafios novos para todas as pessoas e elas, enquanto trabalhadoras da cultura, estavam totalmente sem renda, precisaram inventar outras formas de conseguir financeiramente se estruturar. A prefeitura até fez algumas apresentações online na época festiva do São João e assim elas conseguiram algum retorno, mas nada se comparava à vida presencialmente, o que ajudou mesmo a segurar as pontas foi a família. Hoje, comentam ao olhar para trás, que a sensação é como se já possuíssem uma relação de muitos e muitos anos, pela maturidade que precisaram construir tão rápido para passar por todos aqueles momentos (e pelos que viriam em seguida). Com a chegada das vacinas e uma leve estabilização da pandemia, Emelly e Thuane começaram a reorganizar a vida. Para garantir uma renda, passaram a personalizar kits de festa e entregá-los para quem comemorava em casa. O trabalho deu certo e, pouco depois, conseguiram finalmente conquistar o próprio lar, mudando-se para um espaço só delas. Aos poucos passaram a refletir sobre a maternidade, um sonho antigo que haviam deixado de lado por conta de frustrações por relacionamentos anteriores. A adoção sempre foi a primeira opção, pois nenhuma das duas pensava em gerar. No entanto, quando entenderam que seriam boas mães, começaram a pensar de fato na adoção e em todas as outras alternativas. Além do pensamento, partiram para a ação: foram estudar qual o processo e, tão importante quanto, o custo de cada processo. Foi assim que chegaram à opção da inseminação caseira. Queriam ser mães ainda jovens, mas também precisavam conciliar os estudos e outras responsabilidades. Pesquisando no YouTube sobre inseminação e o processo via SUS, entenderam o valor e o quanto isso demorava, assim como o processo de adoção. Diferente da inseminação, entre as pesquisas, encontraram grupos de doadores. Estudaram os critérios com cuidado, até que localizaram um doador e tiveram o primeiro contato. Para encontrar o doador, contaram com o apoio de uma rede de amigas e marcaram o encontro na casa de uma delas. Não queriam passar por esse momento sozinhas, então se cercaram de mulheres que as acolheram e tornaram tudo mais leve. O doador foi até lá, elas até prepararam alguns doces para ele como presente, e depois passaram a noite na casa da amiga, garantindo que tudo acontecesse de forma segura e tranquila. Ainda incrédulas com a situação, deram risada juntas, sem imaginar que daria certo de primeira. Mas, para a surpresa e felicidade delas, a gravidez vingou e Otto chegou ao mundo. Queriam um nome simples, mas composto, e escolheram Otto José. Embora já estivessem juntas há um tempo, fizeram questão de celebrar o casamento com uma festa como mereciam. Cada detalhe foi feito com as próprias mãos e com a ajuda da família: serraram troncos da rua para a decoração, a irmã preparou o buffet, a prima fez o bolo… tudo foi construído em conjunto. No mesmo dia, fizeram o chá revelação. A família inteira estava certa de que seria uma menina (ou até gêmeos!). Quando descobriram que era um menino, se olharam sem entender e até brincaram: "Emelly, sorri, senão vão achar que não gostamos!". Hoje, Otto é uma criança curiosa e esperta, sempre explorando o mundo ao seu redor. Como não tem contato com telas, elas percebem que ele está sempre em busca de algo novo, o que torna cada descoberta mais especial. Desde experimentar comidas diferentes até interagir com as pessoas… ele se mostra um bebê livre e sociável. E, com duas mães ligadas à música e à cultura, não poderia ser diferente: Otto já ama tambores, batucadas e tudo o que envolve ritmo e som. Emelly e Thuane enxergam o amor na forma como Otto expressa carinho no dia a dia. Apesar de ser agitado, é um menino extremamente afetuoso, que as enche de beijos, pega no rosto e faz carinho nelas. Vivem uma relação de parceria genuína, na qual tudo é dividido de maneira natural e equilibrada. Observam que, em muitas relações heterossexuais, a carga recai quase toda sobre a mulher, e quando o marido participa, muitas vezes é por obrigação. Com elas, tudo acontece por escolha e desejo. Brincam que estão sempre fofocando, rindo e se entendendo, sem precisar dizer muito. Para elas, nunca é apenas Emelly ou apenas Thuane - são sempre três: Emelly, Thuane e Otto. Por onde passam, são reconhecidas assim, como uma família. Sentem que, após o nascimento do Otto, algumas amizades se afastaram e a rotina mudou, pois não frequentam mais os mesmos espaços de antes. Ainda assim, quando são convidadas para algo, a inclusão é sempre dos três, e isso reafirma o significado de família para elas. Gostam de ser vistas como essa unidade, onde o amor e a presença são inquestionáveis. Desejam que Otto cresça como uma criança livre, que possa viver com autenticidade e alegria. Embora saibam que ele enfrentará muitos desafios por ter duas mães, esperam que a base de amor e segurança que constroem todos os dias seja mais forte do que qualquer preconceito. Querem que ele enxergue a própria história com naturalidade, carregando consigo a certeza de que foi muito desejado. ↓ rolar para baixo ↓ Thuane Emilly

  • Quero participar! | Documentadas

    Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vem participar você também! QUERO PARTICIPAR! COMO FAÇO PARA ME INSCREVER? É muito mais fácil que você imagina ♥ Você e sua companheira gostariam de ser fotografadas e participar do projeto? Preencha os campos a seguir e em breve entraremos em contato com você! É importante ressaltar três coisas: 1. Só documentamos e registramos casais. Entendemos a importância de cada mulher enquanto um ser único nesse mundão! Mas nosso objetivo é registrar o amor entre mulheres.* 2. Acabamos registrando mais casais entre o Rio de Janeiro e Porto Alegre devido aos locais de residência, mas o projeto vive em movimento com o intuito de documentar o amor entre mulheres por todo o Brasil, então: não desanima se você morar longe! Pelo contrário: têm casais de amigas que topariam participar também? Chama elas e se inscrevam juntas! Assim, quanto mais pedidos, mais chance de ir até vocês. 3. Fazer o Documentadas dá trabalho! Sou em uma fotógrafa só (mulher, artista-independente) com um projeto artístico e social que demanda muito financeiramente. E por isso, cobramos um valor simbólico. Explicamos tudo no link da inscrição, mas você pode tirar dúvidas sempre ♥ Sua participação é muuuuito importante para nós. * caso você queira muuuuuito ser fotografada de forma individual, pode adquirir nossos serviços pedindo um orçamento de ensaio fotográfico. manda mensagem pra gente através da aba 'contato', ok? até logo! INSCREVA-SE AQUI

  • Roberta e Laura | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Laura estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Sapiranga, uma cidade interiorana do Rio Grande do Sul, mas mora em Porto Alegre há cerca de 8 anos. Chegou na cidade para estudar dança e hoje em dia trabalha com dança dando aula em alguns projetos para pessoas com deficiências intelectuais e para crianças. Paralelamente, também é professora de inglês, trabalha em uma instituição que promove imersões na língua inglesa. Nessas imersões, ela mistura a dança, outros professores entram com esporte, culinária e a ideia é fazer o inglês ser praticado em um ambiente de “vida real”. Fora do meio profissional, Laura entende que é uma pessoa bastante ligada à família. Foi sua família quem a colocou na dança, alguns familiares são músicos e sempre agradece o ambiente cultural que cresceu e que vive até hoje, percebe o quanto isso fez com que ela se tornasse alguém que adora estar entre as pessoas, gosta de se aventurar e de conhecer o mundo. Roberta estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Canoas, região metropolitana de Porto Alegre. Durante a adolescência se mudou para a capital para estudar na faculdade e começou a trabalhar como educadora social num clube para pessoas com deficiência. Esse trabalho durou seis anos (e é um dos lugares que a Laura trabalha hoje em dia). Conta que foi trabalhando lá onde mudou sua forma de pensar sobre a vida, ainda mais no mundo que vivemos hoje em dia com redes sociais onde tudo tem filtro e é tão perfeito - pensado o tempo todo, medido e tendo que estar sempre lindo. Lidar com pessoas com deficiência é entender a sinceridade e a realidade da vida: elas falam o que querem falar, de uma forma simples e muito mais fácil, então aos poucos Roberta sentiu que era melhor ser assim do que viver nesse “filtro” que não era real. Falar o que sentia, ir onde quer ir, não ir onde não quer, ser mais real consigo mesmo. No meio desses aprendizados, criou um curso chamado “Ação Caminhos Para a Diversidade” sobre anti capacitismo, abordando temas como sexualidade da pessoa com deficiência, oportunidades de trabalho e privação da maternidade. Todo esse processo de estudo fez Roberta entender muito sobre si, sobre quem ela é e estudar sobre seus comportamentos sociais. Hoje em dia, observa que existe outra Roberta, principalmente depois da pandemia de Covid-19. Uma Roberta muito mais caseira, que adora arrumar a casa, fazer decorações, pintar e criar coisas manuais. Quando Laura chegou na faculdade, em 2017, entrou para um projeto de extensão chamado Diversos Corpos Dançantes, uma proposta de dança com habilidades mistas envolvendo pessoas com e sem deficiência. Laura era bolsista e foi a primeira vez que trabalhou com práticas de danças acessíveis, lá conheceu uma amiga e passaram a estudar bastante sobre acessibilidade juntas. Em 2019, Laura fez uma mobilidade acadêmica e foi estudar em Salvador, nos meses que ficou fora sua amiga começou a trabalhar num lugar novo - e conheceu Roberta. Na versão de Roberta, quando ela conheceu a amiga de Laura, só ouvia falar sobre Laura: “Tu me lembra muito a Laura”, “Nossa você e a Laura iriam se dar muito bem!”... Era tanto que passava um pouco dos limites. Quando Laura voltou de Salvador, soube da existência da Roberta e, durante uma Mostra de Dança Inclusiva, em novembro, elas se conheceram. Roberta ia se apresentar com os alunos, estava com uma roupa azul, toda pintada, brinca que parecia um grande pavão. Quando viu Laura entendeu o motivo de todos aqueles elogios que ouviu por meses. Mas, naquela época, Roberta vivia um relacionamento, estava noiva e só entendeu o nervosismo porque achou Laura admirável, mas não aconteceu nada além. Naquele contexto começaram a se seguir nas redes, mas não interagiram. Nos meses seguintes a pandemia de Covid-19 chegou, Laura voltou para a casa dos pais no interior, Roberta terminou o relacionamento e suas vidas passaram por grandes mudanças. Um tempo depois, no meio da pandemia, Roberta estava respondendo uma brincadeira no Instagram e postou sobre estar solteira. Laura respondeu a brincadeira, iniciando um flerte… Roberta jamais esperava essa resposta e ficou bastante nervosa, ignorou ela por alguns meses, não se sentia preparada para flertar, enfrentava momentos delicados na pandemia e quando se sentiu pronta começou a interagir melhor. Durante uma parte da pandemia, Laura trabalhou com algumas ações de dança na internação psiquiátrica do hospital, então acabava tendo um grande contato com a área da saúde e precisava fazer testes a cada 3 dias. Isso influenciou na demora para se encontrarem, até que marcaram um almoço num feriado. Depois do almoço, Laura queria logo comer as outras coisas que seriam para comer mais tarde (pão, bolo…) e pediu se Roberta se importaria. Ela achou positivamente engraçado, mas disse que não, que adoraria, e na hora que Laura se levantou do sofá disse que gostaria de fazer algo antes de buscar o bolo, assim beijou Roberta pela primeira vez. Hoje em dia, virou um bordão: quando levantam do sofá, soltam o “mas antes, quero fazer uma coisa” e se beijam. O começo do namoro foi bem rápido e aconteceu depois de alguns encontros e conversas onde alinharam o que sentiam sobre o que estavam tendo e o que pensavam sobre as relações humanas e amorosas. Num dia, Roberta saiu da casa da Laura e deixou ela no apartamento ‘trancada’ pois só tinham uma chave, precisou comprar uns remédios, entregar um objeto e no caminho encontrou um amigo que chamou para sentar num bar e atualizar as novidades. Ela contou: “Conheci a mulher da minha vida, tô apaixonada!”. Demorou mais que o previsto para voltar, quando chegou encontrou Laura fazendo yoga na sala com um olhar sério, chamando-a para conversar. Pensou: “Meu Deus, ela vai terminar tudo, acabei de falar que tô apaixonada e que é a mulher da minha vida e agora vou voltar lá no bar e dizer: acabou!”. Laura disse que não queria mais ser uma “futura namorada” para Roberta, que cansou desse termo, e que estava disposta a namorar agora. Roberta lembra da sensação de pavor que sentiu, falou “Nossa, guria, que cagaço tu me deu!”. Começaram o namoro e meses depois foram morar juntas por questões financeiras, num apartamento que viveram durante pouco mais de um ano. Sentem que tudo fluiu muito bem, mesmo sendo no começo da relação, morarem juntas foi a escolha mais racional. A única coisa que se arrependeram foi o fato de Laura ter virado a síndica do prédio, isso causava mais stress que qualquer outra coisa, e não compensou o desconto nas contas. Mas hoje, é uma parte até cômica da história, virou “história boa pra contar - a síndica sapatão do prédio”. Roberta e Laura contam como o período das enchentes em Porto Alegre foi impactante e marcante para elas, como é importante documentar esse momento vivido, além da importância histórica e política, mas também pela forma que se cuidaram e seguem apoiando até hoje por contas das marcas e atravessamentos que causou. Já estavam morando no apartamento que residem atualmente - e consideram isso fato importante porque no local que moravam meses antes da enchente certamente teriam perdido muitos itens pessoais e móveis, por ser no térreo e numa região que foi bastante atingida. Porém, mesmo nesse novo lar em andares superiores, ainda estavam sem água e luz, com a rua alagada. Foram para a casa de amigas em um bairro vizinho. Três dias depois, o bairro também foi afetado e as águas subiram rapidamente. Ficaram sem saber para onde ir, até conseguirem um apartamento vazio e irem juntas para lá. Foram dias dormindo no chão, comendo coisas prontas porque não havia como cozinhar, ficando sem tomar banho… Chegaram no limite, até Laura pedir para a mãe dela vir de Sapiranga buscá-las. Era um caminho delicado porque as estradas estavam difíceis, ela tinha bastante medo. Um caminho que leva até menos de 1h em dias comuns, levou 6h naquele dia. Quando chegaram na casa da família de Laura e tomaram um banho, comeram arroz, se olharam entre todas as mulheres e refletiram tudo aquilo que estavam vivendo, viram o significado de união e de família. Entendem que a experiência das enchentes foi muito sensorial: ouviam os helicópteros, as ambulâncias, sentiam a falta d’água, a falta das coisas nos mercados… Todas as dores de ver quem amam perdendo suas coisas, o medo, a insegurança. Foram momentos muito difíceis. Era muito importante reconhecer estar vivendo esse momento com mais duas mulheres, se ver enquanto amigas se apoiando, LGBTs, nossas famílias. Foram duas semanas vivendo em Sapiranga até voltarem para Porto Alegre e participarem da reconstrução da cidade - e entendem que tudo o que acontece até hoje é parte dessa reconstrução. Até hoje pagam as contas de luz daquela época (porque passaram meses sem conseguirem medir), Laura passou a trabalhar muito mais depois do acontecimento, entendem que existem várias consequências que silenciosamente estão presentes no cotidiano e na saúde mental, por isso o acolhimento e o lar enquanto lugar seguro são prioridades dentro da relação. Laura sente o amor presente na rotina, na construção da relação. Quando lembraram sobre a vivência das enchentes em Porto Alegre, reforçaram quanto apoio existiu. Brincam que tinha um dia para cada uma ficar mal “Hoje estou mais triste, então você me apoia, amanhã você fica mais triste que aí já vou estar fortalecida e te apoio…”. Era a forma que encontravam de segurarem a barra no momento extremo, mas entendiam que era uma forma de proteção também. Agora, após alguns anos juntas, visualizam que passaram pelas suas finalizações na universidade, pela pandemia, pelas enchentes, por duas casas, montaram um novo lar juntas… Então, foram encontrando o balanço, a rede de apoio, formaram a família que gostariam de ter. Laura comenta que quando começaram a namorar, fazia apenas dois meses que seu pai faleceu por conta da Covid-19, e Roberta acompanhou seu luto recente. Eram dois sentimentos conflitantes: a dor grande por perder um amor e uma paixão chegando com um novo amor. Foi um processo novo para Laura e, ao mesmo tempo, um processo que Roberta acompanhou de perto a família de Laura vivendo, visto que são muito unidos. O amor também esteve nesse lugar de acolher desde o início. Roberta conta que aprendeu uma nova forma de amar, com uma nova comunicação, com maior liberdade e saindo de lugares traumáticos. Aprendeu a sair de lugares em que precisava fazer tudo sozinha, aprendeu que pode confiar, aprendeu a dividir algumas tarefas que parecem tão básicas mas que sobrecarregam… Nas palavras dela: descobriu que o amor é possível. E, junto da relação, ganhou a nova família - a família da Laura e a família que deseja construir com a Laura, agora que estão com os planos de entrar na fila de adoção em breve. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Roberta

  • Rafaela e Helena | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Desde o primeiro encontro, Lucia Helena e Rafaela sentiram uma conexão natural. Nenhuma das duas esperava iniciar um relacionamento tão cedo, mas a conversa fluiu de imediato e, poucos dias depois, já estavam marcando de se ver. Nena, como é chamada, havia saído recentemente de um casamento longo, enquanto Rafaela retornava ao Recife após uma experiência no Rio de Janeiro que não durou como esperava. Mesmo assim, decidiram se abrir para algo novo. Lucia Helena, estava com 37 anos no momento da documentação. É natural do Recife, trabalha enquanto motorista de aplicativo e é estudante de educação física. Adora acordar cedo e aproveitar o dia. Seu divertimento é praticar esportes, como jogar bola e andar de bicicleta. Rafaela estava com 23 anos no momento da documentação. Mora na cidade de Paulista, região metropolitana de Recife. Vivia um momento de recomeço na cidade e não planejava nada sério, mas percebeu que ao lado de Nena tudo se encaixava sem esforço. O relacionamento evoluiu rapidamente, mas sem pressa, no tempo certo das duas. O primeiro encontro aconteceu na Páscoa, de forma despretensiosa. Nena, muito ligada à sobrinha, saiu para comprar um chocolate de presente e aproveitou para passar perto da casa de Rafa, sugerindo um encontro rápido. Rafa deu algumas desculpas, alegando estar ocupada, mas Nena insistiu um pouco, dizendo que estava de carro e iria até ela. O que seria só um encontro no carro se alongou em uma conversa, até que, entre piadinhas, se beijaram pela primeira vez. Dias depois, Rafa comentava com uma amiga que não iria namorar ninguém, que “nem tão cedo iria ceder para o namoro”... até que o celular tocou com uma notificação em tom diferente, porque geralmente nem notificava… e ela tinha colocado especialmente para ver as mensagens da Nena… quando a amiga percebeu, ela disse “Tu não vai namorar não, né? E essa notificação aí que já mudou?”. Na semana seguinte, marcaram outro encontro, dessa vez para tomar um açaí. Desde então, não se desgrudaram mais. Entre conversas, descobertas e afinidades, perceberam o quanto se encaixavam. Hoje, Rafa passa mais tempo na casa de Nena, no Recife, do que na própria casa em Paulista. Rafa e Nena veem o relacionamento como algo genuinamente diferente do que já viveram. Desde o desejo constante de estarem juntas, após experiências anteriores (em outras relações) que viveram à distância, até a liberdade de viver esse amor de forma aberta. Pela primeira vez, não precisam se esconder ou restringir nada - família e amigos sabem, apoiam e participam. Postam fotos sem receio, falam sobre o que sentem, vivem a relação sem medo. Para elas, isso é essencial: poder mostrar um amor que é bonito de se viver. O apoio mútuo se manifesta em tudo, desde as pequenas rotinas, como sair para pedalar juntas ou assistir aos jogos dos times (que são rivais), até os desafios mais profundos da vida, como os estudos, o trabalho e as dificuldades familiares que acontecem paralelas à vida. Mesmo nos momentos difíceis, sabem que podem contar uma com a outra, seja para cuidar da cachorrinha ou para enfrentar os obstáculos da vida. O relacionamento se sustenta na parceria e no companheirismo diário. Quando pensam sobre o amor, lembram das vezes em que enfrentaram momentos de ansiedade juntas. O suporte mútuo foi essencial, tanto para acalmar quanto para ajudar a concretizar aquilo que parecia inatingível - e que era causador da ansiedade. Para elas, amar é aceitar, acolher e estar presente. É uma sensação de: eu te aceito como você é e estou aqui contigo. E ficam muito felizes, também, por verem esse amor reconhecido entre as pessoas ao redor, de tanto se apoiarem os amigos e familiares reconhecem: “Teu semblante ficou melhor depois que tu conheceu essa menina” ou “Agora tu tá indo pra frente e as tuas coisas estão progredindo”. Rafa e Nena contam o quanto o relacioamento delas é diferente em vários pontos: desde conviverem próximas, desejarem estarem muito juntas e terem tido experiências à distância antes, até o contato muito aberto que possuem com a família e que antes isso não era possível - a irmã e a sobrinha, o pai e a mãe, todos já sabem e não precisam se esconder ou restringir. Postam fotos livremente, falam sobre o seu amor. Não se sentem privadas de mostrar uma relação que é tão bonita de viver. Sentem a importância do apoio - desde numa rotina muito simples em acordar e sair para pedalar, vão juntas, até assistir jogos de futebol dos times rivais juntas.. até as coisas mais profundas da vida como os estudos, os desafios de trabalho, questões familiares que acontecem paralelas à vida, os cuidados com a cachorrinha de estimação… entendem a importância de contar com a pessoa que você se relaciona. Quando pensam sobre a relação e sobre o amor, citam momentos de ansiedade que passaram juntas e que uma apoiou muito a outra, tanto para estabilizar quanto para realizar o que estava causando a ansiedade. Nesses momentos, o amor está muito veiculado à verdade, ao suporte, à uma parceria que serve como familia e acolhimento. É uma sensação de: eu te aceito como você é e estou aqui contigo. E ficam muito felizes, também, por verem esse amor reconhecido entre as pessoas ao redor, de tanto se apoiarem os amigos e familiares reconhecem: “teu semblante ficou melhor depois que tu conheceu essa menina” ou “Agora tu tá indo pra frente e as tuas coisas estão progredindo”. ↓ rolar para baixo ↓ Rafaela Helena

  • Beatriz e Kika | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Beatriz estava com 25 anos no momento da documentação. Nasceu em Moita Bonita, povoado de Sergipe, mas cresceu em Aracaju, onde vive atualmente. Advogada criminal, ela atua no tribunal do júri, lidando com casos de homicídio - uma área desafiadora, especialmente para mulheres, que enfrentam o machismo diariamente na profissão. Reitera que sempre ao encontrar outras mulheres no júri, sente um misto de alívio e alegria, um sinal de que os espaços estão sendo conquistados. Também integra a Comissão de Diversidade da OAB em Aracaju, e desde que se entendeu enquanto mulher lésbica viu sua profissão unida à jornada pessoal de enfrentar a homofobia. Jornada essa que partiu de dentro de casa, desde os primeiros relacionamentos, lidando com invalidações da sua identidade e terapias de cura. Hoje em dia, no seu relacionamento com a Kika, pela primeira vez sua mãe aceitou conhecer a namorada, chamá-la pela forma correta e interagir como a família que são, conta, sorrindo, como têm sido legal viver essa experiência. Jirlana, ou Kika, como é chamada pelos amigos, estava com 30 anos no momento da documentação e é natural de Poço Redondo, cidade interiorana de Sergipe. Quando nos encontramos, estava em processo de mudança para Aracaju. Depois de cursar zootecnia e trancar a faculdade, ela planeja começar enfermagem na capital. Criada em um ambiente conservador, enfrentou um questionamento único quando se abriu sobre a sexualidade: “Existe tratamento pra isso?” e com calma e firmeza explicou que amar mulheres não é algo a ser "tratado", pois não é doença. A decisão de mudar envolve tanto a vontade de estar mais próxima de Beatriz quanto o desejo de liberdade que uma cidade maior oferece. São apaixonadas por cafeterias, principalmente para provar chocolates quentes. Conhecem várias em Aracaju, como o lugar onde fizemos as fotos, e quando viajam fazem questão de passear nelas pelos locais onde passam. Também costumam anotar as melhores, dando notas, para um dia voltar. Beatriz sente que seu relacionamento com Kika a faz viver plenamente, explorando juntas todas as possibilidades. Ela compartilha que, no dia anterior da documentação, foram juntas a um evento do trabalho, algo que antes parecia impensável. Em outros momentos da vida, Beatriz se sentiria mais retraída ao ir sozinha, mas Kika é sua parceira em tudo, alguém que a impulsiona na carreira, é amiga de seus amigos e ambas conquistam com o jeito extrovertido. Adoram sair, se divertir e fazer amizades. "A gente gosta de se amostrar", brinca Beatriz, destacando que se esforçam para tratar os outros com simpatia, como gostariam de ser tratadas. Sempre juntas, não perdem a oportunidade de aproveitar qualquer passeio ou evento, dispostas. Beatriz relembra como, antes de Kika, não conseguia se imaginar em um futuro ao lado de alguém. Agora, tudo mudou. Elas se sentem livres para sonhar com uma vida compartilhada: construir uma família, ter filhos e morar juntas. Beatriz se descreve hoje como "grudenta" e ri ao contar que vive perguntando: "Vamos casar quando? Está demorando muito! Já pegou sua certidão de nascimento pra gente casar?" Kika conheceu Beatriz por acaso e o início da conexão foi marcado por coincidências e resistências. Após uma festa perto de sua cidade, Kika conheceu novos amigos e viveu uma noite suuuuuper intensa, mas estava sem celular e no dia seguinte resolveu procurá-los no Instagram para compartilhar as histórias engraçadas que viveram. Beatriz era a melhor amiga de uma dessas pessoas que Kika tinha conhecido, então aparecia frequentemente como sugestão de amizade para Kika, que sempre recusava. Até que um dia cedeu e a seguiu, achando que Beatriz, com tantos seguidores, não retribuiria. Para sua surpresa, Beatriz seguiu de volta, viu alguns stories, puxou papo e a conversa começou. No dia da conversa inicial, Kika estava curtindo uma “farra” na cidade - festa que acontece com paredões de som, só que em terrenos mais afastados da cidade, para que ninguém reclame do barulho - mas decidiu voltar para casa mais cedo e postou um storie assistindo um filme, tomando sopa. Bia respondeu, puxando um assunto. Conversaram um pouco, porém, com a proximidade das festividades de São João, viviam entre trinta dias ininterruptos de festas de forró, então não mantiveram um clima de conversas frequente, era tudo muito esporádico, quando sobrava um tempo entre um show e outro, uma festa e outra. Até que, numa madrugada, enquanto Kika voltava de uma festa em um povoado próximo, Beatriz, sem conseguir dormir, mandou mensagem. Conversaram até o amanhecer, e desde então, nunca mais pararam. Naquela época, Beatriz estava prestes a se mudar para Santa Catarina, mas o sentimento entre as duas cresceu tão rapidamente que desistiu da mudança. Elas brincam que começaram a namorar antes mesmo de se conhecerem pessoalmente, tornando o início da história tão inesperado quanto único. Após semanas de conversas intensas, Kika decidiu ir até Aracaju encontrar Beatriz pessoalmente e dar início ao que já parecia ser um namoro. Ambas sentiam o amor florescendo, mas precisavam daquele encontro para confirmar que não era apenas um delírio das redes sociais. Nervosas, se encontraram pela primeira vez e, no mesmo instante, souberam que aquilo seria real e duradouro. Passaram o fim de semana juntas, mas Kika precisou voltar para casa - mesmo querendo ficar. Na segunda-feira, já de volta, Kika enviou flores para Bia com um pedido de namoro, explicando que queria mesmo era ter feito isso pessoalmente. Desde então, vivem esse amor, mesmo com algumas horas de distância entre suas cidades. Viajam frequentemente para se encontrar e agora, com a mudança de Kika para Aracaju encaminhada, a rotina promete ficar ainda mais leve. No momento da documentação estavam bem empolgadas pensando em como tudo tende a ser mais tranquilo morando próximas, construindo juntas uma nova vida na capital. Amam organizar os looks combinando, até as capinhas dos celulares são pensadas com cuidado. Gostam de se ver como uma meta de casal - recentemente, marcaram presença na parada LGBT de Aracaju e reafirmam que vivem a relação que sempre sonharam: um casal clichê, apaixonado e, como brincam, inimigo do fim. ↓ rolar para baixo ↓ Beatriz Kika

  • Carol e Gabi

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. A conexão entre Carol e Gabi foi acontecendo aos poucos, quase por acaso. Frequentavam os mesmos espaços, Carol era amiga da irmã da Gabi e isso fez com que Gabi até fotografasse a Carol em um evento, mas nunca prestaram real atenção uma na outra. O primeiro contato mais direto aconteceu em um evento de fotografia, em 2017. Quando Gabi chegou e reconheceu Carol pela voz, se apresentou de forma animada dizendo que ela era a Gabi, que tinham amigas em comum. Ao contrário do que Gabi na hora esperou, Carol não demonstrou o menor interesse na informação. Ela ficou até um pouco sem jeito, desconcertada, pensou ter sido expansiva demais. Depois do evento e da situação, Carol decidiu seguir Gabi nas redes sociais. No evento em si, não trocaram mais nenhuma palavra. Mas, aos poucos, começaram a interagir online. Em 2018, sem ainda serem exatamente amigas, viajaram juntas para um congresso de fotografia. O motivo foi objetivo: dividir os custos (arrumar um hotel ou apartamento para ficar, dividir os transportes…). Mas essa convivência inesperada mudou a dinâmica entre elas. Gabi, que até então era casada, viveu seu relacionamento até 2019. Conversava muito com seu ex-marido e parceiro de tantos anos, até o momento que entendeu que não cabia mais estar em um relacionamento com um homem. Depois que se separou, viveu um ano de mudanças muito intensas em si. Em 2020, ela e Carol começaram a se relacionar. Aos poucos, foram compartilhando a novidade com os familiares - o maior medo de Gabi sempre foi a reação do filho - e, no dia da conversa, tomada pela emoção, chorava muito enquanto contava… mas ele agiu da melhor forma possível, dizendo: “Você tá chorando por quê, menina? Ah, deita aqui. Que besteira. É importante você ser feliz”. E descreve a sensação de alívio e de acolhimento. Desde então, ela e Carol seguem juntas, mas só em 2021 que de fato Carol começou a frequentar mais a casa de sua família e, em 2022, decidiram morar juntas. Gabi já vivia uma série de mudanças desde 2019, que foi um ano de transformação. Porém, em 2020 com a pandemia de Covid-19 sente que as mudanças deixaram de ser internas para serem externas, todos estavam em mudança (e ainda mais drásticas). Nos primeiros meses da quarentena, ficaram sem se encontrar. Em 2021, Gabi pegou Covid e sentiu muito medo. Ao mesmo tempo, havia os receios do relacionamento: como contar para a mãe, para a irmã? Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo e foi necessário se reorganizar em meio às inseguranças. A relação de Carol e Gabi trouxe transformações profundas para ambas. Gabi observa o quanto Carol mudou - antes, ela jamais aceitaria aparecer em frente a uma câmera, e agora, não só topou a documentação da história delas, como se empolgou com a ideia. Isso as fez refletir sobre como, apesar de fotografarem tantas famílias diariamente, pouco documentavam suas próprias vidas assim, contando a história. Dessa vez, entenderam a importância de registrar essa trajetória. O início não foi fácil. A mãe de Gabi se opôs à relação, mas, em 2020, tudo mudou. Com o diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica do pai, Gabi já havia vendido o carro após a separação, e Carol esteve presente em todos os momentos, ajudando Gabi e a mãe a levá-lo onde fosse necessário. Esse cuidado foi essencial para transformar a relação entre elas, e hoje, são muito próximas. Para Gabi, isso reflete a essência de Carol: alguém que se doa, cativa e constroi laços verdadeiros. Essas vivências só reforçaram que o amor entre elas é uma escolha diária. A maturidade trouxe essa certeza. Não é apenas o desejo de estar juntas, mas a decisão de construir algo sólido. Gabi sempre foi vista como uma pessoa alegre, mas, por muito tempo, sentia que não tinha sonhos, que não se via no futuro. Até perceber que essa falta de perspectiva vinha de sua própria história e que era possível mudar isso. Hoje, ao lado de Carol, ela se permite sonhar. Planeja. Visualiza o futuro. E percebe o impacto disso em todas as áreas das suas vidas (pessoal e profissional): uma impulsiona a outra a enxergar mais longe. Gabrielle estava com 37 anos no momento da documentação. É natural de Maceió, mãe de um adolescente de 15 anos. Sempre se reconheceu como bissexual, mas entende que parte dessa vivência foi moldada pela heterossexualidade compulsória e pelas expectativas da família tradicional brasileira. Quando seu filho completou 10 anos, tomou a decisão de se assumir e iniciar um novo capítulo ao lado de Carol. Atualmente, trabalha enquanto fotógrafa e artista visual, se destacando por seus trabalhos com retratos; Além disso, é funcionária pública há 17 anos, trabalhando como secretária em uma escola. Seu tempo livre é preenchido com literatura, música e artes, suas grandes paixões. Carolina estava com 37 anos no momento da documentação. Também fotógrafa, nasceu em Maceió, mas passou boa parte da vida no Rio de Janeiro, além de outras cidades antes de retornar à sua terra natal. Seu trabalho transita por diferentes universos (ensaios, shows, casamentos) e sua paixão por música a acompanha dentro e fora da fotografia. Adora assistir a shows ao vivo, sair para beber uma cerveja e explorar a cidade. O relacionamento entre elas trouxe transformações significativas, especialmente para Carol, que sempre teve hábitos muito fixos e gostos bem definidos. Com Gabi, passou a se permitir experimentar mais, explorar novos caminhos e redescobrir o prazer da novidade. Juntas, construíram uma relação baseada na troca, no respeito e no amadurecimento. Se impulsionam a sonhar, a expandir horizontes e a se reinventar todos os dias. ↓ rolar para baixo ↓ Gabi Carol

  • Melina e Acácia | Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Melina estava com 34 anos no momento da documentação, é professora de música e artista. Atua em diversos eventos na cidade, dá aulas (inclusive para pessoas com deficiência) e trabalha com diferentes etapas da produção musical: da escrita de partituras à edição e masterização de áudios. Está finalizando a graduação em licenciatura em música pela UFPA. Nasceu em Belém do Pará e possui uma trajetória muito ligada à arte e à cena musical paraense. Acácia estava com 28 anos no momento da documentação. Também é paraense, nascida e criada em Belém. Psicóloga, atua na área clínica de reabilitação e é apaixonada pela cultura. E foi justamente essa cultura (mais especificamente a cena musical LGBT) que aproximou as duas. Melina toca há anos no Rebuw, bar conhecido por acolher o público LGBT - especialmente as mulheres. Durante os domingos, o espaço recebia o projeto Sapa Session, um ‘pagode de sapatão’ que lotava o bar com mulheres se apresentando no palco. Acácia frequentou algumas dessas edições e, em uma delas, viu Melina tocando. Já conhecia Melina por vê-la na cena artística da cidade, até que em novembro de 2023, depois do Sapa Session, resolveu segui-la no Instagram. Melina, ao ver a notificação, achou Acácia linda e seguiu de volta, mas nenhuma das duas puxou conversa. No evento seguinte, novamente no Rebuw, Melina a reconheceu na plateia com uma amiga e, sem querer, ficou reparando demais nela, brinca que era quase deselegante, o que causou uns “gays panics”. Quando o show terminou e foi guardar o equipamento, criou coragem, foi até Acácia e se apresentou, mas não continuou uma conversa, disse seu nome, prazer, e saiu em seguida. A situação foi tão inusitada que nenhuma das duas entendeu direito o que tinha acontecido. Acabou sendo uma situação engraçada. Nunca fazia isso com ninguém… Nem Acácia, nem a amiga entenderam direito. Em dezembro, pouco tempo após a primeira interação no bar, Melina e Acácia se reencontraram em um evento que misturava show e festa, em outro local da cidade. Com amigas em comum, passaram a noite bebendo e curtindo. Quando começou a tocar o brega paraense com seus melodys, tecnobrega e clássicos regionais, as duas - que amam dançar - se encontraram e passaram duas horas dançando sem parar. Não conversaram, não se beijaram, não fizeram nada além de dançar muito. Mesmo depois de tanto tempo dançando, foram embora sem trocar palavras. Melina elogiou o quanto Acácia era cheirosa e só. Quando o dia já estava quase amanhecendo, Acácia mandou uma mensagem para Melina agradecendo pela dança e pela noite. A partir daí, começaram a conversar e passaram todo o domingo trocando mensagens. Na segunda, Acácia não estava se sentindo bem, e Melina, que estava dando aula perto do trabalho dela, decidiu levar algo para ela comer. Para Acácia, foi uma surpresa total, ela não acreditou quando Melina disse que estava lá embaixo com comida esperando por ela. Ela nem esperava esse tipo de gesto vindo de alguém que conhecia há tão pouco tempo. Ficou tão inacreditada que quando desceu já foi com o celular gravando. Tinha dez minutos de intervalo entre um trabalho e outro e foi o bastante para conversarem rapidamente. Acham engraçado essa primeira interação, foi diferente e especial. Melina também não entendia direito como tinha tido coragem de ir até lá, não era algo que ela fazia, mas sabia que já gostava de Acácia de algum jeito. Mesmo sem planos de namorar ou de tomar iniciativas, algo ali já era diferente. Melina e Acácia seguiram se conhecendo nos dias que seguiram e tudo foi bastante rápido, mas com a leveza que queriam. Conversavam muito sobre trabalho, a rotina e a vida. Quando pensavam em se encontrar para comer algo, escolhiam o Rebuw, bar que já fazia parte da vida de ambas e que amavam. Acácia conta que o Rebuw virou um espaço de conforto: além da comida boa e da proximidade com o trabalho, passou a se sentir acolhida, antes mesmo de conhecer Melina. Lá criou laços com quem trabalha no bar, e a frequência dos eventos faz dar vontade de frequentar cada vez mais. Para ela, é fundamental que existam espaços como esse, voltados para mulheres, onde possam se sentir seguras… saírem dos ambientes tradicionais que muitas vezes são pensados para nos acolher. Mesmo com a conexão entre elas aumentando consideravelmente, Melina e Acácia ainda não haviam se beijado. Passavam o dia conversando e, às vezes as noites também, por chamadas de vídeo ou pessoalmente. Melina havia decidido que só se envolveria de novo se pudesse conhecer alguém de verdade antes, e assim foi. Conversaram sobre planos de vida, limites, sonhos, opiniões sobre assuntos polêmicos… e perceberam que não queriam parar de conversar. Tanto que foram duas semanas de convivência intensa: já conheciam até ambas famílias. Entenderam que estavam gostando uma da outra, mudaram até a notificação dos celulares para não perder suas notificações a cada mensagem. Depois desse tempo, o beijo aconteceu: Acácia dormiu na casa de Melina após um show e finalmente se beijaram. Foi um momento de cuidado, carregado de afeto, responsabilidade e principalmente a escuta, o que priorizam até hoje. Poucos dias depois do primeiro beijo, Acácia adoeceu e Melina ficou visivelmente apreensiva. Acácia estranhou a reação, mas não comentou muito. O que não sabia era que Melina já estava preparando um pedido de namoro todo elaborado: aconteceria no show que ela faria no final de semana seguinte, no Rebuw, claro! Queria que tudo estivesse perfeito (inclusive a saúde de Acácia). Mobilizou amigas, combinou com a equipe do Rebuw e montou um repertório romântico único. Quando chegou ao show, Acácia percebeu que havia algo diferente no ar, mas nem imaginava que era o pedido. Até que, em meio à apresentação, o momento chegou: o bar estava lotado, recebeu um buquê com as alianças e Melina anunciando o pedido. Ficou em choque, emocionada. A filmagem do pedido viralizou nas redes sociais e, por dias, elas viveram esse momento recebendo mensagens afetuosas. Sentiram que aquele gesto ultrapassou o próprio namoro porque inspirou outros casais e fez diversas mulheres se sentirem representadas. Como tudo aconteceu às vésperas do Natal, passaram a celebração juntas, em família. Brincam que a ceia foi quase um banquete em homenagem ao novo relacionamento. Mas foi, também, um momento simbólico: estar entre as famílias, de forma aberta, dizendo quem são e quem amam. Isso é o mais importante. Melina, por exemplo, levou quase dez anos para ser aceita e nunca tinha vivido uma celebração dessa forma. Esse início, marcado por cuidado, coragem… selou o que buscavam: estavam vivendo um amor para ser visto, não escondido. Queriam celebrar. E sentia que poderia confiar na relação. Melina e Acácia reconhecem que o início foi acelerado, mas foi o tempo certo. Tudo fluiu de forma intensa e natural. Depois disso, passaram a seguir os próximos passos com mais calma. Quando surgiu a possibilidade de morarem juntas, Acácia ainda tinha medo. Estava terminando de mobiliar um apartamento alugado e Melina propôs: “bora, bora juntas.” Ela disse não no início, o medo existia por conta de outros relacionamentos em que viveu dividindo um lar. Melina resolveu insistir, ao menos para conhecer o lugar. Quando chegou, sentaram no chão, com a sala ainda vazia e conversaram sobre o que significaria dividir a vida naquele espaço. O começo da relação foi como se vivessem antes do mundo acabar: faziam tudo a todo tempo. Era muito intenso, acelerado. Até que olharam uma para a outra e entenderam: estavam cansadas. Não dava para viver em ritmo de maratona todos os dias. Decidiram ir ao cinema para desacelerar, mas o cansaço era tanto que dormiram durante o filme. Resolveram ouvir o cansaço e pisar mais lento. A mudança para o apartamento veio no início de 2024. Fizeram um chá de casa nova e, depois, foram morar mais afastadas do centro da cidade. Hoje, brincam sobre como tudo mudou: já não vivem naquele ritmo, são mais caseiras e estão em paz com isso. Melina diz que essa é a relação mais saudável que já viveu. Admira a inteligência emocional de Acácia e juntas encontram um equilíbrio leve. Sente que é muito bonito e verdadeiro o quanto querem crescer - e crescem - nessa caminhada. ↓ rolar para baixo ↓ Melina Acácia

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