top of page

Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

294 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Juliana e Nicolli

    A Ju e a Nicolli sempre se apoiam muito, principalmente se os problemas são externos - dificuldades financeiras, saúde, família… quando falamos sobre outras coisas, além das nossas vidas, como a sociedade e a cidade (ou os problemas sociais), elas falam sobre o sul e o sudeste ainda serem muito privilegiados (e em geral, as capitais) por podermos andar na rua com as mãos dadas, por não termos tanto medo, por ao menos termos a coragem de darmos as mãos. Reiteram a necessidade do quanto ainda precisamos mudar o preconceito, o medo de sermos mulheres andando nas ruas sozinhas... e o quanto é preciso seguir uma apoiando a outra, seguir com as mãos dadas, não soltar. No fim da conversa percebemos o quanto a palavra coragem ficou em evidência durante todo o papo. Falamos em coragem por todos os momentos que elas passaram e que enfrentaram, por todos os problemas, todas as coisas boas também e tudo o que se é compartilhado. Além do mais, coragem por ser quase como um sinônimo de resistência também, e por reconhecermos o quanto fazemos isso o tempo todo: resistimos. Ambas sempre tiveram a família muito presente, das suas formas diferentes, com suas leituras diferentes, mas sempre estiveram ali. A Ju não é muito ligada em paixões tipo músicas ou filmes, o negócio dela sempre foi os bichos e a família. Ela comenta que a mãe dela é a maior inspiração de vida, por ter criado sozinha os filhos, sempre ter se mantido financeiramente da forma que foi possível, ter enfrentado tudo… e sempre ter ensinado todos à serem independentes e fazerem tudo dentro de suas próprias casas. Já a Nicolli, por mais que tenha como sua paixão maior o Grêmio, entende que um ponto mais difícil do seu relacionamento com a família foi o fato de performar a masculinidade ser visto com certo incômodo. Ela nunca recuou, entendia e respeitava seu corpo, enfrentou isso com coragem - e fala sobre o quanto ter coragem de usar bermuda, de cortar o cabelo curto, se você se sente bem, é fundamental. Hoje ela compreende um pouco mais, mas foi se mantendo firme e tendo uma relação mais independente, foi morando sozinha que as coisas realmente mudaram. Além de tudo, a família entendeu que ela é uma mulher adulta, que a sociedade também tem caminhado para entender mais sobre o amor entre mulheres e a mãe dela confia muito na relação dela com a Ju, então todas lidam de uma forma muito melhor com tudo. “Aos poucos o coração vai acalmando e as coisas vão se encaminhando”, ela completa. Foi por causa da família, inclusive, que a Juliana e a Nicolli se conheceram… ou melhor, elas se conhecem quase que desde sempre! Porque a Ju é uma das melhores amigas de infância da irmã da Nicolli. Ela brinca, inclusive, o quanto a Nicolli era uma criança daquelas insuportáveis - que a gente atura porque é obrigada. Ela ia buscar a Nicolli no colégio, tinha que ajudar a amiga a cuidar enquanto a mãe saía de casa… esteve por perto enquanto ela era menor, até a fase da pré-adolescência. Mesmo elas se conhecendo desde a infância, passaram muitos anos sem se encontrar, porque a irmã da Nicolli se casou, foi morar em outro estado e elas perderam o contato entre si. Depois de mais de 10 anos, aconteceu o divórcio e ela voltou para Porto Alegre querendo reunir algumas amigas (entre elas, a Ju)... e foi aí o momento em que as duas se encontraram novamente, saindo para festas e bares. Logo de início não rolou nada, elas conversaram pouco, ficaram amigas, a Nicolli até se fez de cupido e apresentou uma amiga para a Ju. O momento aconteceu mesmo no fim de uma festa open bar, em janeiro de 2019, em que a irmã da Nicolli foi ficar com um cara e elas queriam ir embora, e aí se olharam, foram naquela ideia de “não tinha nada para fazer”, estavam super bêbadas e resolveram ficar sem compromisso algum. Nos dias seguintes começaram a se relacionar, se beijavam de vez em quando em algumas festas, desenvolveram um sentimento… até que no primeiro dia de carnaval a Nicolli pediu a Ju em namoro, mas com uma condição: ela pediria em namoro desde que, no futuro, fosse a Ju quem fizesse o pedido de casamento! Alguns meses depois, passavam tanto tempo juntas que já praticamente moravam na mesma casa. Até que em novembro chegou o momento mais planejado e esperado: o pedido de casamento. Não sei vocês, mas eu não estava (nunca estou, na verdade) preparada para ver esse vídeo. O pedido rolou na Arena do Grêmio, lugar importantíssimo na vida delas, durante um GreNal (clássico Grêmio X Internacional), ao vivo para mais de 45 mil pessoas, no intervalo do jogo. Foi o primeiro pedido de casamento LGBT na história do Futebol. A família foi junto para apoiar, foi uma suuuuuuuuuper surpresa. Enfim, fica aqui o vídeo. ♥ O pedido ficou conhecido em todo o Brasil e para sempre ficará marcado na história do futebol, dxs LGBTs e nossa, das mulheres. É um gesto a ser muito comemorado e lembrado. O futebol ainda nos é muito negado por ser um espaço de predominância masculina, vermos duas mulheres num gesto de amor e carinho tão bonito, apoiado e aplaudido por tantas pessoas, de forma tão diversa, é único e vitorioso. Quando cheguei no apartamento da Juliana e da Nicolli, que fica em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a Nicolli também estava chegando, logo após fazer uma entrega. Fiquei curiosa para saber o que era e elas começaram a me contar sobre a Home (clica aqui pra conferir!! ), uma empresa que criaram juntas pela necessidade de terem uma renda fixa, após as duas ficarem desempregadas na pandemia. A Ju tem 31 anos e é analista financeira, a Nicolli tem 24 e é cozinheira. A Home é um projeto que envolve criarem um cardápio a cada dois meses e comercializarem enquanto opções de alimentação saudáveis, ricos em sabor, ousados, com bastante diálogo sobre o vegetarianismo e sobre comidas que envolvem qualidade. Começou como um jeito também de praticar diferentes técnicas na cozinha, e hoje, quase um ano depois, já montaram vários cardápios: árabes, massas, pizzas, comidas de botecos, padocas… tudo é super artesanal e se dedicar a isso virou a principal renda da casa. Foi encantador ver a forma que elas se organizam para fazer a empresa - e suas rotinas - acontecer. A Ju conta que foi na pandemia em que oficialmente começaram a morar juntas também e como as coisas têm se fortalecido assim. Claro, nem tudo é fácil. Para todos, ocorrem os momentos difíceis e incertos, trazendo diversas inseguranças e nos fazendo perceber tanto defeitos, quanto qualidades. São novos pensamentos que precisamos lidar, mas elas sentem que também estão aprendendo a conviver com seus espaços, construindo seu lar e alimentando esse sentimento de família que sempre foi tão importante. . Juliana Nicolli

  • Maíra e Eduarda

    Assim como os momentos delas serem leves, a família também aprendeu a lidar de uma forma legal com o relacionamento delas. Foi criado até um grupo no whatsapp com elas e as mães e a foto do plano de fundo do celular do pai são as duas juntas. Entretanto, não foi tão fácil no início. A Duda resolveu se assumir, num ato de coragem, durante o segundo turno das eleições de 2018. Estava vendo a grandiosidade do retrocesso na eleição do então presidente foraBolsonaro e entendeu que não cabia mais espaço para se esconder. Foi um período que a violência e os discursos de ódio estavam batendo recorde, então se tornou muito significativo e importante se reafirmar e resistir, mesmo com nossa sensibilidade muito fragilizada somada ao processo de "saída do armário". Hoje em dia, Duda conta que se inspira demais na mãe e fica feliz de ver as famílias unidas. Quando pergunto sobre onde elas encontram o amor e o que elas pensam sobre, dizem que amor está envolvido com a liberdade porque amar é respeitar e permitir ser livre. E amar outra mulher é se identificar, principalmente por entender que a outra passa pelo mesmo que você. A Duda e a Maíra se conheceram na universidade, em 2016. Foi durante a ocupação da UFRGS, que pedia melhorias no sistema de ensino, que elas ficaram amigas e que fizeram um grupo de mulheres lésbicas e bissexuais que participavam da ocupação, onde todas viraram amigas e mantém contato até hoje - inclusive, tatuaram o número da sala que dormiram durante a ocupação, por ter tanto significado nesse grupo. O primeiro beijo entre as duas rolou na ocupação mesmo, mas não virou algo sério em seguida, demorou um tempo... até que (por coincidência) uma foi morar próximo da outra e passaram a se encontrar com frequência. Decidiram tentar algo e foram, cada vez mais, se apaixonando. A relação delas é composta por uma convivência muito leve. Possuem bastante abertura para falar sobre tudo e contar com o apoio mútuo. As duas têm diversas tatuagens juntas, de divertidas à frases significativas e as histórias sempre remetem à: estávamos bêbadas e tivemos a ideia de tatuar isso, no fim, amamos. A Duda tem 22 anos e é natural de Progresso, uma cidade bem pequena no interior do Rio Grande do Sul, além de ter morado boa parte da vida em Lajeado, também no interior. No fim do ensino médio, passou no vestibular e se mudou para Porto Alegre. Cursou história e hoje em dia faz mestrado enquanto trabalha como Analista de Relacionamento em uma startup, a TAG. A Maíra tem 23 anos, é natural de Porto Alegre, está se formando em ciências sociais e em busca de um emprego atualmente (mandem jobs! tem alguma vaga para indicar? clica aqui! ). Ela adora assistir o jogo do Inter, ler, caminhar por aí e cozinhar. Cozinhar, inclusive, é o que elas mais amam fazer juntas. Além disso, brincam que estão sempre sendo taxadas como "pessoas que não param quietas". Gostam de caminhar pelo bairro, de viajar, de ir em trilhas, cachoeiras... de ver gente e de ver mato. Elas já participaram de diversos projetos envolvendo uma certa militância também, como o Lésbicas que Pesquisam (um espaço de visibilidade à presença lésbica na academia) e o Pedal Pela Memória (passeios ciclísticos que envolvem contar a história da cidade de Porto Alegre). Logo que cheguei no apartamento da Duda e da Maíra vi que o nome do prédio era 'Maíra' e brinquei "já entendi porque vocês escolheram morar aqui". Então, desde o começo, subindo as escadas, fui ouvindo o quanto elas terem se mudado para o novo apartamento foi tão importante. Antes de chegarem aqui, a Duda dividia apartamento com umas amigas. Era legal, mas a relação delas não era a mesma coisa, sempre sonhavam em ter um cantinho só delas. A Duda decidiu procurar um apartamento num bairro vizinho, mais calmo, na zona central de Porto Alegre. A pandemia foi como um "test drive" para a Maíra passar um tempo nessa nova casa e elas entenderem se conseguiriam viver juntas assim. Aos poucos foram decorando como gostam, colocando a carinha nas estantes, na sala, na cozinha... Têm sido muito bom e dado muito certo. Hoje em dia elas tiram momentos no dia para conversar sobre assuntos aleatorios e trabalham dentro de casa. Comentam que sair da Cidade Baixa, o bairro mais movimentado (e por consequência violento) e ter se mudado para o Bom Fim ressignificou até a forma que olhavam a cidade. Sentiam muito medo e planejavam sair do estado antes de encontrarem esse apartamento, agora, sentem que tem conforto para colocar os planos de mudanças mais para frente e ir planejando com calma. Eduarda Maíra

  • Bruna e Fran

    a palavra está com elas Desejamos que esse veículo criado com tanto carinho pela Fê possa possibilitar encontros e identificações. Somos duas mulheres que se amam e desejam que as Zami’s e sapatas da vida possam amam pluriversalmente. Se precisarem podem nos encontrar no @pretadireta e @quedebatee. Um grande beijo cheio de axé! Bruna produz conteúdo na internet, é um hobbie muito grande. Fala sobre a negritude, a saúde (por ser técnica de enfermagem), sobre a diversidade e a inclusão. Ela se inspira sempre na avó, porque foi a mulher que fez tudo por ela e que ensinou a nunca desistir. Quando pergunto sobre como foi enfrentar a pandemia na linha de frente, ela diz que foi um dos maiores desafios que já viveu - “enquanto todos estavam em casa, eu estava saindo para trabalhar”. E fala, também, sobre como para as duas é difícil viver esse período (e o governo Bolsonaro). Por outro lado, entendem e se fortalecem na importância que tem a profissão delas para a sociedade e tentam conscientizar o máximo de pessoas falando sobre a importância de nos cuidarmos em tempos tão incertos. A Fran gosta muito de se envolver em grupos de pesquisa e também faz yoga. Ela e a Bruna se conheceram pelo Facebook, e a Bruna, na maior cara de pau (calma, amiga, não fica com vergonha!!), mandava um textinho “tipo copia e cola” xavecando as meninas. A Fran deu bola e elas trocaram uma ideia, que segundo a Bruna, “foi muito culta e eu não entendi nada direito”. E vocês acreditam que um tempo depois a Bruna achou ela no Instagram, não se ligou que era a mesma pessoa e mandou o texto novamente??? A Fran realmente não entendeu nada, mas seguiu o papo. No dia em que elas tiveram o primeiro encontro, era aniversário dela! E a Bruna levou chocolates, foram numa loja, depois na Casa de Cultura Mário Quintana e comeram um xis. Na hora de ir embora, a Fran tomou a iniciativa do beijo. Deu certo. Quando pergunto como elas se sentem morando em Porto Alegre, elas dizem que amam estar na Cidade Baixa (o bairro boêmio), mesmo que agora, na pandemia, circulem pouco. Falando em circular, até mesmo antes da pandemia, isso já era uma questão complicada pelo medo de andarem por aí e sofrerem violência - assaltos, violência urbana e também hostilidades por serem mulheres andando na rua de mãos dadas. Já sofreram assédios e passaram por momentos difíceis na rua e isso faz com que elas estejam sempre em alerta (se uma sai mais feminina, a outra não está tanto… dependendo do horário ou da rua tentam não dar as mãos…) e comentam que se pudessem mudariam a educação das pessoas, o jeito que nos olham e que os homens invadem nossos corpos. Em uma hora, brincamos sobre a vontade de viver numa cidade sem os homens agindo dessa forma, mas logo chegamos na conclusão de que isso seria muito pior: não queremos que eles sumam de vista, sendo machistas só que em outro espaço, mas sim que deixem de ser. Que se reeduquem, que nos respeitem. Se simplesmente tiramos eles da nossa bolha, eles nunca vão aprender. Mas ainda sobre a Cidade Baixa, quando pergunto o que mais gostam de fazer juntas, vem logo um sorriso no rosto das duas: preparar coisinhas para comer e beber, subir no terraço e ficar lá, conversando, ouvindo música e rindo sobre a vida. Nesse momento entendi que é onde elas percebem que formaram um lar. ♥ A Bruna tem 22 anos, é técnica de enfermagem e desde 2017 namora a Fran, que tem 24 anos e é assistente social. Ano passado, diante do começo da pandemia, decidiram morar juntas. Alugaram um apê, adotaram uma cachorrinha (que é absurdamente feliz!) e se sentem em construção (e desconstrução!) o tempo todo: no lar, no relacionamento, na prática e na ideologia. Quando pergunto sobre o amor, elas respondem logo que amar envolve respeitar. Com a relação, elas têm entendido que não são pessoas perfeitas e nem vivem uma vida perfeita, e que o amor precisa dar conta disso, ser sincero, não exigir algo que não existe. Elas estão sempre repensando sobre a parceria que constroem e que não querem ultra romantizar o fato de serem duas mulheres negras, retintas, que se relacionam. Vivem isso na prática. Bruna falou que, no geral, para mulheres negras é difícil romantizar e ter seus corpos romantizados porque as coisas nunca foram bonitas, tudo o que se foi conquistado envolveu muita luta. Suas ancestrais sempre tiveram as coisas sendo negadas, suas mães, avós, bisavós… sempre foram tratadas apenas como amas de leite. E para entender o amor e as relações, agora, elas precisam se olhar, olhar para o relacionamento, se amar enquanto indivíduo e "amar a outra mulher que é como você". O amor, é também, trazer a pessoa para perto, entender onde se erra e onde se acerta em conjunto porque na prática a vida consegue ir e vir além do coletivo (e do que estudamos sobre as relações humanas na teoria). Elas buscam sempre entender de onde vêm os sentimentos, saber como deixar a comunicação mais aberta e se apoiar sem invadir o espaço de cada uma. Só se prontificar a entender a dor de outra mulher, às vezes, não é o bastante. São diversos tipos de dores diferentes que podemos sentir e precisamos de tempo para processar. A Bruna e a Fran são mulheres que frequentemente pensam na ressignificação das coisas. Quando passam por alguma dificuldade, tentam compartilhar ao máximo para gerar apoio, mas também respeitam o que pode ser algo profundo e interno e dão o espaço necessário para cada uma se reorganizar espiritualmente. No fim do dia sempre tentam, de alguma forma, compartilhar como foi, o que têm pensado… dividir felicidades e angústias. Bruna Fran

  • Júlia e Yasmin

    Julia e Yasmin foram documentadas no lugar que se conheceram, a Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. Elas amam o pôr do sol e também contemplam o espaço andando de bicicleta. Foi lá, em 2019, num evento chamado “Noite dos Museus” que elas se viram pela primeira vez, mas já estavam conversando há cerca de um mês por vídeo-chamadas, depois de darem “match” num aplicativo de relacionamentos, o Tinder. Yasmin conta que deixou o celular com um amigo e com a irmã, então foram eles quem escolheram as pessoas no aplicativo e que, inclusive, deram match com a Júlia. Acabou que a Júlia a chamou e elas começaram a conversa, as chamadas e o encontro no museu. Elas se encontraram ainda na parte da tarde, mas ficaram noite adentro até virar. Não chegaram a se beijar, mas não foi por falta de investidas, só acabou não acontecendo. Dois dias depois se reencontraram, e então, o beijo aconteceu. A partir daí, tudo acelerou: em duas semanas já estavam namorando. Júlia está com 24 anos, é professora e também já trabalhou com pesquisas. Seu sonho é seguir a carreira acadêmica. No momento da documentação, ela morava com seu cachorro, seu gatinho e ocupava sua rotina nas vídeo aulas. Como hobbie, já escreveu muita poesia, mas no momento está em pausa. Yasmin está com 25 anos, é enfermeira e adora praticar esportes. Já jogou handebol, futsal e vôlei. Adora movimentar o corpo de forma espontânea. Quando adolescente, Júlia não se sentia pertencente a nada, se achava esquisita e foi quando resolveu pesquisar na internet se ela podia se apaixonar por outra mulher. Acabou se entendendo enquanto uma mulher lésbica, mas não podia se assumir, até que aos 17 anos se assumiu, no final do ensino médio. Ela entende que o amor entre mulheres envolve algo a mais, além da questão política do dia a dia, como uma ligação mais forte que engloba todas as nossas vivências históricas e sociais. A Yasmin conta que também não se sentia pertencente a nada, e que isso muito parte do princípio da falta de representação: ser uma mulher negra e lésbica não faz parte dos espaços - até o próprio termo ‘lésbico’ pouco é referido à mulheres negras. Para ela sempre foi difícil se ver inserida, pois sempre faltou uma representação. Ao falarmos sobre o amor, Júlia diz que ama amar, mas não sabe definir o que pensa sobre o sentimento amor. Conta que, aos quinze anos, perdeu sua mãe para o câncer, e isso a ensinou muito sobre amar e sentir compaixão. Ela entende que estar junto é se entregar de corpo e alma, e que assim, o amor não permite julgamentos, ele simplesmente acontece. Além disso, também não parece ser um sentimento passageiro: o amor não vai embora. Ao escrever algumas poesias, em uma delas dizia que o amor é como um monstrinho no coração: Cada pessoa que se ama é um monstrinho no seu coração e alguns são mais agitados como dançarinos, já existem outros que são tranquilos. Yasmin completa a fala da Júlia sobre o amor dizendo que, para ela, o encontro delas foi um encontro de almas: uma conexão muito forte desde o início. Elas se entregaram por inteiro e não tiveram medo da intensidade, então muito do que aprendeu sobre o amor foi nessa entrega e nessa construção de relacionamento. Júlia Yasmin

  • Taynah e Estrella

    Particularmente falando, fazer o texto da Taynah e da Estrella foi um dos mais difíceis que já fiz no Documentadas, visto que a Taynah é uma das minhas melhores amigas (e inspirações!) dessa vida. Desde muito antes de lançar o Documentadas eu compartilhei com ela essa ideia, quando o projeto ainda não tinha nome (ou pior, tinha um nome bem ruim, rs. fases). Além disso, sempre brinquei também: “Agora você precisa arranjar alguém para aparecer no site, né amiga?!” Pois bem. Fui embora de Porto Alegre no dia 7 de março de 2021 para que o Documentadas lançasse no dia 10, no Rio de Janeiro. Naquele dia, a Estrella tinha acabado de chegar na casa da Taynah e foi naquela semana que o relacionamento delas começou. Hoje, subir essa história na plataforma e ver minha amiga de tantos anos, que admiro e que representa tanto na militância lésbica brasileira, com sua companheira, amando e sendo feliz, é, para mim e para todas nós, sim, um marco muito potente. Que vocês sejam felizes e que amem muito! ♥ Agora que já dei uma breve introdução sobre o assunto, rs, posso também dar uma introdução sobre quem é a Taynah e quem é a Estrella. A Taynah estava com 25 anos no dia que fizemos as fotos. Ela trabalha como militante, política há muitos anos e representa o PSOL em espaços como a Assembleia Legislativa. Dentro do partido, ela fica responsável pela produção de eventos e diversas outras tarefas. Ela é natural de Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre. Toda a família mora em um sítio e ela brinca que fugiu de lá para militar. É toda da área de exatas, mesmo debatendo o tempo todo ciências políticas. É também uma pessoa bruta, muito justa, com um jeitão fechado, mas um coração gigantesco que na primeira oportunidade tá soltando uma gargalhada. A Estrella estava com 23 anos no dia que fizemos as fotos. Ela é estagiária de direito e também atua o tempo todo enquanto militante. Nasceu em Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul, e por mais que grande parte da sua família mora lá, ela reside em Porto Alegre. Estrella adora coisas manuais, como tricotar e bordar. Também adora passar parte do dia com os seus cachorros, o Banguelinha e o Guri. A Estrella conta que tem como referência uma amiga, a Carlinha, que é amiga de militância e uma figura importante na vida das duas (não só enquanto um casal), é alguém que a inspira. A Taynah completa que para ela, as referências femininas estão por perto também, são a Gabi e a Mari, duas dirigentes que possuem um nível de militância e organização política que ela almeja ter. Foi impossível desvincular nosso papo do dia a dia militante em que elas estão inseridas. Foi na militância que elas se conheceram. Não lembram o momento em si porque foi cotidiano, há bastante tempo atrás. Mas foi um pouco antes do ano novo, já durante a pandemia, que elas se aproximaram. Um grupo de amigos em comum, do mesmo coletivo, não tinha onde passar o ano novo porque estavam num momento ruim financeiramente. Eles já se encontravam na casa da Taynah com frequência porque ela costuma receber amigos, mas não queriam ficar lá durante a virada de ano. Alguns desses amigos jogavam vôlei na orla do guaíba para movimentar o corpo durante a pandemia e teve um dia que a Estrella apareceu por lá... Depois do volêi foram todos para a casa da Taynah e ficaram jogando UNO, lá, elas contam que a Estrella deu a “primeira pedrada”, ou seja, lançou o primeiro flerte. Assim, de cara. Na época ela estava saindo de um relacionamento, colocou um ponto final. Nisso, o pessoal passou um tempo reclamando de relacionamentos, ou melhor, de homens. Foi aí que a Taynah falou, “Ah, com mulher também não é fácil!’’ e a Estrella respondeu “É, porque tu não namorou comigo ainda.” e depois de soltar isso ela foi embora. Sim, ela só falou isso quando já estava indo embora. Os amigos até se assustaram de tão direto que foi. Uns dias depois desse susto na saída, chega o famigerado ano novo. Todos foram para uma casa do irmão da Taynah, próximo do sítio em que a família dela mora. Eles chamaram os amigos e a Estrella foi incluída na lista. No último dia do ano novo elas ficaram, numa brincadeira de verdade ou consequência que foi a maior armação dos amigos (afinal, quem tem amigo, tem tudo né). [Eu, enquanto amiga, saindo um pouco desse caráter documentário, posso afirmar que só recebi uma mensagem dizendo assim “Amiga, a gente tem que fazer uma chamada pra eu te contar do Ano Novo!” E respondi com certo receio sabendo do histórico… “Aí… O que aconteceu?” “Aí, muitas coisas” (Risos). Então eu falei “Taynah, tenta dar uma explicada…” e ela foi me contar de CERVEJA. Posso com isso? Quando ela falou o nome da Estrella passei a entender tudo.] Um tempo depois, elas se encontraram novamente, no fim de janeiro, na casa de uma das amigas em comum, mas não se beijaram. Foram enrolando a situação por mais um mês, até que a Estrella foi novamente para a casa da Taynah, exatamente com as pessoas que estavam no ano novo, e finalmente elas ficaram. A partir do momento que elas ficaram, nunca mais desgrudaram. Foram ficando dias e dias juntas, a clássica história da paixão arrebatadora. Inclusive, existiu um super elaborado pedido de namoro, com a participação dos amigos [eu, Fernanda, que escrevo, inclusive, participei] muito lindo e brega. É muito interessante e legal revivermos o brega, de um jeito ótimo, do pedido de namoro, visto que a Taynah sempre teve um bloqueio de não se jogar de fato nas relações, no sentido de sempre ser muito racional. O bloqueio chegava a ser um certo ranço de casais muito apaixonados, dizia que nunca iria viver algo desse tipo. Quando eu falava para ela aparecer no Documentadas, era uma gargalhada e um sinal negativo com a cabeça… E agora ela conta que é um relacionamento totalmente diferente do que já pensou viver. A única dificuldade encontrada é no trabalho e na militância excessiva, por conta das demandas de reuniões até tarde e espaços pequenos para estarem juntas. A Estrella brinca dizendo que às vezes elas precisam marcar na agenda… Marcar e dar uma enrolada, pra dar mais tempo de poder ficarem juntas. Sobre isso, especificamente, elas entendem que vivem fases diferentes dentro da própria militância, a Estrella está no que chamamos de “juventude”, que é algo muito mais dinâmico. A Taynah entende que ela tem que passar por essa parte do trabalho, viver e aproveitar mesmo, inclusive porque não é um problema pra ela militar demais, que admira e também trabalha, mas que precisam entender os limites delas também para que possam ficar juntas um tempo. Esse limite está em não pegarem no celular quando estão aproveitando o tempo unidas, terem um vínculo de conversas ativas, de aproveitar o que gostam e de se doarem à relação. Estão sempre bebendo uma cerveja juntas, jogando um UNO com os amigos, cuidando dos cachorros, jogando jogos online e assistindo Greys Anatomy ou outras séries. São momentos só delas, que elas fazem de tudo para aproveitar esses detalhes. Dentro da militância LGBT, a Taynah teve muito contato com diversos âmbitos diferentes sobre as nossas pautas e ela fala da importância de coisas mais básicas, como a escola e a educação para a diversidade, desde coisas mais pontuais, como os abrigos para LGBTs expulsos de casa. Ela entende a necessidade de um abrigo que dê teto mas que também forneça formação, atendimento psicológico e social, faça o trabalho completo. E um serviço que seja feito pelo estado, por mais que existam ONGs, isso precisa ser oferecido pelo estado! Precisa ser visto como um direito. A Estrella fala sobre esse ser o primeiro relacionamento dela com uma mulher e como isto abriu o olhar para algo dentro da própria maneira de militar, porque ela sempre foi do movimento feminista, mas nunca atuou diretamente em pautas LGBTs. Quando a Taynah falou sobre os abrigos para LGBTs, na mesma hora ela pensou sobre e chegou à conclusão de que no Rio Grande do Sul só tem 14 casas para abrigar mulheres, enquanto LGBTs não há nenhuma. “E a mesma importância que eu dou hoje pra mulheres, porque é onde tô mais inserida na militância, seria o mesmo apontamento que eu daria pra LGBTs porque eles sabem da realidade serem expulsos de casa e não terem nenhum tipo de assistência, seja familiar ou social.” Por fim, para a Estrella, o amor está muito baseado na compreensão, no respeito e na confiança. A compreensão de entender as necessidades do outro, entender o que o outro está passando e querer ajudar. Sem que isso seja uma obrigação, mas por querer ver a pessoa bem. Independente da pessoa ser namorada, amiga ou família. Respeitar a própria personalidade da pessoa, saber respeitar, lidar e mediar. A Taynah conta que por ser uma pessoa lida enquanto bruta, ela nunca encontrou o amor no afeto carinhoso. “Acho que o amor é muito mais na doação do que tu tem em relação a outra pessoa. Então por isso, concordo muito com a Estrella sobre a questão de fazer com que a pessoa se sinta bem, de evitar magoar as pessoas ou se doar mesmo de uma forma pra sociedade, né?”. Ela fala que enquanto vivermos em sociedade, estamos sempre compartilhando, mesmo que num mundo que compete o tempo todo. “Pra nós é diferente o afeto que é ensinado e colocado. Eu acho que é uma coisa totalmente diferente, e eu apesar de ser uma pessoa muito racional, também sinto muito. Sou uma pessoa que sente bastante. Acho que talvez o amor entre mulheres seja um amor revolucionário de fato. Não só de uma frase feita, né? É uma relação onde tu tem que te explicar o tempo todo, te afirmar o tempo todo e por isso acho revolucionário mesmo. Porque tipo, eu já milito há oito anos e faz sete que eu saí do armário e eu não vivi um dia até hoje onde eu não tivesse que me afirmar.” Estrella Taynah

  • Debora e Paula | Documentadas

    ↓ rolar para baixo ↓ Foi através de um post (de uma pessoa que a Débora nem seguia, mas apareceu no Instagram), em que uma menina explicava a origem do termo “sapatão”, que ela viu o comentário da Paula dizendo que era “sapatão com orgulho” e respondeu. Se interessou pelo perfil da Paula, viu que moravam em cidades próximas, no Rio Grande do Sul, e seguiu puxando um assunto. A conversa fluiu por alguns dias. Na época, Débora trabalhava em um café e tinha folga aos domingos, então resolveram marcar um chopp. Paula, por sua vez, estava muito atarefada, cansada, não tinha dormido à noite e decidiu descansar 40 minutos antes do encontro acontecer. Resultado: pegou no sono. Quando acordou, achou que Débora teria bloqueado, nunca mais olharia na sua cara por conta do bolo, mas Débora entendeu. Na terça seguinte decidiram sair e como é mais difícil arranjar um local durante a semana resolveram encontrar na Casa de Cultura Mario Quintana, local que fizemos as fotos, no dia em que as chuvas históricas começaram no Rio Grande do Sul (nem imaginávamos). No começo, antes mesmo de namorar, já deixaram claro o que queriam: Débora disse que buscava alguém para casar, para construir algo sólido. Enquanto Paula disse que não pensava em casar novamente. Débora viveu um relacionamento onde a pessoa não era assumida e sentia muita falta de não poder viver uma “vida de verdade”, não poder passar datas importantes com a pessoa, não poder conviver em família… e depois lembra que comentou com a psicóloga o quanto tinha medo da Paula pensar que ela era louca por dizer algo assim, mas que no fundo era simples: se ela sabe o que ela quer, precisa comunicar, não tem porque não dizer para a pessoa e ficar numa relação “perdendo tempo”. Paula entendeu. E nosso dia foi tão marcante, mesmo com tanta chuva, justamente por isso: o pedido de casamento chegou. Elas decidiram firmar essa união em meio à nossa documentação. Para Débora, a parte mais importante do amor é se sentir amada, falar sobre o amor, demonstrar. Conta que quando era criança aconteceu um acidente de carro na sua família e algumas pessoas morreram, um dia antes ela tinha dito para um dos tios, que faleceu, o quanto ela amava ele e ele respondeu “eu sei”, então ela questionou “como você sabe, se eu nunca havia te dito?” e ele explicou “porque eu sinto, você demonstra isso”. Desde então, faz muita questão de demonstrar o amor para todos que ama, entende a importância das pessoas se sentirem amadas sempre. Brinca que a primeira vez que disse para a Paula que achava que a amava, ela disse: “Sim, eu sou muito amável!” e que essa quebra de expectativas que ela provoca faz tudo ser ainda melhor, faz rir, faz a parceria e o diálogo aumentar, faz com que ela se sinta muito mais amada também. Paula conta que por diversos traumas de infância/adolescência via muitas barreiras na hora de sentir e demonstrar afeto. Para ela, Débora pegou esse muro de concreto e derrubou num empurrão só. Então, um relacionamento com comunicação, expressão, sem julgamentos é algo muito novo, mas também importante e difícil. Ela ama as convivências com as famílias (rituais muito específicos com merengue na cara e tudo mais), a forma que estão dispostas e como podem contar uma com a outra. Contam também sobre a Paula estar trabalhando em uma imobiliária (que já trabalhou há anos atrás, voltou agora) e que decidiram assinar a união estável num dia, sem combinar muito ou planejar. Acabaram chamando os colegas dela para serem testemunhas, eles ficaram bem empolgados e emocionados, toparam na hora. E isso fala muito sobre as formas que elas levam a relação. É o espírito: Bora? Bora! Débora, no momento da documentação, estava com 33 anos. É natural de Porto Alegre, mas morou nas cidades metropolitanas de Cachoeirinha e, agora com a Paula, em Sapucaia do Sul. Formou-se em relações públicas, atua na área de vendas. Ama bichos, tem um coelho e uma cachorra. Adora dedicar o tempo livre para ler, visitar museus, comer, dormir, passear pelo centro histórico de Porto Alegre e também participa de um projeto que caminha por pontos em que aconteceram situações da ditadura na cidade, fazendo esse resgate histórico. Paula, no momento da documentação, estava com 43 anos. Nasceu em Esteio, região metropolitana de Porto Alegre e hoje mora em Sapucaia do Sul. Trabalhou na indústria e fez uma migração para o setor imobiliário. Como hobbie, é árbitra de atletismo, fazendo também cronometragem de corrida de rua. Além disso, adora passear por Porto Alegre e sente que está redescobrindo a cidade junto com a Débora. Depois do início do relacionamento, Débora trocou de trabalho e conseguiu um que ficava “no caminho” da casa da Paula (considerando que as distâncias eram bem mais longas antes) e foi então que decidiram morar juntas. Foram juntando as coisas aos poucos e, pra falar a verdade, até hoje quando vão visitar os pais de Débora voltam com alguma mochila no carro pegando um pouco mais de coisas. Comentam bastante sobre essa adaptação familiar, também, porque Paula tem um filho de 21 anos. Débora fala sobre o quanto ela gostaria de ter uma família e que Paula chegou com “um combo completo”: filho, sogra incrível, família grande, etc. Citam um ano novo que passaram juntos, na casa dos pais da Débora, jogando, rindo, muito parceiros, ele com a namorada e quando ela se deu conta, entendeu: “É isso que eu quero pra minha vida”. Débora Paula

  • Tamires e Fran

    Durante o tempo que passei documentando a Tamires e a Fran, tivemos várias conversas sobre a vida, o amor que elas sentem uma pela outra, a história delas em si, as brincadeiras, a vida individualmente, trabalhos, amigos… mas o que vi se destacando o tempo todo, indo e voltando nos assuntos, foi a família. São muito ligadas às suas famílias e às famílias uma da outra, nem fazem mais separação enquanto “a família da Fran” ou “a família da Tami”, virou uma só. A lista é extensa quanto aos elogios à forma como Tamires foi acolhida na família da Fran desde o momento em que assumiram o namoro. Hoje em dia, aos domingos, a rotina do casal é ir até à loja de frango assado que os pais dela possuem no bairro para ajudar nas vendas - o que elas realmente adoram fazer. Ressaltamos a importância de falar sobre isso em espaços como o Documentadas e mostrarmos como é possível que mulheres que amam outras mulheres tenham o apoio de suas famílias e relações saudáveis, incluindo chá de casa nova quando compram um apartamento, rede de apoio, etc. Tami explica que por mais que hoje em dia tudo isso tenha sido construído e que essas questões estejam realmente muito bem, ela (diferente da Fran) precisou passar por vivências difíceis em casa quando se entendeu enquanto mulher lésbica. Saiu de casa muito jovem, viveu o preconceito e ficou dois anos afastada dos pais. Reformulou, fez o esforço da reaproximação e reconstruiu tudo, foram quebrando cada preconceito. Hoje em dia, vivem bem e a mãe adora a Fran (e também já passou por contato com outras ex-companheiras), o que pra ela é uma conquista gigante. Enxergar o amor enquanto ação é fundamental na relação e isso também está voltado à família. Quando foram morar juntas, decidiram configurar como seria o contato com os pais, não queriam dar menos atenção ou deixar de lado. Precisavam manter o afeto e o cuidado. Dão risadas quando lembram que a família da Fran mandava mensagem sobre tudo, até sobre como se mudava o canal da TV. Entendem que isso também é apoio, é sobre estar perto. Hoje em dia a autonomia é outra, mas o amor se mantém. Foi na escola que se conheceram, eram colegas desde a 4° série do ensino fundamental. Não eram super amigas, principalmente porque a Fran era mais próxima dos meninos e a Tami era mais patricinha. Na pré-adolescência, Tami chegou a “ficar” com um amigo da Fran, enquanto Fran nutriu uma paixonite por ela na 7° série. Até a chegada do Ensino Médio foram colegas, depois se afastaram com as mudanças de escola. Em 2021, na pandemia de Covid-19, fizeram um grupo no Whatsapp pelos 10 anos de formatura e por conta do tédio da pandemia em si ficavam conversando bastante. Começaram a falar sobre Tinder, mandaram a foto dos seus perfis, até que a Tami cruzou com a Fran no Tinder, deu um ‘superlike’ nela e enviou a foto no grupo. Deram match, mas não sabiam se era de brincadeira ou não. Quando a Tami lançava um flerte, Fran respondia com memes e ela nunca sabia se levava a sério. Em um certo momento, Tami chamou a Fran para sair, mas como ainda não haviam tomado vacina (a vacinação estava sendo por idade), Fran não topou. Demorou um tempo, até que se vacinaram e se encontraram na casa de uma amiga. Fran decidiu contar sobre a paixão que tinha na 7° série - e quando se encontraram pessoalmente já achavam que estavam apaixonadas também. No momento da documentação, Tamires estava com 30 anos e trabalhava num programa de prevenção à violência na Secretaria do Município de Canoas, enquanto assessora jurídica. Além disso, faz doutorado na PUC-RS, pesquisa sobre violência contra a população LGBT+. É natural de Porto Alegre e no tempo livre gosta de ver os amigos, a família, ir ao cinema, ficar em casa, ler e assistir documentários. Francielli estava com 30 anos no momento da documentação e também é natural de Porto Alegre. Trabalhava enquanto analista de suporte, em tecnologia da informação (TI). Ama jogar videogame, gosta de livros de ficção, adora acompanhar a Tami vendo os amigos dela e gosta de cozinhar em conjunto (Tami corta os legumes e ela prepara a comida, por exemplo). Foi numa prainha no bairro em que elas estudavam em que fizemos as fotos, neste lugar se beijaram e, tempo depois, tiveram a primeira discussão sobre os primeiros passos da relação. Sentem que o bairro em si é muito importante porque esteve presente em toda a vida delas. Essa discussão, em especial, foi logo que começaram a se envolver. Na época, Tami não tinha relacionamentos há um bom tempo e se questionava de que forma iria se relacionar com alguém novamente… não sabia se estava preparada… por um bom tempo sentia que não conseguia se doar nas relações e tinha medo das pessoas não conseguirem lidar com suas questões de saúde mental. Mas ao mesmo tempo, estava apaixonada pela Fran e queria muito estar com ela. Precisava entender se ela queria também, se estava sentindo o mesmo e se desejava a relação com ela, mas tinha medo. Tiveram uma longa conversa e Fran se mostrou disposta. Tami e Fran namoraram durante um ano, até que Tami estava decidida a sair novamente da casa dos pais (já havia morado sozinha e dividido apartamento algumas vezes) e conversou com a Fran sobre morarem juntas. Fran nunca tinha saído da casa dos pais, mas não queria alugar um apartamento. Comentou sobre a possibilidade de comprarem um espaço. Tinha um dinheiro guardado, a família poderia ajudar um pouco e o resto quitariam. Tami não gostou da ideia no início, principalmente por elas nunca terem tido uma vivência juntas e a Fran não saber como seria morar longe da família. Brinca que a Fran nem “sabia de que lado o sol nascia, de que lado gostava do sol nascendo em casa”, por só ter morado em um lugar a vida toda. Foram amadurecendo a ideia, os pais da Fran ajudaram e elas começaram a procurar lugares para morar, até que chegaram no condomínio que moram hoje e gostaram bastante. A mudança aconteceu e entendem que está dando certo a vida na casa nova. Conseguiram mobiliar com a ajuda da rede de apoio - família e amigos - e aos poucos estão pagando este apartamento que é delas (e que a Tami às vezes nem acredita, risos). Entendem que por mais que a Fran ainda tenha uma grande dificuldade de demonstrar sentimentos e faça piada com tudo, Tami sempre instiga, pergunta, faz questão de saber como ela está se sentindo, sobre o que ela deseja e se estão ou não em sintonia. Explicam que nunca foram de brigar, muito menos de estar aos berros, mas que possuem muitas conversas sérias sobre o relacionamento, a vida, o que querem e onde querem chegar. As conversas difíceis precisam existir para se alinhar. E isso também é sobre o amor e a parceria que possuem. Explicam que às vezes tem coisas que “nem precisaria”, algumas discussões ou ações… trazem o exemplo de que uma está com um problema de saúde e precisa ir na academia, então ambas vão, não precisaria que fossem juntas, mas estão indo. Por parceria e por apoio. Por alinhamento. Acreditam que as coisas ficam melhores assim. Recentemente, fizeram uma viagem juntas para São Paulo, e quando pergunto sobre como elas se sentem sendo mulheres que amam mulheres dentro de uma cidade como Porto Alegre, Tamires rapidamente cita essa viagem. Ela conta que ama estar em SP e vai sempre que possível, gosta principalmente porque lá ela não se sente estranha, deslocada… se sente parte de tudo. Não se sente divergente. Entende que em todas as cidades as pessoas são múltiplas, mas que lá isso está bem misturado ao ponto de não nos destacarmos. Ela sempre se viu enquanto alguém que é muito urbano e também enxerga Porto Alegre enquanto uma cidade muito urbana, viva, dinâmica e cheia de cultura, mas fica triste por se sentir deslocada por ser quem ela é. Sempre foi a pessoa diferente, ainda mais estudando direito, era a deslocada. Para o futuro, não deseja mais ser. Quer ver cada vez mais pessoas negras em todos os espaços que ela frequenta, casais de mulheres, “mais de nós”. Por fim, falamos também sobre as importantes mudanças que podemos fazer nas nossas relações, nos reinventarmos sem as heteronormatividades, fazermos do nosso jeito, reconstruímos uma relação entre mulheres que nos represente de verdade. ↓ rolar para baixo ↓ Francielli Tamires

  • Natasha e Jéssica

    Por mais que a história da Jéssica e da Natasha só tenha virado um registro no Documentadas depois de 6 meses de projeto no ar, ela chegou aqui lá no começo, antes mesmo de nos conhecermos, logo na segunda vez em que coloquei o corpo na rua e me dediquei a fotografar um casal: Quando a Rebecca e a Priscila, duas mulheres que já apareceram por aqui, me contaram empolgadas que havia uma história que eu precisava conhecer. Eu ouvi um “É tipo aquelas histórias de mulheres que tão juntas há muito tempo! Que a vida deu várias voltas. Elas se reencontraram e agora ela se mudou para Porto Alegre e se casou nesse reencontro! É a minha prima! Vou te passar o contato dela!” e bem que pensei “É possível! Eu vou passar por Porto Alegre em breve.” Quando encontrei a Natasha e a Jéssica em Porto Alegre e conheci toda a grandiosidade da história entendi que as mulheres realmente fazem tudo - e que a vida sempre dá uma forcinha quando quer nos juntar, né? A Natasha e a Jéssica se conheceram há muitos anos atrás, por conta de uma amiga em comum, quando eram adolescentes. A Jéssica é natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e a Natasha é natural do Rio de Janeiro, a capital. Ambas conversavam pela internet e participavam de comunidades no Orkut sobre gostos em comum, entre eles, uma série chamada Buffy. O que tinha de mais especial que unia a série é que elas já gostavam muito, até que em certo momento a série virou uma febre e aconteceu o surgimento de um casal LGBT, sendo uma referência muito grande para diversas adolescentes daquela época. Foi por conta desse casal, da série e das comunidades no Orkut e dos grupos no MSN que a Jéssica e a Natasha realmente se aproximaram, mas a Jéssica tinha uma visão de que a Natasha era meio “doidinha”... ela chegava das festas de madrugada e ficava online, era muito agitada… enquanto a Jéssica era mais tímida e mais quieta. A Jéssica se envolveu com uma amiga em comum da Natasha, um tempo depois elas terminaram e, como ela conversava muito com a Natasha, surgiu o convite de conhecer o Rio de Janeiro. Elas eram super jovens, tinham 18 anos e ela decidiu ir passar as férias por lá. Assim que se encontraram no aeroporto entenderam que havia algo diferente e, no fim das férias, já estavam namorando. Naquela época, sem a existência dos sinais de wi-fi ou internet móvel, o que restavam eram as contas de telefone - por sinal, caríssimas. Então acabaram assumindo o relacionamento à distância quando a Jéssica voltou até Porto Alegre e se encontravam cerca de três em três meses, dependendo das circunstâncias. Até 2009 o namoro aconteceu nessa distância, quando os pais da Natasha se mudaram para o interior fluminense e a Jéssica decidiu morar no Rio de Janeiro. Foi uma realidade bem diferente. Elas dividiram o apartamento, porém entendem que eram muito jovens, tinham 19/20 anos, eram bastante imaturas, trabalhavam como estagiárias, queriam ser independentes mas na verdade ganhavam pouco e os pais eram quem bancavam as contas da casa. Elas também construíam uma relação com bastante ciúme, então criavam desgastes e atritos que acabavam gerando desconfiança, era muito difícil suportar. Foi quando a Jéssica começou a se sentir sem liberdade dentro do relacionamento e entendeu que era o momento do término e voltou a morar em Porto Alegre. Hoje em dia, a Jéssica e a Natasha estão com 33 anos. Jéssica trabalha como administradora e logística na parte de planejamento de produção em uma empresa de laticínios e Natasha é formada em gestão financeira, mas atua na área de planejamento e controle orçamentário. Elas brincam que não são o tipo de casal que gosta de ficar em casa dormindo, mas aquele que ama viajar. Que cria roteiros, que quer comprar um carro e andar pelo mundo! Elas gostam de se movimentar, de conhecer lugares, desbravar a alimentação local, conhecer as culturas e viver cada lugar, cada ambiente e cada espaço como uma experiência única. Em um momento da conversa elas me contaram sobre se permitirem sonhar e sobre uma situação que viveram juntas quando eram mais novas… e que esse sonho não precisava ser um sonho grandioso, mas se permitir pensar no futuro, mesmo. A situação era um show da Ana Carolina que foram quando moravam juntas no Rio e que estavam naquela primeira fase do namoro, sendo bem jovens e se conhecendo… Contam que viram vários casais de mulheres mais velhas, elegantes, bem sucedidas e se perguntaram “Será que um dia vamos ser assim?” e que hoje em dia são. Além de se reconhecerem e de reconhecerem o quanto conquistaram juntas, falam sobre ter sido a primeira vez que viram mulheres lésbicas bem sucedidas, lésbicas mais velhas se amando. “Foi muito marcante porque era muito longe de nós essa realidade”. Depois do término, quando a Jéssica já estava em Porto Alegre, elas mantiveram contato e até tentaram voltar e seguir o relacionamento à distância. Durou alguns meses, mas acabaram terminando de vez, em comum acordo. Este foi o terceiro e último término (o primeiro foi lá no começo, por iniciativa da Natasha)... e dessa vez, como última, parecia ser definitivo. Ficaram 5 anos separadas. Viveram a vida, seguiram amigas, tiveram outro relacionamento, ou melhor, casamentos (!) e tal. Até que conversaram em 2016. A Natasha estava solteira e elas mantinham amizade e se falavam raramente nesses 5 anos, por mais que nunca tivessem se visto e não havia maldade, de verdade, era apenas um querer-bem. E num dia, no Rio de Janeiro, ao se arrumar para sair com a prima (a Rebeca!) a Natasha conversando sobre ex namoradas comentou que a única namorada que seria capaz de se ver voltando a ter um relacionamento seria a Jéssica, mas que isso jamais aconteceria, até porque a Jéssica estava “casadíssima”, vivendo outra vida, sendo feliz “lá no sul”. Não sei se por coincidência ou que nome vocês querem dar a isso, mas literalmente no dia seguinte a Natasha descobriu que a Jéssica terminou o relacionamento - quem contou foi a própria Jéssica, em uma mensagem toda sem jeito. Elas voltaram a conversar e a Jéssica tinha uma viagem marcada, mas cancelou e decidiu fazer uma ida até o Rio e São Paulo para não perder as férias. Preciso contar o resto? São Paulo que lute, né? Ela ficou foi pelo Rio mesmo, com a Natasha… mas nos últimos dias de férias aqui, decidiu: “Não quero voltar a morar no Rio. Dessa vez, se for para ficarmos juntas, você vai para Porto Alegre comigo”. E a Natasha? Aceitou na hora. A Jéssica disse que nem acreditou no que ouviu, nem esperava um “Sim” tão rápido! A mudança, de fato, aconteceu. E não só a mudança, mas o casamento! Que foi exatamente na mesma data, 10 anos depois, do dia em que começaram a namorar - lá em 2007. A vida é cíclica. ♥ No dia do casamento, elas se juntaram aos amigos e fizeram um churrasco. Inclusive, também neste dia a Natasha recebeu a notícia de que havia passado em uma entrevista de emprego lá em Porto Alegre. Foi tudo acontecendo em conjunto e elas foram se adaptando à cidade e ao novo momento da vida. Hoje em dia, se enxergam muito diferente do que há tantos anos atrás, mas em geral entendem que o amor só ficou tão forte porque sempre foi muito moldado com respeito e admiração - e claro, a confiança e o apoio foram chegando como um bônus e crescendo na base também. Elas brincam, no fim, sobre já terem ouvido colegas de trabalho falarem sobre não aguentarem mais os maridos dentro de casa em seus casamentos e acrescentam como amar mulher é algo maravilhoso: são mais de dez anos e nem passa pela cabeça um dia em que se torne insuportável viver um amor tão bom. ♥ Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Jéssica Natasha

  • Luiza e Marina

    A Capitu, cachorrinha delas, chegou num momento em meio a pandemia do qual a Luiza estava se sentindo muito solitária em casa. Como a Marina está passando muito tempo cuidando da saúde e dando apoio à mãe dela, acabaram ficando bastante distantes e tomando muitos cuidados para se ver (sempre fazem testes, são visitas mais curtas…). Então o papel da Capitu foi chacoalhar um pouco e trazer alegria, companhia, cuidado e carinho (coisa que nunca falta!). Hoje em dia elas sonham com um mundo em que a vacina esteja sendo dada na maior parte da população (sonhamos, né?!) e quando pensam em políticas públicas, tocam logo em pautas sobre a inclusão e a cultura. Porto Alegre é uma cidade muito segregada e vem tendo sua cultura sendo diminuída ano após ano - ela virou, simplesmente, artigo de luxo. Sonham em voltar a ver a cidade acontecer de verdade para todas as parcelas da população e querem participar ativamente dessa mudança. A história da Luiza e da Marina te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Elas se conheceram em 2012, Marina estava na faculdade, fazia estágio e ficava com uma amiga da Luiza. Ambas participavam de um grupo de amigos muito próximos, então elas sempre estiveram nos mesmos eventos, nas mesmas festas, mas sempre se entenderam apenas enquanto amigas. Em 2015 ambas estavam namorando (e a Luiza s-e-m-p-r-e era conselheira amorosa da Marina!), um tempo passou e em 2016 elas foram numa festa e ficaram, mas por brincadeira, não foi nada sério… ou teoricamente não era para ter sido, porque no fim, a Marina se apaixonou. Tentou ir atrás da Luiza, ela não quis. Em outro fim de semana, foram em uma festa voltada ao público lésbico/bissexual de Porto Alegre, a Lez. Foi lá que ela viu a Luiza ficando com outra menina, esperou a menina ir embora e conseguiu o beijo! Quando esse beijo aconteceu, nem preciso explicar o resto, né? estão aí, juntas, há quase 5 anos. Hoje em dia possuem uma relação de muita conexão, compartilham muitas coisas juntas e, por mais que já tiveram momentos turbulentos e de afastamento, estão sempre se apoiando, conversando e se entendendo. Construíram uma relação de cumplicidade. Quando pergunto sobre o amor, dizem que acham que o amor é lindo e difícil ao mesmo tempo. É tentar entender e se entregar. E que, sim, o amor entre mulheres tem muita diferença de relacionamentos héteros tradicionais: é mais intenso, mais forte, as mulheres se permitem mais, enquanto os homens tendem a reprimir alguns sentimentos como o amor (muito por conta da questão da masculinidade frágil), as mulheres dificilmente reprimem algo. E comentam que existe mais amizade também, uma troca muito grande: o casal sabe se colocar uma no lugar da outra. Marina e Luiza moram em um apartamento maravilhoso, aconchegante e iluminado junto com a Capitu, a cachorrinha mais carente desse mundo! O apartamento fica em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul e Marina o identifica como “um abraço”, porque é a sensação que sente ao entrar. Ainda não conseguiram aproveitar 100% dele, pois mudaram em meio à pandemia - tempo que passam bastante distantes por conta de problemas de saúde na família da Marina, mas acreditam que a cada mês que passa, ele fica mais do jeitinho delas. Luiza tem 26 anos, é advogada por formação e trabalha atualmente com licenciamento ambiental. Adora plantar, saber sobre jardinagem e cuidar dos cantinhos da casa. Como inspirações e referências de vida, ela fala do avô (que sempre quis ensinar as coisas para ela, sempre tratou com carinho) e no mundo dos famosos cita o Elliot Page, que trouxe muita referência LGBT quando ela era mais nova. Marina tem 29 anos, é formada em marketing e atua na área de vendas numa empresa de tecnologia. Entre as coisas que gosta de fazer está em primeiro lugar o handebol (esporte que ela pratica há 20 anos!) e mexer com criação/criatividade. Além disso, na empresa, ela também atua em um grupo que debate empregabilidade para pessoas transgêneros e gosta muito de atuar nessa área dentre a pauta LGBT. É uma pessoa muito grudada à família, principalmente à mãe - e a cita como uma grande referência e inspiração, por tudo o que já passaram juntas. Por sua vez, no mundo dos famosos, fala sobre a importância da Ellen DeGeneres e o quanto ela se sente representada por todos os temas que ela traz e por quem ela é. Luiza Marina

  • Maria e Barbara

    Mariana e Bárbara são duas mulheres que nasceram em cidades do interior do Rio Grande do Sul. Bárbara vem de Capivari do Sul, município com cerca de 4 mil habitantes, que vive da produção agrícola. Já a Mari, vem de Osório, cidade um pouco maior e mais próxima da capital, com 40 mil habitantes. Por mais que vivem visitando seus familiares em suas cidades natais, hoje em dia a Mari mora em Porto Alegre, estudando e trabalhando com moda, enquanto a Bárbara passa um tempo com ela e outro tempo com sua família no interior. No momento da documentação, Bárbara então com 26 anos conta o quanto enfrentou diversas barreiras ao se entender enquanto uma mulher lésbica vivendo em uma cidade tão pequena e conservadora. Lá, trabalhava com equipamentos agrícolas, mas aprendeu de tudo um pouco: soldar, lixar, operar máquinas de corte, etc. Mas seu sonho mesmo é ser profissional na música: toca diversos instrumentos, se especializando nos sopros desde criança. Hoje em dia, voltar para Capivari de mãos dadas com a Mari, respeitando e valorizando toda a história dela enquanto mulher negra, para elas é lido como um ato de resistência: desejam ser respeitadas. A Mari, que no momento da documentação estava com 24 anos, se mudou para Porto Alegre pelo sonho de ser modelo. Nas palavras dela: “Tinha 200 reais e um sonho”. Ela chegou a trabalhar no comércio de Osório antes, em uma loja de roupas, mas foi demitida por conta de várias situações (inclusive envolvendo intolerância religiosa). Numa das suas vindas para Porto Alegre por conta de freelancer sendo modelo, conheceu uma menina que comentou que havia vaga no apartamento para dividir, então acionou um contato que trabalhava em um salão de beleza conhecido na cidade, conseguiu uma entrevista um tempo depois e, sem expectativas, foi aprovada. A questão era: não tinha dinheiro para sair de Osório e ir para Porto Alegre começar uma nova vida, então fez um “freela” numa lanchonete, ganhou 200 reais e saiu de casa bem cedinho, para a mãe dela não ver. Assim, chegou na capital. Um tempo depois, com o início da pandemia de Covid-19, acabou ficando sem lugar para morar e, com o salão fechado, voltou para Osório. Mas durou pouco tempo, em setembro já estava novamente em Porto Alegre, na casa em que mora até hoje (com a Bárbara, inclusive). Por mais que a vida da Mari e da Bárbara tenha se encontrado definitivamente quando a Mari já morava nessa casa, em Porto Alegre, suas histórias estão se cruzando há anos. A primeira vez que a Bárbara esteve em Porto Alegre foi quando ela tinha cerca de 17 anos. Conseguiu uma carona, saindo de Capivari do Sul, que a iria deixar em Cachoeirinha (região metropolitana) e ela topou - não fazia ideia de onde ficava Cachoeirinha. Quando chegou lá, fez amizade com umas pessoas na parada de ônibus e disse - quero ir numa festa lá em Porto Alegre. As pessoas deram as indicações para ela chegar no bairro boêmio e ela foi. Conta que sempre foi assim, “desgarrada”, sem muito medo de desbravar as coisas. Um tempo depois, ela começou a ir para Porto Alegre com mais frequência. Também viveu muito tempo em Osório, porque sua mãe mora lá; E foi numa dessas vezes que, em 2016, num Galpão de Artes, ela viu a Mari pela primeira vez. Na época, a Bárbara tinha um relacionamento aberto e se interessou pela Mari, mas a amiga dela não deixou ela tentar o flerte porque a Mari estava envolvida em uma situação de uma pessoa próxima delas. A Bárbara achou tudo muito engraçado e só disse que ok, não falaria com ela. Nisso, o tempo passou. Em 2019, novamente ambas estavam em Osório, se esbarram em um bar que pertencia às amigas da Bárbara. Lá, juntaram as mesas e os amigos em comum, uma começou a conversar com a outra (e detalhe: elas não lembravam dessa situação de 2016) falaram durante horas, a noite toda, mas não demonstraram nenhum interesse - nessa época, inclusive, a Bárbara estava casada. Foi só em 2020, quando a Bárbara já tinha se separado, que ela estava num momento de sofrência deitada no colo da cunhada dela, assistindo os stories que a cunhada estava assistindo, quando apareceu um storie da Mari. Ela perguntou quem era e pediu para voltar, pegou o Instagram da Mari e começou a segui-la. A Mari seguiu de volta, elas também se seguiram no Twitter, começaram uma interação e num dia, quando viu que a Mari estava em Osório, arranjou uma desculpa com a amiga dela para irem encontrá-la - mas não deu certo, ela já tinha voltado para Porto Alegre. Interagiram pelas redes sociais de forma lenta, pela timidez da Bárbara, até que resolveram se encontrar no dia das mães, quando a Mari iria para Osório. Mas surgiu um empecilho: no dia das mães era o aniversário do pai da Bárbara, então seria meio estranho elas se encontrarem numa festa de família, né?! Foi quando a Bárbara decidiu pegar o carro e ir até Porto Alegre. Chegou na casa da Mari toda elegante, com banho de perfume, nervosíssima porque só usava bombacha e iria encontrar alguém que fazia moda. Até que foi surpreendida com a Mari abrindo a porta de pijama e meia. O primeiro encontro entre elas deu certo. Por mais que estivessem com roupas totalmente diferentes, absolutamente sóbrias e envergonhadas, a Bárbara falou por três horas ininterruptas, mas elas se deram muito bem. No fim, ficaram até 5h da manhã em Porto Alegre, depois pegaram o carro e foram até Osório, a Mari almoçou na casa da mãe da Bárbara e já conheceu a família no dia seguinte. (E sim, foi no aniversário do pai da Bárbara!) Por mais que todo esse início tenha sido rápido na interação familiar, o relacionamento mesmo foi sendo assumido aos poucos: enquanto se sentiam preparadas. Foi numa viagem em família para Itapema, em Santa Catarina, que a Bárbara pediu a Mari em namoro, no fim de junho (num nascer do sol com chuva). E em outubro surgiu o pedido de noivado. No começo, sentiam muito medo e tinham certeza que logo o relacionamento iria acabar, porque tudo era muito bom e acontecia de forma muito certa. A família da Bárbara ama a Mari e a acolheu muito bem, elas foram estabelecendo comunicação… tudo isso era muito novo, vinham de relacionamentos que não funcionavam assim, até que tudo foi firmando e elas entenderam que poderia ser real. Hoje em dia, a Mari e a Bárbara acreditam numa relação que transborde, que acrescente. A Mari investe diariamente no seu sonho de ser modelo, enquanto a Bárbara traz todo o apoio, e vice-versa nos momentos em que ela precisa de apoio para estudar para os concursos de musicista e se concentrar no seu objetivo de trabalhar com música. Entendem que não é nenhum pouco fácil estabelecer a comunicação na relação. São pessoas muito diferentes, a Mari é muito mais fechada, veio de uma criação que a fez independente no mundo, sempre se viu muito só e agora aprende diariamente a se abrir, a aceitar uma nova família, a ter amizades verdadeiras em Porto Alegre e a falar como se sente. Para ela, esses também são atos de amor diários: quando ela entende o quanto está se abrindo aos poucos. Quando recebe o carinho imenso dos familiares da Bárbara (que agora também são dela) e quando pode contar com os novos amigos. Bárbara, por fim, conta que ama muito. Não sabe definir como, mas entende que o amor que elas constróem consegue deixar todo o perrengue e toda a dificuldade leve. Ela ama o que vivem diariamente, mesmo sendo metódica dentro de casa. Ama o porquinho da índia (Caetano ♥) que cuidam juntas. Ama esse amor que faz sentido e que quer oficializar enquanto um casamento e uma família. ↓ rolar para baixo ↓ Mariana Bárbara

  • Natielli e Emanueli

    A Nati e a Emanueli são duas mulheres com muita bagagem. Nos mostram que a idade, algumas vezes, não quer dizer tanto assim. Que a vida dá seu jeito de nos fazer viver muito em pouco tempo...E são duas mulheres que, desde sempre, entenderam o mundo através de muita força, de muita correria diária e de muita batalha. Natieli tem 22 anos e trabalha como vigilante em um ponto turístico/mercantil de Porto Alegre. No tempo livre adora jogar futebol, andar de bicicleta e curtir o tempo com a Ayla, a filha dela e da Manu (também conhecida como: criança mais desconfiada & linda possível!!). Já a Emanueli, tem 19 anos, é natural de Lagoa Vermelha, cidade no interior do Rio Grande do Sul com pouquíssimos habitantes, mas mora em Porto Alegre com a família há bastante tempo. Ela faz bastante coisa e adora ser uma pessoa que aprende tudo/explora tudo. Hoje em dia trabalha como manicure, no salão que a mãe dela construiu em casa, mas tem cursos enquanto astróloga e taróloga. Ela adora ver vídeos sobre a maternidade entre mulheres (foi assim que chegou até o Documentadas, inclusive) e dialoga bastante sobre. É muito legal ver as trocas que ela faz com a Ayla e o sentimento de família e de apoio que elas construíram juntas. ♥ A Nati e a Manu se conheceram através de uma amiga em comum, lá em 2019. Foi num show da Iza, que a Manu foi com essa amiga, num espaço aberto em Porto Alegre, que a amiga delas resolveu ligar para a Nati e convidá-la para o evento. Até então a Manu não sabia quem era e quando a Nati chegou, com um jeitão mais fechado e na dela, a Manu logo pensou: “Que guria bem antipática!! Mal educada”. A amiga resolveu dar uma de cupido e juntar as duas, mas, além da pré-antipatia, a Natielli já estava ficando com outra pessoa (Pode entrar, o famoso: Rebuceteio!) e a Emanueli também já tinha outra pretendente… No fim, não rolou. Acabou que o tempo passou, o show acabou e outro dia a Nati mandou mensagem para a Manu. Ia rolar uma festa de aniversário na casa dessa ‘amiga’ e chamaram ela… Lá, elas se beijaram. Com uma certa frequência começaram a se encontrar nos lugares e aos poucos o sentimento surgiu. Foi em outro show que elas se encontraram e entenderam o que sentiam enquanto a paixão. A Nati disse que não queria que a Manu fosse embora e, então, no dia seguinte elas se viram na casa dela (Detalhe: a Nati foi CAMINHANDO até a casa da Manu e era uma distância muito longa!! Ela não contou que não ia de carro ou de ônibus e só avisou quando estava chegando lá, como se estivesse no carro… e a Nati nem percebeu que a menina tinha caminhado quilômetros. Já diria a Sandy, né minha gente: “Olha o que o amor me faz...”). Um mês depois do encontro em casa (e da caminhada) a Natielli fez o pedido de namoro ♥. O processo da vinda da Ayla ao mundo foi muito cuidadoso e delicado e, antes de tudo, sei o quanto isso é importante para a Nati e para a Emanueli. Então queria agradecer a elas terem me concedido permissão para falar aqui, de forma não necessariamente romantizada e sim como parte verdadeiramente documental, sobre o processo da maternidade de duas mulheres e o que representou isso para as duas - em sua melhor forma de ressignificar. ♥ obrigada e admiração por vocês três. No decorrer do ano de 2019 e logo no começo da relação das duas, a Nati sofreu uma situação de abuso. Foi um grande desespero e elas estavam sem saber o que fazer. A reação da Emanueli foi acolher e tentar ajudar como soube na hora, mesmo sendo algo muito difícil e traumático. Elas ressaltam que, nos momentos em que mulheres estão fragilizadas, geralmente o que podemos fazer é tentar estar por perto e segurarmos uma nas mãos da outra. Diante toda a gravidade da situação, elas conversaram muito, tentaram se acalmar e buscar as providências corretas judicialmente. Nesse meio-tempo, a família da Emanueli recebeu a Nati em casa e elas se tornaram uma família só. Foi acontecendo uma movimentação natural da mãe, da avó e da própria Manu em torno do acolhimento e de entenderem o momento de fragilidade. Foi então que veio um sentimento das duas pensarem que elas não possuem condição para uma fertilização em clínicas e que gostariam muito de serem mães, de gerar, educar, criar e amar. E foi aí que a Nati perguntou: “você quer ter esse filho comigo?”. A Manu aceitou. E, meses depois, a Ayla veio ao mundo. Hoje em dia, a Ayla é a maior alegria em casa e, mesmo entendendo que o momento tenha sido de muito trauma e muita dor, é com terapia que elas procuram construir e literalmente dar outro significado para isto. Procuramos, também, alertar outras mulheres para que estejam sempre em apoio, uma das outras, que nunca soltem as mãos e que fortaleçam seus laços. A forma que o amor encontrou a vida dessas mulheres mostra que o amor entre mulheres consegue mover muita coisa no mundo. Quando a Manu e a Nati se casaram foi algo não-oficial, mas muito importante para elas. Fizeram um documento, em casa mesmo, com chocolates e comemoraram juntas. Sentem que estar juntas é o resumo de tudo. Ali, tudo é 8 ou 80. Decidem as coisas, conversam sobre o que pensam e se entendem porque o diálogo é aberto. Elas zoam muito também, a conversa (quase) não dava para ser levada à sério, porque metade do tempo era risada de uma atiçando a outra, falando bobagem e fazendo piada. Para Emanueli, o amor, acima de tudo, é a parceria que elas construíram juntas no relacionamento. Essa parceria entende a individualidade, respeita os momentos, os espaços, mas não larga as mãos quando precisa. Está sempre ali. A Nati completa que o amor para ela é muito forte, capaz de superar distâncias e dificuldades. Elas acreditam que o amor entre mulheres é diferente porque ele sabe apoiar nas horas boas e ruins. E que a maternidade delas mostra como é isso na prática - por mais que não tenha sido nenhum pouco fácil (e que diariamente não seja fácil). São mulheres periféricas, são mães de uma criança negra, mães negras, parte de uma maternidade que não estava nos planos… E falam o quanto isso implica em tantas mudanças repentinas na nossa forma de pensar e de enxergar o mundo. E o quanto, também, implica na forma que queremos o mundo diferente para a Ayla viver. Elas, em especial, querem um mundo mais emancipado, em que as pessoas tenham mais condições e que os nossos direitos sejam respeitados, assim como desde cedo ensinam a Ayla a respeitar cada detalhe de cada pessoa: que a Ayla respeite cada ser como ele é. ♥ Natielli Emanueli

  • Emily e Bibiana

    Encontrei a Emily e a Bibiana em um fim de tarde próximo à orla do Guaíba, em Porto Alegre, há uns meses atras… foi durante um movimento inicial, em que elas estavam se permitindo sair na rua novamente para ver o pôr do sol (depois de todo o período de isolamento pandêmico) que elas toparam fazer parte do Documentadas. Sentamos na grama, numa área distante de onde a maioria das pessoas circulavam e conversamos por um tempo, nos conhecendo e compartilhando ideias. Ouvi o que elas pensavam sobre o amor, sobre as relações que as mulheres constroem juntas e, claro, sobre a relação que elas construíram em meio à pandemia. A Emily acredita que o amor é algo muito relacionado à aceitação, ou seja, que nem sempre a pessoa amada vai ser o que você espera, ou que os projetos que vocês desejaram vão ser exatamente o que vocês imaginaram, mas que o amor está nesse lugar de aceitar a realidade e de conseguir ser compassivo. O amor fala sobre conseguir ter compaixão pelas coisas, mesmo quando elas não são aquilo que desejamos. E que, até mesmo como um acréscimo, o amor entre mulheres surge enquanto uma vontade muito latente de construir algo, enquanto um projeto de vida, envolvendo casa, respeito, vontades… é literalmente uma construção conjunta. A Biba ouve ela falando tudo e a observa, depois complementa: ela entende o amor enquanto um apoio e um cuidado que está ali (não naturalmente, porque temos que cuidar, disponibilizar nosso tempo e nos dedicar, não podemos largá-lo… mas ele está ali). E entende a relação dela com a Emily enquanto duas mulheres que não soltam as mãos. Bibiana possui 35 anos, é funcionária pública, moradora de Porto Alegre e participa de coletivos e iniciativas LGBTs dentro do próprio Tribunal do Trabalho, entre comitês de equidade de raça, gênero e pessoas com deficiência, trabalho que desempenha com muito orgulho. Emily possui 29 anos, é redatora e trabalha com publicidade, além disso, também atua enquanto artista burlesca produzindo um sarau - o Sarau Pelado. O intuito do evento é que as pessoas se sintam à vontade para despir-se e estar nu, numa forma de aproximar cada pessoa com o próprio corpo, o ‘despir-se’ não é só de roupas, mas dos preconceitos que carregamos, e através de uma literatura mais íntima e de uma arte acolhedora poder deixar as pessoas à vontade para serem quem são. Elas acreditam que a cidade precisa da cultura para existir e que o acesso à cultura é algo básico e primordial, porém, mais que isso, falamos sobre o momento crítico em que estamos vivendo e quando pergunto sobre como elas enxergam à cidade e o que gostariam de mudar a primeira coisa que surge na resposta, sem titubear, é a vontade de que todas pessoas tenham acesso à moradia e alimentação. Parece ser algo simples, mas comentamos sobre a população em situação de rua em Porto Alegre ter crescido em números gritantes e a forma que a cidade muda aos poucos, a desigualdade cresce e nos sentimos paradas em meio à isso tudo, então elas comentam iniciativas que tentam ter em meio à pandemia para ajudar da forma que podem, ou seja, a conclusão é: no momento não tem como essa não ser a questão de direito e de mudança prioritária: acabar com a fome e ter moradia digna. As duas se conheceram através de um aplicativo de relacionamentos um tanto quanto famoso por aqui (né, Tinder?), no ano de 2019. Foi num encontro sem nenhuma pretensão que o verdadeiro “match!” aconteceu: o papo foi bom, elas se divertiram e curtiram bastante. Até que, no meio da noite, começou uma chuva muito forte - fazendo-as tomar aquele banho! - e por estarem perto da casa da Emily, ela chamou a Bibiana para entrar... a partir daí tudo fluiu. No começo da pandemia elas chegaram a morar juntas um tempo, porém sentiram necessidade de estarem cada uma em suas casas. Não existiu um motivo exato na volta, foi uma movimentação e uma decisão tranquila, muito mais sobre o espaço delas do que sobre a relação em si. E, quando perguntado sobre momentos difíceis que passaram juntas, elas pensam e chegam à conclusão que nenhum desentendimento pessoal foi (e tem sido) maior que viver (e sobreviver) a pandemia uma ao lado da outra. A pandemia ensinou muito sobre lidar com as nossas emoções e com os nossos sentimentos - para além de todos os problemas e incertezas que ela nos trouxe - então elas explicam que a Emily é a pessoa que quer lidar com os problemas na hora, quer resolver logo, enquanto a Bibiana prefere esperar e absorver tudo para depois conversar sobre as coisas. O desafio, entre elas, é estabelecer esse equilíbrio. Se apoiar entre as chateações diárias que os problemas externos nos trazem (a pandemia, a política, as incertezas) e tentar conversar sobre os internos (a relação em si). No mais, vivem dias relativamente tranquilos, entre beber, fumar na varanda do apartamento da Bibiana e passear nos fins de tarde na pracinha do bairro. ♥ Bibiana Emily

  • Banco de Images | Documentadas

    Aqui documentamos a história de mulheres por todo o Brasil. Vanessa e Kris amor de persistência. Mundana e Mel amor de segurança. Raíssa e Stephanie amor de rotina. Camila e Lian amor de dias solares. Letícia e Rossana amor de bicho. Silvana e Márcia amor de educação. Vitória e Sara amor de porcentagens Tainá e Fabi amor de rotina no lar. Naiara e Mary amor de uma vida inteira. Carla e Paula amor de tagarelar. Paola e Tai amor de 'não' que virou 'sim' Patrini e Gabi amor de conversa. Juliana e Luísa amor de desassombro Jess e Amanda amor de desabafos. Susy e Pâmela amor de último ddd. Amanda e Julie amor de juventude. Cláudia e Vanessa amor de vida inteira. Yula e Rebeca amor de bairro. Melina e Acácia amor de marcante. Tamiris e Ágata amor de tempo. Camila e Rafaela amor de etapas. Joyce e Gabi amor de persistência. Gabi e Raffa amor de ficar à vontade. Laura e Camila amor de presente. Babi e Maria amor de companhia. Vivi e Darlene amor de não viver sem. Jaque e Tainá amor de novo olhar. Thacia e Ju amor de cuidado. Anik e Isabelle amor de desaguar. Raquel e Dandara amor de mudanças. Aline e Isabela amor de novidades. Luiza e Milena amor de paciência. Marcela e Jana amor de liberdade. Mariana e Viviane amor de manhã na praça. Clara e Laura amor de cuidado. Aline e Nathalia amor de paródia. Iana e Amanda amor de salvador. Yaskara e Jade amor de conversas. Daniella e Flávia amor de futuro. Isadora e Isabelle amor de equação. Luanna e Laira amor de cicloativismo. Ellen e Bianca amor de confraternização. Lorrayne e Joyce amor de casa. Mari e Jéssica amor de cura. Elis e Vandréa amor de ancestralidade. Carol e Sofia amor de hobbie. Letícia e Giovanna amor de persistência. Ane e Ari amor de companhia. Lorrayne e Mari amor de bilhete. Sarah e Rosa amor de novidade. Jamile e Raquel amor de leitura. Raquel e Rachel amor de pedidos. Aline e Aya amor de maternidade. Cassia e Kercya amor de marinar. Gabriela e Mariana amor de mãos dadas. Luiza e Maria Pérola amor de nebulosas. Lara e Ana amor de âncora. Sharon e Vivian amor de natureza. Yasmin e Juliana amor de diálogo. Isa e Camila amor de fã. Mari e Rey amor de outros lugares. Manu e Alyce amor de abraço. Cecilia e Jady amor de riso esvoaçante. Clara e Rayanne amor de jeito. Maria Clara e Antônia amor de cinema. Priscilla e Raphaela amor de conexões. Mari e Vivi amor de música. Júlia e Milena amor de reencontro. Talita e Louise amor de história. Juliana e Tercianne amor de teatro. Ju e Nicoli amor de vida toda. Luana e Maiara amor de domingo no parque. Tânia e Clarissa amor de trajetória. Ju e Marci amor de tempo. Rennata e Vanessa amor de impacto. Bruna e Flávia amor de suporte. Bibi e Emily amor de mãos dadas. Clara e Mayara amor de doce. Carol e Joyce amor de propósito. Thaysmara e Leticia amor de pôr do sol Júlia e Ana Carolina amor de cuidado ao detalhe. Natasha e Jéssica amor de ciclos. Rafa e Gizelly amor de acordar juntas. Carla e Yasmin amor de expressão. Yasmin e Ignez amor de encontro. Nathi e Emanu amor de força. Camila e Samantha amor de evento. Lu e Joana amor de flor. Nath e Carla amor de parque. Karol e Beatriz amor de webnamoro. Clara e Mariana amor de sétima arte. Jamyle e Rebeca amor de festa. Dani e Aline amor de oposto complementar. Camilla e Karol amor de calma e maresia. Bia e Marina amor de conversa. Amanda e Thaís amor de lagoa. Ju e Yasmin amor de compaixão. Wan e Lívia amor de lugares. Vanessa e Denise amor de pretitude. Mari e Marie amor de estrada. Marcela e Karina amor de refúgio. Ana e Paula amor de almoço no domingo. Thaty e Lari amor de descrição. Melissa e Sofia amor de sítio. Carol e Marlise amor de construção. Fabi e Dani amor de brilho. Isa e Carina amor de versões. Taynah e Estrella amor de ano novo. Glauci e Alice amor de casa. Maiara e Vitória amor de sol e lua. Joyce e Malu amor de renovar. Gabi e Dani amor de gatos. Marcia e Kamylla amor de faculdade. Luiza e Mariah amor de produção artística. Drika e Jana amor de dia após dia. Thay e Louise amor de samba. Jeniffer e Renata amor de aventura. Ana Clara e Evelyn amor de nascer do sol. Bruna e La Salle amor de confirmação. Mariana e Bárbara amor de interior. Maíra e Kelly amor de estar em casa. Janelle e Gyanny amor de fé. Lia e Thalita amor de lar. Alessandra e Roberta amor de diversão. Iasmin e Natalia amor de tatuagem. Bruna e Mari amor de arte na rua. Carla e Cynthia amor de diferença. Inara e Nina amor de recomeço. Hinde e Renata amor de intercâmbio. Thay e Cami amor de afeto. Luana e Marília amor de corpo. Fernanda e Ana amor de tentativas. Gabi e Gabriela amor de coragem. Jéssica e Priscila amor de diferença. Melina e Karyne amor de frio na barriga. Mariana e Fabiola amor de redescoberta. Luana e Bruna amor de emoção e razão. Ane e Thelassyn amor de persistência. Nayara e Jamyle amor de geek. Tami e Fran amor de casa nova. Gabi e Pamela amor de ajuste. Tay e Beatriz amor de elevação. Alice e Fernanda amor de apoio. Julia e Duda amor de muito. Luciana e Viviane amor de recomeços. Kelly e Amanda amor de tempos. Anne e Lari amor de paz. Júlia e Vitória amor de moda. Paula e Mari amor de cor. Luma e Stefany amor de árvore. Anne e Talita amor de oportunidade. Uine e Denise amor de aliança. Larissa e Claricy amor de ritual. Laiô e Íris amor de horizontalidade. Brenda e Jéssica amor de aventura. Dalila e Andréia amor de "praciar". Carla e Laura amor de porto seguro. Vanessa e Vitória amor de nova perspectiva. Carol e Cris amor de energia. Angélica e Jaque amor de segundo encontro. Kétule e Beatriz amor de cachoeira. Alissa e Rafaela amor de recomeços. Lilian e Marcella amor de padaria. Natália e Bruna amor de ano novo. Rachel e Larissa amor de paciência. Jade e Laura amor de segurança. Barbara e Isadora amor de cativar. Marina e Patrícia amor de pedidos rápidos. Gabi e Aline amor de aposta. Débora e Paula amor de comentário. Bruna e Vanessa amor de transformação. Cintia e Carmen amor de cultura. Dállete e Dyanne amor de redescobrir. Keziah e Patricia amor de compartilhar Cynthia e Leylane amor de esporte. Rafa e Helena amor de dia. Emilly e Thuane amor de maracatu. Sue e Sil amor de teatro. Fernanda e Talita amor de som. Carol e Gabi amor de fotografia Carol e Andressa amor de lugar. Ingrid e Cecília amor de estrada. Vanessa e Dayanne amor de caminho. Emily e Raissa amor de tentativa. Beatriz e Kika amor de são joão. Bruna e Tereza amor de sonho realizado. Juliana e Bianca amor de tempo. Clara e Marina amor de céu aberto. Samara e Rebeca amor de impulso. Raíssa e Lorena amor de experimentar. Laura e Dedê amor de samba. Maria Vitória e Fernanda amor de carro. Manô e Bruna amor de vivência. Denise e Julia amor de cerveja&cinema. Maíra e Duda amor de tatuagem. Marina e Luiza amor de cumplicidade. Juliana e Tayna amor de mil histórias. Bruna e Fran amor de resistência. Marcia e Pethra-13_edited amor de pé na porta. Mari e Nonô amor de escola. Joana e Ana Clara amor à primeira vista. Priscila e Rebecca amor de mar. Bruna e Sophia amor de carnaval. Renata e Marcela amor de arte. Clara e Karine amor de parceria. Bela e Maitê amor de risadas. Victoria e Gabi amor de praia. Brenda e Jhéssica amor de destinos. Carol e Gabi amor de militância. Beatriz e Tamara amor de esporte. Paula e Luiza amor de plantas e pássaros. Luana e Gabrielle amor de família. Mariana e Thalassa amor de plantinhas. Carol e Beanca amor de acompanhamento. Rita e Dede-23_edited amor de 10 reais. Cilla e Fabi amor de luz Bruna e Brena amor de axé. Stefannie e Jaque amor de decisão. Marianna e Bruna amor de coisas em comum. Natália e Talita amor de admiração. Ingra e Lara amor de diversidade. Roberta e Laura amor de ser possível amar. Yulli e Nadine amor de profissão em comum. Sandra e Larissa amor de oceanos. Vanessa e Suélen amor de simplicidade. Rhanna e Lais amor de festa popular. Inara e Juliana amor de samba. Juliana e Priscila amor de grande família. Clarissa e Agnis amor de crescimento. Ariadne e Barbara amor de faculdade. Karol e Hémely amor de abrir portas. Nayara e Mayara amor de educação. Vivian e Dani amor de nova visão de si. Olga e Flávia amor de política. Clarissa e Roberta amor de são joão.

  • Carol e Marlise

    Foi num impulso pelo início (e pela incerteza) da pandemia que a Carol e a Marlise começaram oficialmente o relacionamento. A Carol tinha acabado de se mudar para São Paulo, mas é natural de Porto Alegre e foi lá que conheceu a Marlise, um tempo antes dessa viagem. Entre a decisão, o ato de comprar a passagem e a mudança em si, elas viveram shows, um réveillon, saídas com amigos e a Marlise viveu até com muletas porque tinha quebrado a perna. Mas não teve jeito: o dia chegou e a Carolina foi para São Paulo. A primeira reação foi mais abrupta: não se falaram mais. Acharam melhor deixar para trás os momentos bons que tinham dividido e seguir cada uma suas novas vidas de 2020 em diante. Mas é aquela coisa, né? A gente não escolhe coisas do coração (pra quem é de coração) e nem de destino (pra quem é de destino). E quando elas voltaram a conversar, a Marlise combinou de ir até São Paulo fazer uma visita e comemorarem seus aniversários, visto que as datas são bastante próximas. Porém, um pouco antes do dia da viagem chegar, foi anunciada a quarentena e o isolamento social em São Paulo, ou seja, tudo estaria cancelado e a Carol ficaria lá sozinha - enquanto não fazíamos ideia de como isso seria, quanto tempo levaria e como reagiríamos. Foi por todas as incertezas que a pandemia (e, principalmente, o começo dela) nos causou, que a Carol decidiu comprar a passagem e voltar para Porto Alegre. Quando elas se reencontraram, ficaram juntas e cá estão, até então. Houve um momento do qual a Carol chegou a voltar para São Paulo, alguns meses depois, para buscar coisas que tinham ficado por lá, mas decidiu que ficaria de fato em Porto Alegre com a Marlise. Elas contam que sempre se deram muito bem e que isso sustenta muito o relacionamento. Conversar sobre tudo e ser realmente uma parceria, independente das situações externas, é o mais importante. Falam como haviam muitas coisas colaborando no entorno para que desse errado: elas estavam dentro de um apartamento relativamente pequeno - estavam num processo de conhecimento ainda - a pandemia gerava muitas pressões e ansiedades - o país enfrentava momentos muito ruins - e todo o sentimento de luto presente naquele momento… mas que, mesmo com todas as condições adversas, elas mantinham uma relação de muita conversa e se divertiram muito juntas. Durante as rotinas e os dias a Carol é uma mulher que adora cozinhar e está sempre preocupada com a alimentação. Ela brincou que de repente muda até de carreira, se continuar recebendo os elogios pelas comidas que faz, mas a verdade é que sua paixão mesmo é pela escrita. Ela entende que se comunica melhor escrevendo e que a literatura é uma grande aliada. Já a Marlise adora inventar coisas. Ela disse que isso é muito para “tirar as coisas da cabeça”, por se sentir sobrecarregada com auto questões, acaba inventando coisas, mudando móveis, fazendo e produzindo o que movimente o corpo fisicamente. Juntas, elas adoram passar um tempo com os animais em casa e contam que eles foram grandes responsáveis pela casa ter se mantido tão feliz durante o período de isolamento que vivemos. A Carol estava com 29 anos no dia em que fizemos a documentação, ela é natural de Porto Alegre, cursou letras, mas trancou a faculdade, não completando-a. De qualquer forma, trabalha na área desde 2012, traduzindo textos, livros e também faz trabalhos autônomos. A Marlise também estava com 29 anos no dia da documentação. Ela cursa medicina, é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, e nos contou sobre o impacto da pandemia nos estudos dela e na faculdade. Mas também, sobre a importância do trabalho enquanto uma ferramenta sob o que ela acredita, enquanto assistência social às pessoas. Durante uma live da cantora Ludmilla, na quarentena, a Marlise pediu a Carolina em casamento. Na hora, ela nem acreditou e a Marlise teve que refazer o pedido no dia seguinte! Hoje em dia, os planos estão sendo feitos e pretendem fazer a comemoração e a celebração assim que a pandemia finalmente acabar. Tanto a Carol, quanto a Marlise, acreditam que a vida não precisa ser tão imediatista e egoísta como tem sido. Elas falam sobre estarmos num espaço muito desorganizado, que não pensa no que realmente é importante… e esquecemos do que deveria ser essencial, como termos mais afeto e cuidado. Entendem que por serem duas mulheres que já enfrentaram muitos preconceitos, olham as coisas sob um novo olhar, pois não normalizam a violência ou a falta de educação e também não deixam de ser quem são por olhares tortos na rua (e por não serem aceitas em alguns ambientes). Entendem que a mudança só vai existir com compreensão histórica e cultural. Para Marlise, uma relação como a delas é muito pautada no respeito e na identificação, mas ela também traz muito uma admiração e inspiração que enxerga na Carol. Ela fala sobre essa inspiração por quem a Carol é, em tudo que ela já passou, e porque também se vê nela, mesmo que as trajetórias sejam diferentes. “O amor é o que guia a gente a ser diferente: ser melhor no que acreditamos ser o certo”. Para Carol, a relação delas está sempre envolvida de compreensão (e as relações entre mulheres, na grande maioria das vezes), porque acabamos tendo caminhos parecidos e encontramos em nós semelhanças e identificações. Mas em geral, essa compreensão fala sobre a capacidade de ver quem as pessoas são, o que são, e entender o que elas estão dispostas a trocar, não exigindo algo impossível de dar. Marlise Carolina

  • Drika e Jana

    A Drika, a Jana e a Nick moram em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. São uma família que se escolheu e se permitiu construir de múltiplas formas, e dentre todas, o que fica estampado é a parceria que mantém a todo tempo. Quando elas conheceram a Nick, no abrigo de adoção, tiveram a primeira interação e no dia seguinte levaram ela para passar uma tarde na nova casa. Seguiu-se assim por uns dias de visita, até que ela ficou direto. No começo, não foi nada fácil - tanto a adaptação, quanto saberem coisas básicas, como medicações exatas, cuidados que ela necessitava… tudo era novo e precisava de calma. Como a Nick passou três anos no abrigo, isso significava metade da vida dela, e todas precisavam entender o tempo dela também. Viveu muitas coisas lá, passou pelo contato de mais de cem famílias e era difícil acreditar que ela fosse ser adotada por alguém. Quando as mães chegaram, fizeram de tudo para mostrar que tinham compreensão do sistema de saúde, que estavam muito dispostas a cuidar dela e que todos poderiam contar com elas para o desenvolvimento da Nick. O desenvolvimento não foi da boca pra fora, quando a Nick chegou ela não conseguia andar, mas em dois meses já tinha desenvolvido e estava com acompanhamentos, o cuidado e o afeto fizeram com que ela também tivesse muito progresso na comunicação, na socialização com outras pessoas adultas e com crianças e diversos progressos saudáveis para ela. Por mais que no começo tudo demorou a entrar em sintonia (era difícil identificar os choros, organizar a alimentação, etc) elas foram se conhecendo e se amando cada vez mais. Hoje em dia, vivem uma rotina intensa! Entre fonoaudiólogas, escolinha (Nick está na segunda série!), terapeutas, nutricionistas, gastros, psiquiatras, a alta que ela já ganhou na fisioterapia (♥), o ritmo de trabalho da Drika e da Jana que super se adaptou e a família que nasceu, é nítido ver o quanto as três crescem grandiosamente juntas. Drika tem 37 anos, é professora de educação física e está fazendo doutorado. Trabalha enquanto coordenadora de um projeto social e também participa de coletivos de militância política. Jana também é professora de educação física, mas concluiu a residência em saúde mental coletiva e atende num centro de orientação psicossocial para pessoas que fazem uso abusivo de álcool e drogas. A rotina dela é intensa, mas acreditam que é justamente nessa rotina que mora o amor: nos rituais diários, nos detalhes, na família que estão construindo - e que escolheram construir, nos laços de afeto que estão existentes quando compartilham decisões. Diariamente chegam em casa e conversam sobre o dia, sobre como estão ou o que viveram e acreditam que nesse ato está muito sobre o amor que vivem. Mesmo construindo uma relação entre muito afeto, elas têm muito medo sobre o que a Nick pode passar por ser uma menina negra, com deficiência e com duas mães. Por isso, elas querem que o crescimento da Nick seja numa sociedade sem LGBTfobia, num lugar que ela possa ser quem ela é. Nesses processos de desenvolvimento, estabelecem também em volta dela várias referências de raças, de pessoas, de crianças das quais ela consiga se ver representada. Querem que onde a Nick esteja, exista acolhimento, referência e afeto. Em 2016 a Drika e a Janis começaram a conversar mais, no diretório acadêmico da faculdade, quando militavam juntas. A Drika passou por um relacionamento bastante abusivo e a Jana deu um suporte para que se livrasse disso, foi um momento bem difícil que ambas passavam em suas vidas pessoais e se apoiaram enquanto amigas pela primeira vez. Logo depois, vieram as ocupações das universidades públicas e elas ocuparam o campus da educação física. Como se tratava de um campus menor, diferente dos outros, elas definitivamente foram morar lá. Haviam-se escalas para ficar na portaria, cuidar da segurança, etc. e elas ficavam juntas, além de ir nas reuniões, assembleia e participar do mesmo coletivo, o Alicerce. Na época, por ficarem sempre muito juntas, já brincavam de ‘shippar’ os nomes: era Drikaina ou Jaka. Tudo faziam em dupla. Quanto à ocupação, foi um sucesso! Tiveram os objetivos negociados e na comemoração foram todos para uma festa. Nessa festa, elas se beijaram - mesmo com muito medo de estragar a amizade, mas deu certo. Logo depois, Drika passou o ano novo com a Jana, alguns amigos e familiares dela. De lá em diante, não se desgrudaram mais. Logo no começo do relacionamento, a Jana se formou e a Drika ainda iria estudar mais um tempo. Drika morava em Canoas e, na época, a Jana morava em um bairro mais distante em Porto Alegre: o Belém Velho. O campus que elas estudavam ficava em um bairro que não conversava com essas distâncias, então era tudo de certa forma longe, e elas decidiram mudar esse ponto: a Drika chamou a Jana para morar com ela em Canoas. Aos poucos ela veio trazendo as coisas, em mochilas mesmo, ou como elas brincam: em prestações. No começo, ao morarem juntas, enfrentaram uma questão muito difícil: a dificuldade financeira. Elas sobreviviam com a bolsa que ganhavam da universidade - de R$ 400 cada uma, e nisso entrava tudo: as passagens, a alimentação, as contas. Na época da formatura, Jana ganhou de presente o dinheiro para fazer a carteira de motorista, mas nunca a fez, visto que esse dinheiro foi usado para salvar elas por alguns meses. Entre a bolsa e a faculdade, elas vendiam camisetas, Jana chegou a trabalhar em bar e procuravam sempre uma forma de se virar. O primeiro respiro que tiveram foi quando a Jana conseguiu um estágio, depois tudo foi mudando. Dentre os altos e baixos, o mais certeiro era o quanto elas se apoiavam. Se fortaleceram, foram fortalecidas por suas mães e estavam sempre em parceria. Juntas, passaram pelo fim da faculdade, pela residência, pelo mestrado e pelo doutorado. Nesses processos, elas sempre se consideraram casadas. Não sentiam urgência em oficializar, até que o foraBolsonaro foi eleito e elas resolveram mudar as coisas. Viver a campanha dele foi exaustivo, estavam ativamente na rua em oposição e sentiram que o melhor que poderiam fazer depois dele eleito era reafirmar o amor delas em um ato oficial. Foi então que juntaram os documentos, os amigos - que tocam em uma banda - foram para um sítio, cada um levou uma bebida e fizeram uma festa que uniu todos: os amigos, a família, a militância, a música… quem amavam. Contam que foi a melhor noite que já viveram. Já o tema de aumentarem a família, chegava de vez em quando: primeiramente, pensaram na inseminação. Drika tinha vontade de gerar, chegaram a procurar, fazer exames, mas sentiram que não havia tanta necessidade - desconstruíram a ideia e partiram para uma nova: a adoção. A Drika é adotada e elas sempre falaram sobre a família ser uma escolha que o coração faz, então começaram a pesquisar sobre e participar de grupos. Ainda em 2019 entraram com todos os papéis necessários. Fizeram uma série de entrevistas com psicólogas, assistentes sociais e então começou a pandemia. Isso atrasou tudo, ficaram muitos meses com tudo parado no curso inicial obrigatório de adoção porque o sistema ainda não tinha se adaptado para o modo online. No começo, antes da pandemia, elas tinham colocado no formulário uma faixa etária diferente, depois recorreram para uma idade maior e também para a opção de ser mais de uma criança, poder ter doenças tratáveis e com questões de saúde mental. Quando foram para a parte final do curso, acabaram fazendo sozinhas (sem outros casais acompanhando) e isso fez com que ficassem muito livres para conversar e tirar todas as dúvidas com as assistentes sociais. Foi quando uma delas falou sobre uma menina que poderia se encaixar para elas, mas não deu mais detalhes. Em janeiro de 2021 entraram em contato, pediram para elas irem até o fórum porque tinha uma criança e não queriam que elas fossem habilitadas no sistema de adoção antes de conversarem sobre ela. Foi quando, pela primeira vez, conheceram a história da Nick. Nesse momento, já sabiam que iriam adotá-la, Drika se emocionava toda vez que estavam falando sobre ela. Conheceram a Nick por vídeo, deram seguimento no processo da adoção, fizeram testes de Covid-19 necessários e foram conhecer ela pessoalmente pela primeira vez. Nick nasceu com microcefalia por conta de uma toxoplasmose congênita, tem impacto na visão e está dentro do “guarda chuva” da paralisia cerebral. Sua dificuldade está no ato de comer e engolir saliva, o que pode causar acúmulo de líquidos nos pulmões, tornando-a do grupo de risco para qualquer doença respiratória - como o Covid. Por mais que possua algumas diferenças no quesito saúde, é uma criança repleta de amor, carinho e risadas, que se diverte muito com as duas mães. ↓ rolar para baixo ↓ Drika Janaina

  • Gabriela e Aline | Documentadas

    Gabriela e Aline se conheceram durante a pandemia de Covid-19, em 2021, se esbarrando online num aplicativo de relacionamentos.. Elas moravam sozinhas e estavam em suas casas seguindo todos os protocolos exigidos pelas organizações de saúde, então colocaram pequenas distâncias de quilometragens para o aplicativo encontrar apenas quem estava próximo - a ideia era não precisar pegar um meio de transporte para “ter um encontro/um date”. Enquanto Aline fez questão de analisar o perfil da Gabi e dar um ‘like’ proposital, Gabi deu sem prestar muita atenção, porque estava mesmo assistindo à novela. Mas o que importa é: começaram a conversar, e ainda melhor: viveram, pela primeira vez, uma paixão de verdade, dessas intensas, “clássico sapatão, que a gente sempre ouve falar”. Viram que tudo foi fluindo, ainda que bem rápido, construíram acordos, falavam sobre seus valores, o que desejavam, como se viam, sobre suas terapias, se viam de forma saudável e comentam como era diferente serem adultas e terem relacionamentos saudáveis pela primeira vez [finalmente, né?!!]. Criaram uma série de protocolos, por conta da pandemia, e em meio à sentirem a paixão chegando, mandando comidinhas por carro de aplicativos uma para a outra, o envolvimento aconteceu, chegou o momento de se conhecerem pessoalmente e os encontros seguirem acontecendo. Sentem que o começo envolveu muitas situações simultâneas: eram muitos ajustes e desafios a serem feitos/cumpridos. Se conheceram dentro de casa. Nos primeiros três meses passaram por mudanças, finalização de doutorado, decidiram firmar uma união estável por conta de vários processos burocráticos (e políticos também), a pandemia acontecia, o (des)governo, tudo somava. Gabi conta que era a pessoa que bagunçava para depois arrumar, enquanto Aline era quem se esforçava para não bagunçar. Foram aprendendo uma com a outra. Estavam sempre apostando na relação, mostrando que o relacionamento era a maior aposta delas naquele momento. Sentem que o mundo estava em catástrofe e que conhecer alguém num momento como esse, de alguma forma, é “puro”, é conhecer o estado mais puro de uma pessoa. É muito diferente de conhecer alguém quando está tudo bem. É conhecer a pessoa por inteiro, conhecer ela lidando com algo difícil. Conhecer alguém assim é entender que a pessoa está disposta à reconstrução, é mesmo sabendo que não há controle, querer ficar. Gabriela, no momento da documentação, estava com 34 anos. Ela trabalha enquanto assistente social e possui diversos estudos como mestrado e doutorado voltados à área da saúde. É natural de Porto Alegre e morou na cidade sua vida toda. Ama estudar, viver cercada de pessoas (amigos/família) e acredita ser um grande elo para quem a cerca. Brinca, junto da Aline, que na época em que se casaram quase abriram um processo seletivo para decidir os convidados, de tantos que seriam. Praticou dança aérea durante um bom tempo, adora arte e tudo o que é relacionado à música e a dança. Aline estava com 35 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre, mas desde a infância já morou em diversas cidades brasileiras como Guarulhos (SP), Arroio do Meio (RS) e Brasília (DF). Voltou para Porto Alegre para estudar e hoje em dia fundou uma empresa que oferece serviço de soluções organizacionais para outras empresas. Ela e a Gabi moram no principal bairro boêmio da cidade e adoram a relação que possuem com os vizinhos, todos se conhecem, se sentem num bairro de cidade pequena. Ela adora tocar instrumentos como violão, ukulelê, também se aventura na cozinha, gosta de experimentar receitas, inventar coisas, passar horas… e transformar a casa num verdadeiro lar. Como a relação e a casa surgiram no decorrer da pandemia, diversos hobbies (como o próprio ato de cozinhar) foram surgindo em convivência com o lar. Entre eles, alguns mantém até hoje: como tomar um café da manhã demorado, passar bastante tempo com as gatas e dar valor à intimidade. Isso faz a rotina delas ser única. Sentem que, hoje em dia, existe esse lugar de segurança muito único dentro do relacionamento pelo fato de terem vivido muitas coisas no início e por sempre conversarem abertamente sobre tudo. É um lugar muito aberto, livre de julgamentos. Um espaço que deixa o relacionamento empoderado, fortalecido e amadurecido para falar sobre qualquer assunto. Quando pergunto sobre como entendem o amor que vivem, Aline explica que depois que começou a viver a relação com a Gabi, passou a falar muito mais sobre o amor. Acredita que esse falar/pensar em amor vem justamente por conta dessa aposta que fazem (e que falamos desde o início da nossa conversa). É o que nutre e o que faz bem, não é como uma certeza, um destino, algo que está dado, mas é algo moldado diariamente, construído, cuidado. É uma ação que precisa estar sempre sendo feita e pensada. Ainda mais entre mulheres porque se trata de um amor vigilante, um cuidado sobre onde podem amar e como será demonstrado esse amor: “Porque não são todos os lugares que se pode amar, apesar do amor estar sempre ali”. Gabi explica que trabalha com política de primeira infância e que nesse local sempre é criado ambientes acolhedores com vínculos seguros “que gerem autonomia para a criança saber explorar” e quando elas se conheceram ela estava estudando sobre isso e ficou muito tempo pensando como criaria essa liberdade dentro da relação, no sentido de estabelecer ambientes seguros para estarem confortáveis, possibilitar uma relação que pensa em conjunto e permite carinho, falar sem julgamento, expor as ideias e pensar diferentes rumos. E acredita que foi possível criar isso. E é em parte disso - somado a todo esse cuidado que possuem diariamente em manter o que foi feito até aqui - que está o amor. Com aproximadamente três meses de relação, fizeram uma união estável, por vários motivos: para a Aline entrar no plano de saúde da Gabi, para conseguirem morar juntas reduzindo burocracias, por questões políticas que acreditavam… Logo no começo da relação, quando caminhavam pelo bairro, elas sempre passavam pela rua que moram hoje (uma rua completamente aleatória, mas cismavam em entrar) e olhavam os apartamentos procurando algum para alugar, até que um dia encontraram e entraram em contato só para saber quanto custava. Não era uma opção mudar, ambas já tinham suas casas e Gabi estava rumo à entrega do seu doutorado, uma mudança não era cabível. Mas elas acabaram recebendo uma mensagem sobre esse apartamento, decidiram fazer uma proposta e não esperavam ter a proposta aceita. Descobriram que conheciam a dona. Tudo caminhou para que desse certo - e deu! Descobriram também que ele tinha até um pátio com plantas frutíferas. No começo rolou uma crise de ansiedade forte (também, como não rolaria, né? tudo estava acontecendo muito rápido) e as perguntas eram: Como iriam morar juntas? E como a família iria lidar com isso? Eram duas mulheres. Também iriam ser vistas como uma unidade familiar. Pensaram na união estável como saída. E aí chegam novos acordos e combinações. Quando decidiram casar, por exemplo, tiveram que pensar em outras coisas: “Se sofrermos uma situação de violência/preconceito aqui, indo fazer a aliança, por exemplo, damos as costas e não fazemos ou fazemos por ser o lugar mais barato e não termos a opção de fazermos em outro local?” Enfim, como agir se tiver um preconceito aqui? São novos pensamentos a começar a se “planejar” caso algo venha a acontecer. Por fim, se casaram embaixo de uma figueira, num evento incrível. Riem contando que metade da relação foi planejando essa festa. Mas destacam, também, o quanto demorou tanto para planejar porque não achavam referências de um casamento que representassem quem elas são. Não queriam que fosse tudo LGBT com bandeiras e tudo mais, não porque não precise ter uma bandeira (tudo bem ter), mas porque o grande símbolo são elas. O grande símbolo é o amor delas. Queriam celebrar o amor e comemorar com quem amam. Destacam que como se conheceram na pandemia, muitos dos seus amigos/familiares não se conheciam ainda e o evento foi para juntar todos numa grande festa, então era uma celebração que representasse o jeito delas de amar. Foi muito difícil criar isso sem preconceito ou sem fazerem questão de colocarem em alguma caixinha. Mas era necessário e quando aconteceu foi incrível. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Aline

  • Mariana e Vivien

    Porém, a Vivi tinha uma passagem comprada para passar o ano novo em Belo Horizonte, enquanto a Mari ia voltar com a família de vez para o Rio. O réveillon do ano de 2018 para 2019 estava acontecendo e ela não tinha mais previsão de volta para Porto Alegre. Além de que, a Vivi estando acampando em Belo Horizonte, estava incomunicável com a Mari. Elas tiveram um dia maravilhoso em Porto Alegre e depois cada uma foi para um estado diferente e não conseguiu se comunicar mais, só que não estava nem entendendo ou sabendo explicar o que estava sentindo. A Vivi conta que na volta de Belo Horizonte chegou a cogitar mudar a passagem para o Rio de Janeiro, só que não sabia se fazia sentido, se tudo estava sendo recíproco ou se estava delirando porque tinha passado dias estando incomunicável. Quando suas vidas voltaram ao “normal” elas seguiram se falando pela internet e no fim de janeiro decidiram comprar uma passagem para a Mari voltar à Porto Alegre. Ela ficou 5 dias. A Vivi odiava a ideia de namorar à distância e a Mari disse que não poderia cogitar a ideia de namorar também… mas quando se encontraram entenderam que não fazia sentido elas NÃO namorarem. A Vivi disse “Mari, eu acho que eu tô te amando”. Começaram a namorar. O namoro à distância durou quatro meses e a Vivi insistiu muito para que a Mari se mudasse. Então a Mari disse que só se mudaria se ela fosse buscar ela no Rio, por conta de conhecer a realidade dela no Rio, conhecer de fato a mãe dela, estar no Rio. Ela comprou a passagem e foi. Assim que chegou no Rio, começou a chorar. Se emocionou com o Rio, com tudo. No dia das namoradas, a Mari chegou com as malas em Porto Alegre para morar com a Vivi. Elas mudaram todos os móveis de lugar para sentirem que estavam morando em um novo apartamento, compraram coisas juntas, procuraram coisas novas para fazer… e então descobriram a aula de canto. Foi quando a Vivi decidiu começar também, para fazer companhia. Conheceram um professor que ficou muito encantado com a sintonia da voz das duas juntas e instigou-as a pensar em fazerem um clipe juntas. Fizeram algo simples, caseiro, lançaram no YouTube. Pensaram em um nome, gostavam do nome AMARela. Vivi fez o logo, elas começaram a produzir covers, postar com frequência. Logo depois disso veio a pandemia e elas estavam ansiosas porque lançariam um EP, mas nesse meio tempo a Mari foi demitida do lugar em que ela trabalhava. Foi um período muito turbulento em que precisaram se reinventar, pensar em como conseguiriam uma nova fonte de renda, porque o AMARela acabava gerando mais gasto do que ganhos financeiros… e como conseguiriam reverter essa questão? Resolveram repensar tudo o que elas gostavam de fazer. E a Mari entendeu que ela ama compor, sempre foi apaixonada por ouvir histórias e pensar sobre elas. Ela tentou começar a criar composições pelas histórias das pessoas e oferecer isso como um serviço para presentear alguém, para homenagear, para registrar… e assim nasceu o Canta Minha História (confere aí que é lindo!) Enquanto o Canta Minha História começou a ter uma estrutura e dar certo, a Vivi começou a pesquisar sobre tudo o que precisava e entrar com apoio também, até que em setembro, também por motivos de cortes da pandemia, ela foi demitida. A música foi crescendo, tomando conta e espaço, virando a fonte de renda única na casa, e elas foram estudando, se aprimorando, comprando equipamentos, formando um estúdio, fazendo parcerias, se mantendo, chegando em muitas pessoas…hoje, sentem muito orgulho em ver tudo o que estão construindo juntas e o quanto a música faz muito mais do que a parte financeira e a rotina delas, também traz muito do sentimento, da vida, da alma da casa e transformam o lar com a carinha de cada uma. A Vivi se desenvolve no teclado, no canto, na edição e no violão. A Mari nas composições, nas cordas, nas mixagens, nos estudos… e vão se completando o tempo todo. Enquanto mulheres artistas, ambas falam que nós podemos e devemos ter uma corrente muito maior ajudando artistas e musicistas menores no mundo da cultura no Brasil. Elas comentam que é muito fácil vermos artistas grandes se ajudando e sendo amigos, mas precisamos ver os pequenos se puxando para o alto também. Da mesma forma que é muito fácil quem tem dinheiro estar sempre chegando no alto, é preciso que quem esteja no alto puxe quem não tenha e que ainda seja pequeno. Precisamos estar nos apoiando, nos fortalecendo, compartilhando o nosso conteúdo entre nós. No dia seguinte, de manhã, elas se seguiram no instagram e a Mari resolveu perguntar como era o nome da banda que ela disse naquela hora, que afinal, era: Versos Que Compomos Nas Estradas!!! (e que elas pediram para eu colocar o link aqui, então, ouçam!!! é muito bom, galera! mas o nome é difícil mesmo aí ó hahaha) e ai conversa vai, conversa vem, a Mari soltou um: “e tu, toca violão? porque toda sapatão que é sapatão toca violão!” e então a Vivi finalmente entendeu que a Mari era realmente sapatão e que aquilo era de verdade um flerte, não era só uma menina sendo simpática. Elas seguiram conversando por alguns dias e decidiram marcar uma cerveja no bar para se encontrar. Comentaram de se encontrar sexta-feira, mas a Vivi já ia sair com uma amiga dela e a Mari já ia encontrar o primo, sábado também não podiam… domingo! Domingo ia rolar. Chegou sexta, a Vivi estava a caminho do encontro com a amiga e a Mari a caminho do encontro com o primo, na Rua dos Andradas, centro de Porto Alegre… quando de repente, se esbarram na rua. Eita. Tô indo ali. Encontrar. “meu primo ta ali” “minha amiga ta ali”. Mesmo bar. Mesma hora. Mesas diferentes. Não entenderam nada, mas brincaram “eu não te segui não, tá??”. No domingo decidiram que o mais justo seria voltar nesse bar. Foi um encontro ótimo. Beberam muito, comeram muito, conversaram muito. Dormiram na casa da Vivi. Detalhe: o encontro foi no dia 23 de dezembro, o dia seguinte era véspera de natal e 5h30 da manhã a Mari saiu correndo da casa da Vivi para ir no aeroporto buscar a família dela que estava chegando do Rio para passar o natal em Porto Alegre. Depois do natal, no dia 26, a Vivi mandou aquele textão emocionado pensando em marcaram um segundo encontro e a Mari respondeu com aquela palavra que resume tudo: “claro”. Se encontraram no apartamento da Vivi. Passaram o dia ouvindo MPB, descobriram mil músicas em comum, entenderam que realmente se encontravam na música. Nessa época ela já tocava ao vivo em alguns lugares, tinha um certo repertório e a prima dela, da qual ela estava na casa hospedada, tinha um escritório no Vila Flores, um centro cultural de economia criativa que hospeda empresas, cafés, etc. e pensou em levar a Mari lá para apresentar o espaço e um dos cafés que fazia um happy hour para quem sabe a Mari poder tocar lá e conseguir fazer um trabalho. Ela decidiu ir, se apresentou para a dona do local e se propôs a tocar lá. A dona topou e agendou para uma data próxima, foi aí, nessa história, que entrou no caminho: a Vivi. A dona do café é irmã da Vivi. E a Vivi estava trabalhando em todos os lugares possíveis para juntar dinheiro, inclusive no café. A irmã dela sabia que a Vivi ia se interessar pela Mari, então imediatamente marcou a Vivi num vídeo da Mari cantando (no Facebook), e disse para ela no Whatsapp “te marquei em um vídeo, acho que tu vais gostar”. Só que como ninguém mais usa facebook, a Vivi não olhou, achou que fosse uma bobagem da irmã dela. A irmã encheu o saco para ela olhar e ela não olhou. No dia do trabalho ela estava com muita preguiça de sair de casa, não queria ir, ficou enrolando, mas foi porque pensou “ah, vou, vai que eu encontro uma guria legal”. Quando chegou lá para trabalhar ela viu a Mari e um fotógrafo que estava trabalhando no evento queria postar uma foto que fez de todos e queria marcar cada pessoa na foto, mas não sabia o nome da cantora. Ela também não sabia, e ele pediu ajuda para ela descobrir. Então ela pegou o celular dele e precisou ir lá perguntar o nome da Mariana, absurdamente sem jeito e sem graça, com mil justificativas, gaguejando e dizendo que era exclusivamente porque o fotógrafo tinha pedido, ela perguntou qual era o Instagram para poder marcar a Mari na foto. Depois disso, o show todo aconteceu e no fim a Mari pergunta: alguém quer pedir alguma música? e foi a Vivi, lá perto, e disse…“você tava afinando teu violão né… era versosquecompomosnsduienarada?” e a mari “era o que?” “versouqmenajdartrada” “não conheço isso” “hum então era castello branco” “ahh castello branco eu conheço” “ah então toca castello branco pra mim!!”. Ela tocou, acabou o show, trocaram uma ideia super rápida e na hora da despedida e Mari voltou para dar tchau especialmente para a Vivi, ambas ainda sem jeito. Se eu pudesse, deixaria de fazer esse texto e colocaria um áudio da nossa conversa aqui para vocês ouvirem. (Alô, eu ouvi um Documencast?). Porque a Mariana e a Vivien são de um nível de humor contando a história delas que eu jamais saberia como colocar em palavras! Mas vamos lá, vou tentar. Esse texto vai se resumir na história de como elas se conheceram, porque como elas se conheceram, é o que elas são hoje. A Mari tem 26 anos e é carioca, super carioca. A Vivien tem 32 anos e é gaúcha porto alegrense, super porto alegrense. A Mari é formada em Artes Visuais - Licenciatura, mas nunca atuou enquanto professora, sempre curtiu mais a área da música. A Vivi é designer e hoje em dia também vive no mundo da música. A mãe da Mari é gaúcha, mas foi morar no Rio de Janeiro quando era muito novinha, ainda criança. Mesmo crescendo e vivendo no Rio, ela sempre teve uma conexão muito grande com Porto Alegre, por ter grande parte da família lá - e inclusive, quando a Mari era criança, por um tempo, chegaram a voltar e morar um tempinho em Porto Alegre de novo. Mas não deu certo, a mãe decidiu voltar para o Rio (nunca gostou muito do sul e dos gaúchos, sempre preferiu o agito carioca). Quando a Mari cresceu, fez a faculdade e no final da faculdade, em 2018, se viu muito perdida sobre em que carreira seguir e sobre o que fazer da vida. Pensou em passar um tempo em Porto Alegre, por gostar da cidade, por tentar respirar novos ares… e antes de viajar a mãe disse: - Mari, vê se não fica por lá, hein? - Mãe, eu só fico se eu encontrar o amor da minha vida! Eu conto, ou vocês contam? Enfim. Botão Vivien Mariana

  • Ana e Paula

    Conheci a Paula e a Ana num almoço muito agradável e acolhedor que elas fizeram para me receber na casa recém mudada, no ano passado, em Porto Alegre. Lá também conheci o João, criança que me encantou desde o primeiro momento e que faz despertar muitas risadas de todas as pessoas que estão por perto. O João é filho da Paula com a ex-companheira dela, mas que agora também forma uma família entre a Paula e a Ana, já que eles se divertem juntos e adoram estar um na vida do outro. Na casa-meio sítio, o João adora colher bergamotas, brincar com seu cãozinho Bidu, acompanhar a Paula e a Ana na cozinha, assistir documentários de bichos e comer doces. Na relação delas, tudo envolve muito cuidado. A Paula explica isso com uma reflexão sobre alguns padrões de gênero acerca das imposições que as mulheres passam durante a vida, e que agora, num relacionamento homoafetivo, tratam tudo de forma colaborativa e com muito acolhimento, para que as coisas sejam mais leves no cotidiano - e que assim, elas sejam mais felizes também. A casa estava recém tendo as coisas retiradas das caixas, mas já contava com muita confiança no que elas estão dispostas a construir juntas: o amor. A Paula tem 34 anos, trabalha como gestora de TI, desenvolvedora, artista visual e designer. Já a Ana, tem 35 anos, estudou Medicina Veterinária, mas não chegou a se formar. Passou a trabalhar na área da comunicação com mídia social, produção de eventos e produção cultural. Durante essa trajetória, já residiu em coletivos urbanos e rurais em Goiás, trabalhando nestes espaços, e também já trabalhou com algumas terapias integrativas, como massagem e Reiki. Atualmente trabalha com Comunicação Social, ministrando alguns cursos, fazendo campanhas de sindicatos e partidos políticos. Fez alguns trabalhos artísticos de literatura e pintura, principalmente poesia, coisa que gosta muito de trabalhar. Elas se conheceram no Vila Flores, um centro cultural muito interessante em Porto Alegre, no ano de 2018. O evento se chamava Conexões Globais e a Paula estava se apresentando no coletivo de arte que faz parte. A conexão entre as duas aconteceu porque elas têm uma amiga em comum (que trabalha no mesmo coletivo com Paula). Ana foi prestigiar essa amiga, se encantou com a Paula e depois da apresentação quis saber mais sobre quem era essa “moça que estava se apresentando”. Nisso, a amiga explicou que a Paula era casada e que tinha até um filho, bebê, o que deixou a Ana um pouco chateada mas que super entendeu. Com o passar do tempo, Ana foi morar em Goiás para residir e trabalhar em comunidades rurais e quando retornou ao Rio Grande do Sul, trabalhou em uma comunidade urbana no centro de Porto Alegre. Neste período, um dos seus colegas de morada ia embora, mas indicou uma pessoa para ficar no lugar dele: a amiga recém separada que tinha um filho pequeno. Ana conta que os amigos diziam que a moça que iria morar lá já tinha frequentado o espaço algumas vezes, mas ela não conseguia lembrar quem era. Até que na semana seguinte chegou a Paula, para fazer uma visita na casa. A reação da Ana foi estar incrédula por ser a mesma Paula de anos atrás… Mas focava em uma regra que mantinha consigo mesma sobre não se envolver com ninguém que dividisse uma casa, pois isso poderia gerar conflitos no lar. De qualquer forma, tem coisas que não há como querer controlar, né?! A Paula brinca que quando a Ana passou por ela, parecia um gato se esfregando, pois estava muito próxima (mesmo tendo bastante espaço no ambiente que estavam). Na hora ela achou engraçado, não percebeu de cara que era um flerte. Por fim, elas não conversaram muito e de última hora a mudança não aconteceu: o amigo cancelou a saída e precisou se manter na casa, não abrindo lugar para a Paula se mudar. Elas não se tinham nas redes sociais e acabaram perdendo contato novamente. No começo da pandemia, em 2020, elas se encontraram num aplicativo de relacionamento (o já famoso por aqui, Tinder). Elas conversaram e, depois de um tempo, se encontraram para tomar um vinho. Brincam que desde então não se desgrudaram mais. Nesse período, em virtude da pandemia e das dificuldades de morar em grupo, Ana se mudou para um apartamento com uma amiga e o filho dela e a Paula seguiu morando no mesmo local em que estava com seu filho. Isso fez com que elas se sentissem mais seguras de se encontrar também - e de compartilhar várias coisas sobre as crianças no dia a dia. Após dois meses de relacionamento, a Paula convidou Ana para almoçar junto com ela e o João. Foi um dia super importante, Ana conta como ficou nervosa, mas que fluiu tudo de modo muito tranquilo - João e ela brincaram e rapidamente ele demonstrou afeto e inclusive quis almoçar sentado no colo dela. Aos poucos Ana foi sendo inserida na rotina da casa e da família. João também foi entendendo essa presença, perguntando sobre ela. Quando passaram por uma mudança ele perguntou onde seria o quarto dela e quando ela não estava ele questionava por qual motivo/o que ela estava fazendo. Num dia, Paula perguntou para o João se ele gostava de estar só os dois e ele afirmou que sim, e quanto questionado sobre o que pensava da Ana, disse que era mais legal quando a Ana estava junto. Isso foi como um divisor de águas para elas entenderem o processo dele na adaptação. Ana conta que não era uma ideia fácil inicialmente se relacionar com alguém que tivesse filhos, mas que por viver essa paixão com a Paula quis realmente abraçar toda a vida dela. Paula complementa relembrando um dia em que foi difícil lidar com o João, então ela chegou a pensar que a Ana iria desistir, mas que isso não passou pela cabeça da Ana. É muito legal ver a educação dele se desenvolvendo, a participação dela nisso, os limites colocados e toda a relação sendo construída com base no amor. Elas se emocionam contando a primeira vez em que ele disse que amava a Ana e sobre o quanto viraram parceiros-cúmplices do dia a dia, fazendo o que gostam e ele também trazendo muitos ensinamentos para Ana - que passou a participar de grupos de madrastas lésbicas e a seguir redes sociais sobre parentalidade também, pois não queria criar um território de disputa com as mães ou o pai. Destaca o quão sempre foi importante para ela poder ser uma figura de referência e afeto, mas sem competições, disputas ou invasões de espaços. Ana traz também sua reflexão sobre os aspectos sociais do seu lugar enquanto madrasta e das pré concepções e preconceitos existentes acerca desse papel na família a fim de abraçar esse universo com todas as ferramentas possíveis. Fala sobre o amor ser onde nos sentimos seguros para ser quem somos, e nesse cenário de família tradicional brasileira que elas são, elas querem ser de verdade e amar de verdade, sem medo. Ambas concordam que não é uma receita de bolo e que amar e construir a relação que constróem envolve se desafiar todos os dias. Paula reflete também sobre a concepção de construção familiar não ser feita para contemplar o amor e sim o poder - traz que para poder registrar o João tiveram que defender a família que ele tem, afirmando que o que importa é o amor, na concepção de que ele tá sendo privilegiado por ser amado por mais pessoas. Enquanto o “medo” alegado pela Justiça, era de que ele seria maltratado por ter uma família diferente do padrão esperado, ao invés de ser entendido como alguém de sorte por ter duas mães, agora uma madrasta e um pai. É muito injusto ter que se justificar para que o ciclo de amor em volta de uma criança seja criado, mas é incrível ver a forma que elas se firmam nesse relacionamento para que as trocas entre as duas (e o João) sejam as mais bonitas possíveis durante o trajeto. ♥ Paula Ana Carolina

  • Luana e Maiara

    A Luana e a Maiara são duas mulheres que não se conheceram por tantas lutas e tantos gostos em comum, mas foram descobrindo isso aos poucos entre papos e conversas. Quando elas se conheceram, na verdade, nem imaginavam o quanto poderiam se encaixar: foi num match de Tinder, quando a Maiara passava pelo aeroporto de Porto Alegre, que a Luana apareceu e ela achou a bio dela engraçada, resolveu dar ‘like’. Conversaram e logo ela saiu da capital, foi até a sua cidade, Pelotas, que fica no interior do Rio Grande do Sul. Continuaram conversando por um tempo, mais ou menos um mês, até que a notícia veio: a Maiara tinha voltado com a ex. Luana ficou um pouco triste e até meio irritada, ela confessa. “Poxa, um mês ali, né? Dá esperanças na gente”. Agora ri. Mas não queria que a Maiara saísse da sua vida, então encarou a amizade, afinal, se encaixaram tão bem… O ano era 2019 e a Maiara viajava bastante por conta de alguns trabalhos. Ela era bolsista e falava sobre saúde da população negra, enquanto a Luana também estava trabalhando num projeto do Estado de Implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, então a Maiara viajava o brasil e a Luana o Estado junto com esses projetos… o que não deixava de ser, também, uma forma de aproximar as duas. Elas conversavam, trocavam figurinhas, assuntos em comum, interesses pela mesma área, pesquisas, livros e referências. Foi durante uma viagem que elas conversaram por mensagem e mandaram áudios cantando no karaokê músicas bêbadas, se divertiram, passaram do ponto, choraram… E depois, quando a Luana estava de volta em Porto Alegre, a Maiara fez uma ligação por telefone. Ficaram pensando: O que se fala no celular quando se liga para alguém depois de mandar vários áudios cantando no karaokê?! No fundo, toda essa sensação estranha não era pelo karaokê, mas por não estarem sabendo lidar com o que sentiam uma pela outra enquanto a Maiara ainda estava em um relacionamento… Foi quando conversaram e a Luana disse que era melhor fazerem alguma coisa para mudar isso. A Maiara tomou iniciativa, terminou o relacionamento e elas combinaram de se ver, em Porto Alegre. Deu certo o encontro e todo final de semana, praticamente, eles repetiam. Maiara ia até Porto Alegre, elas se encontravam e passavam um tempo juntas, foi virando algo à distância, porque se viam de tempos em tempos, até que chegou a pandemia e ela se mudou de vez. Claro, existiram muitas conversas sobre os espaços e as individualidades, tanto que preferiram manter duas casas, ao invés de realmente morarem juntas, mas irem para a mesma cidade seria a melhor opção para que a vida se adaptasse (e os trabalhos também) durante o período pandêmico. A Luana tem 29 anos e é terapeuta ocupacional. Maiara tem 32 anos, é formada em Educação física e está se graduando em Psicologia. Elas adoram andar de bicicleta, cozinhar, praticar esportes, tomar chimarrão e ficar em casa deitadinhas conversando sobre várias coisas. Para a Maiara, amar é sempre um ato político. E isso inclui o amor que ela sente pela Luana. Demonstrar o afeto e o amor delas, como elas estavam fazendo enquanto conversávamos, é um ato político. É romper todas as amarras que um dia já foram colocadas. A Luana explica que os lugares que elas ocupam por serem mulheres negras é estar sempre reafirmando quem elas são, principalmente quando (e por) escolheram estar juntas. “São duas mulheres negras se amando. Isto é algo impensável para muita gente.” Além de que, também é algo que não nos é ensinado. Ao homem, se ensina “amar”... no caso, a ter uma esposa. À mulher, não se ensina nada sobre. Nos tornarmos companheira é um ato da nossa natureza. E, duas mulheres negras se amarem, é revolução diária. Quando pensamos na cidade e pensamos em Porto Alegre (ou em Pelotas também, já que é a cidade que a Maiara viveu), elas comentam que gostariam de ver maior pensamento social, para que não matem mais pessoas negras e LGBTs por ser quem são. Para Maiara, pensamento social é também sobre dar voz. Não faz sentido dar voz se não há transformação social como um todo. Precisamos inserir as pessoas nos lugares, fazer a forma coletiva existir de verdade. E que uma história vá servindo de base e sustentação para puxar a outra, para que tenhamos caminhos mais tranquilos daqui para frente. Luana Maiara

  • Alice e Glauci

    Alice e Glauci moram em um apartamento super aconchegante em Porto Alegre, junto com suas cachorras, Pitanga e Amora. Elas estão juntas desde 2018 e se encontraram pela primeira vez lá mesmo, no apartamento, onde fizemos as fotos. São mulheres que gostam de cuidar da saúde (e aprenderam a gostar disso durante a pandemia). Trocam diversos estudos sobre diversidade, passam os fins de tarde no parque, saem para tomar cervejas, fazer a feira (e o rancho, como dizem os gaúchos) e sabem se divertir juntas: seja montando quebra-cabeças ou fazendo festa junina em casa. Além de todas as atividades que fazem por pura diversão, elas se comprometem todos os sábados com um trabalho voluntário de distribuição de marmitas às pessoas em situação de rua lá em Porto Alegre, o PF das Ruas (projeto que o doc, sem querer querendo, também já teve ligação ♥ então quem não conhece, vale muito conhecer!). A Alice tem 32 anos, é analista de experiência em um banco e nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde morou até os três anos de idade. Depois disso, passou a infância em uma cidade chamada Lagoa Vermelha, também no Rio Grande do Sul, e aos quinze anos se mudou para Porto Alegre para estudar. A Glauciene tem 26 anos, trabalha como Analista Digital/Customer Experience no mesmo banco que a Alice, mas em áreas diferentes, visto que uma atua no banco físico e outra no banco digital. A Glauci estuda ciências contábeis e a Alice faz pós graduação de MBA em Diversidade e Inclusão, sendo, inclusive, líder de Diversidade LGBT dentro do banco em que trabalha. Foi ocupando este espaço em que entendeu cada vez mais a importância de estudar e se aprimorar. Elas acreditam que as políticas públicas precisam ser direitos de todos, como diz a teoria e a constituição, de forma decente, e com cuidado: cuidar de todos desde a educação até o acesso à cidade. É o que mais desejariam ver acontecendo em todo o país. Alice fala o quanto ela sente medo e sente a falta de segurança atrapalhando o seu dia a dia, por não se sentir segura andando pelas ruas de Porto Alegre, e que sempre pensa em uma realidade diferente em que possa ter acesso a algo tão básico como sair na rua sem medo. Em 2018, foi numa breve conversa através de um aplicativo de relacionamentos (o famoso Tinder) que elas se conheceram. Digo breve porque logo a Glau sumiu, por meses não respondeu e a vida seguiu. Até que numa sexta-feira ela apareceu, mandou um “Oi”! E aí papo vai, papo vem, naquele mesmo dia Alice resolveu chamar ela para sair no dia seguinte, mas ela resolveu propor de se verem na sexta mesmo, um pouquinho mais tarde, se arrumavam e se encontravam. Alice já estava convicta de que ela sumiria de novo, até que o interfone tocou! Elas ficaram um tempo no apartamento dela e decidiram ir para uma festa, onde encontrariam uns amigos. A Glau deixou algumas coisas na casa da Alice e elas brincam que foi “propositalmente” para voltar lá depois, no fim da noite. O beijo demorou um pouco para sair, em vários momentos uma achou que a outra fosse tomar a iniciativa e ficou nesse vai-não-vai. Até que finalmente aconteceu. Depois de voltarem para a casa juntas continuaram se encontrando, a Glau passou as férias na casa da Alice e no ano novo juntas em Santa Catarina aconteceu um pedido de namoro, com piadas internas entre amigos para lembrarem das alianças e tudo. Elas contam que construir o relacionamento não é nenhum pouco fácil. Um dos momentos mais difíceis enfrentados aconteceu logo no começo, quando a avó da Alice faleceu. Era a comemoração de um mês juntas e foi um baque muito grande, muito intenso. Ao mesmo tempo que tudo era muito triste, foi também surpreendente ver a Glau tão forte ao lado dela, porque pessoas que conheciam a Alice há muitos anos não deram tanto apoio como ela recebeu da Glau, e isso significou muito, foi como um estalo sobre ela poder dar um verdadeiro voto de confiança. Elas contam também que o convívio por conta da idade não foi fácil, além disso, passaram por momentos de desemprego, a Alice chegou a trabalhar como Uber, a Glau já não se sentiu em casa e teve a casa enquanto um lar… todos esses momentos fizeram parte de construções em que foram cedendo para que continuassem firmes. É sempre uma conversa e escuta ativa para entender como podem melhorar, como o lar pode ser das duas, como as coisas podem ser melhores para ambas… e como elas podem estar em sincronia. Conversam muito sobre as questões que aparecem no dia a dia. Passaram momentos que as fizeram crescer muito, que hoje estão num patamar de muito amadurecimento e parceria… Mas não foi nenhum pouco fácil. Alice não é muito de falar o que está sentindo, já a Glau tem mais facilidade para falar sobre as coisas… tudo precisa ser medido, equilibrado. Por fim, elas contam que juntas entendem o amor como se conhecer de verdade. E quando o conhecimento acontece, ele já não dói mais, é quase que ao contrário… não ter essa pessoa na sua vida é que dói. Amar é também sempre buscar melhorar, para você, para o outro e para todos. Alice Glauci

  • Camila e Laura

    Gostaria de começar a história da Laura e da Camila premiando-as com o título de casal mais brega que já passou pelo Documentadas. Este, um título naturalmente conquistado, não enquanto um brega em tom ridicularizado, cômico demais ou até enjoativo, mas genuinamente delas, algo que se faz parte em cada móvel do apartamento, história engraçada que contam ou fotografia realizada dentro do projeto. O brega não veio através de “eu te amos” falados o tempo todo - bem pelo contrário, Camila explica que o “eu te amo” parece nem ser o bastante para elas. O brega existe mais pelas bicicletas que representam ela ensinando a Laura a andar de bicicleta na praia, o fusquinha verde que ela tinha no começo do relacionamento, o livro de poesias (que sim, ela mesmo escreveu e lançou um livro de poesias para a Laura) e uma casa inteira de bonecas que representa a casa delas. Olhar para esses anos de relacionamento enquanto contam suas histórias representa enxergar o quanto acrescentaram uma à outra. Anexaram suas coisas boas e ensinaram/aprenderam o que ainda não sabiam. Enxergam como mudaram (e que bom que mudaram!), ficam felizes com suas novas versões e entendem que se não estivessem juntas não teriam vivido tantas evoluções. Laura, no momento da documentação, estava com 36 anos. É natural de Porto Alegre - Rio Grande do Sul e trabalha enquanto auxiliar administrativa sendo servidora pública. Camila, no momento da documentação, estava com 33 anos. Também é natural de Porto Alegre e trabalha enquanto professora de história, sendo servidora pública. Além de ser professora, Cami faz paródias sobre história, então usou o hobby de tocar violão para ensinar os alunos (criou um canal, tem músicas muito legais e acaba fazendo paródias não só sobre história). Além disso, participa de grupos de pesquisas sobre gênero e a presença de mulheres na história. Dentro de casa, contam com mais duas companhias: a Pagu e a Chica, suas cachorrinhas que estão no lar desde a pandemia de Covid-19. Adotaram pelo tanto de tempo que passaram em casa e por sempre desejarem ter cachorros, àquela era uma boa hora para fazer a adaptação. Ao começar a contar sobre como se conheceram e trazerem os fatos, logo surgem brincadeiras sobre se perderem nas datas - e logo a Camila, que é professora de história, foi muito cobrada sobre. Foi em outubro de 2014, que aleatoriamente, Camila adicionou a Laura no Facebook. Ela jura que não costumava adicionar pessoas que não conhecia nas redes sociais, mas viu uma foto da Laura, com um amigo em comum, fazendo campanha eleitoral presidencial para a Dilma e decidiu adicionar para fazer amizade. Na época, tudo estava à flor da pele com a campanha acirrada Dilma X Aécio (e no Rio Grande do Sul o Estado estava Tarso X Sartóri, que também não era nada fácil) e ela se sentia muito cansada de não ter pessoas sensatas para conversar. Procurava alguém que tivesse uma ideologia política em comum. Laura perguntou da onde elas se conheciam, Camila explicou que não se conheciam mas que gostaria de fazer amizade. Na época, Laura passava por um término de relação e topou conversar. Um tempo depois, quando já estava sozinha, chamou Camila para sair e de lá em diante começou uma paixão relativamente avassaladora: Cami tinha uma viagem agendada, foi e quando voltou já se sentia totalmente apaixonada pela Laura. Desde o começo do namoro passaram por diversos processos: moraram juntas, o relacionamento foi caminhando com o apoio da família (a irmã da Laura inclusive que apoiou que morassem juntas), meses depois Camila fez o pedido de casamento usando a casinha de bonecas, os anos se passaram e chegaram até a segunda casa - que moram hoje em dia. No momento de viver a segunda eleição presidencial em que o [sempreFora]Bolsonaro foi eleito, decidiram firmar a ideia do casamento: não teria mais como adiar, era uma decisão política. Realizaram a cerimônia em janeiro de 2019. Em 2020, viveram o desafio da pandemia. Com ele, refletem sobre como mudaram questões de comunicação - como a Camila chama para conversar o tempo todo, por exemplo, puxa para resolver os problemas - e como é muito raro brigarem. Tudo fala sobre questões cotidianas e como tentam resolver a rotina no entendimento. Entendem que uma trabalha muito mais que a outra, então tudo bem em alguns dias a que trabalha menos resolver a bagunça do sofá, da casa, enquanto a outra está ocupada, assim, se equilibram das formas que conseguem. A ideia é não sobrecarregar justamente para não desenvolverem brigas desnecessárias. Camila acredita ser uma vantagem se relacionar com alguém diferente dela. Laura ri e concorda, elas se complementam. Dá o exemplo: Cami é organizada nos prazos e planos de vida, coisa que Laura nunca foi e que hoje em dia adora ser - porque Camila é pelas duas. Laura entende que isso também é amor. Toda essa disposição que elas possuem de entender, de se compreender, de estarem dispostas a se completarem e realizarem trocas. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Camila

  • Documentadas

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Toda mulher merece amar outra mulher. Olá; AQUI REGISTRAMOS O AMOR ENTRE MULHERES ATRAVÉS DA FOTOGRAFIA. Portfólio Para conhecer nossas histórias, clique aqui > sobre 02 sobre nós O documentadas começou através de diversos estudos e da percepção de que as mulheres são pouquíssimo registradas em toda a sua história, principalmente tratando-se de mulheres que se relacionam afetivamente com outras mulheres. Para dar um basta e contar nossa própria história, percorro o país registrando casais e através desse site criamos conexões e laços de fortalecimento. Para conhecer quem faz o documentadas, clique aqui > lançamos um livro! vem saber mais aqui Rayanne Psicóloga Gestalt-terapia Leia mais Ray é natural do Rio de Janeiro e realiza atendimentos online com foco na população LGBT+ e negra. Ela acredita na potência transformadora da troca no encontro e de uma prática terapêutica que se contextualiza. Viviane Psicóloga Psicanalista Vivi é natural de Porto Alegre, é psicóloga e tem a psicanálise como referencial ético e teórico. Leia mais Marina Psicóloga Humanista Mari é natural de Brasília e na sua prática terapêutica valoriza a individualidade de cada pessoa, oferecendo um espaço de acolhimento e escuta sensível. Leia mais Banco de images QUER PARTICIPAR DO PROJETO? vem por aqui! :P doc educa apoio educacional com ensino de idiomas para mulheres - conheça o acesse aqui gerando renda para a comunidade Acreditamos que - além de que contar histórias de mulheres - podemos conecta-las. Falarmos sobre seus trabalhos, compartilharmos situações, momentos e, enfim, gerarmos renda. O mercado de trabalho segue difícil e podemos nos apoiar contratando trabalhos de mulheres da comunidade LGBT. Sendo assim, no nosso espaço de 'busca' você consegue pesquisar pela palavra-chave (o serviço que você precisa), ver qual profissional está à disposição, ler sua história e nos mandar uma mensagem. Nosso papel será te conectar diretamente com a profissional desejada! gerando renda para o projeto Manter o projeto não é tarefa fácil! Fazer viagens, pegar metrôs, ônibus, barcas... disponibilizar tempo e conseguir manter as contas pagas é um grande desafio. E como queremos documentar o maior número de casais possíveis, disponibilizamos o nosso PIX e aceitamos qualquer valor como quantia de doação! Você pode nos ajudar clicando aqui e fazendo a doação (qualquer valor!) de forma voluntária direto pelo aplicativo do seu banco! Colabore com a documentação histórica do amor entre mulheres! Contato

  • Drika e Janis | Documentadas

    Amor de Dia a Dia - Drika e Jana clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Taynah e Estrella | Documentadas

    Amor de Ano Novo - Taynah e Estrella clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Fabi e Dani

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Fabi e da Dani, quando o projeto passou por São Paulo! Começo a história da Dani e da Fabi contando um fato que elas me relataram sobre como enxergam o amor e a relação, logo no fim da nossa conversa: elas viveram uma situação em que foram até um bar encontrar alguns amigos, mas uma chegou antes que a outra. Até então estava super divertido… Ria, conversava, e brincava. Quando quem faltava chegou e elas finalmente ficaram juntas, o amigo comenta: “Você estava bem antes. Estava feliz. Mas agora, que ela chegou, vocês se encaixam. É como um brilho que acrescenta. Não faltava, mas agora acrescentou.” - e, assim, talvez consigam identificar muito do amor em pequenos detalhes. A Fabiana tem 41 anos, é natural de São Paulo (capital) e trabalha enquanto bartender, mas já foi da área de eventos e de produção. Ela entende o amor como uma dedicação e um ponto, também, de descanso, porque quando está do lado da Dani está tranquila. Ao longo da vida, a Fabi não teve grandes demonstrações de amor sendo explanadas e colocadas fisicamente - na família ou em outros relacionamentos - por isso a relação dela com a Dani se tornou uma referência. Elas estão sempre relembrando o quanto são importantes uma para a outra. A Danielle tem 34 anos, sua família é de Santa Catarina, mas ela cresceu e vive até hoje em São Paulo (capital). Dani trabalha (e muito!) em uma agência, com mídias e publicidade. É apaixonada por cachorros, convenceu a Fabi de adotar a Nina e a Laka (quando a ideia inicial era a doce ilusão de ter uma cachorra de porte pequeno…) e acredita que o amor está, dentro das relações entre mulheres, de uma forma importante e única. Ela vê o amor no cuidado porque quando pára o mundo para cuidar de alguém, é a melhor forma de demonstrar que ama. E que, quando esse alguém é outra mulher, a doação é muito mais intensa e profunda. Quando a Dani e a Fabi começaram o relacionamento, foi aquele clássico: logo partiram para morar juntas. Mas calma, antes disso tem uma introdução. Elas se conheciam “de vista”, eram colegas de bar. Tinham amigos em comum, mas não conversavam muito. A Dani tinha saído de um relacionamento que não tinha sido legal há pouco tempo, começava a frequentar mais o bar e numa dessas idas a Fabi estava lá. Foram se encontrando, interagindo e num dia, após um evento na Casa 1, se encontraram e conversaram mais (a Casa 1, caso você não conheça, é um centro de acolhimento para LGBTs que foram expulsos de casa - e também funciona como centro cultural e clínica social em São Paulo). Nos dias seguintes se encontraram novamente e beberam bastante. Nesse dia, finalmente os amigos se uniram numa mesa só e no final da noite elas foram dormir no mesmo lugar. Nessa altura do campeonato, a Fabi já sabia que a Dani beijava mulheres também e foi então que o interesse aconteceu. Após ficarem pela primeira vez, a vontade de se encontrar foi surgindo naturalmente e durante as próximas semanas voltaram ao bar algumas vezes. Contam que foi muito natural o começo do relacionamento pela vontade que tinham de estarem juntas. Nessa época, a Dani ainda morava com a mãe, mas elas passavam muito tempo na casa da Fabi e foi então que decidiram pela mudança. O apartamento inicial era pequeno, mas a comunicação entre elas era o principal e sempre fluiu bem. Elas brincam que até hoje, quando acontece alguma briga, os amigos estranham, porque não é tão normal assim. O que elas precisam resolver, se resolve na hora: a comunicação é o mais direto possível para que as coisas sigam seu caminho da melhor forma. Elas entendem também que isso foi devido a um processo interno e individual. A Dani, por exemplo, tinha uma comunicação ruim antes do relacionamento porque guardava muitas coisas para si, mas entendeu que a sociedade já é muito difícil de se conviver e de se estabelecer boas relações. É difícil sermos aceitas, conquistarmos nossos espaços, termos um bom contato… Então decidiu melhorar esse processo da melhor forma que poderia: demonstrando o que sente para deixar as coisas mais claras. Hoje em dia, elas não aceitam preconceitos, discriminações, críticas árduas vindo de quem não as conhecem… Reconhecem o amor delas enquanto algo único e lindo - e reconhecem também o caminho que percorreram para chegar até aqui. Alguns anos (e mudanças) depois, as cachorras chegaram para alegrar ainda mais a casa. A Dani sempre sentiu muita falta de ter um cachorro no lar e a Fabi estava amadurecendo a ideia, então procuraram abrigos e ONGs, decidiram num sábado de manhã cedo ir até uma feira de adoção juntas escolher um cachorro >pequeno<... e, obviamente, os planos foram interrompidos. Na sexta à noite a Dani estava num bar e a prima dela ligou desesperada precisando de ajuda, quando ela chegou para prestar suporte, a cena era: uma cachorra precisando de lar temporário. Acho que o resto nem precisa explicar, né? De pequena não parecia ter nada, principalmente o coração: Nina adotou a Dani e a Fabi na primeira oportunidade. A Laka surgiu um tempo depois, quando a irmã da Dani resgatou e cuidou, postou fotos e a Dani, ao ver, chorou e sentiu que precisava adotá-la. Rimos muito porque a Fabi nem teve escolha, ela tinha se apegado só pela foto. Como diria não? Hoje em dia, elas contam o quanto as cachorras são sensitivas. Elas sabem quando as humanas estão doentes, estão sempre sendo muito parceiras, ficando ao lado e sendo atenciosas. Além disso, no dia a dia, são a diversão da casa e fazem com que tudo fique mais leve. É um cuidado refletido em muito amor. ♥ Entendemos que cada pessoa possui a sua forma de amar. Às vezes o amor não precisa ser sempre demonstrado da forma mais delicada, feminina e romântica. Elas, por exemplo, entendem que possuem a sua forma de amar. É uma forma pura, que vai se moldando com o tempo. É também uma forma muito carinhosa, que envolve admiração, preocupação, brincadeiras, diversão e tantas outras coisas cotidianas. Logo depois da eleição do atual presidente foraBolsonaro, elas sentiram medo e necessidade de reafirmar esse amor, portanto oficializaram a relação com o casamento. Entendem esse ato como um ato político, visto que a nossa união está o tempo todo ameaçada pelo atual governo. Muitos outros casais sentem e sentiram o mesmo no momento em que ele foi eleito, portanto o casamento delas foi um dos exemplos de casamentos coletivos realizados no Brasil. Hoje em dia, são mulheres que seguem enfrentando da forma que está ao alcance os desgastes dessa política que nos ataca diariamente. E enfrentam, também, com afeto. A Fabi explica, por fim, o quanto foi ensinada a ser dura, bruta, demonstrando menos fragilidade nessa vida, mas que aprendeu (e aprende todos os dias) que o afeto está em fazer com que as pessoas que ela ama se sintam bem. É uma forma que ela e a Dani encontram de acolhimento e de estarem compartilhando coisas boas ao redor de quem amam. Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Fabiana Danielle

bottom of page