Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
292 resultados encontrados com uma busca vazia
- Mariana e Viviane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mariana e Viviane, quando o projeto passou pela Bahia!. Mariana e Viviane são de Salvador, mas se conheceram em viagens à trabalho para a Chapada Diamantina. Num encontro bastante aleatório, Vivi estava sozinha em um bar bebendo uma cerveja no fim do dia, enquanto Mari passeava com o pai e acabou no mesmo lugar. Lá, em meio à música ao vivo, todos que estavam presentes interagiram, inclusive elas. Passaram horas conversando, além das trocas de olhares, beberam cerveja e riram de bobeiras. Decidiram trocar telefones e, quando a Mari chegou em casa, mandou uma mensagem pensando “Que mina massa! Vou agradecer pela nossa conversa que foi realmente muito boa!”. Depois de conversarem por mensagens, nos dias que se passaram a Vivi chamou Mari para ir na pousada em que ela estava beber uma cerveja. Mari avisou que tinha algumas garrafas em casa, então colocou na sacola e foi até a pousada. Naquela época, ambas tinham acabado de sair de casamentos héterossexuais, então em meio ao processo que viviam foram ficando cada vez mais próximas. Desde então, não se desgrudaram mais. Mariana, natural de Salvador, estava com 39 anos no momento da documentação. Ela trabalha enquanto advogada. Viviane, também natural de Salvador, estava com 43 anos no momento da documentação. Ela conta que “é um monte de coisa”: instrutora de yoga, doula, empresária, mãe, turismóloga… Seus filhos (o mais velho com 11 anos e a mais nova com 8 anos) adoram a Mari. Desde o começo eles saíam muito juntos, iam para o parque, o shopping, a praia… mas as crianças ainda não sabiam que elas namoravam. Até que um dia, num restaurante, a mais nova disse que o irmão estava falando que a mãe e a Mari estavam namorando, e ela respondeu: “Mas a gente tá!”. E pronto. Foi uma festona. Um misto de ficarem incrédulos com muito felizes. E aí surgiram as questões: “Mari, você vai ser nosso segundo pai?!” “Papai também vai namorar um menino?!” Os questionamentos naturais dialogam com a naturalidade que as crianças veem a relação. Hoje em dia, contam que a mãe namora e acham isso incrível. No começo da relação, brincam que se enrolaram um pouco. Estavam processando suas novas vidas e acreditam o quanto isso influenciou. Mas foi depois de uma viagem que a Mari fez para o Rio de Janeiro que a Vivi resolveu se abrir sobre seus sentimentos e falar o quanto gostaria de começar uma nova vida com ela. Mari nunca tinha se relacionado com mulheres, então passaram por momentos de se assumir para a família, o que gerou bastante medo para ela. A família não aceitou inicialmente, achava que a Mari nunca se relacionaria com uma mulher, porém as duas foram dando tempo para que eles processassem e tentando não gerar nenhum stress, hoje em dia todos já se dão bem em casa. Pelo lado da Vivi, o desafio foi contar ao pai. Na época ele estava com 82 anos, tem seus lados conservadores, mas depois de contar ele respondeu “Só isso?! Ah, então tá bom!” e ela ficou positivamente surpresa. Hoje em dia, mesmo morando em casas diferentes, elas amam se encontrar em praças e ir à praia (na praça que fizemos as fotos, inclusive. Por ser um lugar seguro e bom de ficar à toa). Elas brincam que não possuem hobbies específicos, porque no tempo livre se dividem entre dormir e ser mãe, recuperar o sono perdido nos últimos 11 anos. Vivi acredita que o amor precisa ser leve, pois quando há tensão/densidade/peso ela quer repelir. Entendem que no amor que vivem possuem muita liberdade e confiança uma na outra, então enxergam o momento atual enquanto tranquilo e confortável. Entendem que precisam de tempo para digerir processos internos, mas que a parceria faz parte da relação como um todo. Hoje em dia, vivem enquanto um casal tal qual viveriam enquanto heterossexuais, e não evitam de ser quem são. ↓ rolar para baixo ↓ Mariana Viviane
- Marcela e Karine
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marcela e Karine, quando o projeto passou por São Paulo! A Karine e a Marcella são aquelas pessoas que jamais conseguiriam viver sem arte na vida. Arte em todos os aspectos: a cultura no cotidiano, passando pela pintura, pelo teatro, pelo cinema ou pela dança. Dentro do apartamento em que elas moram em São Paulo fazem uma produtora acontecer - e dessa produtora já saiu websérie, ideia para Canal no Youtube, filme, peça… tudo vira vida. A produtora criada em 2018/2019, com nome La Loba, vindo do livro Mulheres que Correm com Lobos, foi um passo muito importante também para elas colocarem em frente o que acreditam: a liberdade no criar. Roteirizar, filmar, dialogar com novos atores. Criar cenas e redescobrir aspectos de criatividade, ainda mais dentro de casa, é um desafio divertido. Quando falamos sobre as ferramentas de gravar dentro de casa (por elas terem as ferramentas necessárias, desde equipamento técnico até o suporte para lançar, como o YouTube ou outras plataformas), elas comentam também que não admitem a ideia do artista pobre, essa coisa de que o artista precisa vender o almoço para comprar a janta. Não que precisem viver o luxo, mas que querem suas profissões respeitadas e valorizadas para que tenham uma vida confortável e saudável: “Ter o trabalho reconhecido”. Suas competências artísticas são enormes, estudaram (e estudam!) há anos para construir isso e é um exercício diário relembrar o quanto o teatro, a peça, o filme, a dança, a música, a expressão artística é tão importante para o nosso dia-a-dia quanto tantas outras coisas que fazemos. Karine é de Tatuí, cidade intitulada como Capital da Música, interior de São Paulo. No momento da documentação ela estava com 33 anos e contou sobre um projeto do Governo do Estado de São Paulo em que estava fechando diversos cursos universitários lá na cidade natal dela (local que a família reside até hoje), incluindo o curso que ela fez, de Artes Cênicas, que já estava encerrado. Falou sobre a dificuldade de se ver longe e ver uma cidade com tantas potências, com um dos maiores conservatórios de música da América Latina, resistindo, mas sem muitas forças perante um poder tão maior que é o legislativo. Mas que, mesmo com todas essas sensações de cultura sendo levada “embora”, não desistiria, pois da mesma forma que ela esteve lá por tanto tempo ainda há pessoas muito boas fomentando a arte nessas cidades - e não só: a arte, a história, os eventos culturais, os projetos de voluntariado, etc. A Marcella também tem uma trajetória de busca pela cultura no interior de São Paulo, mas dessa vez em Piracicaba. Ela estava com 32 anos no dia em que nos encontramos e contou que a sua trajetória na arte da cidade foi impulsionada quando começou a fazer um curso no SENAC (e, nesse curso, também conheceu a Karine). O ano era 2016, encenaram uma peça sobre A Paixão de Cristo, aprenderam muito e até ficaram amigas, mas o tempo passou e não se falaram mais. Como a cidade é pequena e todos acabam se encontrando nos espaços, em 2018 elas fizeram outra peça novamente. Estavam solteiras, interagiram e o interesse surgiu. No fim, (ou melhor, no começo) começaram a namorar. A vida em Piracicaba, mesmo que confortável, estava um pouco limitada para a carreira da Karine e da Marcella. Foi então que surgiu a oportunidade de morar em São Paulo (capital). A Karine já tinha morado em São Paulo por um tempo, sabia como a cidade funcionava, a alta opção de cursos, abrangência para novas áreas e também a concorrência muito maior de artistas chegando de todos os lugares, mas lá em Piracicaba não via mais a carreira andar no momento em que estava… e a Marcella topou o desafio. Juntas, com o incentivo de uma amiga, realizaram a mudança. Logo no começo da pandemia encontraram a casa que moram agora, um lar maravilhoso e que foi se completando com o jeito delas em cada cantinho. Foi lá que gravaram a websérie, é lá que possuem as melhores (e piores!) ideias para as próximas produções e brincam que a casa é uma grande geradora de ideias. Elas se veem como parceiras. São muito amigas e sobretudo essa companhia se torna uma âncora. Sentem amor pela companhia. Além do amor que compartilham pela arte em si e por tudo o que são envolvidas, existe o amor que sentem por estarem juntas. A arte é um refúgio e a relação delas é uma parceria. Em casa adoram assistir Simpsons, Friends, cozinhar e durante o preparo da comida fazer pausas para dançar… Também trocam momentos de criação pintando telas, criando plaquinhas e decorações para a casa, amando os filhos de quatro patas e cuidando das plantas na varanda. Não só juntas, elas também falam da importância dos momentos de solidão. De reflexão e estudo - tanto de livros quanto de estudar a si mesmo. Para a Karine, o amor veio num entendimento sobre quem ela é e isso levou muito tempo, porque ser uma mulher lésbica artista já é um processo de autoconhecimento imenso para sair de muitos padrões e “caixinhas” que nos são colocadas. “Estar livre disso e aberta para que alguém possa te olhar e te amar é um dos passos mais importantes”. Então amar a si mesma e amar a Marcella foi um processo que aconteceu de forma natural (não fácil, claro), mas na dor ou na felicidade, foi acontecendo diariamente. Essa relação de autoconhecimento reflete na Marcella através do respeito a si própria, pois ela conta que antes ela não se via com tanto respeito - hoje ela aceita que adora dançar, por exemplo, e dança! Ela respeita quem é e respeita quem a Karine é. E isso é um dos maiores aprendizados que tira da relação. No fim da nossa conversa tiramos um outro aprendizado, sobre a expressão artística em si no que envolve esse amor além do preço que colocamos nas coisas, pelo puro sentimento de quem somos e do que gostamos/amamos fazer. A Karine dá o exemplo de que uma vendedora pode continuar sendo vendedora e cantar super bem, ou um motorista de ônibus pode ser o melhor motorista e mesmo assim um ótimo pintor… a arte deveria ser vista enquanto uma conscientização social sobre a importância de fazer arte, da expressão artística, do quão essencial para o ser humano ela é - para isso, enfim, gerar coisas boas para o nosso redor enquanto sociedade. E viver essa arte, para fora do capitalismo (ou seja, você não precisar vendê-la para ganhar dinheiro/nem tudo o que você tocar precisa virar ouro) é o que elas gostariam de ver sendo refletido por aí. Marcella Karine
- Juliana e Bianca | Documentadas
Juliana estava com 47 anos no momento da documentação. Natural de Salvador, é bibliotecária na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Já morou em várias cidades interioranas devido ao trabalho, e também é apaixonada por história e turismo, o que a fez cursar um MBA na área - se apaixonando, principalmente, pela história baiana. Bianca, por sua vez, estava com 43 no momento da documentação e também nasceu em Salvador. É técnica de TI. formada como analista de sistemas. Juntas desde os anos 2000, quando ainda cursavam faculdade, enfrentaram uma jornada de muitos desafios. Bianca, já segura de sua identidade lésbica, encontrou Ju num momento em que ela ainda enfrentava muito preconceito dentro de casa por descobrirem que se relacionava com mulheres. No começo, havia vivido um relacionamento com outra mulher - que até surgiam dúvidas de entender se era mulher ou homem gay, era uma sociedade com nomenclaturas muito falhas, entendiam enquanto um ser andógeno, mas para a Ju sempre foi algo muito natural, nada forçado, gostava dela assim - a questão é que a descoberta desse relacionamento trouxe conflitos intensos na família, com muitos episódios de rejeição e controle. Esse período turbulento acabou por uni-las ainda mais quando se conheceram. Decidiram morar juntas logo no início, construindo uma vida longe do preconceito e embarcando em um ciclo de mudanças. Cada nova cidade trouxe a oportunidade de vivenciar culturas diversas dentro da Bahia, um aprendizado que valorizam profundamente. Sempre que uma precisava buscar um novo trabalho, a outra acompanhava, foram anos vivendo uma parceria que hoje em dia entendem como a base do amor. Bianca acolheu Juliana nos momentos mais difíceis, quando o preconceito da família de Ju tornou insustentável sua permanência em casa. A situação passava muitas vezes do limite: alimentos e produtos de higiene eram separados e chegou a tomar banho com sabão em pó. Além disso, havia fofocas constantes na vizinhança por causa do relacionamento com outra mulher. Decidir morar juntas foi uma decisão necessária, e além disso, libertadora. Juliana reconhece que não foi expulsa de casa, mas a convivência havia se tornado muito dura. Sair de casa foi uma escolha para viver o amor com Bianca e também para dar um basta nas condições opressivas que enfrentava, até uma nova chance de lidar. Até porque, mesmo antes de conhecer Bianca, Ju vivia o preconceito - a relação lhe deu impulso para mudar. Ainda morando com a família, começou a buscar empregos nos anúncios de jornal e conseguiu uma bolsa na faculdade, o que a mantinha fora de casa durante o dia todo. Elas se conheceram por intermédio de uma amiga em comum. Ju não tinha o hábito de sair à noite, mas foi jantar com a amiga, que mencionava Bianca com frequência. Apesar de inicialmente relutantes sobre se envolver, naquela noite a amiga insistiu e Ju foi até Bianca, no outro lado da cidade. Quando chegou, Bianca disse para o amigo: “Essa é a menina da minha vida.” Foram em um dos bares gays da cidade - lugares chamados de GLS na época. Contam que a maioria dos bares gays limitavam um dia da semana para as mulheres frequentarem, outros elas entravam mesmo sendo - obviamente - minoria. Hoje, olhando para trás, Ju reflete sobre o quanto tudo já mudou – e o quanto ainda precisa mudar. “Naquela época, tudo era sobre ser ‘entendida’, mas entendida de quê?”, ela questiona. Hoje, fala com mais leveza sobre ser uma mulher lésbica, mas deseja um futuro onde rótulos sejam desnecessários. “Sonho com o dia em que não precisaremos justificar quem somos, onde seremos representadas na mídia de forma natural, porque estamos em todos os lugares na vida real. E queremos estar de forma segura.” Com apenas três meses de relacionamento, Juliana e Bianca decidiram morar juntas. Montaram seu primeiro lar em um bairro periférico, com poucos móveis, um cachorro e a certeza de que queriam construir esse relacionamento. Enquanto a família de Bianca frequentemente as visitava no início por morar nas proximidades, a família da Ju, que ainda não aceitava o relacionamento, não sabia onde exatamente ela morava. Cinco anos depois, a mãe da Ju decidiu se reaproximar, quis conhecer Bianca e entender como a vida delas estava. Esse reencontro foi bastante significativo, e ela ainda se dispôs a ajudar a comprar um apartamento e sair do aluguel. Hoje, a relação com as famílias é tranquila, mas a real prioridade dentro da relação é cuidar da parceria que constroem há mais de 24 anos, sempre com dedicação e amor, e seguir nessa manutenção diária para que as coisas sigam bem. Consideram as muitas mudanças que já passaram juntas, desde as cidades que já moraram no interior, principalmente sendo tão jovens e podendo ter a liberdade de viverem como um casal fora de Salvador, até montarem outros lares e enfrentarem a vida uma ao lado da outra. No começo, tiveram bastante receio e o preconceito que viviam dentro de casa se espelhou nos outros lugares, então demoraram para se assumir enquanto casal nos espaços de trabalho e nas novas amizades, mas hoje em dia tudo mudou e fazem questão de chegar deixando claro quem são, com orgulho, sem necessidade de se esconder num lugar que não lhe cabem. Ju e Bianca adoram olhar para trás e reviver os 24 anos de caminhada que construíram juntas. Para elas, o tempo só parece real quando percebem as mudanças ao redor: as crianças da família que agora são adultas, os primos que seguiram seus próprios caminhos, os amigos que já consolidaram suas carreiras. É ao revisitar essas transformações e observar o quanto seus próprios trabalhos e vidas evoluíram que se dão conta de tudo o que viveram. No entanto, isso não significa que se acomodaram - ainda têm muitos projetos e sonhos que anseiam alcançar. Talvez não sentem o peso dos 24 anos porque eles nunca foram monótonos. Marcados por constantes movimentos, com altos e baixos, desafios e mudanças. Não houve tempo para tédio ou estagnação, e essa sede de vida as manteve sempre ativas e motivadas. Nos últimos anos, o ritmo mudou um pouco: já não passam o dia inteiro juntas, trabalham em lugares diferentes, o tempo que compartilham durante a semana é mais limitado. Por isso, os finais de semana ganharam um significado mais especial, é o momento de reencontro e presença. Para Bianca, o amor é a vontade de estar junto todos os dias, aceitando tanto as coisas boas quanto as ruins. Ao pensar nas dificuldades que enfrentaram, ela afirma sem hesitar que viveria tudo novamente, pois foram escolhas conscientes e, acima de tudo, vividas com amor. Ju acrescenta que elas se tornaram uma referência de amor para amigos e familiares. Mesmo sendo diferentes - uma mais aventureira e a outra mais quieta - se complementam na maneira de enfrentamento à vida. ↓ rolar para baixo ↓ Juliana Bianca
- 500 | Documentadas
Time Out This page isn’t available right now. But we’re working on a fix, ASAP. Try again soon. Go Back
- Gabi e Raffa
O primeiro ano da Raffa na faculdade foi o último da Gabi e, por mais que elas estudassem o mesmo curso, pouco se cruzaram pelos campus da universidade. Raffa viu o perfil da Gabi no Instagram e decidiu adicionar, comentam que como tinham poucas mulheres lésbicas no curso de medicina, era mais fácil identificar logo de cara e pensar numa aproximação. Gabi aceitou, mesmo ficando intrigada por não fazer ideia de quem seria a Raffa, e seguiu de volta. Raffa tentava puxar alguns assuntos, mandava umas mensagens e até fotos, mas Gabi não estava entendendo o que significava aquilo - e não lia enquanto flerte. Num dia, Raffa postou um storie pedindo indicações de músicas e quem respondeu foi a Gabi, começando então longas conversas até decidirem sair. Se encontraram no centro da cidade, local próximo de onde fizemos as fotos. Almoçaram num restaurante vegetariano, supondo uma à outra que eram vegetarianas, sendo que ambas comiam carne. Depois, no calor do verão Porto Alegrense, decidiram andar pelo centro buscando adereços para usar num famoso bloco carnavalesco que iriam juntas (o Bloco da Laje). Na época, com a orla do rio recém revitalizada, não havia uma árvore fazendo sombra, então pararam no lugar que nos encontramos: a praça do aeromóvel. Lá, passaram a tarde do primeiro encontro e sentem que depois tudo aconteceu como esperado - se deram bem desde o início, como uma paixão avassaladora. No momento da documentação, Gabriela estava com 28 anos. Ela é natural de Porto Alegre, é médica e no momento está fazendo o período de residência. Ama andar de bicicleta, sente que viver de pedalando pela cidade é sua grande paixão - e junto com a Raffa, usam a bike como meio de transporte. Raffaela, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela é natural de Esteio, região metropolitana de Porto Alegre, mas reside na capital desde 2021 quando decidiu se mudar para ficar mais próximo da Gabi e focar nos estudos em meio ao caos da pandemia de Covid-19. Ela está na graduação de medicina e no tempo livre, para além de pedalar, é atleta de crossfit - participa de competições e se dedica bastante ao treino. Quando começaram a namorar, em 2019, Raffa ainda morava com a mãe. Tiveram um ano muito bom, aproveitaram, se divertiram, sentem que tudo estava fluindo bem até a chegada da pandemia. Com as mudanças abruptas a partir de março e o fato da Gabi já estar trabalhando enquanto médica - e trabalhar no setor da Covid - tudo ficou muito balançado pela incerteza de não sabermos como seria a vida dali para frente. Gabi precisou ficar em isolamento, havia todo o pânico sobre a doença e algumas aulas da Raffa aos poucos precisaram acontecer em hospitais, então decidiram morar juntas de uma forma inicialmente temporária, assim fariam companhia uma à outra e não estariam sozinhas num momento tão difícil. No momento forte da pandemia, viveram juntas na companhia de mais dois amigos que viviam também a rotina da medicina. Estavam sempre em inconstâncias: um dia totalmente otimista, outro dia seria o fim dos tempos. Sempre cercadas de sensações de não-sobrevivência, ou medo de não passar por isso. Entendem que foram se refugiando muito uma na outra, na casa… O que tinham era a única coisa segura que se mantinha perante o resto, porém, entre todos os sentimentos, em algum momento sentem que houve um desequilíbrio - o peso caiu sobre a Gabi e ela passou a segurar muitas barras além do que poderiam carregar. Entendem que nesse processo de oficializar que moravam juntas, ter um lar, viver uma vida a dois, a Gabi foi indo para um espaço de cuidadora do lar que não cabia à ela (e que também era um espaço de cobranças com a Rafa, assumindo um papel que não queria assumir). Então, depois de um certo tempo e já com a pandemia se flexibilizando aos poucos, decidiram morar em lares separados. Nesse momento, enfrentaram mais uma barreira: um processo de entender que uma separação era necessária, mas não era um motivo de término, de ficarem longe e não terem mais um relacionamento. Entendiam que gostavam uma da outra, mas as questões rotineiras estavam atrapalhando muito ao invés de colaborar com a relação. Precisavam crescer de outras formas (individuais também), melhorar comunicações, seguir caminhos e que poderiam fazer isso estando cada uma em um apartamento. Hoje em dia, Gabi e Raffa vivem um novo modelo de relação, muito diferente de como era no começo, e se sentem muito melhor em suas rotinas. Decidiram ser mais livres: não se cobram para que façam tudo juntas. Conseguem falar sobre o que sentem, sem a sensação da cobrança presente, e estão juntas quando desejam estar - seja saindo com os amigos, seja em casa comendo pizza e assistindo séries. Entendem que não possuem necessidade uma à outra, mas um gosto em suas companhias. Entender isso foi um processo bastante longo, mas acabou com as inúmeras brigas diárias. Hoje, cada uma em sua casa e se encontrando quando preferem, compartilhando os momentos bons e ruins quando se sentem prontas para isso, foi a melhor forma que encontraram de manter uma relação saudável. Durante a nossa conversa, falamos sobre essas formas de encontrar o amor no dia a dia e do nosso jeito. Gabi explica que entendeu o amor enquanto uma forma de estar em paz com as pessoas - e também tendo o amor enquanto uma somatória, algo que te deixa melhor, que não te puxa para as coisas negativas. Enquanto dialogamos sobre essas ‘posições’ e sobre onde encontramos o amor, Raffa trouxe muito sobre a realidade que ela vive trabalhando na saúde pública. Não teve como desvincular o amor de algo político, das muitas histórias e vivências das pessoas que atende e cuida diariamente. Entende que muitos dos problemas sociais que temos existem justamente pelas pessoas não receberem o amor de ninguém - e amor enquanto cuidado, escuta. Entender as necessidades do outro, querer apoiar e cuidar também é uma forma de amar, tal como ela se dispor a compartilhar a vida dela, se abrir, trabalhar para entender e fazer todo aquele atendimento humanizado pelo outro é o amor que sente. Pensamos o amor também enquanto questão de classe, sobre as pessoas que enfrentam vidas muito árduas e criam forma de demonstrar o amor totalmente diferentes, onde é cada vez mais difícil enxergar a beleza, e não só enquanto amor romântico, mas amar em se dedicar a alimentar sua família, a criar alguém, a melhorar algo. Enfim, a importância que existe em tratar as pessoas enquanto pessoas, escutá-las, e ver o reflexo de quanto elas se sentem à vontade quando alguém está disposto a ouvir, é também um ato de amar. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Raffaela
- Raquel e Rachel
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Raquel e da Rachel, quando o projeto passou por São Paulo! O sorriso que ele soltou naquele momento foi revolucionário. A cada momento em que eles se permitiam, esse amor se tornou revolucionário. O casamento delas, os convidados, o significado diário da casa, tudo isso é revolucionário, porque para elas estarem ali em um momento tão importante, sendo respeitadas, amando e podendo unir-se perante o matrimônio em si, muitas pessoas tiveram que lutar. E seguimos lutando pelas tantas mulheres que um dia poderão amar livremente, com suas famílias apoiando e se emocionando. A Rachel, termina falando sobre esse momento, bastante emocionada, mas me disse algo que marcou bastante e ecoou durante semanas na minha cabeça, uma coisa simples que a gente esquece: a ideia de que a vida é uma só. E que a gente não pode parar. Não vale a pena deixar pra depois, tem que amar mesmo, amar com vontade. O único egoísmo que a gente tem que ter é o de querer fazer o bem pra nós mesmas. Infelizmente, o pai da Rachel se tornou uma das vítimas da Covid-19 no Brasil. O Documentadas gostaria de homenageá-lo enquanto o homem forte, durão, porém com sorrisão, que tanto ouvimos falar bem ♥ e temos a certeza de que, de onde ele estiver, ele está tão orgulhoso quanto o dia que viu a Rachel dizendo “sim” durante o casamento: com a certeza de que criou e educou uma filha bem demais! À todas e todos que perderam algum familiar ou amigo para o Covid-19, nosso abraço e carinho. Seguimos juntas. ♥ Rachel, você é. É porque acontece! É porque é grandiosa! É! É um montão de coisa boa. Ou melhor, Raquéis, vocês são! :D Falamos bastante aqui sobre os pais da Kel, mas a família da Rachel também tem um papel incrível e emocionante nessa história. A Rachel foi adotada ainda bebê e os pais dela são mais velhos, assim como os irmãos. O processo de descobrimento e de saída do armário dela, ainda mais nova, em tempos diferentes e realidades diferentes, exigem outra perspectiva e outro entendimento. Com a chegada da Kel e do relacionamento delas, foi a primeira vez em que a família da Rachel realmente se abriu para a aceitação da sexualidade dela enquanto uma nova formação de família e principalmente o pai, por ser um homem mais fechado, permitiu-se abrir a novos pensamentos e novas vivências, mas não só: as meninas brincam que toda vez que a Kel chegava na casa deles ele abria era logo um sorriso de orelha a orelha. Ressignificação de lar. Esse é o nome do que ela sentiu. A Kel trouxe um presente gigantesco: ajudar ela a ressignificar a relação com a família de uma forma única. Durante o casamento delas foi muito legal ver a forma que eles se permitiram e se entregaram. O maior presente de todos foi a presença deles lá, estando à vontade, felizes e orgulhosos. Existe um vídeo, do qual as duas estavam de costas para o público e de frente para o cerimonialista e tem a imagem do quanto ele se emociona estando feliz quando a Rachel diz sim. Poucas vezes temos exemplos tão nítidos do quanto o amor entre mulheres pode revolucionar a vida das pessoas, e esse, com certeza, é um dos melhores exemplos que temos. ♥ O relacionamento foi se desenvolvendo e com o passar do tempo cada vez mais as duas se viam apaixonadas e entendiam o quanto a vida é realmente feliz uma do lado da outra. A Rachel comenta o quanto sempre foi claro para ela o amor nítido que sentia, o quanto isso realmente significava algo revolucionário, desde aquela época. A Kel conta que sentia o amor enquanto um sentimento puro. Com respeito, com cuidado. E a Rachel completa que por mais que o amor não tenha gênero e nem sexo, ele acontece principalmente quando você se vê capaz de amar uma pessoa na íntegra. Por fim, a Kel diz que Deus nos fez para amar o próximo e ela realmente acredita que, além de nos amarmos por ser o melhor a ser feito, amar é também um encontro de almas. Mas que de qualquer forma, independente da relação que você tiver, ela não pode ser pesada. Os encontros nas nossas vidas devem servir para nos acrescentar, não para nos pesar - e serem leves. “Se nascemos sozinhas, temos que estar bem sozinhas. Se for pra ser pesado e fazer mal, não vá. Você tem que ser leve, em geral, tem que te fazer bem! Pode ser que tenha um dia ou outro ruim, mas nunca que te faça mal.” Foi em um período pensando sobre o amor e sobre o quanto gostaria de viver para sempre essa relação com a Kel que a Rachel tomou a decisão de fazer o segundo pedido, mas dessa vez, o de casamento! Para o pedido de casamento acontecer, contou com seus dois grandes aliados: os sogros! Então ela ligou para o pai da Kel e disse: “quero pedir a sua filha em casamento, mas quero pedir a sua bênção, a sua ajuda, a sua permissão. Ela não sabe e não pode saber. Quero ter certeza que para você está tudo bem.” Foi um novo choque, mas ele topou: “conta com a gente, estamos do teu lado! E eu quero te dar o champagne!”. Ela ligou para a sogra e o pedido também foi feito. Ambos ajudaram na preparação, escolheram alianças e a surpresa foi montada. No fim de 2018, a Rachel levou a Kel para ver um nascer do sol na praia, totalmente vazia, no interior de São Paulo. Quando elas chegaram, sentaram na areia, tudo estava no carro preparadinho e ela decidiu levantar e preparou uma cartinha para ler. Estava tremendo muito, a Kel achou fofo mas não imaginou que fosse logo um pedido assim… quando o pedido foi feito, o sol estalou e brilhou muito forte, se abriu e ela disse sim. ♥ Foram duas alianças de noivado e elas não ajoelharam, para que tudo fosse de igual para igual. Em São Paulo, todos já aguardavam notícias. O casamento aconteceu em setembro de 2019, em uma festa para os amigos mais queridos e em um dia muito especial. Tudo foi preparado pensando em cada detalhe e todos se divertiram muito. O encontro da Rachel com o pai da Kel foi muito importante para que ele também entendesse que a Kel nunca deixou de amar as pessoas enquanto seres humanos. Por mais que pudesse soar que ela estava em um momento mais carente, ele de alguma forma ficou preocupado pela Rachel ter terminado um noivado por alguém que pudesse estar “em dúvida”. A conversa foi muito importante para explicar a existência da bissexualidade em si e as formas de amar, de deixar ele mais tranquilo como um todo vendo a construção do relacionamento das duas. A conversa fez com que ele falasse com a mãe da Kel e ela foi se abrindo para a ideia, até chamou a Rachel para comer uma pizza com elas e se deram muito bem. Foi uma chuva de elogios gigantesca para esses dois ♥ pessoas muito generosas e que estiveram o tempo todo na base e no apoio dessas mulheres que esbanjam amor. Essa “saída do armário” aconteceu apenas com os pais da Kel, isso é bastante importante e legal de ressaltar. Ela nunca precisou fazer esse movimento com os amigos. Apenas disse que levaria alguém no bar/no churrasco/no evento e chegava com a Rachel, não precisava dar nenhum tipo de satisfação ou explicar, assim como uma pessoa heterossexual não explica que vai chegar com um namorado homem. Ela chegava de mãos dadas e em dois minutos todos já estavam adorando as duas, porque viam o quanto elas se davam bem, tratavam os outros bem e se divertiam juntas. A história da Kel e da Rachel começou um pouco antes e, por incrível que pareça, através do pai da Kel. O ano era 2016 e ele fazia aula de hidroginástica e quem dava essas aulas era a Rachel. Ambos se davam muito bem, brincavam, faziam piadas, se viam toda semana e ele sempre comentava com ela que queria muito levar a filha dele para fazer aula um dia porque acreditava que elas pudessem se tornar grandes amigas. Quando a Kel finalmente foi nessa aula, de fato elas se deram muito bem! A amizade surgiu logo de cara, não foi algo com segundas intenções. Primeiro porque a Rachel nunca cogitava se envolver com alguém em seu ambiente de trabalho e segundo porque ela também estava em um relacionamento de anos. Nas semanas seguintes a Kel iria voltar para as aulas, mas colocou alguns piercings e precisou ficar afastada da piscina por um tempo, então elas tiveram aquele contato inicial e passaram alguns dias afastadas. Neste meio-tempo, a Rachel, que estava no relacionamento, passava por um momento diferente. O relacionamento que vivia um processo muito mais de amizade que relação entre casal envolvendo paixão em si, foi surpreendido com um pedido de casamento! E esse pedido veio em um sentido de tentar dar um novo rumo para a relação, uma última chance. Envolvia um carinho bastante grande, mas não aquele impulso e desejo brilhando o olhar, foi uma tentativa de recuperação. Ela aceitou o pedido e colocou a aliança no dedo, mas não contou para os colegas de trabalho sobre. Estava em um processo mais intimista. Foi então, durante uma aula, que o pai da Kel logo observador e brincalhão percebeu o anel de ouro na mão e chegou perguntando o que era essa novidade que ela tinha para contar. Como ninguém sabia do seu relacionamento com uma mulher, ela - para todos os efeitos - estava noiva de um homem. Quando a Kel voltou, já sabendo da novidade pois o pai comentou em casa, teve a aula esperando que a Rachel comentasse. Animada, a cada intervalo esperava ouvir sobre o pedido, mas nada aconteceu... nem se quer comentou. E então ela questionou, já que gostava tanto de casamentos, não conseguia entender como alguém não compartilhava algo tão emocionante… e foi aí que a Rachel sentiu que podia confiar na amizade (mesmo que ainda breve) delas e elas marcaram um café depois da aula, lá que ela contou: “rolou sim o pedido e sim, aceitei. Mas eu vou me casar com uma mulher”. Logo depois do primeiro beijo a Kel foi para uma viagem com os pais, enquanto a Rachel conversou e terminou o seu relacionamento. Foi tudo com bastante comunicação e ambas entenderam que era o melhor a se fazer. Quando a Rachel e a Kel lembram sobre o começo do namoro, contam como tudo era muito especial. Os primeiros beijos foram muito marcantes, eram como os melhores beijos da vida, algo que elas nunca tinham sentido. Uns meses depois de estarem juntas e quando já se sentiram mais à vontade, relaxadas e tranquilas, a Rachel fez o pedido de namoro num lugar muito especial para elas e do jeito que a Kel sempre sonhou: aqueeeele pedido! Flores, champagne, alianças, tudo! Ela aceitou ♥ Um tempo depois, decidiram contar aos pais da Kel, visto que era muito importante para ela que a família soubesse do relacionamento. Elas não imaginavam como eles poderiam reagir, ainda mais por ser algo que nunca tivessem esperado e imaginado, mas compreendiam que eles fossem ter o tempo necessário para processar e elas estariam por perto dando suporte. No começo, eles sentiram um choque, ficaram mudos, não falaram nada. Mas também não brigaram, tentaram entender e ouvir ela. Os próximos dias foram difíceis pelo pai da Kel ter aula com a Rachel, mas em nenhum momento ele foi desrespeitoso, só deixou de fazer tantas brincadeiras com ela. No fim da aula, ela chamou ele para conversar e disse que estava disposta a tomar um café quando ele quisesse, no tempo dele, para falarem sobre. Ele agradeceu e explicou que ainda não estava preparado, mas que iria chamá-la quando estivesse. Uma semana depois o encontro aconteceu, tomaram um café e a Rachel se sentiu à vontade para contar a história dela, como ela se entendeu, se descobriu e o que ela sentia pela Kel. Explicou também que não era uma brincadeira, uma maldade, uma paixonite. Ele se mostrou muito aberto a entender o que ambas sentiam. A Kel conta que nesse dia, quando ela soube sobre a sexualidade da Rachel, algo nela despertou como “caramba, a primeira mulher que cheguei a pensar sobre achar interessante também fica com mulheres... mas está noiva e vai casar! Sigo meu baile, quem sabe com ela posso compartilhar esse tipo de coisa futuramente.” e com o passar do tempo a amizade entre elas foi crescendo. Depois da aula elas marcavam cafés, a Rachel dava caronas para a Kel até em casa e tudo era bastante saudável. Quanto mais aulas elas faziam juntas, mais se viam e conversavam, foi despertando vontades de se falar via Whatsapp e de se encontrar em outros momentos também - por mais que os encontros fossem sempre limitados às aulas. Mas isso fez com que surgisse algo como uma certa paixão antes mesmo de se envolverem fisicamente, já existia ali o começo de um sentimento. A Rachel não queria tomar nenhuma atitude por conta do seu relacionamento, não achava justo se envolver em uma traição. Nunca quis isso e por mais que estivesse cada vez mais claro que a relação não teria futuro, não queria que acabasse de forma tão ruim. Além disso, ela também não sabia se o sentimento era algo da cabeça dela ou se a Kel também estava envolvida da mesma forma, se um beijo colocaria em risco a amizade que elas construíram ou como ficariam. Não queria perder: nem o relacionamento, nem a amizade. Foi durante um feriado que resolveu conversar com a Kel e falar sobre o que estava sentindo e ambas concordaram que na próxima vez em que estivessem juntas resolveriam se aconteceria o beijo ou não. Até que o dia chegou e, no último minuto possível do tempo em que tinham para ficarem juntas, aconteceu! E a partir daí elas tinham certeza: era, realmente, para estarem juntas. Rachel e Raquel. Raquéis. Quando a Kel entrou em contato com o Documentadas, ela brincou: “queríamos contar nossa história para vocês! Temos poucas coisas em comum, além do nome, mas garantimos uma história legal!”. Achei que o nome se limitasse ao Raquel, mas quanta ingenuidade a minha. Depois do casamento virou o mesmo nome e sobrenome! Agora, ao menos para as autoridades, são quase-que a mesma pessoa. Na nossa documentação para que a história não fique confusa, identificamos a Rachel sempre dessa forma: com ch. E a Raquel enquanto Kel :) Bom, a Rachel é paulista, professora de natação, adora a natureza, sempre curtiu diversos esportes. Ela já teve outros relacionamentos com mulheres, mas nunca foi uma pessoa que falava sobre isso nos espaços de trabalho e que militava ativamente na pauta LGBT. Ela mantinha seus relacionamentos de forma estável fora do ambiente profissional (e tudo bem assim!). No mais, sempre foi apaixonada pelo mundo e por viagens, por conhecer lugares novos e por estar fazendo novas amizades. Já a Kel também é paulista, publicitária, sempre foi uma pessoa apaixonada por histórias de amor e por casais - sabe aquela amiga perfeita para ser madrinha de casamento? Aquela que se empolga na organização, quer saber todos os detalhes sobre o pedido e que cada momento seja perfeito? É ela. Na vida da Kel, antes de ela conhecer a Rachel ela nunca tinha se imaginado em um relacionamento com outra mulher - nem tinha afetivamente se envolvido por uma mulher - mas sempre soube que era apaixonada pelas pessoas em suas formas diversas de ser. Rolar Rachel Raquel
- Lara e Ana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Lara e da Ana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Lara comenta que o amor entre mulheres pode envolver maior cuidado pelo reconhecimento que uma mulher possui pela luta da outra, mas também comenta a não-generalização justamente tanto por ela quanto pela Ana já terem passado por relações com pessoas que acabaram sendo bastante tóxicas. Além do amor em si, comenta sobre a necessidade de olharmos para nós e para o que somos, as pressões que nossos corpos passam, nossa estética, nos olharmos com cuidado, entendermos nossas inseguranças, nossos medos… não desacreditarmos no amor de forma geral. Elas entendem que o preconceito existe pela falta de conhecimento e pelas pessoas tirarem conclusões precipitadas, julgarem por algo que não tentam conhecer. Falam que o amor lésbico deveria ser olhado com mais afeto e menos hipersexualização, menos olhar de indústria pornográfica, porque no fim as pessoas precisam apenas saber querer conhecer, ter essa proatividade de reconhecer que precisam buscar mais, mudar as coisas, quebrar preconceitos… e que a partir do momento que elas perceberem que é tão simples, que tá tudo bem, que isso tudo é “só” amor, as coisas vão ser muito mais fáceis para todo mundo. Mas que para isso acontecer temos um longo caminho ainda. Não à toa, elas tentam estar sempre abertas à dialogar e mudar cenários, independente de tudo. Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Hoje em dia, a Lara trabalha em uma loja de roupas, é modelo plus size e estudante pré-vestibular. Sonha em fazer relações públicas para se especializar em marketing digital. Sua ligação com a mãe é absurdamente forte, assim como a fé e a religião. Frequenta a umbanda/candomblé e ama cultivar os momentos em que está no centro de religião. Além disso, também é uma grande fazedora-de-poemas. A Ana trabalha em uma farmácia de manipulação e também possui uma ligação muito forte com a religião. Foi algo que ela sempre se encontrou e que o relacionamento potencializou de um jeito transformador para ambas. Ela comenta que se viu muito tempo distante do que mais gostava, se sentia perdida, longe dos amigos e não se sentia bem nos outros relacionamentos e por muito tempo falar com a Lara, mesmo que rapidamente pelas redes sociais, acabava trazendo de volta o que ela sentia falta e não sabia nomear. Hoje em dia disse que se encontrou de novo e que sente uma paz muito grande, algo muito saudável. “Meu lar se ancorou nos olhos dela”. A história da Ana e da Lara te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! A Lara conta que nessa época começou a entender que quando beijasse a Ana, iria se apaixonar. Elas sempre tiveram muita sintonia, a amizade ia além, o afeto conectava, se encaixava… e elas se pareciam muito também. Então surgia até um certo receio do momento em que isso fosse acontecer, por mais que ambas sentissem vontade. Com a chegada de 2020 e o início da pandemia, elas tiveram um afastamento automático na amizade, que só voltou após o término do relacionamento da Ana e de ela passar por momentos bem difíceis, já próximos ao fim do ano. A Lara ofereceu muito suporte nessa época, elas voltaram a se aproximar e foi aí que decidiram finalmente dar uma chance a essa história de amor acontecer (no começo, em forma de amizade colorida, pra ver se daria certo!!!! e hoje em dia estão de aliança e tudo!). Perguntei para a Ana se não foi difícil assumir um relacionamento logo depois de ter passado por algo assim, justamente por ela ter proposto a amizade colorida, e ela comentou que sim, que não pensava em se envolver dessa forma, mas como gostava da Lara há tantos anos e desde tão nova, sentiu esse momento como finalmente uma oportunidade de estarem juntas, não havia formas de deixar isso passar. No dia primeiro de janeiro de 2021 elas estavam conversando e a Ana mandou uma música para a Lara (Mirrors, do Justin Timberlake), dizendo que era uma música que sempre ouvia e a fazia pensar nela. Essa música secretamente é a música favorita da vida da Lara e ela nunca tinha compartilhado isso com ninguém, o que a fez ficar muito emocionada, porque sempre quis que alguém a visse como a música descreve. Foi a partir da música que elas ficaram juntas e que o pedido de namoro também aconteceu, meses depois, cheio de jantar, vinhos, painel de led, comidas gostosas e preparativos. ♥ O romance das duas, teoricamente, começou ainda láááá no ensino fundamental, mas só de um lado. Elas estavam em um grupo de amigos e a Lara chegou para a Ana e disse “ei, escuta uma música chamada Segredos, da Manu Gavassi”, até aí ok, Ana foi pra casa e quando decidiu ouvir viu que a música era super romântica e pensou que pudesse ser algum tipo de indireta para ela, sendo que na verdade não envolvia nenhuma maldade, era realmente só uma indicação, mas a menina se deixou levar, criou um sentimento, desenvolveu um interesse e ficou com isso guardado no peito. O tempo se passou, elas não eram tão próximas e quando chegaram no ensino médio foi criado um grupo e a amizade foi se desenvolvendo, enquanto simultaneamente estavam se descobrindo nas suas vidas também. Hoje em dia, a Ana conta que naquela época percebia que o corpo automaticamente, como se fossem instintos, respondia às ações da Lara - cada vez que ouvia a voz, ou que ela saía para ir ao banheiro… coisas do tipo - o coração disparava, as borboletas batiam no estômago… e assim, a relação ficava mais próxima. Porém, aconteceram uma série de situações que fez com que esse grupo acabasse se envolvendo em discussões e todo mundo optou pelo afastamento, então as duas acabaram se afastando nisso também e interromperam a amizade. Ambas se envolveram com pessoas e acabaram criando relações bastante tóxicas, a Ana enquanto um namoro, e a Lara por mais que não chegasse a namorar de fato, acabava tendo envolvimentos, idas e vindas e não se sentia bem no que vivia. Foi quando ela resolveu retomar um contato com a Ana, saber como ela estava e as duas voltaram a conversar frequentemente. Foi nesse momento em que a Ana passou a olhar a Lara com novos olhares, a relação que antes mostrava o interesse surgindo só dela agora parecia ser diferente, sempre tinha uma implicância de brincadeira, uma bobagem à toa para ver a Lara sorrindo, uma palhaçada… e naquele momento parecia ser diferente, com o passar dos anos e já no fim do ensino médio, elas também estavam diferentes. Foi quando ela tentou um primeiro flerte e foi correspondido, mas elas nunca chegaram a se beijar, terminaram o ensino médio, a Ana começou a namorar outra pessoa, se envolveu em outro relacionamento do qual não se sentia tendo algo saudável e toda vez que parava para analisar e pensar sobre a situação em que estava, se via caminhando em círculos. A história da Lara e da Ana faz acontecer uma boa mistura na nossa cabeça porque envolve muita coisa, mesmo elas sendo tão tão tão novinhas, já se conhecem há 7 anos! Elas se conheceram no colégio, ainda no ensino fundamental. Sim, geração 2000! (se você não está se sentindo velha, é porque você provavelmente também faz parte dessa geração). A Lara tem 19 anos, a Ana tem 20 e por mais que no colégio fossem amigas, lá, no auge dos 14 aninhos, elas não eram tããão próximas assim. A Ana conta que já era capaz de se sentir mexida com algumas coisas que a Lara fazia, mas não sabia que nome dar para isso, porque tudo é muito novo quando se está na adolescência. Ela foi se entender e se descobrir mesmo aos 16, quando beijou uma mulher pela primeira vez. Começamos a conversa falando sobre isso, esse momento que envolve o descobrimento da sexualidade, do corpo, dos sentimentos… e sobre como a tendência é nos levarmos à uma heteronormatividade compulsória. A Ana comenta que passou por muitos problemas enquanto bullying, problemas com o próprio corpo, chegou a namorar um menino e só em 2017/2018 que começou a entender o que era de fato se relacionar com mulheres, foi um processo muito delicado conhecer e se identificar com o movimento LGBT. Já a Lara, conta que o processo da bissexualidade foi também caminhando e se desenvolvendo um tempo depois, no ensino médio. Hoje em dia, a Ana é a sua primeira namorada e isso implica em desafios diários - ela está começando a contar para as pessoas, começando um processo de realmente assumir quem é, como se sente. E por mais que ambas famílias apoiam e reconheçam este relacionamento, ela entende que não é a maioria da realidade no Brasil e que não é a realidade das ruas também, que pode enfrentar preconceitos e outras barreiras por conta da sua orientação. < Lara Ana
- Dani e Maria Gabi
A Maria Gabriela e a Danieli são de lugares bem diferentes, mas se encontraram em São José dos Pinhais, município vizinho de Curitiba, no Paraná. Gabi nasceu no Paraguai, morou em vários lugares e agora está com a família em ‘São José’. Já a Dani, nasceu no interior do Paraná, numa cidade pequena chamada São Jorge do Patrocínio e decidiu se mudar para Curitiba para tentar uma nova vida na capital. Hoje em dia moram juntas - e juntas também de algumas familiares da Gabi + duas gatas que adotaram nesse período. Elas contam sobre o quanto são diferentes e que, com as diferenças, aprendem muito sobre um relacionamento cheio de companheirismo. Dani é mais apegada, Gabi é mais solta. Dani sempre vê os dois lados em tudo, Gabi é mais direta sobre as decisões - mas aprende muito com a Dani sobre observar as coisas ao redor. Dani é introspectiva, gosta do carinho e das coisas mais tranquilas, enquanto Gabi é super sociável, gosta de ser comunicativa e de conhecer novas pessoas. Diante todos os extremos, entendem que o encaixe acontece no quanto aprendem uma com a outra diariamente. Não enxergam seu relacionamento enquanto a maioria dos namoros que formam um padrão: elas têm seus jeitos diferentes, mas enquanto parceira contam uma com a outra sempre. Acham ótimo, inclusive, fugir do padrão. O amor é feito com espaço, vivendo as diferenças e tendo respeito. A Gabi, no momento da documentação, estava com 24 anos e trabalhava em uma loja de departamentos no shopping. Comenta sobre o quanto o shopping exige uma rotina de trabalho exaustiva, mesmo que goste de trabalhar com o público, se sente bastante cansada. Dani, no momento da documentação, estava com 23 anos. Depois de se mudar para Curitiba ela já trabalhou em mercados e hoje em dia, em São José dos Pinhais, é assistente de atendimento. Morarem juntas facilita a rotina em relação à escala de trabalho apertada, mas nem sempre foi assim. Dentre os três anos que estão juntas, moram na mesma casa recentemente e contam que foi uma luta decidir pela mudança. A tia da Gabi foi quem teve a ideia inicialmente de oferecer a casa que faz parte do terreno delas, assim, os gastos com aluguéis diminuiriam, a economia melhoraria e a Dani faria parte do lar. Quando se conheceram (através de um aplicativo de relacionamentos famoso por aqui: o Tinder), ambas haviam acabado de chegar na cidade. Dani passou por um relacionamento abusivo antes da Gabi, estava bastante machucada e resolveu entrar no app para conversar com novas pessoas - enquanto a Gabi estava lá para curtir e não tinha intenção de realmente se apaixonar por alguém. Conversaram, marcaram um encontro na casa da Dani (que ainda era uma pensionato cheio de regras) e nunca mais se separaram. Depois disso, a Dani se mudou para São José dos Pinhais. Morou em vários lugares e o relacionamento delas foi caminhando, até que decidiram assumir o namoro. Enxergam o quanto o relacionamento não contribuiu só para uma melhora construtiva delas, mas também dos familiares ao redor. A Gabi diz que ter elas em casa faz com que diariamente a família enxergue questões de raça, gênero e classe totalmente diferente do que era antes, principalmente pelos debates que elas proporcionam. Enquanto a Dani, já levou a Gabi até o interior e ao assumir para a família o relacionamento, considerando que vivem em realidades completamente diferentes da dela, fica muito feliz em ver o pai e a avó adorando e respeitando a Gabi do jeito que ela é. Juntas, elas adotaram duas gatas (uma delas, super arisca, que passou por um processo de resgate) e é com o carinho que trocam com as bichinhas que entendem o que é de fato o amor: Acreditam que existem várias formas de demonstrar afetos, por mais que vivemos numa sociedade que preza pelo tradicional onde o afeto tem de ser bonitinho, carinhoso, queridinho, etc. Elas vão por outros lados, demonstram de outras formas. Como as gatas, que amam de um jeito singular - a Teodora, muito arisca, não é tão carente e apegada, mas demonstra o amor e a confiança que possui nelas nos detalhes cotidianos, trocas únicas. Elas se identificam nesse amor. Além disso, sentem que o autoconhecimento que adquirem todos os dias é algo precioso. Dani conta que não tinha tanto acesso às informações no interior, então valoriza cada passo da reeducação sobre questões sociais que recebe diariamente. No dia a dia, a Dani desenha bastante (entre paredes, papéis e outras superfícies), enquanto a Gabi adora sair para comer, viajar, assistir filmes e séries e apoiar a sua família no que precisar. Conta que tem uma prima autista (que mora junto com elas) e que a casa vira um exemplo para que não exista nada mais valioso na vida quanto os sentimentos - e o amor. “Não existe valor material que supere”, nas palavras dela. Diariamente acompanham dando suporte e entendem que não desistir e estar em movimento acreditando no que sentem é o que dá sentido a tudo. Além disso, passam muito tempo conversando dentro de casa. Brincam que em outra vida a Dani deve ter sido filha da tia da Gabi, de tanto que passam horas conversando e se dão bem. Por fim, a Gabi comenta que o amor pode ser uma certeza muito incerta, mas que é bom aproveitar ele em seu cotidiano. ↓ rolar para baixo ↓ Gabi Dani
- Karol e Camilla
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Karol e Camilla, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quando a Cami decidiu entrar no internato militar, ela não passou na primeira vez porque precisava fazer uma prova de corrida e ela não conseguiu um bom desempenho, mas se dedicou e no ano seguinte já estava preparada. O primeiro ano lá dentro é realmente difícil, uma prova sobre quem tem psicológico e aguenta ficar, mas depois foi ficando mais tranquilo e ela decidiu seguir lá dentro. A vontade e a empolgação que tinham vendo os navios e a maior interação quando puderam conviver mais com as outras pessoas foi colaborando com a vontade de estar lá também. E quando ela entrou, por ter tido uma boa colocação na prova (as pessoas que passam em primeiro lugar viram líderes de pelotões), virou líder e passou a ter uma presença muito forte, sendo muito cobrada. Foi assim que a Karol a conheceu, ouvindo falar dela e vendo ela circulando pelo espaço. Elas não podiam conversar por um tempo, mas na primeira oportunidade, a Karol lançou diversos elogios por realmente ser uma figura que admirava: falou sobre a ver como uma guerreira lá dentro - e a Cami abriu um sorriso (que, diga-se de passagem, levou o coração da Karol embora). Como elas não eram do mesmo ‘camarote’ (do mesmo espaço/pelotão), ficavam organizadas em ambientes diferentes e tinham pouco contato, mas com o passar do tempo passaram a se ver mais. Aos fins de semana a Cami saía para visitar a família e a Karol ficava lá e, durante a nossa conversa, conta que lembra de vê-la com outra roupa sem ser a farda e o quanto isso a marcou, dizendo o quanto era bonita e o quanto ela mexia com os sentimentos dela. Além de que, sempre foi completamente apaixonada por mulheres inteligentes e nessa posição a Cami já estava com a luta ganha. Para quem não faz ideia do que seja a EFOMM, ela é a Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante. Lá, as pessoas passam por um concurso, fazem uma formação que dura cerca de três anos + um período de um ano em embarcações e, então, se formam. Hoje em dia, a Karol e a Cami seguem trabalhando embarcadas (enquanto oficiais de máquinas da marinha mercante - área de engenharia da embarcação), mas não possuem mais ligações diretas com a área militar, por mais que para sempre sejam consideradas militares da reserva não-remuneradas, ou seja, fora de serviço oficial. É muito importante resgatarmos o quanto é um trabalho braçal e pesado, pouquíssimo feito por mulheres. Elas relatam a pouca presença de mulheres nos navios e como se sentem no meio disso tudo. Vemos as diferenças de tratamento entre a Cami, que transmite um estereótipo mais feminino e a Karol, que possui um estereótipo de jeito mais despojado e cabelo curto. Como os comportamentos masculinos mudam ao lado delas e como as posições em alto mar também. Além disso, elas contam como é a vida de decorar um apartamento e viverem juntas enquanto passam tanto tempo longe fisicamente. A Camilla decorou boa parte do apartamento enquanto a Karol estava embarcada, desenhou as almofadas, fez muitas coisas nos cantinhos da casa. E cada vez mais compartilham as coisas quando as agendas se encaixam e elas conseguem ficar juntas. Gostaria que esse texto pudesse expressar o sentimento que tenho de carinho pela tarde que tive na casa da Karol e da Camilla, pela admiração que sinto pela história delas e, também, pela gratidão (sem clichês nessa palavra) que tenho por elas me permitirem registrar esses tantos anos de relacionamento que começou de forma tão pouco provável. Antes de escrevê-lo, não sei se de fato ele irá cumprir o papel, mas espero que ele sirva como um abraço à quem elas são e um presente à quem irá conhecê-las agora. Aproveitem e acreditem nas histórias improváveis! ♥ Acho que podemos começar assim: a Karol e a Cami se conheceram em um internato militar. Mas antes de falar sobre o amor delas, queria explicar quem elas são. A Karol é natural de Rondônia, de uma cidadezinha chamada Alta Floresta D’Oeste, mas como a família é de uma mistura brasileiríssima, ela foi morar em São Paulo quando era mais nova. Ela sempre curtiu bastante a área de exatas, mas não era muito dos estudos. Curtia também a área militar e queria fazer parte da esquadrilha da fumaça. Ela viveu o momento em que as mulheres começaram a ser incentivadas a participar do exército e nunca pensou em trabalhar em escritório ou alguma profissão relacionada a isso - inclusive, acha muito cedo a época em que somos obrigadas a escolher qual carreira seguir. Porém, antes mesmo de decidir o que iria fazer, aconteceu o que não esperava: ela foi expulsa de casa. E foi aí que ela investiu em estudar e passar no internato militar, afinal, era uma ótima opção para quem não tinha lugar para morar e nem para onde ir. Veio ao Rio de Janeiro para estudar na EFOMM. A Camilla tem 24 anos, é natural do Rio de Janeiro e morou (quase) a vida toda na mesma casinha. Ela é uma mulher apaixonada pelas artes e pelo artesanato, já estudou na UERJ e descobriu o internato militar e a vida nas embarcações por conta do avô, que era dessa área e também trabalhava em navios. Ele contava das viagens, então ela conhecia as histórias e sabia que era uma profissão que pagava bem, foi por isso que decidiu se inscrever na EFOMM. Nunca foi algo muito sonhado, mas sempre foi algo que esteve ali. Se dedicou e passou no curso. Hoje em dia, ainda arrasa (e muito!) nos artesanatos. Hoje em dia, no apartamento com os gatinhos, o cachorro e várias decorações lindíssimas feitas pela Camilla, elas vivem entre os encontros e reencontros um espaço de lar muito confortável. A Cami comenta que sonha em juntar dinheiro e fazer alguma outra coisa voltada à arte e a Karol complementa: “qualquer coisa que ela pegar pra estudar, vai arrasar!”. Quando pergunto sobre o lar e sobre o que, nesse momento da vida delas, elas identificam como amor, a Cami diz que amar é uma escolha. Desde escolher estar com a pessoa até aceitar essa pessoa e se sentir disposta a compartilhar a vida com essa pessoa. Ela sente que amar uma mulher é também uma escuta ativa, um entender, uma empatia. Está sempre se inspirando em outras mulheres e sente que as mulheres se entregam com muito mais facilidade. Disse também que, por mais que tenha tentado, não se viu capaz de amar um homem ainda, mas que não generalizaria no sentido de ser totalmente incapaz - mesmo reconhecendo o quanto as mulheres mostraram que a completam mais em muitos sentidos. A Karol entende que o amor é feito na base da amizade e do diálogo e fica sempre muito feliz pensando no quanto ela e a Cami são realmente amigas. Por mais que o relacionamento delas já tenha envolvido brigas e já tenha sido essa montanha russa, para ela, tudo isso faz parte porque se trata de um amadurecimento conjunto. Não acha que o amor tenha gênero e forma para acontecer, que possa ser melhor entre mulheres ou não, porque muitas mulheres também podem ser bastante abusivas e trazer traços de machismos e do patriarcado que estão dentro delas de uma forma cultural. Por fim, completa que o relacionamento não se resume sempre só em amor, mas na forma como a vida se construiu e se constrói diariamente. ♥ Hoje, antes de postar o texto aqui no site, falando com a Karol, ela me trouxe a notícia em primeira mão de que elas deram mais um passo nesse meio tempo desde que nos encontramos: e estão noivas! Muito amor pra vocês! Perguntei para a Karol como era, para ela, essa sensação inicial de ser uma mulher, sapatão assumida, chegando num internato militar. Ela disse que sentiu um medo no começo, mas que nunca pensou em esconder a orientação sexual dela. Quando chegou lá, logo no segundo dia, as mulheres já vieram perguntar para ela se ela realmente gostava de outras mulheres e ela achou tudo muito engraçado. No fim, ela não fazia questão de se relacionar com alguém na frente de todo mundo ou deixar os relacionamentos explícitos nos espaços em comum, mas também não se escondia. Fala que não sentia as coisas de forma absurda, mas que a vivência, em geral, foi tranquila. “As pessoas sabem que existimos e está tudo bem.” Quando elas começaram o relacionamento, foi uma montanha russa de sensações. Nesses mais de 6 anos juntas, praticamente os primeiros 4 anos foram de relacionamento aberto, porque permitiam que ainda precisassem viver outras coisas. Não foi nenhum pouco fácil, mas conversavam muito e trabalhavam muito sobre o que sentiam. Enfrentaram distâncias, preconceitos muito pesados e por um tempo a Cami tentou se entender, se descobrir sobre o que sentia enquanto uma mulher que se relaciona com outras pessoas… foram muitos momentos diferentes entre duas pessoas que crescem e amadurecem. E somente quando a Karol foi para o estágio dela (o período de um ano embarcada) que elas conversaram muuuuuuito e entenderam que realmente já tinha esgotado o tempo e que agora querem estar sozinhas - mas juntas. Foi então o momento que decidiram assumir um relacionamento sério, pensar em um lar, um apartamento aos pouquinhos, a vida e tudo foi acontecendo. Com o tempo e com elas conversando enquanto amigas, a Karol foi entendendo quem ela era e como a cabeça dela funcionava, como ela foi criada e como as duas estavam em realidades diferentes. Enquanto eram amigas, a Cami chegou a se envolver com um menino e a Karol conheceu algumas meninas e saiu para várias festas no Rio. Foi um tempo depois, durante um fim de semana no internato, em que a Cami estava lá por ter ficado de serviço, que elas estavam juntas e que já eram amigas o bastante para trocarem carinhos e serem mais próximas nas conversas (sem malícias, justamente, pela Karol entender que a Cami não a via com malícia), que elas passaram bastante tempo conversando juntas em uma noite. E, depois de uma amiga alertar a Karol algo como “você não vai mesmo ficar com a Cami???” e ela cismar que não porque jamais a Cami ficaria com uma mulher, ela tomou coragem para investir e com muita calma o beijo aconteceu! Ressalto a calma porque tudo aconteceu muito aos poucos, com cuidado e respeito à primeira experiência da Cami e pela Karol saber que não era algo que ela já tivesse pensado sobre. Não queria um sentimento de invasão, de arrependimento no dia seguinte, de desconforto na amizade. Elas comentam que, se estão juntas há 6 anos, foi graças há tudo ser feito com tanto respeito à amizade lá no começo, não saindo atropelando todas as coisas, porque era um dos maiores medos da Karol naquele momento. Depois daquela noite, elas passaram a ficar juntas todas as noites em seus camarotes, ou seja, em seus espaços dentro do internato. ♥ Por mais que a Cami tivesse uma posição muito importante e que exigisse uma maturidade imensa dentro do internato, ela sempre foi uma pessoa muito ingênua e teve uma realidade muito diferente. Poucas vezes alguém lhe ensinou alguma malícia ou maldade no mundo. Ela foi criada por uma avó que casou absurdamente jovem e viveu a vida toda com a mesma pessoa, nunca foi alertada sobre sexo, sobre relações amorosas e sobre como essas coisas acontecem. A mente dela funcionava tal qual a ideia de que chegaria um príncipe encantado e que tudo ficaria bem, que o homem sempre seria perfeito e a respeitaria. Ela nunca tinha conhecido o próprio corpo ou pensado sobre isso e também sobre mulheres ficarem com outras mulheres (na verdade, na nossa conversa ela falou sobre já ter visto uma menina lésbica no programa Ídolos quando era mais nova e que a família dela repulsou, mas que ela entendeu que pessoas se apaixonavam por pessoas, porém nunca se permitiu pensar sobre quem ela gostaria de ficar). E essa ingenuidade e desconhecimento da Cami fez com que ela tivesse muitos casos de desconforto na vida sob relacionamentos - desde coisas que, para quem já se envolveu sexualmente, são realmente muito básicas e ela achava muito desrespeitosas, até colocar inúmeras barreiras que faziam com que os relacionamentos não acontecessem de fato. No começo, quando a Karol teve sua paixão quase que platônica por ela e lançou uma brincadeira em estilo de cantada, recebeu em troca um corte gigantesco. E, quem dera, ela soubesse, que esse corte nem planejado tivesse sido, porque de tamanha ingenuidade a Cami nem se dava conta das coisas serem assim levadas na maldade. Era tudo muito mais simples na cabeça dela. Karoline Camilla
- Luana e Bruna | Documentadas
Antes mesmo de se reencontrarem, a mãe da Luana já sabia da existência da Bruna, por ela ficar sorrindo pela casa olhando para o celular enquanto conversavam. Além disso, contaram para os colegas de trabalho que estavam apaixonadas e nem eles acreditaram, afinal, alegaram que “elas sempre estavam apaixonadas por alguém”. Até que aconteceu o reencontro, foi num piquenique no aterro, local em que fizemos as fotos. Compraram um vinho no mercado, uns biscoitos e na hora de sair do estabelecimento encontraram a personal trainer - cujo estava presente antes, no momento que elas se conheceram. Ficaram cheias de vergonha. Chegaram no piquenique, beberam, se empolgaram, beberam mais. Guardam a garrafa de vinho, dizendo que iriam usar no dia do casamento (e até já reutilizaram no pedido de namoro, um mês depois). Por mais intenso que tenha sido, também foi um desafio começar a namorar alguém de uma forma rápida porque ainda estavam se conhecendo. Ambas moram sozinhas, a família da Luana adora a Bruna e isso tudo ajuda bastante, mas não descartam o fato de que são duas pessoas se acostumando com a ideia de terem uma relação amorosa novamente e isso não foi fácil, precisou passar por uma construção. Luana, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela nasceu em Nova Friburgo, interior do Rio de Janeiro e se mudou para a capital para cursar a faculdade. Morou inicialmente com a avó, até se mudar e hoje em dia morar sozinha. É apaixonada por marketing, se formou em publicidade. Trabalha como analista de negócios. Adora samba, pagode e a vida boêmia que o Rio proporciona. Gosta de aproveitar o tempo com as pessoas que ama e por isso, também, vai bastante para a sua cidade natal visitar a família e passar o tempo com a mãe. Além disso, adora esportes: musculação, futebol, handebol. Gosta da rotina agitada. Bruna, no momento da documentação, estava com 26 anos. Nasceu em Minas Gerais, mas ainda bebê a família se mudou para o Rio de Janeiro. Estudava direito e precisou parar o curso por conta do tempo limitado e conseguir se dedicar aos estudos de inglês. Trabalha na área do direito, na pós venda de locação de imóveis. Seu grande hobbie é a dança, desde os 9 anos se dedica à dança de salão e é a música que a deixa feliz sempre - desde o forró, o samba, até as trends de tiktok. Conta que sua festa de 15 anos foi uma grande festa de dança. Além disso, é uma pessoa que curte a estabilidade, a rotina, a não-acumulação de afazeres… gosta da organização. Bruna estava há 6 meses solteira, saindo muito, curtindo… Na época, início de 2023, fazia futevôlei, mas por conta de confusão nos horários precisou mudar e resolveu entrar na academia. Foi julho quando, no terceiro dia de nova rotina, decidiu procurar amizades e esbarrou com a Luana. De início, achou que Luana fosse atleta. Primeiro porque ela treinava com personal acompanhando tudo… segundo, porque o treino era muito pesado. Cita: “uma série de dez repetições, num intervalo de dez segundos… eu ainda falei ‘tá fodida’ (risos)”. Nem teve a opção de revezar o aparelho. E ainda contou… no fim, disse que ela não tinha feito a repetição corretamente, fez nove ao invés de dez. Depois disso, Luana falou para a personal que Bruna estava dando em cima dela, a personal duvidou. Elas entraram em discussão, então Luana disse que se a Bruna olhasse para ela novamente, iria tomar iniciativa, até porque nunca tinha a visto na academia e poderia nunca mais ver, era uma oportunidade única. Quando ela olhou, a iniciativa aconteceu e foi falar. Chegou e perguntou: Se ela fizesse 10 repetições dessa vez, será que Bruna daria o número de telefone dela? Bruna riu e topou. Luana disse que então ela faria até 20. Seguiram os treinos, trocaram os contatos, mas Luana acabou indo para Nova Friburgo visitar sua família no dia seguinte e elas não se encontraram em seguida, só na outra semana, mas passaram os dias em que estava lá conversando. Viram diversas coisas em comum, como amigos, gostos… o papo fluiu. Brincaram que iriam casar por tudo o que tinham dado certo, que já estavam apaixonadas uma pela voz da outra, e tudo foi fluindo até o reencontro acontecer. Luana é uma pessoa muito emocional, enquanto Bruna é muito racional, então tentam encontrar o equilíbrio. Bruna explica que é a pessoa que faz uma linha e diz: “Isso aqui vai funcionar com isso? Não. Então ponto”. Enquanto Luana é a pessoa que insiste até mesmo no que não funciona e faz acontecer, de um jeito ou de outro. Luana, em contraponto, diz que por mais que Bruna seja racional, existe um momento em que ela cede para o emocional. Que as coisas vão se balançando. E que também é preciso entender os limites. Elas tentam ao máximo conversar e entendem que as conversas difíceis precisam existir para compreender os pontos críticos uma da outra, os gatilhos que existem e o que se faz para despertá-los. Até já criaram um grupo no Whatsapp para “reclamar”, ou seja, estimular as conversas que são difíceis, sobre o que é bom manter e o que não gostariam de manter dentro da relação. E prezam por sempre conversar, brincar, até mesmo trazer as coisas em tom debochado, mas nunca brigar sendo rude ou gritando. Bruna acredita que sua linguagem de amor está em atos de serviço, preparando comida, pensando no cuidado, no dia da Luana… enquanto Luana faz muitos presentes, gosta de mimar, de fazer as coisas com zelo. Ambas prezam por deixar as coisas confortáveis principalmente quando os dias não estão bons, porque a rotina nem sempre é fácil e querem estar em conforto nos dias bons e ruins. Por isso, enxergam a relação com muito companheirismo. ↓ rolar para baixo ↓ Luana Bruna
- Jéssica e Brenda | Documentadas
Brenda estava com 31 anos no momento da documentação. Nasceu no Rio de Janeiro, passou a maior parte da vida na Rocinha e veio de uma família evangélica, com valores políticos conservadores dos quais ela não concorda, que nunca refletiram sua essência. Antes de se mudar para Arraial D’ajuda, em Porto Seguro/BA, era bancária e trabalhava no setor administrativo. Foi nessa rotina, durante 6 anos, que se sentiu consumida física e emocionalmente. A saúde começou a dar sinais de alerta: problemas de visão, ansiedade, ganho de peso e cansaço. Tudo culminou no esgotamento. Em meio à pandemia de Covid-19, decidiu mudar de vida, um impulso que começou após férias na Bahia, onde ela e Jéssica vislumbraram um novo modelo de existência. Em novembro daquela viagem, a Bahia mostrou um estilo de vida mais simples e feliz, livre da pressão do consumismo das grandes cidades: conheceram pessoas que viviam como nômades ou em home office, e, em Arraial d'Ajuda, sentiram uma conexão especial. Foi ali que o sonho começou a tomar forma. Jéssica, no momento da documentação, estava com 34 anos. É natural de Belford Roxo, baixada fluminense. Nutricionista de formação, é apaixonada por cozinhar e estudar alimentos, mesmo sem atuar diretamente na área. Antes da mudança, dirigia para aplicativos de transporte e trabalhava com energia solar e reformas de elevadores. Para ela, a família sempre foi tudo, apesar das dificuldades em aceitar sua orientação sexual no início. Hoje, sua mãe não só aceita, mas admira Brenda, reconhecendo nela alguém que inspira e impulsiona Jéssica. Na hora de partir para a Bahia, foi certeiro - ainda que Jéssica tenha sentido medo - vendeu o carro e Brenda retribuiu o apoio que teve nos momentos de dificuldade anteriores: disse “Vambora!”. Alugaram uma casa, partiram para um novo negócio. Agora, o sucesso ali não é uma obrigação, mas uma possibilidade. Se não der certo, sabem que podem recomeçar em outro lugar, porque ficar paradas já não é uma opção. Foi por meio de um aplicativo de relacionamentos que Brenda e Jéssica se conheceram. Jéssica, natural de Belford Roxo, não deixou que a distância fosse um obstáculo. "Vale a pena investir porque sou uma pessoa legal". E estava certa. Em apenas 13 dias, já estavam namorando. Foi tudo tão intenso que, após os primeiros encontros, Jéssica deu a Brenda um anel feito com folha de bananeira, em um passeio no Parque Lage, no Rio de Janeiro. Juntas, adoravam passar o tempo na Lagoa, um lugar que se tornou ponto de encontro nos primeiros meses. O primeiro lar que dividiram foi no Engenho Novo, onde começaram com pouco: dois colchões e duas televisões. Brenda já vivia no bairro com sua mãe - que via Jéssica como uma amiga. Aos poucos, enfrentaram desafios e momentos importantes com a família de Brenda, construindo laços e superando diferenças. Foram mobiliando a casa com muito esforço e dedicação, cada item, desde a decoração até os utensílios mais simples, ganhou um valor especial. Cada conquista representava a luta diária das duas. Depois de outras mudanças, anos mais tarde, moraram na Rocinha, voltando ao bairro onde Brenda nasceu. "Vamos embora. Não sei o que vai acontecer, mas vamos embora. E estamos juntas nessa." É assim que elas resumem as mudanças. No começo, Brenda era mais reservada, mas com o tempo, Jéssica viu nela uma transformação que trouxe muito orgulho. "Hoje vejo a Brenda conversando com minhas amigas e fico feliz de como ela mudou", conta. Com oito anos de relacionamento, ambas destacam a importância de se comunicarem com abertura e respeito. Por mais que nem sempre concordem, sabem que haverá compreensão. Essa base sólida de apoio e admiração mútua é também reconhecida pelos amigos, que veem na relação delas algo natural, leve e inspirador. Conversamos sobre não ser apenas sobre compartilhar a vida juntas, mas algo maior: um espaço onde é possível ser amiga de si mesma, aceitar as diferenças ao redor e, acima de tudo, viver em verdade. Planejando o que seria a nova vida em Arraial d'Ajuda, Brenda e Jéssica encontraram, pelo Facebook, a casa onde moram atualmente e decidiram transformá-la em um espaço acolhedor para mulheres viajantes. A ideia foi criar algo intimista, um hostel diferenciado, com uma rotatividade máxima de 06 hóspedes, permitindo conexões mais profundas, trocas e um ambiente propício ao aprendizado e segurança. Mais do que uma hospedagem, o sonho delas é um espaço que acolha e empodere mulheres. “Queremos mostrar que o mundo também é para nós. Que a gente pode, a gente merece”. As mulheres enfrentam muito pedo de viajarem sozinhas por conta de assédios, abusos e desconfortos, então lá seria o local ideal para estarem hospedadas. Para o futuro, querem implementar práticas como yoga, terapias e atividades na rua que cuidem do corpo e da mente. Fecharam o contrato da casa à distância, na “cara e na coragem”, sem sequer visitá-la antes. “Estamos rindo mais do que chorando, e isso é muito importante” - quando Brenda diz isso, resume o sentido da jornada que têm trilhado: ganhar mais do que perder, viver plenamente com o que têm hoje. Para ela, deixar o emprego que possuíam foi um divisor de águas. Sem a pressão da rotina exaustiva, não precisou mais de remédios ou óculos. Perdeu peso e ganhou saúde, no corpo e na alma. A mudança foi além da geografia – foi interna, profunda. “A gente é criado para acreditar que o dinheiro importa mais. Que o dinheiro vai te trazer qualidade de vida. Mas não era sobre isso”. Para Jéssica, estar com Brenda permitiu que ela expandisse suas próprias percepções sobre afeto. É algo que vai além do relacionamento: é sobre construir, juntas, um tipo de amor que inspira e transforma. Brenda complementa: "Acho muito legal quando as pessoas olham e falam: ‘Caraca, elas são parceiras mesmo!’" Seja em pequenos gestos, como carregar caixas lado a lado, ou no apoio e amor que compartilham diariamente, elas mostram o significado de uma relação baseada em parceria verdadeira. Mais do que um casal, elas se veem como militantes do amor e da proteção às mulheres. Não militantes políticas, mas militantes do dia a dia, mesmo. Vivem seu amor como um ato político. Uma forma de reivindicar respeito e espaço para as mulheres em um mundo que ainda carrega tantas barreiras. Enaltecem e protegem outras mulheres sempre que podem, fazendo de sua própria relação uma inspiração para quem cruza seus caminhos. Embora já se vejam como uma família, sonham em maternar no futuro. É um desejo que vem acompanhado de receios: o medo de não serem compreendidas ou aceitas enquanto família por seus próprios parentes. Ainda assim, acreditam na força que construíram juntas para enfrentar desafios e realizar sonhos. "Nosso amor é sobre isso", refletem. "Construir, apoiar, e, acima de tudo, lutar. Por nós e pelas mulheres que ainda precisam de coragem para serem quem realmente são." ↓ rolar para baixo ↓ Brenda Jéssica Quittéria
- Jade e Laura | Documentadas
Jade, no momento da documentação, estava com 27 anos. É natural de São Paulo, da zona leste, mas hoje em dia mora próximo à USP para ficar perto da faculdade, da Laura e para economizar o tempo diário que levava no transporte público. Ela é jornalista, cursa mestrado e trabalha enquanto assessora de comunicação. Conta que passa o dia fora, trabalhando de forma presencial e tem uma rotina bastante atarefada. Na pandemia de Covid-19, trabalhava em casa e era bem diferente, então agora ela e Laura readaptam o cotidiano para aproveitar o novo lar e passar o maior tempo possível com a Marininha, gatinha de estimação - chegam em casa, tomam café juntas, conversam sobre o dia, assistem TV, aos finais de semana leem e Jade tenta praticar yoga. Laura, no momento da documentação, estava com 26 anos. É natural de Aragarças, em Goiás. Morou em Minas Gerais, numa cidade interiorana, onde começou a cursar publicidade, mas achou um pouco frustrante porque não tinha muitas oportunidades lá, até que conheceu uma professora que contou para ela sobre o curso de Educomunicação na USP e ela tentou a transferência, em 2019. Hoje em dia, ela trabalha com mídias sociais, numa rotina semelhante à Jade, a diferença é que tenta ir de bicicleta para fugir do transporte público, conta rindo. Ama assistir filmes, está cursando uma pós-graduação em audiovisual e gosta de passar tempo de qualidade em casa. Para elas, o amor é estar num lugar de segurança. Quando falam sobre isso, Jade lembra de uma situação que viveu em que foi assaltada e que a primeira pessoa que pensou em ligar/precisar falar foi a Laura, e que depois disso caiu a ficha: significa que ela é seu porto seguro. O amor significa uma ajuda diária, o ponto que deseja evolução, de querer ver crescer - e estar do lado nesse crescimento. Laura pontua que viveu cercada de muito machismo e que sempre faz de tudo para ver o dia delas sendo bom em conjunto: sempre cuidam da casa, dividem as tarefas, fazem questão de que as coisas não fiquem pesadas pra ninguém, deixam tudo confortável, cuidadoso, sabem que se não for assim, vai ficar pesado para uma pessoa só. Querem o espaço equilibrado e verdadeiramente seguro para o amor existir. Foi em 2019 que se conheceram, quando a Laura se mudou para São Paulo e começou o curso na USP. Jade também estava no curso, de início surgiu o interesse, mas ambas eram tímidas e não sabiam como demonstrar. Haviam amigos em comum, eventos, coletivos, então tentaram aproveitar essas brechas. Foi num dia em que Laura estava numa reunião do coletivo LGBT+ que viu Jade e pensou “Bom, ao menos bissexual ela é!” que a esperança começou a surgir. Pelo lado de Jade, ela viu uma publicação num grupo de Facebook em que os novos estudantes se apresentavam e falavam coisas básicas como nome, idade, signo, orientação sexual, se estava solteiro… e a Laura comentou. Ali ela já soube o que interessava. Entre maio e junho começaram a conversar e interagir mais, foram até no cinema assistir Toy Story, mas nada aconteceu. Até que surgiu um jantar na casa de um amigo - que até hoje acreditam ter sido uma marmelada, porque os amigos marcaram, mas ninguém deu as caras! - e só elas foram. Beberam muito, ouviram música, o anfitrião foi dormir e deixou elas na sala, se divertindo, até que demonstraram que tinham interesse uma na outra. Depois do primeiro beijo, ficaram juntas por alguns meses, mas Laura tinha acabado de se mudar e estava confusa com tudo ainda, conhecendo a cidade, não queria um relacionamento sério. Sentia que sua vida no interior era muito diferente do que experimentava na capital. Logo que optaram por não ter um relacionamento, a pandemia de Covid-19 começou, ela decidiu voltar para Goiás com a gata (Marininha) pelo fato das aulas terem parado e não ter motivos para continuar em São Paulo. Ficou um ano lá, mantiveram bastante contato online e contam que parecia até um web namoro. Em junho de 2021, as aulas estavam retomando e Laura decidiu voltar a morar em São Paulo. Chegou querendo muito reencontrar Jade, obviamente. Sentem que a vida estava muito estranha, era tudo bem diferente de 2019/2020. Primeiro que não existia mais aquela sensação de mudança/recém chegada na capital, segundo que a vida em si estava estranha, muitas pessoas morrendo, uma sensação de fim-de-mundo, e terceiro que elas estavam financeiramente estáveis, tinham seus trabalhos (diferente de 2019), o sentimento era outro - e estavam mais maduras para a sensação de querer estarem juntas, pensarem sobre um namoro. Se estabilizou na cidade novamente e em setembro começaram, de fato, a namorar. Jade tinha muito medo de pegar Covid, morava com a família e pegava transporte público diariamente, tinha medo de colocá-los em risco. Então decidiu procurar um lugar para morar próximo à Laura e à faculdade. Primeiro, moraram próximas mas em prédios separados. Depois, moraram no mesmo apartamento, mas em quartos separados, dividindo com outras pessoas. E agora, finalmente, conquistaram seu próprio lar, um lugar com a cara delas em todos os detalhes da decoração e muito espaço para a Marina ficar à vontade. No dia da documentação, inclusive, iria rolar um “chá de casa nova”, uma celebração para os familiares comemorarem a conquista e presentearem com ítens para a casa. Elas confessam que estavam bem ansiosas pelos presentes, queriam muito saber se iriam ganhar um aspirador (e ganharam! hahaha). Fazer a documentação nesse momento foi importante, também, porque a mudança em si foi muito caótica e viver momentos assim causam um certo apagão sob as coisas boas que vivemos, o caos se instaura e ficamos submersos até passar, então foi uma conversa importante para relembrar o trajeto até ali e ver os detalhes da casa sendo construídos. Por fim, em março a Jade pediu a Laura em casamento - e conta que está esperando o pedido de volta, porque para elas tudo acontece de forma igual. ↓ rolar para baixo ↓ Jade Laura
- Joyce e Lorrayne
A Joyce e a Lorrayne entendem que o relacionamento delas já chegou numa fase em que não existe mais a ansiedade da expectativa, ou seja, querem estar juntas porque estão dispostas a isso. Não despejam uma expectativa gigantesca uma na outra, sentem que fazem o que gostam e não precisam se vestir de forma impecável ou estar sempre de bom humor todos os dias. Com a maturidade, a naturalização dos corpos foi se construindo aos poucos. Hoje em dia moram em uma casa que elas mesmo construíram. Na zona periférica de Belo Horizonte, vivem em uma ocupação de terras que antes era um local improdutivo e hoje recebe centenas de famílias. Na ocupação sempre foram tratadas enquanto uma família - e ressaltam como essa representatividade é importante. Por alguns anos, todos os salários que ganhavam voltava ao lar: na compra de materiais de construção, mantendo as contas em dia e pensando em uma decoração para a casa. Hoje em dia, dentre todos os cômodos que construíram e tudo o que aprenderam (fazer massa, assentar forma) é a parede de tijolinhos que mais se orgulham. Sempre sonharam em ter uma parede desse jeito, com os desenhos, pinturas e bordados que fazem pendurados nela. Foram anos planejando porque haviam outras prioridades a serem feitas e hoje se orgulham de finalmente ter conquistado. Quando relembram tudo o que já viveram juntas, falam que realmente amam a companhia uma da outra, fato que ficou ainda mais evidente na pandemia, quando dentro de casa o vínculo se fortaleceu perante as dificuldades que enfrentaram. Não sentem que vivem entre controles, ciúmes possessivos ou coisas do tipo entre elas ou familiares e amigos. Entendem que estarem juntas é algo que escolhem diariamente e depositam sua fé nesse sentimento. Claro que valorizam muito as conversas, a terapia, o cuidado com o corpo e a mente para se manterem bem. Não querem projetar as relações dos outros nas suas, então exercem a conversa e verbalizam o que sentem. Entendem que amar é se sentir feliz, assim como ver e querer o outro feliz. Por isso, não se enxergam numa relação solitária. A Lorrayne conta que tinha uma ideia de amor muito romântica, ligada aos livros de romance que lia… e que essa ideia também é um tanto doentia: A sensação de não ter a pessoa amada é igual a morte, o pedestal que existe para o amor, etc. Hoje em dia enxerga tudo de forma mais leve. Cita que ama os almoços de domingo, os dias que passam juntas sem fazer nada em específico e que assim ela se sente muito mais realizada amando a Joyce. No momento da documentação a Joyce estava com 31 anos. Ela é bordadeira e, além de vender os bordados, começaria um trabalho enquanto vendedora em breve. A Lorrayne, no momento da documentação, estava com 28. Ela trabalha enquanto desenvolvedora de sistemas, na área da tecnologia, fazendo estágio - mas também consegue diversos freelas, o que acaba ocupando todo o seu dia. Brincam que são duas velhas, amam ficar em casa e na pandemia isso se agravou ainda mais. Além disso, por morarem em um lugar distante do centro, se torna inacessível estar saindo o tempo todo pelo valor do transporte, acabam se apegando em atividades mais caseiras. Quando se conheceram, de forma online há muitos anos atrás - mais especificamente na transição do Orkut para o Facebook - interagiram numa postagem que a Lo fez dizendo que estava se sentindo triste. A Joyce soube quem era a Lo e a adicionou nas redes por conta de um amigo em comum, que falava muito sobre ela, e acabou descobrindo um blog que ela escrevia textos, poemas, contos e desabafos. Naquela época, Joyce nunca tinha ficado com uma mulher, mas até comentou com o amigo que se ficaria, gostaria que fosse com a Lo. Um tempo depois de terem interagido na postagem, se adicionaram no MSN (saudades, né?) e conversaram por três horas, falando de músicas e outros assuntos que surgiam, onde perceberam que tinham muito em comum. No decorrer daquele ano (2011) conversavam de vez em quando durante a semana; A Joyce passou pela experiência de ficar com a primeira mulher (que não foi a Lo! mas uma pessoa na Parada LGBT de Belo Horizonte), passou um mês na casa da bisavó de férias e, quando voltou para Belo Horizonte, ainda na rodoviária, ligou para a Lo diretamente de um orelhão marcando um encontro. Se encontraram no dia seguinte na pracinha de bairro próxima aos locais em que moravam, Joyce estava super insegura de ir, mas encarou e levou uma flor para a Lorrayne, que estava sentada na pracinha desenhando e achando que iria levar ‘um bolo’. Joyce brinca com a música da cantora Letrux que diz “Meu look eu pensei o dia inteiro/Só pra te encontrar” e quando chegou lá toda arrumada viu a Lorrayne vestida de qualquer jeito, com chinelo e meio desengonçada. No momento não falou nada, mas a piada surge até hoje. Joyce era muito comunicativa, enquanto a Lo ficava mais tímida, mas deu certo. No segundo encontro marcaram de ir ao cinema, em Contagem (cidade da região metropolitana de Belo Horizonte) e tiveram a infelicidade de serem assaltadas. Depois disso, passaram a se encontrar pontualmente nas segundas-feiras, porque a Lorrayne fazia aula de desenho próximo à casa da Joyce e, como não era assumida, elas conseguiam se encontrar sem precisar dar muitas desculpas. Nesse período começaram o namoro e assim seguiram pelos próximos dois anos, namorando e estudando na mesma faculdade. Foi durante o processo de estudos que aconteceu a ocupação de terras onde elas residem hoje. Nessa época, a Lo cuidava dos irmãos mais novos, enquanto ela e Joyce desejavam morar juntas pelos problemas que enfrentavam com a família. Sendo jovens e com muitos sonhos, decidiram procurar casa para alugar desesperadamente. Estavam com 21 e 18 anos, enfrentavam diversas barreiras na hora de alugar e o fato de terem um cachorro (o Vovô, que aparece nas imagens documentadas) acabava piorando pois nenhum lugar aceitava animais. Adotarem o Vovô, inclusive, foi um processo muito importante para elas; Ele ficava próximo do trabalho da Joyce e era um animal muito bravo, portanto tinham medo que acabassem matando-o pela agressividade que tinha ao atacar as pessoas. Foram 2 meses tentando a aproximação até conseguir acolher e levá-lo para a casa, portanto, jamais abririam mão dele. A mãe e a irmã da Lorrayne conseguiram casa na ocupação e ela e a Joyce ajudavam na luta: desde as reuniões, os atos e as manifestações pela terra. No momento inicial a Lo até morou com elas, em uma época que tinham um cômodo apenas, o banheiro e cozinha eram espaços coletivos da ocupação. Nesse momento, Lo até aponta para o sofá em que está sentada, falando que ele vem desde àquela época: o espaço em que dormiam. Como a irmã acompanhava a saga delas por uma casa em que pagassem aluguel, deu (e insistiu) na ideia de que elas colocassem seus nomes na lista de famílias da ocupação e tentassem um local para construir e morar. Acabaram conseguindo por algumas desistência e/ou outras famílias que não seguiam as regras de convívio. O terreno era pequeno, havia uma vizinha bastante bagunceira e acabaram enfrentando muitas dificuldades no início - não havia janelas, entravam muitos bichos como ratos e acabavam não conseguindo ver aquele local como uma casa de verdade. Até que conseguiram trocar de moradia - pagavam somente o material de construção usado - e, depois de duas mudanças, chegaram na casa em que estão hoje, o lugar que entendem como lar. Logo de início fizeram um muro para soltar os cachorros, depois uniram dinheiro para construir um banheiro e outros cômodos. Hoje em dia, nessa última (e atual) casa, com os cômodos mais elaborados e da forma que sonhavam (construíram o segundo andar, fizeram um mezanino etc), entendem que tudo foi muito árduo, mas necessário. Estão completando cinco anos nesse novo local e agora a irmã mais nova da Lo divide a casa junto com elas. Dentre todas as dificuldades, contam como foi construir em meio à pandemia. Naquele ano (2020) choveu muito em Belo Horizonte, então a obra que duraria 2 meses acabou triplicando em tempo, enquanto elas viviam em três pessoas sob um espaço que chovia dentro, tinha cimento para todos os lados e toda a sujeira incomodava muito. Entre o trabalho, faziam parte do corpo de funcionárias da creche da comunidade, então conseguiram receber auxílio mesmo nos tempos mais fortes de Covid-19, mas a regra era simples: todo o dinheiro ia para a construção. Durante a pandemia, também, o grupo de teatro que a Lorrayne faz parte passou em um edital para realizar apresentações na comunidade, o que ajudou muito a se manter em contato com a arte e trazer renda para a casa. Entendem como é bom ter realizado as coisas. Não foi nenhum pouco fácil viver todas as dificuldades que viveram, mas sentem muito orgulho em ver a casa montada. Ressaltam que fazer isso, enquanto mulheres, é ainda mais grandioso. Sempre existe alguém para apontar e dizer que não será possível, homens querendo nos ensinar a fazer coisas mínimas, opinando em algo que não cabe à eles e fazer a casa da forma que sonham é um firmamento muito grande sobre quem são. Hoje em dia, adoram os processos artísticos que fazem juntas (mesmo que a Lo faça parte do time de tecnologia, ela estudou artes por seis anos) e se dedicam aos bordados, à pintura e ao desenho. Além disso, amam jogos, no tempo livre gostam de assistir séries e filmes e fazer refeições juntas. Mesmo com as grandes dificuldades financeiras e desentendimentos que aconteciam no começo do namoro por depositarem muito de relações alheias sobre elas, hoje dão muito valor ao entendimento do corpo e da relação enquanto algo político. Lo comenta que a sociedade não as considera uma família, então fazem questão de trazer a naturalização do amor delas para todos, seja no ambiente de trabalho, entre a comunidade ou a família. Ao ver as pessoas da creche que trabalhavam (mães, pais, funcionários e crianças) tratando o amor delas enquanto algo natural, como merece ser tratado, percebeu o quanto importa essa luta coletiva. Por fim, fazem questão de dizer o quanto a sociedade precisa de mais acolhimento mental. Pouco se vê de investimentos nessa área, as terapias são caras e não há propagandas governamentais sobre isso, portanto desejam viver num país em que principalmente as mulheres que estão na base tenham cuidados mentais garantidos. ↓ rolar para baixo ↓ Lorrayne Joyce
- Jade e Yáskara
Jade e Yáskara são duas psicólogas, gaúchas, que dividem a vida em Belo Horizonte. Chegaram na capital mineira em março de 2021, durante a pandemia. Entendem que, mesmo com o acaso de terem passado as últimas férias pré-covid em Minas Gerais, a razão da mudança foi única: uma nova oportunidade de trabalho. Yáskara, que no momento da documentação estava com 40 anos, é natural de Palmeira das Missões, interior do Rio Grande do Sul. Já morou em diversas cidades do RS e estava morando em Porto Alegre há alguns anos. Ela é psicóloga e dá aula em universidades, estava se sentindo esgotada porque seu trabalho preenchia os três turnos do dia e sentia que precisava desacelerar o ritmo. Jade no momento da documentação estava com 26 anos, é natural de Porto Alegre e por lá trabalhava com a psicologia dentro das políticas públicas, em uma casa-lar na Restinga, bairro periférico da Zona Sul. Seu trabalho também mudou com a ida para Belo Horizonte, decidiu atender de forma clínica e se voltar para um público específico: a comunidade LGBTQIA+ e pessoas em situação de pós-encarceramento. A oportunidade surgiu lida como uma brincadeira pela Yáskara, que chegou para a Jade contando: “Recebi essa proposta de trabalho, mas não tem como, né? Imagina, morar em Belo Horizonte…” e, para a surpresa, Jade respondeu: “Por que não?”. Depois disso, começaram a pensar melhor sobre e embarcaram nessa nova cidade. Hoje em dia, entende e enfatiza a importância de estar em espaços acadêmicos para mudar as coisas de dentro, trazendo representatividade, reinventando a psicologia. Jade e Yáskara se conheceram em 2016, mas só em 2018 foram se relacionar de fato. Na época, elas viviam relacionamentos distintos e, quando entenderam o que sentiam, precisaram encerrar as relações para ficarem juntas. Foi um momento muito delicado por conta das diversas emoções, misturadas com muito trabalho diário. Por outro lado, contam que gostaram tanto de ficar juntas que, ao dormirem na primeira noite, nunca mais se desgrudaram: sentem que desde então dormiram juntas todos os dias. Juntaram as coisas, os cachorros e foram morar juntas, logo no início. Sentem que a experiência da relação ser um casamento vem desde esse início. Não tiveram tantos momentos clichês de um começo de relação, mas sim momentos específicos que hoje em dia lembram dando risadas: no primeiro cinema juntas, dormiram, de tão exaustas que estavam. Na primeira vez na praia tomaram insolação, porque esqueceram o protetor. Dentro de casa, viveram toda a pandemia juntas. No começo foi difícil, estavam morando em um apartamento sem divisões em Porto Alegre, precisaram entender como seria a dinâmica. Hoje em dia, no novo lar em Belo Horizonte, deram muito valor a isso desde o começo: como trabalham bastante em home office, cada uma possui um espaço demarcado em casa que seja confortável para seus atendimentos e trabalhos. Pelas tantas vivências no início e depois já ter embarcado na pandemia e na mudança de estado, sentem que já viveram muitas coisas juntas. Contam que conversam sobre tudo (e imaginamos, né? duas psicólogas juntas!), compartilham muito sobre o que estão pensando, sentindo e como foram seus dias. Não costumam se desentender por coisas sobre o relacionamento, discutem mais por questões rotineiras: como o comportamento dos bichos em casa. Gostam muito da companhia uma da outra, de beber vinho ouvindo música, de estar compartilhando pensamentos e sentem que não são o tipo de casal que fica sozinha individualmente. Elas têm seus espaços, mas sempre que podem estão juntas desfrutando dos ambientes de convívio em comum. Em Belo Horizonte, procuram conhecer “espaços de respiro”, ou seja, lugares que sejam confortáveis para estarem enquanto mulheres da comunidade LGBT. Acreditam que se unem muito pelas questões políticas (a primeira foto que possuem é na manifestação contra o Bolsonaro/Ele Não em 2018, por exemplo) e também buscam lugares de militância na cidade. Além disso, gostam de assistir shows (e elogiam quanta cultura há em BH), além de ocupar espaços públicos como praças e eventos abertos pela cidade. Atualmente, além de viajar para o interior de Minas Gerais, também adotaram um gatinho mineiro, fazendo companhia para os cães da casa. Entendem que viver a mudança e o dia a dia da forma que vivem significa muita união. São elas por elas, ou como disseram: ‘nós por nós’. Estão abertas a fazer novas amizades e desbravar a cidade, mas acabam sentindo uma confirmação de amor ainda maior quando olham para trás e percebem o quanto já caminharam juntas. Jade acredita que é muito importante se referir à Yáskara como sua esposa, pela ressignificação de termos heterossexuais. Falam sobre a importância do casamento neste sentido também - em breve a cerimônia será realizada e, por mais que a Jade cresceu ouvindo sua mãe dizer “Não case! Depender de homem é muito ruim!” hoje entende que o que estão fazendo não fará que elas sejam dependentes financeiramente de alguém. Sente que o casamento LGBT+ vem em outro sentido, falando muito mais sobre uma ressignificação de direitos, um planejamento para a facilitação na burocracia de ter filhos e um direito que nós temos. Ambas vivenciaram relações heterossexuais duradouras e falam sobre agora encontrarem outro sentido para as relações amorosas enquanto estão juntas - coisas até que não cogitavam pensar, como ter filhos. Yáskara fala sobre estarem pensando na maternidade, algo que ela nunca tinha se visto desejar antes. Pensando juntas, adoram a ideia de ter um ou dois bebês, e comentam que o desejo de engravidar não chega enquanto uma questão heteronormativa estereotipada do qual um casal namora > casa > engravida, e sim como algo que temos direito, que querem vivenciar, conquistar juntas enquanto uma nova perspectiva de aprendizado, cultura e educação. Para Jade, o amor passa pelo afeto, porque é o afeto que nos move em tudo o que fazemos, faz ter propósito. Yáskara complementa que amar é ter também respeito pelas diferenças. O amor que constroem passa pelo respeito e pelo apoio sobre o que pensam, além de ser livre, não necessariamente no sentido monogâmico, mas livre para que estejam confortáveis e à vontade na relação, sem um ultra romantismo: que as permitam viver bem, que se ampliem juntas. Contam sobre uma situação que quando começaram a namorar foram para Salvador e decidiram jogar búzios antes de chegar lá. Neste momento, o pai de santo trouxe várias coisas interessantes sobre o relacionamento delas e perguntou se elas estavam preparadas para viver ‘uma metade só da laranja’, porque elas eram a mesma metade, por serem tão parecidas. Ao decorrer do relacionamento entenderam que isso faz muito sentido, se vêem muito uma na outra. Além disso ele disse que a Jade casaria aos 26, o que, sem elas perceberem, acabará se concretizando. ↓ rolar para baixo ↓ Yáskara Jade
- Alessandra e Roberta
Tanto a Roberta, quanto a Alessandra, sempre sonharam em ser mães e ter uma família. Nos 16 anos em que estão juntas, planejaram e enfrentaram diversos desafios para terem seus filhos: o Alexandre, a Sofia e a Rafa. Hoje em dia, morando na cidade de Contagem - Minas Gerais, elas dividem seu tempo entre o trabalho (sendo professoras em escolas públicas), a rotina das crianças, os encontros com a família, as responsabilidades na igreja e os momentos de divertimento - esses, as crianças mesmo contam quais são: brincar com a Amora (a porquinho da índia), ir ao clube, assistir filmes e passear no parque. Alessandra vê o relacionamento delas com muita cumplicidade, parceria, perdão, união e companheirismo. São companheiras em todas as horas, contam o quanto mudaram juntas nesses anos de relação e o quanto pretendem sempre evoluir. Roberta fala sobre enxergar o amor enquanto algo único, mas entende que o nosso - de mulheres que amam outras mulheres - precisa estar sempre em enfrentamento ao preconceito. Cada vez mais entendem a importância de se ver representadas: desde nas mídias, até nos trabalhos. E o quanto fazem questão de mostrar que são capazes em tudo o que podem fazer, para que o preconceito nunca abra espaço para alguma discriminação por serem quem são. Foi através da pedagogia que elas se conheceram - e acreditam que foi Deus quem colocou uma na vida da outra - elas não estudavam na mesma universidade, até que a Alê conseguiu transferência para a universidade que a Roberta estudava. Nessa época, a Roberta tinha um problema grave no joelho e passou por diversas cirurgias, ficava bastante tempo fora das aulas por conta disso e o dia que elas se conheceram foi devido à uma comemoração pela volta da Roberta. As amigas do curso resolveram tirar uma foto, comemorando, e a Alê sem nunca ter conversado com a Roberta participou da foto, e pior: foi tão empolgada que quase bateu no joelho imobilizado dela. Um tempo depois, entre a vida acadêmica, começaram a conversar. Tudo se intensificou numa viagem que realizaram até Ouro Preto, da qual a Alê levou a sobrinha e a Roberta estava ainda sem andar por conta do joelho, então acabaram ficando juntas muito tempo, não seguindo a maioria dos passeios. No semestre seguinte, para surpresa de ambas, visto que nunca tinham se relacionado com uma mulher, entenderam que estavam apaixonadas uma pela outra. Sentem que tudo foi uma descoberta muito íntima e vivendo no tempo delas, entendendo limites e construindo uma nova forma de amar. Depois que assumiram o relacionamento, tudo foi caminhando com o tempo: se formaram, passaram em concursos, guardam dinheiro para investir em um apartamento… Para a Roberta foi mais difícil sair de casa, ela é a única filha mulher e sempre foi muito ligada à família. A Roberta, por ter diversos irmãos, teve uma mudança mais facilitada. Eles estavam guardando dinheiro porque o plano de terem uma família estava cada vez mais próximo. Contam que não foi fácil, ainda mais com o salário de professoras de escolas públicas, mas encontraram clínicas e conseguiram parcelar os exames. Na época, como as duas queriam engravidar, tentaram fazer o processo juntas - hoje em dia entendem que provavelmente não daria certo, pela quantidade de hormônios e tudo o que envolve a gravidez simultânea. Portanto, a Roberta gerou o Alexandre e logo depois (cerca de 6 meses) a Alessandra engravidou das meninas. Eles possuem cerca de 1 ano e 1 mês de diferença. Elas contam que sendo educadoras, tendo muito contato com crianças no trabalho e também na família (os sobrinhos, por exemplo) achavam que isso seria um facilitador na hora de educar os próprios filhos, mas que na verdade tudo é bem diferente - você participa de todos os processos existentes, desde alimentação, até ensinar tudo o que eles sabem (e que vão construir o ser social que são), enquanto os sobrinhos o contato era como um passeio no shopping. A educação é um dos maiores desafios e o que elas mais cuidam e se preocupam também. Desde o momento de gerar até o momento de educar elas vivenciaram diversos preconceitos: na clínica, na escola na hora de matricular as crianças, no registro do Alexandre que foi muito difícil de conseguir… mas transformaram isso em oportunidades também. O caso do Alexandre, por exemplo, por não conseguir registrá-lo perderam o convênio que elas tinham, nisso sempre que precisavam levar ele para algum lugar e estavam sem documento, eram vistas com péssimos olhares. Depois da batalha que travaram, a juíza da cidade autorizou o caso dele e em seguida das meninas, e isso abriu diversas portas para as crianças que estavam sem registro e que tinham mães e pais LGBTs terem seus processos realizados. Entendem que tudo o que viveram foi muito entre elas, ou seja, uma apoiando a outra. Foram períodos bem difíceis, como também problemas de saúde durante a gravidez de ambas, mas suportaram porque sabiam que não estavam sozinhas. Por mais que hoje tenham a família que sempre sonharam, entendem que nem tudo é romântico e feliz, valorizam cada passo que deram juntas até aqui. Hoje em dia, mesmo morando em Contagem, trabalham em cidades próximas. A Roberta, pela primeira vez, foi trabalhar numa escola em que a diretora é casada com uma mulher. Assim ela se sentiu à vontade para falar que se relaciona com uma mulher e sente que está sendo tudo diferente: o acolhimento, o trabalho em si, a forma que a Alê praticamente faz parte da escola porque visita e é super bem recebida. Ela entende que essa é a importância da representatividade vir “de cima” também, estar em cargos de poder. Além do trabalho, a rotina delas envolve a presença na Igreja Contemporânea. Contam que quando se conheceram eram católicas, mas a partir do momento que ficaram juntas pararam de comungar (porque quando se toma a hóstia, se confessa, e a relação que elas tinham era lida enquanto pecado). Eram mulheres muito ativas na igreja, desde grupo de jovens até retiros, e por mais que ninguém chegou a falar diretamente que elas não poderiam ir, não se sentiam mais parte, então decidiram se afastar. Passaram um tempo procurando igrejas evangélicas, até tinham um certo preconceito inicial e não encontraram nenhuma que gerasse identificação. Foi através de uma entrevista que conheceram um pastor e decidiram saber mais sobre a igreja - que tinha sede em Belo Horizonte, mas era num hotel e elas acharam isso muito estranho, não foram - quando a igreja passou a ter um espaço físico decidiram ir, chegaram lá e foram bem recebidas, adoraram e decidiram fazer parte. Dentre as prioridades com certeza está a fé. Acreditam que, além do encontro delas, as crianças também são presentes de Deus e que tudo se encaixa com a crença. ↓ rolar para baixo ↓
- Julia e Ana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Julia e da Ana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Para a Júlia, falar sobre amor no meio da conversa a fez lembrar de uma fala do Manoel de Barros, que diz que a poesia em si não existe e que o amor em si não existe, o que existe é sempre uma construção em torno do que acreditamos. E hoje, ela acredita que essa relação de carinho, de afeto (e também, de amor, claro) que sente junto à Ana Carolina, existe por puro sentir, por vir do coração diariamente e por acreditar e confiar em quem elas são quando estão juntas. Sendo quando estão em casa assistindo filme, comendo pipoca, fazendo carinho, ou quando estão reunidas com os amigos jogando cartas e rindo de bobeiras. A Ana também fala sobre a construção delas porque para essa construção acontecer foi preciso muita vontade de estarem juntas. E talvez seja assim que ela ache uma forma de dizer o que pensa sobre o amor: é um jeito de alguém falar que gosta muito de outro alguém - quando independente do que acontecer ou de como for a relação, você querer estar com a pessoa. Depois de conversarmos, a Ana retoma o que falávamos anteriormente e diz que o amor é também abrir mão de algumas coisas. Para elas o amor entre mulheres é o maior ato de resistência que existe no mundo. Júlia e Ana têm 25 anos, ambas são formadas em psicologia, atuantes na área e moram em Niterói, cidade metropolitana do Rio de Janeiro. Como hobbies, adoram jogar cartas, tomar cervejas, comer e sair com os amigos. Inclusive, foi no jogo de cartas (Magic!) que as duas fizeram a amizade se consolidar. Elas se conheceram por conta da UFF, a Universidade Federal Fluminense, estudando juntas a faculdade de Psicologia. O jogo surgiu no meio porque a Júlia soube que a Ana jogava e perguntou se ela podia ensiná-la. Para a Jú é só um jogo, mas a Ana adora, faz diversos amigos e produz até conteúdo na internet! Ela levou a Jú em umas lojas, apresentou os amigos e a Jú, que estava fazendo isso para jogar com o namorado, acabou começando a frequentar vários espaços de jogos diferentes. Elas, com cada vez mais amigos em comum, estavam sempre juntas - e não só na faculdade. A Ana era bastante sacaneada por ter aquela “coisa” (Foi difícil achar um nome para isso aqui, gente! Mas muitas vão se identificar!) de se interessar por mulheres que até então se identificam enquanto heterossexuais… E os amigos viviam brincando dizendo: “Ana, salva a Júlia, traz ela para o lado bissexual dessa vida!!”, mas ela não dava bola para a brincadeira e na época ambas namoravam. Com o passar do tempo e a aproximação aumentando, elas começaram a fazer estágios juntas na faculdade e, foi num trabalho em dupla, que a maior aproximação de fato aconteceu - por conta dos exercícios corporais. Foram experimentos que trouxeram estudos sensacionais para a vida delas, academicamente falando, e que também somaram muito enquanto relação e confiança que elas tinham na amizade. Porém, depois do experimento, era nítido que elas tinham mais carinho entre uma e a outra… Existia uma relação de amizade com bastante afeto. Ambas já tinham terminado seus relacionamentos, se aproximavam cada vez mais e um dia uma das amigas delas comentou sobre um sonho que teve em que as duas estavam juntas enquanto um casal. Elas levaram na brincadeira e depois desse momento começou uma piada interna entre elas e também entre os amigos sobre o possível casal, até que, em um evento do curso, elas se beijaram. A expectativa de que elas poderiam ‘ficar’ já existia, mas ainda era uma sensação estranha para as duas. Brincaram com isso durante tanto tempo e ao mesmo tempo tinham tanto carinho que chegaram a se ver um pouco confusas sobre o que realmente estava acontecendo. E, por um momento, a Ana que “estava decidida a não se envolver novamente e dar um tempo nas relações” já estava totalmente envolvida - enquanto nem sequer terminava de falar essa frase em voz alta. O problema era que, dois dias depois, ela estava embarcando para a Europa com os pais em uma viagem (que duraria um mês) - e a Júlia estava indo para Inhotim com os colegas da faculdade. No mês de viagem, elas se falaram todos os dias. A Ana brinca que estava totalmente entregue, enquanto a Jú dizia que aquele dia em que se beijaram tinha sido apenas “uma experiência”. Mas, assim que ela voltou de viagem, se encontraram no dia seguinte e ela trouxe de presente para a Jú um colar que comprou na Espanha e tinha um fio de ouro, desenhado à mão, com um valor sentimental muito intenso, como o carinho delas. Cerca de um mês depois da volta da Ana e delas estarem ‘juntas’, a mãe da Jú acabou descobrindo e foi um momento bastante delicado, então a Ana a pediu em namoro. Não foi no sentido de pressioná-la, mas ao contrário, para mostrar que não era um sentimento ‘de brincadeira’. Mexer em algo tão delicado como a nossa base familiar envolve muita coragem e precisamos estar dispostas e elas queriam dar as mãos e enfrentar isso juntas. Até hoje, não é nenhum pouco fácil, mas seguem uma luta (literalmente) diária. Pensando em momentos difíceis como esse (e também nos outros, enquanto um casal), a Ana conta que ela é uma pessoa mais explosiva e a Júlia tende a ficar mais quietinha quando está triste, então temos momentos distintos quando a situação em si acontece - e está no ápice - porém, com o tempo e a convivência, a Júlia têm aprendido a acolher muito mais e a Ana têm aprendido a ser mais calma também, então uma está tentando puxar a outra para um equilíbrio. A Júlia explica que quando está chateada com algo tende a ficar mais introspectiva, mas mesmo assim elas se comunicam de alguma forma. E entende que esse é o maior aprendizado de todo o relacionamento, porque quando elas se perguntam: “Queremos passar por isso?” sempre chegam à conclusão de que, sim, querem, porque reconhecem o quanto crescem e o quanto constroem muitas coisas incríveis juntas. Por fim, quando pergunto como elas se sentem vivendo em Niterói, a Júlia conta que gostaria de mudar a realidade dos animais de rua. É algo que realmente mexe muito com ela e que se pudesse e tivesse condições, a primeira coisa que faria seria construir santuário para os bichinhos e medidas protetivas de direitos aos animais e ao meio ambiente. Já a Ana, iria tentar instituir uma política de coletivização na educação, para que as pessoas desenvolvessem maior empatia e convívio social, assim como aprendemos disciplinas como matemática, português, geografia… porém pensando em estruturas sociais e sendo mais coletivos. E, para finalizar, a Jú fez um pedido para utilizar um espacinho aqui e elas comemorarem o aniversário de namoro que completaram no último mês ♥ (surpresa, Anaaa!) (pode chorar, essas duas são boiolas demais!) "Você é o meu presente e nessa data, desse ano, cheio de incertezas e medos por conta dessa pandemia que nunca acaba, você é o meu porto seguro e minha certeza. Hoje, mais uma vez, repito pro mundo e deixo registrado, definitivamente, o quanto te amo. Felicidade para nós, que venham mais anos. ❤" Julia Ana Carolina
- Joyce e Lorrayne | Documentadas
Amor de Casa - Joyce e Lorrayne clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Roberta e Alessandra | Documentadas
Amor de Família - Roberta e Alessandra clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Kelly e Amanda | Documentadas
Amor de Tempos - Kelly e Amanda clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Thati e Larissa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Thati e Larissa, quando o projeto passou por São Paulo! Conheci a Thaty e a Lari no Parque Ibirapuera, em São Paulo, numa tarde de sábado. Estávamos andando, nos apresentando, quando a Lari disse: “Foi aqui que eu caí depois de beijar a Thaty pela primeira vez.” e eu perguntei “Mas caiu, caiu? Ou caiu, tropeçou?” e ela contou que caiu, mesmo, se ralou e teve que fazer curativos. Na hora, pensei: ok, quero muito ouvir essa história. Mas não vou começar por ela porque o começo se começa pelo começo, e, nesse caso, demorou um pouquinho até o beijo (e a queda no parque) acontecerem. A Thatiely e a Larissa trabalhavam juntas na TV Cultura, mas em horários diferentes. Elas se encontravam de vez em quando, a Thaty era estagiária de jornalismo e a Lari já estava lá há mais tempo. Na versão da Thaty, ela conta o quanto nunca tinha se visto numa relação com uma mulher porque vinha de uma cultura muito hétero (e especificamente “hétero top”), além de que naquele momento estava priorizando o estar-sozinha, por ter passado por um relacionamento bastante difícil do qual saiu bem machucada. O período que passou sozinha foi muito importante para aprender o que aprendeu e também para ver as coisas sob um novo olhar. Eis que, nesse meio tempo, ela encontrava a Larissa e sempre chamava atenção, por usar turbantes bonitos e brincos grandes, nas suas palavras: “É uma pessoa que chama atenção”, mas o olhar da Thaty para ela mesma, até então, não era o de ficar com uma mulher a ponto de ter um relacionamento… ou, pelo menos, ela não estava colocando nenhum rótulo na sexualidade - beijou mulheres em bares e foi entendendo o processo, se aceitando, afinal, foram 25 anos vivendo sob outro olhar e outra cultura, entender a bissexualidade era um tempo novo. Era janeiro e a Thaty trabalhou em um sábado - dia que ficavam pouquíssimas pessoas trabalhando, entre elas, a Larissa. Elas conversaram e surgiu o interesse, mas não sabia se era uma amizade ou uma paquera. Até que se adicionaram no Instagram, trocaram reações e quando chegou o carnaval elas tiveram a oportunidade de ir juntas num bloquinho com os amigos do trabalho. A Lari estava vivendo o momento dela sendo solteira no carnaval, ela conta que só se relacionou com mulheres na vida e foram poucas pessoas, então tinha recém saído de um relacionamento longo também, queria aproveitar o momento. A Thaty brinca que ficava não só observando, mas também se questionando, porque nunca tinha chego em ninguém. Na realidade heteronormativa em que ela estava inserida o costume era que os homens tomassem as iniciativas de chegarem até as mulheres, então ela não sabia como dar o primeiro passo com a Lari. Uma amiga até ofereceu ajuda, mas ela não quis, decidiu chegar lá e falar, mas na hora a Lari nem ouviu o que ela tinha pra dizer, as duas se beijaram logo. ♥ Porém, era um beijo de carnaval, né? No meio de um bloco acontecendo. Nesse mesmo dia elas beijaram outras pessoas - e por mais que a Lari em um momento tenha pego na mão da Thaty ela ainda brincou com um “Não me ilude, não!!”. Foi nessa hora que veio ele: o tombo. A Lari caiu porque estava muito bêbada e apostou corrida com uma amiga. Coisas de carnaval, né?! A Thati estava plena, disse que tinha um curativo e pediu pra eu escolher um machucado pra colocar, ou seja, eram vários. A Lari pedia: “Cuida de mim”, pra Thaty. E de alguma forma, deu certo o cuidado. Logo depois do carnaval a Thaty entrou de férias porque a melhor amiga dela estava tendo um neném e ela queria ajudar nos primeiros dias pós parto. Foram 15 dias sem ir trabalhar e, nesses dias, a Lari passou a trabalhar de manhã, no mesmo horário que ela trabalhava. Quando voltou das férias elas estavam sentadas numa mesa lado a lado, e por mais que isso inicialmente tenha despertado uma esperança, aos poucos foi fechando porque a Lari é uma pessoa bastante séria no trabalho. A Thaty justifica dizendo que a seriedade vem dela ser de capricórnio, porque leva o trabalho com muita lealdade, ficando muito fechada. Mas, como ela é mais tranquila, acabava conseguindo puxar alguns papos e distrair, então elas conversavam um pouco ali e continuavam a falar também pelo Instagram - além disso, todos os colegas incentivavam e apoiavam o casal que parecia surgir. Ainda sobre trabalhos, a Lari, no momento da documentação, possui 25 anos e é natural de São Paulo, ela trabalha como roteirista de audiodescrição, além de dar aulas de espanhol e fazer trabalhos com surdos e cegos. No cotidiano, também estuda para sua meta de vida, que é prestar mestrado em literatura (e, inclusive, dá aulas de literatura também em um cursinho pré-vestibular: o Maria Carolina de Jesus, que fica na capital). Já a Thaty, no momento da documentação estava com 26 anos, é natural de uma cidade chamada São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Thaty trabalha com marketing e experiência/expectativa do cliente em uma startup de alimentos e também dá aulas no cursinho pré-vestibular, porém de Redação. Atualmente, ela cursa Letras na Unifesp, mas já cursou jornalismo e odontologia em outros momentos. Por mais que ela acredite no poder da comunicação e usa muito isso nas suas aulas, não vê mais o jornalismo como uma profissão para si - pois entende que é muito difícil trabalhar com o jornalismo de fato. Sobre a odontologia, ela ainda pensa em voltar (e a Lari incentiva) - por mais que saiba do cansaço que envolve a rotina - acredita que é algo que vale a pena e que vai trazer muito orgulho à família também. Além disso, complementa que um dos motivos para voltar é que o conhecimento é algo que ninguém tira de nós. Foi com essa desculpa de muitos trabalhos e correrias que a Thaty resolveu pedir o Whatsapp da Lari para um projeto de audiodescrição. Por lá, durante a conversa, a Lari a convidou para o aniversário de um amigo em comum e novamente elas se encontraram, mas não ficaram juntas. Logo em seguida, a pandemia começou. E elas passaram todo esse momento inicial pandêmico conversando pelo Whatsapp e adaptando o trabalho para home office. Começaram com ligações à noite, o contato realmente aumentou até que a Lari foi até a casa da Thaty… e assim começaram uma relação que durava o período de se ver quinzenalmente. Até decidirem estar em um namoro, houve uma série de conversas sobre o que elas sentiam sobre isso, visto que a Thaty considerava que o período solteira após terminar uma relação era muito necessário para a pessoa se entender enquanto indivíduo, nos seus problemas íntimos. A Lari, por outro lado, queria viver de fato o romance, se entregar mais e se envolver. Rolou até aquela situação de confundir o ‘tchau’ com o ‘teamo’ e não entender o que está acontecendo de verdade entre elas. Mas foram se encaixando e conversando até chegar no ponto em que estaria tudo um pouco mais equilibrado… e então a Thaty foi apresentada para a família. Ao mesmo tempo que ser apresentada para a família da Lari era um ponto, para a Thaty, envolver a família, era outra questão. A família dela não fazia a menor existência da possibilidade dela se relacionar com uma mulher - e enquanto não acordassem que isso era um relacionamento, ela não sentia a necessidade de contar. Até o momento em que virou um namoro, e aí entenderam que esse passo deveria ser tomado. A primeira questão foi a mãe reagir como uma fase. Entendemos que é um processo familiar e que muitas pessoas passam por isso, que esse processo foi respeitoso sobre o que a filha sentia, mas que houve um certo afastamento - até certo ponto natural para o entendimento de cada uma com seus pensamentos. Contar para o pai que foi mais difícil, pois o passo teve que surgir de outra pessoa e a conversa não aconteceu de fato. Ela conta que, no fim, o processo não é tão doloroso por já não conviverem tanto presencialmente, já que mora em São Paulo há alguns anos. A única coisa que deseja - e luta - é por respeito, e por isso também respeita os processos familiares. Hoje em dia, a mãe dela já trata a Lari com bastante carinho, o que mostra que as coisas precisam de um tempo, e a mãe dela até brinca que as duas já estão se casando, com naturalidade. A família da Lari passou por outro processo, visto que é uma família que está mais próxima do relacionamento das duas e que sempre manteve a Lari muito perto. Desde mais nova eles sabem da sexualidade dela e não foi de uma forma fácil, pelo contrário: foi muito mais abrupta. Mas, também, foram processos. Ela falou algumas vezes na conversa a frase: “A educação me salvou.”, referindo-se à faculdade como um processo de libertação. No processo do relacionamento elas já passaram por muitas coisas, entre tentativas de morarem nos fundos da casa dos pais da Lari, até uma maturidade e um crescimento muito rápido das duas juntas nos primeiros meses de relação. Aprenderam a ter mais cuidado com os outros, não só em relação à empatia, mas em relação ao cuidado com quem se envolve, pois tinham suas energias rapidamente sugadas. Aprenderam a acreditar e ter mais fé na religião, no que está em volta e a serem mais elas por elas, juntas. Hoje em dia morar na mesma casa não significa casar. E casar, principalmente para a Thaty, tem um peso gigantesco. Ela sempre quis casar. Quis e idealizou a vida toda casar com um homem, naqueles moldes que conhecemos, mas hoje está feliz com uma mulher. “Eu quero casar com uma mulher. Quero fazer festa, convidar pessoas que gostamos. Quero viver esse momento, sempre sonhei com esse momento e quero viver isso com ela.” Elas falam sobre a naturalidade do relacionamento que possuem e que querem refletir isso no casamento, mesmo sendo socialmente tratadas diferentes, sabem que o amor que sentem é puro e natural. Por mais que existam idealizações no amor, a Thaty entende que tinha muita referência no amor que via em casa, entre os pais, pois eram muito cúmplices e amigos. Até hoje entende que o amor está na parceria e no cuidado, não nos grandes feitos: o amor é todo o dia. “O amor tá quando minha mãe manda o remédio pra Larissa quando ela tá gripada.” Hoje o relacionamento da Lari e da Thaty representa algo que elas conquistaram juntas, o melhor que elas puderam ser. Isso não quer dizer que não existam uma série de questões individuais próprias, de problemas a enfrentar ou de vida a acontecer, mas que o que era antes uma batalha solitária hoje em dia é uma força conjunta. A Lari conta sobre um livro do qual ela sentiu uma conexão muito forte, o “Amares”, do Eduardo Galeano, em que são crônicas sobre tudo que ele ama - e tudo que ele ama é literatura. Já estava tudo escrito de outros livros, ele só organizou. São várias esferas de amor. Ela fala, também, sobre o quanto encontrou o amor na religião e o quanto isso é importante para o entendimento dela enquanto pessoa: “Eu agradeço muito a Oxum e Oxalá que são os dois orixás que regem a cabeça dela (Thaty), pela vida dela e espero que muitas mulheres possam encontrar outro amor assim. Não só amor romântico, mas amor no geral porque eu acredito que o amor entre duas mulheres pode transformar a vida uma da outra porque tenho certeza que esse me transformou. Eu me sinto livre. Todos os dias eu quero fazer uma coisa nova e ela tá sempre me incentivando. Eu me sinto forte.”. Larissa Thatiely
- Luiza e Mariah
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luiza e Mariah, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Luiza Mariah
- Beanca e Ana Carolina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beanca e Ana Carolina, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Ao decorrer da história da Carol e da Beanca você entende que elas terem se conhecido, era no mínimo, muito necessário. Carol procurava uma pessoa que vivesse a vida de forma diferente da dela, que fosse mais calma, circulasse em outros espaços. Enquanto a Beanca procurava alguém que vivesse na área da saúde e que construísse a vida de forma mais dinâmica, tendo uma rotina. Assim aconteceu: a Beanca chegou na vida da Carol trazendo muita leveza, amigos novos, bagagem cultural, pé no chão… enquanto a Carol trouxe uma carga de conhecimento gigantesca, uma nova realidade, iniciativas e muito carinho. Enquanto Carol conta tudo o que precisou fazer até que elas conseguissem se beijar ou começar o relacionamento, Beanca olha para ela e ri, tímida, depois diz “que bom que essa iniciativa ela tomou”. Carolina tem 36 anos, é enfermeira chefe em um hospital público. Beanca tem 38 anos, é formada em jornalismo, trabalhou com assessoria de imprensa e comunicação durante anos, mas largou tudo para seguir seu sonho: fazer odontologia. Por mais que tenha feito muitos trabalhos legais na comunicação (e cita Esconderijo, a websérie LGBT, da qual participou da produção na segunda temporada), não se via mais no mercado, sentia tudo muito saturado. Foi aí que resolveu se dedicar ao seu sonho e hoje em dia, além da faculdade, ocupa boa parte do tempo fazendo diversos cursos especializantes. Quando as duas se conheceram - pelo Happn, Carol logo de cara achou ela interessante pelo fato de ser jornalista… e Be queria muito conhecer alguém da área da saúde, já que estava entrando no mundo da odontologia. Pra quem não sabe, o happn funciona mostrando pessoas que passam fisicamente perto de você em algum caminho durante o dia. Elas se esbarraram algumas vezes, mesmo que morressem em lugares bem distantes, pelo motivo da Beanca morar próximo ao hospital onde o padrasto da Carol estava internado. Quando elas se encontraram pela primeira vez, Carol estava passando por um momento bem difícil. Estava muito triste, queria sair um pouco da realidade dela e conhecer pessoas novas, conversar sobre novos assuntos, ter alguém que ajudasse a colocar uma calmaria no turbilhão de sentimentos que estava sentindo. Beanca chegou trazendo tudo isso e introduziu a Carol no seu grupo de amigas, que são pessoas mais voltadas à arte e que falam sobre todos os tipos de assunto - de cinema, política, fotografia, música… coisas que não fossem só voltadas à saúde. “Pra mim, foi muito importante esse contato com pessoas alegres. Era o que eu precisava. Me sentir animada de novo”. Pouco tempo depois rolou o pedido de namoro. Carol comenta que toda mulher é muito intensa e pecamos em romantizar demais isso. Antes de pensar em namorar, ela passou por um relacionamento bastante abusivo (forte e intenso), então a Be significava ser muito mais vida real, mais tranquila, numa frequência melhor. O amor veio com o tempo, quando elas deixaram a paixão se transformar. “Dar tempo ao tempo não significa ser uma tarefa fácil”. Elas já passaram por diversos momentos difíceis no relacionamento - chegaram a ser diagnosticadas com depressão durante um período e optaram pelo afastamento para conseguirem tratar. Quando entenderam que já estavam num quadro melhor e perceberam que não queriam perder uma a outra, decidiram voltar, já tendo uma mentalidade diferente sobre o relacionamento. Hoje em dia, estão sempre conversando sobre tudo. A pandemia também ensinou que não adianta você se esforçar ao máximo para atingir um nível de coisa que não vai existir, ou seja, um relacionamento sem erros, romantizado demais. Pelo contrário, a pandemia mostra que não precisamos ter controle de tudo, que a vida é um sopro e que devemos usar a energia com algo que realmente valesse a pena, como o cultivo e cuidado diário do relacionamento. Devido ao momento de pandemia que vivemos e à importância da profissão da Carolina enquanto enfermeira chefe, decidi perguntar sobre como está sendo a experiência difícil de estar na linha de frente contra o COVID-19. “É muito complicado” - foi a primeira frase que Carol disse. Toda a equipe de enfermagem saiu com alguma sequela, principalmente psíquica. Você pode ter muita ou pouca experiência, ser mais velho ou mais jovem, todos sairão da pandemia muito diferentes. É muito difícil até hoje pensar em quantos amigos ela perdeu, quantas pessoas desesperadas sabendo que morreriam entubadas ela viu. Dar as notícias, emprestar o próprio celular para as pessoas se despedirem da família por vídeo, entender que o vírus é um inimigo invisível… foi tudo muito chocante. A sensação é de que ninguém vai sair ileso, os profissionais dentro das equipes começaram a mudar muito rápido, tanto para melhor, quanto para pior. O corpo dói, a mente dói, existe muita tensão e muito medo de levar para a família, preconceito das pessoas não quererem estar por perto… Ela diz que toda vez que precisa correr para conseguir o último remédio ou o último cilindro, entende que a vida passa muito rápido. Precisamos pensar também na importância da profissão. Por mais que médicos tenham um papel muito importante no hospital, quem está na linha de frente mesmo, correndo, atendendo e cuidando são os enfermeiros. Hoje em dia o descaso com a saúde pública no Brasil é gigantesco, principalmente no Rio de Janeiro, e é resultado também de diversas gestões que não tratam a saúde com devido respeito, destinando poucas medidas efetivas e recursos necessários. Por fim, Carol comentou também o quanto eles envelheceram, o quanto estão cansados e o quanto foi difícil perder amigos e familiares, vendo eles morrerem completamente sozinhos. O COVID é uma doença muito cruel que não escolhe entre uma pessoa ou outra. Quando você vê, já era. Surge novamente a frase na conversa: a vida é um sopro. Quando perguntei sobre como foi a sensação de ter tomado a vacina, o tom da voz mudou completamente: alívio. Disse que abraçou muito uma colega de profissão, que chorou e que entendeu que isso, em algum momento, vai passar. “Poder voltar a abraçar as pessoas é muito surreal”. Beanca sente que o amor entre mulheres é muito mais cuidadoso, íntimo e que as mulheres se entendem mais. Carol acha mais fácil se relacionar com outra mulher do que com homem, levando em consideração que relacionamentos em si não são coisas fáceis. No fim, chegam à conclusão de que não sentem vontade de se relacionar com homens porque falta companheirismo - o que há muito na relação delas. Se uma cozinha, a outra limpa. Não ficam fazendo algo no sentido de “servir”, como vemos em diversos relacionamentos heterossexuais, mas fazem no sentido de construir juntas, fazer juntas. “Quando eu faço a janta é porque eu quero fazer, esperar ela chegar para comermos bem. Não faço porque sou obrigada a fazer e deixar um prato na mesa pronto esperando ‘o marido chegar do trabalho'''. A coisa que mais gostam de fazer está entre: reunir os amigos (sendo anfitriãs, recebendo eles em casa), estar com suas famílias e viajar estilo bate-e-volta para alguns lugares (a casa em Teresópolis, regiões do interior do Rio de Janeiro, etc). Quando falamos sobre a cidade, elas contam o quanto nossa visibilidade melhorou muito, já que quando se assumiram, há uns 20 anos atrás, a coisa era bastante diferente. Naquela época uma mulher só poderia amar outra se estivesse em guetos, escondidas, suburbanas. Eram lugares horríveis, submundos, não eram restaurantes e festas legais. Carol lembra muito de ter que se esconder para viver um amor e sobre não falarem abertamente sobre homossexualidade. Até mesmo para ela foi difícil entender. Achava que só podia ser lésbica quem se vestia de forma estereotipamente masculina… e só entendeu que não era bem assim quando viu uma mulher bastante feminina beijando outra (e isso fez com que ela se entendesse também). Além disso, conta que foi nos grupos do UOL/BOL e no ICQ que ela pode conhecer outras pessoas LGBTs e assim se encontrar - em shoppings, em guetos. Para a Be foi mais difícil a questão de se aceitar. Já tinha uma referência de LGBT na família, então lidava com isso tranquilamente. Mas internamente só conseguiu se assumir quando formou um grupo de amigas que também se sentiram assim e decidiram que se assumiriam juntas. Hoje em dia ficam felizes quando veem o quanto está sendo falado sobre LGBTs - na mídia, nos espaços de convívio e na política. Acreditam que cada relação se constrói aos poucos e que precisamos falar quem nós somos, amar de verdade, para que a luta siga avançando. < Beanca Carol
- Mari e Fabi | Documentadas
No encontro de almas que resume a relação da Fabi e da Mari elas contam sobre como é a experiência de viverem um cotidiano completamente novo. Fabíola vivia um casamento antes de conhecer a Mari e, este, era nos moldes mais tradicionais possível. Ela se sentia vivendo numa bolha, dificilmente saía de casa e via a cidade acontecendo, não costumava conhecer pessoas novas… Mari, por mais que fosse uma mulher solteira e tivesse maior vivência, também não estava saindo há muito tempo, sua rotina era trabalho > casa. Agora, todo final de semana saem juntas, descobrem festas, festivais de música, conhecem pessoas, fazem amigos e/ou desfrutam da qualidade de saírem só as duas, sendo suas próprias companhias. Fazem coisas que nunca se imaginaram fazendo antes e comemoram: são muitas descobertas. Foi em Caraíva que o Mari pediu Fabi em casamento, num lugar que ela sempre sonhou em estar. Mari vivia trabalhando, ganhando dinheiro e guardando. Depois que conheceu a Fabi começaram a se movimentar e agora sente que trabalha para conseguir viver tudo o que desejam. Refletem que em “situações normais” nunca teriam se conhecido, justamente por estarem em suas bolhas e pouco saírem de casa. Além disso, sempre frequentaram lugares opostos. Hoje em dia, Fabi apresentou os pagodes pra Mari, que já adora frequentar as “tardezinhas”, enquanto Mari leva Fabi nas festas de pop-rock. E acreditam que o encontro é para além de compartilhar gostos, conseguem enxergar o quanto se ajudam no empoderamento dos corpos, da autoestima, de se olhar de forma diferente, de se valorizarem e de entenderem as importâncias que possuem uma na vida da outra. Se sentem amadas de verdade. Foi em um dia completamente aleatório, no começo de 2021, que Fabíola estava em casa e decidiu baixar um aplicativo de relacionamentos para conhecer uma mulher. Estava ela e o marido sentados no sofá, cada um em um canto, cada um olhando para a tela, em seus mundos e apareceu uma publicidade para ela. Era um aplicativo específico de mulheres para mulheres. Ela baixou. Nunca tinha se interessado por uma mulher, nem relacionado, nem pensado em beijar. Nada. Baixou nem que fosse para fazer amizade. Neste aplicativo conheceu uma menina, o papo desenrolou e saiu com ela. Teve até um primeiro beijo. Mas era uma mulher que estava numa situação semelhante, se via enquanto heterossexual, tinha filhos, família e não tinha como nada acontecer ali. Resolveu desinstalar o aplicativo. Achou outro aplicativo, também voltado para mulheres, e resolveu tentar. Fabíola reside em Campo Grande, bairro da zona oeste carioca conhecido por ser extenso, populoso e bastante distante da região central. Tentou não colocar um raio de distância muito grande e, mesmo não estando tão próximo, a Mari apareceu. Fabi sempre criou uma percepção de que sua presença naquele aplicativo era uma aventura. Não falava sobre isso no casamento, até porque não havia mais diálogo. Ela realmente buscava uma fuga e sentia que ali existia. Quando começou a conversar com a Mari, deixou explícito sua vontade de ter algo casual e extraconjugal e a Mari não aprovou muito a ideia, mas já estavam conversando e tinham marcado o primeiro encontro, seguiram em frente. Mari perguntou se a Fabi sabia de algum bar LGBT+ para elas se encontrarem e era óbvio que a resposta seria negativa, então foi atrás de algum lugar em Campo Grande. Conseguiu um bar, foi até lá e se encontraram. Antes de chegar, estavam ansiosas, com as mãos suando, tímidas. Conversaram e quando o primeiro beijo aconteceu foi um misto de “lascou!” com “meu deus, o que foi isso?”. Fabíola conta que o encontro foi numa sexta à noite… e diz: “Como você é casada, sai numa sexta à noite, num casamento em crise e volta de madrugada? O que você fala?”. A ideia não se sustentou. No segundo encontro marcado, ela chegou dizendo: “Vou me separar”. Decidiram enfrentar juntas a separação e tudo o que viria com isso. Parecia que se conheciam e que estavam se relacionando há muito mais tempo, pela naturalidade que lidavam e pela forma que se apoiavam, mas a verdade é que não foi nenhum pouco fácil. A Fabi foi criada na igreja católica, sempre gostou disso, sempre fez questão de fazer parte, tanto que conheceu o ex companheiro nessas circunstâncias, se casou na igreja e teve um relacionamento longo, nos moldes que ela acreditava, se dedicando e acreditando. Então se questionava muito sobre como acabar com algo que você depositou tanto e por tanto tempo se sentiu bem? Entende que essa foi a decisão mais difícil que já precisou tomar. Sempre sentiu muito carinho por tudo o que foi construído e pelo o que viveu. Mas parte do entendimento para que essa decisão fosse tomada era a própria compreensão de que não cabia mais naquele espaço. Precisava seguir novos rumos para ser feliz. Para a Mari, também era muito difícil porque existia o medo constante, a sensação de acordar todos os dias e pensar “e se ela desistir de tudo e voltar para o casamento?” - e essa pressão existia, era real, isso poderia ter acontecido. Tudo foi seguindo seu fluxo muito rápido. A família da Fabi estava passando por uma questão bastante delicada por conta da mãe dela estar vivenciando um problema de saúde difícil e ela tentou ao máximo evitar falar sobre o divórcio para não trazer mais problemas, mas não teve como, era nítido que ela não estava bem no casamento e precisavam conversar sobre. Para isso, teve o apoio incondicional da irmã, até a poeira baixar. É importante considerar que no começo da relação a Fabi ainda morava com o ex companheiro, então tudo se torna ainda mais delicado, tanto pela pressão que existia para que o casamento não terminasse, quanto por considerar que também não foi um momento fácil para ele. Fabi conta que a mãe dela percebia que o casamento não ia bem porque todo domingo ela passava o dia na casa da mãe, sempre arranjava uma maneira de sair de casa dizendo que “não tinha o que fazer”. Não era algo que empolgava os momentos com o companheiro e a mãe percebia aos poucos. O medo maior ao contar sobre o divórcio para a mãe era principalmente contar sobre a nova relação, porque sua mãe sofreu um abuso quando era mais nova e foi uma mulher quem abusou, então ela criou uma aversão aos relacionamentos por duas mulheres. Quando contou, a mãe teve uma reação muito diferente do esperado, a abraçou e disse que sempre ia amar, não iria deixar de aceitar e respeitar. Na prática, a convivência foi aos poucos, mas no último natal, por exemplo, a família da Mari e da Fabi se reuniram em uma única festa. A mãe da Mari, em compensação, achava que essa história era o maior golpe. Que a Fabi nunca iria se divorciar (afinal, muitas histórias são assim mesmo!). Mas depois viu que deu tudo certo e apoiou. Hoje em dia segue enquanto fã do casal. Mariana, no momento da documentação, estava com 37 anos. Ela é natural do Rio de Janeiro, moradora de Vargem Pequena, subúrbio carioca. Trabalha enquanto gerente de hotel em Copacabana e é formada em Línguas Estrangeiras Aplicadas à Relações Internacionais. Fabiola, no momento da documentação, estava com 32 anos. Também é natural do Rio de Janeiro, moradora de Campo Grande, zona oeste da cidade. Trabalha com administração e marketing digital direcionado para empresas. Neste ano, pretendem morar juntas, quem sabe em algum lugar mais acessível, perto do trabalho e da região boêmia que elas tanto amam. Além disso, já possuem a lista de próximos festivais musicais que pretendem ir, se divertir e se redescobrir - quando nos encontramos haviam acabado de voltar do Festival de Verão de Salvador e completam “a gente já voltou pensando qual será o próximo”. ↓ rolar para baixo ↓ Mariana Fabiola
- Beatriz e Karol | Documentadas
Amor de Webnamoro - Beatriz e Karol clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Pamela e Gabriela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Pamela e Gabriela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi num parque em meio à área florestal do Grajaú, no Rio de Janeiro, que encontrei Pamela, Gabi e Kauan. Ele completamente sorridente, com seus 5 meses de idade. Começamos a conversa com elas contando o quanto amam viajar. Sempre planejaram viagens e agora, depois de ter feito a primeira viagem breve com o Kauan, anseiam o primeiro andar de avião nas próximas semanas. Pamela explica como esse primeiro momento da maternidade não é fácil, por mais que tenha essa viagem que traga felicidade, a vida real demanda muito, envolve cansaço e esforço das duas, mas que mesmo nessas circunstâncias conseguem sentir as coisas leves porque sempre relembram o quanto sonharam com isso e o verdadeiro motivo de viverem tudo: resgatam o amor para o dia a dia. Entendem que o amor é muito político, principalmente na criação do Kauan. Citam os olhares, as burocracias que viveram e questões mais ‘invisíveis’, como o quanto pensavam sobre política muito antes de saber se era um menino ou uma menina que iria nascer. Gabi explica que se fosse menina, queriam criar uma menina forte, corajosa, que tivesse consciência do machismo, etc. Sendo menino, mudava de forte para sensível; Queriam a consciência e a coragem, mas ensinando que pode demonstrar sentimentos, chorar, ser gentil. Conta, também, sobre um dia que estavam numa padaria e um desconhecido brincou com ele e comentou: “Esse é macho, tem cara de macho!” e ela disse “Não… Ele é um bebê” e completa que não tem que ter cara alguma, além da cara de um bebê. Foi em 2015 que elas se esbarraram pela primeira vez, numa festa durante o carnaval. Pamela tinha saído com um amigo, estava recém solteira e perguntou se o amigo tinha alguém para apresentar. Ele apresentou a Gabi e elas se beijaram na noite, mas não conversaram, nem trocaram mensagens depois. Em 2017, se encontraram novamente no carnaval, de forma aleatória num bloco e com os mesmos amigos em comum. Perguntaram se estavam solteiras e ficaram. Isso já era de madrugada, estavam bêbadas e depois de terem ficado, a Gabi simplesmente comentou com o amigo: “Sabe quem eu queria encontrar?! A Pamela”. Ele ficou sem entender nada: “Ué?? Mas você acabou de ficar com ela!”. E ela não lembrava. Se esbarraram de novo, beijaram de novo, e o amigo chegou dizendo “E aí, Gabi, agora foi, né?”. Quando ela respondeu: “Não?! Não vi a Pamela”. Achavam que era alguma brincadeira dela, mas entenderam que ela realmente não estava relacionando/lembrando. Então combinaram: se elas se beijassem de novo, iriam fotografar. E assim foi. Depois do carnaval, ambas tiveram breves relações e no meio do ano estavam novamente solteiras, então começaram a se falar pelas redes sociais. Decidiram ter um encontro, a Pamela decidiu que não podia envolver álcool, porque queria ser lembrada, então chamou Gabi para ir ao cinema. Acabaram chegando cedo e só tinha o filme dos Minions para assistir, toparam mesmo assim e sentem que aquele dia foi o começo de tudo. Começaram a conversar, ficaram juntas mesmo. Nos próximos dias que seguiram desde o primeiro encontro, já entendiam que queriam namorar. Fizeram a primeira viagem e lá Gabi comprou uma aliança, na pracinha da cidade, e deu para a Pamela selando o início do namoro. O primeiro ano não foi fácil, contam que foi um ano de “ajustes”. Tinham muitas conversas para se entender, também não havia muita estrutura, ainda estavam na faculdade… Foi depois de completarem um ano que decidiram morar juntas, em Caxias, por ser mais acessível financeiramente. Sempre falaram sobre casar e ter filhos, então começaram uma conta poupança juntas, entendendo o quanto isso demandava, e os planos foram se concretizando. Em 2019 casaram, fazendo uma festa para amigos e familiares. Em seguida, se mudaram para um novo apartamento, entre o centro e a zona sul do Rio de Janeiro. Durante a pandemia o apartamento se tornou pequeno para o que desejavam. Ainda mais passando o dia todo em casa, se sentiam enclausuradas, sem tanta luz solar. Sendo assim, em 2021 conseguiram um novo lar, dessa vez na Tijuca, e lá a vinda do Kauan começou a ser planejada. Começaram com a bateria de exames, depois a primeira tentativa que já deu certo. Pamela gerou, Kauan nasceu em abril de 2023. Gabriela estava com 31 anos no momento da documentação, é natural do Rio de Janeiro e, mesmo tendo a formação em Engenharia Química, migrou de área e hoje atua enquanto Product Manager. Pamela, com 33 anos no momento da documentação, é natural de Duque de Caxias, baixada fluminense. Também formada em Engenharia Química, não atua na área, trabalha enquanto analista de negócios. Gabi conta que desde pequena sempre quis ter um filho com o nome Kauan. Falava isso tanto que, quando a mãe engravidou, perguntou se ela queria dar esse nome ao irmão e ela respondeu que não, Kauan seria o nome do filho dela. Quando deu essa ideia para a Pamela, ela adorou, principalmente pela escrita do nome. São duas mulheres muito diferentes: Gabi, por exemplo, passou o processo de gravidez todo chorando (seja por felicidade, medo, ansiedade…), enquanto Pam internalizou tudo e segurou a barra, foi muito racional, só chorou quando deu certo. Entendem que no dia a dia o exercício é fazer Pamela lidar com as emoções, se comunicar, falar o que sente. Gabi instiga a comunicação, sempre procura conversar. Para Gabi, o amor é muito mutável perante os períodos que as pessoas estão vivendo. Quando começaram a namorar, por exemplo, sabiam que se amavam e por mais que em muitos momentos estivesse sendo difícil se entender, o amor estava ali e queriam continuar juntas, por isso seguiam em frente. Hoje em dia é diferente, já passaram por questões difíceis no emprego, na família… e continuam juntas, se sentem fortalecidas. Vê muita parceria na forma que elas constroem a relação e a educação do Kauan. Atualmente, fazem parte de um grupo de dupla maternidade no Rio de Janeiro e querem muito que o Kauan viva com crianças da mesma configuração familiar que ele. Buscam o tempo todo espaços inclusivos, desde o grupo, até escolas que não tenham o dia das mães-dia dos pais, mas o dia da família. Pamela fala sobre todas as crianças, as tantas que vivem sem pais, por exemplo, e como esses dias podem se tornar algo ruim. Não queria ver o Kauan crescendo com esse sentimento, portanto, querem sempre propor algo melhor - e que elas não tiveram, na sua infância, como escolher. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Pamela
