top of page

Foi no local onde a Jeniffer e a Renata se conheceram há anos atrás que nos encontramos para documentá-las. Logo no início elas brincaram: “Se naquela quinta-feira alguém me contasse que um dia eu estaria aqui com a mãe da minha filha, eu acharia que seria uma loucura!”.

 

Jeniffer é musicista, cantora e faz diversos shows pela noite carioca. Foi numa quinta-feira de 2016 que se apresentou num restaurante chamado Espeto Carioca, que pertencia a uma amiga da Renata. Essa amiga, ligou para a Renata e a convidou, ela marcou um encontro com o grupo de conhecidos que tinham passado pelo mesmo que ela: a cirurgia bariátrica e, foi tão bom, que toda quinta-feira esse passou a ser o encontro oficial do grupo. Nesses encontros, a Jeniffer e a Renata viraram grandes amigas, apresentaram suas companheiras (que também viraram amigas), se juntaram em mais conhecidas e formaram um grande grupo, que saía quase todo fim de semana junto. 

 

Um tempo depois, a Jeniffer e a ex companheira dela entraram em um momento muito delicado e tóxico da relação, o que fez com que a Jeniffer sumisse dos ambientes com as amigas. Era muito difícil ter contato com elas e encontrá-las além dos shows… Acabaram todas se afastando. Nesse meio tempo, a Renata também terminou o relacionamento que tinha e, só em 2017, quando ambas estavam solteiras, elas se reencontraram. Decidiram retomar a amizade que tinham e voltaram a ter contato, misturar os grupos de amigas e se reencontrar. 

Entre todos os programas que faziam juntas, em um dia, assistindo ao lançamento de La Casa de Papel em casa, elas se beijaram. Nesse momento, Jeniffer ficou desnorteada, nitidamente incomodada e Renata compreendeu, elas entraram em um acordo de que era melhor fingir que nada aconteceu e não tocaram mais nesse assunto.

 

No mesmo dia, a Renata ia para um encontro com uma mulher que a Jeniffer apresentou para ela e acabou que o encontro foi bom, elas continuaram se encontrando, o tempo fez seu papel de passar, ela namorou e casou com essa mulher. A Jeniffer, nesse meio tempo, voltou com a ex companheira dela, porém o relacionamento que antes já demonstrava ser tóxico, dessa vez ficou muito pior. Novamente ela se afastou de todos e, algum tempo depois, terminou definitivamente. 

 

Em 2019, um tempo depois, a Renata já estava com a ideia de engravidar mais amadurecida dentro do antigo relacionamento. Algo que partia sempre dela, pois ela tinha o desejo muito forte de ser mãe, mas amadureceu ao ponto de decidir: é a hora. Teve a primeira tentativa, através da inseminação, e não deu certo. Foi bastante doloroso, porque querendo ou não existem muitas expectativas, mas ela esperou um tempo, superou aos poucos e decidiu, logo no comecinho de 2020, tentar novamente.

 

Diferente da primeira vez, com muito cuidado e seguindo as regras, a segunda vez foi muito mais desesperançosa. No mesmo dia que foi feita a inseminação ela foi num show da Jeniffer, bebeu, ficou até tarde com os amigos na rua, tinha para si a ideia de que não daria certo. 



 

Em meados de fevereiro de 2020, descobriu: a segunda tentativa deu certo! Renata estava grávida. Chamou a Jeniffer para ser madrinha, junto com outra amiga. Começou a cuidar melhor do seu corpo, parou de beber e compreendeu que, parando de beber, percebeu muito melhor tudo o que acontecia ao seu redor. Tudo é muito bom no momento de festa, mas muitas coisas passam batido. Foi numa dessas percepções que as brigas com sua ex-companheira começaram a intensificar até se envolveram em agressões. 

 

A chave virou. Não tinha como romantizar ou passar pano. O sonho de ser mãe era dela, ela estava grávida. A Jeniffer e a outra amiga protegeram ela nos atos, no término e, a partir daí, fizeram de tudo: passaram os dias cuidando dela e acompanhando cada detalhe da gestação.  Foi nesse momento que começou a pandemia, estavam as três no apartamento vivenciando a gestação juntas: a Renata e as madrinhas da Analu, suas duas melhores amigas, até que uma delas precisou voltar ao trabalho e sair de casa para não as expor ao risco do Covid-19.

 

Quando ficaram só a Jeniffer e a Renata, elas seguiam se ajudando de todas as formas. Conversavam muito, compartilhavam de tudo, até que numa madrugada a Jeniffer resolveu voltar naquele assunto que elas nunca tocaram: o dia que se beijaram. A Renata deu a versão dela, falou que era óbvio que tinha sido horrível para a Jeniffer, já que ela tinha "fugido como foge o diabo da cruz”, até que a Jeniffer revelou que não, era o contrário, tinha fugido porque justamente tinha sido muito bom e sentiu muito medo - de se envolver e acabar perdendo-a. Pensou “se era para ter, de alguma forma, era melhor ter como minha melhor amiga”. 

 

Quando elas entenderam suas percepções, se beijaram novamente. No dia seguinte, era dia das mães e a Jeniffer foi na rua, voltou com balões e uma carta, assim, comemoraram o primeiro dia das mães juntas - e entenderam também que não era uma brincadeira, que queriam isso de verdade: ser mães da Analu.



 

Entender que estavam juntas não foi algo tão rápido, só com a noite que passaram, mas uma longa conversa sincera sobre o que sentiam. Para a Renata, o que ela estava vivendo não conversava mais com a pessoa que ela era quando conheceu a Jeniffer: que ia para todos os shows, bebia, vivia nas festas. Agora, a prioridade dela era ser mãe, parir e educar a Analu, trazer cuidado. Se fosse para a Jeniffer estar com ela, sem ser na condição de madrinha, era para estar de verdade, porque ela não queria mais um relacionamento para trazer machucados. 

 

Elas entendem que o “Combinado não sai caro para ninguém” e assim foi: a Jeniffer sempre quis ser mãe e mostrou que, se a Renata permitisse, ela embarcaria no sonho da Analu.  

 

Depois de um tempo juntas, assumiram o relacionamento. Sabiam que poderia ser complicado, que muitas pessoas julgariam e poderiam achar que era um caso antigo, uma traição - tinham muito cuidado também pela vida pública da Jeniffer enquanto cantora - mas tiveram pulso firme, afinal, essa era a história que elas estavam vivendo no momento, acreditassem ou não. 




 

Vivenciar uma nova visão de relacionamento, tanto para a Renata, quanto para a Jeniffer, foi libertador. Depois de terem passado por situações muito abusivas com ex companheiras, hoje em dia elas enxergam as relações humanas de forma bem diferente e tentam conversar sobre tudo. Carregam, também, muito da amizade que já tinham antes do namoro. Tentam não se culpar pelos machismos sofridos diários, pelos preconceitos externos e trazer cada vez mais acolhimento uma para a outra, justamente por terem sentido falta disso em outros momentos. 

 

Ver o desenvolvimento da Analu na vida delas é um sonho sendo realizado diariamente. Elas fazem absolutamente tudo por ela e contam como é difícil a missão de educar uma criança. Além disso, como não é fácil também, a rotina de um casal com filhos. Existe uma parceria muito clara em que entendem que não vão estar 100% todos os dias, uma vai preenchendo o que a outra não pode dar no momento, e assim vão seguindo.

 

Jeniffer também conta o quanto a chegada da Analu mudou a forma que ela enxerga o mundo. Ela vivenciou toda a maternidade, desde a escolha do modelo da fralda, até as roupinhas, as decisões mais sérias sobre educação e hoje em dia está em muitos detalhes na formação do ser que a Analu vem formando. Se emociona muito em cada detalhe, explica que nunca sentiu um amor tão grande por alguém. 





 

No momento da documentação, a Renata estava com 34 anos e a Jeniffer com 32, elas estão trabalhando juntas - a Jeniffer fazendo os shows e a Renata enquanto empresária, produtora e assessora. 

 

Nessa rotina intensa de apresentações, Renata explica a admiração enorme que sente pela Jeniffer no palco, e brinca: da empresa, ela é só funcionária e fã. 

 

Para elas, esse cotidiano é um ato de amor também, nele entra tudo o que constroem com a Analu. E, olhando ao redor, chegam à conclusão: amor é essa linha do tempo que viveram desde a primeira vez que tiveram no restaurante, até hoje, que voltaram com a filha. 

 

Por fim, me trouxeram a comparação: pensam no relacionamento enquanto uma casa. Muita gente começa a pensar numa casa pelo teto ou pelas paredes, enquanto elas literalmente começam pelo chão, pela base. Hoje em dia, possuem uma casa com a base mais sólida possível, capaz de enfrentar qualquer coisa. Foi a partir da base que foram construindo tudo e a casa foi tendo vida, hoje vivem dentro dela, fortalecida. 

 

Entendem como foi bom ter dado uma chance para viver esse amor de verdade, um amor que até então elas não sabiam que existia. “Não era alguém para completar, mas transbordar”.  

 Renata 
 Jeniffer 
bottom of page