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Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

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294 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Natasha e Jéssica

    Por mais que a história da Jéssica e da Natasha só tenha virado um registro no Documentadas depois de 6 meses de projeto no ar, ela chegou aqui lá no começo, antes mesmo de nos conhecermos, logo na segunda vez em que coloquei o corpo na rua e me dediquei a fotografar um casal: Quando a Rebecca e a Priscila, duas mulheres que já apareceram por aqui, me contaram empolgadas que havia uma história que eu precisava conhecer. Eu ouvi um “É tipo aquelas histórias de mulheres que tão juntas há muito tempo! Que a vida deu várias voltas. Elas se reencontraram e agora ela se mudou para Porto Alegre e se casou nesse reencontro! É a minha prima! Vou te passar o contato dela!” e bem que pensei “É possível! Eu vou passar por Porto Alegre em breve.” Quando encontrei a Natasha e a Jéssica em Porto Alegre e conheci toda a grandiosidade da história entendi que as mulheres realmente fazem tudo - e que a vida sempre dá uma forcinha quando quer nos juntar, né? A Natasha e a Jéssica se conheceram há muitos anos atrás, por conta de uma amiga em comum, quando eram adolescentes. A Jéssica é natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e a Natasha é natural do Rio de Janeiro, a capital. Ambas conversavam pela internet e participavam de comunidades no Orkut sobre gostos em comum, entre eles, uma série chamada Buffy. O que tinha de mais especial que unia a série é que elas já gostavam muito, até que em certo momento a série virou uma febre e aconteceu o surgimento de um casal LGBT, sendo uma referência muito grande para diversas adolescentes daquela época. Foi por conta desse casal, da série e das comunidades no Orkut e dos grupos no MSN que a Jéssica e a Natasha realmente se aproximaram, mas a Jéssica tinha uma visão de que a Natasha era meio “doidinha”... ela chegava das festas de madrugada e ficava online, era muito agitada… enquanto a Jéssica era mais tímida e mais quieta. A Jéssica se envolveu com uma amiga em comum da Natasha, um tempo depois elas terminaram e, como ela conversava muito com a Natasha, surgiu o convite de conhecer o Rio de Janeiro. Elas eram super jovens, tinham 18 anos e ela decidiu ir passar as férias por lá. Assim que se encontraram no aeroporto entenderam que havia algo diferente e, no fim das férias, já estavam namorando. Naquela época, sem a existência dos sinais de wi-fi ou internet móvel, o que restavam eram as contas de telefone - por sinal, caríssimas. Então acabaram assumindo o relacionamento à distância quando a Jéssica voltou até Porto Alegre e se encontravam cerca de três em três meses, dependendo das circunstâncias. Até 2009 o namoro aconteceu nessa distância, quando os pais da Natasha se mudaram para o interior fluminense e a Jéssica decidiu morar no Rio de Janeiro. Foi uma realidade bem diferente. Elas dividiram o apartamento, porém entendem que eram muito jovens, tinham 19/20 anos, eram bastante imaturas, trabalhavam como estagiárias, queriam ser independentes mas na verdade ganhavam pouco e os pais eram quem bancavam as contas da casa. Elas também construíam uma relação com bastante ciúme, então criavam desgastes e atritos que acabavam gerando desconfiança, era muito difícil suportar. Foi quando a Jéssica começou a se sentir sem liberdade dentro do relacionamento e entendeu que era o momento do término e voltou a morar em Porto Alegre. Hoje em dia, a Jéssica e a Natasha estão com 33 anos. Jéssica trabalha como administradora e logística na parte de planejamento de produção em uma empresa de laticínios e Natasha é formada em gestão financeira, mas atua na área de planejamento e controle orçamentário. Elas brincam que não são o tipo de casal que gosta de ficar em casa dormindo, mas aquele que ama viajar. Que cria roteiros, que quer comprar um carro e andar pelo mundo! Elas gostam de se movimentar, de conhecer lugares, desbravar a alimentação local, conhecer as culturas e viver cada lugar, cada ambiente e cada espaço como uma experiência única. Em um momento da conversa elas me contaram sobre se permitirem sonhar e sobre uma situação que viveram juntas quando eram mais novas… e que esse sonho não precisava ser um sonho grandioso, mas se permitir pensar no futuro, mesmo. A situação era um show da Ana Carolina que foram quando moravam juntas no Rio e que estavam naquela primeira fase do namoro, sendo bem jovens e se conhecendo… Contam que viram vários casais de mulheres mais velhas, elegantes, bem sucedidas e se perguntaram “Será que um dia vamos ser assim?” e que hoje em dia são. Além de se reconhecerem e de reconhecerem o quanto conquistaram juntas, falam sobre ter sido a primeira vez que viram mulheres lésbicas bem sucedidas, lésbicas mais velhas se amando. “Foi muito marcante porque era muito longe de nós essa realidade”. Depois do término, quando a Jéssica já estava em Porto Alegre, elas mantiveram contato e até tentaram voltar e seguir o relacionamento à distância. Durou alguns meses, mas acabaram terminando de vez, em comum acordo. Este foi o terceiro e último término (o primeiro foi lá no começo, por iniciativa da Natasha)... e dessa vez, como última, parecia ser definitivo. Ficaram 5 anos separadas. Viveram a vida, seguiram amigas, tiveram outro relacionamento, ou melhor, casamentos (!) e tal. Até que conversaram em 2016. A Natasha estava solteira e elas mantinham amizade e se falavam raramente nesses 5 anos, por mais que nunca tivessem se visto e não havia maldade, de verdade, era apenas um querer-bem. E num dia, no Rio de Janeiro, ao se arrumar para sair com a prima (a Rebeca!) a Natasha conversando sobre ex namoradas comentou que a única namorada que seria capaz de se ver voltando a ter um relacionamento seria a Jéssica, mas que isso jamais aconteceria, até porque a Jéssica estava “casadíssima”, vivendo outra vida, sendo feliz “lá no sul”. Não sei se por coincidência ou que nome vocês querem dar a isso, mas literalmente no dia seguinte a Natasha descobriu que a Jéssica terminou o relacionamento - quem contou foi a própria Jéssica, em uma mensagem toda sem jeito. Elas voltaram a conversar e a Jéssica tinha uma viagem marcada, mas cancelou e decidiu fazer uma ida até o Rio e São Paulo para não perder as férias. Preciso contar o resto? São Paulo que lute, né? Ela ficou foi pelo Rio mesmo, com a Natasha… mas nos últimos dias de férias aqui, decidiu: “Não quero voltar a morar no Rio. Dessa vez, se for para ficarmos juntas, você vai para Porto Alegre comigo”. E a Natasha? Aceitou na hora. A Jéssica disse que nem acreditou no que ouviu, nem esperava um “Sim” tão rápido! A mudança, de fato, aconteceu. E não só a mudança, mas o casamento! Que foi exatamente na mesma data, 10 anos depois, do dia em que começaram a namorar - lá em 2007. A vida é cíclica. ♥ No dia do casamento, elas se juntaram aos amigos e fizeram um churrasco. Inclusive, também neste dia a Natasha recebeu a notícia de que havia passado em uma entrevista de emprego lá em Porto Alegre. Foi tudo acontecendo em conjunto e elas foram se adaptando à cidade e ao novo momento da vida. Hoje em dia, se enxergam muito diferente do que há tantos anos atrás, mas em geral entendem que o amor só ficou tão forte porque sempre foi muito moldado com respeito e admiração - e claro, a confiança e o apoio foram chegando como um bônus e crescendo na base também. Elas brincam, no fim, sobre já terem ouvido colegas de trabalho falarem sobre não aguentarem mais os maridos dentro de casa em seus casamentos e acrescentam como amar mulher é algo maravilhoso: são mais de dez anos e nem passa pela cabeça um dia em que se torne insuportável viver um amor tão bom. ♥ Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Jéssica Natasha

  • Babi e Maria

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Babi e da Maria, quando o projeto passou pela Bahia!. Maria e Bárbara enxergam o relacionamento como um grande divisor de águas: no começo, tinham muito medo de se relacionar. Os traumas, as inseguranças… tudo se misturava e acrescentava para que não quisessem um novo relacionamento. Não achavam justo começar algo se o passado ainda não havia curado. Aos poucos, foram tentando e acontecendo naturalmente. Acreditam que a amizade e o cuidado agiram curando os traumas de forma que nem sabiam que era possível e até mesmo quando os gatilhos eram despertados elas tomavam à frente e tentavam ter o máximo de cuidado uma com a outra. Por mais que se entendam enquanto pessoas muito diferentes, que possuem realidades, estilos e vidas diferentes, se encontram a partir dos propósitos que possuem em comum. Maria conta que desde o começo entraram de cabeça uma nos planos da outra e não se veem mais distantes, se incluem em absolutamente tudo. Compara-se frequentemente aos seus pais ou suas tias que possuem longos relacionamentos e amizades, sentindo que está desde já criando as próprias memórias com a Babi. Desejam ficar juntas de forma duradoura e ficam felizes em ver desde já as memórias iniciais que criam e compartilham. Bárbara, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela nasceu no interior de São Paulo, numa cidade chamada Espírito Santo do Pinhal, mas mora na Bahia há mais de dez anos. Trabalha enquanto modelo, é artista e babá. Também faz curso de enfermagem e quer muito ser doula - agora que a melhor amiga está grávida, finalmente está investindo nesse sonho que acabava deixando de lado. Maria, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é do sul da Bahia, foi morar em Salvador há alguns anos e atualmente mora em Abrantes, uma vila em Camaçari, região metropolitana de Salvador e mesmo lugar onde a Babi reside. Maria trabalha como professora de inglês. Quando já estavam juntas, numa época em que nada estava dando certo na vida da Maria, ela procurava apartamentos para morar em Salvador e não achava, então Babi falou sobre apartamentos muito mais baratos e seguros (por ser em condomínios) em Abrantes. Ela cogitou ir, já que nada mais a prendia na cidade grande já que suas aulas eram online, e conseguiu se mudar. Hoje em dia elas moram no mesmo condomínio, em casas diferentes. Foi em 2022 que Babi, mesmo nunca gostando de aplicativos de relacionamento, resolveu baixar o Tinder no auge de sua solteirice. Ela estava em Salvador visitando uma amiga e logo deu ‘match’ com a Maria. Maria mandou um “Oi, tudo bem?”, ela não respondeu e Maria pensou “Nossa, que rude!”... 10 minutos passaram e Babi respondeu pelo Instagram: “Tudo, e aí?". Conversa vai, conversa vem, elas viram pelo aplicativo que estavam muito próximas, descobriram que na verdade era na mesma rua e decidiram se encontrar. Contam que nunca tinham feito isso, estavam com medo de ser um homem e/ou uma pessoa casada, mas no fim deu tudo certo. Bárbara avisou que estava saindo, Maria nem conseguiu se arrumar, abriu a porta e ela já estava lá. Ficaram com os amigos em casa, tudo foi bem divertido. Conversaram a madrugada toda, só se beijaram na hora de dormir. No dia seguinte estavam pensando que “Ah, foi uma noite legal e só”, mas logo nos próximos dias já se viram, se viram, se viram… E até hoje o maior tempo que ficaram distantes foi no máximo por uma semana. Um mês depois do primeiro encontro o pedido de namoro saiu… e acreditam que justamente pelo tanto que vivem juntas sentem que o tempo de relacionamento parece ser muito maior do que realmente é. Hoje em dia, Maria voltou a dar aulas presencial. Estão vivendo mudanças bem legais, adoram cozinhar juntas, fazer coisas artesanais, escrever poemas, tocar instrumentos, ficar com os gatos… Maria conta que vê a Babi como alguém que entrou na vida dela para melhorar tudo. Sua vida deu um salto de qualidade gigantesco. Babi completa que foi recíproco, ambas melhoraram. Maria ajuda ela nas questões familiares, ensina sobre a independência, sobre correr atrás dos seus sonhos e lidar com os pais corujas. Para Maria, todo amor é uma construção, não é algo que acontece de um dia para o outro. Fala do amor dos pais, o quanto admira-os e o quanto precisou ser reconstruído dia após dia, por exemplo, quando ela se assumiu. Explica que se viu amando quando percebeu que confiava sua vida à Babi, e fica muito feliz que a construção delas tenha acontecido de forma leve, porque são uma para a outra o que sempre foram para os outros e que os outros nunca foram pra elas. Por fim, querem ressaltar que o relacionamento é marcado por “Primeiras vezes” desde que se conheceram, ou seja, sempre possuem primeiras experiências juntas. Como: primeira sessão de fotos, primeira vez viajando juntas, primeira vez que a família conheceu alguma companheira, primeira vez que foram no Festival de Verão de Salvador… e que escolheram ir nos brinquedos para tirarem as fotos porque é um lugar que amam muito, que se sentem felizes e que podem ser quem são de verdade. ↓ rolar para baixo ↓ Bárbara Maria

  • Iasmim e Nathália

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Iasmim e da Nathália, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! < A Nathália e a Iasmim começaram a namorar em 2019 com um detalhe: elas já moravam juntas. Dividiam um apartamento com diversas outras pessoas enquanto estavam fazendo a graduação em Direito, no Rio de Janeiro. De lá pra cá, passaram por vários espaços: optaram por morar sozinhas num apartamento bem menor, em Caxias, na Baixada Fluminense, lá enfrentaram a pandemia juntas e depois voltaram ao Rio, com um relacionamento muito mais amadurecido e fortalecido. Na mudança de volta foi que a ficha caiu sobre o quanto cresceram: quando foram pela primeira vez morarem sozinhas enquanto um casal, tinham uma mala de cada e uma televisão; Quando voltaram, precisaram de mais de um caminhão de mudanças. Construíram a casa juntas, os móveis, lembram de quando chegou o fogão, a cama e a máquina de lavar. No momento pensaram: “Como saímos de uma mala e chegamos nisso aqui?!”. Como tudo foi muito batalhado para ser conquistado, é também muito valorizado. Cuidam de cada detalhe, dos móveis, ao amor que dão aos gatos, o cuidado com as plantas, até o quanto ainda desejam crescer juntas. Sentem que o que vivem é um sentimento puro de família, seja no momento de fazerem um churrasco juntas com vários legumes e uma carne só ou no momento de sentar e conversar sobre o que estão sentindo. Nathália é advogada e cantora. Ela estava com 26 anos no momento da documentação, chegou ao Rio de Janeiro para estudar Direito em 2015, mas é natural de Salvador e toda a sua família reside lá até hoje. Antes entendia a música enquanto um hobbie e hoje faz isso de forma mais profissionalizada: possui conteúdos no Spotify (segue ela, gente!) e trabalha nas suas próprias canções. A Iasmim também é advogada. Estava com 28 anos no momento da documentação e é natural de Caxias, na Baixada Fluminense. Na pandemia descobriu vários hobbies, como desenhar, cozinhar e auxiliar a Nath na sua carreira musical. A Nath acredita que a relação que elas constroem é muito baseada nas ações - nos atos de serviço. Ela traz o exemplo de que não consegue conversar com os gatinhos em casa, por exemplo, mas mostra nas ações e dialoga com eles, demonstra o quanto ama e recebe o amor deles. Assim, no relacionamento delas, elas dialogam e se sentem seguras. Além disso, o amor envolve muitos desafios e enquanto vivem isso sentem que surgem novas perspectivas sobre o mundo. Quando a Nath se mudou para o Rio de Janeiro, foi logo encontrar uma amiga que já estava fazendo faculdade de Direito e acabou adentrando no grupo de amigos cariocas dela. Nesse grupo, estava a Iasmim. Um tempo depois, cansada de transitar por vários espaços, decidiu morar em uma república - foi aí que começaram a dividir apartamento. Lá elas viraram amigas, interagiam com todos da casa, viam shows na TV, faziam refeições juntas etc. Elas não eram suuuuuuper amigas e lembram que a Iasmim era uma pessoa mais fechada, mas em um dado momento começaram a se aproximar mais - se aconselhavam, ouviam músicas juntas… As pessoas ao redor notaram essa aproximação, mas elas não viram nada demais acontecendo. Foi em agosto de 2019, num momento em que a Nath estava mais tristinha pois vivia em torno da prova da OAB, que a Ias chegou até ela e a convidou para sair e ficar bem. Elas estavam num momento ruim de grana, acharam que não ia rolar, mas encontraram um evento chamado “Isoporzinho das Sapatão” e decidiram ir - pela primeira vez saíram juntas/só as duas em algum lugar. No evento, se divertiram muito. Conversaram sobre as músicas da Nath, sobre coisas super profundas, antigos relacionamentos… até que alguma chave, em algum momento, virou. Foi ali que elas sentiram que algo poderia acontecer - e se viram de uma forma diferente pela primeira vez. O cigarro acabou, elas tiveram que comprar cigarros avulsos e a Nath ensinou uma forma de conseguir desconto, mas nessa conversa chegou muito próximo da Iasmim para falar. Ela se desconcertou, sentiu algo acontecendo e numas brincadeiras entre cigarros se beijaram. Nos dias seguintes ao evento (e ao beijo) tudo ficou meio caótico. A Nath foi assaltada, então estava sem celular e, para ajudar, a Ias evitava ela dentro de casa. Todos os dias a Ias acordava mais cedo, ficava pronta antes do horário da Nath levantar e só batia na porta dela para acordá-la (já que ela não tinha despertador), mas saía logo em seguida, não dando a chance de uma conversa. Num dia conseguiram conversar um pouco enquanto fumavam um cigarro, mas no momento em que a Nath se aproximou a Ias logo deu a desculpa de que estava tarde e que precisava dormir e saiu do ambiente. Isso deixou a Nath muito frustrada, pensava que a Ias não ia querer mais nada com ela e os amigos falaram: “Foge enquanto é tempo!”. Mas ela decidiu conversar com uma amiga em especial, que confiava, tomando uma cerveja no bar e essa amiga orientou: “Dê tempo ao tempo”. Na mesma semana a Ias mandou para ela a playlist do evento que elas foram e assim elas começaram a conversar pelo Facebook. Uns dias depois, conversando na terapia, a Ias percebeu que isso era apenas um medo momentâneo e que ela merecia se permitir viver aquele momento bom com a Nath - então decidiu falar com ela e chamar para beber uma cerveja. É um sentimento gostoso para elas relembrar que no começo, mesmo se conhecendo e convivendo há anos, elas passaram pelo nervosismo de não saber lidar uma com a outra. Surgiam perguntas como: “Você gosta de pizza?” sendo que a resposta era óbvia porque elas viviam comendo pizza em casa com os outros moradores. Mas, mesmo sendo algo bobo, era uma forma de se redescobrirem aos poucos. Depois de um tempo, a Nath chamou a Ias para conversar e elas decidiram vivenciar de verdade o que tinham enquanto um relacionamento. Foi um pouco depois disso que o contrato do apartamento estava por vencer e elas decidiram seguir morando juntas, mas num espaço novo e só delas. Elas não esperavam que a pandemia de Covid-19 começaria em seguida. Foi um baque, mas seguiram nessa descoberta diária: conviver juntas obrigatoriamente, sem a opção de sair de casa, é também descobrir muito sobre a convivência com a pessoa que se ama. Entendem que viver a pandemia naquela situação de imersão em um relacionamento recente era delicado, mas fizeram de tudo para dar certo. Hoje em dia, trazem o conhecimento que se criou uma com a outra algo muito positivo, mas não descartam as dificuldades nas ansiedades, nos atritos e no ato de aprender a conviver com as diferenças, de conversar e de dialogar sobre os sentimentos. Na pandemia, também passaram pelo desemprego da Ias, a situação financeira apertou e isso também influenciou muito sobre o valor que dão às coisas que conquistaram. Além disso, a Nath fazia um exercício intenso de incentivar a comunicação do casal - e principalmente de incentivar que a Ias falasse mais sobre o que sentia/a procurar o que sentia. Tudo partiu do entendimento de que o que ela sentia também afetava o dia a dia do relacionamento. Foi assim que seguiram juntas e que hoje em dia não se veem de outra forma: estão noivas! Planejaram o casamento aos poucos, com ideias em casa, mas querem vestidos e coisas tradicionais porque acreditam que merecemos isso. Contrataram uma cerimonialista que gostam e, por mais que já tenham passado por uma situação de lesbofobia na hora de procurar um local, encontraram outro e estão super empolgadas! Será lindo ♥ Conquistando também o apoio da família, ficam muito felizes em compartilhar as coisas do casamento e receber conselhos dos familiares que acreditam na potência do amor que elas vivem. A Ias contam que se sente num grande oceano. Ela nada em amor pela Nath - tudo ao redor dela é água; tem coisas que ela gosta ali e tem coisas que pode não gostar, mas não sabe separar o oceano do mar, tudo está junto e ela ama tudo. Acredita, também, que no dia que souber reconhecer o que ela ama e o que ela não ama, de forma específica, vai entender que esse sentimento provavelmente acabou, então ela ama por completo tudo aquilo em que ela se vê nadando: o amor. A Nath completa de que esse amor é de uma forma livre também, no sentido de não sentir medo, de poder ser quem são. E que, amar da forma que amam, não representa que todo dia seja bom. Há dias muito puxados, difíceis e chatos, mas o bom é saber que nada vai acabar por isso: é só um dia ruim. Por fim, amam os atos que envolvem a relação delas: desde o pai da Ias levar caldo quando a Nath está doente, até a forma revolucionária de ver mulheres se amarem através do respeito. Entendem que não vivem regras sociais como as colocadas no mundo heterossexual: se estão casando, por exemplo, é porque querem. E isso as deixa muito confiante de que a relação se baseia somente naquilo que constroem. ↓ rolar para baixo ↓ Nathália Iasmim

  • Amanda e Thais

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Amanda e Thais, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Amanda e a Thais se conheceram através do mais famoso e conhecido aplicativo de relacionamentos dessas bandas, o Tinder. Elas já estavam meio “saturadas” de navegar por lá, confessaram, a Thaís nem tinha mais instalado no celular, só entrava na versão web e a Amanda não tinha muita paciência com quem demorava para responder… Elas brincam que nem entendem como deu certo. No começo, a Thais demorou três dias para responder… mas quando respondeu, foi logo com um textão, e aí a conversa engajou. Tudo fluiu e resolveram se encontrar, foram num bar de jazz no centro do Rio de Janeiro, depois num shopping na Barra da Tijuca, até que chegaram, no terceiro encontro, ao local preferido delas (e também escolhido para fazermos as fotos): A Lagoa Rodrigo de Freitas. Escolheram lá porque é uma localização entre as duas moradias, e assim, soa mais justo para ambas. A Amanda nunca tinha ido e adorou. Lá era mais fresquinho (dialogando com o calor carioca), levaram um vinho e se estenderam noite adentro. Como na época - e nos encontros que se sucederam - elas ainda não namoravam, moravam com os familiares e as famílias não sabiam, os encontros acabavam sendo sempre na lagoa. A Thais brinca que conheceu a mãe da Amanda por obra de um destino chuvoso, uma tempestade que deixou as duas presas no trânsito sem conseguir voltar para casa, fazendo com que a mãe precisasse ir buscar, mas que nada daquilo era planejado e ela ficou super nervosa, mas que hoje em dia ambas famílias se dão bem e gostam muito umas das outras. Amanda tem 25 anos, é formada em Letras e faz Mestrado em Literatura, com ênfase nos estudos das obras de Clarice Lispector. Ela também dá aula de redação em um projeto social, o NÓS. Além das suas profissões, adora escrever, ama observar e viver a escrita em si. Ela também adora tocar violão, teclado e gaita. Sua família é muito musical, o maior programa da casa é cantar e tocar nas horas livres. Thaís tem 28 anos, faz faculdade de Medicina na UFRJ e está no período de Internato. Perguntei como ela se viu vivendo a pandemia na faculdade de medicina, afinal, é um desafio e tanto. Ela comenta o quanto era assustador no início, mas que por ainda não ter começado o internato, não estava na linha de frente no momento mais intenso da pandemia de Covid-19. Passou muito tempo em casa, estudando à distância e sem contato com pacientes, então tudo era muito diferente, muito distante da prática. Agora, mesmo com a vacina, mas com a nova onda da variante Ômicron, conseguiu ter uma prática mais ativa, o que também gerou diversas sensações, como o medo de passar para a família e para as pessoas que ama, além do contato mais direto com as dificuldades do cotidiano na área da saúde. Tudo vira aprendizado, algo que por mais que não imaginavam viver no início da graduação, muda muitas perspectivas sobre a prática da medicina e desenvolve também uma forma de lidar diferente com as pessoas na hora do atendimento e de qualquer contato, enquanto ser humano, não só ao se fazer uma consulta. Por mais que elas já namoram há algum tempo (e inclusive comemoram todas as datas, desde o dia do match, até o dia do primeiro date e o dia do namoro em si!), passaram por diversas fases até chegar ao equilíbrio que possuem hoje. A Amanda, por exemplo, sempre foi uma pessoa mais fechada, ou melhor, elas contam o quanto são opostas nisso: a Thais é mais de estar junto, se abrir, dialogar sobre o que sente, conversar na hora… Enquanto a Amanda se isolava, sentia dificuldades em se abrir. E isso, de certa forma, acentuava-se porque as famílias também são muito diferentes - a família da Thaís já deixava ela mais distante, enquanto ela queria mais carinho, e a da Amanda “saturava” nessa presença, sendo que ela queria ficar no seu próprio canto. Foi difícil entender o passo, o ritmo. Hoje em dia, depois de muitos processos, de calma e de se compreender/entender o que falta uma na outra, elas conseguem estar mais próximas e permitir a dinâmica funcionar. A Amanda conta que sempre lidou sozinha com os seus problemas e agora, com a Thais, entendeu que pode ser diferente. Foi difícil ela desaprender a estar sozinha, mas entendeu que é bom também, que é bom ter alguém. A Thaís percebe algumas movimentações nesses ciclos, por exemplo: Na semana anterior à que nos encontramos, a Amanda passou por uma situação difícil e pediu para que a Thais fosse até a casa dela - isso não aconteceria anteriormente, porque ela sempre passava por tudo sozinha, dessa vez pediu ajuda, um passo incrivelmente grande, que elas comemoram juntas. E a Amanda complementa dizendo que foi muito melhor com a companhia da Thais. Ainda que tenha sido uma situação chata/complicada/difícil, foi melhor com a companhia porque fez tudo ser mais fácil de ser ultrapassado. Nesses momentos, elas entendem que experimentar novas potências, ou melhor, aumentar as potências que já existem em nós, é também um ato de amor. Acolher é amar, mas também dar bronca para melhorar é amar. Amar é muito difícil. E falando isso elas lembram de uma amiga que disse “Eu acho incrível porque quando vocês brigam, vocês mudam!”, a transformação do amor é por não ficarem estagnadas, se permitem a mudança, ao incômodo de mudar para melhorar. Dentre a parceria que elas possuem existe muito companheirismo, como uma conexão grande e íntima, a compreensão em forma de cuidado: uma via de mão dupla, amar e ser amada. Amanda apresentou o samba para a Thais e em troca teve o Pink Floyd. Apresentou a cerveja em troca do vinho. Thais completa, dizendo o quanto isso liga as duas e o quanto mudou ela (a música em si). Antes ela era do rock e hoje em dia é super samba - a mãe dela nem acredita. Elas também vivem juntas na cozinha, amam cozinhar, são vegetarianas/veganas, fazem diversas receitas juntas e é o momento delas, de se curtir, ouvindo música e tendo algo muito voltado ao afeto. Falamos o quanto o veganismo traz um olhar de afeto na preparação do que fazemos e a Amanda conta o quanto descobriu o afeto na cozinha por meio dessas receitas só pelo relacionamento que tem com a Thais, antes, nunca tinha se aventurado no ato de cozinhar. No começo do relacionamento a Amanda descobriu ser intolerante à lactose, e por a Thais ser vegana, ela auxiliou muito no processo e na ressignificação dos alimentos. Trouxe queijos veganos, novos sabores a serem descobertos, foi uma cozinha com afeto muito compartilhada. Elas falaram diversas vezes que amor é transformar e o amor está nessas trocas de transformação, também. No jeito que se acrescentaram e se compartilharam na descoberta de mudanças, ressignificações e coisas boas no dia a dia. Thais Amanda

  • Sofia e Carol

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Sofia e da Carol, quando o projeto passou por São Paulo! Entre tudo o que gostam de fazer juntas na rotina caseira num apartamento no centro de da cidade, Sofia e Carolina descobriram o maior dos hobbies em comum: o gosto pelo café. Apelidaram carinhosamente de “ritual”, mas estudam, adoram organizar todos os equipamentos e descobrir novos tipos de grãos. É o momento mais precioso dentro de casa. Sofia, no momento da documentação, estava com 47 anos. Ela é natural de São Paulo, trabalha com um blog de viagens e morou um tempo em Salvador. Carol, no momento da documentação, estava com 38 anos. Ela também é natural de São Paulo e trabalha enquanto fisioterapeuta. Brincam sobre como são pessoas preguiçosas, porque só vão em shows que tenham assentos e que não são muito festeiras, não curtem muito viver o carnaval. Por outro lado, adoram explorar a cidade de outras formas, como andar de bicicleta e de moto. Desejam em breve começar viagens juntas de moto para lugares um pouco mais distantes que o comum. Carol entende que foi Sofia quem trouxe ela de volta à vida através do amor. Foi esse amor que permitiu um redescobrimento sobre quem ela era: desde usar o cabelo que sempre quis (mas que nunca pode por conta de outro relacionamento bastante abusivo), até usar as roupas que deseja sem sentir medo de acharem que ela “está muito sapatão”. Entende, agora, que isso nem é um problema - o problema era ela não viver a vida antes. Hoje, acredita nas energias, nas espiritualidades. Sente que o caminho delas estava para se cruzar há muito tempo e que isso só aconteceu para crescerem juntas, pois estão sempre dispostas uma para a outra. Foi através do Happn, um aplicativo de relacionamentos, que o caminho delas literalmente se cruzou. Sofia, antes de entrar no aplicativo, foi casada por 11 anos. Decidiu baixar e se render à tecnologia porque antes, em outra época, isso não era possível. O ‘match’ aconteceu no final de dezembro, dia 28, mas não se encontraram até o réveillon (ela tentou, Carol não se sentiu confortável sendo tão rápido). Dia 31, foi para Salvador, passar a virada do ano. Conversaram pelo Whatsapp por um tempo, compraram um ingresso para o show do Milton Nascimento que teria em São Paulo (e era uma boa desculpa para se encontrarem pela primeira vez). Porém, a conversa foi esfriando até a data chegar. Sofia estava decidida: iria se mudar para Salvador. Conseguiu um apartamento lá para alugar, conheceu pessoas e se interessou afetuosamente por uma delas… Quando voltou, não sentia mais tanto clima para interagir com a Carol, então marcaram de pegar o ingresso e tomar um café antes do show, como amigas. Inicialmente, a ideia não era nem verem o show juntas, se não sentissem à vontade. Mas ao chegar no café, conversaram por duas horas e se deram muito bem. Decidiram ir ao show, encontraram uma amiga da Carol antes, beberam cerveja e depois do show continuaram a noite em um buteco. Porém, mesmo ficando até 4h da madrugada na noite, existia uma questão: a mudança para Salvador era na manhã seguinte do show. Depois do buteco/e do show, quando chegaram em casa, se falaram pelo Whatsapp e abriram o jogo: sentiram muita vontade de se beijar. Até cogitaram se reencontrar, mas o dia estava quase amanhecendo, a mudança teria que acontecer, Sofia também pensou na pessoa que gostava em Salvador e seguiu seu caminho. Carol ficou triste, passou uns dias bastante abatida, parecia que tinha vivido um término de namoro. No dia 2 de fevereiro, logo em seguida, chegou a ir para Salvador porque já tinha a viagem agendada com uma amiga, mas lá não encontrou Sofia. Depois disso, a pandemia começou e ficou tudo mais difícil. Sofia começou relacionamentos por lá, mas seus planos de viver a cidade em si não deram certo, acabava a maior parte do tempo trancada em casa. Carol, por sua vez, vivia outra situação em São Paulo. Conta que por cerca de 6 anos se relacionou com uma pessoa, que chegou a morar com ela. Não era um namoro porque elas não assumiam (nem publicamente, nem aos mais próximos). Ela já tinha rompido essa relação, porém, quando a pessoa descobriu a existência da Sofia, ‘mudou’ suas atitudes e quis estar de volta. Acontece que as atitudes não mudaram, de fato. Aos poucos Carol entendia o quanto isso era abusivo. O fato de ter gostado de alguém virou um fantasma na vida dela, uma sombra. A pessoa olhava o celular dela o tempo todo, tudo virava uma briga, o nome da Sofia sempre rondava a casa. Acabou bloqueando Sofia no Instagram, como forma de tentar cessar as brigas. A importância que Carol vê em falar sobre essa vivência vai muito de encontro ao que ela viu na Sofia como uma oportunidade de viver algo que sempre quis, um relacionamento assumido, com afeto, sem cobranças sobre como ela deve se vestir, que respeita como ela é, com comunicação. Mas além disso, fala muito também sobre precisarmos falar que existem relacionamentos abusivos entre mulheres e que precisamos nos conscientizar. Não relativizar quando as pessoas nos fazem sentir mal, nos cobram, nos ditam o que devemos ser, desconfiam. É preciso buscar acolhimento e sair dessas situações. Depois desse hiato em que Sofia viveu Salvador na pandemia e Carol se livrou mais uma vez daquele relacionamento que vivia, decidiu adicioná-la no Instagram novamente, porém por outro perfil. Conversaram sobre a pandemia, sobre a vida, e passaram a se comunicar novamente todos os dias. Um tempo depois, Carol comprou uma passagem e foi para Salvador. Elas não sabiam se iriam se dar bem, era uma primeira convivência de dias, mas tudo deu certo. Depois disso, Sofia também veio a São Paulo, ficou um bom tempo. Aos poucos, foi conhecendo sobre a relação que Carol viveu e trazendo acolhimento. Queria muito pedir ela em namoro, achava que ela merecia isso, e o pedido acabou acontecendo nessa vinda, quando aproveitaram e foram para um chalé na serra paulistana. Viveram a distância Salvador - São Paulo por um tempo, ainda na pandemia, e estava tudo bem difícil. O contrato da Sofia estava próximo de vencer, então pensou em voltar para São Paulo. Decidiram morar juntas, justificam: “Se a Carol fosse morar em Salvador, ela iria morar comigo. Por que eu vindo pra cá não poderia morar com a Carol?”. Depois da mudança, casaram-se. No dia de Iemanjá. Sofia e Carol adoram as coincidências que possuem juntas. Para além do café, as músicas, os lugares… Sofia fala como é importante poder ser quem ela é de verdade com a Carol, como ela nunca tinha vivido isso de forma tão plena, a forma que se sente à vontade com alguém, em liberdade. Carol só conseguiu entender a relação que viveu depois que passou por tudo. Hoje em dia, valoriza o quanto ela e a Sofia podem ser quem são na rua, nas redes sociais, podem pegar na mão quando saem pela cidade. E aprende diariamente a viver uma relação saudável, a superar os traumas e a não querer pesar as coisas. Adora a rotina agradável que vivem. Ambas mudaram muito suas visões sobre o amor depois que passaram a se relacionar. Não são muito próximas de suas famílias e nem possuem um número extenso de amigos, mas os que existem são pessoas que amam, confiam, que estão na vida delas há anos. Entende respeitar o tempo de cada pessoa, o limite das coisas, é o essencial para que tudo dê certo. Querem um amor leve, que conversa e que entende. ↓ rolar para baixo ↓ Carolina Sofia

  • Dani e Aline

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Dani e da Aline, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Hoje em dia elas brincam que não chegaram a namorar porque a Aline não deixava elas namorarem, nunca quis assumir esse namoro porque não queria prender alguém naquela vida. Mas brincam porque passavam o dia das namoradas juntas e inclusive a Aline comprou um presente de dia das namoradas pra ela e desistiu de dar por esse medo de assumir algo que fosse contra o que ela ideologicamente dizia - mesmo que elas soubessem que, no fundo, estavam juntas. Acreditamos que a brincadeira existe hoje em dia justamente por entendermos que isso era um processo dela entender o seu próprio tempo, porque naquele dia mesmo, a mãe dela inclusive estava radiante e super feliz por elas estarem juntas ali comemorando o dia. E a própria relação da Dani com a mãe da Aline era algo que sempre mexia e tocava muito ela também. Nesse começo de relacionamento que não era relacionamento (mas era! hahaha só não conta pra elas, tá?), a Dani se mudou de Friburgo para Miguel Pereira, também no interior do Rio, e depois, em Miguel, surgiu a oportunidade de voltar a morar no Rio de Janeiro. Nessa época a Aline havia se mudado para o Rio há pouco tempo atrás com a mãe e, quando elas já estavam aqui, tudo foi acontecendo e acharam um local perfeito do qual conseguiriam adaptar todo ele para que fosse confortável manter a nova vida delas enquanto um casal, a mãe com suas necessidades e poderem bancar financeiramente as cuidadoras e enfermeiras que o momento pedia para auxiliar no dia a dia dentro de casa. Era muito natural que a mãe da Aline fosse pensada em primeiro lugar e isso nunca foi visto como um peso ou algo sofrido para a Dani. Inclusive, era bastante o contrário. O carinho com que ela trata e relembra dos momentos que tiveram juntas é algo realmente emocionante. A mãe da Aline era uma pessoa que, mesmo enfrentando um momento muito difícil, nunca deixou de ser risonha, leve e brincalhona… e a Dani a acompanhava nas brincadeiras. Estavam sempre se divertindo. As cuidadoras mesmo, até hoje, frequentam a casa delas e dizem o quanto sentem saudade do lugar onde moravam todas juntas. A Dani comenta sobre ter sido um encontro, realmente, um encontro de pessoas que estavam dispostas. Ela entende que talvez se fosse outra pessoa, não conseguiria aguentar ou não estaria disposta. Mas para as três foi natural, elas estavam ali. Não era nenhum pouco fácil, mas a Dani era um contraponto, era uma alegria, uma diversão, alguém que chegava e alegrava. Quando se conheceram, a Dani morava em Friburgo, no interior do Rio de Janeiro e a Aline morava em Nilópolis, na baixada fluminense. Elas conversaram rapidamente no aplicativo e a Dani não continuou muito o assunto, se sentiu com pouca confiança, com o papo chato. Por outro lado, a Aline nem se quer pensou que ela tinha papo chato, pelo contrário, se questionou com um “nossa, por que será que ela parou de falar?” e tudo ao redor colaborou com o afastamento porque a Dani ficou sem internet e era feriado de Páscoa… porém a Aline aproveitou o feriado e puxou um novo assunto, mandou um simples: “Feliz Páscoa!”. E era o bastante para a Dani entender que ela não estava sendo chata, que a Aline queria conversar e seguir aquele papo deixado de lado anteriormente… deu certo! A partir de então, conversaram dias e dias até se encontrarem pessoalmente, no Rio de Janeiro. É impossível falar de como começou a história da Aline e da Dani (ou contar a história da Aline e da Dani, sendo o começo ou não), sem citar a presença da mãe da Aline. Durante dez anos, a mãe dela passou por uma doença desmielinizante que era incurável, ou seja, gradativamente ela foi perdendo a voz, os movimentos, se tornou dependente… e quando a Aline conheceu a Dani ela já passava pelo momento de dedicar 100% da vida aos cuidados da mãe. Por mais que ela conhecesse pessoas e fizesse amizades, era uma pessoa muito arredia e fechada aos relacionamentos. Já tinha vivido um casamento e não se via embarcando em uma nova relação (não só por ela, mas por achar injusto com a outra mulher… por achar que ninguém merece se ver em uma situação assim). E mesmo encontrando pessoas legais que desejassem ter algo sério ou montar um projeto de futuro, ela criava barreiras para que isso não acontecesse porque não era capaz de enxergar esse futuro naquela circunstância. No meio disso tudo, a Dani chegou trazendo uma perspectiva totalmente diferente. A ideia era não precisar escolher entre abrir mão de tudo pelos cuidados da mãe ou abrir mão da mãe para poder aproveitar a vida, mas sim, incluir a mãe nos projetos de vida. Com muita persistência a Dani foi mostrando isso diariamente (mas não de forma incisiva obrigatória, foi uma persistência que acontecia naturalmente por querer ver as coisas bem), ela foi atrás de uma cadeira de rodas, de uma readaptação à vida e ao mundo novamente já que a mãe da Aline não tinha contato com a rua (para divertimento) há muito tempo… elas passaram a trazer muita vida de volta ao lar. Jantares, viagens, sorrisos, piadas, animação e divertimento. Aline tem 38 anos, é jornalista, carioca, faz mestrado em Mídias Criativas e tem uma rotina suuuuper intensa no trabalho! Enquanto a Dani tem 53 anos, também é carioca e trabalha enquanto designer… nos hobbies, adora cozinhar e deseja ainda se dedicar um dia a estudar mais sobre gastronomia, na área voltada à padaria e confeitaria. É na cozinha - e mais especificamente, no café da manhã - o ponto de encontro mais importante do dia. Quando sentam à mesa, junto com o sobrinho que mora com elas, é que constroem o espaço de conversa, de partilha da comida, de acolhimento e de debates sobre tudo o que está acontecendo no dia a dia. Elas comentam que são pessoas que adoram agregar as coisas - desde a família, os assuntos e o afeto - tudo é muito agregador. A Dani e a Aline se conheceram em um aplicativo para mulheres, no ano de 2016. A Dani não sabia da existência de aplicativos que mulheres poderiam usar além do famoso Tinder, foi então que a tia dela (que também é lésbica) indicou e insistiu para que ela instalasse para conhecer novas pessoas. Ela se convenceu, instalou mas percebeu que não tinha quase ninguém e quis desistir, mas mais uma vez a tia insistiu e disse que talvez ela devesse baixar a faixa etária que estava colocando e procurar por algumas mulheres mais novas. Ela achou isso absurdo, mas colocou e então apareceu a Aline. O que mais chamou atenção no perfil da Aline foi a frase em destaque, que era algo como: gayzista, esquerdopata, feminazi, etc. Achou divertido e começaram a conversar logo sobre eles: os opostos complementares dos signos. Para explicar o amor entre a Aline e a Dani é importante destacar que uma é o oposto complementar da outra. E esse papo de oposto complementar, por mais que tenha muito sentido pra quem adora falar de signos (e sabemos que entre as mulheres que beijam mulheres é um assunto muito comum), no caso delas, vai muito além de astros: elas se complementam em seus elementos o tempo todo. A Aline é mais pé no chão, explosiva e sentia dificuldades de se entregar à diversas coisas antes da chegada da Dani. E a Dani chegou com muita leveza, muita fé, um alívio na própria presença e no deixar fluir. Juntas elas foram se encontrando (uma encontrando a outra e ambas se reencontrando em si) e a Aline foi ensinando muito para a Dani também (a receber críticas, a ouvir os outros de formas diferentes e a estar vivendo algo novo). Tudo aconteceu porque elas sempre tiveram propósito. E ter propósito não quer dizer que será fácil - até porque não foi, elas enfrentaram muitas barreiras juntas e não romantizam as dores e os perrengues diários - mas durante a conversa, diversas vezes ambas falam o quanto a vida melhorou por escolherem se permitir viver isso e o quanto isso continua refletindo no querer estar junto e seguir criando planos e construindo uma vida lado a lado. A Aline e a Dani falam, por fim, sobre a urgência de termos uma cidade que fale com seu povo, que respeite sua população de verdade - mas respeitar não significa apenas que duas mulheres consigam sair de mãos dadas na rua à tarde em um bairro nobre se quando voltam está tendo tiroteio na porta de casa e não conseguem entrar em segurança. Falamos de uma cidade em que conseguiremos viver com dignidade pela nossa existência. Com menos violência e menos guerras, menos violência contra mulher, menos genocídio nas favelas. Com comida, água, saneamento básico, acesso às educações e saúdes. É uma urgência de mudar as coisas pela base, de acreditar nas pessoas, de tirar o foraBolsonaro do poder e de não desacreditar, de fazer a nossa parte. De não normalizar a questão de tudo estar errado. É uma cidade em que esse respeito chegue para todo mundo, e principalmente: até onde hoje em dia ele não chega. Quando falamos sobre a pandemia e sobre o que estamos vivendo atualmente, elas falam que diariamente enfrentamos muitos problemas e que não há como enxergar algo de positivo na pandemia ou no governo foraBolsonaro em si, mas que é muito importante reconhecermos onde estamos: se estamos aqui, se elas estão juntas ainda, se superamos isso dia após dia e se nossos relacionamentos resistem é porque estamos realmente dispostas, é porque queremos muito. E além disso, é também porque queremos construir nossos planos… não queremos só nos imaginar com a pessoa que amamos, mas estar lá ainda, viver o que sonhamos, querer seguir construindo coisas tão boas e tão bacanas como, no caso delas, foram esses anos juntas. A Dani conta o quanto estar dentro de casa também tem feito repensar e se comunicar de formas tão diferentes. Às vezes ela vê algo de uma forma e a Aline enxerga por outro ângulo, analisa com um olhar muito diferente, com outra cabeça, outra vivência, outra idade. É uma forma de expressão que está sempre em aprendizado. E juntas elas acabam virando referência para as sobrinhas, para as crianças da família, vão construindo confianças e conversando também com elas sobre todos os tipos de assuntos, porque isso é também falar de amor. A Aline comenta uma frase, que é: “nada que você confessar vai me fazer te amar menos”, e então completa “mas eu sei que você não tem nada para confessar (porque eu já sei de tudo sobre você)” e isso, para ela, fala sobre o quanto a gente se entrega quando ama e o quanto está disposto para ouvir do outro também, conhecer o outro com todas as formas dele. E a Dani diz que, para ela, amar é ter parceria, resiliência, respeito e resignação. É ceder para ganhar lá na frente. E é também uma mistura de preocupação, de afeto e de abraço. Na época em que moravam juntas (as três) e que cuidavam da mãe da Aline, a Dani trabalhou por um tempo enquanto motorista de aplicativo e falou muito sobre a realidade dura dos trabalhadores autônomos no Brasil. Como é uma correria ter alguém debilitado em casa, estar trabalhando durante horas, passar por diversas situações de risco e mesmo assim chegar em casa disposta. Ela cita novamente a sensação que era chegar e ver um sorriso ou chegar e ter um tempo com a Aline também, porque de certa forma elas tinham um momento delas, um tempo para que pudessem se conectar e estarem juntas e o quanto esse momento era precioso. Elas comentam que são muito felizes pela forma que a história se construiu, pois entendem que cada casal possui a sua história e que a história delas tem uma pessoa tão importante no meio que é a mãe da Aline e que para sempre possuirá um carinho gigante no coração delas. Identifico na história delas uma potencia gigante de entendimento sobre o que é o amor entre mulheres, não só romanticamente enquanto mulheres que se relacionam em suas relações sexuais, mas sobre algo que só poderia ser explicado por uma relação baseada entre três mulheres: a forma que elas se encontraram, se ajudaram e se amaram. A troca entre a Dani e a Aline é o amor entre um casal e o acolhimento delas com a mãe da Aline é algo que só o amor entre mulheres é capaz de fazer. Por mais que os homens saibam acolher, nunca seria dessa mesma forma, nunca caberia nessa mesma relação, porque não teria esse olhar. Por mais que fosse uma pessoa incrível, a forma colocada seria diferente. E se fosse um pai, ao invés de uma mãe? Seria totalmente diferente. Se a Aline fosse um filho homem ela teria que procurar uma esposa para ajudar a cuidar e não o contrário, como ela fez, porque essa esposa é a mulher que faz o papel do cuidado que nos é socialmente imposto e designado. Mas não, nessa relação, não. Tudo, enquanto três mulheres, foi completamente natural: elas se encontraram, se acolheram e se amaram. Daniela Aline

  • Leticia e Giovanna

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Leticia e da Giovanna, quando o projeto passou por São Paulo! Acredito que a história da Letícia e da Giovanna fala muito sobre a forma que elas lidam com as coisas felizes e, sobretudo, difíceis. Não é nenhum pouco fácil ter uma história que já tenha passado por tantos desafios como a delas e seguir com tanta fé no sentimento que vivem, na relação que constroem e no que sentem uma pela outra, ainda mais sendo algo que ainda não passou por completo: vivem uma rotina delicada diariamente. Claro, a cada mês que passa conseguem enxergar o quanto evoluem juntas, mas é algo que vivenciam, e não que já passou por completo. Essa dificuldade girou sempre em torno da não aceitação do namoro por parte de uma das famílias. Como elas se conhecem desde a infância e moram na mesma rua, Letícia há alguns anos já era bastante próxima, frequentava a casa da Giovana e criou um laço de amizade forte com a mãe da Giovana, foi auxílio para a família em diversos momentos difíceis, era amada por todas e tratada como uma filha postiça. A mãe algumas vezes questionou, tinha um receio de que as duas se envolvessem, mas como ainda era um momento inicial de descoberta para elas e tinham medo da reação, negavam. Num dia, Giovanna decidiu contar a verdade, até que tudo saiu do controle. Infelizmente, vivenciaram situações difíceis de não aceitação e desrespeito. Foram meses sendo ignorada pelo pai dentro de casa, o que deixou Giovana muito triste e culpada. Não ter mais ele como um amigo, ela deixar de ser a filha idealizada, tudo machucava muito. Foi preciso muito tempo - e muita paciência das duas para as coisas mudarem aos poucos. Com isso e com a insistência eles foram entendendo o relacionamento delas (e até incluindo a Letícia em alguns dos planos e eventos que aconteciam). Mas tudo ainda é um processo. Letícia, no momento da documentação, estava com 24 anos. Ela é de São Paulo, capital, e trabalha enquanto biomédica, intercalando entre o trabalho em laboratório e a sala de aula; No tempo livre, adora jogar vôlei. Giovana, no momento da documentação, estava com 22 anos. Também é de São Paulo e está se formando em veterinária, trabalha no estágio e faz plantões aos finais de semana; Adora cuidar do corpo, já praticou lutas e hoje em dia ocupa parte do seu dia na academia. Elas estão juntas sempre que podem. Adoram tudo o que é relacionado à natureza. Gostam de cachoeiras, de jardins. Na cidade, adoram coisas simples como ir ao supermercado, passear em lojas. Brincam que até comprar pão de queijo vira um grande evento. Letícia conta que sua cultura familiar é bem diferente, entende que por lá as coisas sempre foram mais fáceis. Já tinha outros LGBTs na família e quando viveu seu processo contou para a irmã primeiro. Por mais que nenhuma vivência inicial seja fácil, entende que a dela não tenha sido tão difícil porque houve maior respeito. Porém, ter sua cultura mais libertadora, faz com que seja mais difícil aceitar alguns limites que foram impostos para a Giovanna e ter mais vontade do imediatismo. Foi preciso aprender a ser mais paciente do que imaginava. Como estudaram na mesma escola e moravam na mesma rua, Giovanna e Letícia se conheceram desde muito novas. Letícia, por ser alguns anos mais velha, era amiga do irmão da Giovanna. Não se falavam muito porque, segundo a Gi, Letícia tinha cara de brava… mas, depois de adolescentes, Letícia se apaixonou por uma amiga da Gi e isso fez com que se aproximassem e ficaram amigas. Em outubro de 2018, bom tempo depois, Giovanna entendeu que sentia algum tipo de atração pela Letícia e resolveu se abrir com ela. Enviou um texto gigante explicando o que sentia… e ela… sumiu. Letícia conta que chegou a responder, mas que ficou em choque, não sabia como reagir e se sentiu muito insegura. Meses depois, em janeiro, respondeu com outro texto. Elas conversaram e a Letícia a convidou para ir num casamento, como acompanhante. Neste dia, depois da festa, se beijaram pela primeira vez. Porém, sentiram que o beijo não encaixou e fingiram que nada tinha acontecido, seguiram amigas. Com a amizade voltando, se encontravam todos os finais de semana. Até que se beijaram outras vezes, e outras, outras… tornou-se frequente. Foram 6 meses de encontros. Nesses meses, Giovanna se dizia hétero, mas estava ficando com a Letícia. Depois, até entender e processar, no seu tempo, começaram de fato a namorar. Quando a família da Giovanna descobriu sobre o namoro e tudo ficou muito difícil, ela estava no começo do estágio e foi bastante acolhida pela chefe. Conta também que foi muito importante tudo isso não ter acontecido durante a pandemia (e sim antes) porque seria tudo mais difícil, como um cárcere privado. Ela vivia entre regras muito rígidas de horários para chegar, satisfações para dar, colocavam uma culpa muito grande em cima dela e também da amizade que a Letícia tinha com a mãe dela. Prometiam dar carro de presente se elas terminassem ou coisas do tipo. Mantiveram o namoro marcando encontros em lugares aleatórios e pensaram em desistir várias vezes, mas seguiram juntas em todos os momentos. Aos poucos, a família toda da Giovanna foi aceitando (para além dos pais). Em um evento importante, por exemplo, foram todos juntos de carro. Com o passar do tempo, a Letícia conseguiu até abraçar o pai dela (coisa que nunca imaginaria no início), foi realmente um processo, por mais que não se falem muito, reconhecem o grande avanço. Na pandemia em si, mesmo a Letícia não podendo estar dentro da casa da Gi, ela ia até o portão, fazia de tudo para se mostrar uma pessoa presente, fazia as compras do mercado para eles e eles foram reconhecendo seu esforço. Por um tempo, a mãe da Giovanna precisou de cuidados de saúde e foi a Letícia quem ajudou, trazendo também uma amiga enfermeira para dentro de casa. Acreditam que mesmo com as situações ainda difíceis - porque nem tudo passou - continuam aqui e não desistem porque cada vez mais falta menos para a Giovanna se formar e conquistarem tudo o que sonham: principalmente, a independência. Letícia acredita que amar é a essência do ser humano e que mesmo as pessoas não sendo carinhosas, elas podem demonstrar o amor de outras formas. Traz sua mãe como exemplo, que não demonstra tanto amor nos atos de carinho em si, mas que sempre a ensinou a amar. Diferente da mãe, ela ama beijar, abraçar e demonstrar. Se vê totalmente disposta a ajudar. Giovanna sente que pelas marcas da vida passou muito tempo se blindando de sentir coisas, não se permitindo demonstrar afeto. Aos poucos, tem se permitido cuidar mais, sentir mais o toque, mas ainda mantém o pé no chão, cuida de quem se permite confiar. Por fim, verbalizam o quanto desejam ficar juntas, construir uma família e viver coisas juntas. E concluímos: merecem tudo isso. ♥ ↓ rolar para baixo ↓ Letícia Giovanna

  • Kamylla e Marcia

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Kamylla e Marcia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Marcia e Kamylla se conheceram na faculdade, ambas cursando Engenharia na UFRJ, quando um amigo em comum perguntou para a Márcia se ela se interessava pela Kamylla (e por qual motivo elas nunca teriam ficado) e ela contou que não sabia quem era/que também nunca tinha pensado na possibilidade, foi aí, então, que se adicionaram nas redes sociais. Na época, final de 2019, Kamylla começou a se envolver com uma mulher e logo namoraram brevemente - o que descartou qualquer possibilidade para Márcia - mas elas seguiram ali, uma na rede social da outra. Foi um tempo depois, já na pandemia de Covid-19, que a Kamylla fez um post de madrugada no Facebook, dizendo se sentir uma idiota por conta de um desastre na cozinha e Márcia respondeu, obrigando-a pedir desculpa para si própria, porque ela não era uma idiota, não deveria se tratar assim. Nessa madrugada, elas começaram a conversar. Com a abertura da primeira conversa, surgiram outras: falavam principalmente sobre dúvidas que tinham em relação à faculdade. Márcia sentia que não queria falar apenas sobre a faculdade e sim demonstrar algum interesse além, foi quando pediu o Whatsapp da Kamylla, mas ela numa brincadeira/num flerte equivocado, disse que não iria passar. Continuaram conversando pelo Instagram e pelo Facebook, até que descobriram que moravam próximas e tinham coisas em comum. Como estavam num período de aulas interrompidas pelo início da pandemia, elas conversavam o tempo todo. Era uma conversa que durava o dia todo, tanto que, quando iam dormir, sonhavam que ainda estavam conversando. Por morarem próximas, depois de um tempo entre conversa e aproximação, decidiram se encontrar ao ar livre, indo até o local caminhando e usando máscaras. Tinham muito medo, pois seus familiares pertenciam aos grupos de risco, então tomaram muitos cuidados e se encontraram em praças do bairro. Aos poucos, com os encontros, foram se apaixonando e se permitindo uma aproximação mais física, mesmo que envergonhadas e tímidas, até que finalmente se envolveram. Desde que o namoro começou, já vivenciaram diversos momentos difíceis. Para a Kamylla, foi a partir dessas dificuldades que ela aprendeu a entender o que era o amor - e amar de verdade. Não diz isso com romantizações, pelo contrário, é de uma forma bem direta e real. Tudo o que elas já enfrentaram juntas, entre problemas de saúde física, saúde mental como depressão, ansiedade, vida financeira, ou outros extremos como felicidades e bons detalhes cotidianos - mas principalmente, as dificuldades - a faz entender que não é qualquer pessoa que conseguiria aguentar isso com ela. O sentimento que faz a coisa acontecer, elas continuarem ali e a vida seguir é o amor. E hoje em dia, ela não consegue se imaginar fazendo qualquer coisa sem a Márcia porque as coisas são mais divertidas com ela, uma segue ensinando a outra aos poucos o propósito do que é a vida. No lugar onde estávamos, o Forte de Copacabana, foi onde elas comemoraram o primeiro ano de namoro. Lá, Márcia deu um colar de concha para a Kamylla, essa concha representa um dia que foram até a praia e a encontraram na areia. O colar foi feito pela própria Márcia e, desde então, a Kamylla por trabalhar na Marinha e ter contato com a Baía de Guanabara encontra algumas conchas e traz para a Márcia de presente. É um símbolo que sempre as une. A relação que tanto a Kamylla, quanto a Márcia possuem com suas famílias é muito forte, e esse laço também se faz presente no quanto a família de ambas apoiam o relacionamento delas. Kamylla acredita que por serem pessoas humildes, sempre farão de tudo para ajudar uma à outra. Para ela, amar é também sempre estar disposta a ajudar, é a forma que ela pode demonstrar esse amor presente: se apresentar com disposição quando existir alguma dificuldade. Assim, ela já ajudou diversas formas não só a Márcia, como a família dela, e teve a ajuda da Márcia e de sua família como retorno - é uma grande parceria. Elas entendem que estarem juntas é o mais importante e, para a Márcia, não há como aceitar pouco no amor. “Quando amamos, amamos de verdade”. Ela explica que amar o próximo também fala muito sobre amor próprio, porque não podemos aceitar menos do que merecemos, e amar a si próprio faz com que você ame o outro melhor - até para evitar traços tóxicos, abusivos, ter mais carinho e melhor comunicação. Márcia gostaria de viver em um lugar com menos violência contra mulher. Está cansada de ver tantas situações diárias em que somos violentadas. Cita o caso recente do anestesista que violentou uma mulher grávida durante o parto, os casos de violência contra mulher que acontecem diariamente nas ruas ou dentro de casa, o racismo que não é levado a sério, os homens que não pagam pensão e não são punidos por isso… tudo é passado batido e não é cobrado como deveria ser, tratado com respeito e seriedade. Nos cansa lutar diariamente, mas é o que ela gostaria de ver mudando para que pudéssemos viver em um país mais justo. Já a Kamylla, fala um pouco sobre a sua rotina no trabalho, entre o que ela vivencia na Marinha. Lá, ela não é militar, mas também não vive em espaços de subordinação. Entende que isso é o correto: todos são tratados iguais e, mesmo que ela seja a única mulher e a única lésbica dentre todos os homens do seu setor, segue sendo tratada bem e é assim que precisa ser. Porém, também não há representatividade. Sente muita falta de ver mulheres em posição de liderança, de protagonismo, de voz. Cita Jaqueline Góes, biomédica que ela leva como referência, e o quanto é importante ver trabalhos de mulheres atingindo espaços que antes eram predominantemente masculinos. ↓ rolar para baixo ↓ Márcia Kamylla

  • Bruna e Fran

    a palavra está com elas Desejamos que esse veículo criado com tanto carinho pela Fê possa possibilitar encontros e identificações. Somos duas mulheres que se amam e desejam que as Zami’s e sapatas da vida possam amam pluriversalmente. Se precisarem podem nos encontrar no @pretadireta e @quedebatee. Um grande beijo cheio de axé! Bruna produz conteúdo na internet, é um hobbie muito grande. Fala sobre a negritude, a saúde (por ser técnica de enfermagem), sobre a diversidade e a inclusão. Ela se inspira sempre na avó, porque foi a mulher que fez tudo por ela e que ensinou a nunca desistir. Quando pergunto sobre como foi enfrentar a pandemia na linha de frente, ela diz que foi um dos maiores desafios que já viveu - “enquanto todos estavam em casa, eu estava saindo para trabalhar”. E fala, também, sobre como para as duas é difícil viver esse período (e o governo Bolsonaro). Por outro lado, entendem e se fortalecem na importância que tem a profissão delas para a sociedade e tentam conscientizar o máximo de pessoas falando sobre a importância de nos cuidarmos em tempos tão incertos. A Fran gosta muito de se envolver em grupos de pesquisa e também faz yoga. Ela e a Bruna se conheceram pelo Facebook, e a Bruna, na maior cara de pau (calma, amiga, não fica com vergonha!!), mandava um textinho “tipo copia e cola” xavecando as meninas. A Fran deu bola e elas trocaram uma ideia, que segundo a Bruna, “foi muito culta e eu não entendi nada direito”. E vocês acreditam que um tempo depois a Bruna achou ela no Instagram, não se ligou que era a mesma pessoa e mandou o texto novamente??? A Fran realmente não entendeu nada, mas seguiu o papo. No dia em que elas tiveram o primeiro encontro, era aniversário dela! E a Bruna levou chocolates, foram numa loja, depois na Casa de Cultura Mário Quintana e comeram um xis. Na hora de ir embora, a Fran tomou a iniciativa do beijo. Deu certo. Quando pergunto como elas se sentem morando em Porto Alegre, elas dizem que amam estar na Cidade Baixa (o bairro boêmio), mesmo que agora, na pandemia, circulem pouco. Falando em circular, até mesmo antes da pandemia, isso já era uma questão complicada pelo medo de andarem por aí e sofrerem violência - assaltos, violência urbana e também hostilidades por serem mulheres andando na rua de mãos dadas. Já sofreram assédios e passaram por momentos difíceis na rua e isso faz com que elas estejam sempre em alerta (se uma sai mais feminina, a outra não está tanto… dependendo do horário ou da rua tentam não dar as mãos…) e comentam que se pudessem mudariam a educação das pessoas, o jeito que nos olham e que os homens invadem nossos corpos. Em uma hora, brincamos sobre a vontade de viver numa cidade sem os homens agindo dessa forma, mas logo chegamos na conclusão de que isso seria muito pior: não queremos que eles sumam de vista, sendo machistas só que em outro espaço, mas sim que deixem de ser. Que se reeduquem, que nos respeitem. Se simplesmente tiramos eles da nossa bolha, eles nunca vão aprender. Mas ainda sobre a Cidade Baixa, quando pergunto o que mais gostam de fazer juntas, vem logo um sorriso no rosto das duas: preparar coisinhas para comer e beber, subir no terraço e ficar lá, conversando, ouvindo música e rindo sobre a vida. Nesse momento entendi que é onde elas percebem que formaram um lar. ♥ A Bruna tem 22 anos, é técnica de enfermagem e desde 2017 namora a Fran, que tem 24 anos e é assistente social. Ano passado, diante do começo da pandemia, decidiram morar juntas. Alugaram um apê, adotaram uma cachorrinha (que é absurdamente feliz!) e se sentem em construção (e desconstrução!) o tempo todo: no lar, no relacionamento, na prática e na ideologia. Quando pergunto sobre o amor, elas respondem logo que amar envolve respeitar. Com a relação, elas têm entendido que não são pessoas perfeitas e nem vivem uma vida perfeita, e que o amor precisa dar conta disso, ser sincero, não exigir algo que não existe. Elas estão sempre repensando sobre a parceria que constroem e que não querem ultra romantizar o fato de serem duas mulheres negras, retintas, que se relacionam. Vivem isso na prática. Bruna falou que, no geral, para mulheres negras é difícil romantizar e ter seus corpos romantizados porque as coisas nunca foram bonitas, tudo o que se foi conquistado envolveu muita luta. Suas ancestrais sempre tiveram as coisas sendo negadas, suas mães, avós, bisavós… sempre foram tratadas apenas como amas de leite. E para entender o amor e as relações, agora, elas precisam se olhar, olhar para o relacionamento, se amar enquanto indivíduo e "amar a outra mulher que é como você". O amor, é também, trazer a pessoa para perto, entender onde se erra e onde se acerta em conjunto porque na prática a vida consegue ir e vir além do coletivo (e do que estudamos sobre as relações humanas na teoria). Elas buscam sempre entender de onde vêm os sentimentos, saber como deixar a comunicação mais aberta e se apoiar sem invadir o espaço de cada uma. Só se prontificar a entender a dor de outra mulher, às vezes, não é o bastante. São diversos tipos de dores diferentes que podemos sentir e precisamos de tempo para processar. A Bruna e a Fran são mulheres que frequentemente pensam na ressignificação das coisas. Quando passam por alguma dificuldade, tentam compartilhar ao máximo para gerar apoio, mas também respeitam o que pode ser algo profundo e interno e dão o espaço necessário para cada uma se reorganizar espiritualmente. No fim do dia sempre tentam, de alguma forma, compartilhar como foi, o que têm pensado… dividir felicidades e angústias. Bruna Fran

  • Juliana e Bianca | Documentadas

    Juliana estava com 47 anos no momento da documentação. Natural de Salvador, é bibliotecária na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Já morou em várias cidades interioranas devido ao trabalho, e também é apaixonada por história e turismo, o que a fez cursar um MBA na área - se apaixonando, principalmente, pela história baiana. Bianca, por sua vez, estava com 43 no momento da documentação e também nasceu em Salvador. É técnica de TI. formada como analista de sistemas. Juntas desde os anos 2000, quando ainda cursavam faculdade, enfrentaram uma jornada de muitos desafios. Bianca, já segura de sua identidade lésbica, encontrou Ju num momento em que ela ainda enfrentava muito preconceito dentro de casa por descobrirem que se relacionava com mulheres. No começo, havia vivido um relacionamento com outra mulher - que até surgiam dúvidas de entender se era mulher ou homem gay, era uma sociedade com nomenclaturas muito falhas, entendiam enquanto um ser andógeno, mas para a Ju sempre foi algo muito natural, nada forçado, gostava dela assim - a questão é que a descoberta desse relacionamento trouxe conflitos intensos na família, com muitos episódios de rejeição e controle. Esse período turbulento acabou por uni-las ainda mais quando se conheceram. Decidiram morar juntas logo no início, construindo uma vida longe do preconceito e embarcando em um ciclo de mudanças. Cada nova cidade trouxe a oportunidade de vivenciar culturas diversas dentro da Bahia, um aprendizado que valorizam profundamente. Sempre que uma precisava buscar um novo trabalho, a outra acompanhava, foram anos vivendo uma parceria que hoje em dia entendem como a base do amor. Bianca acolheu Juliana nos momentos mais difíceis, quando o preconceito da família de Ju tornou insustentável sua permanência em casa. A situação passava muitas vezes do limite: alimentos e produtos de higiene eram separados e chegou a tomar banho com sabão em pó. Além disso, havia fofocas constantes na vizinhança por causa do relacionamento com outra mulher. Decidir morar juntas foi uma decisão necessária, e além disso, libertadora. Juliana reconhece que não foi expulsa de casa, mas a convivência havia se tornado muito dura. Sair de casa foi uma escolha para viver o amor com Bianca e também para dar um basta nas condições opressivas que enfrentava, até uma nova chance de lidar. Até porque, mesmo antes de conhecer Bianca, Ju vivia o preconceito - a relação lhe deu impulso para mudar. Ainda morando com a família, começou a buscar empregos nos anúncios de jornal e conseguiu uma bolsa na faculdade, o que a mantinha fora de casa durante o dia todo. Elas se conheceram por intermédio de uma amiga em comum. Ju não tinha o hábito de sair à noite, mas foi jantar com a amiga, que mencionava Bianca com frequência. Apesar de inicialmente relutantes sobre se envolver, naquela noite a amiga insistiu e Ju foi até Bianca, no outro lado da cidade. Quando chegou, Bianca disse para o amigo: “Essa é a menina da minha vida.” Foram em um dos bares gays da cidade - lugares chamados de GLS na época. Contam que a maioria dos bares gays limitavam um dia da semana para as mulheres frequentarem, outros elas entravam mesmo sendo - obviamente - minoria. Hoje, olhando para trás, Ju reflete sobre o quanto tudo já mudou – e o quanto ainda precisa mudar. “Naquela época, tudo era sobre ser ‘entendida’, mas entendida de quê?”, ela questiona. Hoje, fala com mais leveza sobre ser uma mulher lésbica, mas deseja um futuro onde rótulos sejam desnecessários. “Sonho com o dia em que não precisaremos justificar quem somos, onde seremos representadas na mídia de forma natural, porque estamos em todos os lugares na vida real. E queremos estar de forma segura.” Com apenas três meses de relacionamento, Juliana e Bianca decidiram morar juntas. Montaram seu primeiro lar em um bairro periférico, com poucos móveis, um cachorro e a certeza de que queriam construir esse relacionamento. Enquanto a família de Bianca frequentemente as visitava no início por morar nas proximidades, a família da Ju, que ainda não aceitava o relacionamento, não sabia onde exatamente ela morava. Cinco anos depois, a mãe da Ju decidiu se reaproximar, quis conhecer Bianca e entender como a vida delas estava. Esse reencontro foi bastante significativo, e ela ainda se dispôs a ajudar a comprar um apartamento e sair do aluguel. Hoje, a relação com as famílias é tranquila, mas a real prioridade dentro da relação é cuidar da parceria que constroem há mais de 24 anos, sempre com dedicação e amor, e seguir nessa manutenção diária para que as coisas sigam bem. Consideram as muitas mudanças que já passaram juntas, desde as cidades que já moraram no interior, principalmente sendo tão jovens e podendo ter a liberdade de viverem como um casal fora de Salvador, até montarem outros lares e enfrentarem a vida uma ao lado da outra. No começo, tiveram bastante receio e o preconceito que viviam dentro de casa se espelhou nos outros lugares, então demoraram para se assumir enquanto casal nos espaços de trabalho e nas novas amizades, mas hoje em dia tudo mudou e fazem questão de chegar deixando claro quem são, com orgulho, sem necessidade de se esconder num lugar que não lhe cabem. Ju e Bianca adoram olhar para trás e reviver os 24 anos de caminhada que construíram juntas. Para elas, o tempo só parece real quando percebem as mudanças ao redor: as crianças da família que agora são adultas, os primos que seguiram seus próprios caminhos, os amigos que já consolidaram suas carreiras. É ao revisitar essas transformações e observar o quanto seus próprios trabalhos e vidas evoluíram que se dão conta de tudo o que viveram. No entanto, isso não significa que se acomodaram - ainda têm muitos projetos e sonhos que anseiam alcançar. Talvez não sentem o peso dos 24 anos porque eles nunca foram monótonos. Marcados por constantes movimentos, com altos e baixos, desafios e mudanças. Não houve tempo para tédio ou estagnação, e essa sede de vida as manteve sempre ativas e motivadas. Nos últimos anos, o ritmo mudou um pouco: já não passam o dia inteiro juntas, trabalham em lugares diferentes, o tempo que compartilham durante a semana é mais limitado. Por isso, os finais de semana ganharam um significado mais especial, é o momento de reencontro e presença. Para Bianca, o amor é a vontade de estar junto todos os dias, aceitando tanto as coisas boas quanto as ruins. Ao pensar nas dificuldades que enfrentaram, ela afirma sem hesitar que viveria tudo novamente, pois foram escolhas conscientes e, acima de tudo, vividas com amor. Ju acrescenta que elas se tornaram uma referência de amor para amigos e familiares. Mesmo sendo diferentes - uma mais aventureira e a outra mais quieta - se complementam na maneira de enfrentamento à vida. ↓ rolar para baixo ↓ Juliana Bianca

  • Marcela e Karine

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marcela e Karine, quando o projeto passou por São Paulo! A Karine e a Marcella são aquelas pessoas que jamais conseguiriam viver sem arte na vida. Arte em todos os aspectos: a cultura no cotidiano, passando pela pintura, pelo teatro, pelo cinema ou pela dança. Dentro do apartamento em que elas moram em São Paulo fazem uma produtora acontecer - e dessa produtora já saiu websérie, ideia para Canal no Youtube, filme, peça… tudo vira vida. A produtora criada em 2018/2019, com nome La Loba, vindo do livro Mulheres que Correm com Lobos, foi um passo muito importante também para elas colocarem em frente o que acreditam: a liberdade no criar. Roteirizar, filmar, dialogar com novos atores. Criar cenas e redescobrir aspectos de criatividade, ainda mais dentro de casa, é um desafio divertido. Quando falamos sobre as ferramentas de gravar dentro de casa (por elas terem as ferramentas necessárias, desde equipamento técnico até o suporte para lançar, como o YouTube ou outras plataformas), elas comentam também que não admitem a ideia do artista pobre, essa coisa de que o artista precisa vender o almoço para comprar a janta. Não que precisem viver o luxo, mas que querem suas profissões respeitadas e valorizadas para que tenham uma vida confortável e saudável: “Ter o trabalho reconhecido”. Suas competências artísticas são enormes, estudaram (e estudam!) há anos para construir isso e é um exercício diário relembrar o quanto o teatro, a peça, o filme, a dança, a música, a expressão artística é tão importante para o nosso dia-a-dia quanto tantas outras coisas que fazemos. Karine é de Tatuí, cidade intitulada como Capital da Música, interior de São Paulo. No momento da documentação ela estava com 33 anos e contou sobre um projeto do Governo do Estado de São Paulo em que estava fechando diversos cursos universitários lá na cidade natal dela (local que a família reside até hoje), incluindo o curso que ela fez, de Artes Cênicas, que já estava encerrado. Falou sobre a dificuldade de se ver longe e ver uma cidade com tantas potências, com um dos maiores conservatórios de música da América Latina, resistindo, mas sem muitas forças perante um poder tão maior que é o legislativo. Mas que, mesmo com todas essas sensações de cultura sendo levada “embora”, não desistiria, pois da mesma forma que ela esteve lá por tanto tempo ainda há pessoas muito boas fomentando a arte nessas cidades - e não só: a arte, a história, os eventos culturais, os projetos de voluntariado, etc. A Marcella também tem uma trajetória de busca pela cultura no interior de São Paulo, mas dessa vez em Piracicaba. Ela estava com 32 anos no dia em que nos encontramos e contou que a sua trajetória na arte da cidade foi impulsionada quando começou a fazer um curso no SENAC (e, nesse curso, também conheceu a Karine). O ano era 2016, encenaram uma peça sobre A Paixão de Cristo, aprenderam muito e até ficaram amigas, mas o tempo passou e não se falaram mais. Como a cidade é pequena e todos acabam se encontrando nos espaços, em 2018 elas fizeram outra peça novamente. Estavam solteiras, interagiram e o interesse surgiu. No fim, (ou melhor, no começo) começaram a namorar. A vida em Piracicaba, mesmo que confortável, estava um pouco limitada para a carreira da Karine e da Marcella. Foi então que surgiu a oportunidade de morar em São Paulo (capital). A Karine já tinha morado em São Paulo por um tempo, sabia como a cidade funcionava, a alta opção de cursos, abrangência para novas áreas e também a concorrência muito maior de artistas chegando de todos os lugares, mas lá em Piracicaba não via mais a carreira andar no momento em que estava… e a Marcella topou o desafio. Juntas, com o incentivo de uma amiga, realizaram a mudança. Logo no começo da pandemia encontraram a casa que moram agora, um lar maravilhoso e que foi se completando com o jeito delas em cada cantinho. Foi lá que gravaram a websérie, é lá que possuem as melhores (e piores!) ideias para as próximas produções e brincam que a casa é uma grande geradora de ideias. Elas se veem como parceiras. São muito amigas e sobretudo essa companhia se torna uma âncora. Sentem amor pela companhia. Além do amor que compartilham pela arte em si e por tudo o que são envolvidas, existe o amor que sentem por estarem juntas. A arte é um refúgio e a relação delas é uma parceria. Em casa adoram assistir Simpsons, Friends, cozinhar e durante o preparo da comida fazer pausas para dançar… Também trocam momentos de criação pintando telas, criando plaquinhas e decorações para a casa, amando os filhos de quatro patas e cuidando das plantas na varanda. Não só juntas, elas também falam da importância dos momentos de solidão. De reflexão e estudo - tanto de livros quanto de estudar a si mesmo. Para a Karine, o amor veio num entendimento sobre quem ela é e isso levou muito tempo, porque ser uma mulher lésbica artista já é um processo de autoconhecimento imenso para sair de muitos padrões e “caixinhas” que nos são colocadas. “Estar livre disso e aberta para que alguém possa te olhar e te amar é um dos passos mais importantes”. Então amar a si mesma e amar a Marcella foi um processo que aconteceu de forma natural (não fácil, claro), mas na dor ou na felicidade, foi acontecendo diariamente. Essa relação de autoconhecimento reflete na Marcella através do respeito a si própria, pois ela conta que antes ela não se via com tanto respeito - hoje ela aceita que adora dançar, por exemplo, e dança! Ela respeita quem é e respeita quem a Karine é. E isso é um dos maiores aprendizados que tira da relação. No fim da nossa conversa tiramos um outro aprendizado, sobre a expressão artística em si no que envolve esse amor além do preço que colocamos nas coisas, pelo puro sentimento de quem somos e do que gostamos/amamos fazer. A Karine dá o exemplo de que uma vendedora pode continuar sendo vendedora e cantar super bem, ou um motorista de ônibus pode ser o melhor motorista e mesmo assim um ótimo pintor… a arte deveria ser vista enquanto uma conscientização social sobre a importância de fazer arte, da expressão artística, do quão essencial para o ser humano ela é - para isso, enfim, gerar coisas boas para o nosso redor enquanto sociedade. E viver essa arte, para fora do capitalismo (ou seja, você não precisar vendê-la para ganhar dinheiro/nem tudo o que você tocar precisa virar ouro) é o que elas gostariam de ver sendo refletido por aí. Marcella Karine

  • Juliana e Tayna | Documentadas

    Amor de Mil Histórias - Juliana e Tayna clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Jéssica e Brenda | Documentadas

    Brenda estava com 31 anos no momento da documentação. Nasceu no Rio de Janeiro, passou a maior parte da vida na Rocinha e veio de uma família evangélica, com valores políticos conservadores dos quais ela não concorda, que nunca refletiram sua essência. Antes de se mudar para Arraial D’ajuda, em Porto Seguro/BA, era bancária e trabalhava no setor administrativo. Foi nessa rotina, durante 6 anos, que se sentiu consumida física e emocionalmente. A saúde começou a dar sinais de alerta: problemas de visão, ansiedade, ganho de peso e cansaço. Tudo culminou no esgotamento. Em meio à pandemia de Covid-19, decidiu mudar de vida, um impulso que começou após férias na Bahia, onde ela e Jéssica vislumbraram um novo modelo de existência. Em novembro daquela viagem, a Bahia mostrou um estilo de vida mais simples e feliz, livre da pressão do consumismo das grandes cidades: conheceram pessoas que viviam como nômades ou em home office, e, em Arraial d'Ajuda, sentiram uma conexão especial. Foi ali que o sonho começou a tomar forma. Jéssica, no momento da documentação, estava com 34 anos. É natural de Belford Roxo, baixada fluminense. Nutricionista de formação, é apaixonada por cozinhar e estudar alimentos, mesmo sem atuar diretamente na área. Antes da mudança, dirigia para aplicativos de transporte e trabalhava com energia solar e reformas de elevadores. Para ela, a família sempre foi tudo, apesar das dificuldades em aceitar sua orientação sexual no início. Hoje, sua mãe não só aceita, mas admira Brenda, reconhecendo nela alguém que inspira e impulsiona Jéssica. Na hora de partir para a Bahia, foi certeiro - ainda que Jéssica tenha sentido medo - vendeu o carro e Brenda retribuiu o apoio que teve nos momentos de dificuldade anteriores: disse “Vambora!”. Alugaram uma casa, partiram para um novo negócio. Agora, o sucesso ali não é uma obrigação, mas uma possibilidade. Se não der certo, sabem que podem recomeçar em outro lugar, porque ficar paradas já não é uma opção. Foi por meio de um aplicativo de relacionamentos que Brenda e Jéssica se conheceram. Jéssica, natural de Belford Roxo, não deixou que a distância fosse um obstáculo. "Vale a pena investir porque sou uma pessoa legal". E estava certa. Em apenas 13 dias, já estavam namorando. Foi tudo tão intenso que, após os primeiros encontros, Jéssica deu a Brenda um anel feito com folha de bananeira, em um passeio no Parque Lage, no Rio de Janeiro. Juntas, adoravam passar o tempo na Lagoa, um lugar que se tornou ponto de encontro nos primeiros meses. O primeiro lar que dividiram foi no Engenho Novo, onde começaram com pouco: dois colchões e duas televisões. Brenda já vivia no bairro com sua mãe - que via Jéssica como uma amiga. Aos poucos, enfrentaram desafios e momentos importantes com a família de Brenda, construindo laços e superando diferenças. Foram mobiliando a casa com muito esforço e dedicação, cada item, desde a decoração até os utensílios mais simples, ganhou um valor especial. Cada conquista representava a luta diária das duas. Depois de outras mudanças, anos mais tarde, moraram na Rocinha, voltando ao bairro onde Brenda nasceu. "Vamos embora. Não sei o que vai acontecer, mas vamos embora. E estamos juntas nessa." É assim que elas resumem as mudanças. No começo, Brenda era mais reservada, mas com o tempo, Jéssica viu nela uma transformação que trouxe muito orgulho. "Hoje vejo a Brenda conversando com minhas amigas e fico feliz de como ela mudou", conta. Com oito anos de relacionamento, ambas destacam a importância de se comunicarem com abertura e respeito. Por mais que nem sempre concordem, sabem que haverá compreensão. Essa base sólida de apoio e admiração mútua é também reconhecida pelos amigos, que veem na relação delas algo natural, leve e inspirador. Conversamos sobre não ser apenas sobre compartilhar a vida juntas, mas algo maior: um espaço onde é possível ser amiga de si mesma, aceitar as diferenças ao redor e, acima de tudo, viver em verdade. Planejando o que seria a nova vida em Arraial d'Ajuda, Brenda e Jéssica encontraram, pelo Facebook, a casa onde moram atualmente e decidiram transformá-la em um espaço acolhedor para mulheres viajantes. A ideia foi criar algo intimista, um hostel diferenciado, com uma rotatividade máxima de 06 hóspedes, permitindo conexões mais profundas, trocas e um ambiente propício ao aprendizado e segurança. Mais do que uma hospedagem, o sonho delas é um espaço que acolha e empodere mulheres. “Queremos mostrar que o mundo também é para nós. Que a gente pode, a gente merece”. As mulheres enfrentam muito pedo de viajarem sozinhas por conta de assédios, abusos e desconfortos, então lá seria o local ideal para estarem hospedadas. Para o futuro, querem implementar práticas como yoga, terapias e atividades na rua que cuidem do corpo e da mente. Fecharam o contrato da casa à distância, na “cara e na coragem”, sem sequer visitá-la antes. “Estamos rindo mais do que chorando, e isso é muito importante” - quando Brenda diz isso, resume o sentido da jornada que têm trilhado: ganhar mais do que perder, viver plenamente com o que têm hoje. Para ela, deixar o emprego que possuíam foi um divisor de águas. Sem a pressão da rotina exaustiva, não precisou mais de remédios ou óculos. Perdeu peso e ganhou saúde, no corpo e na alma. A mudança foi além da geografia – foi interna, profunda. “A gente é criado para acreditar que o dinheiro importa mais. Que o dinheiro vai te trazer qualidade de vida. Mas não era sobre isso”. Para Jéssica, estar com Brenda permitiu que ela expandisse suas próprias percepções sobre afeto. É algo que vai além do relacionamento: é sobre construir, juntas, um tipo de amor que inspira e transforma. Brenda complementa: "Acho muito legal quando as pessoas olham e falam: ‘Caraca, elas são parceiras mesmo!’" Seja em pequenos gestos, como carregar caixas lado a lado, ou no apoio e amor que compartilham diariamente, elas mostram o significado de uma relação baseada em parceria verdadeira. Mais do que um casal, elas se veem como militantes do amor e da proteção às mulheres. Não militantes políticas, mas militantes do dia a dia, mesmo. Vivem seu amor como um ato político. Uma forma de reivindicar respeito e espaço para as mulheres em um mundo que ainda carrega tantas barreiras. Enaltecem e protegem outras mulheres sempre que podem, fazendo de sua própria relação uma inspiração para quem cruza seus caminhos. Embora já se vejam como uma família, sonham em maternar no futuro. É um desejo que vem acompanhado de receios: o medo de não serem compreendidas ou aceitas enquanto família por seus próprios parentes. Ainda assim, acreditam na força que construíram juntas para enfrentar desafios e realizar sonhos. "Nosso amor é sobre isso", refletem. "Construir, apoiar, e, acima de tudo, lutar. Por nós e pelas mulheres que ainda precisam de coragem para serem quem realmente são." ↓ rolar para baixo ↓ Brenda Jéssica Quittéria

  • Bruna e Manô

    Quando pergunto sobre o amor entre mulheres, Bru diz que sente o amor entre mulheres ser muito diferente que os demais relacionamentos na sociedade. Não só pelo cuidado e pelo respeito, mas sobre saber escutar, tentar e compartilhar as necessidades. Manô diz que o amor em geral, para ela, é ter segurança. É acolher e é sentir algo que te nutre para enfrentar outras coisas na vida. Além disso, o amor entre mulheres é uma força da natureza absurda. “Tem uma conexão absurda, são vivências diferentes, realidades diferentes, mas ao mesmo tempo vão se complementando e se identificando.” Ela conta que se encontrou enquanto pessoa quando começou a se relacionar com mulheres, e isso implica não só conexões românticas, mas relacionar-se com mulheres no dia a dia, no afeto, na amizade, no cuidado. Brinca que é uma conexão mística, uma sintonia e construção de relação diferente de qualquer outra. Falam sobre como é ocupar a rua enquanto uma mulher lésbica também, o medo que sentem por não performarem feminilidade “é como se agredissemos os olhos desses homens”. Ao mesmo tempo que muitas vezes vem um sentimento de só querer rebater o preconceito, em outros momentos se sentem muito fragilizadas. Bru comenta sobre o medo que sente com coisas que deveriam ser tão básicas, como usar um banheiro público, por conta da alta violência... e ambas entendem que as coisas só vão mudar realmente quando mulheres feministas ocuparem espaços de poder, porque a cidade é pensada por quem está ocupando esses espaços. Elas decidiram morar juntas há bastante tempo e a decisão surgiu pela facilidade de locomoção, apoio financeiro e melhoras no relacionamento. A Bruna morava mais distante do centro, numa casinha no terreno da família e Manô foi para lá também, não precisariam pagar aluguel, mas reformaram a casinha e deixaram mais confortável. Na pandemia, por alguns problemas familiares, a mãe dela passou a morar na casa também. O espaço foi ficando mais apertado, mesmo que elas tivessem acolhido a mãe e estabelecido algumas regras para a casa. Contudo, sabemos que não é fácil passar por tempos de pandemia, com todas dentro de casa, o dinheiro curto e sem perspectivas de melhora, então a questão da convivência foi ficando insustentável e elas decidiram sair de lá. Foram acolhidas por dois amigos num apartamento na Cidade Baixa, no centro de Porto Alegre. Ficaram na casa dos amigos por alguns meses, até conseguirem o apartamento em que estão morando agora. Hoje em dia dão muito valor à ele, cuidam bastante, contam como foi muito batalhado conseguirem achá-lo, se mudarem, decorarem com a carinha delas… esse espaço significa um lugar de empoderamento, em que ninguém pode falar nada para elas, é a zona de conforto, o lugar onde o preconceito não entra. Sabe aquela história de rebuceteio bem bem bem clássico? então, aqui temos. Bruna e Manô se conheceram porque ambas possuem uma ex em comum. Manô terminou com uma menina e Bruna começou a namorar a mesma, logo depois, mas elas (Bru e Manô) não se conheciam. Foram se conhecer pessoalmente quando trabalhavam em bares vizinhos e a Bruna, com seu grupo de amigos, vivia frequentando o bar que a Manô fazia uns trabalhos de vez em quando. Decidiram investir em um ‘acordo de paz’, já que, mesmo que ela fosse a atual da ex, não tinha motivo para não conversarem e gerar climão nesses momentos… então criaram uma amizade. Com o tempo, o relacionamento da Bru com a menina desandou consideravelmente, ela não se sentia bem, não estavam conseguindo se comunicar, conversar… uns dias se passaram e numa das saídas entre os bares vizinhos, ela e Manô sentiram algo. Ficaram em um dia, não foi nada combinado, mas na próxima vez que a Bru viu a menina resolveu terminar o relacionamento, não sentia mais motivos para seguir. Depois disso ela ficou com a Manô durante um tempo, meio que sem ninguém saber, até que no dia dos namorados (ou melhor, das namoradas), assumiram o novo namoro. Manô tem 25 anos, é psicóloga e ativista social/uma das coordenadoras da ONG Somos (um grupo situado em Porto Alegre (RS) que realiza ações transdisciplinares, tendo como base os direitos sexuais e direitos reprodutivos) e trabalha no SUS atendendo pessoas que vivem com doenças sexualmente transmissíveis e AIDS - um projeto que traz, através da psicologia, a importância do tratamento, incentivando os novos pacientes a participarem e resgatando os que, por algum motivo, abandonaram. Bruna tem 29 anos, é bartender e sempre trabalhou com bares e eventos. Fez diversos cursos, ama essa profissão. Hoje em dia descobriu também a gastronomia, uma nova paixão. Aprendeu a equilibrar a comida com os cocktails e durante a pandemia desenvolveu uma empresa para vender comidas veganas. Bru fala sobre o quanto pra gente ser ‘bem sucedida’ tem que dar muito mais corre, ainda mais ela enquanto uma mulher negra sapatão trabalhando em um dos melhores bares de Porto Alegre. Ela está sempre se superando, sempre batalhando, sempre melhorando expectativas. Enquanto a militância é o maior “hobbie” da Manô (viver entre reuniões e eventos), Bru conta que sua vivência sempre foi mais longe do movimento - e isso faz com que sua verdade seja o que ela vive diariamente nas ruas, nos lugares, fora dos meios acadêmicos. Manô fala sobre querer estar em espaços mais lésbicos, porém entende que muitas ONGs sempre são, em sua maioria, compostas por homens gays... e justamente por isso quer seguir ocupando esse espaço. Não quer que as mulheres fiquem em lugares mais afastados, mas sim que estejam debatendo e construindo o movimento LGBT como um todo. Manô Bruna

  • Rennata e Vanessa

    A Renata e a Vanessa se conheceram em 2016, mas até começarem a namorar, quaaase em 2018, viveram um roteiro digno de novela intensa. Elas são de Fortaleza, capital do Ceará. Ou melhor, a Renata é de Maracanaú, uma cidade que pertence à região metropolitana. Foi na Praça da Gentilândia que escolheram fazer as fotos, a praça (e o bairro de Benfica em si) possui muitos significados na história das duas e durante a conversa fomos revivendo diversos momentos. Nessa história existe uma versão sobre o dia que elas se conheceram da qual a Renata não se lembra - sim, ela não se lembra de ter conhecido a Vanessa - mas calma que as reviravoltas chegam. Esse dia aconteceu entre diversos eventos na universidade (tinham calouradas, manifestações políticas…) e muitas pessoas circulavam pelos Centros de Humanidades do campus. Foi ali que elas se esbarraram, entre amigos em comum e a Vanessa até deu um cigarro para a Renata, mas ela justifica com o álcool o fato de não lembrar desse encontro rápido. Um tempo depois, a Renata estava cursando fotografia num lugar que propõe diversos cursos gratuitos e conheceu uma menina do curso de jiu-jitsu (ela até se aventurou no jiu-jitsu depois dessa amizade!), elas ficaram amigas e na época a Renata saía com uma oooutra menina, então decidiram marcar de se encontrar e beber um dia na Praça. A amiga disse que levaria outra amiga, para não ficar sobrando entre as duas e, quando chegou lá, essa amiga era a Vanessa. Renata até brinca que quando viu a Vanessa ela sentiu um forte impacto, então ok não lembrar do cigarro, né?! Já que esse dia é o verdadeiro dia do impacto! Elas conversaram durante a noite toda e a Vanessa brincou várias vezes que jamais conseguiria se envolver com alguém que tem o mapa astral como o da Renata… Isso despertou na Renata a certeza de que ela nunca teria chances com a Vanessa, ficou até pensativa sobre, mas depois desse dia se adicionaram no Facebook e a Vanessa chamou ela para alguns eventos. Demorou um pouco para que saíssem e quando aconteceu pela segunda vez, foi novamente na Praça o ponto de destino. Elas passaram a noite com diversos amigos e uma comunicação totalmente atravessada, principalmente porque a Renata não assimilava nada enquanto um flerte, já que havia aceitado que não teria chances, por mais que a Vanessa insistisse e deixasse (na versão dela) claro. Então, quanto mais amigas elas ficavam, em outros eventos elas se encontravam e o resultado era igual: sempre saíam e beijavam outras pessoas. No dia 17 de maio de 2017 (sim, quase um ano depois!), na mesma Praça, teria um evento em referência ao Dia Internacional Contra a Homofobia e a Vanessa convidou a Renata, que já estaria por lá fazendo um trabalho. Elas foram juntas, mas as pessoas demoraram a chegar e ficaram sozinhas no evento, sentadas. Foi então que a Vanessa soltou a frase: “E esse beijo?! Vai sair que horas?!” e a Renata se desconcertou por completo, abrindo um sorriso. Foi logo depois desse momento que, finalmente, elas se beijaram. Elas contam que nesse dia estavam todos aguardando acontecer o impeachment do Michel Temer (aquele famoso momento em que ele entrou ao vivo e disse, depois de uma pausa enorme: Não renunciarei). Portanto, nem rolaram as gravações que a Renata iria participar trabalhando na Praça e elas ficaram juntas mais tempo, depois foram embora. Depois do primeiro beijo elas começaram a conversar todos os dias, num ritmo muito diferente do que era anteriormente, além de se encontrar em todos os intervalos possíveis na Universidade. Na época, a Renata estava “de rolo/ficando” com um menino e elas contam que, mesmo amando esse primeiro momento de conhecimentos e conversas, foi também um período muito conturbado. Passaram 7 meses num relacionamento sem rótulos, ficavam com outras pessoas e acabavam brigando muito, era uma comunicação bastante difícil porque envolvia um respeito em saber os limites e no querer deixar livre, mas por outro lado uma carga muito intensa entre elas. Hoje em dia, elas recordam o quanto as duas terem um acompanhamento terapêutico na época foi fundamental para entenderem o que estavam vivenciando e conseguirem visualizar tudo com maior clareza. A chave só virou quando, depois de uma briga por coincidência, elas se encontraram em um ensaio fotográfico do qual a Vanessa estava sendo modelo. Quando a Renata chegou, deu de cara com ela já em frente à câmera posando e surgiu um clima muito estranho. Depois do ensaio elas saíram e a Renata contou sobre um sonho que ela teve, do qual elas caminhavam em um lugar e a Vanessa olhava para ela e dizia “E é por isso que eu te amo.”, e ela se sentia totalmente surpresa, porque não era algo que esperava ouvir da Vanessa. Enquanto ela contava a Vanessa ficava olhando, bastante atenta em cada detalhe. Um tempo depois do sonho, elas estavam conversando online sobre 5 coisas que gostavam uma na outra, e a resposta da Vanessa foram as 5 coisas e um extra: a 6. estava escrita: “E é por isso que eu te amo.”. Ler a declaração foi algo que fez a Renata ficar completamente surpresa, ela estava na faculdade e contou para um amigo, que perguntou se ela também amava a Vanessa e ela respondeu sem hesitar que sim. Foi então que muita coisa mudou. Quando elas perceberam esse amor que sentiam e se permitiram falar isso, a comunicação ultrapassou diversas barreiras. Elas ficaram mais próximas e se enxergaram de uma forma diferente, sendo carinhosas e estando confortáveis uma com a outra. A partir disso, assumiram o relacionamento, não se envolveram mais com outras pessoas e se viram dispostas a estarem juntas. A Renata tem 24 anos, faz Biblioteconomia, adora basquete e tem uma loja de camisetas (que vocês podem conferir clicando aqui!). Ela faz estágio em um Instituto de relações internacionais que dialoga entre o Brasil e alguns lugares da África e seu papel é organizar a biblioteca do lugar. Além disso, é apaixonada por fotografia e por audiovisual. A Vanessa tem 24 anos, é psicóloga, possui uma loja de acessórios e também ama fotografia. Ela dedica boa parte do seu tempo aos estudos sobre diversidade e relações raciais (com foco nas mulheres negras - que inclusive foi o tema do seu TCC) e, junto com a Renata, participa de um Coletivo LGBT em Fortaleza. A Vanessa fala sobre como foi se entender enquanto uma mulher negra e que suas referências vieram desde dentro de casa - pela mãe - até por figuras representativas na história e na literatura, como Marielle Franco, Djamila Ribeiro, Ângela Davis e Sueli Carneiro. Falamos também sobre as diversas coisas que fizemos e a importância de destacarmos isso dentro da nossa comunidade (como elas, que trabalham com suas profissões mas têm muitas outras profissões e já fizeram muita coisa por fora de uma palavra só que define formação) e de como precisamos incentivar o mercado de trabalho para quem faz de tudo nessa sobrevivência ao cotidiano. A Renata também lembra da mãe e, além disso, no âmbito artístico, diz que o primeiro professor de cinema é quem inspira e quem contribuiu para o reconhecimento próprio. Além disso, uma professora da faculdade a inspirou muito a seguir no curso de biblioteconomia. Hoje em dia, elas sentem que a comunicação foi um dos maiores saltos no relacionamento. E, por mais que ainda existam desavenças, conseguem dialogar e ficar bem. Nesse momento fica mais claro o sentimento de amor para a Vanessa, porque volta ao que falamos inicialmente, de que precisa ser vivido com respeito. Ela acrescenta também o fato de que um problema delas é delas, mas um problema vivido por cada uma é compartilhado quando elas se sentem à vontade para isso (e por isso a comunicação serve para também trazer confiança no amor). Por fim, a Renata enxerga o quanto evoluíram, enquanto um casal e enquanto indivíduos. Ela acredita que o amor entre mulheres é mais carinhoso e cuidadoso e que, se pensado de uma forma romântica, ela se sente muito mais à vontade com mulheres. Já viveu situações em que homens abordaram a forma de se relacionar não-monogâmica dela enquanto algo sem limites, sem pudor e sem responsabilidade afetiva, enquanto ela não enxerga o amor assim. E, de uma forma não romântica, sente que as mulheres se identificam e se encontram, pensando nas relações familiares que construiu e no quanto o apoio é absolutamente natural entre as mulheres da casa. Fora da galeria Rennata Vanessa

  • Thalita e Lia | Documentadas

    Amor de Se Sentir em Casa - Lia e Thalita clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Dandara e Raquel

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Dandara e da Raquel, quando o projeto passou pela Bahia!. Foi por uma brincadeira entre a Dandara e a amiga que estava hospedada na casa dela, que a história de amor entre Dands e a Raquel começou. Vamos lá, eu explico: Era um dia ruim, ela estava chegando em casa triste e amargurada, quando abriu a porta e viu a amiga se divertindo olhando para o celular. Na hora, indignada, perguntou por qual motivo estava rindo, se tudo nesse mundo andava tão ruim. A amiga contou que tinha baixado o Tinder e estava conversando com um cara que de tão sem noção chegava a ser cômico - o papo era muito ruim, todo errado, mas ela estava até se divertindo e disse “Amiga, baixe o Tinder também, dá match com ele! Vamos ver se ele vai dizer o mesmo pra ti!”. Na hora Dandara imediatamente duvidou do algoritmo. Mas é aquela coisa: com algoritmos não se brinca. Ela viu a conversa, tomou um banho e decidiu baixar o aplicativo. Realmente achou o cara, deu match e aconteceu o que esperavam: um copia e cola da conversa com a amiga. Acharam tudo bizarro e riram a noite toda dessa situação. Entre rirem da própria desgraça, Dands resolveu usar o aplicativo um pouquinho, mesmo que não estivesse tão disposta a conhecer pessoas, até que deu match com a Raquel. Raquel, por sua vez, tinha acabado de sair de um relacionamento que fora bastante traumático e usava o Tinder para se distrair e conhecer outras possibilidades de conversas. Durante o ano de 2021, quando conheceu a Raquel, achou que ela seria uma ótima companhia. Foi quando conversaram, decidiram ir ao museu juntas e passaram o tempo todo só conversando, nem chegaram a se beijar. Depois do primeiro encontro que tiveram no museu, Raquel e Dandara seguiram conversando e saindo, até que ficaram. Um mês depois do primeiro beijo começaram a namorar. Dandara não aceitou o pedido de namoro da primeira vez - pois é, Raquel até pediu, mas ela disse: “Não.”. Nada mudou, seguiram ficando. Entendem que precisavam resolver outras situações, relacionamentos inacabados e medos de se relacionar seriamente. Precisavam entender seu tempo. Por mais que não queriam namorar, seguiam ficando e não ficavam com mais ninguém, foi quando Raquel desistiu e falou: “Não vou mais falar sobre o assunto. Ela está namorando, só não quer ver”. E assim seguiram, até que um tempo depois foi Dandara quem fez o pedido e oficializaram o relacionamento. Hoje em dia, no momento da documentação, anos depois do começo do namoro, nos encontramos num dia turbulento em meio à mudança de apartamento delas: vão morar juntas pela primeira vez. Entre carregar coisas de um lado para o outro, arrumar caixas e comprar móveis, tiramos um tempo para tomar um café no Pelourinho, lugar escolhido por ser bastante frequentado por elas. Dandara no momento da documentação estava com 26 anos, ela é natural de Salvador, trabalha enquanto estagiária em advocacia e tem um grande hobbie na fotografia - também trabalhando nessa área no tempo livre. Raquel no momento da documentação estava com 27 anos, também é natural de Salvador, trabalha com auditoria e conta que tanto ela quanto Dandara possuem ligações muito fortes com a Umbanda e o Candomblé, então além dos hobbies, no tempo livre estão muito presentes em suas religiões. Conversamos muito sobre o quanto o processo da mudança vem sendo algo significativo para elas - e como documentá-las nesse momento também é importante. Dands conta que é uma pessoa muito apegada aos seus bens materiais, que a grande maioria das suas coisas representa sentimentos, pessoas, momentos… e a mudança está sendo um passo muito grande em praticar o desapego. Uma nova e desafiadora fase. A mudança também representa o novo desafio da convivência, com questões de casa, detalhes do cotidiano, novos conflitos ainda não vividos… coisas que também são boas. Antes de se relacionarem, entendem que passaram por muitos momentos difíceis, traumas, situações que faziam com que não falassem e se abrissem, viviam com marcas guardadas. Juntas começaram o exercício de falar e investigar uma à outra e acreditam que morando juntas isso possa se tornar ainda mais forte. Para Dandara, amar é ser companheira. Ela acredita que ser uma mulher preta se relacionando com outra mulher preta é algo político 100% do tempo, algo muito intenso que fala também sobre sua própria raíz. Raquel não quer ficar falando o tempo todo que beija mulheres, ficar reafirmando, quer ser tratada com normalidade, mas entende também que colocar como normal não adianta num momento que precisamos reivindicar, por isso se coloca nos espaços de luta. Para ela o amor é uma construção contínua - você se descobrir e redescobrir. É também estar sempre acrescentando nas relações: “Talvez algo já existe em você e o outro te ressalta, te soma”. Ela conta que quando brigam ou discutem/se veem nessas situações difíceis, sente que precisa sentar, conversar, se localizar no que está acontecendo, colocar pra fora. ↓ rolar para baixo ↓ Raquel Dandara

  • Lilian e Marcella | Documentadas

    O encontro da Lilian e da Marcela com o Documentadas aconteceu poucos dias antes do casamento delas - que não seria nada convencional - um casamento temático de festa junina! Nos encontramos em sua casa (que também é o lugar onde trabalham sendo padeiras) e estavam entre muitos preparos: desde as últimas encomendas da padaria, pois sairiam de férias/e lua de mel logo após a cerimônia, até as preparações do casório porque tudo foi feito entre muitas mãos - comidas, decorações, lembranças… não contrataram buffet ou empresas para isso, contaram com os próprios serviços e de amigos que também trabalham com gastronomia. A festa foi dedicada a reunir pessoas que amam e fazer todas se sentirem bem: que vistam se sentindo bem, comam bem, dancem, brinquem, se divirtam. Todos estavam muito empolgados, inclusive as contratadas, que são apenas mulheres - fizeram questão disso e foram atrás até de banda de forró sapatão, que fez com que a festa ficasse muito mais animada. Conversamos sobre entender a instituição casamento com o recorte de se tratar de duas mulheres e em tudo o que isso envolve. Por mais que existam várias críticas sobre essa instituição e seus conservadorismos, existe também o lado político pela importância de ter um documento que afirma esse amor. É muito importante o evento, a celebração. Reconhecer que os familiares estão viajando de longe para celebrar esse amor que sempre nos foi negado, que toda relação heteronormativa é celebrada e comemorada o tempo todo, mas entre duas mulheres fomos colocadas num espaço de não-celebração, ficamos minguadas, podemos até beijar mas não demonstrar tanto, não abusar da demonstração… Então celebrar um casamento é celebrar MESMO. Celebrar com vontade. Ter quem você ama celebrando com vocês. Celebrar duas mulheres amando. E, para elas, o casamento só faria sentido se fosse vivido assim como será: com todas as pessoas lá, de forma coletiva. Elas construíram essa relação pensando no mundo que acreditam. Se sentem confortáveis, acolhidas. Sentem que a relação é uma grande mesa com comida e todos ao redor, compartilhando. Lilian, no momento da documentação, estava com 30 anos. Nasceu no interior do Espírito Santo, num município chamado Pinheiros, mas cresceu em Vitória, na capital. Ao completar o ensino médio foi para Mariana, em Minas Gerais, cursar história e durante a faculdade descobriu a disciplina de antropologia da alimentação. Quanto mais estudava, mais se interessava e ao finalizar a graduação começou a estudar gastronomia. Ao se mudar para Minas Gerais, não tinha conhecimentos em culinária, mas aprendeu pela necessidade e a primeira receita que fez por vontade própria foi pão de fermentação natural. Começou a ser um hobbie, mas logo se viu pesquisando mais sobre panificação e misturando a panificação com seus outros estudos dentro da gastronomia. Foi então que conheceu uma pesquisadora chamada Neide Rigo, que explica sobre plantas, hortas na cidade, sobre o que plantar > o que comer, e consumindo os conteúdos que essa pesquisadora publicava conheceu um restaurante em São Paulo, o Maní. Viu que estavam com inscrições abertas para trabalhar por um período, se inscreveu e passou, foi assim que sua mudança para São Paulo aconteceu, em 2018. O período de trabalho seria, inicialmente, de 4 meses, mas virou uma contratação e ela se oficializou enquanto padeira. Conta como foi incrível, não conhecia mulheres padeiras - ou melhor, conhecia uma só que acompanhava o trabalho e admirava. Foi uma grande realização profissional. E, para além da padaria, ela segue adorando cozinhar e descobrir receitas, inventar festas temáticas com comidas temáticas para reunir os amigos e familiares, pesquisar sobre culinárias e culturas. Marcela, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é natural de São Bernardo do Campo, mas cresceu em uma cidade pequena chamada Dracena, no interior de São Paulo, onde viveu até os 17 anos. Cresceu numa família bastante grande e tradicional e passou pelo seu entendimento de gênero e sexualidade bastante cedo, então não se sentia bem no lugar onde morava, decidiu sair da cidade e se mudar para Campinas, também em São Paulo, para cursar faculdade de Artes Cênicas. Lá, durante 4 anos, se sentiu muito feliz e viveu diversas descobertas. Em 2018, precisava de maior independência financeira e procurou uma nova fonte de renda: começou a fazer pão de fermentação natural em casa. Depois disso, procurou trabalho na área, indo em padarias e oferecendo o seu serviço. Conseguiu trabalhar em uma padaria e depois disso se organizou financeiramente para se mudar para São Paulo (capital), até que em 2019 a mudança aconteceu. Logo que chegou na cidade, fez o mesmo que havia feito em Campinas: foi de lugar em lugar oferecendo seu trabalho. O primeiro lugar que ofereceu foi na padaria do Maní e a chamaram para alguns freelancers, então vez ou outra ela ia cobrir alguém, inclusive a Lilian, quando tirou alguns dias de férias. Depois desses freelas, ela foi contratada de fato. Quando começaram a trabalhar juntas, conversavam bastante. Lilian é muito acolhedora, conta que isso vem de família, aprendeu a acolher, conversar, receber bem as pessoas porque sua família é assim. Na época, ela morava em um apartamento dividindo lar com amigos e apresentou essas pessoas para a Marcela, inseriu ela na sua vida e logo viraram amigas. Marcela também foi se abrindo, contou que recém estava solteira, que queria desbravar São Paulo, aproveitar a cidade, não queria namorar. Aos poucos, às vezes se olhavam de um jeito diferente enquanto trabalhavam. Lilian percebia um jeito da Marcela observar… Até que um dia Marcela chegou um presentinho para ela, entregou e disse: “Não significa nada”. Quando Lilian chegou em casa, contou para a amiga e a amiga disse: “Significa!!! Ela te quer!!”. Num dia, saindo juntas, alguns meses depois de terem começado a trabalhar, se divertiram, foram em vários lugares até que Lilian perguntou o que estava significando aquilo. Marcela respondeu algo que Lilian até hoje acha muito legal, ela disse que achava que estava apaixonada pela Lilian, não sabia se era romanticamente, mas que adorava passar um tempo com ela, estar ali, adora a amizade e que sentia vontade de beijá-la. Lilian disse que sentia também, e assim elas se beijaram. Desde então elas ficaram juntas, mas Lilian tinha uma mudança de vida planejada: ela iria para a Espanha. Já havia desfeito a casa que compartilhava, vendido suas coisas, pedido demissão da padaria… Sua vida havia se resumido em uma mala. Passaram o final de 2019 juntas e em fevereiro de 2020 Lilian saiu de fato do trabalho, até lá elas estavam apenas vivendo, se divertindo, sabiam que a separação viria em breve. Os planos da Lilian eram visitar seus amigos em Minas Gerais, a família no Espírito Santo e se mudar de vez para a Espanha. Porém, dias antes, chegou a pandemia de Covid-19. Quando isso aconteceu, ela estava hospedada na casa de um amigo, uma kitnet em São Paulo, esse amigo havia acabado de se mudar para cursar medicina na USP e ele orientou: “Estão correndo boatos de que isso aí vai durar uns dois anos no mínimo”. Ele decidiu não ficar em São Paulo e deixou a kitnet com ela. Ela chamou a Marcela e ficaram juntas, mas não tinha nada: trabalho, roupa, perspectiva… os primeiros meses foram de espera, até que a ficha foi caindo porque o restaurante que ela iria estagiar na Espanha fechou, precisou devolver as passagens da viagem e entendeu aos poucos que o sonho acabou. Marcela também foi demitida, precisavam repensar tudo. Em abril decidiram anunciar aos amigos que iriam fazer pão para vender e, logo no primeiro anúncio, foram dois dias de fornadas. Depois, perceberam que trabalharam mais de duas semanas sem parar - e se organizaram melhor. Transformaram a kitnet numa padaria, assim foi seu sustento até novembro, quando se mudaram para um lugar maior. Ressaltam como foi muito importante as pessoas terem comprado de quem faz durante a pandemia. Esse foi o contato humano, foi o que nos uniu mais. Entre o final de 2020 e 2021 moraram em uma casa que possuía mais espaço e lá produziam em maior escala, até que chegaram no lugar que estão agora. Hoje em dia, possuem um espaço separado na casa onde acontece a produção e destinam suas vendas principalmente para pessoas jurídicas, ou seja, outras empresas e restaurantes. Se dão muito bem trabalhando juntas, adoram o que fazem e Marcela acredita muito que o amor entre mulheres está presente nessa torcida que uma tem pela outra, nesse fortalecimento. Vivem uma amizade muito potente dentro desse amor. Lilian concorda: talvez por ser tão poderosa é que muitos temem. São muito matriarcais, cuidam e zelam umas pelas outras. ↓ rolar para baixo ↓ Marcella Lilian

  • Carol e Marlise

    Foi num impulso pelo início (e pela incerteza) da pandemia que a Carol e a Marlise começaram oficialmente o relacionamento. A Carol tinha acabado de se mudar para São Paulo, mas é natural de Porto Alegre e foi lá que conheceu a Marlise, um tempo antes dessa viagem. Entre a decisão, o ato de comprar a passagem e a mudança em si, elas viveram shows, um réveillon, saídas com amigos e a Marlise viveu até com muletas porque tinha quebrado a perna. Mas não teve jeito: o dia chegou e a Carolina foi para São Paulo. A primeira reação foi mais abrupta: não se falaram mais. Acharam melhor deixar para trás os momentos bons que tinham dividido e seguir cada uma suas novas vidas de 2020 em diante. Mas é aquela coisa, né? A gente não escolhe coisas do coração (pra quem é de coração) e nem de destino (pra quem é de destino). E quando elas voltaram a conversar, a Marlise combinou de ir até São Paulo fazer uma visita e comemorarem seus aniversários, visto que as datas são bastante próximas. Porém, um pouco antes do dia da viagem chegar, foi anunciada a quarentena e o isolamento social em São Paulo, ou seja, tudo estaria cancelado e a Carol ficaria lá sozinha - enquanto não fazíamos ideia de como isso seria, quanto tempo levaria e como reagiríamos. Foi por todas as incertezas que a pandemia (e, principalmente, o começo dela) nos causou, que a Carol decidiu comprar a passagem e voltar para Porto Alegre. Quando elas se reencontraram, ficaram juntas e cá estão, até então. Houve um momento do qual a Carol chegou a voltar para São Paulo, alguns meses depois, para buscar coisas que tinham ficado por lá, mas decidiu que ficaria de fato em Porto Alegre com a Marlise. Elas contam que sempre se deram muito bem e que isso sustenta muito o relacionamento. Conversar sobre tudo e ser realmente uma parceria, independente das situações externas, é o mais importante. Falam como haviam muitas coisas colaborando no entorno para que desse errado: elas estavam dentro de um apartamento relativamente pequeno - estavam num processo de conhecimento ainda - a pandemia gerava muitas pressões e ansiedades - o país enfrentava momentos muito ruins - e todo o sentimento de luto presente naquele momento… mas que, mesmo com todas as condições adversas, elas mantinham uma relação de muita conversa e se divertiram muito juntas. Durante as rotinas e os dias a Carol é uma mulher que adora cozinhar e está sempre preocupada com a alimentação. Ela brincou que de repente muda até de carreira, se continuar recebendo os elogios pelas comidas que faz, mas a verdade é que sua paixão mesmo é pela escrita. Ela entende que se comunica melhor escrevendo e que a literatura é uma grande aliada. Já a Marlise adora inventar coisas. Ela disse que isso é muito para “tirar as coisas da cabeça”, por se sentir sobrecarregada com auto questões, acaba inventando coisas, mudando móveis, fazendo e produzindo o que movimente o corpo fisicamente. Juntas, elas adoram passar um tempo com os animais em casa e contam que eles foram grandes responsáveis pela casa ter se mantido tão feliz durante o período de isolamento que vivemos. A Carol estava com 29 anos no dia em que fizemos a documentação, ela é natural de Porto Alegre, cursou letras, mas trancou a faculdade, não completando-a. De qualquer forma, trabalha na área desde 2012, traduzindo textos, livros e também faz trabalhos autônomos. A Marlise também estava com 29 anos no dia da documentação. Ela cursa medicina, é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, e nos contou sobre o impacto da pandemia nos estudos dela e na faculdade. Mas também, sobre a importância do trabalho enquanto uma ferramenta sob o que ela acredita, enquanto assistência social às pessoas. Durante uma live da cantora Ludmilla, na quarentena, a Marlise pediu a Carolina em casamento. Na hora, ela nem acreditou e a Marlise teve que refazer o pedido no dia seguinte! Hoje em dia, os planos estão sendo feitos e pretendem fazer a comemoração e a celebração assim que a pandemia finalmente acabar. Tanto a Carol, quanto a Marlise, acreditam que a vida não precisa ser tão imediatista e egoísta como tem sido. Elas falam sobre estarmos num espaço muito desorganizado, que não pensa no que realmente é importante… e esquecemos do que deveria ser essencial, como termos mais afeto e cuidado. Entendem que por serem duas mulheres que já enfrentaram muitos preconceitos, olham as coisas sob um novo olhar, pois não normalizam a violência ou a falta de educação e também não deixam de ser quem são por olhares tortos na rua (e por não serem aceitas em alguns ambientes). Entendem que a mudança só vai existir com compreensão histórica e cultural. Para Marlise, uma relação como a delas é muito pautada no respeito e na identificação, mas ela também traz muito uma admiração e inspiração que enxerga na Carol. Ela fala sobre essa inspiração por quem a Carol é, em tudo que ela já passou, e porque também se vê nela, mesmo que as trajetórias sejam diferentes. “O amor é o que guia a gente a ser diferente: ser melhor no que acreditamos ser o certo”. Para Carol, a relação delas está sempre envolvida de compreensão (e as relações entre mulheres, na grande maioria das vezes), porque acabamos tendo caminhos parecidos e encontramos em nós semelhanças e identificações. Mas em geral, essa compreensão fala sobre a capacidade de ver quem as pessoas são, o que são, e entender o que elas estão dispostas a trocar, não exigindo algo impossível de dar. Marlise Carolina

  • Joana e Luciana

    A Luciana e a Joana são de Fortaleza, capital do Ceará, mas já moraram em lugares diferentes do Brasil e hoje em dia voltaram para Fortaleza para o nascimento da Maria Flor, a criança mais comunicativa, espontânea e engraçada que o Documentadas poderia ter o prazer de documentar. ♥ Lu tem 37 anos, é médica ginecologista e obstetra, responsável por trazer muuuuuitos bebês para esse mundo e deixar muitas mamães seguras na hora do parto. Além da vida profissional incrivelmente disputada, ela é uma mulher que se preocupa em fazer do mundo um lugar melhor em cada detalhe - trata tudo com muito acolhimento, é carinhosa, tem um sorrisão e esteve o tempo todo muito aberta a encaixar o encontro com o Documentadas no meio da rotina de plantões, maternidade e compromissos diários. Joana tem 41 anos, é artista visual e arquiteta. A Jô trabalha tanto para produtoras de Fortaleza e São Paulo (fazendo instalações efêmeras, cenários, conceitos e conteúdos visuais), quanto sendo artista independente, tendo seu próprio escritório e seus projetos autorais enquanto produtora de arte. Nos encontramos no seu ateliê, lugar onde todas ficamos à vontade (principalmente a Flor, que se diverte muito entre as cores e as expressões artísticas) e é muito legal ver como os trabalhos da Joana são diversos e o quanto conseguem conversar entre si. Além das suas profissões e da correria do cotidiano, elas amam passar o dia se divertindo com o crescimento da Flor, dando espaço para ela explorar as coisas e nas folgas gostam muito de plantar (estão construindo jardins durante a pandemia), viajar (colocar tudo no carro, bagunçar e ir para algum lugar!) conhecer cachoeiras e praias. Além disso, contam que amam cozinhar juntas e que, ao plantar jardins, começaram um projeto sobre o lixo no lugar em que moram, mobilizando os outros moradores do bairro sobre sustentabilidade - usando a arte da Jô nessa conscientização. O encontro da Lu e da Jô aconteceu como uma “paixão à segunda vista”, porque já eram amigas há muitos anos. A Joana teve um relacionamento longo com uma amiga de infância da Luciana e elas se conheciam desde então, mas cada uma vivia seu relacionamento e nunca se olharam de forma diferente. O tempo passou, elas terminaram seus relacionamentos em momentos diferentes, passaram períodos solteiras e, depois de um tempo, se reaproximaram - surgindo assim, pela primeira vez, um olhar de interesse. Por um certo receio de suspeitarem de uma traição ou de algo que viesse de antes, visto que de fato se conheciam há muitos anos, elas demoraram quase 1 ano para conseguir oficializar ou assumir esse relacionamento para o grupo de amigas em comum, mas deu tudo certo! Começaram a namorar em 2013 e, como as duas já tinham tido relacionamentos longos o suficientes e decepções amorosas longas o suficientes também, sentaram e conversaram de maneira franca e madura sobre o que desejavam nessa relação: seus medos, seus sonhos, seus desejos e suas inseguranças. Elas dizem que de certa forma foi tudo até rápido - porque em 2015 elas estavam se casando. A Lu passou em uma residência médica lá em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, no mesmo momento em que a organização do casamento estava no auge, então elas combinaram assim: a Joana ia dar um jeito na organização e na decoração e a Lu ia para Ribeirão organizar as coisas da residência e dos estudos. Foi corrido, mas deu certo! A família da Luciana sempre apoiou e sempre admirou a forma que ela lutou pela liberdade e pelo direito de ser quem ela é e de amar quem ela quiser amar. Já a família da Joana, de alguma forma dava apoio à quem ela era enquanto mulher que amava outra mulher, mas no momento do casamento não entendia o porquê daquilo, por qual motivo precisava mostrar aquilo, fazer uma festa assim… Ela insistiu e a festa aconteceu. Mas não só pela festa, pela importância de assinar um documento, de comemorar sim o amor, de celebrar o nosso amor e de ter um documento que nos prove enquanto um casal e que lutamos tanto para ter direito (a algo tão burocrático). Não só aconteceu, como foi incrível! O casamento teve ajuda de vários amigos que doaram um pouquinho de cada coisa para elas - e cada pessoa que estava lá, realmente queria estar. Todos estavam muito felizes, torciam muito pelo amor das duas. Foi um dia muito forte e emocionante, com um pôr do sol maravilhoso. Elas contam que todos que estavam presentes sempre falam de como aquele dia vibrou, que sentiam uma vibração muito forte. E que, no meio da cerimônia, se abriu um arco-íris gigante na praia. ♥ Depois do casamento, as duas se mudaram para São Paulo e então começaram uma vida totalmente nova por lá. Fizeram muitos amigos, criaram uma nova rotina e, desde o primeiro momento a Lu nunca escondeu que se relacionava com uma mulher dentro do meio em que vivia (a área da medicina), então todas as pessoas ao redor delas sabiam que eram um casal, sabiam do casamento, de tudo! Isso era bastante novo, se tratando de uma cidade interiorana e de pessoas mais conservadoras, mas era bastante legal ver esse impacto e outras pessoas se inspirando nelas para saírem do armário também. Como desde sempre a Jô sabia da existência do desejo da Luciana em ser mãe (visto que ela sempre sonhou com isso) e que lá em Ribeirão Preto era o lugar referência para que elas fizessem todo o tratamento de fertilização in vitro (FIV) pelo SUS, então as duas captaram óvulos, o mesmo sêmem, o mesmo doador, e deram início ao processo da maternidade. Tudo foi registrado por elas em um caderno-livro que se mantém até hoje e que conta essa história para a Flor, sobre como ela foi desejada e amada desde o primeiro momento, por todos ao redor. O processo todo entre tentativas de gravidez durou cerca de dois anos, não foi nenhum pouco fácil, requer muito e as duas se doaram muito para isso, mas também se apoiaram muito e sonharam muito em conjunto. O livro é incrível e muito delicado, conta detalhes desde os sentimentos, até os gastos que envolvem cada pedacinho desses dias tão longos. A Flor, mesmo ainda sendo muito pequena, adora olhar e mexer no livro e fizemos algumas fotos das três com ele em mãos. [No dia em que nos encontramos, a Jô estava dando início a uma nova bateria de exames, pois estão começando o processo para vir aí uma parceira ou um parceiro irmã ou irmão para a Maria Flor. Só temos muita luz e muita vida a desejar! Vocês são uma família incrível!] A Joana conta que para ela, o amor é a base de tudo. Não só o amor romantizado, mas o amor de fato construído, porque o amor é muita luta, muita garra. O amor, dela com a Lu, é um amor de parceria, de entendimento. E, nessa hora, a Lu completa: “É um amor realmente revolucionário. Não existe outra definição senão essa, pela capacidade de transformação que faz numa pessoa.” Quando passam por momentos difíceis, elas conversam sobre tudo, mas entendem que são seres individuais e que têm momentos em que precisam estar sozinhas. A Joana gosta muito de conversar e a Luciana entende e contribui pra isso também. Briga, chora e se abraça! Sempre olha no olho, dá espaço, volta e abraça. É um movimento natural que o próprio corpo tende a fazer. No fim da nossa conversa, chegamos à conclusão de que quando duas mulheres se juntam para construir uma família, elas saem quebrando tantas barreiras, tantas coisas que socialmente estão na nossa frente há tantos anos, sem nem ver, que é na base da revolução mesmo. Temos o exemplo de como a família da Jô não ter entendido o casamento delas no começo por não ter visto uma “necessidade” e não ter se proposto a ir, porém, com a chegada da Maria Flor, ser puro grude e reconhecê-la, amá-la e não se ver longe dela - a revolução se mostra nessa construção de família e de amor quando formada pelas mulheres, o segurar a neta no colo consegue quebrar qualquer outra coisa que existe antes, qualquer “muro” colocado, qualquer barreira realmente preconceituosa ou inconscientemente preconceituosa. É uma revolução através do afeto. E para a Maria Flor é isso que elas desejam: um futuro livre. Sem medo e com respeito, sem julgamentos estruturados. Que ela siga sendo como ela é agora: empática com o mundo e com ela mesma. Luciana Joana

  • Yasmin e Juliana

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Yasmin e da Juliana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A história da Juliana e da Yasmin te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D O momento mais difícil que passaram juntas foi a chegada da pandemia, porque elas tinham uma realidade bem diferente em 2019, muito mais aberta e com maior liberdade aos encontros. Com a chegada da quarentena decorrente do Covid-19, elas passaram MUITO tempo distante, muito mesmo! Foram um total de 7 meses. A pandemia causou muito pânico na Ju porque toda a família dela se encaixa em grupos de risco e ela sentia muito medo de que algo pudesse acontecer com eles. Ainda sente, é claro, mas o risco estava maior por conta da avó dela, com mais de 90 anos, estar morando com ela. Não tinha a possibilidade dela sair de casa e, por mais que a Yas estivesse com muitas saudades, ela realmente entendia a situação. A relação delas é baseada em muita conversa. Elas se apoiam bastante e conversam sobre tudo, dialogam sobre o que sentem. Hoje em dia elas conseguem se encontrar, a avó dela já não está mais residindo no Rio e elas seguem se cuidando bastante, mas conseguem se ver com maior frequência. A Yas comenta que foi como um relacionamento à distância estando na mesma cidade e elas brincam que mesmo tendo sobrevivido, não querem passar pela experiência novamente. Hoje em dia elas dão muito valor aos momentos juntas, desde que seja assistindo filmes bobos de clichês adolescentes, ouvindo todos os tipos de músicas ou deitadas na cama sem fazer nada, desde que estejam fisicamente no mesmo lugar. Foi no centro, inclusive, que elas se conheceram - em um encontro marcado através de um aplicativo de relacionamentos - o famoso Tinder. Elas não entendem até hoje como conseguiram dar “match” (o famoso combinar perfis), por conta de morarem muito distantes uma da outra e não colocarem uma localização que alcançasse tudo isso, mas conversaram, se deram bem e marcaram de se encontrar. O encontro rolou em um local também muito clássico de encontros de Tinder, o CCBB, um Centro Cultural. Porém, chegando lá, enfrentaram uma fila muito grande, desistiram e decidiram ir até a Escadaria Selarón (o local em que fizemos as fotos), um lugar que costumava acontecer rodas de samba, ter feirantes e bastante movimentação. Yasmin tem 23 anos, trabalha com telemarketing e mora em Bangu. Tem como referência familiar a mãe e é suuuuper tímida. A Juliana tem 22 anos, é professora de inglês e também trabalha corrigindo redações, ela estuda Letras - português/inglês e ama literatura. No dia do encontro, foi desenvolvendo o papo e com o apoio de várias cervejas&caipirinhas que a coisa foi fluindo, até que ficaram e a Ju chamou a Yas para ir até a casa dela (lá no Cordovil). Só que tinha dois detalhes importantes: 1. a Yas não sabia onde esse bairro ficava e 2. a Ju morava com os pais, que não sabiam que ela beijava mulheres. Descartando totalmente a importância desses dois detalhes (afinal, quem nunca?) (mas não façam isso, tá? saibam o local que vocês estão indo, principalmente no primeiro encontro!), a Yasmin acabou indo para a casa da Ju e chegando lá deu de cara com os pais dela. Foi tudo tranquilo (para todos, menos pra Yas, visto que ela realmente é bastante tímida), mas ela se passou pela amiga que morava longe e dormiu lá tranquilamente. Com o passar dos dias elas se encontraram mais uma vez, em Madureira, e assim foram amadurecendo a ideia de terem um interesse mútuo, se relacionarem, até que isso virou de fato um relacionamento, ainda em 2019. Hoje em dia, ambas famílias já sabem e as apoiam enquanto um casal, ficou tudo muito mais tranquilo! ♥ A Yasmin e a Juliana acreditam que amar é tentar, ao máximo, não ter medo. Entendem que na vida a gente sente medo, mas que o amor envolve também se permitir sentir esse medo. A Yas comenta que entendeu mesmo o que era amor quando se apaixonou pela primeira vez por uma menina, que sentiu esse nervoso no peito, esse brilho no olho. E hoje em dia ela ama amar a Ju e cultivar esse relacionamento. As duas são cariocas e sempre viveram no Rio, mas moravam em bairros um tanto distantes do centro quando se conheceram - a Yasmin em Bangu e a Juliana no Cordovil (e distantes entre si também). Elas comentam o quanto é diferente andar no centro da cidade e em seus bairros enquanto duas mulheres que se relacionam afetivamente com outras mulheres, recebem outros olhares, possuem outro tratamento. Elas gostam muito do centro e frequentavam bastante antes da pandemia, aqui sentiam a vida mais aberta a novas oportunidades. Yasmin Juliana

  • Renata e Marcela | Documentadas

    Amor de Arte - Renata e Marcela clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Pethra e Marcia

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Pethra e Marcia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Pethra tem 34 anos e Márcia 29. Hoje em dia, Pethra é vendedora e Márcia é formada em moda, trabalha enquanto analista de qualidade. São pessoas que não ligam para o que os outros pensam, saem na rua de mãos dadas e entendem a importância disso. Se pudessem, fariam com que as crianças fossem educadas com maior consciência, visto que são seres que não veem a maldade. Pethra já participou de eventos sobre a diversidade nas escolas e Márcia fala sobre a importância de também se falar sobre educação sexual. Como Pethra sempre se vestiu de forma mais masculinizada, entende que não sofrerem tanta homofobia nas ruas é resultado de um certo machismo - os homens não mexem com elas porque veem a Pethra enquanto homem também. E, por outro lado, cita a importância de ter mais banheiros unissex pela cidade, porque também já se sentiu mal entrando em um banheiro de shopping, com mulheres olhando atravessado pelo jeito que ela se veste. Falando em shoppings, no fim, isso é uma das coisas que elas mais gostam de fazer - e motivo de ter gerado muitas risadas, porque quando perguntei o que era mais a cara delas, responderam: ir na Renner. Elas adoram andar em shopping, ir nas lojas, restaurantes, conhecer novos espaços (leia-se: novas lojas Renners……….) e, mais que tudo, encontrar os amigos para saírem juntos. Quando falei pela primeira vez com a Márcia, chamando elas para fazerem parte do Documentadas, tivemos a ideia de reunirmo-nos com as suas melhores amigas, a Tayna e a Jú. Elas fazem parte de um grupo de 4 amigos, que virou 8, porque chegaram os “agregados” (ou seja, viraram casais). A Márcia e a Tayna são amigas há mais de 10 anos e se ajudam em todos os momentos possíveis…. uma acompanhou toda a história da outra, entre os relacionamentos e os momentos mais felizes e tristes. Decidimos tirar fotos das duas com suas “agregadas” e fizemos toda a conversa em grupo. Elas têm uma amizade incrível. O processo de aceitação da Pethra começou bem nova, quando gostou de uma menina pela primeira vez e entendeu que era isso que ela queria. Não foi fácil contar para a família e ela se sentiu bastante pressionada, mas chamou a mãe dela para sair e contou. O que deixa a situação engraçada é que a mãe dela esperava ouvir que ela estava grávida e quando ouviu algo tão diferente disso, ficou quieta um bom tempo, processando. Entendeu que se era isso que fazia a Pethra feliz, estava tudo bem, mas que ela precisaria se assumir para o restante da família também. Para a Márcia, o processo foi um pouco diferente. Ela não sabia que gostava de ficar com meninas até conhecer a Pethra. Então, passou por maior incerteza, por um maior choque. Decidiu contar para a família uns dias depois de começarem o namoro. Elas brincam que a família já tinha aceitado a Márcia antes mesmo dela se aceitar, porque a mãe já esperava que ela estivesse namorando a Pethra. A única questão, foi o pai quem trouxe: “agora você precisará se assumir para todos. Levar ela nas festas da família. Viver normalmente. Não vá se esconder”. Márcia brinca que jurava que o namoro não iria durar nem 6 meses - inclusive, falava isso para todo mundo. Ela achava que o amor era algo gigantesco, romantizado, que ela não sentiria naquele momento. Aos poucos, com o decorrer do relacionamento, foi entendendo que o amor no fim pode ser gigante, mas que ele é construído aos poucos e diariamente, com muito respeito e principalmente gerando felicidade. Antes da Pethra ser contratada, ela procurava emprego porque queria se mudar para Florianópolis (já estava com as malas compradas e tudo), mas precisava trabalhar alguns meses para juntar dinheiro e poder ir. Numa sexta-feira, ela fez entrevista, passou e foi chamada na empresa que queria trabalhar (e começaria na segunda!), mas recebeu uma ligação de outra loja querendo marcar uma entrevista - também para segunda. Decidiu ir na loja, sem avisar, dizendo que “estava passando por ali” e queria ver se conseguiria fazer a entrevista na hora. E conseguiu! Chegando em casa, ligou para a empresa que tinha passado e disse que não iria mais começar a trabalhar lá - detalhe: ela não tinha a resposta da loja ainda, ou seja, se estivesse desistindo e se não passasse na entrevista da loja, voltaria a estar desempregada. Por fim, ela passou… e começou a trabalhar com a Márcia. No começo elas conversavam, mas não tinha um sentimento envolvido. Com o tempo e com um amigo da Márcia que se aproximou delas, foram saindo, convivendo mais juntas, passaram a conversar direto, fazer umas brincadeirinhas… até que deram o primeiro beijo. Um mês depois, saindo do BRT (o sistema de transporte rápido do Rio de Janeiro), a Pethra organizou com os amigos o pedido de namoro: quando a Márcia saísse do ônibus, lá estariam eles, esperando com uma plaquinha. Ela aceitou e, neste ano, completaram 6 anos juntas. Quando a Márcia apareceu na vida da Pethra, ela chegou chutando a porta…. ou, quando a Pethra apareceu na vida da Márcia, ela chegou chutando a porta…. Foi tão mútuo que a gente nem sabe dizer quem chutou primeiro. Além disso, algo até mais potente na vida das duas é como elas teriam que, uma hora ou outra, se encontrar. A Márcia pode revirar os olhos não acreditando tanto nas coincidências do mundo (e nos sininhos! hahaha), mas essa é praticamente um fato: elas tinham que se encontrar. Acabaram se conhecendo quando Pethra foi trabalhar na loja em que Márcia gerenciava e, depois de um tempo, descobriram que a Pethra é amiga da melhor amiga da Márcia há mais de 10 anos e que a Márcia conhece a irmã da Pethra há muito tempo também - e que elas deveriam ter se esbarrado em várias festas e encontros, mas sempre acontecia algum imprevisto. Enfim, mesmo com tantas coisas em comum, foram se conhecer de uma forma totalmente diferente. Márcia Pethra

  • Ingra e Lara | Documentadas

    Lara estava com 25 anos no momento da documentação. É natural de Ilhéus, morou lá a vida toda e atualmente trabalha enquanto psicóloga infantil atuando com crianças neurodivergentes. É uma área que ama trabalhar: lidando com crianças portadoras de autismo, acompanha principalmente as que estão na transição para a adolescência. Adora estudar e acolher todas as questões, analisar os comportamentos e estar nos ambientes escolares, no dia-a-dia da criança em si, sair do espaço da clínica num momento de consulta. Além do trabalho, também adora estar em Salvador visitando os amigos (inclusive foi lá que fizemos a documentação acontecer) e também gosta de ir até Itacaré fazer alguns passeios. Ingra estava com 24 anos no momento da documentação. Também é natural de Ilhéus e conta que cresceu com muitas referências femininas - dentro e fora de casa. Morou em São Paulo durante dois anos depois de terminar o ensino médio, enquanto ainda escolhia o que cursaria na faculdade. Quando voltou para Ilhéus, resolveu cursar psicologia. É apaixonada pelas múltiplas formas artísticas e sabe que isso influencia diretamente sua forma de ser: a arte ajuda ela a viver seus melhores momentos. Além disso, sempre soube que gostava de mulheres, mas de alguma forma não insistia nisso porque pensava que iria passar com o tempo. Ingra lembra de uma situação, quando ainda era criança, que sentia algo diferente por mulheres e escreveu num papelzinho, confessando na igreja “que por mais que sentisse que isso fosse errado por pressão social, não deveria pedir desculpas para Deus por isso, porque não era de fato maldoso”. Escondeu o papel atrás de uma santa e anos depois achou o papel novamente. Adora acessar essas partes suas que estão no passado e que complementam quem ela é hoje, de alguma forma acolhe a criança que era e a adulta que se está se tornando. Ingra procura voltar seus estudos em psicologia para gênero e sexualidade, mas também trabalha enquanto assistente terapêutica. Sua irmã mais nova possui uma síndrome rara, chamada de síndrome de rett, precisando 100% de suporte, então isso influencia na sua vontade de fazer diversos cursos e especializações - e também foi o que aproximou a relação dela com Lara. Ingra e Lara se conhecem desde a adolescência, pois estudavam no mesmo colégio, mas eram de turmas diferentes. Não eram próximas, no máximo se cumprimentavam. Lara lembra do processo de Ingra ir para São Paulo porque havia amizades em comum que comentavam. Depois de formada na faculdade, Lara já atendia crianças com deficiência (e já se entendia enquanto uma mulher lésbica também), enquanto a mãe de Ingra procurava uma nova acompanhante para sua irmã (que possui síndrome de rett). Lara conta o quanto a irmã de Ingra é famosa em Ilhéus por conta da síndrome rara que possui e diversos profissionais têm interesse em estudar o caso dela. Quando soube que Ingra estava de volta na cidade, em 2023, nem imaginava que ela se relacionava com mulheres - até lembra do seu estilo meio surfista mais jovem, dos amigos que tinha, não “dava muitos sinais” - mas uma amiga em comum comentou e surgiu um interesse. Logo em seguida, soube que Ingra havia ingressado na faculdade de psicologia e a amiga comentou “o quanto elas eram parecidas e tinham coisas em comum”. Quando Ingra chegou em Ilhéus, se sentia muito insegura sobre a sexualidade. Como se relacionar com outras mulheres na cidade em que nasceu? Conversou com sua mãe sobre, ela foi uma forte aliada, mas ainda existia muito medo das reações das pessoas na rua, principalmente por ela ser vista o tempo todo como uma mulher muito feminina. A amiga em comum que havia com Lara também foi muito importante nesse processo para desmistificar a ideia de que mulheres que se vestem e performam feminilidade não podem amar outras mulheres e viver de forma livre esse amor. Foi a amiga quem falou sobre Lara para Ingra, e assim elas interagiram no Instagram pela primeira vez - mesmo Ingra tendo certeza que provavelmente não iria dar em nada. Foi num restaurante o primeiro encontro de Lara e Ingra, depois de conversarem alguns dias online. Antes de sair, Ingra estava tão nervosa se arrumando que a mãe logo notou e perguntou se ela iria encontrar alguma mulher. Ela havia comprado até uma roupa especial, que conseguiu garimpando em algumas lojinhas do centro. Chegou ansiosa, atrasada e mais arrumada do que Lara esperava - o que, de toda forma, não era ruim. Lara, que não é de ficar nervosa, ficou. Conversaram e foram desenrolando a ansiedade, o que foi muito legal porque sentiram tudo mais leve. Mesmo Ingra sendo tímida e não gostando de se abrir sobre a vida logo de cara, adorou que Lara fez tudo fluir, as conversas seguiram bem. Acabaram se beijando no primeiro encontro, algo que até então não era comum para Ingra, mas ela se mostrou confortável e até saiu de mãos dadas do local. Foi algo marcante porque nos dias seguintes demonstraram o quanto gostaram e queriam continuar se encontrando. Lara apresentou seu primo para Ingra, passaram o ano novo juntas de um jeito simples e calmo, no mês seguinte oficializaram o início do namoro e por mais que fosse um início rápido, sentem que a dinâmica foi tradicional e no tempo que se sentiram bem. Ingra fala sobre o amor que a sua família criou por Lara e como isso foi fundamental para quebrar muitos medos que tinha enquanto uma mulher que ama outra mulher ao se pensar vivendo coisas tão básicas como apresentar a namorada para a família e/ou ter momentos em família. Quando contou para sua mãe que estava indo encontrar Lara, ela ficou feliz por saber quem Lara era, conhecer seu trabalho e admirá-la enquanto profissional, então desde sempre apoiou, mas respeitou/esperou elas começarem a namorar para serem apresentadas oficialmente. Marcaram uma janta na casa da família de Ingra para que Lara fosse apresentada oficialmente enquanto namorada, mas dois dias antes esbarraram com a mãe dela, na pracinha do bairro, comendo acarajé, então se conheceram antes do previsto. O dia era de comemoração:a mãe dela havia acabado de se matricular na faculdade de psicologia - curso que tanto Lara, quanto Ingra, já cursaram. A janta aconteceu de qualquer forma e foi até melhor que o esperado: Lara chegou e a mãe de Ingra já apresentou a filha mais nova sabendo que Lara iria gostar de conhecer. Haviam outras crianças em casa porque ela chamou alguns vizinhos para comemorar um aniversário de bonecas que criou de última hora com os brinquedos da pequena, Ingra estava focada em cozinhar a janta, e Lara se divertiu com a criançada. Ao mesmo tempo que estava nervosa por conhecer uma família grande e muitas crianças, estava num lugar muito confortável por estar com o que mais ama - as crianças. Comenta, também, que mesmo a irmã da Ingra não verbalizando, ela tem um olhar muito marcante e ficou nítido o quanto elas se deram bem naquele primeiro momento, era o que a deixava mais feliz saber que tinha dado certo. E foi apresentada como namorada de Ingra, recebeu um sorriso de todos, sente que foi aceita desde o início. Na família de Lara, elas sentem que sua mãe sabe mas ainda está no processo de aceitação, então vivem isso frequentando a casa e entendendo que o tempo age aos poucos. Desejam cada vez mais construir o relacionamento que possuem enquanto uma família - seja unindo suas famílias, se vendo enquanto uma unidade familiar sendo duas mulheres que se amam e, esperam que daqui um tempo, adotando uma nova vida sendo mães e gerando uma nova família. ↓ rolar para baixo ↓ Ingra Lara

  • Viviane e Darlene | Documentadas

    Amor de Não Viver Sem - Viviane e Darlene clique aqui e acesse nosso audiolivro

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