Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
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É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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- Flavia e Olga | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Olga estava com 34 anos no momento da documentação, é natural de Recife e mora em Paulista, Pernambuco. Formada em Engenharia Química, possui mestrado e doutorado em Engenharia Mecânica e atualmente trabalha com Engenharia de Software. Entende que não é só das engenharias e das exatas, mas também das artes: adora desenhar, cantar e escrever. Recentemente recebeu o diagnóstico tardio de autismo e TDAH, o que a fez entender diversas coisas e melhorar sua qualidade de vida, podendo visualizar e respeitar seus limites. No tempo livre, adora ler, praticar esportes, ter conversas longas e consumir arte. Flávia estava com 31 anos no momento da documentação, é natural de Recife, mas ainda adolescente se mudou para Paulista e cresceu na cidade. É professora de história por formação e estava ocupando o cargo enquanto vereadora na cidade de Paulista quando nos encontramos. Flávia começou sua militancia no movimento estudantil, participou de alguns movimentos que buscam assistência estudantil para estudantes de origem popular, fez parte de movimentos sociais e se tornou a primeira vereadora negra e lésbica da cidade. É apaixonada pela rua, por estar com as pessoas conversando, no barulho, ouvindo música, falando sobre política… Gosta de fazer política de verdade, até nas folgas está lendo, vendo vídeos e debatendo com alguém. Depois da pandemia de Covid-19, Flávia fez questão de ter sua militância mais voltada para a cidade de Paulista. Sempre saía de casa e se deslocava à capital para participar das atividades, até que começou a pensar em atividades para sua própria cidade, desde ações do Dia da Consciência Negra, até debates pensando mudanças que queriam para a cidade em si. Foi então que, aos poucos, começou a se desenvolver em Paulista, conhecer mais lideranças - e até mesmo se tornar uma - entender que essa era a prioridade. Hoje em dia, a vida em Paulista é muito mais que o trabalho e a casa: é o terreiro, a avó, a irmã, a família, a política que constroem e acreditam, o filho, o relacionamento, o lar. Olga sempre gostou de fazer poesias, em sua maioria tratando sobre temas políticos, e foi quando descobriu o Slam das Minas que começou a se aproximar do movimento de rua e da militância. Em 2018, ano de eleição, Flávia foi para a reunião de candidaturas do partido e percebeu que todas as pessoas eram brancas, metade era composta por homens. Tomou iniciativa porque não se sentiu representada, decidiu colocar seu nome, se tornar candidata à Deputada Federal. Não tinha ideia de como seria fazer uma campanha, mas começaram a se organizar. Nessa organização, criaram um evento de lançamento e chamaram algumas mulheres para participar, inclusive o Slam das Minas, fazendo o convite para Olga recitar um poema. Olga pesquisou um pouco sobre quem era Flávia, para não chegar lá, num evento de política, sem saber onde estava se metendo. Queria estar alinhada, ouvir as propostas. Decidiu conhecer Flávia pessoalmente antes do evento acontecer. Na época, a campanha foi feita como dava: Flávia foi morar no comitê, que era um apartamento bem pequeno no centro de Recife. Estava num dia tentando descansar nessa casa/comitê/escritório e Olga apareceu para conhecê-la. Como esperava ver uma pessoa com pose de Deputada, ficou logo na dúvida se era mesmo Flávia ou não… Achou melhor perguntar logo: “Tu é Flávia, é?!”. E ela respondeu que sim, que talvez conhecesse Olga de algum lugar. Claro, ela sabia que conhecia do Slam das Minas. Sentaram para conversar, falou dos projetos, mostrou panfletos… Pensaram juntas: “Finalmente uma pessoa que pensa como eu!”. Olga conta que o discurso vago na política era algo que a incomodava muito, sempre falavam o quanto a diversidade é importante, o quanto era importante fazer algo, mas nunca era feito, nunca havia proposta efetiva. E ali, independente de um mandato ou não, era o movimento que estava sendo proposto: nós somos o povo, nós quem precisamos fazer algo. O lançamento da Flávia foi um sucesso, coisa que nem o próprio partido esperava, muita gente da cultura estava presente, pessoas representando a militância negra… e quando terminou foram todos para um bar comemorar. Flávia estava muito feliz, estava abraçando as pessoas e abraçou muito Olga. Conta que não é uma pessoa afetuosa fisicamente, mas naquele dia estava muito contente, ficava demonstrando muito para Olga essa felicidade. A vida seguiu depois do lançamento, seguiram os compromissos e começaram a interagir pelas redes sociais. Entre curtidas, comentários e conversas, surgiu um novo evento que seria a inauguração do comitê de campanha. Se beijaram pela primeira vez neste dia, depois de tentarem entender se iria rolar ou não, porque queriam mas estavam tímidas (e as coisas estavam acontecendo todas ao mesmo tempo). Flávia deixou Olga em casa e, no dia seguinte partiu para o Sertão, para trabalhar com a campanha eleitoral por alguns dias. O tempo que a campanha durou, Flávia morou no centro de Recife, próximo de Olga, e elas ficaram juntas. Quando a campanha acabou e ela não foi eleita, voltou para Paulista e pensaram que era muito mais longe, não se veriam mais todos os dias, a rotina mudaria muito… O Miguel, filho de Flávia, estaria muito mais presente - e no começo, por receios, ele não tinha sido apresentado enquanto filho, estava longe dela por conta da campanha, então foi outra questão na relação… Precisaram de um tempo para se entender, entender suas comunicações, suas realidades que ficariam bem diferentes de uma hora para a outra. Flávia começou a mostrar quem ela era de fato: moradora da comunidade, com diversas questões familiares, sem emprego depois de uma campanha… não tinha o conforto de morar no centro da capital como estava tendo por alguns meses. Precisariam repensar a relação. Flávia acreditava que só ia conseguir se relacionar com alguém quando o Miguel tivesse uns cinco anos… assim ele já seria um pouco mais independente e a pessoa que estaria com ela entenderia um pouco melhor também. Na sua visão, quem iria se relacionar com alguém que tem um filho de dois/três anos? Quando Olga chegou com uma comunicação clara, as coisas foram mudando rápido. Ela gostou muito da força, da independência, das coisas que Olga fazia e de como era estar junto com ela. Mas não queria que ela “assumisse um B.O” que não era dela tendo que lidar com seus problemas. Porém, aos poucos, Olga deixou claro que eles, Flávia e Miguel, eram um só. E não eram um problema. Quando conheceu Miguel se deram bem logo de cara e tiveram uma conexão. Aos poucos, Olga seguiu sua vida nos estudos e Flávia conseguiu um emprego depois da campanha eleitoral, foi quando decidiram de fato seguirem juntas e Olga se mudou para Paulista, morando no bairro em que a família de Flávia morava. A mudança para Paulista foi para ajudarem a mãe da Flávia por conta dela estar doente, mesmo ela não aceitando o relacionamento, Flávia pedia para que morassem juntas lá porque não aguentaria ficar longe de sua família. Olga cedeu e refez sua vida e sua rotina em Paulista, entraram num acordo, seu pedido em troca seria que Flávia começasse a fazer terapia e que mantivessem uma comunicação saudável, uma troca pensando em construir um relacionamento confortável juntas. Brincam que demorou um pouco, mas que deu certo. Durante a pandemia de Covid-19 decidiram morar numa casa para reformular mais uma vez a rotina, pois tudo estava sendo feito sob o mesmo teto: os estudos, o trabalho e a vida do Miguel. Começaram a terapia de fato, estavam reaprendendo a se comunicar, foi um divisor de águas. A qualidade de vida mudou muito morando numa casa. Começaram a curtir o espaço, fazer churrascos, exercícios, brincar mais com o Miguel… Não se sentiam presas dentro de um apartamento. Com a pandemia, veio também a segunda eleição, em 2021. Dessa vez já tinham a experiência de uma campanha que Flávia teve uma votação expressiva. Porém, uma campanha eleitoral que exige contato com a população em meio à pandemia era um desafio imenso. Olga conta o quanto foi difícil para ela lidar com as questões do vírus, ver as pessoas sem máscara ou os momentos em que usavam a máscara errado, todos os contatos com as pessoas na rua… tudo mexia demais com ela e causava muito medo. Além de todo o estresse que uma campanha eleitoral já produz, isso era um dos pontos mais difíceis, lidar um um “inimigo invisível” sendo tão direto para a saúde. Mas, a campanha foi feita com sucesso e Flávia foi eleita. No começo, Flávia estava muito destinada a não ser como os outros políticos que só aparecem de quatro em quatro anos. Então seguiu aquele ritmo frenético, trabalhando sem parar todos os dias. Olga entendeu que em algum momento ela adoeceria, estava impossível acompanhar - e entristecendo ver a companheira trabalhar tanto em seu primeiro ano de mandato, mesmo sabendo o quão importante isso é. Foi com muita conversa (e muita terapia) que Flávia entendeu o ritmo, os processos e as propostas. Hoje em dia, Flávia e Olga estão morando num novo lar, apartamento que financiaram juntas pensando na segurança de vida e em parar de pagar aluguel, depois de problemas que tiveram nos lugares que alugaram. Se aproximaram de um terreiro - e a aproximação começou por conta de uma luta contra intolerância religiosa no mandato de Flávia - e sentem que tudo melhorou depois disso. Hoje frequentam as festas, as cerimônias e os ritos, se sentem muito bem cuidando do seu ori. Foi através da religião, também, que chegaram até um terreno onde estão construindo - e reformando com suas próprias mãos - uma casa em Abreu e Lima, local que serve de refúgio, no meio de uma mata frutífera. Fomos até esse local e fizemos parte dessa documentação, pois é lá que se sentem realmente felizes. Flávia conta que pretende continuar trabalhando nas lutas que acredita, pois esse é o seu propósito. Olga deseja seguir seus trabalhos e suas escritas, inclusive, lançou seu novo livro de poesias. E Miguel, agora com nove anos, conta o quanto adora jogar videogame, brincar com Lula, o cachorrinho, e brincar de futebol - com Flávia, ele destaca que gosta de jogar no celular, com Olga, ele gosta de seguir a rotina fazendo as tarefas de casa. Quando perguntamos sobre a casa do sítio, ele responde: gosta de ir lá pra ser feliz, inclusive, é onde quer ir agora. ↓ rolar para baixo ↓ Flávia Olga
- ilscrgo
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- Roberta e Laura | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Laura estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Sapiranga, uma cidade interiorana do Rio Grande do Sul, mas mora em Porto Alegre há cerca de 8 anos. Chegou na cidade para estudar dança e hoje em dia trabalha com dança dando aula em alguns projetos para pessoas com deficiências intelectuais e para crianças. Paralelamente, também é professora de inglês, trabalha em uma instituição que promove imersões na língua inglesa. Nessas imersões, ela mistura a dança, outros professores entram com esporte, culinária e a ideia é fazer o inglês ser praticado em um ambiente de “vida real”. Fora do meio profissional, Laura entende que é uma pessoa bastante ligada à família. Foi sua família quem a colocou na dança, alguns familiares são músicos e sempre agradece o ambiente cultural que cresceu e que vive até hoje, percebe o quanto isso fez com que ela se tornasse alguém que adora estar entre as pessoas, gosta de se aventurar e de conhecer o mundo. Roberta estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Canoas, região metropolitana de Porto Alegre. Durante a adolescência se mudou para a capital para estudar na faculdade e começou a trabalhar como educadora social num clube para pessoas com deficiência. Esse trabalho durou seis anos (e é um dos lugares que a Laura trabalha hoje em dia). Conta que foi trabalhando lá onde mudou sua forma de pensar sobre a vida, ainda mais no mundo que vivemos hoje em dia com redes sociais onde tudo tem filtro e é tão perfeito - pensado o tempo todo, medido e tendo que estar sempre lindo. Lidar com pessoas com deficiência é entender a sinceridade e a realidade da vida: elas falam o que querem falar, de uma forma simples e muito mais fácil, então aos poucos Roberta sentiu que era melhor ser assim do que viver nesse “filtro” que não era real. Falar o que sentia, ir onde quer ir, não ir onde não quer, ser mais real consigo mesmo. No meio desses aprendizados, criou um curso chamado “Ação Caminhos Para a Diversidade” sobre anti capacitismo, abordando temas como sexualidade da pessoa com deficiência, oportunidades de trabalho e privação da maternidade. Todo esse processo de estudo fez Roberta entender muito sobre si, sobre quem ela é e estudar sobre seus comportamentos sociais. Hoje em dia, observa que existe outra Roberta, principalmente depois da pandemia de Covid-19. Uma Roberta muito mais caseira, que adora arrumar a casa, fazer decorações, pintar e criar coisas manuais. Quando Laura chegou na faculdade, em 2017, entrou para um projeto de extensão chamado Diversos Corpos Dançantes, uma proposta de dança com habilidades mistas envolvendo pessoas com e sem deficiência. Laura era bolsista e foi a primeira vez que trabalhou com práticas de danças acessíveis, lá conheceu uma amiga e passaram a estudar bastante sobre acessibilidade juntas. Em 2019, Laura fez uma mobilidade acadêmica e foi estudar em Salvador, nos meses que ficou fora sua amiga começou a trabalhar num lugar novo - e conheceu Roberta. Na versão de Roberta, quando ela conheceu a amiga de Laura, só ouvia falar sobre Laura: “Tu me lembra muito a Laura”, “Nossa você e a Laura iriam se dar muito bem!”... Era tanto que passava um pouco dos limites. Quando Laura voltou de Salvador, soube da existência da Roberta e, durante uma Mostra de Dança Inclusiva, em novembro, elas se conheceram. Roberta ia se apresentar com os alunos, estava com uma roupa azul, toda pintada, brinca que parecia um grande pavão. Quando viu Laura entendeu o motivo de todos aqueles elogios que ouviu por meses. Mas, naquela época, Roberta vivia um relacionamento, estava noiva e só entendeu o nervosismo porque achou Laura admirável, mas não aconteceu nada além. Naquele contexto começaram a se seguir nas redes, mas não interagiram. Nos meses seguintes a pandemia de Covid-19 chegou, Laura voltou para a casa dos pais no interior, Roberta terminou o relacionamento e suas vidas passaram por grandes mudanças. Um tempo depois, no meio da pandemia, Roberta estava respondendo uma brincadeira no Instagram e postou sobre estar solteira. Laura respondeu a brincadeira, iniciando um flerte… Roberta jamais esperava essa resposta e ficou bastante nervosa, ignorou ela por alguns meses, não se sentia preparada para flertar, enfrentava momentos delicados na pandemia e quando se sentiu pronta começou a interagir melhor. Durante uma parte da pandemia, Laura trabalhou com algumas ações de dança na internação psiquiátrica do hospital, então acabava tendo um grande contato com a área da saúde e precisava fazer testes a cada 3 dias. Isso influenciou na demora para se encontrarem, até que marcaram um almoço num feriado. Depois do almoço, Laura queria logo comer as outras coisas que seriam para comer mais tarde (pão, bolo…) e pediu se Roberta se importaria. Ela achou positivamente engraçado, mas disse que não, que adoraria, e na hora que Laura se levantou do sofá disse que gostaria de fazer algo antes de buscar o bolo, assim beijou Roberta pela primeira vez. Hoje em dia, virou um bordão: quando levantam do sofá, soltam o “mas antes, quero fazer uma coisa” e se beijam. O começo do namoro foi bem rápido e aconteceu depois de alguns encontros e conversas onde alinharam o que sentiam sobre o que estavam tendo e o que pensavam sobre as relações humanas e amorosas. Num dia, Roberta saiu da casa da Laura e deixou ela no apartamento ‘trancada’ pois só tinham uma chave, precisou comprar uns remédios, entregar um objeto e no caminho encontrou um amigo que chamou para sentar num bar e atualizar as novidades. Ela contou: “Conheci a mulher da minha vida, tô apaixonada!”. Demorou mais que o previsto para voltar, quando chegou encontrou Laura fazendo yoga na sala com um olhar sério, chamando-a para conversar. Pensou: “Meu Deus, ela vai terminar tudo, acabei de falar que tô apaixonada e que é a mulher da minha vida e agora vou voltar lá no bar e dizer: acabou!”. Laura disse que não queria mais ser uma “futura namorada” para Roberta, que cansou desse termo, e que estava disposta a namorar agora. Roberta lembra da sensação de pavor que sentiu, falou “Nossa, guria, que cagaço tu me deu!”. Começaram o namoro e meses depois foram morar juntas por questões financeiras, num apartamento que viveram durante pouco mais de um ano. Sentem que tudo fluiu muito bem, mesmo sendo no começo da relação, morarem juntas foi a escolha mais racional. A única coisa que se arrependeram foi o fato de Laura ter virado a síndica do prédio, isso causava mais stress que qualquer outra coisa, e não compensou o desconto nas contas. Mas hoje, é uma parte até cômica da história, virou “história boa pra contar - a síndica sapatão do prédio”. Roberta e Laura contam como o período das enchentes em Porto Alegre foi impactante e marcante para elas, como é importante documentar esse momento vivido, além da importância histórica e política, mas também pela forma que se cuidaram e seguem apoiando até hoje por contas das marcas e atravessamentos que causou. Já estavam morando no apartamento que residem atualmente - e consideram isso fato importante porque no local que moravam meses antes da enchente certamente teriam perdido muitos itens pessoais e móveis, por ser no térreo e numa região que foi bastante atingida. Porém, mesmo nesse novo lar em andares superiores, ainda estavam sem água e luz, com a rua alagada. Foram para a casa de amigas em um bairro vizinho. Três dias depois, o bairro também foi afetado e as águas subiram rapidamente. Ficaram sem saber para onde ir, até conseguirem um apartamento vazio e irem juntas para lá. Foram dias dormindo no chão, comendo coisas prontas porque não havia como cozinhar, ficando sem tomar banho… Chegaram no limite, até Laura pedir para a mãe dela vir de Sapiranga buscá-las. Era um caminho delicado porque as estradas estavam difíceis, ela tinha bastante medo. Um caminho que leva até menos de 1h em dias comuns, levou 6h naquele dia. Quando chegaram na casa da família de Laura e tomaram um banho, comeram arroz, se olharam entre todas as mulheres e refletiram tudo aquilo que estavam vivendo, viram o significado de união e de família. Entendem que a experiência das enchentes foi muito sensorial: ouviam os helicópteros, as ambulâncias, sentiam a falta d’água, a falta das coisas nos mercados… Todas as dores de ver quem amam perdendo suas coisas, o medo, a insegurança. Foram momentos muito difíceis. Era muito importante reconhecer estar vivendo esse momento com mais duas mulheres, se ver enquanto amigas se apoiando, LGBTs, nossas famílias. Foram duas semanas vivendo em Sapiranga até voltarem para Porto Alegre e participarem da reconstrução da cidade - e entendem que tudo o que acontece até hoje é parte dessa reconstrução. Até hoje pagam as contas de luz daquela época (porque passaram meses sem conseguirem medir), Laura passou a trabalhar muito mais depois do acontecimento, entendem que existem várias consequências que silenciosamente estão presentes no cotidiano e na saúde mental, por isso o acolhimento e o lar enquanto lugar seguro são prioridades dentro da relação. Laura sente o amor presente na rotina, na construção da relação. Quando lembraram sobre a vivência das enchentes em Porto Alegre, reforçaram quanto apoio existiu. Brincam que tinha um dia para cada uma ficar mal “Hoje estou mais triste, então você me apoia, amanhã você fica mais triste que aí já vou estar fortalecida e te apoio…”. Era a forma que encontravam de segurarem a barra no momento extremo, mas entendiam que era uma forma de proteção também. Agora, após alguns anos juntas, visualizam que passaram pelas suas finalizações na universidade, pela pandemia, pelas enchentes, por duas casas, montaram um novo lar juntas… Então, foram encontrando o balanço, a rede de apoio, formaram a família que gostariam de ter. Laura comenta que quando começaram a namorar, fazia apenas dois meses que seu pai faleceu por conta da Covid-19, e Roberta acompanhou seu luto recente. Eram dois sentimentos conflitantes: a dor grande por perder um amor e uma paixão chegando com um novo amor. Foi um processo novo para Laura e, ao mesmo tempo, um processo que Roberta acompanhou de perto a família de Laura vivendo, visto que são muito unidos. O amor também esteve nesse lugar de acolher desde o início. Roberta conta que aprendeu uma nova forma de amar, com uma nova comunicação, com maior liberdade e saindo de lugares traumáticos. Aprendeu a sair de lugares em que precisava fazer tudo sozinha, aprendeu que pode confiar, aprendeu a dividir algumas tarefas que parecem tão básicas mas que sobrecarregam… Nas palavras dela: descobriu que o amor é possível. E, junto da relação, ganhou a nova família - a família da Laura e a família que deseja construir com a Laura, agora que estão com os planos de entrar na fila de adoção em breve. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Roberta
- Vanessa e Kris | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vanessa estava com 35 anos no momento da documentação. É natural de Porto Velho, Rondônia, e é farmacêutica há cerca de dez anos. Desde então, há 6 anos, se mudou para Criciúma, em Santa Catarina, em busca de melhorias no trabalho. Na época, chegou na cidade acompanhada do ex-marido, mas com o passar do tempo a relação acabou e ela entendeu que queria seguir na cidade, construindo sua carreira. Hoje, ela descreve a própria vida como tranquila: gosta de caminhar em parques, sair para um pub, tomar um chopp de vez em quando e reunir a família aos fins de semana. Vanessa possui um filho de 10 anos que mora atualmente em Porto Velho junto da família, embora já tenha vivido um período em Santa Catarina e seja apaixonado por ela e pela Kris - agora, elas organizam a vida para que ele possa voltar a morar perto. Kristiane estava com 33 anos no momento da documentação. Nasceu em Nova Veneza e vive em Criciúma. Trabalha há anos com estética animal, sempre ligada ao universo de banho, tosa e pet shops. Diferente da estabilidade tranquila que vive hoje, ela brinca dizendo que já teve uma fase “meio cigana”, sempre indo de um lugar para outro. Chegou a morar quase um ano em Portugal antes de retornar para Santa Catarina. Hoje, sente que vive um momento muito mais sereno da vida. Gosta de estar com amigos, fazer encontros em casa e aproveitar programas simples. Mesmo vindas de lugares muito diferentes - o norte e o sul - as duas parecem compartilhar uma mesma ideia de felicidade: uma vida mais calma, construída nos pequenos momentos. Vanessa e Kris passaram meses vivendo um relacionamento que existia apenas entre telas, fusos horários e expectativas, até se conhecerem pessoalmente. Foi no Instagram, em 2023, que Vanessa, recém saída de um relacionamento conturbado, encontrou o perfil de Kris no ‘explorar’ e decidiu curtir praticamente todas as fotos dela. Kris estava em Portugal havia alguns meses, trabalhando em pet shop, tentando fazer a vida acontecer ali, já começava a se sentir cansada e deslocada, só continuava lá pelo ganho financeiro, mas sentia muita saudade de casa. No começo a troca de mensagens foi meio estranha, sem dar muita atenção. Mas quando conversaram de fato, tiveram uma conexão imediata. Depois veio o WhatsApp, as chamadas de vídeo e a sensação estranha de intimidade com alguém que nunca se viu pessoalmente. Vanessa lembra que, na época, ela estava extremamente loira nas fotos, e Kris pediu uma videochamada porque queria confirmar que aquela mulher existia mesmo. E existia. A partir dali, passaram a conversar todos os dias. Mas tudo foi interrompido. Vanessa enfrentou um agravamento severo da depressão, foi hospitalizada e desapareceu completamente. Sem ter acesso ao celular, não enviava notícias para a Kris, que ficou sem entender nada - mandava mensagens que ninguém respondia, ligava e ninguém atendia. Quando Vanessa voltou a responder, semanas depois, carregava o medo de ser rejeitada ao revelar o que estava vivendo. Achava que Kris fugiria ao descobrir sua doença, o histórico das internações, a fragilidade que existia por trás da mulher engraçada e expansiva das chamadas de vídeo. Mas a resposta foi o contrário do que ela esperava: Kris acolheu a situação com delicadeza, contou que já tinha convivido com a depressão na família e pediu apenas uma coisa: “Só não some mais.” Depois disso, a relação ficou ainda mais intensa. Mesmo sem nunca terem se encontrado pessoalmente, as duas sentiam que já viviam um relacionamento à distância. Enquanto Kris retornava de Portugal para o Brasil, Vanessa também via a própria vida mudar completamente. Precisou deixar Criciúma, voltar para Porto Velho e recomeçar perto da família, porque precisava de cuidado no momento pós-internação. Elas não se encontraram pessoalmente porque Vanessa viajou para Porto Velho poucas semanas antes da volta de Kris. Entenderam que “precisavam adiar um pouco o primeiro encontro”. Em Porto Velho, Vanessa tentava ocupar a mente trabalhando nas farmácias para não adoecer novamente, até ser contratada para gerenciar uma nova unidade. Entusiasmada, convidou Kris para ir até Rondônia visitá-la. Kris, que tinha acabado de voltar da Europa, comprou a passagem. Como ela iria explicar para a família que estava indo para o outro lado do país visitar uma pessoa que ainda não conhecia pessoalmente? Não importava. Pela primeira vez, parecia que finalmente iriam se encontrar. Só que, menos de um dia depois, Vanessa recebeu uma nova proposta de trabalho: precisaria viajar para gerenciar a montagem de novas lojas. Desesperada, ligou pedindo que Kris cancelasse a passagem antes do prazo do reembolso acabar. Para Kris, aquilo soou como um golpe. Parecia impossível acreditar que alguém pudesse chamar outra pessoa para atravessar o país e, horas depois, desfazer tudo. Elas passaram uma semana sem se falar. Mesmo assim, voltaram. Porque apesar da frustração, da distância e das mudanças constantes, havia alguma coisa ali que insistia em permanecer. A dúvida continuava a mesma: quando finalmente iriam se encontrar? Vanessa não chegou a completar a viagem que o trabalho implicou e, foi demitida, próximo ao natal. Tomou uma decisão impulsiva: mandou mensagem para Kris dizendo que compraria uma passagem para Criciúma. Pediu o cartão dela emprestado para conseguir emitir a viagem e Kris, mesmo depois de tudo que já tinha dado errado entre elas, emprestou. Vanessa passou o natal com a família em Porto Velho e, logo depois, atravessou o país para encontrar pela primeira vez a mulher com quem falava todos os dias há meses. A viagem foi um caos: voo longo, cancelamento entre as conexões, hotel no meio do caminho, carona… As duas tinham combinado de se encontrar no aeroporto, mas até isso saiu diferente do planejado. Vanessa desembarcou em Florianópolis e precisou pegar uma carona até Criciúma. Quando finalmente se encontraram, tudo ficou simples: “A gente se olhou e disse: oi, amor.” Deram um selinho e Vanessa sentiu como se tivesse voltado para casa. Não houve estranhamento, vergonha ou adaptação. Era como se já se conhecessem há muito tempo e o encontro presencial apenas confirmasse algo que já existia antes. Desde aquele dia, nunca mais se separaram. Vanessa chegou ao apartamento de Kris e simplesmente ficou. Brincam que talvez tenham batido algum recorde de rapidez em relacionamento, porque literalmente passaram a morar juntas no mesmo dia em que se encontraram pela primeira vez. Pouco depois, o filho de Vanessa foi para Criciúma conhecer Kris também. A família de Vanessa já desconfiava da relação, embora ainda existisse resistência e dificuldade de aceitar tudo aquilo. Aos poucos, porém, a convivência foi transformando as coisas. Kris conta que hoje existe proximidade, carinho e uma relação muito mais leve entre todos. Enquanto isso, Vanessa conseguiu emprego rapidamente na área farmacêutica, que considera muito forte na região. Trouxe o carro, reorganizou a rotina e começou a reconstruir a vida no sul. Vanessa acredita que a relação delas se sustenta principalmente em diálogo. Depois da forte depressão em 2023, ela passou a fazer acompanhamento intensivo no CAPS até o final de 2024, e entende hoje que a terapia foi fundamental para conseguir atravessar não só a depressão, mas também os medos que carregava dos relacionamentos anteriores. Existiam inseguranças profundas, especialmente o receio de não ser compreendida ou de voltar a adoecer emocionalmente dentro de uma relação. Ao mesmo tempo, ela e Kris sempre tiveram o hábito de conversar sobre tudo. Não no sentido de exigir mudanças uma da outra, mas de aprender a moldar convivências, entender limites. E foi justamente no cotidiano, nos pequenos conflitos e nas conversas difíceis, que aprenderam a lidar uma com a outra. Ainda em 2024, já sentiam que tinham encontrado um encaixe. Para Kris, uma das coisas mais importantes era poder viver uma relação sem precisar esconder quem era. A família dela recebeu Vanessa com naturalidade e carinho desde o começo, então era difícil imaginar permanecer num relacionamento onde precisassem se esconder ou viver pela metade. Ela brinca que sonhava com algo simples: almoçar na casa da sogra aos domingos. Parecia banal, mas carregava um desejo profundo de pertencimento e reconhecimento. Aos poucos, Vanessa também começou a se assumir mais abertamente dentro da própria família. E a convivência foi transformando tudo. Depois de morarem em dois apartamentos diferentes em Criciúma, decidiram recomeçar mais uma vez quando Vanessa recebeu uma proposta de trabalho em Brusque, em 2025. Com cinco mil reais emprestados, colocaram a vida inteira dentro de um caminhão e partiram juntas, praticamente sem planejamento. Kris conseguiu emprego rapidamente em um pet shop e as duas tentaram construir uma nova rotina ali. Mas Brusque não virou lar. A saudade da família, o desgaste emocional e algumas inseguranças dentro da relação fizeram com que começassem a perceber que não estavam felizes. Vanessa conseguiu transferência para voltar a trabalhar em Criciúma, na mesma empresa e, no fim de 2025, retornaram. Foi também nesse período que se casaram oficialmente. A família de Vanessa viajou de Porto Velho para passar as férias em Santa Catarina e, pela primeira vez, todas as partes da vida delas começaram a se misturar de verdade: veio o filho, os sobrinhos, a mãe, a irmã. A rotina mudou completamente. E meses depois elas foram até Porto Velho também, então aquele almoço de domingo na casa da sogra, que Kris sonhava desde o começo, finalmente aconteceu. Hoje, Vanessa diz que enxerga o amor delas principalmente na paciência. Ela se percebe muito diferente da mulher ansiosa e impulsiva que era antes. Entende que amar outra mulher também exigiu reaprender formas de cuidado, delicadeza e comunicação. Kris acredita que também amadureceu muito dentro da relação, especialmente em relação ao ciúme. Conta que sempre foi extremamente ciumenta, mas que aprendeu que a vida não pode existir apenas ao redor do relacionamento. Ainda que tenham uma relação muito próxima, tentam cada vez mais construir individualidade e leveza. E agora vivem um novo momento: a possibilidade de ter filhos juntas. Vanessa voltou a desejar a maternidade e sonha em engravidar novamente, enquanto Kris sempre imaginou a construção da família pela adoção. Ela nunca teve vontade de gestar, embora deseje profundamente ser mãe. Então as duas conversam, negociam possibilidades, imaginam futuros diferentes. Para elas, a relação parece funcionar em fases muito marcadas: 2024 foi o ano da paixão intensa e da descoberta; 2025, o da estabilidade e do casamento. Agora, em 2026, sentem que estão entrando em um novo degrau: o de imaginar, pela primeira vez, uma família juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Vanessa Kris
- livro | Documentadas
Aline e Aya audio
- Cynhia e Leylane | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Cynthia estava com 33 anos no momento da documentação, é natural de Recife, nascida e criada no bairro que fizemos as fotos: em Santo Amaro, na Universidade de Pernambuco. Formou-se em Educação Física, mas hoje em dia trabalha na área de finanças individuais e comportamentais, junto da sua companheira Leylane, que no momento da documentação estava com 38 anos, também formada em Educação Física e que além de atuar na questão financeira sendo consultora e ensinando organização e planejamento financeiro pessoal, também faz parte da saúde pública integrada ao SUS num serviço chamado Academia da Cidade. Leylane entrou na faculdade de Educação Física em 2005, fazendo o curso de licenciatura, depois especialização, bacharelado e mestrado. Como a universidade faz parte da sua vida há tantos anos e gosta muito desse espaço, passava muito tempo por lá. Cynthia, por sua vez, fazia parte de um projeto social da universidade que trabalhava com crianças e adolescentes da comunidade - ela, no caso, uma moradora da comunidade, frequentava a universidade antes mesmo de ser uma aluna. Ou seja, ambas viviam na universidade tanto tempo que nem sabem dizer quando de fato se conheceram, é como se sempre estivessem ali. Por mais que exista 6 anos de diferença na idade entre elas, ainda eram muito jovens e Cynthia, alguns anos depois (em 2011) passou para o vestibular. Nesse momento, todos já se conheciam - ela era amiga tanto dos professores, quanto dos amigos em comum da Leylane - e torciam para ela entrar no curso de educação física. Nessa época, Leylane já havia se formado em licenciatura e cursava bacharelado, foi quando se encontraram enquanto colegas. Leylane conta que se reencontraram num dia que ela foi jogar handebol e Cynthia fazer uma aula de dança, soube que ela estudaria na Universidade e parabenizou, disse que seria muito legal estudarem juntas… Quando as aulas começaram, ficaram na mesma turma e começaram a passar mais tempo do que imaginavam conversando. Leylane chegava do trabalho e Cynthia separava uma cadeira ‘de pessoa canhota’ para ela sentar, sempre faziam os trabalhos de aula juntas, passaram o semestre todo muito próximas, conversavam muito por SMS e, na época, “Oi Torpedo”… Até então se viam apenas como amigas, até que um dia conversaram sobre essa amizade estar “muito colorida” e sobre o medo do que poderia acontecer. Pensaram: “É muito bom, mas se melhorar estraga, então acho melhor ser só isso mesmo.” Porém, ao mesmo tempo, não queriam ficar longe uma da outra. Cederam à vontade e ficaram juntas. Mesmo com medo e pensando que não daria certo, dez dias se passaram e ficaram novamente. Desde então, continuaram. No início não nomearam aquela relação - ou o que sentiam. Aos poucos, como se entendiam enquanto mulheres heterossexuais, chegou num momento que conversaram sobre e decidiram não manter relações com os homens que mantinham antes, até porque iriam se machucar se continuassem. Eram muito mais felizes juntas, não precisavam de nenhum tipo de heterossexualidade compulsória. Todo o relacionamento de Cynthia e Leylane, no começo, era em segredo. Havia muito medo sobre o que as pessoas iriam dizer - elas mesmo estavam descobrindo aquele sentimento, tudo era novidade, e lidar com julgamentos não seria algo fácil. Só dois amigos sabiam (os mais antigos) e desde antes mesmo delas se relacionarem eles sentiam que existia algum sentimento ali e já “avisaram” sobre, então de alguma forma demonstraram apoio (e até hoje são amigos). Como outros amigos e, principalmente familiares, não imaginavam, o refúgio e local seguro delas era o campus da Universidade. A faculdade de educação física se tornou o lugar onde poderiam estar juntas sendo quem elas são, num cantinho - e, durante a documentação, lembram saudosamente os lugares que sentavam e ficavam juntas passando o tempo - só para poderem viver sem esse julgamento. Cerca de 6 meses depois, a mãe da Cynthia acabou descobrindo o namoro e, por mais que no momento ela tenha negado, no dia seguinte resolveu contar a verdade. Na hora, a relação dela foi bem ruim, disse coisas difíceis de ouvir, e mesmo gostando da Leylane (porque a conhecia enquanto amiga da Cynthia) verbalizou que preferiria ver sua filha se relacionando com uma pessoa que não tivesse uma boa vida (se envolvesse com drogas, por exemplo). Na hora, Cynthia defendeu a relação que elas possuem e a realidade da comunidade onde viviam, então saiu e buscou ajuda na casa de uma amiga. Um dia depois, a mãe da Cynthia contou para a mãe da Leylane e, por mais injusto que fosse elas não terem tido o momento e o processo do seu próprio tempo para conversarem com suas famílias sobre seus relacionamentos, foram proibidas de se encontrar. Novamente, a faculdade seguia sendo o refúgio dos encontros. Depois de cerca de quatro anos e diversas formas de lidar, Cynthia e Leylane foram seguindo o relacionamento e enfrentando o preconceito familiar, até que a mãe de Cynthia cedeu e resolveu voltar a aceitar Leylane em sua casa. Foram anos se encontrando na faculdade, na casa de amigos - que sempre foram grandes parceiros e colaboraram para que elas tivessem locais seguros onde ficar - ou em pousadas por Olinda e Recife. Aos seis anos de relação, Leylane passou em um concurso na cidade de Moreno. Financiaram um apartamento numa cidade próxima, Jaboatão, região metropolitana de Recife, e se mudaram. Brincam que queriam tanto morar juntas que já tinham um móvel em casa (guarda-roupa) que guardava só coisas de cozinha (panela, colher, vasilhas…) esperando o momento chegar - e entendendo que não teriam ajuda para a mobília. Então de tempos em tempos compravam coisas e guardavam. Conseguiram, no fim, alguns presentes da família - como eletrodomésticos - e ficaram bem felizes por isso. Em 2018, alguns anos depois, oficializaram o casamento com os documentos e direitos civis respeitados, pensando na importância que isso representa por serem respeitadas enquanto uma unidade familiar. Não iriam fazer festa, mas a mãe da Leylane deu a ideia de comemorarem com um bolo de noivas, chamou alguns familiares; O primo cozinhou, a prima ajudou, alugaram um salão de festas, compraram bebidas e comemoraram como mereciam. No momento da documentação, Cynthia e Leylane já estavam morando em Recife novamente. Desejavam trabalhar com algo que fosse delas, mesmo na área de educação física, e quando Cynthia conheceu o marketing digital e a educação financeira entendeu que gostava de trabalhar nessa área. Leylane havia feito alguns cursos de finanças para uso pessoal, administrando as próprias contas e sempre soube ensinar por conta de ser professora, então resolveu começar a compartilhar os estudos… foi assim que acabaram entrando de vez na área. Admiram o quanto dão certo trabalhando juntas e acreditam que isso é reflexo de tanto tempo de relação e de tudo o que já enfrentaram nesses anos. Ficam muito felizes quando veem os amigos e os familiares admirando o amor que possuem, quando voltam na universidade e os professores ficam felizes em revê-las depois de tanto tempo, sabendo que esse amor começou ali. Hoje em dia adoram andar de bicicleta, ler, sair para beber, dançar pagode, reunir os amigos, conversar (problematizar as coisas… inventar conversas complexas) ou compartilhar os assuntos que estão lendo. Confessam, também, que adoram passar o tempo trabalhando juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Cynthia Leylane
- Paola e Taiane | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Paola estava com 37 anos no momento da documentação. Trabalha enquanto assistente social, sendo funcionária pública há mais de uma década, com trajetória marcada pelo compromisso com o cuidado e a proteção social. É natural de Porto Alegre, adora morar na cidade e foi criada na zona sul, morando agora na zona norte com a Tai. Jogou futebol por muitos anos e é apaixonada - um tanto quanto fanática - pelo Internacional. Além de dividir o lar com a Tai, também mora com seus pets: dois cachorros e um gato e nos momentos livres adora tocar violão. Brinca que é uma sapatona tradicional. Taiane estava com 30 anos no momento da documentação. Também é natural de Porto Alegre, da zona norte. Se formou em relações internacionais e trabalha com comércio, mas é marcada pelas suas grandes paixões: os idiomas, os livros e os estudos. Assim como a Paola, já passou pelo mundo dos esportes: desde criança praticou patinação artística, mas parou por questões de saúde (ainda que continue amando dançar). De forma tardia, Tai descobriu o diagnóstico de TDAH e autismo, o que fez reorganizar sua vida, ampliar compreensões e redesenhar a maneira que lê a si mesma e suas relações sociais. Hoje diz o quanto foi bom ter esse diagnóstico para entender melhor como a vida acontece ao seu redor, descobrindo novas formas de existir. Quando pergunto sobre a história da Tai e da Paola, elas explicam que tudo começou num aplicativo de relacionamentos, em janeiro de 2022, que funcionava por geolocalizações. Até hoje não entendem como foi possível, porque era bastante improvável elas se cruzarem via app porque estavam um pouco longe uma da outra, mas em algum momento o gps se esbarrou. Foi assim que conversaram e marcaram um encontro no local em que fizemos as fotos, o Parque da Redenção, no centro da cidade. Até hoje, quando voltam ao local, fazem um ritual que é reviver o momento que se viram pela primeira vez, lá no mesmo lugar, na entrada do parque. O primeiro encontro foi como deveria ser… superou as expectativas e a história começou a nascer de “nãos” que viraram “sims”: não queriam casar, não queriam morar com ninguém, não imaginavam dividir uma vida. Mas tudo começou a mudar. Ao decorrer desses anos juntas compraram um carro, formalizaram a união estável, dividiram o lar, assinaram o casamento. Misturaram universos. Cachorro, gato, outro cachorro. Muitos desafios novos. Tai conta que no dia seguinte do primeiro encontro, o afilhado da Paola nasceu. E o crescimento dele passou a caminhar lado a lado com o crescimento do relacionamento delas. Com um mês de vida dele, elas estavam se pedindo em namoro… Hoje em dia, com ele já sendo uma criança que corre, fala, entende quem elas são, elas pensam: “Caramba, como crescemos também!”. Logo no início do relacionamento entre Paola e Tai, chegaram diversos desafios. Desde os mais leves e até mesmo divertidos, como apresentar os bichos uns aos outros - e adotar um novo cachorrinho - aos mais intensos, como o diagnóstico do autismo da Tai e o preconceito vindo de familiares e amigos perante o diagnóstico. Começando com a vida compartilhada com os animais, o Max, pinscher da Paola, adotou Taiane imediatamente. Já a gata que era da Thai, virou amiga fiel da Paola. A questão maior foi o terceiro integrante, o Sirius, que chegou com muita energia criando uma nova dinâmica para todos dentro de casa. Elas confessam que às vezes rola uma confusão, porque ele ainda é muito jovem, mas deixa a casa muito mais animada. Sobre o diagnóstico tardio, a Tai já sabia o de TDAH desde os 17 anos, mas as particularidades da rotina, da rigidez com mudanças e da seletividade alimentar começaram a ser percebidas no início do relacionamento, levando elas a conversarem entre si, pesquisar e conversar mais com a terapeuta sobre. Elas lidaram bem com o diagnóstico, Tai sempre reforça como foi bom entender melhor o que vivia, redescobrir como lidar cada vez mais com os seus limites e respeitá-los. O problema foi descobrir como as pessoas podem ser tão preconceituosas com algo que não deveria existir preconceito. Pessoas que eram amigas da Paola reagiram de forma capacitista e cruel, como se ela tivesse assumindo o namoro com alguém que fosse eternamente dependente, como se virasse uma cuidadora. E pior: como se o diagnóstico fosse uma mentira. “Como a Tai tem autismo se ela consegue falar?” questionaram. A falta de informação era muito grande. E ainda que conversassem sobre, o preconceito firmava presença. A postura deles gerou afastamentos dolorosos, mesmo que necessários, fazendo com que elas se unissem cada vez mais no enfrentamento desses estigmas. Dentro das unidades familiares o processo foi doloroso também, mas mais tranquilo pelo fato de entenderem os comportamentos que existiam antes do diagnóstico. Tai conta sobre uma situação que viveram na praia, um tempo depois, quando chegaram e haviam comprado uma cama de casal para que elas pudessem ficar mais confortáveis num quarto que antes era formado por camas de solteiro. Foi como um conforto, um acolhimento e uma aceitação. Toda a relação foi se transformando, principalmente considerando os limites e não tratando com capacitismo: a Tai ajuda muito a Paola, e a Paola ajuda muito a Tai. É uma relação de troca. Uma relação que se transforma. O diagnóstico da Tai também transformou a vida cotidiana, trazendo novas compreensões sobre limites, questões sensoriais, rotinas e sobrecargas. Antes, situações simples como mudança de planos, uma festa ou um shopping cheio geravam desconfortos que ninguém entendia. Hoje, elas reconhecem gatilhos: exaustão, mudanças no humor. Paola muitas vezes percebe antes da própria Tai e “muda a rota” ou cria uma saída, acolhendo e garantindo segurança. A consciência sobre o autismo também trouxe novos gestos simbólicos, como a tatuagem que Paola fez entrelaçando, que tem o símbolo do espectro e duas mãos entrelaçadas. É sobre serem um casal, se amarem, se apoiarem, crescerem juntas em uma sociedade que insiste em questionar essa legitimidade. Elas contam também como o preconceito existe em momentos que as pessoas tentam infantilizar Tai e colocar a Paola nesse lugar de eterno cuidado, como se a relação sempre fosse se resumir à isso: não como esposa, mas num capacitismo que atravessa a leitura social sobre mulheres autistas independentes. A luta diária que elas travam envolve reafirmar a autonomia, identidade e o vínculo que construíram, sem precisar provar a existência de cuidado, suporte ou reciprocidade. Ainda assim, é nítido o quanto se amam. Independente das críticas. E sobretudo, o quanto crescem: as transformações são profundas - como quando Paola parou de fumar um dia antes de pedir a Tai em namoro, como quando ela redesenhou sua vida financeira com a ajuda da Tai ou como quando elas conversaram, melhorando cada vez mais a comunicação, sobre os lugares que a Tai se sentia bem ou não frequentando e entenderam os limites não “forçando a barra”. Foi em 2024 que Tai e Paola oficializaram a união com um casamento. A data foi cheia de significados: dia 26 porque ambas nasceram em um dia 26, começaram a namorar em um dia 26 e gostam da harmonia numérica. O pedido de casamento havia acontecido meses antes, em 2023, durante um período especial. A festa foi para as pessoas que realmente torciam por elas e acompanharam a relação - um dia para comemorar, genuinamente. Quando conversamos sobre o dia a dia e o amor nele presente, para além de todos os desafios que marcaram muito nossa conversa, elas contam sobre o quanto aprendem uma com a outra de forma leve. Riem muito juntas, brincam, se jogam água em dias quentes, implicam uma com a outra, mas também gostam de se mimar, de apoiar, tomar um café, deixar um bilhete. São apaixonadas por Harry Potter e tudo o que envolve o mundo da saga. Acreditam que nesses afetos de detalhes cotidianos está muito da essência da relação, porque é onde se apoiam quando acontece algo difícil. Geralmente a relação é composta por todas as “coisas pequenas” e não por coisas grandiosas. Cultivam essa manutenção delicada do amor, que impede que se tornem apenas colegas de apartamento e garante que a parceria siga viva, alegre e presente. Também aprenderam a respeitar e acolher as particularidades uma da outra, especialmente as rotinas e rituais estruturais. Depois de quatro anos juntas, projetam um futuro mútuo, consciente e responsável. ↓ rolar para baixo ↓ Paola Taiane
- Vanessa e Suelen | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Suélen estava com 27 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e cursa pedagogia, trabalhando enquanto monitora de inclusão. Mora com os pais e com duas gatas e uma cachorrinha, o que a faz ser apaixonada por animais (além de gateira de carteirinha). Também gosta muito de assistir séries no tempo livre - principalmente quando assiste em conjunto com a Vanessa. Vanessa estava com 24 anos no momento da documentação, também é natural de Porto Alegre e estuda psicologia, já prestes a completar a graduação. Adora falar sobre signos, sobre séries, filmes… e sobre seus dois animais, os cachorros Jake e a Malu. Além disso, seu hobby principal é o que envolve cozinha - não só cozinhar, mas assistir vídeos de pessoas cozinhando, realities etc. Os pais de Suélen se divertem vendo as tentativas de cozinhar, são sempre experiências. Vanessa e Suélen se encontraram em um aplicativo de relacionamentos, mas já se conheciam por conta de uma amiga em comum e se tinham nas redes sociais desde o Facebook, mas nunca haviam conversado. Durante a pandemia, participaram de um grupo e essa foi a primeira interação de fato, mas era algo muito superficial. Foi o aplicativo que fez elas entenderem o interesse para além da amizade. Desde a primeira conversa já se divertiram trocando figurinhas e contam que a paixão chegou bem rápido. Os assuntos foram fluindo entre signos, sobre a vida naquele período pandêmico… Por mais que demorassem um pouco para responder, gostavam de conversar com calma, atenção, e isso era algo que chamava atenção positivamente. Suélen conta que num dos dias durante as conversas, faltou luz na casa da Vanessa e ela mandou um SMS dizendo que não sumiu do nada, só estava meio incomunicável sem internet… e Suélen achou muito legal da parte dela, entendeu que ela estava se importando. A partir desse dia as conversas seguiram cada vez mais longas, até o momento que decidiram se encontrar pessoalmente - com cuidado e calma, por conta de ainda ser um momento de pandemia. O lugar escolhido para o encontro foi onde, anos depois, fizemos as fotos da documentação - mas ele era completamente diferente. Hoje em dia existe um shopping, na época era literalmente mato e a beira do rio, um lugar aberto, com árvores, gramado e a vista. Foi escolhido porque era perfeito para assistir ao pôr do sol. O dia do primeiro encontro foi o dia das namoradas, tomaram um café juntas e Suélen levou uma cartinha para Vanessa. Ela conta que, de alguma forma, sabia que iriam namorar. Antes de completar um mês do dia que tiveram o primeiro encontro, já assumiram o namoro. Estavam num shopping e entraram numa loja para olhar algumas alianças, quando comentaram com a atendente que nem estavam namorando ainda, só estavam de olho nos modelos e valores… Segundos depois, Suélen resolveu o problema: “Quer namorar comigo?” “Quero!”. Então pronto, agora podem ver os modelos já estando namorando. Para a família, Suélen já havia contado para a mãe e para as irmãs, que já estavam empolgadas para conhecer. O pai ainda estava na dele, ele via ela se arrumando para sair e comentava que ela iria encontrar um namorado, e ela afirmava que não era namorado, mas sabia que era um processo para ele entender e aceitar. Um tempo depois, Vanessa e a mãe de Suélen se conheceram numa ida ao shopping, tomando um café juntas, e a mãe deu a ideia de Vanessa ir à casa delas primeiro enquanto amiga, para o pai conhecer quem ela era primeiro, gostar dela, e depois processar que estavam juntas. Naquele dia, elas iriam dormir na casa da irmã da Suélen, até que quando saíram, o pai perguntou à mãe “ah, mas por quê elas vão dormir lá?” e a mãe respondeu “bom… tu sabes porquê”. Foi quando ele entendeu quem era a Vanessa. Como ele gostou dela logo de cara, mudou a postura e disse que não precisava dormir na casa da irmã, poderiam voltar e dormir ali, na casa deles. Foi um dia em que todos eles estavam aprendendo a se dar bem, medindo cada reação para tudo dar certo, todos meio sem jeito, mas entendem que foi legal da parte dele ter enfrentado o preconceito vendo como a filha estava feliz namorando alguém legal. E hoje em dia tudo já é muito mais tranquilo, tanto que eles se divertem e adoram a presença da Vanessa em casa. Para Vanessa, a aceitação em casa é mais difícil e caminha em passos diferentes. Sua família é bastante cristã, seu pai não sabe e sua mãe sabe, mas não acolhe. Passou muitos anos tentando tirar esse “demônio” que acredita existir na pessoa homossexual - e até Vanessa passou muito tempo não aceitando quem era. Hoje em dia, ela conhece Suélen, sabe que elas namoram e trata Suélen bem, inclusive é nítido que gosta de Suélen, o que ela não gosta é do fato delas namorarem. Mas entendem que isso também faz parte do processo de aceitação. Elas sabem que ela enxerga o quanto Vanessa é feliz no relacionamento. Tanto para Vanessa, quanto para Suélen, o que elas podem fazer é continuar mantendo esse amor existindo. O problema do preconceito é de quem tem o preconceito, elas sabem que isso vai amenizar com o tempo e com o afeto delas sendo demonstrado gerando coisas boas. Ainda que seja um processo difícil. Como tanto Vanessa, quanto Suélen ainda moram com os pais, ficam muito emocionadas quando percebem a família juntando algumas coisas e tratando elas enquanto um casal, pensando no momento de montarem o próprio lar. São duas mulheres que performam feminilidade então o tempo todo são tratadas como amigas. Os momentos que as pessoas e, principalmente, seus familiares, as entendem enquanto uma unidade familiar, significa muito. Contam que o pai de Suélen chama Vanessa de nora e já separou alguns kits de cozinha e decoração que ganha em promoções ou assinaturas de jornal e as presenteou dizendo ser para o lar quando morarem juntas. E, por mais que elas saibam que isso pode demorar um pouco porque querem estar formadas e com uma certa estabilidade, ficam muito felizes pela consideração e pelo apoio. Sentem que a relação dá certo pelo tanto que conversam. Quando não estão se encaixando, conversam com calma e decidem o que vão fazer sobre o problema em questão. No começo tinham muito receio das discussões, mas hoje entendem o fortalecimento disso. É como se uma “discussão”, ou melhor, uma “conversa séria” se torna um degrau a mais no relacionamento. Além disso, sempre buscam formas de manter a conexão, seja mantendo “dates” diferentes, presentes, palavras de afirmação… entendem suas linguagens de amor e querem que a relação seja leve com coisas boas, brincadeiras diárias, momentos felizes… mas principalmente com a segurança: não ter medo de que vá acabar o tempo todo, de poder confiar e poder contar uma com a outra para as coisas difíceis. Suélen explica que no começo, elas não sabiam viver uma relação que não fosse pisando em ovos, com medo da pessoa largar no primeiro deslize. Aprenderam juntas a ter uma relação realmente segura. E, para ela, um exemplo de amor seguro é o amor que sente pela família, que tá contigo independente das suas escolhas, porque te ama. Hoje em dia, enxerga Vanessa como sua família, um amor que se constroi ao longo do tempo e se projeta pra vida, sem medo de julgamento. ↓ rolar para baixo ↓ Vanessa Suélen
- Vivian e Danielle | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Vivian é natural de Araranguá, cidade interiorana de Santa Catarina. Estava com 25 anos no momento da documentação e trabalha com marketing, sendo social media. Cursa faculdade de letras, adora cinema, música, literatura e tudo o que é relacionado à arte. Danielle estava com 20 anos no momento da documentação, é natural de Jacinto Machado, cidade interiorana catarinense, mas mora em Araranguá. Estuda educação física e deseja ser professora. No momento trabalha enquanto auxiliar de faturamento e no tempo livre adora praticar esportes, jogar videogame e desenhar. Por mais que agora tenham trabalhos distintos, Vivi e Dani se conheceram trabalhando no mesmo lugar sendo estagiárias de educação infantil, em 2022. Vivi conta que não gostava muito da Dani, achava ela chata, porque ela era estagiária de uma coisa só, enquanto Vivi precisava dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo. Foi por causa das eleições presidenciais que começaram a conversar, sabendo dos seus posicionamentos políticos semelhantes. Dentro da escola, eram as únicas que possuíam um pensamento que não era conservador perante às eleições que se aproximavam. Conversavam sobre e se aproximavam através das ideologias em comum. Vivi ainda não sabia se realmente cedia para começar a gostar da Dani, primeiro como amiga, depois sentindo algo a mais… havia saído de um relacionamento héterossexual e passou por um processo para se ver sozinha e, depois, entender que estava gostando da Dani. Foi num passeio com os alunos da escola, quando Dani estava jogando bola com as crianças, caiu, e Vivi ficou muito preocupada… percebeu que sentia algo a mais. Na época a proximidade delas já era grande, Vivi ficava nas aulas de Educação Física auxiliando para estar mais próxima da Dani, brincavam com os alunos (e jogavam entre si)… Sentiam a relação crescendo naturalmente. Todos ao redor de Vivi tentavam dizer que ela não era uma mulher heterossexual, mas ela afirmava que era impossível. Hoje, percebe que só ela não havia percebido ainda - e que tudo bem, era o seu processo. Num dia, falou sobre isso numa rede social e Dani respondeu. Desde então, foram se permitindo acontecer enquanto um casal. Mas tudo levou o tempo que precisava levar, foi só em 2024 que ela se entendeu e assumiu de fato enquanto uma mulher que ama outra mulher. Na versão de Dani, o dia em que ela caiu brincando com as crianças sendo estagiária na escola também foi definitivo para entender que gostava da Vivi. Se sentiu meio solitária depois da queda, como se não tivessem dado muita bola, sendo que ela se machucou de verdade. E foi significativo Vivi ter se importado e realmente cuidado dela. Sente, também, que as crianças sempre souberam que as duas se gostavam - e sempre aceitaram. Não precisavam falar, não precisavam se justificar, era algo muito natural. Diferente das outras professoras e colegas, que eram preconceituosas, então precisavam esconder o máximo possível. Até quando assumiram o namoro, passaram a usar alianças e na escola não usavam ou disfarçavam. Tiveram algumas professoras com quem puderam contar - e alunos também, que sempre apoiavam, o que foi a salvação na maioria desse tempo. Como são pessoas jovens, sempre eram questionadas pelas outras professoras na escola, principalmente por uma delas estar com a aliança. Queriam ver fotos e saber “do namorado”. Foi mais de um ano de relacionamento vivendo uma realidade assim no trabalho, chegaram a morar juntas para facilitar a rotina por conta da casa da família da Vivi ser numa região mais central e Dani não precisar vir de tão longe para trabalhar e estudar, o que era melhor em alguns pontos, mas mais difícil para esconder o quão próximas estavam… até que saíram do estágio (em momentos diferentes) e puderam assumir o relacionamento de outra forma. Depois da escola, Vivi foi trabalhar em uma agência de marketing, ambiente totalmente diferente. Sente que não precisava se esconder, foi a primeira vez que chegou contando quem era e o relacionamento que tinha, sem restrição. E Dani voltou a morar com a família dela, comprou um carro, a qualidade de vida melhorou consideravelmente. Vivi conta sobre o quanto a relação com a Dani fez ela se enxergar de forma diferente. A autoestima dela não existia antes. Agora, conforme ela foi se conhecendo, conhecendo a Dani, permitindo que a Dani a conhecesse, foram evoluindo no amor de uma forma que ela nem sabia que poderia existir. Pôde se descobrir, ver quem era de verdade e encontrar um valor nessa existência. Antes não sentia que existia, agora sente que as pessoas vão gostar dela exatamente como ela é. Nas palavras de Vivi: “Tá tudo bem eu ser desse jeito. Inclusive pra ir comprar roupa, uma coisa básica, eu não conseguia escolher roupa. Eu não conseguia me olhar no espelho. E aí depois que ela apareceu, ela foi falando... Ai Vivian, tu é assim. Ai Vivian, te amo por causa disso. Eu gosto de ti por causa disso. Aí eu fui descobrindo que... Tudo bem, sabe? Agora eu consigo comprar roupa. Foi um processo que ela me ajudou muito. Com meu corpo, com as minhas inseguranças.” Para elas, o amor está no sentido mais completo, que abraça a família que possuem, os animais - a gata, o cachorro, o peixe, todos eles sendo da família - a forma que tratam e que são tratadas, como se incluem nos planos, em como tornam as pequenas coisas algo grande… Sempre foram mais fechadas, pessoas que não aceitam ajuda, não deixavam alguém fazer algo por elas porque davam conta sozinhas. Agora aprendem a compartilhar, entendem que não precisam ficar com todo o peso, soltam um alerta na comunicação quando está demais. E acreditam que nesses momentos o amor está presente também. No dia das fotos, Dani pediu Vivi em casamento, e foi uma honra para o doc ter participado desse momento. ♥ desejamos que esse amor siga feliz! ↓ rolar para baixo ↓ Vivian Danielle
- Carol e Andressa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Carol estava com 26 anos no momento da documentação. É natural de Campo Mourão, no interior do Paraná. Já passou pelos estudos enquanto gastronomia e psicologia, mas se encontrou mesmo na perfuração corporal, antes da pandemia de Covid-19 começar. Faz cerca de 5 anos que está morando em Maceió. Ama cozinhar, passar o tempo com o Treva, gatinho que trouxeram do Paraná (e que é mascote do estúdio) e a Mel, que adotaram já morando no nordeste. Adora ir à praia e conhecer lugares novos. Andressa estava com 33 anos no momento da documentação. Também é natural de Campo Mourão. Formada em publicidade e propaganda, trabalhou oito anos na área, mas sentia que sua vida era só ficar no computador, foi quando decidiu ir para Maringá, cidade próxima de onde nasceu, e começou a trabalhar com tatuagens, junto com um amigo que trabalhava como tatuador. Juntos, abriram um estúdio na sua cidade natal, em 2017. Nessa época, Carol e Andressa se conheceram através dele, o famoso - e temido por muitas - rebuceteio: se conheciam por conta das suas ex. Andressa soube que a Carol estava solteira porque falavam que ela era muito legal e muito bonita. Elas se conheceram, se deram bem, começaram a se envolver e nem perceberam de fato quando já estavam namorando. Tudo aconteceu. Pouco antes da pandemia de Covid-19, Carol e Andressa já dividiam a vida e os negócios. Andressa tocava o estúdio de tatuagem durante o dia, enquanto Carol botava a gastronomia em prática à noite, servindo pizzas em pedaços no bar. A rotina era intensa, mas funcionava. Maceió sempre esteve no radar da família de Carol, especialmente do pai, que sonhava em se aposentar e se mudar para lá. Quando visitaram a cidade juntas, começaram a pesquisar mais a fundo: o turismo, custo de vida, oportunidades. Até que decidiram mergulhar nesse sonho antes mesmo dos pais dela. Venderam tudo e partiram para Alagoas, no meio da pandemia. Chegar em uma cidade nova como tatuadora foi desafiador, mas a determinação era maior. Foram conquistando clientes aos poucos, mas o maior choque foi cultural. Mesmo dentro do Brasil, perceberam o quanto cada região tem suas particularidades. No fim, a mudança foi também um processo de renovação - queriam se descobrir em um novo ambiente, explorar novas versões de si mesmas, sobretudo descobrir sua melhor versão. O sucesso do estúdio em Maceió não foi “do nada”, bem pelo contrário: meses de muito trabalho e, nas palavras delas “veio da vontade de evoluir como pessoas”. Não começaram com tudo pronto, foram construindo aos poucos. Chegaram na cidade dispostas a qualquer ‘freela’, depois buscaram estúdios para trabalhar - Andressa tatuando, Carol com as perfurações. Guardaram dinheiro para investir no antigo estúdio no Paraná, mas acabaram apostando tudo em um novo começo no Nordeste. Pensaram em desistir várias vezes. Mas sempre que uma ficava triste, a outra lembrava: “Já viemos até aqui, já vendemos tudo. Vamos continuar.” Quando as coisas começaram a reabrir no pós-pandemia, entenderam que era o momento certo para abrir o próprio espaço. Alugaram um local pequeno perto da praia, com uma maca, um autoclave e poucas ferramentas. No começo, atendiam muitos turistas que passavam e faziam tatuagens por impulso ou porque queriam uma lembrança de Alagoas. Com o tempo, foram se conectando com a cultura local e decidiram criar um estúdio feminino. Muita gente duvidou, dizia que não durariam nem dois meses, até porque o mercado da tatuagem é cheio de machismo. Mas no momento da documentação, o estúdio já completava três anos, agora em um espaço maior, mais estruturado. E mais importante é que vai além da tatuagem e perfuração: oferece cursos, eventos, troca de experiências e, acima de tudo, acolhimento. O começo foi difícil. O primeiro estúdio, perto da praia, trouxe desafios pesados: alagamentos com as chuvas, roubos na vizinhança, insegurança constante. Choraram, duvidaram se conseguiriam sustentar o espaço. Até que decidiram que não podiam mais conviver com o medo. Foi quando encontraram o novo local, onde trabalham e moram. E quando querem um respiro, alugam um cantinho em praias mais afastadas ou vão para o terreno do pai da Carol (o mesmo onde ele sonha morar quando se aposentar). O estúdio não cresceu só pelo esforço delas, mas porque outras pessoas apostaram nesse espaço. Formaram uma rede de apoio: tatuadoras, cervejarias, clientes que acreditaram no propósito de um estúdio feito para mulheres, fazem muita questão de agradecer. E é bonito como o amor delas transborda no que construíram. Quem chega já chama de “O estúdio das meninas” - e quando são chamadas assim, se sentem representadas. Foi um amor erguido com maturidade, conversas, carinhos, em agradecimento quando fazem refeições juntas... A vida é absurdamente corrida e demanda muito diariamente, mas reconhecem que nas pausas diárias, compartilhadas com os bichinhos também, existe essa dose de amor. ↓ rolar para baixo ↓ Andressa Carol
- Carol e Gabi
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. A conexão entre Carol e Gabi foi acontecendo aos poucos, quase por acaso. Frequentavam os mesmos espaços, Carol era amiga da irmã da Gabi e isso fez com que Gabi até fotografasse a Carol em um evento, mas nunca prestaram real atenção uma na outra. O primeiro contato mais direto aconteceu em um evento de fotografia, em 2017. Quando Gabi chegou e reconheceu Carol pela voz, se apresentou de forma animada dizendo que ela era a Gabi, que tinham amigas em comum. Ao contrário do que Gabi na hora esperou, Carol não demonstrou o menor interesse na informação. Ela ficou até um pouco sem jeito, desconcertada, pensou ter sido expansiva demais. Depois do evento e da situação, Carol decidiu seguir Gabi nas redes sociais. No evento em si, não trocaram mais nenhuma palavra. Mas, aos poucos, começaram a interagir online. Em 2018, sem ainda serem exatamente amigas, viajaram juntas para um congresso de fotografia. O motivo foi objetivo: dividir os custos (arrumar um hotel ou apartamento para ficar, dividir os transportes…). Mas essa convivência inesperada mudou a dinâmica entre elas. Gabi, que até então era casada, viveu seu relacionamento até 2019. Conversava muito com seu ex-marido e parceiro de tantos anos, até o momento que entendeu que não cabia mais estar em um relacionamento com um homem. Depois que se separou, viveu um ano de mudanças muito intensas em si. Em 2020, ela e Carol começaram a se relacionar. Aos poucos, foram compartilhando a novidade com os familiares - o maior medo de Gabi sempre foi a reação do filho - e, no dia da conversa, tomada pela emoção, chorava muito enquanto contava… mas ele agiu da melhor forma possível, dizendo: “Você tá chorando por quê, menina? Ah, deita aqui. Que besteira. É importante você ser feliz”. E descreve a sensação de alívio e de acolhimento. Desde então, ela e Carol seguem juntas, mas só em 2021 que de fato Carol começou a frequentar mais a casa de sua família e, em 2022, decidiram morar juntas. Gabi já vivia uma série de mudanças desde 2019, que foi um ano de transformação. Porém, em 2020 com a pandemia de Covid-19 sente que as mudanças deixaram de ser internas para serem externas, todos estavam em mudança (e ainda mais drásticas). Nos primeiros meses da quarentena, ficaram sem se encontrar. Em 2021, Gabi pegou Covid e sentiu muito medo. Ao mesmo tempo, havia os receios do relacionamento: como contar para a mãe, para a irmã? Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo e foi necessário se reorganizar em meio às inseguranças. A relação de Carol e Gabi trouxe transformações profundas para ambas. Gabi observa o quanto Carol mudou - antes, ela jamais aceitaria aparecer em frente a uma câmera, e agora, não só topou a documentação da história delas, como se empolgou com a ideia. Isso as fez refletir sobre como, apesar de fotografarem tantas famílias diariamente, pouco documentavam suas próprias vidas assim, contando a história. Dessa vez, entenderam a importância de registrar essa trajetória. O início não foi fácil. A mãe de Gabi se opôs à relação, mas, em 2020, tudo mudou. Com o diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica do pai, Gabi já havia vendido o carro após a separação, e Carol esteve presente em todos os momentos, ajudando Gabi e a mãe a levá-lo onde fosse necessário. Esse cuidado foi essencial para transformar a relação entre elas, e hoje, são muito próximas. Para Gabi, isso reflete a essência de Carol: alguém que se doa, cativa e constroi laços verdadeiros. Essas vivências só reforçaram que o amor entre elas é uma escolha diária. A maturidade trouxe essa certeza. Não é apenas o desejo de estar juntas, mas a decisão de construir algo sólido. Gabi sempre foi vista como uma pessoa alegre, mas, por muito tempo, sentia que não tinha sonhos, que não se via no futuro. Até perceber que essa falta de perspectiva vinha de sua própria história e que era possível mudar isso. Hoje, ao lado de Carol, ela se permite sonhar. Planeja. Visualiza o futuro. E percebe o impacto disso em todas as áreas das suas vidas (pessoal e profissional): uma impulsiona a outra a enxergar mais longe. Gabrielle estava com 37 anos no momento da documentação. É natural de Maceió, mãe de um adolescente de 15 anos. Sempre se reconheceu como bissexual, mas entende que parte dessa vivência foi moldada pela heterossexualidade compulsória e pelas expectativas da família tradicional brasileira. Quando seu filho completou 10 anos, tomou a decisão de se assumir e iniciar um novo capítulo ao lado de Carol. Atualmente, trabalha enquanto fotógrafa e artista visual, se destacando por seus trabalhos com retratos; Além disso, é funcionária pública há 17 anos, trabalhando como secretária em uma escola. Seu tempo livre é preenchido com literatura, música e artes, suas grandes paixões. Carolina estava com 37 anos no momento da documentação. Também fotógrafa, nasceu em Maceió, mas passou boa parte da vida no Rio de Janeiro, além de outras cidades antes de retornar à sua terra natal. Seu trabalho transita por diferentes universos (ensaios, shows, casamentos) e sua paixão por música a acompanha dentro e fora da fotografia. Adora assistir a shows ao vivo, sair para beber uma cerveja e explorar a cidade. O relacionamento entre elas trouxe transformações significativas, especialmente para Carol, que sempre teve hábitos muito fixos e gostos bem definidos. Com Gabi, passou a se permitir experimentar mais, explorar novos caminhos e redescobrir o prazer da novidade. Juntas, construíram uma relação baseada na troca, no respeito e no amadurecimento. Se impulsionam a sonhar, a expandir horizontes e a se reinventar todos os dias. ↓ rolar para baixo ↓ Gabi Carol
- Claudia e Vanessa | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Cláudia estava com 54 anos no momento da documentação. É natural de Castanhal, interior do Pará, mas mora há anos em São Miguel do Guamá e é apaixonada pela cidade e pela região. Sua vida sempre foi atravessada pela arte, caminho que se intensificou quando morou em São Paulo por 15 anos. A mudança inicialmente era temporária, planejada para apenas dois anos de trabalho, mas acabou se prolongando quando ela decidiu continuar morando lá. Antes mesmo de se sentir sozinha em São Paulo, encontrou acolhimento na comunidade budista (que já fazia parte desde sua moradia no interior paraense) e decidiu seguir na capital, sabendo que tinha com quem contar. Nesse período, ingressou em uma escola de cerâmica, primeiro como agente administrativa. Aos poucos, sua curiosidade pela prática cresceu, até que se aproximou do laboratório e do torno. Um dia, vendo o laboratório vazio enquanto limpava, se arriscou e sentou para moldar uma peça. Como ela mesmo diz, “levantou” a peça do barro. E surpreendeu: quando voltaram, perguntaram quem foi que havia feito aquilo, pois havia ficado muito bom. O fato é que enquanto outros levavam anos para conseguir levantar a primeira forma, ela, apenas observando o processo, levantou de primeira. Apaixonada pelo barro, a cerâmica passou a ocupar um lugar central em sua vida. Depois de cinco anos distante do Pará, sem contato com conhecidos da região, decidiu retornar. Foi nesse reencontro com suas raízes que retomou o contato com a Vanessa (que conhecia desde criança). E é nessa volta que mais um momento da vida delas se cruza, mas não chega ainda a caminhar lado a lado. Vanessa e Cláudia se conheceram ainda crianças, quando tinham seis e nove anos. Cresceram muito unidas e, na pré-adolescência, a ligação entre as duas era tão perceptível que a mãe de Cláudia decidiu afastá-las, mandando ela para Manaus, com a desculpa de que iria trabalhar. O que seria uma temporada curta, apenas uma viagem como um experimento, acabou se estendendo por dois anos. Mesmo assim, sempre que Cláudia retornava (dessa ou de outras viagens que vieram a acontecer com frequência), as duas encontravam formas de se falar, ainda que de maneira breve e improvisada. Na adolescência e já adultas, mantiveram os encontros, guiados pelo boca a boca das pequenas cidades - todo mundo contava que Cláudia estava chegando, seja de barco ou de ônibus, até porque não havia celular ou internet para que se comunicassem. E nisso, havia também os desencontros: vez ou outra, Vanessa sabia tarde demais, Cláudia já havia partido de volta. Essa história, que foi se estendendo por boa parte da vida delas, também foi marcada por afastamentos. Ambas viveram outros casamentos, outras relações, construindo trajetórias paralelas. Um episódio marcante aconteceu quando tinham cerca de 30 anos: se reencontraram em Santa Maria, no interior do Pará. Cláudia chegou uma semana antes do que havia avisado à família, apenas para garantir o encontro com Vanessa, não deixando ninguém imaginar. No momento da documentação, Vanessa estava com 51 anos. Nascida em Salinas, vive há muitos anos em São Miguel do Guamá e também é apaixonada pela cidade e pela região. Foi pioneira numa das principais rádios locais, é uma figura importante falando sobre os direitos da mulher na cidade e tem diversas histórias relacionadas às figuras políticas locais. Sua trajetória e de Cláudia se entrelaçam o tempo todo com as histórias da cidade, afinal, desde que estão juntas dedicam todo o seu tempo para melhorar o lugar em que vivem. Vanessa lembra de uma cena que marcou a relação e a juventude delas: a mãe de Cláudia procurando sua mãe, conhecida como ‘Tia Alice’, para propor um trato: “Fique de olho na Vanessa, que eu vou ficar de olho na Cláudia, porque nessa idade pode acontecer qualquer coisa”. Para Vanessa e Cláudia, ainda adolescentes, aquilo foi doloroso e confuso. Não compreendiam ao certo o que havia por trás da vigilância. Faltava conhecimento, consciência e até mesmo uma certa malícia. Não sabiam nomear o que sentiam. Com o passar dos anos, Vanessa se casou, mas quando sua mãe adoeceu enfrentou muitos problemas na relação. A pessoa com quem se relacionava entendia que o adoecimento da mãe era um problema só dela e, por isso, ela não via mais sentido na relação, não se sentia numa relação de parceria. Nesse período, do nada, enquanto estava no hospital com a mãe, recebeu um telefonema: de Cláudia. Ela chegou a duvidar do que via na tela do telefone. “É você mesmo?”. Claudia chegou não só trazendo a lembrança de algo que ainda estava vivo, mas a companhia de poder compartilhar o cuidado, o carinho. Juntas, viveram o tempo do cuidado à mãe de Vanessa até ela falecer. Foi nesse reencontro que o amor, tantas vezes interrompido, reencontrou também seu espaço para existir. A mãe de Cláudia nunca conseguiu compreender como esse amor sobreviveu a tantas tentativas de separação - ela mesmo confessa. Hoje, porém, dá o braço a torcer e reconhece a força de um sentimento que resistiu ao tempo e às distâncias. Vanessa e Cláudia, por sua vez, também não sabem explicar com exatidão como, depois de tantos desencontros e caminhos diferentes. Talvez, precisasse mesmo ser assim. O que importa é que agora vivem “a vida é de nós duas”, como elas mesmo dizem, sem a necessidade da aprovação ou opinião de terceiros. Com a decisão de viverem juntas, assumiram não apenas o relacionamento, mas também uma paixão em comum: a cerâmica. Aos poucos, foram conquistando espaço e reconhecimento na cidade, criando laços através do trabalho artístico. Mantiveram seus empregos formais, mas logo passaram a ser conhecidas como ceramistas talentosas, com diversas encomendas. Há cerca de oito anos, Vanessa adoeceu. Foi diagnosticada com uma doença raríssima, esclerosante e degenerativa, somada à fibromialgia. O quadro grave fez com que Cláudia precisasse deixar o trabalho para cuidar dela em tempo integral, numa rotina com muita incerteza e sofrimento. No começo, desmaiava muitas vezes por dia, foi cogitado estar com câncer durante oito meses e chegaram a se despedir algumas vezes antes de terem o diagnóstico correto, mas Cláudia sempre dizia o quanto elas batalharam muito para ficarem juntas, não era agora que ela ficaria sozinha. Depois do diagnóstico e de acertarem os remédios, Vanessa respondeu com firmeza: teve uma melhora e pode seguir o tratamento em casa. Sem poder trabalhar e enfrentando limitações severas, elas sobreviveram graças às doações dos amigos. Pessoas das cidades vizinhas se mobilizaram, trazendo frutas, legumes, roupas e alimentos de bicicleta, partilhando o que tinham em suas casas. Mesmo sem nunca pedirem, a rede de afeto se formou de maneira natural, mostrando como eram queridas e como o amor que construíram ao longo da vida foi retribuído. Hoje, a doença está mais controlada, ainda que não consigam seguir uma rotina de trabalho, conseguem produzir algumas peças de cerâmica. A casa foi adaptada, o ateliê também. Celebram a chance de viver plenamente um amor que resistiu a tantas tentativas de apagamento e sentem a realização não só por estarem juntas, mas por verem o amor transbordando para os amigos, aproximando a família e inspirando os que conhecem suas histórias. ↓ rolar para baixo ↓ Cláudia Vanessa
- Juliana e Luisa | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Luísa estava com 29 anos no momento da documentação. É formada em teatro, mas sua atual profissão é ser professora de inglês. Natural de Nova Prata, cidade interiorana do Rio Grande do Sul, viveu oito anos em Porto Alegre, onde estudou - e onde também mantém muitos amigos até hoje. É apaixonada (vamos dizer, fascinada) pelo universo do horror-terror, foi o assunto do seu trabalho de conclusão de curso e espaço escolhido para fazer a nossa documentação acontecer (um café temático em Porto Alegre), afinal, ela compartilhou sua paixão com a Ju durante o relacionamento. Juliana, por sua vez, estava com 36 anos no momento da documentação. Também nasceu em Nova Prata e viveu em Porto Alegre por uma década antes de retornar à cidade, em 2016. Filha mais velha de pais separados, descreve sua família como “bagunçada, mas com afeto”. Conta que precisou de muito tempo (e terapia) para entender seu processo e se livrar aos poucos das expectativas e dos padrões familiares que são impostos ao longo da vida. Em 2022, deixou o emprego formal para se dedicar ao bordado livre, arte que aprendeu com a avó, que era muito habilidosa e adorava costurar, bordar, trabalhar com madeira e outros artesanatos e, além do trabalho, Juliana também estuda psicologia atualmente. Quando começaram a namorar, o universo do horror era muito temido pela Ju. Ela sempre sonhava com os filmes, se assustava, tinha medo. Luísa aos poucos passou a incentivar outro olhar, um olhar de arte como algo provocativo e reflexivo, uma forma de expressão que incomoda para fazer pensar. Mesmo nas cenas de susto, quando chega a levantar os pés da cadeira e segurar firme a mão, aprendeu a rir depois, entender o susto e o que ele provoca. Hoje, o medo virou também um lugar de encontro, curiosidade e afeto entre as duas. Ao viver uma vida padrão esperada, a Ju acreditava que a felicidade viria no check dessa ‘lista’ imaginária - tinha a faculdade certa, o emprego estável, o relacionamento esperado. Mas ao chegar aos trinta e poucos anos, entendeu que nada disso preenchia um vazio. Se sentia frustrada. Nessa mesma época, aos 33 anos, participou da criação de um núcleo de mulheres na cidade, e foi colando lambes nas ruas, em plena pandemia, que viu Luísa pela primeira vez. Ainda sem compreender direito o que sentia, ficou encantada pela presença dela. Sentia que queria conhecer mais, chamar ela para sair. Foi nesse processo de frustração e descoberta que começou a pensar sobre ser uma mulher lésbica, mas ainda de forma muito calma, respeitando seu processo. Diferente da Ju (que não tinha muitas referências lésbicas ou bissexuais por perto) Luísa conta que sempre foi a “responsável” e a “certinha” entre os seus. Cresceu numa família majoritariamente feminina e cercada por primas que se relacionam com outras mulheres. Tímida, introspectiva e tranquila, sua sexualidade foi algo que surgiu de modo natural, quase como uma confirmação de algo que todos à sua volta já percebiam. Quando entrou para o teatro, o contato com outras formas de liberdade a fez repensar seu próprio lugar no mundo, e mudou um pouco a sua forma de se relacionar. Quase dois anos depois daquele primeiro encontro no coletivo de mulheres em Nova Prata, Ju criou coragem para enviar uma mensagem a Luísa. Parecia ser simples, né? Só enviar uma mensagem. Mas o receio da Ju é que elas tinham uma certa diferença de idade e ela não queria parecer uma pessoa muito aleatória fazendo um convite estranho. Mas o convite foi aceito e o encontro foi muito bom, tanto que já quiseram repetir em seguida. Logo estavam juntas, sem precisar de grandes planos ou certezas, apenas com o desejo de permanecer. Desde então, foram aprendendo a compartilhar um amor, uma forma de estar no mundo, a coragem, o humor, os desencontros… E Luísa ainda morava em Porto Alegre, então ainda aprenderam a compartilhar um pouco de distância também. Como o namoro da Ju e da Luísa começou entre Porto Alegre e o interior do Rio Grande do Sul, a semana era dividida em um tempo na capital, outro tempo na casa do pai da Ju, em Nova Prata - e esse foi o momento de apresentar às famílias também. O pai dela reagiu de uma forma até um pouco engraçada, afinal, ela não sabia o que esperar da reação dele e tinha certo medo. Ele não morava de forma fixa no Rio Grande do Sul e ela aproveitou uma vinda para falar sobre o namoro. Nas palavras de Ju, foi assim: “Pai, a gente tem que conversar. Porque eu estou saindo com outra pessoa. Eu estou vendo essa pessoa. E talvez ela venha aqui. E é uma mulher. E daí ele disse: ‘Tá. Tá bom. Tudo bem. Tu teve namoros muito ruins com homens, talvez tu seja mais feliz agora’” (risos). E foi nesse dia que eles se conheceram. Dias depois foram conhecendo outros familiares e as coisas foram se ajeitando da melhor forma, com serenidade. O namoro seguiu com espontaneidade. Em 2023, com um ano de relação e a Lu já morando em Nova Prata, decidiram se casar. O debate sobre o casamento homoafetivo voltava à pauta na Câmara dos Deputados e elas sentiam cada vez mais a certeza do afeto, então resolveram celebrar numa cerimônia pequena, num restaurante acolhedor, pouco antes do Natal, para que o pai de Juliana pudesse estar presente. Entre mesas apertadas, famílias misturadas, a sobrinha apaixonada pelas flores e pelo vestido, o cuidado onde cada familiar iria sentar… o momento se tornou um retrato delicado da união: simples, verdadeiro e cheio de amor. Depois da cerimônia de casamento, elas começaram a planejar a possibilidade do primeiro lar verdadeiramente seu. Ele deu certo em 2025 e, quando pergunto como está sendo, Ju explica que essa nova casa simboliza algo além do casamento: é a conquista da autonomia, o rompimento com antigos vínculos familiares e o início de uma vida guiada por escolhas próprias. Entre risadas, sustos de filmes de terror e silêncios confortáveis, as duas constroem uma rotina que traduz aquilo que buscavam desde o início: a sensação de estar, finalmente, em casa. Ju e Luísa passaram a ouvir com frequência comentários de amigos e familiares sobre como parecem ainda melhores juntas. A nova casa trouxe algo que antes faltava: privacidade e pertencimento. Com o tempo, aprendem também sobre os próprios limites e como eles podem ser diferentes entre si. Juliana, acostumada à convivência intensa da família, precisou entender o valor do silêncio e da reserva que Luísa prezava. Luísa, por sua vez, aprendeu a acolher essa espontaneidade familiar que faz parte da história da companheira. Nesse processo, a busca pelo convívio mais harmonioso foi o que permitiu que cada uma reconhecesse o que traz conforto e o que precisa ser ajustado. Reconhecem também o amadurecimento, o quanto a relação foi amadurecendo nesses anos. Elas atravessaram perdas e desafios: o luto, mudanças de trabalho, afastamentos de amizades, os sonhos que se materializaram… e assim o vínculo se consolida. O amor antes era uma idealização, algo romântico, agora é uma manifestação cotidiana de cuidado, escuta e apoio. A convivência se tornou um espelho de crescimento individual: quanto mais se fortalecem como casal, mais se transformam como pessoas. É movimento. ↓ rolar para baixo ↓ Luísa Juliana
- Página de erro 404 | Documentadas
404 error vish maria. como você veio parar aqui?! nem eu, que sou o site, sabia que essa página existia. acho que isso é um erro. vem cá, vamos lá para o início. o lugar que você queria chegar é outro, né? pesquise aqui o lugar que você deseja
- Lilian e Marcela | Documentadas
O encontro da Lilian e da Marcela com o Documentadas aconteceu poucos dias antes do casamento delas - que não seria nada convencional - um casamento temático de festa junina! Nos encontramos em sua casa (que também é o lugar onde trabalham sendo padeiras) e estavam entre muitos preparos: desde as últimas encomendas da padaria, pois sairiam de férias/e lua de mel logo após a cerimônia, até as preparações do casório porque tudo foi feito entre muitas mãos - comidas, decorações, lembranças… não contrataram buffet ou empresas para isso, contaram com os próprios serviços e de amigos que também trabalham com gastronomia. A festa foi dedicada a reunir pessoas que amam e fazer todas se sentirem bem: que vistam se sentindo bem, comam bem, dancem, brinquem, se divirtam. Todos estavam muito empolgados, inclusive as contratadas, que são apenas mulheres - fizeram questão disso e foram atrás até de banda de forró sapatão, que fez com que a festa ficasse muito mais animada. Conversamos sobre entender a instituição casamento com o recorte de se tratar de duas mulheres e em tudo o que isso envolve. Por mais que existam várias críticas sobre essa instituição e seus conservadorismos, existe também o lado político pela importância de ter um documento que afirma esse amor. É muito importante o evento, a celebração. Reconhecer que os familiares estão viajando de longe para celebrar esse amor que sempre nos foi negado, que toda relação heteronormativa é celebrada e comemorada o tempo todo, mas entre duas mulheres fomos colocadas num espaço de não-celebração, ficamos minguadas, podemos até beijar mas não demonstrar tanto, não abusar da demonstração… Então celebrar um casamento é celebrar MESMO. Celebrar com vontade. Ter quem você ama celebrando com vocês. Celebrar duas mulheres amando. E, para elas, o casamento só faria sentido se fosse vivido assim como será: com todas as pessoas lá, de forma coletiva. Elas construíram essa relação pensando no mundo que acreditam. Se sentem confortáveis, acolhidas. Sentem que a relação é uma grande mesa com comida e todos ao redor, compartilhando. Lilian, no momento da documentação, estava com 30 anos. Nasceu no interior do Espírito Santo, num município chamado Pinheiros, mas cresceu em Vitória, na capital. Ao completar o ensino médio foi para Mariana, em Minas Gerais, cursar história e durante a faculdade descobriu a disciplina de antropologia da alimentação. Quanto mais estudava, mais se interessava e ao finalizar a graduação começou a estudar gastronomia. Ao se mudar para Minas Gerais, não tinha conhecimentos em culinária, mas aprendeu pela necessidade e a primeira receita que fez por vontade própria foi pão de fermentação natural. Começou a ser um hobbie, mas logo se viu pesquisando mais sobre panificação e misturando a panificação com seus outros estudos dentro da gastronomia. Foi então que conheceu uma pesquisadora chamada Neide Rigo, que explica sobre plantas, hortas na cidade, sobre o que plantar > o que comer, e consumindo os conteúdos que essa pesquisadora publicava conheceu um restaurante em São Paulo, o Maní. Viu que estavam com inscrições abertas para trabalhar por um período, se inscreveu e passou, foi assim que sua mudança para São Paulo aconteceu, em 2018. O período de trabalho seria, inicialmente, de 4 meses, mas virou uma contratação e ela se oficializou enquanto padeira. Conta como foi incrível, não conhecia mulheres padeiras - ou melhor, conhecia uma só que acompanhava o trabalho e admirava. Foi uma grande realização profissional. E, para além da padaria, ela segue adorando cozinhar e descobrir receitas, inventar festas temáticas com comidas temáticas para reunir os amigos e familiares, pesquisar sobre culinárias e culturas. Marcela, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é natural de São Bernardo do Campo, mas cresceu em uma cidade pequena chamada Dracena, no interior de São Paulo, onde viveu até os 17 anos. Cresceu numa família bastante grande e tradicional e passou pelo seu entendimento de gênero e sexualidade bastante cedo, então não se sentia bem no lugar onde morava, decidiu sair da cidade e se mudar para Campinas, também em São Paulo, para cursar faculdade de Artes Cênicas. Lá, durante 4 anos, se sentiu muito feliz e viveu diversas descobertas. Em 2018, precisava de maior independência financeira e procurou uma nova fonte de renda: começou a fazer pão de fermentação natural em casa. Depois disso, procurou trabalho na área, indo em padarias e oferecendo o seu serviço. Conseguiu trabalhar em uma padaria e depois disso se organizou financeiramente para se mudar para São Paulo (capital), até que em 2019 a mudança aconteceu. Logo que chegou na cidade, fez o mesmo que havia feito em Campinas: foi de lugar em lugar oferecendo seu trabalho. O primeiro lugar que ofereceu foi na padaria do Maní e a chamaram para alguns freelancers, então vez ou outra ela ia cobrir alguém, inclusive a Lilian, quando tirou alguns dias de férias. Depois desses freelas, ela foi contratada de fato. Quando começaram a trabalhar juntas, conversavam bastante. Lilian é muito acolhedora, conta que isso vem de família, aprendeu a acolher, conversar, receber bem as pessoas porque sua família é assim. Na época, ela morava em um apartamento dividindo lar com amigos e apresentou essas pessoas para a Marcela, inseriu ela na sua vida e logo viraram amigas. Marcela também foi se abrindo, contou que recém estava solteira, que queria desbravar São Paulo, aproveitar a cidade, não queria namorar. Aos poucos, às vezes se olhavam de um jeito diferente enquanto trabalhavam. Lilian percebia um jeito da Marcela observar… Até que um dia Marcela chegou um presentinho para ela, entregou e disse: “Não significa nada”. Quando Lilian chegou em casa, contou para a amiga e a amiga disse: “Significa!!! Ela te quer!!”. Num dia, saindo juntas, alguns meses depois de terem começado a trabalhar, se divertiram, foram em vários lugares até que Lilian perguntou o que estava significando aquilo. Marcela respondeu algo que Lilian até hoje acha muito legal, ela disse que achava que estava apaixonada pela Lilian, não sabia se era romanticamente, mas que adorava passar um tempo com ela, estar ali, adora a amizade e que sentia vontade de beijá-la. Lilian disse que sentia também, e assim elas se beijaram. Desde então elas ficaram juntas, mas Lilian tinha uma mudança de vida planejada: ela iria para a Espanha. Já havia desfeito a casa que compartilhava, vendido suas coisas, pedido demissão da padaria… Sua vida havia se resumido em uma mala. Passaram o final de 2019 juntas e em fevereiro de 2020 Lilian saiu de fato do trabalho, até lá elas estavam apenas vivendo, se divertindo, sabiam que a separação viria em breve. Os planos da Lilian eram visitar seus amigos em Minas Gerais, a família no Espírito Santo e se mudar de vez para a Espanha. Porém, dias antes, chegou a pandemia de Covid-19. Quando isso aconteceu, ela estava hospedada na casa de um amigo, uma kitnet em São Paulo, esse amigo havia acabado de se mudar para cursar medicina na USP e ele orientou: “Estão correndo boatos de que isso aí vai durar uns dois anos no mínimo”. Ele decidiu não ficar em São Paulo e deixou a kitnet com ela. Ela chamou a Marcela e ficaram juntas, mas não tinha nada: trabalho, roupa, perspectiva… os primeiros meses foram de espera, até que a ficha foi caindo porque o restaurante que ela iria estagiar na Espanha fechou, precisou devolver as passagens da viagem e entendeu aos poucos que o sonho acabou. Marcela também foi demitida, precisavam repensar tudo. Em abril decidiram anunciar aos amigos que iriam fazer pão para vender e, logo no primeiro anúncio, foram dois dias de fornadas. Depois, perceberam que trabalharam mais de duas semanas sem parar - e se organizaram melhor. Transformaram a kitnet numa padaria, assim foi seu sustento até novembro, quando se mudaram para um lugar maior. Ressaltam como foi muito importante as pessoas terem comprado de quem faz durante a pandemia. Esse foi o contato humano, foi o que nos uniu mais. Entre o final de 2020 e 2021 moraram em uma casa que possuía mais espaço e lá produziam em maior escala, até que chegaram no lugar que estão agora. Hoje em dia, possuem um espaço separado na casa onde acontece a produção e destinam suas vendas principalmente para pessoas jurídicas, ou seja, outras empresas e restaurantes. Se dão muito bem trabalhando juntas, adoram o que fazem e Marcela acredita muito que o amor entre mulheres está presente nessa torcida que uma tem pela outra, nesse fortalecimento. Vivem uma amizade muito potente dentro desse amor. Lilian concorda: talvez por ser tão poderosa é que muitos temem. São muito matriarcais, cuidam e zelam umas pelas outras. ↓ rolar para baixo ↓ Marcela Lilian
- Agendamento online | Documentadas
Nossos serviços Juliana - Consulta 1 h 50 Reais brasileiros R$ 50 Agendar agora Consulta 1 h 45 Reais brasileiros R$ 45 Agendar agora
- Espaço de pesquisas | Documentadas
Espaço de Pesquisas Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥ Todos (61) Outras páginas (59) Serviços (2) 61 itens encontrados para "" Outras páginas (59) Apoio Psicológico | Documentadas saúde mental e apoio psicológico para mulheres de todo o Brasil Considerando a importância da representatividade para a construção da identidade de pessoas LGBTs e compreendendo as condições atuais do nosso país e do mundo, criamos no Documentadas uma rede de apoio psicológico. Através da psicoterapia ou da análise, uma profissional acompanhará, ouvindo e proporcionando um espaço de acolhimento para as vivências, sofrimentos e inquietações das mulheres que passam pelo projeto. Nesse primeiro momento, para atender mulheres que amam mulheres e que acompanham o projeto, criamos uma rede de psicólogas e psicanalistas que estão com vagas sociais para atendimentos individuais e online. Apostamos neste espaço porque sabemos o quão difícil é encontrar um ambiente seguro para ser escutada com atenção e cuidado. como funciona? Somos em dezoito profissionais - entre psicólogas e psicanalistas - e temos vagas à preços sociais, cada qual com a sua disponibilidade. Entendemos a importância de abrir essas vagas à valores mais baixos exatamente pela condição financeira particular de cada mulher e econômica que o país enfrenta. Estamos com o propósito de atender mulheres que precisam e que não encontram disponibilidade de atendimento de forma acessível nos meios particulares pagos. Toda mulher poderá se registrar na nossa plataforma acessando a área de login ao final dessa página. Assim, poderá fazer um cadastro dentro da nossa plataforma, consultando o perfil de cada profissional e a disponibilidade de horário/vaga que melhor se adapta à sua rotina. Todos os valores são iguais, o que difere na hora da escolha é a profissional identificada através do breve currículo e da sua disponibilidade. Assim que o prévio agendamento for realizado, o contato entre ambas será feito e a psicóloga mandará uma mensagem. Para ler maiores informações sobre a nossa Política de Privacidade e os Termos de Uso de plataforma, clique aqui ♥ nosso grupo de psicólogas e psicanalistas apoiadoras Viviane Psicóloga graduada pela PUCRS, especialista em Clínica Psicanalítica (UFRGS) e mestranda em Psicologia Social na UFRGS. CRP: 07/23395 Maria Clara Goes Psicóloga mestra sobre saúde sexual de mulheres cis lésbicas, pela Universidade Federal da Bahia. Praticante da Psicanálise - CRP 03/27093 Marina Albuquerque Psicóloga graduada pelo Centro Universitário IESB e especialista em Psicologia Humanista. CRP-01/19203. Laís Tiburcio Psicóloga Clínica, Pós-graduanda em Gênero & Sexualidade, formação em Politica Nacional de Saúde LGBT. Estudos em Psicanálise. CRP 05/57276 Ariadne Sitaro Psicóloga Pós Graduanda em Gestalt Terapia e Reprodução Humana Assistida. CRP 02/28387 Júlia Psicóloga - Mestrado na Universidade Federal Fluminense em Psicologia. - CRP 05/60076 Mariana Milan Psicóloga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina. CRP 12/26613 Ana Carolina Cotta Psicóloga pela Universidade Federal Fluminense - mestrado em Psicologia Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. CRP 05/58463 Raquel Psicóloga formada pela Faculdade de Pato Branco/FADEP e pós-graduada em Gênero e Sexualidade CRP 12/23076 Camila Psicanalista. Membro provisório do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre/RS (CEPdePA) e Advogada Especialista em Direito Público Maria Freire Psicanalista pela Escola Letra Freudiana. Doutorado em filosofia. Deyse Van Der Ham Psicóloga - Especialista em Políticas Públicas e Assistência Social pela PUCRS. CRP 07/24426 Marina Nobre. Psicóloga formada pela Universidade de Fortaleza. CRP 11/15307 Caroline Afonso Psicóloga formada em psicologia pela Universidade Luterana do Brasil Canoas/RS. CRP 07/38059 Gabriela Nunes Psicóloga formada pela UNISINOS e pós-graduanda em Psicologia Clínica pela PUCRS. CRP 07/41102 Talyta Psicóloga - graduada pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) - estudos em psicanálise. CRP 06/169049 Paula Psicóloga, formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pós graduanda em Psicopedagogia. CRP 05/63682 Thays Waichel Psicológa graduada pela Universidade Luterana do Brasil - Canoas/RS. Ênfase em Orientação Psicanalítica. CRP 07/37003 Jamyle Psicóloga - Mestrado em lesbianidades a partir de uma perspectiva interseccional, pela Universidade Federal do Ceará. CRP 11/18191 Ana Gabardo Pedagoga pela Universidade Federal do Paraná e psicanalista pela Associação Livre Centro de Estudos em Psicanálise Dani Psicologia Social, Psicanálise e Educação - Universidade de São Paulo. CRP 06/137811 Larissa Psicóloga formada pela Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo. CRP 06/161422 Kíssila Psicóloga formada pela UFF e pós-graduanda em Fenomenologia Decolonial e Clínica Ampliada pelo NUCAFE. CRP 05/69513 Jade Psicóloga formada pela Uniritter - RS. CRP 07/34186 Ana Clara Ruas Psicóloga pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói. CRP 05/66226 quer ter acesso à terapia/análise ou entrar em contato com a profissional? clica aqui Documentadas Olá; AQUI REGISTRAMOS O AMOR ENTRE MULHERES ATRAVÉS DA FOTOGRAFIA. Portfólio Para conhecer nossas histórias, clique aqui > sobre 02 sobre nós Olá, me chamo Fernanda e registro de forma documental o amor entre mulheres por todo o Brasil. O documentadas começou através de diversos estudos e da percepção de que as mulheres são pouquíssimo registradas em toda a sua história, principalmente tratando-se de mulheres que se relacionam afetivamente com outras mulheres. Para dar um basta e contar nossa própria história, percorro o país registrando casais e através desse site criamos conexões e laços de fortalecimento. Para conhecer quem faz o documentadas, clique aqui > Banco de images QUER PARTICIPAR DO PROJETO? vem por aqui! :P Mariana Musicista Leia mais Mari, além de ser uma pessoa extremamente doce, é uma musicista e compositora incrível! Ela tem um canal com a Vivi e juntas compõem histórias no Canta Minha História! Iasmim Advogada Iasmin, além de uma mulher super sorridente e alto astral, é também uma grande advogada. Natural de Duque de Caxias, baixada fluminense, hoje trabalha em um escritório no centro do Rio de Janeiro. Leia mais Carla Professora Carla, além de ser grande amante das artes e do teatro, também é professora e pedagoga em escolas públicas de Rio das Ostras e Macaé. Leia mais gerando renda para a comunidade Acreditamos que - além de que contar histórias de mulheres - podemos conecta-las. Falarmos sobre seus trabalhos, compartilharmos situações, momentos e, enfim, gerarmos renda. O mercado de trabalho segue difícil e podemos nos apoiar contratando trabalhos de mulheres da comunidade LGBT. Sendo assim, no nosso espaço de 'busca' você consegue pesquisar pela palavra-chave (o serviço que você precisa), ver qual profissional está à disposição, ler sua história e nos mandar uma mensagem. Nosso papel será te conectar diretamente com a profissional desejada! gerando renda para o projeto Manter o projeto não é tarefa fácil! Fazer viagens, pegar metrôs, ônibus, barcas... disponibilizar tempo e conseguir manter as contas pagas é um grande desafio. E como queremos documentar o maior número de casais possíveis, disponibilizamos o nosso PIX e aceitamos qualquer valor como quantia de doação! Você pode nos ajudar clicando aqui e fazendo a doação (qualquer valor!) de forma voluntária direto pelo aplicativo do seu banco! Colabore com a documentação histórica do amor entre mulheres! nossa loja tá no ar! chega pra cá ♥ Contato Natália e Bruna | Documentadas Bruna diz que ficou até surpresa quando a Natália contou o desejo de inscrever elas no Documentadas, brincou dizendo “Quem te viu, quem te vê, hein?!” porque no começo da relação, principalmente na primeira viagem que fizeram juntas, Natália tinha bastante receio até de pegar nas mãos em público… E agora quer mostrar ao mundo que o amor que vivem é lindo. Entendemos que esse medo é legítimo, assim como essa vontade de afirmação. Bruna completa: a história de amor delas também é a história de descoberta da Natália. Para Nat, o amor precisa ser por completo, ou seja, as pessoas merecem ser amadas como são. Se uma pessoa só te ama se você for heterossexual, ela não está te amando. Existe uma busca na perfeição do que criamos em cima dos outros, mas a verdade é que precisamos aceitar quem eles se tornam, quais profissões escolhem, a forma que entendem o amor, com quem se sentem bem ao relacionar, como vão compartilhar a vida… Isso tudo também é amar. Ela explica que a Bruna traz liberdade, foi um combo: a Bruna + a gatinha dela + o lar é o jeito que elas são felizes. Tudo fica nítido, é estampado a forma que se sentem confortáveis juntas. Não existe um julgamento dentro de casa. Quando uma relação existe e se fortifica é porque ali está o amor, assim enxerga Bruna. O amor a gente encontra na rotina, na construção das pequenas coisas, crescendo, cuidando, estando ali diariamente para se ajudar. Com a Natália foi a primeira vez que ela sentiu de forma plena o equilíbrio: ela pode se doar e vai receber de volta, é acolhedor. Natália, no momento da documentação, estava com 34 anos. Nasceu em Barra do Piraí, interior do Rio de Janeiro, mas foi ainda criança para Niterói e seguiu sua vida na cidade. É formada em jornalismo e fez transição de carreira recentemente, está estudando nutrição. Adora ver filmes, séries, ler e estudar o vegetarianismo e o veganismo. Atualmente, mora no Rio de Janeiro, junto à Bruna, e estão desbravando a cidade, conhecendo novos teatros, parques e outros lugares. No dia seguinte à nossa documentação elas iriam participar da primeira corrida juntas, pois estão focando em atividades físicas no momento. Bruna, no momento da documentação, estava com 36 anos. É natural do Rio de Janeiro, da zona oeste da cidade. Trabalha enquanto enfermeira e atua no ambiente corporativo, cuidando da saúde no trabalho. Além disso, faz trabalhos de marketing digital, adora a área do design e também está estudando tarot, que sempre foi um hobbie. No dia a dia, gosta de praticar exercícios dinâmicos (esportes em geral) e também curte dirigir, se sente calma quando dirige. Entre o réveillon de 2022 para 2023, durante a festa da virada de ano, Bruna e Natália se conheceram. Inicialmente não era nessa festa que Natália iria, ela e a amiga haviam comprado ingresso para outra, mas foi cancelada, então deram a opção de reembolso ou de transferência para uma festa que aconteceria na Barra da Tijuca. Elas, saindo de Niterói, acharam bem ruim a opção de ir para a Barra, mas com o valor do reembolso não conseguiriam comprar outra festa então toparam. Bruna, diferente delas, tinha macado com os amigos para ir na festa da Barra mesmo, sabia que era uma festa com um público muito hétero, que só iria ela e um amigo gay, mas topou ir porque queria se divertir. Logo que chegou, Bruna olhou para Natália. Elas não possuíam amigos em comum, estavam apenas próximas e trocaram olhares. Natália estava apenas com a amiga e percebeu os olhares, mas até então se entendia enquanto uma mulher héterossexual e achou estranho, até engraçado isso acontecendo… A festa seguiu e os olhares também. Bruna então comentou com o amigo sobre elas trocarem olhares e quando ele percebeu, disse que estava sim e a incentivou a ir falar com ela. Quando ela ia tomar iniciativa, um homem chegou até à Nat, e quando ela se livrou dele, Bruna não estava mais lá. Depois da meia noite se reencontraram porque o amigo da Bruna fez amizade com um grupo de meninos gays que a amiga da Natália também havia feito amizade, e assim elas se percebem neste grupo. Dançaram juntas, Bruna chegou rápido na Natália e ela indagou: “Que isso, não vai nem perguntar meu nome?” - então elas falaram os nomes e se beijaram. Natália já tinha ficado com uma menina antes, quando era adolescente, mas seus relacionamentos sempre haviam sido com homens. A festa foi acontecendo e elas não tiveram muitas interações, se encontraram novamente 6h da manhã quando tomaram café e a Bruna foi solicita ajudando a Nat a levar café da manhã para a amiga. Foi quando Nat perguntou como a Bruna se identificava e ela respondeu “Enquanto mulher lésbica, e você?” e ela disse que era bissexual. Ela não pensou muito, isso chegou muito naturalmente e pontual. No dia seguinte conversaram bastante e assistiram à posse do Lula juntas, de forma online. Na semana seguinte ao réveillon tiveram um encontro, se divertiram bastante e passaram a se encontrar com frequência. Ainda em janeiro viajaram juntas e na semana seguinte, dia 4 de fevereiro, começaram a namorar. Quando Bruna soube que Natália não havia ficado com mulheres antes, resolveu ir com mais calma, mas não adiantou, o namoro já estava encaminhado. Foram muitos meses no início da relação indo da zona oeste até Niterói, um caminho bastante longo, para se encontrar - ou melhor, a Bruna indo e voltando buscando a Natália para passar o final de semana na casa dela. Existia um receio muito grande de contar para a família da Nat, então tudo foi acontecendo aos poucos. Somente no começo de 2024, mais de um ano depois de se conhecerem, Nat se abriu para seus familiares. Desde então, não possui mais contato com a sua mãe. Por mais que os outros familiares ainda conversem e acompanhem (ainda que não queiram saber sobre o relacionamento) ela sente muito sobre, é muito triste ficar longe de uma das pessoas que mais ama. Entendem que eles terão seu próprio tempo para processar, assimilar e superar o preconceito, mas que nesse tempo elas não podem deixar de viver o amor mais bonito que já sentiram. Para Natália, o amor que vive com a Bruna é o sentimento mais bonito que já presenciou, que já viu acontecer… é respeitoso, é companheiro e não existe opinião que vá tirá-lo do caminho. Entende também que isso não apaga o que tanto ela, quanto a Bruna, já viveram em outros momentos da vida, em outras relações (que também já foram boas) ou em outras formas de viver, que isso tudo faz parte da construção de serem quem são, e que se esforçam muito para serem as melhores pessoas possíveis, mas que em nenhum momento sucumbirão à um pensamento preconceituoso. Então respeitam o tempo, por mais que doa muito, mas se permitem viver. Pela parte da família da Bruna, recebem muito suporte da mãe, que as trata com muito carinho e afeto. ↓ rolar para baixo ↓ Natália Bruna Ver todos Serviços (2) Juliana - Consulta Consulta Ver todos


