Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
288 resultados encontrados com uma busca vazia
- Maira e Kelly | Documentadas
Amor de Lar - Maira e Kelly clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Marina e Clara | Documentadas
Raíssa e Lorena foram conectadas por uma amiga em comum, mas o início dessa história foi cheio de idas e vindas. Tudo começou no carnaval de 2015, quando Raíssa, curtindo a festa com sua amiga, perguntou se havia alguém interessante para apresentar a ela. A amiga sugeriu Lorena, mas logo avisou que ela estava "muito enrolada". Raíssa logo deixou claro: "Ah, não quero gente enrolada, não!" Meses depois, durante uma conversa na casa dessa mesma amiga, Lorena ouviu o quanto ela e Raíssa combinavam. Decidiu: pegou o celular e enviou uma mensagem - "Oi, queria muito te conhecer”. Raíssa aceitou, conversaram alguns dias e o primeiro encontro foi marcado, que acabou coincidindo com o aniversário de Salvador, e as duas se encontraram no show da Maria Bethânia, na praia da Barra. Cada uma levou um amigo, transformando o encontro inicial em um grupo. Em meio a tanta gente na praia, foi difícil se encontrar, mas depois de algum tempo finalmente se encontraram em um muro específico próximo ao show – lugar que inclusive fizemos algumas das fotos da documentação. Assistiram ao final do show e seguiram com os amigos para uma boate. Antes de saírem, passaram em casa para deixar o carro (que inclusive tinha dado problema no caminho, foi uma história à parte) e nesse momento, em casa, deram o primeiro beijo. Raíssa estava com 31 anos no momento da documentação, é soteropolitana de alma e coração. Atua na clínica, enquanto psicóloga, trabalhando com adolescentes e também em escolas, dedicando-se para um trabalho que ela acredita ter o poder de transformar o mundo. Foi ainda na faculdade, por meio da sua profissão, que ela começou a se enxergar como uma mulher negra e a se descobrir enquanto mulher que ama outra mulher. Além da psicologia, Raíssa adora estar em movimento: ama o mar da Bahia, os encontros de amigos em casa e, como dizem os baianos: é muito rueira - ama estar na rua. Lorena estava com 36 anos no momento da documentação. Nasceu em Remanso, no interior da Bahia, mas sua trajetória a levou para Feira de Santana e depois para Salvador. Embora formada em assistência social, Lorena encontrou sua verdadeira paixão na culinária, construindo um empreendimento de espetinhos, no condomínio do prédio onde elas moram. Brinca que foi cozinhando que conquistou Raíssa. Além da culinária, é apaixonada pela praia e pela energia do carnaval. Mesmo longe da carreira de formação, Lorena nunca abandonou seu interesse por política e adora mergulhar nos estudos sobre a cidade e seu funcionamento. Acredita que os seus propósitos e de Raíssa são muito ligados por conta das suas visões e entendimentos sobre a sociedade. Depois do primeiro encontro, tudo fluiu de forma leve e natural. Raíssa e Lorena descobriram rapidamente o quanto suas energias, pensamentos e perspectivas de vida estavam alinhadas. Compartilhavam opiniões políticas e sociais semelhantes, e isso reforçou a conexão. Na época, Raíssa estava cursando duas graduações (psicologia e serviço social) e uma das faculdades era próxima ao trabalho de Lorena, então logo no começo, quando ainda estavam se conhecendo, ela resolveu fazer uma surpresa e aparecer por lá. Esse gesto marcava o início de uma rotina com encontros em meio à correria diária que ambas viviam. Por mais que estivessem vivendo o frisson inicial, o primeiro ano de relação não foi fácil. Além das demandas da rotina intensa, Lorena ainda lidava com relacionamentos do passado que precisavam ser encerrados e precisava cuidar da sua saúde mental. Viveram diversos altos e baixos. Aos poucos, sendo honestas sobre quem realmente eram, conseguiram construir a relação e entender que realmente queriam seguir juntas. Ambas acreditam que a relação deu certo porque estavam dispostas a fazer acontecer. Os obstáculos eram muitos: questões familiares, saúde mental, responsabilidades acadêmicas e profissionais e o preconceito. Enfrentaram tudo juntas, fazendo verdadeiros malabarismos para equilibrar o amor com as outras prioridades. Hoje, conseguem dimensionar que essa dedicação mútua tornou possível a construção da base forte da relação. Antes da pandemia de Covid-19, Raíssa já atendia como psicóloga, mas, com o início da quarentena, precisou migrar para o formato online. O desafio era enorme: dividia o quarto com as irmãs e não tinha privacidade para realizar as consultas, enquanto a demanda por atendimento psicológico crescia de forma expressiva. Lorena, por outro lado, viu sua rotina de trabalho ser completamente interrompida no início da pandemia. Para passar o tempo, começou a cozinhar como nunca, principalmente fazendo bolos. Ir ao mercado se tornou a maior das felicidades. Com o tempo, decidiram que o melhor seria Raíssa se mudar para a casa de Lorena e sua família, assim teria mais espaço e privacidade para seus atendimentos - por mais que também não fosse fácil administrar uma mudança e morar em um novo lar, com novas pessoas. O próximo passo aconteceu meses depois, em novembro, quando decidiram morar em um novo apartamento, dessa vez só delas. Seria a primeira vez que teriam um novo lar. Com o apoio de amigos e da mãe de Lorena, organizaram a mudança em tempo recorde: um único dia. Foram montando a casa aos poucos, com muito carinho e cuidado, até que se sentissem representadas. Esse período de transição foi marcado por muitos aprendizados. Juntas, revisitaram os desafios dos primeiros anos da relação - bastante intensos - e reconheceram como o tempo e o diálogo trouxeram maturidade. A construção do lar também significou um novo capítulo, onde ambas começaram a se abrir mais para novas experiências e aprender a dizer mais “sim” do que “não”. Agora, com o lar e o trabalho próximo de casa (os espetinhos no condomínio) estão com um novo modelo de vida. Adotaram uma gata (e desejam em breve adotar outros), sonham com viagens, novos desafios e, acima de tudo, experimentar e conhecer coisas juntas. Para Lorena, o amor está profundamente ligado às mulheres que fazem parte da sua vida. Ela se dedica a ser uma presença que reverbera coisas boas ao seu redor, e nada deixa mais feliz do que perceber como sua relação com Raíssa inspira e desperta sentimentos positivos nas pessoas próximas. Muitos chegam e verbalizam a admiração pelo respeito que elas possuem uma pela outra, as procuram para pedir conselhos e enxergam nelas um exemplo de cuidado e carinho… Então sente: Estão trilhando o caminho certo. Raíssa, por sua vez, reflete sobre como os processos de transformação que viveram juntas foram cruciais. O amor entre mulheres sempre esteve presente em sua vida, graças às referências que cultivou. Porém, ela reconhece que esse amor, por muito tempo, foi carregado pelas imposições da sociedade - controle, dominação, opiniões alheias sobre corpos e uma carga de expectativas. Isso ofuscava a visão que ela tinha sobre os relacionamentos amorosos. Hoje, ao lado de Lorena, celebra ter mudado as ações e alinhado os compromissos, entende que respeitam quem são, e que aprendeu a amar Lorena exatamente como ela é - sendo amada desta maneira também. Esse entendimento do amor transbordou: tornou-se uma nova forma de enxergar as mulheres ao seu redor. ↓ rolar para baixo ↓ Clara Marina
- Jamyle e Rebeca
Ao assumir o relacionamento, a Rebeca e a Jamy passaram por uma série de desafios e preconceitos em relação à aceitação dentro de suas casas. Foi quando entenderam que a única forma possível de estarem juntas era alugando um apartamento e formando um novo lar, com seus trabalhos e com uma vida financeira independente, visto que dessa forma teriam maior liberdade para agir sendo quem são. Quando foram morar juntas, poucas pessoas realmente acreditaram que daria certo. Ouviram críticas por serem mulheres/jovens/estar muito cedo, mas para elas, era algo muito além de uma simples “escolha” - na verdade, era exato o contrário: não parecia ter outra escolha. Hoje em dia, dois anos depois estarem com o apartamento mobiliado, os gatinhos adotados e a casa cada vez mais ganhando um jeitinho delas é motivo para muito orgulho. A sensação é também de que as coisas não são em vão e vale a pena, de uma forma ou de outra, só elas sabem o que elas passam juntas. Os dias de folga em casa são cheios de receitas novas e a Rebeca finaliza o papo falando sobre a casa, narrando o sentimento de paz que é pra ela chegar do trabalho. O que ela sente no momento em que chega, que vê os gatinhos e que pode ficar bem, com a sua companheira, dentro de casa, é o significado de lar. As duas se conheceram de uma forma bastante comum: em uma festa e por ter um amigo que as apresentou… o que foi totalmente diferente, nessa história, é o que vem depois de se conhecerem: o intervalo entre o primeiro beijo e o início do namoro: 4 anos! (sim, 4 anos de insistência) A festa rolou lá em 2015, em Benfica (bairro boêmio de Fortaleza e bastante conhecido pelo público LGBT). A Rebeca ficou afim da Jamyle, mas ela não quis... pois estava ficando com outra pessoa nessa mesma festa… e aí, tudo bem, né? Acontece, só que aí a Jamy mudou de ideia e voltou atrás, deu um beijão na Rebeca lá mesmo. E pronto! Depois desse dia, se adicionaram nas redes, conversaram e até marcaram de sair e foram ao cinema, mas não chegaram a ficar e nem nada. Por mais que a Rebeca quisesse e tivesse sentimentos pela Jamy, ela ainda estava se curando de um ex-amor e não conseguia se envolver com ninguém novamente. Então ela respeitou e entendeu que seria uma amizade… Mas preciso mesmo explicar?? Era claro que em todas as festas que elas estavam juntas, na hora que o álcool batia, elas ficavam. A Rebeca conta, gargalhando, que sóbria a Jamy fugia dela como o cão foge da cruz. E assim, foram, ao menos, uns 3 anos. Até que Rebeca começou outro relacionamento e foi aí que Jamyle entendeu que gostava realmente dela, que sentia falta e que queria estar com ela. Foi então que a Rebeca fez um cruzeiro e deixou as duas meninas para trás: a Jamy e a outra, não queria mais viver essa confusão e ficou em alto mar incomunicável. Quando voltou, em março de 2018, elas se encontraram numa festa… e foi a partir desse momento em que finalmente começaram a namorar! A Rebeca e a Jamyle são duas mulheres que constroem um relacionamento incrível e moram juntas há 2 anos, num bairro periférico dentro de Fortaleza, no Ceará. Por mais que tenham uma rotina de trabalho intenso dentro de empresas privadas, - ambas com atendimento (na área de call center e SAC) - a Rebeca e a Jamy possuem diversos hobbies e trabalhos extras que preenchem a rotina e também trazem divertimento. Quando pergunto sobre como têm sido conciliar a vida com seus milhões de afazeres e com a pandemia em si, elas comentam o quanto não é fácil, e que existem momentos de maior desânimo ou cansaço, mas fazem o exercício de olhar ao redor e perceber o quanto crescem juntas e o quanto o cantinho delas é montado dia após dia com muito carinho, com a presença dos gatinhos, como a forma que a casa e a vida delas têm ficado mais aconchegante nesses últimos anos e como tudo se molda com o tempo. Jamyle tem 22 anos, estuda biologia e além do trabalho ela deseja fazer um curso de barista futuramente. Nos hobbies, é amante dos livros e também já fez teatro. Rebeca tem 23 anos e além do trabalho também atua enquanto DJ. Começou aprendendo com um amigo e se destacou na área, já viajou o estado do Ceará todo tocando em muitas festas e, hoje em dia, além dela estudar para concursos públicos, passa o tempo livre na cozinha aprendendo confeitaria. Como hobby, adora fazer muay thai. Jamyle Rebeca
- Bruna e Mariana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Bruna e Mariana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Mesmo a Mariana e a Bruna estando juntas há um tempo relativamente curto, elas já viveram diversos momentos no relacionamento - inclusive, no período que nos encontramos até o momento da história delas ir ao ar, várias mudanças também aconteceram! - e entendem que esses processos vêm sendo muito importantes para a construção delas enquanto um casal. A Mari tem 26 anos, nasceu no Rio de Janeiro, é lojista, estava trabalhando em uma loja no shopping, e também realiza trabalhos enquanto ilustradora. As pessoas encomendam ilustrações com ela para presentear quem amam (e ela adora desenhar, por isso, sonha em um dia transformar o talento e aprender a tatuar). A Bruna tem 28 anos, também nasceu no Rio de Janeiro e trabalha com comunicação e marketing nas redes sociais, de forma autônoma. Juntas, elas aprenderam a desbravar a cidade e conhecer novos lugares: os espaços culturais do Rio (como o que fizemos as fotos), explorar espaços urbanos, ir em museus, restaurantes e cinemas. O começo do namoro aconteceu em março de 2022, mas se conheceram em janeiro, quando ambas decidiram que não queriam namorar ninguém (enfim, as contradições da vida, né?!). A Mari, durante uma conversa no trabalho, baixou o aplicativo: Tinder. Foi uma brincadeira, para provar que era fácil de usar. Ficou nele literalmente três dias e deu “match” com a Bruna. Resolveu conversar, mas fora da rede social, pois logo iria excluir. O que mais chamou a atenção ao começarem a conversar foi o motivo de estarem muito próximas (e de morarem muito próximas, na região da Maré, no Rio de Janeiro). No aplicativo aparecia 1km de distância e nunca tinham encontrado alguém assim, as pessoas sempre apareciam mais distantes - e brincam também sobre aquela situação de que mulheres se apaixonam muito à distância - então valorizaram estarem próximas. Além disso, tinham outra coisa que valorizavam também: a terapia em dia. Bruna conta que se encantou com a beleza da Mari e logo quis encontrá-la. Elas marcaram, se deram muito bem, não pararam de conversar um minuto e decidiram se ver mais vezes. Logo nas primeiras semanas em que estavam se conhecendo, viajaram, ficaram distantes, mas continuaram conversando muito… E então entenderam que isso poderia ser um começo de paixão. Mas deixaram tudo fluir com muita calma e sem pressão. Um tempo depois, a Mari resolveu convidar a Bruna para o aniversário dela. Foi uma decisão de última hora, porque ela tinha uma certa frustração com aniversários: sempre convidou pessoas com quem estava se envolvendo e essas pessoas nunca foram, falavam que aniversário era algo muito sério, não era “espaço para ficante”, portanto não iam. Dessa vez, foi diferente, ela convidou e a Bruna logo topou. Assim, a Bruna conheceu os amigos da Mari e todos se deram bem. Como o aniversário delas é próximo, ela também foi na festa da Bruna e também conheceu o grupo de amigos dela, então todos interagiram e foi ótimo. Nesse processo inicial, a Mari passava por mudanças de casa, então a Bruna acompanhou toda a adaptação do novo lar. Foi quando decidiu pedi-la em namoro, já que estavam construindo um relacionamento mais concreto. Foi com um bolinho, escrito: “Aceita ser promovida a namorada?” que a Mari disse sim. Hoje em dia, a rotina da Mari e da Bruna não estava sendo nada fácil. Mari trabalhava em uma loja que exigia muito do corpo físico e mental dela: pela rotina puxada e cansativa que envolve uma escala de trabalho em Shopping, e também por enfrentar diversos comentários. Mari acredita que para amar outra mulher é preciso ter muita força, não apenas no enfrentamento aos preconceitos, mas no entendimento de que não há nada de errado no amor. Bruna fala sobre o quanto viver essa rotina com a Mari ensinou que amar é também priorizar, pois com a relação delas, aprendeu o que é incluir alguém em tudo o que faz: nos planos, no dia-a-dia, no compartilhar das coisas, e até na busca por um novo emprego para sair dessa rotina cansativa (conseguiram, ufa!!). Ela entende o amor das duas enquanto um amor político, porque ama a Mari por muitas coisas, inclusive por ela ser uma mulher. No começo, sentiram diversos receios e medos para postar fotos juntas, assumirem-se nas redes, mas depois não houve mais motivos para esconder isso - o amor delas é muito maior. Depois, quando postaram, a família super apoiou. Hoje em dia, ainda existe o medo, é claro: da violência nas ruas, do transporte… sonham em aproveitar a cidade com segurança, sendo quem são, mas não deixam de amar e de seguir pegando nas mãos quando saem na rua. ↓ rolar para baixo ↓ < Mariana Bruna
- Bruna e Sophia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Bruna e da Sophia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Sophia quando pensa em inspiração vem logo a mãe dela na cabeça porque sempre foi a figura que representa todas as superações ao decorrer da vida (beijo, dona Maria Antônia!). Bruna também fala muito sobre a mãe e sobre a bisa - a pessoa que ela mais admira. Pensar na bisa é pensar na paz - era uma pessoa muito boa e querida por todas as pessoas, cujo também pensam nela com esse carinho enorme. A família delas têm lidado de forma respeitosa, tentando, aos poucos, entender. Elas também dão esse espaço e o tempo delas processarem as coisas. A mãe da Bruna hoje em dia adora a Sophia e até sente um pouco de ciúme. E o pai da Sophia chamou a Bruna para passar o último natal na casa deles. A relação delas é formada por uma comunicação muito aberta, falam sobre as outras relações, os traumas de vida, criam laços de fortalecimento. Acreditam que o amor é físico e inatingível. Sentem o amor e consideram algo muito sagrado - por ser imaterial mas por você conseguir sentir. “É um sentimento com vida própria”. Antes da pandemia voltaram mais uma vez ao MAM, durante uma abertura de exposição. Fizemos questão de fotografar exatamente no local que aconteceu o primeiro beijo, naquele quadrado, cheio de memória afetiva. Cantarolei Minha Pequena Eva enquanto fotografava. Conversamos muito sobre o nosso corpo ser político enquanto mulher lésbica e tudo o que isso envolve. Elas acreditam que o amor entre mulheres envolve um cuidado muito maior e acreditam que as relações requerem sempre uma manutenção, uma atenção diária. “O amor entre mulheres é algo que vem na gente, porque ninguém nunca nos ensinou como amar as mulheres, você apenas sente, e então ama”, diz Sophia. Ela comenta que não sabe olhar para o corpo de uma mulher como olham os homens e que já ouviu amigos falando “pô, então você nem gosta de mulher tanto assim, se não acha ela gostosa, se não olha pra bunda...”, e mesmo que ela saiba que isso não signifique nada, entende que ela não liga pra isso porque ela nunca foi ensinada a gostar de mulher como os homens são, ainda jovens, de acordo com o patriarcado - ou seja, não existe regras para nós gostarmos de mulher, nem manual de instruções, porque nem nos consideram (nós, mulheres que se relacionam com mulheres) dentro do sistema patriarcal. A Bruna conta que amigos homens já fizeram ela parar de trabalhar para olhar mulher bonita passando... e que o sentimento sentido foi de desrespeito e desconforto. Bruna contou que uma cidade feliz e ideal para ela seria uma cidade da qual ela possa andar na rua sem medo - que ninguém olhe feio, solte comentários quando ela passa. Ela quer andar com paz. Desde pequena ela se entende enquanto mulher lésbica e comenta que na escola, quando perguntavam o menino que ela gostava, dizia logo o nome do mais bonito e disputado, para assim ficar no canto com um descargo de consciência por saber que ele não daria bola para ela. Sophia tem 21 anos e é lojista, mas cursa Cenografia. É aí que acontecem seus trabalhos no carnaval: ajudando a montar os carros alegóricos. Bruna tem 21 anos também, é cozinheira em um restaurante na Barra da Tijuca, mesmo morando em Niterói - e faz essa jornada diariamente. Ela tem uma cabeça muito aberta, fala sobre amor, diz que amar é muito diverso e que quando você percebe, já aconteceu. Ela demonstra muito cuidado com a Sophia, principalmente cozinhando as comidas favoritas dela e fazendo receitas bem elaboradas (leia-se, um pão cor de rosa, com massa natural, porque é a cor favorita dela…………. pois é, não tem coração que aguente ler isso, foi difícil pra mim também segurar a vontade de abraçá-las). Ambas amam maquiagem e seu maior hobbie é fazer vídeos para o tiktok. Estão na rede social desde antes do grande boom durante a pandemia. Inclusive, vale citar, que o pedido de namoro foi feito por lá, já que estavam separadas pela quarentena. Carnaval no Rio, dia de chuva, tinder ligado, glitter no corpo, bloco lotado, passando pelo Museu de Arte Moderna (MAM). Imaginou a cena? Quando a música toca embaixo do concreto do MAM o eco é imenso. Você sente seu corpo todo tremer. Pessoas em cima de pernas de pau dançam ao redor no espaço entre a grama e a calçada. Ali, tudo faz sentido: de fato, é carnaval no Rio. Foi assim que Bruna e Sophia se conheceram pela primeira vez, entre chuva, tinder e bloco. Se encontraram no meio da multidão… e sabe o que faz tudo ser tão característico de uma cena real do carnaval? o primeiro beijo ter sido ao som de Minha Pequena Eva, contando com todas as pessoas ao redor cantando e pulando muito. Acho que uma das coisas mais instigantes nessa história toda é que a Sophia era crítica assídua do Tinder. Dizia que jamais serviria para algo e que não dava para esperar nada “dessas pessoas”. Melhor ainda é o fato de que elas moram muito longe uma da outra, se encontraram porque foi um dia do qual a Sophia foi até o centro da cidade e assim que a Bruna apareceu ela deu ‘like’ pensando: é bonita, mas sei que não vai dar em nada. A Bruna, pelo outro lado, assim que descobriu que a Sophia trabalhava em um barracão de escola de samba já queria pedir logo em casamento. Apaixonada pelo carnaval e pela Sapucaí, ficou empolgada ouvindo as histórias que Sophia contava. Bruna Sophia
- Mariana e Thalassa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mari e da Thalassa, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Entenderam que para o relacionamento acontecer de verdade precisavam ter uma comunicação muito ativa e transparente. Mesmo em dias ruins, tentam conversar antes de dormir e dormem abraçadas. Thalassa diz o quanto se sente completa: na casa, com os cachorros, as plantas, tendo o carro, tudo. Entende que é uma mulher adulta que conquistou o que sonhava. Ela fala também sobre o quanto aprendeu a admirar a Mari, a persistência dela e a forma que lida com as coisas. Para a Mari, amar é ter cuidado, ter respeito. Tenta sempre entender o ponto de vista da Thay sobre as coisas do mundo. Amar é um exercício diário. Por fim, falamos sobre o amor ser um mosaico - tem a risada, o tempo, o respeito, a compreensão, a lealdade… não tem como falar dele sem todas as coisas que completam. Cada parte é importante para construir o todo. A história da Thay e da Mari te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Thalassa tem 32 anos, é professora de biologia e ciências para alunos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Está atualmente no chamado “ensino híbrido”, do qual a carga de trabalho é muito maior que em tempos comuns (que já é grande!). Ela trabalha em Niterói e mora próximo ao Recreio, é uma distância longa, costuma demorar 2h para chegar (mas já chegou a demorar 5h, em dias de trânsito). Fala sobre como é ser professora no Brasil e como os desafios triplicaram na pandemia. Mariana tem 27 anos, é bancária, trabalha com abertura de empréstimos. Está cursando psicologia e fala sobre a vontade de ouvir e poder auxiliar pessoas. Trabalhar com o público não é fácil, ainda mais em grande escala. Existem muitos desafios e com a modernização dos aparelhos bancários e precisamos sempre exercitar o cuidado com todos os tipos de público, entendendo suas especificidades. Mari cuida muito de si, quer viver com tranquilidade. A maior dificuldade que elas passaram foi quando decidiram morar juntas, em janeiro de 2015. O dinheiro era muito curto e precisavam mobiliar a casa, Thalassa chegou a pegar diversos freelas - sendo Uber, professora em outros lugares... foi um momento bastante turbulento. Se conheceram de uma forma um tanto quanto aleatória. A Thay ainda mantinha uma amizade com a ex namorada e a Mari ficava com essa menina (tá ouvindo esse barulho???? é o som do rebuceteio!). Na época, a Thay já namorava outra pessoa e conhecia a Mari porque já estiveram entre amigos algumas vezes. A menina (amiga/ex de Thay e amiga/atual da Mari) estava de aniversário e elas foram numa festa comemorar (a Thay e a namorada + a Mari e a aniversariante), mas ambas se meteram em confusão, a Thay já não andava bem no relacionamento, brigaram na festa e ela optou pelo término. Enquanto a Mari acabou ficando no canto e um pouco chateada por outros acontecimentos simultâneos. Ambas se viram sozinhas e o que restava era aproveitar a festa juntas. Alguns outros amigos chegaram para aproveitar a noite com elas e numa brincadeira, inventaram de todo mundo se beijar. Até então tudo bem, afinal, estavam só se divertindo. Mas quando a Mari e a Thay se beijaram, logo se sentiram totalmente diferentes, algo único. Não entenderam muito bem o que era esse sentimento/essa sensação, mas passaram a noite juntas aproveitando a festa. Nos dias seguintes elas continuaram se encontrando. Por um momento foi até meio escondido, com medo das pessoas saberem, mas depois entenderam que não tinha outra saída, ficariam juntas. Hoje, 7 anos depois, o sentimento é o mesmo. Quando fui encontrar a Mari e a Thay, não imaginava que iria gostar tanto (delas e do lugar). Marcamos num horto, no Rio de Janeiro. Com espaço para café (e cervejas), foi lá que nos sentamos para conversar. Elas tinham escolhido este lugar porque amam plantas, cuidam de vários tipos e espécies e falam sobre a importância de respeitar o tempo da terra e da natureza. O amor que passam para as plantinhas é de um jeito muito especial, gostam de usar os temperos na hora de fazer comida, esperam ansiosamente as frutas crescerem… acreditam que mexer na terra e acompanhar esse processo faz com que a gente aprenda a ter mais respeito pelo mundo. Depois que elas descobriram o horto, na primeira vez que vieram (ainda moravam longe), se apaixonaram. Agora, por morarem muito próximo dele, criaram uma memória afetiva forte e tentam frequentar o máximo que podem. Tanto a Mari, quanto a Thay são pessoas muito tranquilas. Moram com seus bichos, têm suas rotinas de trabalho… e também são mulheres muito divertidas. Elas acreditam que o encontro que tiveram nessa vida foi um fenômeno da natureza - a partir do primeiro beijo tiveram certeza que ficariam juntas. < Mariana Thalassa
- Rennata e Vanessa
A Renata e a Vanessa se conheceram em 2016, mas até começarem a namorar, quaaase em 2018, viveram um roteiro digno de novela intensa. Elas são de Fortaleza, capital do Ceará. Ou melhor, a Renata é de Maracanaú, uma cidade que pertence à região metropolitana. Foi na Praça da Gentilândia que escolheram fazer as fotos, a praça (e o bairro de Benfica em si) possui muitos significados na história das duas e durante a conversa fomos revivendo diversos momentos. Nessa história existe uma versão sobre o dia que elas se conheceram da qual a Renata não se lembra - sim, ela não se lembra de ter conhecido a Vanessa - mas calma que as reviravoltas chegam. Esse dia aconteceu entre diversos eventos na universidade (tinham calouradas, manifestações políticas…) e muitas pessoas circulavam pelos Centros de Humanidades do campus. Foi ali que elas se esbarraram, entre amigos em comum e a Vanessa até deu um cigarro para a Renata, mas ela justifica com o álcool o fato de não lembrar desse encontro rápido. Um tempo depois, a Renata estava cursando fotografia num lugar que propõe diversos cursos gratuitos e conheceu uma menina do curso de jiu-jitsu (ela até se aventurou no jiu-jitsu depois dessa amizade!), elas ficaram amigas e na época a Renata saía com uma oooutra menina, então decidiram marcar de se encontrar e beber um dia na Praça. A amiga disse que levaria outra amiga, para não ficar sobrando entre as duas e, quando chegou lá, essa amiga era a Vanessa. Renata até brinca que quando viu a Vanessa ela sentiu um forte impacto, então ok não lembrar do cigarro, né?! Já que esse dia é o verdadeiro dia do impacto! Elas conversaram durante a noite toda e a Vanessa brincou várias vezes que jamais conseguiria se envolver com alguém que tem o mapa astral como o da Renata… Isso despertou na Renata a certeza de que ela nunca teria chances com a Vanessa, ficou até pensativa sobre, mas depois desse dia se adicionaram no Facebook e a Vanessa chamou ela para alguns eventos. Demorou um pouco para que saíssem e quando aconteceu pela segunda vez, foi novamente na Praça o ponto de destino. Elas passaram a noite com diversos amigos e uma comunicação totalmente atravessada, principalmente porque a Renata não assimilava nada enquanto um flerte, já que havia aceitado que não teria chances, por mais que a Vanessa insistisse e deixasse (na versão dela) claro. Então, quanto mais amigas elas ficavam, em outros eventos elas se encontravam e o resultado era igual: sempre saíam e beijavam outras pessoas. No dia 17 de maio de 2017 (sim, quase um ano depois!), na mesma Praça, teria um evento em referência ao Dia Internacional Contra a Homofobia e a Vanessa convidou a Renata, que já estaria por lá fazendo um trabalho. Elas foram juntas, mas as pessoas demoraram a chegar e ficaram sozinhas no evento, sentadas. Foi então que a Vanessa soltou a frase: “E esse beijo?! Vai sair que horas?!” e a Renata se desconcertou por completo, abrindo um sorriso. Foi logo depois desse momento que, finalmente, elas se beijaram. Elas contam que nesse dia estavam todos aguardando acontecer o impeachment do Michel Temer (aquele famoso momento em que ele entrou ao vivo e disse, depois de uma pausa enorme: Não renunciarei). Portanto, nem rolaram as gravações que a Renata iria participar trabalhando na Praça e elas ficaram juntas mais tempo, depois foram embora. Depois do primeiro beijo elas começaram a conversar todos os dias, num ritmo muito diferente do que era anteriormente, além de se encontrar em todos os intervalos possíveis na Universidade. Na época, a Renata estava “de rolo/ficando” com um menino e elas contam que, mesmo amando esse primeiro momento de conhecimentos e conversas, foi também um período muito conturbado. Passaram 7 meses num relacionamento sem rótulos, ficavam com outras pessoas e acabavam brigando muito, era uma comunicação bastante difícil porque envolvia um respeito em saber os limites e no querer deixar livre, mas por outro lado uma carga muito intensa entre elas. Hoje em dia, elas recordam o quanto as duas terem um acompanhamento terapêutico na época foi fundamental para entenderem o que estavam vivenciando e conseguirem visualizar tudo com maior clareza. A chave só virou quando, depois de uma briga por coincidência, elas se encontraram em um ensaio fotográfico do qual a Vanessa estava sendo modelo. Quando a Renata chegou, deu de cara com ela já em frente à câmera posando e surgiu um clima muito estranho. Depois do ensaio elas saíram e a Renata contou sobre um sonho que ela teve, do qual elas caminhavam em um lugar e a Vanessa olhava para ela e dizia “E é por isso que eu te amo.”, e ela se sentia totalmente surpresa, porque não era algo que esperava ouvir da Vanessa. Enquanto ela contava a Vanessa ficava olhando, bastante atenta em cada detalhe. Um tempo depois do sonho, elas estavam conversando online sobre 5 coisas que gostavam uma na outra, e a resposta da Vanessa foram as 5 coisas e um extra: a 6. estava escrita: “E é por isso que eu te amo.”. Ler a declaração foi algo que fez a Renata ficar completamente surpresa, ela estava na faculdade e contou para um amigo, que perguntou se ela também amava a Vanessa e ela respondeu sem hesitar que sim. Foi então que muita coisa mudou. Quando elas perceberam esse amor que sentiam e se permitiram falar isso, a comunicação ultrapassou diversas barreiras. Elas ficaram mais próximas e se enxergaram de uma forma diferente, sendo carinhosas e estando confortáveis uma com a outra. A partir disso, assumiram o relacionamento, não se envolveram mais com outras pessoas e se viram dispostas a estarem juntas. A Renata tem 24 anos, faz Biblioteconomia, adora basquete e tem uma loja de camisetas (que vocês podem conferir clicando aqui!). Ela faz estágio em um Instituto de relações internacionais que dialoga entre o Brasil e alguns lugares da África e seu papel é organizar a biblioteca do lugar. Além disso, é apaixonada por fotografia e por audiovisual. A Vanessa tem 24 anos, é psicóloga, possui uma loja de acessórios e também ama fotografia. Ela dedica boa parte do seu tempo aos estudos sobre diversidade e relações raciais (com foco nas mulheres negras - que inclusive foi o tema do seu TCC) e, junto com a Renata, participa de um Coletivo LGBT em Fortaleza. A Vanessa fala sobre como foi se entender enquanto uma mulher negra e que suas referências vieram desde dentro de casa - pela mãe - até por figuras representativas na história e na literatura, como Marielle Franco, Djamila Ribeiro, Ângela Davis e Sueli Carneiro. Falamos também sobre as diversas coisas que fizemos e a importância de destacarmos isso dentro da nossa comunidade (como elas, que trabalham com suas profissões mas têm muitas outras profissões e já fizeram muita coisa por fora de uma palavra só que define formação) e de como precisamos incentivar o mercado de trabalho para quem faz de tudo nessa sobrevivência ao cotidiano. A Renata também lembra da mãe e, além disso, no âmbito artístico, diz que o primeiro professor de cinema é quem inspira e quem contribuiu para o reconhecimento próprio. Além disso, uma professora da faculdade a inspirou muito a seguir no curso de biblioteconomia. Hoje em dia, elas sentem que a comunicação foi um dos maiores saltos no relacionamento. E, por mais que ainda existam desavenças, conseguem dialogar e ficar bem. Nesse momento fica mais claro o sentimento de amor para a Vanessa, porque volta ao que falamos inicialmente, de que precisa ser vivido com respeito. Ela acrescenta também o fato de que um problema delas é delas, mas um problema vivido por cada uma é compartilhado quando elas se sentem à vontade para isso (e por isso a comunicação serve para também trazer confiança no amor). Por fim, a Renata enxerga o quanto evoluíram, enquanto um casal e enquanto indivíduos. Ela acredita que o amor entre mulheres é mais carinhoso e cuidadoso e que, se pensado de uma forma romântica, ela se sente muito mais à vontade com mulheres. Já viveu situações em que homens abordaram a forma de se relacionar não-monogâmica dela enquanto algo sem limites, sem pudor e sem responsabilidade afetiva, enquanto ela não enxerga o amor assim. E, de uma forma não romântica, sente que as mulheres se identificam e se encontram, pensando nas relações familiares que construiu e no quanto o apoio é absolutamente natural entre as mulheres da casa. Rennata Vanessa
- Carla e Nathalia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Nathália e da Carla, quando o projeto passou por São Paulo! Conheci a Nath e a Carla quando estive em Campinas, passamos a manhã num parque ecológico que é o lugar preferido delas - espaço que elas costumam ir e passar muito tempo juntas olhando o céu embaixo de uma árvore. As duas são duas mulheres super jovens e absurdamente fortes. A Nath tem 22 anos, estuda pedagogia e vive entre Ribeirão Preto e Campinas, porque fazia faculdade lá, mas com o início da pandemia voltou, para ficar mais próxima da família e da Carla, que faz faculdade de Engenharia de Software e trabalha em uma Startup, ali, em Campinas mesmo. A Carla tem 19 anos, é um pouquinho mais nova, mas elas brincam que essa breve diferença de idade não costuma transparecer em quase nada na convivência nesses anos de relacionamento. Digo ANOS porque elas se conheceram lááá em 2015, quando estavam no ensino médio. Tudo começou por causa de um grupo de Facebook chamado ‘Poxa Sapatão’, em que rolavam brincadeiras das quais você colocava seu nome e a cidade em que morava e conhecia mais meninas que moravam próximas. Assim, elas trocaram contato. Foi bem “emocionado” no começo, no sentido de ser intenso, porque elas passavam o dia inteirinho se falando (ah, o tempo útil na adolescência, né? que saudade), até que começaram a falar por ligações (que chegaram a durar 14 horas! H o r a s!) e foram, também, descobrindo muitas coincidências da vida: que moravam em bairros próximos, estudaram na mesma creche quando eram crianças, fizeram capoeira no mesmo lugar… já se esbarraram por aí muitas vezes, mas nunca tinham, realmente, se visto. Foi em janeiro de 2016 que marcaram de se encontrar em um shopping. Tentaram ir no cinema, porém, naquela época estavam tendo os famosos “rolêzinhos” (grupos de jovens que iam para os shopping em grandioso número e, por muitas vezes gerar tumulto, acabavam sendo barrados ao entrar - lembrando que os rolêzinhos, em definição mais objetiva, sempre foram muito racistas na perspectiva da proibição, pois quem era proibído de entrar no shopping era sempre o jovem negro e, em sua grande maioria, o jovem de baixa renda e periférico). Por conta do “rolêzinho”, a Nath conseguiu entrar acompanhada do pai, mas a Carla, com 14 anos e desacompanhada, foi barrada na portaria do shopping. Elas tiveram que pedir para o pai da Nath ir lá na porta principal buscar a Carla para que ela pudesse ao entrar e, quando elas se viram pela primeira vez, se abraçaram e a Carla quis andar meio que abraçada (com o braço por cima do pescoço) da Nath, só que ela se esquivou em um sentido de “Para! Meu pai tá aqui!” (hahahaha!) e obviamente o pai dela percebeu essa “amiga meio um pouco íntima demais”. Neste dia, finalmente elas conseguiram ir ao cinema. Lá se beijaram pela primeira vez e, depois do quarto encontro, começaram a namorar. O começo do namoro foi bastante escondido, principalmente pela diferença de idade. Elas sentiam bastante medo do que os familiares iriam pensar… e quando a mãe da Carla descobriu ela não aceitou, foi todo um processo (e é ainda) de aceitação. Hoje em dia elas saem juntas e se dão bem, mas entendem que é algo diariamente estabelecido enquanto uma reafirmação. Depois de segurarem a barra na família da Carla, foi a vez da família da Nath. Tudo começou quando ela estava na praia durante uma viagem e deixou o Facebook logado no Notebook da tia… e adivinha qual grupo a tia dela viu? É claro, o Poxa Sapatão! Antes que a tia dela contasse, ela achou melhor contar. Chamou o pai dela e falou sobre o namoro. Ele ficou quieto, não esboçou nenhuma reação. No dia seguinte, fez algumas perguntas para ela, mas em geral, seguiram bem. A mãe dela, por outro lado, teve uma reação mais agressiva, em um sentido de mandá-la procurar ajuda psicológica, dizer que isso era aberração e não aceitar de jeito nenhum. Mais uma vez, elas entenderam que só com o tempo isso mudaria. E estavam certas: hoje em dia, a mãe dela é puro grude com a Carla! E passou a se permitir entender e aceitar o relacionamento das duas. O que também ajudou muito a mãe da Nath no entendimento foi um dia um sermão que ela ouviu na igreja quando decidiu ir atrás da resposta sobre aquilo que a filha estava vivendo e a resposta ser literalmente algo voltado à respeitar a felicidade e a vivência de algo que está sendo tão puro como o amor. ♥ Hoje em dia, por mais que a Carla e a Nath vivam num relacionamento quase que à distância, por conta do tempo em que a Nath passa em Ribeirão Preto estudando e morando no outro apartamento, elas sonham com o momento em que vão estar juntas em um lar só delas ♥ Elas, inclusive, por quererem casar mas entenderem que não possuem condição financeira para isso agora, fundaram um perfil no Instagram: o @rifasporamor (clica aquiii!). Lá elas sorteiam rifas e quem compra colabora com o sonho do lar e do casório! É uma iniciativa fantástica. Além disso, elas fazem diversas ações para falar sobre amor, sobre a quebra de preconceitos e sobre direitos das mulheres para as pessoas que se interessam em comprar as rifas e ganhar os prêmios! Para elas, esse amor que constroem juntas e que querem seguir construindo está relacionado ao cuidado e ao quanto compartilham: seja no diálogo, na forma que se olham ou que se respeitam. A Carla conta que uma vez deu um presente para Nathalia com a frase escrita: “O amor é o mais alto grau da inteligência humana”. E acredita que o amor resume tudo, ele é tudo! As pessoas só chegam em bons lugares pelo amor, mesmo a sociedade estando um caos, o que mantém ela melhorando a cada dia ou as pessoas lutando e tentando melhorar é o amor. O amor por si mesmo, o amor nas relações ou o amor por outras pessoas. “O amor é Deus, é vida”. A Nath é muito grudada na família dela e, uma coisa muito legal que vale comentarmos, é que ela é prima da Camila, companheira da Samantha que também irão aparecer aqui no site do Documentadas! Durante a nossa conversa, ela falou várias vezes sobre algumas pessoas da família, mas em especial da sobrinha, que é o maior xodó e uma criança que ela quer ajudar na criação e na educação. Já a Carla, é muito ligada à religião. Ela é Católica e faz missões na igreja, então se dedica ativamente a falar sobre diversidade, cultura e valores educacionais para pessoas da periferia. Falamos sobre a dificuldade dessas pessoas terem acesso aos locais distantes e ela deu o exemplo claro de como a mobilidade urbana não funciona para as pessoas pobres em Campinas (e no Brasil, como um todo). Este foi apenas um dos pontos que citamos, mas que ela disse ser absurdamente necessário para um primeiro passo sobre um debate mais amplo e plural sobre direito à cidade e a cidade ser frequentada por uma mistura de públicos. Ela acredita que a cidade deveria ser feita por e para todo mundo. Carla Nathalia
- Jaque e Tainá
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Jaque e da Tainá, quando o projeto passou pela Bahia!. Ao conversar com Jaque e Tainá no Pelourinho, em Salvador, nem imaginava que minutos depois ao fazermos as fotos iria rolar o pedido de noivado delas. Nada estava combinado, seria uma surpresa da Jaque para Tainá e ela aproveitou uma ida ao banheiro para me contar (e perguntar se era possível que eu registrasse entre uma foto e outra). Achei a ideia maravilhosa e a cara do Documentadas. Assim, em meio ao inesperado, perguntei mudando de assunto repentinamente, o que elas pensavam sobre o amor: Tai explica que desde a primeira vez que o projeto chegou para ela, por conta de algum repost de conhecidos no Instagram, pensou sobre a potência do amor entre mulheres. Refletiu as suas vivências. Conta que já vinha trabalhando e entendendo o feminino, pensando nas mulheres ao seu redor, no quanto vivencia isso diariamente enquanto a maternidade, o trabalho, o relacionamento… Sente que as mulheres precisam cuidar uma das outras porque nosso amor é muito potente. E, por mais que tanto tenha demorado para pensar sobre sua sexualidade, hoje em dia entende o quanto é importante conhecermos nossos desejos. Tai passou o maior período da sua vida silenciando suas vontades, não se questionando e nem se permitindo nada por conta da sua criação, sempre fez o que mandavam fazer e hoje, ter uma vida cada vez mais livre, é também um ato de amor. Jaque completa que o amor está nesse insistir, na disposição. Nem sempre vai ser feliz, alegre, porque existem dias muito difíceis e por isso tentam buscar calma uma na outra. Conta o quanto admira na Tainá todo o feminino que ela carrega e no quanto juntas confiam nas mulheres. Para Jaque, o amor está em todas as ações diárias. Jaque e Tainá hoje em dia moram em Camaçari, região metropolitana de Salvador. Tainá, no momento da documentação, estava com 28 anos. Trabalha enquanto enfermeira na maternidade e num hospital em outras alas. Depois de muitos anos foi chamada para um concurso que passou, por isso, decidiu fazer a mudança para Camaçari - ou melhor, para Abrantes, cidade vizinha. Lá, mora com seu filho, de 4 anos. Jaque, no momento da documentação, estava com 35 anos. É professora de história, dá aula para os alunos do ensino fundamental e médio, mas no momento está afastada pois trabalha com assessoria política, é vice-presidente do Partido dos Trabalhadores em Camaçari e também estuda direito, está quase completando a graduação. No tempo livre, elas adoram estar no Pelourinho. Saem para comer, gostam de ir em sambas, beber cerveja e falar besteiras sobre a vida. Também não abrem mão do descanso, afinal, ser mãe é algo muito cansativo. Foi através da irmã mais velha de Jaque que ela e Tai se conheceram, Tai trabalhava na Prefeitura de Camaçari e a irmã de Jaque era sua chefe. Elas saiam bastante, eram bem próximas e no último carnaval antes da pandemia de Covid-19, em 2020, ela conheceu Jaque. Na época, não tinha clareza sobre sua sexualidade, nunca tinha ficado com mulheres e nem cogitava isso. O tempo foi passando, saíram juntas várias vezes, Jaque inclusive iniciou relacionamentos com outras pessoas e Tai foi passando pelos processos de entender melhor a sua sexualidade. Em 2022, Jaque viajou e mandou fotos da viagem num grupo de amigas que possuem em comum. Foi aí que Tai começou a ver as fotos e entendeu que sentia algo diferente por ela; Assim, decidiu investir, mandou algumas mensagens em tom de brincadeira pedindo presentes da viagem, o presente em específico era “Um crush ou uma crush” e Jaque gravou essa mensagem, foi algo marcante para ela. Na versão da Jaque, desde o começo conta que achou a Tai muito bonita, mas nunca cogitou nada porque a via apenas como a amiga hétero da sua irmã. Foi naquele período em 2022 que uma amiga em comum comentou com ela que, pelos comentários da Tai no grupo, parecia que ela estava dando em cima, e ela entendeu que nunca tinha percebido. Começou a dar bola, e depois, quando voltou de suas viagens, a chamou para ir ao Pelourinho numa sexta-feira. Acontece que, no dia que marcaram o samba no Pelourinho como primeiro encontro das duas, acabaram se vendo mais cedo na hora do almoço sem querer entre o pessoal do trabalho da irmã da Jaque. Elas reagiram como se nada fosse acontecer mais tarde, o que deixou Tai muito insegura, pensou até que o encontro não fosse mais acontecer. Mas aconteceu, se viram e Jaque fez diversos interrogatórios para ela, perguntando por qual motivo ela estava desejando se relacionar com uma mulher logo agora. Jaque explica que os interrogatórios não foram à toa, nem para constrangê-la, mas por querer entender de fato. Não gosta de ser objetificada por mulheres héterossexuais e nem ser usada como experiência, queria entender em que pé estava isso, essa “dúvida” e se poderia confiar no que estavam sentindo. Acabou que conversaram a noite toda e ao final do encontro se beijaram. Refletem, nesse processo, o quanto Jaque era de fato uma pessoa muito travada no começo. Se via de forma muito reservada. Foi/é um processo muito difícil de se abrir, Tai foi incentivando que ela se permitisse o ritmo da relação, desde sair nas ruas de mãos dadas para ir em lugares simples como a padaria, até conversar sobre os sentimentos básicos, desde coisas pequenas até grandes acontecimentos. Tainá conta o quanto “os sentires” foram diferentes. Tudo foi muito diferente do que ela já havia sentido e vivido, tanto no físico quanto no emocional. Primeiro, porque Jaque já conhecia muito sobre a história dela e ela já conhecia muito sobre a história da Jaque, então o quanto já se acompanhavam falava muito sobre seus medos, traumas, confianças… A relação ajudou a olhar de outra forma para a amizade que já possuíam, nas palavras dela, foi como dizer: “Tô aqui para você, mas precisamos ir juntas.” Jaque acrescenta o quanto sempre foi de falar sobre todos os assuntos do mundo, menos sobre o que está doendo nela. Então o esforço que Tainá precisava fazer, principalmente no início, foi muito grande. Um grande exercício de conversa. Jaque nunca foi criada na forma verbalizada do “Eu te amo”, mas sim na ação de fazer a comida, de cuidar, de ter as roupas limpas, a casa acolhedora… Fala do quanto viveu com a casa cheia, muitos militantes, o pai sempre foi militante e sempre acolhia os outros, então aprendeu a amar assim, na solidariedade, na ajuda e na caridade. Se fortalece na ideia do amor enquanto algo comunitário. E aprende diariamente nos esforços com a Tai que amor não é só tato, olfato ou audição, é uma mistura de tudo. Para Jaque, a relação que ela vive hoje ensina a amar melhor. Tai conta sobre suas vivências familiares e o quanto o amor pra ela às vezes pode ser diferente do que aprendeu, por isso, tenta dar a melhor educação para o seu filho (que as aceita e vê o relacionamento delas de forma natural), fazendo com que ele entenda o papel dos homens na sociedade, seja educado, respeitoso e assuma as tarefas de casa. Além disso, não quer mais entender o amor enquanto posse ou eterna gratidão, quer uma ressignificação do sentimento, ser ela mesma e ser amada da forma que é. Não quer ver as pessoas sendo donas uma das outras, ver o amor sendo desgastado enquanto relações tóxicas. Fica feliz por ter encontrado um relacionamento diferente de todos os outros que já viveu e por isso tentam sempre entender uma à outra, ouvir, conhecer e viver cada vez mais o que desejam. ↓ rolar para baixo ↓ Tainá Jaque
- Clara e Mariana | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Clara e Mariana são as duas meninas mais novas que já passaram pelas histórias do Documentadas - e também as duas meninas com o olhar mais atento aos detalhes artísticos ao nosso redor. Clara tem 18 anos, nasceu em Criciúma - Santa Catarina, é estudante de pré-vestibular e trabalha como jovem aprendiz enquanto almoxarife. Sonha em cursar cinema, sua grande paixão e arte responsável por mudar a perspectiva e visão de mundo sobre todas as coisas que já viveu. Em um momento da conversa, a Clara compartilhou que possui uma vontade muito grande de estudar cinema justamente por querer se envolver em projetos que atuem no país integrando culturas e trazendo oportunidade de expressão para que as pessoas coloquem para fora o que sentem/como se sentem, pois acredita no cinema para muito além que um produto: uma forma de expressão das mais potentes. Mariana tem 17 anos, também nasceu em Criciúma - Santa Catarina, também é estudante pré-vestibular, atualmente ela dá aulas de ballet e jazz. A dança sempre esteve muito presente na sua vida, desde criança é seu maior divertimento e sonha em seguir carreira. No tempo livre, a Mari também participa de um projeto chamado “Ela”, que distribui kits de higiene pessoal e absorventes para mulheres na região carbonífera do Sul de Santa Catarina e a ideia é que o projeto se amplie cada vez mais. ♥ A inspiração da Mariana vem muito de dentro de casa, tendo uma mãe feminista que ela sempre viu com olhar de admiração e que a insinou a ser quem ela quer ser. Além disso, toda a vivência das duas juntas mostra diariamente que estão dispostas a evoluir e se posicionarem com as suas opiniões, estarem abertas às mudanças e às novas percepções. Ela comenta o quanto segue, junto à mãe, ensinando e compartilhando muito uma com a outra. Já a inspiração da Clara vem da arte. É através de diretoras de cinema que ela encontra sua inspiração sobre o que gostaria de ser no futuro - e entre esses sentimentos, o que mais a desperta é a coragem. Além da arte, a mãe dela também a inspira muito diariamente para conseguir contar e enfrentar as dificuldades no cotidiano. A relação da Clara e da Mari de contar sobre o relacionamento para a família foi diferente para cada uma, a Mari foi contando aos poucos e hoje em dia todos têm uma boa relação. Já a Clara, conta que a mãe dela acabou descobrindo a partir de uma carta que a Mari tinha dado à ela. Foi um baque a descoberta em si, porque ela já estava planejando contar e o momento acabou vindo antes do preparado, mas acabou saindo do armário de alguma forma. Hoje em dia, ambas famílias se dão bem e juntas elas adoram cozinhar, passar um tempo deitadas sem fazer nada, apenas se curtindo e conversando sobre coisas aleatórias. Clara e Mariana se conheceram na escola em 2019, eram de turmas separadas, mas o destino deu um jeitinho e uniu as duas na mesma turma… Ficaram bem próximas e a Clara começou a gostar da Mari, mas a Mari estava bastante confusa sobre o que sentia, se gostava de meninas ou não, se gostava da Clara ou de outra menina… Eram muitos sentimentos novos para administrar… E aí na conversa a Clara diz: “É a típica história de se apaixonar pela amiga!” Sim, é. E a Clara já sabia que gostava de mulheres, mas até então imaginava ser bissexual. Ela conta que a Mari foi essencial para sua descoberta pessoal, foi uma grande ajuda nesse processo de auto entendimento e aceitação. Aos poucos elas foram evoluindo, se descobrindo e se desenvolvendo. Mesmo que não tivessem muita noção sobre o que estava exatamente acontecendo, elas nunca deixaram de estar juntas. Quando a Mari entendeu que precisava escolher e se abrir com a Clara sobre o que sentia por ela antes que a perdesse, decidiu se declarar e foi aí que elas ficaram realmente juntas num relacionamento. Assumiram isso para todo o colégio (Que inclusive, diga-se de passagem, é um colégio católico, administrado por freiras e bastante conservador) e seguiram cada vez mais juntas. Elas entendem que amar é, também, respeitar suas individualidades e seus momentos. Então, por mais que nos momentos difíceis se apoiem, elas sabem respeitar suas particularidades e seus espaços mais reservados. Contam que dão mais valor ao apoio e ao companheirismo quando se juntam fisicamente, corpo-a-corpo, e que dentre os momentos mais difíceis que passaram está o começo do namoro, quando a coordenação da escola pediu para que elas cuidassem com as demonstrações de carinho por conta das possíveis incomodações com pais de alunos dentro da escola (Mas que elas souberam lidar firmemente e tiveram apoio da família) e com a própria pandemia, que nos desperta muitos sentimentos de incerteza e ansiedade perante o futuro. Para a Mari, amar é se sentir bem, transmitir bem-estar e felicidade. Amar pode trazer algumas preocupações e momentos não-tão-bons também porque isso faz parte das relações humanas, mas isso não pode se transformar e ser maior do que a gente. “O amor é leve!”. A Clara completa que no amor a gente se sente seguro e sereno, mesmo com a preocupação, é quase sem preocupação (risos) “Porque até com preocupação a gente se sente bem e é acolhida”. O amor entre mulheres, para elas, é sobre ter conexão e entendimento único. Por fim, mas não menos importante, a Mari e a Clara escolheram essa praça porque foi o local onde deram o primeiro beijo, na cidade em que elas moram, lá em Criciúma! Um local que elas amam frequentar e fazer piqueniques. Por mais que elas queiram estudar na capital, elas não esquecem da importância de levar e de debater mais cultura para a cidade onde moram, trazer de volta a história da cidade (Que no momento encontra-se abandonada) e incentivo aos artistas locais e das escolas municipais. Um olhar para a cultura da melhor forma: construtiva. Construindo uma nova cidade que saiba de onde veio. Mariana Clara
- Ari e Ane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Ari e da Ane, quando o projeto passou por São Paulo! O encontro da Anelise, da Ariana e dos gêmeos Liz e Lucca com o Documentadas aconteceu num momento bem inicial da vida dos pequenos, antes mesmo de completarem 4 meses, num parque em São Paulo. Com entusiasmo, elas contam sobre como tem sido a vivência inicial da maternidade em dupla e como já ouviram diversas vezes as pessoas falando sobre os dois serem sortudos em ter duas mães. A partir do que vivem agora perceberam que qualquer mãe em um relacionamento heterossexual passa a ser uma mãe solo pelas necessidades básicas que enfrenta, muitas vezes sozinha/sem apoio para dividir intimidades - precisa fazer xixi, tem diversas questões com o corpo (a amamentação, o pós parto) - e como é diferente positivamente compartilhar isso com outra mulher na dupla maternidade, não é algo solitário. Também compartilham medos e situações inesperadas, como as primeiras noites, os choros e os momentos difíceis. Sabem que podem contar uma com a outra. Entendem que querem proporcionar coisas diferentes para as crianças, coisas que as famílias héteros talvez não precisem se preocupar porque não precisaram passar pelos desafios que passamos. Querem criar crianças conscientes. Ari comenta que viver a maternidade sem vincular à política é quase impossível, principalmente porque a fertilização de casais homoafetivos pelo SUS não é possível, o acolhimento do sistema único de saúde precisa melhorar, precisamos de representatividade, desde fisioterapia para a gestante até enfermeira que fale sobre amamentação. Ane completa que só está ali hoje porque brigou muito pela licença maternidade, mas que não deveria brigar, e sim ser lei, para então termos maneiras mais justas de vivenciarmos nossas formas de amor. Ane e Ari se conheceram em 2016. Ane sempre foi festeira, morava próximo à Av. Paulista e tinha uma vida agitada. Ari terminava a residência médica. No meio da semana, num feriado, Ane foi ao show da Preta Gil e Ane trabalhava no Hospital da Santa Casa, quando se cruzaram num aplicativo de relacionamento que funciona pela distância física (quando as pessoas passam uma pela outra em lugares próximos, elas aparecem no aplicativo). No dia seguinte, Ane acordou de ressaca e viu a Ariana no aplicativo. Deu um superlike, assim, apareceria logo que a Ari abrisse o app. Acabaram dando match - e afirmam que se não fosse essa “chamada de atenção”, provavelmente não teria rolado, já que Ari nem dava bola para os aplicativos (e nunca tinha saído com alguém assim). Decidiram sair, foram em um restaurante que não combinava nenhum pouco com elas, comeram salada e depois atravessaram a rua para ir num pub, que também não combinava com elas, mas ao menos tinha cerveja. Deu certo! Tudo fluiu e continuaram se encontrando aos poucos. Depois de dois meses, Ane estava com uma viagem agendada com um amigo para Cuba e chamou Ariana para ir. Ari recém tinha acabado a residência, estava querendo viajar e topou. Decidiram ir juntas e já entenderam que estavam se relacionando. Depois de um tempo de relacionamento, mas ainda no começo, Ane recebeu uma proposta de trabalho muito boa, porém que precisaria se mudar para Porto Alegre. Pensou muito, Ari apoiou, a encorajou, mas acharam que o relacionamento não iria durar pela distância. Ane acabou indo, morou lá por dois anos, e elas se encontravam aos finais de semana quando conseguiam, fazendo a ponte aérea POA X SP e usando uma manutenção diária para manter o relacionamento de todas as formas. Contam que não foi fácil, existia a saudade, a vontade de estar junto… Mas nesses momentos se usa todas as alternativas possíveis: se davam mais presentes, bilhetinhos, dedicatórias, chamadas de vídeos, aproveitavam 100% do tempo quando estavam juntas… Ari acrescenta que mesmo sendo pessoas diferentes, quando se conheceram, já se viam de formas completas. Isso auxiliou muito nesse processo. Já tinham suas profissões (e eram valorizadas), já valorizavam uma à outra, tinham suas redes familiares, seus amigos… Então tudo foi muito mais fluido, as cobranças quase não existiram. Depois dos dois anos em Porto Alegre, voltando à São Paulo, juntaram os animais de estimação, os móveis, a casa, e foram morar juntas. Anelise estava com 35 anos no momento da documentação. Ela é do interior de São Paulo, mas mora na capital há muitos anos e trabalha como advogada de empresas. Hoje em dia, o tempo livre é 100% ocupado pelos pequenos, mas também gosta de ir em rodas de samba, tocar violão e assistir filmes no cinema. Ariana estava com 38 anos no momento da documentação. É natural de São Paulo e trabalha enquanto médica pediatra. Conta que o tempo de agora é para fazer um conhecimento - conhecer os filhos e os filhos conhecer as mães. Nos primeiros momentos, o tempo era para fazer coisas básicas (comer, dormir, tomar banho…) e agora, com eles no carrinho, tem sido possível tomar café da manhã, por exemplo, o que é um grande prazer compartilhar esse momento com eles. Foi durante a pandemia que começaram a pensar sobre a maternidade, sobre quem iria engravidar e como seria. Tentaram uma vez e não deu certo. Depois, tentaram novamente, com aquela possibilidade - dois óvulos, podem ser gêmeos. Tinham medo pelas questões financeiras, mas encararam. Descobriram a gestação na semana da Parada LGBT de São Paulo, e agora, um ano depois, irão na Parada novamente - com eles no colo. Anelise conta que aprendeu com a Ari que o amor pode ser algo leve, com diálogo e respeito. Ela sempre foi muito afobada, atarefada… e hoje em dia é diferente. Não acha que só o amor sustenta relações, é preciso uma série de coisas, como respeito, carinho, atenção, um esforço orgânico, natural. Ambas entendem seus privilégios, mas entendem também que mesmo ocupando o local que ocupam ainda enfrentam diversas questões de preconceito por serem duas mulheres mães que se relacionam afetivamente. Por isso, aprenderam a enfrentar essas questões com o tempo. Falam também sobre como é importante a rede de apoio que possuem. Podem contar com os amigos, com a família, e isso facilita muito para a existência do privilégio de viver um amor leve. ↓ rolar para baixo ↓ Ariana Anelise
- Julia e Milena
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Julia e da Milena, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! No começo do relacionamento foi um pouco mais difícil manter os encontros, por conta da família não saber, não lidar muito bem e a pandemia não permitir que saíssem de casa. Agora, mesmo com a distância intermunicipal, elas acabam se vendo a cada 15 dias ou nos fins de semana. Entendem que essa escolha faz parte da relação e que o relacionamento está sendo construído com muito respeito e conforto, tendo cumplicidade. Nesse momento, a Milena disse que nunca teve alguém na vida que olhasse ela e tratasse ela da forma que a Júlia a olha e a trata, e que isso já resume toda a diferença e tudo o que o relacionamento vem significando para ela. “Todo o carinho. Todo o cuidado. Ninguém nunca se preocupou comigo assim." No começo da conversa, a Júlia tinha comentado sobre uma mulher que estava no metrô olhando as duas no caminho que fizeram até o local que nos encontramos. O olhar que ela fez foi um olhar específico de julgamento, não chegou a ser vulgar, foi algo do tipo “nossa, mas duas meninas? por que elas não estão com homens?”. Ela estava realmente bem incomodada com esse olhar, falou dele várias vezes na conversa. Comentamos sobre a diferença de olhar que nós mulheres recebemos quando estamos sozinhas, quando estamos com nossas companheiras, quando são dois homens, quando é um homem gay, quando é uma mulher nos olhando e quando é um homem nos olhando… sobre como todos os olhares são diferentes, mas como todos eles são violentos. Ela disse que queria que as coisas LGBTs fossem mais divulgadas para que tivéssemos mais espaços de fala, não só para “nos mostrarmos”, mas para educarmos essas pessoas, para explicarmos “sim, somos duas mulheres, amamos, está tudo bem, viu? não precisa do homem”. A divulgação pela nossa própria representatividade, porque precisamos disso, porque é importante para nós. Elas comentam também o quanto o fato de ocuparmos esse espaço as coisas já vão mudando naturalmente, como na própria família: os familiares que antes nunca usavam o termo “namorada da Milena” ou “namorada da Júlia”, ou que substituíam por “amiga”, hoje em dia já estão verbalizando isso… e que elas já estão podendo se referir à mãe da companheira enquanto sogra. O quanto faz diferença para a gente nos considerarem enquanto uma família e enquanto parte da família. O quanto elas vibram em cada pequena conquista que acontece quando uma está na casa da outra e sentem que avançam um pouquinho nessa conquista de território, que é diária. Sabe aquela famosa frase que nos acostumamos a ouvir? “e ai depois veio a pandemia.”, pois é. Foi logo em seguida, então os sentimentos se misturaram novamente: o término da Jú, ela tinha recém começado em um novo emprego, as várias coisas acontecendo mundialmente, tempos de incertezas, mudanças bruscas e todos dentro de casa. Elas foram voltando a conversar com maior frequência, de forma online, e só puderam se encontrar no início de junho. Quando se encontraram foi certeiro: começaram a namorar na mesma semana. Hoje em dia a Júlia está com 23 anos e a Milena também, a Jú faz muitas coisas, é fotógrafa, trabalha como social media e faz produtos digitais. Começou uma graduação em jornalismo e adora a área de criação (faz orçamento com ela, gente!), enquanto a Milena está desempregada, mas possui técnico em administração (mandem jobs e vagas por aqui também! estamos super na busca!). A Jú acredita que a fotografia entrou na vida dela como um grande hobby, acabou virando profissão, mas ela ainda faz em grande parte por diversão, porque gosta mesmo é de treinar, desbravar, se aventurar. E a Milena brinca que o hobbie da vida dela é o esporte, jogar e praticar. Elas entendem que cada vez mais querem estabelecer um nível de relação totalmente diferente das que já tiveram antes. Algo muito mais saudável em diversos âmbitos. Desde a família - antes a mãe da Jú não aceitava, por exemplo, e hoje ela adora a Milena. Assim como a família da Milena demorou um tempo para processar também e hoje adora a Jú - até os próprios preconceitos internos que ainda podem existir em nós. E falam sobre querer enfrentar os desafios que surgirem juntas, crescerem e se apoiarem. Desde o começo, quando eram apenas amigas, sempre falaram sobre absolutamente tudo (e por isso se deram tão bem), então agora não será diferente. Elas podem contar uma com a outra para entender seus processos internamente sem julgamentos. Quando falamos sobre isso, a Júlia logo disse em seguida sobre o arrependimento da escolha de ter voltado àquele relacionamento, por conta do ano de 2019 ter sido um ano muito difícil em diversos sentidos, incluindo o relacionamento. Mas como podemos saber se ela e a Milena teriam dado certo se tivessem ficado juntas naquele ano? de alguma forma, as coisas foram caminhando. O ano serviu para que ambas, em seus caminhos distintos, construíssem um amadurecimento muito maior, enfrentando coisas que não enfrentariam estando juntas. Ela também comenta que mesmo reatando o namoro, a Milena nunca deixou de ser uma prioridade na sua vida, e que isso foi algo totalmente novo, ou seja, que ela nunca tinha sentido por alguém. Ela sempre procurou saber como a Milena estava, se estava precisando de algo… sempre deixou amigos por perto dela. No meio do ano, alguns meses depois do afastamento, elas voltaram a conversar. Durante todo o ano de 2019 a vida da Milena também passou por idas e vindas, ela reatou o ex namoro, também passou por mudanças, processos diferentes. Se viu andando em círculos, processos muitos semelhantes aos da Jú. Nos meses em que elas conversavam se identificavam com algumas questões, se encontravam quando ela poderia estar pelo Rio, já que seguia morando em Magé, e conversavam muito sobre como os caminhos tinham sido separados e como mesmo com situações tão diferentes elas ainda se identificavam. Foi em Janeiro de 2020 que a Milena tomou a iniciativa de romper o relacionamento dela, por não sentir que fazia mais sentido continuar naquela forma que estava. Em março a Júlia terminou também. Uma semana antes da pandemia elas se encontraram em um show do cantor Delacruz, no Circo Voador, porque gostavam de uma música dele que sempre teve um significado muito forte para elas. Esse dia foi um divisor de águas, elas consideram que a partir dele e a partir daquele momento queriam passar a fazer as coisas serem diferentes. A Milena olhou no fundo do olho da Jú e disse: eu realmente gosto muito de você. A história da Milena e da Júlia começou oficialmente durante a pandemia, em 2020. Mas elas se conheceram em 2018, durante um curso, enquanto eram jovens aprendizes. A Júlia é natural do Rio de Janeiro, enquanto a Milena é de Magé, no interior, mas toda semana chegava até o centro do Rio para o curso. Na época elas não tinham nada em comum, a Júlia já sabia que se interessava por mulheres e estava num relacionamento com uma menina, enquanto a Milena nunca tinha se interessado por nenhuma mulher, estava em um relacionamento heteronormativo e pensava que não teria muito assunto em comum para conversar com a Jú. Aos poucos, foram criando uma amizade. Na versão da Jú, ela conta que logo no primeiro dia sentiu atração e uma paixonite pela Milena, por isso tentou investir na amizade começando com piadinhas e tentando se aproximar… assim elas se seguiram nas redes sociais e começaram a conversar além do ambiente do cursinho. Com o tempo passando e a frequência ao se verem semanalmente no curso acontecendo, acabaram criando um grupo de amigas e a amizade foi se fortalecendo. Elas passaram a manter uma rotina de conversas ativas, se ligavam por chamadas de vídeos, viraram confidentes. A Milena se sentiu à vontade para contar para a Júlia que estava sentindo algum tipo de atração por ela (Júlia que não à toa ficou com um sentimento de “eu sempre soube que você gostava de mulheres também!!!!”) e então ela contou que não sabia que gostava de mulheres e que essa estava sendo a primeira vez que sentia isso. Como a Júlia estava em um relacionamento, elas até chegaram a sair juntas depois disso, mas não se beijaram ou algo do tipo, apenas continuaram tendo contato. Em janeiro de 2019, o relacionamento não estava indo bem, ela acabou dando um tempo a ex e foi o momento em que finalmente pode ficar com a Milena. Por mais que elas estivessem ficando e se encontrando durante o mês de janeiro, tudo ainda era novo para a Júlia, porque o relacionamento recém tinha acabado, ela ainda se sentia muito dividida. Foi quando a ex-namorada soube que ela estava se envolvendo com alguém nesse período de “dar um tempo” e a pressionou, como quem diz “e aí, você vai começar algo com ela? ou nós vamos voltar a seguir o que já tínhamos construído?”. Foi então que a escolha de voltar ao relacionamento em que estava foi feita. Ela parou de falar com a Milena, parou de frequentar o curso e mudou totalmente a rotina.
- Yasmin e Juliana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Yasmin e da Juliana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A história da Juliana e da Yasmin te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D O momento mais difícil que passaram juntas foi a chegada da pandemia, porque elas tinham uma realidade bem diferente em 2019, muito mais aberta e com maior liberdade aos encontros. Com a chegada da quarentena decorrente do Covid-19, elas passaram MUITO tempo distante, muito mesmo! Foram um total de 7 meses. A pandemia causou muito pânico na Ju porque toda a família dela se encaixa em grupos de risco e ela sentia muito medo de que algo pudesse acontecer com eles. Ainda sente, é claro, mas o risco estava maior por conta da avó dela, com mais de 90 anos, estar morando com ela. Não tinha a possibilidade dela sair de casa e, por mais que a Yas estivesse com muitas saudades, ela realmente entendia a situação. A relação delas é baseada em muita conversa. Elas se apoiam bastante e conversam sobre tudo, dialogam sobre o que sentem. Hoje em dia elas conseguem se encontrar, a avó dela já não está mais residindo no Rio e elas seguem se cuidando bastante, mas conseguem se ver com maior frequência. A Yas comenta que foi como um relacionamento à distância estando na mesma cidade e elas brincam que mesmo tendo sobrevivido, não querem passar pela experiência novamente. Hoje em dia elas dão muito valor aos momentos juntas, desde que seja assistindo filmes bobos de clichês adolescentes, ouvindo todos os tipos de músicas ou deitadas na cama sem fazer nada, desde que estejam fisicamente no mesmo lugar. Foi no centro, inclusive, que elas se conheceram - em um encontro marcado através de um aplicativo de relacionamentos - o famoso Tinder. Elas não entendem até hoje como conseguiram dar “match” (o famoso combinar perfis), por conta de morarem muito distantes uma da outra e não colocarem uma localização que alcançasse tudo isso, mas conversaram, se deram bem e marcaram de se encontrar. O encontro rolou em um local também muito clássico de encontros de Tinder, o CCBB, um Centro Cultural. Porém, chegando lá, enfrentaram uma fila muito grande, desistiram e decidiram ir até a Escadaria Selarón (o local em que fizemos as fotos), um lugar que costumava acontecer rodas de samba, ter feirantes e bastante movimentação. Yasmin tem 23 anos, trabalha com telemarketing e mora em Bangu. Tem como referência familiar a mãe e é suuuuper tímida. A Juliana tem 22 anos, é professora de inglês e também trabalha corrigindo redações, ela estuda Letras - português/inglês e ama literatura. No dia do encontro, foi desenvolvendo o papo e com o apoio de várias cervejas&caipirinhas que a coisa foi fluindo, até que ficaram e a Ju chamou a Yas para ir até a casa dela (lá no Cordovil). Só que tinha dois detalhes importantes: 1. a Yas não sabia onde esse bairro ficava e 2. a Ju morava com os pais, que não sabiam que ela beijava mulheres. Descartando totalmente a importância desses dois detalhes (afinal, quem nunca?) (mas não façam isso, tá? saibam o local que vocês estão indo, principalmente no primeiro encontro!), a Yasmin acabou indo para a casa da Ju e chegando lá deu de cara com os pais dela. Foi tudo tranquilo (para todos, menos pra Yas, visto que ela realmente é bastante tímida), mas ela se passou pela amiga que morava longe e dormiu lá tranquilamente. Com o passar dos dias elas se encontraram mais uma vez, em Madureira, e assim foram amadurecendo a ideia de terem um interesse mútuo, se relacionarem, até que isso virou de fato um relacionamento, ainda em 2019. Hoje em dia, ambas famílias já sabem e as apoiam enquanto um casal, ficou tudo muito mais tranquilo! ♥ A Yasmin e a Juliana acreditam que amar é tentar, ao máximo, não ter medo. Entendem que na vida a gente sente medo, mas que o amor envolve também se permitir sentir esse medo. A Yas comenta que entendeu mesmo o que era amor quando se apaixonou pela primeira vez por uma menina, que sentiu esse nervoso no peito, esse brilho no olho. E hoje em dia ela ama amar a Ju e cultivar esse relacionamento. As duas são cariocas e sempre viveram no Rio, mas moravam em bairros um tanto distantes do centro quando se conheceram - a Yasmin em Bangu e a Juliana no Cordovil (e distantes entre si também). Elas comentam o quanto é diferente andar no centro da cidade e em seus bairros enquanto duas mulheres que se relacionam afetivamente com outras mulheres, recebem outros olhares, possuem outro tratamento. Elas gostam muito do centro e frequentavam bastante antes da pandemia, aqui sentiam a vida mais aberta a novas oportunidades. Yasmin Juliana
- Clara e Rayanne
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Clara e da Rayanne, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Clara morava com os pais dela e por mais que ela se inspire muito na mãe dela e tenha uma referência familiar muito forte, já sentia que era o momento de sair de casa há um tempo… enquanto a Ray estava morando com os amigos na época e também já procurava um apartamento para se mudar. Aos poucos elas perceberam que seria melhor se procurassem um lugar juntas e conseguiram um apartamento que coubesse nos seus planos. O Anakin, gato filhote das duas, veio depois de tudo estar arrumadinho, já em 2021, e está sendo a alegria diária da casa (ele inclusive foi um presente surpresa da Clara para a Ray, que chorou e tudo!). ♥ Hoje em dia a rotina delas é de trabalho e de muito companheirismo. Elas adoram se reunir com os amigos e fazem muitas coisas juntas, mas o programa principal de casal é assistir filmes. A Clara está se abrindo ao mundo dos super-heróis com a Ray, que está ensinando cada detalhe. Elas estão maratonando, aprendendo, desbravando… e têm sido algo muito especial para ambas. A Clara, por fim, comenta que aprendeu a ver o amor (e a relação delas) como um guarda-chuva que tem várias fitinhas segurando outros sentimentos, outras emoções e outras sensações. É um guardião de tudo. E a Ray transmite que se entende muito mais completa hoje em dia, com um propósito diferente e muito melhor. A história da Clara e da Rayanne te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Quando a amiga voltou ao hospital ela foi direto ao ponto, chegou no meio do corredor e perguntou para a Rayanne “vem cá, você é lésbica, né?!” e a Rayanne, num susto, disse “sim? mas por quê?!” e ela explicou “ah, porque tem uma amiga minha que está muito afim de você. Ela é apaixonada por você!”. A Ray já imaginava que era a Clara, mas se fez de desentendida e passou o número dela para a amiga, que levou até a Clara, que por sua vez disse que jamais mandaria mensagem assim, desse jeito, tão direto. Ela ficou contente por ao menos saber o nome, decidiu pesquisar nas redes sociais e adicioná-la no Instagram para puxar um assunto por lá. Esperou o horário do almoço, seguiu, e em menos de 30 minutos depois a Rayanne já tinha mandado uma mensagem para ela. No começo a Clara não sabia muito qual assunto puxar ou como guiar a conversa, então pediu ajuda novamente à amiga. Depois elas foram se entendendo, desenvolvendo e decidiram marcar o primeiro encontro. Saíram de bicicleta e andaram por uma parte da cidade até aquele local em que nos encontramos (simmmm!!! o local da trilha!!!). Como tudo foi no começo da pandemia, não havia muitas coisas abertas, então preferiram um lugar sem aglomerações (humanas, né gente, até porque lá só tem cobra……. brincadeira!!), elas pedalaram, não subiram na trilha, apenas na parte asfaltada, beberam umas cervejas e foram até a casa da Ray depois. E hoje em dia elas moram juntas. É isso. No segundo date se mudaram e adotaram um gato. Vocês queriam o clássico? temos o clássico. Hahahaha é brincadeira também. Mas não muito. Elas realmente adotaram um gato e moram juntas, mas foi um pouco diferente. A vida da Clara e da Rayanne se encontrou durante a pandemia, lá nos primeiros meses, em 2020. Ambas moram em Niterói e gostam muito da cidade, reconhecem o quanto se sentem muito mais seguras morando lá e o quanto a cidade tem crescido por um caminho bom. Acreditam que ainda falta muita política de assistência social e cultura voltada aos LGBTs, assim como a educação para quebrar o preconceito das próprias pessoas que moram lá, e que isso precisa ser debatido e investido diariamente. A Rayanne tem 26 anos, é natural do Rio de Janeiro e trabalha enquanto técnica em eletrônica num hospital. Adora tocar instrumentos, como guitarra, violão e gaita e cursa análise de sistemas. A Clara tem 22 anos, é de Niterói e trabalha enquanto auxiliar administrativa, também no hospital. Ela adora jardinagem e toca piano, além de cantar. Atualmente cursa psicologia. Por trabalharem no hospital, foi lá que elas se conheceram. A Clara começou a trabalhar lá um pouco depois do início da pandemia, sendo mensageira. Ela caminhava muito pelo hospital, passando pelos setores e sempre acabavam se esbarrando no corredor. Uma vez ela ficou perdida e a Ray ajudou, então acabou chamando atenção e ela teve certo interesse, até que um dia ela estava conversando com uma amiga e quando a Rayanne passou atrás delas, ela aproveitou a oportunidade para comentar com essa amiga que se envolvia com mulheres e que queria muito saber qual era o nome “daquela menina”. Como a Ray estava com um crachá provisório que não possuía nome e a amiga também não sabia, ela se comprometeu em ajudar, mas na semana seguinte pegou folga, então a Clara ficou numa espera que durou dias. Seria impossível começar a contar a história da Clara e da Rayanne sem contar a nossa breve aventura e a curta existência do Documentrilhas (primeira e única edição, por motivos óbvios = perrengue). Quando entrei em contato com as meninas, já sabendo que elas moravam em Niterói, perguntei se tinham algum lugar que fosse especial para elas e que gostariam de fazer as fotos e a Clara me mandou a foto um lugar com mato, um sofá (sim, um sofá) e uma vista incrível para a Baía de Guanabara. Eu perguntei como poderíamos chegar lá e ela me explicou que era de fácil acesso, no estacionamento de um hotel, em Niterói. Pensei: estacionamento de hotel, ok. Tem mato, mas deve ser mais para “o canto” do estacionamento. Tempos depois, agendamos, e chegou o dia do encontro. Elas me encontrariam nas barcas de Niterói e iríamos juntas até o hotel. Obviamente deu errado. O que seria um estacionamento virou uma trilha de mato fechado, e ainda se fosse só um mato... mas era logo um barranco, com sol das 14h, areia escorregadia, íngreme, possibilidade de cobras, mulheres perdidas e tudo o que uma aventura pode ter. Achamos a saída e pensamos: não vai rolar fazer fotos aqui, que tal irmos para uma praça comum, como pessoas comuns? ok, chamaremos um uber. Eis que chegou ela, a uba. Num carro em velocidade considerável, a última palavra foi Clara que deu: “não é um uber, é uma uba!” e eu repeti silenciosamente “ah, uma uba...” até que as três focaram na capa do celular que aparecia através do painel do carro: um arco-íris LGBT. As três, paradas, no meio da rua. Um carro, meio golzinho rebaixado, som altíssimo, faz um curva estilo drift (gente, a gente jura hahahaha!) e com os vidros abaixados ela faz um sinal de jóia com a mão, enquanto no som MUITO ALTO, toca, naquela voz famosa entre absolutamente QUALQUER sapatão: “Queeeeem de nós doooooissss ” e ela (a uba) com o sinal de ‘jóia’ no polegar, a máscara no queixo (e ajeitando rapidamente com a mão), diz “e ai, beleza?! entra ai!”. O som rapidamente silenciou e nós três, também silenciosas e sem entender nada quem-era-aquela-mulher-de-carro-tunadou-uber-ouvindo-ana-carolina entramos rapidinho no carro, as três no banco de trás, até que percebemos que a música só parava porque a ré estava acionada, então a cada manobra era um “vai dizer que é ” ré “impossív ” ré “el ” ré “o amor acontec ” ré “er ….”. até que não só a música cantou como o CD todo da bichinha até a praça que iríamos fotografar, no volume máximo, enquanto estávamos com todos os vidros abertos vivendo aquele momento. Jamais imaginávamos que um carro rebaixado daqueles era capaz de suportar o peso de 4 caminhões de grande porte como nós. AGORA SIM, VOU COMEÇAR A HISTÓRIA. ESSA FOI A BREVE EXISTÊNCIA DO DOCUMENTRILHAS. Clara Rayanne
- Fernanda e Alice
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Fernanda e Alice, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Alice e Fernanda adoram a rotina que vivem, o tempo que passam juntas dentro de casa (já que ambas trabalham de home office), as organizações que mantém, a forma que o dia começa com um café e termina deitando na cama com um longo suspiro. Comentam sobre um dia que estavam conversando com uma amiga e ela notou o quanto se comunicavam o tempo todo - se olhando, fazendo carinho, não necessariamente em conversas longas… mas sempre com um “Está tudo bem? / Quer ir embora? / Quer ficar aqui? / Quer alguma coisa?”. E como, nesses atos, estão muito presentes o amor e o equilíbrio que buscam. Nem sempre estão bem, confortáveis ou dispostas, mas sempre há apoio. Se conectaram desde o início do relacionamento através dos traumas já vividos, também. Deixaram claro suas limitações por conta de situações que já viveram, conversaram sobre as dores, acreditam no quão importante é falar para que exista o respeito e a compreensão de onde dói. Alice, completa que a Fernanda virou um suporte emocional, não no sentido de depósito ou de necessidade, mas de companheirismo. Enxerga Fernanda enquanto a pessoa mais gentil e amável com todos ao seu redor e isso sempre a fez querer ficar. Fernanda, no momento da documentação, estava com 35 anos. Ela é natural de Duque de Caxias, região da baixada fluminense, no Rio de Janeiro. Trabalha com atendimento ao cliente numa empresa de cursos online. Ama futebol, jogou durante anos e hoje em dia esportes em geral são seus grandes hobbies. Adora acompanhar eventos, estudar e ler sobre. É flamenguista - e virou sócia do Vasco para incentivar Alice e conseguir ingressos para ela ir aos jogos. Quando mais nova, Fernanda demorou muito no processo de aceitação sobre quem era, e achou importante contar sobre isso. Inclusive, parte de não investir no futebol foi porque era “coisa de sapatão” e ela não se via dessa maneira. Começou a se permitir sair da bolha quando conheceu um grupo de pessoas que gostavam muito da novela Rebelde (RBD) e a grande maioria eram LGBTs, saía com eles e deixou de viver a rotina dela em Caxias, descobriu outras vivências, outros espaços, etc. Quando beijou uma mulher pela primeira vez foi ok, mas quando se apaixonou foi diferente. Demorou muito tempo para se aceitar, aceitar que poderia, mas estar com essas pessoas, nesses novos lugares, foi fundamental. Alice, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é natural do Rio de Janeiro, trabalha enquanto líder de um time comercial numa empresa de empréstimos. É muito unida à família e aos seus irmãos. Diferente da Fê, Alice vem de uma família evangélica e foi criada na Igreja Batista, estudando em colégios específicos e tendo essa vivência bem regrada. Na pré-adolescência se apaixonou por algumas meninas, mas fez de tudo para que isso não tivesse ‘importância’. Quando beijou a primeira menina, tudo fez sentido, mas sofreu muito pelo peso na consciência. Terminou o ensino médio e decidiu: iria parar com isso, seguir os caminhos de Deus. Resolveu conversar com a esposa do pastor, que era psicóloga, e a mulher disse que seria obrigada a contar para sua mãe. Viveu momentos difíceis, na madrugada ouvia sussurros e era sua mãe rezando no pé da cama. O tempo passou, a mãe soube de outra mulher com quem ela se envolveu e acabou saindo de casa, foi morar na comunidade do Jacarezinho num momento muito difícil de fortes guerras, em 2016/2017, vivendo uma realidade difícil e morando com o pai, que também não aceitava. Até que um dia ele cedeu e chamou a namorada para um churrasco. A mãe, em compensação, só aceitou o relacionamento com a Fernanda, recentemente. Fernanda viveu um momento da vida em que saía muito, bebia e esquecia do que vivia. Ia nas festas, estava sempre cheia de amigos… Nessa época, conheceu Alice por conta de uma amiga em comum, sabia da existência dela, mas não lembrava muito de interações. Foi no carnaval de 2020, pré pandemia de Covid-19, que elas se beijaram, no meio de um famoso bloco no Rio de Janeiro. Não mantiveram muitos papos online, até que se viram um dia na praia antes da pandemia realmente acontecer e, com ela, a quarentena. Alice puxou assunto pelas redes sociais (brincam que ainda bem, já que Fernanda é péssima nisso) e finalmente começaram a conversar. As estradas principais que ligam as cidades foram fechadas por conta da quarentena e para que a família da Fernanda não ficasse sozinha em Duque de Caxias, a irmã chamou para que todos viessem ao Rio. Foi quando, estando na mesma cidade e Alice sozinha no apartamento, decidiram se encontrar. Ainda não havia informações sobre a gravidade do Covid, ninguém sabia ao certo, então Fernanda deu a desculpa de que iria doar sangue, realmente foi e depois foi encontrar Alice. Desde então, já estavam apaixonadas. Seguiram alguns meses de pandemia assim… Conseguiram um carro particular para buscar a Fernanda em Caxias quando precisava e diminuírem os riscos de exposição à Covid, e passavam um tempo juntas sempre que conseguiam. is do início do namoro, Fernanda conseguiu um emprego no centro do Rio. A pandemia estava acontecendo e era muito ruim sair da baixada fluminense, pegar diversos transportes e se expor ao Covid-19 para trabalhar. Foi então que uniram a vontade de morar juntas com a necessidade e ela foi dividir um lar com a Alice. Tempos depois se mudaram para o novo apartamento - onde estão hoje - e lugar que amam. Fernanda conta que imagina o relacionamento para a eternidade, porque ele se encaixa em tudo o que deseja. Elas adoram a rotina, adoram planejar e também adoram o que já possuem. Foram viajar pela primeira vez juntas para fora do Brasil e planejaram cada passo da viagem, contam como foi bom de se viver, mas que para além de coisas “grandiosas” assim, o que mais gostam é de deitar na cama de casa junto com a gatinha que divide lar com elas e pensar “Esse é o melhor lugar do mundo”. ↓ rolar para baixo ↓ Fernanda Alice
- Kelly e Amanda
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Kelly e da Amanda, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Kelly e Amanda estão juntas há mais de 18 anos. Contam que para fazer o relacionamento dar certo por tanto tempo criaram quase que um pacto de diálogo - tudo é conversado. Já enfrentaram processos depressivos, situações difíceis, mudanças de casa e de trabalho. A rede de apoio é fundamental, e a forma que lidam com paciência entendendo que as coisas fazem parte de processos e ciclos é evidente. Nos momentos mais difíceis tentam se equilibrar: quando uma está estressada, a outra ameniza. Mas há também os momentos em que ambas não se sentem bem e nesses a prioridade é: “Se não tem nada de bom pra falar, deixa pra falar depois”. Preferem o silêncio, mesmo que seguindo fisicamente juntas, sentadas uma ao lado da outra. Quando se conheceram, Kelly juntou suas coisas, colocou num saco de lixo preto e saiu de casa para viver essa relação. Conta o quanto foi difícil, ninguém validava e acreditava nesse amor. Em momentos depressivos, tentava afastar a Amanda achando que ela não deveria passar por isso também. Amanda, por sua vez, firmou o pé no chão e disse que ficaria ao lado dela a todo custo e assim entenderam a importância uma da outra, passando pelas primeiras barreiras juntas. Amanda, quando olha para trás e enxerga toda a vivência e o quanto construíram o relacionamento, não consegue ver tristeza. Se sente uma pessoa muito melhor. Kelly é natural do Rio de Janeiro, no momento da documentação estava com 35 anos e trabalha enquanto pedagoga e psicóloga. Amanda também é do Rio de Janeiro, no momento da documentação estava com 42 anos e trabalha na área de pesquisa/inovação em química. Está concluindo o doutorado. Contam um pouco sobre a rotina sempre cheia com o filho, Antônio, de 1 ano e 3 meses. Até então ele ainda não vai à creche e elas se sentem muito felizes de poder viver essa infância com ele em casa, junto dos sobrinhos e primos, as crianças da família. Além das crianças, existem os 19 gatos que estão no lar. Quando se conheceram, em 2005/2006, nem pensavam em ter gatos porque ambas nunca tinham tido muito contato, adoravam cachorros, até que num dia de chuva acharam uma gatinha preta e não conseguiram deixá-la na rua. Ela foi uma fiel companheira de anos, se chamava Ágata e a Kelly fez uma tatuagem em homenagem. Passaram um período da vida morando em Cabo Frio, nessa época já tinham 4 gatos e uma cachorra. A rotina era muito puxada, acabavam tendo que fazer uma migração pendular (sair de Cabo Frio para trabalhar no Rio de Janeiro) diariamente até ficar insustentável. Em 2013 voltaram ao Rio. Nessa volta, os outros gatos começaram a surgir. Moraram numa casa muito complicada, vivendo períodos difíceis e lá os gatos surgiam na porta. Foram 12 gatos resgatados da rua - e tiveram algumas ninhadas - que chegou a somar em 22 gatos no total. Foram cuidando de cada um, nunca doaram. Depois de se mudarem novamente e para uma casa melhor (onde moram agora) conseguem ver uma diferença grandiosa na qualidade de vida. Não é fácil cuidar de tudo, manter limpo, envolve também muito gasto. Mas sentem que estão cada vez mais ‘expert’ enquanto cuidadoras. O que as deixa muito felizes é ver a casa cheia de crianças. Os sobrinhos passam muito tempo com elas, por exemplo. Treinaram muito para ser mães (e ainda tomam uns caldos da maternidade), mas a casa segue divertida. Kelly explica que sempre quis ser mãe, era uma certeza na vida dela, mas não imaginava engravidar. Acabou que os planos mudaram e entraram no acordo. Amanda, por sua vez, se relacionava com homens antes de conhecer a Kelly e explica que a visão que tinha sobre ser mãe era muito relacionada aos moldes tradicionais, então não tinha desejo. Foi a partir do relacionamento com uma mulher que a perspectiva mudou e sentiu que, agora sim, encontrou uma parceria e pode vivenciar a maternidade. Em 2019 tiveram uma conversa decisiva sobre a gravidez. Em 2020 começaram as organizações com um amigo doador porque prefeririam fazer uma inseminação ao invés de viver o processo da FIV e tudo o que ele envolve. Tiveram tentativas de doador que desistiram por ser uma pessoa muito próxima, outro que tentou, engravidaram, mas sofreu abortos seguidos e descobriu uma incompatibilidade… Até que se viram sem saída, precisavam pesquisar em outros meios. Foi quando a Kelly entrou em grupos de Facebook sobre o tema e encontrou um doador que trabalha com isso. Foram 4 tentativas, até o Antônio chegar. Em 2015 (quando ainda não era possível que mulheres que amam mulheres se casassem no cartório) elas conseguiram realizar o casamento devido à uma ação feita pelo projeto Rio Sem Homofobia, juntando mais de 180 casais num casamento coletivo. Os familiares e amigos foram, viram muitas pessoas celebrando o amor e o dia foi muito significativo, mas reiteram a importância do casamento por uma questão política também, tinham a preocupação de serem reconhecidas enquanto família e companheiras. Kelly traz como referência de amor uma música do Mundo Bita que fala sobre amor em suas múltiplas formas, desde o aconchego, o cuidado, as coisas cotidianas e o se permitir errar. Enquanto narram suas histórias, lembram das diversas fases que já viveram: a da paixão profunda, a de serem muito festeiras e também outra em que estavam muito caseiras e a própria maternidade, como vem sendo. Adoram cada uma dessas fases. Hoje em dia, caminham para a educação do Antônio ser a melhor possível e pensam na pessoa que querem ver ele se tornando. Amanda explica que toda essa preocupação é, também, política. Desde o registro dele quando nasceu, tudo é político. Ele terá consciência disso e da importância que a dupla maternidade tem. Para além do Antônio, também fazem questão de ser exemplo para as outras crianças que estão na vida delas, levando o amor como bandeira, e também no trabalho, quando todos reconhecem a família da Amanda, acompanharam a Kelly grávida e adoram o Antônio. Quando caminham nos corredores do trabalho dela, sente que a família é reconhecida e entende a importância de se posicionar o tempo todo. ↓ rolar para baixo ↓ Kelly Amanda
- Babi e Maria
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Babi e da Maria, quando o projeto passou pela Bahia!. Maria e Bárbara enxergam o relacionamento como um grande divisor de águas: no começo, tinham muito medo de se relacionar. Os traumas, as inseguranças… tudo se misturava e acrescentava para que não quisessem um novo relacionamento. Não achavam justo começar algo se o passado ainda não havia curado. Aos poucos, foram tentando e acontecendo naturalmente. Acreditam que a amizade e o cuidado agiram curando os traumas de forma que nem sabiam que era possível e até mesmo quando os gatilhos eram despertados elas tomavam à frente e tentavam ter o máximo de cuidado uma com a outra. Por mais que se entendam enquanto pessoas muito diferentes, que possuem realidades, estilos e vidas diferentes, se encontram a partir dos propósitos que possuem em comum. Maria conta que desde o começo entraram de cabeça uma nos planos da outra e não se veem mais distantes, se incluem em absolutamente tudo. Compara-se frequentemente aos seus pais ou suas tias que possuem longos relacionamentos e amizades, sentindo que está desde já criando as próprias memórias com a Babi. Desejam ficar juntas de forma duradoura e ficam felizes em ver desde já as memórias iniciais que criam e compartilham. Bárbara, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela nasceu no interior de São Paulo, numa cidade chamada Espírito Santo do Pinhal, mas mora na Bahia há mais de dez anos. Trabalha enquanto modelo, é artista e babá. Também faz curso de enfermagem e quer muito ser doula - agora que a melhor amiga está grávida, finalmente está investindo nesse sonho que acabava deixando de lado. Maria, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é do sul da Bahia, foi morar em Salvador há alguns anos e atualmente mora em Abrantes, uma vila em Camaçari, região metropolitana de Salvador e mesmo lugar onde a Babi reside. Maria trabalha como professora de inglês. Quando já estavam juntas, numa época em que nada estava dando certo na vida da Maria, ela procurava apartamentos para morar em Salvador e não achava, então Babi falou sobre apartamentos muito mais baratos e seguros (por ser em condomínios) em Abrantes. Ela cogitou ir, já que nada mais a prendia na cidade grande já que suas aulas eram online, e conseguiu se mudar. Hoje em dia elas moram no mesmo condomínio, em casas diferentes. Foi em 2022 que Babi, mesmo nunca gostando de aplicativos de relacionamento, resolveu baixar o Tinder no auge de sua solteirice. Ela estava em Salvador visitando uma amiga e logo deu ‘match’ com a Maria. Maria mandou um “Oi, tudo bem?”, ela não respondeu e Maria pensou “Nossa, que rude!”... 10 minutos passaram e Babi respondeu pelo Instagram: “Tudo, e aí?". Conversa vai, conversa vem, elas viram pelo aplicativo que estavam muito próximas, descobriram que na verdade era na mesma rua e decidiram se encontrar. Contam que nunca tinham feito isso, estavam com medo de ser um homem e/ou uma pessoa casada, mas no fim deu tudo certo. Bárbara avisou que estava saindo, Maria nem conseguiu se arrumar, abriu a porta e ela já estava lá. Ficaram com os amigos em casa, tudo foi bem divertido. Conversaram a madrugada toda, só se beijaram na hora de dormir. No dia seguinte estavam pensando que “Ah, foi uma noite legal e só”, mas logo nos próximos dias já se viram, se viram, se viram… E até hoje o maior tempo que ficaram distantes foi no máximo por uma semana. Um mês depois do primeiro encontro o pedido de namoro saiu… e acreditam que justamente pelo tanto que vivem juntas sentem que o tempo de relacionamento parece ser muito maior do que realmente é. Hoje em dia, Maria voltou a dar aulas presencial. Estão vivendo mudanças bem legais, adoram cozinhar juntas, fazer coisas artesanais, escrever poemas, tocar instrumentos, ficar com os gatos… Maria conta que vê a Babi como alguém que entrou na vida dela para melhorar tudo. Sua vida deu um salto de qualidade gigantesco. Babi completa que foi recíproco, ambas melhoraram. Maria ajuda ela nas questões familiares, ensina sobre a independência, sobre correr atrás dos seus sonhos e lidar com os pais corujas. Para Maria, todo amor é uma construção, não é algo que acontece de um dia para o outro. Fala do amor dos pais, o quanto admira-os e o quanto precisou ser reconstruído dia após dia, por exemplo, quando ela se assumiu. Explica que se viu amando quando percebeu que confiava sua vida à Babi, e fica muito feliz que a construção delas tenha acontecido de forma leve, porque são uma para a outra o que sempre foram para os outros e que os outros nunca foram pra elas. Por fim, querem ressaltar que o relacionamento é marcado por “Primeiras vezes” desde que se conheceram, ou seja, sempre possuem primeiras experiências juntas. Como: primeira sessão de fotos, primeira vez viajando juntas, primeira vez que a família conheceu alguma companheira, primeira vez que foram no Festival de Verão de Salvador… e que escolheram ir nos brinquedos para tirarem as fotos porque é um lugar que amam muito, que se sentem felizes e que podem ser quem são de verdade. ↓ rolar para baixo ↓ Bárbara Maria
- Sofia e Carol
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Sofia e da Carol, quando o projeto passou por São Paulo! Entre tudo o que gostam de fazer juntas na rotina caseira num apartamento no centro de da cidade, Sofia e Carolina descobriram o maior dos hobbies em comum: o gosto pelo café. Apelidaram carinhosamente de “ritual”, mas estudam, adoram organizar todos os equipamentos e descobrir novos tipos de grãos. É o momento mais precioso dentro de casa. Sofia, no momento da documentação, estava com 47 anos. Ela é natural de São Paulo, trabalha com um blog de viagens e morou um tempo em Salvador. Carol, no momento da documentação, estava com 38 anos. Ela também é natural de São Paulo e trabalha enquanto fisioterapeuta. Brincam sobre como são pessoas preguiçosas, porque só vão em shows que tenham assentos e que não são muito festeiras, não curtem muito viver o carnaval. Por outro lado, adoram explorar a cidade de outras formas, como andar de bicicleta e de moto. Desejam em breve começar viagens juntas de moto para lugares um pouco mais distantes que o comum. Carol entende que foi Sofia quem trouxe ela de volta à vida através do amor. Foi esse amor que permitiu um redescobrimento sobre quem ela era: desde usar o cabelo que sempre quis (mas que nunca pode por conta de outro relacionamento bastante abusivo), até usar as roupas que deseja sem sentir medo de acharem que ela “está muito sapatão”. Entende, agora, que isso nem é um problema - o problema era ela não viver a vida antes. Hoje, acredita nas energias, nas espiritualidades. Sente que o caminho delas estava para se cruzar há muito tempo e que isso só aconteceu para crescerem juntas, pois estão sempre dispostas uma para a outra. Foi através do Happn, um aplicativo de relacionamentos, que o caminho delas literalmente se cruzou. Sofia, antes de entrar no aplicativo, foi casada por 11 anos. Decidiu baixar e se render à tecnologia porque antes, em outra época, isso não era possível. O ‘match’ aconteceu no final de dezembro, dia 28, mas não se encontraram até o réveillon (ela tentou, Carol não se sentiu confortável sendo tão rápido). Dia 31, foi para Salvador, passar a virada do ano. Conversaram pelo Whatsapp por um tempo, compraram um ingresso para o show do Milton Nascimento que teria em São Paulo (e era uma boa desculpa para se encontrarem pela primeira vez). Porém, a conversa foi esfriando até a data chegar. Sofia estava decidida: iria se mudar para Salvador. Conseguiu um apartamento lá para alugar, conheceu pessoas e se interessou afetuosamente por uma delas… Quando voltou, não sentia mais tanto clima para interagir com a Carol, então marcaram de pegar o ingresso e tomar um café antes do show, como amigas. Inicialmente, a ideia não era nem verem o show juntas, se não sentissem à vontade. Mas ao chegar no café, conversaram por duas horas e se deram muito bem. Decidiram ir ao show, encontraram uma amiga da Carol antes, beberam cerveja e depois do show continuaram a noite em um buteco. Porém, mesmo ficando até 4h da madrugada na noite, existia uma questão: a mudança para Salvador era na manhã seguinte do show. Depois do buteco/e do show, quando chegaram em casa, se falaram pelo Whatsapp e abriram o jogo: sentiram muita vontade de se beijar. Até cogitaram se reencontrar, mas o dia estava quase amanhecendo, a mudança teria que acontecer, Sofia também pensou na pessoa que gostava em Salvador e seguiu seu caminho. Carol ficou triste, passou uns dias bastante abatida, parecia que tinha vivido um término de namoro. No dia 2 de fevereiro, logo em seguida, chegou a ir para Salvador porque já tinha a viagem agendada com uma amiga, mas lá não encontrou Sofia. Depois disso, a pandemia começou e ficou tudo mais difícil. Sofia começou relacionamentos por lá, mas seus planos de viver a cidade em si não deram certo, acabava a maior parte do tempo trancada em casa. Carol, por sua vez, vivia outra situação em São Paulo. Conta que por cerca de 6 anos se relacionou com uma pessoa, que chegou a morar com ela. Não era um namoro porque elas não assumiam (nem publicamente, nem aos mais próximos). Ela já tinha rompido essa relação, porém, quando a pessoa descobriu a existência da Sofia, ‘mudou’ suas atitudes e quis estar de volta. Acontece que as atitudes não mudaram, de fato. Aos poucos Carol entendia o quanto isso era abusivo. O fato de ter gostado de alguém virou um fantasma na vida dela, uma sombra. A pessoa olhava o celular dela o tempo todo, tudo virava uma briga, o nome da Sofia sempre rondava a casa. Acabou bloqueando Sofia no Instagram, como forma de tentar cessar as brigas. A importância que Carol vê em falar sobre essa vivência vai muito de encontro ao que ela viu na Sofia como uma oportunidade de viver algo que sempre quis, um relacionamento assumido, com afeto, sem cobranças sobre como ela deve se vestir, que respeita como ela é, com comunicação. Mas além disso, fala muito também sobre precisarmos falar que existem relacionamentos abusivos entre mulheres e que precisamos nos conscientizar. Não relativizar quando as pessoas nos fazem sentir mal, nos cobram, nos ditam o que devemos ser, desconfiam. É preciso buscar acolhimento e sair dessas situações. Depois desse hiato em que Sofia viveu Salvador na pandemia e Carol se livrou mais uma vez daquele relacionamento que vivia, decidiu adicioná-la no Instagram novamente, porém por outro perfil. Conversaram sobre a pandemia, sobre a vida, e passaram a se comunicar novamente todos os dias. Um tempo depois, Carol comprou uma passagem e foi para Salvador. Elas não sabiam se iriam se dar bem, era uma primeira convivência de dias, mas tudo deu certo. Depois disso, Sofia também veio a São Paulo, ficou um bom tempo. Aos poucos, foi conhecendo sobre a relação que Carol viveu e trazendo acolhimento. Queria muito pedir ela em namoro, achava que ela merecia isso, e o pedido acabou acontecendo nessa vinda, quando aproveitaram e foram para um chalé na serra paulistana. Viveram a distância Salvador - São Paulo por um tempo, ainda na pandemia, e estava tudo bem difícil. O contrato da Sofia estava próximo de vencer, então pensou em voltar para São Paulo. Decidiram morar juntas, justificam: “Se a Carol fosse morar em Salvador, ela iria morar comigo. Por que eu vindo pra cá não poderia morar com a Carol?”. Depois da mudança, casaram-se. No dia de Iemanjá. Sofia e Carol adoram as coincidências que possuem juntas. Para além do café, as músicas, os lugares… Sofia fala como é importante poder ser quem ela é de verdade com a Carol, como ela nunca tinha vivido isso de forma tão plena, a forma que se sente à vontade com alguém, em liberdade. Carol só conseguiu entender a relação que viveu depois que passou por tudo. Hoje em dia, valoriza o quanto ela e a Sofia podem ser quem são na rua, nas redes sociais, podem pegar na mão quando saem pela cidade. E aprende diariamente a viver uma relação saudável, a superar os traumas e a não querer pesar as coisas. Adora a rotina agradável que vivem. Ambas mudaram muito suas visões sobre o amor depois que passaram a se relacionar. Não são muito próximas de suas famílias e nem possuem um número extenso de amigos, mas os que existem são pessoas que amam, confiam, que estão na vida delas há anos. Entende respeitar o tempo de cada pessoa, o limite das coisas, é o essencial para que tudo dê certo. Querem um amor leve, que conversa e que entende. ↓ rolar para baixo ↓ Carolina Sofia
- Brenda e Jhéssica
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Brenda e da Jhéssica, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Se conheceram pelos seus gostos em comuns, mas dessa vez, musicais: são fãs de Fifth Harmony, uma girl band estadunidense. Se conheceram na Quinta da Boa Vista, um parque na região central do Rio, em um encontro de fãs. Jhéssica descobriu o evento através do Twitter e uma amiga a convidou para ir, foi um bate volta do interior pra cá. Brenda decidiu ir ao evento também, com suas outras amigas. Quando chegou no evento viu a Jhéssica e logo se interessou, tentou puxar assunto, ou, como ela mesmo diz, uma péssima cantada. Trocaram seus números de Whatsapp e na hora de ir embora brincou com uma das amigas: “se ela quiser eu vou para o interior, fácil fácil”. Na época, Jhéssica namorava, então ela e Brenda eram apenas amigas. Foram em outros encontros de fãs juntas e a Brenda chegou a ir até Três Rios para um aniversário de amigas em comum. Um tempo depois, Jhéssica terminou o namoro e elas se encontraram novamente, dessa vez no Rio. Era uma festa num sítio, então sentaram, viram as estrelas e acabaram se beijando. O tempo passou e mais uma vez vieram à Quinta da Boa vista, depois a Brenda passou o carnaval em Três Rios, mas a Jhéssica se sentia muito confusa ainda, um tempo depois, acabou voltando com a sua ex. Brenda ficou muito chateada e desesperançosa de que qualquer coisa pudesse voltar a dar certo. Por mais que o relacionamento da Jhéssica estivesse passando por um momento sanfona, entre idas e vindas, achou melhor esperar. A Jhéssica, por outro lado, não estava conseguindo entender tudo o que acontecia, mas de uma coisa tinha certeza: realmente gostava da Brenda. Várias amigas apoiavam elas enquanto casal, o tempo foi passando e decidiram dar um basta: se declararam. Assumir um relacionamento à distância não foi muito fácil, principalmente por ambas trabalharem e estudarem. É uma rotina bastante corrida, o tempo que sobra para ficarem juntas acaba sendo pouco - e a passagem acaba sendo cara. A pandemia, por mais que com diversas incertezas e dificuldades, fez com que pudessem trabalhar em formato home office e conseguiram passar mais tempo juntas em casa. Brenda e Jhéssica são duas mulheres incríveis. Brenda é de Nova Iguaçu, cidade da baixada fluminense. Jhéssica é de Três Rios, interior do Rio. Elas comentaram que se pudessem, fariam de tudo para trazer a cidade mais pra perto da gente. Termos projetos que quebrem o preconceito, que eduquem e tornem as mentes mais abertas. Não acreditam que as pessoas mais velhas não possam aprender modelos novos sobre respeito e convivência social, bem pelo contrário, falam sobre a avó da Brenda, que tem 85 anos e uma mentalidade muito desenvolvida para aceitar as pessoas como elas são. Jhé comentou também sobre as cidades interioranas não terem tanto foco, tanta abertura para falar sobre diversidade. Brenda tem 24 anos e é jornalista, Jhéssica tem 23, é estudante de direito e apaixonada por jogos, adora streamings e descobrir partes técnicas de montagem de computadores (inclusive, têm montado alguns). Elas são muito grudadas em suas famílias, amam testar receitas culinárias que encontram na internet e depois fazerem para os familiares experimentarem. Brenda é muito grudada na avó, por ser uma mulher que veio do Maranhão e ter uma história de muita bravura. Jhé tem como inspiração a mãe dela, que engravidou muito jovem, aos 15 e que sempre a defendeu e mostrou que ela pode ser o que quiser ser. Elas têm uma relação muito tranquila e cheia de companheirismo. Amam sentar, beber cerveja e ouvir Fifth Harmony. Agora, no fim da graduação, tiveram um momento mais difícil por conta da entrega de TCC e das responsabilidades, mas foi importante para também entenderem o quanto se apoiam e fortalecerem a relação. Brenda acredita que o amor é compartilhar coisas na vida e apoiar independente da situação que estiver, ou melhor, amar por quem a pessoa é. A Jhéssica acha q o amor tem que ser leve, não ser levado como obrigação. E que ele pode acontecer de muitas formas, inclusive à distância, como é o caso delas. Brenda Jhéssica
- Joyce e Gabi
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Joyce e da Gabi, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Na intensa rotina de trabalho que Gabriela e Joyce possuem, nos encontramos num final de semana no centro do Rio de Janeiro. Gabi trabalha em farmácia, Joyce em supermercado, são horários bastante cheios e cotidianos exaustivos. Elas moram em Duque de Caxias, região da baixada fluminense, e o que mais gostam de fazer juntas - além de cozinhar (sempre acompanhadas de vinhos) e tirar fotos das coisas por aí, é também ir até o Rio para aproveitar a praia e descobrir lugares novos - ser turista na própria cidade. É justamente entre a dinâmica pouco fácil de uma rotina cheia, de horários de trabalho que não nos dão muitos momentos de descanso e de uma vida agitada que elas entendem o quão é importante se esforçar para enxergarem o amor na relação que vivem. Já são mais de 6 anos morando juntas, Joyce acredita que o amor está nos pequenos gestos do dia que demonstram uma pela outra - uma somatória de coisas que vão se acumulando, fazendo com que a paixão siga existindo. Conta que desde o começo, como não tinha dinheiro, demonstrava escrevendo cartas, imprimindo fotos, criando coisas personalizadas… Hoje em dia, mesmo odiando café, por exemplo, sabe o quanto a Gabi ama e faz café pra ela, compra cafés diferentes quando vê no mercado, sempre quando sai sozinha traz algo que lembrou a Gabi para demonstrar o quanto ela estava presente em pensamento… e sente que nesses pequenos gestos estão vivos os significados do amor. No momento da documentação Gabi estava com 33 anos e Joyce com 24. Por mais que hoje em dia essa idade ainda tenha seu peso pelas diferenças, quando elas começaram o relacionamento, tudo era ainda mais conflituoso. Na época, Joyce nunca tinha se relacionado com mulheres. Gabi tinha uma vida mais agitada, era uma mulher independente, trabalhava numa drogaria próxima à casa da Joyce e foram assim que se viram pela primeira vez. Foi Joyce quem se interessou pela Gabi - e Gabi estava num momento de querer sossego, pensou que era melhor não retribuir interesses, principalmente pela diferença de idade. Mas quando se deu conta já estava entregue e interagindo. Não foi um início fácil, bem pelo contrário. Viveram muitos problemas vindo por conta da não aceitação familiar da Joyce. Ela até então era uma mulher que vivia uma cultura cristã, com padrões sociais, e pensava que no momento que descobrissem até poderia ficar tudo bem pois tinha um tio gay que era casado há anos e aceito na família… mas não foi apoiada nem por ele. Todos foram contra, gerando confusão ainda maior. Gabi foi a mais prejudicada, pois envolveram o trabalho dela, passando por uma grande exposição. Precisou mudar de loja e só não foi demitida porque era uma funcionária exemplar. Todos os conflitos familiares que viveram começaram quando tinham cerca de 6 meses juntas, e duraram mais de um ano e meio, quando Joyce já tinha 18 anos e sem terem outras opções, decidiram morar juntas. Joyce conta que foi num domingo, se sentiu exausta após uma discussão muito grande e saiu de casa. Hoje em dia, aliviada, a família se dá muito bem. A mãe pediu desculpas para a Gabi, entende que a visão que tinha sobre a relação delas era muito distorcida e que a Gabi não era a pessoa que ela pensava. Gabi entende também que as coisas mudam com o tempo e que a base para que tudo mude é o diálogo. Sente muito por não ter tido isso na infância, não foi ensinada a dialogar dentro de casa e não era algo instigado pela sua família. Ao decorrer da vida adulta tenta mudar isso de todas as formas e conversa o tempo todo: sempre está disposta a falar o que sente. Gabi entende que amar é respeitar, em qualquer âmbito. Pensa que talvez na família, no modelo em que vive, as pessoas não respeitam tanto - elas aceitam. Já nos amigos e no relacionamento, aí sim, é diferente: se sente respeitada de verdade, pode ser quem ela é, sem julgamentos, de forma livre. Num momento da conversa, lembram de um filme evangélico que viram uma vez e que fala sobre amar ser uma forma de não desistir, de passar pelas fases, persistir. Sempre pensam no filme quando as coisas estão difíceis, se impulsionam a acreditar no relacionamento, reforçam o amor que sentem. Joyce, por fim, fala sobre o quanto gostaria de mudar algumas vivências que possuem nos dias de hoje no dia a dia morando em Duque de Caxias e tendo as rotinas de passeios pelo Rio também, como o fato de que gostaria muito de sair andando na rua em paz. Comentou que quando vieram me encontrar para registrarmos essa documentação, desceram na rodoviária e estavam caminhando na rua em direção ao lugar que nos encontramos, nisso passaram dois homens de moto e gritaram “Quatro é par” em alusão à elas estarem ‘sozinhas’ e eles também. Reforça que o assédio que sofremos quando estamos na rua enquanto um casal de mulheres (ou enquanto mulheres quando estamos sozinhas) é uma das piores coisas que podemos sentir. E que só queriam estar vivendo bem enquanto um casal que sai na rua, sem essa violência, esse medo. Queriam sair de casa a hora que quisessem (muito cedo ou muito tarde) sem o medo acompanhando o tempo todo. ↓ rolar para baixo ↓ Joyce Gabriela
- Bruna e Manô
Quando pergunto sobre o amor entre mulheres, Bru diz que sente o amor entre mulheres ser muito diferente que os demais relacionamentos na sociedade. Não só pelo cuidado e pelo respeito, mas sobre saber escutar, tentar e compartilhar as necessidades. Manô diz que o amor em geral, para ela, é ter segurança. É acolher e é sentir algo que te nutre para enfrentar outras coisas na vida. Além disso, o amor entre mulheres é uma força da natureza absurda. “Tem uma conexão absurda, são vivências diferentes, realidades diferentes, mas ao mesmo tempo vão se complementando e se identificando.” Ela conta que se encontrou enquanto pessoa quando começou a se relacionar com mulheres, e isso implica não só conexões românticas, mas relacionar-se com mulheres no dia a dia, no afeto, na amizade, no cuidado. Brinca que é uma conexão mística, uma sintonia e construção de relação diferente de qualquer outra. Falam sobre como é ocupar a rua enquanto uma mulher lésbica também, o medo que sentem por não performarem feminilidade “é como se agredissemos os olhos desses homens”. Ao mesmo tempo que muitas vezes vem um sentimento de só querer rebater o preconceito, em outros momentos se sentem muito fragilizadas. Bru comenta sobre o medo que sente com coisas que deveriam ser tão básicas, como usar um banheiro público, por conta da alta violência... e ambas entendem que as coisas só vão mudar realmente quando mulheres feministas ocuparem espaços de poder, porque a cidade é pensada por quem está ocupando esses espaços. Elas decidiram morar juntas há bastante tempo e a decisão surgiu pela facilidade de locomoção, apoio financeiro e melhoras no relacionamento. A Bruna morava mais distante do centro, numa casinha no terreno da família e Manô foi para lá também, não precisariam pagar aluguel, mas reformaram a casinha e deixaram mais confortável. Na pandemia, por alguns problemas familiares, a mãe dela passou a morar na casa também. O espaço foi ficando mais apertado, mesmo que elas tivessem acolhido a mãe e estabelecido algumas regras para a casa. Contudo, sabemos que não é fácil passar por tempos de pandemia, com todas dentro de casa, o dinheiro curto e sem perspectivas de melhora, então a questão da convivência foi ficando insustentável e elas decidiram sair de lá. Foram acolhidas por dois amigos num apartamento na Cidade Baixa, no centro de Porto Alegre. Ficaram na casa dos amigos por alguns meses, até conseguirem o apartamento em que estão morando agora. Hoje em dia dão muito valor à ele, cuidam bastante, contam como foi muito batalhado conseguirem achá-lo, se mudarem, decorarem com a carinha delas… esse espaço significa um lugar de empoderamento, em que ninguém pode falar nada para elas, é a zona de conforto, o lugar onde o preconceito não entra. Sabe aquela história de rebuceteio bem bem bem clássico? então, aqui temos. Bruna e Manô se conheceram porque ambas possuem uma ex em comum. Manô terminou com uma menina e Bruna começou a namorar a mesma, logo depois, mas elas (Bru e Manô) não se conheciam. Foram se conhecer pessoalmente quando trabalhavam em bares vizinhos e a Bruna, com seu grupo de amigos, vivia frequentando o bar que a Manô fazia uns trabalhos de vez em quando. Decidiram investir em um ‘acordo de paz’, já que, mesmo que ela fosse a atual da ex, não tinha motivo para não conversarem e gerar climão nesses momentos… então criaram uma amizade. Com o tempo, o relacionamento da Bru com a menina desandou consideravelmente, ela não se sentia bem, não estavam conseguindo se comunicar, conversar… uns dias se passaram e numa das saídas entre os bares vizinhos, ela e Manô sentiram algo. Ficaram em um dia, não foi nada combinado, mas na próxima vez que a Bru viu a menina resolveu terminar o relacionamento, não sentia mais motivos para seguir. Depois disso ela ficou com a Manô durante um tempo, meio que sem ninguém saber, até que no dia dos namorados (ou melhor, das namoradas), assumiram o novo namoro. Manô tem 25 anos, é psicóloga e ativista social/uma das coordenadoras da ONG Somos (um grupo situado em Porto Alegre (RS) que realiza ações transdisciplinares, tendo como base os direitos sexuais e direitos reprodutivos) e trabalha no SUS atendendo pessoas que vivem com doenças sexualmente transmissíveis e AIDS - um projeto que traz, através da psicologia, a importância do tratamento, incentivando os novos pacientes a participarem e resgatando os que, por algum motivo, abandonaram. Bruna tem 29 anos, é bartender e sempre trabalhou com bares e eventos. Fez diversos cursos, ama essa profissão. Hoje em dia descobriu também a gastronomia, uma nova paixão. Aprendeu a equilibrar a comida com os cocktails e durante a pandemia desenvolveu uma empresa para vender comidas veganas. Bru fala sobre o quanto pra gente ser ‘bem sucedida’ tem que dar muito mais corre, ainda mais ela enquanto uma mulher negra sapatão trabalhando em um dos melhores bares de Porto Alegre. Ela está sempre se superando, sempre batalhando, sempre melhorando expectativas. Enquanto a militância é o maior “hobbie” da Manô (viver entre reuniões e eventos), Bru conta que sua vivência sempre foi mais longe do movimento - e isso faz com que sua verdade seja o que ela vive diariamente nas ruas, nos lugares, fora dos meios acadêmicos. Manô fala sobre querer estar em espaços mais lésbicos, porém entende que muitas ONGs sempre são, em sua maioria, compostas por homens gays... e justamente por isso quer seguir ocupando esse espaço. Não quer que as mulheres fiquem em lugares mais afastados, mas sim que estejam debatendo e construindo o movimento LGBT como um todo. Manô Bruna
- Laura e Carla | Documentadas
Carla, no momento da documentação, estava com 34 anos. Nasceu em Itiúba, um pedacinho do bioma da Caatinga, no semiárido baiano, onde a chuva é um evento tão esperado que se torna motivo de festa. Aos 14 anos se mudou para São Paulo, foi morar com as tias. Dois anos depois, aos 16, já vivia sozinha, trabalhando com telemarketing. Desde criança é uma pessoa comunicativa: se aventurou em diferentes áreas, foi dançarina, atriz, trabalhou com noivas, em salões de beleza e se entende enquanto multifuncional no trabalho. Aos 29, entendeu que era a hora de voltar para a Bahia e, com a Laura, se mudou para Porto Seguro. Laura, no momento da documentação, estava com 39 anos. Nasceu no interior de São Paulo, em Embu-Guaçu, mas construiu a maior parte da vida na capital paulista. Ao contrário da Carla, fez sua carreira no regime CLT, trabalhou de forma sólida em uma universidade, onde liderava equipes e alcançou conquistas profissionais como graduação, pós-graduação e especializações. No entanto, viveu anos de rotina exaustiva, chegou ao limite, com stress, burnout e depressão. Decidiu se mudar para Porto Seguro para ter outra forma de vida. Quando chegou, até trabalhou em outras empresas, mas se viu começando a seguir os mesmos caminhos de muito trabalho e entendeu que só tinha mudado o local, o método estava seguindo o mesmo, até que recomeçou e foi quando surgiu a ideia de fazerem o Instagram/YouTube de turismo: Duas em Porto. Entendem que a vida em São Paulo trouxe muitas oportunidades para ambas, mas também uma rotina caótica. Carla saía de casa às 7h da manhã e voltava à meia-noite, vivendo para trabalhar e consumindo em excesso. Laura, por outro lado, enfrentava longas jornadas que, apesar de gratificantes em alguns momentos, a desconectava de si. Ambas sentiam que algo precisava mudar. Foi em 2017 que decidiram recomeçar em Porto Seguro. A ideia de trabalhar com turismo surgiu naturalmente - recebendo amigos e familiares que vinham visitá-las, perceberam o quanto adoravam mostrar a cidade e contar histórias da região. Decidiram investir nessa paixão e criaram o perfil no Instagram para divulgar o trabalho. Hoje, guiam pessoas que chegam buscando o destino e vivem com um ritmo de vida com propósito. A Carla e a Laura se conhecem há mais de 15 anos, pois frequentavam a mesma comunidade, uma igreja inclusiva em São Paulo chamada ‘Cidade de Refúgio’. Chegaram a se beijar algumas vezes, mas sem envolvimento e cada uma seguiu seu caminho. Os anos se passaram, tiveram outros relacionamentos longos, não mantinham contato. Depois de alguns anos se reencontraram, através de uma amiga em comum, e conversaram. Sentiam que existia um sentimento que estava ali mesmo não sabendo uma da vida da outra durante todo esse período. Quando Carla mandou mensagem, Laura estranhou tanto que pediu até uma chamada de vídeo para ver se era verdade, não acreditou. Por mais que elas nunca tivessem desenvolvido um sentimento, havia aquela sensação/desejo em querer conhecer mais. Laura sempre foi muito tímida, fechada, então as conversas eram limitadas, mas queriam conversar e saber mais sobre a vida uma da outra. Os primeiros encontros, depois de voltarem a conversar, eram estranhos - ou silenciosos demais, ou Carla sentia que falava demais. Mas continuavam insistindo porque sentiam que iria valer a pena. Quando começaram a se envolver, Laura foi visitar Porto Seguro porque sua irmã morava na cidade, então fez o convite para Carla fazer a viagem também. Ela topou e foi em Porto Seguro que Carla fez o pedido de namoro. Um ano depois, o pedido de casamento aconteceu, dessa vez em São Paulo, mas contrariando o atual modelo de vida, o planejamento nem passava próximo da Bahia… Elas sonhavam em morar na Irlanda. Estavam guardando dinheiro para o intercâmbio - e na festa de casamento o presente, inclusive, era dinheiro para a viagem acontecer. No ano seguinte do casamento acabaram indo algumas vezes para Porto Seguro em viagens de família. Além das viagens, Laura entrou num processo difícil por conta do burnout, começou o processo de adoecimento que durou cerca de dois anos. Viveu esse tempo tentando camuflar o que sentia e seguir trabalhando. Carla, em todos os momentos, tentou ajudar (com o auxílio da médica que acompanhava o caso), mas era uma questão psicológica muito delicada fazer Laura entender que era uma questão de saúde para além da responsabilidade com o compromisso dela de trabalho. Só conseguiram no final de 2019, quando o corpo dela já estava no limite, muito adoecido, e não aguentou mais. Foi numa viagem para Porto Seguro, também em 2019, que elas olharam para a cidade de um mirante e conversaram sobre uma possível mudança para lá. Decidiram intencionar isso, planejar, e assim foram fazendo aos poucos. Alguns dias antes da pandemia começar Laura foi desligada da empresa que trabalhava - e foi a maior felicidade que poderiam sentir. Na mesma hora, sem pensar duas vezes, decidiram realizar a mudança para Porto Seguro. Mandaram mensagem para os familiares da Laura que moravam na cidade, eles por sorte (ou destino) falaram de uma casa que havia na rua para alugar, já conseguiram o contato e em cerca de três dias elas já estavam com a mudança pronta. Avisaram os amigos próximos e foram. A pandemia de Covid-19 estava anunciada, se despediram dos amigos que conseguiram e pegaram o penúltimo voo antes do aeroporto fechar por conta do lockdown. Quando chegaram em Porto Seguro, passaram uma semana sem ver os familiares, não entendiam muito bem o que estava acontecendo, mas as informações sobre o Covid-19 foram chegando e as coisas foram se assentando. A cidade estava vazia. Se acalmaram e pensaram: “Tudo bem, vai passar. E quando passar isso aqui será o paraíso”. Pensando agora, que tudo já passou, entendem o quanto o universo foi generoso: jamais conseguiriam viver a pandemia em São Paulo, trabalhando. Deu tudo certo em Porto Seguro, Laura ficou muito mais saudável. Foram se encaixando com seus trabalhos de marketing digital online e, depois da pandemia, abriram o canal no YouTube e o Instagram sobre turismo em Porto Seguro: o Duas em Porto. Por mais que seja muito legal estudar turismo, trabalhar com isso e que realmente se encontraram nessa profissão, explicam que ainda assim é muito difícil ter esse canal, contando que são duas mulheres que se amam chegando numa cidade como Porto Seguro, porque a cidade vive de turismo mas ainda é muito conservadora. Para se proteger, vivem de forma bastante discreta. Já enfrentaram diversos preconceitos, são apoio uma da outra para limpar as lágrimas antes de chegar em casa e não carregar as dores. E acreditam que a forma de lidar com o preconceito é se fortalecer na própria comunidade, se fortificar nos amigos LGBTs que possuem na cidade. Carla explica como os espaços que acolhem mulheres na cidade são importantes: desde um bar que reunia o público LGBT+, até ter outras mulheres que também trabalham com turismo e são lésbicas e bissexuais. Por mais que trabalhem com o mesmo público, não se veem enquanto concorrentes, mas companheiras, uma indicando o trabalho da outra - se fortalecem, se representam, formam uma rede de apoio na cidade. Explica, também, que sentia uma certa sede de ver pessoas LGBTs quando chegou. Sentia falta de falar gírias que os LGBTs entendem, de fazer brincadeiras que nós fazemos, de ser quem ela é sem medo de julgamento. Sempre andou com muitos homens gays, drags e pessoas transsexuais, gosta de “bater leque”, ir para o fervo. Sentiu falta, o primeiro ano foi muito difícil, foi se fechando. Aos poucos, encontrando pessoas com quem se identifica, foi se reencontrando. Por isso, agora faz questão de ser um elo para as pessoas LGBTs que ela conhece. Carla acredita que o amor que vivem está na coragem que enfrentam o mundo. Com muita amizade, muita parceria. Já passaram por muitas coisas sozinhas, boas e ruins, e independente estão juntas, enfrentando tudo. Colocam o amor no que acreditam e veem isso expandindo, conseguem visualizar o propósito de vida no que fazem com amor. Laura conta que o amor delas está todo dia no café da manhã que tomam juntas. É nessa atividade que alinham as expectativas, recalculam rotas, conversam sobre o que está dando certo, trocam ideias… Todos os cafés da manhã são importantes. É no café que está o afeto, o carinho. E mesmo se não estão num dia bom, sentam na mesa com um “bom dia” mais seco, mas fazem o ritual acontecer. Esse momento do dia é muito importante para que tudo comece e para que as coisas sigam seus fluxos. É nele que ela enxerga esse fluxo de encarar o mundo. Por mais que Laura seja uma pessoa fechada, ela está aprendendo a expor seus sentimentos aos poucos, principalmente durante esse ritual - se sente feliz por enxergar isso. Elas enxergam persistência na relação entre mulheres. ↓ rolar para baixo ↓ Carla Laura
- Mariana e Thalassa | Documentadas
Amor de Plantinhas - Mariana e Thalassa clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Aline e Nathália
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Aline e Nathália, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Fotografei a Aline e a Natalia cozinhando juntas porque desde o começo da nossa conversa deixaram claro o quanto essa é uma atividade que gostam de fazer (enquanto ouvem e criam músicas). Entendem o cozinhar enquanto uma alquimia, algo que vem desde suas avós, e a Aline explica o quanto aprendeu a cozinhar de fato depois que ela e a Nath começaram a se relacionar. Além dos hábitos na cozinha, outra coisa em evidência desde o princípio foi o quanto demonstraram que a relação é feita por muita comunicação. Ambas estudam comunicação não violenta e durante a pandemia de Covid-19, por estarem em casa e conviverem 24h juntas, colocaram em prática diversas formas de se ouvir. Entendem que se passaram tanto tempo juntas, vivendo processos individuais e coletivos, e não viveram nenhuma briga, isso é graças ao que colocaram em prática. Não ter brigas não quer dizer que não há conversas difíceis e desafiadoras. São elas, inclusive, que trazem uma nova sensação: a de segurança, de ser capaz de resolver qualquer problema. Enxergam os sentimentos e as necessidades mudando ao longo do tempo, por isso entendem o relacionamento enquanto um investimento: entregam e cobram respeito, compreensão e muitas outras coisas. Dentro de tudo o que constróem juntas, agem pensando em mulheres. São feministas e estão ativamente no seu cotidiano impulsionando as mulheres ao seu redor, entendendo que suas vidas giram em torno disso, até mesmo quando estão em espaços ainda pouco ocupados por nós. Exemplo disso são as aulas de violão e canto que a Aline dá: nem sempre são turmas de alunas mulheres, mas faz questão de debater com os homens temas importantes como ausência de mulheres em bandas e vozes femininas. Além de trabalhar com as aulas, Aline, que estava com 30 anos no momento da documentação e nasceu em Friburgo, interior do Rio de Janeiro, também trabalha com música em shows e teatros e mantém uma companhia de teatro com a sua mãe, sendo compositora e diretora. Ela conta que viveu desde sempre cercada por muitas formas artísticas e, mesmo se formando em psicologia, não se vê distante da arte em nenhuma ocasião. Natalia, por sua vez, estava com 35 anos no momento da documentação. Nasceu em Xapuri, no Acre, mas se mudou muito nova para o Rio de Janeiro com a família, crescendo no interior (na Região dos Lagos) e hoje em dia morando com a Aline em Niterói. Ela é designer e trabalha num espaço de militância coletiva. Além disso, faz doutorado em mídia e cotidiano, estudando a cobertura midiática de violências contra mulheres lésbicas. Se considera uma mulher feminista, passou bastante tempo estudando sobre o cárcere brasileiro e também faz parte de um coletivo de mulheres lésbicas em Niterói. Seu sonho é criar uma casa-escola com a Aline, promovendo cursos feministas e espaços de troca. Foi em 2019 que se conheceram. Na época, Nath foi almoçar com uma amiga, que cumprimentou uma menina na rua - a Aline. Elas contam que acharam uma a outra muito bonita… Nath pensou que Aline fosse meio marrenta, estava com um fone e um short de ginástica, não quis sentar à mesa com elas, estava de passagem. Perguntou para a amiga quem era a Aline e então descobriu que tanto a amiga, quanto a Aline, estavam ensaiando juntas para fazer um show em breve. Natalia vivia um casamento que funcionava enquanto relacionamento aberto, entendiam que passavam por um momento diferente: ela gostava de sair, ele gostava de ficar em casa… e foi assim que ela começou a frequentar os ensaios da amiga e conheceu um pouco mais a Aline. Aline, desde o primeiro momento que perguntou para a amiga quem era a Nath, escutou logo: “Nem vem! Ela é casada!” e pensou que não iria acontecer nada, a não ser que fosse conhecendo a Nath aos poucos. Depois de um tempo, Nath deixou claro para a amiga que o relacionamento era aberto e o papel dela na história mudou: começou a ser como um cupido para as duas. Fazia de tudo para deixá-las sozinha, ficava claro que uma tinha interesse na outra, mas o beijo demorou para acontecer. E quando aconteceu, foi um tanto quanto desconfortável. Estavam na rua e no momento passaram diversos ciclistas cantando louvor, era algo como: “Passeio de Ciclistas com Jesus” e elas estavam ali, com tudo aquilo acontecendo. Depois, repetindo o beijo, entenderam que não seria tão desconfortável assim. Durante o relacionamento da Natalia, ela já tinha ficado com mulheres outras vezes e por isso achavam que seria um rolo passageiro com a Aline, que não duraria muito. Porém, passava por diversos momentos difíceis e não se via mais que amiga do seu antigo companheiro (que, inclusive, é um dos seus melhores amigos até hoje). Tendo a Aline mais próxima, tudo caminhou para que o fim do relacionamento acontecesse. Começaram a se encontrar na casa da amiga que tinham em comum, e depois, quando entendeu que realmente gostava da Aline, deu o passo de repensar sua relação. Aline também passava por momentos bastante complexos naquele período: estava morando sozinha e pagando aluguel, tinha diversas dores financeiras por não ter o reconhecimento desejado enquanto artista e foi no começo de março de 2020 que decidiu aceitar o convite da Nath e se mudar para a casa dela, assim gastariam muito menos e poderiam repensar o que desejavam para seus investimentos e para a relação. A questão foi: poucos dias depois da mudança começar, chegou o lockdown por conta da Covid-19. Com a mudança pela metade e o medo de ser uma decisão precipitada, começaram a viver a pandemia. Hoje em dia, entendem que terem passado a pandemia juntas foi muito melhor do que se estivessem sozinhas em casas diferentes. Também relembram o quanto tudo era no começo, estavam apenas há 6 meses se conhecendo e passar todo o dia juntas era um desafio, foi onde deram início à trabalhar melhor a comunicação entre elas. Hoje em dia, Aline reconhece quantas mudanças já passou para entender o amor. Conta que há anos atrás ela não era uma pessoa que procurava os amigos, se sentia um tanto bruta com as pessoas e desejava ser mais gentil, não queria mais estar tão solitária. Passou a fazer movimentos de trazer amigos para perto, demonstrar de fato o que queria, e foi assim que entendeu o quanto o amor é uma construção, do qual necessita demonstração e esforço. No começo do relacionamento entendia que viviam uma paixão, mas hoje o amor vem através deste esforço, do respeito que aprenderam a ter entre tantas escutas. E Nath completa: amar é investir. Durante a conversa, também falamos sobre o quanto é ruim uma pessoa chegar e simplesmente dizer o que ela acha melhor dando isso como regra ou decisão única, sem uma conversa, sem um diálogo em que ambas expõem o que sentem. Por isso, elas entendem que mesmo se um dia chegarem no consenso de um término, isso vai ser muito conversado e feito de forma respeitosa, assim como foi a relação desde o princípio. Por fim, contam alguns momentos que mostram o cotidiano, como a vida ser regada de música e essa ser a forma artística preferida delas. No caminho para o centro da cidade, uns dias atrás, colocaram um hobbie em prática: criar paródias. Entre duas palavras: ‘jovem’ e ‘propósito’, começaram uma música desde o início, só finalizando quando já chegaram ao local. ↓ rolar para baixo ↓ Aline Natalia
- Luana e Maiara
A Luana e a Maiara são duas mulheres que não se conheceram por tantas lutas e tantos gostos em comum, mas foram descobrindo isso aos poucos entre papos e conversas. Quando elas se conheceram, na verdade, nem imaginavam o quanto poderiam se encaixar: foi num match de Tinder, quando a Maiara passava pelo aeroporto de Porto Alegre, que a Luana apareceu e ela achou a bio dela engraçada, resolveu dar ‘like’. Conversaram e logo ela saiu da capital, foi até a sua cidade, Pelotas, que fica no interior do Rio Grande do Sul. Continuaram conversando por um tempo, mais ou menos um mês, até que a notícia veio: a Maiara tinha voltado com a ex. Luana ficou um pouco triste e até meio irritada, ela confessa. “Poxa, um mês ali, né? Dá esperanças na gente”. Agora ri. Mas não queria que a Maiara saísse da sua vida, então encarou a amizade, afinal, se encaixaram tão bem… O ano era 2019 e a Maiara viajava bastante por conta de alguns trabalhos. Ela era bolsista e falava sobre saúde da população negra, enquanto a Luana também estava trabalhando num projeto do Estado de Implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, então a Maiara viajava o brasil e a Luana o Estado junto com esses projetos… o que não deixava de ser, também, uma forma de aproximar as duas. Elas conversavam, trocavam figurinhas, assuntos em comum, interesses pela mesma área, pesquisas, livros e referências. Foi durante uma viagem que elas conversaram por mensagem e mandaram áudios cantando no karaokê músicas bêbadas, se divertiram, passaram do ponto, choraram… E depois, quando a Luana estava de volta em Porto Alegre, a Maiara fez uma ligação por telefone. Ficaram pensando: O que se fala no celular quando se liga para alguém depois de mandar vários áudios cantando no karaokê?! No fundo, toda essa sensação estranha não era pelo karaokê, mas por não estarem sabendo lidar com o que sentiam uma pela outra enquanto a Maiara ainda estava em um relacionamento… Foi quando conversaram e a Luana disse que era melhor fazerem alguma coisa para mudar isso. A Maiara tomou iniciativa, terminou o relacionamento e elas combinaram de se ver, em Porto Alegre. Deu certo o encontro e todo final de semana, praticamente, eles repetiam. Maiara ia até Porto Alegre, elas se encontravam e passavam um tempo juntas, foi virando algo à distância, porque se viam de tempos em tempos, até que chegou a pandemia e ela se mudou de vez. Claro, existiram muitas conversas sobre os espaços e as individualidades, tanto que preferiram manter duas casas, ao invés de realmente morarem juntas, mas irem para a mesma cidade seria a melhor opção para que a vida se adaptasse (e os trabalhos também) durante o período pandêmico. A Luana tem 29 anos e é terapeuta ocupacional. Maiara tem 32 anos, é formada em Educação física e está se graduando em Psicologia. Elas adoram andar de bicicleta, cozinhar, praticar esportes, tomar chimarrão e ficar em casa deitadinhas conversando sobre várias coisas. Para a Maiara, amar é sempre um ato político. E isso inclui o amor que ela sente pela Luana. Demonstrar o afeto e o amor delas, como elas estavam fazendo enquanto conversávamos, é um ato político. É romper todas as amarras que um dia já foram colocadas. A Luana explica que os lugares que elas ocupam por serem mulheres negras é estar sempre reafirmando quem elas são, principalmente quando (e por) escolheram estar juntas. “São duas mulheres negras se amando. Isto é algo impensável para muita gente.” Além de que, também é algo que não nos é ensinado. Ao homem, se ensina “amar”... no caso, a ter uma esposa. À mulher, não se ensina nada sobre. Nos tornarmos companheira é um ato da nossa natureza. E, duas mulheres negras se amarem, é revolução diária. Quando pensamos na cidade e pensamos em Porto Alegre (ou em Pelotas também, já que é a cidade que a Maiara viveu), elas comentam que gostariam de ver maior pensamento social, para que não matem mais pessoas negras e LGBTs por ser quem são. Para Maiara, pensamento social é também sobre dar voz. Não faz sentido dar voz se não há transformação social como um todo. Precisamos inserir as pessoas nos lugares, fazer a forma coletiva existir de verdade. E que uma história vá servindo de base e sustentação para puxar a outra, para que tenhamos caminhos mais tranquilos daqui para frente. Luana Maiara


