Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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- Thati e Larissa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Thati e Larissa, quando o projeto passou por São Paulo! Conheci a Thaty e a Lari no Parque Ibirapuera, em São Paulo, numa tarde de sábado. Estávamos andando, nos apresentando, quando a Lari disse: “Foi aqui que eu caí depois de beijar a Thaty pela primeira vez.” e eu perguntei “Mas caiu, caiu? Ou caiu, tropeçou?” e ela contou que caiu, mesmo, se ralou e teve que fazer curativos. Na hora, pensei: ok, quero muito ouvir essa história. Mas não vou começar por ela porque o começo se começa pelo começo, e, nesse caso, demorou um pouquinho até o beijo (e a queda no parque) acontecerem. A Thatiely e a Larissa trabalhavam juntas na TV Cultura, mas em horários diferentes. Elas se encontravam de vez em quando, a Thaty era estagiária de jornalismo e a Lari já estava lá há mais tempo. Na versão da Thaty, ela conta o quanto nunca tinha se visto numa relação com uma mulher porque vinha de uma cultura muito hétero (e especificamente “hétero top”), além de que naquele momento estava priorizando o estar-sozinha, por ter passado por um relacionamento bastante difícil do qual saiu bem machucada. O período que passou sozinha foi muito importante para aprender o que aprendeu e também para ver as coisas sob um novo olhar. Eis que, nesse meio tempo, ela encontrava a Larissa e sempre chamava atenção, por usar turbantes bonitos e brincos grandes, nas suas palavras: “É uma pessoa que chama atenção”, mas o olhar da Thaty para ela mesma, até então, não era o de ficar com uma mulher a ponto de ter um relacionamento… ou, pelo menos, ela não estava colocando nenhum rótulo na sexualidade - beijou mulheres em bares e foi entendendo o processo, se aceitando, afinal, foram 25 anos vivendo sob outro olhar e outra cultura, entender a bissexualidade era um tempo novo. Era janeiro e a Thaty trabalhou em um sábado - dia que ficavam pouquíssimas pessoas trabalhando, entre elas, a Larissa. Elas conversaram e surgiu o interesse, mas não sabia se era uma amizade ou uma paquera. Até que se adicionaram no Instagram, trocaram reações e quando chegou o carnaval elas tiveram a oportunidade de ir juntas num bloquinho com os amigos do trabalho. A Lari estava vivendo o momento dela sendo solteira no carnaval, ela conta que só se relacionou com mulheres na vida e foram poucas pessoas, então tinha recém saído de um relacionamento longo também, queria aproveitar o momento. A Thaty brinca que ficava não só observando, mas também se questionando, porque nunca tinha chego em ninguém. Na realidade heteronormativa em que ela estava inserida o costume era que os homens tomassem as iniciativas de chegarem até as mulheres, então ela não sabia como dar o primeiro passo com a Lari. Uma amiga até ofereceu ajuda, mas ela não quis, decidiu chegar lá e falar, mas na hora a Lari nem ouviu o que ela tinha pra dizer, as duas se beijaram logo. ♥ Porém, era um beijo de carnaval, né? No meio de um bloco acontecendo. Nesse mesmo dia elas beijaram outras pessoas - e por mais que a Lari em um momento tenha pego na mão da Thaty ela ainda brincou com um “Não me ilude, não!!”. Foi nessa hora que veio ele: o tombo. A Lari caiu porque estava muito bêbada e apostou corrida com uma amiga. Coisas de carnaval, né?! A Thati estava plena, disse que tinha um curativo e pediu pra eu escolher um machucado pra colocar, ou seja, eram vários. A Lari pedia: “Cuida de mim”, pra Thaty. E de alguma forma, deu certo o cuidado. Logo depois do carnaval a Thaty entrou de férias porque a melhor amiga dela estava tendo um neném e ela queria ajudar nos primeiros dias pós parto. Foram 15 dias sem ir trabalhar e, nesses dias, a Lari passou a trabalhar de manhã, no mesmo horário que ela trabalhava. Quando voltou das férias elas estavam sentadas numa mesa lado a lado, e por mais que isso inicialmente tenha despertado uma esperança, aos poucos foi fechando porque a Lari é uma pessoa bastante séria no trabalho. A Thaty justifica dizendo que a seriedade vem dela ser de capricórnio, porque leva o trabalho com muita lealdade, ficando muito fechada. Mas, como ela é mais tranquila, acabava conseguindo puxar alguns papos e distrair, então elas conversavam um pouco ali e continuavam a falar também pelo Instagram - além disso, todos os colegas incentivavam e apoiavam o casal que parecia surgir. Ainda sobre trabalhos, a Lari, no momento da documentação, possui 25 anos e é natural de São Paulo, ela trabalha como roteirista de audiodescrição, além de dar aulas de espanhol e fazer trabalhos com surdos e cegos. No cotidiano, também estuda para sua meta de vida, que é prestar mestrado em literatura (e, inclusive, dá aulas de literatura também em um cursinho pré-vestibular: o Maria Carolina de Jesus, que fica na capital). Já a Thaty, no momento da documentação estava com 26 anos, é natural de uma cidade chamada São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Thaty trabalha com marketing e experiência/expectativa do cliente em uma startup de alimentos e também dá aulas no cursinho pré-vestibular, porém de Redação. Atualmente, ela cursa Letras na Unifesp, mas já cursou jornalismo e odontologia em outros momentos. Por mais que ela acredite no poder da comunicação e usa muito isso nas suas aulas, não vê mais o jornalismo como uma profissão para si - pois entende que é muito difícil trabalhar com o jornalismo de fato. Sobre a odontologia, ela ainda pensa em voltar (e a Lari incentiva) - por mais que saiba do cansaço que envolve a rotina - acredita que é algo que vale a pena e que vai trazer muito orgulho à família também. Além disso, complementa que um dos motivos para voltar é que o conhecimento é algo que ninguém tira de nós. Foi com essa desculpa de muitos trabalhos e correrias que a Thaty resolveu pedir o Whatsapp da Lari para um projeto de audiodescrição. Por lá, durante a conversa, a Lari a convidou para o aniversário de um amigo em comum e novamente elas se encontraram, mas não ficaram juntas. Logo em seguida, a pandemia começou. E elas passaram todo esse momento inicial pandêmico conversando pelo Whatsapp e adaptando o trabalho para home office. Começaram com ligações à noite, o contato realmente aumentou até que a Lari foi até a casa da Thaty… e assim começaram uma relação que durava o período de se ver quinzenalmente. Até decidirem estar em um namoro, houve uma série de conversas sobre o que elas sentiam sobre isso, visto que a Thaty considerava que o período solteira após terminar uma relação era muito necessário para a pessoa se entender enquanto indivíduo, nos seus problemas íntimos. A Lari, por outro lado, queria viver de fato o romance, se entregar mais e se envolver. Rolou até aquela situação de confundir o ‘tchau’ com o ‘teamo’ e não entender o que está acontecendo de verdade entre elas. Mas foram se encaixando e conversando até chegar no ponto em que estaria tudo um pouco mais equilibrado… e então a Thaty foi apresentada para a família. Ao mesmo tempo que ser apresentada para a família da Lari era um ponto, para a Thaty, envolver a família, era outra questão. A família dela não fazia a menor existência da possibilidade dela se relacionar com uma mulher - e enquanto não acordassem que isso era um relacionamento, ela não sentia a necessidade de contar. Até o momento em que virou um namoro, e aí entenderam que esse passo deveria ser tomado. A primeira questão foi a mãe reagir como uma fase. Entendemos que é um processo familiar e que muitas pessoas passam por isso, que esse processo foi respeitoso sobre o que a filha sentia, mas que houve um certo afastamento - até certo ponto natural para o entendimento de cada uma com seus pensamentos. Contar para o pai que foi mais difícil, pois o passo teve que surgir de outra pessoa e a conversa não aconteceu de fato. Ela conta que, no fim, o processo não é tão doloroso por já não conviverem tanto presencialmente, já que mora em São Paulo há alguns anos. A única coisa que deseja - e luta - é por respeito, e por isso também respeita os processos familiares. Hoje em dia, a mãe dela já trata a Lari com bastante carinho, o que mostra que as coisas precisam de um tempo, e a mãe dela até brinca que as duas já estão se casando, com naturalidade. A família da Lari passou por outro processo, visto que é uma família que está mais próxima do relacionamento das duas e que sempre manteve a Lari muito perto. Desde mais nova eles sabem da sexualidade dela e não foi de uma forma fácil, pelo contrário: foi muito mais abrupta. Mas, também, foram processos. Ela falou algumas vezes na conversa a frase: “A educação me salvou.”, referindo-se à faculdade como um processo de libertação. No processo do relacionamento elas já passaram por muitas coisas, entre tentativas de morarem nos fundos da casa dos pais da Lari, até uma maturidade e um crescimento muito rápido das duas juntas nos primeiros meses de relação. Aprenderam a ter mais cuidado com os outros, não só em relação à empatia, mas em relação ao cuidado com quem se envolve, pois tinham suas energias rapidamente sugadas. Aprenderam a acreditar e ter mais fé na religião, no que está em volta e a serem mais elas por elas, juntas. Hoje em dia morar na mesma casa não significa casar. E casar, principalmente para a Thaty, tem um peso gigantesco. Ela sempre quis casar. Quis e idealizou a vida toda casar com um homem, naqueles moldes que conhecemos, mas hoje está feliz com uma mulher. “Eu quero casar com uma mulher. Quero fazer festa, convidar pessoas que gostamos. Quero viver esse momento, sempre sonhei com esse momento e quero viver isso com ela.” Elas falam sobre a naturalidade do relacionamento que possuem e que querem refletir isso no casamento, mesmo sendo socialmente tratadas diferentes, sabem que o amor que sentem é puro e natural. Por mais que existam idealizações no amor, a Thaty entende que tinha muita referência no amor que via em casa, entre os pais, pois eram muito cúmplices e amigos. Até hoje entende que o amor está na parceria e no cuidado, não nos grandes feitos: o amor é todo o dia. “O amor tá quando minha mãe manda o remédio pra Larissa quando ela tá gripada.” Hoje o relacionamento da Lari e da Thaty representa algo que elas conquistaram juntas, o melhor que elas puderam ser. Isso não quer dizer que não existam uma série de questões individuais próprias, de problemas a enfrentar ou de vida a acontecer, mas que o que era antes uma batalha solitária hoje em dia é uma força conjunta. A Lari conta sobre um livro do qual ela sentiu uma conexão muito forte, o “Amares”, do Eduardo Galeano, em que são crônicas sobre tudo que ele ama - e tudo que ele ama é literatura. Já estava tudo escrito de outros livros, ele só organizou. São várias esferas de amor. Ela fala, também, sobre o quanto encontrou o amor na religião e o quanto isso é importante para o entendimento dela enquanto pessoa: “Eu agradeço muito a Oxum e Oxalá que são os dois orixás que regem a cabeça dela (Thaty), pela vida dela e espero que muitas mulheres possam encontrar outro amor assim. Não só amor romântico, mas amor no geral porque eu acredito que o amor entre duas mulheres pode transformar a vida uma da outra porque tenho certeza que esse me transformou. Eu me sinto livre. Todos os dias eu quero fazer uma coisa nova e ela tá sempre me incentivando. Eu me sinto forte.”. Larissa Thatiely
- Maria e Barbara
Mariana e Bárbara são duas mulheres que nasceram em cidades do interior do Rio Grande do Sul. Bárbara vem de Capivari do Sul, município com cerca de 4 mil habitantes, que vive da produção agrícola. Já a Mari, vem de Osório, cidade um pouco maior e mais próxima da capital, com 40 mil habitantes. Por mais que vivem visitando seus familiares em suas cidades natais, hoje em dia a Mari mora em Porto Alegre, estudando e trabalhando com moda, enquanto a Bárbara passa um tempo com ela e outro tempo com sua família no interior. No momento da documentação, Bárbara então com 26 anos conta o quanto enfrentou diversas barreiras ao se entender enquanto uma mulher lésbica vivendo em uma cidade tão pequena e conservadora. Lá, trabalhava com equipamentos agrícolas, mas aprendeu de tudo um pouco: soldar, lixar, operar máquinas de corte, etc. Mas seu sonho mesmo é ser profissional na música: toca diversos instrumentos, se especializando nos sopros desde criança. Hoje em dia, voltar para Capivari de mãos dadas com a Mari, respeitando e valorizando toda a história dela enquanto mulher negra, para elas é lido como um ato de resistência: desejam ser respeitadas. A Mari, que no momento da documentação estava com 24 anos, se mudou para Porto Alegre pelo sonho de ser modelo. Nas palavras dela: “Tinha 200 reais e um sonho”. Ela chegou a trabalhar no comércio de Osório antes, em uma loja de roupas, mas foi demitida por conta de várias situações (inclusive envolvendo intolerância religiosa). Numa das suas vindas para Porto Alegre por conta de freelancer sendo modelo, conheceu uma menina que comentou que havia vaga no apartamento para dividir, então acionou um contato que trabalhava em um salão de beleza conhecido na cidade, conseguiu uma entrevista um tempo depois e, sem expectativas, foi aprovada. A questão era: não tinha dinheiro para sair de Osório e ir para Porto Alegre começar uma nova vida, então fez um “freela” numa lanchonete, ganhou 200 reais e saiu de casa bem cedinho, para a mãe dela não ver. Assim, chegou na capital. Um tempo depois, com o início da pandemia de Covid-19, acabou ficando sem lugar para morar e, com o salão fechado, voltou para Osório. Mas durou pouco tempo, em setembro já estava novamente em Porto Alegre, na casa em que mora até hoje (com a Bárbara, inclusive). Por mais que a vida da Mari e da Bárbara tenha se encontrado definitivamente quando a Mari já morava nessa casa, em Porto Alegre, suas histórias estão se cruzando há anos. A primeira vez que a Bárbara esteve em Porto Alegre foi quando ela tinha cerca de 17 anos. Conseguiu uma carona, saindo de Capivari do Sul, que a iria deixar em Cachoeirinha (região metropolitana) e ela topou - não fazia ideia de onde ficava Cachoeirinha. Quando chegou lá, fez amizade com umas pessoas na parada de ônibus e disse - quero ir numa festa lá em Porto Alegre. As pessoas deram as indicações para ela chegar no bairro boêmio e ela foi. Conta que sempre foi assim, “desgarrada”, sem muito medo de desbravar as coisas. Um tempo depois, ela começou a ir para Porto Alegre com mais frequência. Também viveu muito tempo em Osório, porque sua mãe mora lá; E foi numa dessas vezes que, em 2016, num Galpão de Artes, ela viu a Mari pela primeira vez. Na época, a Bárbara tinha um relacionamento aberto e se interessou pela Mari, mas a amiga dela não deixou ela tentar o flerte porque a Mari estava envolvida em uma situação de uma pessoa próxima delas. A Bárbara achou tudo muito engraçado e só disse que ok, não falaria com ela. Nisso, o tempo passou. Em 2019, novamente ambas estavam em Osório, se esbarram em um bar que pertencia às amigas da Bárbara. Lá, juntaram as mesas e os amigos em comum, uma começou a conversar com a outra (e detalhe: elas não lembravam dessa situação de 2016) falaram durante horas, a noite toda, mas não demonstraram nenhum interesse - nessa época, inclusive, a Bárbara estava casada. Foi só em 2020, quando a Bárbara já tinha se separado, que ela estava num momento de sofrência deitada no colo da cunhada dela, assistindo os stories que a cunhada estava assistindo, quando apareceu um storie da Mari. Ela perguntou quem era e pediu para voltar, pegou o Instagram da Mari e começou a segui-la. A Mari seguiu de volta, elas também se seguiram no Twitter, começaram uma interação e num dia, quando viu que a Mari estava em Osório, arranjou uma desculpa com a amiga dela para irem encontrá-la - mas não deu certo, ela já tinha voltado para Porto Alegre. Interagiram pelas redes sociais de forma lenta, pela timidez da Bárbara, até que resolveram se encontrar no dia das mães, quando a Mari iria para Osório. Mas surgiu um empecilho: no dia das mães era o aniversário do pai da Bárbara, então seria meio estranho elas se encontrarem numa festa de família, né?! Foi quando a Bárbara decidiu pegar o carro e ir até Porto Alegre. Chegou na casa da Mari toda elegante, com banho de perfume, nervosíssima porque só usava bombacha e iria encontrar alguém que fazia moda. Até que foi surpreendida com a Mari abrindo a porta de pijama e meia. O primeiro encontro entre elas deu certo. Por mais que estivessem com roupas totalmente diferentes, absolutamente sóbrias e envergonhadas, a Bárbara falou por três horas ininterruptas, mas elas se deram muito bem. No fim, ficaram até 5h da manhã em Porto Alegre, depois pegaram o carro e foram até Osório, a Mari almoçou na casa da mãe da Bárbara e já conheceu a família no dia seguinte. (E sim, foi no aniversário do pai da Bárbara!) Por mais que todo esse início tenha sido rápido na interação familiar, o relacionamento mesmo foi sendo assumido aos poucos: enquanto se sentiam preparadas. Foi numa viagem em família para Itapema, em Santa Catarina, que a Bárbara pediu a Mari em namoro, no fim de junho (num nascer do sol com chuva). E em outubro surgiu o pedido de noivado. No começo, sentiam muito medo e tinham certeza que logo o relacionamento iria acabar, porque tudo era muito bom e acontecia de forma muito certa. A família da Bárbara ama a Mari e a acolheu muito bem, elas foram estabelecendo comunicação… tudo isso era muito novo, vinham de relacionamentos que não funcionavam assim, até que tudo foi firmando e elas entenderam que poderia ser real. Hoje em dia, a Mari e a Bárbara acreditam numa relação que transborde, que acrescente. A Mari investe diariamente no seu sonho de ser modelo, enquanto a Bárbara traz todo o apoio, e vice-versa nos momentos em que ela precisa de apoio para estudar para os concursos de musicista e se concentrar no seu objetivo de trabalhar com música. Entendem que não é nenhum pouco fácil estabelecer a comunicação na relação. São pessoas muito diferentes, a Mari é muito mais fechada, veio de uma criação que a fez independente no mundo, sempre se viu muito só e agora aprende diariamente a se abrir, a aceitar uma nova família, a ter amizades verdadeiras em Porto Alegre e a falar como se sente. Para ela, esses também são atos de amor diários: quando ela entende o quanto está se abrindo aos poucos. Quando recebe o carinho imenso dos familiares da Bárbara (que agora também são dela) e quando pode contar com os novos amigos. Bárbara, por fim, conta que ama muito. Não sabe definir como, mas entende que o amor que elas constróem consegue deixar todo o perrengue e toda a dificuldade leve. Ela ama o que vivem diariamente, mesmo sendo metódica dentro de casa. Ama o porquinho da índia (Caetano ♥) que cuidam juntas. Ama esse amor que faz sentido e que quer oficializar enquanto um casamento e uma família. ↓ rolar para baixo ↓ Mariana Bárbara
- Fernanda e Ana | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Conheci a Fernanda e a Ana Carolina um dia depois que elas oficializaram o namoro. Nos encontramos no Parque Lage, Rio de Janeiro. Por mais que assuste um namoro tão recente sendo já documentado, a história delas começou muito antes disso - e vocês entenderão no decorrer do texto. Fernanda, no momento da documentação, estava com 27 anos. Trabalha enquanto advogada e pesquisadora, está terminando o mestrado. É natural de Paracambi, reside lá com alguns familiares. Adora ir em shows, ouvir música, cozinhar, ler… Gosta de rever os amigos, tomar um café ou comer um lanche juntos, trocar ideias e fofocar. Brinca que tem alma de gente velha. Ana Carolina estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Campo Grande, no Rio de Janeiro, mas mora em Seropédica, baixada fluminense. Está finalizando a graduação em contabilidade e trabalha como assistente administrativa. Gosta de passar seu tempo livre assistindo séries, saindo com os amigos e consumindo conteúdos sobre gatos na internet. Nos encontrarmos no Parque Lage foi uma escolha especial porque há pouco tempo atrás Fernanda conheceu o local e prometeu que levaria Ana. Além disso, o parque é vizinho do Jardim Botânico, lugar onde ambas possuem muitas lembranças boas de suas infâncias com seus familiares. Fernanda conta que seu pai era fotógrafo e que passaram uma tarde lá fotografando. Ana, por sua vez, lembra das idas com a avó e tem até uma foto delas, no parque, tatuada. Entendem que essas são lembranças pessoais e muito importantes, agora, num local tão próximo, chegou a hora de criarem novas. Recomeçarem histórias. Para Ana, o amor é um complemento bom na vida. Entende que relacionamentos não resumem quem somos, mas que no momento em que você se dispõe a ser o seu melhor numa relação isso acaba refletindo em muitas outras coisas fora da vida romântica, sua vida reflete a disposição. Fernanda já viveu várias versões sobre o amor… Já acreditou no amor romântico, já viveu amores mais amplos, laços familiares e encantamentos com diversas relações. Explica que sempre se viu enquanto uma mulher insegura, não tinha muitos amigos e não achava que esse grande amor poderia realmente chegar. Nos últimos anos trabalhou isso e seus pensamentos acerca de amar, entender o amor como uma escolha, como um crescimento em conjunto. Acredita que são nas memórias criadas nas relações que vivemos (amorosas, mas não necessariamente entre casais) onde mora o carinho, os risos, as coisas boas. O amor entre mulheres, para Fernanda, é um ato político. Se sente acolhida, representada, aceita nos lugares quando enxerga esse amor. “É muito importante não termos medo de falar sobre isso com as pessoas. Estar com uma mulher agora, participar de um projeto como o .doc, se ver em fotos… é sobre se enxergar nesses espaços também, entender a diversidade e representatividade, ver pessoas em quem se inspirar”. A história da Ana e da Fernanda começa em 2016, quando Ana entrou na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e Fernanda já estudava lá. Eram cursos diferentes, mas haviam alguns amigos em comum e foi assim que, aos poucos, souberam da existência uma da outra. No decorrer do tempo, Ana se relacionou com uma amiga da Fernanda (que ouvia a amiga contando e torcia por elas), mas o relacionamento não vingou e elas acabaram perdendo o contato. Ana esbarrava com a Fernanda de vez em quando, porque Fernanda militava em um coletivo de mulheres bem presente na universidade, mas não conversavam. Esse foi o primeiro encontro-desencontro. Em 2019 apareceram uma na vida da outra de novo. Dessa vez, Fernanda tinha outra amiga, que estudava com Ana e essa amiga queria apresentá-las. Fernanda até disse que já conhecia a Ana, explicou um pouco da história, mas o encontro não rolou. Foi mais um desencontro. Com a chegada da pandemia de Covid-19, muitas relações começaram de forma online, com conversas enquanto estávamos cada um em sua casa. Fernanda conheceu uma pessoa, começou a conversar, e depois soube que a Ana também conversava com a mesma pessoa. Quando Ana soube da coincidência envolvendo a Fernanda, chegou a pensar: “Nossa, mas a Fernanda está em todo lugar, né? É onipresente!”. Como não se encontravam pessoalmente com a pessoa, Fernanda partiu para outra relação e em seguida começou a namorar. Foi mais um desencontro. Um tempo depois, Fernanda e Ana se viram em um aplicativo de relacionamento e conversaram por lá. Chegaram a cogitar sair para beber (um date descompromissado), mas nunca aconteceu. Outro desencontro. Foi só recentemente, em janeiro de 2024, que conseguiram se encontrar. Ana estava no LinkedIn e viu uma postagem da Fernanda, pensou: “Nossa, essa pessoa. Quanto tempo não vejo ela” e num misto de admirar o quanto a Fernanda é inteligente e interessante, surgiu uma paixonite. Decidiu puxar assunto no Instagram, Fernanda colocou ela nos “close friends”, começaram a interagir e surgiu o convite da Ana para saírem juntas. O encontro aconteceu em janeiro mesmo. Ana vivia o final de um relacionamento aberto e Fernanda acompanhou, conversavam sobre. No primeiro encontro, Ana estava muito nervosa, principalmente porque Fernanda iria dormir na casa dela… chegou a comprar café da manhã, uma caneca específica porque “Vai que as canecas lá de casa não servem pra ela” e esperou ansiosamente no portão. Parte desse nervosismo se dava ao fato de que Ana nunca havia se relacionado com uma mulher. É bissexual, mas seus últimos relacionamentos foram com homens, via isso enquanto algo muito novo. Tiveram um primeiro encontro leve. Conversaram, fofocaram, viram filmes, não tinham pretensão de se relacionar - até porque Fernanda havia desistido do amor e Ana ainda estava enrolada com seu outro relacionamento. Decidiram continuar se encontrando, Fernanda deu vários chocolates para a Ana, foram criando intimidade. Ana não esperava se relacionar em seguida, acredita que depois do término a pessoa precisa ficar sozinha para processar tudo, mas sente que ali foi diferente e que aos poucos foi embarcando nessa nova ideia. Começaram o mês achando que só seria mais um encontro, no meio do mês falavam que gostavam uma da outra e no final do mês já se sentiam apaixonadas. Trocavam pequenos presentes e cartinhas com declarações. Como a relação teve início em janeiro deste ano (2024), tudo foi acontecendo rápido. O pedido de namoro, um dia antes de nos encontrarmos, foi todo temático de gatinhos. Era para o pedido ter sido feito durante essas fotos, mas aconteceu quase sem querer: Fernanda chegou na casa da Ana e foi cumprimentar os amigos que dividem lar com ela, mostrou a caixinha cochichando, até que Ana chegou na hora. Não quis disfarçar, o pedido foi feito sem ensaios. ↓ rolar para baixo ↓ Ana Fernanda
- Natasha e Jéssica
Por mais que a história da Jéssica e da Natasha só tenha virado um registro no Documentadas depois de 6 meses de projeto no ar, ela chegou aqui lá no começo, antes mesmo de nos conhecermos, logo na segunda vez em que coloquei o corpo na rua e me dediquei a fotografar um casal: Quando a Rebecca e a Priscila, duas mulheres que já apareceram por aqui, me contaram empolgadas que havia uma história que eu precisava conhecer. Eu ouvi um “É tipo aquelas histórias de mulheres que tão juntas há muito tempo! Que a vida deu várias voltas. Elas se reencontraram e agora ela se mudou para Porto Alegre e se casou nesse reencontro! É a minha prima! Vou te passar o contato dela!” e bem que pensei “É possível! Eu vou passar por Porto Alegre em breve.” Quando encontrei a Natasha e a Jéssica em Porto Alegre e conheci toda a grandiosidade da história entendi que as mulheres realmente fazem tudo - e que a vida sempre dá uma forcinha quando quer nos juntar, né? A Natasha e a Jéssica se conheceram há muitos anos atrás, por conta de uma amiga em comum, quando eram adolescentes. A Jéssica é natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e a Natasha é natural do Rio de Janeiro, a capital. Ambas conversavam pela internet e participavam de comunidades no Orkut sobre gostos em comum, entre eles, uma série chamada Buffy. O que tinha de mais especial que unia a série é que elas já gostavam muito, até que em certo momento a série virou uma febre e aconteceu o surgimento de um casal LGBT, sendo uma referência muito grande para diversas adolescentes daquela época. Foi por conta desse casal, da série e das comunidades no Orkut e dos grupos no MSN que a Jéssica e a Natasha realmente se aproximaram, mas a Jéssica tinha uma visão de que a Natasha era meio “doidinha”... ela chegava das festas de madrugada e ficava online, era muito agitada… enquanto a Jéssica era mais tímida e mais quieta. A Jéssica se envolveu com uma amiga em comum da Natasha, um tempo depois elas terminaram e, como ela conversava muito com a Natasha, surgiu o convite de conhecer o Rio de Janeiro. Elas eram super jovens, tinham 18 anos e ela decidiu ir passar as férias por lá. Assim que se encontraram no aeroporto entenderam que havia algo diferente e, no fim das férias, já estavam namorando. Naquela época, sem a existência dos sinais de wi-fi ou internet móvel, o que restavam eram as contas de telefone - por sinal, caríssimas. Então acabaram assumindo o relacionamento à distância quando a Jéssica voltou até Porto Alegre e se encontravam cerca de três em três meses, dependendo das circunstâncias. Até 2009 o namoro aconteceu nessa distância, quando os pais da Natasha se mudaram para o interior fluminense e a Jéssica decidiu morar no Rio de Janeiro. Foi uma realidade bem diferente. Elas dividiram o apartamento, porém entendem que eram muito jovens, tinham 19/20 anos, eram bastante imaturas, trabalhavam como estagiárias, queriam ser independentes mas na verdade ganhavam pouco e os pais eram quem bancavam as contas da casa. Elas também construíam uma relação com bastante ciúme, então criavam desgastes e atritos que acabavam gerando desconfiança, era muito difícil suportar. Foi quando a Jéssica começou a se sentir sem liberdade dentro do relacionamento e entendeu que era o momento do término e voltou a morar em Porto Alegre. Hoje em dia, a Jéssica e a Natasha estão com 33 anos. Jéssica trabalha como administradora e logística na parte de planejamento de produção em uma empresa de laticínios e Natasha é formada em gestão financeira, mas atua na área de planejamento e controle orçamentário. Elas brincam que não são o tipo de casal que gosta de ficar em casa dormindo, mas aquele que ama viajar. Que cria roteiros, que quer comprar um carro e andar pelo mundo! Elas gostam de se movimentar, de conhecer lugares, desbravar a alimentação local, conhecer as culturas e viver cada lugar, cada ambiente e cada espaço como uma experiência única. Em um momento da conversa elas me contaram sobre se permitirem sonhar e sobre uma situação que viveram juntas quando eram mais novas… e que esse sonho não precisava ser um sonho grandioso, mas se permitir pensar no futuro, mesmo. A situação era um show da Ana Carolina que foram quando moravam juntas no Rio e que estavam naquela primeira fase do namoro, sendo bem jovens e se conhecendo… Contam que viram vários casais de mulheres mais velhas, elegantes, bem sucedidas e se perguntaram “Será que um dia vamos ser assim?” e que hoje em dia são. Além de se reconhecerem e de reconhecerem o quanto conquistaram juntas, falam sobre ter sido a primeira vez que viram mulheres lésbicas bem sucedidas, lésbicas mais velhas se amando. “Foi muito marcante porque era muito longe de nós essa realidade”. Depois do término, quando a Jéssica já estava em Porto Alegre, elas mantiveram contato e até tentaram voltar e seguir o relacionamento à distância. Durou alguns meses, mas acabaram terminando de vez, em comum acordo. Este foi o terceiro e último término (o primeiro foi lá no começo, por iniciativa da Natasha)... e dessa vez, como última, parecia ser definitivo. Ficaram 5 anos separadas. Viveram a vida, seguiram amigas, tiveram outro relacionamento, ou melhor, casamentos (!) e tal. Até que conversaram em 2016. A Natasha estava solteira e elas mantinham amizade e se falavam raramente nesses 5 anos, por mais que nunca tivessem se visto e não havia maldade, de verdade, era apenas um querer-bem. E num dia, no Rio de Janeiro, ao se arrumar para sair com a prima (a Rebeca!) a Natasha conversando sobre ex namoradas comentou que a única namorada que seria capaz de se ver voltando a ter um relacionamento seria a Jéssica, mas que isso jamais aconteceria, até porque a Jéssica estava “casadíssima”, vivendo outra vida, sendo feliz “lá no sul”. Não sei se por coincidência ou que nome vocês querem dar a isso, mas literalmente no dia seguinte a Natasha descobriu que a Jéssica terminou o relacionamento - quem contou foi a própria Jéssica, em uma mensagem toda sem jeito. Elas voltaram a conversar e a Jéssica tinha uma viagem marcada, mas cancelou e decidiu fazer uma ida até o Rio e São Paulo para não perder as férias. Preciso contar o resto? São Paulo que lute, né? Ela ficou foi pelo Rio mesmo, com a Natasha… mas nos últimos dias de férias aqui, decidiu: “Não quero voltar a morar no Rio. Dessa vez, se for para ficarmos juntas, você vai para Porto Alegre comigo”. E a Natasha? Aceitou na hora. A Jéssica disse que nem acreditou no que ouviu, nem esperava um “Sim” tão rápido! A mudança, de fato, aconteceu. E não só a mudança, mas o casamento! Que foi exatamente na mesma data, 10 anos depois, do dia em que começaram a namorar - lá em 2007. A vida é cíclica. ♥ No dia do casamento, elas se juntaram aos amigos e fizeram um churrasco. Inclusive, também neste dia a Natasha recebeu a notícia de que havia passado em uma entrevista de emprego lá em Porto Alegre. Foi tudo acontecendo em conjunto e elas foram se adaptando à cidade e ao novo momento da vida. Hoje em dia, se enxergam muito diferente do que há tantos anos atrás, mas em geral entendem que o amor só ficou tão forte porque sempre foi muito moldado com respeito e admiração - e claro, a confiança e o apoio foram chegando como um bônus e crescendo na base também. Elas brincam, no fim, sobre já terem ouvido colegas de trabalho falarem sobre não aguentarem mais os maridos dentro de casa em seus casamentos e acrescentam como amar mulher é algo maravilhoso: são mais de dez anos e nem passa pela cabeça um dia em que se torne insuportável viver um amor tão bom. ♥ Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Jéssica Natasha
- Juliana e Tercianne
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Juliana e da Tercianne, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Em um momento da conversa, falando sobre o lugar que estávamos, naquela praça, naquele espaço da cidade e sobre sermos mulheres, ouvi duas coisas que me marcaram muito e que acabei pensando depois que fui embora. Primeiro, a Terci, que por ser uma pessoa visivelmente mais tímida, disse que quando se relacionava com homens tinha vergonha de dar as mãos, de beijar em público, de ter atitudes românticas na rua… hoje se vê nesse papel porque acha que com a Ju é muito mais puro. O sentimento é praticamente ao contrário, ela faz questão de pegar na mão, de dar um abraço. Mesmo se ela não falasse, seria visível nos detalhes esses toques, porque é algo natural, o toque acontecia durante a conversa, era de fato puro. Logo depois que ela comentou isso, a Ju falou também que embora seja muito difícil a luta LGBT como um todo, chega um momento em que vale a pena expor o amor por quem você ama… e que mesmo que você coloque seu corpo na linha de frente por esse amor, o que literalmente nos acontece, enquanto vivemos no Brasil e muitas pessoas não escondem a LGBTfobia que possuem, nós precisamos seguir mostrando que está tudo bem amarmos e sermos amadas. Isso não quer dizer que não temos medo (temos, sim!) - inclusive a Terci escreveu uma música sobre isso depois que elas se encontraram numa praça (sobre ser um ato político, sobre ser uma luta) - elas andam com medo, às vezes receosas, principalmente quando cruzam com homens, mas entendem que é preciso o equilíbrio entre se cuidar e não baixar a cabeça e se esconder dentro de um armário. “Saber cuidar e cuidar dos nossos.” Por fim, trouxeram mais duas coisas. A Terci disse que logo pensou no filme Zootopia, que a coelha descobriu um lugar que ninguém ligava pra ela e que ela poderia viver tranquila. No fim, é esse o objetivo: que as pessoas olhem as diferenças e não pensem nisso como algo ruim. E a Ju traz a importância de, além de conversar com pessoas mais velhas, ser fundamental conversar também com as crianças e adolescentes, trazer diálogos de inclusão para os mais novos normalizando discussões de igualdade de gênero e inclusão social. Quando comentamos sobre a pandemia e sobre essa forma de se reinventar, a Ju falou que no começo do relacionamento tudo foi muito rápido, tudo se desenvolveu de forma involuntária. Com um mês elas já estavam muito próximas, praticamente namorando e a Ju frequentava a casa da Terci com uma frequência cotidiana por ser muito próxima à faculdade. Elas criaram uma rotina de cafés da manhã, ônibus, massagens no final do dia, feirinhas nos fins de semana, tapiocas de queijo com morango, parques, peças… tudo foi criando um tom. Hoje em dia, com a pandemia e a Terci voltando a morar com os pais dela, tudo fica diferente. Primeiro que é preciso estar em casa, segundo que o espaço em casa é outro, a privacidade é outra, o tempo é outro, sentimento é outro. São muitas readaptações. A sensação presente agora é que, por mais que estejam há mais de um ano e meio juntas, a pandemia faz com que todo dia seja uma novidade dentro de uma certa “mesmice” por conta de novas descobertas internas. Aprenderam que a Ju é mais explosiva, mais estressada, mais extrovertida… e que a Terci é ao contrário, mais quietinha, em outro tempo. Mas que também isso leva a outro contexto de conversa, de amor e de equilíbrio. Que as conversas voltam ao início da vontade de se conhecer e se encontrar de múltiplas formas. Aos poucos também entendem que estão construindo uma nova relação, com mais comunicação e com cuidado para não se magoar. Sempre tentam respeitar as limitações e redescobrir zonas de conforto, perceber o que representa o amor em suas essências, onde elas encontram ele nos seus detalhes e referências. Quando conversamos sobre o amor em seu estado puro, a Ju fala sobre amar e se apaixonar, então o “amar” ser o amadurecimento da paixão, fazer com que o calor exista, mas de forma mais concreta, mais efetiva, mais consistente. E a Terci completa “enxergando os defeitos e amando também, mas com cuidado, porque existe o amor que cuida, que quer o bem... e outro que prende, que toma posse”. A Tercianne adora música, ela se afastou um pouco por um tempo, mas depois que voltou à faculdade um professor conseguiu guiar e monitorar ela de volta. É um lugar que ela sempre quis estar, muito positivo e que se encontra muito com a Ju também. Antes de estudar teatro a Terci passou por um momento entre arquitetura e engenharia civil, ainda no Ceará, mas não se sentiu bem cursando. O pai estava estudando com ela e por já ser aposentado decidiu que apoiaria o curso que ela tivesse vontade de cursar. Ela descobriu a Casa de Artes de Laranjeiras (a CAL, no Rio) e falou que gostaria de estudar aqui, foi então que toda a família se mudou: ela, a mãe, o pai, os irmãos, os cachorros… todo mundo! E aqui estão até hoje. A Ju se vê muito na escrita dos sentimentos, nas crônicas… quando o teatro não dá conta ela abre um bloco de notas e se coloca a escrever. Desde sempre, sentiu mais resistência enquanto à vontade de ser artista, era algo que sabia. Ambas se consideram bissexuais e as famílias, hoje em dia, sabem e apoiam o relacionamento das duas - a Ju, inclusive, já foi até o Ceará com a Terci. Nem sempre foi um debate fácil a se encarar dentro de casa, o começo foi mais difícil e foram contando aos poucos para as pessoas, entendendo o contexto de cada situação. Mas no geral a família sente o quanto o relacionamento representa crescimento para ambas e fica feliz em ver essa mudança acontecendo de pertinho. A Juliana e a Tercianne se conheceram e se encontram entre muitas coisas em comum. Ambas estão com 22 anos, fazem faculdade de teatro, gostam de música, de cinema, de feirinhas... A Ju é natural do Rio de Janeiro, já a Terci é do Ceará. Elas se viram pela primeira vez quando a Ju fez uma peça interpretando uma personagem da qual a Tercianne já tinha interpretado no ano anterior. A Terci viu, se apaixonou, mas não conseguiu falar com ela logo depois do espetáculo porque precisava ir para o aeroporto pegar um voo para o nordeste, estava indo de volta para casa. Decidiu chamar a Ju no Instagram para elogiar e falar que gostou bastante da apresentação e então elas começaram a conversar. - Vou embarcar agora, mas depois continuamos a conversa. - Ah, quer continuar a conversa? vou achar que é um flerte! Foi a primeira vez que Terciane tinha mandado mensagem para uma menina dessa maneira e a Ju lançou a brincadeira, então acabou acontecendo e elas seguiram conversando (ou flertando!). Deu certo. Assim que a Terci voltou ao Rio de Janeiro decidiram se encontrar e assistiram o Rei Leão no cinema, foi tudo meio estranho, não sabiam se seria um encontro num tom mais romântico ou na amizade. Conversaram muito sobre a vida, depois ficaram, mas não sabiam dizer exatamente o que sentiam. No decorrer do que foram estabelecendo contato elas entenderem que o que queriam mesmo era se conhecer, por inteiro, saber quem eram e se encontrar no maior número de sentidos possíveis. Quanto mais se viam, conheciam os amigos, frequentavam os espaços em comum (a casa da Terci, a faculdade…), mais ouviam o quanto estavam diferentes (de um jeito ótimo, é claro!)… a Ju conta que logo no começo uma amiga da Terci contou que há tempos não via os olhinhos dela brilhando tanto como brilhavam agora. Aos poucos isso foi mostrando o quanto era real e recíproco. No show do Lagoon, a Ju pediu a Terci em namoro. E no dia seguinte, a Terci já tinha planejado tudo para pedir a Ju em namoro lá na faculdade, então pediu também. Foi uma troca justa! Tercianne Juliana
- Emily e Bibiana
Encontrei a Emily e a Bibiana em um fim de tarde próximo à orla do Guaíba, em Porto Alegre, há uns meses atras… foi durante um movimento inicial, em que elas estavam se permitindo sair na rua novamente para ver o pôr do sol (depois de todo o período de isolamento pandêmico) que elas toparam fazer parte do Documentadas. Sentamos na grama, numa área distante de onde a maioria das pessoas circulavam e conversamos por um tempo, nos conhecendo e compartilhando ideias. Ouvi o que elas pensavam sobre o amor, sobre as relações que as mulheres constroem juntas e, claro, sobre a relação que elas construíram em meio à pandemia. A Emily acredita que o amor é algo muito relacionado à aceitação, ou seja, que nem sempre a pessoa amada vai ser o que você espera, ou que os projetos que vocês desejaram vão ser exatamente o que vocês imaginaram, mas que o amor está nesse lugar de aceitar a realidade e de conseguir ser compassivo. O amor fala sobre conseguir ter compaixão pelas coisas, mesmo quando elas não são aquilo que desejamos. E que, até mesmo como um acréscimo, o amor entre mulheres surge enquanto uma vontade muito latente de construir algo, enquanto um projeto de vida, envolvendo casa, respeito, vontades… é literalmente uma construção conjunta. A Biba ouve ela falando tudo e a observa, depois complementa: ela entende o amor enquanto um apoio e um cuidado que está ali (não naturalmente, porque temos que cuidar, disponibilizar nosso tempo e nos dedicar, não podemos largá-lo… mas ele está ali). E entende a relação dela com a Emily enquanto duas mulheres que não soltam as mãos. Bibiana possui 35 anos, é funcionária pública, moradora de Porto Alegre e participa de coletivos e iniciativas LGBTs dentro do próprio Tribunal do Trabalho, entre comitês de equidade de raça, gênero e pessoas com deficiência, trabalho que desempenha com muito orgulho. Emily possui 29 anos, é redatora e trabalha com publicidade, além disso, também atua enquanto artista burlesca produzindo um sarau - o Sarau Pelado. O intuito do evento é que as pessoas se sintam à vontade para despir-se e estar nu, numa forma de aproximar cada pessoa com o próprio corpo, o ‘despir-se’ não é só de roupas, mas dos preconceitos que carregamos, e através de uma literatura mais íntima e de uma arte acolhedora poder deixar as pessoas à vontade para serem quem são. Elas acreditam que a cidade precisa da cultura para existir e que o acesso à cultura é algo básico e primordial, porém, mais que isso, falamos sobre o momento crítico em que estamos vivendo e quando pergunto sobre como elas enxergam à cidade e o que gostariam de mudar a primeira coisa que surge na resposta, sem titubear, é a vontade de que todas pessoas tenham acesso à moradia e alimentação. Parece ser algo simples, mas comentamos sobre a população em situação de rua em Porto Alegre ter crescido em números gritantes e a forma que a cidade muda aos poucos, a desigualdade cresce e nos sentimos paradas em meio à isso tudo, então elas comentam iniciativas que tentam ter em meio à pandemia para ajudar da forma que podem, ou seja, a conclusão é: no momento não tem como essa não ser a questão de direito e de mudança prioritária: acabar com a fome e ter moradia digna. As duas se conheceram através de um aplicativo de relacionamentos um tanto quanto famoso por aqui (né, Tinder?), no ano de 2019. Foi num encontro sem nenhuma pretensão que o verdadeiro “match!” aconteceu: o papo foi bom, elas se divertiram e curtiram bastante. Até que, no meio da noite, começou uma chuva muito forte - fazendo-as tomar aquele banho! - e por estarem perto da casa da Emily, ela chamou a Bibiana para entrar... a partir daí tudo fluiu. No começo da pandemia elas chegaram a morar juntas um tempo, porém sentiram necessidade de estarem cada uma em suas casas. Não existiu um motivo exato na volta, foi uma movimentação e uma decisão tranquila, muito mais sobre o espaço delas do que sobre a relação em si. E, quando perguntado sobre momentos difíceis que passaram juntas, elas pensam e chegam à conclusão que nenhum desentendimento pessoal foi (e tem sido) maior que viver (e sobreviver) a pandemia uma ao lado da outra. A pandemia ensinou muito sobre lidar com as nossas emoções e com os nossos sentimentos - para além de todos os problemas e incertezas que ela nos trouxe - então elas explicam que a Emily é a pessoa que quer lidar com os problemas na hora, quer resolver logo, enquanto a Bibiana prefere esperar e absorver tudo para depois conversar sobre as coisas. O desafio, entre elas, é estabelecer esse equilíbrio. Se apoiar entre as chateações diárias que os problemas externos nos trazem (a pandemia, a política, as incertezas) e tentar conversar sobre os internos (a relação em si). No mais, vivem dias relativamente tranquilos, entre beber, fumar na varanda do apartamento da Bibiana e passear nos fins de tarde na pracinha do bairro. ♥ Bibiana Emily
- Elis e Vandréa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Elis e da Vandréa, quando o projeto passou por São Paulo! Fui até a casa da Elis, da Vandréa, do Akin e da Aluá, num final de semana de junho em São Paulo. Quando cheguei, sendo recepcionada pelas crianças já contando histórias e mostrando as plantas, cômodos e coisas da casa, me deparei com a alegria contagiante do que iriam fazer aquele dia: balões e decorações para o Dia de São João, que comemoraram com uma grande festa junina. Tomamos um café e depois as fotos começaram, com todos muito empenhados na decoração. Akin e Aluá são crianças afro-indígenas, do povo Xukurus, assim como Elis e possuem muita clareza de pertencerem ao povo indígena. A família é encantada pelo carnaval, pela cultura popular, adoram os bichos e as simbologias. Estudam tupi guarani online, além de frequentar espaços culturais em São Paulo. Adoram acolher amigos e parentes em casa. Durante a nossa conversa, inclusive, contam que vão receber amigos do povo Pataxós que estão chegando para realizar um trabalho com as crianças na escola. Para Vandréa, o amor está nessa forma que o cotidiano se reinventa, nos detalhes desenhados, pintados (que inclusive representam os colegas deles cada um como um pássaro) no momento que cozinham as comidas que as crianças gostam, na forma que constroem o lar. Elis é natural de Recife, mora em São Paulo desde 2007. No momento da documentação, estava com 36 anos. Trabalha enquanto professora de educação infantil na rede pública da cidade e também desenvolveu um projeto sobre saberes ancestrais com os seus alunos, onde cada um leva a história da sua família. Elis fala sobre a xenofobia e o racismo que sofreu quando chegou e que por isso faz de tudo para que as crianças se sintam parte das suas culturas originárias e não se sintam excluídas na cidade. Assim, usam muito os grafismos, desenham, pintam as roupas, cozinham juntos e fazem esse resgate cultural. Vandréa é natural de São Paulo. No momento da documentação estava com 42 anos, trabalhando enquanto médica de família e comunidade, que acredita ser uma forma humana de olhar para a família. Trabalhou a maior parte da sua vida no SUS, hoje em dia está em um hospital privado. Akin e Aluá estão com 4 anos no momento da documentação. Possuem uma diferença de idade de alguns meses, sendo Akin nascido em outubro e Aluá em janeiro. Quando Elis e Vandréa se conheceram, ela trabalhava no terceiro setor com formação de professores na área de direitos humanos, nos eixos de formação de direitos sexuais e reprodutivos, políticas públicas de juventude, área de educação e gênero. Fazia um trabalho de acompanhar alguns estados, e não imaginava que Vandréa trabalhava com coisas semelhantes, também viajando e acompanhando estados. Chegaram a fazer viagens que envolviam amigos em comum, mas Elis viajou para trabalhos com indígenas e Vandréa para trabalhos com famílias ribeirinhas. Foi num aplicativo de relacionamentos que deram ‘match’, mas já tinham muitos amigos em comum por conta desses trabalhos. Sentem que cruzavam suas histórias o tempo todo, por estarem nos lugares com essas pessoas em comum, mas que ainda não tinham se esbarrado. Naquela época, Elis já estava em processo de adoção. Desejava adotar individualmente, vivia enquanto uma mulher solteira que sempre desejou a maternidade. Quando se encontraram pessoalmente e começaram a se apaixonar uma pela outra, Vandréa estava procurando um apartamento para se mudar e ao conhecer o prédio que a Elis morava, se encantou. Decidiu alugar um apartamento no mesmo local, então moravam em andares de distância. Mesmo morando no mesmo prédio, elas não se viam com a frequência que desejavam. Trabalhavam muito nas missões em comunidades quilombolas na Bahia, então começaram um relacionamento quase que à distância. Nessa época, já falavam muito sobre a maternidade. Elis decidiu encerrar o processo de adoção solo, uns meses depois elas marcaram uma consulta numa clínica de fertilização e decidiram morar no mesmo apartamento, já não fazia mais sentido os dois aluguéis mensais. Tiveram que lidar com a papelada na hora da gestação e entenderam a importância do casamento. Vandréa não queria só uma união estável, se fosse para estarem casadas, desejava uma festa e sentia que elas mereciam a celebração. Mesmo sem dinheiro, fizeram o evento acontecer e os amigos ajudaram em tudo - a festa aconteceu num terreiro de umbanda, os padrinhos eram os amigos em comum (que também trabalhavam com comunicação e fizeram as mídias do evento) e tudo foi organizado em 3 meses, de forma muito autónoma. A cerimônia aconteceu em 2017. Logo depois do casamento, as duas engravidaram. Vandréa não queria ceder, achava uma loucura a ideia das duas ficarem grávidas ao mesmo tempo, mas com o tempo se convenceu. Por nunca menstruarem juntas, ela faria o processo primeiro, depois a Elis. Quando finalmente menstruaram juntas, entenderam que era um sinal. Foi inclusive no aniversário da Vandréa que deram início ao processo que deu certo - as duas engravidaram. Um tempo depois, viajaram de férias e durante a viagem Elis teve um sangramento muito forte, perdendo o bebê. Foi um baque muito grande, a perda reviveu outros lutos que já teve na família, ficou muito mal. Era difícil viver a dicotomia do luto e da outra vida se gerando, as pessoas em geral não entendiam e sempre tentavam consolar dizendo ou que era muito pequeno, como se não fosse uma vida ainda, ou para valorizarem o bebê que estava na barriga da Vandréa. Elis não desistiu, tentou novamente (e por isso o Akin e a Aluá possuem o intervalo de idade). Conseguiu engravidar, eram gêmeos, mas um não se desenvolveu nessa nova gestação. Por fim, nasceu Aluá, e são muito gratas pelas gestações e pelos filhos maravilhosos que possuem hoje em dia. Elis enxerga o amor como o grande construtor do mundo que elas querem para os filhos. Seja na militância no trabalho, na vida, em tudo o que fazem tentando tornar o mundo melhor, é lá que o amor está. Deseja que as pessoas sejam mais humanitárias - e acredita ser esse o fator que aproximou elas desde o primeiro momento. Seus propósitos se unem, querem mudar as coisas na mesma proporção e sabem que podem contar uma com a outra. Nessa confiança está o partilhar das felicidades e das dores. Citam situações em que chegam do trabalho, falam o que aconteceu no dia, choram, riem, se indignam juntas. Compartilham sobre racismo, questões políticas, se movimentam. Elis explica que “A liberdade só é possível quando conseguimos abrir as asas sem ferir os outros” e que isso nem sempre é possível ou fácil. Aprende muito com as crianças e com o quanto elas estão dispostas a serem encantadoras. Por fim, entendem que o processo de educar é muito desafiador, como fazer com que não sejam machistas, racistas, que tenham respeito. Falam sobre o Akin ter cabelo grande, unha colorida, e preparam ele para enfrentar o machismo que vai existir da porta para fora de casa. Além disso, educar é também preparar os professores e a própria sociedade para lidar com a liberdade deles. ↓ rolar para baixo ↓
- Nayara e Jamyle
Nayara brinca que ela é um gato preto, enquanto Jamyle é um golden retriever, mas que mesmo assim elas se entendem, se amam e se respeitam nos seus limites, adorando a companhia uma da outra. Cada uma tem seu tempo: Nay ama ficar com os gatos, jogando seus jogos, enquanto Jamy às vezes prefere sair, fazer outras coisas… e que está tudo bem assim. Cada uma possui a sua liberdade de estar onde quer e quando quer. Tanto Nay, quanto Jamyle, estavam com 30 anos no momento da documentação. Jamyle é professora de inglês, natural de Porto Alegre (RS) e adora jogar board games, principalmente Magic. Ensinou Nayara o hobbie e agora elas jogam bastante juntas. Nay, por sua vez, nasceu em Campo Grande (MS) e mora em Porto Alegre desde 2011. É formada em direito, com mestrado em ciências sociais e seu hobbie, além dos jogos, é a leitura. Moram juntas num apartamento próximo ao Jardim Botânico de Porto Alegre, lugar que adoram frequentar. Contam que logo quando foram morar juntas viveram o ano mais difícil da relação, pois a Nay perdeu o emprego e ficou muito desestabilizada. Não conseguia outros trabalhos, nem estudar e muito menos passar em concursos, o que só aumentava a desmotivação. Jamyle acabou segurando as pontas em casa, mas não foi fácil lidar com a situação e principalmente com a culpa que Nay sentia. Quase um ano depois, tudo se reestruturou. Ficam muito felizes em terem superado isso, sobrevivido e se apoiado. A partir disso, se veem diferentes em relação aos sonhos e ao dia a dia em si, são muito transparentes: se algo acontece de ruim, seja na rua, no trabalho ou se ouvem algo preconceituoso, logo compartilham uma com a outra para se apoiar e enfrentar a situação. Reforçam juntas o quanto são maiores que qualquer atitude de preconceito que venha de fora. Em 2016, Nay estava aproveitando a vida de solteira e o verão, até que começaram as aulas na faculdade de Direito e uma colega numa conversa despretensiosa perguntou como estava a vida amorosa dela. Respondeu que estava bem, tranquila, na época vivia uma amizade colorida e era só. No mesmo dia, mais tarde, a amiga mandou uma mensagem no Facebook. Jamyle, naquela mesma época, estava vivendo a vida de solteira após um relacionamento à distância que não tinha dado certo. Sempre procurava pessoas pela internet porque não se sentia tão à vontade pessoalmente; Entrou num grupo lésbicas no Facebook e encontrou pessoas de Porto Alegre. Entre elas, umas meninas que estudavam na PUC-RS e a convidaram para ir até lá passar o dia com elas. Quando chegou, uma delas - a amiga em comum com a Nay - disse que tinha uma colega do Direito que usava umas camisetas iguais às dela: “Toda geek” (sim, a Nay) e queria apresentar as duas. No mesmo dia teve a conversa com a Nay e mandou a mensagem no Facebook, passando o contato da Jamyle. Elas começaram a conversar, marcaram de se encontrar no dia seguinte na Casa de Cultura Mario Quintana, ponto bem conhecido da cidade. Lá conversaram muito, contaram várias coisas da vida e demoraram para se beijar. Até que num desafio, o beijo aconteceu. Contam que foi um momento único, se encaixaram e foi um dia muito significativo. Continuaram se encontrando, mas Nay estava bem receosa sobre ficarem juntas. Sua experiência com relacionamentos sempre durava no máximo 6 meses, nunca tinha se visto namorando de fato alguém, numa relação longa e duradoura. Então, aos poucos Jamyle foi conquistando, mostrando que isso era possível. Presenteou-a com um Batman que ela mesmo fez, de massinha, logo nas primeiras semanas de relação, e logo em seguida Nay apresentou ela para a família. Até que decidiram realmente começar o relacionamento, junto com outra troca de presentes, uma caixinha simbolizando a abertura do amor. A criação da Nayara foi bem diferente da Jamyle. Passou sua infância frequentando a igreja, até completar 18 anos, além disso, viajou bastante, por conta do pai ser militar. Conta que seus pais continuam praticando a fé hoje em dia, mas não possuem problemas quanto à sua sexualidade e o relacionamento com a Jamyle, já passaram por muitas barreiras quanto a isso. O mais difícil foi o que viveu quando era criança/adolescente, por ter estudado em colégio militar e ter sido complexo lidar com o entendimento de quem ela era lá dentro. Enfrentou o preconceito, se entendeu, falou sobre suas paixões e, por mais que se aceitava e lidava bem consigo mesma, os colegas agiam de má fé o tempo todo. Sua irmã foi sua grande aliada no enfrentamento disso tudo. Jamyle, por sua vez, sempre entendeu que gostava de meninas. Andava com os meninos e pelo pouco que se fala sobre a possibilidade do amor entre mulheres, chegou a cogitar em alguns momentos, quando ainda era muito nova, a possibilidade de querer ser um homem. Na adolescência, namorou meninos e tinha uma meta na cabeça: namorar um ano para ao menos poder provar que tentou. Aos 19, conheceu uma menina na internet e ficou com ela pela primeira vez. Depois, pensou sobre o que sentia/como sentia e entendeu que de fato gostava de mulheres. Naquela época, uma tia se divorciou e assumiu sua sexualidade, o que a fez refletir muito sobre o que era passar 40 anos da sua vida vivendo algo que não te representa, que não é você. Foi então que decidiu se abrir e contar para a mãe sobre seu desejo e suas vontades. Ela reagiu bem, com um tom de quem sempre soube, porém toda menina que apresentava a mãe não gostava muito, achava algum defeito… mas foram fases. Até que chegou a fase que ela falava pra todo mundo que a filha era gay, achava o máximo. E agora realmente gosta do relacionamento com a Nay. Depois de passarem uns meses distantes e reclusas pelo início da pandemia de Covid-19, em 2020, começaram a falar sobre morarem juntas. Estavam bem estressadas e foi difícil lidar com a distância. Nay estava empregada e estável, Jamyle também, então a renda conseguiria bancar as contas. Começaram a procurar apartamentos e encontraram o que seguem morando até o momento da documentação. Fizeram uma confraternização apenas com a família para inaugurar a casa e ganhar alguns móveis e eletrodomésticos e ressaltam como foi muito bom contar com a rede de apoio, ainda mais naquele momento da pandemia. Como nem imaginavam viver os perrengues depois (Nay ficar sem emprego, por exemplo), foi essencial essa rede no início, sem a existência disso elas não teriam o básico na mudança da casa e foi o que fez com que vivessem com maior conforto. No começo do relacionamento, Jamyle não se dava muito bem com a primeira gatinha da Nay, mas hoje em dia elas se amam. Com o tempo, vieram os outros gatos. Alguns da Nay, outros da Jamyle e outros frutos de adoções da pandemia. Todos resgatados, hoje em dia são 5. Dentro de casa, amam ficar com eles, brincar e cuidar. Além disso, gostam de passar a tarde planejando coisas juntas, sejam os jogos, viagens… por mais que não necessariamente vão fazer, se permitem sonhar. ↓ rolar para baixo ↓ Jamyle Nayara
- Daniella e Flávia
A Daniella e a Flávia moram em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, e dividem a vida com suas duas bichinhas caninas. Entre suas rotinas, o que mais gostam é dos finais de semana (momento em que se encontram para passar juntas) e de sair para beber e comer com qualidade. Elas entendem que são pessoas muito diferentes nos jeitos, gostos e culturas, mas se encontram entre diversos caminhos. São pessoas muito ligadas à família e entendem o amor como uma demonstração nas pequenas atitudes: trazem o exemplo de que a Dani sempre bebe água antes de sair de casa e sabendo disso a Flávia já deixa um copo d’água preparado para ela não se atrasar. O amor que trocam fica entre as formas de cuidado com o lar, as cachorras, o corpo e/ou as ações que tomam diariamente. Dani explica que o amor sempre esteve presente em toda a sua vida: a educação que recebeu dos pais, a forma que se entrega no que acredita e o quanto deseja viver coisas boas com quem admira. Destaca o fato de que ela e a Flavia são opostas complementares, ou seja, estão ligadas uma à outra para trazer ensinamento. Com o relacionamento, aprendeu a amar outra mulher de um jeito diferente do qual estava acostumada. Dani tem 29 anos, é psicóloga e viajou do interior de São Paulo até Belo Horizonte para fazer mestrado, trabalhar com atendimentos e praticar sua militância. Hoje em dia, passou em um concurso e mora em Contagem, município vizinho da capital. Flavia tem 30 anos, é engenheira civil e também trabalha enquanto barbeira - conta que trabalhava muito nesse ramo, até abriu um salão na garagem de casa, mas que hoje em dia a demanda da engenharia é muito grande e acaba atendendo só quando sobra tempo. Ela nasceu em Belo Horizonte e mora até hoje no mesmo bairro e mesma casa; citam a diferença da trajetória dela e da Dani: a Dani morou em três estados, enquanto a Flavia nunca saiu do seu lar, fazendo com que tenha muitos amigos de infância e conheça cada vizinho da rua. Flavia comenta a importância das suas raízes nos bairros de Belo Horizonte, principalmente por ter se assumido em um momento muito diferente do que vemos: há 15 anos atrás era muito mais difícil ‘sair do armário’ e hoje fica feliz vendo meninas e meninos sendo quem são ao andar na rua, usando cabelos coloridos e falando abertamente sobre orientação sexual. Dani e Flavia se conheceram num momento de flexibilização da pandemia, por conta de terem amigas em comum. A Dani morava sozinha e recebia vez ou outra alguma amiga em casa e foi numa dessas vezes que a amiga postou um storie com ela. A Flavia viu o storie e começou a seguir a Dani, curtiu suas fotos e começaram a conversar pelo Instagram mesmo. Um tempo depois, Dani chamou Flavia para visitá-la, porém teve como resposta que elas deveriam convidar a amiga em comum também, já que Flavia não queria visitar sozinha. O jantar aconteceu, elas foram e levaram cervejas - depois de horas e horas de conversa o beijo finalmente surgiu, enquanto a amiga foi ao banheiro. Flavia comenta que iria embora sem beijar, porque é mais tímida e precisa de um certo tempo, enquanto na mesma hora Dani rebate: “Se ela não me beijasse naquele dia, certamente não nos veríamos mais”. Um tempo depois foi a vez de Dani ir até a casa da Flavia (que, inclusive, já tinha comprado um presente para ela na semana do seu aniversário). Se encontraram num sábado, durante um encontro que deveria ser rápido, e acabaram ficando até segunda-feira juntas - com a Dani conhecendo a mãe da Flavia e não querendo tomar banho na casa dela para não gastar água ou dar prejuízos - o que virou piada até hoje. Logo no começo da relação, enquanto ainda estavam se conhecendo, Dani conheceu a ex cunhada de Flavia e foi convidada para viajar ao Rio de Janeiro com elas porque precisavam resolver algumas coisas por lá, porém, enquanto estavam nesse momento inicial, Flavia teve um envolvimento com a sua ex. Elas entendiam que não namoravam - e Dani conversava muito sobre a não monogamia, mas esse fato veio como um baque, já que a Dani não esperava que acontecesse. Passaram por um momento de afastamento e de quebra de confianças, mas depois conversaram e decidiram: ou namoravam e construíam algo juntas, ou se separavam para não machucar uma à outra. Acabou acontecendo um fato isolado, do qual a Flavia sofreu um assalto enquanto trabalhava como motorista de aplicativo, e a primeira pessoa que ligou foi a Dani. Depois disso, se falavam frequentemente e entenderam que precisavam resolver seus traumas individuais para conseguirem ficar juntas - assim fizeram. Dani sentia amar Flavia e não queria abrir mão do relacionamento, então passaram por um período de conversas, cuidados e decidiram começar o namoro. A Flavia é a primeira namorada da Dani, então passaram juntas pelo momento de contar às famílias e tudo foi fluindo aos poucos - acreditam que fluiu bem, já que no primeiro natal passaram na casa da Dani com parte da família reunida e apoiando o que constroem juntas. Depois dos primeiros meses, adotaram a Teresa - uma vira-lata preta, já adulta, bastante animada e bagunceira. Flavia conta que percebia o quanto a Dani acabava ficando muito sozinha e adotar a cachorra foi inicialmente impulsionado por esse motivo (na época a Meg já existia, mas era a cachorrinha da Flavia há anos, então apenas visitava a Dani), depois da adoção entenderam que a Teresa representa muito mais que companhia, aprendem diariamente formas de amar com ela e se sentem muito mais felizes. Hoje em dia, viajam bastante para o interior de Minas e gostam de conhecer lugares novos. Entendem que podemos ser quem nós somos e não gostariam de entrar em caixinhas de padronizações sobre os nossos corpos para sermos mais respeitadas em sociedade. Comentam que sobretudo desejam a vontade de mudar a sociedade sob o medo da violência e, para o futuro, pretendem engravidar e formar uma família - mantém uma poupança para isso, pensam na possibilidade da inseminação e em não ter apenas um filho. [Boa sorte, gurias. ♥] ↓ rolar para baixo ↓ Daniella Flavia
- Jade e Laura | Documentadas
Jade, no momento da documentação, estava com 27 anos. É natural de São Paulo, da zona leste, mas hoje em dia mora próximo à USP para ficar perto da faculdade, da Laura e para economizar o tempo diário que levava no transporte público. Ela é jornalista, cursa mestrado e trabalha enquanto assessora de comunicação. Conta que passa o dia fora, trabalhando de forma presencial e tem uma rotina bastante atarefada. Na pandemia de Covid-19, trabalhava em casa e era bem diferente, então agora ela e Laura readaptam o cotidiano para aproveitar o novo lar e passar o maior tempo possível com a Marininha, gatinha de estimação - chegam em casa, tomam café juntas, conversam sobre o dia, assistem TV, aos finais de semana leem e Jade tenta praticar yoga. Laura, no momento da documentação, estava com 26 anos. É natural de Aragarças, em Goiás. Morou em Minas Gerais, numa cidade interiorana, onde começou a cursar publicidade, mas achou um pouco frustrante porque não tinha muitas oportunidades lá, até que conheceu uma professora que contou para ela sobre o curso de Educomunicação na USP e ela tentou a transferência, em 2019. Hoje em dia, ela trabalha com mídias sociais, numa rotina semelhante à Jade, a diferença é que tenta ir de bicicleta para fugir do transporte público, conta rindo. Ama assistir filmes, está cursando uma pós-graduação em audiovisual e gosta de passar tempo de qualidade em casa. Para elas, o amor é estar num lugar de segurança. Quando falam sobre isso, Jade lembra de uma situação que viveu em que foi assaltada e que a primeira pessoa que pensou em ligar/precisar falar foi a Laura, e que depois disso caiu a ficha: significa que ela é seu porto seguro. O amor significa uma ajuda diária, o ponto que deseja evolução, de querer ver crescer - e estar do lado nesse crescimento. Laura pontua que viveu cercada de muito machismo e que sempre faz de tudo para ver o dia delas sendo bom em conjunto: sempre cuidam da casa, dividem as tarefas, fazem questão de que as coisas não fiquem pesadas pra ninguém, deixam tudo confortável, cuidadoso, sabem que se não for assim, vai ficar pesado para uma pessoa só. Querem o espaço equilibrado e verdadeiramente seguro para o amor existir. Foi em 2019 que se conheceram, quando a Laura se mudou para São Paulo e começou o curso na USP. Jade também estava no curso, de início surgiu o interesse, mas ambas eram tímidas e não sabiam como demonstrar. Haviam amigos em comum, eventos, coletivos, então tentaram aproveitar essas brechas. Foi num dia em que Laura estava numa reunião do coletivo LGBT+ que viu Jade e pensou “Bom, ao menos bissexual ela é!” que a esperança começou a surgir. Pelo lado de Jade, ela viu uma publicação num grupo de Facebook em que os novos estudantes se apresentavam e falavam coisas básicas como nome, idade, signo, orientação sexual, se estava solteiro… e a Laura comentou. Ali ela já soube o que interessava. Entre maio e junho começaram a conversar e interagir mais, foram até no cinema assistir Toy Story, mas nada aconteceu. Até que surgiu um jantar na casa de um amigo - que até hoje acreditam ter sido uma marmelada, porque os amigos marcaram, mas ninguém deu as caras! - e só elas foram. Beberam muito, ouviram música, o anfitrião foi dormir e deixou elas na sala, se divertindo, até que demonstraram que tinham interesse uma na outra. Depois do primeiro beijo, ficaram juntas por alguns meses, mas Laura tinha acabado de se mudar e estava confusa com tudo ainda, conhecendo a cidade, não queria um relacionamento sério. Sentia que sua vida no interior era muito diferente do que experimentava na capital. Logo que optaram por não ter um relacionamento, a pandemia de Covid-19 começou, ela decidiu voltar para Goiás com a gata (Marininha) pelo fato das aulas terem parado e não ter motivos para continuar em São Paulo. Ficou um ano lá, mantiveram bastante contato online e contam que parecia até um web namoro. Em junho de 2021, as aulas estavam retomando e Laura decidiu voltar a morar em São Paulo. Chegou querendo muito reencontrar Jade, obviamente. Sentem que a vida estava muito estranha, era tudo bem diferente de 2019/2020. Primeiro que não existia mais aquela sensação de mudança/recém chegada na capital, segundo que a vida em si estava estranha, muitas pessoas morrendo, uma sensação de fim-de-mundo, e terceiro que elas estavam financeiramente estáveis, tinham seus trabalhos (diferente de 2019), o sentimento era outro - e estavam mais maduras para a sensação de querer estarem juntas, pensarem sobre um namoro. Se estabilizou na cidade novamente e em setembro começaram, de fato, a namorar. Jade tinha muito medo de pegar Covid, morava com a família e pegava transporte público diariamente, tinha medo de colocá-los em risco. Então decidiu procurar um lugar para morar próximo à Laura e à faculdade. Primeiro, moraram próximas mas em prédios separados. Depois, moraram no mesmo apartamento, mas em quartos separados, dividindo com outras pessoas. E agora, finalmente, conquistaram seu próprio lar, um lugar com a cara delas em todos os detalhes da decoração e muito espaço para a Marina ficar à vontade. No dia da documentação, inclusive, iria rolar um “chá de casa nova”, uma celebração para os familiares comemorarem a conquista e presentearem com ítens para a casa. Elas confessam que estavam bem ansiosas pelos presentes, queriam muito saber se iriam ganhar um aspirador (e ganharam! hahaha). Fazer a documentação nesse momento foi importante, também, porque a mudança em si foi muito caótica e viver momentos assim causam um certo apagão sob as coisas boas que vivemos, o caos se instaura e ficamos submersos até passar, então foi uma conversa importante para relembrar o trajeto até ali e ver os detalhes da casa sendo construídos. Por fim, em março a Jade pediu a Laura em casamento - e conta que está esperando o pedido de volta, porque para elas tudo acontece de forma igual. ↓ rolar para baixo ↓ Jade Laura
- Roberta e Alessandra | Documentadas
Amor de Família - Roberta e Alessandra clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Sharon e Vivi
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Sharon e da Vivi, quando o projeto passou por São Paulo. Por fim, falamos também sobre o futuro e sobre mudanças sociais que gostaríamos de enxergar. A Sharon trabalha atualmente em uma empresa própria que atua um pouco entre turismo e entre o meio corporativo… as empresas contratam a plataforma dela para premiar seus funcionários através de campanhas de venda/metas/aniversário de casa e os prêmios são bastante variados, mas antes da pandemia envolviam viagens, jantares, presentes, passeios de balão, etc. Ela enfrentou um baque muito grande na pandemia, precisou devolver a sede fixa, passar por muitos cortes, inclusive de funcionários, se reinventar muitas vezes de muitas formas. Hoje em dia se adaptaram para que os presentes sejam em casa (e ainda possuem alguns fora), mas reflete muito sobre como tudo precisou ser mudado e sobre como as mudanças vão demorar anos para nos restabelecerem. Ela fala também sobre a importância de ocupar espaços sendo quem somos, de dar as mãos em público, de falar com os filhos, estabelecer diálogos, abrir mentes. Sobre esse trabalho que acaba sendo um pouco de um a um, mas que traz representatividade e que vai mudando em comunidade quando o primeiro decide dar o passo. A Vivi também entra nesse assunto, mas com um ponto de vista da realidade que ela vive envolvendo a agroecologia. Fala sobre a importância da reforma agrária, sobre a quebra de acúmulo absurdo de capital que existe no mundo atual e traz um ponto muito importante: o de trazer mulheres pretas invertendo as coisas. Ela explica que é quem ela é pelas pessoas por quem ela passou, e que essas pessoas por quem ela passou não são brancas, por isso quer ver pessoas não brancas nos espaços de poder, nos espaços que ela frequenta, em todos os espaços que puderem ser possíveis estar. Acredita que só assim as coisas terão alguma chance efetiva de dar passos para frente. Da mesma forma, ela tenta ensinar tudo o que pode para a Rafa, porque acredita também que uma Rafa lá na frente vai fazer a diferença. “Pessoas reais ocupando espaços reais são o que, no dia a dia, faria reflexo”. Quando falamos de amor, a Vivi entende que o amor é você se permitir colocar no lugar do outro: de toda criatura. Seja pessoa, seja planta, seja bichinho. É se colocar e estar bem se colocando. Sentindo calor no peito, uma plenitude e um saciar, ou melhor, um transbordar. E por mais que não concorde, por mais que sofra, você não sente sozinha, porque o amor é social. A Sharon acha que o amor envolve nunca querer ver a pessoa que você gosta triste. Acho que no começo a gente interpreta essa frase de uma forma, mas é possível ler ela de inúmeras maneiras. Primeiro porque sempre fazemos de tudo pelas pessoas que a gente gosta, meio que sem explicações, não sabemos como explicar isso, mas a verdade é que fazemos porque gostamos. E aí entram nossas mães, filhos, amigas, pessoas amadas… E segundo porque entram situações como a dos filhos, por exemplo, que você precisa ensinar a frustrar, porque se você não ensinar, você não ama, e você ensina isso porque você quer ver ele bem. É quase que uma loucura, mas faz parte desse amor. É uma forma de sempre ir se desdobrando para chegar num objetivo final, que é sempre trazer coisas boas à pessoa que você gosta, e não deixar ela triste. Quando destinamos esse amar ao assunto de amar outra mulher falamos que o amar outra mulher é sensual - “porque é um afeto de mulher, é uma condição de mulher” - e é também se ver longe de muitos machismos. A Sha identifica a relação das duas como um encaixe, como algo que ela nunca teve com ninguém, ainda mais com um homem. Principalmente pelo cuidado, pelo apreço, pela comunicação… por algo que só a mulher saberia proporcionar. Citamos por um tempo a questão de quando uma mulher está em um dia que ela não quer ter relações sexuais, por exemplo, ela pode falar, que as duas vão arranjar algo para fazer juntas, uma comida gostosa, assistir um filme ou qualquer outra coisa, enquanto milhares de mulheres passam por relações de forma “obrigatória” por não conseguirem dizer que não querem ter uma relação sexual com um homem. Como pode isso ainda acontecer com tantas mulheres? E de que forma também as outras relações poderiam ter mais diálogo? Ou, de que forma que em relações heterossexuais normativas, por exemplo, os casais pudessem trabalhar melhores formas de escuta? Manter a casa e a família é um desafio muito grande e a casa surgiu em um momento de muito aperto também, foi logo depois que elas contaram para as crianças e quando a Sha ainda morava em um apartamento sozinha com os dois pequenos que houve uma tempestade em São Paulo e muitos pontos alagaram, inclusive este prédio em que ela morava. Foi uma situação de muita correria e desespero, porque a garagem inundou, tiveram que retirar as pessoas do local, a Vivi ajudou ela com as crianças e por conhecerem e terem contato com a vizinhança, a comunidade e o pessoal da escola, alguns conhecidos souberam do ocorrido e comentaram sobre uma casinha que estava ficando disponível porque os inquilinos estavam saindo do Brasil. Decidiram dar uma chance e fazer uma visita, talvez pudesse ser legal, estar em boas condições e ser um valor possível de pagar, então marcaram um horário. Quando chegaram, a primeira coisa que viram foi o portão amarelo e aí a Vivi reconheceu que justamente ali, o portão e a árvore de Ipê que ficava em frente à ele, foi ela quem plantou há anos atrás, quando foi convidada a vir ao bairro fazer parte de uma arborização. Tudo na história foi se encaixando perfeitamente e a casa coube direitinho nos planos: virou o lar. A relação dos quatro também foi uma construção de muito cuidado e muuuuuuuito afeto. Por mais que elas transbordem amor, a família paterna das crianças ainda é um tanto quanto homofóbica, então elas enxergam que na nossa sociedade existem lados muito opostos sobre as coisas. A Sha e a Vivi acabam falando mais sobre a Rafa, por conta dela ser maior e já entender melhor como tudo funciona e por apoiar e defender muito as duas na frente da família paterna, o quanto ela mesmo já reconhece as duas enquanto mães e a forma que em detalhes mostra o apoio, desde ouvindo músicas de cantores LGBTs até desenhando e pintando vários quadros de arco-íris pela casa. Tanto ela quanto o Raul entendem que o preconceito ainda existe no mundo, mas muito mais que isso entendem o amor deles pela Vivi, porque são apaixonados por ela. Quando ela está no sítio eles ficam doidos para que ela volte para São Paulo, sentem saudade, querem ela perto. E assim vão construindo suas rotinas e tendo suas vidas enquanto uma família. Eles a reconhecem e isso é o que importa. Aos poucos elas foram se encontrando e ficando realmente juntas. A Sharon, há um tempo atrás, já preparava os filhos em casa introduzindo assuntos como esse. A Rafa hoje em dia tem 12 anos e o Raul tem 7 anos, e ela sempre falou muito sobre diversidade, sobre as pessoas serem livres para amar quem elas sentirem atração, sobre as múltiplas lutas sociais e tudo o que nos envolve. Foi um passo muito importante assumir o relacionamento com a Vivi e também muito engraçado ouvi-las contando. Como eles eram bem mais novos, tudo ainda era uma incógnita e elas não sabiam como reagiriam. O fatídico dia realmente aconteceu logo depois do natal, quando as crianças foram passar a ceia na casa do pai, a Vivi foi até a casa da Sharon e deixou alguns bombons de FerreroRocher. Quando as crianças chegaram em casa, no dia seguinte, encontraram o presente e estranharam, porque a Sha não costuma comprar chocolates, então ela chegou e falou “vem cá! Senta aqui!” e em seguida “gente, é o seguinte! A mamãe tá namorando! E é uma menina!”. Ela conta a cara de surpresa em tom muito animado que a Rafa fez, enquanto ela completava “e foi ela quem deu esse bombom para vocês!”. E então eles piraram, ficaram animados, fizeram uma vídeo chamada com a Vivi, que já estava em Minas Gerais passando o Réveillon e marcaram de se conhecer pessoalmente assim que ela voltasse no início do ano. O encontro aconteceu e foi uma viagem, uma trilha que durou alguns dias. Foi incrível, em um lugar muito bonito. No primeiro dia envolveu um certo estranhamento das crianças sentindo que a mãe estava namorando alguém, mas no decorrer da viagem já estava todo mundo se divertindo e no último dia a Rafa deu uma flor de presente para a Vivi. Ela conta que pegaram ondas juntas e que todo mundo se divertiu muito. Hoje em dia todos moram na mesma casa, trocam muito e falam sobre a educação das crianças o tempo todo. A Sha conta que sente que as coisas aconteceram no momento certo, porque elas vivem uma maturidade única agora, e as crianças também. A Rafa entrando na adolescência com a presença das duas é muito importante, porque ela pode se sentir à vontade para compartilhar muitas coisas e a Vivi acolhe muito ela também, as duas possuem muita confiança uma na outra. Por mais que estejam juntas há um pouco mais de dois anos e meio, a Sharon e a Vivian se conhecem desde os 14 anos. Tudo começou quando a Vivi fazia capoeira com a irmã da Sha, dos 14 até os 17. Depois disso, por mais que as melhores amigas delas sempre se mantivessem em contato e elas sempre ouvissem falar uma da outra, elas seguiram a vida e não se viram mais. Cresceram, casaram, se mudaram e nunca se encontraram. Foram muitos anos depois, logo depois da separação da Vivi que ela decidiu sair de casa e ir até um samba encontrar as amigas e quando chegou lá viu a Sha. Importante contar que a Vivi, desde os 14, sempre se relacionou com mulheres, enquanto a Sha foi pelo outro lado: ela se relacionava com homens quando era mais nova, então se casou, engravidou, divorciou e depois ficou com a primeira mulher. Nessa época, ela já tinha tido algumas experiências e estava lá curtindo o samba. Elas brincam que não sabem o que aconteceu exatamente, mas estavam sentadas uma do lado da outra e a Vivi grudou a perna na perna da Sha. Foi um ímã. Ela colou a perna e a partir daí surgiu a possibilidade delas se beijarem. Quando o beijo rolou, todas as amigas comemoraram muito! Ou melhor, nem acreditavam! Imaginem só. Eram as melhores amigas de todas as amigas, juntas! E foi aquele beijo de levantar perninha, de seleção brasileira vibrar! Ter encontrado a Sharon e a Vivian foi uma das melhores surpresas que o Documentadas poderia ter recebido em sua primeira passagem por São Paulo. Por mais que toda história tenha sua carga gigantesca de importância e seu conteúdo único no nosso banco de registro e de dados, a Sha e a Vivi ocupam um espaço de reflexão e aprendizado grande não só no projeto, mas na vida e no dia de quem irá percorrer os olhos lendo e conhecendo suas histórias no texto a seguir. A Vivian tem 37 anos, é agrônoma e agricultora, trabalha diretamente na roça, em uma fazenda no triângulo mineiro. Vive entre Minas Gerais e São Paulo, lugar onde divide a casa com a Sharon, os filhos (a Rafa e o Raul) e as duas cachorras mais simpáticas da zona sul. Já a Sharon também tem 37 anos, mas ela é total São Paulo, por mais que ainda seja apaixonada pela natureza em todas as suas formas e jeitos. Ela trabalha em uma empresa própria, que atua em um ramo sobre premiação por experiências (no decorrer do texto falamos mais um pouquinho sobre!) e, além dos trabalhos, ela e a Vivi também fazem diversas atividades na luta política - arrecadam doações para as comunidades próximas, possuem ligações com as mulheres agrônomas do MST e a Vivi também é veiculada à um grupo de agroecologia em Uberlândia. Acredito que a casa delas, no meio da zona urbana e de tantos prédios em São Paulo, nos faz quebrar qualquer ideia pré estabelecida sobre a cidade cinza. É uma casa que, além de um portão amarelo e as paredes cheias de artes feitas pelas crianças, a alegria das cachorras e a animação natural do ambiente, conta com um terraço repleto de plantas, flores e pássaros que chegam livres, das árvores, para comer as frutas que elas colocam. São de muitas espécies, tamanhos e ficam muito dóceis por já estarem acostumados em ganharem as frutas. Foi neste ambiente que conversamos e nos conhecemos. Esqueçam barulhos de carros ou poluição e céu cinza, por ali só tivemos pôr do sol e muita cantoria ao vivo! ♥ Sharon Vivian
- Victória e Gabriela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Vick e da Gabi, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Durante o período em que se relacionaram à distância, faziam muitos planos sobre morar mais próximas. A Gabi chegou a tentar vestibular para Porto Alegre e a Vick queria muito vir para o Rio. Depois de formada, conseguiu passar para o mestrado na Fiocruz e a mudança finalmente aconteceu algumas semanas antes da pandemia. Passaram a quarentena juntinhas. Nessa história, a praia significa o lugar onde se conheceram, onde puderam ficar à vontade, onde fez a Vick tanto amar o Rio… é o lugar delas. Amam amar a praia, amar as coisas que fazem parte das suas histórias. Acreditam que o amor foi o que moveu tudo, o sentimento que transbordou. Além da praia, amam pular carnaval, cozinhar coisas do zero - fazer massas, cada detalhe de todas as receitas e depois beber com um bom vinho barato. Um tempo depois, por estarem juntas no Rio, a mãe da Gabi percebeu e não aceitou. Foi um momento bem conturbado, a Victória tinha muito medo de voltar a viajar e acabar só piorando a relação familiar da Gabi… e a Gabi pensava que talvez fosse melhor não estarem juntas porque seria ruim para a Vick ter que lidar com isso. Mas depois, quando conversaram, decidiram passar por isso juntas, enfrentando cada desafio lado a lado. A Victória tem 23 anos, é mestranda em epidemiologia e saúde pública e formada em veterinária. Gosta de fazer de tudo um pouco, bordar, pintar, tocar saxofone… se inspira muito na sua mãe, que é doutora em engenharia. Gabriela tem 26 anos, estuda biblioteconomia, adora design e tem a família toda envolvida em profissões aéreas, então fez curso de comissária de bordo e gosta muito de temas voltados à aviação. Gabi se inspira e se referencia muito na tia dela, que foi a primeira pessoa para quem contou sobre a sexualidade. Depois que a mãe da Gabi descobriu, elas passaram alguns meses sem conseguir se encontrar, era muito difícil ir para Porto Alegre e acabava indo só no seu aniversário, pois pedia a passagem de presente. Chegou a passar mais de dois anos sem ter muito convívio com a mãe. Há pouco tempo atrás as coisas foram mudando, quando a Vick já estava muito mais próxima, e foi convidada a jantar na casa delas. Passaram todo o verão juntas e até decidiram estender um pouco a viagem, pois entenderam que um sentimento estava sendo criado. Resolveram passar seus aniversários juntas: o da Vick, em março (do qual a Gabi iria para Porto Alegre) e o da Gabi em julho (do qual a Vick iria para o Rio de Janeiro). Acabou que cumpriram o acordo, a Gabi chegou em Porto Alegre no mês de março e foi ótimo. Já em julho, a Vick ficou um pouco insegura de ir. Elas não estavam conseguindo manter tanto contato de forma online e faltava pouco para a data, mas deu tudo certo! Ela chegou no Rio, passou dias turistando, conhecendo as praias e se sentiu apaixonada.... pelo Rio de Janeiro e pela Gabriela. Passaram todo o restante do ano conversando bastante de forma online e conseguiram se encontrar em outubro. Decidiram, aos poucos, sustentar esse relacionamento à distância. No verão de 2016, tudo já foi diferente, ao invés da Gabi ficar na casa dela, resolveu passar todo o tempo hospedada na casa da Victória. Passaram o início do carnaval juntas na Praia da Ferrugem e o fim do carnaval no Rio. Ambas queriam muito declarar o amor uma para a outra, mas estavam com medo de acabar estragando tudo, pelo fato da distância. Uma desconhecida, em meio ao carnaval, ajudou a declaração acontecer… e foi aí que elas verbalizaram o amor que sentiam. Essa história de amor mostra que o sonho de muitos relacionamentos à distância podem dar certo! Victória e Gabriela se conheceram durante um verão em Garopaba, interior de Santa Catarina, a Vick é da região metropolitana de Porto Alegre, mais especificamente, de Viamão. A Gabi é do Rio de Janeiro. A maior coincidência dessa história é que elas são vizinhas em Garopaba desde que nasceram, possuem os mesmos amigos, mas veraneiam com uma semana de diferença, então nunca se encontraram. Em 2014 a Gabi resolveu ficar mais um tempo em Garopaba e então acabaram se conhecendo. Logo de cara ela sentiu interesse pela Vick e meio que todos os amigos ficaram na expectativa do beijo, o que gerou certa pressão também. No segundo dia, elas se encontraram junto com os amigos para beber e ficaram, mas no dia seguinte a Gabi acabou voltando para o Rio e passaram todo o inverno sem se ver ou conversar. Em 2015 estavam lá novamente e dessa vez a Gabi decidiu ir na mesma semana que a Victória estaria. Elas se encontraram com os amigos, foram para um bar e depois de um tempo acabaram se beijando novamente - e brincam: “aí não nos desgrudamos mais”. < Victória Gabi
- Laiô e Íris | Documentadas
A história da Laiô e da Íris começou de maneira inesperada, conectando caminhos por meio das redes sociais. Íris mantinha uma página onde compartilhava reflexões sobre relacionamentos não-monogâmicos e experiências pessoais. Laiô, que estava em um momento de autodescoberta após o término de uma relação, passou a acompanhar esse conteúdo. Entre os conteúdos postados, chamava muita atenção a forma que a Íris se expressava, não inicialmente por interesse romântico ou flerte, mas por admiração genuína, curiosidade e vontade de aprender sobre esse novo ‘universo’. Mas, por mais que acompanhasse os conteúdos, Laiô nunca interagiu com a página. Algum tempo depois, Íris apareceu no perfil de Laiô, e ambas começaram a se seguir. Trocaram algumas mensagens e, entre essas interações, perceberam que tinham amigas em comum, iam em lugares em comum - e até outros lugares que Laiô nunca tinha conhecido, o que deixou ela muito intrigada, pensando “Como essa menina chegou aqui em tão pouco tempo e tem conhecido mais coisas que eu?”. Quando finalmente se esbarraram, em setembro de 2023, foi num samba em Itacaré, onde fizemos a documentação acontecer. Foi Íris quem reconheceu Laiô (e até checou no Instagram pra ver se era ela mesmo). Se apresentou, dançaram juntas, mas a interação foi breve. Dias depois, se esbarraram novamente num show que Laiô estava fazendo, dessa vez em Serra Grande, município próximo à Itacaré e local onde Íris morava. Foi lá que Íris sentiu algo diferente, pensou: “Que pessoa interessante”. Cerca de 15 ou 20 dias depois se esbarraram novamente, dessa vez em Salvador. Laiô estava na cidade para mais shows e Ísis ia para lá com frequência, mas não esperava encontrá-la. Foi a terceira coincidência e então decidiram: era hora de marcar um encontro intencional. Tomaram café da manhã juntas e ali começou a se desenhar uma história que parecia ter sido escrita pelo acaso – ou pelo destino. Íris estava com 32 anos no momento da documentação. É natural do Rio de Janeiro, mas, com apenas seis meses de idade, mudou-se para Salvador, onde viveu a maior parte da sua vida. Psicóloga de formação, dedica seu trabalho ao atendimento da comunidade LGBTQIAPN+ e às questões relacionadas à não-monogamia. Teve sua trajetória profissional transformada ao longo do tempo, principalmente quando começou a se reconhecer como uma pessoa LGBT. Esses aspectos foram se refletindo em sua prática clínica, até se tornarem o foco integral de seus atendimentos. Durante a pandemia de Covid-19, com a migração para o formato online, surgiu também o desejo de sair da cidade grande e buscar um estilo de vida mais tranquilo e conectado à natureza, decidiu passar um tempo na Chapada Diamantina, voltou à Salvador, viajou mais um pouco e, finalmente, decidiu se estabelecer em Serra Grande, na Bahia. Hoje, ela vive com Laiô em Ilhéus - uma escolha que inicialmente não fazia parte de seus planos, já que considerava Ilhéus grande demais para o estilo de vida que idealizava - mas a vida e o trabalho de Laiô faziam mais sentido na cidade, e assim encontraram um equilíbrio. Laiô, no momento da documentação, estava com 37 anos. Nasceu em Ilhéus e foi criada em Uruçuca, vindo de uma família de produtores rurais das fazendas de cacau. Essa mesma família, acolheu sua identidade artística e acredita plenamente na pessoa que ela se tornou, investindo na sua educação com o desejo de oferecer um futuro diferente. Hoje ela trabalha enquanto cantora e compositora. Entende que é através da arte que define a forma como se expressa no mundo. Foi em Itacaré o local onde ela se descobriu artista, cantando pela primeira vez. O início do romance entre Íris e Laiô aconteceu num ritmo diferente, entre viagens e deslocamento, no que elas apelidaram de “romance viajante”. Íris precisou dividir seu tempo entre Serra Grande, Salvador e a Paraíba, para dar suporte à família em um processo de luto. Tudo aconteceu logo nas primeiras semanas em que estavam juntas e foi nesse vai e vem que viveram um amor viajante, encaixando encontros entre as viagens, sem saber ao certo o quanto aquilo duraria. Seguiram os primeiros meses assim, até o início de 2024, quando perceberam que os sentimentos estavam se enraizando e intensificando. Laiô apresentou Ilhéus para Íris e os encontros começaram a ganhar um significado maior. Uma situação marcou esse momento: em março, a mãe de Laiô fazia aniversário no dia 9, mas Laiô tinha um show importante em Salvador no dia 8. A única forma de voltar em tempo seria de carro e Íris prontamente se ofereceu para dirigir entendendo a importância da relação de Laiô com a mãe. Foi nesse momento que ambas perceberam o quanto a parceria entre elas já tinha se fortalecido, transformando o que antes era um romance casual em algo mais sólido. Laiô pensou: “Essa não é qualquer pessoa”. O encontro das duas aconteceu em um momento de transformações pessoais para ambas, e essa vulnerabilidade criou uma base de acolhimento e parceria. Mesmo com pouco tempo juntas, já havia um grande cuidado uma com a outra. Nos momentos difíceis de Íris, Laiô enviava músicas e poesias, fortalecendo o vínculo por meio dos gestos afetuosos. E esses detalhes fortaleceram o vínculo que era recente e que não estava fisicamente próximo. No dia em que documentaram essa história, inclusive, estavam finalizando a mudança para o apartamento onde passariam a viver juntas. Conversamos sobre como a convivência traz desafios, as mudanças não são fáceis; mas destacaram a importância de respeitar os tempos e ritmos individuais, enfrentando os conflitos com leveza e comunicação. Dividir o lar, para elas, é um aprendizado constante – e uma forma de construir, juntas, um lugar seguro. Foi ajustando suas rotinas para aproveitar os momentos em que Laiô e Íris encontraram a melhor forma de se adequar à semana corrida, já que trabalham em horários opostos – Laiô à noite, Íris durante o dia. Valorizam muito os cafés da manhã, que se tornaram quase um ritual de conexão. Mesmo quando Iris tem atendimentos mais cedo, ela dá um jeito de sentar à mesa, entre um compromisso e outro, para compartilhar esse momento. É ali que conversam, trocam olhares e se equilibram, criando um espaço de calma e proximidade no meio das rotinas agitadas. Elas veem sua relação como um convite constante à reflexão e ao cuidado mútuo. Foi através desse encontro que aprenderam mais sobre a não-monogamia, a horizontalidade dos afetos e a importância do tempo de qualidade com quem amam - sejam familiares, amigos ou seus animais de estimação. Por mais que estejam apaixonadas e vivam a intensidade de uma relação jovem, entendem que é essencial valorizar a liberdade individual e os outros vínculos que cada uma tem. Esse amor, cuidadoso e maduro, desafia o discurso a ser vivido na prática, lembrando-as de nunca abandonar o cuidado e a atenção com as pessoas ao seu redor. No dia anterior à documentação, Laiô viveu uma situação que as fez refletir sobre os desafios ainda presentes na cidade em que vivem. Enquanto caminhavam pelo centro indo comprar coisas da mudança, de mãos dadas, um homem que passava com sua esposa e seu filho disse: “Não pode não, só pode homem com mulher.” Inicialmente, Laiô pensou ser uma brincadeira vindo de alguém que a conhecia, estava distraída conversando algo sério com a Íris e só percebeu uns passos à frente a seriedade do comentário. Apesar da vontade de reagir, sentiu medo e seguiu em frente. Mais tarde, ficou pensando: o que fazia aquele homem se sentir confortável em dizer algo assim? Por que o simples ato de caminhar de mãos dadas era visto como uma afronta? Onde ela está vendo menos amor entre as duas do que ali, na família dela? Elas só estavam andando na rua. Num calçadão cheio de gente. Elas desejam que o futuro traga mais coragem e menos medo - elas caminhando de mãos dadas conseguiram ofender mais que se um casal heterossexual-cis estivesse se beijando de forma vulgar. O desejo que fica é mais coragem para amar e viver livremente, um mundo onde expressar afeto não seja motivo de ofensa, um lugar onde não tenhamos medo. ↓ rolar para baixo ↓ Laiô Íris
- Alice e Glauci
Alice e Glauci moram em um apartamento super aconchegante em Porto Alegre, junto com suas cachorras, Pitanga e Amora. Elas estão juntas desde 2018 e se encontraram pela primeira vez lá mesmo, no apartamento, onde fizemos as fotos. São mulheres que gostam de cuidar da saúde (e aprenderam a gostar disso durante a pandemia). Trocam diversos estudos sobre diversidade, passam os fins de tarde no parque, saem para tomar cervejas, fazer a feira (e o rancho, como dizem os gaúchos) e sabem se divertir juntas: seja montando quebra-cabeças ou fazendo festa junina em casa. Além de todas as atividades que fazem por pura diversão, elas se comprometem todos os sábados com um trabalho voluntário de distribuição de marmitas às pessoas em situação de rua lá em Porto Alegre, o PF das Ruas (projeto que o doc, sem querer querendo, também já teve ligação ♥ então quem não conhece, vale muito conhecer!). A Alice tem 32 anos, é analista de experiência em um banco e nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde morou até os três anos de idade. Depois disso, passou a infância em uma cidade chamada Lagoa Vermelha, também no Rio Grande do Sul, e aos quinze anos se mudou para Porto Alegre para estudar. A Glauciene tem 26 anos, trabalha como Analista Digital/Customer Experience no mesmo banco que a Alice, mas em áreas diferentes, visto que uma atua no banco físico e outra no banco digital. A Glauci estuda ciências contábeis e a Alice faz pós graduação de MBA em Diversidade e Inclusão, sendo, inclusive, líder de Diversidade LGBT dentro do banco em que trabalha. Foi ocupando este espaço em que entendeu cada vez mais a importância de estudar e se aprimorar. Elas acreditam que as políticas públicas precisam ser direitos de todos, como diz a teoria e a constituição, de forma decente, e com cuidado: cuidar de todos desde a educação até o acesso à cidade. É o que mais desejariam ver acontecendo em todo o país. Alice fala o quanto ela sente medo e sente a falta de segurança atrapalhando o seu dia a dia, por não se sentir segura andando pelas ruas de Porto Alegre, e que sempre pensa em uma realidade diferente em que possa ter acesso a algo tão básico como sair na rua sem medo. Em 2018, foi numa breve conversa através de um aplicativo de relacionamentos (o famoso Tinder) que elas se conheceram. Digo breve porque logo a Glau sumiu, por meses não respondeu e a vida seguiu. Até que numa sexta-feira ela apareceu, mandou um “Oi”! E aí papo vai, papo vem, naquele mesmo dia Alice resolveu chamar ela para sair no dia seguinte, mas ela resolveu propor de se verem na sexta mesmo, um pouquinho mais tarde, se arrumavam e se encontravam. Alice já estava convicta de que ela sumiria de novo, até que o interfone tocou! Elas ficaram um tempo no apartamento dela e decidiram ir para uma festa, onde encontrariam uns amigos. A Glau deixou algumas coisas na casa da Alice e elas brincam que foi “propositalmente” para voltar lá depois, no fim da noite. O beijo demorou um pouco para sair, em vários momentos uma achou que a outra fosse tomar a iniciativa e ficou nesse vai-não-vai. Até que finalmente aconteceu. Depois de voltarem para a casa juntas continuaram se encontrando, a Glau passou as férias na casa da Alice e no ano novo juntas em Santa Catarina aconteceu um pedido de namoro, com piadas internas entre amigos para lembrarem das alianças e tudo. Elas contam que construir o relacionamento não é nenhum pouco fácil. Um dos momentos mais difíceis enfrentados aconteceu logo no começo, quando a avó da Alice faleceu. Era a comemoração de um mês juntas e foi um baque muito grande, muito intenso. Ao mesmo tempo que tudo era muito triste, foi também surpreendente ver a Glau tão forte ao lado dela, porque pessoas que conheciam a Alice há muitos anos não deram tanto apoio como ela recebeu da Glau, e isso significou muito, foi como um estalo sobre ela poder dar um verdadeiro voto de confiança. Elas contam também que o convívio por conta da idade não foi fácil, além disso, passaram por momentos de desemprego, a Alice chegou a trabalhar como Uber, a Glau já não se sentiu em casa e teve a casa enquanto um lar… todos esses momentos fizeram parte de construções em que foram cedendo para que continuassem firmes. É sempre uma conversa e escuta ativa para entender como podem melhorar, como o lar pode ser das duas, como as coisas podem ser melhores para ambas… e como elas podem estar em sincronia. Conversam muito sobre as questões que aparecem no dia a dia. Passaram momentos que as fizeram crescer muito, que hoje estão num patamar de muito amadurecimento e parceria… Mas não foi nenhum pouco fácil. Alice não é muito de falar o que está sentindo, já a Glau tem mais facilidade para falar sobre as coisas… tudo precisa ser medido, equilibrado. Por fim, elas contam que juntas entendem o amor como se conhecer de verdade. E quando o conhecimento acontece, ele já não dói mais, é quase que ao contrário… não ter essa pessoa na sua vida é que dói. Amar é também sempre buscar melhorar, para você, para o outro e para todos. Alice Glauci
- Joyce e Lorrayne | Documentadas
Amor de Casa - Joyce e Lorrayne clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Tamires e Agata
Meu encontro com a Tamires e a Ágata foi há cerca de um ano, mas a documentação está vindo ao ar só agora, por motivos de respeito ao tempo que precisaram para que a participação no Documentadas pudesse acontecer. Nos encontramos em Porto Alegre, na Ponte de Pedra, local que visitaram pela primeira vez juntas logo que a Ágata se mudou para morar com a Tamiris na cidade. Sentem que lá representa um momento da vida, próximo do apartamento que tiveram, um lugar para tomar sol, conversar, ver os cachorros passeando com seus donos e ficar de bobeira. No dia que nos vimos tivemos uma conversa que tocou em assuntos difíceis e delicados, e por isso precisou ser pausada. Tanto Ágata, quanto Tamires, são mulheres diagnosticadas com o espectro autista; por isso (mas não só) respeitar o espaço e o tempo para estarem prontas para contarem suas histórias oferecendo outras formas de conversa/entrevista (como a escrita, entre algumas trocas, que foi optado) acabou sendo a melhor maneira que encontramos. Hoje em dia, Tamiris entende que amor é aceitação radical mas não incondicional. Aceitar radicalmente serve tanto no amor-próprio quanto no amar outras pessoas, sendo família, amigos, romances… Aceitar quem você é de forma humana e aceitar seus erros, assim como aceitar seus acertos e potências. Amar de forma condicional é também entender nossos limites e respeitá-los. Ágata completa que o amor não se explica muito, entende a metáfora do coração quentinho/olho brilhando contextualizando o que sente como amor. No momento das fotos, Ágata e Tamiris estavam com 28 anos. Tamiris tinha acabado de se mudar para morar pela primeira vez sozinha e com isso aprendia diversas coisas novas - e na companhia da Ágata. Como aprender novas formas de limpeza, o que gostavam de fazer juntas e como criar uma rotina dentro de casa, por exemplo. Contam que gostavam de cozinhar, arrumar coisas, estudar, fofocar, ir em parques, explorar lojas, ver séries… Adoram o que nomearam de “Cultura de casal”, como assistir realities como MasterChef, realities de casais da Netflix, entre outros, além de caminhadas longas, idas ao mercado, assistir vídeos no YouTube, ir em cafés e experimentar comidas novas… Falam também sobre como é a vida depois de se entenderem enquanto pessoas autistas. Tudo era muito difícil antes do diagnóstico, eram apenas pessoas estranhas, não tinha muitos amigos e sentiam falta dos círculos sociais. Tamiris, por exemplo, possui uma sensibilidade sensorial alta por ser autista e possuir ansiedade generalizada, então se sente mais segura quando está acompanhada, não gosta muito de sair sozinha, mas tem se proposto a tentar esse exercício, principalmente durante o dia. Como falei no início do texto, essa história vem de um lugar um pouquinho diferente e envolve uma dor muito grande para elas, além de ter uma terceira pessoa que estava no começo e que elas não se sentem confortáveis em citar. Sabendo disso, vamos poupar falar sobre como elas se conheceram, para respeitar esse espaço, beleza?! O que é válido comentar por aqui é que por entender que queriam ser mais que amigas e por tudo o que tinham em comum, decidiram ficar juntas. Na época, moravam em estados diferentes, mas a infância/adolescência da Ágata foi construída a base de muitas mudanças então ela nunca viu isso como algo tão difícil, estava acostumada a viajar por aí. Costumam dizer que a relação se construiu à base de sorte e se mantém à base de comunicação. No começo, foi muito difícil entender como iriam se comunicar, tiveram muitos entraves por não entender a comunicação uma da outra, mas foram sendo honestas até conseguir encaixar um diálogo. Tamiris explica como no começo achavam incrível como tinham coisas em comum, desde serem lésbica menos femininas, até histórias de vida parecidas, descobrirem o autismo já adultas… mas ao longo do tempo - e com a convivência - as diferenças também ficarem evidentes. E aí entra a sorte, a comunicação, a disposição em fazer dar certo… Elas entendem que toda relação é feita de escolhas e também de escolher se vulnerabilizar, e que isso não é nenhum pouco fácil, mas que vale a pena quando acontece de forma honesta. Ágata explica que por ser mais fechada, se expor emocionalmente é um grande desafio que vem se tornando exercício - e cada vez ficando mais simples. Gosta do tempo que foram aprendendo a se comunicar de forma mais honesta sobre os temas difíceis e também ficando mais “fluente” no idioma uma da outra, mesmo que seja uma manutenção constante e fica muito feliz por saber que tem um ambiente seguro para ser quem ela sempre quis. ↓ rolar para baixo ↓ Tamiris Ágata
- Isadora e Isabelle
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isadora e da Isabela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A história da Isabelle e da Isadora parte de um ponto que elas fazem questão de justificar: não contam algo que já passaram, uma dificuldade já vivida, mas algo que estão vivendo - o processo intenso. Isa e Dora namoram há um tempo e travam uma luta para que as famílias as aceitem. Isa já era assumida à família desde 2017, mas viveu vários processos dos quais nunca foi completamente aceita. Ela conheceu a Dora durante a pandemia, depois de viver diversos momentos dos quais se obrigou a ficar com homens por aquela ideia de “Você só não conheceu o cara certo” e hoje em dia sente que a Dora é uma das coisas mais importantes e verdadeiras da sua vida. Isa faz questão de levar a Dora nas festas de família, contou para a mãe sobre a Dora logo no começo, quando a paixão estava se iniciando. A mãe respondeu com um imaginário popular tradicional da ‘família brasileira’: “Ela é lésbica? Tem cabelo verde?” porque insiste que, se a filha beija mulheres, precisa beijar apenas mulheres femininas. Já passou por várias fases, como aquela de tudo bem ela ser - desde que seja em silêncio, ou também a de que a família sente culpa como se tivesse errado em algo na criação, ou que só faz isso porque passa por algum processo depressivo e quer se culpar. Diante de muitos preconceitos vindos por ambas famílias, elas se firmam para o enfrentamento disso. Acreditam que o relacionamento que possuem é como um investimento, desejam isso para suas vidas. Isa, ao estudar física e já estar no mestrado, conta que sempre quis descobrir uma equação que mostrasse o sentido de tudo (do universo e de estarmos aqui), e no dia em que encontrou a Dora pela primeira vez entendeu. Hoje, diz que nenhuma fórmula matemática iria explicar o que ela estava sentindo ao ter a resposta do que procurava. Isa e Dora se conheceram por um aplicativo de relacionamentos. Naquela época, Dora baixou o Tinder para não se sentir sozinha, mesmo sem querer relacionamentos. Por conta de ter uma mãe bastante conservadora, não costuma sair muito, então conversar com alguém online seria a solução. Logo no primeiro instante de Tinder, encontrou a Isabelle. Foi um dia bem confuso por conta de mudanças na casa dela, mas conversaram e foram se aproximando. Mesmo morando próximas, numa área mais distante no Rio de Janeiro, elas não podiam se encontrar porque ambas famílias não aceitavam suas formas de ser, então marcaram um encontro em um museu, no centro da cidade. Passaram uma tarde incrível, contam o quanto já estavam apaixonadas. Voltaram para suas casas e no dia seguinte se encontraram de novo, dessa vez em Madureira, o local em que a Dora fazia um curso. Brincam que são bastante emocionadas, porque depois do primeiro encontro, não se desgrudaram. Como a Isa vivia um momento de tentar se envolver com homens antes de conhecer a Dora (do qual a família aplaudia) e a Dora não podia se assumir, começaram o relacionamento de forma escondida. Logo depois, Isa decidiu contar para a sua mãe, que acabou aceitando melhor a Dora por ela ser uma mulher feminina. Conta que sempre ouviu da mãe dela que ela precisava ser uma lésbica feminina, se quisesse beijar mulheres, e se relacionar com uma lésbica feminina também. Foi muito duro ouvir isso durante tanto tempo - e também levar a Dora pela primeira vez em casa, mas conta que hoje em dia a mãe dela acha que a Dora tem uma alegria, uma felicidade, e por isso ela foi a primeira mulher que a família mais ou menos aceitou e abraçou. Isa ressaltou o quanto é ruim você estar fazendo algo escondido por puro preconceito dos outros. É como se você estivesse fazendo algo errado, sendo invalidado. E não que a família precise validar, mas porque amamos nossas famílias e gostariamos de ser nós mesmas na frente de todos. Mesmo com os comentários horríveis, depois que assumiram o relacionamento na família da Isa ela passou a fazer questão de levar a Dora em todos os encontros. Acredita que só assim conseguem encarar: estando juntas. Aos poucos isso tem dado certo, já que a família vai aceitando e considerando a existência da Dora nos espaços. A vivência na casa da Isa também não é nenhum pouco fácil para a Dora. Por ser uma mulher muito tímida, acaba se sentindo num campo minado - cada passo que dá é analisado por alguém. Ela já tomou diversas iniciativas para dominar a timidez (falar em público, participar de concursos de dança, ser professora…) e na casa da família da Isa acaba se vendo muito posturada, tomando cuidado no que fala. Contam que não podem falar da religião da Dora, sendo de umbanda, na casa da Isa composta por pessoas muito católicas. Também contam que uma familiar se negava a cumprimentar e falar com a Dora, mas hoje em dia de tanto ela estar presente já a abraça e conversa. A Dora, por sua vez, vive um processo de sair do armário desde a adolescência. Ela sempre soube que gosta de mulheres - e no começo foi até difícil aceitar a si própria - mas ainda no ensino médio ficou com as primeiras mulheres e entendeu a sua forma de ser. Naquela época, sua mãe descobriu lendo mensagens no celular dela. De início ela tentou lutar, demarcando quem ela era, mas foi vencida pela mãe que cortou todos os seus meios de comunicação e não conseguiu sustentar. Passou anos ouvindo piadas e sendo limitada em diversos aspectos. Até ela se assumir de fato, recentemente, foi uma luta. Passou por psicólogas que eram evangélicas e contra LGBTs, levava as pessoas para casa alegando que eram só amigas, e não conseguia se imaginar falando sobre o relacionamento que possui com a Isa. Foi numa das idas da Isa até a sua casa que a Isa acabou ficando sozinha num cômodo e a mãe da Dora começou a interrogá-la. Vendo sua nítida ansiedade e nervosismo, seguiu a interrogação até que a Isa começasse a chorar. Então, a cada pergunta sobre a intimidade das duas e o silêncio da Isa, ela dizia: “Pergunta respondida.” Quando a Dora chegou, a mãe falou que já sabia tudo sobre elas. Foram momentos muito difíceis, enfrentaram xingamentos, brigas e medos, mas a Dora assumiu e falou: “Estou com a Isabelle”. Até hoje os pais da Dora odeiam a Isa e não permitem mencionar o nome dela na sua casa. Entendem que uma família só pode ser composta por um homem e uma mulher e, por isso, não aceitam e respeitam o que a Dora é. Dora acaba encarando sua mãe dizendo que pode ser expulsa de casa, mas não vai abrir mão do relacionamento. Hoje em dia a relação delas têm melhorado por uma certa teimosia da Dora em fazer dar certo - sai para encontrar a Isa e não dá valor ao preconceito que sofre. A maior dor, para a Dora, é não ver sua família reunida. Sempre cresceu em espaços com muita gente, churrasco e pagode. Queria muito ter uma família com a Isa presente - e também construir uma nova família com ela, mas por enquanto, morando com os pais, não vê possibilidade disso. Ela e a Isa pretendem morar juntas assim que ela for efetivada e tiverem mais estabilidade financeira, então guardam cada centavo (literalmente!) para a nova vida que há de chegar. Isabelle tem 23 anos no momento da documentação, é natural do Rio de Janeiro e cursa mestrado em inteligência artificial. Dora tem 22 anos no momento da documentação, também é natural do Rio de Janeiro e cursa arquitetura. Juntas, adoram ver filmes e provar fast foods - brincam inclusive que estão se tornando sommelier de fast food, porque compram, comem e dão notas. Também adoram filmes cults (e filmes cults ruins), passam o tempo jogando jogos no computador e amam conhecer novos lugares na companhia uma da outra. Hoje em dia, estão noivas e enxergam o noivado enquanto uma firmeza sobre quem são. Também é um álibi para que a família leve-as mais à sério e se sentem tratadas de forma muito mais respeitosa depois que assumiram o noivado. Isa entende que o amor é a única coisa que transcende o tempo e o espaço além da gravidade. E que, para além disso, o que têm com a Dora é um amor baseado em comunhão e disposição. Dora diz que o amor que sente é a resposta de todos os porquês. Entende que todo ser vivo é feito para amar alguma coisa - seja um leão com seus filhotes, um ser humano com seu par. Amar é seu refúgio, é onde vai quando está bem ou mal, e que também está no que sente de forma sensorial - os cheiros, os sons e o prazer de ser quem é. Por fim, elas desejam deixar o recado de que todas as mulheres possuem o direito de amar, independente do preconceito. Nenhuma mulher está sozinha. “Não se fechem para o amor”. ↓ rolar para baixo ↓ < Isabelle Isadora
- Bruna e Manô
Quando pergunto sobre o amor entre mulheres, Bru diz que sente o amor entre mulheres ser muito diferente que os demais relacionamentos na sociedade. Não só pelo cuidado e pelo respeito, mas sobre saber escutar, tentar e compartilhar as necessidades. Manô diz que o amor em geral, para ela, é ter segurança. É acolher e é sentir algo que te nutre para enfrentar outras coisas na vida. Além disso, o amor entre mulheres é uma força da natureza absurda. “Tem uma conexão absurda, são vivências diferentes, realidades diferentes, mas ao mesmo tempo vão se complementando e se identificando.” Ela conta que se encontrou enquanto pessoa quando começou a se relacionar com mulheres, e isso implica não só conexões românticas, mas relacionar-se com mulheres no dia a dia, no afeto, na amizade, no cuidado. Brinca que é uma conexão mística, uma sintonia e construção de relação diferente de qualquer outra. Falam sobre como é ocupar a rua enquanto uma mulher lésbica também, o medo que sentem por não performarem feminilidade “é como se agredissemos os olhos desses homens”. Ao mesmo tempo que muitas vezes vem um sentimento de só querer rebater o preconceito, em outros momentos se sentem muito fragilizadas. Bru comenta sobre o medo que sente com coisas que deveriam ser tão básicas, como usar um banheiro público, por conta da alta violência... e ambas entendem que as coisas só vão mudar realmente quando mulheres feministas ocuparem espaços de poder, porque a cidade é pensada por quem está ocupando esses espaços. Elas decidiram morar juntas há bastante tempo e a decisão surgiu pela facilidade de locomoção, apoio financeiro e melhoras no relacionamento. A Bruna morava mais distante do centro, numa casinha no terreno da família e Manô foi para lá também, não precisariam pagar aluguel, mas reformaram a casinha e deixaram mais confortável. Na pandemia, por alguns problemas familiares, a mãe dela passou a morar na casa também. O espaço foi ficando mais apertado, mesmo que elas tivessem acolhido a mãe e estabelecido algumas regras para a casa. Contudo, sabemos que não é fácil passar por tempos de pandemia, com todas dentro de casa, o dinheiro curto e sem perspectivas de melhora, então a questão da convivência foi ficando insustentável e elas decidiram sair de lá. Foram acolhidas por dois amigos num apartamento na Cidade Baixa, no centro de Porto Alegre. Ficaram na casa dos amigos por alguns meses, até conseguirem o apartamento em que estão morando agora. Hoje em dia dão muito valor à ele, cuidam bastante, contam como foi muito batalhado conseguirem achá-lo, se mudarem, decorarem com a carinha delas… esse espaço significa um lugar de empoderamento, em que ninguém pode falar nada para elas, é a zona de conforto, o lugar onde o preconceito não entra. Sabe aquela história de rebuceteio bem bem bem clássico? então, aqui temos. Bruna e Manô se conheceram porque ambas possuem uma ex em comum. Manô terminou com uma menina e Bruna começou a namorar a mesma, logo depois, mas elas (Bru e Manô) não se conheciam. Foram se conhecer pessoalmente quando trabalhavam em bares vizinhos e a Bruna, com seu grupo de amigos, vivia frequentando o bar que a Manô fazia uns trabalhos de vez em quando. Decidiram investir em um ‘acordo de paz’, já que, mesmo que ela fosse a atual da ex, não tinha motivo para não conversarem e gerar climão nesses momentos… então criaram uma amizade. Com o tempo, o relacionamento da Bru com a menina desandou consideravelmente, ela não se sentia bem, não estavam conseguindo se comunicar, conversar… uns dias se passaram e numa das saídas entre os bares vizinhos, ela e Manô sentiram algo. Ficaram em um dia, não foi nada combinado, mas na próxima vez que a Bru viu a menina resolveu terminar o relacionamento, não sentia mais motivos para seguir. Depois disso ela ficou com a Manô durante um tempo, meio que sem ninguém saber, até que no dia dos namorados (ou melhor, das namoradas), assumiram o novo namoro. Manô tem 25 anos, é psicóloga e ativista social/uma das coordenadoras da ONG Somos (um grupo situado em Porto Alegre (RS) que realiza ações transdisciplinares, tendo como base os direitos sexuais e direitos reprodutivos) e trabalha no SUS atendendo pessoas que vivem com doenças sexualmente transmissíveis e AIDS - um projeto que traz, através da psicologia, a importância do tratamento, incentivando os novos pacientes a participarem e resgatando os que, por algum motivo, abandonaram. Bruna tem 29 anos, é bartender e sempre trabalhou com bares e eventos. Fez diversos cursos, ama essa profissão. Hoje em dia descobriu também a gastronomia, uma nova paixão. Aprendeu a equilibrar a comida com os cocktails e durante a pandemia desenvolveu uma empresa para vender comidas veganas. Bru fala sobre o quanto pra gente ser ‘bem sucedida’ tem que dar muito mais corre, ainda mais ela enquanto uma mulher negra sapatão trabalhando em um dos melhores bares de Porto Alegre. Ela está sempre se superando, sempre batalhando, sempre melhorando expectativas. Enquanto a militância é o maior “hobbie” da Manô (viver entre reuniões e eventos), Bru conta que sua vivência sempre foi mais longe do movimento - e isso faz com que sua verdade seja o que ela vive diariamente nas ruas, nos lugares, fora dos meios acadêmicos. Manô fala sobre querer estar em espaços mais lésbicos, porém entende que muitas ONGs sempre são, em sua maioria, compostas por homens gays... e justamente por isso quer seguir ocupando esse espaço. Não quer que as mulheres fiquem em lugares mais afastados, mas sim que estejam debatendo e construindo o movimento LGBT como um todo. Manô Bruna
- Luma e Stefany
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luma e da Stefany, quando o projeto passou por São Paulo! Luma e Stefany foram documentadas um dia antes do chá de bebê do Joaquim acontecer, em Campinas, reunindo a família num tema de festa junina. Stefany estava com 29 semanas - quase entrando no oitavo mês de gestação - e o quartinho ainda era um grande estoque de fraldas. O nome Joaquim vem de uma homenagem ao bisavô da Luma. Dentre todos os grandes motivos que despertam o desejo da maternidade, Luma conta que um deles a faz se ver enquanto mãe de um jeito especial: se não fosse ela a dar seguimento, sua linha familiar iria acabar. Cogitaram a adoção, estudaram os tipos/métodos de fertilização e Luma acabou retirando os óvulos na clínica para fazerem a fertilização in vitro. Por mais que sejam rodeadas de mulheres - principalmente na família da Luma, que é composta pelas tias e avós bastante presentes - passam boa parte do tempo conversando sobre a importância de ter um filho homem e de como será educá-lo nessa sociedade. Stefany comenta que mesmo entendendo a existência do preconceito com elas enquanto duas mães, não é isso que ocupa seus pensamentos, já que o amor fala mais alto… O que realmente procuram focar é nas formas possíveis de educar um homem num mundo tão machista, os valores que pretendem ensinar e como querem que ele seja respeitoso. Em 2020 (pouco antes da pandemia de Covid-19 acontecer) Luma e Stefany se conheceram, por conta de amigos em comum, numa festa que Luma nem estava tão afim de ir, no carnaval. Elas já sabiam da existência uma da outra, porque tinham se esbarrado uma semana antes - e tinham interesse em comum - mas não se conheciam de fato. Naquele dia, Stefany passou mal, Luma cuidou dela um pouco, mas nada aconteceu. Na semana seguinte, se reencontraram, o beijo aconteceu e tiveram uma interação para além dos encontros rápidos anteriores. Porém, os dias se passaram e foram surpreendidas com o lockdown que trancou cada pessoa em sua casa nos fazendo não entender o que acontecia nas cidades e nos países por conta da pandemia. Nesse tempo, elas conversaram muito online, Ste teve que seguir trabalhando no hospital e compartilhava os medos, a falta de informação, tudo o que estava acontecendo. Foram se aproximando cada vez mais. O tempo foi passando e não conseguiam se encontrar por conta da pandemia. Luma morava no mesmo prédio que a avó, não tinha como sair e tinham muito medo, acabavam se vendo apenas por vídeo. Depois de algum tempo, resolveram arriscar: Luma ficava duas semanas sem contato com nada, saia, voltava e ficava mais duas semanas sem contato para depois ver a avó. Era uma saga toda vez que decidiam se ver. A avó entendeu que estavam gostando de verdade uma da outra e decidiu ficar na casa de outros familiares por alguns meses, assim, conseguiam se ver sem tanta dificuldade e ela não dependeria 100% da Luma. Foi em junho de 2020 que conseguiram ficar juntas pela primeira vez e em dezembro decidiram morar no mesmo lar - com muito medo de não dar certo - até que chegaram os cachorros, conseguiram um apartamento melhor e foi tudo se encaixando. No momento da documentação, Luma estava com 27 anos. É psicóloga, natural de Campinas. Stefany, no momento da documentação, estava com 30 anos. Trabalha enquanto enfermeira pediatra, nasceu em Ribeirão Preto, se mudou para Campinas por conta da residência médica e segue até hoje na cidade. Acreditam que a pandemia as uniu e desde então amam estar juntas, fazem praticamente tudo grudadas. Assistem séries, leem bastante, passeiam com os cachorros. Adoram a natureza e desejam levar seus hobbies para o Joaquim. Desde o começo do relacionamento conversavam sobre o desejo da maternidade, sobre adoção e como queriam formar uma família. Pensaram várias vezes na adoção, até que foram para a ideia da clínica, da Luma retirar os óvulos e estudaram melhor as possibilidades. Em 2022, Luma fez todos os exames, elas conseguiram pagar apenas o sêmem e o processo foi longo, durou 6 meses. Nesse meio tempo se mudaram, conseguiram comprar um apartamento, acharam uma receptora mas foi preciso muita paciência, na teoria tudo teria sido muito mais rápido. O telefonema da clínica veio um dia depois de uma gira de Erê (que representa as crianças na Umbanda) e são muito ligadas à fé. Sempre ouviam nas giras que a gravidez iria acontecer, mas era preciso esperar, estava vindo. A meta delas era engravidar em 2022 e a implantação do embrião foi no dia 30 de dezembro, passaram o ano novo em repouso, mas felizes porque mesmo no limite deu certo, com paciência. Luma entende que aprendeu a amar nesses processos e também com a família dela, a forma constante de apoio que elas (a avó e as tias) demonstram, sempre fazendo coisas umas pelas outras. “Uma base feminina muito forte e muito politizada”. A avó é muito forte, fugiu muito da questão tradicional. E brinca que a família, como apoiou tudo, sente que elas estão grávidas há anos pelo quanto dura o processo. Por isso, reforçam que precisamos procurar clínicas que saibam nos acolher. Quando falamos sobre o futuro que esperam para o Joaquim, começam comentando como é difícil viver num Brasil conservador porque o conservadorismo faz com que a pessoa não queira nem tentar mudar o pensamento: se fecha completamente numa ideia sólida de que só ela está certa, não permite a mudança. Comentam sobre o condomínio onde moram, cujo é muito grande, possui diversos blocos e moradores, mas que até então só sabiam da existência de mais uma ou duas mulheres lésbicas, além delas. Por conta disso, também, existe a importância de tomar esses espaços. Citam as bandeiras do Brasil que estavam nas janelas na última eleição e que depois da vitória do Presidente Lula elas decidiram colocar uma bandeira na janela representando suas ideologias também, deixando alguns dias, para que as pessoas soubessem que elas estão ali, num ato de comemoração e resistência. Na clínica, conhecem apenas um outro casal formado por duas mulheres, e citam como todo o material feito é muito voltado à casais heterossexuais. Acreditam no quanto ainda precisamos avançar para que mais casais tenham a chance de engravidar, querem ver mais mães, querem que o Joaquim tenha mais colegas com duas mães nas escolas. Contam também sobre uma situação específica que viveram no dia do casamento, em junho de 2021, quando a pandemia deu uma flexibilizada e elas completaram um ano de namoro. Casaram no dia das namoradas (sem lembrar que seria dia das namoradas), e por uma seleção do cartório mais próximo da região acabaram indo para um bairro classe média-alta. Estavam com muito medo de como seria a recepção, como as pessoas iriam reagir - o nervosismo estava maior perante o medo do preconceito que até sobre a situação do casamento em si. Quando chegaram, foram tão bem recepcionadas por uma mulher que não se sentiram nenhum pouco reprimidas e acabaram tendo uma experiência maravilhosa. Sentiram isso de forma muito empolgada, acolhedora, diferente. E desejam que todos os casais pudessem ter uma experiência assim. ↓ rolar para baixo ↓ Stefany Luma
- Clara e Karine | Documentadas
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- Rosa e Sara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Rosa e da Sara, quando o projeto passou pela Bahia!. Há anos, Sarah fala sobre amor nas redes sociais, rondando temas como autoestima, superação de relacionamentos tóxicos e abusivos, ou desintoxicação do romantismo. Porém, foi a partir de 2022, quando mesmo após 5 anos de namoro ela foi expulsa de casa, onde decidiu mudar o rumo do seu perfil: começou o próprio processo de cura. O público, vendo essa mudança, passou a querer ficar para acompanhar o que estava acontecendo com ela e a Rosa, sua companheira. Tudo girava em torno do que estavam vivendo - e a própria exposição da situação ajudou outras pessoas que se identificavam, vivendo suas próprias caminhadas. Mesmo que tenha sido muito difícil passar pelo o que passaram expondo suas dores, sentem que compartilhando dessa forma foi menos solitário. No momento em que nos encontramos, no começo de 2023 em Salvador, estavam morando no novo apartamento há cerca de 5 meses. Contam com um sorriso no rosto o quanto estava sendo incrivelmente bom, mesmo que pouco tivessem sonhado com isso, porque sentiam bastante medo pela convivência ser complicada, mas que aos poucos entenderam que na verdade amavam os momentos que passavam juntas no espaços que estavam. Hoje, acreditam que vivem em equilíbrio, que ambas contribuem para a limpeza da casa, que o lar está em harmonia e que fazem as coisas serem felizes estando dispostas: no querer crescer se vendo bem. Rosa estava com 26 anos no momento da documentação, é natural de Salvador e está se formando em Enfermagem na UFBA. Atualmente, ela trabalha enquanto funcionária pública. Sarah Cristina estava com 27 anos no momento da documentação. Ela é natural de Feira de Santana, cresceu em Alagoinhas, no interior da Bahia e mora em Salvador há cerca de 8 anos. Sarah se formou enquanto assistente social, mas dedica sua vida ao trabalho de digital influencer e deseja entrar no mestrado em breve. Sarah conta que tudo começou em 2015, numa página de Facebook chamada “Desintoxicação do Romantismo”. A página era para mulheres, sobre autoestima e superação de relacionamentos tóxicos/abusivos. Sarah falava sobre não monogamia numa época em que o assunto era um grande tabu e a página viralizava diversos conteúdos, chegou a mais de 300 mil seguidores, foi então que percebeu aquilo enquanto um trabalho que não ganhava dinheiro. Quando tudo migrou para o Instagram, os conteúdos também cresciam rápido e bombaram, mas o problema seguia o mesmo: não havia retorno financeiro. Vendo a crescente geração de influenciadoras, decidiu que precisava dar um rumo diferente. Foi quando, em 2020, começou a estudar como ganhar dinheiro com as redes sociais e entender seus próprios processos - perceber que ela não existia na página, que o rosto dela não aparecia, que as pessoas não conheciam ela, apenas o conteúdo postado… e decidiu mudar as coisas. Entendendo que tudo precisava mudar, a página Desintoxicação do Romantismo passou a ter o rosto da Sarah, conteúdos feitos pela Sarah e também o nome da Sarah. Entender que abrir a sua vida enquanto digital influencer falava sobre suas inseguranças também foi um grande desafio muito importante a ser enfrentado - que fala sobre a coragem nesse processo (coragem redobrada quando expôs a situação que estava vivendo com a Rosa em 2022). Foi em 2017 quando se conheceram e começaram a relação, Rosa era militante do DCE e liderança dos espaços da saúde da UFBA e num espaço de militância do MST conheceu a Sarah. Elas brincam sobre a Sarah estar o tempo todo de olho na Rosa, mas a Rosa sempre estar muito focada/ser muito responsável e nunca nem perceber que alguém jogava charme pra ela. O que não faziam ideia é que em outra situação a Rosa já tinha visto a Sarah andando pelo campus de tranças e já tinha se encantado por ela, mas no dia que se encontraram ela estava com o cabelo de black e na hora não reconheceu. Sarah conta que ficou paralisada na luz que Rosa tinha ao falar sorrindo, no jeito dela, e fazia de tudo para estar perto. Ela tentou ficar com a Rosa e não deu certo, mas não desistiu, colocou as camas lado a lado no alojamento e acabaram ficando, mas ainda com certo estranhamento, entre as demandas da militância, tudo parecia estar errado. Foi quando Sarah, no dia seguinte, sentou na cama e pensou “Quem me guia, se for para ficar com essa mulher, que ela apareça em 5 minutos, e aí vou conversar com ela!” e ela apareceu… Não só apareceu, como foi a única pessoa que entrou naquela sala durante um bom tempo. Elas conversaram, se acertaram, ficaram bem. Voltaram para Salvador e seguiram se encontrando, durante as férias conversando, e seguem juntas até hoje. Pensando sobre quando começaram a namorar, em 2017, entendem que a vivência era completamente diferente. Era muito frustrante não serem assumidas, sentiam muito medo. Rosa saiu do armário em 2019 e Sarah ainda sente muita dor por ser recente, por não ter contato com algumas pessoas da sua família. Dói muito, mas ainda é menos doloroso que esconder quem ela é e algo tão puro como amar alguém. Sarah acredita que o amor acontece de forma saudável, mas exige muito esforço, não é algo fácil e precisa ser diário, pensando o tempo todo em comunicação. Para alugar o apartamento enfrentaram diversas situações, entre preconceitos e medos. E isso talvez reforce a valorização que dão diariamente nesse novo lar. Sobre a vida que vivem hoje em dia, Sarah conta que não queria pensar onde dar as mãos, não queria sofrer tanto racismo enquanto andam juntas (e também separadas). Hoje em dia não se sentem confortável enquanto um casal em todos os espaços e queria muito sentir. Queriam ser afetuosas nos espaços, nos bares, na rua, porque amam estar na rua e desejam ser quem são. Quando olham o caminho que já percorreram até aqui percebem como foi muito difícil começar a dar as mãos nos espaços públicos e foi preciso muita terapia para entender que poderiam dar as mãos, havia muito medo de serem atacadas fisicamente ou verbalmente… e ainda há medo, até mesmo dos olhares, mas o desejo de viver livremente sendo respeitadas precisa ser maior que o medo. Alguns dias depois do nosso encontro elas viveriam o primeiro carnaval juntas e estavam ansiosas para isso, o primeiro carnaval, mesmo em tantos anos de namoro, que estariam assumidas. É um misto de muito felizes, com medo, tristes pelo medo, mas se permitindo estarem felizes. No tempo livre, Sarah e Rosa adoram ir a praia, ao cinema, cozinham juntas - uma fica responsável pelo doce, outra pelo salgado, e estão aprendendo a sair juntas (coisas que não aconteciam antes) - uma novidade que está sendo muito legal! Elas também amam os pequenos afetos, os carinhos e valorizam os momentos juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Sara Rosa
- Yasmin e Juliana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Yasmin e da Juliana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A história da Juliana e da Yasmin te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D O momento mais difícil que passaram juntas foi a chegada da pandemia, porque elas tinham uma realidade bem diferente em 2019, muito mais aberta e com maior liberdade aos encontros. Com a chegada da quarentena decorrente do Covid-19, elas passaram MUITO tempo distante, muito mesmo! Foram um total de 7 meses. A pandemia causou muito pânico na Ju porque toda a família dela se encaixa em grupos de risco e ela sentia muito medo de que algo pudesse acontecer com eles. Ainda sente, é claro, mas o risco estava maior por conta da avó dela, com mais de 90 anos, estar morando com ela. Não tinha a possibilidade dela sair de casa e, por mais que a Yas estivesse com muitas saudades, ela realmente entendia a situação. A relação delas é baseada em muita conversa. Elas se apoiam bastante e conversam sobre tudo, dialogam sobre o que sentem. Hoje em dia elas conseguem se encontrar, a avó dela já não está mais residindo no Rio e elas seguem se cuidando bastante, mas conseguem se ver com maior frequência. A Yas comenta que foi como um relacionamento à distância estando na mesma cidade e elas brincam que mesmo tendo sobrevivido, não querem passar pela experiência novamente. Hoje em dia elas dão muito valor aos momentos juntas, desde que seja assistindo filmes bobos de clichês adolescentes, ouvindo todos os tipos de músicas ou deitadas na cama sem fazer nada, desde que estejam fisicamente no mesmo lugar. Foi no centro, inclusive, que elas se conheceram - em um encontro marcado através de um aplicativo de relacionamentos - o famoso Tinder. Elas não entendem até hoje como conseguiram dar “match” (o famoso combinar perfis), por conta de morarem muito distantes uma da outra e não colocarem uma localização que alcançasse tudo isso, mas conversaram, se deram bem e marcaram de se encontrar. O encontro rolou em um local também muito clássico de encontros de Tinder, o CCBB, um Centro Cultural. Porém, chegando lá, enfrentaram uma fila muito grande, desistiram e decidiram ir até a Escadaria Selarón (o local em que fizemos as fotos), um lugar que costumava acontecer rodas de samba, ter feirantes e bastante movimentação. Yasmin tem 23 anos, trabalha com telemarketing e mora em Bangu. Tem como referência familiar a mãe e é suuuuper tímida. A Juliana tem 22 anos, é professora de inglês e também trabalha corrigindo redações, ela estuda Letras - português/inglês e ama literatura. No dia do encontro, foi desenvolvendo o papo e com o apoio de várias cervejas&caipirinhas que a coisa foi fluindo, até que ficaram e a Ju chamou a Yas para ir até a casa dela (lá no Cordovil). Só que tinha dois detalhes importantes: 1. a Yas não sabia onde esse bairro ficava e 2. a Ju morava com os pais, que não sabiam que ela beijava mulheres. Descartando totalmente a importância desses dois detalhes (afinal, quem nunca?) (mas não façam isso, tá? saibam o local que vocês estão indo, principalmente no primeiro encontro!), a Yasmin acabou indo para a casa da Ju e chegando lá deu de cara com os pais dela. Foi tudo tranquilo (para todos, menos pra Yas, visto que ela realmente é bastante tímida), mas ela se passou pela amiga que morava longe e dormiu lá tranquilamente. Com o passar dos dias elas se encontraram mais uma vez, em Madureira, e assim foram amadurecendo a ideia de terem um interesse mútuo, se relacionarem, até que isso virou de fato um relacionamento, ainda em 2019. Hoje em dia, ambas famílias já sabem e as apoiam enquanto um casal, ficou tudo muito mais tranquilo! ♥ A Yasmin e a Juliana acreditam que amar é tentar, ao máximo, não ter medo. Entendem que na vida a gente sente medo, mas que o amor envolve também se permitir sentir esse medo. A Yas comenta que entendeu mesmo o que era amor quando se apaixonou pela primeira vez por uma menina, que sentiu esse nervoso no peito, esse brilho no olho. E hoje em dia ela ama amar a Ju e cultivar esse relacionamento. As duas são cariocas e sempre viveram no Rio, mas moravam em bairros um tanto distantes do centro quando se conheceram - a Yasmin em Bangu e a Juliana no Cordovil (e distantes entre si também). Elas comentam o quanto é diferente andar no centro da cidade e em seus bairros enquanto duas mulheres que se relacionam afetivamente com outras mulheres, recebem outros olhares, possuem outro tratamento. Elas gostam muito do centro e frequentavam bastante antes da pandemia, aqui sentiam a vida mais aberta a novas oportunidades. Yasmin Juliana
- Joana e Luciana
A Luciana e a Joana são de Fortaleza, capital do Ceará, mas já moraram em lugares diferentes do Brasil e hoje em dia voltaram para Fortaleza para o nascimento da Maria Flor, a criança mais comunicativa, espontânea e engraçada que o Documentadas poderia ter o prazer de documentar. ♥ Lu tem 37 anos, é médica ginecologista e obstetra, responsável por trazer muuuuuitos bebês para esse mundo e deixar muitas mamães seguras na hora do parto. Além da vida profissional incrivelmente disputada, ela é uma mulher que se preocupa em fazer do mundo um lugar melhor em cada detalhe - trata tudo com muito acolhimento, é carinhosa, tem um sorrisão e esteve o tempo todo muito aberta a encaixar o encontro com o Documentadas no meio da rotina de plantões, maternidade e compromissos diários. Joana tem 41 anos, é artista visual e arquiteta. A Jô trabalha tanto para produtoras de Fortaleza e São Paulo (fazendo instalações efêmeras, cenários, conceitos e conteúdos visuais), quanto sendo artista independente, tendo seu próprio escritório e seus projetos autorais enquanto produtora de arte. Nos encontramos no seu ateliê, lugar onde todas ficamos à vontade (principalmente a Flor, que se diverte muito entre as cores e as expressões artísticas) e é muito legal ver como os trabalhos da Joana são diversos e o quanto conseguem conversar entre si. Além das suas profissões e da correria do cotidiano, elas amam passar o dia se divertindo com o crescimento da Flor, dando espaço para ela explorar as coisas e nas folgas gostam muito de plantar (estão construindo jardins durante a pandemia), viajar (colocar tudo no carro, bagunçar e ir para algum lugar!) conhecer cachoeiras e praias. Além disso, contam que amam cozinhar juntas e que, ao plantar jardins, começaram um projeto sobre o lixo no lugar em que moram, mobilizando os outros moradores do bairro sobre sustentabilidade - usando a arte da Jô nessa conscientização. O encontro da Lu e da Jô aconteceu como uma “paixão à segunda vista”, porque já eram amigas há muitos anos. A Joana teve um relacionamento longo com uma amiga de infância da Luciana e elas se conheciam desde então, mas cada uma vivia seu relacionamento e nunca se olharam de forma diferente. O tempo passou, elas terminaram seus relacionamentos em momentos diferentes, passaram períodos solteiras e, depois de um tempo, se reaproximaram - surgindo assim, pela primeira vez, um olhar de interesse. Por um certo receio de suspeitarem de uma traição ou de algo que viesse de antes, visto que de fato se conheciam há muitos anos, elas demoraram quase 1 ano para conseguir oficializar ou assumir esse relacionamento para o grupo de amigas em comum, mas deu tudo certo! Começaram a namorar em 2013 e, como as duas já tinham tido relacionamentos longos o suficientes e decepções amorosas longas o suficientes também, sentaram e conversaram de maneira franca e madura sobre o que desejavam nessa relação: seus medos, seus sonhos, seus desejos e suas inseguranças. Elas dizem que de certa forma foi tudo até rápido - porque em 2015 elas estavam se casando. A Lu passou em uma residência médica lá em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, no mesmo momento em que a organização do casamento estava no auge, então elas combinaram assim: a Joana ia dar um jeito na organização e na decoração e a Lu ia para Ribeirão organizar as coisas da residência e dos estudos. Foi corrido, mas deu certo! A família da Luciana sempre apoiou e sempre admirou a forma que ela lutou pela liberdade e pelo direito de ser quem ela é e de amar quem ela quiser amar. Já a família da Joana, de alguma forma dava apoio à quem ela era enquanto mulher que amava outra mulher, mas no momento do casamento não entendia o porquê daquilo, por qual motivo precisava mostrar aquilo, fazer uma festa assim… Ela insistiu e a festa aconteceu. Mas não só pela festa, pela importância de assinar um documento, de comemorar sim o amor, de celebrar o nosso amor e de ter um documento que nos prove enquanto um casal e que lutamos tanto para ter direito (a algo tão burocrático). Não só aconteceu, como foi incrível! O casamento teve ajuda de vários amigos que doaram um pouquinho de cada coisa para elas - e cada pessoa que estava lá, realmente queria estar. Todos estavam muito felizes, torciam muito pelo amor das duas. Foi um dia muito forte e emocionante, com um pôr do sol maravilhoso. Elas contam que todos que estavam presentes sempre falam de como aquele dia vibrou, que sentiam uma vibração muito forte. E que, no meio da cerimônia, se abriu um arco-íris gigante na praia. ♥ Depois do casamento, as duas se mudaram para São Paulo e então começaram uma vida totalmente nova por lá. Fizeram muitos amigos, criaram uma nova rotina e, desde o primeiro momento a Lu nunca escondeu que se relacionava com uma mulher dentro do meio em que vivia (a área da medicina), então todas as pessoas ao redor delas sabiam que eram um casal, sabiam do casamento, de tudo! Isso era bastante novo, se tratando de uma cidade interiorana e de pessoas mais conservadoras, mas era bastante legal ver esse impacto e outras pessoas se inspirando nelas para saírem do armário também. Como desde sempre a Jô sabia da existência do desejo da Luciana em ser mãe (visto que ela sempre sonhou com isso) e que lá em Ribeirão Preto era o lugar referência para que elas fizessem todo o tratamento de fertilização in vitro (FIV) pelo SUS, então as duas captaram óvulos, o mesmo sêmem, o mesmo doador, e deram início ao processo da maternidade. Tudo foi registrado por elas em um caderno-livro que se mantém até hoje e que conta essa história para a Flor, sobre como ela foi desejada e amada desde o primeiro momento, por todos ao redor. O processo todo entre tentativas de gravidez durou cerca de dois anos, não foi nenhum pouco fácil, requer muito e as duas se doaram muito para isso, mas também se apoiaram muito e sonharam muito em conjunto. O livro é incrível e muito delicado, conta detalhes desde os sentimentos, até os gastos que envolvem cada pedacinho desses dias tão longos. A Flor, mesmo ainda sendo muito pequena, adora olhar e mexer no livro e fizemos algumas fotos das três com ele em mãos. [No dia em que nos encontramos, a Jô estava dando início a uma nova bateria de exames, pois estão começando o processo para vir aí uma parceira ou um parceiro irmã ou irmão para a Maria Flor. Só temos muita luz e muita vida a desejar! Vocês são uma família incrível!] A Joana conta que para ela, o amor é a base de tudo. Não só o amor romantizado, mas o amor de fato construído, porque o amor é muita luta, muita garra. O amor, dela com a Lu, é um amor de parceria, de entendimento. E, nessa hora, a Lu completa: “É um amor realmente revolucionário. Não existe outra definição senão essa, pela capacidade de transformação que faz numa pessoa.” Quando passam por momentos difíceis, elas conversam sobre tudo, mas entendem que são seres individuais e que têm momentos em que precisam estar sozinhas. A Joana gosta muito de conversar e a Luciana entende e contribui pra isso também. Briga, chora e se abraça! Sempre olha no olho, dá espaço, volta e abraça. É um movimento natural que o próprio corpo tende a fazer. No fim da nossa conversa, chegamos à conclusão de que quando duas mulheres se juntam para construir uma família, elas saem quebrando tantas barreiras, tantas coisas que socialmente estão na nossa frente há tantos anos, sem nem ver, que é na base da revolução mesmo. Temos o exemplo de como a família da Jô não ter entendido o casamento delas no começo por não ter visto uma “necessidade” e não ter se proposto a ir, porém, com a chegada da Maria Flor, ser puro grude e reconhecê-la, amá-la e não se ver longe dela - a revolução se mostra nessa construção de família e de amor quando formada pelas mulheres, o segurar a neta no colo consegue quebrar qualquer outra coisa que existe antes, qualquer “muro” colocado, qualquer barreira realmente preconceituosa ou inconscientemente preconceituosa. É uma revolução através do afeto. E para a Maria Flor é isso que elas desejam: um futuro livre. Sem medo e com respeito, sem julgamentos estruturados. Que ela siga sendo como ela é agora: empática com o mundo e com ela mesma. Luciana Joana
- Paula e Mariana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Paula e da Mariana, quando o projeto passou por São Paulo! A história da Paula e da Mariana chega enquanto algo muito poderoso no Documentadas. E quando digo poderoso, quero me referir à grandiosidade que temos aqui: primeiramente, uma denúncia que precisamos fazer sobre a forma que as instituições religiosas tomam o corpo das mulheres e manipulam suas ideias, culpabilizam seus desejos. Grandiosa é também pelo seu afeto, que rompeu as barreiras e trouxe cor, trouxe amor, trouxe uma nova vida para as duas que se permitiram descobrir o mundo juntas. No momento do nosso encontro, Ma e Paula estavam morando em Jundiaí, interior de São Paulo. Mari veio de Cascavel, no Paraná, em 2018 até Campinas, casada com um homem que desejava se tornar pastor e resolveu cursar psicologia. Não teve muito apoio da família para começar a faculdade, mas sempre amou conversar e ouvir as pessoas, então decidiu iniciar seu sonho. Paula, por sua vez, cresceu e viveu na igreja: seguiu a risca os princípios da religião. Foi presidente, missionária, louvava todo domingo - e também, todo domingo, pedia perdão porque achava que tinha uma doença, a de sentir atração por mulheres. Não teria como começar esse texto sem explicar o quanto esse amor representa: cor. Por maiores que sejam os desafios relatados, é muito gratificante olhar para elas e ver as roupas coloridas, o afeto (muito afeto!), as mãos dadas enquanto conversam sentadas na grama, tudo muito enfeitado, cuidado. Contam como era a vida antes, como realmente achavam que não podiam usar cores fortes, sair em certos lugares, beber certas bebidas, estar com certas pessoas, usar roupas ou ter cortes de cabelo. E como agora se permitir vestir, se conhecer, descobrir o que querem usar/quem são é o que gostam de fazer - de forma perceptível e feliz. Por mais que Paula pedisse perdão para Deus por sentir atração e se sentia uma aberração, uma doença ou algo tão ruim quanto, a verdade é que nunca tinha beijado uma mulher ou sequer conversado com alguém sobre esse desejo, pelo medo da repressão que poderia sofrer ou dos homens não a desejarem mais. Naquela época, o tanto que Paula era envolvida com a música na igreja, a Mari era envolvida com as pessoas porque adorava conversar, ouvir as mulheres, aconselhar… Há alguns anos atrás, antes da mudança para Campinas, Ma teve uma vivência de beijar mulheres e casou justamente pela “cura”, falava sobre isso abertamente, se orgulhava de ter sido curada, afinal, era isso que a igreja pregava. Quando a Paula soube, pensou: “Posso falar pra ela, ela não vai me julgar”. Demorou alguns meses para tomar coragem e, na metade de 2019, marcaram de caminhar num final de tarde. A Paula contou, mas como se já tivesse passado por isso, no sentido de: “Sentia atrações, já não sinto mais… Uma vez aconteceu. Já passou.” Paula, que sempre foi muito fechada, começou a se abrir e permitiu conversar com a Mari. Tinham diversas coisas em comum, inclusive a irmã da Paula estava morando em Curitiba na época - e Mari é do Paraná… essa questão geográfica as aproximou ainda mais. Foi num momento muito difícil em que a avó da Mariana faleceu, que ela precisou ir ao sul, estava muito vulnerável, se sentindo triste, não quis ir sozinha e a Paula foi sua companhia dando suporte e apoio onde elas passaram mais tempo juntas e se aproximaram de fato. Depois da viagem sentiram muita saudade uma da outra e foi um período de sofrimento muito grande, não só pela saudade, mas entraram numa angústia misturada com negação e questionamento, se viam em constante conversa com Deus: “Você não tinha me curado? O que tá acontecendo?” e no caso da Mari: “Eu fiz de tudo, eu até casei”. Sentiam muita falta da outra no dia a dia e queriam se ver em qualquer brecha que tinham, seja para caminhar, almoçar, jantar… Foi quando Mari resolveu conversar com o marido sobre o que estava sentindo. Sua reação foi de ficar muito magoado, bravo, foi para o Paraná e contou para a família dela e para os pastores. Foi nesse cenário que ela foi para Jundiaí, na casa dos tios, como um “tirar a Mariana de cena”. Obviamente isso respingou na Paula, chegou até a igreja em Campinas, nos pastores e na família dela. O ano já era 2020, a pandemia de Covid-19 estava começando e tudo estava parado/se adaptando para o mundo online. O pastor chamou Paula para conversar, anunciando que iria afastá-la de todos os ministérios, que ela iria precisar passar por várias “disciplinas”. A mãe dela sabia e também negava, colocava bíblias grifadas na cama dela, tudo estava muito difícil, foi quando Paula decidiu ir até Curitiba passar uns meses na casa da irmã. Precisava se ouvir, se encontrar, entender o que queria fazer. Entre o tempo que Paula estava em Curitiba e que Mariana estava em Jundiaí, elas conversavam online, mas tudo era muito confuso. Ainda viviam períodos turbulentos por conta da religião e das suas famílias, além de que elas nunca tinham se beijado. Tudo acontecia por conta da atração que elas sentiam, mas existia a possibilidade de dar errado, de não ser bom, de não se suportarem juntas, simplesmente. Quando Paula decidiu voltar para São Paulo, foi para Jundiaí encontrar a Mari. Lá, ela vivia bem com os tios. Eles são pessoas muito respeitadoras - que inclusive não apoiavam o casamento dela enquanto “cura” - e deram apoio para ela começar essa nova vida, buscaram emprego, apoiam também a relação dela com a Paula. Foram a primeira rede de apoio que elas tiveram. Depois de se reencontrarem, Paula fez uma carta de desligamento da igreja, principalmente quando soube que o pastor queria que ela fizesse uma disciplina pública - expondo para todos que, se fosse ficar, seria “curada”. Depois de quase um ano vivendo esse processo entre a viagem que fizeram no falecimento da avó e a aceitação de quem são, relembram como tudo foi muito intenso. Paula conta como o corpo dela falava: tinha crises alérgicas, muito stress, se culpava o tempo todo. Foi muito bom se libertar. Aceitar que não são doentes, entender, encarar, começar o namoro em si e começar a viver as coisas novas - beber com os tios pela primeira vez, por exemplo. Depois do início do namoro, foram 6 meses em que a Paula morava com os pais em Campinas e namorava a Mari. A mãe não falava sobre o assunto dentro de casa, mas deixava claro que Paula iria se arrepender. O pai acabava confortando. Depois de muita violência psicológica, ela precisou dar um basta. Entendeu até o último momento que isso era um processo para a mãe, que leva tempo mesmo para entender, respeitar, aceitar… mas as coisas precisam ter limites, porque machucam. Foi quando decidiu sair de casa e morar com a Mari, em Jundiaí. Quando se mudaram, os problemas reais chegaram. Mari tinha uma vivência diferente, já foi casada, morava fora há tempos… Paula morou com os pais a vida toda, nunca tinha tido um relacionamento. Foram aprendendo tudo no dia a dia. Em 2022 moraram sozinhas o ano todo num apartamento, adotaram o Théo, um cachorrinho [primeiro cachorrinho da Paula], e sentem que tudo o que viveram foi muito aprendizado. Nesse apartamento a Mari pediu Paula em casamento. Foi lá que aprenderam que dependiam uma da outra, que estavam realmente juntas. No começo da relação achavam que todos iriam ter que aceitar o amor delas, que a família iria ter que engolir… e lá no apartamento, não… viram que a vida era mais sobre elas, mesmo. Que elas já estavam felizes daquela maneira, naquele tempo. O pedido foi simbólico por tudo o que estava representando. No momento da documentação, Paula estava com 27 anos. Trabalha enquanto engenheira de alimentos numa empresa alimentícia, fazendo a qualidade do produto. Já jogou badminton, joga beach tennis e adora tocar música. Brinca que se tornou engenheira de alimentos porque adora comer. Mariana, no momento da documentação, estava com 28 anos. É psicóloga e está transicionando dentro da carreira. Adora falar sobre saúde sexual da mulher e prazer feminino. No tempo livre, ama estudar e também passa muito tempo na Netflix. Hoje em dia, elas moram com os tios da Mari, numa chácara com duas casinhas e um espaço só delas. Se veem reconstruindo a rede de apoio, fazem parte de grupos de amigas em Campinas, não querem se sentir sozinhas e compartilham o que sentem, as questões, vão nos bares, nos eventos e adoram conhecer gente nova. Dentre o peso de terem vivido achando que são uma doença, Paula e Mari falam sobre como a religião nos coloca em muitos momentos contraditórios de vez em quando. Paula relembra como se fala muito em amar ao próximo, já foi missionária e ajudava muito os outros, mas tudo era sempre pensando nela: como ela estava ajudando, como estava fazendo o bem, garantindo sua boa ação. E o quanto isso não é o que de fato Deus ensina. O certo é ajudarmos o outro porque nos preocupamos com o outro, porque amamos quem ele é, queremos cuidar. Hoje em dia, ela faz tudo pensando de fato na outra pessoa, não de forma superficial. E acredita só ter aprendido isso com a profundidade do amor. Mari explica que esse amor é um amor que não pesa. Traz o exemplo que não curte café da manhã, mas que adora levantar e fazer o café para a Paula, que acorda cedo para trabalhar. É algo muito natural, que gosta e faz por gostar. Uma profundidade que nunca tinha experimentado. Grandiosa. Muda a forma de olhar o mundo. E deseja que as pessoas vivenciem isso, sintam esse amor. Por fim, ainda sentem que Deus é amor e que é preciso ter muita coragem para se amar tanto. Acredito que é muito incrível elas manterem esse carinho pela fé, não guardam mágoas ou ódio, até porque foram criadas assim. É normal sentir rancor pela religião porque de fato é errado, criminoso e injusto o que fazem com os nossos corpos. Mas acreditam nas coisas boas que aprenderam e se apegam nisso, não tem como apagar e construir uma nova personalidade, então acrescentaram cor na que já existia, se tornaram pessoas melhores. ↓ rolar para baixo ↓ Paula Mariana

