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Camila Marins estava com 41 anos no momento da documentação. É jornalista, mestra em políticas públicas e em direitos humanos. Sua trajetória é profundamente marcada pelo trabalho e pela militância. É idealizadora do projeto de lei Luana Barbosa, voltado ao enfrentamento do lesbocídio, e do projeto de lei Cassandra Rios, que propõe fomento à comunicação e à produção editorial lésbica, disputando orçamento público e articulando legislações para a população lésbica no Brasil. Integra a Rede Nacional de Proteção de Jornalistas e Comunicadores Populares, ligada ao Instituto Vladimir Herzog e é diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. Camila é natural de Santa Rita do Sapucaí, interior de Minas Gerais. Boa parte da infância foi dividida entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Já adulta, foi para Campinas estudar jornalismo, trabalhou como assessora da vereadora mais jovem eleita pelo PSOL na cidade, até que em 2009 participou da Brigada de Solidariedade a Cuba, experiência que a conectou à uma oportunidade profissional no Rio, para onde se mudou em 2010. Desde então, constrói atuação política em movimentos, partidos e articulações, principalmente voltadas para as pautas das mulheres. 

 

Lian estava com 43 anos no momento da documentação, nasceu em Goiânia e vive no Rio de Janeiro há duas décadas. Mudou-se para cursar mestrado em comunicação social, tornou-se doutora na área e atualmente também trabalha enquanto atriz, escritora e criou o podcast “Maternidade de Guerrilha”. É mãe da Paz, que está com sete anos no momento. Lian se define como solar: gosta do dia, do sol, da água e do ar livre. Ama trilhas, viagens, leitura, palavras cruzadas e atividades lúdicas… está sempre disposta à brincar, imaginar e criar.

 

Juntas, compartilham o gosto pelas palavras e pelos jogos. É nas cruzadinhas que se encontram, como quem cultiva linguagem e cumplicidade. Entre militância, arte, maternidade e imaginação, constroem uma vida atravessada por política e por brincadeiras, onde o compromisso coletivo e o prazer do cotidiano caminham juntos.

 

 

Camila e Lian já se conheciam de vista dos encontros do coletivo Slam das Minas, em parceria com a Brejeiras. Lian é envolvida no Slam, Camila representava a Brejeiras, mas nunca haviam conversado diretamente. Foi perto do aniversário de Camila que o primeiro passo foi dado: ela publicou nos stories do Instagram um convite da festa que iria acontecer e recebeu a resposta de Lian: “Taurines, as melhores pessoas”. As duas fazem aniversário com cinco dias de diferença. E o comentário virou convite: para a festa e para um almoço despretensioso.

 

Mas ainda existia a dúvida: era um almoço para começar uma amizade ou era um date? Lian suspeitou do date, topou. No bar, o nervosismo delas tomou conta. Camila derrubou água, ri contando: estava apavorada. Lian mergulhou em conversas profundas sobre traumas familiares e experiências com ayahuasca, depois ficou temendo ter assustado Camila com tantos papos. Nenhuma das duas teve coragem de uma iniciativa de beijo, estava tudo meio confuso dentro de si. 

 

Dias depois, foi o aniversário da Camila, ela comemorou em um bar em Santa Teresa com muitas amigas, uma grande festa. Lian foi, era próximo da sua casa e decidiu passar por lá. Encontrou amigas em comum, celebrou, e foi naquele dia, em 2024, que elas se beijaram pela primeira vez: como as duas, um amor taurino - intenso e teimoso - começou. 

 

Mais tarde, conversando com calma, perceberam que o primeiro encontro esteve cheio de sinais: olhares, pausas, expectativas. O nervosismo, os traumas e a timidez impediram que enxergassem. Foi quando deram uma segunda chance no aniversário. Hoje entendem que o beijo não foi só impulso, foi coragem.

 

Depois do primeiro beijo, os encontros se tornaram frequentes. Houveram cafés da manhã, Camila conheceu a Paz, filha da Lian, que na época estava com cinco anos (uma diferença enorme para os sete anos que está hoje). Vieram os cinemas, as visitas em casa, a convivência que foi se tornando natural. Ainda assim, pairava a dúvida silenciosa: era namoro ou não? No Dia dos Namorados, Camila convidou para passarem juntas assistindo um filme com a Paz, e fez a pergunta “Quer namorar comigo?”. Para Lian, era uma formalização do que já existiam, na cabeça dela elas já namoravam. 

 

Tempos depois, com a presença da Camila em casa, Lian conta de um episódio durante a sessão de terapia que estava falando sobre o relacionamento a Paz escutou. Depois ela perguntou: “A Camila é sua namorada? Uma menina?”. A Paz sempre conviveu com pessoas LGBTs, a confusão era em torno de organizar essas referências e entender que sua mãe também poderia namorar uma mulher.  

 

A questão mais difícil não foi o namoro com uma mulher, mas o ciúme em relação à mãe. Paz sempre demonstrou forte vínculo e proteção, recusando demonstrações de afeto que a excluíssem. Houveram momentos intensos, declarados com honestidade infantil: “Eu odeio a Camila, mas eu amo a Camila!”. A resposta nunca foi repressão, mas validação, afinal, as emoções são confusas mesmo e elas podem coexistir, não estão erradas, assim como Paz está descobrindo elas agora, não é fácil lidar. 

 

Hoje, ela acredita que o ciúme não desapareceu, mas se transformou. Paz consegue dizer quando sente as coisas - sejam boas ou ruins. Não há sentimentos proibidos, apenas sentimentos a serem compreendidos. E, sobretudo, ao invés de exigir racionalização precoce, há escuta. Talvez o maior aprendizado seja esse: permitir sentir antes de explicar. Afinal, até nós, adultas, ainda tentamos entender o que sentimos. 

 

 

Camila entende que o amor mora nos detalhes: na forma como Lian fala, no gesto de dividir uma comida gostosa, na semelhança que se revela quando leem juntas ou disputam palavras cruzadas. Foi assim desde o começo: sente que algo se assentou. Elas são competitivas, curiosas, gostam de trocar ideias sobre o que estão lendo, de descobrir coisas novas. O amor, para Camila, vive nesses instantes compartilhados.

 

Lian nunca teve o hábito de beber e sempre se sentiu deslocada diante de uma vida adulta que parece girar em torno de bares e álcool. É diurna, prefere trilhas, cachoeiras, livros, jogos, imaginação, fantasia. Gosta de estar ao ar livre, de brincar, de criar. Por muito tempo, sentiu-se excluída por não caber nesse roteiro social. Com Camila, encontrou acolhimento: alguém que abraça quem ela é, que topa jogar, conversar, estar inteira. Há ainda a maternidade, a guarda alternada, os ciúmes e os atravessamentos próprios de quem constrói uma relação com uma criança no centro. Tudo é processual, conversado, escutado: entre elas, existe a possibilidade de falar de traumas, de histórico de vida, de medos e fragilidades com profundidade. Há uma busca compartilhada por presença: Lian sente a necessidade que a pessoa esteja ali de fato, aproveitando o momento, sem distrações. 

 

Camila, inclusive, reconhece que o relacionamento foi decisivo para retomar sua saúde: parar de beber foi um dos passos mais importantes da sua vida. As conversas sobre neuroplasticidade e psicodélicos, iniciadas ainda no primeiro encontro, também abriram caminhos de transformação e cuidado que impactaram sua forma de estar no mundo. Além disso, a convivência trouxe mudanças concretas: viver mais o dia, ao ar livre na natureza,  fez com que o sedentarismo desse lugar ao movimento. O amor entre elas tornou-se uma prática cotidiana de cuidado, visando sempre a escolha do crescimento. 

 Lian 
 Camila 
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