Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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- Viviane e Darlene | Documentadas
Amor de Não Viver Sem - Viviane e Darlene clique aqui e acesse nosso audiolivro
- livro | Documentadas
Aline e Aya audio
- Mari e Reylibis | Documentadas
Amor de Outros Lugares - Mariana e Reylibis clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Julia e Ana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Julia e da Ana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Para a Júlia, falar sobre amor no meio da conversa a fez lembrar de uma fala do Manoel de Barros, que diz que a poesia em si não existe e que o amor em si não existe, o que existe é sempre uma construção em torno do que acreditamos. E hoje, ela acredita que essa relação de carinho, de afeto (e também, de amor, claro) que sente junto à Ana Carolina, existe por puro sentir, por vir do coração diariamente e por acreditar e confiar em quem elas são quando estão juntas. Sendo quando estão em casa assistindo filme, comendo pipoca, fazendo carinho, ou quando estão reunidas com os amigos jogando cartas e rindo de bobeiras. A Ana também fala sobre a construção delas porque para essa construção acontecer foi preciso muita vontade de estarem juntas. E talvez seja assim que ela ache uma forma de dizer o que pensa sobre o amor: é um jeito de alguém falar que gosta muito de outro alguém - quando independente do que acontecer ou de como for a relação, você querer estar com a pessoa. Depois de conversarmos, a Ana retoma o que falávamos anteriormente e diz que o amor é também abrir mão de algumas coisas. Para elas o amor entre mulheres é o maior ato de resistência que existe no mundo. Júlia e Ana têm 25 anos, ambas são formadas em psicologia, atuantes na área e moram em Niterói, cidade metropolitana do Rio de Janeiro. Como hobbies, adoram jogar cartas, tomar cervejas, comer e sair com os amigos. Inclusive, foi no jogo de cartas (Magic!) que as duas fizeram a amizade se consolidar. Elas se conheceram por conta da UFF, a Universidade Federal Fluminense, estudando juntas a faculdade de Psicologia. O jogo surgiu no meio porque a Júlia soube que a Ana jogava e perguntou se ela podia ensiná-la. Para a Jú é só um jogo, mas a Ana adora, faz diversos amigos e produz até conteúdo na internet! Ela levou a Jú em umas lojas, apresentou os amigos e a Jú, que estava fazendo isso para jogar com o namorado, acabou começando a frequentar vários espaços de jogos diferentes. Elas, com cada vez mais amigos em comum, estavam sempre juntas - e não só na faculdade. A Ana era bastante sacaneada por ter aquela “coisa” (Foi difícil achar um nome para isso aqui, gente! Mas muitas vão se identificar!) de se interessar por mulheres que até então se identificam enquanto heterossexuais… E os amigos viviam brincando dizendo: “Ana, salva a Júlia, traz ela para o lado bissexual dessa vida!!”, mas ela não dava bola para a brincadeira e na época ambas namoravam. Com o passar do tempo e a aproximação aumentando, elas começaram a fazer estágios juntas na faculdade e, foi num trabalho em dupla, que a maior aproximação de fato aconteceu - por conta dos exercícios corporais. Foram experimentos que trouxeram estudos sensacionais para a vida delas, academicamente falando, e que também somaram muito enquanto relação e confiança que elas tinham na amizade. Porém, depois do experimento, era nítido que elas tinham mais carinho entre uma e a outra… Existia uma relação de amizade com bastante afeto. Ambas já tinham terminado seus relacionamentos, se aproximavam cada vez mais e um dia uma das amigas delas comentou sobre um sonho que teve em que as duas estavam juntas enquanto um casal. Elas levaram na brincadeira e depois desse momento começou uma piada interna entre elas e também entre os amigos sobre o possível casal, até que, em um evento do curso, elas se beijaram. A expectativa de que elas poderiam ‘ficar’ já existia, mas ainda era uma sensação estranha para as duas. Brincaram com isso durante tanto tempo e ao mesmo tempo tinham tanto carinho que chegaram a se ver um pouco confusas sobre o que realmente estava acontecendo. E, por um momento, a Ana que “estava decidida a não se envolver novamente e dar um tempo nas relações” já estava totalmente envolvida - enquanto nem sequer terminava de falar essa frase em voz alta. O problema era que, dois dias depois, ela estava embarcando para a Europa com os pais em uma viagem (que duraria um mês) - e a Júlia estava indo para Inhotim com os colegas da faculdade. No mês de viagem, elas se falaram todos os dias. A Ana brinca que estava totalmente entregue, enquanto a Jú dizia que aquele dia em que se beijaram tinha sido apenas “uma experiência”. Mas, assim que ela voltou de viagem, se encontraram no dia seguinte e ela trouxe de presente para a Jú um colar que comprou na Espanha e tinha um fio de ouro, desenhado à mão, com um valor sentimental muito intenso, como o carinho delas. Cerca de um mês depois da volta da Ana e delas estarem ‘juntas’, a mãe da Jú acabou descobrindo e foi um momento bastante delicado, então a Ana a pediu em namoro. Não foi no sentido de pressioná-la, mas ao contrário, para mostrar que não era um sentimento ‘de brincadeira’. Mexer em algo tão delicado como a nossa base familiar envolve muita coragem e precisamos estar dispostas e elas queriam dar as mãos e enfrentar isso juntas. Até hoje, não é nenhum pouco fácil, mas seguem uma luta (literalmente) diária. Pensando em momentos difíceis como esse (e também nos outros, enquanto um casal), a Ana conta que ela é uma pessoa mais explosiva e a Júlia tende a ficar mais quietinha quando está triste, então temos momentos distintos quando a situação em si acontece - e está no ápice - porém, com o tempo e a convivência, a Júlia têm aprendido a acolher muito mais e a Ana têm aprendido a ser mais calma também, então uma está tentando puxar a outra para um equilíbrio. A Júlia explica que quando está chateada com algo tende a ficar mais introspectiva, mas mesmo assim elas se comunicam de alguma forma. E entende que esse é o maior aprendizado de todo o relacionamento, porque quando elas se perguntam: “Queremos passar por isso?” sempre chegam à conclusão de que, sim, querem, porque reconhecem o quanto crescem e o quanto constroem muitas coisas incríveis juntas. Por fim, quando pergunto como elas se sentem vivendo em Niterói, a Júlia conta que gostaria de mudar a realidade dos animais de rua. É algo que realmente mexe muito com ela e que se pudesse e tivesse condições, a primeira coisa que faria seria construir santuário para os bichinhos e medidas protetivas de direitos aos animais e ao meio ambiente. Já a Ana, iria tentar instituir uma política de coletivização na educação, para que as pessoas desenvolvessem maior empatia e convívio social, assim como aprendemos disciplinas como matemática, português, geografia… porém pensando em estruturas sociais e sendo mais coletivos. E, para finalizar, a Jú fez um pedido para utilizar um espacinho aqui e elas comemorarem o aniversário de namoro que completaram no último mês ♥ (surpresa, Anaaa!) (pode chorar, essas duas são boiolas demais!) "Você é o meu presente e nessa data, desse ano, cheio de incertezas e medos por conta dessa pandemia que nunca acaba, você é o meu porto seguro e minha certeza. Hoje, mais uma vez, repito pro mundo e deixo registrado, definitivamente, o quanto te amo. Felicidade para nós, que venham mais anos. ❤" Julia Ana Carolina
- Karine e Clara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Karina e da Clara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Clara e Karine são muito amigas, conversam sobre tudo. Hoje em dia entendem o que passaram e respeitam o papel importante que isso teve na história delas. São muito parceiras e, mesmo de um jeito tímido, transmitem muito afeto. Sentem que o amor entre mulheres significa resistência. Elas amam ir para o parque de Madureira, para o cinema, para lugares com natureza e olhar para horizonte enquanto conversam. Quando perguntei qual modelo de cidade elas gostariam de viver, disseram que sonham em poder andar na rua sem medo, sem comentários ruins - “que a gente pudesse ser livre de verdade”. A Karine tem 26 anos, é formada em administração e hoje em dia trabalha com contabilidade. Ela sempre foi uma daquelas pessoas únicas que encantam todo mundo, sabe? daquelas que são amadas por todos. E a Clara tem 24 anos, é professora de geografia e além de sala de aula convencional, atua no Emancipa - um curso popular. Está bastante envolvida na militância e disse que isso não é um hobbie, mas um papel que ela cumpre enquanto educadora. Elas se inspiram muito na história da Marielle e da Mônica Benício. Não só pela figura que a Marielle representa (sempre com cuidado e respeitando o verdadeiro significado que ela tem), mas também pela coragem da Mônica - elas citam que pensam muito na bravura e em tudo o que ela faz para conseguir ocupar o espaço que ocupa agora. Antes de terminarmos a conversa, me falaram uma das coisas que mais soou na minha cabeça nos dias seguintes: “A gente não tá fazendo nada de errado. A gente tá amando.” a palavra está com elas Karine: Eu nunca imaginei que me descobriria como uma mulher lésbica. A vida foi me dando várias dicas que foram sendo ignoradas pela falta de conhecimento e também por conta da invisibilidade que envolve o amor entre mulheres. Não ser hetero não é uma coisa que é ensinada para gente como uma possibilidade, mas eu me permiti viver, me permiti seguir o que eu estava sentindo. Me joguei de cabeça com muito medo de todo preconceito e julgamento, tanto pelas amizades que eu tinha quanto pela minha família, mas fui me aceitando do jeito que sou, acreditando no que eu sentia pela Maria Clara e no que ela sentia por mim. Se permita ser feliz, se permita viver a vida do jeito que você quer viver, nem sempre vai ser fácil, mas eu tenho certeza que pra tudo existe um jeito, uma outra perspectiva, tudo vai acontecendo até chegar no ponto em que dá certo. Com luta e persistência iremos conseguir uma sociedade sem preconceito e cheia de amor. Clara: O que posso afirmar é: se permita a viver o amor. Crescemos em uma sociedade que nos impõe sentimentos como culpa ou vergonha por qualquer ação que expresse a liberdade de nós mulheres. E isso é refletido na nossa capacidade de amar também. O amor é uma escolha diária e quando você escolhe amar outra mulher você se liberta. Sinto na alma o quanto é desafiador amar alguém e correr o risco de ser agredida ou morta apenas por ser quem eu sou, mas luto pela liberdade de ser uma mulher lésbica que apenas deseja amar sua companheira e ter uma casa com dois gatinhos. Foi depois de um tempo e respeitando o espaço de cada uma que começaram a aceitar a paixão que estava acontecendo entre elas. Porém, quanto mais se assumiram juntas, mais problemas no trabalho aconteceram. Como a Karine trabalhava na loja há anos, o baque foi mais forte - todas as colegas passaram a olhar para ela de forma diferente, fazer comentários ruins sobre a Clara, excluírem elas de conversas. O problema não era namorar alguém do trabalho, mas sim duas mulheres estarem namorando. A Clara era vista como a “sapatão destruidora de lares”, como se estivesse desvirtuando a Karine (que nesse meio tempo também estava passando pela aceitação própria). Toda essa pressão gerou diversas crises e problemas de saúde nelas (enxaqueca forte e ansiedade, por exemplo). Isso tudo tem nome e esse nome precisa ser dado: assédio moral no trabalho. Foi aí que surgiu a Praça Nossa Senhora da Paz, o lugar em que tiramos as fotos. Ao mesmo tempo que era muito difícil aguentar o trabalho oito horas por dia, era na praça que o fortalecimento delas surgia. Todo dia, no fim da tarde, elas sentavam e conversavam, descansavam, se cuidavam. Mesmo com a dor, a memória afetiva pela praça ressignificou tudo. O começo do namoro foi o mais difícil, mas foi nesse momento em que entenderam que juntas dividiriam o peso e passariam por isso. O mais difícil em toda a situação que viveram no trabalho foi o fato de sofrerem homofobia através de outras mulheres. Todas nós sabemos que somos hipersexualizadas por homens diariamente, que já sofremos muito na rua… mas sofrer isso num grupo de mulheres que tinham acesso à informação e que eram jovens, foi muito difícil. Eram nas saídas do trabalho que percebiam que podiam estar gostando uma da outra, pois chegavam no metrô, se despediam e ficavam uma de frente para outra em lados opostos da estação (sentido zona sul > sentido zona norte), por um bom tempo se olhando. O beijo, ou melhor, “o melhor beijo da minha vida”, segundo elas, foi numa dessas idas à casa da Karine. Dessa vez assistiram um filme grudadas e na hora de dormir, quando as colegas não estavam mais por perto, aconteceu. No dia seguinte, Clara tomou uma decisão ruim: ter uma DR (discutir a recém relação) porque não estava entendendo o que tinha acontecido. A Karine estava lidando como se tudo tivesse sido um sonho (ou um surto?) e não quis conversar, não conseguiu agir bem. Hoje em dia entende que ela só estava nervosa e que não conseguiu dizer ou demonstrar o que sentia, foi tudo muito repentino, era um misto de sentimentos e precisava se entender primeiro. Clara se sentiu muito frágil e triste. Então, foram embora e a cena do metrô foi diferente: ela entrou, o metrô fechou e pelo vidro olhou Karine do outro lado, até que ele se locomovesse. E aí, pra fechar essa baita cena de cinema, veio o quê? o play no Medo Bobo no fone de ouvido (e a lágrima querendo escorrer). Você já ouviu Medo Bobo, da Maiara e Maraisa? Então solta o play para ler essa história com uma trilha sonora digna. Ok, agora sim. Podemos começar. . . “Eu não queria encostar meu corpo no da Karine porque tinha medo dela sentir meu coração, de tão forte que estava batendo” Assim, entre risadas, Clara conta como foi o primeiro beijo. Clara conheceu Karine quando começou a trabalhar em uma loja, eram colegas e a Karine era a pessoa com mais experiência, então acabou sendo sua supervisora. A loja ficava no meio de Ipanema, bairro da zona sul do Rio de Janeiro. Clara morava de um lado da cidade, Karine do outro. Suas vidas eram bem diferentes, mas ali, dentro da loja, se encontraram. Clara sempre entendeu que gostava de mulheres, mas tinha medo de falar sobre isso no trabalho. Sempre se referia a alguém como “uma pessoa”, e não “a menina que estou ficando/minha namorada”. Karine se identificava enquanto heterossexual, não tinha sentido paixões por outras mulheres, mesmo que já tivesse beijado. Quanto mais a Clara sentia que não se encaixava nos padrões das mulheres que trabalhavam na empresa, mais ela sentia algo pela Karine. Trocavam olhares e aumentava a ansiedade, porque logo pensava que seria impossível rolar alguma coisa. Se sentia algum sinal, com a Karine demonstrando mais afeto, achava logo que era coisa da sua cabeça e assim seguia num amor quase que platônico. A verdade é que não era platônico, mas recíproco. A Karine estava começando a sentir algo por ela também e começou a criar situações para que pudessem ficar juntas. Desde chamar o pessoal para ir ao cinema - detalhe: isso no início empolgou muito a Clara, até que ela se viu sentada entre a prima e a irmã da Karine e assistindo um filme de anjos (!!) e saiu frustrada… (pode rir, mas com respeito kkk) - até convidar as colegas para passar uma noite na sua casa. < Karine Maria Clara
- Rafaela e Helena | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Desde o primeiro encontro, Lucia Helena e Rafaela sentiram uma conexão natural. Nenhuma das duas esperava iniciar um relacionamento tão cedo, mas a conversa fluiu de imediato e, poucos dias depois, já estavam marcando de se ver. Nena, como é chamada, havia saído recentemente de um casamento longo, enquanto Rafaela retornava ao Recife após uma experiência no Rio de Janeiro que não durou como esperava. Mesmo assim, decidiram se abrir para algo novo. Lucia Helena, estava com 37 anos no momento da documentação. É natural do Recife, trabalha enquanto motorista de aplicativo e é estudante de educação física. Adora acordar cedo e aproveitar o dia. Seu divertimento é praticar esportes, como jogar bola e andar de bicicleta. Rafaela estava com 23 anos no momento da documentação. Mora na cidade de Paulista, região metropolitana de Recife. Vivia um momento de recomeço na cidade e não planejava nada sério, mas percebeu que ao lado de Nena tudo se encaixava sem esforço. O relacionamento evoluiu rapidamente, mas sem pressa, no tempo certo das duas. O primeiro encontro aconteceu na Páscoa, de forma despretensiosa. Nena, muito ligada à sobrinha, saiu para comprar um chocolate de presente e aproveitou para passar perto da casa de Rafa, sugerindo um encontro rápido. Rafa deu algumas desculpas, alegando estar ocupada, mas Nena insistiu um pouco, dizendo que estava de carro e iria até ela. O que seria só um encontro no carro se alongou em uma conversa, até que, entre piadinhas, se beijaram pela primeira vez. Dias depois, Rafa comentava com uma amiga que não iria namorar ninguém, que “nem tão cedo iria ceder para o namoro”... até que o celular tocou com uma notificação em tom diferente, porque geralmente nem notificava… e ela tinha colocado especialmente para ver as mensagens da Nena… quando a amiga percebeu, ela disse “Tu não vai namorar não, né? E essa notificação aí que já mudou?”. Na semana seguinte, marcaram outro encontro, dessa vez para tomar um açaí. Desde então, não se desgrudaram mais. Entre conversas, descobertas e afinidades, perceberam o quanto se encaixavam. Hoje, Rafa passa mais tempo na casa de Nena, no Recife, do que na própria casa em Paulista. Rafa e Nena veem o relacionamento como algo genuinamente diferente do que já viveram. Desde o desejo constante de estarem juntas, após experiências anteriores (em outras relações) que viveram à distância, até a liberdade de viver esse amor de forma aberta. Pela primeira vez, não precisam se esconder ou restringir nada - família e amigos sabem, apoiam e participam. Postam fotos sem receio, falam sobre o que sentem, vivem a relação sem medo. Para elas, isso é essencial: poder mostrar um amor que é bonito de se viver. O apoio mútuo se manifesta em tudo, desde as pequenas rotinas, como sair para pedalar juntas ou assistir aos jogos dos times (que são rivais), até os desafios mais profundos da vida, como os estudos, o trabalho e as dificuldades familiares que acontecem paralelas à vida. Mesmo nos momentos difíceis, sabem que podem contar uma com a outra, seja para cuidar da cachorrinha ou para enfrentar os obstáculos da vida. O relacionamento se sustenta na parceria e no companheirismo diário. Quando pensam sobre o amor, lembram das vezes em que enfrentaram momentos de ansiedade juntas. O suporte mútuo foi essencial, tanto para acalmar quanto para ajudar a concretizar aquilo que parecia inatingível - e que era causador da ansiedade. Para elas, amar é aceitar, acolher e estar presente. É uma sensação de: eu te aceito como você é e estou aqui contigo. E ficam muito felizes, também, por verem esse amor reconhecido entre as pessoas ao redor, de tanto se apoiarem os amigos e familiares reconhecem: “Teu semblante ficou melhor depois que tu conheceu essa menina” ou “Agora tu tá indo pra frente e as tuas coisas estão progredindo”. Rafa e Nena contam o quanto o relacioamento delas é diferente em vários pontos: desde conviverem próximas, desejarem estarem muito juntas e terem tido experiências à distância antes, até o contato muito aberto que possuem com a família e que antes isso não era possível - a irmã e a sobrinha, o pai e a mãe, todos já sabem e não precisam se esconder ou restringir. Postam fotos livremente, falam sobre o seu amor. Não se sentem privadas de mostrar uma relação que é tão bonita de viver. Sentem a importância do apoio - desde numa rotina muito simples em acordar e sair para pedalar, vão juntas, até assistir jogos de futebol dos times rivais juntas.. até as coisas mais profundas da vida como os estudos, os desafios de trabalho, questões familiares que acontecem paralelas à vida, os cuidados com a cachorrinha de estimação… entendem a importância de contar com a pessoa que você se relaciona. Quando pensam sobre a relação e sobre o amor, citam momentos de ansiedade que passaram juntas e que uma apoiou muito a outra, tanto para estabilizar quanto para realizar o que estava causando a ansiedade. Nesses momentos, o amor está muito veiculado à verdade, ao suporte, à uma parceria que serve como familia e acolhimento. É uma sensação de: eu te aceito como você é e estou aqui contigo. E ficam muito felizes, também, por verem esse amor reconhecido entre as pessoas ao redor, de tanto se apoiarem os amigos e familiares reconhecem: “teu semblante ficou melhor depois que tu conheceu essa menina” ou “Agora tu tá indo pra frente e as tuas coisas estão progredindo”. ↓ rolar para baixo ↓ Rafaela Helena
- Mayara e Clara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mayara e da Clara, quando o projeto passou por São Paulo! Foi através de um aplicativo de relacionamentos, em 2016, que a Mayara e a Maria Clara se conheceram. Elas conversaram um pouco, trocaram algumas ideias... e um tempo depois, a Clara estava numa roda de amigas, conversando, na rua, quando viu uma moça passando e identificou as tatuagens e o jeito parecido com “aquela que havia dado match no Tinder”. Ela conta que Mayara veio lhe encarando, mas que ambas não tinham certeza se eram mesmo quem imaginavam, então trocaram mensagens para se certificar, do tipo “eu passei por você agora há pouco?" e interpretaram aquele encontro como um sinal, para se encontrarem mesmo, com data e hora marcada, em breve. No fim de novembro de 2016 foi quando começaram a se relacionar e vivenciar momentos de altos e baixos, idas e vindas. Em setembro de 2017, quase um ano depois, foi quando realmente entenderam o que tinham enquanto um namoro. Esse entendimento e essas “idas e vindas” levaram tempo por conta de processos bastante internos e hoje, olhando para trás, percebem que o relacionamento mudou muito desde o início. Parte desse processo vinha de uma movimentação mais defensiva da May, que aos poucos foi compreendendo que elas estavam juntas para se ajudar. Nesse primeiro ano, a May sofreu um episódio de homofobia bem doloroso. Ela estava sozinha, num lugar até então seguro e foi agredida por pessoas que chegaram de fora da sua casa. Esse movimento de passar por violências muito graves que jamais imaginaria trouxe muito sofrimento e também um sentimento de querer encontrar a Clara por a entender como um apoio e alguém com quem poderia contar. Enquanto a Clara, por sua vez, respeitou e acolheu de forma essencial, deixando com que mesmo entre muitas dores, a May pudesse se sentir em segurança ali. Assim, com o passar do tempo e dessas turbulências, elas foram amadurecendo o sentimento. Outras coisas que envolviam a relação também foram amadurecendo naturalmente, como ciúmes, relações com familiares (que passaram a compreender e apoiá-las) e o próprio respeitar espaços de cada uma foi fundamental para que a relação pudesse ter maior conexão e intimidade. Tanto a Mayara, quanto a Maria Clara, possuem 28 anos. Mayara é de Rio Claro, mas foi morar em Campinas há 9 anos para ser publicitária - profissão que desenvolve em uma agência - trabalha com atendimento ao cliente também, além de alguns trabalhos com redação, que é o que ela mais gosta. A Clara é boleira, faz bolos por encomenda, tanto caseiros, quanto para festas (e são muuuuuuito gostosos!). Além disso, a Clara também faz alguns trabalhos temporários em atendimento e suporte ao cliente. Ah, outra informação sobre elas que não poderia faltar, né? Elas são opostos complementares nos signos: áries e libra - e isso sempre esteve presente nas conversas, desde que se conheceram. No momento que nos encontramos conversamos bastante sobre a pandemia, elas contam que a adaptação foi difícil, tanto no trabalho, quanto na relação, na vida, nas amizades, no dia a dia. O trabalho envolvia vendas na presencialidade e tiveram que trazer os clientes para o meio online, sendo um desafio imenso, sentindo desconfortos pelas videochamadas, desconhecimento de tecnologias, foi uma adaptação bem grande. Elas entenderam que trazer o conforto para a situação é o maior desafio em seus trabalhos, tentam descontrair e fazer os clientes se sentirem tranquilos, mas ligar uma câmera não é fácil (e possível) para todo mundo. Além disso, foi difícil parar de fazer o que mais gostavam, como sair com o Paçoca (o cachorrinho mais educado e querido desse mundo!), ir à praia e sair um pouco do mesmo espaço dentro de casa para conseguir se movimentar, então perceberam ansiedades aumentando, momentos de maiores cobranças e imediatismos. A forma de tentarem se ajudar e deixar tudo mais leve foi reinventando os espaços em casa, a May se mudou para dividir o lar com a mãe da Clara e a Clara e a partir disso elas passaram o tempo livre maratonando séries, compartilhando refeições e investindo nos instrumentos musicais. Elas têm se permitido sair para andar de bicicleta, brincar com o Paçoca, visitar a família e ir até a casa no sítio. Elas sempre se enxergaram dispostas a viver o amor e a estarem juntas e isso é o que mais se destaca para a Mayara. Ela diz que ambas sempre estão percebendo uma à outra de maneira inteira, com suas qualidades e defeitos. Quando enfrentam momentos em que as coisas se tornam um pouco mais sensíveis, entendem que é preciso encontrar força conversando e buscando uma na outra, porque o amor está também nessa persistência, nessa vontade de estar juntas e nesse encaixe que ele possibilita. A Clara percebe que o amor é desejar e entender o que queremos para o outro (a pessoa com quem nos relacionamos) e para a gente (a nossa relação) - e não só, para que isso se espelhe/se reflita nos outros também, nas nossas relações com as pessoas que estão ao nosso redor, visto que o amor não precisa envolver apenas o romântico e o sexual. Ela acredita que amor envolve companheirismo, incentivo, uma parceria mesmo. Isso faz com que as coisas permaneçam fortes e saudáveis ao longo dos anos, trazendo essa preocupação em relação ao bem estar… e, principalmente entre as mulheres, no que envolve afeto, porque acredita que o companheirismo e a escuta são nossas principais características. Tivemos várias conversas sobre como vimos as relações humanas hoje, além do relacionamento delas, mas como as pessoas se relacionam hoje em dia e, alguns dias depois, recebi uma mensagem falando como foi importante a participação no projeto porque fez com que elas olhassem para o relacionamento delas com maior respeito pela história que construíram juntas. Fiquei feliz pelo o que o Documentadas provoca na gente, esse autoconhecimento, mas também pelo reconhecimento que merecemos ter porque nos amarmos, enfrentarmos tantos preconceitos e termos uma história que resiste e que se permite conhecer, estar aberta e aprender com seus erros, é de fato, ter coragem. Obrigada por compartilharem a história e aproveitem o amor de vocês, meninas ♥ Mayara Maria Clara
- Thacia e Ju
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Thacia e da Juliana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! No relacionamento da Juliana e da Thacia, o que prevalece é o cuidado. Primeiro, porque estão sempre cuidando uma da outra; Segundo, porque estão sempre tomando cuidado nos lugares que frequentam. Thacia e Ju são policiais, formadas pelo BOPE. Juliana trabalha enquanto policial penal há 9 anos, enquanto Thacia é policial civil, trabalhando na delegacia de homicídios e fazendo operações. Além disso, logo no começo do relacionamento, Ju descobriu uma anemia muito agressiva e o cuidado entre elas redobrou: Thacia aprendeu a cozinhar para ajudar a companheira, Ju brinca que se sente até infantilizada de tanto cuidado - desde o pijama preparado, até as frutas cortadas. “É tudo uma forma de carinho, é maior que eu, não faço de propósito.”, justifica. Tanto na cadeia, quanto na delegacia, todos sabem que elas são esposas. A vida particular não tem nada a ver com a instituição, ou seja, elas trabalham e são casadas. Por mais que amam o que fazem, acreditam que existem outras alegrias na vida além do trabalho, como por exemplo o hobbie da Ju de fazer acrobacias nos tecidos ou o quanto são devotas à religião. Juliana, no momento da documentação está com 44 anos e trabalha enquanto policial penal num manicômio judicial que serve a ambos os gêneros. Quando fez concurso trabalhou num presídio feminino, com cerca de 700 presas. Atualmente, neste trabalho, explica que todos os presos têm transtornos mentais e os crimes são bastante pesados. O juiz é quem determina a pessoa que irá para lá, isso serve como uma medida de segurança. O preso, então, se torna paciente do hospital, entrando em em tratamento junto à equipe técnica composta por psicólogo, psiquiatra, assistente social e terapeuta ocupacional, para tentar formas de compreender como aconteceu, identificar e tratar psicologicamente. Conta sobre as interações, a função dela e o fato de ser um local que também tem espaço para pessoas trans e travestis, oferecendo tratamento hormonal e coordenação específica LGBT+. Para Juliana, o governo do RJ faz um bom trabalho em relação ao cárcere. Thacia, no momento da documentação, está com 36 anos e trabalha enquanto policial civil na delegacia de homicídios, além de fazer operações de rua em todo o Rio de Janeiro. Para ela, é bom ter a mesma profissão que a companheira, pois assim se entendem em muitos aspectos, frequentam os mesmos cursos, a mesma área. Ju entende a sua rotina, que não é fácil… às vezes precisa sair para operações na madrugada. Explica que dificilmente em outras relações as pessoas entenderam isso. São um casal que não proíbe as vontades uma da outra e se respeitam, nesse sentido. Por mais que trabalhassem na mesma área, não se conheceram no ambiente de trabalho, mas pela mãe da Thacia, que as apresentou. Thacia tem uma família envolvida na profissão, a mãe dela é policial penal aposentada e ensinou muita coisa para a Ju, foi sua mentora. Em 2018 Thacia e Ju se reencontraram e começaram o relacionamento. Ju conta que no mesmo ano que começaram o relacionamento, o filho dela foi morar nos Estados Unidos e ela se sentiu muito sozinha. Em 2019, no dia das namoradas, a Thacia deu uma cachorrinha de presente para ela não se sentir tão solitária: a Kira. Desde então, tratam a Kira como uma filha… ela tem berço, plano de saúde, festa de aniversário e nunca fica sozinha. Quando está só com uma delas, fazem chamada de vídeo para matar a saudade. No momento da documentação o filho já tinha voltado ao Brasil e brincam que ao invés dele ter uma cachorra, tinha uma irmã. “Ela é muito mimada. Ela arranca sorrisos, é uma benção. Faz você se sentir a pessoa mais amada do mundo. Você sempre ri com a presença dela”, diz Ju. Adoram a rotina que vivem. Gostam de dormir cedo, entre 21h ou 22h já estão na cama, depois acordam às 05h30 da manhã, saem para trabalhar com o café já pronto, ou tomam café na cama. Ainda de madrugada, passeiam com a cachorra. Thacia mora em Maricá (diferente da Ju, que mora em Niterói) e fala sobre lá ser uma cidade muito única. Vê bastante público LGBT, as coisas geralmente são gratuitas e tem uma qualidade de vida muito boa. Sentem que já erraram muito nos relacionamentos anteriores, então quando resolvem ficar juntas querem fazer dar certo. E querem se colocar uma no lugar da outra. Para Ju, o amor é entrega, tempo, dedicação, construção. Com a Thacia, o amor significa companheirismo. Thacia vê o amor que elas possuem como uma amizade, acima de tudo. O relacionamento é a coisa mais preciosa que ela tem. A Ju conhece ela por completo, são parceiras. Nunca tinha encontrado isso, sempre se viu separando relacionamento de amizade e com ela encontrou essa junção - tem uma melhor amiga e uma esposa. Diz que isso faz toda a diferença. Ela não sabia cuidar de ninguém, além de si própria, e agora aprendeu a fazer tudo pela outra pessoa. Juliana diz: “Ela deixa a parada boa, aquilo que é ruim, ela deixa boa”. E Thacia completa: “Antes de pensar em você, você pensa e se preocupa com o outro. Eu não ligo pra saber onde ela, só ligo pra saber se ela tá bem, se chegou bem. Amor é o desprendimento, ver a pessoa bem, feliz, voe. Você quer que pessoa voe e eu quero tá do lado pra acompanhar.” Thacia explica que elas nunca sofreram discriminação, agradece à Deus por isso e conta que também não possuem o costume de ir em festas e Paradas LGBTs justamente por causa do tumulto e da exposição. Pela profissão, o tempo todo tomam cuidado sobre os locais que frequentam e o que pode acontecer ao seu redor. De qualquer forma, acham que andar na rua de mãos dadas e se beijar em público não tem problema nenhum e por isso fazem com naturalidade. Depois, ela lembra de uma situação, em que foram numa churrascaria juntas e um homem ficou encarando por muito tempo. Ela ficou muito desconfortável, não sabia se ele as conhecia, se estava sendo preconceituoso… No fim, trocaram de mesa. Sente que não podem ir para qualquer lugar, visitar qualquer amigo… É uma questão de preservar a vida delas e de quem tá com elas. ↓ rolar para baixo ↓ Thacia Juliana
- Renata e Marcela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Renata e da Marcela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Hoje em dia elas entendem que isso fez parte da história, mas tentam sempre ressignificar o sentido de família. A Marcela passou o último natal com a família da Renata, os amigos estão sempre por perto, inclusive, são grandes admiradores do casal. Elas fomentam o lar, o amor e o cuidado. Tudo o que viveram serve de fortalecimento não só na relação, mas também enquanto seres humanas. Quando perguntei sobre o amor, me disseram que o amor, mesmo que de forma geral, é político, porque ele está em tudo. Identificam esse atual momento como o pior que já viveram em relação ao ódio e à ignorância disseminada e que, mais perigoso que isso, é sobre o “agressor” estar gerando o nosso país. “O amor tem que ser colocado em prática. Não responder o ódio com mais ódio.” Renata comenta o quanto o ódio é tentador, o quanto nos deixamos levar pelo impulso do ódio. O amor, não. Ele é muito maior que a gente. O amor está entre as relações de pessoas conhecidas (amigos, familiares) e também nas relações sociais. “Quem ama não coloca uma calçada com espinhos em cimento para as pessoas em situação de rua não poderem deitar embaixo do viaduto. Como que chegamos nesse ponto?! Se chegamos, foi porque alguém normalizou o ódio nesse nível. E o nosso maior desafio é não deixar o primeiro passo ser dado para chegarmos onde estamos, ou, agora, revertermos a situação.” Marcela comenta que amar mulheres é ter um tipo de amizade único também. É uma relação muito mais completa - é ter respeito, trocar, entender, ter vontade de estar junto e querer que funcione, mesmo que nem tudo sejam flores. É entender que são pessoas incríveis separadas, mas que estando juntas são ainda mais. Quanto mais a relação delas se desenvolvia, mais a Marcela achava injusto que seus pais não soubessem do relacionamento. Ela já era uma mulher financeiramente e emocionalmente independente, mas acabava tendo uma vida ‘dupla’ por dentro de casa não poder demonstrar seu amor por outra mulher. O pai reagiu de uma forma mais tranquila, mas a mãe não lidou (e não lida) bem. Marcela costuma contar que foi a madrugada mais longa que ela já viveu. A mãe não aceitou e ela decidiu sair de casa. Renata deixou a porta de casa aberta, para que ela pudesse, ao voltar, entrar. Ela voltou com uma mochila cheia de roupas e assim passaram os meses seguintes, juntas, tentando se cuidar. Marcela começou a fazer terapia (inclusive, o pai acompanhou algumas sessões também), e começou a dividir o apartamento com a Renata. Ela contou que não acha justo mentir. Não queria dizer que estava num bar se estava na casa da Renata, por exemplo. Além do mais, elas sentem algo tão bonito, tão bom, que merece ser compartilhado, por mais que existisse o medo de contar. Hoje em dia, ela ainda tenta, aos poucos, ficar bem com a família, mas comenta sobre o quanto é difícil. Hoje em dia, elas sentem muito que os pais não estejam presente nos detalhes bons da vida, como a forma que elas montam o apartamento delas, os motivos que dão risada, as plantinhas que acabaram morrendo mas que elas estão determinadas a aprender a cuidar, os gatos e o que as fazem felizes ou tristes. E o quanto valem esses detalhes, afinal? Vale a pena não tentar quebrar esse preconceito que existe em troca de conviver e compartilhar a vida com os filhos? Perder essa fração de vida? E tudo isso por não aceitar que o amor? No fim, a conta não fecha. Renata tem 39 anos, ama andar de bicicleta, dançar e escrever. Marcela tem 25 anos e na quarentena tem descoberto que gosta de trabalhar com edição. Elas vivem num apartamento juntas, com seus dois gatinhos e os milhões de pássaros agapornis que chegam até a janela para fazer uma visita e comer umas sementinhas. São mulheres que possuem uma vida cultural e social muito ativa, sempre estiveram entre teatro, cinema, bares, etc. Tiveram um primeiro encontro meio sem querer - queriam assistir uma peça juntas, mas não conseguiram chegar em tempo. E aí decidiram ver uma peça chamada ‘40 Anos Essa Noite’, que fala sobre vivências LGBTs. Depois da peça pegaram um uber para o bar e era engraçado que no caminho, como uma não sabia se a outra se considerava hétero ou LGBT, acabaram contando suas experiências, para deixar bem claro, estilo “uma vez vivi isso com A minhA namoradAAAA/e ai elAAA/na perspectiva delAAA”. Depois disso começaram a se permitir conhecer, se apaixonar e viver a relação. Enquanto estudavam juntas no Tablado, os exercícios cênicos eram sempre feitos através de grupos e as cenas improvisadas com temas da atualidade. Os grupos eram escolhidos de forma aleatória, então elas nunca acabavam caindo juntas. A primeira cena que fizeram de verdade foi uma cena de Orange Is The New Black, da qual interpretavam a "Pennsatucky” e a “Boo” no dia das mães. Após atuarem juntas no Tablado, se juntaram com um grupo de amigos e decidiram fundar uma companhia de teatro, os Banalizadores do Evoé, que durou alguns meses antes da pandemia. "O Amor entre duas mulheres e a rejeição social desse "comportamento" gera a dor gigante daquela cujo sentimento só sabe ser livre..." Foi através de ‘O Efeito Urano’ que Fernanda Young chegou até a Renata e a Marcela e se tornou uma das primeiras cenas que fizeram juntas, no começo do relacionamento, após se encontrarem no teatro Tablado. Renata e Marcela são atrizes, além de professora e de advogada. Elas se conheceram estudando teatro juntas, já em palco. A Renata sempre se viu um pouco na Fernanda Young, as obras dela permitiram com que entendesse que seu corpo também era livre. Fernanda sempre dizia que não cabia nos lugares, enquanto, Renata, também se sentia assim… até que ambas entenderam que não precisamos caber em lugar algum, mas que criar nosso próprio lugar. Renata apresentou O Efeito Urano para a Marcela. Virou o livro delas. Marcela leu e Renata releu, simultaneamente - assim grifaram tudo o que achavam importante, depois juntaram os papéis, no chão de casa, separando em três atos: a paixão, o relacionamento e o ato final. Foram para a praia, com os textos em mãos, e passaram o dia ensaiando. Depois disso, qualquer momento se tornou oportuno: passaram o texto enquanto estavam cozinhando, dirigindo e andando por aí. Se tornaram muito parceiras em ensaios, sempre trocando muito aprendizado. Hoje em dia o livro virou a parede do quarto delas, literalmente.
- Cecília e Jady
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Cecília e da Jady, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Nos últimos meses, depois de várias conversas e de entender que o momento ideal tá chegando, elas decidiram procurar um apartamento e em breve estarão morando juntas. A ideia surgiu porque o contrato do apartamento que a Jady aluga com alguns colegas vai vencer no próximo mês e ela até cogitou propor algo em conjunto com a Ceci, mas pelas faculdades das duas serem em cidades diferentes, surgiram empecilhos sobre onde seria o imóvel. Com o tempo, ficou certo de que o curso da Cecília continuará à distância até o fim e isso abre novas possibilidades, então conversaram, as famílias apoiaram bastante e por já estarem passando muito tempo juntas, tudo passou a ficar cada vez mais concreto. Hoje em dia, o maior passatempo está sendo planejar os cantinhos do novo apartamento e cada decoração, cada móvel, cada objeto com a carinha delas ♥ (boa sorte, meninas!) O apoio da família da Cecília é algo que ela se orgulha muito em ter. Quando era mais nova ela passou por momentos muito difíceis ao se entender enquanto bissexual e por se relacionar afetivamente com mulheres. Passou pela expulsão de casa e hoje em dia, 11 anos depois, tem uma relação completamente diferente. A família dela considera a Jady como “uma filha paulista” e realmente apoia as duas, enchem elas de carinhos e estão sempre perguntando e querendo estar por perto. Ela conta que vê a Jady enquanto sua melhor amiga e que a pandemia representa recomeços em cima de recomeços, não só pela relação delas em si estar no começo, mas porque ela voltou pra casa dos pais, porque eles mesmos se mudaram, tudo se encaminhou para coisas novas o tempo todo (sem contar que o mundo estava vivendo algo completamente novo e inesperado), mas que ao mesmo tempo foi muito mais tranquilo por ter ela por perto, por ter a amizade e o amor dela ao seu lado. Hoje em dia a Jady está trabalhando como vendedora em uma loja de objetos praianos (biquínis, cangas etc) e a Cecília é redatora em uma agência de marketing, mas acaba trabalhando mais enquanto autônoma com seus freelances. Ambas se encontram o tempo todo em suas artes, a Jady já fez teatro por bastante tempo e contou o quanto ama, além de se dedicar ao desenho e a pintura, e a Ceci adora fotografar e também faz parte de um coletivo feminista que envolve lambes enquanto arte urbana e poesias feitas por mulheres. Falamos sobre o trabalho da Jady ser algo bastante recente, por conta de antes da pandemia todas as formas de renda serem bem diferentes. Na faculdade ela organizava brechós, fazia freelances, vendia doces e tinha outras rendas, além de também receber ajuda do pai dela. No começo da pandemia ela pensou que precisaria voltar para São Paulo, por não ter internet e computador em casa para estudar à distância e por não ver uma forma de continuar tendo uma renda independente. No começo a Cecília teve um papel importante na ajuda e no afeto na busca por um notebook e por conseguirem colocar internet em casa, até que infelizmente o pai dela, que trabalha enquanto motoboy, sofreu um acidente de trabalho e não conseguiu mais colaborar financeiramente nos custos. Foi nesse momento em que ela precisou voltar para as ruas, sair de casa e procurar algum trabalho fixo, e nisso falamos sobre as dificuldades que envolvem colocar nossos corpos na rua durante uma pandemia, com ônibus e BRTs lotados, dificuldades de achar máscaras PFF2s por valores acessíveis e o quanto é difícil nos cuidarmos dia após dia contra um inimigo invisível enquanto na volta do trabalho passamos por bares e festas com muita aglomeração, sem contar o sentimento que acaba causando de revolta muito grande, ao se sentir trouxa, usada, de estar remando contra uma maré de coisas erradas. É preciso muita força para seguir enfrentando. Desde que o primeiro beijo aconteceu e que elas começaram a conversar, meio que sem jeito e aleatoriamente, se encaixaram e decidiram logo em seguida se encontrar novamente. Com o decorrer do tempo, com os encontros e com o desenvolver de sentimentos, foram deixando as coisas fluírem e começaram o namoro. Tudo aconteceu num fluxo bastante natural porque elas se permitiram e também por tantas coisas que possuem em comum e pelo tanto que se divertem juntas. Desde o momento que nos encontramos elas comentaram sobre as bobajadas e as brincadeiras infinitas que fazem, contam que o verdadeiro encontro aconteceu por causa do riso (além do brigadeiro e do macarrão ao molho branco que a Ceci fez e ganhou o coração logo de primeira!), o que elas mais gostam de fazer é ouvir músicas, ver filmes e séries, comer várias sobremesas, apreciar diversas artes, mas mais que tudo: rir infinitamente. Estão sempre sorrindo, tendo crises de riso sobre coisas bestas, vendo memes na internet e compartilhando situações engraçadas. A Jady tem 21 anos, é natural da região metropolitana de São Paulo, mais especificamente de uma cidade chamada Taboão da Serra e veio para o Rio de Janeiro ser estudante de figurino na Escola de Belas Artes da UFRJ. Foi durante uma festa da faculdade, lá na UFRJ, que ela viu a Cecília pela primeira vez. O detalhe é que a Cecília não apenas não estudava na UFRJ, como era a primeira vez que estava indo lá. Ela faz faculdade também, mas na UFF, em Niterói, cidade que fica na região metropolitana do Rio de Janeiro. Cecília tem 27 anos, é natural do Rio e faz Estudos de Mídias na Universidade Federal Fluminense. No dia da festa, a Ceci estava lá apenas acompanhando um amigo - na verdade, na hora que elas se encontraram, ela já estava mesmo era praticamente indo embora. E aí, ao som de muito funk (antes que elas me corrijam, era um bastante específico: vem e brota aqui na base ) e no meio de todo mundo dançando, a Jady surgiu com uma roupa super esvoaçante e tão simplesmente tascou-lhe um beijo. A Ceci, por estar 100% sóbria (ela não bebe) e por não ser da UFRJ, não sabia se tinha entendido direito o que tinha rolado ali, sentiu que tudo estava super aleatório, mas rapidamente elas conseguiram conversar e decidiram trocar contatos. Detalhe: ambas estavam sem celular. Então atravessaram as pessoas dançando e foram até os amigos, pegaram um celular emprestado, a Jady passou o user do Instagram dela para a Ceci - que logo que ela chegou em casa, adicionou e mandou uma mensagem engraçadinha - e assim começaram a conversar no dia seguinte. Rolar Cecília Jady
- Rosa e Sara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Rosa e da Sara, quando o projeto passou pela Bahia!. Há anos, Sarah fala sobre amor nas redes sociais, rondando temas como autoestima, superação de relacionamentos tóxicos e abusivos, ou desintoxicação do romantismo. Porém, foi a partir de 2022, quando mesmo após 5 anos de namoro ela foi expulsa de casa, onde decidiu mudar o rumo do seu perfil: começou o próprio processo de cura. O público, vendo essa mudança, passou a querer ficar para acompanhar o que estava acontecendo com ela e a Rosa, sua companheira. Tudo girava em torno do que estavam vivendo - e a própria exposição da situação ajudou outras pessoas que se identificavam, vivendo suas próprias caminhadas. Mesmo que tenha sido muito difícil passar pelo o que passaram expondo suas dores, sentem que compartilhando dessa forma foi menos solitário. No momento em que nos encontramos, no começo de 2023 em Salvador, estavam morando no novo apartamento há cerca de 5 meses. Contam com um sorriso no rosto o quanto estava sendo incrivelmente bom, mesmo que pouco tivessem sonhado com isso, porque sentiam bastante medo pela convivência ser complicada, mas que aos poucos entenderam que na verdade amavam os momentos que passavam juntas no espaços que estavam. Hoje, acreditam que vivem em equilíbrio, que ambas contribuem para a limpeza da casa, que o lar está em harmonia e que fazem as coisas serem felizes estando dispostas: no querer crescer se vendo bem. Rosa estava com 26 anos no momento da documentação, é natural de Salvador e está se formando em Enfermagem na UFBA. Atualmente, ela trabalha enquanto funcionária pública. Sarah Cristina estava com 27 anos no momento da documentação. Ela é natural de Feira de Santana, cresceu em Alagoinhas, no interior da Bahia e mora em Salvador há cerca de 8 anos. Sarah se formou enquanto assistente social, mas dedica sua vida ao trabalho de digital influencer e deseja entrar no mestrado em breve. Sarah conta que tudo começou em 2015, numa página de Facebook chamada “Desintoxicação do Romantismo”. A página era para mulheres, sobre autoestima e superação de relacionamentos tóxicos/abusivos. Sarah falava sobre não monogamia numa época em que o assunto era um grande tabu e a página viralizava diversos conteúdos, chegou a mais de 300 mil seguidores, foi então que percebeu aquilo enquanto um trabalho que não ganhava dinheiro. Quando tudo migrou para o Instagram, os conteúdos também cresciam rápido e bombaram, mas o problema seguia o mesmo: não havia retorno financeiro. Vendo a crescente geração de influenciadoras, decidiu que precisava dar um rumo diferente. Foi quando, em 2020, começou a estudar como ganhar dinheiro com as redes sociais e entender seus próprios processos - perceber que ela não existia na página, que o rosto dela não aparecia, que as pessoas não conheciam ela, apenas o conteúdo postado… e decidiu mudar as coisas. Entendendo que tudo precisava mudar, a página Desintoxicação do Romantismo passou a ter o rosto da Sarah, conteúdos feitos pela Sarah e também o nome da Sarah. Entender que abrir a sua vida enquanto digital influencer falava sobre suas inseguranças também foi um grande desafio muito importante a ser enfrentado - que fala sobre a coragem nesse processo (coragem redobrada quando expôs a situação que estava vivendo com a Rosa em 2022). Foi em 2017 quando se conheceram e começaram a relação, Rosa era militante do DCE e liderança dos espaços da saúde da UFBA e num espaço de militância do MST conheceu a Sarah. Elas brincam sobre a Sarah estar o tempo todo de olho na Rosa, mas a Rosa sempre estar muito focada/ser muito responsável e nunca nem perceber que alguém jogava charme pra ela. O que não faziam ideia é que em outra situação a Rosa já tinha visto a Sarah andando pelo campus de tranças e já tinha se encantado por ela, mas no dia que se encontraram ela estava com o cabelo de black e na hora não reconheceu. Sarah conta que ficou paralisada na luz que Rosa tinha ao falar sorrindo, no jeito dela, e fazia de tudo para estar perto. Ela tentou ficar com a Rosa e não deu certo, mas não desistiu, colocou as camas lado a lado no alojamento e acabaram ficando, mas ainda com certo estranhamento, entre as demandas da militância, tudo parecia estar errado. Foi quando Sarah, no dia seguinte, sentou na cama e pensou “Quem me guia, se for para ficar com essa mulher, que ela apareça em 5 minutos, e aí vou conversar com ela!” e ela apareceu… Não só apareceu, como foi a única pessoa que entrou naquela sala durante um bom tempo. Elas conversaram, se acertaram, ficaram bem. Voltaram para Salvador e seguiram se encontrando, durante as férias conversando, e seguem juntas até hoje. Pensando sobre quando começaram a namorar, em 2017, entendem que a vivência era completamente diferente. Era muito frustrante não serem assumidas, sentiam muito medo. Rosa saiu do armário em 2019 e Sarah ainda sente muita dor por ser recente, por não ter contato com algumas pessoas da sua família. Dói muito, mas ainda é menos doloroso que esconder quem ela é e algo tão puro como amar alguém. Sarah acredita que o amor acontece de forma saudável, mas exige muito esforço, não é algo fácil e precisa ser diário, pensando o tempo todo em comunicação. Para alugar o apartamento enfrentaram diversas situações, entre preconceitos e medos. E isso talvez reforce a valorização que dão diariamente nesse novo lar. Sobre a vida que vivem hoje em dia, Sarah conta que não queria pensar onde dar as mãos, não queria sofrer tanto racismo enquanto andam juntas (e também separadas). Hoje em dia não se sentem confortável enquanto um casal em todos os espaços e queria muito sentir. Queriam ser afetuosas nos espaços, nos bares, na rua, porque amam estar na rua e desejam ser quem são. Quando olham o caminho que já percorreram até aqui percebem como foi muito difícil começar a dar as mãos nos espaços públicos e foi preciso muita terapia para entender que poderiam dar as mãos, havia muito medo de serem atacadas fisicamente ou verbalmente… e ainda há medo, até mesmo dos olhares, mas o desejo de viver livremente sendo respeitadas precisa ser maior que o medo. Alguns dias depois do nosso encontro elas viveriam o primeiro carnaval juntas e estavam ansiosas para isso, o primeiro carnaval, mesmo em tantos anos de namoro, que estariam assumidas. É um misto de muito felizes, com medo, tristes pelo medo, mas se permitindo estarem felizes. No tempo livre, Sarah e Rosa adoram ir a praia, ao cinema, cozinham juntas - uma fica responsável pelo doce, outra pelo salgado, e estão aprendendo a sair juntas (coisas que não aconteciam antes) - uma novidade que está sendo muito legal! Elas também amam os pequenos afetos, os carinhos e valorizam os momentos juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Sara Rosa
- Aline e Nathália
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Aline e Nathália, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Fotografei a Aline e a Natalia cozinhando juntas porque desde o começo da nossa conversa deixaram claro o quanto essa é uma atividade que gostam de fazer (enquanto ouvem e criam músicas). Entendem o cozinhar enquanto uma alquimia, algo que vem desde suas avós, e a Aline explica o quanto aprendeu a cozinhar de fato depois que ela e a Nath começaram a se relacionar. Além dos hábitos na cozinha, outra coisa em evidência desde o princípio foi o quanto demonstraram que a relação é feita por muita comunicação. Ambas estudam comunicação não violenta e durante a pandemia de Covid-19, por estarem em casa e conviverem 24h juntas, colocaram em prática diversas formas de se ouvir. Entendem que se passaram tanto tempo juntas, vivendo processos individuais e coletivos, e não viveram nenhuma briga, isso é graças ao que colocaram em prática. Não ter brigas não quer dizer que não há conversas difíceis e desafiadoras. São elas, inclusive, que trazem uma nova sensação: a de segurança, de ser capaz de resolver qualquer problema. Enxergam os sentimentos e as necessidades mudando ao longo do tempo, por isso entendem o relacionamento enquanto um investimento: entregam e cobram respeito, compreensão e muitas outras coisas. Dentro de tudo o que constróem juntas, agem pensando em mulheres. São feministas e estão ativamente no seu cotidiano impulsionando as mulheres ao seu redor, entendendo que suas vidas giram em torno disso, até mesmo quando estão em espaços ainda pouco ocupados por nós. Exemplo disso são as aulas de violão e canto que a Aline dá: nem sempre são turmas de alunas mulheres, mas faz questão de debater com os homens temas importantes como ausência de mulheres em bandas e vozes femininas. Além de trabalhar com as aulas, Aline, que estava com 30 anos no momento da documentação e nasceu em Friburgo, interior do Rio de Janeiro, também trabalha com música em shows e teatros e mantém uma companhia de teatro com a sua mãe, sendo compositora e diretora. Ela conta que viveu desde sempre cercada por muitas formas artísticas e, mesmo se formando em psicologia, não se vê distante da arte em nenhuma ocasião. Natalia, por sua vez, estava com 35 anos no momento da documentação. Nasceu em Xapuri, no Acre, mas se mudou muito nova para o Rio de Janeiro com a família, crescendo no interior (na Região dos Lagos) e hoje em dia morando com a Aline em Niterói. Ela é designer e trabalha num espaço de militância coletiva. Além disso, faz doutorado em mídia e cotidiano, estudando a cobertura midiática de violências contra mulheres lésbicas. Se considera uma mulher feminista, passou bastante tempo estudando sobre o cárcere brasileiro e também faz parte de um coletivo de mulheres lésbicas em Niterói. Seu sonho é criar uma casa-escola com a Aline, promovendo cursos feministas e espaços de troca. Foi em 2019 que se conheceram. Na época, Nath foi almoçar com uma amiga, que cumprimentou uma menina na rua - a Aline. Elas contam que acharam uma a outra muito bonita… Nath pensou que Aline fosse meio marrenta, estava com um fone e um short de ginástica, não quis sentar à mesa com elas, estava de passagem. Perguntou para a amiga quem era a Aline e então descobriu que tanto a amiga, quanto a Aline, estavam ensaiando juntas para fazer um show em breve. Natalia vivia um casamento que funcionava enquanto relacionamento aberto, entendiam que passavam por um momento diferente: ela gostava de sair, ele gostava de ficar em casa… e foi assim que ela começou a frequentar os ensaios da amiga e conheceu um pouco mais a Aline. Aline, desde o primeiro momento que perguntou para a amiga quem era a Nath, escutou logo: “Nem vem! Ela é casada!” e pensou que não iria acontecer nada, a não ser que fosse conhecendo a Nath aos poucos. Depois de um tempo, Nath deixou claro para a amiga que o relacionamento era aberto e o papel dela na história mudou: começou a ser como um cupido para as duas. Fazia de tudo para deixá-las sozinha, ficava claro que uma tinha interesse na outra, mas o beijo demorou para acontecer. E quando aconteceu, foi um tanto quanto desconfortável. Estavam na rua e no momento passaram diversos ciclistas cantando louvor, era algo como: “Passeio de Ciclistas com Jesus” e elas estavam ali, com tudo aquilo acontecendo. Depois, repetindo o beijo, entenderam que não seria tão desconfortável assim. Durante o relacionamento da Natalia, ela já tinha ficado com mulheres outras vezes e por isso achavam que seria um rolo passageiro com a Aline, que não duraria muito. Porém, passava por diversos momentos difíceis e não se via mais que amiga do seu antigo companheiro (que, inclusive, é um dos seus melhores amigos até hoje). Tendo a Aline mais próxima, tudo caminhou para que o fim do relacionamento acontecesse. Começaram a se encontrar na casa da amiga que tinham em comum, e depois, quando entendeu que realmente gostava da Aline, deu o passo de repensar sua relação. Aline também passava por momentos bastante complexos naquele período: estava morando sozinha e pagando aluguel, tinha diversas dores financeiras por não ter o reconhecimento desejado enquanto artista e foi no começo de março de 2020 que decidiu aceitar o convite da Nath e se mudar para a casa dela, assim gastariam muito menos e poderiam repensar o que desejavam para seus investimentos e para a relação. A questão foi: poucos dias depois da mudança começar, chegou o lockdown por conta da Covid-19. Com a mudança pela metade e o medo de ser uma decisão precipitada, começaram a viver a pandemia. Hoje em dia, entendem que terem passado a pandemia juntas foi muito melhor do que se estivessem sozinhas em casas diferentes. Também relembram o quanto tudo era no começo, estavam apenas há 6 meses se conhecendo e passar todo o dia juntas era um desafio, foi onde deram início à trabalhar melhor a comunicação entre elas. Hoje em dia, Aline reconhece quantas mudanças já passou para entender o amor. Conta que há anos atrás ela não era uma pessoa que procurava os amigos, se sentia um tanto bruta com as pessoas e desejava ser mais gentil, não queria mais estar tão solitária. Passou a fazer movimentos de trazer amigos para perto, demonstrar de fato o que queria, e foi assim que entendeu o quanto o amor é uma construção, do qual necessita demonstração e esforço. No começo do relacionamento entendia que viviam uma paixão, mas hoje o amor vem através deste esforço, do respeito que aprenderam a ter entre tantas escutas. E Nath completa: amar é investir. Durante a conversa, também falamos sobre o quanto é ruim uma pessoa chegar e simplesmente dizer o que ela acha melhor dando isso como regra ou decisão única, sem uma conversa, sem um diálogo em que ambas expõem o que sentem. Por isso, elas entendem que mesmo se um dia chegarem no consenso de um término, isso vai ser muito conversado e feito de forma respeitosa, assim como foi a relação desde o princípio. Por fim, contam alguns momentos que mostram o cotidiano, como a vida ser regada de música e essa ser a forma artística preferida delas. No caminho para o centro da cidade, uns dias atrás, colocaram um hobbie em prática: criar paródias. Entre duas palavras: ‘jovem’ e ‘propósito’, começaram uma música desde o início, só finalizando quando já chegaram ao local. ↓ rolar para baixo ↓ Aline Natalia
- Vanessa e Suelen | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Suélen estava com 27 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e cursa pedagogia, trabalhando enquanto monitora de inclusão. Mora com os pais e com duas gatas e uma cachorrinha, o que a faz ser apaixonada por animais (além de gateira de carteirinha). Também gosta muito de assistir séries no tempo livre - principalmente quando assiste em conjunto com a Vanessa. Vanessa estava com 24 anos no momento da documentação, também é natural de Porto Alegre e estuda psicologia, já prestes a completar a graduação. Adora falar sobre signos, sobre séries, filmes… e sobre seus dois animais, os cachorros Jake e a Malu. Além disso, seu hobby principal é o que envolve cozinha - não só cozinhar, mas assistir vídeos de pessoas cozinhando, realities etc. Os pais de Suélen se divertem vendo as tentativas de cozinhar, são sempre experiências. Vanessa e Suélen se encontraram em um aplicativo de relacionamentos, mas já se conheciam por conta de uma amiga em comum e se tinham nas redes sociais desde o Facebook, mas nunca haviam conversado. Durante a pandemia, participaram de um grupo e essa foi a primeira interação de fato, mas era algo muito superficial. Foi o aplicativo que fez elas entenderem o interesse para além da amizade. Desde a primeira conversa já se divertiram trocando figurinhas e contam que a paixão chegou bem rápido. Os assuntos foram fluindo entre signos, sobre a vida naquele período pandêmico… Por mais que demorassem um pouco para responder, gostavam de conversar com calma, atenção, e isso era algo que chamava atenção positivamente. Suélen conta que num dos dias durante as conversas, faltou luz na casa da Vanessa e ela mandou um SMS dizendo que não sumiu do nada, só estava meio incomunicável sem internet… e Suélen achou muito legal da parte dela, entendeu que ela estava se importando. A partir desse dia as conversas seguiram cada vez mais longas, até o momento que decidiram se encontrar pessoalmente - com cuidado e calma, por conta de ainda ser um momento de pandemia. O lugar escolhido para o encontro foi onde, anos depois, fizemos as fotos da documentação - mas ele era completamente diferente. Hoje em dia existe um shopping, na época era literalmente mato e a beira do rio, um lugar aberto, com árvores, gramado e a vista. Foi escolhido porque era perfeito para assistir ao pôr do sol. O dia do primeiro encontro foi o dia das namoradas, tomaram um café juntas e Suélen levou uma cartinha para Vanessa. Ela conta que, de alguma forma, sabia que iriam namorar. Antes de completar um mês do dia que tiveram o primeiro encontro, já assumiram o namoro. Estavam num shopping e entraram numa loja para olhar algumas alianças, quando comentaram com a atendente que nem estavam namorando ainda, só estavam de olho nos modelos e valores… Segundos depois, Suélen resolveu o problema: “Quer namorar comigo?” “Quero!”. Então pronto, agora podem ver os modelos já estando namorando. Para a família, Suélen já havia contado para a mãe e para as irmãs, que já estavam empolgadas para conhecer. O pai ainda estava na dele, ele via ela se arrumando para sair e comentava que ela iria encontrar um namorado, e ela afirmava que não era namorado, mas sabia que era um processo para ele entender e aceitar. Um tempo depois, Vanessa e a mãe de Suélen se conheceram numa ida ao shopping, tomando um café juntas, e a mãe deu a ideia de Vanessa ir à casa delas primeiro enquanto amiga, para o pai conhecer quem ela era primeiro, gostar dela, e depois processar que estavam juntas. Naquele dia, elas iriam dormir na casa da irmã da Suélen, até que quando saíram, o pai perguntou à mãe “ah, mas por quê elas vão dormir lá?” e a mãe respondeu “bom… tu sabes porquê”. Foi quando ele entendeu quem era a Vanessa. Como ele gostou dela logo de cara, mudou a postura e disse que não precisava dormir na casa da irmã, poderiam voltar e dormir ali, na casa deles. Foi um dia em que todos eles estavam aprendendo a se dar bem, medindo cada reação para tudo dar certo, todos meio sem jeito, mas entendem que foi legal da parte dele ter enfrentado o preconceito vendo como a filha estava feliz namorando alguém legal. E hoje em dia tudo já é muito mais tranquilo, tanto que eles se divertem e adoram a presença da Vanessa em casa. Para Vanessa, a aceitação em casa é mais difícil e caminha em passos diferentes. Sua família é bastante cristã, seu pai não sabe e sua mãe sabe, mas não acolhe. Passou muitos anos tentando tirar esse “demônio” que acredita existir na pessoa homossexual - e até Vanessa passou muito tempo não aceitando quem era. Hoje em dia, ela conhece Suélen, sabe que elas namoram e trata Suélen bem, inclusive é nítido que gosta de Suélen, o que ela não gosta é do fato delas namorarem. Mas entendem que isso também faz parte do processo de aceitação. Elas sabem que ela enxerga o quanto Vanessa é feliz no relacionamento. Tanto para Vanessa, quanto para Suélen, o que elas podem fazer é continuar mantendo esse amor existindo. O problema do preconceito é de quem tem o preconceito, elas sabem que isso vai amenizar com o tempo e com o afeto delas sendo demonstrado gerando coisas boas. Ainda que seja um processo difícil. Como tanto Vanessa, quanto Suélen ainda moram com os pais, ficam muito emocionadas quando percebem a família juntando algumas coisas e tratando elas enquanto um casal, pensando no momento de montarem o próprio lar. São duas mulheres que performam feminilidade então o tempo todo são tratadas como amigas. Os momentos que as pessoas e, principalmente, seus familiares, as entendem enquanto uma unidade familiar, significa muito. Contam que o pai de Suélen chama Vanessa de nora e já separou alguns kits de cozinha e decoração que ganha em promoções ou assinaturas de jornal e as presenteou dizendo ser para o lar quando morarem juntas. E, por mais que elas saibam que isso pode demorar um pouco porque querem estar formadas e com uma certa estabilidade, ficam muito felizes pela consideração e pelo apoio. Sentem que a relação dá certo pelo tanto que conversam. Quando não estão se encaixando, conversam com calma e decidem o que vão fazer sobre o problema em questão. No começo tinham muito receio das discussões, mas hoje entendem o fortalecimento disso. É como se uma “discussão”, ou melhor, uma “conversa séria” se torna um degrau a mais no relacionamento. Além disso, sempre buscam formas de manter a conexão, seja mantendo “dates” diferentes, presentes, palavras de afirmação… entendem suas linguagens de amor e querem que a relação seja leve com coisas boas, brincadeiras diárias, momentos felizes… mas principalmente com a segurança: não ter medo de que vá acabar o tempo todo, de poder confiar e poder contar uma com a outra para as coisas difíceis. Suélen explica que no começo, elas não sabiam viver uma relação que não fosse pisando em ovos, com medo da pessoa largar no primeiro deslize. Aprenderam juntas a ter uma relação realmente segura. E, para ela, um exemplo de amor seguro é o amor que sente pela família, que tá contigo independente das suas escolhas, porque te ama. Hoje em dia, enxerga Vanessa como sua família, um amor que se constroi ao longo do tempo e se projeta pra vida, sem medo de julgamento. ↓ rolar para baixo ↓ Vanessa Suélen
- Carla e Nathalia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Nathália e da Carla, quando o projeto passou por São Paulo! Conheci a Nath e a Carla quando estive em Campinas, passamos a manhã num parque ecológico que é o lugar preferido delas - espaço que elas costumam ir e passar muito tempo juntas olhando o céu embaixo de uma árvore. As duas são duas mulheres super jovens e absurdamente fortes. A Nath tem 22 anos, estuda pedagogia e vive entre Ribeirão Preto e Campinas, porque fazia faculdade lá, mas com o início da pandemia voltou, para ficar mais próxima da família e da Carla, que faz faculdade de Engenharia de Software e trabalha em uma Startup, ali, em Campinas mesmo. A Carla tem 19 anos, é um pouquinho mais nova, mas elas brincam que essa breve diferença de idade não costuma transparecer em quase nada na convivência nesses anos de relacionamento. Digo ANOS porque elas se conheceram lááá em 2015, quando estavam no ensino médio. Tudo começou por causa de um grupo de Facebook chamado ‘Poxa Sapatão’, em que rolavam brincadeiras das quais você colocava seu nome e a cidade em que morava e conhecia mais meninas que moravam próximas. Assim, elas trocaram contato. Foi bem “emocionado” no começo, no sentido de ser intenso, porque elas passavam o dia inteirinho se falando (ah, o tempo útil na adolescência, né? que saudade), até que começaram a falar por ligações (que chegaram a durar 14 horas! H o r a s!) e foram, também, descobrindo muitas coincidências da vida: que moravam em bairros próximos, estudaram na mesma creche quando eram crianças, fizeram capoeira no mesmo lugar… já se esbarraram por aí muitas vezes, mas nunca tinham, realmente, se visto. Foi em janeiro de 2016 que marcaram de se encontrar em um shopping. Tentaram ir no cinema, porém, naquela época estavam tendo os famosos “rolêzinhos” (grupos de jovens que iam para os shopping em grandioso número e, por muitas vezes gerar tumulto, acabavam sendo barrados ao entrar - lembrando que os rolêzinhos, em definição mais objetiva, sempre foram muito racistas na perspectiva da proibição, pois quem era proibído de entrar no shopping era sempre o jovem negro e, em sua grande maioria, o jovem de baixa renda e periférico). Por conta do “rolêzinho”, a Nath conseguiu entrar acompanhada do pai, mas a Carla, com 14 anos e desacompanhada, foi barrada na portaria do shopping. Elas tiveram que pedir para o pai da Nath ir lá na porta principal buscar a Carla para que ela pudesse ao entrar e, quando elas se viram pela primeira vez, se abraçaram e a Carla quis andar meio que abraçada (com o braço por cima do pescoço) da Nath, só que ela se esquivou em um sentido de “Para! Meu pai tá aqui!” (hahahaha!) e obviamente o pai dela percebeu essa “amiga meio um pouco íntima demais”. Neste dia, finalmente elas conseguiram ir ao cinema. Lá se beijaram pela primeira vez e, depois do quarto encontro, começaram a namorar. O começo do namoro foi bastante escondido, principalmente pela diferença de idade. Elas sentiam bastante medo do que os familiares iriam pensar… e quando a mãe da Carla descobriu ela não aceitou, foi todo um processo (e é ainda) de aceitação. Hoje em dia elas saem juntas e se dão bem, mas entendem que é algo diariamente estabelecido enquanto uma reafirmação. Depois de segurarem a barra na família da Carla, foi a vez da família da Nath. Tudo começou quando ela estava na praia durante uma viagem e deixou o Facebook logado no Notebook da tia… e adivinha qual grupo a tia dela viu? É claro, o Poxa Sapatão! Antes que a tia dela contasse, ela achou melhor contar. Chamou o pai dela e falou sobre o namoro. Ele ficou quieto, não esboçou nenhuma reação. No dia seguinte, fez algumas perguntas para ela, mas em geral, seguiram bem. A mãe dela, por outro lado, teve uma reação mais agressiva, em um sentido de mandá-la procurar ajuda psicológica, dizer que isso era aberração e não aceitar de jeito nenhum. Mais uma vez, elas entenderam que só com o tempo isso mudaria. E estavam certas: hoje em dia, a mãe dela é puro grude com a Carla! E passou a se permitir entender e aceitar o relacionamento das duas. O que também ajudou muito a mãe da Nath no entendimento foi um dia um sermão que ela ouviu na igreja quando decidiu ir atrás da resposta sobre aquilo que a filha estava vivendo e a resposta ser literalmente algo voltado à respeitar a felicidade e a vivência de algo que está sendo tão puro como o amor. ♥ Hoje em dia, por mais que a Carla e a Nath vivam num relacionamento quase que à distância, por conta do tempo em que a Nath passa em Ribeirão Preto estudando e morando no outro apartamento, elas sonham com o momento em que vão estar juntas em um lar só delas ♥ Elas, inclusive, por quererem casar mas entenderem que não possuem condição financeira para isso agora, fundaram um perfil no Instagram: o @rifasporamor (clica aquiii!). Lá elas sorteiam rifas e quem compra colabora com o sonho do lar e do casório! É uma iniciativa fantástica. Além disso, elas fazem diversas ações para falar sobre amor, sobre a quebra de preconceitos e sobre direitos das mulheres para as pessoas que se interessam em comprar as rifas e ganhar os prêmios! Para elas, esse amor que constroem juntas e que querem seguir construindo está relacionado ao cuidado e ao quanto compartilham: seja no diálogo, na forma que se olham ou que se respeitam. A Carla conta que uma vez deu um presente para Nathalia com a frase escrita: “O amor é o mais alto grau da inteligência humana”. E acredita que o amor resume tudo, ele é tudo! As pessoas só chegam em bons lugares pelo amor, mesmo a sociedade estando um caos, o que mantém ela melhorando a cada dia ou as pessoas lutando e tentando melhorar é o amor. O amor por si mesmo, o amor nas relações ou o amor por outras pessoas. “O amor é Deus, é vida”. A Nath é muito grudada na família dela e, uma coisa muito legal que vale comentarmos, é que ela é prima da Camila, companheira da Samantha que também irão aparecer aqui no site do Documentadas! Durante a nossa conversa, ela falou várias vezes sobre algumas pessoas da família, mas em especial da sobrinha, que é o maior xodó e uma criança que ela quer ajudar na criação e na educação. Já a Carla, é muito ligada à religião. Ela é Católica e faz missões na igreja, então se dedica ativamente a falar sobre diversidade, cultura e valores educacionais para pessoas da periferia. Falamos sobre a dificuldade dessas pessoas terem acesso aos locais distantes e ela deu o exemplo claro de como a mobilidade urbana não funciona para as pessoas pobres em Campinas (e no Brasil, como um todo). Este foi apenas um dos pontos que citamos, mas que ela disse ser absurdamente necessário para um primeiro passo sobre um debate mais amplo e plural sobre direito à cidade e a cidade ser frequentada por uma mistura de públicos. Ela acredita que a cidade deveria ser feita por e para todo mundo. Carla Nathalia
- Jeniffer e Renata
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Jeniffer e Renata, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi no local onde a Jeniffer e a Renata se conheceram há anos atrás que nos encontramos para documentá-las. Logo no início elas brincaram: “Se naquela quinta-feira alguém me contasse que um dia eu estaria aqui com a mãe da minha filha, eu acharia que seria uma loucura!”. Jeniffer é musicista, cantora e faz diversos shows pela noite carioca. Foi numa quinta-feira de 2016 que se apresentou num restaurante chamado Espeto Carioca, que pertencia a uma amiga da Renata. Essa amiga, ligou para a Renata e a convidou, ela marcou um encontro com o grupo de conhecidos que tinham passado pelo mesmo que ela: a cirurgia bariátrica e, foi tão bom, que toda quinta-feira esse passou a ser o encontro oficial do grupo. Nesses encontros, a Jeniffer e a Renata viraram grandes amigas, apresentaram suas companheiras (que também viraram amigas), se juntaram em mais conhecidas e formaram um grande grupo, que saía quase todo fim de semana junto. Um tempo depois, a Jeniffer e a ex companheira dela entraram em um momento muito delicado e tóxico da relação, o que fez com que a Jeniffer sumisse dos ambientes com as amigas. Era muito difícil ter contato com elas e encontrá-las além dos shows… Acabaram todas se afastando. Nesse meio tempo, a Renata também terminou o relacionamento que tinha e, só em 2017, quando ambas estavam solteiras, elas se reencontraram. Decidiram retomar a amizade que tinham e voltaram a ter contato, misturar os grupos de amigas e se reencontrar. Entre todos os programas que faziam juntas, em um dia, assistindo ao lançamento de La Casa de Papel em casa, elas se beijaram. Nesse momento, Jeniffer ficou desnorteada, nitidamente incomodada e Renata compreendeu, elas entraram em um acordo de que era melhor fingir que nada aconteceu e não tocaram mais nesse assunto. No mesmo dia, a Renata ia para um encontro com uma mulher que a Jeniffer apresentou para ela e acabou que o encontro foi bom, elas continuaram se encontrando, o tempo fez seu papel de passar, ela namorou e casou com essa mulher. A Jeniffer, nesse meio tempo, voltou com a ex companheira dela, porém o relacionamento que antes já demonstrava ser tóxico, dessa vez ficou muito pior. Novamente ela se afastou de todos e, algum tempo depois, terminou definitivamente. Em 2019, um tempo depois, a Renata já estava com a ideia de engravidar mais amadurecida dentro do antigo relacionamento. Algo que partia sempre dela, pois ela tinha o desejo muito forte de ser mãe, mas amadureceu ao ponto de decidir: é a hora. Teve a primeira tentativa, através da inseminação, e não deu certo. Foi bastante doloroso, porque querendo ou não existem muitas expectativas, mas ela esperou um tempo, superou aos poucos e decidiu, logo no comecinho de 2020, tentar novamente. Diferente da primeira vez, com muito cuidado e seguindo as regras, a segunda vez foi muito mais desesperançosa. No mesmo dia que foi feita a inseminação ela foi num show da Jeniffer, bebeu, ficou até tarde com os amigos na rua, tinha para si a ideia de que não daria certo. Em meados de fevereiro de 2020, descobriu: a segunda tentativa deu certo! Renata estava grávida. Chamou a Jeniffer para ser madrinha, junto com outra amiga. Começou a cuidar melhor do seu corpo, parou de beber e compreendeu que, parando de beber, percebeu muito melhor tudo o que acontecia ao seu redor. Tudo é muito bom no momento de festa, mas muitas coisas passam batido. Foi numa dessas percepções que as brigas com sua ex-companheira começaram a intensificar até se envolveram em agressões. A chave virou. Não tinha como romantizar ou passar pano. O sonho de ser mãe era dela, ela estava grávida. A Jeniffer e a outra amiga protegeram ela nos atos, no término e, a partir daí, fizeram de tudo: passaram os dias cuidando dela e acompanhando cada detalhe da gestação. Foi nesse momento que começou a pandemia, estavam as três no apartamento vivenciando a gestação juntas: a Renata e as madrinhas da Analu, suas duas melhores amigas, até que uma delas precisou voltar ao trabalho e sair de casa para não as expor ao risco do Covid-19. Quando ficaram só a Jeniffer e a Renata, elas seguiam se ajudando de todas as formas. Conversavam muito, compartilhavam de tudo, até que numa madrugada a Jeniffer resolveu voltar naquele assunto que elas nunca tocaram: o dia que se beijaram. A Renata deu a versão dela, falou que era óbvio que tinha sido horrível para a Jeniffer, já que ela tinha "fugido como foge o diabo da cruz”, até que a Jeniffer revelou que não, era o contrário, tinha fugido porque justamente tinha sido muito bom e sentiu muito medo - de se envolver e acabar perdendo-a. Pensou “se era para ter, de alguma forma, era melhor ter como minha melhor amiga”. Quando elas entenderam suas percepções, se beijaram novamente. No dia seguinte, era dia das mães e a Jeniffer foi na rua, voltou com balões e uma carta, assim, comemoraram o primeiro dia das mães juntas - e entenderam também que não era uma brincadeira, que queriam isso de verdade: ser mães da Analu. Entender que estavam juntas não foi algo tão rápido, só com a noite que passaram, mas uma longa conversa sincera sobre o que sentiam. Para a Renata, o que ela estava vivendo não conversava mais com a pessoa que ela era quando conheceu a Jeniffer: que ia para todos os shows, bebia, vivia nas festas. Agora, a prioridade dela era ser mãe, parir e educar a Analu, trazer cuidado. Se fosse para a Jeniffer estar com ela, sem ser na condição de madrinha, era para estar de verdade, porque ela não queria mais um relacionamento para trazer machucados. Elas entendem que o “Combinado não sai caro para ninguém” e assim foi: a Jeniffer sempre quis ser mãe e mostrou que, se a Renata permitisse, ela embarcaria no sonho da Analu. Depois de um tempo juntas, assumiram o relacionamento. Sabiam que poderia ser complicado, que muitas pessoas julgariam e poderiam achar que era um caso antigo, uma traição - tinham muito cuidado também pela vida pública da Jeniffer enquanto cantora - mas tiveram pulso firme, afinal, essa era a história que elas estavam vivendo no momento, acreditassem ou não. Vivenciar uma nova visão de relacionamento, tanto para a Renata, quanto para a Jeniffer, foi libertador. Depois de terem passado por situações muito abusivas com ex companheiras, hoje em dia elas enxergam as relações humanas de forma bem diferente e tentam conversar sobre tudo. Carregam, também, muito da amizade que já tinham antes do namoro. Tentam não se culpar pelos machismos sofridos diários, pelos preconceitos externos e trazer cada vez mais acolhimento uma para a outra, justamente por terem sentido falta disso em outros momentos. Ver o desenvolvimento da Analu na vida delas é um sonho sendo realizado diariamente. Elas fazem absolutamente tudo por ela e contam como é difícil a missão de educar uma criança. Além disso, como não é fácil também, a rotina de um casal com filhos. Existe uma parceria muito clara em que entendem que não vão estar 100% todos os dias, uma vai preenchendo o que a outra não pode dar no momento, e assim vão seguindo. Jeniffer também conta o quanto a chegada da Analu mudou a forma que ela enxerga o mundo. Ela vivenciou toda a maternidade, desde a escolha do modelo da fralda, até as roupinhas, as decisões mais sérias sobre educação e hoje em dia está em muitos detalhes na formação do ser que a Analu vem formando. Se emociona muito em cada detalhe, explica que nunca sentiu um amor tão grande por alguém. No momento da documentação, a Renata estava com 34 anos e a Jeniffer com 32, elas estão trabalhando juntas - a Jeniffer fazendo os shows e a Renata enquanto empresária, produtora e assessora. Nessa rotina intensa de apresentações, Renata explica a admiração enorme que sente pela Jeniffer no palco, e brinca: da empresa, ela é só funcionária e fã. Para elas, esse cotidiano é um ato de amor também, nele entra tudo o que constroem com a Analu. E, olhando ao redor, chegam à conclusão: amor é essa linha do tempo que viveram desde a primeira vez que tiveram no restaurante, até hoje, que voltaram com a filha. Por fim, me trouxeram a comparação: pensam no relacionamento enquanto uma casa. Muita gente começa a pensar numa casa pelo teto ou pelas paredes, enquanto elas literalmente começam pelo chão, pela base. Hoje em dia, possuem uma casa com a base mais sólida possível, capaz de enfrentar qualquer coisa. Foi a partir da base que foram construindo tudo e a casa foi tendo vida, hoje vivem dentro dela, fortalecida. Entendem como foi bom ter dado uma chance para viver esse amor de verdade, um amor que até então elas não sabiam que existia. “Não era alguém para completar, mas transbordar”. ↓ rolar para baixo ↓ Renata Jeniffer
- Naiara e Mary | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Naiara estava com 58 anos no momento da documentação. Se dedicou 32 anos ao serviço público, sendo 29 deles no Tribunal do Trabalho, na área de Tecnologia da Informação, período em que participou da informatização completa do órgão, da migração do papel para os sistemas digitais. Antes de qualquer profissão, sempre se reconheceu militante: desde os 13 anos, quando começou a entender o que era ser mulher e pensar sobre gênero e sexualidade. Em toda sua vida esteve presente em movimentos políticos, sindicais, LGBTs e de mulheres, construindo muita participação na luta. Nasceu em São Jorge, no interior do Rio Grande do Sul, mas foi morar em Porto Alegre quando ainda era bebê e lá cresceu, trabalhou, conheceu a Mery, começaram esse relacionamento que já dura 40 anos… e criou suas raízes. Mary estava com 73 anos no momento da documentação. Nasceu em Porto Alegre, na rua Lima e Silva, uma das principais do bairro Cidade Baixa, mas confessa que nunca deixou de ser “bicho do mato”. Depois de um curto período morando com a avó, novamente na rua onde nasceu, voltou para Viamão, cidade vizinha de Porto Alegre, para viver com os pais, que estavam começando a construir a vida por lá. Trabalhou desde muito cedo, com carteira ‘de menor’ assinada, e se aposentou cedo por conta disso, aos 45 anos. Sua carreira se baseou mais de duas décadas em uma empresa imobiliária, no setor de microfilmagem - uma profissão que praticamente desapareceu com a tecnologia, mas ela explica: cada documento que passava pelo condomínio chegava às mãos dela, que filmava, e assim viravam um rolinho de filme. Quando começou a trabalhar, ainda sendo ‘de menor’, jogava vôlei e era apaixonada por esportes. Foi quando questionou sua sexualidade pela primeira vez também. Ainda que as dúvidas vieram na adolescência, Mary lembra que, ainda criança, “namorava as bonecas” e era reprimida pela mãe - e por si mesma. Da mesma forma era cobrada pelos pais e por si mesma. Mas no fundo, conta que se ganhava uma boneca ou um sapato, ficava magoada. Queria mesmo era uma bola. Quando começou a jogar vôlei, Mary ainda não havia se envolvido com nenhuma menina. Tinha apenas admirações platônicas difíceis de nomear… e o esporte se tornou também um espaço para entender o que estava acontecendo. Trabalhando muito cedo, ouvia conversas pelos cantos do refeitório na ‘firma’ sobre existir uma casa/uma boate cheio de bicha, de sapatão. Um dia, entre os seus 17/18 anos, criou coragem e foi lá. Era o início da década de 70. Conta que ficou nem quinze minutos, saiu assustada. Foi o impacto de ver no mundo real aquilo que tentava ignorar, a materialização de pensamentos que achava que não poderiam existir. Não eram só coisas da cabeça dela. Depois de uma viagem de férias, surgiu um jogo de futebol entre empresas e ela foi convidada a participar. Afinal, jogava bola desde criança nas ruas de Viamão e, apesar de se machucar nesse primeiro jogo, foi ali que começou a jogar de verdade e conhecer mulheres lésbicas de verdade. Diferente do vôlei, no futebol pareciam falar mais sobre as coisas. Lá se aproximou de uma amiga - que era a tia de Naiara e foi quem as apresentou - e passou a conviver frequentemente com as “entendidas” ou, em brincadeira, as “cebolas”, referência a um time de São José do Norte (cidade referência na plantação de cebolas) cujas jogadoras/treinadoras/diretoras eram todas lésbicas. No futebol, enfrentaram dificuldades e muitos preconceitos. Como Mary mesmo diz: “Nessa época, jogar futebol era perigoso”. Com a criação do Parque da Marinha, criaram o time Marinha do Brasil. Defendendo Porto Alegre no Citadino, um campeonato. Só conseguiam treinar depois das dez da noite porque a elite ocupava as quadras do Parque Marinha até tarde. Muitas vezes foram expulsas violentamente, quando tentavam chegar antes. Contaram com a ajuda dos homens negros de Alvorada, que também treinavam depois das 22h, e que as treinaram por quase um ano, ensinando fundamentos, jogadas e resistência. O ambiente era perigoso, e todas trabalhavam, então saiam cansadas e iam jogar bola. O futebol era coisa da periferia e não havia jogadora que vivesse apenas do esporte ou de estudos. Quando venceram o campeonato, foram junto aos homens negros, numa grande comemoração. Mary jogou durante muitos anos, tanto que, aos 33 conheceu Naiara - mais de dez anos depois de ter iniciado nos jogos. Quando já estavam juntas, namorando, houve um torneio de empresas e Mary sofreu o primeiro bullying que foi muito marcante em sua vida. Após atingir uma colega com a bola, ouviu insultos e comentários muito violentos, sendo humilhada diante de toda a empresa. Chorou muitas vezes ao lembrar, o que magoava era que poucas pessoas, como a Nai e mais alguns amigos, ficaram ao lado dela, ainda que ela não tivesse feito nada de errado. A culpa era ela ser uma mulher lésbica, como se isso a tornasse agressiva demais, como se quisesse ‘virar homem’. Fala sobre isso destacando a importância de terem se mantido sustentando juntas as dores - e as vitórias - de tantos momentos marcados por coragem, e de tanta história importante para a nossa própria comunidade LGBT. A vida delas mudou numa dessas noites de boate, quando Mary foi encontrar a tia da Nai e acabou esbarrando com ela. Tocava uma música brega que elas contam rindo, com vergonha, e a tia insistiu para que Mary tirasse Nai para dançar. Ela assim o fez e lançou logo uma cantada, horrível, e a Nai não retribuiu. Mary brinca: “Ela foi embora, me deixou no meio do salão!” mas Nai desmente, diz que não foi assim, só foi uma cantada ruim mesmo. Continuaram se encontrando aos poucos, até que finalmente deu certo. Mas tinham medo da reação da tia, afinal, se envolverem já era um passo a mais, Nai estava fazendo 18 anos e Mary já tinha 33. Levou meses, praticamente um ano, para se tornar de fato um namoro. Com a convivência crescendo, Mary começou a circular entre o grupo de amigos da Naiara - obviamente bem mais jovens - e que adorava a presença dela porque ela tinha carro, proporcionava carona e passeios mais adultos. A intimidade, porém, era difícil de dar certo: ambas moravam com os pais, não tinham muita privacidade, a não ser na casa da Mary. Foi então que alugaram um apartamento simples no bairro Menino Deus, entre 1984–1985. A verdade é que ninguém sabia sobre elas, sempre foi como se fossem boas amigas. Na rua, a dificuldade era outra porque Mary evitava qualquer demonstração de afeto em público, temendo que Nai fosse agredida por causa dela. Foi muito tempo para conseguirem conversar sobre e mudar os atos, sobretudo trabalhar a militância lésbica. Com o tempo, construíram uma vida conjunta. Nai fala uma coisa muito importante sobre essa formação: de que muitas mulheres lésbicas começaram a passar em concursos para poder ter a certeza que não seriam demitidas e, só assim, assumirem suas vidas, pegarem nas mãos na rua sem medo. Como foi o caso dela. Ela sempre pôde falar mais por ser concursada. Anos depois, compraram uma casa em Viamão - grande, acessível e perto da família da Mary - e ficaram ali por vinte anos. O lugar virou ponto de encontro: churrascos, aniversários, amizades que entravam e saíam como num clube familiar. E a própria convivência da relação também enfrentou diversas barreiras internas e externas. Nai admitia ter preconceitos em relação ao futebol de Mary, e ambas viveram momentos marcados pela transfobia estrutural da época. Mary, por exemplo, chegava a se travestir de homem para conseguir sair de Viamão até Porto Alegre durante a noite e voltar em segurança. Essas camadas mostravam como o relacionamento delas se entrelaçou com a construção de uma comunidade LGBT que buscava sobreviver, existir e ganhar voz. Ao longo dos anos, se reconheceram de muitas formas, algumas que não fazem mais parte de quem são (como essa visão transfóbica que existiu por um momento), e também se reconheceram nas muitas mudanças individuais. Mary e Nai carregam hoje uma família enorme: onze sobrinhos, dois sobrinhos-netos, e o reconhecimento, desde sempre, como um casal diante de todos eles. Agora voltando a morar em Porto Alegre, num apartamento menor, falam muito sobre o ato de envelhecer juntas: não com peso, mas com essa lucidez de quem olha o mundo e percebe o quanto ainda precisa mudar. Veem gente jovem repetindo ideias de décadas atrás, enquanto elas seguem se atualizando, se abrindo, se movendo. “A idade não engessa quem não quer”, dizem. Foram muitas coisas vividas nos últimos anos também: Nai enfrentou o câncer enquanto, no mesmo período, Mary sofreu dois aneurismas cerebrais. As marcas permanecem, especialmente para Nai, que ainda lida com dificuldades deixadas pelo tratamento. Mesmo assim, transforma tudo em ação: pensa em projetos de lei, busca articulação política, tenta abrir caminhos para outras pessoas viverem processos menos exaustivos que os seus. Conversamos sobre como cansa existir em estruturas que já são adoecedoras e, ainda assim, precisar lutar o tempo todo. O pai da Mary faleceu em 2025, aos 93, tendo passado os últimos anos sendo cuidado por elas. A mãe de Nai, agora com 90, segue sendo cuidada por elas também. E observando esse cuidado, elas não deixam de pensar e falar sobre como desejam viver a velhice juntas. Sem depositar nas irmãs, nos sobrinhos ou na família grande a responsabilidade pelo que virá. A mudança da casa para o apartamento veio desse pensamento: perceberam que viviam mais em função da manutenção do espaço do que da própria vida. Hoje, planejam o futuro com a serenidade possível. Sabem que o tempo diminui a agilidade, a disposição, a vontade… mas não diminui o amor. Ajustam rotinas, fazem escolhas, reorganizam o que for preciso para permanecerem lado a lado, do jeito que sempre quiseram: com lucidez, coragem e a leve rebeldia de quem nunca deixou de construir uma relação - diga-se de passagem, de mais de 40 anos. ↓ rolar para baixo ↓ Ana Naiara Mary
- Iasmim e Nathália
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Iasmim e da Nathália, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! < A Nathália e a Iasmim começaram a namorar em 2019 com um detalhe: elas já moravam juntas. Dividiam um apartamento com diversas outras pessoas enquanto estavam fazendo a graduação em Direito, no Rio de Janeiro. De lá pra cá, passaram por vários espaços: optaram por morar sozinhas num apartamento bem menor, em Caxias, na Baixada Fluminense, lá enfrentaram a pandemia juntas e depois voltaram ao Rio, com um relacionamento muito mais amadurecido e fortalecido. Na mudança de volta foi que a ficha caiu sobre o quanto cresceram: quando foram pela primeira vez morarem sozinhas enquanto um casal, tinham uma mala de cada e uma televisão; Quando voltaram, precisaram de mais de um caminhão de mudanças. Construíram a casa juntas, os móveis, lembram de quando chegou o fogão, a cama e a máquina de lavar. No momento pensaram: “Como saímos de uma mala e chegamos nisso aqui?!”. Como tudo foi muito batalhado para ser conquistado, é também muito valorizado. Cuidam de cada detalhe, dos móveis, ao amor que dão aos gatos, o cuidado com as plantas, até o quanto ainda desejam crescer juntas. Sentem que o que vivem é um sentimento puro de família, seja no momento de fazerem um churrasco juntas com vários legumes e uma carne só ou no momento de sentar e conversar sobre o que estão sentindo. Nathália é advogada e cantora. Ela estava com 26 anos no momento da documentação, chegou ao Rio de Janeiro para estudar Direito em 2015, mas é natural de Salvador e toda a sua família reside lá até hoje. Antes entendia a música enquanto um hobbie e hoje faz isso de forma mais profissionalizada: possui conteúdos no Spotify (segue ela, gente!) e trabalha nas suas próprias canções. A Iasmim também é advogada. Estava com 28 anos no momento da documentação e é natural de Caxias, na Baixada Fluminense. Na pandemia descobriu vários hobbies, como desenhar, cozinhar e auxiliar a Nath na sua carreira musical. A Nath acredita que a relação que elas constroem é muito baseada nas ações - nos atos de serviço. Ela traz o exemplo de que não consegue conversar com os gatinhos em casa, por exemplo, mas mostra nas ações e dialoga com eles, demonstra o quanto ama e recebe o amor deles. Assim, no relacionamento delas, elas dialogam e se sentem seguras. Além disso, o amor envolve muitos desafios e enquanto vivem isso sentem que surgem novas perspectivas sobre o mundo. Quando a Nath se mudou para o Rio de Janeiro, foi logo encontrar uma amiga que já estava fazendo faculdade de Direito e acabou adentrando no grupo de amigos cariocas dela. Nesse grupo, estava a Iasmim. Um tempo depois, cansada de transitar por vários espaços, decidiu morar em uma república - foi aí que começaram a dividir apartamento. Lá elas viraram amigas, interagiam com todos da casa, viam shows na TV, faziam refeições juntas etc. Elas não eram suuuuuuper amigas e lembram que a Iasmim era uma pessoa mais fechada, mas em um dado momento começaram a se aproximar mais - se aconselhavam, ouviam músicas juntas… As pessoas ao redor notaram essa aproximação, mas elas não viram nada demais acontecendo. Foi em agosto de 2019, num momento em que a Nath estava mais tristinha pois vivia em torno da prova da OAB, que a Ias chegou até ela e a convidou para sair e ficar bem. Elas estavam num momento ruim de grana, acharam que não ia rolar, mas encontraram um evento chamado “Isoporzinho das Sapatão” e decidiram ir - pela primeira vez saíram juntas/só as duas em algum lugar. No evento, se divertiram muito. Conversaram sobre as músicas da Nath, sobre coisas super profundas, antigos relacionamentos… até que alguma chave, em algum momento, virou. Foi ali que elas sentiram que algo poderia acontecer - e se viram de uma forma diferente pela primeira vez. O cigarro acabou, elas tiveram que comprar cigarros avulsos e a Nath ensinou uma forma de conseguir desconto, mas nessa conversa chegou muito próximo da Iasmim para falar. Ela se desconcertou, sentiu algo acontecendo e numas brincadeiras entre cigarros se beijaram. Nos dias seguintes ao evento (e ao beijo) tudo ficou meio caótico. A Nath foi assaltada, então estava sem celular e, para ajudar, a Ias evitava ela dentro de casa. Todos os dias a Ias acordava mais cedo, ficava pronta antes do horário da Nath levantar e só batia na porta dela para acordá-la (já que ela não tinha despertador), mas saía logo em seguida, não dando a chance de uma conversa. Num dia conseguiram conversar um pouco enquanto fumavam um cigarro, mas no momento em que a Nath se aproximou a Ias logo deu a desculpa de que estava tarde e que precisava dormir e saiu do ambiente. Isso deixou a Nath muito frustrada, pensava que a Ias não ia querer mais nada com ela e os amigos falaram: “Foge enquanto é tempo!”. Mas ela decidiu conversar com uma amiga em especial, que confiava, tomando uma cerveja no bar e essa amiga orientou: “Dê tempo ao tempo”. Na mesma semana a Ias mandou para ela a playlist do evento que elas foram e assim elas começaram a conversar pelo Facebook. Uns dias depois, conversando na terapia, a Ias percebeu que isso era apenas um medo momentâneo e que ela merecia se permitir viver aquele momento bom com a Nath - então decidiu falar com ela e chamar para beber uma cerveja. É um sentimento gostoso para elas relembrar que no começo, mesmo se conhecendo e convivendo há anos, elas passaram pelo nervosismo de não saber lidar uma com a outra. Surgiam perguntas como: “Você gosta de pizza?” sendo que a resposta era óbvia porque elas viviam comendo pizza em casa com os outros moradores. Mas, mesmo sendo algo bobo, era uma forma de se redescobrirem aos poucos. Depois de um tempo, a Nath chamou a Ias para conversar e elas decidiram vivenciar de verdade o que tinham enquanto um relacionamento. Foi um pouco depois disso que o contrato do apartamento estava por vencer e elas decidiram seguir morando juntas, mas num espaço novo e só delas. Elas não esperavam que a pandemia de Covid-19 começaria em seguida. Foi um baque, mas seguiram nessa descoberta diária: conviver juntas obrigatoriamente, sem a opção de sair de casa, é também descobrir muito sobre a convivência com a pessoa que se ama. Entendem que viver a pandemia naquela situação de imersão em um relacionamento recente era delicado, mas fizeram de tudo para dar certo. Hoje em dia, trazem o conhecimento que se criou uma com a outra algo muito positivo, mas não descartam as dificuldades nas ansiedades, nos atritos e no ato de aprender a conviver com as diferenças, de conversar e de dialogar sobre os sentimentos. Na pandemia, também passaram pelo desemprego da Ias, a situação financeira apertou e isso também influenciou muito sobre o valor que dão às coisas que conquistaram. Além disso, a Nath fazia um exercício intenso de incentivar a comunicação do casal - e principalmente de incentivar que a Ias falasse mais sobre o que sentia/a procurar o que sentia. Tudo partiu do entendimento de que o que ela sentia também afetava o dia a dia do relacionamento. Foi assim que seguiram juntas e que hoje em dia não se veem de outra forma: estão noivas! Planejaram o casamento aos poucos, com ideias em casa, mas querem vestidos e coisas tradicionais porque acreditam que merecemos isso. Contrataram uma cerimonialista que gostam e, por mais que já tenham passado por uma situação de lesbofobia na hora de procurar um local, encontraram outro e estão super empolgadas! Será lindo ♥ Conquistando também o apoio da família, ficam muito felizes em compartilhar as coisas do casamento e receber conselhos dos familiares que acreditam na potência do amor que elas vivem. A Ias contam que se sente num grande oceano. Ela nada em amor pela Nath - tudo ao redor dela é água; tem coisas que ela gosta ali e tem coisas que pode não gostar, mas não sabe separar o oceano do mar, tudo está junto e ela ama tudo. Acredita, também, que no dia que souber reconhecer o que ela ama e o que ela não ama, de forma específica, vai entender que esse sentimento provavelmente acabou, então ela ama por completo tudo aquilo em que ela se vê nadando: o amor. A Nath completa de que esse amor é de uma forma livre também, no sentido de não sentir medo, de poder ser quem são. E que, amar da forma que amam, não representa que todo dia seja bom. Há dias muito puxados, difíceis e chatos, mas o bom é saber que nada vai acabar por isso: é só um dia ruim. Por fim, amam os atos que envolvem a relação delas: desde o pai da Ias levar caldo quando a Nath está doente, até a forma revolucionária de ver mulheres se amarem através do respeito. Entendem que não vivem regras sociais como as colocadas no mundo heterossexual: se estão casando, por exemplo, é porque querem. E isso as deixa muito confiante de que a relação se baseia somente naquilo que constroem. ↓ rolar para baixo ↓ Nathália Iasmim
- Fernanda e Talita
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Fernanda e Talita se conheceram no início de 2014, apresentadas por um amigo em comum - o melhor amigo de ambas. O interesse surgiu aos poucos, mas nenhuma das duas falou nada no começo, achando que poderia ser coisa da própria cabeça. Fernanda já tinha experiência em se relacionar com mulheres, então Tatá achou que, se houvesse algo ali, ela tomaria a iniciativa. Mas foi o contrário: depois de meses nessa dúvida silenciosa, Tatá percebeu que precisava agir. No verão de 2015, finalmente ficaram juntas. Na época, Talita morava em São Paulo, onde fazia residência médica. Fernanda, por outro lado, sonhava em se mudar para lá, mas a vida deu uma reviravolta. Tatá decidiu voltar para Maceió, e Fernanda acabou ficando também. Foi uma escolha que transformou tudo, e de lá para cá, já se passaram quase dez anos de companheirismo, desafios e conquistas. O início do relacionamento foi um processo para Talita. Demorou um tempo para aceitar que estava apaixonada por uma mulher, e até mesmo quando voltou para Maceió não foram de cara morar juntas. Passaram alguns meses morando em lugares diferentes, até que, em 2017, compartilharam o lar. Quando finalmente assumiu esse sentimento, não teve mais dúvidas e encarou tudo sem olhar para trás, de cabeça erguida, principalmente pelos preconceitos familiares. Entendem, também, que morar juntas trouxe a oportunidade de se conhecerem de verdade, lidando com as diferenças e descobrindo o quanto se parecem em visão de mundo, mesmo tendo personalidades diferentes. Fê lembra de uma conversa que aconteceu com Tatá logo no início sobre o machismo e como aí ela percebeu que, ao se relacionar com uma mulher, os desafios e as trocas eram diferentes. Até compôs uma música na época, falando sobre compartilhar tanto as alegrias quanto os momentos difíceis - e o relacionamento trouxe essa conexão profunda, onde não apenas se amam, mas também se apoiam em questões que só elas entendem. Tatá nunca havia morado com alguém antes, enquanto Fernanda já tinha experiência em dividir um lar com outras companheiras. No início, Fernanda fez questão de deixar espaço para que Tatá se adaptasse sem pressão, mas riem lembrando como eram diferentes as vivências. Ela admira o jeito da Tatá que está sempre disposta a crescer e se transformar, sem medo da mudança. “Tem coisas que a gente não consegue mudar, mas a maioria dá para ajustar”, diz Fernanda, reconhecendo que essa abertura para evoluir é um dos traços mais bonitos de Tatá. Fernanda entende que não é fácil mudar: as pessoas são mais resistentes à mudança, mas que Tatá muda porque entende que a mudança a torna uma pessoa melhor (e que sempre está disposta a ser melhor). É um desprendimento muito interessante. E uma das coisas que mais admira nela. Cartola, o cachorro, é parte essencial da família que construíram juntas. Fazem questão de levá-lo para todos os lugares possíveis, sempre respeitando seu bem-estar, reforçando esse vínculo. Ele as acompanha em shows, restaurantes, encontros com amigos e passeios. Para elas, amor está na lealdade e na confiança, no equilíbrio entre o vínculo profundo e a liberdade individual. Não precisam estar juntas o tempo todo, fazer tudo lado a lado, porque o amor não é sobre posse, mas sobre autonomia. “A gente ama quem a pessoa é e dá autonomia para que ela continue sendo, e isso faz com que o amor permaneça.” Essa segurança mútua torna a relação duradoura, sem a necessidade de provar constantemente algo que já está solidificado. Sentem orgulho em inspirar outros casais e reconhecem a amorosidade particular dos relacionamentos entre mulheres. Criadas por mulheres fortes, aprenderam a escutar e acolher. Suas histórias ajudaram a transformar as famílias, quebrando barreiras de preconceito e culpa cristã. Hoje, são admiradas pelos que antes hesitavam em aceitar. Demonstraram que o amor não precisa se restringir a guetos, que podem ocupar qualquer espaço, vivendo uma relação bela e legítima, sem constrangimento ou necessidade de esconder quem são. Fernanda estava com 43 anos no momento da documentação. É natural de Maceió, sempre foi cantora, desde a adolescência, e a música virou sua profissão e sua vida. Mas em determinado momento, sem perceber, passou a ouvir música apenas como estudo ou trabalho, perdendo o prazer diário da escuta que antes sentia. Foi Thalita quem a fez reaprender a ouvir música com emoção, a cantar alto, a abrir os braços para sentir o som. Um resgate que trouxe de volta muitas sensações sobre a música enquanto arte, não apenas trabalho na sua vida. Além disso, ama praia - seria muito difícil mora longe a água - e ama passar o tempo com Cartola, seu cachorro. Talita estava com 40 anos no momento da documentação. É médica cardiologista pediátrica, equilibra sua rotina intensa na medicina com os momentos que compartilha com Fernanda. A música é o que as une: cantam juntas, fazem carnaval, organizam blocos. Se estressam no processo, mas no fim do dia dormem juntas, acordam e encontram no amor um alívio para os desafios. Vivem Maceió, entre consultas e palcos, o amor e a arte se entrelaçam. Fundaram um bloco de carnaval na cidade muito importante para a narrativa da diversidade, fazem questão da população LGBT+ ser ouvida e acreditam que isso reverbera para diversos corpos e para a história da cidade ser cada vez mais reconhecida. ↓ rolar para baixo ↓ Talita Fernanda
- Kelly e Maíra
Para a Kelly e a Maíra, lar significa o lugar que elas estão juntas. Esse pensamento teve início desde o começo da relação, em que elas se conheceram/se encontraram/e vivenciaram todo o início da pandemia de Covid-19 juntas. Para superar os desafios, estabeleceram o que chamam de “protocolos de bem-estar”: se uma está num dia mais corrido, a outra passeia com o cachorro, por exemplo, fazem de tudo para que a casa esteja harmonizada, assim como a relação entre elas. Kelly conta de um dia que ela levou uma “bronca” de um chefe e que a Maíra rastejou - para não aparecer na câmera - até chegar ao lado, pegar na mão e dar apoio durante aquele momento que sabia que estava sendo muito difícil para ela. Desde o começo da relação enfrentaram vários desafios e dificuldades. A Maíra, por exemplo, estava sem trabalhar porque seus atendimentos ainda não haviam migrado para o mundo online e estava bem difícil sustentar, enquanto a Kelly estava finalizando uma empresa que passava pela crise. Foi um suporte e apoio mútuo que uma proporcionou à outra. Elas relembram que isso ficou claro desde o início: partilharam felicidades e dores. Não houve um jogo único e exclusivo de sedução/de mostrar que a vida é só incrível, até porque estavam ali, literalmente sem maquiagens, desde o início. Hoje em dia, o relacionamento é um lugar seguro para ambas - serve de auxílio também. Elas sentem que terem se encontrado foi a mola propulsora para que vários outros ciclos se fechassem (como a Kelly parar de fumar, melhorar a relação familiar e encontrar sua família biológica). Entendem que nesse encontro algo realmente se encaixou e, não à toa, tatuaram um triângulo que se completa quando estão juntas. No momento da documentação a Maria estava com 32 anos. Ela é psicóloga e é natural de Curitiba, no Paraná. Já Kelly estava com 39 anos. Ela é natural de Governador Valadares, em Minas Gerais, e passou por algumas cidades até chegar em Curitiba, no Paraná. Hoje em dia trabalha enquanto programadora e estuda engenharia de software (esse, um sonho antigo, mas que nunca achava que seria capaz. Voltou a estudar através de um processo de incentivo que a Maíra colaborou muito para que acontecesse ♥). Quando elas deram match num aplicativo de relacionamentos nem imaginavam que teriam tanta coisa em comum: foram 5 horas conversando (e brincam que não pararam de conversar até hoje!). Entre a conversa, foram descobrindo que frequentavam muitos espaços em comum, mas que não se conheciam pessoalmente, por exemplo: a Maíra fazia pós graduação no prédio que a Kelly trabalhava, elas já moraram em lugares muito próximos e, além disso, a Kelly morou no prédio que a mãe da Maíra morava. Também descobriram que ambas são formadas em artes cênicas como primeira graduação e ficaram chocadas com tantas coincidências. Se pegaram pensando: será que já pegaram o elevador juntas? Ou foram na farmácia na mesma hora? Mas entendem que o momento certo de se encontrarem foi aquele, no aplicativo. Depois de alguns dias conversando, foram pensando em protocolos de segurança que poderiam enfrentar para se encontrarem - estavam ambas isoladas em suas casas e gostariam de ficar isoladas numa casa só. Na época, não tínhamos informações precisas sobre a Covid-19 então tudo era muito perigoso, contagioso, mas ao mesmo tempo havia uma sensação de que “na semana que vem” tudo iria acabar. Num sábado a Kelly mandou uma foto para a Maíra de um frango com batatas, chamando-a para a janta, e ela decidiu ir. Foi a primeira vez que se encontraram: tirando a roupa que achavam estar contaminada (porque teve contato com a rua) na porta, colocando na máquina de lavar e correndo para o chuveiro para tomar banho. Assim, elas ficaram de sábado até segunda juntas. Como a pandemia não estava nem perto de dar uma trégua, o relacionamento delas foi acontecendo, elas se encontravam e passavam dias juntas e decidiram depois de pouco mais de um mês fazer uma mudança mais sensata de viver na mesma casa. Maíra pensava nas comorbidades e temia o Covid-19, perante ser uma mulher com um corpo sobrepeso, então elas cuidavam ainda mais do isolamento e decidiram juntar os gatos com o cachorro e ficar em casa, no estúdio em que a Kelly morava. Foi um momento bastante intenso de estarem num espaço, juntas, 24h por dia. Porém deu tão certo que até hoje vivenciam essa realidade trabalhando de home office, numa rotina bastante caseira. Hoje em dia, elas têm um cuidado com a espiritualidade bem grande, por mais que não possuam religiões específicas. Já chegaram a estabelecer um ciclo de 52 semanas (um ano) com rituais espirituais entre textos, propostas, conversas etc. e a Maíra também faz parte do círculo sagrado feminino. Entre a fé e a espiritualidade, elas adoram comemorar as datas: desde casamento, aniversários e outras datas importantes. Não necessariamente com festas, mas celebrando rituais como banhos de ervas, revendo anotações, trocando conversas… acreditam na valorização da trajetória que estão traçando juntas. Nesse caminho que está sendo o relacionamento, lavaram muita roupa suja de vivências anteriores que tiveram - e isso tudo aconteceu dentro de casa - então sentem que esses rituais colaboram na criação de um lar muito seguro, que nem sequer imaginavam ter. Kelly acredita que só o amor é capaz de transformar as coisas - se você consegue amar, você consegue propor mudanças reais no mundo. Maíra acrescenta que amor não é hierarquia, é algo mais democrático. Tem espaço para a verdade e o papel de estabelecer conexão com as coisas que estão ao redor. Entre mulheres, amar é também nos protegermos, não é algo violento, é um elo. Ela cita um exemplo da presença do bolsonarismo no condomínio onde moram e da política do medo que isso implica ao ver bandeiras do Brasil nas janelas - a importância que há no nosso amor porque ele vira algo revolucionário, que demanda coragem. A Kelly conta que foi percebendo ao longo da relação o quanto a visibilidade lésbica é importante. Este foi o primeiro relacionamento que ela assumiu de verdade, que não diz que divide o apartamento com uma amiga, que trata a Maíra enquanto esposa. Termos atendimento num posto de saúde, por exemplo, acontece a partir do momento que mostramos a nossa existência e que as pessoas entendem o quanto é necessário ter atendimentos voltados à saúde da mulher lésbicas. A visibilidade é muito importante para mostrar que existimos porque isso reflete em termos documento, constatação social, políticas públicas, conhecimento e reconhecimento das nossas vidas. ↓ rolar para baixo ↓ Maíra Kelly
- Dalle e Dyanne | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Dállete estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de União dos Palmares, interior de Alagoas e, sendo uma mulher descendente de indígenas/quilombolas, carrega isso muito forte em seu corpo. Foi criada por sua mãe e por parte da família materna numa cidade chamada Carpina, localizada na zona da mata norte pernambucana, onde morou até os últimos anos quando decidiu cursar direito no campus do sertão de Pernambuco, sendo a primeira pessoa da família a cursar faculdade. Dálle adora fotografar e durante a faculdade conseguiu se sustentar e realizar diversos trabalhos acadêmicos com a fotografia - criou um projeto fotografando as comunidades indígenas e quilombolas que tinha acesso, viajou para Brasília, Amazonas e Bahia, apresentou os registros em diversos lugares e ganhou prêmios. Até hoje cultiva o hobbie e a veia artística. Dyanne estava com 27 anos no momento da documentação, é natural de Carpina, zona da mata norte de Pernambuco, e conta sobre sua infância ter sido toda na igreja. Não lembra de algum momento antes dos 11 anos de idade não ter sido dentro da Igreja Petencostal do Sétimo Dia, foi só durante a pandemia de Covid-19 (com ela já sendo uma mulher adulta), quando tudo estava fechado, que viu a oportunidade de sair da religião e conhecer outros lugares. Entre as tarefas na religião, gostava de cantar e tocar violão. Foi lá, também, que conheceu Dálle. Dálle foi cristã muitos anos, quando entrou na universidade entendeu a grandiosidade do mundo - e do que era a sua vida em si: as violências que já havia sofrido, a cultura que carregava e o que significava seu corpo. Foi quando entendeu que poderia gostar de mulheres - de pessoas em geral - e que a sexualidade não define caráter. Dyanne sempre achou mulheres muito bonitas, entendia isso desde a adolescência, mas nunca soube como era o mundo para além da sua família e da igreja. Quando apareciam coisas para fora “da sua bolha” na televisão, o pai trocava de canal… Foi uma pessoa muito protegida. Entendeu o que era o contato físico entre as pessoas no ensino médio - e foi também quando pensou sobre a possibilidade de sentir algo por outra mulher. Mas, logo cortou a possibilidade, até porque não era sobre mulheres em geral, era sobre uma mulher especificamente. Mesmo assim, nunca chegou a acontecer nada, o medo que sentia do “pecado” era muito maior. Na época em que tudo isso aconteceu na escola, Dyanne chegou a conversar com uma psicóloga sobre: contou que estava conversando com uma menina e que achava que gostava dela. Coincidentemente, os pais estavam em separação e a psicóloga orientou que ela estava depositando a falta que sentia da mãe na busca por um afeto feminino, dizendo que ela “confundia as coisas”, mas não, que não gostava de mulheres, apenas estava confusa. Ela entendeu isso como um diagnóstico e, toda vez que sentia isso, ainda que anos depois, pensava “Nossa, ainda não passou?!”. Por mais que no decorrer dos anos tivesse admiração por outras mulheres, a primeira mulher que de fato se envolveu foi Dálle. [mais uma vez, fica claro a importância de buscarmos profissionais da saúde que nos enxerguem e nos acolham de verdade] Por mais que Dálle e Dyanne começaram a sua relação amorosa já adultas, são amigas de infância por conta da igreja e da vida no interior pernambucano. Sempre foram amigas confidentes, se tratavam com muito carinho e dividiam uma paixão imensa pela leitura de O Pequeno Príncipe, mas nunca haviam se olhado além da amizade (ou compartilhado a paixão por mulheres em suas conversas, pelo contrário, se entendiam enquanto mulheres héteros… e nem conheciam outras possibilidades). Fizeram uma prova de ENEM juntas - e essa prova para quem é da religião Adventista era totalmente diferente porque os sábados são guardados, então era feita durante um dia inteiro. Elas relembram o quanto se cuidavam durante a prova, nas filas e nos intervalos. Entendem que há 6 anos vivem essa relação amorosa e há 6 anos descobrem diariamente quem são, porque sempre viveram longe das outras culturas. Só em 2024, por exemplo, furaram as orelhas para colocar brincos pela primeira vez. Lembram dos primeiros eventos que foram: junto de um grupo que formaram com outros amigos LGBTs que saíram da igreja por não serem aceitos, foram ao carnaval pela primeira vez e achavam que seria horrível, o caminho todo passando mal com o medo do caos, o pensamento de que era o “Satanás” tomando tudo… e quando chegaram era lindo, muito colorido, com muitas crianças na rua e todos dançando maracatu. Dálle sempre foi uma mulher que performa feminilidade, usando roupas coloridas e maquiagem. Enquanto Dyanne possui um estilo que não gostava de usar batons diariamente, usava mais as cores preto e cinza… e todos falavam muito dela por conta disso, como se “já esperassem” que ela não fosse performar a heterossexualidade desejada. Porém, foi Dálle quem “saiu do armário” primeiro e contou para Dyanne que havia beijado uma menina. Quando estavam juntas, numa situação em casa, se encostaram e sentiram um frio na barriga. Não foi intencional, estranharam e pensaram “O que aconteceu ali?” mas, quando passaram próximas de novo, fizeram questão de encostar novamente para ver se iriam sentir. E deu certo. Naquele mesmo dia, algumas horas depois, Dálle estava na casa de um amigo e mandou um meme brincando para Dyanne, no desenrolar da conversa ela demonstrou o interesse em beijá-la. Acabaram não falando mais sobre isso, só deixaram a vida seguir o rumo, até que surgiu uma viagem para Recife à passeio, junto de outra amiga. Nessa viagem provaram cerveja pela primeira vez, já se sentiram diferentes uma à outra, conversaram a noite toda e finalmente ficaram juntas. A partir desse momento sabiam que queriam seguir juntas, acreditavam muito no que sentiam, mas havia o medo perante tudo o que aprenderam na igreja e de tudo o que precisariam enfrentar com suas famílias. O começo do namoro girou um ano em torno do medo e do preconceito com que a família (e a igreja) olharia o relacionamento e o amor que viviam. Contam o quanto foi doloroso, passaram muito tempo afastadas, depressivas e morando em lugares distantes. Questionavam o tempo todo “Será que é isso mesmo que Deus quer pra gente?!”. Se apegaram muito aos livros, liam no telefone juntas e isso amenizava a distância. Também pensavam em todas essas regras criadas na sociedade, esses julgamentos sobre elas, quem tem o poder sobre isso? Em suas palavras: “A gente entendeu que o amor de Cristo superava esse preconceito, sabe, e que Ele queria ver a gente livre. E tem um versículo da Bíblia que fala, né, de que foi para a liberdade que Ele nos criou. E ser livre é ser quem a gente é. Então, a gente decidiu que iríamos ficar juntas. E depois dessa decisão, estamos aqui, até hoje, assumidas.” Viveram longos processos conversando com suas famílias sobre o relacionamento. Alguns, inclusive, que só foram acontecer aos quatro anos de relação. Mas quando entenderam que o amor supera o medo e permite sonhar novamente, decidiram criar novos sonhos - e assim chegaram até Recife morando juntas, adotaram os bichinhos, criaram um lar… a vida tomou outra forma. Hoje em dia comemoram cada detalhe: desde passar datas comemorativas como um Natal juntas, até postar uma foto nas redes sociais, receber os familiares em casa, pegar nas mãos andando nas ruas… todas as coisas que por tanto tempo não puderam fazer. Dyanne pediu Dálle em casamento no Rio de Janeiro, num pedido que inicialmente deu errado mas depois deu certo, no show do Coldplay. Também fizeram união estável durante a pandemia de Covid-19, inicialmente por questões burocráticas de plano de saúde, mas hoje entendem a importância que isso representa. Sonham em realizar uma cerimônia em algum momento, com seus amigos, familiares, fazendo jus ao amor tão acolhedor que compartilham. Por mais que a história que viveram não foi fácil, tentam não demonizá-la, porque é intrínseca ao que elas são. Cuidam da mente e do coração para seguir sendo boas uma à outra e se permitem viver, experimentar, sentir as coisas… já que passaram tantos anos sem acesso ao mundo de verdade. Entendem que estão sempre em ressignificação: ressignificam a religião, Deus, o lar, a família, o amor… E querem encontrar a liberdade de viver a própria vida, o direito de cada um ser quem é. ↓ rolar para baixo ↓ Dállete Dyanne
- Carol e Andressa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Carol estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Campo Mourão, no interior do Paraná. Já passou pelos estudos enquanto gastronomia e psicologia, mas se encontrou mesmo na perfuração corporal, antes da pandemia de Covid-19 começar. Faz cerca de 5 anos que está morando em Maceió. Ama cozinhar, passar o tempo com o Treva, gatinho que trouxeram do Paraná (e que é mascote do estúdio) e a Mel, que adotaram já morando no nordeste. Adora ir à praia e conhecer lugares novos. Andressa estava com 33 anos no momento da documentação. Também é natural de Campo Mourão. Formada em publicidade e propaganda, trabalhou oito anos na área, mas sentia que sua vida era só ficar no computador, foi quando decidiu ir para Maringá, cidade próxima de onde nasceu, e começou a trabalhar com tatuagens, junto com um amigo que trabalhava como tatuador. Juntos, abriram um estúdio na sua cidade natal, em 2017. Nessa época, Carol e Andressa se conheceram através dele, o famoso - e temido por muitas - rebuceteio: se conheciam por conta das suas ex. Andressa soube que a Carol estava solteira porque falavam que ela era muito legal e muito bonita. Elas se conheceram, se deram bem, começaram a se envolver e nem perceberam de fato quando já estavam namorando. Tudo aconteceu. Pouco antes da pandemia de Covid-19, Carol e Andressa já dividiam a vida e os negócios. Andressa tocava o estúdio de tatuagem durante o dia, enquanto Carol botava a gastronomia em prática à noite, servindo pizzas em pedaços no bar. A rotina era intensa, mas funcionava. Maceió sempre esteve no radar da família de Carol, especialmente do pai, que sonhava em se aposentar e se mudar para lá. Quando visitaram a cidade juntas, começaram a pesquisar mais a fundo: o turismo, custo de vida, oportunidades. Até que decidiram mergulhar nesse sonho antes mesmo dos pais dela. Venderam tudo e partiram para Alagoas, no meio da pandemia. Chegar em uma cidade nova como tatuadora foi desafiador, mas a determinação era maior. Foram conquistando clientes aos poucos, mas o maior choque foi cultural. Mesmo dentro do Brasil, perceberam o quanto cada região tem suas particularidades. No fim, a mudança foi também um processo de renovação - queriam se descobrir em um novo ambiente, explorar novas versões de si mesmas, sobretudo descobrir sua melhor versão. O sucesso do estúdio em Maceió não foi “do nada”, bem pelo contrário: meses de muito trabalho e, nas palavras delas “veio da vontade de evoluir como pessoas”. Não começaram com tudo pronto, foram construindo aos poucos. Chegaram na cidade dispostas a qualquer ‘freela’, depois buscaram estúdios para trabalhar - Andressa tatuando, Carol com as perfurações. Guardaram dinheiro para investir no antigo estúdio no Paraná, mas acabaram apostando tudo em um novo começo no Nordeste. Pensaram em desistir várias vezes. Mas sempre que uma ficava triste, a outra lembrava: “Já viemos até aqui, já vendemos tudo. Vamos continuar.” Quando as coisas começaram a reabrir no pós-pandemia, entenderam que era o momento certo para abrir o próprio espaço. Alugaram um local pequeno perto da praia, com uma maca, um autoclave e poucas ferramentas. No começo, atendiam muitos turistas que passavam e faziam tatuagens por impulso ou porque queriam uma lembrança de Alagoas. Com o tempo, foram se conectando com a cultura local e decidiram criar um estúdio feminino. Muita gente duvidou, dizia que não durariam nem dois meses, até porque o mercado da tatuagem é cheio de machismo. Mas no momento da documentação, o estúdio já completava três anos, agora em um espaço maior, mais estruturado. E mais importante é que vai além da tatuagem e perfuração: oferece cursos, eventos, troca de experiências e, acima de tudo, acolhimento. O começo foi difícil. O primeiro estúdio, perto da praia, trouxe desafios pesados: alagamentos com as chuvas, roubos na vizinhança, insegurança constante. Choraram, duvidaram se conseguiriam sustentar o espaço. Até que decidiram que não podiam mais conviver com o medo. Foi quando encontraram o novo local, onde trabalham e moram. E quando querem um respiro, alugam um cantinho em praias mais afastadas ou vão para o terreno do pai da Carol (o mesmo onde ele sonha morar quando se aposentar). O estúdio não cresceu só pelo esforço delas, mas porque outras pessoas apostaram nesse espaço. Formaram uma rede de apoio: tatuadoras, cervejarias, clientes que acreditaram no propósito de um estúdio feito para mulheres, fazem muita questão de agradecer. E é bonito como o amor delas transborda no que construíram. Quem chega já chama de “O estúdio das meninas” - e quando são chamadas assim, se sentem representadas. Foi um amor erguido com maturidade, conversas, carinhos, em agradecimento quando fazem refeições juntas... A vida é absurdamente corrida e demanda muito diariamente, mas reconhecem que nas pausas diárias, compartilhadas com os bichinhos também, existe essa dose de amor. ↓ rolar para baixo ↓ Andressa Carol
- Beatriz e Tamara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beatriz e da Tamara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Beatriz e Tamara são um casal muito incrível. A forma que elas se ajudam, se permitem desconstruir e passam um sentimento de calma é muito verdadeira. São pessoas muito diferentes também. Beatriz é mais comunicativa e costuma dizer que elas terem se conhecido foi um encontro de almas. Ela é super de passar horas nas redes sociais, de dormir até tarde… Tamara, pelo contrário, é muito quietinha e disciplinada; Tem hora para dormir, acordar, comer, treinar… gosta de ficar mais no canto dela. Revira um pouco o olho e balança a cabeça, rindo, quando a Bea fala sobre o encontro de almas. Mesmo com todas as diferenças, elas passam muito tempo juntas. Sua grande paixão é o esporte. Tamara pratica todos os esportes possíveis e a Bea acompanha treinando também. Se conheceram assim, na atlética da universidade. Na época, Tamara namorava e Beatriz tinha acabado de entrar na faculdade. Pelo convívio, acabaram cultivando uma amizade. Beatriz estava recém chegando no mundo universitário e decidiu passar um tempo curtindo a vida, conhecendo pessoas, festas, etc. Um tempo depois, Tamara vinha passando por diversos problemas no relacionamento anterior, optou pelo término e isso criou uma brecha para que ela e Bea pudessem tentar algo num futuro próximo. Tamara tem 26 anos, é formada em administração e faz biblioteconomia. Trabalha numa emissora de TV cuidando da parte administrativa, é treinadora de futsal e tem uma doceria com a mãe - a empresa nasceu do sonho de venderem o que cozinham juntas. Ela costuma fazer os doces, enquanto a mãe faz os salgados. No mais, é absurdamente apaixonada por todos os tipos de esporte e se inspira muito em figuras relacionadas a isso quando pensa em inspirações, desde familiares que já se desenvolveram no esporte, até figuras famosas que representam esse desenvolvimento de carreira através da disciplina, como o Cristiano Ronaldo. Bea tem 24 anos, é formada em design gráfico e cursa história e marketing. Atualmente trabalha enquanto social media e web designer. Ao perguntar sobre em quem ela se inspirava, disse que adora acompanhar a jogadora Cris Rozeira nas redes, não só por ser jogadora da seleção, mas por ser uma mulher lésbica, muito representativa, que enfrentou lutas sobre a saúde mental e construiu a própria família. Além disso, disse que aprendeu a se inspirar diariamente na Tamara também, por ser uma mulher muito incrível e por terem uma relação de muita parceria. Por terem essa ligação com o esporte, falamos muito sobre o quanto eles podem mudar a vida das pessoas, principalmente dar um futuro para diversas crianças. Tamara ressaltou que a base para que um dia as coisas possam dar certo é a educação, para termos mais liberdade, mais respeito, mais segurança... tudo começaria pela reeducação. Bea completou, educação é um assunto que elas conversam muito sobre e ela acredita que só a educação realmente nos levaria à uma revolução. A Tamara era capitã do time em que elas jogavam na faculdade, enquanto a Bea era coordenadora. Elas conversavam muito, passavam muito tempo juntas. O primeiro beijo delas aconteceu em 2016, depois do término da Tamara, quando ela resolveu dar uma chance para a Beatriz... mas elas estavam vivendo ritmos completamente diferentes. A Bea estava na fase de beijar todo mundo, curtir as festas nesse sentido... enquanto a Tamara não curtia isso e preferiu manter só a amizade. Um tempo depois a Bea foi acalmando, elas foram criando um sentimento próprio, acabaram estabelecendo algumas coisas e decidiram tentar o namoro. Já passaram por situações mais difíceis que envolveram quebra de algumas confianças, da qual a Tamara se sentiu mais machucada. Foi com muita conversa e força de vontade que o relacionamento se construiu e deu certo. Hoje em dia elas entendem que a comunicação ainda precisa melhorar em diversos pontos, mas que se ajudam, amadurecem... é algo que precisa ser cultivado todos os dias.
- Louise e Thayane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Louise e da Thayane, quando o projeto passou por São Paulo! Louise e Thayane constroem sua vida numa base de amor e afeto familiar muito grande - tanto que soa meio impossível falar delas sem falar em família. O tempo todo enquanto nos conhecíamos, visitando o lar em que moram no centro de São Paulo, a sensação mais presente era de que ali existe uma família. Elas são naturais do Rio de Janeiro, mas se mudaram há pouco tempo para São Paulo por conta do trabalho da Louise. A casa, aos poucos, vem tomando forma, mas o mais importante é o samba, que toca o dia todo, embalando as atividades cotidianas. A música, na vida de ambas, vem desde crianças: suas famílias são muito ligadas ao samba, nos encontros cantam, fazem bagunça, gostam do movimento. Para o futuro, planejam filhos, uma família cada vez mais unida, grande e que valoriza suas raízes. Acreditam que enxergar o futuro enquanto uma construção é também um ato de amor. Tanto a Thay, quanto a Louise, no momento da documentação, estavam com 30 anos. A mudança para São Paulo foi bem rápida, durante o processo seletivo que a Louise participou elas conversaram e decidiram que só daria certo se fossem juntas, não cogitaram viver num relacionamento à distância. Hoje em dia, o trabalho da Louise envolve coordenação de vendas, enquanto a Thay é geóloga, apaixonada por defesa civil e está estudando para o concurso público dos Bombeiros. Diariamente ela corre, nada, cuida do corpo para a prova física e estuda para a prova teórica. Ambas têm a paixão do samba e do futebol em comum, mas com isso vem o motivo das brigas na relação: uma é Flamengo, a outra, Vasco. Querendo ou não, o amor que elas possuem pelo Rio é enorme, são pessoas que iam muito à praia, amam o sol, os bares… então está sendo uma nova vivência descobrir São Paulo. Por outro lado, sentem o quanto são companheiras juntas, o quanto mesmo com as dificuldades e a saudade da família elas se apoiam e se fortalecem estando nesse novo local. Tentam explorar a cidade descobrindo novos restaurantes, botecos, eventos com samba e culinárias diferentes. Quando elas se conheceram, a Thay estava em um relacionamento que ia muito mal, chamou uma amiga para conversar porque precisava desabafar e a amiga perguntou se podia levar outra amiga. Na hora, ela pensou que não era o ideal, né? Afinal, teria uma desconhecida ouvindo suas lamúrias, mas tudo bem, aceitou. Quando chegou lá, a menina convidou uma pessoa que ela estava ficando para as encontrar e a Thay pensou “Pronto, mais uma desconhecida pra me ouvir desabafar…” e então chegou a Lou. A Lou estava um pouco irritada, tinha saído do trabalho num dia bem agitado, mas segundo a Thay ela estava com uma roupa maravilhosa e isso já a chamou atenção. Depois desse primeiro dia, a Thay terminou seu relacionamento e todas elas (a Thay, a amiga dela, a Lou e a pessoa com quem ela estava ficando) passaram a se encontrar com frequência. No início de 2019 surgiu um flerte entre a Thay, a Lou e a menina que ela se relacionava. Elas ficaram e o que era para ser um divertimento acabou se tornando um relacionamento entre as três: durou oito meses. Por fim, não deu mais certo, terminaram, mas a Thay e a Louise continuaram juntas - tiveram a ideia de recomeçar devagar, e quando perceberam já estavam 100% entregues e vivendo como casal. Um tempo depois, com o início da pandemia, o que tinham era uma a outra e um quintal para ver o céu. Isso foi um espaço de precisarem aprender a se comunicar de forma fluida, já que tudo dependia das duas. Uma foi contando cada vez mais com a outra. Elas acreditam que, por mais que tenha existido muita coisa ruim na pandemia, há o sentimento de que esse tempo serviu como um acelerador de futuros: se a coisa não foi pra frente, ela acabou ali - e o que foi pra acontecer, aconteceu de verdade. Foi um momento divisor de águas em que elas sentaram e repensaram o futuro: planejaram o que gostariam de ser, estando juntas, tendo filhos, uma carreira, etc. Hoje em dia, mesmo a Thay que não é de falar muito o que está sentindo, consegue colocar pra fora com a Lou. Elas sentem que, quanto mais se abre, mais geram apoio uma à outra. Lou conta do momento que ela contou para a mãe dela, já adulta, sobre se relacionar com uma mulher. O medo que existia, pois é muito próxima da mãe, mas entende que ela teve uma criação evangélica muito forte e poderia reagir de várias formas. No fim, ela ficou assustada, mas abraçou e tratou com afeto. Isso se tornou um exemplo do que a Lou espera ser para as pessoas, ela acha que isso é lidar com amor sobre as coisas, e também fala sobre o acolhimento que ela espera ter mesmo nos momentos mais delicados. ↓ rolar para baixo ↓ < Thayane Louise
- Tania e Clarissa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Tânia e da Clarissa, quando o projeto passou por São Paulo! Queria contar a história da Tânia e da Clarissa (e do Gael, claro) de uma forma que tudo se completasse, porque a vida delas acontece assim. Diversas vezes, desde que nos encontramos em São Paulo - cidade em que elas nasceram e moram com o Gael - falamos no sentimento que existe sobre a vida tê-las preparado para a chegada dele. E isso não significa que ter um filho e educar uma criança de forma inclusiva é tarefa fácil ou, que nesse caso, venha com receita pronta, mas que elas estavam de braços abertos e muito dispostas para receber tudo o que aprendem e compartilham diariamente. A forma de começar a contar essa história vai ser pelas fotos porque escolhemos fazê-las num local muito especial, um café, localizado no bairro da Mooca. Esse café foi a Tânia quem pintou, com giz de cera, cada uma das paredes. Quando ela pintou, não imaginava que adotaria o Gael, mas já estava com o processo de adoção bastante avançado no fórum e tinha feito uns murais na escola em que trabalhava, quando o dono do café foi matricular a filha, os viu e decidiu contratá-la; foram dez dias de muitos desenhos nas paredes… mas um desenho em especial, de frente para a cozinha, era o preferido do casal (e também da Tânia!): uma menina no balanço, lendo um livro. Enquanto pintava, Tânia resolveu perguntar o motivo deles terem gostado tanto do desenho e a resposta foi que remetia à uma criança com síndrome de down (a esposa do dono do café é fisioterapeuta e tem essa especialização). A menina, com seus dedinhos curtos, segurando o livro, de olhinho puxado… remetia a eles e trazia algo tão bom. Enquanto para a Tânia, pelo vestido fazendo um contorno circular longo, via logo um barrigão, não pensava na criança, mas numa gestação. Não sabia ela que exatamente naquele dia da pintura, em um estado vizinho, o Gael nascia. As fotos da Tânia e da Clarissa, junto ao Gael, hoje em dia com dois anos, saudável, sorridente, muito inteligente e simpático, conversam com cada uma das pinturas do café. E é muito incrível ver como, de todas as formas, elas estavam esperando por ele. A Clarissa tem 37 anos, é bancária, adora mexer com plantas, reviver plantas, replantar e cultivar. Ela também toca violão e canta (gravou em estúdio a música para a Tânia entrar no casamento! Olha que incrível!). Ela adora esses detalhes, trata-os com muita atenção e carinho. A Tânia tem 43 anos, é historiadora e pedagoga, brinca que é artista plástica autodidata, porque dá aula de artes e de pintura há muitos anos também. Antes dos murais, ela nunca tinha pintado usando giz de cera, sua especialidade era tecido e madeira. A história do giz começou por uma reforma na escola e pela falta de dinheiro para comprar materiais para a pintura acontecer, então ela viu que tinha muito giz e pensou que poderiam inventar algo novo. Enquanto a história dos tecidos, essa vêm de longa data: ela já apresentou até programa na TV ensinando outras pessoas a pintarem seus próprios tecidos em casa. A Tânia e a Clarissa são mulheres muito atenciosas e logo que você chega é completamente impossível não se contagiar pela energia delas. São pessoas que se movem por afeto e contam histórias de vezes que já comemoraram datas com violinistas, de votos de amor que fazem por aí, das aventuras de anos casadas… são muitas risadas que vamos trocando ao longo das conversas, porque mesmo que os assuntos não sejam tão fáceis ou que existam os perrengues, fica claro o tempo todo que elas querem fazer o bem. Por fazer o bem que elas se conheceram, inclusive. Foi num grupo de Whatsapp onde LGBTs se reuniam para promover doações que quebravam o preconceito. Infelizmente ainda existe um olhar para nós de que só queremos festas, coisas vistas como “libertinagens” e não levamos nada à sério (e tudo bem querer festa, viu gente?), mas para quebrar essa ideia tão retrógrada esse grupo se uniu visitando lares de idosos, praticando doações, distribuindo coisas, etc. A Clarissa se interessou pela Tânia, chamou ela no Whatsapp e passaram quatro horas conversando. Marcaram de sair e foram ao teatro, já que ambas amam teatro. E, dessas saídas ao teatro, já se passaram mais de 8 anos, né? Cá estamos. Depois que elas se conheceram, se apaixonaram e namoraram por um tempo, resolveram morar juntas. A Tânia já tinha dois filhos maiores de vinte anos e isso fez com que fosse ainda mais difícil para a mãe da Clarissa a aceitação do relacionamento, portanto elas passaram o primeiro um ano e meio sem contato direto com as famílias. Mas não foi por falta de tentativa, não, viu? Tânia tentou, mandou e-mails, fez o que estava ao seu alcance, mas não conseguiu. Depois de um tempo, o irmão da Clarissa começou a namorar e foi apresentar a namorada, então elas resolveram dar um basta: só iremos se a Tânia puder ser apresentada também. Ok, baixamos a guarda. A Tânia foi convidada. E ela? Viveu um dia de gala! Foi ao salão, comprou até roupa nova para a ocasião. Deu tudo certo, todos se deram bem. O mais curioso é que a mãe da Clarissa e a Tânia se parecem muito, não só no jeito, mas ambas são professoras e artistas, então a mãe sempre soube quem era a Tânia por ver ela na TV, mas não dava o braço a torcer. Depois, quando se conheceram e se deram bem, tudo foi ficando mais tranquilo, mas levou muito tempo para que elas não se sentissem mais pisando em ovos. Desde o começo a adoção sempre estava em pensamento, por ser um sonho de muitos anos da Tânia. A Clarissa adorava a ideia, mas ambas achavam muito cedo. Deixaram a hipótese ao futuro, para amadurecer depois do casamento. Quando o casamento chegou, a notícia foi dada num almoço de família, depois de três anos juntas. A mãe da Clarisse perguntou “Mas por que vocês vão casar? Se já moram juntas há três anos?!” e ela respondeu: “Por que a senhora casou? Então. A motivação é a mesma.” = aí, ninguém argumentou mais nada. Sobre o casamento, o assunto já estava vencido, mas ainda sentia-se uma dor porque tiveram pouquíssima participação familiar no envolvimento em si… pouco perguntava-se sobre o evento, elas organizaram tudo sozinhas, cada detalhe, e foi difícil lidar com esse sentimento de solidão. Na data da festa, o pai da Clarissa entrou com ela e foi muito receptivo com os convidados, enquanto a mãe ficou mais reclusa. Recordam que a cerimonialista falou coisas muito profundas e importantes sobre o amor e sobre quem nós somos, e citam que isso despertou uma mudança comportamental na forma que a mãe da Clarissa vê o relacionamento das duas, portanto, valeu sim, muito a pena. Em relação à adoção, elas contaram da mesma forma que o casamento: o irmão da Clarissa ajudou e elas organizaram uma pizza entre a família para dar a notícia. No começo, o maior medo que surgiu foi em relação ao processo, como seria, e de certa forma sobre alguns preconceitos que envolvem a adoção, como “Como será que vai ser quando a criança crescer? / E se ele/ela quiser procurar a família biológica? / etc”, além disso, existia um pensamento sobre a Clarissa nunca ter filhos pelo o que ela representa socialmente, uma mulher que não se mostra feminina, não encaixa num padrão socialmente colocado que desde criança não mostrava brincar de bonecas e nem ser muito materna… [E justamente nesse momento nos surge a dúvida: Por que isto vira um debate quando a Clarissa anuncia o desejo de adoção e nunca vira um debate em famílias no momento em que os homens contam que vão ser pais? Nunca um homem é cobrado sua paternidade, já para nós, mulheres, sempre nos é cobrada uma posição materna e se não temos uma boneca em casa nos é descartada a possibilidade ao crescer. Ainda bem que Clarissa seguiu o sonho porque hoje em dia ela é uma mãezona!] Enfim, o sentimento que os familiares ficaram foi de: quando acontecer, a gente vê. Foi então que elas entraram com os papéis no fórum e acompanharam mensalmente os encontros em grupo sobre adoção. Depois de um ano, os pais (avós do Gael) estiveram também nesses encontros, o que foi muito legal porque mudou bastante a visão sobre a adoção, e lá foram reaprendendo formas de enxergar e de se preparar para recebê-lo da melhor forma possível. Depois de um ano e meio elas estavam aptas a entrar num grupo de busca ativa por crianças para adoção. Lá, chegaram a tentar uma criança, enviaram os documentos, mas não tiveram retorno judicial (em agosto de 2019), então voltaram à busca. Em novembro, dia 20, de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra, elas estavam em uma peça de teatro (olha aí, o primeiro date voltando à tona), e quando pegaram o celular para fotografar um momento da peça porque Tânia queria mostrar aos alunos na escola, viram no Whatsapp a foto do Gael. Tânia, em lágrimas, conta que sentiu o coração palpitar muito forte e só conseguiu dizer: é o meu filho! A informação que tinham era de que o Gael não estava em São Paulo e que era um neném com síndrome de down, possuindo também uma bolsa de colostomia. Elas nunca tinham pensado na hipótese da síndrome de down porque não existia essa opção no questionário que responderam, mas na mesma hora não havia mais dúvidas, apenas a certeza que o Gael era o filho que elas estavam buscando. A Clarissa brinca que não conseguiram mais nem ver a peça, choravam e ela tentava conversar para acalmar e ser um pouquinho mais pé no chão, saber se era isso mesmo que elas queriam, mas ambas estavam muito emocionadas. Ao fim, foram para o estacionamento, conversaram e ligaram para a filha da Tânia. Na hora que ela viu a foto, não deu nem tempo, só disse “Mãe, é ele, né??? É o meu irmão! Pega ele! A gente estimula ele, mãe!! Vai dar certo!”, naquele momento tudo foi se encaixando, a filha dela trabalha com crianças que possuem síndrome de down e na época auxiliava 6 crianças numa escola. Em seguida, ligaram para o filho, que também apoiou. Foi o bastante: deram o sim para a assistente social. Os dias seguintes se resumiram em pura ansiedade. Enviaram os documentos e o processo demorou mais de uma semana, passaram por entrevistas, por assistentes sociais… Tânia estava tão ansiosa que resolveu ir até a casa de duas amigas mais velhas, maiores de 80 anos, cujo ela apelida de yabás. Elas falaram: “Calma que ele é teu, ele já vem”. Foi quando ela chegou em casa que recebeu a ligação do fórum e falaram: chegamos à conclusão de que não existem mães melhores para ele do que vocês duas. Compraram as passagens aéreas, alugaram airbnb, marcaram audiência e o mais rápido possível foram conhecê-lo. Conversaram muito com as assistentes, com o fórum, afinal, tudo precisa ser minimamente acertado. A família (como um todo) ainda não sabia, porque o medo de não dar certo era grande, deixaram para contar quando já estivessem lá. E finalmente chegou o momento aprovado de conhecê-lo: lá estava o Gael, neném pequenino, gordinho, com os olhos super curiosos, acompanhado de uma sacolinha de plástico com suas roupas. Elas foram com ele até o apartamento onde estavam hospedadas. Todos estavam enviando mil mensagens para o celular, mas fizeram chamada de vídeo com a filha da Tânia. Gael, quando a viu, abriu um sorrisão. Foi o primeiro sorriso dele, como se já a conhecesse. Ele foi muito bem recebido por todos na família e é uma criança muito amada. Elas afirmam: “Ele nos ensina coisas que nenhuma faculdade ensinaria, nenhum curso”. A vida gira em torno do Gael, que ao todo faz 6 terapias, hidro, fono, fisio, uma rotina intensa! É sempre de sorriso no rosto! E vai melhorando a cada dia. Hoje ele já não usa mais a bolsa de colostomia, passou pela cirurgia e correu tudo bem! Falamos sobre a importância de darmos valor aos pequenos grandiosos acontecimentos ao nosso redor, como as necessidades fisiológicas diárias. E tudo o que isso nos ensina. Nesse momento, a Tânia conta que no dia do casamento elas fizeram votos falando sobre o quanto são pessoas melhores depois que se conheceram… mas que depois do Gael, elas sentem que são pessoas que nem imaginavam conhecer/e ser. Sentem que vão sair dessa vida muito melhores. Hoje, também, depois de tantos anos, ambas famílias se dão super bem. No mais, elas mantém o Instagram do Gael, para falar sobre educação inclusiva, famílias homoafetivas e crianças com síndrome de down. O @ é @gael.t21 a palavra está com elas Acreditamos que o amor supera tudo, nele não tem raiva, não tem inveja, não tem maldade. Eu (Tânia) vivi uma situação que me lembra do amor. Foi com a minha sogra. Ela é muito parecida comigo e um dia eu fui viajar para o interior sozinha à trabalho. Por mais que eu já namorasse a Clarissa há anos e já conversasse com a minha sogra, ela nunca tinha falado comigo no Whatsapp, mas nesse dia, especificamente, ela me mandou uma mensagem perguntando se eu cheguei bem. Ou seja, ela ficou preocupada, né? Me surpreendeu e eu agradeci. Aí ela disse que, ah, era assim mesmo, “com o tempo ela ia vendo como são as coisas”... e eu disse que o amor é só isso, mesmo, mas que amor também é tudo isso. É essa coisa que une, que move, que faz com que a gente se preocupe e que faz passar por esses desafios. Nós,mulheres, amarmos outras mulheres, nos faz passar por muitas coisas e muitos desafios, então o amor surpreende e fica muito latente. Mas nem sempre a gente sabe como demonstrar, então é importante saber ler também. E o Gael estar numa família homoafetiva é maravilhoso porque já passamos por tantas coisas que ele será completamente acolhido aqui, voltamos a realmente aquele ponto: nos preparamos a vida toda pra isso. post Começou 2022! Precisamos começar o ano fazendo todos vibrarem com uma das maiores histórias que já tivemos o prazer de documentar, então, preparou o lencinho? Chegou a hora. Aproveitem ♥ Queria contar a história da Tânia e da Clarissa (e do Gael, claro) de uma forma que tudo se completasse, porque a vida delas acontece assim. Diversas vezes, desde que nos encontramos em São Paulo - cidade em que elas nasceram e moram com o Gael - falamos no sentimento que existe sobre a vida tê-las preparado para a chegada dele. E isso não significa que ter um filho e educar uma criança de forma inclusiva é tarefa fácil ou, que nesse caso, venha com receita pronta, mas que elas estavam de braços abertos e muito dispostas para receber tudo o que aprendem e compartilham diariamente. A forma de começar a contar essa história vai ser pelas fotos porque escolhemos fazê-las num local muito especial, um café, localizado no bairro da Mooca. Esse café foi a Tânia quem pintou, com giz de cera, cada uma das paredes. Quando ela pintou, não imaginava que adotaria o Gael, mas já estava com o processo de adoção bastante avançado no fórum e tinha feito uns murais na escola em que trabalhava, quando o dono do café foi matricular a filha, os viu e decidiu contratá-la; foram dez dias de muitos desenhos nas paredes… mas um desenho em especial, de frente para a cozinha, era o preferido do casal (e também da Tânia!): uma menina no balanço, lendo um livro. Enquanto pintava, Tânia resolveu perguntar o motivo deles terem gostado tanto do desenho e a resposta foi que remetia à uma criança com síndrome de down (a esposa do dono do café é fisioterapeuta e tem essa especialização). A menina, com seus dedinhos curtos, segurando o livro, de olhinho puxado… remetia a eles e trazia algo tão bom. Enquanto para a Tânia, pelo vestido fazendo um contorno circular longo, via logo um barrigão, não pensava na criança, mas numa gestação. Não sabia ela que exatamente naquele dia da pintura, em um estado vizinho, o Gael nascia. As fotos da Tânia e da Clarissa, junto ao Gael, hoje em dia com dois anos, saudável, sorridente, muito inteligente e simpático, conversam com cada uma das pinturas do café. E é muito incrível ver como, de todas as formas, elas estavam esperando por ele. A história completa está no nosso site! O caminho até lá você já sabe, né? O link tá na bio!
- Clarissa e Agnis | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Agnes estava com 33 anos no momento da documentação, é natural de São Gabriel, cidade interiorana do Rio Grande do Sul. Saiu de lá aos 17 anos e se mudou para Santa Maria por conta dos estudos, mas parte da família segue na sua cidade natal até hoje. Em Santa Maria se formou em nutrição, morou em Porto Alegre por um tempo, mas voltou à Santa Maria porque passou num concurso administrativo. Hoje em dia, mora novamente em Porto Alegre dividindo o lar com a Clarissa. Clarissa estava com 30 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre e conta que sempre foi criada dentro da igreja. Se assumiu aos 18 anos, sendo uma mulher desfeminilizada e passou por muitos processos para entender quem era e se sentir bem com a forma que se vestia e com quem se relacionava. Foi muito difícil enfrentar os preconceitos vindos de fora e de dentro de casa, ouvir a palavra da “cura gay”, lutar pela aceitação… mas fica muito feliz quando observa o quanto as coisas já caminharam e o quanto sua família hoje em dia é apaixonada pela Agnes - brinca que gostam mais da Agnes do que dela e que adotaram ela como filha. Começa falando sobre isso porque é uma das partes que mais admira na sua história e na história delas enquanto um casal, e ressalta o quanto faz parte do relacionamento tranquilo que possuem esse valor que dão aos seus corpos e às pessoas que amam. Agnes, quando conheceu Clarissa, era uma pessoa que não se permitia viver muito o presente. Ficava sempre presa ao passado ou ao futuro. Se preocupava com o que precisava fazer, com o que tinha que planejar. Clarissa a fez entender que a vida é o momento, na maioria das vezes, nas coisas mais simples - foi durante a relação que ela começou a bordar, que voltou a ler, que passou a amar os passeios na pracinha final de tarde e compartilhar tantas receitas novas juntas. Clarissa completa que elas viraram duas senhorinhas e que adoram isso. Clarissa também adora chegar em casa, ouvir música e apreciar o descanso sem a cobrança do dia-a-dia. Explica que quando uma está muito cansada, a outra faz o almoço ou a janta… ou dividem as tarefas para não ficar pesado para as duas. Entendem que isso é se fortalecer. E que aos poucos vão descobrindo novas coisas que gostam de fazer. Sentem que viviam num limbo, estavam sempre tentando agradar os outros, pouco faziam para si mesmas ou para buscar suas felicidades e que depois de começarem a relação descobriram o que realmente gostam e que as faz feliz na simplicidade do dia. Clarissa e Agnes se conheceram no final de 2021, ambas estavam num processo de autoconhecimento, depois de relacionamentos longos. Se conheceram num aplicativo de relacionamentos. Agnes nunca havia entrado em aplicativos e não achava que isso combinava muito com ela, mas resolveu testar coisas novas, queria alguma amizade ou companhia para sair, conversar. Clarissa também não era dos aplicativos, nunca havia tomado iniciativa com ninguém por lá e Agnes foi uma exceção que deu certo. Se encontraram para tomar um açaí - o açaí em si estava ruim, mas o encontro foi ótimo! E desde então ficaram juntas. Entendem que não estavam procurando um relacionamento, foram se conhecendo e visualizando seu processo de cura, sentiam medo e até demoraram para admitir o quanto estavam apaixonadas, mas o processo fluiu e encararam o medo até estarem dispostas à relação. Logo no início do namoro, Agnes voltou a morar em Santa Maria por conta do trabalho. Foi difícil porque era algo novo, sentiram bastante saudade e isso demandava uma viagem toda semana para se encontrarem. Mas foi nesse movimento que se fortaleceram enquanto casal e entenderam que realmente queriam estar juntas. Vivenciaram momentos que foram decisivos para se conhecerem em versões que ainda não tinham tido oportunidade de ver… E sempre quando pensam na temporalidade das coisas ou “como poderiam ter se conhecido antes”, “tal coisa poderia ter acontecido antes”, refletem que foi no momento certo, precisavam passar pelas vivências para que o amadurecimento acontecesse. Ao total, Agnes morou um ano e oito meses em Santa Maria. Quando Agnes voltou de Santa Maria, ela e Clarissa moraram no mesmo terreno que a família da Clarissa durante quase um ano, até que alugaram o apartamento que moram hoje em dia. Constroem o lar com muito carinho, nas decorações feitas com artesanato aproveitando os momentos juntas, na forma que se alinham para seguirem uma relação de respeito num espaço confortável e seguro… Além disso, fizeram questão de buscar a independência num lar que seja só delas porque entendem a importância de serem consideradas uma unidade familiar, mulheres adultas que trabalham, se amam e constroem um futuro com consciência, não duas amigas ou duas meninas que vivem “uma fase”. Quando nos encontramos para a documentação acontecer, Agnes havia apresentado Clarissa para seus familiares há poucos dias e ainda estava entendendo a situação. Conta que sonham em casar, projetam o futuro juntas e é muito importante que as pessoas que amam e que desejam o bem possam compartilhar a vida com elas de forma natural e feliz por desejo próprio, sem obrigação ou questão social. Querem por perto pessoas que realmente apoiem, celebrem o amor. O que Clarissa e Agnes querem refletir para os outros na relação, é o que mais aprendem juntas vivendo esse amor: o companheirismo. Foi compartilhando o olhar/a forma que se enxergavam que impulsionam o crescimento uma da outra, até mesmo o autoconhecimento, e cresceram de forma que antes nem imaginavam. Hoje se enxergam muito mais felizes, com propósito e se permitindo ser vulnerável, porque sabem com quem contar. Querem que as pessoas que amam também saibam que podem contar com esse apoio e esse amor, porque elas viram que o amor que criaram dentro da relação já expandiu para a forma que são individualmente em vida, virou algo muito maior que uma relação romântica. ↓ rolar para baixo ↓ Clarissa Agnis

