Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
292 resultados encontrados com uma busca vazia
- Carla e Nathalia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Nathália e da Carla, quando o projeto passou por São Paulo! Conheci a Nath e a Carla quando estive em Campinas, passamos a manhã num parque ecológico que é o lugar preferido delas - espaço que elas costumam ir e passar muito tempo juntas olhando o céu embaixo de uma árvore. As duas são duas mulheres super jovens e absurdamente fortes. A Nath tem 22 anos, estuda pedagogia e vive entre Ribeirão Preto e Campinas, porque fazia faculdade lá, mas com o início da pandemia voltou, para ficar mais próxima da família e da Carla, que faz faculdade de Engenharia de Software e trabalha em uma Startup, ali, em Campinas mesmo. A Carla tem 19 anos, é um pouquinho mais nova, mas elas brincam que essa breve diferença de idade não costuma transparecer em quase nada na convivência nesses anos de relacionamento. Digo ANOS porque elas se conheceram lááá em 2015, quando estavam no ensino médio. Tudo começou por causa de um grupo de Facebook chamado ‘Poxa Sapatão’, em que rolavam brincadeiras das quais você colocava seu nome e a cidade em que morava e conhecia mais meninas que moravam próximas. Assim, elas trocaram contato. Foi bem “emocionado” no começo, no sentido de ser intenso, porque elas passavam o dia inteirinho se falando (ah, o tempo útil na adolescência, né? que saudade), até que começaram a falar por ligações (que chegaram a durar 14 horas! H o r a s!) e foram, também, descobrindo muitas coincidências da vida: que moravam em bairros próximos, estudaram na mesma creche quando eram crianças, fizeram capoeira no mesmo lugar… já se esbarraram por aí muitas vezes, mas nunca tinham, realmente, se visto. Foi em janeiro de 2016 que marcaram de se encontrar em um shopping. Tentaram ir no cinema, porém, naquela época estavam tendo os famosos “rolêzinhos” (grupos de jovens que iam para os shopping em grandioso número e, por muitas vezes gerar tumulto, acabavam sendo barrados ao entrar - lembrando que os rolêzinhos, em definição mais objetiva, sempre foram muito racistas na perspectiva da proibição, pois quem era proibído de entrar no shopping era sempre o jovem negro e, em sua grande maioria, o jovem de baixa renda e periférico). Por conta do “rolêzinho”, a Nath conseguiu entrar acompanhada do pai, mas a Carla, com 14 anos e desacompanhada, foi barrada na portaria do shopping. Elas tiveram que pedir para o pai da Nath ir lá na porta principal buscar a Carla para que ela pudesse ao entrar e, quando elas se viram pela primeira vez, se abraçaram e a Carla quis andar meio que abraçada (com o braço por cima do pescoço) da Nath, só que ela se esquivou em um sentido de “Para! Meu pai tá aqui!” (hahahaha!) e obviamente o pai dela percebeu essa “amiga meio um pouco íntima demais”. Neste dia, finalmente elas conseguiram ir ao cinema. Lá se beijaram pela primeira vez e, depois do quarto encontro, começaram a namorar. O começo do namoro foi bastante escondido, principalmente pela diferença de idade. Elas sentiam bastante medo do que os familiares iriam pensar… e quando a mãe da Carla descobriu ela não aceitou, foi todo um processo (e é ainda) de aceitação. Hoje em dia elas saem juntas e se dão bem, mas entendem que é algo diariamente estabelecido enquanto uma reafirmação. Depois de segurarem a barra na família da Carla, foi a vez da família da Nath. Tudo começou quando ela estava na praia durante uma viagem e deixou o Facebook logado no Notebook da tia… e adivinha qual grupo a tia dela viu? É claro, o Poxa Sapatão! Antes que a tia dela contasse, ela achou melhor contar. Chamou o pai dela e falou sobre o namoro. Ele ficou quieto, não esboçou nenhuma reação. No dia seguinte, fez algumas perguntas para ela, mas em geral, seguiram bem. A mãe dela, por outro lado, teve uma reação mais agressiva, em um sentido de mandá-la procurar ajuda psicológica, dizer que isso era aberração e não aceitar de jeito nenhum. Mais uma vez, elas entenderam que só com o tempo isso mudaria. E estavam certas: hoje em dia, a mãe dela é puro grude com a Carla! E passou a se permitir entender e aceitar o relacionamento das duas. O que também ajudou muito a mãe da Nath no entendimento foi um dia um sermão que ela ouviu na igreja quando decidiu ir atrás da resposta sobre aquilo que a filha estava vivendo e a resposta ser literalmente algo voltado à respeitar a felicidade e a vivência de algo que está sendo tão puro como o amor. ♥ Hoje em dia, por mais que a Carla e a Nath vivam num relacionamento quase que à distância, por conta do tempo em que a Nath passa em Ribeirão Preto estudando e morando no outro apartamento, elas sonham com o momento em que vão estar juntas em um lar só delas ♥ Elas, inclusive, por quererem casar mas entenderem que não possuem condição financeira para isso agora, fundaram um perfil no Instagram: o @rifasporamor (clica aquiii!). Lá elas sorteiam rifas e quem compra colabora com o sonho do lar e do casório! É uma iniciativa fantástica. Além disso, elas fazem diversas ações para falar sobre amor, sobre a quebra de preconceitos e sobre direitos das mulheres para as pessoas que se interessam em comprar as rifas e ganhar os prêmios! Para elas, esse amor que constroem juntas e que querem seguir construindo está relacionado ao cuidado e ao quanto compartilham: seja no diálogo, na forma que se olham ou que se respeitam. A Carla conta que uma vez deu um presente para Nathalia com a frase escrita: “O amor é o mais alto grau da inteligência humana”. E acredita que o amor resume tudo, ele é tudo! As pessoas só chegam em bons lugares pelo amor, mesmo a sociedade estando um caos, o que mantém ela melhorando a cada dia ou as pessoas lutando e tentando melhorar é o amor. O amor por si mesmo, o amor nas relações ou o amor por outras pessoas. “O amor é Deus, é vida”. A Nath é muito grudada na família dela e, uma coisa muito legal que vale comentarmos, é que ela é prima da Camila, companheira da Samantha que também irão aparecer aqui no site do Documentadas! Durante a nossa conversa, ela falou várias vezes sobre algumas pessoas da família, mas em especial da sobrinha, que é o maior xodó e uma criança que ela quer ajudar na criação e na educação. Já a Carla, é muito ligada à religião. Ela é Católica e faz missões na igreja, então se dedica ativamente a falar sobre diversidade, cultura e valores educacionais para pessoas da periferia. Falamos sobre a dificuldade dessas pessoas terem acesso aos locais distantes e ela deu o exemplo claro de como a mobilidade urbana não funciona para as pessoas pobres em Campinas (e no Brasil, como um todo). Este foi apenas um dos pontos que citamos, mas que ela disse ser absurdamente necessário para um primeiro passo sobre um debate mais amplo e plural sobre direito à cidade e a cidade ser frequentada por uma mistura de públicos. Ela acredita que a cidade deveria ser feita por e para todo mundo. Carla Nathalia
- Marilia e Luana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marilia e Luana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Marília e Luana se encontram através das coisas que acreditam. Dentre tudo o que conversamos, o principal, talvez seja a forma que enxergam as pessoas. Poderia ser o trabalho - porque trabalham com o corpo - poderia ser o hobbie no skate ou até mesmo a família que construíram unindo suas famílias, mas no fim, toda a nossa conversa se resumiu em incentivar, de alguma forma, quem está ao nosso redor. Marília tem 34 anos, é do Rio de Janeiro e se formou em Educação Física. Atua enquanto professora de lutas e jiu-jitsu, dando aulas em escolas, academias e também em programas sociais. Ela circula por diversas áreas da cidade, da zona sul à zona norte, e gosta de debater sobre as diversas realidades. Durante a nossa conversa, disse que “O problema não é ser playboy, o problema é ser playboy otário. Não ter noção do que acontece fora da bolha da zona sul, não circular em outros lugares, não sair da realidade. É ótimo estar no conforto, mas é preciso estar sempre ajudando quando se têm pra ajudar” e é por isso que na posição dela de professora, faz de tudo para levar os alunos até outras escolas menos favorecidas e circular entre espaços, para que todos conheçam novas realidades. Marília é uma mulher que vive de luta e da luta, conheceu a luta através da escola pública e por conta disso faz questão de sempre voltar aos espaços sociais dando aulas gratuitas para mulheres e LGBTs de defesa pessoal, por exemplo, para incentivar mais pessoas. Luana tem 30 anos e é natural de Nova Iguaçu, baixada fluminense. Formou-se em turismo e também em dança e hoje dá aula para três segmentos - crianças (com ballet, por exemplo), mulheres (aula de ritmos, fit e powerdance) e coreografias para eventos (casamentos, bodas etc), atuando em Nova Iguaçu. Antes ela via a dança como um hobbie, porque junto da música a dança sempre esteve na sua vida; Mas entendeu que era diferente, a música está lá pela família dela ser composta de musicistas, ela adora cantar, mas nunca se viu na música enquanto cantora ou tocando instrumentos… já a dança, fazia parte do que ela era diariamente. Quando ela entendeu que isso não era um hobbie, a vida melhorou muito. Ambas são completamente apaixonadas pelo o que fazem e isso fica cada vez mais claro quando contam casos que aconteceram com alunas que tiveram por perto ou coisas que vivenciaram. A Marília, por exemplo, cita uma aula de defesa pessoal que deu para idosas no SESC de Madureira. Já a Luana, logo em seguida, engata no assunto sobre a forma que a mulher se enxerga diferente depois, “né?”, e que a dança também tem esse poder, não é só por uma questão de estética por exemplo, é uma autoestima para além do físico, que agrega à vida. Marília também contou sobre uma aluna específica, a primeira aluna que teve, uma mulher que ela formou desde o princípio e que acompanhou até virar faixa preta. Viu ela sair de um relacionamento abusivo, viu ela passar por vários momentos com seus filhos, foi muita história de vida acontecendo ali… e que incrível foi acompanhar tudo. Contou como é bom quando mulheres se impulsionam. Que a Luana teve um papel assim na vida dela também, quando recentemente ajudou a irmã dela a enfrentar desafios com o próprio corpo e que agora elas percebem a irmã se amando mais, estando mais disposta e que ela também se vê admirando ainda mais a Luana. Mesmo que elas se entendam enquanto pessoas bastante diferentes, se dão muitas chances de encontros pelo o que possuem em comum, principalmente no momento de propor coisas boas às outras pessoas. Nesses momentos, já se organizaram em abrigos do qual uma deu aula de dança e a outra deu aula de luta, a Marília já incentivou a Luana a trabalhar com crianças (ela topou e se apaixonou!)... e assim, elas ficam cada vez mais felizes em ver o quanto o relacionamento traz coisas tão boas às relações em volta delas. Luana não conhecia muitas mulheres no meio lésbico e foi seguindo um bloco de carnaval no Instagram, o Rebu, que ela viu a foto da Marília (cujo era musa do bloco) e, encantada pelo sorriso, procurou o perfil e resolveu segui-la. Marília seguiu de volta e elas começaram a interagir nos stories quando a pandemia começou. Foi num dia que Luana estava triste, por conta de um ocorrido por homofobia que sofrera em casa com o pai, que sentiu que precisava conversar com uma pessoa diferente dos amigos de sempre. Viu a Marília nas redes e cismou com ela, disse que ela passava certa confiança e então puxou um assunto. Foi pelo Instagram mesmo que elas conversaram e lá a Luana desabafou sobre o que estava sentindo naquele dia. A Marília conta que acolheu, mas que ao mesmo tempo pensava que era doido analisar/discutir sobre a homofobia familiar, porque no caso dela, é longe da realidade. Toda a família dela/das amigas lésbicas e bissexuais ao redor aceita e abraça o que elas são. Mas mesmo assim ela ficou ali do lado, conversou e no dia seguinte a Luana acordou se sentindo melhor. A Marília pensou: "Puts, cai na friendzone! Não vai mais rolar nada entre a gente!”, mas a Luana não cogitou isso. Elas começaram a conversar todos os dias. Naquela época, tudo ainda estava acontecendo pelas “lives” e chamadas de vídeo, mas a Marília não tinha se adaptado à isso e num dia específico tudo tinha dado errado: as aulas, as chamadas do Zoom, tudo tinha saído do ar e o que ela já não se adaptava estava pior. Foi quando ela falou pra Luana diretamente algo como: ‘estou afim de você, mesmo estando à distância, ok?’ e a Luana respondeu ‘ok, também tô’ e então ela pensou consigo mesmo ‘ufa!’. Uns meses depois, quando foi possível, elas conseguiram se encontrar pessoalmente. ♥ Depois do encontro, foram deixando tudo rolar e fazendo as realidades se encaixarem também, já que uma era mais caseira, outra era mais de eventos e de estar sempre na rua. O principal objetivo era não invadir privacidades ou atropelar coisas, mas sim deixar o tempo fluir tranquilamente. Isso não quer dizer que seja pleno o tempo todo, é claro, mas que elas escolheram fazer o encontro acontecer. A família da Luana é enorme e super acolheu a Marília como namorada. Até mesmo o avô, de 93 anos. Toda a família foi muito receptiva e a Marília conta como ter uma nova família, grandona, é muito legal pra ela. A questão do pai ser a única pessoa que elas não possuem contato é muito ressignificada, elas se acolhem por isso, não julgam, entendem que é uma escolha que ele (enquanto uma pessoa adulta) fez e tentam ao máximo levar outras coisas em consideração. Aproveitam o que há ao redor e todos os outros familiares. Marília reitera que fomos criadas num ambiente heteronormativo, achando que o homem manda e a mulher obedece, então é normal titubearmos de vez em quando porque estamos o tempo todo nos reeducando. Estamos em busca de nos libertarmos disso, de sermos donas dos nossos destinos. A relação delas se baseia numa questão de confiança uma da outra, e de ir aprendendo como isso funciona diariamente, também. Entre os momentos favoritos que elas possuem juntas, andar de long está entre os primeiros. Foi a Marília quem ensinou a Luana a andar e, no aniversário dela, a presenteou com um long. Nos momentos que estão andando juntas, Marília diz que amar é ver o outro feliz também e Luana completa que é uma construção, que exige respeito e paciência, para estar sempre se cuidando. Quando Marília conta sobre situações em que sentiu o amor, ela lembra de um momento que envolveu a irmã dela. Nesse dia ela sentiu tudo o que o amor propõe: temeu, mas cuidou. Elas estavam fazendo uma trilha (as três) e numa parte da trilha havia uma pedra que precisavam ultrapassar. Tanto a Marília quanto a Luana já haviam ultrapassado e faltava a irmã, mas ela estava com bastante medo e realmente era perigoso, não era fácil, num momento ela chorou, a Marília ficou com medo, mas a encorajou. A Luana pediu cuidado e muita calma, mas não parava de incentivar. Era um desafio para todas elas ali e nenhuma delas largou, desistiu ou achou que não fosse possível, por mais que o medo existisse… e quando ela passou, ela gritou, comemorou! Foi tanta felicidade! Ela fez aquilo ali. Realizou. Elas comemoraram juntas, torceram juntas. Aquele caminho ali, para elas, o processo, é um significado de amor entre as três. Marília fala que existem erros nos relacionamentos entre mulheres, até porque não há pessoas perfeitas, mas é muito bom saber que não estão num relacionamento que funciona como prisão. Numa existência de um relacionamento feminista, que entende o corpo enquanto um corpo com vontades, com postura, com verdades e pensamentos - um corpo que pensa e se comunica - isso sempre volta a ser o mais importante entre elas: querer fazer dar certo. Luana Marília
- Maíra e Eduarda
Assim como os momentos delas serem leves, a família também aprendeu a lidar de uma forma legal com o relacionamento delas. Foi criado até um grupo no whatsapp com elas e as mães e a foto do plano de fundo do celular do pai são as duas juntas. Entretanto, não foi tão fácil no início. A Duda resolveu se assumir, num ato de coragem, durante o segundo turno das eleições de 2018. Estava vendo a grandiosidade do retrocesso na eleição do então presidente foraBolsonaro e entendeu que não cabia mais espaço para se esconder. Foi um período que a violência e os discursos de ódio estavam batendo recorde, então se tornou muito significativo e importante se reafirmar e resistir, mesmo com nossa sensibilidade muito fragilizada somada ao processo de "saída do armário". Hoje em dia, Duda conta que se inspira demais na mãe e fica feliz de ver as famílias unidas. Quando pergunto sobre onde elas encontram o amor e o que elas pensam sobre, dizem que amor está envolvido com a liberdade porque amar é respeitar e permitir ser livre. E amar outra mulher é se identificar, principalmente por entender que a outra passa pelo mesmo que você. A Duda e a Maíra se conheceram na universidade, em 2016. Foi durante a ocupação da UFRGS, que pedia melhorias no sistema de ensino, que elas ficaram amigas e que fizeram um grupo de mulheres lésbicas e bissexuais que participavam da ocupação, onde todas viraram amigas e mantém contato até hoje - inclusive, tatuaram o número da sala que dormiram durante a ocupação, por ter tanto significado nesse grupo. O primeiro beijo entre as duas rolou na ocupação mesmo, mas não virou algo sério em seguida, demorou um tempo... até que (por coincidência) uma foi morar próximo da outra e passaram a se encontrar com frequência. Decidiram tentar algo e foram, cada vez mais, se apaixonando. A relação delas é composta por uma convivência muito leve. Possuem bastante abertura para falar sobre tudo e contar com o apoio mútuo. As duas têm diversas tatuagens juntas, de divertidas à frases significativas e as histórias sempre remetem à: estávamos bêbadas e tivemos a ideia de tatuar isso, no fim, amamos. A Duda tem 22 anos e é natural de Progresso, uma cidade bem pequena no interior do Rio Grande do Sul, além de ter morado boa parte da vida em Lajeado, também no interior. No fim do ensino médio, passou no vestibular e se mudou para Porto Alegre. Cursou história e hoje em dia faz mestrado enquanto trabalha como Analista de Relacionamento em uma startup, a TAG. A Maíra tem 23 anos, é natural de Porto Alegre, está se formando em ciências sociais e em busca de um emprego atualmente (mandem jobs! tem alguma vaga para indicar? clica aqui! ). Ela adora assistir o jogo do Inter, ler, caminhar por aí e cozinhar. Cozinhar, inclusive, é o que elas mais amam fazer juntas. Além disso, brincam que estão sempre sendo taxadas como "pessoas que não param quietas". Gostam de caminhar pelo bairro, de viajar, de ir em trilhas, cachoeiras... de ver gente e de ver mato. Elas já participaram de diversos projetos envolvendo uma certa militância também, como o Lésbicas que Pesquisam (um espaço de visibilidade à presença lésbica na academia) e o Pedal Pela Memória (passeios ciclísticos que envolvem contar a história da cidade de Porto Alegre). Logo que cheguei no apartamento da Duda e da Maíra vi que o nome do prédio era 'Maíra' e brinquei "já entendi porque vocês escolheram morar aqui". Então, desde o começo, subindo as escadas, fui ouvindo o quanto elas terem se mudado para o novo apartamento foi tão importante. Antes de chegarem aqui, a Duda dividia apartamento com umas amigas. Era legal, mas a relação delas não era a mesma coisa, sempre sonhavam em ter um cantinho só delas. A Duda decidiu procurar um apartamento num bairro vizinho, mais calmo, na zona central de Porto Alegre. A pandemia foi como um "test drive" para a Maíra passar um tempo nessa nova casa e elas entenderem se conseguiriam viver juntas assim. Aos poucos foram decorando como gostam, colocando a carinha nas estantes, na sala, na cozinha... Têm sido muito bom e dado muito certo. Hoje em dia elas tiram momentos no dia para conversar sobre assuntos aleatorios e trabalham dentro de casa. Comentam que sair da Cidade Baixa, o bairro mais movimentado (e por consequência violento) e ter se mudado para o Bom Fim ressignificou até a forma que olhavam a cidade. Sentiam muito medo e planejavam sair do estado antes de encontrarem esse apartamento, agora, sentem que tem conforto para colocar os planos de mudanças mais para frente e ir planejando com calma. Eduarda Maíra
- Babi e Maria
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Babi e da Maria, quando o projeto passou pela Bahia!. Maria e Bárbara enxergam o relacionamento como um grande divisor de águas: no começo, tinham muito medo de se relacionar. Os traumas, as inseguranças… tudo se misturava e acrescentava para que não quisessem um novo relacionamento. Não achavam justo começar algo se o passado ainda não havia curado. Aos poucos, foram tentando e acontecendo naturalmente. Acreditam que a amizade e o cuidado agiram curando os traumas de forma que nem sabiam que era possível e até mesmo quando os gatilhos eram despertados elas tomavam à frente e tentavam ter o máximo de cuidado uma com a outra. Por mais que se entendam enquanto pessoas muito diferentes, que possuem realidades, estilos e vidas diferentes, se encontram a partir dos propósitos que possuem em comum. Maria conta que desde o começo entraram de cabeça uma nos planos da outra e não se veem mais distantes, se incluem em absolutamente tudo. Compara-se frequentemente aos seus pais ou suas tias que possuem longos relacionamentos e amizades, sentindo que está desde já criando as próprias memórias com a Babi. Desejam ficar juntas de forma duradoura e ficam felizes em ver desde já as memórias iniciais que criam e compartilham. Bárbara, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela nasceu no interior de São Paulo, numa cidade chamada Espírito Santo do Pinhal, mas mora na Bahia há mais de dez anos. Trabalha enquanto modelo, é artista e babá. Também faz curso de enfermagem e quer muito ser doula - agora que a melhor amiga está grávida, finalmente está investindo nesse sonho que acabava deixando de lado. Maria, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é do sul da Bahia, foi morar em Salvador há alguns anos e atualmente mora em Abrantes, uma vila em Camaçari, região metropolitana de Salvador e mesmo lugar onde a Babi reside. Maria trabalha como professora de inglês. Quando já estavam juntas, numa época em que nada estava dando certo na vida da Maria, ela procurava apartamentos para morar em Salvador e não achava, então Babi falou sobre apartamentos muito mais baratos e seguros (por ser em condomínios) em Abrantes. Ela cogitou ir, já que nada mais a prendia na cidade grande já que suas aulas eram online, e conseguiu se mudar. Hoje em dia elas moram no mesmo condomínio, em casas diferentes. Foi em 2022 que Babi, mesmo nunca gostando de aplicativos de relacionamento, resolveu baixar o Tinder no auge de sua solteirice. Ela estava em Salvador visitando uma amiga e logo deu ‘match’ com a Maria. Maria mandou um “Oi, tudo bem?”, ela não respondeu e Maria pensou “Nossa, que rude!”... 10 minutos passaram e Babi respondeu pelo Instagram: “Tudo, e aí?". Conversa vai, conversa vem, elas viram pelo aplicativo que estavam muito próximas, descobriram que na verdade era na mesma rua e decidiram se encontrar. Contam que nunca tinham feito isso, estavam com medo de ser um homem e/ou uma pessoa casada, mas no fim deu tudo certo. Bárbara avisou que estava saindo, Maria nem conseguiu se arrumar, abriu a porta e ela já estava lá. Ficaram com os amigos em casa, tudo foi bem divertido. Conversaram a madrugada toda, só se beijaram na hora de dormir. No dia seguinte estavam pensando que “Ah, foi uma noite legal e só”, mas logo nos próximos dias já se viram, se viram, se viram… E até hoje o maior tempo que ficaram distantes foi no máximo por uma semana. Um mês depois do primeiro encontro o pedido de namoro saiu… e acreditam que justamente pelo tanto que vivem juntas sentem que o tempo de relacionamento parece ser muito maior do que realmente é. Hoje em dia, Maria voltou a dar aulas presencial. Estão vivendo mudanças bem legais, adoram cozinhar juntas, fazer coisas artesanais, escrever poemas, tocar instrumentos, ficar com os gatos… Maria conta que vê a Babi como alguém que entrou na vida dela para melhorar tudo. Sua vida deu um salto de qualidade gigantesco. Babi completa que foi recíproco, ambas melhoraram. Maria ajuda ela nas questões familiares, ensina sobre a independência, sobre correr atrás dos seus sonhos e lidar com os pais corujas. Para Maria, todo amor é uma construção, não é algo que acontece de um dia para o outro. Fala do amor dos pais, o quanto admira-os e o quanto precisou ser reconstruído dia após dia, por exemplo, quando ela se assumiu. Explica que se viu amando quando percebeu que confiava sua vida à Babi, e fica muito feliz que a construção delas tenha acontecido de forma leve, porque são uma para a outra o que sempre foram para os outros e que os outros nunca foram pra elas. Por fim, querem ressaltar que o relacionamento é marcado por “Primeiras vezes” desde que se conheceram, ou seja, sempre possuem primeiras experiências juntas. Como: primeira sessão de fotos, primeira vez viajando juntas, primeira vez que a família conheceu alguma companheira, primeira vez que foram no Festival de Verão de Salvador… e que escolheram ir nos brinquedos para tirarem as fotos porque é um lugar que amam muito, que se sentem felizes e que podem ser quem são de verdade. ↓ rolar para baixo ↓ Bárbara Maria
- Paula e Luiza
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Paula e Luiza, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Ao falarmos sobre a Paula ser a primeira mulher por quem a Luiza se apaixonou e sobre as diferenças dos relacionamentos heteroafetivos, ela comenta que não gosta de dizer que todo homem é um cara escroto ou coisas do tipo. Entende que o machismo existe e que os homens reproduzem a sociedade machista. Mas entende, também, que o relacionamento entre mulheres envolve muito mais diálogo e que as mulheres se permitem viver mais. Além disso, as mulheres entendem umas as dores das outras, desde maiores ou menores, como insegurança estética e medo ao caminhar sozinha na rua. Entendemos que o homem está sempre numa posição superior, sempre tratado com mais poder, então talvez por isso não temos muito espaço para conseguirmos nos lidar de igual para igual, diferente das mulheres quando se relacionam entre si. Além disso, o fato dela ser mais feminina que a Paula faz com que a tratem diferente o tempo todo. É como se a Paula fosse tratada como homem por ter um estilo um pouco menos feminino... e a Luiza não pudesse ouvir certos assuntos ou fazer certas coisas. No fim, rimos chegando na conclusão de que se for pensar em coisas femininas no sentido machista, tipo chorar e ser mais sentimental, com certeza a Paula é muito mais, já que a Luiza acaba lidando com tudo de forma mais séria e forte. Por fim, Paula diz que gostaria que a palavra da mulher tivesse mais validação, que não precisássemos ficar o tempo todo provando que temos conhecimento sobre algo, mas sim que as pessoas nos ouvissem, sem invalidações. Luiza e Paula estão com 28 anos, sendo 10 de relacionamento. Se conheceram num encontro de jovens da igreja - Luiza, na época, nunca tinha se interessado por nenhuma menina, enquanto Paula já namorava. Depois de um bom tempo, começaram a se falar pelo Orkut. Paula chegou até a tentar apresentar um amigo para a Luiza, demorou a entender que o que ela queria era um flerte. Paula ainda estava no ensino médio, Luiza no cursinho, começaram a se encontrar e aos poucos entenderam que estavam apaixonadas. Aos 5 anos de relacionamento resolveram morar juntas na casa dos pais da Paula. Eles são bem tranquilos e passaram alguns anos morando juntos, quando elas conseguiram se mudar para o novo apartamento. Hoje em dia, Luiza é nutricionista, mas já trabalhou com várias coisas (como body piercing e reiki), enquanto Paula é publicitária, fazendo também freelas como fotógrafa de vez em quando. Os animais são sempre muito presentes na vida delas, desde cachorros, gatos e até passarinhos. A Amora (cachorra) foi adotada durante uma feira de adoção, enquanto os gatos foram achados na rua em momentos diferentes. Criaram vários bichos juntos na casa em que moravam com os pais da Paula, mas trouxeram apenas a Amorinha e dois gatos: o SeuBonzinho e o Bazinga. Além disso, há os presentes trazidos pelos passarinhos. Quando moravam na casa, muitos passarinhos traziam plantinhas. E assim começaram a crescer diversas plantas que elas cultivavam sem saber qual eram. Hoje em dia, dentro do apartamento, há plantas por todos os lados e muitas foram trazidas pelos pássaros e cultivadas por elas. Mudar para o novo apartamento significa muita coisa. Uma independência que sonharam por anos, um cuidado com o lar, poderem fazer suas próprias escolhas. Elas se divertem tirando um dia da semana para poder comer uma coisa gostosa que querem muito, ou quando o dia não está bom,se permitem assistir uma série ruim comendo algo para ao menos estarem juntas. Estão tendo muito cuidado ao arrumar e mobiliar o espaço colocando a carinha delas em tudo. Além disso, estão amando sair diariamente com a Amora para passear na rua. Sentem que os primeiros anos de relacionamento foram os mais difíceis, por problemas na família e por problemas envolvendo ciúme. Depois, com o tempo, começaram a fazer terapia e tudo foi sendo trabalhado porque entenderam a raiz dos problemas. Passaram (e ainda passam!) por muitas mudanças na vida, mas sempre lado a lado, gerando um apoio mútuo. Comentam que o amor é um laço muito forte e só se arrebenta se acontecer algo muito ruim. É nas pequenas coisas que ele se desenvolve, nos detalhes cotidianos. O amor, para elas, significa desde chegar em casa e perceber que uma está mais cansada, então a outra vai limpar a caixa de areia dos gatos ou arrumar a cozinha, até dar presentes sem grandes motivos, fazer a comida favorita de surpresa, cuidar do lar, agradecer por estarem juntas todos os dias. É sempre fazer uma escolha. Paula Luiza
- Maria Vitória e Fernanda | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Quando ela era mais nova, aos 14, na época da novela Amor à Vida, com o personagem gay Félix, ao debater sobre homossexualidade a mãe da Fernanda chegou a desconfiar de algo, mas ela negou fielmente. Na vida da Maria Vitória, a referência veio mais tarde, na novela A Força do Querer, com a/o personagem Ivana/Ivan, da qual surgiu o debate com a avó e fez com que ela se abrisse sobre a sexualidade. Hoje em dia, ambas famílias lidam bem com os relacionamentos, elas brincam com eles que eles nem deixam elas cogitarem um término, são grandes entusiastas. Mas sabem respeitar e elas também entendem tudo o que passaram para chegar até o momento em que estão, tudo o que precisaram enfrentar, inclusive, seus próprios medos. Ainda sobre suas dificuldades, entendem que a maior delas também está relacionada à comunicação. Até hoje é algo que buscam explorar, cuidar e cultivar. O momento do pré vestibular da Mavi foi muito difícil, passar em medicina requer muita pressão, muito stress, saber colocar cada coisa no seu lugar, lidar com a distância… são muitas coisas que precisam estar em equilíbrio e nem sempre estão. A Fernanda faz o papel de sempre incentivar a Mavi a falar, enquanto a Mavi sempre foi uma pessoa que pouco falou sobre seus sentimentos. Cada vez mais ela tenta se abrir, mas ambas também entendem aquilo que eu comentei no começo, que possuem diferentes linguagens. Jeitos diferentes de ver as coisas. A melhor forma que encontram é enxergar o lado de cada uma, entender múltiplas interpretações, se encaixar de jeitos diferentes. Na linha de explorar e cultivar, entender que não precisam ser quadradas, que tudo tem seu tempo, que não precisam das coisas na hora, urgentes e emergentes. E que se precisarem, estarão dispostas também, porque tudo pode ser conversado e ultrapassado. ♥ Quando elas começaram a ficar, a Mavi entendeu logo de cara que queria namorar com a Fê, ela diz que sabia que o terceiro amor é o amor verdadeiro na vida e que a Fê é o terceiro amor da vida dela. Mas foi muito difícil elas começarem a namorar de fato, inclusive, brincam que foi preciso pedir vááárias vezes em namoro até a Fê aceitar (e que se a Fê não aceitasse, aquela seria a última vez, porque ela não iria mais pedir!). Ela sempre dava um jeito de adiar, até que foi colocado um limite... e adivinhem? O pedido aconteceu dentro do carro. O carro foi muito importante em vários momentos, não só nesse. É o local onde elas têm as conversas mais sérias, onde viajam, onde se sentem à vontade, onde estão sempre indo para Porto Alegre, Laguna… passam muito tempo lá. No começo do namoro elas não eram assumidas, então o carro era o lugar que representava segurança. "Às vezes quando a gente anda de carro, a gente não vê nada... mas também vê tudo” Como a Fê não era assumida, elas entendem que essa foi uma barra muito forte que passaram juntas. Ela não se aceitava, foi um período muito longo. A Mavi não quis mais ficar escondida, entendia que não era mais justo viver assim. Antes de começar a namorar, nem passava pela cabeça da Fernanda se assumir, não pensava em contar porque tinha muito medo da reação (e spoiler: hoje em dia a mãe dela gosta tanto das duas que se emociona vendo elas). A Fê odiava pensar em contar e em não contar, porque ama tanto a mãe dela, é tão próxima, mas tinha medo de alguma reação de não aceitação. Acredita que se não fosse a Maria fazer esse movimento, talvez ela não tivesse se assumido até hoje. E teria se privado de todos os momentos em família que já viveram, em todas as vezes que andam juntas pela cidade (porque isso era o que mais as incomodavam, passavam bastante tempo “escondidas” por medo de encontrar pessoas conhecidas)…até que chegou o momento que mais pesou, pelo falecimento de uma familiar da Maria, em que a Fê entendeu que gostaria de estar presente com ela, de estar dando apoio à ela, mas que não podia. E aí resolveu abrir o jogo, contar, não podia mais segurar isso, precisava mudar. Ela explica que quando o medo de não estar vivendo fica maior que o medo da mudança, a gente entende que precisa mudar. E foi isso que aconteceu. A Fernanda tem 22 anos e é natural de Criciúma, Santa Catarina. É designer, trabalha com branding e social media. Estuda psicologia, é apaixonada pela mente humana, ama estudar isso, pensar sobre como as relações acontecem. Também adora desenhar e estudar comunicação. Maria Vitória tem 23 anos e é natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. É estudante de medicina e estuda em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ela adora tudo o que envolve música, desde o piano (que toca e que aprendeu admirando a avó tocar), até a dança que vem de toda a família no palco. É entusiasta da história, sonha em um dia cursar uma faculdade de história também. Ambas adoram viver em Criciúma, são entusiastas da cidade, por isso, também, se preocupam em como seria importante levar mais cultura para lá. Mavi comenta que traria mais história, mais acesso à informação de verdade, conhecimento de verdade e formação de opinião. A Fê mora em um bairro mais afastado do centro e fala sobre como é bom sentir que vive em comunidade e os vizinhos serem considerados uma grande família, só que conta também como ainda falta o bairro ter a mesma visibilidade que o centro e ser tão valorizado quanto. Por fim, mas não menos importante, falam sobre a importância que seria ter na cidade um espaço que valorizasse a vida LGBT, a nossa cultura, os nossos valores, não só pela questão do medo de estarmos sempre em locais públicos, mas por ser um lugar nosso, com a nossa cara, um lugar que estivéssemos sendo nós mesmos, porque nós merecemos isso. Quando perguntei como a Mavi e a Fernanda se conheceram, elas disseram que foi por uma coincidência ou por um erro que deu em acerto, chamem como preferir. Vamos lá: A mãe da Mavi é professora de dança e trabalha também em uma universidade. A Mavi estava lá acompanhando uma audição e uma menina chegou atrasada, ela viu a menina, se interessou e fim. Um tempo depois, estava rolando um evento na principal praça da cidade, ela viu uma menina muito parecida e pediu para o amigo ir lá saber se a menina beijava mulheres. A menina disse que era bissexual, mas que namorava. A Mavi não sabia o nome da menina, mas sabia que ela tinha uma pinta no rosto e colocou, absolutamente do nada, na cabeça dela: acho que o nome é Fernanda. Decidiu desbravar no Facebook e achou uma Fernanda, com uma pinta no rosto. Que era quem? a Fê. Adicionou a Fê em todas as redes sociais, curtiu tudo o que ela postava: no Facebook, no Instagram, no Twitter… e a Fê pensando “meu Deus… quem é essa menina hétero curtindo tudo o que eu posto???”! Até que uns meses depois, em outro evento, nessa mesma praça, ela viu a Mavi e decidiu falar com ela, chegou dizendo “ei, você é a Maria Vitória do Twitter?”, que respondeu “não!” e foi descoberta pelos amigos “é ela sim!!!” e envergonhada, rebateu “e tu foi fazer teste na companhia de dança, né??”. As amigas da Fê gargalharam e ela só disse “não???”, então a Mavi entende que de fato, não era a guria da audição, mas achou a Fernanda muito mais bonita que a menina. Nesse dia elas acharam a situação muito engraçada, riram, conversaram e decidiram continuar se falando de forma online. Foi só um tempo depois que elas saíram pela primeira vez, tendo um primeiro encontro (que por sinal, foi fazendo as compras de natal no shopping), depois conversaram em um bar e entre o natal e o ano novo deram o primeiro beijo. Quando comecei a conversar com a Maria Vitória e a Fernanda, ouvindo elas falarem, eu ainda estava desacreditada de que o encontro tinha dado certo. Todos os planos foram, literalmente, por água abaixo - dois dias antes decretaram a volta do lockdown em Criciúma, cidade catarinense, onde estávamos - e uma hora antes de nos encontrarmos caiu a maior chuva possível. Além de que no dia seguinte, de manhã cedo, eu viajaria de volta para o Rio. Não tinha jeito, teríamos que cancelar. Aí elas falaram: “vamos fazer dentro do carro! É o nosso lugar. Sempre foi nosso lugar.” Quando eu saí do encontro com elas, pensei muito sobre o amor porque acredito que nunca falei tanto com um casal sobre as múltiplas formas de olharmos esse sentimento. Tudo começou porque uma vez a Fê compartilhou um post sobre as 5 linguagens do amor e disse quais que ela mais se identificava, que eram três, enquanto a Mavi disse quais que ela mais se identificava, que eram as únicas duas que a Fê não disse, ou seja, elas viam o amor de formas totalmente diferentes. Desse mesmo jeito, elas entenderam que vivem esse relacionamento porque o amor e as relações, como muitas coisas na vida, tem múltiplas interpretações e para entendê-las precisamos estar abertas a isso. A Fê entende que o amor é uma junção de coisas, o carinho, o olhar, a atenção. O amor é olhar reconhecendo os defeitos. Ela fala sobre em toda a construção do relacionamento dela com a Maria, desde o comecinho, ver o amor. Em cada detalhe, cada entendimento, cada passo que deram juntas, ela sempre soube onde esteve presente o amor. Fala também sobre o amor entre mulheres ser mais intenso porque quando um homem e uma mulher se relacionam eles estão em mundos que foram construídos socialmente diferentes, enquanto duas mulheres estão em mundo socialmente construídos iguais, então elas se identificam, se entendem, são corpos semelhantes. Já a Maria Vitória fala sobre como o amor pode ser doloroso também, como podem existir relações tóxicas transvestidas de amor. Como as pessoas podem se machucar em nome do amor, e como isso pode deixar pessoas mais ariscas, menos abertas a viver coisas boas. O amor tem que ser cuidadoso. Ela disse que o amor entre mulheres pode ser (e na maioria das vezes é) diferente, mas que o que difere realmente cada relação é o jeito que cada pessoa se olha, se vê, se respeita. Elas brincam o quanto foi difícil no começo da relação a Mavi também demonstrar carinho, ela não abraçava, dava dois tapinhas, como quem encontra um conhecido na rua. Foi preciso muita calma e investimento para ela entender que podia ter carinho. Enquanto, por outro lado, a Fê também não se entregava de cabeça, pisava em ovos, ia com calma demais. Uma foi tentando permitir a outra, até que por fim, pudessem caminhar juntas. Tudo foi muito novo. Fernanda Maria Vitória
- Beanca e Ana Carolina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beanca e Ana Carolina, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Ao decorrer da história da Carol e da Beanca você entende que elas terem se conhecido, era no mínimo, muito necessário. Carol procurava uma pessoa que vivesse a vida de forma diferente da dela, que fosse mais calma, circulasse em outros espaços. Enquanto a Beanca procurava alguém que vivesse na área da saúde e que construísse a vida de forma mais dinâmica, tendo uma rotina. Assim aconteceu: a Beanca chegou na vida da Carol trazendo muita leveza, amigos novos, bagagem cultural, pé no chão… enquanto a Carol trouxe uma carga de conhecimento gigantesca, uma nova realidade, iniciativas e muito carinho. Enquanto Carol conta tudo o que precisou fazer até que elas conseguissem se beijar ou começar o relacionamento, Beanca olha para ela e ri, tímida, depois diz “que bom que essa iniciativa ela tomou”. Carolina tem 36 anos, é enfermeira chefe em um hospital público. Beanca tem 38 anos, é formada em jornalismo, trabalhou com assessoria de imprensa e comunicação durante anos, mas largou tudo para seguir seu sonho: fazer odontologia. Por mais que tenha feito muitos trabalhos legais na comunicação (e cita Esconderijo, a websérie LGBT, da qual participou da produção na segunda temporada), não se via mais no mercado, sentia tudo muito saturado. Foi aí que resolveu se dedicar ao seu sonho e hoje em dia, além da faculdade, ocupa boa parte do tempo fazendo diversos cursos especializantes. Quando as duas se conheceram - pelo Happn, Carol logo de cara achou ela interessante pelo fato de ser jornalista… e Be queria muito conhecer alguém da área da saúde, já que estava entrando no mundo da odontologia. Pra quem não sabe, o happn funciona mostrando pessoas que passam fisicamente perto de você em algum caminho durante o dia. Elas se esbarraram algumas vezes, mesmo que morressem em lugares bem distantes, pelo motivo da Beanca morar próximo ao hospital onde o padrasto da Carol estava internado. Quando elas se encontraram pela primeira vez, Carol estava passando por um momento bem difícil. Estava muito triste, queria sair um pouco da realidade dela e conhecer pessoas novas, conversar sobre novos assuntos, ter alguém que ajudasse a colocar uma calmaria no turbilhão de sentimentos que estava sentindo. Beanca chegou trazendo tudo isso e introduziu a Carol no seu grupo de amigas, que são pessoas mais voltadas à arte e que falam sobre todos os tipos de assunto - de cinema, política, fotografia, música… coisas que não fossem só voltadas à saúde. “Pra mim, foi muito importante esse contato com pessoas alegres. Era o que eu precisava. Me sentir animada de novo”. Pouco tempo depois rolou o pedido de namoro. Carol comenta que toda mulher é muito intensa e pecamos em romantizar demais isso. Antes de pensar em namorar, ela passou por um relacionamento bastante abusivo (forte e intenso), então a Be significava ser muito mais vida real, mais tranquila, numa frequência melhor. O amor veio com o tempo, quando elas deixaram a paixão se transformar. “Dar tempo ao tempo não significa ser uma tarefa fácil”. Elas já passaram por diversos momentos difíceis no relacionamento - chegaram a ser diagnosticadas com depressão durante um período e optaram pelo afastamento para conseguirem tratar. Quando entenderam que já estavam num quadro melhor e perceberam que não queriam perder uma a outra, decidiram voltar, já tendo uma mentalidade diferente sobre o relacionamento. Hoje em dia, estão sempre conversando sobre tudo. A pandemia também ensinou que não adianta você se esforçar ao máximo para atingir um nível de coisa que não vai existir, ou seja, um relacionamento sem erros, romantizado demais. Pelo contrário, a pandemia mostra que não precisamos ter controle de tudo, que a vida é um sopro e que devemos usar a energia com algo que realmente valesse a pena, como o cultivo e cuidado diário do relacionamento. Devido ao momento de pandemia que vivemos e à importância da profissão da Carolina enquanto enfermeira chefe, decidi perguntar sobre como está sendo a experiência difícil de estar na linha de frente contra o COVID-19. “É muito complicado” - foi a primeira frase que Carol disse. Toda a equipe de enfermagem saiu com alguma sequela, principalmente psíquica. Você pode ter muita ou pouca experiência, ser mais velho ou mais jovem, todos sairão da pandemia muito diferentes. É muito difícil até hoje pensar em quantos amigos ela perdeu, quantas pessoas desesperadas sabendo que morreriam entubadas ela viu. Dar as notícias, emprestar o próprio celular para as pessoas se despedirem da família por vídeo, entender que o vírus é um inimigo invisível… foi tudo muito chocante. A sensação é de que ninguém vai sair ileso, os profissionais dentro das equipes começaram a mudar muito rápido, tanto para melhor, quanto para pior. O corpo dói, a mente dói, existe muita tensão e muito medo de levar para a família, preconceito das pessoas não quererem estar por perto… Ela diz que toda vez que precisa correr para conseguir o último remédio ou o último cilindro, entende que a vida passa muito rápido. Precisamos pensar também na importância da profissão. Por mais que médicos tenham um papel muito importante no hospital, quem está na linha de frente mesmo, correndo, atendendo e cuidando são os enfermeiros. Hoje em dia o descaso com a saúde pública no Brasil é gigantesco, principalmente no Rio de Janeiro, e é resultado também de diversas gestões que não tratam a saúde com devido respeito, destinando poucas medidas efetivas e recursos necessários. Por fim, Carol comentou também o quanto eles envelheceram, o quanto estão cansados e o quanto foi difícil perder amigos e familiares, vendo eles morrerem completamente sozinhos. O COVID é uma doença muito cruel que não escolhe entre uma pessoa ou outra. Quando você vê, já era. Surge novamente a frase na conversa: a vida é um sopro. Quando perguntei sobre como foi a sensação de ter tomado a vacina, o tom da voz mudou completamente: alívio. Disse que abraçou muito uma colega de profissão, que chorou e que entendeu que isso, em algum momento, vai passar. “Poder voltar a abraçar as pessoas é muito surreal”. Beanca sente que o amor entre mulheres é muito mais cuidadoso, íntimo e que as mulheres se entendem mais. Carol acha mais fácil se relacionar com outra mulher do que com homem, levando em consideração que relacionamentos em si não são coisas fáceis. No fim, chegam à conclusão de que não sentem vontade de se relacionar com homens porque falta companheirismo - o que há muito na relação delas. Se uma cozinha, a outra limpa. Não ficam fazendo algo no sentido de “servir”, como vemos em diversos relacionamentos heterossexuais, mas fazem no sentido de construir juntas, fazer juntas. “Quando eu faço a janta é porque eu quero fazer, esperar ela chegar para comermos bem. Não faço porque sou obrigada a fazer e deixar um prato na mesa pronto esperando ‘o marido chegar do trabalho'''. A coisa que mais gostam de fazer está entre: reunir os amigos (sendo anfitriãs, recebendo eles em casa), estar com suas famílias e viajar estilo bate-e-volta para alguns lugares (a casa em Teresópolis, regiões do interior do Rio de Janeiro, etc). Quando falamos sobre a cidade, elas contam o quanto nossa visibilidade melhorou muito, já que quando se assumiram, há uns 20 anos atrás, a coisa era bastante diferente. Naquela época uma mulher só poderia amar outra se estivesse em guetos, escondidas, suburbanas. Eram lugares horríveis, submundos, não eram restaurantes e festas legais. Carol lembra muito de ter que se esconder para viver um amor e sobre não falarem abertamente sobre homossexualidade. Até mesmo para ela foi difícil entender. Achava que só podia ser lésbica quem se vestia de forma estereotipamente masculina… e só entendeu que não era bem assim quando viu uma mulher bastante feminina beijando outra (e isso fez com que ela se entendesse também). Além disso, conta que foi nos grupos do UOL/BOL e no ICQ que ela pode conhecer outras pessoas LGBTs e assim se encontrar - em shoppings, em guetos. Para a Be foi mais difícil a questão de se aceitar. Já tinha uma referência de LGBT na família, então lidava com isso tranquilamente. Mas internamente só conseguiu se assumir quando formou um grupo de amigas que também se sentiram assim e decidiram que se assumiriam juntas. Hoje em dia ficam felizes quando veem o quanto está sendo falado sobre LGBTs - na mídia, nos espaços de convívio e na política. Acreditam que cada relação se constrói aos poucos e que precisamos falar quem nós somos, amar de verdade, para que a luta siga avançando. < Beanca Carol
- Dandara e Raquel
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Dandara e da Raquel, quando o projeto passou pela Bahia!. Foi por uma brincadeira entre a Dandara e a amiga que estava hospedada na casa dela, que a história de amor entre Dands e a Raquel começou. Vamos lá, eu explico: Era um dia ruim, ela estava chegando em casa triste e amargurada, quando abriu a porta e viu a amiga se divertindo olhando para o celular. Na hora, indignada, perguntou por qual motivo estava rindo, se tudo nesse mundo andava tão ruim. A amiga contou que tinha baixado o Tinder e estava conversando com um cara que de tão sem noção chegava a ser cômico - o papo era muito ruim, todo errado, mas ela estava até se divertindo e disse “Amiga, baixe o Tinder também, dá match com ele! Vamos ver se ele vai dizer o mesmo pra ti!”. Na hora Dandara imediatamente duvidou do algoritmo. Mas é aquela coisa: com algoritmos não se brinca. Ela viu a conversa, tomou um banho e decidiu baixar o aplicativo. Realmente achou o cara, deu match e aconteceu o que esperavam: um copia e cola da conversa com a amiga. Acharam tudo bizarro e riram a noite toda dessa situação. Entre rirem da própria desgraça, Dands resolveu usar o aplicativo um pouquinho, mesmo que não estivesse tão disposta a conhecer pessoas, até que deu match com a Raquel. Raquel, por sua vez, tinha acabado de sair de um relacionamento que fora bastante traumático e usava o Tinder para se distrair e conhecer outras possibilidades de conversas. Durante o ano de 2021, quando conheceu a Raquel, achou que ela seria uma ótima companhia. Foi quando conversaram, decidiram ir ao museu juntas e passaram o tempo todo só conversando, nem chegaram a se beijar. Depois do primeiro encontro que tiveram no museu, Raquel e Dandara seguiram conversando e saindo, até que ficaram. Um mês depois do primeiro beijo começaram a namorar. Dandara não aceitou o pedido de namoro da primeira vez - pois é, Raquel até pediu, mas ela disse: “Não.”. Nada mudou, seguiram ficando. Entendem que precisavam resolver outras situações, relacionamentos inacabados e medos de se relacionar seriamente. Precisavam entender seu tempo. Por mais que não queriam namorar, seguiam ficando e não ficavam com mais ninguém, foi quando Raquel desistiu e falou: “Não vou mais falar sobre o assunto. Ela está namorando, só não quer ver”. E assim seguiram, até que um tempo depois foi Dandara quem fez o pedido e oficializaram o relacionamento. Hoje em dia, no momento da documentação, anos depois do começo do namoro, nos encontramos num dia turbulento em meio à mudança de apartamento delas: vão morar juntas pela primeira vez. Entre carregar coisas de um lado para o outro, arrumar caixas e comprar móveis, tiramos um tempo para tomar um café no Pelourinho, lugar escolhido por ser bastante frequentado por elas. Dandara no momento da documentação estava com 26 anos, ela é natural de Salvador, trabalha enquanto estagiária em advocacia e tem um grande hobbie na fotografia - também trabalhando nessa área no tempo livre. Raquel no momento da documentação estava com 27 anos, também é natural de Salvador, trabalha com auditoria e conta que tanto ela quanto Dandara possuem ligações muito fortes com a Umbanda e o Candomblé, então além dos hobbies, no tempo livre estão muito presentes em suas religiões. Conversamos muito sobre o quanto o processo da mudança vem sendo algo significativo para elas - e como documentá-las nesse momento também é importante. Dands conta que é uma pessoa muito apegada aos seus bens materiais, que a grande maioria das suas coisas representa sentimentos, pessoas, momentos… e a mudança está sendo um passo muito grande em praticar o desapego. Uma nova e desafiadora fase. A mudança também representa o novo desafio da convivência, com questões de casa, detalhes do cotidiano, novos conflitos ainda não vividos… coisas que também são boas. Antes de se relacionarem, entendem que passaram por muitos momentos difíceis, traumas, situações que faziam com que não falassem e se abrissem, viviam com marcas guardadas. Juntas começaram o exercício de falar e investigar uma à outra e acreditam que morando juntas isso possa se tornar ainda mais forte. Para Dandara, amar é ser companheira. Ela acredita que ser uma mulher preta se relacionando com outra mulher preta é algo político 100% do tempo, algo muito intenso que fala também sobre sua própria raíz. Raquel não quer ficar falando o tempo todo que beija mulheres, ficar reafirmando, quer ser tratada com normalidade, mas entende também que colocar como normal não adianta num momento que precisamos reivindicar, por isso se coloca nos espaços de luta. Para ela o amor é uma construção contínua - você se descobrir e redescobrir. É também estar sempre acrescentando nas relações: “Talvez algo já existe em você e o outro te ressalta, te soma”. Ela conta que quando brigam ou discutem/se veem nessas situações difíceis, sente que precisa sentar, conversar, se localizar no que está acontecendo, colocar pra fora. ↓ rolar para baixo ↓ Raquel Dandara
- Taynah e Estrella | Documentadas
Amor de Ano Novo - Taynah e Estrella clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Ari e Ane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Ari e da Ane, quando o projeto passou por São Paulo! O encontro da Anelise, da Ariana e dos gêmeos Liz e Lucca com o Documentadas aconteceu num momento bem inicial da vida dos pequenos, antes mesmo de completarem 4 meses, num parque em São Paulo. Com entusiasmo, elas contam sobre como tem sido a vivência inicial da maternidade em dupla e como já ouviram diversas vezes as pessoas falando sobre os dois serem sortudos em ter duas mães. A partir do que vivem agora perceberam que qualquer mãe em um relacionamento heterossexual passa a ser uma mãe solo pelas necessidades básicas que enfrenta, muitas vezes sozinha/sem apoio para dividir intimidades - precisa fazer xixi, tem diversas questões com o corpo (a amamentação, o pós parto) - e como é diferente positivamente compartilhar isso com outra mulher na dupla maternidade, não é algo solitário. Também compartilham medos e situações inesperadas, como as primeiras noites, os choros e os momentos difíceis. Sabem que podem contar uma com a outra. Entendem que querem proporcionar coisas diferentes para as crianças, coisas que as famílias héteros talvez não precisem se preocupar porque não precisaram passar pelos desafios que passamos. Querem criar crianças conscientes. Ari comenta que viver a maternidade sem vincular à política é quase impossível, principalmente porque a fertilização de casais homoafetivos pelo SUS não é possível, o acolhimento do sistema único de saúde precisa melhorar, precisamos de representatividade, desde fisioterapia para a gestante até enfermeira que fale sobre amamentação. Ane completa que só está ali hoje porque brigou muito pela licença maternidade, mas que não deveria brigar, e sim ser lei, para então termos maneiras mais justas de vivenciarmos nossas formas de amor. Ane e Ari se conheceram em 2016. Ane sempre foi festeira, morava próximo à Av. Paulista e tinha uma vida agitada. Ari terminava a residência médica. No meio da semana, num feriado, Ane foi ao show da Preta Gil e Ane trabalhava no Hospital da Santa Casa, quando se cruzaram num aplicativo de relacionamento que funciona pela distância física (quando as pessoas passam uma pela outra em lugares próximos, elas aparecem no aplicativo). No dia seguinte, Ane acordou de ressaca e viu a Ariana no aplicativo. Deu um superlike, assim, apareceria logo que a Ari abrisse o app. Acabaram dando match - e afirmam que se não fosse essa “chamada de atenção”, provavelmente não teria rolado, já que Ari nem dava bola para os aplicativos (e nunca tinha saído com alguém assim). Decidiram sair, foram em um restaurante que não combinava nenhum pouco com elas, comeram salada e depois atravessaram a rua para ir num pub, que também não combinava com elas, mas ao menos tinha cerveja. Deu certo! Tudo fluiu e continuaram se encontrando aos poucos. Depois de dois meses, Ane estava com uma viagem agendada com um amigo para Cuba e chamou Ariana para ir. Ari recém tinha acabado a residência, estava querendo viajar e topou. Decidiram ir juntas e já entenderam que estavam se relacionando. Depois de um tempo de relacionamento, mas ainda no começo, Ane recebeu uma proposta de trabalho muito boa, porém que precisaria se mudar para Porto Alegre. Pensou muito, Ari apoiou, a encorajou, mas acharam que o relacionamento não iria durar pela distância. Ane acabou indo, morou lá por dois anos, e elas se encontravam aos finais de semana quando conseguiam, fazendo a ponte aérea POA X SP e usando uma manutenção diária para manter o relacionamento de todas as formas. Contam que não foi fácil, existia a saudade, a vontade de estar junto… Mas nesses momentos se usa todas as alternativas possíveis: se davam mais presentes, bilhetinhos, dedicatórias, chamadas de vídeos, aproveitavam 100% do tempo quando estavam juntas… Ari acrescenta que mesmo sendo pessoas diferentes, quando se conheceram, já se viam de formas completas. Isso auxiliou muito nesse processo. Já tinham suas profissões (e eram valorizadas), já valorizavam uma à outra, tinham suas redes familiares, seus amigos… Então tudo foi muito mais fluido, as cobranças quase não existiram. Depois dos dois anos em Porto Alegre, voltando à São Paulo, juntaram os animais de estimação, os móveis, a casa, e foram morar juntas. Anelise estava com 35 anos no momento da documentação. Ela é do interior de São Paulo, mas mora na capital há muitos anos e trabalha como advogada de empresas. Hoje em dia, o tempo livre é 100% ocupado pelos pequenos, mas também gosta de ir em rodas de samba, tocar violão e assistir filmes no cinema. Ariana estava com 38 anos no momento da documentação. É natural de São Paulo e trabalha enquanto médica pediatra. Conta que o tempo de agora é para fazer um conhecimento - conhecer os filhos e os filhos conhecer as mães. Nos primeiros momentos, o tempo era para fazer coisas básicas (comer, dormir, tomar banho…) e agora, com eles no carrinho, tem sido possível tomar café da manhã, por exemplo, o que é um grande prazer compartilhar esse momento com eles. Foi durante a pandemia que começaram a pensar sobre a maternidade, sobre quem iria engravidar e como seria. Tentaram uma vez e não deu certo. Depois, tentaram novamente, com aquela possibilidade - dois óvulos, podem ser gêmeos. Tinham medo pelas questões financeiras, mas encararam. Descobriram a gestação na semana da Parada LGBT de São Paulo, e agora, um ano depois, irão na Parada novamente - com eles no colo. Anelise conta que aprendeu com a Ari que o amor pode ser algo leve, com diálogo e respeito. Ela sempre foi muito afobada, atarefada… e hoje em dia é diferente. Não acha que só o amor sustenta relações, é preciso uma série de coisas, como respeito, carinho, atenção, um esforço orgânico, natural. Ambas entendem seus privilégios, mas entendem também que mesmo ocupando o local que ocupam ainda enfrentam diversas questões de preconceito por serem duas mulheres mães que se relacionam afetivamente. Por isso, aprenderam a enfrentar essas questões com o tempo. Falam também sobre como é importante a rede de apoio que possuem. Podem contar com os amigos, com a família, e isso facilita muito para a existência do privilégio de viver um amor leve. ↓ rolar para baixo ↓ Ariana Anelise
- Leticia e Giovanna | Documentadas
Amor de Continuar - Leticia e Giovanna clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Bruna e Sophia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Bruna e da Sophia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Sophia quando pensa em inspiração vem logo a mãe dela na cabeça porque sempre foi a figura que representa todas as superações ao decorrer da vida (beijo, dona Maria Antônia!). Bruna também fala muito sobre a mãe e sobre a bisa - a pessoa que ela mais admira. Pensar na bisa é pensar na paz - era uma pessoa muito boa e querida por todas as pessoas, cujo também pensam nela com esse carinho enorme. A família delas têm lidado de forma respeitosa, tentando, aos poucos, entender. Elas também dão esse espaço e o tempo delas processarem as coisas. A mãe da Bruna hoje em dia adora a Sophia e até sente um pouco de ciúme. E o pai da Sophia chamou a Bruna para passar o último natal na casa deles. A relação delas é formada por uma comunicação muito aberta, falam sobre as outras relações, os traumas de vida, criam laços de fortalecimento. Acreditam que o amor é físico e inatingível. Sentem o amor e consideram algo muito sagrado - por ser imaterial mas por você conseguir sentir. “É um sentimento com vida própria”. Antes da pandemia voltaram mais uma vez ao MAM, durante uma abertura de exposição. Fizemos questão de fotografar exatamente no local que aconteceu o primeiro beijo, naquele quadrado, cheio de memória afetiva. Cantarolei Minha Pequena Eva enquanto fotografava. Conversamos muito sobre o nosso corpo ser político enquanto mulher lésbica e tudo o que isso envolve. Elas acreditam que o amor entre mulheres envolve um cuidado muito maior e acreditam que as relações requerem sempre uma manutenção, uma atenção diária. “O amor entre mulheres é algo que vem na gente, porque ninguém nunca nos ensinou como amar as mulheres, você apenas sente, e então ama”, diz Sophia. Ela comenta que não sabe olhar para o corpo de uma mulher como olham os homens e que já ouviu amigos falando “pô, então você nem gosta de mulher tanto assim, se não acha ela gostosa, se não olha pra bunda...”, e mesmo que ela saiba que isso não signifique nada, entende que ela não liga pra isso porque ela nunca foi ensinada a gostar de mulher como os homens são, ainda jovens, de acordo com o patriarcado - ou seja, não existe regras para nós gostarmos de mulher, nem manual de instruções, porque nem nos consideram (nós, mulheres que se relacionam com mulheres) dentro do sistema patriarcal. A Bruna conta que amigos homens já fizeram ela parar de trabalhar para olhar mulher bonita passando... e que o sentimento sentido foi de desrespeito e desconforto. Bruna contou que uma cidade feliz e ideal para ela seria uma cidade da qual ela possa andar na rua sem medo - que ninguém olhe feio, solte comentários quando ela passa. Ela quer andar com paz. Desde pequena ela se entende enquanto mulher lésbica e comenta que na escola, quando perguntavam o menino que ela gostava, dizia logo o nome do mais bonito e disputado, para assim ficar no canto com um descargo de consciência por saber que ele não daria bola para ela. Sophia tem 21 anos e é lojista, mas cursa Cenografia. É aí que acontecem seus trabalhos no carnaval: ajudando a montar os carros alegóricos. Bruna tem 21 anos também, é cozinheira em um restaurante na Barra da Tijuca, mesmo morando em Niterói - e faz essa jornada diariamente. Ela tem uma cabeça muito aberta, fala sobre amor, diz que amar é muito diverso e que quando você percebe, já aconteceu. Ela demonstra muito cuidado com a Sophia, principalmente cozinhando as comidas favoritas dela e fazendo receitas bem elaboradas (leia-se, um pão cor de rosa, com massa natural, porque é a cor favorita dela…………. pois é, não tem coração que aguente ler isso, foi difícil pra mim também segurar a vontade de abraçá-las). Ambas amam maquiagem e seu maior hobbie é fazer vídeos para o tiktok. Estão na rede social desde antes do grande boom durante a pandemia. Inclusive, vale citar, que o pedido de namoro foi feito por lá, já que estavam separadas pela quarentena. Carnaval no Rio, dia de chuva, tinder ligado, glitter no corpo, bloco lotado, passando pelo Museu de Arte Moderna (MAM). Imaginou a cena? Quando a música toca embaixo do concreto do MAM o eco é imenso. Você sente seu corpo todo tremer. Pessoas em cima de pernas de pau dançam ao redor no espaço entre a grama e a calçada. Ali, tudo faz sentido: de fato, é carnaval no Rio. Foi assim que Bruna e Sophia se conheceram pela primeira vez, entre chuva, tinder e bloco. Se encontraram no meio da multidão… e sabe o que faz tudo ser tão característico de uma cena real do carnaval? o primeiro beijo ter sido ao som de Minha Pequena Eva, contando com todas as pessoas ao redor cantando e pulando muito. Acho que uma das coisas mais instigantes nessa história toda é que a Sophia era crítica assídua do Tinder. Dizia que jamais serviria para algo e que não dava para esperar nada “dessas pessoas”. Melhor ainda é o fato de que elas moram muito longe uma da outra, se encontraram porque foi um dia do qual a Sophia foi até o centro da cidade e assim que a Bruna apareceu ela deu ‘like’ pensando: é bonita, mas sei que não vai dar em nada. A Bruna, pelo outro lado, assim que descobriu que a Sophia trabalhava em um barracão de escola de samba já queria pedir logo em casamento. Apaixonada pelo carnaval e pela Sapucaí, ficou empolgada ouvindo as histórias que Sophia contava. Bruna Sophia
- Mari e Nono
Mari e Nono A Mari se inspira nas famílias LGBTs que ela acompanha online. Essas famílias a trazem esperança - e assim elas aprendem a admirar suas famílias também, em como se permitiram entender, aos poucos, o relacionamento. São mulheres que sonham em formar seu próprio lar. Quando fazemos parte de uma minoria acontece com frequência uma forma de justificativa categorizada como “apesar de”, e tanto a Mari quanto a Nonô sentiram na pele o que é isso. A Mari sempre foi uma aluna muito boa, sempre teve as melhores notas e era perfeita para os outros. Então, mesmo com diversas mudanças repentinas na vida, como a saída do armário e a mudança de cidade, vincularam o fato dela ter tirado uma nota mais baixa com o relacionamento amoroso delas, como se isso pudesse ser o verdadeiro fator prejudicial. Elas passaram a comprar juntas essa briga e a lutar pelo respeito que mereciam. Hoje em dia ainda se veem nesse papel de “apesar de namorar uma mulher, a Mari é uma excelente profissional” e entendem que isso é um problema social, mas em suas próprias palavras, elas não esperam que as coisas cheguem resolvidas na vida delas, mas sim que resolvam juntas. Sempre se mostram muito determinadas a promover mudanças. “Amor é pão feito em casa”, foi assim que começaram a explicar o que pensam sobre o amor entre mulheres. Vocês já tentaram fazer um pão em casa? É preciso uma dedicação absurda, cuidando e dando atenção para que a massa seja gostosa. Essa dedicação pode vir à flor da pele, de forma vibrante, mas ela realmente caminha quando tudo se acalma e passa a ser de uma forma genuína, com cuidado aos detalhes. Além disso, amar se constrói por causa DE e apesar DE. Depois que elas postaram a primeira foto juntas (após um ano de relacionamento), viram alguns seguidores indo embora. Foi neste ato que entenderam que realmente estavam fora do armário. Hoje em dia elas reivindicam a importância de sermos referência para quem está perto de nós, dar apoio aos nossos, inspirar outras mulheres que passam pelo mesmo que elas passaram. Acham que, no geral, é muito importante vermos LGBTs na mídia “abrindo um pouco o caminho” e quebrando algumas barreiras do preconceito, mas comentam que ainda sentem falta de se ver nessas pessoas, de sentirem identificação. Por isso, abrem suas redes sociais sempre para ajudar quem está se descobrindo. A Mari foi arrancada do armário - como a mãe dela descobriu, ela não teve a condição de se sentir confortável para contar - e isso aconteceu num momento muito vulnerável. A Nonô já teve seu tempo mais respeitado e pode contar para a sua família. A avó de Nonô, cujo ela tinha o maior medo de contar, reagiu de forma engraçada e acabou entendendo - na verdade, foi a pessoa que mais aceitou. A família da Mari se dividiu em algumas partes… a mãe reagiu de forma difícil, o pai passou a tentar entender os motivos. Mesmo com muitas dificuldades, o tempo foi passando e elas foram crescendo muito juntas, então a família foi entendendo e respeitando o grande apoio que uma dá para a outra. Hoje em dia, elas possuem estabilidade e o desejo de uma vida tranquila. A Mari e a Nonô se encontraram (e se encontram diariamente) de muitos jeitos, mas principalmente na arte. Elas amam musicais e possuem um projeto de criar listas sobre filmes e séries para a comunidade LGBT. A Mari também ama atuar, a Nonô apoia bastante, enquanto aprende a tocar baixo. Mari trabalha atualmente como design de mídias sociais, além de estudar Relações Internacionais... e Nonô estuda licenciatura em artes, sonha em ser professora, faz iniciação científica no PIBID, mas também adora estar em produções - de teatro, de cinema… hoje em dia elas estão em home office e Nonô busca trabalhos na área da comunicação também. Passam o dia juntas em um apartamento, na Ilha do Governador, com seus dois gatos: a Elis e o Chico. Escolheram fazer as fotos no apartamento porque esse lugar representa o verdadeiro significado de casa. Foi ali que pela primeira vez fizeram as compras do mês, viram filmes no sofá da sala sem medo de recriminações, puderam ter os gatos, cozinhar e conquistar a intimidade juntas. É na casa que acontecem seus momentos favoritos, como o de fazerem o almoço no meio do home office e depois sentarem para ver uma série, mas acabam passando um pouquinho da hora do almoço e só depois voltam a trabalhar. É nesse apartamento que abraçam os gatos e depois reclamam de ter pelos pelo corpo, nesse apartamento que separam seu tempo de criar, de construir e de se cuidar. Talvez o segredo da Mari e da Nonô terem dado tão certo é o fato delas crescerem muito juntas. Esse fato fez com que a família, mesmo com diversas dificuldades, dia após dia, passasse a acreditar de verdade no amor delas. Fez também com que elas começassem a entender o que pode ser o amor. Mariana tem 20 anos, Nonô tem 19. Elas se conheceram ainda no colégio, no ensino médio. Mari tinha passado por algumas situações… precisou se mudar da cidade onde estava morando, em Barra do Piraí, no interior do Rio, para a capital. Por um tempo se sentiu sozinha, tentou seguir um padrão de vida do qual não se sentia bem de verdade, e por ser o mais confortável, encarou o padrão heteronormativo. A família dela era bastante conservadora e evangélica, ela sempre frequentou a igreja, seguia sua vida sendo uma boa aluna, uma boa filha e uma boa namorada. Voltar a morar no Rio significou um escape naquele relacionamento que ela mantinha. E foi no Rio que conheceu Nonô, assim que chegou na escola. Nonô sempre gostou muito de artes - ama materialidades, sentir o têxtil, pinturas, tocar instrumentos, jogos, cinema, teatro… e também sempre sentiu que poderia gostar de mulheres. Nonô me explicou sobre a importância de quebrar o tabu que fica envolta da palavra lésbica, porque mesmo ela sabendo que era, acabava por usar “gay” ou “sapatão” e cultivava certo medo de dizer a palavra. Quando entendeu as raízes preconceituosas desse medo passou a tentar aos pouquinhos desconstruir isso, e hoje faz questão de dizer sempre: sim, sou uma mulher lésbica. Mari Nonô <
- Cecília e Jady
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Cecília e da Jady, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Nos últimos meses, depois de várias conversas e de entender que o momento ideal tá chegando, elas decidiram procurar um apartamento e em breve estarão morando juntas. A ideia surgiu porque o contrato do apartamento que a Jady aluga com alguns colegas vai vencer no próximo mês e ela até cogitou propor algo em conjunto com a Ceci, mas pelas faculdades das duas serem em cidades diferentes, surgiram empecilhos sobre onde seria o imóvel. Com o tempo, ficou certo de que o curso da Cecília continuará à distância até o fim e isso abre novas possibilidades, então conversaram, as famílias apoiaram bastante e por já estarem passando muito tempo juntas, tudo passou a ficar cada vez mais concreto. Hoje em dia, o maior passatempo está sendo planejar os cantinhos do novo apartamento e cada decoração, cada móvel, cada objeto com a carinha delas ♥ (boa sorte, meninas!) O apoio da família da Cecília é algo que ela se orgulha muito em ter. Quando era mais nova ela passou por momentos muito difíceis ao se entender enquanto bissexual e por se relacionar afetivamente com mulheres. Passou pela expulsão de casa e hoje em dia, 11 anos depois, tem uma relação completamente diferente. A família dela considera a Jady como “uma filha paulista” e realmente apoia as duas, enchem elas de carinhos e estão sempre perguntando e querendo estar por perto. Ela conta que vê a Jady enquanto sua melhor amiga e que a pandemia representa recomeços em cima de recomeços, não só pela relação delas em si estar no começo, mas porque ela voltou pra casa dos pais, porque eles mesmos se mudaram, tudo se encaminhou para coisas novas o tempo todo (sem contar que o mundo estava vivendo algo completamente novo e inesperado), mas que ao mesmo tempo foi muito mais tranquilo por ter ela por perto, por ter a amizade e o amor dela ao seu lado. Hoje em dia a Jady está trabalhando como vendedora em uma loja de objetos praianos (biquínis, cangas etc) e a Cecília é redatora em uma agência de marketing, mas acaba trabalhando mais enquanto autônoma com seus freelances. Ambas se encontram o tempo todo em suas artes, a Jady já fez teatro por bastante tempo e contou o quanto ama, além de se dedicar ao desenho e a pintura, e a Ceci adora fotografar e também faz parte de um coletivo feminista que envolve lambes enquanto arte urbana e poesias feitas por mulheres. Falamos sobre o trabalho da Jady ser algo bastante recente, por conta de antes da pandemia todas as formas de renda serem bem diferentes. Na faculdade ela organizava brechós, fazia freelances, vendia doces e tinha outras rendas, além de também receber ajuda do pai dela. No começo da pandemia ela pensou que precisaria voltar para São Paulo, por não ter internet e computador em casa para estudar à distância e por não ver uma forma de continuar tendo uma renda independente. No começo a Cecília teve um papel importante na ajuda e no afeto na busca por um notebook e por conseguirem colocar internet em casa, até que infelizmente o pai dela, que trabalha enquanto motoboy, sofreu um acidente de trabalho e não conseguiu mais colaborar financeiramente nos custos. Foi nesse momento em que ela precisou voltar para as ruas, sair de casa e procurar algum trabalho fixo, e nisso falamos sobre as dificuldades que envolvem colocar nossos corpos na rua durante uma pandemia, com ônibus e BRTs lotados, dificuldades de achar máscaras PFF2s por valores acessíveis e o quanto é difícil nos cuidarmos dia após dia contra um inimigo invisível enquanto na volta do trabalho passamos por bares e festas com muita aglomeração, sem contar o sentimento que acaba causando de revolta muito grande, ao se sentir trouxa, usada, de estar remando contra uma maré de coisas erradas. É preciso muita força para seguir enfrentando. Desde que o primeiro beijo aconteceu e que elas começaram a conversar, meio que sem jeito e aleatoriamente, se encaixaram e decidiram logo em seguida se encontrar novamente. Com o decorrer do tempo, com os encontros e com o desenvolver de sentimentos, foram deixando as coisas fluírem e começaram o namoro. Tudo aconteceu num fluxo bastante natural porque elas se permitiram e também por tantas coisas que possuem em comum e pelo tanto que se divertem juntas. Desde o momento que nos encontramos elas comentaram sobre as bobajadas e as brincadeiras infinitas que fazem, contam que o verdadeiro encontro aconteceu por causa do riso (além do brigadeiro e do macarrão ao molho branco que a Ceci fez e ganhou o coração logo de primeira!), o que elas mais gostam de fazer é ouvir músicas, ver filmes e séries, comer várias sobremesas, apreciar diversas artes, mas mais que tudo: rir infinitamente. Estão sempre sorrindo, tendo crises de riso sobre coisas bestas, vendo memes na internet e compartilhando situações engraçadas. A Jady tem 21 anos, é natural da região metropolitana de São Paulo, mais especificamente de uma cidade chamada Taboão da Serra e veio para o Rio de Janeiro ser estudante de figurino na Escola de Belas Artes da UFRJ. Foi durante uma festa da faculdade, lá na UFRJ, que ela viu a Cecília pela primeira vez. O detalhe é que a Cecília não apenas não estudava na UFRJ, como era a primeira vez que estava indo lá. Ela faz faculdade também, mas na UFF, em Niterói, cidade que fica na região metropolitana do Rio de Janeiro. Cecília tem 27 anos, é natural do Rio e faz Estudos de Mídias na Universidade Federal Fluminense. No dia da festa, a Ceci estava lá apenas acompanhando um amigo - na verdade, na hora que elas se encontraram, ela já estava mesmo era praticamente indo embora. E aí, ao som de muito funk (antes que elas me corrijam, era um bastante específico: vem e brota aqui na base ) e no meio de todo mundo dançando, a Jady surgiu com uma roupa super esvoaçante e tão simplesmente tascou-lhe um beijo. A Ceci, por estar 100% sóbria (ela não bebe) e por não ser da UFRJ, não sabia se tinha entendido direito o que tinha rolado ali, sentiu que tudo estava super aleatório, mas rapidamente elas conseguiram conversar e decidiram trocar contatos. Detalhe: ambas estavam sem celular. Então atravessaram as pessoas dançando e foram até os amigos, pegaram um celular emprestado, a Jady passou o user do Instagram dela para a Ceci - que logo que ela chegou em casa, adicionou e mandou uma mensagem engraçadinha - e assim começaram a conversar no dia seguinte. Rolar Cecília Jady
- Gi e Rafa
A Rafaela e Gizelly foram o primeiro casal que tive contato em Fortaleza (e, se não me engano, o primeiro casal que agendei quando decidi que iria levar o Documentadas para lá). Elas são muito receptivas e me levaram para conhecer o grande Mercado Central, almoçar em um lugar super querido, fazer turismo de dentro do carro (A pandemia, né?) nos bairros mais centrais e me contaram várias histórias sobre a cidade. ♥ muito obrigada, gente. Saudade de vocês. E no lugar que o Documentadas estiver, sempre terá um espacinho aberto para recebe-las! Importante ressaltar também que dentre as histórias de perrengue que este projeto é campeão em documentar, temos uma das melhores: uma blitz policial no meio da tour que nos rendeu uma .... pausa para o choro.... multa de uns + de 2 salários mínimos para o carrinho das bichinhas por estar com a licença atrasada (Mas agora já está em dia, viu? Se dividir a gasolina atravessa o Brasil todo kkkk digo...). Bom, vamos lá. A Rafa tem 24 anos, é auxiliar de cartório e estudante de Letras na Universidade Estadual do Ceará. Ela é natural de Fortaleza - CE e morava bem pertinho da casa da avó da Gizelly, que tem 26 anos e é Engenheira Civil, também formada na Universidade Estadual do Ceará. Por mais que a Rafa e Gi tivessem proximidades físicas e frequentassem espaços em comum, elas foram se conhecer mesmo através de um aplicativo de relacionamentos: o Tinder, no ano de 2019. Era pré-carnaval, elas estavam conversando há um tempo e marcaram de se encontrar em um cortejo. A Rafa mobilizou todos os amigos e foi para lá com aquela esperança de encontrar a Gi, que por sua vez deixou o celular no modo Não Pertube (desativando as notificações) e esqueceu completamente de que a Rafa iria ligar para encontrá-la. Quando ela se deu conta, já era tarde demais (literalmente!): ela já estava indo para um bar, o cortejo já tinha acabado, a Rafa já tinha ficado triste, desistido, chutado o balde, beijado várias pessoas, decidido que ia dormir na casa de amigos (e até já tinha mandado mensagem anteriormente chamando a Gi para ir também, mas como ela sumiu, não adiantava mais) e dessa vez foi a Rafa quem não respondeu mais. No dia seguinte, com o nascer do sol também vem ela, né? A ressaca. E então a Rafa repensou e viu que não precisava ser assim. Decidiu falar com a Gi. Elas conversaram e combinaram de se encontrar, mas dessa vez com horário e local pré-agendado, direitinho. Falando assim, vocês pensam que era um encontro em um restaurante, mas não, elas se encontraram na parada de ônibus. Pois é, eu também ri. A Rafa entrou no carro da Gi, que ficou estacionado... e ela ficou toda encolhidinha, em suas palavras: "Porque estava frio o ar condicionado" e elas começaram a rir de nervosas e de tímidas. Para completar, ainda surgiu um assunto um tanto quanto mórbido que se transformou numa crise de riso das duas e nisso a Rafa chamou a Gi para ir fazer a carteirinha de estudante dela, logo em seguida, saindo do carro. Elas foram e, desde esse dia, estão juntas. O amor é aleatório. ♥ Hoje em dia, no tempo livre, o que a Rafa e a Gizelly mais gostam de fazer juntas é praticar esportes, assistir besteiras, passar um tempo "morgando" (ficar sem fazer nada, falando da vida) e principalmente curtir a própria companhia - elas contam que reservam às sextas para sair, comer coisas gostosas, cozinhar juntas ou tomar cafés em lugares legais. No momento, a Rafa está trabalhando de casa, enquanto a Gi tem a própria empresa de Engenharia Civil, em sociedade com uma colega. Por bastante tempo ela trabalhou para empresas, nas quais chegou a se sentir mal remunerada e/ou de alguma forma explorada, foi aí que surgiu a ideia de montar algo próprio, com duas colegas da área (e hoje em dia é ela e uma amiga). A empresa é formada pelas engenheiras e foca em reformas de banheiros, infiltrações de telhados, intervenções em casas, apartamentos e áreas comerciais. Possuem equipes e encarregados para fazer os serviços, mas o mais legal nisso tudo é que: a empresa é somente com mulheres no comando e prioriza o trabalho para clientes mulheres. 3 O começo do namoro da Gi e da Rafa foi marcado pelo medo que existia dos amigos da Gi não gostarem da Rafa (Atualização: hoje em dia eles se dão melhor com a Rafa do que com a própria Gi, risos) e também porque no ano seguinte a pandemia chegou e com ela a Gizelly chegou a ir para Sobral (interior do Ceará) trabalhar, durante um tempo. Elas oficializaram o namoro no dia 07 de março de 2019 e em 2020, lá em Sobral, a Gi resolveu pedir a Rafa em casamento. Tudo estava super organizado com a melhor amiga da Rafa. O pedido foi no Arco de Sobral, um ponto turístico e enquanto a Gi ia enrolando ela, a amiga organizava tudo. Primeiro, ela sabia que o casamento era um sonho da Rafa, então fez uma cena de dizer que não via sentido e/ou futuro no casamento... que não queria isso. A Rafa ficou triste, chorou e empurrou ela querendo ir embora. Depois da cena, uma pessoa entregou uma rosa para a Rafa - a primeira pessoa foi um senhor numa bicicleta (e a Gi fingiu ciúme), depois outras pessoas chegaram - foram 5 rosas ao total, até que chegaram duas meninas crianças e entregaram as alianças e a Gi fez o pedido. Depois de toda a atuação digna de novela e filme com Oscar, com muitos choros e muita emoção real no pedido, elas tiveram um dia incrível com jantar surpresa, casa livre, velas e rosas. A família super apoiou. No começo de outubro do ano seguinte o casamento aconteceu, já na pandemia do Covid-19. O evento aconteceu na garagem de casa, com as pessoas da família e alguns amigos e ninguém foi contaminado ou teve sintomas antes ou depois dos dias que envolveram o evento. 4 No início da pandemia, em 2020, a Rafa perdeu o emprego e elas passaram bastante tempo sem se ver por conta de, tanto elas quanto suas famílias, serem pessoas consideradas grupo de risco (asmáticas e diabéticas). Com a mãe da Gi, por já ter tido cancêr de mama e o pai por ter pressão alta, somados à avó ser idosa, o cuidado é minucioso. Elas voltaram a se encontrar apenas em julho e em seguida a Gi foi chamada para trabalhar em Sobral, no interior. Foram meses que ela passou lá, só teve retorno de fato no mês de novembro. Foram meses de um relacionamento à distância e a Gi sentiu dificuldades em se adaptar também ao trabalho. Quando ela voltou, elas organizaram tudo e o casamento aconteceu. A Rafa hoje em dia mora com a Gi e a família dela, numa casa em Fortaleza. No começo a mãe da Rafa ficou um pouco mexida com a situação, mas hoje em dia la entende que faz parte da vida adulta e do crescimento da filha. O pai, por outro lado, não vê a orientação sexual dela de boa forma, o que a deixa triste pois sabe que ele e a Gi, enquanto companheira dela, se dariam muito bem! De toda forma, entendendo isso enquanto uma dificuldade e uma dor, elas seguem se fortalecendo e sendo apoio dentro da relação. Inclusive, nos momentos de dificuldades, a Rafaela conta que a Gizelly a acalma e ensina a agir com cuidado. No mais, elas tentam sempre entender que tudo tem seu tempo e que as dificuldades que passam, principalmente financeiras, que não são para sempre. Para tudo conseguem dar um jeito, ainda mais se estão juntas. ♥ 5 Por fim, a Gi comenta que sempre foi mais fechada e com poucos amigos, que mantém um contato mais distante com as pessoas - tirando com a Rafa, que é um contato diário. Então ela faz uma leitura do amor enquanto uma estabilidade e enquanto segurança. Para a Rafa, o amor se mostra quando ela acorda e vê ao lado dela a pessoa que ela ama, que ela cuida, que está do lado dela para tudo. Ela diz que sente o amor neste momento em específico, principalmente, porque a Gi acorda cedo para trabalhar e sempre liga o computador e arruma as coisas para que a Rafa acorde com tudo confortável. Ela acha isso muito querido, se sente muito confortável, encontra nesse cotidiano e nessas pequenas atitudes muitos pedacinhos de amor. Quando andamos por Fortaleza, elas me ensinaram muitas coisas. Mostraram diversas questões culturais, contaram histórias e quando fiz perguntas durante a nossa conversa sobre a cidade e a forma que elas enxergam o local em que elas moram, elas não pensam em outra cidade no Brasil que gostariam de estar além de lá. Ao mesmo tempo que entendem diversas melhorias que precisam ser feitas lá, no Estado do Ceará e no Brasil em si, comentam que não tiveram vivências de preconceito na cidade, mas que a situação econômica está ruim, que os custos de vida estão elevados e que a mobilidade deixa muito a desejar e que isso também fala sobre a gente, né? Elas sonham em poder se estabilizar, seja no Brasil ou fora dele, e entendem que Fortaleza é um lugar muito incrível para se estar. Desejam viver, além de sobreviver. Rafaella Gizelle
- Maiara e Vitoria
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Maiara e da Vitória, quando o projeto passou por São Paulo! A Vitória e a Maiara possuem um relacionamento a distância, vivendo entre as capitais do Rio de Janeiro e de São Paulo. A Vitória veio para o Rio uma vez só, enquanto a Mai vai com maior frequência, adora São Paulo e pretende morar lá em breve. Nos encontramos no Parque Ibirapuera. Elas gostam de estar em parques, com a canga no chão, sentadas ou deitadas, falando sobre a vida. Adoram visitar museus e restautantes também. Além disso, a Vi gosta de fotografia, faz poledance, escreve bastante e antigamente elas até trocavam poemas. Enquanto a Mai jogava bastante futsal e adora cozinhar. Elas acreditam que hoje em dia tudo tende a ser mais acelerado (os áudios, as rotinas, os fluxos das coisas) e isso acaba fazendo com que a gente não preste tanta atenção no outro. Então talvez o que elas querem de verdade parece ser mínimo, mas se trata de uma essência: se cuidar. Resgatar um senso coletivo - sermos menos robotizados, acelerados nas ruas - e olhar pra você sabendo quem você é, para então poder amar o outro sendo quem o outro é também, sem medo de sofrer por conta disso. A Vitória tem 21 anos, mora em São Paulo e faz faculdade de moda, com estágio em figurino. Já a Maiara tem 27 anos, mora no Rio de Janeiro e faz faculdade de engenharia química. É assistente em uma grande empresa de cosméticos, trabalha na área de análise de dados. Elas se conheceram no início de 2016, através do Facebook. Na época, adicionavam várias pessoas que possuíam amigos em comum. A Maiara achou a foto da Vitória muito bonita, porém o status dela estava como “relacionamento sério” e ela não puxou nenhuma conversa. A verdade por trás dessa história é que não existia nenhum relacionamento, tudo era uma brincadeira entre a Vitória e uma amiga dela por conta de um homem que estava dando em cima dela. Por fim, o tempo passou, a Mai também se envolveu com uma menina em um relacionamento que acabou não sendo muito bom pra ela e desistiu de puxar assunto com a Vitória. Um tempo depois, no Snapchat, rede social pioneira nas postagens em formato de storie, a Vitória postou vídeo recitando um poema dela. A Mai respondeu sobre o jeito que ela falava a palavra “amor”, por conta do “r” ser puxado, e achar isso muito fofo. Elas conversaram um pouco e isso foi o bastante para desenvolver o interesse. Um tempo depois, começaram a se relacionar de forma online, pois para ambas ainda era muito difícil se encontrarem pessoalmente por questões financeiras e o alto custo das passagens de São Paulo para o Rio de Janeiro. Quando se encontraram pessoalmente pela primeira vez, já em 2017, a Maiara foi até São Paulo. Ambas passaram por processos para contar aos familiares que estavam se relacionando, a Maiara contou para a irmã que já imaginava e que acompanhou ela nessa viagem, então foi a primeira a saber e foi logo no início. A Vitória contou um tempo depois, imprimiu umas fotografias que tiraram e mostrou para a mãe, contando ser a namorada. A mãe processou isso durante um tempo, o irmão dela já sabia (e até já conhecia a Mai), então ajudou na conversa também. Ela deixou a Mai frequentar a casa e depois da primeira vez que foi mais delicada, passou a adorar as visitas. Hoje em dia a Mai vai bastante para lá e elas se dão muito bem, prepara feijão preto, saladas e tudo na mesa vira discussão quando ela não come muito. Quando a Vi foi uma vez ao Rio, em 2018, passou um feriado. A frequência que elas se encontram depende muito, antes era cerca de três vezes ao ano, agora aumentou um pouco porque pelo homeoffice a Mai pode ficar um tempo a mais em São Paulo. Mas a distância ainda apresenta dificuldades, as despedidas não são fáceis, por isso desejam a mudança. A Maiara fala que, por ser muito fã da Maria Rita, sempre que pensa no amor lembra quando ela canta: ‘’Se perguntarem o que é o amor pra mim, não sei responder, não sei explicar… Só sei que o amor nasceu dentro de mim, me fez renascer, me fez despertar’’. Ela entende que essa é a sensação que o amor traz, principalmente o amor que elas estão criando juntas. Despertando um novo mundo, uma nova possibilidade. “A Vi é meu primeiro relacionamento sério com mulher. Não que eu tivesse um histórico grande com homens. A Vi é meu relacionamento concreto. É essa relação de cumplicidade e suporte, sabendo que tô fazendo bem pra ela e que ela também tá me fazendo bem.” A Vi fala que além da construção, é política e luta. No dia anterior à nossa conversa, por exemplo, elas foram em um bar sapatão. Ela conta o quanto foi importante ter ido lá, o quanto foi diferente ter ido num ambiente confortável pra gente. “Me senti confortável pra amar e poder fazer o que todo mundo faz.” a Mai complementa com “Poder dar a mão, beijar, fazer carinho. O que é trivial pra todo mundo…” Para a Vitória, estar com a Maiara é se sentir em casa. Ela sabe seus defeitos, mas ela não vai embora por causa disso. Ela ama e isso é o que importa. Maiara Vitória
- Clara e Antônia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Clara e da Antônia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A história da Maria Clara e da Antônia te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Antônia tem 24 anos, é apaixonada por música, toca violão e piano. Também ama séries e filmes, desde sempre entendeu a importância do cinema na vida dela. Ama estar dentro do cinema, de explorar cada detalhe, de aprender com os filmes. Foi no cinema que ela e a Clara mais se encontraram, é como uma terapia para as duas e com certeza uma das coisas que elas mais sentem falta porque não conseguem ter a mesma experiência em casa. A Clara tem 22 anos, adora fazer atividades físicas (alô crossfit!), ela e Antônia amam viajar juntas e jogar The Sims. Por fim, elas falam sobre como adoram descobrir novos lugares e como ficam empolgadas quando encontram lugares representativos para nós, mulheres LGBTs. Desde espaços de cultura, casas de acolhimento, postos na praia, bares, boates… enfim, espaços que dialoguem com mulheres, não só com homens gays, porque caímos em uma ideia de falar que o espaço é para a “comunidade LGBT” e quando entramos nele só vemos a presença de homens gays, tendo no máximo você e uma outra mulher no local (muitas vezes, heterossexual acompanhando algum amigo gay). Falam o quanto acham sensacional lugares que realmente pertencemos, que nos fortalecem e que nos representam, e que fazem de tudo para colaborar e voltar para que eles sigam existindo. A Maria Clara e a Antônia se conheceram no Tinder, em 2019. Deram match e começaram a conversar logo falando sobre o que tanto amam: McDonalds! Depois de uns dias trocando ideias, decidiram ir ao shopping, jantar e assistir um filme no cinema. A Clara brinca que quando viu a Antonia logo soube: “vou namorar essa menina!”. Decidiram marcar o próximo encontro para o fim de semana, na Urca. Como ambas são cariocas, a Clara adora lugares com vista e pensou que seria um bom lugar. Elas se encontraram, seguiram se dando bem e um encontro foi levando ao outro. Uns meses depois aconteceu o pedido de namoro. Hoje em dia, as famílias apoiam, elas seguem amando McDonalds, fazendo do Drive Thru um dos rolês favoritos e o relacionamento cresce e se fortalece com o tempo. ♥ A Clara entende que o amor é o primeiro sentimento que temos de verdade na vida, seja pela nossa família, através do cuidado, do acolhimento, do conforto... é o sentimento que faz com que a gente se encontre. E entende também que temos um tipo de amor para cada pessoa, ou seja, amamos cada pessoa de um jeito: cada amigo, cada familiar… é semelhante, mas é diferente. É único. E só você sabe que está amando. Ela sente que primeiro se encantou pela Antônia, e então se admirou, se apaixonou… até que se viu amando. Foi montando as pecinhas. Tudo exigiu tempo, construção e sentimento. Quando conheci a Maria Clara e a Antônia, as coisas que me chamaram atenção logo de cara em ambas foram suas profissões e a forma que elas falam sobre isso: a Antônia é professora de inglês, e a Maria Clara é estudante de medicina, mas já trabalha em hospital. Antônia, quanto pensa em amor, antes de remeter ao amor romântico ou algo do tipo, primeiro lembra sempre dos alunos dela. Entende que amor é amor, por isso não tem cor, gênero, nacionalidade ou qualquer outra coisa. O amor acontece pelo o que a gente sente, seja quem for. Mas entende também que por trás de tudo existe um viés social, então amar uma mulher, por exemplo, é algo que não fomos criadas para fazer… ninguém nunca nos criou para amar alguém que é igual a gente, e talvez seja por isso que é mais difícil e mais doloroso. Mas talvez, também seja por isso que é tão mais bonito e mais intenso. Ela entende que o papel dela enquanto mulher e enquanto professora é ensinar aos alunos cada um dos seus privilégios e plantar uma sementinha sobre o que podemos fazer de diferente no mundo e sobre o fato de que para que o mundo seja de todos, ele não pode ser de ninguém. Assim que eu soube que a Clara estudava medicina, quis entender como a pandemia tinha impactado no que ela pensava sobre a profissão que queria seguir e como foi/está sendo vivenciar esse momento tão crítico. Ela comentou o quanto foi difícil no começo, tanto para elas (por conta de se verem de forma limitada, por verem muitos casais que eram referência se desfazendo e vendo o relacionamento delas se balanceando por isso), quanto por todo o período incerto que se dava. Foi um período de muita ansiedade, porque a quarentena também nos forçou a lidar com o nosso próprio corpo e nossas próprias inseguranças, além de toda a insegurança do mundo exterior e das emoções à flor da pele. Por mais que no hospital ela não esteja diretamente no setor Covid-19, ela segue trabalhando e de certa forma tendo contato, então reflete bastante sobre o papel de cada profissional na área da saúde e dos profissionais de todas as áreas, sobre como a profissão de cada pessoa é afetada. Em muitos momentos viu a vida dela se transformando em um único assunto, só soube pensar e falar sobre a pandemia. Hoje em dia, por conta da vacina e da retomada do comércio e de algumas atividades, ela tenta se ver mais tranquila, mas ainda é um processo diário de aprendizado também. Maria Clara Antônia
- Natália e Bruna | Documentadas
Bruna diz que ficou até surpresa quando a Natália contou o desejo de inscrever elas no Documentadas, brincou dizendo “Quem te viu, quem te vê, hein?!” porque no começo da relação, principalmente na primeira viagem que fizeram juntas, Natália tinha bastante receio até de pegar nas mãos em público… E agora quer mostrar ao mundo que o amor que vivem é lindo. Entendemos que esse medo é legítimo, assim como essa vontade de afirmação. Bruna completa: a história de amor delas também é a história de descoberta da Natália. Para Nat, o amor precisa ser por completo, ou seja, as pessoas merecem ser amadas como são. Se uma pessoa só te ama se você for heterossexual, ela não está te amando. Existe uma busca na perfeição do que criamos em cima dos outros, mas a verdade é que precisamos aceitar quem eles se tornam, quais profissões escolhem, a forma que entendem o amor, com quem se sentem bem ao relacionar, como vão compartilhar a vida… Isso tudo também é amar. Ela explica que a Bruna traz liberdade, foi um combo: a Bruna + a gatinha dela + o lar é o jeito que elas são felizes. Tudo fica nítido, é estampado a forma que se sentem confortáveis juntas. Não existe um julgamento dentro de casa. Quando uma relação existe e se fortifica é porque ali está o amor, assim enxerga Bruna. O amor a gente encontra na rotina, na construção das pequenas coisas, crescendo, cuidando, estando ali diariamente para se ajudar. Com a Natália foi a primeira vez que ela sentiu de forma plena o equilíbrio: ela pode se doar e vai receber de volta, é acolhedor. Natália, no momento da documentação, estava com 34 anos. Nasceu em Barra do Piraí, interior do Rio de Janeiro, mas foi ainda criança para Niterói e seguiu sua vida na cidade. É formada em jornalismo e fez transição de carreira recentemente, está estudando nutrição. Adora ver filmes, séries, ler e estudar o vegetarianismo e o veganismo. Atualmente, mora no Rio de Janeiro, junto à Bruna, e estão desbravando a cidade, conhecendo novos teatros, parques e outros lugares. No dia seguinte à nossa documentação elas iriam participar da primeira corrida juntas, pois estão focando em atividades físicas no momento. Bruna, no momento da documentação, estava com 36 anos. É natural do Rio de Janeiro, da zona oeste da cidade. Trabalha enquanto enfermeira e atua no ambiente corporativo, cuidando da saúde no trabalho. Além disso, faz trabalhos de marketing digital, adora a área do design e também está estudando tarot, que sempre foi um hobbie. No dia a dia, gosta de praticar exercícios dinâmicos (esportes em geral) e também curte dirigir, se sente calma quando dirige. Entre o réveillon de 2022 para 2023, durante a festa da virada de ano, Bruna e Natália se conheceram. Inicialmente não era nessa festa que Natália iria, ela e a amiga haviam comprado ingresso para outra, mas foi cancelada, então deram a opção de reembolso ou de transferência para uma festa que aconteceria na Barra da Tijuca. Elas, saindo de Niterói, acharam bem ruim a opção de ir para a Barra, mas com o valor do reembolso não conseguiriam comprar outra festa então toparam. Bruna, diferente delas, tinha macado com os amigos para ir na festa da Barra mesmo, sabia que era uma festa com um público muito hétero, que só iria ela e um amigo gay, mas topou ir porque queria se divertir. Logo que chegou, Bruna olhou para Natália. Elas não possuíam amigos em comum, estavam apenas próximas e trocaram olhares. Natália estava apenas com a amiga e percebeu os olhares, mas até então se entendia enquanto uma mulher héterossexual e achou estranho, até engraçado isso acontecendo… A festa seguiu e os olhares também. Bruna então comentou com o amigo sobre elas trocarem olhares e quando ele percebeu, disse que estava sim e a incentivou a ir falar com ela. Quando ela ia tomar iniciativa, um homem chegou até à Nat, e quando ela se livrou dele, Bruna não estava mais lá. Depois da meia noite se reencontraram porque o amigo da Bruna fez amizade com um grupo de meninos gays que a amiga da Natália também havia feito amizade, e assim elas se percebem neste grupo. Dançaram juntas, Bruna chegou rápido na Natália e ela indagou: “Que isso, não vai nem perguntar meu nome?” - então elas falaram os nomes e se beijaram. Natália já tinha ficado com uma menina antes, quando era adolescente, mas seus relacionamentos sempre haviam sido com homens. A festa foi acontecendo e elas não tiveram muitas interações, se encontraram novamente 6h da manhã quando tomaram café e a Bruna foi solicita ajudando a Nat a levar café da manhã para a amiga. Foi quando Nat perguntou como a Bruna se identificava e ela respondeu “Enquanto mulher lésbica, e você?” e ela disse que era bissexual. Ela não pensou muito, isso chegou muito naturalmente e pontual. No dia seguinte conversaram bastante e assistiram à posse do Lula juntas, de forma online. Na semana seguinte ao réveillon tiveram um encontro, se divertiram bastante e passaram a se encontrar com frequência. Ainda em janeiro viajaram juntas e na semana seguinte, dia 4 de fevereiro, começaram a namorar. Quando Bruna soube que Natália não havia ficado com mulheres antes, resolveu ir com mais calma, mas não adiantou, o namoro já estava encaminhado. Foram muitos meses no início da relação indo da zona oeste até Niterói, um caminho bastante longo, para se encontrar - ou melhor, a Bruna indo e voltando buscando a Natália para passar o final de semana na casa dela. Existia um receio muito grande de contar para a família da Nat, então tudo foi acontecendo aos poucos. Somente no começo de 2024, mais de um ano depois de se conhecerem, Nat se abriu para seus familiares. Desde então, não possui mais contato com a sua mãe. Por mais que os outros familiares ainda conversem e acompanhem (ainda que não queiram saber sobre o relacionamento) ela sente muito sobre, é muito triste ficar longe de uma das pessoas que mais ama. Entendem que eles terão seu próprio tempo para processar, assimilar e superar o preconceito, mas que nesse tempo elas não podem deixar de viver o amor mais bonito que já sentiram. Para Natália, o amor que vive com a Bruna é o sentimento mais bonito que já presenciou, que já viu acontecer… é respeitoso, é companheiro e não existe opinião que vá tirá-lo do caminho. Entende também que isso não apaga o que tanto ela, quanto a Bruna, já viveram em outros momentos da vida, em outras relações (que também já foram boas) ou em outras formas de viver, que isso tudo faz parte da construção de serem quem são, e que se esforçam muito para serem as melhores pessoas possíveis, mas que em nenhum momento sucumbirão à um pensamento preconceituoso. Então respeitam o tempo, por mais que doa muito, mas se permitem viver. Pela parte da família da Bruna, recebem muito suporte da mãe, que as trata com muito carinho e afeto. ↓ rolar para baixo ↓ Natália Bruna
- Julia e Milena
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Julia e da Milena, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! No começo do relacionamento foi um pouco mais difícil manter os encontros, por conta da família não saber, não lidar muito bem e a pandemia não permitir que saíssem de casa. Agora, mesmo com a distância intermunicipal, elas acabam se vendo a cada 15 dias ou nos fins de semana. Entendem que essa escolha faz parte da relação e que o relacionamento está sendo construído com muito respeito e conforto, tendo cumplicidade. Nesse momento, a Milena disse que nunca teve alguém na vida que olhasse ela e tratasse ela da forma que a Júlia a olha e a trata, e que isso já resume toda a diferença e tudo o que o relacionamento vem significando para ela. “Todo o carinho. Todo o cuidado. Ninguém nunca se preocupou comigo assim." No começo da conversa, a Júlia tinha comentado sobre uma mulher que estava no metrô olhando as duas no caminho que fizeram até o local que nos encontramos. O olhar que ela fez foi um olhar específico de julgamento, não chegou a ser vulgar, foi algo do tipo “nossa, mas duas meninas? por que elas não estão com homens?”. Ela estava realmente bem incomodada com esse olhar, falou dele várias vezes na conversa. Comentamos sobre a diferença de olhar que nós mulheres recebemos quando estamos sozinhas, quando estamos com nossas companheiras, quando são dois homens, quando é um homem gay, quando é uma mulher nos olhando e quando é um homem nos olhando… sobre como todos os olhares são diferentes, mas como todos eles são violentos. Ela disse que queria que as coisas LGBTs fossem mais divulgadas para que tivéssemos mais espaços de fala, não só para “nos mostrarmos”, mas para educarmos essas pessoas, para explicarmos “sim, somos duas mulheres, amamos, está tudo bem, viu? não precisa do homem”. A divulgação pela nossa própria representatividade, porque precisamos disso, porque é importante para nós. Elas comentam também o quanto o fato de ocuparmos esse espaço as coisas já vão mudando naturalmente, como na própria família: os familiares que antes nunca usavam o termo “namorada da Milena” ou “namorada da Júlia”, ou que substituíam por “amiga”, hoje em dia já estão verbalizando isso… e que elas já estão podendo se referir à mãe da companheira enquanto sogra. O quanto faz diferença para a gente nos considerarem enquanto uma família e enquanto parte da família. O quanto elas vibram em cada pequena conquista que acontece quando uma está na casa da outra e sentem que avançam um pouquinho nessa conquista de território, que é diária. Sabe aquela famosa frase que nos acostumamos a ouvir? “e ai depois veio a pandemia.”, pois é. Foi logo em seguida, então os sentimentos se misturaram novamente: o término da Jú, ela tinha recém começado em um novo emprego, as várias coisas acontecendo mundialmente, tempos de incertezas, mudanças bruscas e todos dentro de casa. Elas foram voltando a conversar com maior frequência, de forma online, e só puderam se encontrar no início de junho. Quando se encontraram foi certeiro: começaram a namorar na mesma semana. Hoje em dia a Júlia está com 23 anos e a Milena também, a Jú faz muitas coisas, é fotógrafa, trabalha como social media e faz produtos digitais. Começou uma graduação em jornalismo e adora a área de criação (faz orçamento com ela, gente!), enquanto a Milena está desempregada, mas possui técnico em administração (mandem jobs e vagas por aqui também! estamos super na busca!). A Jú acredita que a fotografia entrou na vida dela como um grande hobby, acabou virando profissão, mas ela ainda faz em grande parte por diversão, porque gosta mesmo é de treinar, desbravar, se aventurar. E a Milena brinca que o hobbie da vida dela é o esporte, jogar e praticar. Elas entendem que cada vez mais querem estabelecer um nível de relação totalmente diferente das que já tiveram antes. Algo muito mais saudável em diversos âmbitos. Desde a família - antes a mãe da Jú não aceitava, por exemplo, e hoje ela adora a Milena. Assim como a família da Milena demorou um tempo para processar também e hoje adora a Jú - até os próprios preconceitos internos que ainda podem existir em nós. E falam sobre querer enfrentar os desafios que surgirem juntas, crescerem e se apoiarem. Desde o começo, quando eram apenas amigas, sempre falaram sobre absolutamente tudo (e por isso se deram tão bem), então agora não será diferente. Elas podem contar uma com a outra para entender seus processos internamente sem julgamentos. Quando falamos sobre isso, a Júlia logo disse em seguida sobre o arrependimento da escolha de ter voltado àquele relacionamento, por conta do ano de 2019 ter sido um ano muito difícil em diversos sentidos, incluindo o relacionamento. Mas como podemos saber se ela e a Milena teriam dado certo se tivessem ficado juntas naquele ano? de alguma forma, as coisas foram caminhando. O ano serviu para que ambas, em seus caminhos distintos, construíssem um amadurecimento muito maior, enfrentando coisas que não enfrentariam estando juntas. Ela também comenta que mesmo reatando o namoro, a Milena nunca deixou de ser uma prioridade na sua vida, e que isso foi algo totalmente novo, ou seja, que ela nunca tinha sentido por alguém. Ela sempre procurou saber como a Milena estava, se estava precisando de algo… sempre deixou amigos por perto dela. No meio do ano, alguns meses depois do afastamento, elas voltaram a conversar. Durante todo o ano de 2019 a vida da Milena também passou por idas e vindas, ela reatou o ex namoro, também passou por mudanças, processos diferentes. Se viu andando em círculos, processos muitos semelhantes aos da Jú. Nos meses em que elas conversavam se identificavam com algumas questões, se encontravam quando ela poderia estar pelo Rio, já que seguia morando em Magé, e conversavam muito sobre como os caminhos tinham sido separados e como mesmo com situações tão diferentes elas ainda se identificavam. Foi em Janeiro de 2020 que a Milena tomou a iniciativa de romper o relacionamento dela, por não sentir que fazia mais sentido continuar naquela forma que estava. Em março a Júlia terminou também. Uma semana antes da pandemia elas se encontraram em um show do cantor Delacruz, no Circo Voador, porque gostavam de uma música dele que sempre teve um significado muito forte para elas. Esse dia foi um divisor de águas, elas consideram que a partir dele e a partir daquele momento queriam passar a fazer as coisas serem diferentes. A Milena olhou no fundo do olho da Jú e disse: eu realmente gosto muito de você. A história da Milena e da Júlia começou oficialmente durante a pandemia, em 2020. Mas elas se conheceram em 2018, durante um curso, enquanto eram jovens aprendizes. A Júlia é natural do Rio de Janeiro, enquanto a Milena é de Magé, no interior, mas toda semana chegava até o centro do Rio para o curso. Na época elas não tinham nada em comum, a Júlia já sabia que se interessava por mulheres e estava num relacionamento com uma menina, enquanto a Milena nunca tinha se interessado por nenhuma mulher, estava em um relacionamento heteronormativo e pensava que não teria muito assunto em comum para conversar com a Jú. Aos poucos, foram criando uma amizade. Na versão da Jú, ela conta que logo no primeiro dia sentiu atração e uma paixonite pela Milena, por isso tentou investir na amizade começando com piadinhas e tentando se aproximar… assim elas se seguiram nas redes sociais e começaram a conversar além do ambiente do cursinho. Com o tempo passando e a frequência ao se verem semanalmente no curso acontecendo, acabaram criando um grupo de amigas e a amizade foi se fortalecendo. Elas passaram a manter uma rotina de conversas ativas, se ligavam por chamadas de vídeos, viraram confidentes. A Milena se sentiu à vontade para contar para a Júlia que estava sentindo algum tipo de atração por ela (Júlia que não à toa ficou com um sentimento de “eu sempre soube que você gostava de mulheres também!!!!”) e então ela contou que não sabia que gostava de mulheres e que essa estava sendo a primeira vez que sentia isso. Como a Júlia estava em um relacionamento, elas até chegaram a sair juntas depois disso, mas não se beijaram ou algo do tipo, apenas continuaram tendo contato. Em janeiro de 2019, o relacionamento não estava indo bem, ela acabou dando um tempo a ex e foi o momento em que finalmente pode ficar com a Milena. Por mais que elas estivessem ficando e se encontrando durante o mês de janeiro, tudo ainda era novo para a Júlia, porque o relacionamento recém tinha acabado, ela ainda se sentia muito dividida. Foi quando a ex-namorada soube que ela estava se envolvendo com alguém nesse período de “dar um tempo” e a pressionou, como quem diz “e aí, você vai começar algo com ela? ou nós vamos voltar a seguir o que já tínhamos construído?”. Foi então que a escolha de voltar ao relacionamento em que estava foi feita. Ela parou de falar com a Milena, parou de frequentar o curso e mudou totalmente a rotina.
- Laira e Luanna
Quando documentei a Laira e a Luana, nos encontramos num restaurante em Curitiba do qual elas adoram frequentar. Naquele local, viveram diversos momentos: aniversário da Laira, jantas e almoços gostosos, mas o dia mais marcante foi no começo da relação delas, antes mesmo de namorarem, do qual se envolviam tendo encontros de forma mais descompromissada. Num 7 de setembro, a Laira foi para um ato conservador do então desgoverno, porque estuda sobre o movimento conservador e acha importante vê-lo de perto, e mesmo receosa de ir a Lua topou fazer companhia. Passaram três horas no ato, documentando cada cena que viam e conversando muito sobre como se sentiam no show de horrores. Uma não acreditava que a outra estava ali, se viam super deslocadas, mas seguiam na documentação. Depois disso, sentiram como um merecimento ir num lugar legal relaxar a mente, então foram ao restaurante. Tiveram várias conversas profundas sobre suas famílias, a sociedade, o descobrimento da negritude da Lua e a percepção da Laira de ter passado por questões abusivas no seu último relacionamento. Foi naquele dia, também, que elas falaram “eu te amo” pela primeira vez. Laira explica que é a primeira experiência que está tendo de estar num relacionamento do qual ela se sente realmente cuidada, não apenas cuidando de alguém. Sente que pode descansar, que não precisa estar sempre atenta, e que também merece o carinho que recebe. No momento da documentação, Luana estava com 25 anos. Ela é de São Bernardo do Campo, interior de São Paulo, mas mora há 7 anos em Curitiba. Conta que foi aprendendo a gostar da cidade, por ser muito bonita, mas pouco acolhedora. Vindo de uma família baiana, Lua sempre teve o acolhimento e o aconchego por perto, então tenta refletir isso nas suas relações. Sua formação é em Luteria, uma graduação específica para a fabricação de instrumentos musicais e atualmente está estudando para integrar a área de tecnologia de alguma empresa. Conta que não estar trabalhando é muito difícil e que é a primeira vez que fica sem um trabalho sustentando suas contas, mas recebe o apoio da Laira e entende que a estabilidade financeira permite que a gente sonhe, por isso está estudando para voltar a sonhar. Laira, por sua vez, no momento da documentação estava com 28 anos. Ela nasceu no interior de São Paulo, em Osasco, morou em Curitiba quando criança e voltou para São Paulo um tempo depois. Na sua trajetória, já morou em João Pessoa também e elogia o quanto foi acolhedor, porém, sentia uma ausência se lésbicas muito grande nos espaços que frequentava, não conhecia ambientes lésbicos e não via mulheres lésbicas ocupando espaços, acabou decidindo então se mudar para Curitiba, no fim do mestrado. Hoje em dia, Laira é cientista política, faz doutorado na Universidade de Brasília e pesquisa como o movimento conservador destrói as políticas públicas para mulheres - e como isso é organizado, também, internacionalmente: com práticas, leis, etc. Fala sobre a dificuldade que é ser pesquisadora no Brasil. Até 4 meses antes da documentação, nunca tinha tido sua carteira de trabalho assinada, por exemplo. Ora vivia de bolsas, ora de empregos que não passavam dos 2 mil reais de salário, o que fazia ela não conseguir bancar suas contas completamente e manter um vínculo com uma familia que por muitos momentos teve atitudes lesbofóbicas. Hoje em dia, com um salário digno, fica muito feliz em dizer o quanto está empoderada - trabalha com políticas públicas no iFood. Em comum, Laira e Lua são apaixonadas por câmeras fotográficas e filmadoras analógicas. Laira, inclusive, já produziu curtas em filme analógico e ganhou vários prêmios: com temáticas lésbicas, sobre mulheres e ciclismo e outras documentações. Lua adora usar a fotografia analógica para registrar o que está vendo no momento. Entende que, por mais que a foto analógica costuma ser mais pensada e projetada, gosta de registrar um olhar verdadeiro e natural. Além disso, possuem diversos hobbies e ocupações: atuam no Coletivo Cássia, com uma militância ativa, gostam de praticar esportes (Lua joga futebol e já foi um sonho ser jogadora profissional), tocam diveeeeersos instrumentos (violão, baixo, ukulele, teclado, surdo, caixa e trompete!) e adoram andar de bicicleta. A bicicleta e a militância estão com elas desde o primeiro encontro, literalmente. Foi durante a pandemia que a Laira se mudou para Curitiba e baixou o Tinder, deram match e o primeiro encontro foi num ato contra o ex-presidente, foraBolsonaro. Laira conta que adorou a bicicleta da Lua e que foi percebendo o quanto a Lua tinha presença, não era uma beleza estereotipada, mas dela, única. Naquela época, Laira tinha uma relação não-monogâmica (e a relação dela com a Lua também é), então os encontros com a Lua eram bem esporádicos. Quando passaram a se ver com maior frequência, viajaram juntas para o interior e ficaram numa casinha na beira do rio. Lá, pela primeira vez, a Lua entendeu que já estava apaixonada pela Laira. Foi onde construíram maior proximidade, ficaram na beira da fogueira, a Laira usando chapéu de palha e macacão, falando sobre a vida. Num momento específico das conversas, Laira disse que só não quer que as pessoas machuquem ela, porque não gosta de ser machucada, e isso marcou muito a Lua porque ela pensou que daqui pra frente faria de tudo para nunca machucar Laira. Contam como foi tudo muito simples: na viagem, depois, e até hoje. Tomaram banho de cachoeira, sentiram a simplicidade mover tudo. No momento da documentação faziam 4 meses que decidiram morar juntas e sentem que ainda vivem a simplicidade de forma boa. Quando decidiram morar juntas, Lua estava trabalhando enquanto cozinheira, mas não estava dando muito certo. Precisou sair do apartamento em que dividia com outras pessoas e a Laira a convidou para morarem juntas. Uniram a necessidade da mudança, com economia e o quanto desejavam estar juntas. Lua conta que é a primeira vez em que se sente em um lar de verdade: “Consigo transitar em todos os espaços e me sentir bem”. Laira também faz muita questão de que ela esteja bem, em casa. Juntas passam bastante tempo assistindo filmes no projetor na sala, também vão ao cinema, andam de bicicleta e cozinham. Nos últimos tempos fundaram um grupo de cicloativismo para mulheres lésbicas, dentro do Coletivo Cássia. Laira quer muito dar aula em universidades, falar sobre política, ver alunas se identificando em ter uma professora sapatona e gerar representatividade. Foi pela falta de representação de mulheres diretoras que começou a fazer filmes e percebeu isso em diversos espaços. Entende que se não ocuparmos espaços que antes eram masculinos, os espaços continuarão sendo masculinos. Fala também sobre o quanto já lutou para conseguir viver/sobreviver, em vários momentos pensou em desistir da vida por achar que não conseguiria se encaixar, ser feliz e realizar sonhos. Por isso, também, investe tanto na Lua fazendo os estudos para migrar de área, num sentido de nos apoiarmos: precisamos ser nós por nós e ela quer dar o acolhimento que puder enquanto possui condições para isso. Lua entende que o amor entre elas é sobre nunca deixar de lado quem são enquanto indivíduos - elas serem quem são deixa tudo mais potente e único. Não desejam se camuflar em outras pessoas ou coisas, por isso, vivem o amor a cada dia, sem tantas projeções futuras. Para Laira, o amor é sobre se permitir acompanhar a vida de outra pessoa. E isso não quer dizer que vai acompanhar todos os dias como uma novela, mas entender os momentos de mudanças, ver até mesmo o próprio acompanhamento mudando. Na relação com a Lua, identifica o acompanhamento vindo de muita resistência: é sobre estar viva, fortalecendo a resistência uma da outra, sendo parceira pelo o que passam em suas peles, com empatia. Por fim, terminam falando o quanto estão felizes em serem documentadas juntas. Se veem construindo algo muito legal e maduro, e não gostariam de ser documentadas com outras pessoas. ♥ ↓ rolar para baixo ↓ Laira Luanna
- Janelle e Gyanny
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Janelle e Gyanny, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi no Rio de Janeiro que encontrei a Janelle e a Gyanny, depois de elas enviarem uma mensagem para o Documentadas falando sobre um projeto que possuem e nos convidando para ir até Belo Horizonte fotografar alguns casais por lá. O motivo do encontro no Rio, diferente do local de residência, é a paixão e o carinho que possuem por aqui: a Gy é carioca e a Janelle é encantada pela natureza misturada na cidade. Janelle, no momento da documentação, estava com 41 anos. Ela é natural de Belo Horizonte e trabalha na área da fisioterapia. Gyanny, no momento da documentação, estava com 39 anos. Ela é carioca, mas mora em Belo Horizonte há cerca de 4 anos - antes, inclusive, de se relacionarem - e por mais que tenha se formado em educação física, hoje em dia trabalha enquanto analista de mídias sociais. Juntas, elas fundaram um projeto chamado Jesus Hope. Foi pela necessidade que sentiam de ver LGBTQIA+ sendo representados no meio cristão que decidiram criar um perfil no Instagram para divulgar conteúdos de pessoas e igrejas que falassem sobre o tema. Entendem que muitas pessoas não sabem que existem igrejas inclusivas (são mais de 200 no Brasil!) e o papel do perfil, além de comunicar e ensinar, é evangelizar entre a comunidade de uma maneira inclusiva e acessível. Quando a Janelle e a Gyanny se conheceram, há oito anos atrás, não imaginavam que um dia iriam estar juntas. Na época, a Gy morava no Rio de Janeiro, ambas tinham outros relacionamentos e a única coisa em comum é que frequentavam a Igreja Contemporânea. Como a igreja tem bases muito fortes no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, ela promove diversos encontros e retiros. Foi numa viagem ao Rio através de um desses encontros que o encontro das duas aconteceu, mas não virou uma amizade logo de cara. O tempo passou, ambas terminaram seus relacionamentos, a Gy se mudou para Belo Horizonte e durante a pandemia elas começaram a conversar, de forma online. Foi no dia das namoradas que se encontraram pela primeira vez depois de passarem um tempo trocando mensagens. A Gy conta que nunca quis morar no Rio, sempre procurou outros lugares e que amou Belo Horizonte desde o primeiro momento, então um amigo a incentivou a ir, ela conseguiu um emprego e foi. Mesmo que ainda veja muitas pessoas com mentes fechadas e situações de machismo acontecendo na cidade, deseja participar da mudança ativa para as coisas melhorarem; Hoje em dia, morando com a Janelle, sente que lá é o seu verdadeiro lar. Atualmente, a rotina da Gy e da Janelle circula entre a família, os trabalhos e a igreja. Têm suas responsabilidades para além do Jesus Hope, organizam encontros e grupos de jovens, vão nos retiros e congressos. Intercalam seus dias com as orações, os encontros de fé e os encontros familiares. Começar a gravar vídeos para a página foi um salto, assim como usar alguns materiais de pastores. Entregam diversos conteúdos falando a Palavra e também trazendo debates sobre inclusão, chamando pastores de diversas igrejas para opinar, etc. Elas contam o quanto a “cura gay” atrapalha e machuca as pessoas. O quanto, também, são altos os casos de suicídio por pessoas que não se sentem parte do mundo e/ou sentem que estão cometendo algum pecado por amar alguém do mesmo sexo. Por isso, prezam pelo acolhimento mostrando isso através da fé, não da condenação. Gy conta que quando se assumiu para a família dela houve um ponto que a fez pensar muito: ela era da Igreja Batista, mas a mãe dela não frequentava igrejas. Mesmo assim, a mãe falou que não aceitaria, que era pecado, que Deus não aceitaria, e fez questão de falar com o pastor. Ou seja: a Igreja vai muito além de um local físico - suas crenças atingem quem está fora, que ouve e acaba reproduzindo de alguma forma. No entanto, a Jesus Hope vem justamente para transformar isso: mostrar que não é pecado. A Janelle e a Gy possuem uma relação muito calma e caseira. Acreditam que fazem o amor dar certo porque se doam para ele - através das preocupações, dos cuidados, estando junto e respeitando de verdade, acolhendo ambas família e aceitando como todos são. A Gy acredita que o amor vem de Deus e fala sobre amar o outro como a si mesmo, com empatia, pensando no outro até mesmo antes de pensar em você. “Amar é uma construção e também um suporte”. Por fim, também reflete sobre como até os sentimentos hoje estão muito descartáveis: estamos vivendo relações em que se acontece alguma coisa que a pessoa não goste/não queira, ela já se desfaz. Entendem que o amor não é isso, se queremos viver o amor, precisamos passar por cima de algumas coisas em algumas situações, ceder um pouco, relevar um pouco para tentar construir algo (e, claro, respeitando uma a outra sempre!) mas entendendo que é uma situação passageira que servirá para fortalecer e viver situações melhores futuramente. ↓ rolar para baixo ↓ Janelle Gyanny
- Dani e Maria Gabi
A Maria Gabriela e a Danieli são de lugares bem diferentes, mas se encontraram em São José dos Pinhais, município vizinho de Curitiba, no Paraná. Gabi nasceu no Paraguai, morou em vários lugares e agora está com a família em ‘São José’. Já a Dani, nasceu no interior do Paraná, numa cidade pequena chamada São Jorge do Patrocínio e decidiu se mudar para Curitiba para tentar uma nova vida na capital. Hoje em dia moram juntas - e juntas também de algumas familiares da Gabi + duas gatas que adotaram nesse período. Elas contam sobre o quanto são diferentes e que, com as diferenças, aprendem muito sobre um relacionamento cheio de companheirismo. Dani é mais apegada, Gabi é mais solta. Dani sempre vê os dois lados em tudo, Gabi é mais direta sobre as decisões - mas aprende muito com a Dani sobre observar as coisas ao redor. Dani é introspectiva, gosta do carinho e das coisas mais tranquilas, enquanto Gabi é super sociável, gosta de ser comunicativa e de conhecer novas pessoas. Diante todos os extremos, entendem que o encaixe acontece no quanto aprendem uma com a outra diariamente. Não enxergam seu relacionamento enquanto a maioria dos namoros que formam um padrão: elas têm seus jeitos diferentes, mas enquanto parceira contam uma com a outra sempre. Acham ótimo, inclusive, fugir do padrão. O amor é feito com espaço, vivendo as diferenças e tendo respeito. A Gabi, no momento da documentação, estava com 24 anos e trabalhava em uma loja de departamentos no shopping. Comenta sobre o quanto o shopping exige uma rotina de trabalho exaustiva, mesmo que goste de trabalhar com o público, se sente bastante cansada. Dani, no momento da documentação, estava com 23 anos. Depois de se mudar para Curitiba ela já trabalhou em mercados e hoje em dia, em São José dos Pinhais, é assistente de atendimento. Morarem juntas facilita a rotina em relação à escala de trabalho apertada, mas nem sempre foi assim. Dentre os três anos que estão juntas, moram na mesma casa recentemente e contam que foi uma luta decidir pela mudança. A tia da Gabi foi quem teve a ideia inicialmente de oferecer a casa que faz parte do terreno delas, assim, os gastos com aluguéis diminuiriam, a economia melhoraria e a Dani faria parte do lar. Quando se conheceram (através de um aplicativo de relacionamentos famoso por aqui: o Tinder), ambas haviam acabado de chegar na cidade. Dani passou por um relacionamento abusivo antes da Gabi, estava bastante machucada e resolveu entrar no app para conversar com novas pessoas - enquanto a Gabi estava lá para curtir e não tinha intenção de realmente se apaixonar por alguém. Conversaram, marcaram um encontro na casa da Dani (que ainda era uma pensionato cheio de regras) e nunca mais se separaram. Depois disso, a Dani se mudou para São José dos Pinhais. Morou em vários lugares e o relacionamento delas foi caminhando, até que decidiram assumir o namoro. Enxergam o quanto o relacionamento não contribuiu só para uma melhora construtiva delas, mas também dos familiares ao redor. A Gabi diz que ter elas em casa faz com que diariamente a família enxergue questões de raça, gênero e classe totalmente diferente do que era antes, principalmente pelos debates que elas proporcionam. Enquanto a Dani, já levou a Gabi até o interior e ao assumir para a família o relacionamento, considerando que vivem em realidades completamente diferentes da dela, fica muito feliz em ver o pai e a avó adorando e respeitando a Gabi do jeito que ela é. Juntas, elas adotaram duas gatas (uma delas, super arisca, que passou por um processo de resgate) e é com o carinho que trocam com as bichinhas que entendem o que é de fato o amor: Acreditam que existem várias formas de demonstrar afetos, por mais que vivemos numa sociedade que preza pelo tradicional onde o afeto tem de ser bonitinho, carinhoso, queridinho, etc. Elas vão por outros lados, demonstram de outras formas. Como as gatas, que amam de um jeito singular - a Teodora, muito arisca, não é tão carente e apegada, mas demonstra o amor e a confiança que possui nelas nos detalhes cotidianos, trocas únicas. Elas se identificam nesse amor. Além disso, sentem que o autoconhecimento que adquirem todos os dias é algo precioso. Dani conta que não tinha tanto acesso às informações no interior, então valoriza cada passo da reeducação sobre questões sociais que recebe diariamente. No dia a dia, a Dani desenha bastante (entre paredes, papéis e outras superfícies), enquanto a Gabi adora sair para comer, viajar, assistir filmes e séries e apoiar a sua família no que precisar. Conta que tem uma prima autista (que mora junto com elas) e que a casa vira um exemplo para que não exista nada mais valioso na vida quanto os sentimentos - e o amor. “Não existe valor material que supere”, nas palavras dela. Diariamente acompanham dando suporte e entendem que não desistir e estar em movimento acreditando no que sentem é o que dá sentido a tudo. Além disso, passam muito tempo conversando dentro de casa. Brincam que em outra vida a Dani deve ter sido filha da tia da Gabi, de tanto que passam horas conversando e se dão bem. Por fim, a Gabi comenta que o amor pode ser uma certeza muito incerta, mas que é bom aproveitar ele em seu cotidiano. ↓ rolar para baixo ↓ Gabi Dani
- Iasmim e Nathália
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Iasmim e da Nathália, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! < A Nathália e a Iasmim começaram a namorar em 2019 com um detalhe: elas já moravam juntas. Dividiam um apartamento com diversas outras pessoas enquanto estavam fazendo a graduação em Direito, no Rio de Janeiro. De lá pra cá, passaram por vários espaços: optaram por morar sozinhas num apartamento bem menor, em Caxias, na Baixada Fluminense, lá enfrentaram a pandemia juntas e depois voltaram ao Rio, com um relacionamento muito mais amadurecido e fortalecido. Na mudança de volta foi que a ficha caiu sobre o quanto cresceram: quando foram pela primeira vez morarem sozinhas enquanto um casal, tinham uma mala de cada e uma televisão; Quando voltaram, precisaram de mais de um caminhão de mudanças. Construíram a casa juntas, os móveis, lembram de quando chegou o fogão, a cama e a máquina de lavar. No momento pensaram: “Como saímos de uma mala e chegamos nisso aqui?!”. Como tudo foi muito batalhado para ser conquistado, é também muito valorizado. Cuidam de cada detalhe, dos móveis, ao amor que dão aos gatos, o cuidado com as plantas, até o quanto ainda desejam crescer juntas. Sentem que o que vivem é um sentimento puro de família, seja no momento de fazerem um churrasco juntas com vários legumes e uma carne só ou no momento de sentar e conversar sobre o que estão sentindo. Nathália é advogada e cantora. Ela estava com 26 anos no momento da documentação, chegou ao Rio de Janeiro para estudar Direito em 2015, mas é natural de Salvador e toda a sua família reside lá até hoje. Antes entendia a música enquanto um hobbie e hoje faz isso de forma mais profissionalizada: possui conteúdos no Spotify (segue ela, gente!) e trabalha nas suas próprias canções. A Iasmim também é advogada. Estava com 28 anos no momento da documentação e é natural de Caxias, na Baixada Fluminense. Na pandemia descobriu vários hobbies, como desenhar, cozinhar e auxiliar a Nath na sua carreira musical. A Nath acredita que a relação que elas constroem é muito baseada nas ações - nos atos de serviço. Ela traz o exemplo de que não consegue conversar com os gatinhos em casa, por exemplo, mas mostra nas ações e dialoga com eles, demonstra o quanto ama e recebe o amor deles. Assim, no relacionamento delas, elas dialogam e se sentem seguras. Além disso, o amor envolve muitos desafios e enquanto vivem isso sentem que surgem novas perspectivas sobre o mundo. Quando a Nath se mudou para o Rio de Janeiro, foi logo encontrar uma amiga que já estava fazendo faculdade de Direito e acabou adentrando no grupo de amigos cariocas dela. Nesse grupo, estava a Iasmim. Um tempo depois, cansada de transitar por vários espaços, decidiu morar em uma república - foi aí que começaram a dividir apartamento. Lá elas viraram amigas, interagiam com todos da casa, viam shows na TV, faziam refeições juntas etc. Elas não eram suuuuuuper amigas e lembram que a Iasmim era uma pessoa mais fechada, mas em um dado momento começaram a se aproximar mais - se aconselhavam, ouviam músicas juntas… As pessoas ao redor notaram essa aproximação, mas elas não viram nada demais acontecendo. Foi em agosto de 2019, num momento em que a Nath estava mais tristinha pois vivia em torno da prova da OAB, que a Ias chegou até ela e a convidou para sair e ficar bem. Elas estavam num momento ruim de grana, acharam que não ia rolar, mas encontraram um evento chamado “Isoporzinho das Sapatão” e decidiram ir - pela primeira vez saíram juntas/só as duas em algum lugar. No evento, se divertiram muito. Conversaram sobre as músicas da Nath, sobre coisas super profundas, antigos relacionamentos… até que alguma chave, em algum momento, virou. Foi ali que elas sentiram que algo poderia acontecer - e se viram de uma forma diferente pela primeira vez. O cigarro acabou, elas tiveram que comprar cigarros avulsos e a Nath ensinou uma forma de conseguir desconto, mas nessa conversa chegou muito próximo da Iasmim para falar. Ela se desconcertou, sentiu algo acontecendo e numas brincadeiras entre cigarros se beijaram. Nos dias seguintes ao evento (e ao beijo) tudo ficou meio caótico. A Nath foi assaltada, então estava sem celular e, para ajudar, a Ias evitava ela dentro de casa. Todos os dias a Ias acordava mais cedo, ficava pronta antes do horário da Nath levantar e só batia na porta dela para acordá-la (já que ela não tinha despertador), mas saía logo em seguida, não dando a chance de uma conversa. Num dia conseguiram conversar um pouco enquanto fumavam um cigarro, mas no momento em que a Nath se aproximou a Ias logo deu a desculpa de que estava tarde e que precisava dormir e saiu do ambiente. Isso deixou a Nath muito frustrada, pensava que a Ias não ia querer mais nada com ela e os amigos falaram: “Foge enquanto é tempo!”. Mas ela decidiu conversar com uma amiga em especial, que confiava, tomando uma cerveja no bar e essa amiga orientou: “Dê tempo ao tempo”. Na mesma semana a Ias mandou para ela a playlist do evento que elas foram e assim elas começaram a conversar pelo Facebook. Uns dias depois, conversando na terapia, a Ias percebeu que isso era apenas um medo momentâneo e que ela merecia se permitir viver aquele momento bom com a Nath - então decidiu falar com ela e chamar para beber uma cerveja. É um sentimento gostoso para elas relembrar que no começo, mesmo se conhecendo e convivendo há anos, elas passaram pelo nervosismo de não saber lidar uma com a outra. Surgiam perguntas como: “Você gosta de pizza?” sendo que a resposta era óbvia porque elas viviam comendo pizza em casa com os outros moradores. Mas, mesmo sendo algo bobo, era uma forma de se redescobrirem aos poucos. Depois de um tempo, a Nath chamou a Ias para conversar e elas decidiram vivenciar de verdade o que tinham enquanto um relacionamento. Foi um pouco depois disso que o contrato do apartamento estava por vencer e elas decidiram seguir morando juntas, mas num espaço novo e só delas. Elas não esperavam que a pandemia de Covid-19 começaria em seguida. Foi um baque, mas seguiram nessa descoberta diária: conviver juntas obrigatoriamente, sem a opção de sair de casa, é também descobrir muito sobre a convivência com a pessoa que se ama. Entendem que viver a pandemia naquela situação de imersão em um relacionamento recente era delicado, mas fizeram de tudo para dar certo. Hoje em dia, trazem o conhecimento que se criou uma com a outra algo muito positivo, mas não descartam as dificuldades nas ansiedades, nos atritos e no ato de aprender a conviver com as diferenças, de conversar e de dialogar sobre os sentimentos. Na pandemia, também passaram pelo desemprego da Ias, a situação financeira apertou e isso também influenciou muito sobre o valor que dão às coisas que conquistaram. Além disso, a Nath fazia um exercício intenso de incentivar a comunicação do casal - e principalmente de incentivar que a Ias falasse mais sobre o que sentia/a procurar o que sentia. Tudo partiu do entendimento de que o que ela sentia também afetava o dia a dia do relacionamento. Foi assim que seguiram juntas e que hoje em dia não se veem de outra forma: estão noivas! Planejaram o casamento aos poucos, com ideias em casa, mas querem vestidos e coisas tradicionais porque acreditam que merecemos isso. Contrataram uma cerimonialista que gostam e, por mais que já tenham passado por uma situação de lesbofobia na hora de procurar um local, encontraram outro e estão super empolgadas! Será lindo ♥ Conquistando também o apoio da família, ficam muito felizes em compartilhar as coisas do casamento e receber conselhos dos familiares que acreditam na potência do amor que elas vivem. A Ias contam que se sente num grande oceano. Ela nada em amor pela Nath - tudo ao redor dela é água; tem coisas que ela gosta ali e tem coisas que pode não gostar, mas não sabe separar o oceano do mar, tudo está junto e ela ama tudo. Acredita, também, que no dia que souber reconhecer o que ela ama e o que ela não ama, de forma específica, vai entender que esse sentimento provavelmente acabou, então ela ama por completo tudo aquilo em que ela se vê nadando: o amor. A Nath completa de que esse amor é de uma forma livre também, no sentido de não sentir medo, de poder ser quem são. E que, amar da forma que amam, não representa que todo dia seja bom. Há dias muito puxados, difíceis e chatos, mas o bom é saber que nada vai acabar por isso: é só um dia ruim. Por fim, amam os atos que envolvem a relação delas: desde o pai da Ias levar caldo quando a Nath está doente, até a forma revolucionária de ver mulheres se amarem através do respeito. Entendem que não vivem regras sociais como as colocadas no mundo heterossexual: se estão casando, por exemplo, é porque querem. E isso as deixa muito confiante de que a relação se baseia somente naquilo que constroem. ↓ rolar para baixo ↓ Nathália Iasmim
- Dede e Laura | Documentadas
Laura, no momento da documentação, estava com 23 anos. É natural de Salvador. Artista multifacetada, ela canta, compõe, escreve poesias e também é empreendedora com sua própria marca de roupas e acessórios. Como mulher de axé, conectada ao Candomblé, sua arte e espiritualidade se entrelaçam. Além disso, Laura é autora do e-book “Fôlegos” e taróloga. Deise - Dede - estava com 42 anos no momento da documentação e também é de Salvador. Percussionista, toca com diversos artistas como Larissa Luz e a banda onde Laura também atua cantando. É artista e escritora do livro “Lesbiandade”, publicado pela coleção Feminismos Plurais. Foi através da arte que começou a compreender as estruturas de gênero, raça, classe e sexualidade, desenvolvendo uma visão crítica sobre como o machismo atravessa a vida das mulheres, especialmente as negras e as que desafiam normas ao assumirem sua sexualidade. A música não só transformou seu olhar, mas também fortaleceu sua luta contra as opressões. Além de seu trabalho artístico, Dede é assistente social e dedica-se ao apoio à população em situação de rua. Mestra em Estudos sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia, ela combina sua experiência acadêmica com sua vivência artística para construir espaços de resistência e transformação Em novembro de 2021, Laura foi a um show onde Dede se apresentava. Nunca tinha visto ela antes, mas assim que a viu tocando, algo a prendeu. Conhecia a banda, mas Dede era uma novidade, e Laura se sentiu vidrada. Naquela época, Laura ainda namorava, mas a presença de Dede deixou uma marca. Foram apresentadas rapidamente após o show, mas Laura sentiu que havia passado despercebida. Nos dias seguintes, tentou encontrar Dede nas redes sociais, mas acabou “deixando quieto”. No entanto, não conseguiu evitar voltar ao perfil dela de tempos em tempos, atraída por algo que ainda não conseguia explicar. Quase um ano depois, Laura já estava solteira, mas como Dede não havia mostrado interesse antes, decidiu não ir atrás. Enquanto isso, em outubro de 2022, Dede estava na praia quando uma amiga a chamou para um samba de mulheres pretas. Quando chegou, Dede viu uma mulher linda cantando e ficou hipnotizada. Sem hesitar, virou para a amiga e disse: "Vou casar com essa mulher!" A amiga achou graça e respondeu: "Tá doida?", mas Dede reafirmou, convicta. Aquela mulher no palco era Laura. Dede conta que o que a encantou foi algo subjetivo - talvez o swing, os gestos, ou a presença marcante de Laura no palco. Como já trabalhava com música, era mais fácil ela perceber essas coisas. Sentiu algo diferente naquele momento. Não sendo uma pessoa que paquera, ganhou coragem de ir falar com ela depois do show graças às cervejas que já tinha tomado. Quando chegou para conversar, elogiando a atuação de Laura no palco, ela respondeu dizendo que também conhecia o trabalho de Dede. Quando Laura disse que conhecia o trabalho de Dede, ela ficou surpresa e perguntou: “Que trabalho?”. Foi então que Laura relembrou o momento em que haviam se conhecido, um ano antes, naquele show em que Dede parecia não “dado muita bola”. Durante essa conversa inicial, Laura ficou confusa: “Será que ela está me paquerando ou só veio me elogiar?”. Dede, pouco depois, voltou a procurar Laura e foi direta: “Olha, eu não sei paquerar, mas te achei linda, então vim aqui falar com você”. Laura explicou que estava solteira, mas que naquele momento estava acompanhada. Mesmo assim, garantiu: “Te procuro no Instagram depois”. Melhor ser honesta que mentir, né? No início, a comunicação online foi complicada. Dede demorava para responder, enquanto Laura tentava chamar sua atenção de forma sutil. Aos poucos, começaram a conversar com mais frequência. Em novembro, se esbarraram por acaso em um show. Dede viu Laura, mas não foi notada e acabou mandando uma mensagem. Depois desse dia, combinaram um encontro no mesmo lugar onde a documentação aconteceu. O primeiro encontro foi intenso e muito especial. Passaram os primeiros dias juntas, conversando e criando uma conexão forte. Logo falaram sobre como estavam lidando com outras relações, mas depois de uns dias tiveram um desentendimento que as afastou por cerca de três meses. Em abril do ano seguinte, reabriram o diálogo, viajaram juntas e perceberam: estavam apaixonadas. Decidiram que só fazia sentido ficar juntas se fosse para namorar. Na viagem, criaram diversas músicas e, a partir delas, sonham em lançar um EP. Além das canções, adoram produzir poesias e outras formas artísticas uma para a outra, construindo não apenas uma relação, mas também um universo criativo compartilhado. Hoje, Laura e Dede dividem a vida entre Abrantes e Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador. No novo apartamento, chegaram praticamente sem móveis, começando do zero: primeiro um colchão, depois os móveis e, por fim, as mesas e decorações. No primeiro final de semana, dormiram em um tapete de yoga, com o sol da manhã iluminando a casa vazia. Agora, com cada canto ganhando forma e se transformando em lar, sentem uma alegria imensa ao verem o espaço refletir a história que estão construindo juntas. Durante a conversa, conversamos como o amor delas ecoa na família quebrando barreiras. Laura menciona o exemplo de seu pai, pastor, que apesar dos preceitos religiosos e do julgamento externo, abre a casa para as duas com o coração cheio de acolhimento. Para ela, isso demonstra que o amor pode ser maior do que as convenções. Dede também destaca como esse apoio é um reflexo da conexão que construíram, que respeita a individualidade de Laura, sua religião e sua jornada pessoal. Dede complementa que o amor delas está nos detalhes do cotidiano. Desde o cuidado em lembrar a toalha esquecida no banheiro até os gestos que fortalecem a parceria diária, o carinho está sempre presente. Apesar da diferença de idade, Dede sente que isso não interfere na relação. Ela conta que Laura, com sua coragem e enfrentamento à vida, a inspirou a apresentar, pela primeira vez, uma namorada oficialmente à família, não apenas como “amiga”. Para Dede, esse passo foi poderoso, pois reconhece que dar nome ao amor é uma forma de enfrentamento ao patriarcado e ao preconceito. Mais do que isso, a forma como elas expressam seu afeto na música e na arte se torna uma inspiração para outras mulheres, especialmente mulheres negras, a se permitirem viver plenamente e lutarem por seus amores e suas existências. Dede completa sobre o amor nos detalhes do dia a dia, desde a toalha que uma esquece e a outra sempre faz questão de lembrar e deixar no box, detalhes de cuidados cotidianos. fala que mesmo com as diferenças de idade não sente isso latente no convívio, que tomou coragem de apresentar laura para sua família como namorada porque laura representa essa coragem no enfrentamento à vida. por mais que sua família sempre soube da lesbianidade, apresentava suas companheiras enquanto amigas, e agora apresenta enquanto namorada, esposa, companheira. entende o significado disso. a importância de chamar de amor ao invés de amiga. entende que estar falando do amor que elas sentem na música, na arte, é algo muito além que a relação que vivem, é algo que inspira outras mulheres - principalmente mulheres negras - a se permitirem viver o amor e combaterem o patriarcado. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Dedê
- Carla e Cynthia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Carla e Cynthia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Carla e a Cynthia tiveram seus caminhos cruzados pela primeira vez em 2004, quando Carla entrou na Rede Municipal de Macaé, sendo pedagoga. Nessa época, aconteciam alguns seminários de educação, que ambas participavam, e foi assim que a Carla observou a Cynthia pela primeira vez. Pensou no quanto ela era focada e sentiu curiosidade, por achar ela bastante diferente, mas elas não conversaram e não se encontraram mais. A Cynthia, por sua vez, nem se quer viu a Carla. Foi só em 2009, numa coordenação que ela mesmo ministrava, que as duas finalmente se conheceram e conversaram pela primeira vez. Esse “jeito” diferente da Cynthia persistiu pelos anos que se passaram, porque afinal, não é um jeito… é a essência dela: ela é uma mulher quieta, reservada, adora ler, vive rodeada de livros porque entende que a palavra salva - e isso, segundo ela, pode ser usado de várias formas: como algo divino, como o poder da leitura (como ela usa), como consciência… cada um tem o seu jeito - através da leitura ela enxerga o mundo de forma diferente. No mais, é uma mulher reservada, tímida e sem um jeito muito espalhafatoso. Carla não sabia nada sobre ela. Não imaginava se ela tinha interesse em mulheres, quem ela era, se havia espaços para interesses (até porque, sendo tão reservada, não havia como surgir esse tipo de assunto), mas queria estar ali e ter aquela amizade misturada com outro interesse. Assim, aos poucos, as duas se aproximaram. Carla entende que o interesse entre elas existia, mas que a admiração se multiplicava enquanto conhecia cada vez mais a profissional que a Cynthia era. Quanto mais trabalhavam e conviviam juntas, mais queriam estar juntas também. E por mais que ainda não existissem brechas para falarem sobre relacionamentos ou assuntos do tipo, por conta da Cynthia ser uma mulher muito reservada, ela respeitava isso e queria estar ali, de qualquer forma. Carla já tinha vivido relacionamentos anteriores - com homens e mulheres - e inclusive tinha uma filha. Já a Cynthia, nunca tinha se envolvido com alguém, por isso também pisava em passos mais lentos. No começo, não entendia que a Carla poderia ter algum interesse, apenas gostava dela pelo o que tinham em comum - iam ao teatro, tomavam cafés. A vivência da Cynthia era algo totalmente diferente, uma pessoa caseira, com grupos pequenos de amigas (essas, reunidas pela leitura, com idades mais velhas). Enquanto Carla era do grupo de teatro, fazia amizade com todos, era super extrovertida. Entender que poderiam dar o primeiro passo foi um processo interno para ambas. Sentiam-se como adolescentes. Cynthia foi entendendo sobre o seu interesse, conversou com a sua psicóloga e ela disse: “Essa moça está afim de você”. Isso despertou diversos olhares novos. Enquanto Carla, por sua vez, tentava em um ritmo diferente. Não atropelava nada, deixava com que tudo fluísse para que ela também entendesse seu processo. Chamou a Cynthia para ir na sua casa, não deu certo na primeira vez, mas com o tempo convenceu. Nessa época, em que tudo era um mistério entre não saberem se existia algo a mais entre a amizade delas ou não, elas não moravam na mesma cidade, mesmo que trabalhassem juntas. Foi em Rio das Ostras, na região litorânea do Rio de Janeiro, que elas se encontraram, próximo da casa da Carla. Foram até um restaurante na praia (local em que fizemos as fotos, inclusive) e na hora de ir embora, quando estavam esperando uma van, ao sentirem frio esquentaram suas mãos umas nas outras. Foi, assim, um primeiro tato/uma primeira demonstração de afeto físico, como um pontapé inicial. Ao chegarem em casa, assistiram um filme estratégico que era nada mais, nada menos, que um amor entre mulheres, mas simplesmente não falaram nada sobre o filme e assistiram o filme cada uma em seu canto. Na hora de dormir, já ao anoitecer, foi quando - cada uma olhando para o teto - a Cynthia resolveu perguntar algo do tipo: “Você já beijou alguma mulher/você gosta de mulheres?” e, finalmente, elas se beijaram. Hoje em dia, 12 anos depois, elas riem e brincam muito sobre toda essa situação que viveram. Afinal, duas adultas, agindo dessa forma. Mas entendem que essa demora, ou melhor, esse processo, a forma que foi vivido, os intervalos, o tempo em si, tudo foi uma forma de respeito e de entendimento sobre o que estava acontecendo. Por a Cynthia nunca ter estado com alguém, viver isso dessa maneira, foi a forma mais real/pura e respeitosa possível sob o que ela é. Já a Carla, se permitir esse processo, foi um novo entendimento sobre algo que ela gostaria de viver e que nunca tinha se imaginado, também. No começo, todos olhavam a Carla super extrovertida, com sua gargalhada alta, com os seus amigos mais jovens, do teatro, das artes, de festa, bares, e a Cynthia sendo reservada, da leitura, de um mundo oposto e diferente e já diziam: “Não vai dar certo.” O mais importante, em toda a história, foi que mesmo entendendo que são pessoas diferentes, suas afinidades são muito boas e uma não quis mudar a outra. Inclusive, era suas diferenças que faziam com que uma gostasse tanto da outra. A Cynthia conta o quanto ela se diverte com as palhaçadas da Carla, às vezes até sem querer - e a Carla o quanto sempre se encantou com tudo o que a Cynthia representa no seu tom reservado, quieto, leitor. O processo inicial, lento, de amizade e conhecimento, também foi muito importante porque enriqueceu quem elas são. Depois de tantos anos, sentem que tudo acontece com muita fluidez. Desde uma gostar de café e a outra de cerveja, cada uma sabe o gosto e a forma de acontecer. Na noite em que elas se beijaram, havia um detalhe - o dia seguinte era aniversário da Cynthia. Ela estava radiante! Quis logo assumir o namoro. Contar para a família. Porém, haviam alguns problemas, né?! Primeiro que, assumir um relacionamento hoje em dia não é fácil, imagina antes de 2010. Segundo, Cynthia sempre foi muito ligada com a sua família e Carla teve muito medo de que isso fizesse com que a família reagisse com preconceito e acabasse a afastando ou a tratando mal, portanto, não aprovou que ela contasse. Ela decidiu conversar com a sua psicóloga, que também achou melhor esperar. Mas se sentiu muito triste, era como se estivesse fazendo algo errado, sendo que não estava. Estava amando, finalmente amando! Fazendo algo tão bom, queria tanto compartilhar. E, principalmente, pela família dela sempre apostar no amor, não entendia porquê não poderia compartilhar. Esperou uma semana, não se sentia bem estando lá, dividindo a casa, os cômodos, e não contando. A mãe aceitou tranquilamente, disse que em nome da felicidade dela, estava tudo bem. Ela ficou muito feliz em ter apostado no amor - como foi ensinada a fazer. Ela e a Carla passaram mais um tempo sem contar sobre o relacionamento delas no trabalho, por conta da pressão que isso envolvia, mas também não durou muito. Ao fim da nossa conversa ela falou algo importante, sobre fazermos o exercício de passarmos horas falando da nossa vida e ver se conseguiremos não falar de quem a gente ama. Porque ela, sinceramente, não conseguia/não consegue não citar a Carla, e reprimir isso por conta do preconceito social é absurdo, sufocante. É algo que não há motivos para permitirmos. Ela queria sentir a liberdade, da mesma forma que as pessoas perguntam “e o seu marido, está bem?!” perguntarem “E a sua companheira, está bem?”. Hoje em dia, a Carla está com 50 anos, trabalhando como professora, pedagoga, sendo atriz e artista plástica. Adorando desenhar e pintar. A Cynthia está com 44 anos, segue enquanto coordenadora de professores e alunos na Secretaria de Educação. Eterna apaixonada por leitura. Elas estão juntas há 12 anos. Atualmente, morando em Rio das Ostras. Mas, no começo da relação, Cynthia tinha acabado de comprar um apartamento em Macaé, então passaram pela ideia de morar lá. Já moraram, também, com a filha da Carla, que hoje em dia é uma mulher adulta (mas que no começo do relacionamento delas tinha 11 anos) e que convive com as duas direto. Elas brincam sobre o enfrentamento da adolescência e sobre a Cynthia sempre ficar do lado de ambas (tanto da Carla, quanto da filha), na hora dos conflitos. Hoje em dia a filha também foi para a área da Educação, cursando História, no interior do Rio de Janeiro. Por mais que, antes de se relacionar com a Cynthia, a Carla dizia que não gostaria de se relacionar com ninguém, hoje em dia ela vê a vida e o amor de formas bem diferentes. Entende que não queria se mudar por ninguém: se fechava nessa ideia, dizia que era assim, a pessoa que aceitasse. Hoje em dia ela entende que segue na sua essência, mas que todo relacionamento precisa de ajustes e acordos para acontecer. Foi a partir do relacionamento delas que sentiu um cuidado único - tanto ela, quanto sua filha - e ambas ganharam uma nova família. Esse cuidado ensina diariamente. Antes, elas eram sozinhas, ela e a filha, no mundo. Hoje, elas têm uma parceria e com quem contar. Cynthia conta, finalizando, que a mãe dela faz a comida favorita da Carla e que tudo dentro do relacionamento delas é feito com um amor único. “O ódio é mais fácil. Sentir ódio. Mas o amor é a única forma de salvar as pessoas. Por isso precisamos escancarar o amor em todos os cantos… e a gente escancara mesmo!” - Carla. ↓ rolar para baixo ↓ < Carla Cynthia

