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Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

288 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Talita e Louise

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Talita e da Louise, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Talita também passou por uma fase muito importante e gosta de falar sobre o fato de ser uma mulher lésbica cristã. Sobre orar, fazer ceia, cantar com outras mulheres lésbicas e bissexuais cristãs. Sobre o quanto foi difícil impor isso em casa, mas também o quanto é legal ver a mãe dela, por exemplo, caminhando diariamente num processo de aceitação. O quanto fica feliz quando a mãe dela assiste algo e indica para ela e a Louise assistirem juntas porque acham que “elas vão gostar” e geralmente nesse algo (filme, série), ter algum personagem LGBT muito representativo. O quanto nesses detalhes ela também quer mostrar que o amor está ali, que ela ama a filha dela como ela é e que a relação de família que elas constróem é também um amor puro, saudável e bonito. Por fim, ela acredita que o amor entre mulheres vai contra qualquer coisa que nos é imposta, porque nós temos “liberdade”, mas até que ponto? nós temos, sim, mas não muito. Nós podemos amar, mas não em praça pública. Nós podemos postar, mas não podemos nos expor. Se formos colocar nosso amor para o mundo, é melhor termos cuidado… e se formos colocar nosso amor para o mundo sendo mulheres negras, então… é melhor termos muito mais cuidado ainda! Porque é muito perigoso. Então de fato somos livres? Se pegarmos na mão é uma afronta para alguém? Em um momento da conversa ela disse uma frase que eu queria destacar aqui, que é: “a gente tá simplesmente sendo uma mulher lésbica racializada. E se Jesus viesse na terra, na minha ideia, ele seria uma mulher, lésbica, negra. Sentada aqui. Igual a gente tá. Aqui perto da gente. E eu queria ver como iriam olhar para ela”. Nas últimas duas perguntas que fiz, uma brinquei, perguntando sobre a Luiza, elas riram e falaram que hoje são super amigas, se falam e que estão bem, tá tudo certo! O grupo voltou a ficar ativo! Vitória! E a outra foi sobre o que elas gostariam de ver acontecendo para a comunidade LGBT ter mais acesso à cidade, e elas me disseram que era acessibilidade: é o transporte, é conseguir chegar até o cinema, é sobre a classe, sobre o acesso a leitura… é sobre ter um projeto político para que as pessoas tenham acesso de verdade às coisas, de forma orgânica, ou seja, que elas entendam a importância disso. Que a gente não só sobreviva, que a gente participe ativamente da cultura da cidade, dos espaços e do pensamento crítico com representatividade, porque a Talita conta que a primeira mulher lésbica que ela conheceu de verdade foi a Louise, e se ela não tivesse conhecido? quem seria? com quantos anos ela teria tido essa referência? "A gente sente muita falta disso porque quem não tem acesso acaba só descobrindo a vida além da sua bolha muito mais tarde”. A história da Talita e da Louise te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Mas e aí? Não desgrudaram e ficaram assim? Final feliz? Não em drama sapatão do Documentadas! Uma pessoa que conhecia as duas viu e contou para a Luiza. Sendo que, a Louise, por ter estado longe nos últimos anos, nem imaginava sobre o relacionamento que as duas viveram. Então ela não entendeu nada quando recebeu diversas ligações da Luiza brigando com ela por ela ter ficado com a Talita. Foi treta atrás de treta. Nessa época elas (Talita e Louise) começaram a se ver todos os dias na praia, porque a praia era um lugar que a Talita poderia ir sem precisar dar tantas satisfações para os pais dela, ou seja, representava essa maior liberdade. E foi na praia que conseguiu explicar para a Louise tudo o que aconteceu nesses anos, tudo o que estava sentindo naquele momento, e por mais que estivesse uma situação muito turbulenta (que veio a piorar uns dias depois por conta de um momento ruim envolvendo as três), a relação dela com a Louise só melhorava, aumentando e se consolidando. Foi uns meses depois disso, em junho de 2017, que elas começaram a namorar oficialmente. De 2017 pra cá muuuuuita coisa aconteceu. Ambas cresceram muito e o relacionamento mudou muito. A Louise trouxe uma calma antes inimaginável para a vida da Talita, ela ensina a pensar mais, a ir com mais calma, caminhando mais devagar. Elas também falam sobre a importância da comunicação e do medo de ser abusivo. Hoje em dia, por sermos mulheres, caímos muito num conto de que existem poucos relacionamentos abusivos entre nós, mas a verdade é que podemos ter atitudes muito abusivas sem percebermos. Então elas falam sobre esse “medo” ser um medo bom, um medo de cuidado, algo necessário sobre ter consciência e comunicação, sobre tentar sempre pegar leve, falar sobre as coisas, serem mais abertas e sinceras. Naquele dia, a Talita contou que a versão dela foi esperar que a Luiza e a Louise ficassem bem, mas que ela não soube exatamente o que fazer, só seguiu na festa, porque sabia que elas precisavam se resolver primeiro. Os dias foram passando e como a decisão da Louise foi o afastamento total, a Talita e a Luiza continuaram ficando algumas vezes, até que: tcharam! Começou, ali, um certo relacionamento. Não era um namoro oficializado, até porque ambas eram da igreja e não poderiam falar ou postar sobre, mas elas estavam juntas. Isso durou entre o ano de 2014 e 2015. Foi um período um pouco complicado porque envolvia um certo auto ódio por conta de acharem errado e ao mesmo tempo continuarem o que estavam fazendo, não conseguiam se assumir socialmente, e também não se aceitavam completamente. Foi em 2016, quando estava com 19 anos, que a Talita percebeu que não aguentava mais viver em uma situação assim. Em setembro ela resolveu comemorar o aniversário de um amigo no Acústica, um bar no centro do Rio, que representou por muitos anos um ambiente altamente jovem, boêmio e alternativo. Lugar que a Louise, que já tinha voltado, a morar no Rio, frequentava muito naquela época também. Nesse dia, ela não foi, mas a Talita conta que para ela ter ido, foi quase como um divisor de águas. Ela se sentiu liberta, beijou outras meninas e se divertiu sem medo de outras pessoas olhando. O fotógrafo tirou uma foto em que ela aparecia junto com outras pessoas, no palco, com uma latinha de cerveja antártica na mão. E, adivinha você, quem viu essa foto nas redes sociais do Acústica? a Louise. Ela salvou a foto, mandou para umas amigas que tinham em comum e que ela ainda conversava (que não eram diretamente da igreja, mas que frequentavam o mesmo grupo), falando “será que ela finalmente se assumiu?! será que ela está indo no Acústica?! ela ta bonitinha, né?! acho que vou mandar mensagem pra ela!” e então pediu o número da Talita para o ex dela (lembra? aquele do começo da história!). Foi quando ela mandou mensagem e elas acabaram passando o dia conversando. Nessa época, logo em seguida, é o aniversário delas - ou seja, elas fazem aniversário em datas bem próximas - então pela volta da comunicação, aproveitaram de se reencontrar pessoalmente também. Pensaram em ir no Acústica, marcaram, aconteceu, foi tudo super engraçado, a Louise bebeu demais e dormiu a festa toda, acordou no fim da festa e por uma coisa meio sem explicação, meio impulso&destino&álcool, elas ficaram. Combinações que encaixam completamente. Elas também encaixaram. E não desgrudaram. Foi por conta da igreja que a Talita e a Louise se conheceram, lá em 2012, mas a Louise nunca fez parte da igreja. Calma, eu explico! Ela fez um cursinho pré vestibular e conheceu uma menina chamada Luiza (grava esse nome, Luiza vai fazer parte da história por um bom tempo!). A Luiza era da igreja e chamou o pessoal para ir em um evento que teria lá, por ser divertido, ter música, conhecer pessoas legais… e a Louise topou. Chegando lá, ela viu logo a Talita e se surpreendeu pelo fato da Talita ser muito nova (na época, tinha 14 anos e a Louise 18) e sabia tocar muito bem. Todas fizeram amizade e formaram um grupo de amigos (e muitos mantêm amizade até hoje). Naquela época a Louise já sabia que gostava de meninos e de meninas, mas tinha uma tendência maior a ficar com meninos por conta de todas as questões sociais que isso envolvia. Foi então que começou a namorar com um dos meninos do grupo (por sinal, primo da Luiza) e um tempo depois descobriu que a Luiza gostava dela. Ela não se sentia confortável estando nessa situação e os encontros com o grupo ficavam cada vez mais desconfortáveis, então optou por terminar o relacionamento e na época até tentou algo com a menina, mas por conta da igreja e de todo os preconceitos que envolve o corpo de duas mulheres juntas, elas não conseguiram manter nada. Foi bem difícil para as duas, seguiram a amizade e o grupo, mas os sentimentos eram sempre bastante misturados. A Louise sempre respeitou isso e todos os limites sobre até onde poderiam ir nas suas relações, até que um tempo depois disso tudo aconteceu uma festa de ano novo (nessa época, a Talita já estava com 16, e a Louise e a Luiza com 19), e durante a festa tiveram um momento típico de “deixar o que houve de ruim no ano que passou”, então elas conversaram, entenderam que não iriam dar certo mesmo, ficaram bem, seguiram a festa… e quando amanheceu… a Louise viu a Luiza beijando a Talita. Na hora ela ficou muito triste, magoada, porque ela não entendeu as coisas direito, elas eram muito próximas, tinha muita amizade envolvida e o sentimento a mais pela Luiza também… foi aí que decidiu pegar suas coisas e ir embora. Depois desse dia, ela literalmente sumiu da vida de todos do grupo, inclusive se mudou de cidade. Nunca mais viu os amigos “da igreja”, nem manteve contato com eles. A história da Talita e da Louise é uma daquelas que dou risada no começo porque a primeira frase que ouço depois do “como vocês se conheceram?” é um “ai meu deus, vamos lá!”. Então, antes de começar o texto, eu queria deixar aqui um: ai meu deus, vamos lá! Hahahaha. Brincadeiras à parte, essas meninas ganharam 500% do meu coração do começo ao fim dessa história. A Talita tem 23 anos, é formada em letras, já trabalhou como editora de livros e também foi livreira, e a Louise tem 26, é formada em enfermagem, mas também fez um pouco de biologia e de filosofia. Ambas deixaram de lado suas formações para lançarem a Pega Leve, uma empresa de alimentação saudável (segue elas aquiii! entregam por toda a cidade do Rio de Janeiro!) . Além disso, a Talita é baterista. Ela começou tocando inicialmente na igreja, por ser filha de mãe e pai pastores, e hoje em dia faz parte de uma banda, a Volo Volant (curte o som deles clicando aqui! ). A Louise inclusive acompanha a banda desde o começo, vende as camisetas no show e tudo mais ♥ por conta da pandemia, os shows não estão acontecendo, mas já lançaram um EP e pretendem voltar assim que a vacina permitir! Botão Louise Talita

  • Larissa e Claricy | Documentadas

    Larissa estava com 33 anos no momento da documentação. É natural de Salvador, viveu a maior parte de sua vida na cidade grande, mas durante a pandemia de Covid-19 deixou para trás a agitação e se mudou para um lugar menor e mais tranquilo, o Vale do Capão, na Chapada Diamantina. Antes, havia sido dona de uma floricultura em Salvador e, embora sua formação fosse em arquitetura, sua atuação profissional se voltava para uma área um pouco distinta, mas sempre conectada à forma como os espaços se comunicam. Em Capão e nas viagens seguintes, Lari retomou sua carreira, direcionando seu olhar para a integração entre arquitetura e natureza. Inicialmente, morando com amigas, dedicou-se profundamente ao estudo da bioconstrução. Foi isso que a levou até Serra Grande, município próximo à Itacaré (onde nos encontramos): um amigo engenheiro desempenhou um papel importante na sua rede de apoio, chamou ela para trabalhar com bioconstrução por lá. Claricy no momento da documentação estava com 37 anos. Nasceu em Niteroi, no Rio de Janeiro, e se formou em economia. Após anos trabalhando no setor corporativo, começou a refletir sobre como poderia equilibrar sua vida profissional com seus valores pessoais em uma sociedade hipercapitalista. Decidiu, então, fazer uma mudança significativa: se mudar para Itacaré, em busca de uma vida mais simples, saudável e reconectada com o que realmente importava. Chegou à cidade sozinha, sem influências externas de amigos ou familiares, em uma tentativa de ‘resetar’ e se reconectar consigo mesma. O que inicialmente era para ser uma estadia de apenas um ou dois meses acabou se transformando em uma permanência de dois anos. No começo, Clari se encantou pela variedade de eventos e atividades que a cidade oferecia, mas logo sua paixão se voltaria para a natureza ao redor e para o estilo de vida mais tranquilo e genuíno que passou a adotar. Assim que Claricy chegou em Itacaré, cruzou com a Lari num aplicativo de relacionamentos e começaram a conversar. Trocaram seus perfis nas redes sociais, mas não marcaram um encontro de fato. Entenderam que Itacaré é um local muito pequeno e que provavelmente iriam se esbarrar em breve. Foi o que aconteceu, acabavam se esbarrando com certa frequência e sempre aos finais dos eventos - naqueles momentos meio que de bar em bar, fim de noite. Acontece que, por mais que interagissem online, pessoalmente mal se cumprimentavam, Lari nunca trocava olhares com a Clari e isso deixava ela num misto de chocada, intrigada… Não entendia o motivo. O tempo passou e num dia Lari interagiu com ela pelo Instagram e ela respondeu falando a verdade: “Você conversa comigo a beça aqui mas pessoalmente finge que nem me vê”. E então a ficha da Lari caiu: ela não fingia, ela realmente não via. Não estava percebendo as pessoas ao redor com a atenção que deveria. O tempo seguiu passando e Clari foi ficando mais difícil. Segundo ela, é porque Lari estava sempre se envolvendo com algum ‘carinha’ por aí. Lari confessa que era verdade: ela nunca tinha namorado e vivido de verdade uma relação com alguma mulher… e isso era um empecilho para Clari. Até que chegou um dia específico que um samba estava no fim, naquela mesma linha de encontros “de bar em bar” que viviam, caiu uma chuva muito intensa e Lari estava indo embora, quando ouviu um samba e avistou Clari dançando - mesmo que na chuva torrencial altas horas da manhã. O samba estava bom, embaixo da marquise, ela resolveu ficar. Chegou logo do lado da Clari. Já tinham se passado meses desde a última conversa, estavam diferentes e foi naquela noite que ficaram (e se conheceram, de fato). Amanheceram na rua, depois do samba. Clari conta que ela até poderia ter ido embora porque morava próximo, mas não queria, de tão legal que estava sendo aquele dia. Foi um dia muito bom para todos, muito divertido. Quando começaram a se envolver, foi tudo diferente do que imaginavam e Lari conta como isso foi importante - a forma em si como aconteceu foi sendo um guia para fazer com que ela entendesse os abusos que sofria nas relações de uma heterossexualidade compulsória; “Porque mesmo amando me relacionar com mulheres, mesmo vivenciando isso desde cedo, aquilo nunca era credibilizado”. Desde que começaram a ficar juntas, caminharam um longo trajeto até o momento da nossa documentação. Lari, por exemplo, é uma mulher não-monogâmica que acredita nessa política, enquanto Clari tem algumas dificuldades com a prática da não-monogamia, ainda possui muitas amarras, reproduções. Então o começo foi caminhando de uma forma muito delicada e comunicativa, entendem que não poderia estar apertado nem para a Claricy, nem para a Larissa, ao mesmo tempo que deveria caber e estar gostoso, confortável. Aos poucos tudo foi caminhando e tomaram a decisão de morarem juntas. Lari já morava mais distante de Itacaré, na região onde hoje em dia possui um terreno - em que fizemos as fotos e que estão planejando construir - e foi morando juntas que se aproximaram definitivamente, ficaram no que chamaram de “grude sapatônico”. Aos poucos foram amadurecendo a ideia de construir a casa no terreno, uma bioconstrução nos moldes que Lari estuda e trabalha. E, depois do primeiro ano de relacionamento, também optaram por uma nova casa, em Serra Grande, enquanto a construção toma forma no terreno. Antes de irem para Serra Grande, passaram um tempo entre o Rio de Janeiro e Salvador, ficando com suas famílias e fechando o primeiro ano de relação. Depois do primeiro ano de relação e das viagens, moraram em uma casa em Serra Grande, mas foi uma vivência muito difícil. Não havia cômodos, por mais que elas tentassem se comunicar da melhor forma, tudo era muito misturado, apertado, sentiam que eram pessoas muito diferentes tentando viver num espaço. Por isso, optaram pela separação por um tempo. Seguiram se relacionando, mas morando em cidades diferentes - Lari voltou para Salvador, Claricy ficou na região de Serra/Itacaré. No final, as rotinas estando tão diferentes ajudavam as coisas a ficarem descompensadas. Aos poucos, tudo foi se normalizando e reconheceram o momento. Foi difícil ter a maturidade de entender o que era preciso, mas nesse processo Clari entendeu muito sobre a solidão, sobre os amigos que vivem na cidade grande e teve novas percepções sobre o que desejava para a relação. Entenderam também novas importâncias de comunicações - é preciso saber comunicar e resolver, demonstrar a emoção, terem que lidar (e que bom lidar), resolverem, melhorarem e evoluírem. Desde o começo do relacionamento, Clari ouvia muito a Larissa falar sobre sua vontade de fazer uma comunidade unindo vários terrenos no lugar em que tinha comprado o seu, no quilômetro, próximo à itacaré. Ela sempre pensava: “Eu vou ser uma visitante? Eu vou morar lá? O que eu serei nesse terreno?”. Até que Lari fez a proposta delas morarem juntas e dela ajudar em toda a construção: arquitetar e construir a própria casa. O projeto, que já está em andamento, está sendo muito bem feito e frequentemente elas vão até o local, que tem nome - “Casa Jussara” - por conta da palmeira-juçara, nativa da mata atlântica, que possui em abundância no terreno. O terreno em si ainda está em mata fechada e a ideia é preservar o máximo que der. Abriram a parte da frente para entender os pontos de construção e desejam em pouco menos de um ano ter tudo pronto. Por fim, elas acreditam que o amor está nessa forma de viver que estão construindo juntas, desde a rotina, os rituais, o saber lidar com um monte de coisa e mesmo assim conseguir desacelerar. Não se torna algo utópico, uma ideia de que tudo é perfeito, mas algo que vem se construindo mesmo em tantos desafios. É no ritual que se tem ao acordar, no ritual que se tem cuidando dos bichos, no ritual de pensar como será a casa, no ritual de colher os alimentos que plantaram por tanto tempo. Ficam muito felizes quando percebem que finalmente vivem uma relação que desejaram por tanto tempo e que merecem viver. Clari conta que já tinha lido muito sobre filosofia, muitos livros, muita coisa, pensava que entendia um pouquinho sobre amor, mas agora percebe que vive um amor muito diferente, onde precisa se amar também, e vê o quanto está sendo bom para si e para os outros. ↓ rolar para baixo ↓ Larissa Claricy

  • Bruna e Flávia

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Bruna e da Flávia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Bruna e a Flávia são duas mulheres que se encontram nessa vida através de um amor muito parceiro (e quase nômade, devido ao tanto que se mudaram nos últimos anos). Nos encontramos no Rio de Janeiro, local em que elas passaram a morar no meio do ano e que estão apaixonadas - pela praia, pela nova casa e pelos novos amigos - mas contam que já passaram por Curitiba, Belo Horizonte e por algumas cidades do interior de São Paulo. A paixão e a parceria voltam a aparecer nesse segundo parágrafo (e desculpa, mas vai ser bem difícil não soar repetitivo nesse texto porque é muito presente a forma que elas transparecem esses dois pontos) pois logo no começo da conversa a Flávia destaca que, por elas terem se mudado por conta do trabalho da Bruna, a parceria delas é algo que não abrem mão. Estão sempre caminhando juntas, se sentindo dispostas a enfrentar os desafios que encontram. A Bruna tem 26 anos e é atleta profissional de vôlei. No momento é a levantadora do Fluminense (e já esteve enquanto uma das levantadoras oficiais da seleção brasileira!). A Flávia tem 34 anos, é Personal Trainer e Fisiologista, mulher que domina muito o Crossfit e dá aula em academias. Juntas, elas gostam muito de viajar e conhecer lugares, de estar com os amigos… e de, principalmente, aproveitar a companhia uma da outra: se curtindo e dando risada. Todos os dias, tentam manter um momento só delas: deixam o celular e a TV de lado, sentam no sofá e curtem a companhia uma da outra. É algo único na relação. Flávia conta que no começo era a mais tímida e a Bruna a mais extrovertida - que as pessoas naturalmente gostam muito da Bruna - e que era mais difícil elas quererem sair com os amigos, geralmente elas faziam de tudo para estarem sozinhas. Pelo fato do relacionamento ser à distância, acreditamos que isso também influenciava nelas quererem um momento só delas, claro. Mas hoje ela enxerga tudo com outro olhar, se sente mais aberta, mais à vontade e gosta de estar fazendo novas amizades, saindo por aí, sente que inclusive se permite ter mais confiança nas pessoas… É algo que destaca o quanto foi bom (e que nela acrescentou) ter aprendido ao longo dos anos. No começo do relacionamento foram dois anos à distância e por conta da pandemia os campeonatos de vôlei foram suspensos, fazendo com que Bruna tivesse um tempo sem planos para novas mudanças. Por mais que os pais dela estivessem morando em Curitiba, ela nasceu em São Paulo e elas já tinham passado por Piracicaba e Osasco, então alugaram um apartamento em Piracicaba e conseguiram ficar lá alguns meses. Foi uma experiência muito feliz morando juntas (inclusive, viram que deu super certo e decidiram realizar a União Estável). A relação da Bruna e da Flávia vem, como elas mesmo intitulam: “num encontro de almas”. Ambas passaram por dois relacionamentos longos e bastante tóxicos, sendo mais jovens e isso acabou gerando um certo trauma e uma insegurança ao se envolver novamente com alguém. Elas se conheceram em 2016, quando ainda estavam em seus relacionamentos, em meio aos campeonatos esportivos (e inclusive torceram uma pela outra), mas só vieram a ter interesse em se conhecer melhor dois anos depois, através de um dos melhores amigos em comum. Por mais que se sentissem machucadas e desacreditadas no amor, quando se conheceram algo ali fez florescer a possibilidade de algo dar certo. Foram com muito cuidado para não cometer os erros do passado, sempre investindo ao máximo em comunicação e em serem sinceras sobre os sentimentos, não deixar para depois ou empurrar algo... esconder alguma coisa… assim, conseguiriam consolidar confiança. Desde então, já passaram por muitas coisas - e elas devem estar pensando “Ufa! Coloca MUITA coisa nisso!”. A Bruna se assumiu para a família (que naquela época jamais aceitaria e hoje vivem uma relação bem bacana ♥) (e que, também, teve um apoio muito legal das colegas de time e do técnico, importantíssimo de ressaltar), além disso tiveram as mudanças, a mãe da Flávia passou por uma situação de doença familiar bastante difícil afetando sua autonomia, Bruna inclusive viajou para a China nesse período, mas nunca deixou de dar apoio e suporte. Enfim, todas essas situações (e tantas outras, né?) serviram para que elas chegassem à conclusão do significado de suporte: elas se entendem enquanto uma balança. Quando uma não tá muito bem, a outra dá o apoio, assim vice-versa. Elas estão ali realmente como um impulso uma para a outra, um levantamento diário. Comentam sobre a pandemia em relação ao esporte, o trabalho, as mudanças, como isso diariamente vai afetando e como diariamente também elas se impulsionam, é um esforço que vai do levantar até o ir dormir e que é conjunto, não parte apenas parte de uma dentro do relacionamento. Para elas, o amor é puro. É como uma entrega gratuita que vem de dentro para fora. E é sobre essa troca diária que elas fazem: necessita dedicação e muita entrega, mas você também recebe. Isso engloba amigos, famílias, relacionamentos românticos… E essa troca é justamente fazer sem esperar nada em troca. Na hora, a gente ri, porque parece não fazer sentido, mas faz, né? Achamos que faz. Elas entendem que a sociedade precisa de muito mais amor porque o amor e carinho são capazes de salvar as pessoas (e sobretudo, ajudá-las). Bruna entende que o amor acontece naturalmente, mas que em um casamento com o convívio diário se torna uma escolha: Escolher amar o outro pelo compromisso, responsabilidade e respeito mesmo nos momentos de dificuldades e discordâncias. Flávia comenta o quanto sente o amor latente pela mãe dela, pois sua família é a sua base e sempre estiveram por perto, sendo sua mãe seu braço direito, sua amiga. E o quanto foi forte o baque da doença. O amor é também um processo de amadurecimento - e esse amor, que elas têm, é como o que abraça todas as outras coisas: o acolhimento, o cuidado, o suporte e um verdadeiro “tô contigo para o que for”. O que vale também para a Bruna, que desde o começo acompanha e dá suporte e forças para enfrentar: não tem jeito, eu disse que ia ficar repetitivo, porque é isso o que elas realmente são > é amor de parceria. Bruna Flávia

  • Renata e Marcela | Documentadas

    Amor de Arte - Renata e Marcela clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Luciana e Joana | Documentadas

    Amor de Flor - Luciana e Joana clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Dani e Aline

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Dani e da Aline, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Hoje em dia elas brincam que não chegaram a namorar porque a Aline não deixava elas namorarem, nunca quis assumir esse namoro porque não queria prender alguém naquela vida. Mas brincam porque passavam o dia das namoradas juntas e inclusive a Aline comprou um presente de dia das namoradas pra ela e desistiu de dar por esse medo de assumir algo que fosse contra o que ela ideologicamente dizia - mesmo que elas soubessem que, no fundo, estavam juntas. Acreditamos que a brincadeira existe hoje em dia justamente por entendermos que isso era um processo dela entender o seu próprio tempo, porque naquele dia mesmo, a mãe dela inclusive estava radiante e super feliz por elas estarem juntas ali comemorando o dia. E a própria relação da Dani com a mãe da Aline era algo que sempre mexia e tocava muito ela também. Nesse começo de relacionamento que não era relacionamento (mas era! hahaha só não conta pra elas, tá?), a Dani se mudou de Friburgo para Miguel Pereira, também no interior do Rio, e depois, em Miguel, surgiu a oportunidade de voltar a morar no Rio de Janeiro. Nessa época a Aline havia se mudado para o Rio há pouco tempo atrás com a mãe e, quando elas já estavam aqui, tudo foi acontecendo e acharam um local perfeito do qual conseguiriam adaptar todo ele para que fosse confortável manter a nova vida delas enquanto um casal, a mãe com suas necessidades e poderem bancar financeiramente as cuidadoras e enfermeiras que o momento pedia para auxiliar no dia a dia dentro de casa. Era muito natural que a mãe da Aline fosse pensada em primeiro lugar e isso nunca foi visto como um peso ou algo sofrido para a Dani. Inclusive, era bastante o contrário. O carinho com que ela trata e relembra dos momentos que tiveram juntas é algo realmente emocionante. A mãe da Aline era uma pessoa que, mesmo enfrentando um momento muito difícil, nunca deixou de ser risonha, leve e brincalhona… e a Dani a acompanhava nas brincadeiras. Estavam sempre se divertindo. As cuidadoras mesmo, até hoje, frequentam a casa delas e dizem o quanto sentem saudade do lugar onde moravam todas juntas. A Dani comenta sobre ter sido um encontro, realmente, um encontro de pessoas que estavam dispostas. Ela entende que talvez se fosse outra pessoa, não conseguiria aguentar ou não estaria disposta. Mas para as três foi natural, elas estavam ali. Não era nenhum pouco fácil, mas a Dani era um contraponto, era uma alegria, uma diversão, alguém que chegava e alegrava. Quando se conheceram, a Dani morava em Friburgo, no interior do Rio de Janeiro e a Aline morava em Nilópolis, na baixada fluminense. Elas conversaram rapidamente no aplicativo e a Dani não continuou muito o assunto, se sentiu com pouca confiança, com o papo chato. Por outro lado, a Aline nem se quer pensou que ela tinha papo chato, pelo contrário, se questionou com um “nossa, por que será que ela parou de falar?” e tudo ao redor colaborou com o afastamento porque a Dani ficou sem internet e era feriado de Páscoa… porém a Aline aproveitou o feriado e puxou um novo assunto, mandou um simples: “Feliz Páscoa!”. E era o bastante para a Dani entender que ela não estava sendo chata, que a Aline queria conversar e seguir aquele papo deixado de lado anteriormente… deu certo! A partir de então, conversaram dias e dias até se encontrarem pessoalmente, no Rio de Janeiro. É impossível falar de como começou a história da Aline e da Dani (ou contar a história da Aline e da Dani, sendo o começo ou não), sem citar a presença da mãe da Aline. Durante dez anos, a mãe dela passou por uma doença desmielinizante que era incurável, ou seja, gradativamente ela foi perdendo a voz, os movimentos, se tornou dependente… e quando a Aline conheceu a Dani ela já passava pelo momento de dedicar 100% da vida aos cuidados da mãe. Por mais que ela conhecesse pessoas e fizesse amizades, era uma pessoa muito arredia e fechada aos relacionamentos. Já tinha vivido um casamento e não se via embarcando em uma nova relação (não só por ela, mas por achar injusto com a outra mulher… por achar que ninguém merece se ver em uma situação assim). E mesmo encontrando pessoas legais que desejassem ter algo sério ou montar um projeto de futuro, ela criava barreiras para que isso não acontecesse porque não era capaz de enxergar esse futuro naquela circunstância. No meio disso tudo, a Dani chegou trazendo uma perspectiva totalmente diferente. A ideia era não precisar escolher entre abrir mão de tudo pelos cuidados da mãe ou abrir mão da mãe para poder aproveitar a vida, mas sim, incluir a mãe nos projetos de vida. Com muita persistência a Dani foi mostrando isso diariamente (mas não de forma incisiva obrigatória, foi uma persistência que acontecia naturalmente por querer ver as coisas bem), ela foi atrás de uma cadeira de rodas, de uma readaptação à vida e ao mundo novamente já que a mãe da Aline não tinha contato com a rua (para divertimento) há muito tempo… elas passaram a trazer muita vida de volta ao lar. Jantares, viagens, sorrisos, piadas, animação e divertimento. Aline tem 38 anos, é jornalista, carioca, faz mestrado em Mídias Criativas e tem uma rotina suuuuper intensa no trabalho! Enquanto a Dani tem 53 anos, também é carioca e trabalha enquanto designer… nos hobbies, adora cozinhar e deseja ainda se dedicar um dia a estudar mais sobre gastronomia, na área voltada à padaria e confeitaria. É na cozinha - e mais especificamente, no café da manhã - o ponto de encontro mais importante do dia. Quando sentam à mesa, junto com o sobrinho que mora com elas, é que constroem o espaço de conversa, de partilha da comida, de acolhimento e de debates sobre tudo o que está acontecendo no dia a dia. Elas comentam que são pessoas que adoram agregar as coisas - desde a família, os assuntos e o afeto - tudo é muito agregador. A Dani e a Aline se conheceram em um aplicativo para mulheres, no ano de 2016. A Dani não sabia da existência de aplicativos que mulheres poderiam usar além do famoso Tinder, foi então que a tia dela (que também é lésbica) indicou e insistiu para que ela instalasse para conhecer novas pessoas. Ela se convenceu, instalou mas percebeu que não tinha quase ninguém e quis desistir, mas mais uma vez a tia insistiu e disse que talvez ela devesse baixar a faixa etária que estava colocando e procurar por algumas mulheres mais novas. Ela achou isso absurdo, mas colocou e então apareceu a Aline. O que mais chamou atenção no perfil da Aline foi a frase em destaque, que era algo como: gayzista, esquerdopata, feminazi, etc. Achou divertido e começaram a conversar logo sobre eles: os opostos complementares dos signos. Para explicar o amor entre a Aline e a Dani é importante destacar que uma é o oposto complementar da outra. E esse papo de oposto complementar, por mais que tenha muito sentido pra quem adora falar de signos (e sabemos que entre as mulheres que beijam mulheres é um assunto muito comum), no caso delas, vai muito além de astros: elas se complementam em seus elementos o tempo todo. A Aline é mais pé no chão, explosiva e sentia dificuldades de se entregar à diversas coisas antes da chegada da Dani. E a Dani chegou com muita leveza, muita fé, um alívio na própria presença e no deixar fluir. Juntas elas foram se encontrando (uma encontrando a outra e ambas se reencontrando em si) e a Aline foi ensinando muito para a Dani também (a receber críticas, a ouvir os outros de formas diferentes e a estar vivendo algo novo). Tudo aconteceu porque elas sempre tiveram propósito. E ter propósito não quer dizer que será fácil - até porque não foi, elas enfrentaram muitas barreiras juntas e não romantizam as dores e os perrengues diários - mas durante a conversa, diversas vezes ambas falam o quanto a vida melhorou por escolherem se permitir viver isso e o quanto isso continua refletindo no querer estar junto e seguir criando planos e construindo uma vida lado a lado. A Aline e a Dani falam, por fim, sobre a urgência de termos uma cidade que fale com seu povo, que respeite sua população de verdade - mas respeitar não significa apenas que duas mulheres consigam sair de mãos dadas na rua à tarde em um bairro nobre se quando voltam está tendo tiroteio na porta de casa e não conseguem entrar em segurança. Falamos de uma cidade em que conseguiremos viver com dignidade pela nossa existência. Com menos violência e menos guerras, menos violência contra mulher, menos genocídio nas favelas. Com comida, água, saneamento básico, acesso às educações e saúdes. É uma urgência de mudar as coisas pela base, de acreditar nas pessoas, de tirar o foraBolsonaro do poder e de não desacreditar, de fazer a nossa parte. De não normalizar a questão de tudo estar errado. É uma cidade em que esse respeito chegue para todo mundo, e principalmente: até onde hoje em dia ele não chega. Quando falamos sobre a pandemia e sobre o que estamos vivendo atualmente, elas falam que diariamente enfrentamos muitos problemas e que não há como enxergar algo de positivo na pandemia ou no governo foraBolsonaro em si, mas que é muito importante reconhecermos onde estamos: se estamos aqui, se elas estão juntas ainda, se superamos isso dia após dia e se nossos relacionamentos resistem é porque estamos realmente dispostas, é porque queremos muito. E além disso, é também porque queremos construir nossos planos… não queremos só nos imaginar com a pessoa que amamos, mas estar lá ainda, viver o que sonhamos, querer seguir construindo coisas tão boas e tão bacanas como, no caso delas, foram esses anos juntas. A Dani conta o quanto estar dentro de casa também tem feito repensar e se comunicar de formas tão diferentes. Às vezes ela vê algo de uma forma e a Aline enxerga por outro ângulo, analisa com um olhar muito diferente, com outra cabeça, outra vivência, outra idade. É uma forma de expressão que está sempre em aprendizado. E juntas elas acabam virando referência para as sobrinhas, para as crianças da família, vão construindo confianças e conversando também com elas sobre todos os tipos de assuntos, porque isso é também falar de amor. A Aline comenta uma frase, que é: “nada que você confessar vai me fazer te amar menos”, e então completa “mas eu sei que você não tem nada para confessar (porque eu já sei de tudo sobre você)” e isso, para ela, fala sobre o quanto a gente se entrega quando ama e o quanto está disposto para ouvir do outro também, conhecer o outro com todas as formas dele. E a Dani diz que, para ela, amar é ter parceria, resiliência, respeito e resignação. É ceder para ganhar lá na frente. E é também uma mistura de preocupação, de afeto e de abraço. Na época em que moravam juntas (as três) e que cuidavam da mãe da Aline, a Dani trabalhou por um tempo enquanto motorista de aplicativo e falou muito sobre a realidade dura dos trabalhadores autônomos no Brasil. Como é uma correria ter alguém debilitado em casa, estar trabalhando durante horas, passar por diversas situações de risco e mesmo assim chegar em casa disposta. Ela cita novamente a sensação que era chegar e ver um sorriso ou chegar e ter um tempo com a Aline também, porque de certa forma elas tinham um momento delas, um tempo para que pudessem se conectar e estarem juntas e o quanto esse momento era precioso. Elas comentam que são muito felizes pela forma que a história se construiu, pois entendem que cada casal possui a sua história e que a história delas tem uma pessoa tão importante no meio que é a mãe da Aline e que para sempre possuirá um carinho gigante no coração delas. Identifico na história delas uma potencia gigante de entendimento sobre o que é o amor entre mulheres, não só romanticamente enquanto mulheres que se relacionam em suas relações sexuais, mas sobre algo que só poderia ser explicado por uma relação baseada entre três mulheres: a forma que elas se encontraram, se ajudaram e se amaram. A troca entre a Dani e a Aline é o amor entre um casal e o acolhimento delas com a mãe da Aline é algo que só o amor entre mulheres é capaz de fazer. Por mais que os homens saibam acolher, nunca seria dessa mesma forma, nunca caberia nessa mesma relação, porque não teria esse olhar. Por mais que fosse uma pessoa incrível, a forma colocada seria diferente. E se fosse um pai, ao invés de uma mãe? Seria totalmente diferente. Se a Aline fosse um filho homem ela teria que procurar uma esposa para ajudar a cuidar e não o contrário, como ela fez, porque essa esposa é a mulher que faz o papel do cuidado que nos é socialmente imposto e designado. Mas não, nessa relação, não. Tudo, enquanto três mulheres, foi completamente natural: elas se encontraram, se acolheram e se amaram. Daniela Aline

  • Ingra e Lara | Documentadas

    Lara estava com 25 anos no momento da documentação. É natural de Ilhéus, morou lá a vida toda e atualmente trabalha enquanto psicóloga infantil atuando com crianças neurodivergentes. É uma área que ama trabalhar: lidando com crianças portadoras de autismo, acompanha principalmente as que estão na transição para a adolescência. Adora estudar e acolher todas as questões, analisar os comportamentos e estar nos ambientes escolares, no dia-a-dia da criança em si, sair do espaço da clínica num momento de consulta. Além do trabalho, também adora estar em Salvador visitando os amigos (inclusive foi lá que fizemos a documentação acontecer) e também gosta de ir até Itacaré fazer alguns passeios. Ingra estava com 24 anos no momento da documentação. Também é natural de Ilhéus e conta que cresceu com muitas referências femininas - dentro e fora de casa. Morou em São Paulo durante dois anos depois de terminar o ensino médio, enquanto ainda escolhia o que cursaria na faculdade. Quando voltou para Ilhéus, resolveu cursar psicologia. É apaixonada pelas múltiplas formas artísticas e sabe que isso influencia diretamente sua forma de ser: a arte ajuda ela a viver seus melhores momentos. Além disso, sempre soube que gostava de mulheres, mas de alguma forma não insistia nisso porque pensava que iria passar com o tempo. Ingra lembra de uma situação, quando ainda era criança, que sentia algo diferente por mulheres e escreveu num papelzinho, confessando na igreja “que por mais que sentisse que isso fosse errado por pressão social, não deveria pedir desculpas para Deus por isso, porque não era de fato maldoso”. Escondeu o papel atrás de uma santa e anos depois achou o papel novamente. Adora acessar essas partes suas que estão no passado e que complementam quem ela é hoje, de alguma forma acolhe a criança que era e a adulta que se está se tornando. Ingra procura voltar seus estudos em psicologia para gênero e sexualidade, mas também trabalha enquanto assistente terapêutica. Sua irmã mais nova possui uma síndrome rara, chamada de síndrome de rett, precisando 100% de suporte, então isso influencia na sua vontade de fazer diversos cursos e especializações - e também foi o que aproximou a relação dela com Lara. Ingra e Lara se conhecem desde a adolescência, pois estudavam no mesmo colégio, mas eram de turmas diferentes. Não eram próximas, no máximo se cumprimentavam. Lara lembra do processo de Ingra ir para São Paulo porque havia amizades em comum que comentavam. Depois de formada na faculdade, Lara já atendia crianças com deficiência (e já se entendia enquanto uma mulher lésbica também), enquanto a mãe de Ingra procurava uma nova acompanhante para sua irmã (que possui síndrome de rett). Lara conta o quanto a irmã de Ingra é famosa em Ilhéus por conta da síndrome rara que possui e diversos profissionais têm interesse em estudar o caso dela. Quando soube que Ingra estava de volta na cidade, em 2023, nem imaginava que ela se relacionava com mulheres - até lembra do seu estilo meio surfista mais jovem, dos amigos que tinha, não “dava muitos sinais” - mas uma amiga em comum comentou e surgiu um interesse. Logo em seguida, soube que Ingra havia ingressado na faculdade de psicologia e a amiga comentou “o quanto elas eram parecidas e tinham coisas em comum”. Quando Ingra chegou em Ilhéus, se sentia muito insegura sobre a sexualidade. Como se relacionar com outras mulheres na cidade em que nasceu? Conversou com sua mãe sobre, ela foi uma forte aliada, mas ainda existia muito medo das reações das pessoas na rua, principalmente por ela ser vista o tempo todo como uma mulher muito feminina. A amiga em comum que havia com Lara também foi muito importante nesse processo para desmistificar a ideia de que mulheres que se vestem e performam feminilidade não podem amar outras mulheres e viver de forma livre esse amor. Foi a amiga quem falou sobre Lara para Ingra, e assim elas interagiram no Instagram pela primeira vez - mesmo Ingra tendo certeza que provavelmente não iria dar em nada. Foi num restaurante o primeiro encontro de Lara e Ingra, depois de conversarem alguns dias online. Antes de sair, Ingra estava tão nervosa se arrumando que a mãe logo notou e perguntou se ela iria encontrar alguma mulher. Ela havia comprado até uma roupa especial, que conseguiu garimpando em algumas lojinhas do centro. Chegou ansiosa, atrasada e mais arrumada do que Lara esperava - o que, de toda forma, não era ruim. Lara, que não é de ficar nervosa, ficou. Conversaram e foram desenrolando a ansiedade, o que foi muito legal porque sentiram tudo mais leve. Mesmo Ingra sendo tímida e não gostando de se abrir sobre a vida logo de cara, adorou que Lara fez tudo fluir, as conversas seguiram bem. Acabaram se beijando no primeiro encontro, algo que até então não era comum para Ingra, mas ela se mostrou confortável e até saiu de mãos dadas do local. Foi algo marcante porque nos dias seguintes demonstraram o quanto gostaram e queriam continuar se encontrando. Lara apresentou seu primo para Ingra, passaram o ano novo juntas de um jeito simples e calmo, no mês seguinte oficializaram o início do namoro e por mais que fosse um início rápido, sentem que a dinâmica foi tradicional e no tempo que se sentiram bem. Ingra fala sobre o amor que a sua família criou por Lara e como isso foi fundamental para quebrar muitos medos que tinha enquanto uma mulher que ama outra mulher ao se pensar vivendo coisas tão básicas como apresentar a namorada para a família e/ou ter momentos em família. Quando contou para sua mãe que estava indo encontrar Lara, ela ficou feliz por saber quem Lara era, conhecer seu trabalho e admirá-la enquanto profissional, então desde sempre apoiou, mas respeitou/esperou elas começarem a namorar para serem apresentadas oficialmente. Marcaram uma janta na casa da família de Ingra para que Lara fosse apresentada oficialmente enquanto namorada, mas dois dias antes esbarraram com a mãe dela, na pracinha do bairro, comendo acarajé, então se conheceram antes do previsto. O dia era de comemoração:a mãe dela havia acabado de se matricular na faculdade de psicologia - curso que tanto Lara, quanto Ingra, já cursaram. A janta aconteceu de qualquer forma e foi até melhor que o esperado: Lara chegou e a mãe de Ingra já apresentou a filha mais nova sabendo que Lara iria gostar de conhecer. Haviam outras crianças em casa porque ela chamou alguns vizinhos para comemorar um aniversário de bonecas que criou de última hora com os brinquedos da pequena, Ingra estava focada em cozinhar a janta, e Lara se divertiu com a criançada. Ao mesmo tempo que estava nervosa por conhecer uma família grande e muitas crianças, estava num lugar muito confortável por estar com o que mais ama - as crianças. Comenta, também, que mesmo a irmã da Ingra não verbalizando, ela tem um olhar muito marcante e ficou nítido o quanto elas se deram bem naquele primeiro momento, era o que a deixava mais feliz saber que tinha dado certo. E foi apresentada como namorada de Ingra, recebeu um sorriso de todos, sente que foi aceita desde o início. Na família de Lara, elas sentem que sua mãe sabe mas ainda está no processo de aceitação, então vivem isso frequentando a casa e entendendo que o tempo age aos poucos. Desejam cada vez mais construir o relacionamento que possuem enquanto uma família - seja unindo suas famílias, se vendo enquanto uma unidade familiar sendo duas mulheres que se amam e, esperam que daqui um tempo, adotando uma nova vida sendo mães e gerando uma nova família. ↓ rolar para baixo ↓ Ingra Lara

  • Wan e Lívia

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Wan e da Lívia, quando o projeto passou por São Paulo! A Wanessa e a Lívia são duas mulheres que adoram viajar, desbravar lugares novos, cachoeiras, praias e vivenciar novas culturas. Foi numa dessas viagens que elas se conheceram, na Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte, em 2016. Wanessa é Pernambucana, mas na época morava em Natal, enquanto Lívia é paulista e desbravava as terras de João Pessoa, na Paraíba. Eu sei, muitos lugares para um primeiro parágrafo, né? Mas avisei que elas gostavam de viajar. Pois bem, foi na praia (ou melhor, nesse vilarejo), que elas se conheceram durante as férias. Se deram bem, o romance foi acontecendo, mas teriam que voltar para suas vidas, uma em Natal e outra em João Pessoa. Assim, à distância, viveram um ano. Quando em 2017 a Wan foi, junto com a filha, Alice, morar em João Pessoa. Durante a nossa conversa, Lívia e Wan falaram sobre como se veem enquanto muito parceiras, sobretudo porque os primeiros anos do relacionamento foram em um lugar que não tinham familiares por perto e conviviam com um grupo de amigos pequeno (do qual a maioria também não era de João Pessoa). Isso fez com que elas se conhecessem muito, convivessem um tempo maior juntas e que também gostassem muito da companhia. Descobriram, desde o início do relacionamento, uma forma de confiança direta, porque tinham como contar uma com a outra - ou melhor, em trio, junto com a Alice. ♥ Por mais que elas tenham morado 5 anos em João Pessoa, nosso encontro e a documentação ocorreu em um novo lar: São Paulo. Depois do início da pandemia, a Lívia já tinha concluído o mestrado (motivo que fez ela se mudar para a Paraíba) e passou para o doutorado em uma universidade paulistana, enquanto a Wan conseguiu um trabalho bem legal em São Paulo também. Com a mudança, vem um desafio que elas não tinham experimentado até então: conviver mais perto dos familiares e amigos, ter uma base próxima, diferente de João Pessoa. Elas até comentam que a chegada da pandemia, diferente do impacto que teve para quem convive com uma base grande de pessoas próxima, acabou sendo diferente para elas, pois já estavam acostumadas com esse núcleo menor, entre as três. O mais diferente mesmo, já chegando no novo lar, foi entrar numa nova rotina de conhecer vários amigos (que antes, eram amigos só da Lívia), ter a família por perto e novos compromissos. Elas brincam, inclusive, que geralmente os casais passam por isso no início - o processo de se adaptar à uma rotina familiar da parceira - e que elas passaram anos depois. Mas que, de toda forma, está sendo muito gostoso. Pela primeira vez os finais de semana estão cheio de eventos (visitar sobrinhos, festas de formaturas de primos, almoços em família…) mesmo que elas já estejam na cidade há meses. Durante a mudança, primeiro a Wanessa veio, para começar a trabalhar, enquanto a Lívia ficou organizando o que trazer e organizando a vinda da Alice também… e ah! É muito importante ressaltar: a Alice a-m-a viver em São Paulo com as duas. Durante as fotos, perguntamos em tom de brincadeira: “bora voltar para o Nordeste?” e ela respondeu “Só pra visitar!”. No momento da documentação, Lívia estava com 32 anos. Ela faz doutorado em Sociologia, com ênfase em Ciência Política e atua como socióloga. Wanessa também estava com 32 anos. Ela trabalha enquanto Analista de RH, sendo especialista em Diversidade e Inclusão - e atenção aqui! Está sempre em busca de mulheres que estejam na área das artes (redatoras, editoras, produtoras, diretoras de arte, etc) (olha a oportunidade aí!). Hoje em dia, em São Paulo, seus gostos e suas rotinas são em torno de sair para comer, descobrir lugares novos e - de vez em quando - ir para shows e parques. Lívia diz que o amor para ela é viver assim: sonhando, viajando e crescendo juntas. Na sociedade patriarcal e racista que vivemos, ter esse amor é muito difícil, então por mais que pareça simples o que elas vivem, é algo muito político e revolucionário. A Wan completa que não é nenhum pouco simples. Amar é compartilhar, elas são muito companheiras e isso envolve muito esforço. Quando a Lívia fala sobre as questões patriarcais e raciais, Wan traz o quanto é poderoso nos questionarmos. Explica quantas vezes, por exemplo, que por a Alice ter a pele um pouco mais clara pensam logo que ela é filha da Lívia e já fazem essa conclusão sem perguntar, e como dá um nó na cabeça das pessoas quando elas respondem que a Wan é a mãe. “A importância de nos questionarmos o tempo todo antes de agirmos, de pensarmos outros modelos de sociedade, de nos permitirmos viver fora de padrões já estabelecidos.” Por fim, elas contam também como tem sido viver em São Paulo, por ser uma cidade muito mais diversa e aberta sobre casais homoafetivos, em contrapartida do governo que vivemos, que representa cada vez mais a legitimação do fascismo e que nos coloca medo em muitos momentos que estamos nas ruas. Quando o foraBolsonaro foi eleito, sentiram uma tristeza absurda. E mesmo sabendo que seria muito ruim o que viria nos próximos quatro anos, é inexplicável o quanto piora a cada dia que passa em níveis que não saberíamos que era possível piorar. A Lívia fala sobre como as pessoas se sentem à vontade para expressar a raiva e o ódio que sentem, não existe pudor ou vergonha nos atos de violência, e a Wan complementa que mesmo que ela tenha um trabalho que fale sobre diversidade e que viva em São Paulo, as coisas mudaram muito nos últimos três ou quatro anos. Por fim, elas comentam também sobre a vivência que tinham em João Pessoa, por entender a cidade enquanto um espaço que carrega ainda traços colonialistas e que tinham medo de certas demonstrações. As pessoas ao redor delas, por exemplo, não sabiam que elas eram casadas - apenas um núcleo pequeno no trabalho ou amigos próximos. Hoje em dia, viverem como casal e falarem sobre isso é coragem e liberdade, mas também é sobre estarem em um espaço de segurança, num lugar que permite mais diversidade e com pessoas que pensam da mesma forma que a gente - que também se preocupam com elas, formando uma base próxima, de cuidado e afeto. Wanessa Lívia

  • Luiza e Milena

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luiza e da Milena, quando o projeto passou pela Bahia!. Foi numa manhã que se emendou para um começo de tarde em Salvador que encontrei a Milena e a Luiza (e a Tapioca, claro!). Fizemos as fotos na Praia da Paciência, sentamos num bar para conversar e fui convidada para ir até a casa delas almoçar e conhecer um pouquinho do espaço que conquistaram e construíram juntas nesses anos que se relacionam. Lugar que me contaram com muito entusiasmo existir espaço para cuidar das plantas, para a Tapi correr e brincar, para compartilhar legumes e frutas com os vizinhos, mas que também foi um caminho árduo de percorrer até chegar nele, com perrengues e apartamentos completamente diferentes que passaram. Luiza conta como é diferente a relação que ela aprendeu a construir com Milena, começando pelo o quanto conversam: conversar mudou a sua vida. Nunca tinha se visto num espaço de tanta conversa e de conforto. Sente que respiram juntas, podem ter conversas que duram dias, mas seguem juntas. Fala também da importância de terem começado a terapia nesses processos que viveram (entre mudanças, casamentos, saírem de casa…) e o quanto foi fundamental para processar seu próprio tempo. Hoje em dia, aprenderam a pedir desculpas. Não gostam de joguinhos, entendem que não há orgulho próprio na relação, tendem a ter mais parceria assumindo erros ou assumindo funções na casa para que elas aconteçam na rotina. Deixam claro que são esposas, não amigas. Não querem que o relacionamento caia numa amizade, por isso respeitam os espaços individuais e sempre voltam ao lar entendendo o encontro único que possuem enquanto uma família. Milena no momento da documentação estava com 40 anos, ela é natural de Salvador, trabalha como atriz e coordena/faz produção de palcos numa casa de eventos no Rio Vermelho. Como hobby, adora fazer jiu jitsu. Luiza no momento da documentação estava com 29 anos, também é natural de Salvador, já trabalhou (e trabalha de vez em quando) enquanto atriz, mas hoje em dia seu foco é enquanto designer. Na pandemia, precisou fazer a transição de carreira porque tudo estava sem perspectiva na área das artes cênicas, o dinheiro apertou e ela foi trabalhar enquanto designer numa orquestra. Como hobby, Luiza pratica tecidos acrobáticos. Milena também teve seu momento de começar novos trabalhos na pandemia por conta de estar sem perspectivas, foi quando fundou uma marca de sabonetes naturais. Hoje em dia, vende apenas aos mais próximos. Foi durante o ano de 2018 que se conheceram, quando Milena chegou na companhia de teatro que a Lu fazia parte. De início elas se tornaram muito amigas, se davam bem em cena e sempre queriam contracenar juntas. Acreditam numa sintonia muito grande porque sempre “jogavam” bem juntas, desde cenas de improviso, até cenas já marcadas. E assim foram criando suas amizades. Ambas tinham seus relacionamentos - e ambos relacionamentos tinham seus momentos bons e ruins. Durante o carnaval, Milena abriu o relacionamento com a ex-companheira dela, e na quarta-feira de cinzas durante uma festa a ex-companheira da Luiza comentou sobre Milena e a Luiza fazerem um casal bonito. Na hora, as duas acharam isso estranhíssimo. Nunca tinham se visto com outro olhar, sempre foram só amigas e não deram muita bola. No decorrer da festa se beijaram, mas também acharam estranho. Nunca haviam se olhado enquanto paixão ou de um jeito com segundas intenções e só ficou um clima estranho. Como a festa estava sendo em casa, a Milena saiu e foi fazer coisas de casa, ignorando as pessoas que estavam ali, e na hora da Luiza ir embora foi se despedir. Naquele momento, eram só as duas, e aí elas se beijaram novamente. Naquele ano em diante trabalharam juntas fingindo que nada tinha acontecido e seguindo seus relacionamentos. Saiam, bebiam e até de vez em quando trocavam olhares ou algum carinho, mas nunca chegavam tão perto e no dia seguinte fingiam que nada tinha acontecido. Ambas viviam processos de separação, conversavam bastante quando se encontravam, mas era confuso o que sentiam. Foi quando Lu precisou viajar e antes decidiu conversar com Milena sobre tudo o que estava sentindo. Marcaram na praia (inclusive, a praia que fizemos as fotos) e quando chegou lá recebeu a notícia da Milena: “Vou casar. Você vai se separar. Isso não tem nada pra dar certo.” e nesse ponto concordaram, beleza. Mas concordaram também que sentiam alguma coisa uma pela outra, né?! Só que não iria dar certo, então entraram num acordo que era isso, que teriam que engolir esse sentimento e seguir a vida. Foram para um bar, tomaram uma cerveja e depois, quando precisaram ir embora, chegaram no ponto de ônibus e a Luiza perguntou se elas não iam dar um beijo só. Milena indignada disse “Você não ouviu NADA do que falamos até agora né????” porque acordo é acordo. Deram um abraço e foram embora. Com o tempo, seguiram se encontrando no trabalho, saindo, vivendo como viviam. As coisas não mudaram muito. Até um dia que se beijaram e chamam de “Beijo consciente”, visto que já tinham consciência do que poderia acontecer, tinham conversado e sabiam do que sentiam. A conversa desde aquele dia na praia também deixou claro que elas se gostavam, e daí foi o caminho de entender o sentimento, finalizar os outros laços e trabalharem esse processo interno para darem o beijo consciente. Antes do “Beijo consciente” Luiza conta o quanto a Milena terminava com ela diariamente. Ela falava “Lu, a gente não pode se falar mais.” E depois de uma hora falava “Esse silêncio tá fazendo sentido pra você?” risos. Era uma confusão. Mas uma confusão que precisavam viver também. Viveram muitos momentos de instabilidade referentes não só a relação das duas, mas os términos dos outros relacionamentos, questões familiares… estava tudo misturado. Em agosto daquele mesmo ano começaram a namorar, quando já tinham saído de suas antigas relações. Durante a pandemia ficaram na casa de uma/da outra, com suas mães… e em fevereiro de 2021 elas se casaram. Foram alugar uma kitnet, da qual visitaram iluminando com a lanterna do celular, vendo baratas no chão, tudo super estranho, mas falaram: é aqui! Juntaram o que conseguiram, compraram o que deu para comprar, construíram o espaço e adotaram a Tapi, uma vira-lata já na fase adulta. Para a Luiza, a única coisa capaz de mudar o mundo é o amor - e junto dele está o respeito, a liberdade. Na relação com a Milena consegue enxergar o quanto elas se amam e querem se ver crescendo juntas. Hoje em dia estão conversando sobre engravidar, construir uma família, ver o amor crescendo no lar e gerando coisas, ver a entrega que as duas podem ter gerando coisas para além delas. Desejam, também, ter uma base de amor. Hoje em dia enxergam a casa enquanto a base, um lugar seguro para serem quem são. Têm segurança de que são amadas. Pensam em gerar e educar porque desejam uma cidade que estejam representadas, que seja educada e que também eduque os homens. Falam sobre o quanto é cansativo ouvir coisas dos homens o tempo todo na rua e o quanto também se sentem muito menos seguras ao redor dos homens. Comentam que foram no Festival de Verão de Salvador (um dia antes de nos encontrarmos) e estavam rodeadas de LGBTs e o quanto se sentiram seguras, o quanto isso foi representativo. Desejam uma cidade que não seja violenta. ↓ rolar para baixo ↓ Luiza Milena

  • Alice e Glauci

    Alice e Glauci moram em um apartamento super aconchegante em Porto Alegre, junto com suas cachorras, Pitanga e Amora. Elas estão juntas desde 2018 e se encontraram pela primeira vez lá mesmo, no apartamento, onde fizemos as fotos. São mulheres que gostam de cuidar da saúde (e aprenderam a gostar disso durante a pandemia). Trocam diversos estudos sobre diversidade, passam os fins de tarde no parque, saem para tomar cervejas, fazer a feira (e o rancho, como dizem os gaúchos) e sabem se divertir juntas: seja montando quebra-cabeças ou fazendo festa junina em casa. Além de todas as atividades que fazem por pura diversão, elas se comprometem todos os sábados com um trabalho voluntário de distribuição de marmitas às pessoas em situação de rua lá em Porto Alegre, o PF das Ruas (projeto que o doc, sem querer querendo, também já teve ligação ♥ então quem não conhece, vale muito conhecer!). A Alice tem 32 anos, é analista de experiência em um banco e nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde morou até os três anos de idade. Depois disso, passou a infância em uma cidade chamada Lagoa Vermelha, também no Rio Grande do Sul, e aos quinze anos se mudou para Porto Alegre para estudar. A Glauciene tem 26 anos, trabalha como Analista Digital/Customer Experience no mesmo banco que a Alice, mas em áreas diferentes, visto que uma atua no banco físico e outra no banco digital. A Glauci estuda ciências contábeis e a Alice faz pós graduação de MBA em Diversidade e Inclusão, sendo, inclusive, líder de Diversidade LGBT dentro do banco em que trabalha. Foi ocupando este espaço em que entendeu cada vez mais a importância de estudar e se aprimorar. Elas acreditam que as políticas públicas precisam ser direitos de todos, como diz a teoria e a constituição, de forma decente, e com cuidado: cuidar de todos desde a educação até o acesso à cidade. É o que mais desejariam ver acontecendo em todo o país. Alice fala o quanto ela sente medo e sente a falta de segurança atrapalhando o seu dia a dia, por não se sentir segura andando pelas ruas de Porto Alegre, e que sempre pensa em uma realidade diferente em que possa ter acesso a algo tão básico como sair na rua sem medo. Em 2018, foi numa breve conversa através de um aplicativo de relacionamentos (o famoso Tinder) que elas se conheceram. Digo breve porque logo a Glau sumiu, por meses não respondeu e a vida seguiu. Até que numa sexta-feira ela apareceu, mandou um “Oi”! E aí papo vai, papo vem, naquele mesmo dia Alice resolveu chamar ela para sair no dia seguinte, mas ela resolveu propor de se verem na sexta mesmo, um pouquinho mais tarde, se arrumavam e se encontravam. Alice já estava convicta de que ela sumiria de novo, até que o interfone tocou! Elas ficaram um tempo no apartamento dela e decidiram ir para uma festa, onde encontrariam uns amigos. A Glau deixou algumas coisas na casa da Alice e elas brincam que foi “propositalmente” para voltar lá depois, no fim da noite. O beijo demorou um pouco para sair, em vários momentos uma achou que a outra fosse tomar a iniciativa e ficou nesse vai-não-vai. Até que finalmente aconteceu. Depois de voltarem para a casa juntas continuaram se encontrando, a Glau passou as férias na casa da Alice e no ano novo juntas em Santa Catarina aconteceu um pedido de namoro, com piadas internas entre amigos para lembrarem das alianças e tudo. Elas contam que construir o relacionamento não é nenhum pouco fácil. Um dos momentos mais difíceis enfrentados aconteceu logo no começo, quando a avó da Alice faleceu. Era a comemoração de um mês juntas e foi um baque muito grande, muito intenso. Ao mesmo tempo que tudo era muito triste, foi também surpreendente ver a Glau tão forte ao lado dela, porque pessoas que conheciam a Alice há muitos anos não deram tanto apoio como ela recebeu da Glau, e isso significou muito, foi como um estalo sobre ela poder dar um verdadeiro voto de confiança. Elas contam também que o convívio por conta da idade não foi fácil, além disso, passaram por momentos de desemprego, a Alice chegou a trabalhar como Uber, a Glau já não se sentiu em casa e teve a casa enquanto um lar… todos esses momentos fizeram parte de construções em que foram cedendo para que continuassem firmes. É sempre uma conversa e escuta ativa para entender como podem melhorar, como o lar pode ser das duas, como as coisas podem ser melhores para ambas… e como elas podem estar em sincronia. Conversam muito sobre as questões que aparecem no dia a dia. Passaram momentos que as fizeram crescer muito, que hoje estão num patamar de muito amadurecimento e parceria… Mas não foi nenhum pouco fácil. Alice não é muito de falar o que está sentindo, já a Glau tem mais facilidade para falar sobre as coisas… tudo precisa ser medido, equilibrado. Por fim, elas contam que juntas entendem o amor como se conhecer de verdade. E quando o conhecimento acontece, ele já não dói mais, é quase que ao contrário… não ter essa pessoa na sua vida é que dói. Amar é também sempre buscar melhorar, para você, para o outro e para todos. Alice Glauci

  • Leticia e Giovanna

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Leticia e da Giovanna, quando o projeto passou por São Paulo! Acredito que a história da Letícia e da Giovanna fala muito sobre a forma que elas lidam com as coisas felizes e, sobretudo, difíceis. Não é nenhum pouco fácil ter uma história que já tenha passado por tantos desafios como a delas e seguir com tanta fé no sentimento que vivem, na relação que constroem e no que sentem uma pela outra, ainda mais sendo algo que ainda não passou por completo: vivem uma rotina delicada diariamente. Claro, a cada mês que passa conseguem enxergar o quanto evoluem juntas, mas é algo que vivenciam, e não que já passou por completo. Essa dificuldade girou sempre em torno da não aceitação do namoro por parte de uma das famílias. Como elas se conhecem desde a infância e moram na mesma rua, Letícia há alguns anos já era bastante próxima, frequentava a casa da Giovana e criou um laço de amizade forte com a mãe da Giovana, foi auxílio para a família em diversos momentos difíceis, era amada por todas e tratada como uma filha postiça. A mãe algumas vezes questionou, tinha um receio de que as duas se envolvessem, mas como ainda era um momento inicial de descoberta para elas e tinham medo da reação, negavam. Num dia, Giovanna decidiu contar a verdade, até que tudo saiu do controle. Infelizmente, vivenciaram situações difíceis de não aceitação e desrespeito. Foram meses sendo ignorada pelo pai dentro de casa, o que deixou Giovana muito triste e culpada. Não ter mais ele como um amigo, ela deixar de ser a filha idealizada, tudo machucava muito. Foi preciso muito tempo - e muita paciência das duas para as coisas mudarem aos poucos. Com isso e com a insistência eles foram entendendo o relacionamento delas (e até incluindo a Letícia em alguns dos planos e eventos que aconteciam). Mas tudo ainda é um processo. Letícia, no momento da documentação, estava com 24 anos. Ela é de São Paulo, capital, e trabalha enquanto biomédica, intercalando entre o trabalho em laboratório e a sala de aula; No tempo livre, adora jogar vôlei. Giovana, no momento da documentação, estava com 22 anos. Também é de São Paulo e está se formando em veterinária, trabalha no estágio e faz plantões aos finais de semana; Adora cuidar do corpo, já praticou lutas e hoje em dia ocupa parte do seu dia na academia. Elas estão juntas sempre que podem. Adoram tudo o que é relacionado à natureza. Gostam de cachoeiras, de jardins. Na cidade, adoram coisas simples como ir ao supermercado, passear em lojas. Brincam que até comprar pão de queijo vira um grande evento. Letícia conta que sua cultura familiar é bem diferente, entende que por lá as coisas sempre foram mais fáceis. Já tinha outros LGBTs na família e quando viveu seu processo contou para a irmã primeiro. Por mais que nenhuma vivência inicial seja fácil, entende que a dela não tenha sido tão difícil porque houve maior respeito. Porém, ter sua cultura mais libertadora, faz com que seja mais difícil aceitar alguns limites que foram impostos para a Giovanna e ter mais vontade do imediatismo. Foi preciso aprender a ser mais paciente do que imaginava. Como estudaram na mesma escola e moravam na mesma rua, Giovanna e Letícia se conheceram desde muito novas. Letícia, por ser alguns anos mais velha, era amiga do irmão da Giovanna. Não se falavam muito porque, segundo a Gi, Letícia tinha cara de brava… mas, depois de adolescentes, Letícia se apaixonou por uma amiga da Gi e isso fez com que se aproximassem e ficaram amigas. Em outubro de 2018, bom tempo depois, Giovanna entendeu que sentia algum tipo de atração pela Letícia e resolveu se abrir com ela. Enviou um texto gigante explicando o que sentia… e ela… sumiu. Letícia conta que chegou a responder, mas que ficou em choque, não sabia como reagir e se sentiu muito insegura. Meses depois, em janeiro, respondeu com outro texto. Elas conversaram e a Letícia a convidou para ir num casamento, como acompanhante. Neste dia, depois da festa, se beijaram pela primeira vez. Porém, sentiram que o beijo não encaixou e fingiram que nada tinha acontecido, seguiram amigas. Com a amizade voltando, se encontravam todos os finais de semana. Até que se beijaram outras vezes, e outras, outras… tornou-se frequente. Foram 6 meses de encontros. Nesses meses, Giovanna se dizia hétero, mas estava ficando com a Letícia. Depois, até entender e processar, no seu tempo, começaram de fato a namorar. Quando a família da Giovanna descobriu sobre o namoro e tudo ficou muito difícil, ela estava no começo do estágio e foi bastante acolhida pela chefe. Conta também que foi muito importante tudo isso não ter acontecido durante a pandemia (e sim antes) porque seria tudo mais difícil, como um cárcere privado. Ela vivia entre regras muito rígidas de horários para chegar, satisfações para dar, colocavam uma culpa muito grande em cima dela e também da amizade que a Letícia tinha com a mãe dela. Prometiam dar carro de presente se elas terminassem ou coisas do tipo. Mantiveram o namoro marcando encontros em lugares aleatórios e pensaram em desistir várias vezes, mas seguiram juntas em todos os momentos. Aos poucos, a família toda da Giovanna foi aceitando (para além dos pais). Em um evento importante, por exemplo, foram todos juntos de carro. Com o passar do tempo, a Letícia conseguiu até abraçar o pai dela (coisa que nunca imaginaria no início), foi realmente um processo, por mais que não se falem muito, reconhecem o grande avanço. Na pandemia em si, mesmo a Letícia não podendo estar dentro da casa da Gi, ela ia até o portão, fazia de tudo para se mostrar uma pessoa presente, fazia as compras do mercado para eles e eles foram reconhecendo seu esforço. Por um tempo, a mãe da Giovanna precisou de cuidados de saúde e foi a Letícia quem ajudou, trazendo também uma amiga enfermeira para dentro de casa. Acreditam que mesmo com as situações ainda difíceis - porque nem tudo passou - continuam aqui e não desistem porque cada vez mais falta menos para a Giovanna se formar e conquistarem tudo o que sonham: principalmente, a independência. Letícia acredita que amar é a essência do ser humano e que mesmo as pessoas não sendo carinhosas, elas podem demonstrar o amor de outras formas. Traz sua mãe como exemplo, que não demonstra tanto amor nos atos de carinho em si, mas que sempre a ensinou a amar. Diferente da mãe, ela ama beijar, abraçar e demonstrar. Se vê totalmente disposta a ajudar. Giovanna sente que pelas marcas da vida passou muito tempo se blindando de sentir coisas, não se permitindo demonstrar afeto. Aos poucos, tem se permitido cuidar mais, sentir mais o toque, mas ainda mantém o pé no chão, cuida de quem se permite confiar. Por fim, verbalizam o quanto desejam ficar juntas, construir uma família e viver coisas juntas. E concluímos: merecem tudo isso. ♥ ↓ rolar para baixo ↓ Letícia Giovanna

  • Isabela e Maitê

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isabela e Maitê, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Hoje em dia é comum ouvirem o quanto estão diferentes depois do namoro, o quanto amadurecem juntas e recebem bastante apoio dos amigos. Ainda existem algumas questões que entendem que vão melhorar aos poucos e se mostram dispostas a isso. Já enfrentaram questões de LGBTfobia dentro de casa e Maitê comenta que se pudesse mudar algo, mudaria o preconceito. No mais, amam estar juntas, assistir um zilhão de reality shows, jogos, ir ao bar, beber cerveja, estar com o grupo de amigos, e rir à toa de besteiras. Maitê sente que o amor entre mulheres não precisa necessariamente ser diferente de outros relacionamentos envolvendo homens, mas reconhece que o amor que constrói com a Bela se tornou muito mais completo: a conversa, o carinho, a cama, tudo. No geral, entende que a vida não é um conto de fadas, porque sempre existem muitos desafios, mas que as coisas se encaixam quando se há respeito e carinho. Por mais que o começo do namoro estivesse sendo muito confortável, Maitê ainda tinha contato com a ex-namorada e a família dela, então em alguns momentos ainda se balanceava. Sentia que não estava sendo completa na relação com a Bela - que percebia isso também - mas decidiu manter a relação pela paixão que sentia. Bela comentou que há muito tempo não se sentia realmente apaixonada por alguém - e que inclusive, achava que não iria mais se apaixonar novamente - então estava disposta a construir uma relação, passando por cima dos problemas e desafios. Depois de pensar muito e por mais que a Maitê entendesse que gostava da Bela e do relacionamento delas, optou pelo término. Não era justo estar pela metade na relação, não estava respeitando a sua companheira e nem ela própria. Sentia que estava tudo muito atropelado, não queria acabar sacaneando a Bela a longo prazo, precisava se entender e olhar ao redor, entender a situação toda. Mesmo depois do término elas continuaram conversando e Maitê aproveitou o tempo para pensar, amadurecer um pouco e, mais tarde, decidiram por voltar. A volta significaria diversas mudanças no relacionamento, desde comunicação e escuta mais ativa, até o jeito que elas se preocupavam uma com a outra e se apoiavam. Entendem que esse foi o verdadeiro começo de relacionamento, porque levaram muito mais a sério e com responsabilidade. O período anterior é mais considerado o momento em que elas ficavam, o namoro mesmo aconteceu na segunda parte da história. Elas se conheceram no Tinder, em julho de 2019. Bela não estava afim de relacionamentos e queria sair da rede social, foi quando deu match com Maitê (“match não, super like!”). Enquanto Bela queria sair, Maitê estava entrando. Tinha terminado um relacionamento recentemente e queria conhecer pessoas novas. Elas conversaram e decidiram se encontrar, num dia chuvoso, em Botafogo, no Rio de Janeiro. O encontro foi regado a muito atraso por Maitê morar em Niterói e ter enfrentado horas de trânsito. No fim, acabaram curtindo o date e se curtindo também. Dias depois marcaram de se ver novamente. Assim foi passando… fins de semana, casa de amigos… até que quando viram, logo no primeiro mês, estavam bastante juntas. Sabe aquela história de sapatão que adota gato? Claro, aqui temos. Mas foi a Bela quem adotou, quando estava na casa da Maitê e acharam uma gatinha por lá. Depois de um tempo, Bela entendeu que estava se apaixonando, mas não sabia até que ponto os sentimentos eram recíprocos. Maitê comenta que também sentia uma certa paixão pela Bela, mas que ainda precisava entender como estava realmente se sentindo após o término do relacionamento que ela teve. Não chegou a viver um momento totalmente sozinha para respirar e processar as coisas, sentia diversas questões internas. Foi um começo complicado e turbulento. Ambas se viram num momento do qual entenderam que não queriam começar um relacionamento, mas também já estavam muito envolvidas. Maitê se via balançada, Bela acabava se sentindo insegura… e assim se passaram alguns meses, entre ficar e não ficar. O ano virou e antes do carnaval decidiram começar a namorar. Quando pergunto o que elas pensam sobre o amor entre mulheres, Bela responde que o amor por si só pode parecer fácil, mas na verdade ele é bastante complicado. Por mais que devesse ser a coisa mais natural do mundo, é algo que precisa ser trabalhado todos os dias. “Amor é não julgar e sim acolher”. É também uma luta cotidiana. Nós, mulheres, precisamos lutar pelo amor (por amar outra mulher, pelo amor próprio, pelo nosso cuidado)... e nosso amor é diferente justamente pela luta que ele envolve. “Acabamos que nós, por termos lutado para chegar até aqui, damos mais valor. Não terminamos por qualquer coisinha, porque o tempo todo nos entregamos muito. Não precisa ser diferente só por ser alguém do mesmo sexo, mas por entender o caminho que tivemos que enfrentar para poder amar”. Isabela tem 31 anos, é designer e trabalha na área de UX e marketing digital. Passou um tempo se sentindo travada no design, sem saber que caminho poderia seguir, até que descobriu a área de UX e diariamente cresce estudando e trabalhando. Maitê tem 28 anos, se formou em nutrição e está cursando educação física. Quer trabalhar enquanto personal e sonha em futuramente fazer uma pós voltada à nutrição. É completamente apaixonada por futevôlei, esporte do qual Bela também está aprendendo a amar e se tornou uma das coisas que mais gostam de fazer juntas: assistir (pessoalmente ou na TV), acompanhar os campeonatos e jogar na praia. < Maitê Isabela

  • Julia e Vitória

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Júlia e da Vitória, quando o projeto passou por São Paulo! Júlia e Vitória são apaixonadas por moda, saúde da mulher, conversas longas, besteiras que fazem rir por horas, gatos e pela vida social com as amigas na cidade que moram, Campinas, interior de São Paulo. Possuem uma história de vida totalmente diferente: Júlia adora debater política e acredita que os atos políticos estão presentes em tudo o que fazemos. Sempre foi instigada pela família a ser uma pessoa argumentativa, questionadora. Vitória, por sua vez, vem de uma família muito conservadora. Frequentou a igreja até a adolescência, o pouco que sabia sobre política não achava que era tão importante - e era em ano eleitoral. O relacionamento significa uma revolução para as duas. Vitória aprendeu a olhar tudo sob uma nova perspectiva, reconheceu a importância dos debates e do pensamento crítico, enquanto Júlia aprende a compreender sua praticidade: nem tudo é tão direto, tão incisivo. Precisa entender o tempo das pessoas de processar, enfrentar e saber lidar com seus processos. Júlia conta que sempre viu o amor no lugar de incentivo, de afeto, de impulso e entende que amar é sempre algo coletivo, nunca individual. A família sempre incentivou (a ler, escrever, ouvir músicas, ter contato com o mundo). Depois da separação dos pais ficou cada vez mais próxima da mãe e percebe que sempre foi fácil entender as relações de gênero, o cuidado que uma mulher tem por outra. Sendo assim, não consegue separar o amor de algo político, sendo ele o familiar ou o romântico, que possui pela Vitória - e quando cita ela, só consegue dizer o quanto a admira, o quanto é fácil amá-la, se orgulha da força que possui e do quanto estão crescendo juntas. Finaliza com um “que mulher foda!.” Vitória, no momento da documentação, estava com 25 anos. É natural do Paraná, mas mora em Campinas, São Paulo, desde criança. Trabalha enquanto fisioterapeuta, focada na saúde da mulher, adora falar sobre sexualidade e tudo o que envolve o corpo feminino. Juntas conversam muito sobre os assuntos que envolvem sua profissão, dentre eles o parto. Ressaltam a importância de ter mulheres que estudem sobre mulheres porque até hoje a maioria das coisas que temos foram homens que decidiram. Falando sobre isso, Vitória faz o recorte sobre o quanto poder conversar e enxergar esses debates no relacionamento acrescenta na vida dela: impulsiona e demonstra o quanto querem crescer em conjunto. Júlia, no momento da documentação, estava com 34 anos. É natural de Campinas, São Paulo e trabalha com comunicação social, unindo o jornalismo e relações públicas, num ateliê. Conta que pela primeira vez pode ser ela mesma num ambiente de trabalho e como isso tem sido gratificante. Juntas elas adotaram um gato - o Kovu - e dividem vários hobbies em comum, entre eles o amor pela moda. Acreditam que a forma de se vestir também é um ato político. Amam performar feminilidade e o “choque”/a reação que as pessoas demonstram ao saber que são duas mulheres muito femininas se relacionando amorosamente. Foi em 2020 que elas se conheceram num bar. Não tinham muitas coisas abertas por conta da pandemia de Covid-19, mas foram num aniversário e se viram. Na época, Vitória estava se envolvendo com uma pessoa, mas lembra de ter visto a Júlia de tranças, dançando. Num segundo encontro, se esbarraram e ficaram, mas tudo foi muito confuso, passaram a conversar, Vitória viu a Júlia ficando com uma pessoa um tempo depois, chorou e entenderam que estavam apaixonadas uma pela outra. Ficaram mais algumas vezes, até que no começo de 2021 começaram o relacionamento. Foi um início difícil por conta da Vitória morar com os pais e eles não saberem da orientação sexual dela, além de não darem muita abertura para a conversa. Porém, estava cada vez mais insustentável ela não se sentir bem dentro de casa. Por mais que o amor entre a família exista, ela tinha medo de como iriam reagir, e também de como iria sair de casa, se sustentar… Vivia sob constante pressão. Aos poucos se estabeleceu financeiramente, procurou uma casa e foi criando coragem. Contou para a família num sábado, fez a mudança na terça e manteve a relação da melhor forma possível. Hoje, segue no mesmo lar, com o gatinho e com a Júlia visitando o tempo todo. Vitória fala sobre como a religião é difícil, mas sempre fez parte do que ela foi. Nunca se julgou, nunca achou que fosse um erro ou uma aberração ser quem ela é, diferente do que pregam. Em certo momento, entendeu que o que ouvia na igreja não fazia mais sentido pra ela, então decidiu parar de frequentar. A parte mais difícil foi explicar isso para a família, sente que colocavam uma expectativa muito grande nela, então acabou decepcionando os pais, arranjava desculpas para não ir ao invés de falar diretamente o que sentia e o processo demorou muito mais para acontecer. Quando conheceu a Júlia, vivia um momento diferente, mas complicado. Explica que a Júlia ter enxergado ela e dado uma chance para que vivessem um amor tão bom como vivem só faz admirar e amar cada vez mais tudo o que ela é (e o que são juntas). Além disso, acredita que amar independe de quem as pessoas são. Você deve sempre apoiar quem se ama. Júlia conta que sua descoberta para ter uma relação com mulheres foi praticamente inesperada, porque aconteceu enquanto uma “zoeira”, numa experiência de trisal. Não entendia e nem pensava muito sobre o que estava acontecendo. Foi entender quando ficou sozinha com a mulher e viu que isso incomodou o homem. Debateu, pensou sobre, entendeu o próprio corpo e então tomou protagonismo na história. Hoje, fala muito sobre as formas que o patriarcado toma conta das relações – ainda que sobre duas mulheres. E na sua relação com a Vitória dividem o máximo que podem, se comunicam e tentam traçar um caminho diferente. ↓ rolar para baixo ↓ Júlia Vitória

  • Vitoria e Vanessa | Documentadas

    ↓ rolar para baixo ↓ Vitória, no momento da documentação, estava com 25 anos. Nasceu em Fortaleza, mas passou a maior parte da vida em Salvador. É estudante de administração e está procurando emprego atualmente, pois deixou seu último trabalho para fazer a mudança para Trancoso, acompanhando a Vanessa. No tempo livre, se dedica a estudar inglês, buscar freelas, e também adora ir à praia, uma de suas atividades favoritas. Vanessa, no momento da documentação, estava com 24 anos. Nasceu em Mutuípe, no interior da Bahia, mas viveu grande parte da vida em Brasília. Há dois anos, se mudou para Salvador à trabalho, e depois disso para Trancoso. Vanessa é engenheira civil e trabalha na área de obras. Assim como Vitória, ela ama estar na praia, e também gosta de acampar, embora ainda não tenha explorado essa parte em Trancoso. Vanessa compartilha o objetivo de melhorar seu inglês, algo que considera essencial para os planos que tem em mente: viajar pelo mundo. Foi em Trancoso que elas encontraram uma nova fase da vida, unindo os desafios profissionais e pessoais. Além disso, ambas têm em comum a paixão por viagens, então constantemente poupam dinheiro com o propósito de realizar seus sonhos pelo mundo, planejando novas experiências juntas. Vanessa conta que ainda na época em que vivia em Brasília, recebeu a notícia de que a empresa que trabalhava abriria uma filial em Salvador, fazendo obras. Em fevereiro de 2022, mudou-se para a capital baiana por conta do trabalho, deixando a família em Brasília. Apesar de ter parentes na Bahia, eram mais distantes, o que levou a buscar novas conexões, então baixou um aplicativo de relacionamentos para conhecer pessoas e foi ali que encontrou Vitória - ou Vick, mais carinhoso, né? O primeiro encontro aconteceu em março, e desde então as duas não se desgrudaram mais. Inicialmente, os encontros aconteciam apenas nos finais de semana. Vitória, que morava com a mãe, o padrasto e o irmão, costumava passar boa parte do tempo no apartamento de Vanessa, fornecido pela empresa. Lá, o ambiente era tranquilo, juntas compartilhavam momentos em casa, festas, passeios… e durante a semana a rotina voltava ao normal. Até que com o tempo a frequência dos encontros aumentou. O que antes era apenas nos finais de semana passou a incluir as sextas-feiras, segundas e, depois, quintas… quartas… Até que as roupas da Vick já estavam lá, já tinham uma escova de dente de casal… Apesar dessa convivência intensa, o relacionamento ainda não era chamado de namoro. Vanessa, que no começo queria curtir, se viu surpresa com a rapidez de tudo. Era uma experiência muito nova - ela nunca tinha se relacionado com outra mulher - e também já era muito independente, morava sozinha há um tempo. Do nada era chapinha para um lado, escova para o outro… ficou pensando: “O que está acontecendo aqui?!”. Tudo mudou em junho, quando decidiram oficializar o namoro. Nesse ponto, Vitória praticamente já dividia o apartamento com Vanessa, pegando suas coisas da casa da mãe e voltando para lá. Elas já sabiam o quanto se gostavam, por mais que o começo ainda fosse um desafio. Aos poucos, o carinho pela Vick tornou o processo mais leve. Apesar do susto inicial, Vanessa percebeu que gostava muito da companhia, e juntas, encontraram uma forma de transformar aquele início despretensioso em uma relação sólida. No começo da relação, Vitória e Vanessa enfrentaram algumas discussões enquanto ajustavam suas rotinas e expectativas. Quando brigavam, Vitória costumava voltar para a casa da mãe. Essa dinâmica deu a elas a impressão de que ainda não moravam juntas de fato. No entanto, tudo mudou no final do ano, quando decidiram passar o natal em Fortaleza com a família da Vick. O padrasto dela estava enfrentando um câncer e havia se mudado para a cidade para fazer o tratamento, levando parte da família junto. Durante esse período, Vick permaneceu com a Vanessa em Salvador e, então, ambas entenderam: estavam oficialmente morando juntas - e por consequência, quando brigavam, não havia mais para onde voltar. A virada do ano foi o marco de uma nova fase. Viveram intensamente o verão e o carnaval, celebrando estarem juntas. Em 2023 completaram um ano de namoro, mudaram de casa, ajustaram suas rotinas de trabalho, compraram uma moto no nome das duas… Entenderam que estavam fortalecidas, ali havia um compromisso mútuo. No final de 2023, decidiram comemorar os dois anos de namoro com uma viagem ao Chile, a primeira vez que sairiam do Brasil. Ralaram muito para pagar cada detalhe: passagens, hospedagem e passeios. Enquanto isso, a vida profissional da Vanessa passava por transformações. No mesmo período em que se formou em Engenharia Civil, ela enfrentava desânimo com o trabalho e a distância da família. Escolheu não realizar cerimônias de formatura, optando por uma colação de grau online, sem grandes celebrações. Se sentia esgotada, então começou a buscar novas oportunidades, enviando currículos para outras empresas. Em março de 2024, Vanessa foi surpreendida por duas notícias simultâneas: recebeu uma proposta de trabalho em Trancoso no mesmo dia em que foi desligada da empresa em que trabalhava. Para ela, aquilo foi um sinal. Vick deu o total apoio. Em duas semanas, Vanessa reorganizou sua vida e estava morando em Trancoso. A mudança para Trancoso foi (mais) um grande fortalecimento entre a Vanessa e a Vick, principalmente pelos desafios que enfrentaram. Como o apartamento onde Vanessa morava em Salvador pertencia à empresa, precisou ser devolvido logo após a demissão. Em Trancoso, encontrou inicialmente uma kitnet, já que o custo de vida na região é alto. Durante esse período de transição, Vitória permaneceu em Salvador para resolver pendências relacionadas ao trabalho e à viagem para o Chile, planejada há meses. A viagem ao Chile foi mágica. Ambas decidiram que seria o momento perfeito para um pedido de casamento, e, coincidentemente, planejaram o mesmo cenário: um ponto turístico em Santiago. Contaram para uma amiga, que tentou ajudar evitando gastos - sugeriu que comprassem alianças mais acessíveis, deixando para comprar algo mais sofisticado na cerimônia de casamento. O plano funcionou, mas a experiência acabou sendo ainda mais inesperada por conta de uma nevasca. O passeio ao local planejado foi cancelado e o pedido aconteceu na neve. Vanessa colocou o celular para filmar e pediu que Vitória olhasse para o horizonte para registrar a cena. Enquanto Vitória se virava, Vanessa se ajoelhou, mas foi surpreendida quando Vitória também tirou uma aliança do bolso. No total ficaram com quatro alianças, três solitárias e hoje elas usam tudo de forma misturada. Ao voltar de viagem, Vick pediu demissão do trabalho que tanto gostava em Salvador para se mudar definitivamente para Trancoso. Os três meses em que ficaram separadas, vivendo em cidades diferentes, foram desafiadores para a relação. E agora estavam noivas, né?! No dia 11 de julho, aniversário da Vick, ela finalmente chegou em Trancoso. A Vanessa e a Vick refletem um amor construído diariamente, superando barreiras da convivência e das diferenças na criação. Para Vanessa, o que elas têm vai muito além de um amor idealizado ou de momentos bons. "Não é só o amor bonito - por mais que seja também - é um amor que está presente todos os dias, nos bons e nos ruins.” Ela acredita que o verdadeiro amor está na escolha de estar ao lado de alguém em qualquer circunstância, sem fugir nos momentos difíceis, como era no início. Fala do sentimento de amor como uma mãe possui por um filho: "A mãe ama o filho na pior fase dele, e isso é o que define o amor para mim. Não é algo que apaga e acende. É duradouro, e é isso que torna os dias especiais." Para Vitória, o relacionamento foi uma jornada de amadurecimento e coragem. Ela admite que, no início, era mais fácil evitar os problemas e se distanciar. Porém, a construção dessa parceria a ensinou a enfrentar os desafios e a valorizar a força que elas têm juntas. "É isso que é casamento, essa parceria de segurar a mão e enfrentar o que vier. Com o tempo, você percebe que agora não é mais só você. Existe um 'nós' que se torna a prioridade". Vitória vê esse compromisso como algo natural e poderoso: "No começo, é abstrato pensar se a pessoa vai estar ao seu lado ou não. Mas com o tempo, você entende que agora é Vanessa e Vitória juntas, sempre." Elas reconhecem que suas origens familiares são muito diferentes. Enquanto uma cresceu em um ambiente de compreensão, afeto e diálogo, a outra viveu em um contexto mais rígido, onde decisões eram tomadas com base em punição. Apesar disso, encontram na relação um equilíbrio. Brincam sobre como será a criação de um futuro filho e especulam sobre qual traço de personalidade a criança puxaria de cada uma. Vanessa Vitória

  • Ane e Thelassyn | Documentadas

    Foi na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro onde Ane e Thelassyn se conheceram (e onde fizemos as fotos para o Documentadas), no polo de Nova Iguaçu, na baixada fluminense. Em 2018, quando Ane cursava história e Thethe cursava pedagogia, frequentavam muito os centros acadêmicos dos seus cursos e possuíam diversos amigos em comum. Contam o quanto gostavam de se envolver em tudo o que podiam na faculdade, inclusive na causa animal: no campus há diversos cachorros e gatos abandonados e então participavam dos coletivos que cuidavam dos bichinhos. Ane morava numa república e estava hospedando uma cachorrinha que tinha sido atropelada e precisava de cuidados, até que Thelassyn foi doar um remédio que estava faltando e se encontraram pela primeira vez. Ane achou Thethe linda demais, ficou encantada. Por mais que Thethe brinca que não tenha acontecido nada demais, só entregou o remédio e foi embora, depois disso se encontravam de vez em quando e Ane sempre ficava nervosa. Até que um dia, durante uma manifestação política por conta do Museu Nacional ter pego fogo, se encontraram e interagiram no centro do Rio de Janeiro, conversaram e foram juntas até o ponto de ônibus, onde deram um selinho. Uns dias depois aconteceria uma festa na faculdade e Ane convidou a Thethe, elas se arrumaram juntas, lá na república em que ela morava. Depois, na festa, quando Ane finalmente achou que elas iriam se beijar, Thethe chegou até ela e disse: “Minha amiga quer ficar com você!”. Ela não entendeu nada, respondeu que na verdade queria era ficar com a Thethe, não com a amiga. E enfim o beijo aconteceu. Depois da festa e do primeiro beijo, passaram o fim de semana conversando. Até que a semana começou e decidiram se encontrar na faculdade e, depois da aula, assistir um filme na casa da Ane. Na faculdade ficaram novamente - no local em que fizemos as fotos, inclusive - e depois foram para a república, na casa da Ane. No dia seguinte, quando acordaram, a Ane convidou Thelassyn para almoçar e assim tudo foi acontecendo… passou o dia, a noite, o dia seguinte… e foi ficando. Ela ia para a casa, pegava roupas, visitava e voltava para dormir com a Ane. Depois de 15 dias, já tinha ganho até uma gaveta no guarda-roupa. Num dia, na faculdade, estava acontecendo um evento no hall de entrada, então Ane pegou o microfone e pediu Thethe em namoro - mesmo que elas já estivessem com a gaveta compartilhada no guarda-roupa. Naquela época, contam que quando não estavam juntas na república, os amigos que dividiam casa até estranhavam. Foi então que, depois de dois meses, decidiram se mudar para uma “casa de verdade”. Querendo ou não, era muito ruim na república: muita gente, uma cama de solteiro, sem ventilador.. passavam muito perrengue. Conseguiram um apartamento próximo da faculdade, dividindo com uma amiga. A mudança aconteceu sem rede de apoio, começo de namoro, sem móveis, sem programação. Ganharam alguns eletrodomésticos, mas lembram que no primeiro dia não tinham nem vassoura, prato, copos… A vida no bandejão da faculdade salvou tudo. Passaram um ano morando neste apartamento. Foram comprando móveis usados, trabalhando muito… Até que conseguiram se mudar para uma casa só delas. Neste novo lar, adotaram duas cachorrinhas, fizeram suas primeiras viagens… Ao total, até hoje, já se mudaram mais de 6 vezes. Entendem que por mais que tenha existido muito perrengue, hoje em dia estão no lar que mais amam e que mais desejaram viver. No momento da documentação, Thelassyn estava com 28 anos, terminando as faculdades de pedagogia e enfermagem. Por mais que sejam áreas bastante diferentes, conta que deseja trabalhar com o que tiver mais demanda de trabalho primeiro, mas que se for com educação, sua prioridade é escolas públicas. Infelizmente na rede particular sofreu um caso de lesbofobia, sendo demitida depois de descobrirem o relacionamento. Ane, no momento da documentação, estava com 25 anos. Ela é natural de Campo Grande, no Rio de Janeiro e se mudou para Nova Iguaçu para fazer faculdade em 2016. Hoje em dia, cursa mestrado, também na UFFRJ, no campus de Seropédica. Lidar com as adversidades no cotidiano não é fácil, principalmente por serem pessoas bastante diferentes - Ane, por exemplo, sente que precisa de mais tempo para processar as coisas, enquanto Thethe é mais ansiosa e deseja resolver os problemas logo. É preciso cuidado para não desequilibrar ou se atropelar. Explicam que o que faz elas continuarem juntas é a vontade de continuar juntas. Parece simples, mas é o que define a grande determinação de passar por cima de todos os perrengues que já passaram em nome do amor que sentem. Explicam que o mais difícil é não ter uma rede de apoio presente, acabam sendo o apoio uma da outra e, como resultado, o impulso também para o amor que acreditam. No começo, foram muito criticadas. As pessoas falavam que o relacionamento não iria durar, tiveram que se afastar da família por não terem apoio (com exceção da avó e da irmã da The, que são boas aliadas)... foi muito difícil enfrentar tudo. Hoje, ficam felizes em relembrar o que viveram desde o início e ver como superaram e passaram por cima desses comentários mostrando o amor que vivem e o que estão disposta a viver, principalmente agora, que estão noivas. Sonham com o casamento, que pretendem realizar em breve, e se permitem planejar uma vida juntas. No Instagram, é através do perfil @morandocomela que relatam o dia a dia que vivem. Foi da vontade natural de registrar os detalhes do cotidiano, quase como uma documentação, que surgiu. Não numa linha influencer, mas de mostrar as conquistas, as fotos, gravar o que acontece, as cenas com as cachorras... No começo, Ane pouco aparecia, ficava envergonhada… hoje em dia adora. Thelassyn acredita que amar uma mulher é resistir sempre. Entende que o mundo ao nosso redor ainda é muito hetero, feito por pessoas héteros e para pessoas héteros. Quando se ama outra mulher e se mostra isso, se demonstra muita coragem. Ane faz o recorte racial quando fala sobre o amor que vivem, afinal, são um casal interracial e estudam sobre o amor também enquanto política - escolher quem você ama fala sobre quem você é e sobre o próprio racismo. Conversam muito sobre práticas, falas e sobre a Ane não ser uma “wikipédia preta”. Thethe está sempre disposta a quebrar os preconceitos que são culturalmente colocados em nós e assim encontram diversas formas de viverem um amor honesto. Entendem que a homofobia está em vários cantos, desde quando saem de casa de mãos dadas e os vizinhos olham diferente, até não serem convidadas para as festas de família - “As pessoas tentam fingir que não é, mas sabemos que é”. Tentam ressignificar todo dia, trazer amor para a relação delas a fim de lidar com as coisas ruins do mundo: não gritar, brigar o mínimo possível, buscar se entender e se respeitar ao máximo. Ressignificar com amor em vários espaços. Thethe fala sobre ver muito o amor no dia a dia, com as cachorras, em casa, na varanda com a chuva caindo. Ressaltam que sempre que chovia, nas outras casas que moravam, era um tormento porque alagava tudo e hoje em dia ter a casa com varanda fez a chuva virar uma alegria… Quando chove correm para observar juntas, é um momento só delas. ↓ rolar para baixo ↓ Thelassyn Ane

  • Lorrayne e Mari

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Lorrayne e da Mariane, quando o projeto passou por São Paulo! Lorrayne conta que Mariane chegou num momento em que tudo estava muito difícil e logo foi deixando as coisas mais leves. Mari apresentou a sua família, que ensinou para a Lo uma nova forma de amor, e para além disso, adotaram os gatos, estão mobiliando o apartamento, construindo um lar. São parceiras e muito amigas. Amam o quanto parece que estão juntas há muito tempo por tudo o que já viveram - e por isso se agarram na confiança que depositam no relacionamento. Compartilham muitas coisas, dão risada o tempo inteiro. Conversam sobre a importância de valorizar o quanto são novas e já possuem certa estabilidade. Como é precioso terem uma à outra, um trabalho, uma casa… e como entendem o quanto batalham para ter isso. Não querem perder. Mesmo que tudo tenha acontecido de forma rápida (o relacionamento em si, por exemplo) possuem noção de que ainda está no começo, que ainda são jovens e que querem viver muita coisa juntas. Trazem o exemplo da virada do último ano (no réveillon) que só queriam ficar dentro de casa, porque tinham acabado de se mudar e valorizavam muito aquele espaço. O apartamento era composto por um sofá, uma cama, uma pilha de roupas e um jogo de lençol (que ganharam da tia), mas amavam tudo o que tinham. E isso também fala sobre a valorização de tudo o que adquiriram juntas desde então. Lorrayne, no momento da documentação, estava com 22 anos. Ela nasceu em São Paulo, morou até os 14 anos no interior da Bahia, depois se mudou para Minas Gerais e aos 19 voltou para São Paulo para estudar, cursando psicologia, ganhando uma bolsa de estudos e vivendo com uma tia de consideração. Lo vive com o transtorno de borderline, e conta que foi muito difícil encontrar alguém que lidasse com ela de forma paciente, que estivesse disposta a entender suas condições. Mariane, no momento da documentação, também estava com 22 anos. Ela é de São Paulo, nasceu e viveu na zona leste da capital e hoje em dia mora (e está adorando viver) na zona norte. Mari trancou a faculdade e está na descoberta de um novo curso para iniciar. Por um mês, antes de 2022, Lorrayne ficou na casa dos pais, querendo desistir da vida em São Paulo. Mas voltou e fez a inscrição para uma nova empresa, onde passou rapidamente e começou a trabalhar com a Mari (empresa da qual trabalham até hoje). Mari já trabalhava na empresa antes da Lorrayne chegar, mas sempre foram de áreas diferentes. Como a empresa é terceirizada para outras marcas, atuam em escritórios/setores diferentes, mas o atual chefe da Lo é ex chefe/e muito amigo da Mari, então ela vivia fazendo visitas e conversando muito com ele. Em março de 2022, numa dessas visitas, passou pelo andar dele e viu a Lorrayne pela primeira vez. Ela usava máscara facial (por conta da pandemia de Covid-19, usar máscara era norma da empresa) e o pensamento da Mari foi achar ela uma mulher muito bonita, mas naquele momento não interagiu. Na época, Mari não estava se sentindo confortável na área em que estava trabalhando. Não sentia que seu rendimento era bom e tinha medo de ser demitida. Decidiu pedir uma oportunidade para ser trocada de área, saiu de férias e quando voltou teve o retorno positivo de transferência. No final de maio teve um novo encontro aleatório com a Lorrayne pelos corredores do escritório, em que trocaram olhares e dessa vez a Lo notou ela de volta, até chegou na mesa e comentou com suas colegas em tom de brincadeira “É o seguinte, estou namorando!” e as meninas responderam “Mas você fala isso sempre! Quem é a próxima?!” “É a que tá ali naquela mesa, de cabelo azul!”, se referindo à Mari. Naquele dia, Lorrayne não perguntou pra ninguém o nome dela. Foi tentando encontrar o perfil no instagram, achou e seguiu. Porém, nos dias seguintes foi atestada com Covid-19, ou seja, ficou 10 dias afastada do trabalho e elas não se encontraram mais. Depois que Lorrayne voltou para a empresa, soube que haveria uma festa junina. Mari, por sua vez, sabendo da festa, deu um jeito para estar presente (lembrando que ela não trabalhava na mesma unidade/mesmo escritório que a Lo e deu um jeito de ir até lá no dia da festa, pensando em participar do correio elegante - ato de mandar uma cartinha, brincadeira comum em festas juninas). Nem imaginava que a Lorrayne teria a mesma ideia e mandou um bilhete pelo correio antes mesmo dela. Pesquisou a letra de uma música da banda favorita que descobriu através de postagens no seu Instagram. O bilhete foi lido em voz alta, o que deixou elas suuuuper envergonhadas, mas seguiram em frente. Mari respondeu com a sequência da música que falava “Vamos viver uma aventura?” e pelo Instagram Lorrayne perguntou quando elas poderiam começar a viver isso. Mari explica que tinha uma sensação muito forte de que, a partir do momento que começassem a conversar, algo muito sério aconteceria. Não seria só um flerte, só alguém que ela iria ficar… e sentiu um certo receio. Demorou alguns dias para responder essa mensagem… Mas respondeu. Marcaram de sair, foram numa praça perto do trabalho, estavam sem dinheiro, mas deu tudo certo. Depois disso, sentem que nunca mais se desgrudaram. Na época, ficavam muito na casa em que a Lo morava com a tia, justamente por ela não estar muito presente. Porém, ambas falavam sobre o desejo de morar sozinha - e foi quando decidiram morar juntas. Em dezembro conseguiram o apartamento que moram hoje e, um tempo depois, na frente do Museu do Ipiranga a Mari pediu a Lorrayne em casamento. Hoje em dia, seguem com os planos… mas não só planos, afinal constroem o dia a dia juntas a cada mês que passa dentro dessa relação. ↓ rolar para baixo ↓ Mariane Lorrayne

  • Leticia e Giovanna | Documentadas

    Amor de Continuar - Leticia e Giovanna clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Sharon e Vivian | Documentadas

    Amor de Natureza - Sharon e Vivian clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Julia e Ana

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Julia e da Ana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Para a Júlia, falar sobre amor no meio da conversa a fez lembrar de uma fala do Manoel de Barros, que diz que a poesia em si não existe e que o amor em si não existe, o que existe é sempre uma construção em torno do que acreditamos. E hoje, ela acredita que essa relação de carinho, de afeto (e também, de amor, claro) que sente junto à Ana Carolina, existe por puro sentir, por vir do coração diariamente e por acreditar e confiar em quem elas são quando estão juntas. Sendo quando estão em casa assistindo filme, comendo pipoca, fazendo carinho, ou quando estão reunidas com os amigos jogando cartas e rindo de bobeiras. A Ana também fala sobre a construção delas porque para essa construção acontecer foi preciso muita vontade de estarem juntas. E talvez seja assim que ela ache uma forma de dizer o que pensa sobre o amor: é um jeito de alguém falar que gosta muito de outro alguém - quando independente do que acontecer ou de como for a relação, você querer estar com a pessoa. Depois de conversarmos, a Ana retoma o que falávamos anteriormente e diz que o amor é também abrir mão de algumas coisas. Para elas o amor entre mulheres é o maior ato de resistência que existe no mundo. Júlia e Ana têm 25 anos, ambas são formadas em psicologia, atuantes na área e moram em Niterói, cidade metropolitana do Rio de Janeiro. Como hobbies, adoram jogar cartas, tomar cervejas, comer e sair com os amigos. Inclusive, foi no jogo de cartas (Magic!) que as duas fizeram a amizade se consolidar. Elas se conheceram por conta da UFF, a Universidade Federal Fluminense, estudando juntas a faculdade de Psicologia. O jogo surgiu no meio porque a Júlia soube que a Ana jogava e perguntou se ela podia ensiná-la. Para a Jú é só um jogo, mas a Ana adora, faz diversos amigos e produz até conteúdo na internet! Ela levou a Jú em umas lojas, apresentou os amigos e a Jú, que estava fazendo isso para jogar com o namorado, acabou começando a frequentar vários espaços de jogos diferentes. Elas, com cada vez mais amigos em comum, estavam sempre juntas - e não só na faculdade. A Ana era bastante sacaneada por ter aquela “coisa” (Foi difícil achar um nome para isso aqui, gente! Mas muitas vão se identificar!) de se interessar por mulheres que até então se identificam enquanto heterossexuais… E os amigos viviam brincando dizendo: “Ana, salva a Júlia, traz ela para o lado bissexual dessa vida!!”, mas ela não dava bola para a brincadeira e na época ambas namoravam. Com o passar do tempo e a aproximação aumentando, elas começaram a fazer estágios juntas na faculdade e, foi num trabalho em dupla, que a maior aproximação de fato aconteceu - por conta dos exercícios corporais. Foram experimentos que trouxeram estudos sensacionais para a vida delas, academicamente falando, e que também somaram muito enquanto relação e confiança que elas tinham na amizade. Porém, depois do experimento, era nítido que elas tinham mais carinho entre uma e a outra… Existia uma relação de amizade com bastante afeto. Ambas já tinham terminado seus relacionamentos, se aproximavam cada vez mais e um dia uma das amigas delas comentou sobre um sonho que teve em que as duas estavam juntas enquanto um casal. Elas levaram na brincadeira e depois desse momento começou uma piada interna entre elas e também entre os amigos sobre o possível casal, até que, em um evento do curso, elas se beijaram. A expectativa de que elas poderiam ‘ficar’ já existia, mas ainda era uma sensação estranha para as duas. Brincaram com isso durante tanto tempo e ao mesmo tempo tinham tanto carinho que chegaram a se ver um pouco confusas sobre o que realmente estava acontecendo. E, por um momento, a Ana que “estava decidida a não se envolver novamente e dar um tempo nas relações” já estava totalmente envolvida - enquanto nem sequer terminava de falar essa frase em voz alta. O problema era que, dois dias depois, ela estava embarcando para a Europa com os pais em uma viagem (que duraria um mês) - e a Júlia estava indo para Inhotim com os colegas da faculdade. No mês de viagem, elas se falaram todos os dias. A Ana brinca que estava totalmente entregue, enquanto a Jú dizia que aquele dia em que se beijaram tinha sido apenas “uma experiência”. Mas, assim que ela voltou de viagem, se encontraram no dia seguinte e ela trouxe de presente para a Jú um colar que comprou na Espanha e tinha um fio de ouro, desenhado à mão, com um valor sentimental muito intenso, como o carinho delas. Cerca de um mês depois da volta da Ana e delas estarem ‘juntas’, a mãe da Jú acabou descobrindo e foi um momento bastante delicado, então a Ana a pediu em namoro. Não foi no sentido de pressioná-la, mas ao contrário, para mostrar que não era um sentimento ‘de brincadeira’. Mexer em algo tão delicado como a nossa base familiar envolve muita coragem e precisamos estar dispostas e elas queriam dar as mãos e enfrentar isso juntas. Até hoje, não é nenhum pouco fácil, mas seguem uma luta (literalmente) diária. Pensando em momentos difíceis como esse (e também nos outros, enquanto um casal), a Ana conta que ela é uma pessoa mais explosiva e a Júlia tende a ficar mais quietinha quando está triste, então temos momentos distintos quando a situação em si acontece - e está no ápice - porém, com o tempo e a convivência, a Júlia têm aprendido a acolher muito mais e a Ana têm aprendido a ser mais calma também, então uma está tentando puxar a outra para um equilíbrio. A Júlia explica que quando está chateada com algo tende a ficar mais introspectiva, mas mesmo assim elas se comunicam de alguma forma. E entende que esse é o maior aprendizado de todo o relacionamento, porque quando elas se perguntam: “Queremos passar por isso?” sempre chegam à conclusão de que, sim, querem, porque reconhecem o quanto crescem e o quanto constroem muitas coisas incríveis juntas. Por fim, quando pergunto como elas se sentem vivendo em Niterói, a Júlia conta que gostaria de mudar a realidade dos animais de rua. É algo que realmente mexe muito com ela e que se pudesse e tivesse condições, a primeira coisa que faria seria construir santuário para os bichinhos e medidas protetivas de direitos aos animais e ao meio ambiente. Já a Ana, iria tentar instituir uma política de coletivização na educação, para que as pessoas desenvolvessem maior empatia e convívio social, assim como aprendemos disciplinas como matemática, português, geografia… porém pensando em estruturas sociais e sendo mais coletivos. E, para finalizar, a Jú fez um pedido para utilizar um espacinho aqui e elas comemorarem o aniversário de namoro que completaram no último mês ♥ (surpresa, Anaaa!) (pode chorar, essas duas são boiolas demais!) "Você é o meu presente e nessa data, desse ano, cheio de incertezas e medos por conta dessa pandemia que nunca acaba, você é o meu porto seguro e minha certeza. Hoje, mais uma vez, repito pro mundo e deixo registrado, definitivamente, o quanto te amo. Felicidade para nós, que venham mais anos. ❤" Julia Ana Carolina

  • Luiza e Maria Pérola

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luiza e Maria Pérola, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quando elas se encontraram tiveram um dia bom e logo em seguida e Luiza viajou de volta para o Rio de Janeiro, elas seguiram conversando de forma online e surgiu uma nova oportunidade: dessa vez, um colega de apartamento da Maria que viajava muito iria até o Rio e ela poderia ir junto, então ela topou, avisou a Luiza e elas conseguiram se encontrar novamente. Quando o encontro aconteceu, elas entenderam que queriam novos encontros e que, melhor que isso, não queriam parar de se encontrar. Enquanto o relacionamento da Luiza já estava em um ponto que era muito mais amizade que relação amorosa em si, ela optou por conversar sobre a bissexualidade e pelo término. O namorado entendeu, realmente, inclusive incentivou as duas, por ver o quanto isso estava fazendo bem à ela - e hoje eles são bastante amigos (ele quem instalou as prateleiras no apartamento delas! haha) e no fundo eles comentam que sabiam que a relação não iria mais para frente e que ambos estariam mais felizes em novos caminhos, era o mais justo a ser feito. A Luiza nunca foi uma pessoa impulsiva e diz que essa foi a coisa que ela mais teve certeza ao fazer em toda a vida. Elas começaram a namorar em dezembro de 2019 e a maior dificuldade na época foi enfrentar a forma dos amigos e da família de lidar, tanto pelo relacionamento anterior ter terminado, quanto pelo fato da Luiza ter ficado com uma mulher. Ao mesmo tempo, como tudo era muito claro para ela, o jogo foi quase que ao contrário, ela sabia que quem estava passando por “uma fase” eram os amigos e a família: a fase de lidar com a mudança e aceitar, porque ela, a Maria e o ex namorado estavam muito felizes e bem resolvidos. Existe uma troca muito genuína entre as duas, desde os escritos, as músicas, as composições… a Luiza também participa de uma roda de choro e samba feita apenas por mulheres no Rio, que é um estilo musical muito presente e está aprendendo e desenvolvendo a música popular para além da música erudita, coisa que a Maria Pérola ajuda muito! É sempre um aprendizado. Quando a Luiza e a Maria Pérola se conheceram, ambas já viviam de música e moravam no sudeste. A Maria viu um conteúdo que um amigo em comum entre elas publicou sobre mulheres artistas e seguiu as pessoas que ele marcou, para acompanhar o trabalho delas, sendo que uma delas era a Luiza. Na época elas trocaram uma ideia quando se adicionaram e foram, com o decorrer do tempo, acompanhando o trabalho aos poucos uma da outra. A Luiza postava algo e a Maria interagia, vice versa, era um troca profissional de admiração. Nisso mais de um ano se passou, até que aconteceu delas conversarem de fato, por conta do poema… e aí foi tudo muito rápido: interagiram durante um mês quase que diariamente e a Luiza foi chamada para fazer uma apresentação com a orquestra em São Paulo, convidou a Maria Pérola e ela foi assistir. A Maria conta que tentou não criar muitas expectativas no encontro das duas sob o viés amoroso, porque a Luiza vivia um relacionamento de três anos, com um homem, e não tinha ficado com uma mulher. Por mais que eles estivessem vivendo um relacionamento aberto e ela já tivesse compartilhado com ele sobre os sentimentos que estava desenvolvendo pela Maria, tudo era muito novo e elas não sabiam o que poderia acontecer, então ela apenas tentou não nutrir expectativas. Maria Pérola tem 27 anos, é pernambucana e nasceu em Jaboatão dos Guararapes, cidade da região metropolitana de Recife. Morou num local chamado Alto da Colina e foi lá onde passou toda sua infância. Como sua família viajava bastante para São Paulo por conta do trabalho, ela acabava fazendo essa ponte aérea e foi aos poucos se familiarizando. Sempre gostou de música, mas se formou em psicologia e só depois, quando se mudou para SP, decidiu que seu caminho e sua carreira eram, de fato, cantando. Por muito tempo a família não aceitou que ela seguisse o caminho da música popular periférica nordestina, acreditavam que ela precisava de uma “profissão de verdade” e que a música não traria um futuro profissional digno, mas ela seguiu atrás desse sonho e dessa paixão. Hoje em dia, vive sendo uma artista e é uma entusiasta da música autoral. Adora ouvir gente cantando. Vou deixar as redes da Maria Pérola aqui, porque vale MUITO (muito mesmo!) ouvir, é sensacional: YOUTUBE SPOTIFY INSTAGRAM Luiza tem 26 anos e é natural de São João del Rei, uma cidade histórica localizada no interior de Minas Gerais. Por lá ela estudou música no conservatório desde criança e decidiu se mudar para o Rio de Janeiro em 2014, quando entrou no Conservatório Brasileiro, por conta de alguns contatos que criou com professores da UFRJ. A Luiza é uma violinista incrível! Já fez parte de várias orquestras, inclusive a Orquestra Sinfônica Cesgranrio e a Orquestra de Mulheres do Rio de Janeiro, das quais faz parte/fez ativamente antes de entrarmos em pandemia, e também a Nova Orquestra, com quem se apresentou no Rock In Rio. Além disso, ela dá aulas particulares de violino e há pouco começou um projeto social ensinando violino para crianças em uma vila militar no bairro de Realengo, na zona oeste do Rio. A Luiza, além da sua ligação intensa com a música, também escreve desde pequena. A poesia foi talvez um dos pontos chave que tenha conectado ela com a Maria Pérola logo de início, fazendo com que ela voltasse a escrever mais e que também despertasse a vontade de postar suas poesias na internet. A Maria tem uma poesia que a Lu fez pra ela tatuada (e que inclusive tatuou antes de elas se conhecerem pessoalmente!) e isso fala muito sobre essa troca que elas possuem (entre as poesias que a Lu escreve para a Maria, e as músicas que a Maria compõe para a Luiza) - inclusive, brincam que dá para escrever um livro e lançar um CD com tudo o que já produziram. Explicar sobre o amor da Maria Pérola e da Luiza é um desafio imenso porque elas representam aquele tipo de encontro que você não sabe como dimensionar, como colocar dentro de palavras ou expressões, porque são acontecimentos e experiências muito grandiosos. São encontros que quando você bate o olho, passa a entender e tudo faz sentido. A Maria comentou duas coisas que talvez expliquem um pouco sobre esse amor, a primeira é que ela nunca tinha pensado em morar no Rio, mas ao mesmo tempo ela nunca tinha se sentido realmente pertencente à algum lugar, e a partir do momento que passou a morar com a Luiza entendeu que o apartamento era o lugar dela - ou melhor, não o apartamento, nem o Rio em si, mas a Luiza. O lar que ela sente é muito mais pela expansão do encontro dela com a Lu do que por todo o resto, é isso que fez ela realmente se sentir em casa. E a segunda é que a Luiza é a pessoa que ela mais confia no mundo e com ela, aos poucos, foi aprendendo a gostar de tanta coisa que se viu gostando de coisas que antes ela até mesmo odiava (desde o furo no queixo que lhe causava muita insegurança na pressão estética, até detalhes na convivência familiar). O amor foi acontecendo porque elas se apoiam muito, tentam resolver as coisas juntas e de forma rápida e por mais que em algum momento até existiu uma resistência sobre morarem juntas, hoje em dia não mais se veem morando longe. Entendem que o amor transparece no que são: muito acolhedoras e cuidadosas. O ato de estarem juntas sempre significou muita coragem e quando falamos de amor, surge essa palavra. Como elas já estiveram em outros relacionamentos, falam sobre alguns terem sido abusivos, por exemplo: a Maria já esteve em relacionamentos com outras mulheres que não gostavam que ela cantasse… que não a “permitiam” cantar, não apoiavam. E explica como é diferente estar com alguém que te apoia e te impulsiona, como foi importante ter a Luiza na vida dela sempre incentivando ela na música. Falamos muito sobre a presença de relacionamentos abusivos e como é muito fácil mascararmos eles, não verbalizamos o que estamos vivendo ou como estamos nos sentindo, sendo que muitas vezes nos vemos privadas de fazer algo tão nosso, como é o ato de cantar para ela, e que não merecemos mais viver relações assim, que é importante procurarmos apoio, procurarmos ajuda para sairmos desse tipo de relacionamento, seja hetero ou homoafetivo. “Amor entre mulheres é uma revolução. Você ama reafirmando. Você ama existindo. Eu não consigo olhar para o amor sem pensar no amor entre mulheres. É coragem, pra mim, o amor… pra gente amar… tem que ter muita coragem.” A Luiza diz que o amor tem a ver com entrega e com estar aberto porque você entrega e também recebe muita coisa de volta. E no amor ela se viu disposta a ajudar, a doar, a ser intensa e potente. E que isso exige muito da gente, que não é fácil, que também significa muita resistência. Mas que também acontece muito reconhecimento nesse encontro, que a Maria Pérola trouxe muita leveza na vida dela, desde saber que ela está em casa tudo já fica mais leve… e que o amor no fundo envolve o tanto que elas se dividem e se entregam. A Maria Pérola trouxe uma história interessante sobre uma vez que o Dominguinhos foi numa rádio se apresentar e no intervalo começou a tocar Chopin na sanfona. E então todos ficaram surpresos, chocados, como se ele não pudesse gostar de uma música considerada clássica por tocar forró, e quando ele é questionado sobre isso ele explica que ele é músico, um artista, que ele é gente, que pode gostar de tudo. Com esse assunto, começamos a falar sobre as múltiplas formas de cultura, não só a música ou a escrita, por ser mais presente na vida delas enquanto mulheres artistas, mas na cultura desde o circo, a feira de rua, as artes cênicas, tudo. O quanto essa inclusão e essa valorização é muito importante. A Luiza trouxe informações da roda de choro e samba que ela participa e sobre o acesso à elas, só que como ao mesmo tempo é difícil a cultura chegar até as pessoas, desde o erudita até o próprio popular, e o questionamento: o que de fato é considerado “cultura”? Ela conta também que por mais que ame participar de orquestras, hoje em dia não se vê mais longe dos trabalhos sociais e de levar música para as pessoas - e ressalta que isso não quer dizer que todo mundo tenha que gostar de orquestras, mas que todo mundo possa ter a oportunidade de gostar, possa ter acesso aos teatros, roupas para entrar nesses lugares e tempo para consumir cultura. Rolar . . . Luiza Maria Pérola

  • Malu e Joyce

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Malu e da Joyce, quando o projeto passou por São Paulo! Tudo o que envolve a arte une a Joyce e a Malu. Elas amam mexer com tintas, cantar juntas, fotografar, pintar, fazer customização de roupas, assistir filmes… enfim, respiram arte o tempo todo. São pessoas que se enxergam de formas diferentes e que entendem que possuem alguns jeitos diferentes, mas sabem admirar e respeitar os diversos detalhes uma na outra. E, através desses detalhes, elas se encontraram em 2019. Foi uma mecha de cabelo na cor verde da Malu que chamou a atenção da Joyce, que estava sentada na mesa de bar com uns amigos. Na época, a Malu não cogitava em engatar novamente em um relacionamento, visto que tinha recém saído de um e estava ainda se recompondo e reestruturando. Mas hoje, ela conta que chegou a viver momentos em que foi reparando cada palavra e cada gesto, através da presença ativa que construíram no relacionamento, onde entendeu e agradeceu o presente que foi ter aceitado viver essa relação. Ela olha para a Joyce e diz: “Que mulher incrível, que mulher forte” e a Joyce complementa dizendo que nesses momentos, ela também pensou “Meu deus, não acredito que to tendo essa conexão que eu sempre quis ter”. As duas se viram pela primeira vez no bar, em 2019, enquanto cada uma estava na sua mesa, com os seus amigos. A mecha de cabelo verde da Malu chamou a atenção da Joyce, que sempre quis pintar o cabelo de verde. Ela ficou olhando, olhando e olhando… a Malu percebeu os tantos olhares, retribuiu alguns e a Joyce resolveu ir até ela e perguntar sobre o cabelo. O fato é que, quem fez a mecha foi a própria Malu, já que ela é cabeleireira! Então, ela deu um cartãozinho, com o contato profissional para que a Joyce mandasse uma mensagem. Elas brincam porque ambas sabem que o contato no cartão não era apenas por conta do cabelo, mas ele de fato aconteceu: elas conversaram e marcaram de se encontrar. Logo a caminho do local do encontro, o primeiro beijo aconteceu e sentiram que as coisas dariam certo. Na época, a Joyce trabalhava no bar em que elas estavam, mas era dia de folga e ficaram por lá se divertindo com os amigos e conhecidos dela. Ao decorrer do começo do namoro e dos primeiros meses, passaram por muitas coisas juntas e entendem que ao mesmo tempo que o relacionamento em si era algo que trazia o sentimento de leveza, ao redor delas aconteciam muitas coisas, e acabaram passando por todas essas coisas juntas. No período que a pandemia começou, tiveram que enfrentar mudanças, sentiram muitas saudades uma da outra e isso fez parte de um processo grande sobre autoconhecimento também. Nos momentos mais difíceis, não deixaram de se ajudar e de seguir enfrentando os desafios, mesmo entre perrengues e apertos. No fim, mesmo com o começo tendo esse sentimento leve entre as duas, elas se fortaleceram o tempo todo no apoio mútuo. A Joyce tem 30 anos, trabalha como tatuadora e atendente. Atualmente ela mora em Barão Geraldo, distrito de Campinas, interior de São Paulo. Também é cantora e musicista, toca violão, guitarra e ukulele. A Maria Luiza tem 20 anos, é formada enquanto cabeleireira e também trabalha atendendo em uma loja. Mora em Barão Geraldo, também, e no tempo livre ama fotografar e restaurar móveis. Junto com a Joyce, ela criou um projeto para também restaurar e customizar roupas, que se chama Lava. Além disso, elas fazem pulseiras e colares de miçangas. Em novembro de 2020 elas ficaram noivas, durante uma viagem para o Rio de Janeiro, que intitularam como “A melhor viagem da vida!”. O amor de forma leve surgiu porque tanto a Joyce, quanto a Malu, já passaram por relacionamentos que foram mais conturbados e abusivos. Logo no começo do relacionamento, pelo receio de se envolverem com novas pessoas, foi como um trato: só podemos acontecer se formos leves. Um trato que seguiu de forma natural, até porque, a leveza não deve ser forçada. O trato era para que tentassem resolver atritos ou questões sempre da melhor maneira possível, com diálogo, escuta e carinho. A Joyce entende que amar é respeitar e ter confiança, enquanto a Malu entende que amar é ser sincero e ter fidelidade. “Não é uma questão de ser fiel só naquela ideia de traição” ela diz “mas fiel para o que a pessoa se propõe. Se você é um amigo, seja um amigo fiel. É uma escolha”. Comentamos sobre nos sentirmos mais à vontade entre mulheres, porque já vivemos em situação de medo o tempo todo. Elas contam o quanto se sentem bem quando consomem algo feito por mulheres, quando se sentem seguras quando chamam um carro no aplicativo e a motorista é mulher e como a presença feminina em si traz paz. Concluem a conversa dizendo que as mulheres podem chegar aonde quiserem porque têm uma força incrível, só precisamos nos acreditar e nos impulsionar. Temos muita capacidade e maturidade. Além de que, tudo que é feito por mulher é nítido e intenso, sabe ser bonito e forte. Maria Luiza Joyce

  • Drika e Jana

    A Drika, a Jana e a Nick moram em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. São uma família que se escolheu e se permitiu construir de múltiplas formas, e dentre todas, o que fica estampado é a parceria que mantém a todo tempo. Quando elas conheceram a Nick, no abrigo de adoção, tiveram a primeira interação e no dia seguinte levaram ela para passar uma tarde na nova casa. Seguiu-se assim por uns dias de visita, até que ela ficou direto. No começo, não foi nada fácil - tanto a adaptação, quanto saberem coisas básicas, como medicações exatas, cuidados que ela necessitava… tudo era novo e precisava de calma. Como a Nick passou três anos no abrigo, isso significava metade da vida dela, e todas precisavam entender o tempo dela também. Viveu muitas coisas lá, passou pelo contato de mais de cem famílias e era difícil acreditar que ela fosse ser adotada por alguém. Quando as mães chegaram, fizeram de tudo para mostrar que tinham compreensão do sistema de saúde, que estavam muito dispostas a cuidar dela e que todos poderiam contar com elas para o desenvolvimento da Nick. O desenvolvimento não foi da boca pra fora, quando a Nick chegou ela não conseguia andar, mas em dois meses já tinha desenvolvido e estava com acompanhamentos, o cuidado e o afeto fizeram com que ela também tivesse muito progresso na comunicação, na socialização com outras pessoas adultas e com crianças e diversos progressos saudáveis para ela. Por mais que no começo tudo demorou a entrar em sintonia (era difícil identificar os choros, organizar a alimentação, etc) elas foram se conhecendo e se amando cada vez mais. Hoje em dia, vivem uma rotina intensa! Entre fonoaudiólogas, escolinha (Nick está na segunda série!), terapeutas, nutricionistas, gastros, psiquiatras, a alta que ela já ganhou na fisioterapia (♥), o ritmo de trabalho da Drika e da Jana que super se adaptou e a família que nasceu, é nítido ver o quanto as três crescem grandiosamente juntas. Drika tem 37 anos, é professora de educação física e está fazendo doutorado. Trabalha enquanto coordenadora de um projeto social e também participa de coletivos de militância política. Jana também é professora de educação física, mas concluiu a residência em saúde mental coletiva e atende num centro de orientação psicossocial para pessoas que fazem uso abusivo de álcool e drogas. A rotina dela é intensa, mas acreditam que é justamente nessa rotina que mora o amor: nos rituais diários, nos detalhes, na família que estão construindo - e que escolheram construir, nos laços de afeto que estão existentes quando compartilham decisões. Diariamente chegam em casa e conversam sobre o dia, sobre como estão ou o que viveram e acreditam que nesse ato está muito sobre o amor que vivem. Mesmo construindo uma relação entre muito afeto, elas têm muito medo sobre o que a Nick pode passar por ser uma menina negra, com deficiência e com duas mães. Por isso, elas querem que o crescimento da Nick seja numa sociedade sem LGBTfobia, num lugar que ela possa ser quem ela é. Nesses processos de desenvolvimento, estabelecem também em volta dela várias referências de raças, de pessoas, de crianças das quais ela consiga se ver representada. Querem que onde a Nick esteja, exista acolhimento, referência e afeto. Em 2016 a Drika e a Janis começaram a conversar mais, no diretório acadêmico da faculdade, quando militavam juntas. A Drika passou por um relacionamento bastante abusivo e a Jana deu um suporte para que se livrasse disso, foi um momento bem difícil que ambas passavam em suas vidas pessoais e se apoiaram enquanto amigas pela primeira vez. Logo depois, vieram as ocupações das universidades públicas e elas ocuparam o campus da educação física. Como se tratava de um campus menor, diferente dos outros, elas definitivamente foram morar lá. Haviam-se escalas para ficar na portaria, cuidar da segurança, etc. e elas ficavam juntas, além de ir nas reuniões, assembleia e participar do mesmo coletivo, o Alicerce. Na época, por ficarem sempre muito juntas, já brincavam de ‘shippar’ os nomes: era Drikaina ou Jaka. Tudo faziam em dupla. Quanto à ocupação, foi um sucesso! Tiveram os objetivos negociados e na comemoração foram todos para uma festa. Nessa festa, elas se beijaram - mesmo com muito medo de estragar a amizade, mas deu certo. Logo depois, Drika passou o ano novo com a Jana, alguns amigos e familiares dela. De lá em diante, não se desgrudaram mais. Logo no começo do relacionamento, a Jana se formou e a Drika ainda iria estudar mais um tempo. Drika morava em Canoas e, na época, a Jana morava em um bairro mais distante em Porto Alegre: o Belém Velho. O campus que elas estudavam ficava em um bairro que não conversava com essas distâncias, então era tudo de certa forma longe, e elas decidiram mudar esse ponto: a Drika chamou a Jana para morar com ela em Canoas. Aos poucos ela veio trazendo as coisas, em mochilas mesmo, ou como elas brincam: em prestações. No começo, ao morarem juntas, enfrentaram uma questão muito difícil: a dificuldade financeira. Elas sobreviviam com a bolsa que ganhavam da universidade - de R$ 400 cada uma, e nisso entrava tudo: as passagens, a alimentação, as contas. Na época da formatura, Jana ganhou de presente o dinheiro para fazer a carteira de motorista, mas nunca a fez, visto que esse dinheiro foi usado para salvar elas por alguns meses. Entre a bolsa e a faculdade, elas vendiam camisetas, Jana chegou a trabalhar em bar e procuravam sempre uma forma de se virar. O primeiro respiro que tiveram foi quando a Jana conseguiu um estágio, depois tudo foi mudando. Dentre os altos e baixos, o mais certeiro era o quanto elas se apoiavam. Se fortaleceram, foram fortalecidas por suas mães e estavam sempre em parceria. Juntas, passaram pelo fim da faculdade, pela residência, pelo mestrado e pelo doutorado. Nesses processos, elas sempre se consideraram casadas. Não sentiam urgência em oficializar, até que o foraBolsonaro foi eleito e elas resolveram mudar as coisas. Viver a campanha dele foi exaustivo, estavam ativamente na rua em oposição e sentiram que o melhor que poderiam fazer depois dele eleito era reafirmar o amor delas em um ato oficial. Foi então que juntaram os documentos, os amigos - que tocam em uma banda - foram para um sítio, cada um levou uma bebida e fizeram uma festa que uniu todos: os amigos, a família, a militância, a música… quem amavam. Contam que foi a melhor noite que já viveram. Já o tema de aumentarem a família, chegava de vez em quando: primeiramente, pensaram na inseminação. Drika tinha vontade de gerar, chegaram a procurar, fazer exames, mas sentiram que não havia tanta necessidade - desconstruíram a ideia e partiram para uma nova: a adoção. A Drika é adotada e elas sempre falaram sobre a família ser uma escolha que o coração faz, então começaram a pesquisar sobre e participar de grupos. Ainda em 2019 entraram com todos os papéis necessários. Fizeram uma série de entrevistas com psicólogas, assistentes sociais e então começou a pandemia. Isso atrasou tudo, ficaram muitos meses com tudo parado no curso inicial obrigatório de adoção porque o sistema ainda não tinha se adaptado para o modo online. No começo, antes da pandemia, elas tinham colocado no formulário uma faixa etária diferente, depois recorreram para uma idade maior e também para a opção de ser mais de uma criança, poder ter doenças tratáveis e com questões de saúde mental. Quando foram para a parte final do curso, acabaram fazendo sozinhas (sem outros casais acompanhando) e isso fez com que ficassem muito livres para conversar e tirar todas as dúvidas com as assistentes sociais. Foi quando uma delas falou sobre uma menina que poderia se encaixar para elas, mas não deu mais detalhes. Em janeiro de 2021 entraram em contato, pediram para elas irem até o fórum porque tinha uma criança e não queriam que elas fossem habilitadas no sistema de adoção antes de conversarem sobre ela. Foi quando, pela primeira vez, conheceram a história da Nick. Nesse momento, já sabiam que iriam adotá-la, Drika se emocionava toda vez que estavam falando sobre ela. Conheceram a Nick por vídeo, deram seguimento no processo da adoção, fizeram testes de Covid-19 necessários e foram conhecer ela pessoalmente pela primeira vez. Nick nasceu com microcefalia por conta de uma toxoplasmose congênita, tem impacto na visão e está dentro do “guarda chuva” da paralisia cerebral. Sua dificuldade está no ato de comer e engolir saliva, o que pode causar acúmulo de líquidos nos pulmões, tornando-a do grupo de risco para qualquer doença respiratória - como o Covid. Por mais que possua algumas diferenças no quesito saúde, é uma criança repleta de amor, carinho e risadas, que se diverte muito com as duas mães. ↓ rolar para baixo ↓ Drika Janaina

  • Beatriz e Tayana

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beatriz e Tayana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Para Beatriz, a Tay elevou o sentido de muitas coisas boas. Conta que seus traumas de infância criaram um pensamento presente de que nenhuma mulher algum dia se interessaria por ela, que nunca se sentiria amada, bonita ou desejada. Tay chegou demonstrando o quanto a admira, valoriza, quer estar com ela. E o mais importante de tudo: que não está sozinha. Faz muita questão de retribuir todo o carinho que recebe colocando a Tay “lá em cima” todos os dias também: relembrando o quanto ela é capaz. Apoia seus sonhos de lançar livros, fazer mestrado, doutorado. Reforça o quanto é linda, uma mulher incrível. Acreditam que o relacionamento está muito vinculado ao suporte. Tay demonstra amor nos cuidados: “Fiz o café”/”Comprei seu leite”. Bia tem dificuldade em aceitar, mas trabalham isso juntas. Querem construir uma família diferente dos moldes que tiveram, baseada no que acreditam. Beatriz, no momento da documentação, estava com 22 anos. É natural da zona norte do Rio de Janeiro, mas reside em Niterói, junto com a Tay. Está terminando a faculdade de licenciatura em história e já trabalha enquanto estagiária/professora assistente em escola particular. Conta que vem de uma família bastante homofóbica, se descobriu uma mulher lésbica no consultório fazendo terapia e, nesse processo, escolheu a UFF justamente por ser uma Universidade em outra cidade, um local em que poderia ser livre. Tayana, no momento da documentação, estava com 28 anos. É natural de São Gonçalo, num local próximo à Itaboraí. Também está terminando a faculdade de história, mas em bacharelado. Trabalha enquanto assistente de museologia. Se conheceram em 2019, quando entraram na mesma turma no começo da graduação. Beatriz era tímida, mas na empolgação do começo do curso se mostrou uma pessoa super simpática e desenvolta, o que chamou a atenção da Tay. Conversaram e se aproximaram durante alguns meses, até que em abril falaram o que sentiam. Bia trouxe uma caixa de bombom - que a Tay não gostava - de presente, elas tentaram se beijar e a Bia teve (literalmente) um teto preto e desmaiou… viveram algumas situações engraçadas. Mas o beijo rolou depois e desde então ficaram juntas. Tayana conta que por mais que tenha vivido uma adolescência com amigos LGBTs e tenha a presença de familiares gays, não permitia olhar para si mesma e viveu uma heterossexualidade compulsória durante alguns anos. Vivia uma realidade católica e bastante tradicional, não cogitava outras possibilidades, achava que as mulheres chamavam sua atenção pela admiração que sentia e só. Quando entendeu que não era apenas isso, contou para algumas pessoas e a resposta da maioria foi a mesma: “Ah, eu já sabia!”. Com a avó foi a parte mais difícil de se conversar, por conta das questões culturais que envolvia. Até hoje, mesmo que a família dela adore a Bia e convivam bem juntos, a avó ainda acredita que o homem é quem traz a estrutura da vida de uma mulher, então surgem conversas que afetam muito a vida delas enquanto um casal. Mas lidam com isso mostrando a cada dia que passa o quanto conseguem seguir suas vidas e serem independentes, acreditam ser essa a melhor resposta. A família da Bia, por sua vez, não conhece a Tay. Segue com princípios bastante preconceituosos e, mesmo elas morando juntas e eles sabendo da existência dela, não houve um encontro até então. No começo do namoro, a UFF era o lugar de segurança e o ponto de encontro delas. Como as famílias não sabiam, não tinham como ir para suas casas. Na rua, havia o medo de se beijar. A Universidade virava um refúgio. Depois de um tempo, Bia começou a morar sozinha em Niterói. Com a chegada da pandemia de Covid-19 em 2020 elas acabaram ficando muito juntas, ambas conseguiram seus empregos e foram dividir um lar. Seus novos desafios começaram nos últimos tempos, quando conseguiram comprar um apartamento juntas pelo Programa Minha Casa Minha Vida (um financiamento do governo para pessoas de baixa renda conseguirem moradia). Está quase pronto e elas estão pagando juntas; A formatura também está chegando, sentem que são novos passos conquistados. Não foi fácil alinhar a vida financeira - e nisso falam sobre a importância da terapia para conseguirem manter conversas, falar sobre o cuidado com a casa, manterem um alinhamento. A questão familiar ainda mexe muito com elas, querem que até a formatura as famílias já se conheçam, que o preconceito seja quebrado, mas isso requer muita coragem de se enfrentar. Por fim, para além dos desafios, preenchem seus dias com passeios, idas em locais culturais, bares, restaurantes, assistindo séries e prezando muito pelos momentos de conexão. Valorizam os domingos em casa, fazendo almoço e assistindo ao jogo do Flamengo. ↓ rolar para baixo ↓ Tayana Beatriz

  • Talita e Anne

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Talita e da Anne, quando o projeto passou por São Paulo! Talita e Anne acreditam que, depois de batalhar tanto por esse amor, o relacionamento que possuem hoje é o único que aconteceu de forma saudável na vida delas - e por isso, mas não só, é o melhor. O amor é a base de tudo o que fazem e nele está a presença, a paciência, o acolhimento.. Não querem passar raiva. A paz que encontram juntas não trocam por nada. É com os passeios dos cachorros na rotina que detalham vivenciar na casa “do meio do mato” que elas sorriem contando sobre o amor. Pensam como sempre desejaram isso: viver com alguém que aceitasse a forma como são. Pela religião que eram inseridas, acreditavam que isso não era possível - não para elas. Sempre foi negado. O encontro que possuem e o fato de terem achado seu lugar no mundo é sempre um motivo de celebração. Sobre a religião, Talita lembra do dia que a mãe dela perguntou no telefone como a Anne estava. Era um ato simples, mas a validação da existência da Anne, sabendo a importância que ela possui para a Talita, mesmo existindo o preconceito, foi o divisor de águas e um dos maiores atos de amor. Tanto Anne, quanto Talita e suas famílias eram da igreja petencostal Congregação Cristã (mas calma, não foi lá que se conheceram). Acredito que essa é uma informação bastante relevante porque a Congregação é uma das religiões mais conservadoras do Brasil. Suas famílias seguem frequentando a igreja (e comentam que isso, inclusive, aproxima as mães que perguntam uma sobre a outra), mas acreditam que foi justamente por conta do grande tabu e do próprio preconceito contra seus corpos que demoraram tanto para se entender enquanto mulheres que amam outras mulheres. Anne, apenas aos 32 anos de idade, conseguiu sentir coragem de assumir que estava num relacionamento. Até essa idade, tratou namoradas como amigas, não enfrentou ninguém da família e teve medo. Precisou de muita coragem, ter 100% de sustento e independência para conseguir falar sobre. No primeiro momento, a mãe ficou bastante triste. Dois anos depois, conheceu Talita e hoje em dia elas se amam, passam dias juntas e possuem uma ótima relação, mas entende o quanto o processo foi longo, resgata tudo isso com muito pesar. Talita também demorou para entender e aceitar o que estava vivendo, até mesmo conversar com suas amigas, sua psicóloga, mudar o Tinder para “mulheres” e não “homens”. Foi só aos 32 anos que conseguiu se permitir. Anne comenta que na igreja falavam em tom de alerta que as meninas lésbicas chegavam fazendo carinho no cabelo para seduzir as meninas héteros e levar para um caminho ruim… e acrescenta sobre a solidão em que passou por tudo isso: “Quem me dera se alguém tivesse me feito um carinho no cabelo quando eu era jovem”. No momento da documentação, Talita estava com 34 anos. Ela é natural do sul de Minas Gerais, mas mora em Campinas há vários anos, quando se mudou para estudar. De qualquer forma, sua família ainda mora em Minas, numa região bastante próxima de São Paulo, então brinca que é mais paulista que mineira. Hoje em dia, ela trabalha enquanto jornalista e funcionária pública, adora tirar fotos de natureza e bichos, também escreve para uma revista de engenharia elétrica. Anne, por sua vez, estava com 37 anos no momento da documentação. Ela é natural de Campinas, interior de São Paulo. Trabalha enquanto técnica judiciária e vai se formar em direito em 2024. Anne adora cozinhar, plantar e formar jardins. Possui um hobbie do qual mistura raízes, descobre novas plantas e até faz uma espécie de alquimia, com raízes, plantas, álcool… Mora em uma casa grande, então adora pesquisar, encontrar plantas em extinção e plantar, cuidar, descobrir cheiros, sabores e espécies brasileiras. Anne também é apaixonada por romances lésbicos - os brasileiros, já leu todos - e está desbravando internacionais… são mais de 150 livros lidos. A história delas começou por conta de amigas que tinham em comum (mais especificamente, a prima da Anne), mas não sabiam da existência uma da outra. Foi em 2019 num aplicativo de relacionamento, que de fato, se conheceram, descobriram as amizades que ligavam, conversaram, se acharam interessantes e decidiram se encontrar. Adoravam a mesma cantora em comum (que não era alguém conhecida), a Anne apareceu na casa da Talita cheia de sacolas com comidas, estavam grudadas demais em pouco tempo e… quando viram já estavam apaixonadas. Quando a pandemia começou elas quase não se encontravam. Anne ia até a prefeitura onde Talita trabalhava, elas sentavam uma ao lado da outra em um banco, ambas de máscara, ficavam conversando, mas havia muito medo do Covid-19. E assim seguiram por meses. Hoje, enxergam tudo diferente. Sentem que estão num período muito bom. Possuem seu relacionamento de forma assumida, se sentem livres para viver esse amor. Talita explica que por mais doloroso que tenha sido, foi bonito também… Entende que existiu respeito. De alguma forma, a família passou por cima da fé para acolher elas… E isso foi muito importante. Em muitos momentos difíceis, Anne se isolou para passar por eles de forma sozinha e Talita teimou em estar junto. Tentava sempre explicar que queria estar em todos os momentos - nos felizes e nos tristes - e que não adiantava ela se reclusar. Hoje, Anne não faz mais os movimentos de sair. Ela explica que não teve mais momentos tão tristes, mas que mesmo se tivesse, já se acostumou com a Talita enquanto companhia e vai querer a companhia dela para dividir a dor. Numa pausa, ela conta como enxerga Talita enquanto uma mulher muito forte. Talita rebate, diz que ela não é forte, só não pensa muito, vai lá e resolve. Sempre se viu assim, muito prática. Anne completa: “É forte.” Na rotina, elas dividem o tempo entre ficar no apartamento da Talita e na “casa do mato” da Anne. Lá, adoram passear com os cachorros, ficar no sofá assistindo filme e dormindo. Talita ajuda a sogra a fazer ‘Duo Lingo’ (porque está aprendendo inglês), organizam as coisas da Anne (que é bagunceira) e Anne faz comidas gostosas. Por fim, adoram viajar juntas (e começaram a viajar no começo do namoro, o que era novo para as duas). Entendem que o namoro foi intenso desde o começo, talvez foi por isso que deu tão certo. Talita conta que gosta de como tudo aconteceu, de como estão agora, das amizades dela (várias amigas senhoras de idade, acha isso o máximo e Anne brinca zoando ela) e do cotidiano bastante caseiro que possuem enquanto um casal. ↓ rolar para baixo ↓ Talita Anne

  • Gabriela e Aline | Documentadas

    Gabriela e Aline se conheceram durante a pandemia de Covid-19, em 2021, se esbarrando online num aplicativo de relacionamentos.. Elas moravam sozinhas e estavam em suas casas seguindo todos os protocolos exigidos pelas organizações de saúde, então colocaram pequenas distâncias de quilometragens para o aplicativo encontrar apenas quem estava próximo - a ideia era não precisar pegar um meio de transporte para “ter um encontro/um date”. Enquanto Aline fez questão de analisar o perfil da Gabi e dar um ‘like’ proposital, Gabi deu sem prestar muita atenção, porque estava mesmo assistindo à novela. Mas o que importa é: começaram a conversar, e ainda melhor: viveram, pela primeira vez, uma paixão de verdade, dessas intensas, “clássico sapatão, que a gente sempre ouve falar”. Viram que tudo foi fluindo, ainda que bem rápido, construíram acordos, falavam sobre seus valores, o que desejavam, como se viam, sobre suas terapias, se viam de forma saudável e comentam como era diferente serem adultas e terem relacionamentos saudáveis pela primeira vez [finalmente, né?!!]. Criaram uma série de protocolos, por conta da pandemia, e em meio à sentirem a paixão chegando, mandando comidinhas por carro de aplicativos uma para a outra, o envolvimento aconteceu, chegou o momento de se conhecerem pessoalmente e os encontros seguirem acontecendo. Sentem que o começo envolveu muitas situações simultâneas: eram muitos ajustes e desafios a serem feitos/cumpridos. Se conheceram dentro de casa. Nos primeiros três meses passaram por mudanças, finalização de doutorado, decidiram firmar uma união estável por conta de vários processos burocráticos (e políticos também), a pandemia acontecia, o (des)governo, tudo somava. Gabi conta que era a pessoa que bagunçava para depois arrumar, enquanto Aline era quem se esforçava para não bagunçar. Foram aprendendo uma com a outra. Estavam sempre apostando na relação, mostrando que o relacionamento era a maior aposta delas naquele momento. Sentem que o mundo estava em catástrofe e que conhecer alguém num momento como esse, de alguma forma, é “puro”, é conhecer o estado mais puro de uma pessoa. É muito diferente de conhecer alguém quando está tudo bem. É conhecer a pessoa por inteiro, conhecer ela lidando com algo difícil. Conhecer alguém assim é entender que a pessoa está disposta à reconstrução, é mesmo sabendo que não há controle, querer ficar. Gabriela, no momento da documentação, estava com 34 anos. Ela trabalha enquanto assistente social e possui diversos estudos como mestrado e doutorado voltados à área da saúde. É natural de Porto Alegre e morou na cidade sua vida toda. Ama estudar, viver cercada de pessoas (amigos/família) e acredita ser um grande elo para quem a cerca. Brinca, junto da Aline, que na época em que se casaram quase abriram um processo seletivo para decidir os convidados, de tantos que seriam. Praticou dança aérea durante um bom tempo, adora arte e tudo o que é relacionado à música e a dança. Aline estava com 35 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre, mas desde a infância já morou em diversas cidades brasileiras como Guarulhos (SP), Arroio do Meio (RS) e Brasília (DF). Voltou para Porto Alegre para estudar e hoje em dia fundou uma empresa que oferece serviço de soluções organizacionais para outras empresas. Ela e a Gabi moram no principal bairro boêmio da cidade e adoram a relação que possuem com os vizinhos, todos se conhecem, se sentem num bairro de cidade pequena. Ela adora tocar instrumentos como violão, ukulelê, também se aventura na cozinha, gosta de experimentar receitas, inventar coisas, passar horas… e transformar a casa num verdadeiro lar. Como a relação e a casa surgiram no decorrer da pandemia, diversos hobbies (como o próprio ato de cozinhar) foram surgindo em convivência com o lar. Entre eles, alguns mantém até hoje: como tomar um café da manhã demorado, passar bastante tempo com as gatas e dar valor à intimidade. Isso faz a rotina delas ser única. Sentem que, hoje em dia, existe esse lugar de segurança muito único dentro do relacionamento pelo fato de terem vivido muitas coisas no início e por sempre conversarem abertamente sobre tudo. É um lugar muito aberto, livre de julgamentos. Um espaço que deixa o relacionamento empoderado, fortalecido e amadurecido para falar sobre qualquer assunto. Quando pergunto sobre como entendem o amor que vivem, Aline explica que depois que começou a viver a relação com a Gabi, passou a falar muito mais sobre o amor. Acredita que esse falar/pensar em amor vem justamente por conta dessa aposta que fazem (e que falamos desde o início da nossa conversa). É o que nutre e o que faz bem, não é como uma certeza, um destino, algo que está dado, mas é algo moldado diariamente, construído, cuidado. É uma ação que precisa estar sempre sendo feita e pensada. Ainda mais entre mulheres porque se trata de um amor vigilante, um cuidado sobre onde podem amar e como será demonstrado esse amor: “Porque não são todos os lugares que se pode amar, apesar do amor estar sempre ali”. Gabi explica que trabalha com política de primeira infância e que nesse local sempre é criado ambientes acolhedores com vínculos seguros “que gerem autonomia para a criança saber explorar” e quando elas se conheceram ela estava estudando sobre isso e ficou muito tempo pensando como criaria essa liberdade dentro da relação, no sentido de estabelecer ambientes seguros para estarem confortáveis, possibilitar uma relação que pensa em conjunto e permite carinho, falar sem julgamento, expor as ideias e pensar diferentes rumos. E acredita que foi possível criar isso. E é em parte disso - somado a todo esse cuidado que possuem diariamente em manter o que foi feito até aqui - que está o amor. Com aproximadamente três meses de relação, fizeram uma união estável, por vários motivos: para a Aline entrar no plano de saúde da Gabi, para conseguirem morar juntas reduzindo burocracias, por questões políticas que acreditavam… Logo no começo da relação, quando caminhavam pelo bairro, elas sempre passavam pela rua que moram hoje (uma rua completamente aleatória, mas cismavam em entrar) e olhavam os apartamentos procurando algum para alugar, até que um dia encontraram e entraram em contato só para saber quanto custava. Não era uma opção mudar, ambas já tinham suas casas e Gabi estava rumo à entrega do seu doutorado, uma mudança não era cabível. Mas elas acabaram recebendo uma mensagem sobre esse apartamento, decidiram fazer uma proposta e não esperavam ter a proposta aceita. Descobriram que conheciam a dona. Tudo caminhou para que desse certo - e deu! Descobriram também que ele tinha até um pátio com plantas frutíferas. No começo rolou uma crise de ansiedade forte (também, como não rolaria, né? tudo estava acontecendo muito rápido) e as perguntas eram: Como iriam morar juntas? E como a família iria lidar com isso? Eram duas mulheres. Também iriam ser vistas como uma unidade familiar. Pensaram na união estável como saída. E aí chegam novos acordos e combinações. Quando decidiram casar, por exemplo, tiveram que pensar em outras coisas: “Se sofrermos uma situação de violência/preconceito aqui, indo fazer a aliança, por exemplo, damos as costas e não fazemos ou fazemos por ser o lugar mais barato e não termos a opção de fazermos em outro local?” Enfim, como agir se tiver um preconceito aqui? São novos pensamentos a começar a se “planejar” caso algo venha a acontecer. Por fim, se casaram embaixo de uma figueira, num evento incrível. Riem contando que metade da relação foi planejando essa festa. Mas destacam, também, o quanto demorou tanto para planejar porque não achavam referências de um casamento que representassem quem elas são. Não queriam que fosse tudo LGBT com bandeiras e tudo mais, não porque não precise ter uma bandeira (tudo bem ter), mas porque o grande símbolo são elas. O grande símbolo é o amor delas. Queriam celebrar o amor e comemorar com quem amam. Destacam que como se conheceram na pandemia, muitos dos seus amigos/familiares não se conheciam ainda e o evento foi para juntar todos numa grande festa, então era uma celebração que representasse o jeito delas de amar. Foi muito difícil criar isso sem preconceito ou sem fazerem questão de colocarem em alguma caixinha. Mas era necessário e quando aconteceu foi incrível. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Aline

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