Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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- Juliana e Nicolli
A Ju e a Nicolli sempre se apoiam muito, principalmente se os problemas são externos - dificuldades financeiras, saúde, família… quando falamos sobre outras coisas, além das nossas vidas, como a sociedade e a cidade (ou os problemas sociais), elas falam sobre o sul e o sudeste ainda serem muito privilegiados (e em geral, as capitais) por podermos andar na rua com as mãos dadas, por não termos tanto medo, por ao menos termos a coragem de darmos as mãos. Reiteram a necessidade do quanto ainda precisamos mudar o preconceito, o medo de sermos mulheres andando nas ruas sozinhas... e o quanto é preciso seguir uma apoiando a outra, seguir com as mãos dadas, não soltar. No fim da conversa percebemos o quanto a palavra coragem ficou em evidência durante todo o papo. Falamos em coragem por todos os momentos que elas passaram e que enfrentaram, por todos os problemas, todas as coisas boas também e tudo o que se é compartilhado. Além do mais, coragem por ser quase como um sinônimo de resistência também, e por reconhecermos o quanto fazemos isso o tempo todo: resistimos. Ambas sempre tiveram a família muito presente, das suas formas diferentes, com suas leituras diferentes, mas sempre estiveram ali. A Ju não é muito ligada em paixões tipo músicas ou filmes, o negócio dela sempre foi os bichos e a família. Ela comenta que a mãe dela é a maior inspiração de vida, por ter criado sozinha os filhos, sempre ter se mantido financeiramente da forma que foi possível, ter enfrentado tudo… e sempre ter ensinado todos à serem independentes e fazerem tudo dentro de suas próprias casas. Já a Nicolli, por mais que tenha como sua paixão maior o Grêmio, entende que um ponto mais difícil do seu relacionamento com a família foi o fato de performar a masculinidade ser visto com certo incômodo. Ela nunca recuou, entendia e respeitava seu corpo, enfrentou isso com coragem - e fala sobre o quanto ter coragem de usar bermuda, de cortar o cabelo curto, se você se sente bem, é fundamental. Hoje ela compreende um pouco mais, mas foi se mantendo firme e tendo uma relação mais independente, foi morando sozinha que as coisas realmente mudaram. Além de tudo, a família entendeu que ela é uma mulher adulta, que a sociedade também tem caminhado para entender mais sobre o amor entre mulheres e a mãe dela confia muito na relação dela com a Ju, então todas lidam de uma forma muito melhor com tudo. “Aos poucos o coração vai acalmando e as coisas vão se encaminhando”, ela completa. Foi por causa da família, inclusive, que a Juliana e a Nicolli se conheceram… ou melhor, elas se conhecem quase que desde sempre! Porque a Ju é uma das melhores amigas de infância da irmã da Nicolli. Ela brinca, inclusive, o quanto a Nicolli era uma criança daquelas insuportáveis - que a gente atura porque é obrigada. Ela ia buscar a Nicolli no colégio, tinha que ajudar a amiga a cuidar enquanto a mãe saía de casa… esteve por perto enquanto ela era menor, até a fase da pré-adolescência. Mesmo elas se conhecendo desde a infância, passaram muitos anos sem se encontrar, porque a irmã da Nicolli se casou, foi morar em outro estado e elas perderam o contato entre si. Depois de mais de 10 anos, aconteceu o divórcio e ela voltou para Porto Alegre querendo reunir algumas amigas (entre elas, a Ju)... e foi aí o momento em que as duas se encontraram novamente, saindo para festas e bares. Logo de início não rolou nada, elas conversaram pouco, ficaram amigas, a Nicolli até se fez de cupido e apresentou uma amiga para a Ju. O momento aconteceu mesmo no fim de uma festa open bar, em janeiro de 2019, em que a irmã da Nicolli foi ficar com um cara e elas queriam ir embora, e aí se olharam, foram naquela ideia de “não tinha nada para fazer”, estavam super bêbadas e resolveram ficar sem compromisso algum. Nos dias seguintes começaram a se relacionar, se beijavam de vez em quando em algumas festas, desenvolveram um sentimento… até que no primeiro dia de carnaval a Nicolli pediu a Ju em namoro, mas com uma condição: ela pediria em namoro desde que, no futuro, fosse a Ju quem fizesse o pedido de casamento! Alguns meses depois, passavam tanto tempo juntas que já praticamente moravam na mesma casa. Até que em novembro chegou o momento mais planejado e esperado: o pedido de casamento. Não sei vocês, mas eu não estava (nunca estou, na verdade) preparada para ver esse vídeo. O pedido rolou na Arena do Grêmio, lugar importantíssimo na vida delas, durante um GreNal (clássico Grêmio X Internacional), ao vivo para mais de 45 mil pessoas, no intervalo do jogo. Foi o primeiro pedido de casamento LGBT na história do Futebol. A família foi junto para apoiar, foi uma suuuuuuuuuper surpresa. Enfim, fica aqui o vídeo. ♥ O pedido ficou conhecido em todo o Brasil e para sempre ficará marcado na história do futebol, dxs LGBTs e nossa, das mulheres. É um gesto a ser muito comemorado e lembrado. O futebol ainda nos é muito negado por ser um espaço de predominância masculina, vermos duas mulheres num gesto de amor e carinho tão bonito, apoiado e aplaudido por tantas pessoas, de forma tão diversa, é único e vitorioso. Quando cheguei no apartamento da Juliana e da Nicolli, que fica em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a Nicolli também estava chegando, logo após fazer uma entrega. Fiquei curiosa para saber o que era e elas começaram a me contar sobre a Home (clica aqui pra conferir!! ), uma empresa que criaram juntas pela necessidade de terem uma renda fixa, após as duas ficarem desempregadas na pandemia. A Ju tem 31 anos e é analista financeira, a Nicolli tem 24 e é cozinheira. A Home é um projeto que envolve criarem um cardápio a cada dois meses e comercializarem enquanto opções de alimentação saudáveis, ricos em sabor, ousados, com bastante diálogo sobre o vegetarianismo e sobre comidas que envolvem qualidade. Começou como um jeito também de praticar diferentes técnicas na cozinha, e hoje, quase um ano depois, já montaram vários cardápios: árabes, massas, pizzas, comidas de botecos, padocas… tudo é super artesanal e se dedicar a isso virou a principal renda da casa. Foi encantador ver a forma que elas se organizam para fazer a empresa - e suas rotinas - acontecer. A Ju conta que foi na pandemia em que oficialmente começaram a morar juntas também e como as coisas têm se fortalecido assim. Claro, nem tudo é fácil. Para todos, ocorrem os momentos difíceis e incertos, trazendo diversas inseguranças e nos fazendo perceber tanto defeitos, quanto qualidades. São novos pensamentos que precisamos lidar, mas elas sentem que também estão aprendendo a conviver com seus espaços, construindo seu lar e alimentando esse sentimento de família que sempre foi tão importante. . Juliana Nicolli
- Carina e Isabelle
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Carina e Isabelle, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Existem três versões sobre como a Isabelle e a Carina se conheceram. Todas começam igual, com um famoso match no Tinder, em 2020, mas possuem desenrolar diferentes. Na versão da Carina, ela já estava se envolvendo emocionalmente com outra pessoa quando deu match e lembra de ter “subido” a foto da Isa. Logo pensou o quanto ela era linda e enviou uma mensagem falando isso, porém, em seguida enjoou de estar ali e desinstalou o aplicativo. Um tempo depois, até retornou, mas nunca olhou os matchs antigos. Em seguida, começou a namorar com a pessoa que estava envolvida emocionalmente, foi um relacionamento rápido e muito conturbado, mas sente que era necessário e que também foi construtivo. Um dia depois do término, baixou o Tinder novamente e revisitou os matchs, percebendo que aquela menina que ela havia mandado mensagem seguia ela no Instagram. A versão da Isa já explica toda uma história por trás não contada. Ela não usava muito o Tinder, mas recebeu a mensagem da Carina lá no começo, achou ela linda e respondeu, ficou esperando aquela conversa acontecer, mas não teve retorno. Nesse período, a Isa estava em um relacionamento aberto há alguns anos e diz que não se sentia completa, pois vivia com uma pessoa muito diferente dela. Depois do match e da conversa não realizada, passou a pensar na Carina, mas não tinha informações o suficiente para entrar em contato por outros meios, por isso, enviou outra mensagem, mas seguiu sem respostas. A pandemia começou e enquanto a Isa passava um tempo no Instagram achou um sorteio de tatuagens da qual uma menina foi ganhadora e ela se interessou por essa menina, seguindo o perfil dela viu que ela namorava (ou talvez, já tivesse namorado um dia e mantinha fotos) uma outra menina que ela sentia conhecer de algum lugar… e não é que era a Carina?! Entrando no perfil percebeu que Carina estava namorando, e que a namorada não era a mesma, ou seja, era de fato uma ex da ganhadora do sorteiro, rs. Deu pra entender? Fez o mapa? É o famoso rebuceteio. E ela ainda pensou sobre a Carina: “Deixa quieto, o que é meu, tá guardado.”, então, passou a segui-la no Instagram. Stalkeou suas redes e começou a ver algumas postagens. Nesse meio tempo, por conta da pandemia acabou se desempregando e teve que retornar para casa da mãe. Se sentia muito ansiosa e estava vivendo um momento de crises na sua vida, terminou o relacionamento e, literalmente no dia seguinte, recebeu uma mensagem da Carina no tinder, perguntando: “Como você me achou no Instagram?”. A Isa conta que viu um vídeo da Carina e quando ouviu a voz dela, se encantou ainda mais. Quanto mais conversavam, mais se impressionavam com todas as reviravoltas da história. Perceberam que terminaram os seus respectivos relacionamentos no mesmo dia, que tinham coisas em comum e estavam se dando bem... Mas viviam momentos diferentes, a Isa já havia superado o relacionamento e Carina ainda estava muito, muito mal. Ficaram conversando durante dois meses e Carina, por estar muito mal, se aproximou enquanto uma amizade - sentia que não conseguia flertar naquele momento. Isa conta que entendia o quanto precisava ser paciente com o momento da Carina e apoiá-la e a Carina completa dizendo que construíram no início uma conversa muito boa, deixando claro que tinham interesses em comum, mas que apenas não cabia no momento. Aos poucos, fizeram até um “webdate”, do qual a Isa brinca dizendo o quanto Carina estava linda, mesmo estando muito triste. Isa fez sopa, enquanto Carina tomava um vinho e elas assistiam a live da Ana Carolina. Enfim, os tempos de início da pandemia. Elas continuaram conversando, trocando sobre os relacionamentos e sustentando uma rede de apoio para outra. Até que Carina veio pro Rio de Janeiro (visto que mora em Friburgo, interior do Rio) e tomaram a iniciativa de se encontrar, em julho de 2020. No caminho, Carina se perdeu, acabaram se encontrando em Botafogo e foram até a Mureta da Urca. Passaram um tempo conversando e depois se beijaram. Carina conta que neste dia Isadora lhe mostrou o Rio de Janeiro, foram pela Zona Sul até à Rocinha. Passaram a semana seguinte sem se encontrar, pois Carina retornou para casa e depois voltou ao Rio na sexta e ficaram sozinhas na casa de uma amiga (inclusive, a amiga é a ex que fez com que a Isa encontrasse a Carina no Instagram!). Contam que o que ia durar um dia de fim de semana juntas na casa da amiga, se tornou quatro. A Isa queria ter gravado aqueles dias, pois tudo fluiu tão bem, conversaram muito, depois ficaram em silêncio compartilhando a companhia no sol e comeram e beberam juntas. Tudo fluiu de maneira muito tranquila. Após este encontro, elas não se falaram durante uma semana. Carina diz que ficou preocupada, pois ficou muito envolvida nestes quatro dias, ficou considerando a distância de uma cidade pra outra, além dos conflitos familiares sobre a homossexualidade da Isa. Por sua vez, Isa conta que estava respeitando o tempo de Carina, pois sabia dos conflitos internos que ela estava vivenciando entre as superações do antigo relacionamento e o medo de se apaixonar. Diz que ambas são muito diferentes, mas que sempre incentivou a Carina a se jogar na relação. Por isso, desde o início sempre conversaram muito, tendo sensibilidade para escutar e falar o que sentem e pensam. O que, também, necessita muita paciência. Carina conta que conversam muito sobre sentimentos ditos negativos… como ciúmes, inveja e raiva, para conseguirem entender uma à outra. Também dizem que tem muito carinho e respeito e acabam estendendo isso para os outros na sua volta. Em geral, a distância é tranquila, pois a família da Carina é muito calma e elas podem ficar juntas na casa dela. Mas a dinâmica de idas e vindas em si está cada vez mais cansativa, pois estão menos tolerantes a ficarem separadas. Costumam ficar em casa, ir nos amigos ou em Lumiar, cidade vizinha, tomar uma cerveja e conversar… Quando se encontram no Rio, dormem na casa de alguma amiga da Isa ou alugam um espaço. Contudo, há semanas que ficar distante é muito sofrido, pois estão vivenciando suas dificuldades individuais e gostariam muito de ter a companhia uma da outra. A Carina tem 25 anos, é formada em Direito e mestranda em Sociologia e Direito na UFF. Por ser uma mulher com deficiência, participa de uma comissão em Friburgo, cidade em que mora, fazendo palestras sobre acessibilidade e inclusão, observando demandas de acessibilidade. Ela conta que o mestrado vem a partir do desejo de dar aula, pois não se identifica com o Direito enquanto profissão por um espaço extremamente elitizado, então quis buscar a Sociologia para dentro do Direito pra poder expandir seu conhecimento e quebrar com esse viés da elite. Além de tudo, faz também pesquisa sobre pessoas com deficiência dentro do sistema penitenciário e dá aulas na graduação. A Isabelle tem 22 anos, faz faculdade de Produção Cultural e trabalhou em comércio por alguns anos. Desde o ensino médio desejou fazer produção cultural, mas não tinha condições de pagar a faculdade e precisava trabalhar para se sustentar. Sentiu que estava em um momento muito exaustivo da vida e se demitiu do trabalho no shopping, mesmo gostando muito de trabalhar lá (considerando, claro, que o trabalho era exaustivo, principalmente pelas horas e pelo deslocamento). Hoje em dia, através das fotografias feitas pelo celular, descobriu um olhar muito sensível, uma habilidade de produzir vídeos e fotos e um novo hobbie. Conta que uma amiga percebeu essa habilidade nela e a Carina a incentivou. Isa nos contou bastante sobre sua avó ser a maior fonte de inspiração na hora da criação, por gostar de registrá-la. Gosta muito de gravar momentos na cozinha, familiares e pessoas próximas cozinhando, entende que é uma confraternização muito significativa e afetiva. Comentou que seu avô era poeta e diretor da Academia Brasileira de Letras, mas que pouco sabe sobre ele e que gostaria de ter mais informações, sendo essa uma das motivações para gravar sua avó, então registra conversas importantes com ela, sobre fatos que ocorreram ao longo da vida, conversas com a família e enxerga isso como uma descoberta da sua própria história. Para a Isa, amor é estar junto sem ter medo, ou seja, poder falar qualquer coisa sem que isso seja um grande problema. No amor se encontra acolhimento, se sente confortável… e que tudo bem, se às vezes acontecerem desconfortos, mas que isso não pode ser a maioria. Entende que os relacionamentos precisam ser confortáveis, pois a vida e a adultez por si só já são muito difíceis. Traz que sua avó sempre brilha o olho quando fala sobre as pessoas e coisas e comenta que as pessoas lhe dizem que ela também tem essa mania de “brilhar os olhos”. “Amor é você brilhar os olhos pra um animal, casa, família, amigos, relacionamento…” Carina conta que amor é resistência. Há um jogo dúbio nas relações e as características de cada uma delas: conhecer as profundidades do outro, saber a existência disto e acolher. Acolher o sentimento do outro. Ter a resistência de fazer dar certo e respeitar as diferenças. Entende que mulheres são resistentes o tempo inteiro, assim o amor entre mulheres têm um respeito enquanto gênero e luta feminina com formas de amor diferentes. Por fim, a Isa comenta que pensa muito na sua família quando pensa em amor e nas relações que nós mulheres temos com ele. Traz o livro ‘’Mulheres Que Correm Com Os Lobos’’, entende a ancestralidade nas relações, pois às vezes a mulher apaga e vem outra mulher e ajuda a acender, incentivando e estimulando. Entende que sua família é muito diferente, mas se ama muito e se respeita muito. O amor é como um estado de espírito. Comentamos sobre a importância de estarmos ligadas na movimentação social da cidade, e a Carina diz que em Friburgo, onde mora, isso é fundamental, pois a cidade infelizmente é composta por poucos movimentos sociais e muitas pessoas racistas e homofóbicas. Além de querer igualdade e oportunidade para todos, precisamos formar uma conscientização melhor sobre o outro, respeitar e ter empatia com suas individualidades. Isa completa, sobre enxergar as pessoas como seres humanos, que sentem, sofrem, cansam, trabalham, sagram. É comum que as pessoas esqueçam o sofrimento e vivências dos outros. “As pessoas precisam se respeitar mais, nos seus momentos, sofrimentos, lutos (e lutas), felicidades, entender suas necessidades e assim, a partir do momento que entende suas necessidades, você irá devolver isso para o outro. O respeito é transmitido.” Isabelle Carine
- Aline e Nathália
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Aline e Nathália, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Fotografei a Aline e a Natalia cozinhando juntas porque desde o começo da nossa conversa deixaram claro o quanto essa é uma atividade que gostam de fazer (enquanto ouvem e criam músicas). Entendem o cozinhar enquanto uma alquimia, algo que vem desde suas avós, e a Aline explica o quanto aprendeu a cozinhar de fato depois que ela e a Nath começaram a se relacionar. Além dos hábitos na cozinha, outra coisa em evidência desde o princípio foi o quanto demonstraram que a relação é feita por muita comunicação. Ambas estudam comunicação não violenta e durante a pandemia de Covid-19, por estarem em casa e conviverem 24h juntas, colocaram em prática diversas formas de se ouvir. Entendem que se passaram tanto tempo juntas, vivendo processos individuais e coletivos, e não viveram nenhuma briga, isso é graças ao que colocaram em prática. Não ter brigas não quer dizer que não há conversas difíceis e desafiadoras. São elas, inclusive, que trazem uma nova sensação: a de segurança, de ser capaz de resolver qualquer problema. Enxergam os sentimentos e as necessidades mudando ao longo do tempo, por isso entendem o relacionamento enquanto um investimento: entregam e cobram respeito, compreensão e muitas outras coisas. Dentro de tudo o que constróem juntas, agem pensando em mulheres. São feministas e estão ativamente no seu cotidiano impulsionando as mulheres ao seu redor, entendendo que suas vidas giram em torno disso, até mesmo quando estão em espaços ainda pouco ocupados por nós. Exemplo disso são as aulas de violão e canto que a Aline dá: nem sempre são turmas de alunas mulheres, mas faz questão de debater com os homens temas importantes como ausência de mulheres em bandas e vozes femininas. Além de trabalhar com as aulas, Aline, que estava com 30 anos no momento da documentação e nasceu em Friburgo, interior do Rio de Janeiro, também trabalha com música em shows e teatros e mantém uma companhia de teatro com a sua mãe, sendo compositora e diretora. Ela conta que viveu desde sempre cercada por muitas formas artísticas e, mesmo se formando em psicologia, não se vê distante da arte em nenhuma ocasião. Natalia, por sua vez, estava com 35 anos no momento da documentação. Nasceu em Xapuri, no Acre, mas se mudou muito nova para o Rio de Janeiro com a família, crescendo no interior (na Região dos Lagos) e hoje em dia morando com a Aline em Niterói. Ela é designer e trabalha num espaço de militância coletiva. Além disso, faz doutorado em mídia e cotidiano, estudando a cobertura midiática de violências contra mulheres lésbicas. Se considera uma mulher feminista, passou bastante tempo estudando sobre o cárcere brasileiro e também faz parte de um coletivo de mulheres lésbicas em Niterói. Seu sonho é criar uma casa-escola com a Aline, promovendo cursos feministas e espaços de troca. Foi em 2019 que se conheceram. Na época, Nath foi almoçar com uma amiga, que cumprimentou uma menina na rua - a Aline. Elas contam que acharam uma a outra muito bonita… Nath pensou que Aline fosse meio marrenta, estava com um fone e um short de ginástica, não quis sentar à mesa com elas, estava de passagem. Perguntou para a amiga quem era a Aline e então descobriu que tanto a amiga, quanto a Aline, estavam ensaiando juntas para fazer um show em breve. Natalia vivia um casamento que funcionava enquanto relacionamento aberto, entendiam que passavam por um momento diferente: ela gostava de sair, ele gostava de ficar em casa… e foi assim que ela começou a frequentar os ensaios da amiga e conheceu um pouco mais a Aline. Aline, desde o primeiro momento que perguntou para a amiga quem era a Nath, escutou logo: “Nem vem! Ela é casada!” e pensou que não iria acontecer nada, a não ser que fosse conhecendo a Nath aos poucos. Depois de um tempo, Nath deixou claro para a amiga que o relacionamento era aberto e o papel dela na história mudou: começou a ser como um cupido para as duas. Fazia de tudo para deixá-las sozinha, ficava claro que uma tinha interesse na outra, mas o beijo demorou para acontecer. E quando aconteceu, foi um tanto quanto desconfortável. Estavam na rua e no momento passaram diversos ciclistas cantando louvor, era algo como: “Passeio de Ciclistas com Jesus” e elas estavam ali, com tudo aquilo acontecendo. Depois, repetindo o beijo, entenderam que não seria tão desconfortável assim. Durante o relacionamento da Natalia, ela já tinha ficado com mulheres outras vezes e por isso achavam que seria um rolo passageiro com a Aline, que não duraria muito. Porém, passava por diversos momentos difíceis e não se via mais que amiga do seu antigo companheiro (que, inclusive, é um dos seus melhores amigos até hoje). Tendo a Aline mais próxima, tudo caminhou para que o fim do relacionamento acontecesse. Começaram a se encontrar na casa da amiga que tinham em comum, e depois, quando entendeu que realmente gostava da Aline, deu o passo de repensar sua relação. Aline também passava por momentos bastante complexos naquele período: estava morando sozinha e pagando aluguel, tinha diversas dores financeiras por não ter o reconhecimento desejado enquanto artista e foi no começo de março de 2020 que decidiu aceitar o convite da Nath e se mudar para a casa dela, assim gastariam muito menos e poderiam repensar o que desejavam para seus investimentos e para a relação. A questão foi: poucos dias depois da mudança começar, chegou o lockdown por conta da Covid-19. Com a mudança pela metade e o medo de ser uma decisão precipitada, começaram a viver a pandemia. Hoje em dia, entendem que terem passado a pandemia juntas foi muito melhor do que se estivessem sozinhas em casas diferentes. Também relembram o quanto tudo era no começo, estavam apenas há 6 meses se conhecendo e passar todo o dia juntas era um desafio, foi onde deram início à trabalhar melhor a comunicação entre elas. Hoje em dia, Aline reconhece quantas mudanças já passou para entender o amor. Conta que há anos atrás ela não era uma pessoa que procurava os amigos, se sentia um tanto bruta com as pessoas e desejava ser mais gentil, não queria mais estar tão solitária. Passou a fazer movimentos de trazer amigos para perto, demonstrar de fato o que queria, e foi assim que entendeu o quanto o amor é uma construção, do qual necessita demonstração e esforço. No começo do relacionamento entendia que viviam uma paixão, mas hoje o amor vem através deste esforço, do respeito que aprenderam a ter entre tantas escutas. E Nath completa: amar é investir. Durante a conversa, também falamos sobre o quanto é ruim uma pessoa chegar e simplesmente dizer o que ela acha melhor dando isso como regra ou decisão única, sem uma conversa, sem um diálogo em que ambas expõem o que sentem. Por isso, elas entendem que mesmo se um dia chegarem no consenso de um término, isso vai ser muito conversado e feito de forma respeitosa, assim como foi a relação desde o princípio. Por fim, contam alguns momentos que mostram o cotidiano, como a vida ser regada de música e essa ser a forma artística preferida delas. No caminho para o centro da cidade, uns dias atrás, colocaram um hobbie em prática: criar paródias. Entre duas palavras: ‘jovem’ e ‘propósito’, começaram uma música desde o início, só finalizando quando já chegaram ao local. ↓ rolar para baixo ↓ Aline Natalia
- Gabriela e Mariana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mari e da Gabi, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Ela conseguiu diversos trabalhos fazendo lettering em paredes e outros freelas com comunicação, e por mais que tivesse chegado aqui em dezembro com algum dinheiro guardado, ambas sabiam que o mesmo teria prazo para acabar. Quando a pandemia surgiu em março foi um susto muito grande, porque passaram por um aperto e por muitas incertezas. Ela parou de trabalhar e a Mari corria o risco de também ficar sem emprego. Por mais que ainda tentassem de diversas formas conseguir contornar as situações (no carnaval antes da pandemia, por exemplo, venderam sacolés - que chamaram de sacolésbicos! - e assim conseguiram dinheiro para aproveitar o feriado e pagar as contas), tudo gerava bastante medo de não conseguirem bancar e não sabiam muito o que fazer sobre, até porque a pandemia não mostra nenhuma outra oportunidade ou opção. Elas contam que a família da Mari foi essencial e muito acolhedora nesse momento também, foram muito importantes para que elas não se sentissem sozinhas, e que mesmo com os problemas financeiros, isso nunca afetou elas enquanto um casal nos sentimentos e no amor. Existem vários tratos que nunca precisaram nem serem especificamente feitos, foram surgindo naturalmente entre elas, de que quando uma está com menos dinheiro a outra tenta segurar as pontas, já que ambas estão sempre conversando sobre tudo. A parceria é muito forte nesse sentido. ♥ Por mais que hoje elas brincam e dão muitas risadas pelo começo rápido do namoro, a verdade é que ele não foi nenhum pouco fácil. Elas estavam muito felizes juntas, enquanto um casal, mas a vida da Gabi em Araras estava bastante complicada. Ela passava por muitos momentos complicados no trabalho e sofreu duras críticas dos amigos por ter começado a namorar tão depressa. Muitos se afastaram dela e nem quiseram tentar acompanhar o relacionamento dela com a Mari, ela se sentiu bastante triste e acabava vindo mais para o Rio porque não se sentia tão bem ficando em São Paulo. Além disso, a partir do primeiro momento em que ela esteve no Rio, criou uma conexão muito forte com a cidade. Ela conta que o Rio representa tudo o que ela sempre estudou, a antropologia está muito presente aqui o tempo todo, e acabava também que sempre que estava aqui conseguia bastante trabalho freelancer... as coisas iam acontecendo muito rápido. As pessoas sempre falavam que o lugar dela não era em Araras e um pouco antes delas completarem um ano de namoro sentiu que era o estopim e o momento: fez as malas e largou o emprego em São Paulo, veio apenas com a passagem de ida para o Rio! Assim que ela chegou, ficou hospedada na casa de um amigo e a ideia era ficar lá no primeiro mês, porém o lugar era bastante perigoso e a família da Mari achou melhor acolhê-la. As duas ficaram juntas e conseguiram alugar uma kitnet, por mais que o espaço fosse pequeno e que as coisas tivessem se ajeitando aos poucos, a família da Gabi também foi entendendo que ela estava mais feliz no Rio e foi apoiando a vinda dela, então ela foi conhecendo pessoas, distribuindo currículos e tentando empregos. De uma forma um tanto quanto aleatória, a Gabi viu o perfil da Mari sendo divulgado em algum Twitter LGBT de pessoas solteiras, mais em tom de brincadeira do que de seriedade, e resolveu segui-la, então a Mari seguiu de volta e elas se tinham nessa rede social. O tempo foi passando e em 2019 ambas estavam solteiras e interagiam em alguns tweets. Até que em um sábado, a Gabi estava estudando e resolveu beber... já estava começando a ficar alcoolizada e viu um tweet que a Mari fez sobre queijos (quem quer puxar assunto dá um jeito, né minha filha?) e resolveu responder, resumindo: começaram a conversar e um tempo depois a Mari estava pegando um ônibus, saindo do Rio de Janeiro e indo para Araras em pleno carnaval, para as duas se conhecerem! A Gabi foi buscá-la em Campinas, cidade próxima, e a rodoviária de Campinas tem dois andares, então ela conta que, enquanto estava no piso superior, ao ver a Mari saindo do ônibus, ela teve certeza que namoraria essa mulher. As duas se falaram, ambas nervosas, o papo fluiu, já era tarde da noite e quatro horas depois elas se pediram em namoro - ou seja, quando a família da Gabi acordou e foi dar bom dia para a ‘menina do Rio que finalmente chegou’, a menina já tinha virado ‘a namorada do Rio que finalmente chegou’. A Gabi tem 26 anos e é natural de Araras, interior de São Paulo. Se formou em Ciências Sociais com foco em antropologia e está cursando publicidade e propaganda, trabalhando atualmente em uma agência de publicidade, mas vive entre muitos hobbies, freelas e artes: pinta quadros, faz lettering, web design, curte fotografar, é líder de torcida e adora falar sobre muitos temas na internet, principalmente saúde mental. A Mari tem 31 anos, trabalha enquanto instrutora de informática e faz faculdade de educação física. Ama música, adora cantar, tocar vários instrumentos, já teve até canal no YouTube (alô, sapatão MPB!). Sempre adorou esportes e joga muita bola, além de arrasar na cozinha. Elas amam fazer coisas juntas, falam muito sobre o relacionamento nas redes sociais para incentivar mulheres a saírem do armário e falarem sobre conexões homoafetivas e também gostam muito de criar coisas juntas, a Gabi brinca que a Mari adora montar e fazer coisas, então, por exemplo, elas precisavam comprar um sofá e quando ela se deu conta a menina já estava vendo formas de fazer o próprio sofá! Hahahaha! Se pudesse, faria tudo! Hoje em dia, moram juntas com os gatinhos em um apartamento em que cada cantinho tem algo feito por elas, desde os quadrinhos nas paredes, até as plantas que cuidam juntas e o espaço aconchegante no quarto. Por mais que no primeiro encontro da Mariana com a Gabriela já tenha acontecido o pedido de namoro e isso soe bastante impulsivo e até mesmo um pouco inconsequente, hoje em dia, alguns anos depois, com alguns quilômetros de distância e morando juntas, elas são as pessoas mais sensatas e conscientes sobre suas atitudes que eu poderia conhecer. Não que uma pessoa que comece a namorar no primeiro encontro não esteja consciente da sua atitude, mas que poucas vezes vi casais que conseguem se equilibrar em tanto companheirismo como na tarde que eu passei dentro do apartamento da Gabi e da Mari, em Madureira, no Rio de Janeiro. Me peguei por muito tempo depois pensando se talvez tamanho companheirismo tivesse surgido pela correria diária que passaram juntas - porque nos momentos mais difíceis acabamos sempre nos fortalecendo - mas acredito que o que envolve tamanho amor entre a Gabi e a Mari é o quanto elas se impulsionam em querer ver bem, sobretudo, na saúde mental. Ambas estão sempre com diálogo muito aberto, compartilhando inseguranças, medos, conversando sobre o que sentem, sobre suas admirações e sobre seus olhares à forma de ver o mundo. A Gabi, quando falou da Mari e da importância que ela têm na luta pela saúde mental, se emocionou e deixou claro o quanto é grata pela mulher que a Mari se tornou. Por quem ela é. E a Mari, logo depois, completou com uma fala em que explicava que família é algo que nem sempre está ali para te entender em cada detalhe, mas para te apoiar e dar amor em o que você precisar. Tudo se encaixou entre elas, de alguma forma, nesse amar, admirar, se encontrar, encantar, apaixonar e confiar. A Gabi e a Mari acreditam que o amor entre mulheres envolve não só as relações românticas, mas saber admirar, apoiar, escutar, reconhecer e querer estar com outras mulheres. A Mari comenta que quanto mais descobrimos o mundo de amar e de nos apaixonarmos por coisas feitas por mulheres, por espaços compostos por mulheres… mais queremos estar nesses lugares, mais queremos conhecê-las, e também mais queremos exaltar seus trabalhos e quem essas mulheres são. A Gabi conta também a importância de ter outras mulheres na nossa vida para nos referenciarmos… desde nos nossos trabalhos, na nossa faculdade, nos espaços que antes eram majoritariamente ocupados por homens. Ambas acreditam que para que a sociedade como um todo mude e para que a gente cresça, é preciso uma reeducação sobre o machismo (e sobre os preconceitos em geral), além de uma redistribuição de cargos públicos, de renda, de condições de vida. Para que ninguém mais passe pela fome, que ninguém mais sofra discursos de ódio e que a gente não viva no caos porque o caos só beneficia o lado de um sistema que realmente não quer saber da gente. Que saibamos ir além dele. ♥ Mariana Gabriela
- Cássia e Kercya
Por mais que a família da Kercya não tenha ido ao casamento delas, eles estão completamente apaixonados e empolgados com a vinda da Marina. E a família da Cássia já é maluca (no ótimo sentido) e vibrante por natureza, então está todo mundo feliz e empolgadíssimo diariamente. Um pouco antes delas saberem da gravidez, estiveram na praia e postaram uma foto com a legenda: marinando. O destino deu seu jeito e tudo se juntou ao nome. Hoje em dia, vivem um novo momento, por conta da gravidez, de terem ficado sem emprego durante a pandemia, de estarem reaprendendo a se virar. Mas não deixam de aproveitar cada segundo com muita felicidade e muito amor. Sonham com um mundo em que a Marina possa ser completamente respeitada sendo quem ela é, porque é isso que vão ensinar a ela desde sempre: a respeitar os outros como eles são. Pensam muito na vida dela na escola, no mundo, em tudo. Entendem que o amor pode muitas vezes caminhar próximo da dor, mas que ele é mais que um sentimento, é uma experiência, e por isso sempre estarão dispostas a dar tudo o que puderem a ela. Um amor que o olho brilha, que é de verdade e que sustenta. A gravidez foi um desejo sempre pensado e sempre sonhado por ambas, a Cássia conta que sentia que queria gerar com a Kercya desde o primeiro momento porque quando olhava para ela e para a forma que ela lidava com as crianças já vinha dentro dela uma sensação de “é ela.”, e a Kercya completa que sempre quando elas viam casais com filhos pequenos falavam que “logo será a nossa vez”. Porém, contam também que a própria gravidez em si, por mais que muito pensada, foi também muito rápida, por conta de ter acontecido logo na primeira tentativa. Quando começaram as pesquisas entenderam que seria muito difícil, por envolver muito dinheiro, tanto na fertilização, quanto na inseminação. Os custos de clínicas privadas eram bastante altos e o SUS (no caso da fertilização) mais próximo de Fortaleza/do Ceará, seria em Natal/RN, o que era muito longe e caro para elas. Foi então que chegaram no processo de inseminação caseira, mas entenderam que envolvem muitos riscos e por isso precisam de muito cuidado e muita pesquisa. Foi mais de um ano de exames e acompanhamento médico, até que conseguiram contato com um doador em Fortaleza e resolveram fazer a primeira tentativa no período de ovulação. O procedimento foi em casa, envolvendo ejaculação, seringa, luvas, tudo direitinho. No momento exato, estavam só as duas. Elas contam que se apegaram mais na possibilidade de não dar certo, pelo medo da frustração, por saberem das chances (que não eram altas), mas a partir do momento que tiveram o olho no olho, ali, juntas, mesmo com o não, era um momento bastante marcante. Tudo aconteceu no dia 30 de novembro. Algumas semanas depois, a menstruação não desceu, 8 testes foram feitos, todos deram positivos. O exame de sangue comprovou: estavam grávidas! Marina surgiu nesse mundo! O melhor de toda essa história é que o ponto chave em que elas começam a conversar prova que o amor está disposto a enfrentar MUITOS desafios particulares, e um deles é que nessa época a Cássia estava voltando para a casa de moto, porque não se sentia bem pegando ônibus - ela desenvolveu uma fobia e não conseguia ficar dentro do transporte. Mas, em um dia específico, a Kercya ficou sem carro e na hora em que estavam saindo do trabalho perguntou que ônibus ela pegava, e no impulso a Cássia respondeu que pegaria o mesmo ônibus que a Kercya apenas para que elas pudessem ir juntas para passarem mais tempo, puxarem conversa, poderem ter alguma interação. O fato é que, desde o momento em que entraram no ônibus, a menina suou tanto frio que nem prestava atenção em nada do que a Kercya falava, de tão nervosa que estava. Só lembrou de antes de se despedir, pedir o Whatsapp para avisar quando chegar em casa e quando chegou mandou mensagem, desde então, começaram a conversar. A Kercya não tinha noção de que a Cássia era lésbica, mas já havia compartilhado sobre o relacionamento que vivia e sobre as condições dele não estarem boas e as dificuldades que passava, foi num momento em que conversavam na escola que a Cássia puxou um “acho melhor falarmos disso em outro ambiente, vamos um dia lá em casa!”, a Kercya achou ok e topou, no fim de semana seguinte, estava lá. Nesse dia, elas ficaram. Ou melhor, a Cássia atacou ela! Hahahaha! Foi assim mesmo! Ela disse que “vai ou racha!”. E foi. A Kercya terminou o relacionamento por ligação mesmo, visto estar insustentável e desde então elas não se desgrudaram mais. Se viam todos os dias, uns meses depois foram morar juntas e depois de um tempo se casaram, tanto no civil, quanto no religioso (no dia do casamento, inclusive, quando elas entraram, rolou um arco-íris de presente da natureza no céu!). ♥ Com o passar dos dias, a Cássia foi sustentando a paixão secreta e chegava cedo no trabalho, tentava sempre puxar assunto na recepção, fazia de tudo para soltar um sorriso da Kercya, mas ela não dava muita bola. Na época, tinha um relacionamento à distância com uma mulher que morava na Bahia e esse relacionamento era bastante escondido para ela, era algo bem difícil também, estava bem conflituoso, então conta que acabava se fechando bastante. O fim do ano chegou e com ele a festa de confraternização da escola também, seria numa pizzaria e a Cássia armou toda uma situação para ficar sozinha com a Kercya no carro (que, infelizmente, deu errado). No dia, a Kercya tinha batido o carro, tido um dia difícil também no relacionamento, não estava se sentindo nenhum pouco bem, acabou que isso só foi descontado na Cássia e ela se sentiu mal e foi embora. Mais uma vez, em uma desilusão amorosa, agora no fim de ano, ela cogitou o pensamento novamente da ida para a Itália... com o passar dos dias e a chegada do réveillon, ela fez uma viagem até a Paraíba e lá chorou vendo os fogos. Enquanto a Kercya, em sua virada, também passou o ano novo triste, chorando. Ambas sem saber o que seria de 2017 e sem boas expectativas. A Cássia pensou muito sobre a volta para a escola no começo do ano e pensou em voltar nem que fosse para pedir demissão. Quando chegou no local, viu logo o sorriso da Kercya e sentiu tudo aquilo de novo, então não tinha jeito, resolveu ficar. Com o passar dos dias percebeu que ela (a Kercya) estava permitindo sorrir mais, ser mais simpática, mais aberta… e assim começou o ano letivo. Foi depois de rodar o Brasil e voltar para casa que Cássia teve uma decepção amorosa e decidiu que sairia do país. Era fim de 2016, ela conseguiu uma rescisão boa em um emprego, conheceu uma mulher que organizava passagens de ida para a Itália (não vendia, mas organizava questões de baixa no euro) e se inscreveu na lista de espera. Até que surgiu um lugar que precisava de uma pessoa para fazer um trabalho de um dia para uma colônia de férias escolar, como um freelance, e ela topou, pois seria uma forma de entrar mais dinheiro. Essa escola, sem ela sequer imaginar, pertencia à irmã de Kercya, pessoa que ela conheceu logo no primeiro dia, pois trabalhava na recepção. Quando ela chegou, animada, dando bom dia, foi respondida com um oi um pouco ríspido e já não entendeu muito qual era o clima, mas o dia seguiu bem e acabaram convidando-a para voltar no dia seguinte, ela topou pela questão financeira. A proposta se estendeu para terça e quinta da semana seguinte e nesse segundo dia, ouviu uma conversa por alto da diretora comentando com outra pessoa sobre estarem procurando alguém para trabalhar de forma fixa ali, enquanto pedagoga. Um tempo depois, ela estava na rua e ouviu uma gargalhada muito gostosa vindo da sala da recepção, disse sentir algo único, era uma gargalhada única, e perguntou para um menino que estava por perto de quem era essa gargalhada, ele só olhou e respondeu “ihhhhhhh…” e então, quando ela passou pela sala, viu a Kercya de costas, com uma trança no cabelo, rindo. Preciso continuar explicando a cena? Foi paixão à primeira gargalhada, né. Ela conta que sentiu o coração amolecer. Quando viu a diretora (que nem imaginava que era irmã da Kercya), simplesmente resolveu dizer que ela não precisava mais procurar alguém para trabalhar ali, não!! Mas sim, que já havia encontrado! A diretora riu, achou que estava brincando, e ela confirmou que não era brincadeira, que a pessoa era ela mesma, pois estava estudando pedagogia e era a pessoa certa para o cargo. A diretora confiou, aceitou e ela foi contratada (hoje em dia, elas dão risadas e comentam que essa decisão foi bem criticada pela própria Kercya inclusive, que disse “como você contrata alguém assim, sem conhecer direito?!”). Conheci e fotografei a Cássia, a Kercya e a Marina durante a passagem do Documentadas por Fortaleza, no mês de maio. As duas escolheram batizar a Marina com esse nome porque Marina significa o que vem do mar, além de ser o nome que se dá àquela linha do horizonte que divide o céu da água, e foi no mar também que nos encontramos, na praia, conversando, com os pés na areia. Elas já chegaram falando “a gente olha pra cá e só consegue imaginar a Marina aqui, engatinhando”, foi assim que começaram a contar a grande aventura que foi planejar essa gravidez. Por mais que tudo tenha sido bastante pesquisado e feito com cuidado, elas brincam que as coisas meio que aconteceram, como tudo na vida delas… “o destino sempre dá uma ajudadinha”. A Cássia tem 34 anos, é animadora de festa infantil e recreadora, trabalhava com festas de aniversários e já fez de tudo um pouco (há boatos que até participar de trio estilo carreta furacão participou! hahaha!). Ela já rodou o Brasil com mochila nas costas sem um tostão no bolso vendendo arte por aí, já empreendeu, já conheceu muita gente… e sempre sonhou em ser mãe. A Kercya tem 31 anos, é gestora de recursos humanos, chegou a acompanhar o trabalho de animações por um tempo (dando vários auxílios, principalmente na produção), trabalhou em uma loja enquanto gestora até o meio da pandemia, adora fotografar (hobbie um pouco criticado pela companheira por motivos de falta de enquadramento, risos) e é uma eterna apaixonada por cinema. Kercya Cássia
- Anik e Isabelle | Documentadas
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- Clara e Laura
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Clara e da Laura, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Clara e Laura, por mais que estejam há pouco tempo juntas, entendem que já passaram por muitas coisas. Seja pelo fato de que vivem a grande maioria dos dias na casa da Clara, ou por serem muito dispostas uma para a outra, acabam todos os dias topando diversos eventos diferentes, desde que estejam juntas. É na rotina que criaram que Laura entende o que é o amor. Quando lembra de ter se assumido durante o período que estão juntas, também reflete que foi ali que se permitiu viver detalhes cotidianos: dormir e acordar com quem se gosta, compartilhar o dia com a família, sair com os cachorros para passear sem medo e receio de que alguém pudesse ver… São coisas muito simples, porém que não poderia viver antes, e hoje em dia encontra seu sentido de amor no cotidiano. Clara complementa que para além dos fatos diários, tem o ponto chave para ela: o cuidado. Elas cuidam muito uma da outra e de quem amam: sejam os amigos, a família, os bichinhos, o curso que estudam na faculdade. Tratam tudo com muito cuidado, até mesmo nas palavras, e é no carinho que uma demonstra pela outra ao ter cuidado que enxerga o amor. = Laura, no momento da documentação, estava com 20 anos. Ela estuda Relações Internacionais na PUC-Rio, é carioca, adora ler e escrever. Clara, no momento da documentação, estava com 22 anos. Ela também é carioca e estuda Psicologia na PUC-Rio, se forma esse ano e está completando o estágio na clinica social da universidade. Clara também ama escrever, já lançou até um livro, mas hoje em dia se vê um pouco distante do hobbie, pretende voltar. Ambas são muito próximas das suas famílias, contam que suas mães são as maiores amigas e inspirações que possuem e admiram tudo o que já foi conquistado por elas. E hoje em dia, como ambas as mães sabem sobre suas relações, gostam bastante de conviver em família. = Laura gosta de pensar que a história delas é dividida em duas partes: uma da qual elas não se encontravam mesmo estando nos mesmos lugares durante meses (e tendo amigos em comum/vivendo situações em comum) e outra em que elas finalmente se encontram e começam a se envolver. A primeira vez que se esbarraram foi nos jogos universitários, que aconteceram no interior do Rio de Janeiro. Ambas fazem parte de atléticas dos seus cursos e, lá, durante os dias de jogos, se viram na arquibancada pela primeira vez. Até esperaram se encontrar nas festas que tinham no fim do dia, mas não aconteceu. Voltaram para o Rio sem ao menos conversar. Laura achou o perfil da Clara nas redes sociais e adicionou - enquanto Clara achou que era apenas uma menina hétero com amigos em comum e aceitou. = Um tempo depois, com suas vidas seguindo rumos bem distintos, começaram a conversar através do Instagram. Enquanto o tempo foi passando Clara já tinha entendido que a Laura era uma mulher que se relacionava com outras mulheres e que estava solteira, foi quando começou a demonstrar interesse. Passaram muito tempo conversando e não conseguiam se encontrar: quando uma chegava na faculdade a outra estava saindo, nas festas de universidades quando uma estava a outra não ia, e assim seguiram até que um dia Clara chamou a Laura para um date. Ela topou, mas novamente não conseguiram se encontrar por imprevistos no dia e o tempo foi passando. Clara brinca sobre o quanto é uma pessoa emocionada e apegada, então mesmo sem encontrar a Laura já sentia corações saindo dos olhos… Os amigos, por sua vez, orientavam: “Tenha calma!”, mas quando ela percebia já estava se deixando levar novamente. Foi quando marcaram de sair em uma confraternização dentro da própria faculdade. Havia muita gente, estava um tanto quanto caótico, mas junto com todos os amigos (que já sabiam da existência uma da outra, de tanto que conversavam), conseguiram se encontrar e tiveram o primeiro beijo. = Desde que se beijaram pela primeira vez, seguiram conversando. No dia seguinte, Clara mandou uma foto que tiraram juntas para a Laura e marcaram de se reencontrar na próxima semana. Numa quarta-feira foram beber cerveja em um bar qualquer, depois viram o jogo do Flamengo e seguiram numa sequência de fechar bares até às 4h da madrugada. Sentiam que não queriam se separar, encerrar a noite: queriam ficar juntas. Antes do encontro ficaram com muito medo de uma falar demais, a outra ser tímida, mas eram duas tagarelas e acreditam que se dão até melhor por conta disso: quando uma está quieta é porque tem algo errado. E entender o que está errado nesses momentos também é um novo desafio. São pessoas que se veem entre muitos diálogos, sentem as coisas de forma parecida, mas desejam cada vez mais um relacionamento comunicativo, que entende seus tempos, dores e individualidades. = Fizemos as fotos na casa da Clara e também numa rotina que as representa muito: sair com os cachorros. E, dentre o encontro, outros detalhes estiveram presentes também: como os símbolos da lhama e do pato, animais que representam suas atléticas, e que acompanharam nos pedidos de namoro e escritas na parede da casa. Hoje em dia planejam viagens, gostam de misturar os amigos (que viraram um grupo só) e também de ficar em casa, comendo e assistindo filmes e séries. São mulheres muito dispostas, desde acordar cedo para tomar café uma com a outra antes dos seus afazeres começarem, a vivenciar coisas que nunca imaginaram só pela alegria de estarem juntas. ↓ rolar para baixo ↓ < Laura Clara
- Bruna e Flávia | Documentadas
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- Vanessa e Denise | Documentadas
Amor de Pretitude - Vanessa e Denise clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Clara e Karine | Documentadas
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- Priscila e Rebecca
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Priscila e Rebecca, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Perante as questões dentro de casa, elas sentem que não existem problemas entre elas - na relação em si. Os problemas são sempre sobre o cotidiano e sobre a moradia, mas elas, enquanto casal, tem uma conversa aberta e se apoiam muito juntas. Sonham com o momento em que a Rebecca vai se formar (em breve!) e que poderão deixar de fazer o DogHero, para assim poderem alugar um apartamento e viver entre suas profissões, nos hospitais e nas indústrias. Elas passaram por muito terror psicológico pelo medo de trocarem carinhos dentro de casa, por conta do preconceito. A Rebecca, durante a nossa conversa, comenta sobre a LGBTfobia e sobre como a dor fica mais forte sendo vivida dentro de casa. Mas entendem que este é um período provisório e que logo vão se estabilizar e ter seu próprio cantinho. Para a Priscila, amor é se doar. Doar tempo, doar cuidado, doar atenção. Elas comentam que isso sabem fazer muito bem: amar (e por decorrência, se doar). Se doam para ver a família bem, o relacionamento bem, a amizade entre o casal sempre cultivada e cuidada. Se tem uma coisa que gostam muito de fazer, essa coisa é conhecer novos lugares. Gostam de ir para os bares, mesmo quase não tendo feito isso em 2020 por conta da pandemia. Gostam de viajar, de ver gente. O que mais fica claro, durante toda a conversa, é o quanto o amor delas significa parceria. Tentam dividir qualquer tipo de peso juntas, não soltam as mãos nunca. A mudança da Priscila para o Rio foi muito significativa e extremamente fundamental para o relacionamento delas. Estava muito difícil manter a distância e a Pri já estava em busca de faculdade e trabalho pelo RJ, foi então que a avó e a tia da Rebecca estavam morando num apartamento da família dela e estava sobrando um quarto lá e surgiu a ideia dela fazer a mudança. Foi tudo planejado com cuidado, então a Priscila chegou na cidade já tendo emprego e estudo garantido. Porém, no meio da mudança, ainda existia um problema: ninguém da família sabia que elas namoravam. Aos poucos foi ficando mais claro, a tia da Rebecca hoje em dia adora a Priscila, e por problemas de saúde, acabaram todas se mudando daquele apartamento: foram morar na casa da Rebecca e dos pais dela. É uma casa grande, com os pais, a avó, a irmã, a tia, os bichos… e elas. Até o momento elas não possuem autonomia enquanto casal, porque mesmo que todos já saibam que elas namoram, acabam vivendo como amigas dentro de casa. Sentem falta da privacidade, de poderem trocar algum carinho. A pandemia têm sido um desafio muito grande, primeiramente pela Rebecca ser da área da saúde e estar trabalhando em hospital, depois por serem as mais jovens elas acabam fazendo tudo na rua para que os outros familiares não precisem sair. Como um todo, é desgastante e cansativo a rotina de cuidar da casa, da saúde dos parentes e dos cachorros, mas elas têm levado isso juntas. A Priscila faz de tudo para agradar a família da Rebeca e assim vai conquistando mais confiança também. Hoje em dia, mesmo a sogra tendo diversos problemas envolvendo preconceito, ela está muito mais tranquila e aceitando dia após dia a relação. Rebecca tem 26 anos e está terminando a faculdade de medicina, mas também adora mexer com design gráfico e sente muita vontade de um dia fazer um curso de fotografia. Priscila tem 28 anos, é engenheira e trabalha em uma indústria fazendo a programação da produção, mas sua paixão mesmo são ourives (trabalhar com ouro) e sonha em fazer engenharia de minas. Elas amam animais, principalmente cachorros. Além da Agnes, sua petfilha, existem diversos outros cachorros na casa da mãe da Rebecca, local em que elas moram. Acabam atuando enquanto DogHero também, por garantir uma renda extra e aumentar o amor pelos bichanos. A Agnes foi adotada e chegou como um presente da Priscila para a Rebecca, ela é totalmente companheira das duas, não deixa elas sozinhas, ama igualmente. É uma relação de muito carinho. A Agnes ama a praia - e foi esse um dos motivos por termos escolhido este local para nos encontrarmos. Mas, além disso, a praia significa liberdade para elas. É o local que elas costumam ir muito, foi palco do pedido de namoro, o lugar onde abraçam e beijam sem medo e sem vergonha. É onde passam o dia felizes. A Priscila sentia muito receio de se envolver com alguém… e foi vindo para o Rio durante alguns meses quando percebeu que seu sentimento estava se fortalecendo, causando um grande medo (leia-se, desespero) por não querer se envolver num relacionamento. Quando a ficha caiu já era um pouco tarde, pois estavam, com todas as amigas, embarcando em uma viagem para a serra. A única reação da Pri nessa viagem foi se afastar brutalmente da Rebecca... falava pouco, ficava longe, se fechava de tudo. E aí, mais uma vez, entra quem? Natasha. Natasha conversou com a Priscila durante um bom tempo, incentivando uma nova chance para a Rebecca, falando sobre o quanto ela era uma pessoa legal e o quanto elas mereciam ser felizes juntas. Ela resolveu dar essa chance, mas o começo foi muito turbulento, porque toda vez em que a ficha caia, ela automaticamente tentava se afastar. Lidava com bastante medo. Até que a Rebecca colocou um basta por não querer mais viver esse “efeito sanfona” e disse que elas deveriam conversar abertamente cada vez que isso acontecesse para que assim pudessem encontrar o melhor caminho juntas. Foi no ano novo, alguns meses depois, que rolou o pedido de namoro. De 2016 para 2017, em meio ao réveillon na praia, a Rebecca fez o pedido. A Pri aceitou, foi lindo. Mas todo bom ano novo começa com uma boa história, e nesse caso, a Priscila ficou tão bêbada ao ponto de esquecer do pedido. No dia seguinte soube porque a Rebecca contou, rindo muito. Se vocês acreditarem que existe algum cupido por trás de cada amor, com toda a certeza, nessa história, o cupido se chama Natasha. Natasha é prima da Rebecca e foi a grande incentivadora da formação desse casal. Para vocês entenderem melhor como isso tudo começou, a Priscila morava no Espírito Santo e a Rebecca no Rio de Janeiro. A Pri era amiga da Natasha, se conheceram através de um grupo online. Em 2012 a amizade se desenvolveu e em 2014 resolveram ir juntas para alguns shows que teriam no Rio. Foi aí que a Natasha apresentou a Pri e a Rebecca, mas de cara elas não se deram bem, ou melhor, nem se olharam direito. Com as vindas da Priscila para o Rio se tornando mais frequentes, a Natasha praticamente obrigou as duas a conviverem, então elas passaram a fazer parte do mesmo grupo. Viagem vem, viagem vai. E aí te pergunto, elas passaram a ser amigas? Claro que não. A Natasha fazia de tudo para juntá-las, mas elas ainda interagiam pouco e não se davam muito bem. Como elas acabaram juntas? te respondo aqui. Elas estavam em uma viagem e as amigas insistiam para que ficassem com duas meninas aleatórias, mas elas não estavam afim, então, dos males o menor: vamos ficar entre nós para não termos que beijar as meninas - porque mesmo não indo com a cara, ao menos a gente se conhece. E foi desse jeito que passaram toda a viagem sendo um casal. Foi como uma válvula de escape, mas contam que a Natasha, se pudesse, teria soltado fogos. Esse começo é muito engraçado e desajeitado, mas foi a partir daí que a Priscila começou a vir aos poucos do Espírito Santo para o Rio, fazendo viagens estilo bate-e-volta no fim de semana para ver a Rebecca. Rebecca Priscila
- Joyce e Gabi
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Joyce e da Gabi, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Na intensa rotina de trabalho que Gabriela e Joyce possuem, nos encontramos num final de semana no centro do Rio de Janeiro. Gabi trabalha em farmácia, Joyce em supermercado, são horários bastante cheios e cotidianos exaustivos. Elas moram em Duque de Caxias, região da baixada fluminense, e o que mais gostam de fazer juntas - além de cozinhar (sempre acompanhadas de vinhos) e tirar fotos das coisas por aí, é também ir até o Rio para aproveitar a praia e descobrir lugares novos - ser turista na própria cidade. É justamente entre a dinâmica pouco fácil de uma rotina cheia, de horários de trabalho que não nos dão muitos momentos de descanso e de uma vida agitada que elas entendem o quão é importante se esforçar para enxergarem o amor na relação que vivem. Já são mais de 6 anos morando juntas, Joyce acredita que o amor está nos pequenos gestos do dia que demonstram uma pela outra - uma somatória de coisas que vão se acumulando, fazendo com que a paixão siga existindo. Conta que desde o começo, como não tinha dinheiro, demonstrava escrevendo cartas, imprimindo fotos, criando coisas personalizadas… Hoje em dia, mesmo odiando café, por exemplo, sabe o quanto a Gabi ama e faz café pra ela, compra cafés diferentes quando vê no mercado, sempre quando sai sozinha traz algo que lembrou a Gabi para demonstrar o quanto ela estava presente em pensamento… e sente que nesses pequenos gestos estão vivos os significados do amor. No momento da documentação Gabi estava com 33 anos e Joyce com 24. Por mais que hoje em dia essa idade ainda tenha seu peso pelas diferenças, quando elas começaram o relacionamento, tudo era ainda mais conflituoso. Na época, Joyce nunca tinha se relacionado com mulheres. Gabi tinha uma vida mais agitada, era uma mulher independente, trabalhava numa drogaria próxima à casa da Joyce e foram assim que se viram pela primeira vez. Foi Joyce quem se interessou pela Gabi - e Gabi estava num momento de querer sossego, pensou que era melhor não retribuir interesses, principalmente pela diferença de idade. Mas quando se deu conta já estava entregue e interagindo. Não foi um início fácil, bem pelo contrário. Viveram muitos problemas vindo por conta da não aceitação familiar da Joyce. Ela até então era uma mulher que vivia uma cultura cristã, com padrões sociais, e pensava que no momento que descobrissem até poderia ficar tudo bem pois tinha um tio gay que era casado há anos e aceito na família… mas não foi apoiada nem por ele. Todos foram contra, gerando confusão ainda maior. Gabi foi a mais prejudicada, pois envolveram o trabalho dela, passando por uma grande exposição. Precisou mudar de loja e só não foi demitida porque era uma funcionária exemplar. Todos os conflitos familiares que viveram começaram quando tinham cerca de 6 meses juntas, e duraram mais de um ano e meio, quando Joyce já tinha 18 anos e sem terem outras opções, decidiram morar juntas. Joyce conta que foi num domingo, se sentiu exausta após uma discussão muito grande e saiu de casa. Hoje em dia, aliviada, a família se dá muito bem. A mãe pediu desculpas para a Gabi, entende que a visão que tinha sobre a relação delas era muito distorcida e que a Gabi não era a pessoa que ela pensava. Gabi entende também que as coisas mudam com o tempo e que a base para que tudo mude é o diálogo. Sente muito por não ter tido isso na infância, não foi ensinada a dialogar dentro de casa e não era algo instigado pela sua família. Ao decorrer da vida adulta tenta mudar isso de todas as formas e conversa o tempo todo: sempre está disposta a falar o que sente. Gabi entende que amar é respeitar, em qualquer âmbito. Pensa que talvez na família, no modelo em que vive, as pessoas não respeitam tanto - elas aceitam. Já nos amigos e no relacionamento, aí sim, é diferente: se sente respeitada de verdade, pode ser quem ela é, sem julgamentos, de forma livre. Num momento da conversa, lembram de um filme evangélico que viram uma vez e que fala sobre amar ser uma forma de não desistir, de passar pelas fases, persistir. Sempre pensam no filme quando as coisas estão difíceis, se impulsionam a acreditar no relacionamento, reforçam o amor que sentem. Joyce, por fim, fala sobre o quanto gostaria de mudar algumas vivências que possuem nos dias de hoje no dia a dia morando em Duque de Caxias e tendo as rotinas de passeios pelo Rio também, como o fato de que gostaria muito de sair andando na rua em paz. Comentou que quando vieram me encontrar para registrarmos essa documentação, desceram na rodoviária e estavam caminhando na rua em direção ao lugar que nos encontramos, nisso passaram dois homens de moto e gritaram “Quatro é par” em alusão à elas estarem ‘sozinhas’ e eles também. Reforça que o assédio que sofremos quando estamos na rua enquanto um casal de mulheres (ou enquanto mulheres quando estamos sozinhas) é uma das piores coisas que podemos sentir. E que só queriam estar vivendo bem enquanto um casal que sai na rua, sem essa violência, esse medo. Queriam sair de casa a hora que quisessem (muito cedo ou muito tarde) sem o medo acompanhando o tempo todo. ↓ rolar para baixo ↓ Joyce Gabriela
- Júlia e Yasmin
Julia e Yasmin foram documentadas no lugar que se conheceram, a Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. Elas amam o pôr do sol e também contemplam o espaço andando de bicicleta. Foi lá, em 2019, num evento chamado “Noite dos Museus” que elas se viram pela primeira vez, mas já estavam conversando há cerca de um mês por vídeo-chamadas, depois de darem “match” num aplicativo de relacionamentos, o Tinder. Yasmin conta que deixou o celular com um amigo e com a irmã, então foram eles quem escolheram as pessoas no aplicativo e que, inclusive, deram match com a Júlia. Acabou que a Júlia a chamou e elas começaram a conversa, as chamadas e o encontro no museu. Elas se encontraram ainda na parte da tarde, mas ficaram noite adentro até virar. Não chegaram a se beijar, mas não foi por falta de investidas, só acabou não acontecendo. Dois dias depois se reencontraram, e então, o beijo aconteceu. A partir daí, tudo acelerou: em duas semanas já estavam namorando. Júlia está com 24 anos, é professora e também já trabalhou com pesquisas. Seu sonho é seguir a carreira acadêmica. No momento da documentação, ela morava com seu cachorro, seu gatinho e ocupava sua rotina nas vídeo aulas. Como hobbie, já escreveu muita poesia, mas no momento está em pausa. Yasmin está com 25 anos, é enfermeira e adora praticar esportes. Já jogou handebol, futsal e vôlei. Adora movimentar o corpo de forma espontânea. Quando adolescente, Júlia não se sentia pertencente a nada, se achava esquisita e foi quando resolveu pesquisar na internet se ela podia se apaixonar por outra mulher. Acabou se entendendo enquanto uma mulher lésbica, mas não podia se assumir, até que aos 17 anos se assumiu, no final do ensino médio. Ela entende que o amor entre mulheres envolve algo a mais, além da questão política do dia a dia, como uma ligação mais forte que engloba todas as nossas vivências históricas e sociais. A Yasmin conta que também não se sentia pertencente a nada, e que isso muito parte do princípio da falta de representação: ser uma mulher negra e lésbica não faz parte dos espaços - até o próprio termo ‘lésbico’ pouco é referido à mulheres negras. Para ela sempre foi difícil se ver inserida, pois sempre faltou uma representação. Ao falarmos sobre o amor, Júlia diz que ama amar, mas não sabe definir o que pensa sobre o sentimento amor. Conta que, aos quinze anos, perdeu sua mãe para o câncer, e isso a ensinou muito sobre amar e sentir compaixão. Ela entende que estar junto é se entregar de corpo e alma, e que assim, o amor não permite julgamentos, ele simplesmente acontece. Além disso, também não parece ser um sentimento passageiro: o amor não vai embora. Ao escrever algumas poesias, em uma delas dizia que o amor é como um monstrinho no coração: Cada pessoa que se ama é um monstrinho no seu coração e alguns são mais agitados como dançarinos, já existem outros que são tranquilos. Yasmin completa a fala da Júlia sobre o amor dizendo que, para ela, o encontro delas foi um encontro de almas: uma conexão muito forte desde o início. Elas se entregaram por inteiro e não tiveram medo da intensidade, então muito do que aprendeu sobre o amor foi nessa entrega e nessa construção de relacionamento. Júlia Yasmin
- Rachel e Larissa | Documentadas
Quando fui até Cotia visitar a casa em que Rachel e Larissa moram com a pequena Maria Eugênia e as cinco cachorras mais simpáticas possíveis, não esperava encontrar uma família tão linda e parceira. Lari explica que esse amor tão claro que se enxerga logo que chega é atraído por diversos movimentos, elas nunca ficam paradas: estão sempre falando, ouvindo, dispostas e principalmente não se julgando. Na maternidade entenderam como o não julgamento é importante. Cada uma traz a sua referência de amor e de educação, então precisam entender juntas como criar alguém. Além disso, passaram a perceber a maternidade como uma grande espera: antes, esperavam os exames, depois, um bebê por 9 meses, agora tudo é no tempo da Maria Eugênia. Vivemos numa sociedade muito imediatista que quando você entrega algo e o resultado não sai na hora você se sente frustrado… o tempo de um bebê é muito diferente, o relógio deixa de fazer tanto sentido, e assim elas estão observando muitas coisas diferentes na forma de se relacionar com a vida também. Sentem que o começo do relacionamento era muito sexual, com cheiros, sensações, toques; Depois passaram por um momento de centralizar, entender o que desejavam para a vida, repensar; Depois viveram o planejar, construir a vida… E agora esse amor de doação, de paciência. Logo que Maria Eugênia nasceu, elas pediram para um veterinário vir até a casa para entender como seria o convívio com os animais. Depois de um tempo ele disse: “Nossa, aqui é muito diferente. São 5 cachorras que convivem muito bem, fêmeas, vocês são duas mulheres com um bebê e aqui não tem barulho, é silêncio”. E adoram viver assim, em harmonia. Rachel, no momento da documentação, estava com 38 anos. É psicocardiologista, identifica síndromes e transtornos psicológicos que acometem o músculo do coração e trabalha tanto na área clínica quanto dando supervisões. Nasceu em Itu, no interior de São Paulo, e atualmente mora em Cotia. Larissa, no momento da documentação, estava com 27 anos. É pedagoga mas não atua na área. Trabalhou em uma empresa própria produzindo e vendendo produtos para pets durante 7 anos, desde que elas adotaram a primeira cachorra, que por ser pequena pouco achavam produtos para ela. Hoje em dia, Lari se dedica à maternidade e registra bastante isso em suas redes sociais, fazendo disso uma fonte de renda alternativa. Para Lari, o namoro - que começou quando ela tinha 19 anos - foi uma descoberta sobre possibilidades de famílias. Um grande acolhimento. Quando ela conheceu a família da Rachel, pensou: “Meu Deus, dá para ser amada assim? Dá para viver isso? É assim que um apoia o outro?” E hoje em dia ela segue enxergando o amor, a família e as possibilidades de amar como grandes descobertas - ela traz o exemplo das cachorras, todas são resgatadas e algumas viveram os maus tratos, como a Vibe (golden retriever) - a primeira vez que elas demonstram felicidade, mexem o rabo, é uma descoberta, é ver o amor acontecendo, é entender que sim, dá para ser amada assim. Rachel conta sobre uma cirurgia muito delicada que precisou fazer e que passou por muitos cuidados, desde ajuda para escovar os dentes, tomar banho, até cuidar dos curativos e processos mais dolorosos… e Lari tem muito medo de agulha, sangue, cicatriz, mas mesmo assim cuidou e não saiu do lado dela. Essa parceria que possuem e que sabem que podem contar é algo muito valioso que entende como único. Foi em dezembro de 2015, literalmente depois do Natal - dia 25 - assim que a ceia acabou, que se conheceram. Era uma festa LGBT em Campinas, estavam lá para passar o natal com seus respectivos familiares e souberam da festa por amigos, separadamente. Se esbarraram na festa porque a Rachel interagiu com o amigo da Lari sobre ele ter um piercing no mamilo, já estava bêbada e a Lari interagiu com eles, mas na hora ela não retribuiu a interação, achou um pouco estranho. No final da festa, a DJ, que era quem convidou a Rachel, questionou que ela veio para a festa mas não beijou ninguém e ela explicou que até tinha sentido atração por “aquela menina” (a Lari) mas que “com certeza ela era hétero”.. A DJ não acreditou e disse para ela ir logo tentar o beijo, então ela foi, cutucou a Lari pelas costas e disse: “Vim aqui te dar um beijo!”. O beijo foi horrível, ela foi embora para Itu logo depois, o dia já estava claro… Até que no dia seguinte recebeu uma mensagem da Lari dizendo: “Chega, me beija e não pergunta nem meu nome”. O celular da Rachel a Lari conseguiu porque ela passou para o amigo, quando se conheceram momentos antes. Ela respondeu: “Tem razão, qual seu nome e idade?” “Larissa, 19 anos.” Rachel gritou: “Puta que pariu! Eu escapei da pedofilia por um suspiro!” Ela tinha 30. A mãe da Rachel entrou no quarto com o grito e perguntou o que houve, quando ela respondeu que ‘ficou com uma novinha ontem’ e foi questionada a idade, a mãe respondeu: “Ah, Rachel, pelo amor de Deus… Com 19 anos todo mundo já sabe muito bem o que faz!”. Rachel diz, rindo, que daquela festa a Larissa já saiu namorando. E Lari responde: “É, ué.” Na época, Rachel morava em São Paulo e Lari em Sumaré, no interior, onde ocupava seu tempo fazendo diversos tipo de artes entre tecido, jazz, balé, teatro… Rachel era totalmente o contrário, vivia em pesquisas científicas, vida acadêmica, coisas mais quadradas, estava em crise de idade e ficava pensando que Lari iria entrar na graduação enquanto ela já seria professora universitária. Para Lari, elas já estavam juntas no período que se conheciam/ficavam em 2016. Passavam bastante tempo juntas, viajavam, mas não rotularam enquanto um namoro porque era bem difícil para a Rachel, ela se sentia blindada. Até que elas decidiram morar juntas, no final de 2016, quando iriam completar um ano do dia em que se conheceram, e adotaram a primeira cachorrinha - assim teriam mais um motivo para estar em casa. Depois disso, Lari começou a graduação e a vida foi ficando mais leve. Adotaram mais uma das cachorras pequenas, viajavam bastante e cada uma foi adaptando sua rotina e seus trabalhos. Até que em 2017 começaram a loja com os produtos de pets, depois adotaram as cachorras maiores. Pontuaram algumas vezes o fato de que no começo poucas pessoas apoiaram o namoro, a maioria achava que era algo transitório por conta da idade e principalmente por serem de universos muito diferentes. Lari ensinou uma leveza para a Rachel que ela nunca havia tido contato, ela sente que deixou de ser quadrada. Tiveram muita torcida contra, mas seguiram juntas e acreditam que é essa persistência que fez a vida valer a pena. Desde que se conheceram, Larissa falava sobre o desejo de gestar e maternar, não parecia ser uma fase, mas esperaram isso amadurecer. Em 2019 começaram o movimento de fato, fizeram terapia juntas para entender como seria (visto que Rachel não sentia o desejo de gestar, pensava muito na adoção) mas precisavam também ter um planejamento: ter uma casa e um preparo de vida para a chegada da Maria Eugênia. Compraram a casa em 2020, tiveram muitos desafios com empreiteiras, foi um desgaste bem grande, demorou mais de um ano depois da mudança para conseguir seguir com o planejamento da gravidez. Em 2022 fizeram buscas por médicos, mas não se sentiram seguras, então deixaram passar novamente. A sensação era de que o quarto era uma tela em branco, sempre esteve ali, mas pouco falavam sobre. No final de 2022, Rachel teve um problema de saúde bem grave e decidiu congelar óvulos, mas quando procurou o procedimento eles aconselharam a não fazê-lo porque as chances de não darem certo eram muito grandes. Foi ali que decidiram: vamos investir agora. Ela passou por três equipes nesse processo, infelizmente a experiência com as duas primeiras não foram boas, ela sofreu violência obstétrica, pediu para que mudasse para uma equipe de mulheres e conseguiu, já haviam comprado o material biológico masculino e foi enviado para o novo local. Em abril de 2023 fizeram a primeira transferência embrionária, deu tudo certo, ouviram o coraçãozinho, passaram o primeiro dia das mães juntas, acompanharam o desenvolvimento por 7 semanas até que não teve mais evolução na gestação, não tinha mais batimento cardíaco. Clinicamente, foram mais de 45 dias para começar tudo novamente (preparar o corpo para uma nova gravidez), mas além disso é preciso considerar o quanto elas estavam muito abaladas por essa série de coisas que sofreram em meses. A segunda tentativa foi em julho, e deu certo novamente, a Maria Eugênia veio ai. Hoje em dia, se colocam como mães antes mesmo de qualquer comentário chegar. É quase como um escudo, uma blindagem, já se preparam. Já ouviram diversas perguntas, comentários, coisas sobre a Rachel ser avó da Maria Eugênia, mãe ou irmã da Larissa. E nesse ponto falamos muito sobre como as pessoas se acham livres para fazer comentários sobre os nossos corpos ou sobre o não-reconhecimento delas enquanto um casal e, sobretudo, uma família. Encontram qualquer via, desculpa, para não reconhecer essa unidade familiar. Então o escudo vem para evitar desgaste: já se colocam como mães, Maria Eugênia é filha delas, deixam claro que a família existe antes de qualquer coisa, em todos os lugares que chegam. ↓ rolar para baixo ↓ Rachel Larissa
- Sara e Vitória | Documentadas
Sara Ruth estava com 22 anos no momento da documentação. É natural de Criciúma e trabalha enquanto professora de dança. Sempre amou o meio artístico, aprendeu a dançar ainda criança e passou por diversos movimentos - desde o balé clássico, moderno, jazz, contemporâneo, as danças urbanas… Hoje em dia dá aulas em diversos estilos e também ajuda na produção artística de shows e coreografias de clipes. Brinca que é “muito metida”, adora estar em qualquer movimento. Mas a verdade é que nem sempre conseguiu viver de arte, precisou trabalhar em diversos empregos formais para conseguir conciliar com a dança e manter as contas pagas. Chegou até mesmo a iniciar uma faculdade de ciências contábeis, mas não concluiu porque soube que seu caminho era mesmo na dança. Foi entre os 17 e 18 anos que saiu de casa, e hoje, além de toda sua trajetória profissional, também entende seu diagnóstico de ser uma mulher autista, ressalta o quanto isso é importante e central na sua história, pois entende seu próprio tempo, encontrando mais equilíbrio e autonomia. Vinda de uma família cristã, o processo de se entender enquanto mulher lésbica foi atravessado por conflitos e pela heteronormatividade compulsória - naquele caminho: primeiro se identificou como bissexual, mas sempre teve dificuldade em sustentar essa identidade, porque a bissexualidade não chegava no desejo do homem, mas numa “esperança cristã” de que talvez um homem chegue e “conserte tudo”. Faz pouco tempo, há cerca de um ano e meio, que passou a se reconhecer como lésbica, embora só tenha conseguido verbalizar isso aos poucos, no seu processo - e tudo bem. Esse percurso é marcado por dúvidas, silêncios e pela sensação compartilhada por muitas mulheres, afinal, essa heterossexualidade é socialmente nos colocada desde sempre. Vitória estava com 27 anos no momento da documentação. Nasceu e cresceu em Criciúma e, diferente da Sara que gosta de estar nos palcos, ela brinca que prefere sempre ocupar os bastidores. Trabalha na área administrativa de confecção de jeans e tecidos planos e, assim como Sara, também iniciou a faculdade de Contábeis, mas não seguiu adiante por não se identificar. Define como hobby acompanhar a intensidade e a movimentação da vida da companheira, reconhecendo que sua rotina era mais parada antes de começarem o relacionamento. Hoje, compartilha com Sara um cotidiano atravessado por criatividade, movimento e descobertas constantes. Foi por meio de amigos em comum que Sara e Vitória se conheceram, em uma festa, no meio de 2023. Se cumprimentaram rapidamente. Na época, Vi estava no fim de uma relação, e Sara celebrava o próprio aniversário na festa e dançando profissionalmente com uma DJ que acompanhava em algumas festas. Depois desse dia, passaram a seguir uma à outra nas redes sociais e rapidamente interagiram numa postagem. A partir desse primeiro contato, não pararam mais de conversar. A conversa atravessou a madrugada, seguiu pelo dia seguinte e, ainda naquela mesma semana, decidiram se encontrar. O primeiro encontro aconteceu em uma parada de ônibus (e até brincaram que esse deveria ser o local da documentação, por ter sido muito simbólico). A ideia era que fosse um encontro breve, porque ambas tinham compromissos logo após, mas foram comer um lanche juntas e a conversa rolou como se já se conhecessem há anos. Tudo aconteceu com naturalidade, sem esforço. Explicam que desde o início a relação foi marcada por abertura e alinhamento. Sara reconhece Vitória como sua primeira namorada, primeira noiva e futura esposa, e sempre teve uma percepção muito clara sobre o que buscava em um relacionamento: a vontade de se entregar a alguém com quem fosse possível imaginar um futuro, entendendo o amor como construção, escolha e convivência entre o que é bom e o que é difícil. Essa visão compartilhada sobre afeto, compromisso e crescimento conjunto fez com que tudo fluísse com segurança desde as primeiras conversas. Naquele mesmo dia, pegaram o ônibus juntas. O primeiro beijo aconteceu na parada, em frente a um mercado. A partir dali, não se desgrudaram mais. O relacionamento seguiu como um processo de descoberta mútua, atravessado por diálogo, presença e pela sensação constante de reconhecimento uma na outra. Um mês depois do primeiro encontro, Vitória e Sara já estavam namorando. Pouco tempo depois, decidiram morar juntas: segundo a explicação delas, foi literalmente o primeiro mês ficando, o segundo namorando e, no terceiro, dividindo a mesma casa. A relação avançou com a mesma intensidade com que se reconheciam. Enquanto Vitória já carregava o desejo antigo de ter um lugar próprio para chamar de lar, Sara, dançante e de alma livre, queria ganhar o mundo. A ideia de uma casa própria foi sendo construída aos poucos, como um porto possível para quem quisesse ir, mas também precisasse ter para onde voltar. Sara aos poucos foi considerando a ideia de um lugar próprio junto com a Vi e, quando completaram um ano, decidiram comprar um apartamento. No fim de 2024, se mudaram para o apartamento que compraram juntas e, junto com ele, vieram também dois gatos: um preto, um branco. Foi assim que deram início para uma nova fase na relação. A saída de casa, para ambas, esteve diretamente ligada à sexualidade. Sara vinha de uma família cristã, onde o amor era possível desde que fosse distante, nunca dentro de casa. Durante muito tempo, sustentou a identidade bissexual como uma forma de negociação afetiva com a família, uma tentativa de manter pontes enquanto sobrevivia ao medo de ser rejeitada novamente. Já Vitória carregava uma história de independência mais precoce e limites mais claros: para ela, viver um amor exigia verdade e visibilidade. Essa diferença se tornou um ponto sensível do relacionamento, não como imposição, mas como conversa. Não havia obrigação de se assumir para a família, mas havia o desejo de viver sem se esconder. Com paciência e firmeza, Sara escolheu enfrentar esse processo outra vez. Estabeleceu limites em casa, recusou espaços onde a Vi não pudesse estar e passou a se posicionar com clareza. O tempo fez o que precisava ser feito. Aos poucos, o contato foi retomado, as regras foram revistas e o afeto foi entendido. A mãe, que nunca deixou de amar, precisou aprender e enxergar como a relação era boa para a Sara e a Vi. O primeiro grande gesto veio quando aceitou que Vitória estivesse presente numa festa da família. O encontro foi tranquilo, respeitoso e abriu caminho para um vínculo que é gigante - hoje elas conversam e ela vive dizendo que gostaria que a Vi fosse filha dela, de tanto que se parecem. Para Vi e Sara, o amor sempre foi entendido como um gesto revolucionário. Não como ideal romântico abstrato, mas como decisão cotidiana: estar uma para a outra, construir, sustentar, fazer dar certo. Desde o início, enxergam o relacionamento como um caminho compartilhado, feito de compromisso e presença. Reconhecem os próprios extremos, as diferenças de temperamento, a razão e a emoção num equilíbrio possível que amadurece o vínculo. Essa visão não ignora as partes difíceis. Pelo contrário: inclui o amor que dói, que exige esforço, conversa e atravessamento. Pensam o futuro juntas, detalham planos, fazem tudo com muito diálogo. Na verdade é isso: tudo passa pela conversa. Avaliam prós e contras, entendem que alguém vai precisar ceder, e não é uma disputa, explicam que existe um sistema de porcentagem: até decisões simples passam por acordos, como medir o quanto cada uma deseja ir para um evento - “hoje eu quero 50% e você?” “eu quero 80%” “então nós vamos porque você quer bastante”, para que saibam quando insistir, quando ceder e quando cuidar. Isso transforma o cotidiano em um espaço seguro, previsível e afetuoso para ambas. Criaram dinâmicas próprias para tornar tudo mais claro, especialmente considerando a vivência de Sara como mulher autista, que precisa de comunicação direta, literal e transparente. Nada fica subentendido. Desejos, limites e vontades são verbalizados sem jogos. Esse cuidado também se expressa no acolhimento das vulnerabilidades. Vitória se tornou suporte nos momentos de crise, colo, presença constante. O amor delas se mostra sem esforço performático, no modo como se sustentam e se respeitam diante dos outros. Pessoas ao redor percebem essa leveza e, muitas vezes, as elogiam e tomam como referência. Até a própria mãe da Sara, que ultrapassou o preconceito e hoje em dia é grande apoiadora. Para finalizar, elas contam que a Vi, nessa troca de afeto, tatuou a boca de Sara, uma das coisas que ela mais admira nela. E elas também tatuaram o símbolo do autismo com um coração, mostrando o afeto e o carinho nesse suporte. ↓ rolar para baixo ↓ Vitória Sara Ruth
- Dani e Maria Gabi
A Maria Gabriela e a Danieli são de lugares bem diferentes, mas se encontraram em São José dos Pinhais, município vizinho de Curitiba, no Paraná. Gabi nasceu no Paraguai, morou em vários lugares e agora está com a família em ‘São José’. Já a Dani, nasceu no interior do Paraná, numa cidade pequena chamada São Jorge do Patrocínio e decidiu se mudar para Curitiba para tentar uma nova vida na capital. Hoje em dia moram juntas - e juntas também de algumas familiares da Gabi + duas gatas que adotaram nesse período. Elas contam sobre o quanto são diferentes e que, com as diferenças, aprendem muito sobre um relacionamento cheio de companheirismo. Dani é mais apegada, Gabi é mais solta. Dani sempre vê os dois lados em tudo, Gabi é mais direta sobre as decisões - mas aprende muito com a Dani sobre observar as coisas ao redor. Dani é introspectiva, gosta do carinho e das coisas mais tranquilas, enquanto Gabi é super sociável, gosta de ser comunicativa e de conhecer novas pessoas. Diante todos os extremos, entendem que o encaixe acontece no quanto aprendem uma com a outra diariamente. Não enxergam seu relacionamento enquanto a maioria dos namoros que formam um padrão: elas têm seus jeitos diferentes, mas enquanto parceira contam uma com a outra sempre. Acham ótimo, inclusive, fugir do padrão. O amor é feito com espaço, vivendo as diferenças e tendo respeito. A Gabi, no momento da documentação, estava com 24 anos e trabalhava em uma loja de departamentos no shopping. Comenta sobre o quanto o shopping exige uma rotina de trabalho exaustiva, mesmo que goste de trabalhar com o público, se sente bastante cansada. Dani, no momento da documentação, estava com 23 anos. Depois de se mudar para Curitiba ela já trabalhou em mercados e hoje em dia, em São José dos Pinhais, é assistente de atendimento. Morarem juntas facilita a rotina em relação à escala de trabalho apertada, mas nem sempre foi assim. Dentre os três anos que estão juntas, moram na mesma casa recentemente e contam que foi uma luta decidir pela mudança. A tia da Gabi foi quem teve a ideia inicialmente de oferecer a casa que faz parte do terreno delas, assim, os gastos com aluguéis diminuiriam, a economia melhoraria e a Dani faria parte do lar. Quando se conheceram (através de um aplicativo de relacionamentos famoso por aqui: o Tinder), ambas haviam acabado de chegar na cidade. Dani passou por um relacionamento abusivo antes da Gabi, estava bastante machucada e resolveu entrar no app para conversar com novas pessoas - enquanto a Gabi estava lá para curtir e não tinha intenção de realmente se apaixonar por alguém. Conversaram, marcaram um encontro na casa da Dani (que ainda era uma pensionato cheio de regras) e nunca mais se separaram. Depois disso, a Dani se mudou para São José dos Pinhais. Morou em vários lugares e o relacionamento delas foi caminhando, até que decidiram assumir o namoro. Enxergam o quanto o relacionamento não contribuiu só para uma melhora construtiva delas, mas também dos familiares ao redor. A Gabi diz que ter elas em casa faz com que diariamente a família enxergue questões de raça, gênero e classe totalmente diferente do que era antes, principalmente pelos debates que elas proporcionam. Enquanto a Dani, já levou a Gabi até o interior e ao assumir para a família o relacionamento, considerando que vivem em realidades completamente diferentes da dela, fica muito feliz em ver o pai e a avó adorando e respeitando a Gabi do jeito que ela é. Juntas, elas adotaram duas gatas (uma delas, super arisca, que passou por um processo de resgate) e é com o carinho que trocam com as bichinhas que entendem o que é de fato o amor: Acreditam que existem várias formas de demonstrar afetos, por mais que vivemos numa sociedade que preza pelo tradicional onde o afeto tem de ser bonitinho, carinhoso, queridinho, etc. Elas vão por outros lados, demonstram de outras formas. Como as gatas, que amam de um jeito singular - a Teodora, muito arisca, não é tão carente e apegada, mas demonstra o amor e a confiança que possui nelas nos detalhes cotidianos, trocas únicas. Elas se identificam nesse amor. Além disso, sentem que o autoconhecimento que adquirem todos os dias é algo precioso. Dani conta que não tinha tanto acesso às informações no interior, então valoriza cada passo da reeducação sobre questões sociais que recebe diariamente. No dia a dia, a Dani desenha bastante (entre paredes, papéis e outras superfícies), enquanto a Gabi adora sair para comer, viajar, assistir filmes e séries e apoiar a sua família no que precisar. Conta que tem uma prima autista (que mora junto com elas) e que a casa vira um exemplo para que não exista nada mais valioso na vida quanto os sentimentos - e o amor. “Não existe valor material que supere”, nas palavras dela. Diariamente acompanham dando suporte e entendem que não desistir e estar em movimento acreditando no que sentem é o que dá sentido a tudo. Além disso, passam muito tempo conversando dentro de casa. Brincam que em outra vida a Dani deve ter sido filha da tia da Gabi, de tanto que passam horas conversando e se dão bem. Por fim, a Gabi comenta que o amor pode ser uma certeza muito incerta, mas que é bom aproveitar ele em seu cotidiano. ↓ rolar para baixo ↓ Gabi Dani
- Jade e Yáskara
Jade e Yáskara são duas psicólogas, gaúchas, que dividem a vida em Belo Horizonte. Chegaram na capital mineira em março de 2021, durante a pandemia. Entendem que, mesmo com o acaso de terem passado as últimas férias pré-covid em Minas Gerais, a razão da mudança foi única: uma nova oportunidade de trabalho. Yáskara, que no momento da documentação estava com 40 anos, é natural de Palmeira das Missões, interior do Rio Grande do Sul. Já morou em diversas cidades do RS e estava morando em Porto Alegre há alguns anos. Ela é psicóloga e dá aula em universidades, estava se sentindo esgotada porque seu trabalho preenchia os três turnos do dia e sentia que precisava desacelerar o ritmo. Jade no momento da documentação estava com 26 anos, é natural de Porto Alegre e por lá trabalhava com a psicologia dentro das políticas públicas, em uma casa-lar na Restinga, bairro periférico da Zona Sul. Seu trabalho também mudou com a ida para Belo Horizonte, decidiu atender de forma clínica e se voltar para um público específico: a comunidade LGBTQIA+ e pessoas em situação de pós-encarceramento. A oportunidade surgiu lida como uma brincadeira pela Yáskara, que chegou para a Jade contando: “Recebi essa proposta de trabalho, mas não tem como, né? Imagina, morar em Belo Horizonte…” e, para a surpresa, Jade respondeu: “Por que não?”. Depois disso, começaram a pensar melhor sobre e embarcaram nessa nova cidade. Hoje em dia, entende e enfatiza a importância de estar em espaços acadêmicos para mudar as coisas de dentro, trazendo representatividade, reinventando a psicologia. Jade e Yáskara se conheceram em 2016, mas só em 2018 foram se relacionar de fato. Na época, elas viviam relacionamentos distintos e, quando entenderam o que sentiam, precisaram encerrar as relações para ficarem juntas. Foi um momento muito delicado por conta das diversas emoções, misturadas com muito trabalho diário. Por outro lado, contam que gostaram tanto de ficar juntas que, ao dormirem na primeira noite, nunca mais se desgrudaram: sentem que desde então dormiram juntas todos os dias. Juntaram as coisas, os cachorros e foram morar juntas, logo no início. Sentem que a experiência da relação ser um casamento vem desde esse início. Não tiveram tantos momentos clichês de um começo de relação, mas sim momentos específicos que hoje em dia lembram dando risadas: no primeiro cinema juntas, dormiram, de tão exaustas que estavam. Na primeira vez na praia tomaram insolação, porque esqueceram o protetor. Dentro de casa, viveram toda a pandemia juntas. No começo foi difícil, estavam morando em um apartamento sem divisões em Porto Alegre, precisaram entender como seria a dinâmica. Hoje em dia, no novo lar em Belo Horizonte, deram muito valor a isso desde o começo: como trabalham bastante em home office, cada uma possui um espaço demarcado em casa que seja confortável para seus atendimentos e trabalhos. Pelas tantas vivências no início e depois já ter embarcado na pandemia e na mudança de estado, sentem que já viveram muitas coisas juntas. Contam que conversam sobre tudo (e imaginamos, né? duas psicólogas juntas!), compartilham muito sobre o que estão pensando, sentindo e como foram seus dias. Não costumam se desentender por coisas sobre o relacionamento, discutem mais por questões rotineiras: como o comportamento dos bichos em casa. Gostam muito da companhia uma da outra, de beber vinho ouvindo música, de estar compartilhando pensamentos e sentem que não são o tipo de casal que fica sozinha individualmente. Elas têm seus espaços, mas sempre que podem estão juntas desfrutando dos ambientes de convívio em comum. Em Belo Horizonte, procuram conhecer “espaços de respiro”, ou seja, lugares que sejam confortáveis para estarem enquanto mulheres da comunidade LGBT. Acreditam que se unem muito pelas questões políticas (a primeira foto que possuem é na manifestação contra o Bolsonaro/Ele Não em 2018, por exemplo) e também buscam lugares de militância na cidade. Além disso, gostam de assistir shows (e elogiam quanta cultura há em BH), além de ocupar espaços públicos como praças e eventos abertos pela cidade. Atualmente, além de viajar para o interior de Minas Gerais, também adotaram um gatinho mineiro, fazendo companhia para os cães da casa. Entendem que viver a mudança e o dia a dia da forma que vivem significa muita união. São elas por elas, ou como disseram: ‘nós por nós’. Estão abertas a fazer novas amizades e desbravar a cidade, mas acabam sentindo uma confirmação de amor ainda maior quando olham para trás e percebem o quanto já caminharam juntas. Jade acredita que é muito importante se referir à Yáskara como sua esposa, pela ressignificação de termos heterossexuais. Falam sobre a importância do casamento neste sentido também - em breve a cerimônia será realizada e, por mais que a Jade cresceu ouvindo sua mãe dizer “Não case! Depender de homem é muito ruim!” hoje entende que o que estão fazendo não fará que elas sejam dependentes financeiramente de alguém. Sente que o casamento LGBT+ vem em outro sentido, falando muito mais sobre uma ressignificação de direitos, um planejamento para a facilitação na burocracia de ter filhos e um direito que nós temos. Ambas vivenciaram relações heterossexuais duradouras e falam sobre agora encontrarem outro sentido para as relações amorosas enquanto estão juntas - coisas até que não cogitavam pensar, como ter filhos. Yáskara fala sobre estarem pensando na maternidade, algo que ela nunca tinha se visto desejar antes. Pensando juntas, adoram a ideia de ter um ou dois bebês, e comentam que o desejo de engravidar não chega enquanto uma questão heteronormativa estereotipada do qual um casal namora > casa > engravida, e sim como algo que temos direito, que querem vivenciar, conquistar juntas enquanto uma nova perspectiva de aprendizado, cultura e educação. Para Jade, o amor passa pelo afeto, porque é o afeto que nos move em tudo o que fazemos, faz ter propósito. Yáskara complementa que amar é ter também respeito pelas diferenças. O amor que constroem passa pelo respeito e pelo apoio sobre o que pensam, além de ser livre, não necessariamente no sentido monogâmico, mas livre para que estejam confortáveis e à vontade na relação, sem um ultra romantismo: que as permitam viver bem, que se ampliem juntas. Contam sobre uma situação que quando começaram a namorar foram para Salvador e decidiram jogar búzios antes de chegar lá. Neste momento, o pai de santo trouxe várias coisas interessantes sobre o relacionamento delas e perguntou se elas estavam preparadas para viver ‘uma metade só da laranja’, porque elas eram a mesma metade, por serem tão parecidas. Ao decorrer do relacionamento entenderam que isso faz muito sentido, se vêem muito uma na outra. Além disso ele disse que a Jade casaria aos 26, o que, sem elas perceberem, acabará se concretizando. ↓ rolar para baixo ↓ Yáskara Jade
- Lia e Thalita
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Lia e da Thalita, quando o projeto passou por São Paulo! Lia e Thalita, quando se encontraram, sentiam que se conheciam há muito tempo - desde os gestos que tiveram uma com a outra, entendendo limites, carinhos e espaços, até o respeito e a paciência dos processos que viviam. Elas contam sobre a diferença de idade acabar quase não interferindo, pois entram em um equilíbrio visto que a Lia tem o jeito mais jovem e a Thalita, pelas vivências que passou, amadureceu muito rápido. No dia a dia, vivem diversos detalhes juntas: jogam badminton, andam de bicicleta, possuem uma rotina dentro de casa através do home office, se conectam intrinsecamente. Para Lia, o amor está em tudo; em todos os relacionamentos, no trabalho, na relação, na música que elas ouvem, nas coisas que fazem juntas… Sua percepção de amor esteve sempre com ela, nunca viu diferenças num amor entre homem-mulher, dois-homens, duas-mulheres, mesmo que só tenha vindo a se relacionar com uma mulher na vida adulta. Então, por mais que entenda a posição política disso, nunca deixou de ter o amor como uma ação presente em tudo o que ela naturalmente faz. Por mais que esse amor esteja nas ações, a relação com a Thalita trouxe algo diferente para a vida da Lia: o planejamento. Ela não era uma pessoa de fazer planos, tinha muita dificuldade de se ver no futuro, mas com a Thalita foi completamente diferente. Elas se apaixonaram rápido, namoraram rápido e foram construindo planos de vida juntas. Hoje, se sentem realizadas quando percebem que alguns já estão concretizados. Thalita tem 26 anos e é natural de Jaborandi, um município do interior da Bahia. Saiu de lá ainda na adolescência e se mudou para Brasília para ter uma base melhor de estudos. Sente que nunca se encaixou completamente em Jaborandi, pois é uma cidade pequena, conservadora, que vive de agricultura. Em Brasília, começou a trabalhar com restaurantes e decidiu que gostaria de se mudar para São Paulo. Chegou a fazer a mudança, ficou pouco tempo, pois era difícil se sustentar, fez uma viagem por diversos lugares do nordeste trabalhando em bares e na praia, até que voltou para São Paulo, decidida a ficar e seguir trabalhando como garçonete. Seguiu alguns anos assim, até recentemente fazer sua transição de carreira para Desenvolvedora Front-end e está trabalhando com qualidade de software. Ela fala como foi bom fazer a transição, voltar a estudar, viver uma rotina semanal (porque antes não havia espaços nos finais de semana ou feriados) e como fez bem para o relacionamento das duas, também. Lia tem 37 anos, é natural de Santo André, cidade localizada no ABC Paulista, em São Paulo, mas reside na capital há muitos anos. Ela trabalha enquanto Designer UX-UI em uma grande empresa. Thalita e Lia se conheceram no bar em que a Thalita trabalhava, em 2019. Nessa época, a Lia era casada e tinha um salão de beleza, que ficava relativamente próximo ao bar, então era um local bastante frequentado por ela e pelas amigas. Toda vez que ela ia ao bar, percebia que a Thalita não atendia a mesa dela, mas a seguia no Instagram, então achava isso minimamente engraçado - percebia uma certa vergonha/nervosismo vindo da Thalita. Na versão da Thalita, pela primeira vez que viu a Lia chegando, ficou toda encantada e serelepe, quis logo saber quem era. Quando descobriu que ela tinha um relacionamento, desistiu de tudo e ficou triste. Nisso, o tempo foi passando, elas sempre se viam no bar, mas ela nunca teve coragem de conversar com ela ou de atendê-la. Num dia, a pessoa com quem a Lia se relacionava foi ao bar sozinha e acabou fazendo amizade com a Thalita, e, quando em outra data a Lia chegou no bar viu a intimidade das duas e achou interessante a situação. Acabou que, numa falta de comunicação, aconteceu uma situação um tanto quanto desagradável inicialmente, mas essa situação fez com que a Thalita e a Lia começassem a conversar pela primeira vez. A partir daí, em uma nova oportunidade, a Thalita frequentou o salão que a Lia era dona (mesmo que ela não estivesse lá no momento), elas conversaram pelo Whatsapp e começaram um contato mais frequente. Neste momento, a Lia passava por uma crise muito grande no casamento, que já chegava próximo do término, e num dia, depois de uma briga forte (por motivos que não tinham relação com a Thalita, obviamente, até porque nada tinha acontecido), a Lia resolveu sair de casa. Ao sair, estava conversando com a Thalita pelo celular. Chamou um amigo e foi até o bar em que ela trabalhava. Lá, eles ficaram até o bar fechar. Elas conversaram - contam que tremiam como adolescentes - e a Thalia comenta que nunca sentiu algo como o que aconteceu naquele dia. Ela chamou a Lia para fumar (sendo que ambas não fumavam, mas era uma desculpa para estarem juntas na rua) e foi assim que se beijaram pela primeira vez. Lia conta que era como se a Thalita já conhecesse ela há tempos, desde o começo. E, já que estava fora de casa, foram para o apartamento em que a Thalita morava. Neste momento, a Lia foi sincera com a ex-companheira sobre o local que estava indo. De certa forma, não queria que as coisas acontecessem assim, preferiria passar pelo divórcio corretamente antes de tudo acontecer, mas foi algo muito mais forte e, então, ela preferiu ser sincera desde o primeiro momento - tanto que, ela e a Thalita, a partir daí, não se desgrudaram mais. Por mais que elas estivessem começando algo novo, precisamos considerar que não é nenhum pouco fácil sair de uma relação na posição que elas estavam - a Lia tinha um empreendimento, passou por uma série de abusos e, para embarcar em um novo relacionamento foi preciso muito cuidado. A Thalita, por sua vez, já viveu relacionamentos difíceis há anos atrás e estava solteira, num momento completamente diferente, um pouco mais estável, então conseguiu (e se disponibilizou para) ser um apoio neste processo. Com o tempo, passou a viver muito na casa da Lia. Foi levando algumas coisas para lá, mas seguiu dividindo apartamento. De qualquer forma, sempre se sentiu muito “em casa” na casa da Lia, e ver lá como um lar, junto com as gatas e com o ambiente, fez ela sentir cada vez mais vontade de ficar. A Lia sempre fez questão de que ela estivesse à vontade também, então juntas emolduraram quadros e passaram a redecorar as coisas, até que a mudança foi definitiva. Com o tempo passando, além do lar que representa em detalhes tudo o que são (como os cafés da manhã, os recadinhos, as decorações e as gatas), também fizeram diversas viagens juntas: coisa que elas entendem como uma reconexão. Qualquer viagem faz com que voltem muito mais íntimas, conectadas e estabilizadas. Durante a pandemia, elas se casaram. Foi num cartório, quando tudo ainda estava fechado, usando máscara e face shield, só com os padrinhos presentes, que assinaram os papéis. Antes de sair de casa, Lia fez uma maquiagem na Thalita e uma arrumou a outra. Depois do cartório almoçaram juntas e ao anoitecer fizeram uma live com os convidados - cerca de 300 pessoas estiveram na chamada ao vivo festejando-as. Contam o quanto foi legal, simbólico e divertido. Num momento como aquele, na pandemia, todos estavam trancados em casa sem perspectivas. Entrar numa chamada e celebrar o amor durante algumas horas foi um sopro de esperança. Elas choraram muito, jogaram buquê fake, cortaram bolo, ganharam muitos presentes e souberam aproveitar de verdade! E, um tempo depois de casadas, oficializaram com uma viagem de lua de mel para a Bahia. ♥ Por fim, fizeram questão de serem fotografadas pelas ruas de São Paulo - como fotos de casamento - como uma maneira de falar sobre a importância do nosso amor ocupar as ruas, estar em público. Não há como fecharem os olhos para o que acontece nas ruas e por isso estão sempre se envolvendo politicamente. Na pandemia, por morarem no centro da cidade, viram de perto como tudo piorou. Não há como esconder ou fechar os olhos para isso, e ao sair de casa elas não conseguem não se sentir afetadas pela falta de políticas públicas para a população. Seus posicionamentos também representam que enquanto não mudar para os outros, para toda a população que segue na rua, para cada povo marginalizado, também não mudará para elas. ↓ rolar para baixo ↓ Thalita Lia
- Fernanda e Alice
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Fernanda e Alice, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Alice e Fernanda adoram a rotina que vivem, o tempo que passam juntas dentro de casa (já que ambas trabalham de home office), as organizações que mantém, a forma que o dia começa com um café e termina deitando na cama com um longo suspiro. Comentam sobre um dia que estavam conversando com uma amiga e ela notou o quanto se comunicavam o tempo todo - se olhando, fazendo carinho, não necessariamente em conversas longas… mas sempre com um “Está tudo bem? / Quer ir embora? / Quer ficar aqui? / Quer alguma coisa?”. E como, nesses atos, estão muito presentes o amor e o equilíbrio que buscam. Nem sempre estão bem, confortáveis ou dispostas, mas sempre há apoio. Se conectaram desde o início do relacionamento através dos traumas já vividos, também. Deixaram claro suas limitações por conta de situações que já viveram, conversaram sobre as dores, acreditam no quão importante é falar para que exista o respeito e a compreensão de onde dói. Alice, completa que a Fernanda virou um suporte emocional, não no sentido de depósito ou de necessidade, mas de companheirismo. Enxerga Fernanda enquanto a pessoa mais gentil e amável com todos ao seu redor e isso sempre a fez querer ficar. Fernanda, no momento da documentação, estava com 35 anos. Ela é natural de Duque de Caxias, região da baixada fluminense, no Rio de Janeiro. Trabalha com atendimento ao cliente numa empresa de cursos online. Ama futebol, jogou durante anos e hoje em dia esportes em geral são seus grandes hobbies. Adora acompanhar eventos, estudar e ler sobre. É flamenguista - e virou sócia do Vasco para incentivar Alice e conseguir ingressos para ela ir aos jogos. Quando mais nova, Fernanda demorou muito no processo de aceitação sobre quem era, e achou importante contar sobre isso. Inclusive, parte de não investir no futebol foi porque era “coisa de sapatão” e ela não se via dessa maneira. Começou a se permitir sair da bolha quando conheceu um grupo de pessoas que gostavam muito da novela Rebelde (RBD) e a grande maioria eram LGBTs, saía com eles e deixou de viver a rotina dela em Caxias, descobriu outras vivências, outros espaços, etc. Quando beijou uma mulher pela primeira vez foi ok, mas quando se apaixonou foi diferente. Demorou muito tempo para se aceitar, aceitar que poderia, mas estar com essas pessoas, nesses novos lugares, foi fundamental. Alice, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é natural do Rio de Janeiro, trabalha enquanto líder de um time comercial numa empresa de empréstimos. É muito unida à família e aos seus irmãos. Diferente da Fê, Alice vem de uma família evangélica e foi criada na Igreja Batista, estudando em colégios específicos e tendo essa vivência bem regrada. Na pré-adolescência se apaixonou por algumas meninas, mas fez de tudo para que isso não tivesse ‘importância’. Quando beijou a primeira menina, tudo fez sentido, mas sofreu muito pelo peso na consciência. Terminou o ensino médio e decidiu: iria parar com isso, seguir os caminhos de Deus. Resolveu conversar com a esposa do pastor, que era psicóloga, e a mulher disse que seria obrigada a contar para sua mãe. Viveu momentos difíceis, na madrugada ouvia sussurros e era sua mãe rezando no pé da cama. O tempo passou, a mãe soube de outra mulher com quem ela se envolveu e acabou saindo de casa, foi morar na comunidade do Jacarezinho num momento muito difícil de fortes guerras, em 2016/2017, vivendo uma realidade difícil e morando com o pai, que também não aceitava. Até que um dia ele cedeu e chamou a namorada para um churrasco. A mãe, em compensação, só aceitou o relacionamento com a Fernanda, recentemente. Fernanda viveu um momento da vida em que saía muito, bebia e esquecia do que vivia. Ia nas festas, estava sempre cheia de amigos… Nessa época, conheceu Alice por conta de uma amiga em comum, sabia da existência dela, mas não lembrava muito de interações. Foi no carnaval de 2020, pré pandemia de Covid-19, que elas se beijaram, no meio de um famoso bloco no Rio de Janeiro. Não mantiveram muitos papos online, até que se viram um dia na praia antes da pandemia realmente acontecer e, com ela, a quarentena. Alice puxou assunto pelas redes sociais (brincam que ainda bem, já que Fernanda é péssima nisso) e finalmente começaram a conversar. As estradas principais que ligam as cidades foram fechadas por conta da quarentena e para que a família da Fernanda não ficasse sozinha em Duque de Caxias, a irmã chamou para que todos viessem ao Rio. Foi quando, estando na mesma cidade e Alice sozinha no apartamento, decidiram se encontrar. Ainda não havia informações sobre a gravidade do Covid, ninguém sabia ao certo, então Fernanda deu a desculpa de que iria doar sangue, realmente foi e depois foi encontrar Alice. Desde então, já estavam apaixonadas. Seguiram alguns meses de pandemia assim… Conseguiram um carro particular para buscar a Fernanda em Caxias quando precisava e diminuírem os riscos de exposição à Covid, e passavam um tempo juntas sempre que conseguiam. is do início do namoro, Fernanda conseguiu um emprego no centro do Rio. A pandemia estava acontecendo e era muito ruim sair da baixada fluminense, pegar diversos transportes e se expor ao Covid-19 para trabalhar. Foi então que uniram a vontade de morar juntas com a necessidade e ela foi dividir um lar com a Alice. Tempos depois se mudaram para o novo apartamento - onde estão hoje - e lugar que amam. Fernanda conta que imagina o relacionamento para a eternidade, porque ele se encaixa em tudo o que deseja. Elas adoram a rotina, adoram planejar e também adoram o que já possuem. Foram viajar pela primeira vez juntas para fora do Brasil e planejaram cada passo da viagem, contam como foi bom de se viver, mas que para além de coisas “grandiosas” assim, o que mais gostam é de deitar na cama de casa junto com a gatinha que divide lar com elas e pensar “Esse é o melhor lugar do mundo”. ↓ rolar para baixo ↓ Fernanda Alice
- Kelly e Amanda | Documentadas
Amor de Tempos - Kelly e Amanda clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Luciana e Viviane | Documentadas
Amor de Recomeços - Luciana e Viviane clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Joyce e Lorrayne
A Joyce e a Lorrayne entendem que o relacionamento delas já chegou numa fase em que não existe mais a ansiedade da expectativa, ou seja, querem estar juntas porque estão dispostas a isso. Não despejam uma expectativa gigantesca uma na outra, sentem que fazem o que gostam e não precisam se vestir de forma impecável ou estar sempre de bom humor todos os dias. Com a maturidade, a naturalização dos corpos foi se construindo aos poucos. Hoje em dia moram em uma casa que elas mesmo construíram. Na zona periférica de Belo Horizonte, vivem em uma ocupação de terras que antes era um local improdutivo e hoje recebe centenas de famílias. Na ocupação sempre foram tratadas enquanto uma família - e ressaltam como essa representatividade é importante. Por alguns anos, todos os salários que ganhavam voltava ao lar: na compra de materiais de construção, mantendo as contas em dia e pensando em uma decoração para a casa. Hoje em dia, dentre todos os cômodos que construíram e tudo o que aprenderam (fazer massa, assentar forma) é a parede de tijolinhos que mais se orgulham. Sempre sonharam em ter uma parede desse jeito, com os desenhos, pinturas e bordados que fazem pendurados nela. Foram anos planejando porque haviam outras prioridades a serem feitas e hoje se orgulham de finalmente ter conquistado. Quando relembram tudo o que já viveram juntas, falam que realmente amam a companhia uma da outra, fato que ficou ainda mais evidente na pandemia, quando dentro de casa o vínculo se fortaleceu perante as dificuldades que enfrentaram. Não sentem que vivem entre controles, ciúmes possessivos ou coisas do tipo entre elas ou familiares e amigos. Entendem que estarem juntas é algo que escolhem diariamente e depositam sua fé nesse sentimento. Claro que valorizam muito as conversas, a terapia, o cuidado com o corpo e a mente para se manterem bem. Não querem projetar as relações dos outros nas suas, então exercem a conversa e verbalizam o que sentem. Entendem que amar é se sentir feliz, assim como ver e querer o outro feliz. Por isso, não se enxergam numa relação solitária. A Lorrayne conta que tinha uma ideia de amor muito romântica, ligada aos livros de romance que lia… e que essa ideia também é um tanto doentia: A sensação de não ter a pessoa amada é igual a morte, o pedestal que existe para o amor, etc. Hoje em dia enxerga tudo de forma mais leve. Cita que ama os almoços de domingo, os dias que passam juntas sem fazer nada em específico e que assim ela se sente muito mais realizada amando a Joyce. No momento da documentação a Joyce estava com 31 anos. Ela é bordadeira e, além de vender os bordados, começaria um trabalho enquanto vendedora em breve. A Lorrayne, no momento da documentação, estava com 28. Ela trabalha enquanto desenvolvedora de sistemas, na área da tecnologia, fazendo estágio - mas também consegue diversos freelas, o que acaba ocupando todo o seu dia. Brincam que são duas velhas, amam ficar em casa e na pandemia isso se agravou ainda mais. Além disso, por morarem em um lugar distante do centro, se torna inacessível estar saindo o tempo todo pelo valor do transporte, acabam se apegando em atividades mais caseiras. Quando se conheceram, de forma online há muitos anos atrás - mais especificamente na transição do Orkut para o Facebook - interagiram numa postagem que a Lo fez dizendo que estava se sentindo triste. A Joyce soube quem era a Lo e a adicionou nas redes por conta de um amigo em comum, que falava muito sobre ela, e acabou descobrindo um blog que ela escrevia textos, poemas, contos e desabafos. Naquela época, Joyce nunca tinha ficado com uma mulher, mas até comentou com o amigo que se ficaria, gostaria que fosse com a Lo. Um tempo depois de terem interagido na postagem, se adicionaram no MSN (saudades, né?) e conversaram por três horas, falando de músicas e outros assuntos que surgiam, onde perceberam que tinham muito em comum. No decorrer daquele ano (2011) conversavam de vez em quando durante a semana; A Joyce passou pela experiência de ficar com a primeira mulher (que não foi a Lo! mas uma pessoa na Parada LGBT de Belo Horizonte), passou um mês na casa da bisavó de férias e, quando voltou para Belo Horizonte, ainda na rodoviária, ligou para a Lo diretamente de um orelhão marcando um encontro. Se encontraram no dia seguinte na pracinha de bairro próxima aos locais em que moravam, Joyce estava super insegura de ir, mas encarou e levou uma flor para a Lorrayne, que estava sentada na pracinha desenhando e achando que iria levar ‘um bolo’. Joyce brinca com a música da cantora Letrux que diz “Meu look eu pensei o dia inteiro/Só pra te encontrar” e quando chegou lá toda arrumada viu a Lorrayne vestida de qualquer jeito, com chinelo e meio desengonçada. No momento não falou nada, mas a piada surge até hoje. Joyce era muito comunicativa, enquanto a Lo ficava mais tímida, mas deu certo. No segundo encontro marcaram de ir ao cinema, em Contagem (cidade da região metropolitana de Belo Horizonte) e tiveram a infelicidade de serem assaltadas. Depois disso, passaram a se encontrar pontualmente nas segundas-feiras, porque a Lorrayne fazia aula de desenho próximo à casa da Joyce e, como não era assumida, elas conseguiam se encontrar sem precisar dar muitas desculpas. Nesse período começaram o namoro e assim seguiram pelos próximos dois anos, namorando e estudando na mesma faculdade. Foi durante o processo de estudos que aconteceu a ocupação de terras onde elas residem hoje. Nessa época, a Lo cuidava dos irmãos mais novos, enquanto ela e Joyce desejavam morar juntas pelos problemas que enfrentavam com a família. Sendo jovens e com muitos sonhos, decidiram procurar casa para alugar desesperadamente. Estavam com 21 e 18 anos, enfrentavam diversas barreiras na hora de alugar e o fato de terem um cachorro (o Vovô, que aparece nas imagens documentadas) acabava piorando pois nenhum lugar aceitava animais. Adotarem o Vovô, inclusive, foi um processo muito importante para elas; Ele ficava próximo do trabalho da Joyce e era um animal muito bravo, portanto tinham medo que acabassem matando-o pela agressividade que tinha ao atacar as pessoas. Foram 2 meses tentando a aproximação até conseguir acolher e levá-lo para a casa, portanto, jamais abririam mão dele. A mãe e a irmã da Lorrayne conseguiram casa na ocupação e ela e a Joyce ajudavam na luta: desde as reuniões, os atos e as manifestações pela terra. No momento inicial a Lo até morou com elas, em uma época que tinham um cômodo apenas, o banheiro e cozinha eram espaços coletivos da ocupação. Nesse momento, Lo até aponta para o sofá em que está sentada, falando que ele vem desde àquela época: o espaço em que dormiam. Como a irmã acompanhava a saga delas por uma casa em que pagassem aluguel, deu (e insistiu) na ideia de que elas colocassem seus nomes na lista de famílias da ocupação e tentassem um local para construir e morar. Acabaram conseguindo por algumas desistência e/ou outras famílias que não seguiam as regras de convívio. O terreno era pequeno, havia uma vizinha bastante bagunceira e acabaram enfrentando muitas dificuldades no início - não havia janelas, entravam muitos bichos como ratos e acabavam não conseguindo ver aquele local como uma casa de verdade. Até que conseguiram trocar de moradia - pagavam somente o material de construção usado - e, depois de duas mudanças, chegaram na casa em que estão hoje, o lugar que entendem como lar. Logo de início fizeram um muro para soltar os cachorros, depois uniram dinheiro para construir um banheiro e outros cômodos. Hoje em dia, nessa última (e atual) casa, com os cômodos mais elaborados e da forma que sonhavam (construíram o segundo andar, fizeram um mezanino etc), entendem que tudo foi muito árduo, mas necessário. Estão completando cinco anos nesse novo local e agora a irmã mais nova da Lo divide a casa junto com elas. Dentre todas as dificuldades, contam como foi construir em meio à pandemia. Naquele ano (2020) choveu muito em Belo Horizonte, então a obra que duraria 2 meses acabou triplicando em tempo, enquanto elas viviam em três pessoas sob um espaço que chovia dentro, tinha cimento para todos os lados e toda a sujeira incomodava muito. Entre o trabalho, faziam parte do corpo de funcionárias da creche da comunidade, então conseguiram receber auxílio mesmo nos tempos mais fortes de Covid-19, mas a regra era simples: todo o dinheiro ia para a construção. Durante a pandemia, também, o grupo de teatro que a Lorrayne faz parte passou em um edital para realizar apresentações na comunidade, o que ajudou muito a se manter em contato com a arte e trazer renda para a casa. Entendem como é bom ter realizado as coisas. Não foi nenhum pouco fácil viver todas as dificuldades que viveram, mas sentem muito orgulho em ver a casa montada. Ressaltam que fazer isso, enquanto mulheres, é ainda mais grandioso. Sempre existe alguém para apontar e dizer que não será possível, homens querendo nos ensinar a fazer coisas mínimas, opinando em algo que não cabe à eles e fazer a casa da forma que sonham é um firmamento muito grande sobre quem são. Hoje em dia, adoram os processos artísticos que fazem juntas (mesmo que a Lo faça parte do time de tecnologia, ela estudou artes por seis anos) e se dedicam aos bordados, à pintura e ao desenho. Além disso, amam jogos, no tempo livre gostam de assistir séries e filmes e fazer refeições juntas. Mesmo com as grandes dificuldades financeiras e desentendimentos que aconteciam no começo do namoro por depositarem muito de relações alheias sobre elas, hoje dão muito valor ao entendimento do corpo e da relação enquanto algo político. Lo comenta que a sociedade não as considera uma família, então fazem questão de trazer a naturalização do amor delas para todos, seja no ambiente de trabalho, entre a comunidade ou a família. Ao ver as pessoas da creche que trabalhavam (mães, pais, funcionários e crianças) tratando o amor delas enquanto algo natural, como merece ser tratado, percebeu o quanto importa essa luta coletiva. Por fim, fazem questão de dizer o quanto a sociedade precisa de mais acolhimento mental. Pouco se vê de investimentos nessa área, as terapias são caras e não há propagandas governamentais sobre isso, portanto desejam viver num país em que principalmente as mulheres que estão na base tenham cuidados mentais garantidos. ↓ rolar para baixo ↓ Lorrayne Joyce
- Kelly e Maíra
Para a Kelly e a Maíra, lar significa o lugar que elas estão juntas. Esse pensamento teve início desde o começo da relação, em que elas se conheceram/se encontraram/e vivenciaram todo o início da pandemia de Covid-19 juntas. Para superar os desafios, estabeleceram o que chamam de “protocolos de bem-estar”: se uma está num dia mais corrido, a outra passeia com o cachorro, por exemplo, fazem de tudo para que a casa esteja harmonizada, assim como a relação entre elas. Kelly conta de um dia que ela levou uma “bronca” de um chefe e que a Maíra rastejou - para não aparecer na câmera - até chegar ao lado, pegar na mão e dar apoio durante aquele momento que sabia que estava sendo muito difícil para ela. Desde o começo da relação enfrentaram vários desafios e dificuldades. A Maíra, por exemplo, estava sem trabalhar porque seus atendimentos ainda não haviam migrado para o mundo online e estava bem difícil sustentar, enquanto a Kelly estava finalizando uma empresa que passava pela crise. Foi um suporte e apoio mútuo que uma proporcionou à outra. Elas relembram que isso ficou claro desde o início: partilharam felicidades e dores. Não houve um jogo único e exclusivo de sedução/de mostrar que a vida é só incrível, até porque estavam ali, literalmente sem maquiagens, desde o início. Hoje em dia, o relacionamento é um lugar seguro para ambas - serve de auxílio também. Elas sentem que terem se encontrado foi a mola propulsora para que vários outros ciclos se fechassem (como a Kelly parar de fumar, melhorar a relação familiar e encontrar sua família biológica). Entendem que nesse encontro algo realmente se encaixou e, não à toa, tatuaram um triângulo que se completa quando estão juntas. No momento da documentação a Maria estava com 32 anos. Ela é psicóloga e é natural de Curitiba, no Paraná. Já Kelly estava com 39 anos. Ela é natural de Governador Valadares, em Minas Gerais, e passou por algumas cidades até chegar em Curitiba, no Paraná. Hoje em dia trabalha enquanto programadora e estuda engenharia de software (esse, um sonho antigo, mas que nunca achava que seria capaz. Voltou a estudar através de um processo de incentivo que a Maíra colaborou muito para que acontecesse ♥). Quando elas deram match num aplicativo de relacionamentos nem imaginavam que teriam tanta coisa em comum: foram 5 horas conversando (e brincam que não pararam de conversar até hoje!). Entre a conversa, foram descobrindo que frequentavam muitos espaços em comum, mas que não se conheciam pessoalmente, por exemplo: a Maíra fazia pós graduação no prédio que a Kelly trabalhava, elas já moraram em lugares muito próximos e, além disso, a Kelly morou no prédio que a mãe da Maíra morava. Também descobriram que ambas são formadas em artes cênicas como primeira graduação e ficaram chocadas com tantas coincidências. Se pegaram pensando: será que já pegaram o elevador juntas? Ou foram na farmácia na mesma hora? Mas entendem que o momento certo de se encontrarem foi aquele, no aplicativo. Depois de alguns dias conversando, foram pensando em protocolos de segurança que poderiam enfrentar para se encontrarem - estavam ambas isoladas em suas casas e gostariam de ficar isoladas numa casa só. Na época, não tínhamos informações precisas sobre a Covid-19 então tudo era muito perigoso, contagioso, mas ao mesmo tempo havia uma sensação de que “na semana que vem” tudo iria acabar. Num sábado a Kelly mandou uma foto para a Maíra de um frango com batatas, chamando-a para a janta, e ela decidiu ir. Foi a primeira vez que se encontraram: tirando a roupa que achavam estar contaminada (porque teve contato com a rua) na porta, colocando na máquina de lavar e correndo para o chuveiro para tomar banho. Assim, elas ficaram de sábado até segunda juntas. Como a pandemia não estava nem perto de dar uma trégua, o relacionamento delas foi acontecendo, elas se encontravam e passavam dias juntas e decidiram depois de pouco mais de um mês fazer uma mudança mais sensata de viver na mesma casa. Maíra pensava nas comorbidades e temia o Covid-19, perante ser uma mulher com um corpo sobrepeso, então elas cuidavam ainda mais do isolamento e decidiram juntar os gatos com o cachorro e ficar em casa, no estúdio em que a Kelly morava. Foi um momento bastante intenso de estarem num espaço, juntas, 24h por dia. Porém deu tão certo que até hoje vivenciam essa realidade trabalhando de home office, numa rotina bastante caseira. Hoje em dia, elas têm um cuidado com a espiritualidade bem grande, por mais que não possuam religiões específicas. Já chegaram a estabelecer um ciclo de 52 semanas (um ano) com rituais espirituais entre textos, propostas, conversas etc. e a Maíra também faz parte do círculo sagrado feminino. Entre a fé e a espiritualidade, elas adoram comemorar as datas: desde casamento, aniversários e outras datas importantes. Não necessariamente com festas, mas celebrando rituais como banhos de ervas, revendo anotações, trocando conversas… acreditam na valorização da trajetória que estão traçando juntas. Nesse caminho que está sendo o relacionamento, lavaram muita roupa suja de vivências anteriores que tiveram - e isso tudo aconteceu dentro de casa - então sentem que esses rituais colaboram na criação de um lar muito seguro, que nem sequer imaginavam ter. Kelly acredita que só o amor é capaz de transformar as coisas - se você consegue amar, você consegue propor mudanças reais no mundo. Maíra acrescenta que amor não é hierarquia, é algo mais democrático. Tem espaço para a verdade e o papel de estabelecer conexão com as coisas que estão ao redor. Entre mulheres, amar é também nos protegermos, não é algo violento, é um elo. Ela cita um exemplo da presença do bolsonarismo no condomínio onde moram e da política do medo que isso implica ao ver bandeiras do Brasil nas janelas - a importância que há no nosso amor porque ele vira algo revolucionário, que demanda coragem. A Kelly conta que foi percebendo ao longo da relação o quanto a visibilidade lésbica é importante. Este foi o primeiro relacionamento que ela assumiu de verdade, que não diz que divide o apartamento com uma amiga, que trata a Maíra enquanto esposa. Termos atendimento num posto de saúde, por exemplo, acontece a partir do momento que mostramos a nossa existência e que as pessoas entendem o quanto é necessário ter atendimentos voltados à saúde da mulher lésbicas. A visibilidade é muito importante para mostrar que existimos porque isso reflete em termos documento, constatação social, políticas públicas, conhecimento e reconhecimento das nossas vidas. ↓ rolar para baixo ↓ Maíra Kelly
- Isabela e Maitê
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isabela e Maitê, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Hoje em dia é comum ouvirem o quanto estão diferentes depois do namoro, o quanto amadurecem juntas e recebem bastante apoio dos amigos. Ainda existem algumas questões que entendem que vão melhorar aos poucos e se mostram dispostas a isso. Já enfrentaram questões de LGBTfobia dentro de casa e Maitê comenta que se pudesse mudar algo, mudaria o preconceito. No mais, amam estar juntas, assistir um zilhão de reality shows, jogos, ir ao bar, beber cerveja, estar com o grupo de amigos, e rir à toa de besteiras. Maitê sente que o amor entre mulheres não precisa necessariamente ser diferente de outros relacionamentos envolvendo homens, mas reconhece que o amor que constrói com a Bela se tornou muito mais completo: a conversa, o carinho, a cama, tudo. No geral, entende que a vida não é um conto de fadas, porque sempre existem muitos desafios, mas que as coisas se encaixam quando se há respeito e carinho. Por mais que o começo do namoro estivesse sendo muito confortável, Maitê ainda tinha contato com a ex-namorada e a família dela, então em alguns momentos ainda se balanceava. Sentia que não estava sendo completa na relação com a Bela - que percebia isso também - mas decidiu manter a relação pela paixão que sentia. Bela comentou que há muito tempo não se sentia realmente apaixonada por alguém - e que inclusive, achava que não iria mais se apaixonar novamente - então estava disposta a construir uma relação, passando por cima dos problemas e desafios. Depois de pensar muito e por mais que a Maitê entendesse que gostava da Bela e do relacionamento delas, optou pelo término. Não era justo estar pela metade na relação, não estava respeitando a sua companheira e nem ela própria. Sentia que estava tudo muito atropelado, não queria acabar sacaneando a Bela a longo prazo, precisava se entender e olhar ao redor, entender a situação toda. Mesmo depois do término elas continuaram conversando e Maitê aproveitou o tempo para pensar, amadurecer um pouco e, mais tarde, decidiram por voltar. A volta significaria diversas mudanças no relacionamento, desde comunicação e escuta mais ativa, até o jeito que elas se preocupavam uma com a outra e se apoiavam. Entendem que esse foi o verdadeiro começo de relacionamento, porque levaram muito mais a sério e com responsabilidade. O período anterior é mais considerado o momento em que elas ficavam, o namoro mesmo aconteceu na segunda parte da história. Elas se conheceram no Tinder, em julho de 2019. Bela não estava afim de relacionamentos e queria sair da rede social, foi quando deu match com Maitê (“match não, super like!”). Enquanto Bela queria sair, Maitê estava entrando. Tinha terminado um relacionamento recentemente e queria conhecer pessoas novas. Elas conversaram e decidiram se encontrar, num dia chuvoso, em Botafogo, no Rio de Janeiro. O encontro foi regado a muito atraso por Maitê morar em Niterói e ter enfrentado horas de trânsito. No fim, acabaram curtindo o date e se curtindo também. Dias depois marcaram de se ver novamente. Assim foi passando… fins de semana, casa de amigos… até que quando viram, logo no primeiro mês, estavam bastante juntas. Sabe aquela história de sapatão que adota gato? Claro, aqui temos. Mas foi a Bela quem adotou, quando estava na casa da Maitê e acharam uma gatinha por lá. Depois de um tempo, Bela entendeu que estava se apaixonando, mas não sabia até que ponto os sentimentos eram recíprocos. Maitê comenta que também sentia uma certa paixão pela Bela, mas que ainda precisava entender como estava realmente se sentindo após o término do relacionamento que ela teve. Não chegou a viver um momento totalmente sozinha para respirar e processar as coisas, sentia diversas questões internas. Foi um começo complicado e turbulento. Ambas se viram num momento do qual entenderam que não queriam começar um relacionamento, mas também já estavam muito envolvidas. Maitê se via balançada, Bela acabava se sentindo insegura… e assim se passaram alguns meses, entre ficar e não ficar. O ano virou e antes do carnaval decidiram começar a namorar. Quando pergunto o que elas pensam sobre o amor entre mulheres, Bela responde que o amor por si só pode parecer fácil, mas na verdade ele é bastante complicado. Por mais que devesse ser a coisa mais natural do mundo, é algo que precisa ser trabalhado todos os dias. “Amor é não julgar e sim acolher”. É também uma luta cotidiana. Nós, mulheres, precisamos lutar pelo amor (por amar outra mulher, pelo amor próprio, pelo nosso cuidado)... e nosso amor é diferente justamente pela luta que ele envolve. “Acabamos que nós, por termos lutado para chegar até aqui, damos mais valor. Não terminamos por qualquer coisinha, porque o tempo todo nos entregamos muito. Não precisa ser diferente só por ser alguém do mesmo sexo, mas por entender o caminho que tivemos que enfrentar para poder amar”. Isabela tem 31 anos, é designer e trabalha na área de UX e marketing digital. Passou um tempo se sentindo travada no design, sem saber que caminho poderia seguir, até que descobriu a área de UX e diariamente cresce estudando e trabalhando. Maitê tem 28 anos, se formou em nutrição e está cursando educação física. Quer trabalhar enquanto personal e sonha em futuramente fazer uma pós voltada à nutrição. É completamente apaixonada por futevôlei, esporte do qual Bela também está aprendendo a amar e se tornou uma das coisas que mais gostam de fazer juntas: assistir (pessoalmente ou na TV), acompanhar os campeonatos e jogar na praia. < Maitê Isabela
- Inara e Marina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Inara e Marina, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A documentação da história da Inara e da Marina veio a acontecer com uma pressa maior que a da maioria dos casais que passam pelo Documentadas, mas por um motivo bastante especial: elas se inscreveram sabendo que, no próximo mês, já não estariam mais morando no Brasil. As duas decidiram começar uma nova vida em Portugal. No começo do namoro era uma brincadeira boba de usar a dupla cidadania da Nina, mas depois virou um sonho concreto. Casaram-se e começaram a organizar como seria a nova vida. Nos encontramos no momento de venda de todos os objetos que elas possuem por aqui e, agora, com a história no ar, elas já estão começando os primeiros passos no novo país. Durante a conversa, elas relembram que quando a Inara foi apresentar a Nina para as melhores amigas dela, comentou algo que nunca tinha falado sobre nenhuma outra pessoa com quem se relacionou: “Anotem aí! Eu vou casar com essa mulher!”. No casamento, essas amigas eram as madrinhas. Assim, elas falam sobre o poder das palavras, do querer estar junto de alguém e, de alguma forma, do curso da vida. Inara e Nina se conheceram naquele aplicativo de relacionamentos super citado por aqui, o Tinder. Elas deram match e conversaram, depois sumiram, voltaram, sumiram de novo… A conversa não saiu de lá. Falavam sobre trabalho, família, diversos assuntos nessas idas e vindas, e foi num dia que a Nina cansou do aplicativo e decidiu sair de forma definitiva que avisou a Inara e pediu o Instagram, para que elas mantivessem o contato e se encontrassem em algum momento. Esse momento chegou, ainda que demorou mais um tanto - o encontro foi ótimo. Na época elas estavam em momentos bem diferentes… a Nina saía de um relacionamento bastante abusivo, a Inara estava numa solteirice contínua do qual ficava com várias pessoas, mas sentia que não se aprofundava com ninguém - e calhou de na época conversar com uma amiga (que, futuramente, viria a dividir apartamento com elas por anos) sobre essa sensação de fazer encontros à troco de nada. A amiga aconselhou a desmarcar o encontro, mas a Inara disse que não tinha como desmarcar, que seria desrespeitoso porque a Nina parecia ser muito legal, era melhor ir e ver no que iria dar - Ela disse: “de qualquer forma, vai ser o último”. E, por fim, foi. Essa história de dividirem apartamento surgiu logo depois, quando a Nina pediu a Inara em namoro elas já estavam praticamente indo morar juntas. O contrato estava por vencer e elas iriam se mudar. Até poderiam ir para o apartamento da Inara, que tinha uma vista ótima, ou optar pelo da Nina, que era grande, mas preferiram alugar um novo, recomeçar. Não queriam lugares que tivessem vivido outras histórias e outras dores. Assim, a amiga da Inara também estava em busca de apartamento e elas foram dividir um imóvel na Lapa, no centro do Rio de Janeiro. Elas contam que mesmo morando juntas, mantinham cada uma o seu quarto, até porque tudo estava muito no início quando alugaram e não sabia o que poderia dar certo. Acabou que juntas, com a companhia da amiga, no apartamento enfrentaram toda a pandemia, compartilharam diversas histórias e viveram muitas coisas. A amiga, por sua vez, confessou no casamento que não chegou nem a desabilitar o aplicativo do Zap Imóveis do celular, imaginando que no começo, pós mudança, elas brigariam, se separaríam, e ela quem teria que arranjar um novo lar. Mas a verdade é que isso não passava na cabeça delas, tinham uma responsabilidade em mãos e queriam estar juntas. Da mesma forma que um apartamento novo significava viver um recomeço, a viagem e a mudança para Portugal significava outro. Não está sendo fácil vender absolutamente tudo, desapegar das coisas que foram compradas e conquistadas ao longo dos anos. Mas é um esforço em conjunto para entender que isso abre caminhos para novas experiências. Elas contam que é uma possibilidade maravilhosa pensar em ter Portugal completamente do zero. Comprar coisas novas, mobiliar com a cara delas o novo lar, construir tudo novamente. É excitante, também, pensar na segurança de viver fora do Brasil. Hoje, viver no Rio de Janeiro, pela concepção delas, está muito difícil. Recentemente passaram por assaltos e criaram medos e traumas de vivenciar a rua. Pensam em viver Portugal por retomar o que amavam fazer aqui e que abdicaram pela violência: andar de bicicleta, curtir a cidade, sair sem medo do que pode acontecer a qualquer momento. Inara explica o quanto isso também dialoga com o trabalho dela, que é explorar o lado criativo: vai ser muito feliz podendo fotografar a rua, usar o celular, filmar mais em vias públicas e produzir mais conteúdos. Inara tem 39 anos, é natural do Rio Grande do Sul, mas desde criança se mudou para o Rio de Janeiro com a família. Ela trabalha com fotografia. Marina tem 39 anos, é natural do Rio de Janeiro e trabalha num site de música digital, sendo head de operações. No período da pandemia agravado pela quarentena, elas viveram momentos muito difíceis e também momentos muito bonitos (como o pedido de noivado e, posteriormente, o casamento). Foi logo no começo, quando ninguém sabia o que era a doença do Covid-19 e que havia-se um sentimento generalizado de luto, de desespero e de incerteza, que no dia do aniversário da Inara, elas juntaram os amigos online e a Nina fez o pedido de casamento. Foi como um sopro de esperança brotando: ver os amigos ali, através de uma vídeo chamada, e sentir que um dia estariam todos juntos novamente na festa, inclusive alguns com seus filhos (pois crianças estavam sendo geradas) era como brotar esperança em meio àquele caos. O casamento de fato aconteceu, cheio de detalhes sobre o que elas gostavam, como sapinhas nos buquês, tudo de mais clássico e que representava elas verdadeiramente. O casamento também inspirou amigos LGBTs próximos a se casarem. Entre os momentos mais delicados que uma relação envolve, como estar uma para a outra passando por coisas difíceis, enfrentando lado a lado e estando juntas de verdade, a Inara viveu uma cena, como ela mesmo diz, de novela, que foi bastante dolorida e que não saberia ter passado por isso sem todo o apoio da Nina. Reencontrou sua mãe depois de muitos anos sem contato, porém, ela estando em um leito de UTI, na fase terminal de um câncer. Foram algumas semanas de contato direto, apoio, em meio às ondas muito fortes de Covid-19 e, mesmo assim, as duas fazendo o possível acreditando com todas as forças que teria algum jeito dela melhorar. A Inara e a Nina acreditam muito no amor em forma de cuidado, em observar a necessidade do outro para além da sua. Isso, na relação delas, está desde os detalhes como a comida preferida da Inara ser o pão com mortadela que a Nina prepara nas manhãs, ou a força que elas tiveram nesses momentos mais difíceis. A Inara nunca tinha conhecido um amor que proporcionasse tanto apoio como quando elas passaram por isso - e, não só pela parte mais técnica e burocrática que sabemos que esses momentos infelizmente impõem - mas pela dor, também. Receber o acolhimento de uma forma que nem sabia que era possível tê-lo. Um cuidado realmente saudável, um amor único - e também calmo. A mãe da Nina, por sua vez, respeita as duas mas ainda não entende o relacionamento delas enquanto uma relação amorosa, de fato. Elas compreendem que isso é por motivos religiosos que são colocados acima de tudo e que, com o tempo, vai se apaziguando da melhor forma. ↓ rolar para baixo ↓ < Marina Inara
