Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
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- Maria Vitória e Fernanda | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Quando ela era mais nova, aos 14, na época da novela Amor à Vida, com o personagem gay Félix, ao debater sobre homossexualidade a mãe da Fernanda chegou a desconfiar de algo, mas ela negou fielmente. Na vida da Maria Vitória, a referência veio mais tarde, na novela A Força do Querer, com a/o personagem Ivana/Ivan, da qual surgiu o debate com a avó e fez com que ela se abrisse sobre a sexualidade. Hoje em dia, ambas famílias lidam bem com os relacionamentos, elas brincam com eles que eles nem deixam elas cogitarem um término, são grandes entusiastas. Mas sabem respeitar e elas também entendem tudo o que passaram para chegar até o momento em que estão, tudo o que precisaram enfrentar, inclusive, seus próprios medos. Ainda sobre suas dificuldades, entendem que a maior delas também está relacionada à comunicação. Até hoje é algo que buscam explorar, cuidar e cultivar. O momento do pré vestibular da Mavi foi muito difícil, passar em medicina requer muita pressão, muito stress, saber colocar cada coisa no seu lugar, lidar com a distância… são muitas coisas que precisam estar em equilíbrio e nem sempre estão. A Fernanda faz o papel de sempre incentivar a Mavi a falar, enquanto a Mavi sempre foi uma pessoa que pouco falou sobre seus sentimentos. Cada vez mais ela tenta se abrir, mas ambas também entendem aquilo que eu comentei no começo, que possuem diferentes linguagens. Jeitos diferentes de ver as coisas. A melhor forma que encontram é enxergar o lado de cada uma, entender múltiplas interpretações, se encaixar de jeitos diferentes. Na linha de explorar e cultivar, entender que não precisam ser quadradas, que tudo tem seu tempo, que não precisam das coisas na hora, urgentes e emergentes. E que se precisarem, estarão dispostas também, porque tudo pode ser conversado e ultrapassado. ♥ Quando elas começaram a ficar, a Mavi entendeu logo de cara que queria namorar com a Fê, ela diz que sabia que o terceiro amor é o amor verdadeiro na vida e que a Fê é o terceiro amor da vida dela. Mas foi muito difícil elas começarem a namorar de fato, inclusive, brincam que foi preciso pedir vááárias vezes em namoro até a Fê aceitar (e que se a Fê não aceitasse, aquela seria a última vez, porque ela não iria mais pedir!). Ela sempre dava um jeito de adiar, até que foi colocado um limite... e adivinhem? O pedido aconteceu dentro do carro. O carro foi muito importante em vários momentos, não só nesse. É o local onde elas têm as conversas mais sérias, onde viajam, onde se sentem à vontade, onde estão sempre indo para Porto Alegre, Laguna… passam muito tempo lá. No começo do namoro elas não eram assumidas, então o carro era o lugar que representava segurança. "Às vezes quando a gente anda de carro, a gente não vê nada... mas também vê tudo” Como a Fê não era assumida, elas entendem que essa foi uma barra muito forte que passaram juntas. Ela não se aceitava, foi um período muito longo. A Mavi não quis mais ficar escondida, entendia que não era mais justo viver assim. Antes de começar a namorar, nem passava pela cabeça da Fernanda se assumir, não pensava em contar porque tinha muito medo da reação (e spoiler: hoje em dia a mãe dela gosta tanto das duas que se emociona vendo elas). A Fê odiava pensar em contar e em não contar, porque ama tanto a mãe dela, é tão próxima, mas tinha medo de alguma reação de não aceitação. Acredita que se não fosse a Maria fazer esse movimento, talvez ela não tivesse se assumido até hoje. E teria se privado de todos os momentos em família que já viveram, em todas as vezes que andam juntas pela cidade (porque isso era o que mais as incomodavam, passavam bastante tempo “escondidas” por medo de encontrar pessoas conhecidas)…até que chegou o momento que mais pesou, pelo falecimento de uma familiar da Maria, em que a Fê entendeu que gostaria de estar presente com ela, de estar dando apoio à ela, mas que não podia. E aí resolveu abrir o jogo, contar, não podia mais segurar isso, precisava mudar. Ela explica que quando o medo de não estar vivendo fica maior que o medo da mudança, a gente entende que precisa mudar. E foi isso que aconteceu. A Fernanda tem 22 anos e é natural de Criciúma, Santa Catarina. É designer, trabalha com branding e social media. Estuda psicologia, é apaixonada pela mente humana, ama estudar isso, pensar sobre como as relações acontecem. Também adora desenhar e estudar comunicação. Maria Vitória tem 23 anos e é natural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. É estudante de medicina e estuda em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ela adora tudo o que envolve música, desde o piano (que toca e que aprendeu admirando a avó tocar), até a dança que vem de toda a família no palco. É entusiasta da história, sonha em um dia cursar uma faculdade de história também. Ambas adoram viver em Criciúma, são entusiastas da cidade, por isso, também, se preocupam em como seria importante levar mais cultura para lá. Mavi comenta que traria mais história, mais acesso à informação de verdade, conhecimento de verdade e formação de opinião. A Fê mora em um bairro mais afastado do centro e fala sobre como é bom sentir que vive em comunidade e os vizinhos serem considerados uma grande família, só que conta também como ainda falta o bairro ter a mesma visibilidade que o centro e ser tão valorizado quanto. Por fim, mas não menos importante, falam sobre a importância que seria ter na cidade um espaço que valorizasse a vida LGBT, a nossa cultura, os nossos valores, não só pela questão do medo de estarmos sempre em locais públicos, mas por ser um lugar nosso, com a nossa cara, um lugar que estivéssemos sendo nós mesmos, porque nós merecemos isso. Quando perguntei como a Mavi e a Fernanda se conheceram, elas disseram que foi por uma coincidência ou por um erro que deu em acerto, chamem como preferir. Vamos lá: A mãe da Mavi é professora de dança e trabalha também em uma universidade. A Mavi estava lá acompanhando uma audição e uma menina chegou atrasada, ela viu a menina, se interessou e fim. Um tempo depois, estava rolando um evento na principal praça da cidade, ela viu uma menina muito parecida e pediu para o amigo ir lá saber se a menina beijava mulheres. A menina disse que era bissexual, mas que namorava. A Mavi não sabia o nome da menina, mas sabia que ela tinha uma pinta no rosto e colocou, absolutamente do nada, na cabeça dela: acho que o nome é Fernanda. Decidiu desbravar no Facebook e achou uma Fernanda, com uma pinta no rosto. Que era quem? a Fê. Adicionou a Fê em todas as redes sociais, curtiu tudo o que ela postava: no Facebook, no Instagram, no Twitter… e a Fê pensando “meu Deus… quem é essa menina hétero curtindo tudo o que eu posto???”! Até que uns meses depois, em outro evento, nessa mesma praça, ela viu a Mavi e decidiu falar com ela, chegou dizendo “ei, você é a Maria Vitória do Twitter?”, que respondeu “não!” e foi descoberta pelos amigos “é ela sim!!!” e envergonhada, rebateu “e tu foi fazer teste na companhia de dança, né??”. As amigas da Fê gargalharam e ela só disse “não???”, então a Mavi entende que de fato, não era a guria da audição, mas achou a Fernanda muito mais bonita que a menina. Nesse dia elas acharam a situação muito engraçada, riram, conversaram e decidiram continuar se falando de forma online. Foi só um tempo depois que elas saíram pela primeira vez, tendo um primeiro encontro (que por sinal, foi fazendo as compras de natal no shopping), depois conversaram em um bar e entre o natal e o ano novo deram o primeiro beijo. Quando comecei a conversar com a Maria Vitória e a Fernanda, ouvindo elas falarem, eu ainda estava desacreditada de que o encontro tinha dado certo. Todos os planos foram, literalmente, por água abaixo - dois dias antes decretaram a volta do lockdown em Criciúma, cidade catarinense, onde estávamos - e uma hora antes de nos encontrarmos caiu a maior chuva possível. Além de que no dia seguinte, de manhã cedo, eu viajaria de volta para o Rio. Não tinha jeito, teríamos que cancelar. Aí elas falaram: “vamos fazer dentro do carro! É o nosso lugar. Sempre foi nosso lugar.” Quando eu saí do encontro com elas, pensei muito sobre o amor porque acredito que nunca falei tanto com um casal sobre as múltiplas formas de olharmos esse sentimento. Tudo começou porque uma vez a Fê compartilhou um post sobre as 5 linguagens do amor e disse quais que ela mais se identificava, que eram três, enquanto a Mavi disse quais que ela mais se identificava, que eram as únicas duas que a Fê não disse, ou seja, elas viam o amor de formas totalmente diferentes. Desse mesmo jeito, elas entenderam que vivem esse relacionamento porque o amor e as relações, como muitas coisas na vida, tem múltiplas interpretações e para entendê-las precisamos estar abertas a isso. A Fê entende que o amor é uma junção de coisas, o carinho, o olhar, a atenção. O amor é olhar reconhecendo os defeitos. Ela fala sobre em toda a construção do relacionamento dela com a Maria, desde o comecinho, ver o amor. Em cada detalhe, cada entendimento, cada passo que deram juntas, ela sempre soube onde esteve presente o amor. Fala também sobre o amor entre mulheres ser mais intenso porque quando um homem e uma mulher se relacionam eles estão em mundos que foram construídos socialmente diferentes, enquanto duas mulheres estão em mundo socialmente construídos iguais, então elas se identificam, se entendem, são corpos semelhantes. Já a Maria Vitória fala sobre como o amor pode ser doloroso também, como podem existir relações tóxicas transvestidas de amor. Como as pessoas podem se machucar em nome do amor, e como isso pode deixar pessoas mais ariscas, menos abertas a viver coisas boas. O amor tem que ser cuidadoso. Ela disse que o amor entre mulheres pode ser (e na maioria das vezes é) diferente, mas que o que difere realmente cada relação é o jeito que cada pessoa se olha, se vê, se respeita. Elas brincam o quanto foi difícil no começo da relação a Mavi também demonstrar carinho, ela não abraçava, dava dois tapinhas, como quem encontra um conhecido na rua. Foi preciso muita calma e investimento para ela entender que podia ter carinho. Enquanto, por outro lado, a Fê também não se entregava de cabeça, pisava em ovos, ia com calma demais. Uma foi tentando permitir a outra, até que por fim, pudessem caminhar juntas. Tudo foi muito novo. Fernanda Maria Vitória
- Wan e Lívia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Wan e da Lívia, quando o projeto passou por São Paulo! A Wanessa e a Lívia são duas mulheres que adoram viajar, desbravar lugares novos, cachoeiras, praias e vivenciar novas culturas. Foi numa dessas viagens que elas se conheceram, na Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte, em 2016. Wanessa é Pernambucana, mas na época morava em Natal, enquanto Lívia é paulista e desbravava as terras de João Pessoa, na Paraíba. Eu sei, muitos lugares para um primeiro parágrafo, né? Mas avisei que elas gostavam de viajar. Pois bem, foi na praia (ou melhor, nesse vilarejo), que elas se conheceram durante as férias. Se deram bem, o romance foi acontecendo, mas teriam que voltar para suas vidas, uma em Natal e outra em João Pessoa. Assim, à distância, viveram um ano. Quando em 2017 a Wan foi, junto com a filha, Alice, morar em João Pessoa. Durante a nossa conversa, Lívia e Wan falaram sobre como se veem enquanto muito parceiras, sobretudo porque os primeiros anos do relacionamento foram em um lugar que não tinham familiares por perto e conviviam com um grupo de amigos pequeno (do qual a maioria também não era de João Pessoa). Isso fez com que elas se conhecessem muito, convivessem um tempo maior juntas e que também gostassem muito da companhia. Descobriram, desde o início do relacionamento, uma forma de confiança direta, porque tinham como contar uma com a outra - ou melhor, em trio, junto com a Alice. ♥ Por mais que elas tenham morado 5 anos em João Pessoa, nosso encontro e a documentação ocorreu em um novo lar: São Paulo. Depois do início da pandemia, a Lívia já tinha concluído o mestrado (motivo que fez ela se mudar para a Paraíba) e passou para o doutorado em uma universidade paulistana, enquanto a Wan conseguiu um trabalho bem legal em São Paulo também. Com a mudança, vem um desafio que elas não tinham experimentado até então: conviver mais perto dos familiares e amigos, ter uma base próxima, diferente de João Pessoa. Elas até comentam que a chegada da pandemia, diferente do impacto que teve para quem convive com uma base grande de pessoas próxima, acabou sendo diferente para elas, pois já estavam acostumadas com esse núcleo menor, entre as três. O mais diferente mesmo, já chegando no novo lar, foi entrar numa nova rotina de conhecer vários amigos (que antes, eram amigos só da Lívia), ter a família por perto e novos compromissos. Elas brincam, inclusive, que geralmente os casais passam por isso no início - o processo de se adaptar à uma rotina familiar da parceira - e que elas passaram anos depois. Mas que, de toda forma, está sendo muito gostoso. Pela primeira vez os finais de semana estão cheio de eventos (visitar sobrinhos, festas de formaturas de primos, almoços em família…) mesmo que elas já estejam na cidade há meses. Durante a mudança, primeiro a Wanessa veio, para começar a trabalhar, enquanto a Lívia ficou organizando o que trazer e organizando a vinda da Alice também… e ah! É muito importante ressaltar: a Alice a-m-a viver em São Paulo com as duas. Durante as fotos, perguntamos em tom de brincadeira: “bora voltar para o Nordeste?” e ela respondeu “Só pra visitar!”. No momento da documentação, Lívia estava com 32 anos. Ela faz doutorado em Sociologia, com ênfase em Ciência Política e atua como socióloga. Wanessa também estava com 32 anos. Ela trabalha enquanto Analista de RH, sendo especialista em Diversidade e Inclusão - e atenção aqui! Está sempre em busca de mulheres que estejam na área das artes (redatoras, editoras, produtoras, diretoras de arte, etc) (olha a oportunidade aí!). Hoje em dia, em São Paulo, seus gostos e suas rotinas são em torno de sair para comer, descobrir lugares novos e - de vez em quando - ir para shows e parques. Lívia diz que o amor para ela é viver assim: sonhando, viajando e crescendo juntas. Na sociedade patriarcal e racista que vivemos, ter esse amor é muito difícil, então por mais que pareça simples o que elas vivem, é algo muito político e revolucionário. A Wan completa que não é nenhum pouco simples. Amar é compartilhar, elas são muito companheiras e isso envolve muito esforço. Quando a Lívia fala sobre as questões patriarcais e raciais, Wan traz o quanto é poderoso nos questionarmos. Explica quantas vezes, por exemplo, que por a Alice ter a pele um pouco mais clara pensam logo que ela é filha da Lívia e já fazem essa conclusão sem perguntar, e como dá um nó na cabeça das pessoas quando elas respondem que a Wan é a mãe. “A importância de nos questionarmos o tempo todo antes de agirmos, de pensarmos outros modelos de sociedade, de nos permitirmos viver fora de padrões já estabelecidos.” Por fim, elas contam também como tem sido viver em São Paulo, por ser uma cidade muito mais diversa e aberta sobre casais homoafetivos, em contrapartida do governo que vivemos, que representa cada vez mais a legitimação do fascismo e que nos coloca medo em muitos momentos que estamos nas ruas. Quando o foraBolsonaro foi eleito, sentiram uma tristeza absurda. E mesmo sabendo que seria muito ruim o que viria nos próximos quatro anos, é inexplicável o quanto piora a cada dia que passa em níveis que não saberíamos que era possível piorar. A Lívia fala sobre como as pessoas se sentem à vontade para expressar a raiva e o ódio que sentem, não existe pudor ou vergonha nos atos de violência, e a Wan complementa que mesmo que ela tenha um trabalho que fale sobre diversidade e que viva em São Paulo, as coisas mudaram muito nos últimos três ou quatro anos. Por fim, elas comentam também sobre a vivência que tinham em João Pessoa, por entender a cidade enquanto um espaço que carrega ainda traços colonialistas e que tinham medo de certas demonstrações. As pessoas ao redor delas, por exemplo, não sabiam que elas eram casadas - apenas um núcleo pequeno no trabalho ou amigos próximos. Hoje em dia, viverem como casal e falarem sobre isso é coragem e liberdade, mas também é sobre estarem em um espaço de segurança, num lugar que permite mais diversidade e com pessoas que pensam da mesma forma que a gente - que também se preocupam com elas, formando uma base próxima, de cuidado e afeto. Wanessa Lívia
- Jana e Marcela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Jana e da Marcela, quando o projeto passou pela Bahia!. Marcela e Janaina acreditam que crescem bastante juntas. Jana é de Salvador e trabalha com planejamento de obras na empresa baiana de águas e saneamento, mas seu grande amor é a música, tocando percussão. Marcela, natural de Pernambuco, está em Salvador desde 2013 e trabalha como fisioterapeuta, conta que voltou a ter contato com a música depois da relação com a Jana. Sempre tocou violão, mas por diversos motivos estava afastada. Foi com o incentivo que, além de tocar, fundou no trabalho um projeto de música enquanto auxílio no hospital, e ambas ficam muito felizes em ver o quanto está dando certo. Por mais que admiram o crescimento, explicam que não começaram a relação indo “de cabeça”: construíram aos poucos o que possuem e se enxergam enquanto mulheres livres, dentro de uma relação não-monogâmica, desejam que seus laços não sejam de dependência. Na sua rotina, adoram programações caseiras - como cozinhar, ver filmes e séries - mas também frequentam diversos bares e festas, como o lugar que nos encontramos, por exemplo, um espaço que adoram ficar e que encontram diversos amigos (Jana ensaia no Pelourinho, moram por perto e o local dialoga com grandiosa diversidade presente). Foi em abril de 2022 que se conheceram. Jana estava envolvida numa casa de cultura para mulheres em Salvador e durante um evento para mulheres que amam mulheres ela e Marcela se esbarraram pela primeira vez. Tinham diversas amigas em comum, mas não interagiram muito. Depois disso, em outro evento, Marcela e as amigas foram de novo e criaram uma piada interna sobre a Jana chamando-a de “gostosa tatuada". Acabou que a amiga comentou em voz alta e a Jana ouviu, olhando para trás, vendo todas as pessoas da roda rindo/zoando e a Marcela completamente série e posturada. Jana brinca que aquilo ali arrebatou ela, ficou encantada na Marcela. Depois disso, foi cada uma para o seu canto. Chegaram a interagir um pouco, ambas possuem tatuagens de sapinhas e brincaram sobre as sapinhas se beijarem enquanto encostaram a pele, mas não interagiram mais que isso. Se adicionaram nas redes sociais e começaram a conversar, Marcela até lançou uma cantada para a Jana quando ela contou que era planejadora de obras dizendo “vem planejar a minha vida”, mas elas nunca conseguiam se encontrar pessoalmente. Foi quase um mês depois, por acaso, que se encontraram no pelourinho. Jana tinha acabado um ensaio, Marcela estava por lá e foram no bar (que tiramos as fotos) beber uma cerveja, era feriado do dia 1° de maio e ao contar finalizam com: “Foi aí que começou essa amizade com afeto e amor que temos.” Durante a conversa, falamos muito sobre a questão da não-monogamia e como elas enxergam isso dentro da relação que mantém. Entendem que é um reflexo da vida que tiveram; não querem viver a monogamia que sempre controlou o corpo das mulheres, também entendem que isso é muito sobre conquistar uma independência. Jana explica que observou muito a vida para chegar no local de questionamento que está. Foi encontrando o lugar que ela ocupa no mundo, entendendo o que a oprimia ou o que tinha bom significado, que entendeu o que é o amor nas trocas com as pessoas. Dentro de todos os entendimentos, problematiza a hierarquização dos afetos e valoriza as mulheres na vida dela, portanto, não quer se sentir pertencente a alguém. Marcela fala do amor que aprendeu a ter com a família dela. Cresceu de uma forma muito solta, os pais trabalhando e ela sozinha, então pensa muito sobre a monogamia como uma dependência também - e não gosta dessa dependência. Entende que amar é ter coragem (ainda mais amando outra mulher) e que valoriza o que elas vivem como um todo em suas liberdades, desde serem mulheres desfeminilizadas, até a importância de serem reconhecidas (cita que visitaram a família dela no interior de Pernambuco e o quanto isso foi revolucionário para elas). Por fim, elas finalizam nossa conversa com uma fala sobre entender que se relacionar é trazer alguém para a sua família, doando e recebendo, entendendo que aquela pessoa faz parte do que você considera família a partir do momento que ela está contigo. ↓ rolar para baixo ↓ Janaina Marcela
- Gi e Rafa
A Rafaela e Gizelly foram o primeiro casal que tive contato em Fortaleza (e, se não me engano, o primeiro casal que agendei quando decidi que iria levar o Documentadas para lá). Elas são muito receptivas e me levaram para conhecer o grande Mercado Central, almoçar em um lugar super querido, fazer turismo de dentro do carro (A pandemia, né?) nos bairros mais centrais e me contaram várias histórias sobre a cidade. ♥ muito obrigada, gente. Saudade de vocês. E no lugar que o Documentadas estiver, sempre terá um espacinho aberto para recebe-las! Importante ressaltar também que dentre as histórias de perrengue que este projeto é campeão em documentar, temos uma das melhores: uma blitz policial no meio da tour que nos rendeu uma .... pausa para o choro.... multa de uns + de 2 salários mínimos para o carrinho das bichinhas por estar com a licença atrasada (Mas agora já está em dia, viu? Se dividir a gasolina atravessa o Brasil todo kkkk digo...). Bom, vamos lá. A Rafa tem 24 anos, é auxiliar de cartório e estudante de Letras na Universidade Estadual do Ceará. Ela é natural de Fortaleza - CE e morava bem pertinho da casa da avó da Gizelly, que tem 26 anos e é Engenheira Civil, também formada na Universidade Estadual do Ceará. Por mais que a Rafa e Gi tivessem proximidades físicas e frequentassem espaços em comum, elas foram se conhecer mesmo através de um aplicativo de relacionamentos: o Tinder, no ano de 2019. Era pré-carnaval, elas estavam conversando há um tempo e marcaram de se encontrar em um cortejo. A Rafa mobilizou todos os amigos e foi para lá com aquela esperança de encontrar a Gi, que por sua vez deixou o celular no modo Não Pertube (desativando as notificações) e esqueceu completamente de que a Rafa iria ligar para encontrá-la. Quando ela se deu conta, já era tarde demais (literalmente!): ela já estava indo para um bar, o cortejo já tinha acabado, a Rafa já tinha ficado triste, desistido, chutado o balde, beijado várias pessoas, decidido que ia dormir na casa de amigos (e até já tinha mandado mensagem anteriormente chamando a Gi para ir também, mas como ela sumiu, não adiantava mais) e dessa vez foi a Rafa quem não respondeu mais. No dia seguinte, com o nascer do sol também vem ela, né? A ressaca. E então a Rafa repensou e viu que não precisava ser assim. Decidiu falar com a Gi. Elas conversaram e combinaram de se encontrar, mas dessa vez com horário e local pré-agendado, direitinho. Falando assim, vocês pensam que era um encontro em um restaurante, mas não, elas se encontraram na parada de ônibus. Pois é, eu também ri. A Rafa entrou no carro da Gi, que ficou estacionado... e ela ficou toda encolhidinha, em suas palavras: "Porque estava frio o ar condicionado" e elas começaram a rir de nervosas e de tímidas. Para completar, ainda surgiu um assunto um tanto quanto mórbido que se transformou numa crise de riso das duas e nisso a Rafa chamou a Gi para ir fazer a carteirinha de estudante dela, logo em seguida, saindo do carro. Elas foram e, desde esse dia, estão juntas. O amor é aleatório. ♥ Hoje em dia, no tempo livre, o que a Rafa e a Gizelly mais gostam de fazer juntas é praticar esportes, assistir besteiras, passar um tempo "morgando" (ficar sem fazer nada, falando da vida) e principalmente curtir a própria companhia - elas contam que reservam às sextas para sair, comer coisas gostosas, cozinhar juntas ou tomar cafés em lugares legais. No momento, a Rafa está trabalhando de casa, enquanto a Gi tem a própria empresa de Engenharia Civil, em sociedade com uma colega. Por bastante tempo ela trabalhou para empresas, nas quais chegou a se sentir mal remunerada e/ou de alguma forma explorada, foi aí que surgiu a ideia de montar algo próprio, com duas colegas da área (e hoje em dia é ela e uma amiga). A empresa é formada pelas engenheiras e foca em reformas de banheiros, infiltrações de telhados, intervenções em casas, apartamentos e áreas comerciais. Possuem equipes e encarregados para fazer os serviços, mas o mais legal nisso tudo é que: a empresa é somente com mulheres no comando e prioriza o trabalho para clientes mulheres. 3 O começo do namoro da Gi e da Rafa foi marcado pelo medo que existia dos amigos da Gi não gostarem da Rafa (Atualização: hoje em dia eles se dão melhor com a Rafa do que com a própria Gi, risos) e também porque no ano seguinte a pandemia chegou e com ela a Gizelly chegou a ir para Sobral (interior do Ceará) trabalhar, durante um tempo. Elas oficializaram o namoro no dia 07 de março de 2019 e em 2020, lá em Sobral, a Gi resolveu pedir a Rafa em casamento. Tudo estava super organizado com a melhor amiga da Rafa. O pedido foi no Arco de Sobral, um ponto turístico e enquanto a Gi ia enrolando ela, a amiga organizava tudo. Primeiro, ela sabia que o casamento era um sonho da Rafa, então fez uma cena de dizer que não via sentido e/ou futuro no casamento... que não queria isso. A Rafa ficou triste, chorou e empurrou ela querendo ir embora. Depois da cena, uma pessoa entregou uma rosa para a Rafa - a primeira pessoa foi um senhor numa bicicleta (e a Gi fingiu ciúme), depois outras pessoas chegaram - foram 5 rosas ao total, até que chegaram duas meninas crianças e entregaram as alianças e a Gi fez o pedido. Depois de toda a atuação digna de novela e filme com Oscar, com muitos choros e muita emoção real no pedido, elas tiveram um dia incrível com jantar surpresa, casa livre, velas e rosas. A família super apoiou. No começo de outubro do ano seguinte o casamento aconteceu, já na pandemia do Covid-19. O evento aconteceu na garagem de casa, com as pessoas da família e alguns amigos e ninguém foi contaminado ou teve sintomas antes ou depois dos dias que envolveram o evento. 4 No início da pandemia, em 2020, a Rafa perdeu o emprego e elas passaram bastante tempo sem se ver por conta de, tanto elas quanto suas famílias, serem pessoas consideradas grupo de risco (asmáticas e diabéticas). Com a mãe da Gi, por já ter tido cancêr de mama e o pai por ter pressão alta, somados à avó ser idosa, o cuidado é minucioso. Elas voltaram a se encontrar apenas em julho e em seguida a Gi foi chamada para trabalhar em Sobral, no interior. Foram meses que ela passou lá, só teve retorno de fato no mês de novembro. Foram meses de um relacionamento à distância e a Gi sentiu dificuldades em se adaptar também ao trabalho. Quando ela voltou, elas organizaram tudo e o casamento aconteceu. A Rafa hoje em dia mora com a Gi e a família dela, numa casa em Fortaleza. No começo a mãe da Rafa ficou um pouco mexida com a situação, mas hoje em dia la entende que faz parte da vida adulta e do crescimento da filha. O pai, por outro lado, não vê a orientação sexual dela de boa forma, o que a deixa triste pois sabe que ele e a Gi, enquanto companheira dela, se dariam muito bem! De toda forma, entendendo isso enquanto uma dificuldade e uma dor, elas seguem se fortalecendo e sendo apoio dentro da relação. Inclusive, nos momentos de dificuldades, a Rafaela conta que a Gizelly a acalma e ensina a agir com cuidado. No mais, elas tentam sempre entender que tudo tem seu tempo e que as dificuldades que passam, principalmente financeiras, que não são para sempre. Para tudo conseguem dar um jeito, ainda mais se estão juntas. ♥ 5 Por fim, a Gi comenta que sempre foi mais fechada e com poucos amigos, que mantém um contato mais distante com as pessoas - tirando com a Rafa, que é um contato diário. Então ela faz uma leitura do amor enquanto uma estabilidade e enquanto segurança. Para a Rafa, o amor se mostra quando ela acorda e vê ao lado dela a pessoa que ela ama, que ela cuida, que está do lado dela para tudo. Ela diz que sente o amor neste momento em específico, principalmente, porque a Gi acorda cedo para trabalhar e sempre liga o computador e arruma as coisas para que a Rafa acorde com tudo confortável. Ela acha isso muito querido, se sente muito confortável, encontra nesse cotidiano e nessas pequenas atitudes muitos pedacinhos de amor. Quando andamos por Fortaleza, elas me ensinaram muitas coisas. Mostraram diversas questões culturais, contaram histórias e quando fiz perguntas durante a nossa conversa sobre a cidade e a forma que elas enxergam o local em que elas moram, elas não pensam em outra cidade no Brasil que gostariam de estar além de lá. Ao mesmo tempo que entendem diversas melhorias que precisam ser feitas lá, no Estado do Ceará e no Brasil em si, comentam que não tiveram vivências de preconceito na cidade, mas que a situação econômica está ruim, que os custos de vida estão elevados e que a mobilidade deixa muito a desejar e que isso também fala sobre a gente, né? Elas sonham em poder se estabilizar, seja no Brasil ou fora dele, e entendem que Fortaleza é um lugar muito incrível para se estar. Desejam viver, além de sobreviver. Rafaella Gizelle
- Vitoria e Vanessa | Documentadas
↓ rolar para baixo ↓ Vitória, no momento da documentação, estava com 25 anos. Nasceu em Fortaleza, mas passou a maior parte da vida em Salvador. É estudante de administração e está procurando emprego atualmente, pois deixou seu último trabalho para fazer a mudança para Trancoso, acompanhando a Vanessa. No tempo livre, se dedica a estudar inglês, buscar freelas, e também adora ir à praia, uma de suas atividades favoritas. Vanessa, no momento da documentação, estava com 24 anos. Nasceu em Mutuípe, no interior da Bahia, mas viveu grande parte da vida em Brasília. Há dois anos, se mudou para Salvador à trabalho, e depois disso para Trancoso. Vanessa é engenheira civil e trabalha na área de obras. Assim como Vitória, ela ama estar na praia, e também gosta de acampar, embora ainda não tenha explorado essa parte em Trancoso. Vanessa compartilha o objetivo de melhorar seu inglês, algo que considera essencial para os planos que tem em mente: viajar pelo mundo. Foi em Trancoso que elas encontraram uma nova fase da vida, unindo os desafios profissionais e pessoais. Além disso, ambas têm em comum a paixão por viagens, então constantemente poupam dinheiro com o propósito de realizar seus sonhos pelo mundo, planejando novas experiências juntas. Vanessa conta que ainda na época em que vivia em Brasília, recebeu a notícia de que a empresa que trabalhava abriria uma filial em Salvador, fazendo obras. Em fevereiro de 2022, mudou-se para a capital baiana por conta do trabalho, deixando a família em Brasília. Apesar de ter parentes na Bahia, eram mais distantes, o que levou a buscar novas conexões, então baixou um aplicativo de relacionamentos para conhecer pessoas e foi ali que encontrou Vitória - ou Vick, mais carinhoso, né? O primeiro encontro aconteceu em março, e desde então as duas não se desgrudaram mais. Inicialmente, os encontros aconteciam apenas nos finais de semana. Vitória, que morava com a mãe, o padrasto e o irmão, costumava passar boa parte do tempo no apartamento de Vanessa, fornecido pela empresa. Lá, o ambiente era tranquilo, juntas compartilhavam momentos em casa, festas, passeios… e durante a semana a rotina voltava ao normal. Até que com o tempo a frequência dos encontros aumentou. O que antes era apenas nos finais de semana passou a incluir as sextas-feiras, segundas e, depois, quintas… quartas… Até que as roupas da Vick já estavam lá, já tinham uma escova de dente de casal… Apesar dessa convivência intensa, o relacionamento ainda não era chamado de namoro. Vanessa, que no começo queria curtir, se viu surpresa com a rapidez de tudo. Era uma experiência muito nova - ela nunca tinha se relacionado com outra mulher - e também já era muito independente, morava sozinha há um tempo. Do nada era chapinha para um lado, escova para o outro… ficou pensando: “O que está acontecendo aqui?!”. Tudo mudou em junho, quando decidiram oficializar o namoro. Nesse ponto, Vitória praticamente já dividia o apartamento com Vanessa, pegando suas coisas da casa da mãe e voltando para lá. Elas já sabiam o quanto se gostavam, por mais que o começo ainda fosse um desafio. Aos poucos, o carinho pela Vick tornou o processo mais leve. Apesar do susto inicial, Vanessa percebeu que gostava muito da companhia, e juntas, encontraram uma forma de transformar aquele início despretensioso em uma relação sólida. No começo da relação, Vitória e Vanessa enfrentaram algumas discussões enquanto ajustavam suas rotinas e expectativas. Quando brigavam, Vitória costumava voltar para a casa da mãe. Essa dinâmica deu a elas a impressão de que ainda não moravam juntas de fato. No entanto, tudo mudou no final do ano, quando decidiram passar o natal em Fortaleza com a família da Vick. O padrasto dela estava enfrentando um câncer e havia se mudado para a cidade para fazer o tratamento, levando parte da família junto. Durante esse período, Vick permaneceu com a Vanessa em Salvador e, então, ambas entenderam: estavam oficialmente morando juntas - e por consequência, quando brigavam, não havia mais para onde voltar. A virada do ano foi o marco de uma nova fase. Viveram intensamente o verão e o carnaval, celebrando estarem juntas. Em 2023 completaram um ano de namoro, mudaram de casa, ajustaram suas rotinas de trabalho, compraram uma moto no nome das duas… Entenderam que estavam fortalecidas, ali havia um compromisso mútuo. No final de 2023, decidiram comemorar os dois anos de namoro com uma viagem ao Chile, a primeira vez que sairiam do Brasil. Ralaram muito para pagar cada detalhe: passagens, hospedagem e passeios. Enquanto isso, a vida profissional da Vanessa passava por transformações. No mesmo período em que se formou em Engenharia Civil, ela enfrentava desânimo com o trabalho e a distância da família. Escolheu não realizar cerimônias de formatura, optando por uma colação de grau online, sem grandes celebrações. Se sentia esgotada, então começou a buscar novas oportunidades, enviando currículos para outras empresas. Em março de 2024, Vanessa foi surpreendida por duas notícias simultâneas: recebeu uma proposta de trabalho em Trancoso no mesmo dia em que foi desligada da empresa em que trabalhava. Para ela, aquilo foi um sinal. Vick deu o total apoio. Em duas semanas, Vanessa reorganizou sua vida e estava morando em Trancoso. A mudança para Trancoso foi (mais) um grande fortalecimento entre a Vanessa e a Vick, principalmente pelos desafios que enfrentaram. Como o apartamento onde Vanessa morava em Salvador pertencia à empresa, precisou ser devolvido logo após a demissão. Em Trancoso, encontrou inicialmente uma kitnet, já que o custo de vida na região é alto. Durante esse período de transição, Vitória permaneceu em Salvador para resolver pendências relacionadas ao trabalho e à viagem para o Chile, planejada há meses. A viagem ao Chile foi mágica. Ambas decidiram que seria o momento perfeito para um pedido de casamento, e, coincidentemente, planejaram o mesmo cenário: um ponto turístico em Santiago. Contaram para uma amiga, que tentou ajudar evitando gastos - sugeriu que comprassem alianças mais acessíveis, deixando para comprar algo mais sofisticado na cerimônia de casamento. O plano funcionou, mas a experiência acabou sendo ainda mais inesperada por conta de uma nevasca. O passeio ao local planejado foi cancelado e o pedido aconteceu na neve. Vanessa colocou o celular para filmar e pediu que Vitória olhasse para o horizonte para registrar a cena. Enquanto Vitória se virava, Vanessa se ajoelhou, mas foi surpreendida quando Vitória também tirou uma aliança do bolso. No total ficaram com quatro alianças, três solitárias e hoje elas usam tudo de forma misturada. Ao voltar de viagem, Vick pediu demissão do trabalho que tanto gostava em Salvador para se mudar definitivamente para Trancoso. Os três meses em que ficaram separadas, vivendo em cidades diferentes, foram desafiadores para a relação. E agora estavam noivas, né?! No dia 11 de julho, aniversário da Vick, ela finalmente chegou em Trancoso. A Vanessa e a Vick refletem um amor construído diariamente, superando barreiras da convivência e das diferenças na criação. Para Vanessa, o que elas têm vai muito além de um amor idealizado ou de momentos bons. "Não é só o amor bonito - por mais que seja também - é um amor que está presente todos os dias, nos bons e nos ruins.” Ela acredita que o verdadeiro amor está na escolha de estar ao lado de alguém em qualquer circunstância, sem fugir nos momentos difíceis, como era no início. Fala do sentimento de amor como uma mãe possui por um filho: "A mãe ama o filho na pior fase dele, e isso é o que define o amor para mim. Não é algo que apaga e acende. É duradouro, e é isso que torna os dias especiais." Para Vitória, o relacionamento foi uma jornada de amadurecimento e coragem. Ela admite que, no início, era mais fácil evitar os problemas e se distanciar. Porém, a construção dessa parceria a ensinou a enfrentar os desafios e a valorizar a força que elas têm juntas. "É isso que é casamento, essa parceria de segurar a mão e enfrentar o que vier. Com o tempo, você percebe que agora não é mais só você. Existe um 'nós' que se torna a prioridade". Vitória vê esse compromisso como algo natural e poderoso: "No começo, é abstrato pensar se a pessoa vai estar ao seu lado ou não. Mas com o tempo, você entende que agora é Vanessa e Vitória juntas, sempre." Elas reconhecem que suas origens familiares são muito diferentes. Enquanto uma cresceu em um ambiente de compreensão, afeto e diálogo, a outra viveu em um contexto mais rígido, onde decisões eram tomadas com base em punição. Apesar disso, encontram na relação um equilíbrio. Brincam sobre como será a criação de um futuro filho e especulam sobre qual traço de personalidade a criança puxaria de cada uma. Vanessa Vitória
- Luciana e Joana | Documentadas
Amor de Flor - Luciana e Joana clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Beatriz e Tamara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beatriz e da Tamara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Beatriz e Tamara são um casal muito incrível. A forma que elas se ajudam, se permitem desconstruir e passam um sentimento de calma é muito verdadeira. São pessoas muito diferentes também. Beatriz é mais comunicativa e costuma dizer que elas terem se conhecido foi um encontro de almas. Ela é super de passar horas nas redes sociais, de dormir até tarde… Tamara, pelo contrário, é muito quietinha e disciplinada; Tem hora para dormir, acordar, comer, treinar… gosta de ficar mais no canto dela. Revira um pouco o olho e balança a cabeça, rindo, quando a Bea fala sobre o encontro de almas. Mesmo com todas as diferenças, elas passam muito tempo juntas. Sua grande paixão é o esporte. Tamara pratica todos os esportes possíveis e a Bea acompanha treinando também. Se conheceram assim, na atlética da universidade. Na época, Tamara namorava e Beatriz tinha acabado de entrar na faculdade. Pelo convívio, acabaram cultivando uma amizade. Beatriz estava recém chegando no mundo universitário e decidiu passar um tempo curtindo a vida, conhecendo pessoas, festas, etc. Um tempo depois, Tamara vinha passando por diversos problemas no relacionamento anterior, optou pelo término e isso criou uma brecha para que ela e Bea pudessem tentar algo num futuro próximo. Tamara tem 26 anos, é formada em administração e faz biblioteconomia. Trabalha numa emissora de TV cuidando da parte administrativa, é treinadora de futsal e tem uma doceria com a mãe - a empresa nasceu do sonho de venderem o que cozinham juntas. Ela costuma fazer os doces, enquanto a mãe faz os salgados. No mais, é absurdamente apaixonada por todos os tipos de esporte e se inspira muito em figuras relacionadas a isso quando pensa em inspirações, desde familiares que já se desenvolveram no esporte, até figuras famosas que representam esse desenvolvimento de carreira através da disciplina, como o Cristiano Ronaldo. Bea tem 24 anos, é formada em design gráfico e cursa história e marketing. Atualmente trabalha enquanto social media e web designer. Ao perguntar sobre em quem ela se inspirava, disse que adora acompanhar a jogadora Cris Rozeira nas redes, não só por ser jogadora da seleção, mas por ser uma mulher lésbica, muito representativa, que enfrentou lutas sobre a saúde mental e construiu a própria família. Além disso, disse que aprendeu a se inspirar diariamente na Tamara também, por ser uma mulher muito incrível e por terem uma relação de muita parceria. Por terem essa ligação com o esporte, falamos muito sobre o quanto eles podem mudar a vida das pessoas, principalmente dar um futuro para diversas crianças. Tamara ressaltou que a base para que um dia as coisas possam dar certo é a educação, para termos mais liberdade, mais respeito, mais segurança... tudo começaria pela reeducação. Bea completou, educação é um assunto que elas conversam muito sobre e ela acredita que só a educação realmente nos levaria à uma revolução. A Tamara era capitã do time em que elas jogavam na faculdade, enquanto a Bea era coordenadora. Elas conversavam muito, passavam muito tempo juntas. O primeiro beijo delas aconteceu em 2016, depois do término da Tamara, quando ela resolveu dar uma chance para a Beatriz... mas elas estavam vivendo ritmos completamente diferentes. A Bea estava na fase de beijar todo mundo, curtir as festas nesse sentido... enquanto a Tamara não curtia isso e preferiu manter só a amizade. Um tempo depois a Bea foi acalmando, elas foram criando um sentimento próprio, acabaram estabelecendo algumas coisas e decidiram tentar o namoro. Já passaram por situações mais difíceis que envolveram quebra de algumas confianças, da qual a Tamara se sentiu mais machucada. Foi com muita conversa e força de vontade que o relacionamento se construiu e deu certo. Hoje em dia elas entendem que a comunicação ainda precisa melhorar em diversos pontos, mas que se ajudam, amadurecem... é algo que precisa ser cultivado todos os dias.
- Luiza e Milena
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luiza e da Milena, quando o projeto passou pela Bahia!. Foi numa manhã que se emendou para um começo de tarde em Salvador que encontrei a Milena e a Luiza (e a Tapioca, claro!). Fizemos as fotos na Praia da Paciência, sentamos num bar para conversar e fui convidada para ir até a casa delas almoçar e conhecer um pouquinho do espaço que conquistaram e construíram juntas nesses anos que se relacionam. Lugar que me contaram com muito entusiasmo existir espaço para cuidar das plantas, para a Tapi correr e brincar, para compartilhar legumes e frutas com os vizinhos, mas que também foi um caminho árduo de percorrer até chegar nele, com perrengues e apartamentos completamente diferentes que passaram. Luiza conta como é diferente a relação que ela aprendeu a construir com Milena, começando pelo o quanto conversam: conversar mudou a sua vida. Nunca tinha se visto num espaço de tanta conversa e de conforto. Sente que respiram juntas, podem ter conversas que duram dias, mas seguem juntas. Fala também da importância de terem começado a terapia nesses processos que viveram (entre mudanças, casamentos, saírem de casa…) e o quanto foi fundamental para processar seu próprio tempo. Hoje em dia, aprenderam a pedir desculpas. Não gostam de joguinhos, entendem que não há orgulho próprio na relação, tendem a ter mais parceria assumindo erros ou assumindo funções na casa para que elas aconteçam na rotina. Deixam claro que são esposas, não amigas. Não querem que o relacionamento caia numa amizade, por isso respeitam os espaços individuais e sempre voltam ao lar entendendo o encontro único que possuem enquanto uma família. Milena no momento da documentação estava com 40 anos, ela é natural de Salvador, trabalha como atriz e coordena/faz produção de palcos numa casa de eventos no Rio Vermelho. Como hobby, adora fazer jiu jitsu. Luiza no momento da documentação estava com 29 anos, também é natural de Salvador, já trabalhou (e trabalha de vez em quando) enquanto atriz, mas hoje em dia seu foco é enquanto designer. Na pandemia, precisou fazer a transição de carreira porque tudo estava sem perspectiva na área das artes cênicas, o dinheiro apertou e ela foi trabalhar enquanto designer numa orquestra. Como hobby, Luiza pratica tecidos acrobáticos. Milena também teve seu momento de começar novos trabalhos na pandemia por conta de estar sem perspectivas, foi quando fundou uma marca de sabonetes naturais. Hoje em dia, vende apenas aos mais próximos. Foi durante o ano de 2018 que se conheceram, quando Milena chegou na companhia de teatro que a Lu fazia parte. De início elas se tornaram muito amigas, se davam bem em cena e sempre queriam contracenar juntas. Acreditam numa sintonia muito grande porque sempre “jogavam” bem juntas, desde cenas de improviso, até cenas já marcadas. E assim foram criando suas amizades. Ambas tinham seus relacionamentos - e ambos relacionamentos tinham seus momentos bons e ruins. Durante o carnaval, Milena abriu o relacionamento com a ex-companheira dela, e na quarta-feira de cinzas durante uma festa a ex-companheira da Luiza comentou sobre Milena e a Luiza fazerem um casal bonito. Na hora, as duas acharam isso estranhíssimo. Nunca tinham se visto com outro olhar, sempre foram só amigas e não deram muita bola. No decorrer da festa se beijaram, mas também acharam estranho. Nunca haviam se olhado enquanto paixão ou de um jeito com segundas intenções e só ficou um clima estranho. Como a festa estava sendo em casa, a Milena saiu e foi fazer coisas de casa, ignorando as pessoas que estavam ali, e na hora da Luiza ir embora foi se despedir. Naquele momento, eram só as duas, e aí elas se beijaram novamente. Naquele ano em diante trabalharam juntas fingindo que nada tinha acontecido e seguindo seus relacionamentos. Saiam, bebiam e até de vez em quando trocavam olhares ou algum carinho, mas nunca chegavam tão perto e no dia seguinte fingiam que nada tinha acontecido. Ambas viviam processos de separação, conversavam bastante quando se encontravam, mas era confuso o que sentiam. Foi quando Lu precisou viajar e antes decidiu conversar com Milena sobre tudo o que estava sentindo. Marcaram na praia (inclusive, a praia que fizemos as fotos) e quando chegou lá recebeu a notícia da Milena: “Vou casar. Você vai se separar. Isso não tem nada pra dar certo.” e nesse ponto concordaram, beleza. Mas concordaram também que sentiam alguma coisa uma pela outra, né?! Só que não iria dar certo, então entraram num acordo que era isso, que teriam que engolir esse sentimento e seguir a vida. Foram para um bar, tomaram uma cerveja e depois, quando precisaram ir embora, chegaram no ponto de ônibus e a Luiza perguntou se elas não iam dar um beijo só. Milena indignada disse “Você não ouviu NADA do que falamos até agora né????” porque acordo é acordo. Deram um abraço e foram embora. Com o tempo, seguiram se encontrando no trabalho, saindo, vivendo como viviam. As coisas não mudaram muito. Até um dia que se beijaram e chamam de “Beijo consciente”, visto que já tinham consciência do que poderia acontecer, tinham conversado e sabiam do que sentiam. A conversa desde aquele dia na praia também deixou claro que elas se gostavam, e daí foi o caminho de entender o sentimento, finalizar os outros laços e trabalharem esse processo interno para darem o beijo consciente. Antes do “Beijo consciente” Luiza conta o quanto a Milena terminava com ela diariamente. Ela falava “Lu, a gente não pode se falar mais.” E depois de uma hora falava “Esse silêncio tá fazendo sentido pra você?” risos. Era uma confusão. Mas uma confusão que precisavam viver também. Viveram muitos momentos de instabilidade referentes não só a relação das duas, mas os términos dos outros relacionamentos, questões familiares… estava tudo misturado. Em agosto daquele mesmo ano começaram a namorar, quando já tinham saído de suas antigas relações. Durante a pandemia ficaram na casa de uma/da outra, com suas mães… e em fevereiro de 2021 elas se casaram. Foram alugar uma kitnet, da qual visitaram iluminando com a lanterna do celular, vendo baratas no chão, tudo super estranho, mas falaram: é aqui! Juntaram o que conseguiram, compraram o que deu para comprar, construíram o espaço e adotaram a Tapi, uma vira-lata já na fase adulta. Para a Luiza, a única coisa capaz de mudar o mundo é o amor - e junto dele está o respeito, a liberdade. Na relação com a Milena consegue enxergar o quanto elas se amam e querem se ver crescendo juntas. Hoje em dia estão conversando sobre engravidar, construir uma família, ver o amor crescendo no lar e gerando coisas, ver a entrega que as duas podem ter gerando coisas para além delas. Desejam, também, ter uma base de amor. Hoje em dia enxergam a casa enquanto a base, um lugar seguro para serem quem são. Têm segurança de que são amadas. Pensam em gerar e educar porque desejam uma cidade que estejam representadas, que seja educada e que também eduque os homens. Falam sobre o quanto é cansativo ouvir coisas dos homens o tempo todo na rua e o quanto também se sentem muito menos seguras ao redor dos homens. Comentam que foram no Festival de Verão de Salvador (um dia antes de nos encontrarmos) e estavam rodeadas de LGBTs e o quanto se sentiram seguras, o quanto isso foi representativo. Desejam uma cidade que não seja violenta. ↓ rolar para baixo ↓ Luiza Milena
- Ana e Paula
Conheci a Paula e a Ana num almoço muito agradável e acolhedor que elas fizeram para me receber na casa recém mudada, no ano passado, em Porto Alegre. Lá também conheci o João, criança que me encantou desde o primeiro momento e que faz despertar muitas risadas de todas as pessoas que estão por perto. O João é filho da Paula com a ex-companheira dela, mas que agora também forma uma família entre a Paula e a Ana, já que eles se divertem juntos e adoram estar um na vida do outro. Na casa-meio sítio, o João adora colher bergamotas, brincar com seu cãozinho Bidu, acompanhar a Paula e a Ana na cozinha, assistir documentários de bichos e comer doces. Na relação delas, tudo envolve muito cuidado. A Paula explica isso com uma reflexão sobre alguns padrões de gênero acerca das imposições que as mulheres passam durante a vida, e que agora, num relacionamento homoafetivo, tratam tudo de forma colaborativa e com muito acolhimento, para que as coisas sejam mais leves no cotidiano - e que assim, elas sejam mais felizes também. A casa estava recém tendo as coisas retiradas das caixas, mas já contava com muita confiança no que elas estão dispostas a construir juntas: o amor. A Paula tem 34 anos, trabalha como gestora de TI, desenvolvedora, artista visual e designer. Já a Ana, tem 35 anos, estudou Medicina Veterinária, mas não chegou a se formar. Passou a trabalhar na área da comunicação com mídia social, produção de eventos e produção cultural. Durante essa trajetória, já residiu em coletivos urbanos e rurais em Goiás, trabalhando nestes espaços, e também já trabalhou com algumas terapias integrativas, como massagem e Reiki. Atualmente trabalha com Comunicação Social, ministrando alguns cursos, fazendo campanhas de sindicatos e partidos políticos. Fez alguns trabalhos artísticos de literatura e pintura, principalmente poesia, coisa que gosta muito de trabalhar. Elas se conheceram no Vila Flores, um centro cultural muito interessante em Porto Alegre, no ano de 2018. O evento se chamava Conexões Globais e a Paula estava se apresentando no coletivo de arte que faz parte. A conexão entre as duas aconteceu porque elas têm uma amiga em comum (que trabalha no mesmo coletivo com Paula). Ana foi prestigiar essa amiga, se encantou com a Paula e depois da apresentação quis saber mais sobre quem era essa “moça que estava se apresentando”. Nisso, a amiga explicou que a Paula era casada e que tinha até um filho, bebê, o que deixou a Ana um pouco chateada mas que super entendeu. Com o passar do tempo, Ana foi morar em Goiás para residir e trabalhar em comunidades rurais e quando retornou ao Rio Grande do Sul, trabalhou em uma comunidade urbana no centro de Porto Alegre. Neste período, um dos seus colegas de morada ia embora, mas indicou uma pessoa para ficar no lugar dele: a amiga recém separada que tinha um filho pequeno. Ana conta que os amigos diziam que a moça que iria morar lá já tinha frequentado o espaço algumas vezes, mas ela não conseguia lembrar quem era. Até que na semana seguinte chegou a Paula, para fazer uma visita na casa. A reação da Ana foi estar incrédula por ser a mesma Paula de anos atrás… Mas focava em uma regra que mantinha consigo mesma sobre não se envolver com ninguém que dividisse uma casa, pois isso poderia gerar conflitos no lar. De qualquer forma, tem coisas que não há como querer controlar, né?! A Paula brinca que quando a Ana passou por ela, parecia um gato se esfregando, pois estava muito próxima (mesmo tendo bastante espaço no ambiente que estavam). Na hora ela achou engraçado, não percebeu de cara que era um flerte. Por fim, elas não conversaram muito e de última hora a mudança não aconteceu: o amigo cancelou a saída e precisou se manter na casa, não abrindo lugar para a Paula se mudar. Elas não se tinham nas redes sociais e acabaram perdendo contato novamente. No começo da pandemia, em 2020, elas se encontraram num aplicativo de relacionamento (o já famoso por aqui, Tinder). Elas conversaram e, depois de um tempo, se encontraram para tomar um vinho. Brincam que desde então não se desgrudaram mais. Nesse período, em virtude da pandemia e das dificuldades de morar em grupo, Ana se mudou para um apartamento com uma amiga e o filho dela e a Paula seguiu morando no mesmo local em que estava com seu filho. Isso fez com que elas se sentissem mais seguras de se encontrar também - e de compartilhar várias coisas sobre as crianças no dia a dia. Após dois meses de relacionamento, a Paula convidou Ana para almoçar junto com ela e o João. Foi um dia super importante, Ana conta como ficou nervosa, mas que fluiu tudo de modo muito tranquilo - João e ela brincaram e rapidamente ele demonstrou afeto e inclusive quis almoçar sentado no colo dela. Aos poucos Ana foi sendo inserida na rotina da casa e da família. João também foi entendendo essa presença, perguntando sobre ela. Quando passaram por uma mudança ele perguntou onde seria o quarto dela e quando ela não estava ele questionava por qual motivo/o que ela estava fazendo. Num dia, Paula perguntou para o João se ele gostava de estar só os dois e ele afirmou que sim, e quanto questionado sobre o que pensava da Ana, disse que era mais legal quando a Ana estava junto. Isso foi como um divisor de águas para elas entenderem o processo dele na adaptação. Ana conta que não era uma ideia fácil inicialmente se relacionar com alguém que tivesse filhos, mas que por viver essa paixão com a Paula quis realmente abraçar toda a vida dela. Paula complementa relembrando um dia em que foi difícil lidar com o João, então ela chegou a pensar que a Ana iria desistir, mas que isso não passou pela cabeça da Ana. É muito legal ver a educação dele se desenvolvendo, a participação dela nisso, os limites colocados e toda a relação sendo construída com base no amor. Elas se emocionam contando a primeira vez em que ele disse que amava a Ana e sobre o quanto viraram parceiros-cúmplices do dia a dia, fazendo o que gostam e ele também trazendo muitos ensinamentos para Ana - que passou a participar de grupos de madrastas lésbicas e a seguir redes sociais sobre parentalidade também, pois não queria criar um território de disputa com as mães ou o pai. Destaca o quão sempre foi importante para ela poder ser uma figura de referência e afeto, mas sem competições, disputas ou invasões de espaços. Ana traz também sua reflexão sobre os aspectos sociais do seu lugar enquanto madrasta e das pré concepções e preconceitos existentes acerca desse papel na família a fim de abraçar esse universo com todas as ferramentas possíveis. Fala sobre o amor ser onde nos sentimos seguros para ser quem somos, e nesse cenário de família tradicional brasileira que elas são, elas querem ser de verdade e amar de verdade, sem medo. Ambas concordam que não é uma receita de bolo e que amar e construir a relação que constróem envolve se desafiar todos os dias. Paula reflete também sobre a concepção de construção familiar não ser feita para contemplar o amor e sim o poder - traz que para poder registrar o João tiveram que defender a família que ele tem, afirmando que o que importa é o amor, na concepção de que ele tá sendo privilegiado por ser amado por mais pessoas. Enquanto o “medo” alegado pela Justiça, era de que ele seria maltratado por ter uma família diferente do padrão esperado, ao invés de ser entendido como alguém de sorte por ter duas mães, agora uma madrasta e um pai. É muito injusto ter que se justificar para que o ciclo de amor em volta de uma criança seja criado, mas é incrível ver a forma que elas se firmam nesse relacionamento para que as trocas entre as duas (e o João) sejam as mais bonitas possíveis durante o trajeto. ♥ Paula Ana Carolina
- Thay e Camila
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Thay e Camila, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Thayanne e Camila vieram de lugares bem distantes, mas se encontraram em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, em 2017, entre aplicativos, amigos, universidade e gostos em comum. Thay é de Barbacena, Minas Gerais, mas se mudou para o Rio de Janeiro com a família que foi para Cabo Frio quando ela era mais nova. Na faculdade, passou para a UFF (Universidade Federal Fluminense) e se mudou para Niterói. Cami é de Salvador, chegou até Niterói também por conta da faculdade (que também era na UFF) e passou oito anos morando lá. Hoje em dia, ela e a Thay moram no Rio, num apartamento que comemoram juntas terem conquistado depois de tanto tempo que passaram entre repúblicas e casas compartilhadas com amigos. Foi por conta de um aplicativo de relacionamento que elas se conheceram, mas quando deram ‘match’ resolveram, nas suas palavras, “brincar de rebuceteio”: abriram o Instagram e foram ver os amigos e amigas que tinham em comum. Nem imaginavam quanta coisa teriam em comum, na verdade: a Thay estudou no Ensino Médio com um dos melhores amigos da Cami, ela também conhecia e frequentava casas de outros amigos em comum e assim foram descobrindo que conheciam as mesmas pessoas, as mesmas histórias e os mesmos eventos, mas nunca se encontravam nos espaços. Sem contar nos gostos para as coisas, que eram muito parecidos, mas que também nunca tinham se cruzado até então. Nessa época que se encontraram, em 2017, a Cami ainda estava saindo de um relacionamento aberto do qual não se sentia confortável e era um desafio viver um novo relacionamento com alguém. Elas brincam que o verdadeiro incentivo por trás do namoro acontecer foi o fato de que começaram a pegar a barca Rio x Niterói todos os dias juntas, quando ambas conseguiram trabalhos na capital. Como iam e voltavam no mesmo horário, se ver diariamente foi um empurrãozinho ao romance ser criado. Viviam momentos muito difíceis também em relação aos perrengues financeiros. Ambas moravam em repúblicas e tinham pouco dinheiro para se manter. No primeiro encontro, por exemplo, beberam literalmente um chopp porque era o que poderiam pagar. Passavam por várias crises e sentem que foi um encontro que só falaram sobre problemas, mas que mesmo assim se deram muito bem, porque se sentiram em um espaço seguro para compartilhar as coisas. Tudo virou logo no início do namoro, quando elas conseguiram um emprego. Foi uma grande felicidade, um momento muito eufórico - e não, não era só porque com o emprego elas passaram a se encontrar todos os dias nas barcas. Com um salário elas poderiam começar a fazer coisas juntas, mesmo que sobrasse muito pouco, elas aproveitavam cada centavo: foram em vários museus, passearam em todos os lugares gratuitos possíveis, tomavam mesmo que fosse apenas uma cerveja, mas se divertiam muito. Com o tempo, passaram a ficar escondidas na república uma da outra, porque pelas regras não podiam receber visitas - porém, contudo, entretanto (!!!) a regra dizia visitas masculinas, então elas não estavam tão contra assim. Aos poucos entenderam que não valia a pena continuarem gastando cada uma em sua república e que seria mais fácil morarem juntas dividindo apartamento com outras amigas, foi assim que se mudaram para um novo lugar. Depois, o desejo virou outro: morar numa casa com janelas, que entrasse sol, que tivessem espaço (mais de um cômodo) e que pudessem se sentir em casa realmente. Isso aconteceu recentemente, agora, na casa do Rio, e elas não poderiam estar mais felizes. Decoram tudo juntas, aproveitam a cidade e o ambiente ao redor. Inclusive, estão noivas! Ficaram noivas durante a pandemia, quando entenderam que mesmo que estivesse tudo errado ao redor, o relacionamento era uma fonte de felicidade muito grande e dentro desse lar constróem mais um pedacinho do relacionamento. É como se um novo momento de euforia estivesse acontecendo. O momento de euforia é reflexo do quanto cresceram juntas. Amadureceram, viram suas vidas mudar profissionalmente. Agora, estão conseguindo construir planos verdadeiros pela primeira vez, entendendo o que querem se tornar. Já passaram por muitas vivências juntas desde 2017 até hoje: apresentar a ambas as famílias uma namorada pela primeira vez, até conquistar pequenas e grandes coisas que sempre sonharam. Ainda querem, dentro dessas mudanças, viver as coisas de forma saudável. Falam sobre suas relações com seus empregos e com a cidade em que vivem. A Cami, que no momento está com 26 anos, trabalha com consultoria estratégica e deseja ser feliz para além do trabalho, ter uma relação boa com seu ambiente e com a sua rotina, mas não depender dele por completo. Ela também deseja ser mais ouvida e ser mais considerada enquanto mulher numa sociedade. Já a Thay fala sobre como tenta diariamente transformar a sua rotina na relação mais saudável possível para que as 8h diárias que passa trabalhando na empresa não seja algo que ultrapasse o limite do próprio corpo. Ela comenta que hoje vivemos um momento de desigualdade e de pessoas que demonstram ser pró desigualdade - as pessoas falam o que pensam ser vergonha alguma - e ela gostaria muito de ver as coisas mudarem, ver a vida com mais esperança. Tanto a Thay, quanto a Cami, são muito ligadas à família e acreditam que nessa base aprendem os ensinamentos do que é o amor. Thay conta que remete amor à relação que os pais dela possuem, pois são pessoas simples, trabalhadoras e com eles aprende muito sobre a vida. Para ela, também, o amor envolve carinho e cuidado. Já a relação com a Cami mostra pura leveza, mesmo nos momentos difíceis foi leve e prezando pela liberdade de cada uma. Cami traz o exemplo do amor desde momentos corriqueiros, como a avó contando sempre as mesma história, às memórias afetivas que sente quando está em casa, a família que recebeu a Thay tão bem quando ela visitou Salvador e também o que aprendeu com a mãe, sobre sempre deixar uma marca boa pelas pessoas com quem ela cruza: uma felicidade/fazer algum bem - assim é uma forma de amar também. Dentro da relação ela entende junto com a Thay que ninguém é feliz sozinho e que juntas elas conseguem muito mais, por isso, estão sempre rodeadas de afeto e deixando também afetos por onde passam. Camila Thayanne
- Brenda e Jhéssica
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Brenda e da Jhéssica, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Se conheceram pelos seus gostos em comuns, mas dessa vez, musicais: são fãs de Fifth Harmony, uma girl band estadunidense. Se conheceram na Quinta da Boa Vista, um parque na região central do Rio, em um encontro de fãs. Jhéssica descobriu o evento através do Twitter e uma amiga a convidou para ir, foi um bate volta do interior pra cá. Brenda decidiu ir ao evento também, com suas outras amigas. Quando chegou no evento viu a Jhéssica e logo se interessou, tentou puxar assunto, ou, como ela mesmo diz, uma péssima cantada. Trocaram seus números de Whatsapp e na hora de ir embora brincou com uma das amigas: “se ela quiser eu vou para o interior, fácil fácil”. Na época, Jhéssica namorava, então ela e Brenda eram apenas amigas. Foram em outros encontros de fãs juntas e a Brenda chegou a ir até Três Rios para um aniversário de amigas em comum. Um tempo depois, Jhéssica terminou o namoro e elas se encontraram novamente, dessa vez no Rio. Era uma festa num sítio, então sentaram, viram as estrelas e acabaram se beijando. O tempo passou e mais uma vez vieram à Quinta da Boa vista, depois a Brenda passou o carnaval em Três Rios, mas a Jhéssica se sentia muito confusa ainda, um tempo depois, acabou voltando com a sua ex. Brenda ficou muito chateada e desesperançosa de que qualquer coisa pudesse voltar a dar certo. Por mais que o relacionamento da Jhéssica estivesse passando por um momento sanfona, entre idas e vindas, achou melhor esperar. A Jhéssica, por outro lado, não estava conseguindo entender tudo o que acontecia, mas de uma coisa tinha certeza: realmente gostava da Brenda. Várias amigas apoiavam elas enquanto casal, o tempo foi passando e decidiram dar um basta: se declararam. Assumir um relacionamento à distância não foi muito fácil, principalmente por ambas trabalharem e estudarem. É uma rotina bastante corrida, o tempo que sobra para ficarem juntas acaba sendo pouco - e a passagem acaba sendo cara. A pandemia, por mais que com diversas incertezas e dificuldades, fez com que pudessem trabalhar em formato home office e conseguiram passar mais tempo juntas em casa. Brenda e Jhéssica são duas mulheres incríveis. Brenda é de Nova Iguaçu, cidade da baixada fluminense. Jhéssica é de Três Rios, interior do Rio. Elas comentaram que se pudessem, fariam de tudo para trazer a cidade mais pra perto da gente. Termos projetos que quebrem o preconceito, que eduquem e tornem as mentes mais abertas. Não acreditam que as pessoas mais velhas não possam aprender modelos novos sobre respeito e convivência social, bem pelo contrário, falam sobre a avó da Brenda, que tem 85 anos e uma mentalidade muito desenvolvida para aceitar as pessoas como elas são. Jhé comentou também sobre as cidades interioranas não terem tanto foco, tanta abertura para falar sobre diversidade. Brenda tem 24 anos e é jornalista, Jhéssica tem 23, é estudante de direito e apaixonada por jogos, adora streamings e descobrir partes técnicas de montagem de computadores (inclusive, têm montado alguns). Elas são muito grudadas em suas famílias, amam testar receitas culinárias que encontram na internet e depois fazerem para os familiares experimentarem. Brenda é muito grudada na avó, por ser uma mulher que veio do Maranhão e ter uma história de muita bravura. Jhé tem como inspiração a mãe dela, que engravidou muito jovem, aos 15 e que sempre a defendeu e mostrou que ela pode ser o que quiser ser. Elas têm uma relação muito tranquila e cheia de companheirismo. Amam sentar, beber cerveja e ouvir Fifth Harmony. Agora, no fim da graduação, tiveram um momento mais difícil por conta da entrega de TCC e das responsabilidades, mas foi importante para também entenderem o quanto se apoiam e fortalecerem a relação. Brenda acredita que o amor é compartilhar coisas na vida e apoiar independente da situação que estiver, ou melhor, amar por quem a pessoa é. A Jhéssica acha q o amor tem que ser leve, não ser levado como obrigação. E que ele pode acontecer de muitas formas, inclusive à distância, como é o caso delas. Brenda Jhéssica
- Maíra e Eduarda
Assim como os momentos delas serem leves, a família também aprendeu a lidar de uma forma legal com o relacionamento delas. Foi criado até um grupo no whatsapp com elas e as mães e a foto do plano de fundo do celular do pai são as duas juntas. Entretanto, não foi tão fácil no início. A Duda resolveu se assumir, num ato de coragem, durante o segundo turno das eleições de 2018. Estava vendo a grandiosidade do retrocesso na eleição do então presidente foraBolsonaro e entendeu que não cabia mais espaço para se esconder. Foi um período que a violência e os discursos de ódio estavam batendo recorde, então se tornou muito significativo e importante se reafirmar e resistir, mesmo com nossa sensibilidade muito fragilizada somada ao processo de "saída do armário". Hoje em dia, Duda conta que se inspira demais na mãe e fica feliz de ver as famílias unidas. Quando pergunto sobre onde elas encontram o amor e o que elas pensam sobre, dizem que amor está envolvido com a liberdade porque amar é respeitar e permitir ser livre. E amar outra mulher é se identificar, principalmente por entender que a outra passa pelo mesmo que você. A Duda e a Maíra se conheceram na universidade, em 2016. Foi durante a ocupação da UFRGS, que pedia melhorias no sistema de ensino, que elas ficaram amigas e que fizeram um grupo de mulheres lésbicas e bissexuais que participavam da ocupação, onde todas viraram amigas e mantém contato até hoje - inclusive, tatuaram o número da sala que dormiram durante a ocupação, por ter tanto significado nesse grupo. O primeiro beijo entre as duas rolou na ocupação mesmo, mas não virou algo sério em seguida, demorou um tempo... até que (por coincidência) uma foi morar próximo da outra e passaram a se encontrar com frequência. Decidiram tentar algo e foram, cada vez mais, se apaixonando. A relação delas é composta por uma convivência muito leve. Possuem bastante abertura para falar sobre tudo e contar com o apoio mútuo. As duas têm diversas tatuagens juntas, de divertidas à frases significativas e as histórias sempre remetem à: estávamos bêbadas e tivemos a ideia de tatuar isso, no fim, amamos. A Duda tem 22 anos e é natural de Progresso, uma cidade bem pequena no interior do Rio Grande do Sul, além de ter morado boa parte da vida em Lajeado, também no interior. No fim do ensino médio, passou no vestibular e se mudou para Porto Alegre. Cursou história e hoje em dia faz mestrado enquanto trabalha como Analista de Relacionamento em uma startup, a TAG. A Maíra tem 23 anos, é natural de Porto Alegre, está se formando em ciências sociais e em busca de um emprego atualmente (mandem jobs! tem alguma vaga para indicar? clica aqui! ). Ela adora assistir o jogo do Inter, ler, caminhar por aí e cozinhar. Cozinhar, inclusive, é o que elas mais amam fazer juntas. Além disso, brincam que estão sempre sendo taxadas como "pessoas que não param quietas". Gostam de caminhar pelo bairro, de viajar, de ir em trilhas, cachoeiras... de ver gente e de ver mato. Elas já participaram de diversos projetos envolvendo uma certa militância também, como o Lésbicas que Pesquisam (um espaço de visibilidade à presença lésbica na academia) e o Pedal Pela Memória (passeios ciclísticos que envolvem contar a história da cidade de Porto Alegre). Logo que cheguei no apartamento da Duda e da Maíra vi que o nome do prédio era 'Maíra' e brinquei "já entendi porque vocês escolheram morar aqui". Então, desde o começo, subindo as escadas, fui ouvindo o quanto elas terem se mudado para o novo apartamento foi tão importante. Antes de chegarem aqui, a Duda dividia apartamento com umas amigas. Era legal, mas a relação delas não era a mesma coisa, sempre sonhavam em ter um cantinho só delas. A Duda decidiu procurar um apartamento num bairro vizinho, mais calmo, na zona central de Porto Alegre. A pandemia foi como um "test drive" para a Maíra passar um tempo nessa nova casa e elas entenderem se conseguiriam viver juntas assim. Aos poucos foram decorando como gostam, colocando a carinha nas estantes, na sala, na cozinha... Têm sido muito bom e dado muito certo. Hoje em dia elas tiram momentos no dia para conversar sobre assuntos aleatorios e trabalham dentro de casa. Comentam que sair da Cidade Baixa, o bairro mais movimentado (e por consequência violento) e ter se mudado para o Bom Fim ressignificou até a forma que olhavam a cidade. Sentiam muito medo e planejavam sair do estado antes de encontrarem esse apartamento, agora, sentem que tem conforto para colocar os planos de mudanças mais para frente e ir planejando com calma. Eduarda Maíra
- Marilia e Luana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marilia e Luana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Marília e Luana se encontram através das coisas que acreditam. Dentre tudo o que conversamos, o principal, talvez seja a forma que enxergam as pessoas. Poderia ser o trabalho - porque trabalham com o corpo - poderia ser o hobbie no skate ou até mesmo a família que construíram unindo suas famílias, mas no fim, toda a nossa conversa se resumiu em incentivar, de alguma forma, quem está ao nosso redor. Marília tem 34 anos, é do Rio de Janeiro e se formou em Educação Física. Atua enquanto professora de lutas e jiu-jitsu, dando aulas em escolas, academias e também em programas sociais. Ela circula por diversas áreas da cidade, da zona sul à zona norte, e gosta de debater sobre as diversas realidades. Durante a nossa conversa, disse que “O problema não é ser playboy, o problema é ser playboy otário. Não ter noção do que acontece fora da bolha da zona sul, não circular em outros lugares, não sair da realidade. É ótimo estar no conforto, mas é preciso estar sempre ajudando quando se têm pra ajudar” e é por isso que na posição dela de professora, faz de tudo para levar os alunos até outras escolas menos favorecidas e circular entre espaços, para que todos conheçam novas realidades. Marília é uma mulher que vive de luta e da luta, conheceu a luta através da escola pública e por conta disso faz questão de sempre voltar aos espaços sociais dando aulas gratuitas para mulheres e LGBTs de defesa pessoal, por exemplo, para incentivar mais pessoas. Luana tem 30 anos e é natural de Nova Iguaçu, baixada fluminense. Formou-se em turismo e também em dança e hoje dá aula para três segmentos - crianças (com ballet, por exemplo), mulheres (aula de ritmos, fit e powerdance) e coreografias para eventos (casamentos, bodas etc), atuando em Nova Iguaçu. Antes ela via a dança como um hobbie, porque junto da música a dança sempre esteve na sua vida; Mas entendeu que era diferente, a música está lá pela família dela ser composta de musicistas, ela adora cantar, mas nunca se viu na música enquanto cantora ou tocando instrumentos… já a dança, fazia parte do que ela era diariamente. Quando ela entendeu que isso não era um hobbie, a vida melhorou muito. Ambas são completamente apaixonadas pelo o que fazem e isso fica cada vez mais claro quando contam casos que aconteceram com alunas que tiveram por perto ou coisas que vivenciaram. A Marília, por exemplo, cita uma aula de defesa pessoal que deu para idosas no SESC de Madureira. Já a Luana, logo em seguida, engata no assunto sobre a forma que a mulher se enxerga diferente depois, “né?”, e que a dança também tem esse poder, não é só por uma questão de estética por exemplo, é uma autoestima para além do físico, que agrega à vida. Marília também contou sobre uma aluna específica, a primeira aluna que teve, uma mulher que ela formou desde o princípio e que acompanhou até virar faixa preta. Viu ela sair de um relacionamento abusivo, viu ela passar por vários momentos com seus filhos, foi muita história de vida acontecendo ali… e que incrível foi acompanhar tudo. Contou como é bom quando mulheres se impulsionam. Que a Luana teve um papel assim na vida dela também, quando recentemente ajudou a irmã dela a enfrentar desafios com o próprio corpo e que agora elas percebem a irmã se amando mais, estando mais disposta e que ela também se vê admirando ainda mais a Luana. Mesmo que elas se entendam enquanto pessoas bastante diferentes, se dão muitas chances de encontros pelo o que possuem em comum, principalmente no momento de propor coisas boas às outras pessoas. Nesses momentos, já se organizaram em abrigos do qual uma deu aula de dança e a outra deu aula de luta, a Marília já incentivou a Luana a trabalhar com crianças (ela topou e se apaixonou!)... e assim, elas ficam cada vez mais felizes em ver o quanto o relacionamento traz coisas tão boas às relações em volta delas. Luana não conhecia muitas mulheres no meio lésbico e foi seguindo um bloco de carnaval no Instagram, o Rebu, que ela viu a foto da Marília (cujo era musa do bloco) e, encantada pelo sorriso, procurou o perfil e resolveu segui-la. Marília seguiu de volta e elas começaram a interagir nos stories quando a pandemia começou. Foi num dia que Luana estava triste, por conta de um ocorrido por homofobia que sofrera em casa com o pai, que sentiu que precisava conversar com uma pessoa diferente dos amigos de sempre. Viu a Marília nas redes e cismou com ela, disse que ela passava certa confiança e então puxou um assunto. Foi pelo Instagram mesmo que elas conversaram e lá a Luana desabafou sobre o que estava sentindo naquele dia. A Marília conta que acolheu, mas que ao mesmo tempo pensava que era doido analisar/discutir sobre a homofobia familiar, porque no caso dela, é longe da realidade. Toda a família dela/das amigas lésbicas e bissexuais ao redor aceita e abraça o que elas são. Mas mesmo assim ela ficou ali do lado, conversou e no dia seguinte a Luana acordou se sentindo melhor. A Marília pensou: "Puts, cai na friendzone! Não vai mais rolar nada entre a gente!”, mas a Luana não cogitou isso. Elas começaram a conversar todos os dias. Naquela época, tudo ainda estava acontecendo pelas “lives” e chamadas de vídeo, mas a Marília não tinha se adaptado à isso e num dia específico tudo tinha dado errado: as aulas, as chamadas do Zoom, tudo tinha saído do ar e o que ela já não se adaptava estava pior. Foi quando ela falou pra Luana diretamente algo como: ‘estou afim de você, mesmo estando à distância, ok?’ e a Luana respondeu ‘ok, também tô’ e então ela pensou consigo mesmo ‘ufa!’. Uns meses depois, quando foi possível, elas conseguiram se encontrar pessoalmente. ♥ Depois do encontro, foram deixando tudo rolar e fazendo as realidades se encaixarem também, já que uma era mais caseira, outra era mais de eventos e de estar sempre na rua. O principal objetivo era não invadir privacidades ou atropelar coisas, mas sim deixar o tempo fluir tranquilamente. Isso não quer dizer que seja pleno o tempo todo, é claro, mas que elas escolheram fazer o encontro acontecer. A família da Luana é enorme e super acolheu a Marília como namorada. Até mesmo o avô, de 93 anos. Toda a família foi muito receptiva e a Marília conta como ter uma nova família, grandona, é muito legal pra ela. A questão do pai ser a única pessoa que elas não possuem contato é muito ressignificada, elas se acolhem por isso, não julgam, entendem que é uma escolha que ele (enquanto uma pessoa adulta) fez e tentam ao máximo levar outras coisas em consideração. Aproveitam o que há ao redor e todos os outros familiares. Marília reitera que fomos criadas num ambiente heteronormativo, achando que o homem manda e a mulher obedece, então é normal titubearmos de vez em quando porque estamos o tempo todo nos reeducando. Estamos em busca de nos libertarmos disso, de sermos donas dos nossos destinos. A relação delas se baseia numa questão de confiança uma da outra, e de ir aprendendo como isso funciona diariamente, também. Entre os momentos favoritos que elas possuem juntas, andar de long está entre os primeiros. Foi a Marília quem ensinou a Luana a andar e, no aniversário dela, a presenteou com um long. Nos momentos que estão andando juntas, Marília diz que amar é ver o outro feliz também e Luana completa que é uma construção, que exige respeito e paciência, para estar sempre se cuidando. Quando Marília conta sobre situações em que sentiu o amor, ela lembra de um momento que envolveu a irmã dela. Nesse dia ela sentiu tudo o que o amor propõe: temeu, mas cuidou. Elas estavam fazendo uma trilha (as três) e numa parte da trilha havia uma pedra que precisavam ultrapassar. Tanto a Marília quanto a Luana já haviam ultrapassado e faltava a irmã, mas ela estava com bastante medo e realmente era perigoso, não era fácil, num momento ela chorou, a Marília ficou com medo, mas a encorajou. A Luana pediu cuidado e muita calma, mas não parava de incentivar. Era um desafio para todas elas ali e nenhuma delas largou, desistiu ou achou que não fosse possível, por mais que o medo existisse… e quando ela passou, ela gritou, comemorou! Foi tanta felicidade! Ela fez aquilo ali. Realizou. Elas comemoraram juntas, torceram juntas. Aquele caminho ali, para elas, o processo, é um significado de amor entre as três. Marília fala que existem erros nos relacionamentos entre mulheres, até porque não há pessoas perfeitas, mas é muito bom saber que não estão num relacionamento que funciona como prisão. Numa existência de um relacionamento feminista, que entende o corpo enquanto um corpo com vontades, com postura, com verdades e pensamentos - um corpo que pensa e se comunica - isso sempre volta a ser o mais importante entre elas: querer fazer dar certo. Luana Marília
- Gabi e Gabriela | Documentadas
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT. Começo essa história dizendo que é muito difícil documentar duas pessoas com o mesmo nome, então para ser uma leitura mais fácil, vou identificá-las de forma diferente, ok? Gabriela e Gabi. Gabriela tem cabelos longos, um black cacheado. Ela estava com 27 anos no momento da documentação, estuda Letras na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (local em que fizemos as fotos), possui dois filhos (gêmeos) e ama livros, poesia, literatura… também ama dançar - algo que vê em comum com a Gabi - e andar de patins. É natural de Duque de Caxias, na baixada fluminense. Gabi tem cabelo curto, também cacheado. Ela é natural de Nilópolis, baixada fluminense. Estava com 31 anos no momento da documentação e trabalha como cinegrafista e editora de vídeo. Adora andar de skate e fala sobre ser uma mulher tranquila, “de boas”, não é uma pessoa que faz muitos planos, mas está sempre disposta a fazer algo. O hobbie pelo patins e pelo skate foi algo que aproximou bastante elas no começo. Antes mesmo de engatar o namoro, já se imaginavam andando juntas por aí. Gabriela tinha muito receio sobre como seria o namoro e a reação das crianças ao saber. Foi o primeiro relacionamento que viveu desde a separação, procurou páginas sobre madrastas e queria entender como seria. No fim, tudo foi de forma muito natural. Entende que as crianças são genuínas, ficam felizes ao receber amor e retribuem num sentimento puro. Foi assim, numa saída ao shopping, que se conheceram e adoraram a Gabi. Se sentiram confortáveis, o que fez elas entenderem que só os adultos enxergam problema no amor. Também acham incrível ter dois meninos em contato com uma relação tão bonita fazendo-os crescer longe de preconceitos. Gabi conta a maior parte da história e depois pergunta se era pra ser assim, eu rio e digo que pode ser, sim. E ela completa: “É que me empolgo muito falando de nós.” Em outubro de 2024, num aplicativo de relacionamento, conversaram pela primeira vez. Gabi estava desacreditada, achava que aplicativos serviam apenas para fazer amizade (e olhe lá!). Gabriela, por sua vez, demorava um pouco para responder (o que alimentou o sentimento de que não ia dar em nada). Achava que Gabi respondia muito seca e não alimentava tanto assim as conversas. Foi num momento, falando sobre as regiões onde moram, que Gabi analisou e disse “É muito longe!”, quando Gabriela respondeu: “Depende do ponto de vista”. A partir disso, o tom da conversa mudou. Gabi entendeu que Gabriela queria conhecê-la. Passaram alguns dias conversando online, até que Gabriela comentou que teria um horário vago na faculdade no dia seguinte e perguntou se Gabi não queria ir lá, passarem um momento juntas. Gabi pensou “Já?? Essa menina quer mesmo me conhecer??”, então pediu conselhos aos amigos e topou o encontro. Quando chegou, pensou que reconheceria ela pelo cabelo e quando viu ela chegando virou de costas para fingir surpresa. Decidiram almoçar num fast-food próximo, Gabriela teve seu lanche lotado de alface e ficou com vergonha de comer - isso vira piada até hoje. Riem lembrando e pontuando que no fim Gabi disse que não precisava ter vergonha e toda a situação acabou fazendo com que elas ficassem mais à vontade. Durante as conversas comentaram sobre relacionamentos que já tinham tido e sempre que a Gabriela falava dos seus, se referia à homens. Então Gabi pensou: “Essa menina é hétero, tudo bem, vamos ser só amigas”. Depois do primeiro encontro, que não rolou beijo, comentaram online que gostariam de ter se beijado e que seria ótimo se reencontrar. Foi quando Gabi convidou Gabriela para ir à Feira de Tradições Nordestinas, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, junto com suas amigas. Pensou: “Ou ela fica comigo, ou não vai me ver nunca mais - porque minhas amigas são doidas!”. Gabi dançou, se divertiu e Gabriela ficou mais quietinha. Tentaram se beijar, mas o nervosismo falou mais alto. O beijo aconteceu, finalmente, no fim da noite, madrugada adentro. Continuaram se encontrando e na virada do ano, estando em lugares diferentes, Gabi enviou um vídeo com vários momentos das duas, pedindo Gabriela em namoro. Ela aceitou. Entendem que mesmo sendo um relacionamento recente, já passaram por vários momentos importantes, inclusive o preconceito familiar sobre terem uma relação sendo duas mulheres. Gabriela vem de uma família cristã e em casa tem sua relação ignorada, não falam sobre. Ela explica que não deseja romper com sua família, afinal são unidos e suportes uns dos outros, então está priorizando entender o espaço e o tempo que as pessoas levam para processar. Ambas ficam tristes porque queriam estar se introduzindo mais na vida familiar, mas possuem a esperança de isso acontecer com o tempo. Por outro lado, Gabi apoia muito a maternidade da Gabriela, adora os momentos que vivem juntas com as crianças, andando de mãos dadas, por exemplo. Se alguém perguntar se Gabi está feliz, ela só sorri: está explícito. Entendem que um dos pontos altos da relação é a conversa. Se sentem muito bem juntas, brincam, riem, sentem que são parecidas e ao mesmo tempo diferentes. Nunca brigaram, mas já tiveram conversas bem difíceis e entendem a importância disso. A relação veio como algo muito novo para a Gabriela. Ela conta que sempre sentiu atração por mulheres, mas foi criada num lar que achava muito errado esse tipo de amor. Foi retraindo esse sentimento e só depois da sua separação chegou à conclusão de que muitas vivências são dela enquanto indivíduo, não precisa passar pelo o que a família ou a sociedade acha sobre. Decidiu ser cada vez mais fiel ao que ela realmente é. Não quer mais sentir rivalidades entre mulheres ou viver pensando no que um homem gostaria. Gabi, mesmo já tendo vivido outros relacionamentos com mulheres, sente que esse é o mais leve, com uma comunicação aberta que possibilita ela ser quem é sem medo. Não sente que está abandonando seu “eu” para ser o que os outros querem, ama a Gabriela da forma que ela é e entende que as duas ficam à vontade juntas. Acha muito bacana quando encontra o amor no dia a dia: fazendo uma comida esperando a Gabriela chegar, ou nos momentos juntas, com as crianças… Entende que por mais que isso seja o básico, muita gente não conhece esse tipo de cuidado, então sabem valorizar. Gabi sempre quis ser mãe de gêmeos, dois meninos, e entende que a relação é um presente do destino. Adora quando as crianças pedem pra ela ficar. Explica que existe e Gabriela e mais dois serzinhos nesse “combo”, três pessoas diferentes que ela ama e respeita. Gabriela fala sobre como é diferente sentir o preconceito racial e de gênero quando estão juntas na rua, sendo duas mulheres negras se amando. Cita um dia na praia, uma mulher encarando-as de ‘cara feia’, apenas por estarem juntas e felizes. Não entende porque esse amor incomoda tanto e também não vai mudar por conta dos olhares. Deseja - e tenta manter a esperança - de que um dia esse preconceito saia da sociedade, é por isso, também, que cria seus filhos de maneira diferente para que eles sejam símbolo de mudança. O racismo está sempre presente nos lugares de vivência e de trabalho, então Gabi completa sobre tudo ser mais simples quando se existe o respeito. Respeitar as conquistas, as escolhas. Não gosta de se sentir impotente diante às situações que vivem. Sente que precisa se esforçar muito mais para ser reconhecida no meio profissional, que não adianta ter um trabalho bom, precisa entregar um resultado melhor ainda que o esperado para quebrar o preconceito sobre quem ela é, como se veste, etc. Entendem que viver esse amor juntas é quebrar muitas questões sociais. Mesmo não sendo uma escolha, reconhecem que isso faz o amor que sentem ficar ainda mais forte e revolucionário. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Gabi
- Camilla e Karol | Documentadas
Amor de Calma e Maresia - Camilla e Karol clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Carol e Joyce | Documentadas
Amor de Propósito - Carol e Joyce clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Mari e Reylibis | Documentadas
Amor de Outros Lugares - Mariana e Reylibis clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Mel e Sophia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mel e da Sophia, quando o projeto passou por São Paulo! A história da Sofia e da Melissa é (para não dizer uma das mais especiais que já documentamos por aqui - visto que todas são especiais) uma das mais desejadas - sabe por que? Elas decidiram se tornar o que ouço muito ser sonho de vocês: um casal que largou tudo e comprou um sítio. Nos encontramos no ano passado, nesse novo lar delas, que estava cada vez mais sendo construído e amado. Com as plantas, os animais e as decorações. A Mel estava com 34 anos, ela é jornalista e escritora. Já a Sofia estava com 31, é editora de vídeos e por hobbie adora fazer tatuagens. Tudo começou quando elas moravam em São Paulo, na capital, e entenderam que não dava mais para viver sob tanto trabalho: precisavam dedicar a vida um pouco mais para si, viver para se divertir, não para trabalhar e trabalhar. Foi aí que venderam o apartamento e compraram uma casinha no interior de Campinas, numa região bastante afastada com uma vista bonita, bastante árvores e um rancho bonito, assim surgiu o @ranchosapatao. Morar em um sítio não quer dizer que elas deixaram de trabalhar ou que abdicaram de suas profissões. A Mel, por exemplo, já trabalhou em ONGs internacionais de proteção animal e foi jornalista de grandes revistas e hoje em dia está focando sua carreira no término do seu (ou melhor, seus?!) livro(s). Para quem está no mundo sapatônico há mais tempo, desde os blogs, talvez já deva ter esbarrado com o trabalho dela: ela escrevia um blog chamado Fucking Mia, que virará livro e está em revisão nesse momento pandêmico que vivemos. No rancho, parte da rotina também é dedicada ao cuidado e amor aos bichinhos de quatro patas - todos resgatados da rua. O Mantiqueira e o Juazeiro, dois cachorros super simpáticos, e o Maceió e o Quito, dois gatos maravilhosos ♥ A Sofia e a Mel entendem que a relação delas é baseada na parceria, porque costumam ser pessoas práticas em momentos de aperto ou perrengue e sempre dão um jeito juntas. Nos momentos realmente mais difíceis, entendem que não há o que não possa ser conversado e isso faz com que se compreendam muito bem - porque sempre tentam ao máximo se colocar uma no lugar da outra. Conversamos sobre o quanto esse posicionamento é importante no momento de conversa para que não haja injustiça, e elas complementam que é essencial, também, para que exista o respeito no limite individual de cada uma. Elas se conheceram em 2015, através de uma amiga em comum. Todas foram juntas em um bar em São Paulo e se viram pela primeira vez. A Sofia sorriu para a Melissa e logo ela pensou: “Nossa, pegaria essa menina!”. Depois, se adicionaram no Facebook e no Instagram. Ambas tinham relacionamentos, e seguiram sem interações pelas redes sociais. Um tempo depois, mesmo que a Mel sempre tivesse essa queda pela Sofia e não interagisse, foi a Sofia quem respondeu um ‘storie’ dela, dizendo: “É muita crush para um vídeo só.” Como no vídeo era a Mel e a cachorra dela, ela fez uma brincadeira perguntando quem era a crush que ela se referia, e a Sofia disse que eram as duas! Elas conversaram, trocaram ideia por um tempo e combinaram de sair para se conhecer melhor. O encontro finalmente aconteceu, lá em 2018. Marcaram numa terça-feira, se encontraram e logo no começo se beijaram. Brincam que desde esse beijo estão juntas, não teve como desgrudar. Na época, a Sofia estava em um relacionamento aberto e acabou terminando, porque entendia que o envolvimento com a Mel era maior do que poderia ter previsto. E tudo foi se desenvolvendo, caminhando. Elas dizem que se sentem em um encontro de almas, foi realmente intenso - e isso mudou suas rotinas, vontades e futuros. Fizeram tatuagens, viagens e novos planos. A Mel diz que quando conheceu a Sofia se expandiu enquanto pessoa e elas viraram o casal do “Vamos?” “Vamos!”. Hoje em dia, o apoio e o grude seguem muito presentes. Em dias mais difíceis, uma ajuda a outra, desde deixar o computador preparadinho para o trabalho, até fazer uma comida mais gostosa no fim do dia. O jeito que elas preparam a casa, os cuidados, as reformas… tudo é pensado em conjunto e para o bem-estar. “O que é uma mulher sem pensar na referência que temos ao homem?” - Sofia trouxe esse questionamento à conversa. O questionamento foi para pensarmos na mulher de forma pura, como um lugar nosso, de apoio, enaltecimento, ajuda, sem hierarquia e tantas outras culturas que acabamos herdando do patriarcado. Ela acredita que as relações entre mulheres dizem muito sobre o amor e sobre o coletivo. Para a Mel, é algo muito libertador e engrandecedor o processo de descobrir o amor por outra mulher. Amar outra mulher é uma grande revolução, é entender como não temos limites, como podemos ser tudo. Vai além de todos os padrões. Elas tentam estar sempre rodeadas de mulheres ao redor: nas amizades, nos trabalhos, no cotidiano. E dizem que as coisas vão realmente mudar quando tivermos mais mulheres em cargos de poder. Além disso, vão mudar também no momento em que as pessoas tiverem mais auto-suficiência e acesso ao conhecimento, escutando outras pessoas que sofreram por muito tempo, historicamente, para construirmos uma sociedade que não vá pelo mesmo caminho que estamos - que seja realmente construída com empatia. Sofia Melissa
- Nayara e Jamyle
Nayara brinca que ela é um gato preto, enquanto Jamyle é um golden retriever, mas que mesmo assim elas se entendem, se amam e se respeitam nos seus limites, adorando a companhia uma da outra. Cada uma tem seu tempo: Nay ama ficar com os gatos, jogando seus jogos, enquanto Jamy às vezes prefere sair, fazer outras coisas… e que está tudo bem assim. Cada uma possui a sua liberdade de estar onde quer e quando quer. Tanto Nay, quanto Jamyle, estavam com 30 anos no momento da documentação. Jamyle é professora de inglês, natural de Porto Alegre (RS) e adora jogar board games, principalmente Magic. Ensinou Nayara o hobbie e agora elas jogam bastante juntas. Nay, por sua vez, nasceu em Campo Grande (MS) e mora em Porto Alegre desde 2011. É formada em direito, com mestrado em ciências sociais e seu hobbie, além dos jogos, é a leitura. Moram juntas num apartamento próximo ao Jardim Botânico de Porto Alegre, lugar que adoram frequentar. Contam que logo quando foram morar juntas viveram o ano mais difícil da relação, pois a Nay perdeu o emprego e ficou muito desestabilizada. Não conseguia outros trabalhos, nem estudar e muito menos passar em concursos, o que só aumentava a desmotivação. Jamyle acabou segurando as pontas em casa, mas não foi fácil lidar com a situação e principalmente com a culpa que Nay sentia. Quase um ano depois, tudo se reestruturou. Ficam muito felizes em terem superado isso, sobrevivido e se apoiado. A partir disso, se veem diferentes em relação aos sonhos e ao dia a dia em si, são muito transparentes: se algo acontece de ruim, seja na rua, no trabalho ou se ouvem algo preconceituoso, logo compartilham uma com a outra para se apoiar e enfrentar a situação. Reforçam juntas o quanto são maiores que qualquer atitude de preconceito que venha de fora. Em 2016, Nay estava aproveitando a vida de solteira e o verão, até que começaram as aulas na faculdade de Direito e uma colega numa conversa despretensiosa perguntou como estava a vida amorosa dela. Respondeu que estava bem, tranquila, na época vivia uma amizade colorida e era só. No mesmo dia, mais tarde, a amiga mandou uma mensagem no Facebook. Jamyle, naquela mesma época, estava vivendo a vida de solteira após um relacionamento à distância que não tinha dado certo. Sempre procurava pessoas pela internet porque não se sentia tão à vontade pessoalmente; Entrou num grupo lésbicas no Facebook e encontrou pessoas de Porto Alegre. Entre elas, umas meninas que estudavam na PUC-RS e a convidaram para ir até lá passar o dia com elas. Quando chegou, uma delas - a amiga em comum com a Nay - disse que tinha uma colega do Direito que usava umas camisetas iguais às dela: “Toda geek” (sim, a Nay) e queria apresentar as duas. No mesmo dia teve a conversa com a Nay e mandou a mensagem no Facebook, passando o contato da Jamyle. Elas começaram a conversar, marcaram de se encontrar no dia seguinte na Casa de Cultura Mario Quintana, ponto bem conhecido da cidade. Lá conversaram muito, contaram várias coisas da vida e demoraram para se beijar. Até que num desafio, o beijo aconteceu. Contam que foi um momento único, se encaixaram e foi um dia muito significativo. Continuaram se encontrando, mas Nay estava bem receosa sobre ficarem juntas. Sua experiência com relacionamentos sempre durava no máximo 6 meses, nunca tinha se visto namorando de fato alguém, numa relação longa e duradoura. Então, aos poucos Jamyle foi conquistando, mostrando que isso era possível. Presenteou-a com um Batman que ela mesmo fez, de massinha, logo nas primeiras semanas de relação, e logo em seguida Nay apresentou ela para a família. Até que decidiram realmente começar o relacionamento, junto com outra troca de presentes, uma caixinha simbolizando a abertura do amor. A criação da Nayara foi bem diferente da Jamyle. Passou sua infância frequentando a igreja, até completar 18 anos, além disso, viajou bastante, por conta do pai ser militar. Conta que seus pais continuam praticando a fé hoje em dia, mas não possuem problemas quanto à sua sexualidade e o relacionamento com a Jamyle, já passaram por muitas barreiras quanto a isso. O mais difícil foi o que viveu quando era criança/adolescente, por ter estudado em colégio militar e ter sido complexo lidar com o entendimento de quem ela era lá dentro. Enfrentou o preconceito, se entendeu, falou sobre suas paixões e, por mais que se aceitava e lidava bem consigo mesma, os colegas agiam de má fé o tempo todo. Sua irmã foi sua grande aliada no enfrentamento disso tudo. Jamyle, por sua vez, sempre entendeu que gostava de meninas. Andava com os meninos e pelo pouco que se fala sobre a possibilidade do amor entre mulheres, chegou a cogitar em alguns momentos, quando ainda era muito nova, a possibilidade de querer ser um homem. Na adolescência, namorou meninos e tinha uma meta na cabeça: namorar um ano para ao menos poder provar que tentou. Aos 19, conheceu uma menina na internet e ficou com ela pela primeira vez. Depois, pensou sobre o que sentia/como sentia e entendeu que de fato gostava de mulheres. Naquela época, uma tia se divorciou e assumiu sua sexualidade, o que a fez refletir muito sobre o que era passar 40 anos da sua vida vivendo algo que não te representa, que não é você. Foi então que decidiu se abrir e contar para a mãe sobre seu desejo e suas vontades. Ela reagiu bem, com um tom de quem sempre soube, porém toda menina que apresentava a mãe não gostava muito, achava algum defeito… mas foram fases. Até que chegou a fase que ela falava pra todo mundo que a filha era gay, achava o máximo. E agora realmente gosta do relacionamento com a Nay. Depois de passarem uns meses distantes e reclusas pelo início da pandemia de Covid-19, em 2020, começaram a falar sobre morarem juntas. Estavam bem estressadas e foi difícil lidar com a distância. Nay estava empregada e estável, Jamyle também, então a renda conseguiria bancar as contas. Começaram a procurar apartamentos e encontraram o que seguem morando até o momento da documentação. Fizeram uma confraternização apenas com a família para inaugurar a casa e ganhar alguns móveis e eletrodomésticos e ressaltam como foi muito bom contar com a rede de apoio, ainda mais naquele momento da pandemia. Como nem imaginavam viver os perrengues depois (Nay ficar sem emprego, por exemplo), foi essencial essa rede no início, sem a existência disso elas não teriam o básico na mudança da casa e foi o que fez com que vivessem com maior conforto. No começo do relacionamento, Jamyle não se dava muito bem com a primeira gatinha da Nay, mas hoje em dia elas se amam. Com o tempo, vieram os outros gatos. Alguns da Nay, outros da Jamyle e outros frutos de adoções da pandemia. Todos resgatados, hoje em dia são 5. Dentro de casa, amam ficar com eles, brincar e cuidar. Além disso, gostam de passar a tarde planejando coisas juntas, sejam os jogos, viagens… por mais que não necessariamente vão fazer, se permitem sonhar. ↓ rolar para baixo ↓ Jamyle Nayara
- Jamy e Rebecca | Documentadas
Amor de Festa - Jamy e Rebecca clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Lia e Thalita
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Lia e da Thalita, quando o projeto passou por São Paulo! Lia e Thalita, quando se encontraram, sentiam que se conheciam há muito tempo - desde os gestos que tiveram uma com a outra, entendendo limites, carinhos e espaços, até o respeito e a paciência dos processos que viviam. Elas contam sobre a diferença de idade acabar quase não interferindo, pois entram em um equilíbrio visto que a Lia tem o jeito mais jovem e a Thalita, pelas vivências que passou, amadureceu muito rápido. No dia a dia, vivem diversos detalhes juntas: jogam badminton, andam de bicicleta, possuem uma rotina dentro de casa através do home office, se conectam intrinsecamente. Para Lia, o amor está em tudo; em todos os relacionamentos, no trabalho, na relação, na música que elas ouvem, nas coisas que fazem juntas… Sua percepção de amor esteve sempre com ela, nunca viu diferenças num amor entre homem-mulher, dois-homens, duas-mulheres, mesmo que só tenha vindo a se relacionar com uma mulher na vida adulta. Então, por mais que entenda a posição política disso, nunca deixou de ter o amor como uma ação presente em tudo o que ela naturalmente faz. Por mais que esse amor esteja nas ações, a relação com a Thalita trouxe algo diferente para a vida da Lia: o planejamento. Ela não era uma pessoa de fazer planos, tinha muita dificuldade de se ver no futuro, mas com a Thalita foi completamente diferente. Elas se apaixonaram rápido, namoraram rápido e foram construindo planos de vida juntas. Hoje, se sentem realizadas quando percebem que alguns já estão concretizados. Thalita tem 26 anos e é natural de Jaborandi, um município do interior da Bahia. Saiu de lá ainda na adolescência e se mudou para Brasília para ter uma base melhor de estudos. Sente que nunca se encaixou completamente em Jaborandi, pois é uma cidade pequena, conservadora, que vive de agricultura. Em Brasília, começou a trabalhar com restaurantes e decidiu que gostaria de se mudar para São Paulo. Chegou a fazer a mudança, ficou pouco tempo, pois era difícil se sustentar, fez uma viagem por diversos lugares do nordeste trabalhando em bares e na praia, até que voltou para São Paulo, decidida a ficar e seguir trabalhando como garçonete. Seguiu alguns anos assim, até recentemente fazer sua transição de carreira para Desenvolvedora Front-end e está trabalhando com qualidade de software. Ela fala como foi bom fazer a transição, voltar a estudar, viver uma rotina semanal (porque antes não havia espaços nos finais de semana ou feriados) e como fez bem para o relacionamento das duas, também. Lia tem 37 anos, é natural de Santo André, cidade localizada no ABC Paulista, em São Paulo, mas reside na capital há muitos anos. Ela trabalha enquanto Designer UX-UI em uma grande empresa. Thalita e Lia se conheceram no bar em que a Thalita trabalhava, em 2019. Nessa época, a Lia era casada e tinha um salão de beleza, que ficava relativamente próximo ao bar, então era um local bastante frequentado por ela e pelas amigas. Toda vez que ela ia ao bar, percebia que a Thalita não atendia a mesa dela, mas a seguia no Instagram, então achava isso minimamente engraçado - percebia uma certa vergonha/nervosismo vindo da Thalita. Na versão da Thalita, pela primeira vez que viu a Lia chegando, ficou toda encantada e serelepe, quis logo saber quem era. Quando descobriu que ela tinha um relacionamento, desistiu de tudo e ficou triste. Nisso, o tempo foi passando, elas sempre se viam no bar, mas ela nunca teve coragem de conversar com ela ou de atendê-la. Num dia, a pessoa com quem a Lia se relacionava foi ao bar sozinha e acabou fazendo amizade com a Thalita, e, quando em outra data a Lia chegou no bar viu a intimidade das duas e achou interessante a situação. Acabou que, numa falta de comunicação, aconteceu uma situação um tanto quanto desagradável inicialmente, mas essa situação fez com que a Thalita e a Lia começassem a conversar pela primeira vez. A partir daí, em uma nova oportunidade, a Thalita frequentou o salão que a Lia era dona (mesmo que ela não estivesse lá no momento), elas conversaram pelo Whatsapp e começaram um contato mais frequente. Neste momento, a Lia passava por uma crise muito grande no casamento, que já chegava próximo do término, e num dia, depois de uma briga forte (por motivos que não tinham relação com a Thalita, obviamente, até porque nada tinha acontecido), a Lia resolveu sair de casa. Ao sair, estava conversando com a Thalita pelo celular. Chamou um amigo e foi até o bar em que ela trabalhava. Lá, eles ficaram até o bar fechar. Elas conversaram - contam que tremiam como adolescentes - e a Thalia comenta que nunca sentiu algo como o que aconteceu naquele dia. Ela chamou a Lia para fumar (sendo que ambas não fumavam, mas era uma desculpa para estarem juntas na rua) e foi assim que se beijaram pela primeira vez. Lia conta que era como se a Thalita já conhecesse ela há tempos, desde o começo. E, já que estava fora de casa, foram para o apartamento em que a Thalita morava. Neste momento, a Lia foi sincera com a ex-companheira sobre o local que estava indo. De certa forma, não queria que as coisas acontecessem assim, preferiria passar pelo divórcio corretamente antes de tudo acontecer, mas foi algo muito mais forte e, então, ela preferiu ser sincera desde o primeiro momento - tanto que, ela e a Thalita, a partir daí, não se desgrudaram mais. Por mais que elas estivessem começando algo novo, precisamos considerar que não é nenhum pouco fácil sair de uma relação na posição que elas estavam - a Lia tinha um empreendimento, passou por uma série de abusos e, para embarcar em um novo relacionamento foi preciso muito cuidado. A Thalita, por sua vez, já viveu relacionamentos difíceis há anos atrás e estava solteira, num momento completamente diferente, um pouco mais estável, então conseguiu (e se disponibilizou para) ser um apoio neste processo. Com o tempo, passou a viver muito na casa da Lia. Foi levando algumas coisas para lá, mas seguiu dividindo apartamento. De qualquer forma, sempre se sentiu muito “em casa” na casa da Lia, e ver lá como um lar, junto com as gatas e com o ambiente, fez ela sentir cada vez mais vontade de ficar. A Lia sempre fez questão de que ela estivesse à vontade também, então juntas emolduraram quadros e passaram a redecorar as coisas, até que a mudança foi definitiva. Com o tempo passando, além do lar que representa em detalhes tudo o que são (como os cafés da manhã, os recadinhos, as decorações e as gatas), também fizeram diversas viagens juntas: coisa que elas entendem como uma reconexão. Qualquer viagem faz com que voltem muito mais íntimas, conectadas e estabilizadas. Durante a pandemia, elas se casaram. Foi num cartório, quando tudo ainda estava fechado, usando máscara e face shield, só com os padrinhos presentes, que assinaram os papéis. Antes de sair de casa, Lia fez uma maquiagem na Thalita e uma arrumou a outra. Depois do cartório almoçaram juntas e ao anoitecer fizeram uma live com os convidados - cerca de 300 pessoas estiveram na chamada ao vivo festejando-as. Contam o quanto foi legal, simbólico e divertido. Num momento como aquele, na pandemia, todos estavam trancados em casa sem perspectivas. Entrar numa chamada e celebrar o amor durante algumas horas foi um sopro de esperança. Elas choraram muito, jogaram buquê fake, cortaram bolo, ganharam muitos presentes e souberam aproveitar de verdade! E, um tempo depois de casadas, oficializaram com uma viagem de lua de mel para a Bahia. ♥ Por fim, fizeram questão de serem fotografadas pelas ruas de São Paulo - como fotos de casamento - como uma maneira de falar sobre a importância do nosso amor ocupar as ruas, estar em público. Não há como fecharem os olhos para o que acontece nas ruas e por isso estão sempre se envolvendo politicamente. Na pandemia, por morarem no centro da cidade, viram de perto como tudo piorou. Não há como esconder ou fechar os olhos para isso, e ao sair de casa elas não conseguem não se sentir afetadas pela falta de políticas públicas para a população. Seus posicionamentos também representam que enquanto não mudar para os outros, para toda a população que segue na rua, para cada povo marginalizado, também não mudará para elas. ↓ rolar para baixo ↓ Thalita Lia
- Julia e Vitória
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Júlia e da Vitória, quando o projeto passou por São Paulo! Júlia e Vitória são apaixonadas por moda, saúde da mulher, conversas longas, besteiras que fazem rir por horas, gatos e pela vida social com as amigas na cidade que moram, Campinas, interior de São Paulo. Possuem uma história de vida totalmente diferente: Júlia adora debater política e acredita que os atos políticos estão presentes em tudo o que fazemos. Sempre foi instigada pela família a ser uma pessoa argumentativa, questionadora. Vitória, por sua vez, vem de uma família muito conservadora. Frequentou a igreja até a adolescência, o pouco que sabia sobre política não achava que era tão importante - e era em ano eleitoral. O relacionamento significa uma revolução para as duas. Vitória aprendeu a olhar tudo sob uma nova perspectiva, reconheceu a importância dos debates e do pensamento crítico, enquanto Júlia aprende a compreender sua praticidade: nem tudo é tão direto, tão incisivo. Precisa entender o tempo das pessoas de processar, enfrentar e saber lidar com seus processos. Júlia conta que sempre viu o amor no lugar de incentivo, de afeto, de impulso e entende que amar é sempre algo coletivo, nunca individual. A família sempre incentivou (a ler, escrever, ouvir músicas, ter contato com o mundo). Depois da separação dos pais ficou cada vez mais próxima da mãe e percebe que sempre foi fácil entender as relações de gênero, o cuidado que uma mulher tem por outra. Sendo assim, não consegue separar o amor de algo político, sendo ele o familiar ou o romântico, que possui pela Vitória - e quando cita ela, só consegue dizer o quanto a admira, o quanto é fácil amá-la, se orgulha da força que possui e do quanto estão crescendo juntas. Finaliza com um “que mulher foda!.” Vitória, no momento da documentação, estava com 25 anos. É natural do Paraná, mas mora em Campinas, São Paulo, desde criança. Trabalha enquanto fisioterapeuta, focada na saúde da mulher, adora falar sobre sexualidade e tudo o que envolve o corpo feminino. Juntas conversam muito sobre os assuntos que envolvem sua profissão, dentre eles o parto. Ressaltam a importância de ter mulheres que estudem sobre mulheres porque até hoje a maioria das coisas que temos foram homens que decidiram. Falando sobre isso, Vitória faz o recorte sobre o quanto poder conversar e enxergar esses debates no relacionamento acrescenta na vida dela: impulsiona e demonstra o quanto querem crescer em conjunto. Júlia, no momento da documentação, estava com 34 anos. É natural de Campinas, São Paulo e trabalha com comunicação social, unindo o jornalismo e relações públicas, num ateliê. Conta que pela primeira vez pode ser ela mesma num ambiente de trabalho e como isso tem sido gratificante. Juntas elas adotaram um gato - o Kovu - e dividem vários hobbies em comum, entre eles o amor pela moda. Acreditam que a forma de se vestir também é um ato político. Amam performar feminilidade e o “choque”/a reação que as pessoas demonstram ao saber que são duas mulheres muito femininas se relacionando amorosamente. Foi em 2020 que elas se conheceram num bar. Não tinham muitas coisas abertas por conta da pandemia de Covid-19, mas foram num aniversário e se viram. Na época, Vitória estava se envolvendo com uma pessoa, mas lembra de ter visto a Júlia de tranças, dançando. Num segundo encontro, se esbarraram e ficaram, mas tudo foi muito confuso, passaram a conversar, Vitória viu a Júlia ficando com uma pessoa um tempo depois, chorou e entenderam que estavam apaixonadas uma pela outra. Ficaram mais algumas vezes, até que no começo de 2021 começaram o relacionamento. Foi um início difícil por conta da Vitória morar com os pais e eles não saberem da orientação sexual dela, além de não darem muita abertura para a conversa. Porém, estava cada vez mais insustentável ela não se sentir bem dentro de casa. Por mais que o amor entre a família exista, ela tinha medo de como iriam reagir, e também de como iria sair de casa, se sustentar… Vivia sob constante pressão. Aos poucos se estabeleceu financeiramente, procurou uma casa e foi criando coragem. Contou para a família num sábado, fez a mudança na terça e manteve a relação da melhor forma possível. Hoje, segue no mesmo lar, com o gatinho e com a Júlia visitando o tempo todo. Vitória fala sobre como a religião é difícil, mas sempre fez parte do que ela foi. Nunca se julgou, nunca achou que fosse um erro ou uma aberração ser quem ela é, diferente do que pregam. Em certo momento, entendeu que o que ouvia na igreja não fazia mais sentido pra ela, então decidiu parar de frequentar. A parte mais difícil foi explicar isso para a família, sente que colocavam uma expectativa muito grande nela, então acabou decepcionando os pais, arranjava desculpas para não ir ao invés de falar diretamente o que sentia e o processo demorou muito mais para acontecer. Quando conheceu a Júlia, vivia um momento diferente, mas complicado. Explica que a Júlia ter enxergado ela e dado uma chance para que vivessem um amor tão bom como vivem só faz admirar e amar cada vez mais tudo o que ela é (e o que são juntas). Além disso, acredita que amar independe de quem as pessoas são. Você deve sempre apoiar quem se ama. Júlia conta que sua descoberta para ter uma relação com mulheres foi praticamente inesperada, porque aconteceu enquanto uma “zoeira”, numa experiência de trisal. Não entendia e nem pensava muito sobre o que estava acontecendo. Foi entender quando ficou sozinha com a mulher e viu que isso incomodou o homem. Debateu, pensou sobre, entendeu o próprio corpo e então tomou protagonismo na história. Hoje, fala muito sobre as formas que o patriarcado toma conta das relações – ainda que sobre duas mulheres. E na sua relação com a Vitória dividem o máximo que podem, se comunicam e tentam traçar um caminho diferente. ↓ rolar para baixo ↓ Júlia Vitória
- Carla e Yasmin
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Carla e Yasmin, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Carla e a Yasmin são duas mulheres apaixonadas - pela arte, pela vida, pelas pessoas e pelo relacionamento que elas construíram desde o momento em que começaram a namorar. Carla tem 25 anos e é natural do Rio de Janeiro. É publicitária, comunicadora e poetisa. Ama escrever poesia e de todas as suas paixões, acredita que essa é a maior. Durante a pandemia ela também desenvolveu desenhos e pinturas enquanto arte-terapia, algo muito intuitivo e que hoje em dia acompanha sua rotina. Pinta em aquarela, misturando texto e desenhos. Yasmin tem 22 anos e é natural de Niterói. É astróloga e professora de yoga, além disso, também está na faculdade fazendo graduação em filosofia. Ela tem vários hobbies, adora mexer com a terra, planta tudo no quintal de casa, cuida dos jardins e adora usar o que planta para cozinhar. Além disso, se vê enquanto alguém que vive a arte em detalhes e brinca: “Coloca em letras grifais: VIVE A ARTE” - porque gosta muito de desenhar coisas abstratas, pontilhismos, ouvir músicas, tocar violão e estudar sobre o mundo. O que mais gostam de fazer quando estão juntas é curtir a companhia uma da outra, estando sozinhas em algum lugar. Amam viajar, conhecer lugares novos, ir à praia ou ficar em casa desenhando. Gostam de tomar açaí geladinho, fazer lanchinhos veganos e descobrir novos restaurantes (também veganos). Uma coisa, em especial, que fazem e que adoram, é a poesia livre! A ideia é que alguém comece escrevendo uma linha, depois a outra escreva logo em seguida e assim sigam, intercalando... formando uma poesia. Para Carla, a maior referência de pessoa que ajudou na construção sobre quem ela se tornou, é a sua mãe. Ela diz que entende a mãe enquanto uma força de pulsão para tudo o que precisa ser feito, de maneira geral: incentivo e inspiração. Vê a mãe enquanto uma mulher muito corajosa, forte e criativa. Ela também é artista, mas de formas de expressão diferentes (na área do bordado e da costura). Ela cita as formas de expressar específicas da mãe sobre as encomendas que recebe das clientes e o quanto aprende com isso. Para Yasmin, sua inspiração são seus avós. Mais que uma inspiração pessoal e/ou familiar, eles remetem principalmente a uma referência cultural - por conta de ensinar ela a ser livre, darem introdução à liberdade de ser. Eles sempre cantavam e tocavam juntos e na literatura a avó é grande entusiasta dos autores brasileiros. Além dos avós, se pudesse citar alguém entre famosos, seria Maria Bethânia, que inclusive foi uma das pessoas responsáveis por ela e a Carla terem se conhecido. A Carla e a Yasmin observam muito o mundo desde criança e tiveram famílias que instigaram e incentivaram diversos pontos culturais dentro de casa. Quando falamos sobre a cidade e a sociedade, elas trouxeram diversas visões. A Carla, por morar bastante longe do centro, comenta o quanto ainda falta nos ver nos espaços públicos nas periferias, sem medo de pegar na mão da companheira dentro do ônibus, do metrô ou do BRT (Sistema de transporte em massa). E o quanto quer ver as mulheres ocupando espaços de trabalho em níveis altos, com projetos informativos e educativos vencendo violências. Yasmin complementa o ponto sobre a educação vencendo quebrando muitas barreiras - para ela, é quando o educativo se move que as leis de igualdade e incentivo também fazem sentido, mas não só nas escolas. Educação para que as mulheres se entendam enquanto mulheres em sociedade, saibam seus direitos e lutem juntas. As duas se conheceram em meio a pandemia de Covid-19, ou melhor, na verdade elas já se conheciam e seguiam no Instagram, mas não tinham contato algum. Foi durante a pandemia que Carla declamou um poema autoral no instagram e Yasmin respondeu elogiando. Elas trocaram mensagens a partir dali, foi quando Yasmin disse à Carla que sua poesia lembrou muito Maria Bethânia e chegou até a enviar uma música de Bethânia para ela. Toda a conversa era realmente sem tom de flerte, era uma troca de conteúdos artísticos de muito valor para as duas e estavam aproveitando bastante porque interessava trocar e dialogar sobre arte (e sobre quem admiravam). Passou um tempo, continuavam trocando mensagens até que decidiram “se encontrar virtualmente” (por chamada de vídeo). Não tinha nenhum clima de terem um encontro ou algo do tipo, era realmente um café da tarde no domingo para baterem um papo e falarem da vida, algo que estava acontecendo bastante no começo da pandemia. A conversa aconteceu e, por mais que o dia tenha sido um pouco caótico para a Carla, o papo foi ótimo e elas se deram muito bem. Foi depois da conversa que, pela primeira vez, surgiu um sentimento de: “Acho que quero encontrar ela pessoalmente”. Se encontraram em Botafogo, num dia de ventinho carioca, um tempo depois do encontro virtual. A Yasmin estava interessada também, mas tinha acabado de sair de um relacionamento e sentia um certo receio de se envolver novamente, estava mais ‘fechada’. Entretanto, à medida que foram conversando e os ideais foram batendo, isso já estava se amolecendo. Elas contam que uma amiga em comum participou do encontro por um tempo, mas que lá, ainda no primeiro dia, se beijaram. Depois elas foram para um outro espaço e hoje em dia, elas brincam que a partir desse momento que saíram do café (espaço 1) e foram para o restaurante (espaço 2) já estavam namorando, porque já se viam enquanto um casal. Hoje em dia, mais de um ano depois, elas possuem um relacionamento de muito diálogo e expressão. Definem-se (ao menos, nesse momento do relacionamento) como “compreensão”: Se entendem e sempre conversam. Yasmin fala que desde o início do relacionamento elas já conversavam muito sobre como queriam coisas sólidas, porém, sem peso, então criaram a base da relação na espontaneidade, liberdade e construção. E completa dizendo que, considerando todas as dificuldades de uma pandemia que envolve incertezas, ansiedades, momentos de luto, e inúmeras instabilidades, respeitam ainda mais essa liberdade, o tempo e o espaço uma da outra. Yasmin cita Vinicius de Moraes para falar de amor: “A vida é a arte do encontro embora haja muito desencontro na vida”. E diz que o amor é a capacidade de você se encontrar, se perder, misturar, se fundir e separar, tudo dentro de uma coisa só! O amor não é só os detalhes, ele é o cenário e o espaço para as coisas acontecerem. É uma entidade viva, embora tentamos colocá-la em caixas... Para depois descobrir que na verdade ele é tão fluido como o ar, nós não vemos. Ela finaliza o pensamento sobre o amor dizendo que muitas vezes ele é o motivo e a razão das coisas acontecerem. Concluímos que o amor nas relações humanas é o que faz abrir mão um pouco do “meu” pelo “nós”. E que o amor entre mulheres, foi por tanto tempo (E ainda é!) abnegado - mesmo que, em contrapartida, ele seja o amor em sua maior expansão: um amor que tem potência máxima de gerar coisas. Amar uma mulher é estar disposta. Carla conta a história de um livro que ela leu, da Letrux, como forma de dizer o que representa o amor pra ela. Fala de um menino de 5 anos que entra no mar pela primeira vez: o amor é tudo isso que existe em um menino de 5 anos entrando no mar pela primeira vez... Ele vai sentir o coração pulsando e vai ficar maravilhado, mas também vai odiar - porque vai arder os olhos, ele pode se afogar, vai ficar confuso mas pode também aprender a nadar e descobrir a imensidão de possibilidades (e aí descobrir a liberdade). Isso é o amor. Yasmin Carla
- Mari e Nono
Mari e Nono A Mari se inspira nas famílias LGBTs que ela acompanha online. Essas famílias a trazem esperança - e assim elas aprendem a admirar suas famílias também, em como se permitiram entender, aos poucos, o relacionamento. São mulheres que sonham em formar seu próprio lar. Quando fazemos parte de uma minoria acontece com frequência uma forma de justificativa categorizada como “apesar de”, e tanto a Mari quanto a Nonô sentiram na pele o que é isso. A Mari sempre foi uma aluna muito boa, sempre teve as melhores notas e era perfeita para os outros. Então, mesmo com diversas mudanças repentinas na vida, como a saída do armário e a mudança de cidade, vincularam o fato dela ter tirado uma nota mais baixa com o relacionamento amoroso delas, como se isso pudesse ser o verdadeiro fator prejudicial. Elas passaram a comprar juntas essa briga e a lutar pelo respeito que mereciam. Hoje em dia ainda se veem nesse papel de “apesar de namorar uma mulher, a Mari é uma excelente profissional” e entendem que isso é um problema social, mas em suas próprias palavras, elas não esperam que as coisas cheguem resolvidas na vida delas, mas sim que resolvam juntas. Sempre se mostram muito determinadas a promover mudanças. “Amor é pão feito em casa”, foi assim que começaram a explicar o que pensam sobre o amor entre mulheres. Vocês já tentaram fazer um pão em casa? É preciso uma dedicação absurda, cuidando e dando atenção para que a massa seja gostosa. Essa dedicação pode vir à flor da pele, de forma vibrante, mas ela realmente caminha quando tudo se acalma e passa a ser de uma forma genuína, com cuidado aos detalhes. Além disso, amar se constrói por causa DE e apesar DE. Depois que elas postaram a primeira foto juntas (após um ano de relacionamento), viram alguns seguidores indo embora. Foi neste ato que entenderam que realmente estavam fora do armário. Hoje em dia elas reivindicam a importância de sermos referência para quem está perto de nós, dar apoio aos nossos, inspirar outras mulheres que passam pelo mesmo que elas passaram. Acham que, no geral, é muito importante vermos LGBTs na mídia “abrindo um pouco o caminho” e quebrando algumas barreiras do preconceito, mas comentam que ainda sentem falta de se ver nessas pessoas, de sentirem identificação. Por isso, abrem suas redes sociais sempre para ajudar quem está se descobrindo. A Mari foi arrancada do armário - como a mãe dela descobriu, ela não teve a condição de se sentir confortável para contar - e isso aconteceu num momento muito vulnerável. A Nonô já teve seu tempo mais respeitado e pode contar para a sua família. A avó de Nonô, cujo ela tinha o maior medo de contar, reagiu de forma engraçada e acabou entendendo - na verdade, foi a pessoa que mais aceitou. A família da Mari se dividiu em algumas partes… a mãe reagiu de forma difícil, o pai passou a tentar entender os motivos. Mesmo com muitas dificuldades, o tempo foi passando e elas foram crescendo muito juntas, então a família foi entendendo e respeitando o grande apoio que uma dá para a outra. Hoje em dia, elas possuem estabilidade e o desejo de uma vida tranquila. A Mari e a Nonô se encontraram (e se encontram diariamente) de muitos jeitos, mas principalmente na arte. Elas amam musicais e possuem um projeto de criar listas sobre filmes e séries para a comunidade LGBT. A Mari também ama atuar, a Nonô apoia bastante, enquanto aprende a tocar baixo. Mari trabalha atualmente como design de mídias sociais, além de estudar Relações Internacionais... e Nonô estuda licenciatura em artes, sonha em ser professora, faz iniciação científica no PIBID, mas também adora estar em produções - de teatro, de cinema… hoje em dia elas estão em home office e Nonô busca trabalhos na área da comunicação também. Passam o dia juntas em um apartamento, na Ilha do Governador, com seus dois gatos: a Elis e o Chico. Escolheram fazer as fotos no apartamento porque esse lugar representa o verdadeiro significado de casa. Foi ali que pela primeira vez fizeram as compras do mês, viram filmes no sofá da sala sem medo de recriminações, puderam ter os gatos, cozinhar e conquistar a intimidade juntas. É na casa que acontecem seus momentos favoritos, como o de fazerem o almoço no meio do home office e depois sentarem para ver uma série, mas acabam passando um pouquinho da hora do almoço e só depois voltam a trabalhar. É nesse apartamento que abraçam os gatos e depois reclamam de ter pelos pelo corpo, nesse apartamento que separam seu tempo de criar, de construir e de se cuidar. Talvez o segredo da Mari e da Nonô terem dado tão certo é o fato delas crescerem muito juntas. Esse fato fez com que a família, mesmo com diversas dificuldades, dia após dia, passasse a acreditar de verdade no amor delas. Fez também com que elas começassem a entender o que pode ser o amor. Mariana tem 20 anos, Nonô tem 19. Elas se conheceram ainda no colégio, no ensino médio. Mari tinha passado por algumas situações… precisou se mudar da cidade onde estava morando, em Barra do Piraí, no interior do Rio, para a capital. Por um tempo se sentiu sozinha, tentou seguir um padrão de vida do qual não se sentia bem de verdade, e por ser o mais confortável, encarou o padrão heteronormativo. A família dela era bastante conservadora e evangélica, ela sempre frequentou a igreja, seguia sua vida sendo uma boa aluna, uma boa filha e uma boa namorada. Voltar a morar no Rio significou um escape naquele relacionamento que ela mantinha. E foi no Rio que conheceu Nonô, assim que chegou na escola. Nonô sempre gostou muito de artes - ama materialidades, sentir o têxtil, pinturas, tocar instrumentos, jogos, cinema, teatro… e também sempre sentiu que poderia gostar de mulheres. Nonô me explicou sobre a importância de quebrar o tabu que fica envolta da palavra lésbica, porque mesmo ela sabendo que era, acabava por usar “gay” ou “sapatão” e cultivava certo medo de dizer a palavra. Quando entendeu as raízes preconceituosas desse medo passou a tentar aos pouquinhos desconstruir isso, e hoje faz questão de dizer sempre: sim, sou uma mulher lésbica. Mari Nonô <
- Amanda e Iana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Amanda e da Iana, quando o projeto passou pela Bahia!. Para dar início às nossas histórias de Salvador, nada melhor que duas mulheres nascidas e criadas nessa cidade que tão bem nos acolheu: a Iana e a Amanda. Brinco com o ‘nascidas e criadas’ porque assim elas se apresentam: Iana, 29 anos, nascida e criada em Salvador. E Amanda, 28 anos, nascida e criada em Salvador. Durante a nossa conversa, contam o quanto são felizes morando lá: se sentem parte da cidade, curtem os sambas, os cinemas de rua, a orla da praia… não enxergam Salvador enquanto um lugar preconceituoso ou hostil, pelo contrário. Gostam de ocupar os espaços da cidade sendo exatamente quem são. Dizem que só o amor não constrói relacionamento; O relacionamento precisa de afeto, diálogo, entendimento… Entendem que nos 7 anos que estão juntas já viveram muitas coisas, e que não foi somente o amor quem as mantém unidas, mas a vontade e a disposição de estarem juntas, segurando as mãos e percebendo que esse amor que vivem é a soma de todas as outras partes, vontades e sentimentos. Amor é gostar do que estão sentindo uma pela outra, de estarem presentes diariamente e de compartilharem a vida. Iana é formada em psicologia e marketing, hoje em dia trabalha enquanto assessora parlamentar e tem sua rotina misturada entre os espaços de militância: seja pela luta de movimentos trabalhistas, pautas sindicalistas, LGBTQIA+ e até mesmo pautas da juventude. Amanda também é psicóloga e no momento da documentação estava cursando pedagogia. Hoje em dia, ela já trabalha com crianças neurotípicas, com foco no autismo e também é militante política. Iana e Amanda se conheceram em 2014 na faculdade, onde cursavam psicologia juntas. Amanda foi caloura da Iana e durante a faculdade via muito ela liderando movimentos estudantis e DCEs, mas não tinham contato ativo na época - e era até mais específico: a Amanda morria de medo da Iana. O medo vinha perante sua posição de liderança, era respeitada dentro dos espaços acadêmicos e isso fazia com que a Amanda tivesse um receio/uma resistência de conversar com ela. Cerca de um ano e meio depois, quando Iana estava no último semestre, elas começaram a ter mais contato organizando a próxima entrada de calouros. Nessa época, durante uma semana participaram de brincadeiras com os mais novos, como “verdade ou consequência” e “eu nunca”, e descobriram que tinham um sentimento recíproco entre quererem se beijar. Mas o beijo só foi acontecer, de fato, na festa de aniversário de uma amiga em comum, num bar “super hétero top” que Iana jamais iria, mas foi pela consideração. Comemoram o relacionamento desde esse dia, com carinho pelo momento que estiveram juntas. Neste dia, Iana deixou a Amanda e as amigas em casa (pois todas estavam bastante embriagadas) e mandou uma mensagem assim que acordou no dia seguinte perguntando se Amanda estava bem/dizendo para beber bastante água. Amanda achou super fofo e se sentiu especial quando ela mandou a mensagem, mas a verdade foi que ela fez um copia e cola para a Amanda e para todas as amigas, já que sua preocupação não era tão específica assim. Brincam com esse fato, mas foi essa mensagem que fez com que elas passassem a se falar diariamente. Logo no próximo dia de aulas marcaram de se encontrar na faculdade. Nesse momento, Amanda já tinha contado para a Iana que morria de medo dela, mas Iana riu, entendeu, acolheu e se deixou disposta para que a Amanda a conhecesse de verdade, tirasse a imagem de medo e soubesse quem ela é e o que gosta de fazer. Na faculdade então, se encontraram, Iana levou Amanda até a sala e contam que desde então não se desgrudaram mais. Na época, o medo demorou um pouco para passar: elas até pegaram uma disciplina juntas e, num dia, Amanda pediu para a Iana sair da sala porque ela ficava muito nervosa na presença dela e não iria conseguir apresentar um trabalho importante. Entendem que aos poucos foram namorando e construíram o relacionamento com muita fé, amizade e cuidado. Por uma decisão de maior necessidade, foram morar juntas logo aos 11 meses de relacionamento. Amanda ficaria sem lugar para morar, seria inicialmente de forma provisória, mas assim estão até hoje. Contam que se dão muito bem morando juntas e que a vivência faz com que se conheçam por completo. Também já passaram por muitas coisas, o que fortaleceu o companheirismo. Em 2019 noivaram e entendem que estavam no pior momento do relacionamento. Foi como uma forma de assentar. Passavam por muitas coisas juntas e talvez se não tivessem noivado, acabariam se separando. Hoje em dia relembram como uma decisão ousada, mas que deu certo. Quando a pandemia aconteceu, ambas começaram seus novos cursos, tiveram outras prioridades. Adiaram o casamento, mas pretendem realizá-lo no dia 8 de dezembro de 2023, porque é o ano que fazem 8 anos, 8 é o símbolo do infinito - que elas carregam em si - e também pelo sincretismo religioso que possuem com o dia de Nossa Senhora da Conceição da Praia, representando Iemanjá. Por mais que os amigos as tratem como uma só e elas amam a companhia uma da outra, entendem e respeitam cada individualidade. Conversam muito (também pudera, duas psicólogas!) e costumam falar que dentro de um relacionamento existem 3 relacionamentos: o de você com você mesma, o da sua parceira com ela mesma e o de vocês duas juntas. Quando percebem que estão distantes, sentam e conversam. Veem sua relação como um coração batendo: é preciso ter altos e baixos, quando tudo fica numa linha só é como o fim da vida, então querem estar sempre assim: em movimentos rítmicos. Hoje em dia, gostam de viajar bastante, acordar e dormir juntas, estar com os amigos, sair para comer e ouvir samba. Iana é mais da rua, gosta de sair de casa e leva Amanda para os lugares. No Museu de Arte Moderna, lugar que fizemos as fotos, foi onde elas falaram sobre o que sentiam pela primeira vez, no sentido de: “Estou gostando de gostar de você.” e se sentem muito bem estando nesse lugar especial. Para Salvador, no mais, desejam maiores políticas públicas para a população LGBT em situação de vulnerabilidade e mais segurança para as mulheres. ↓ rolar para baixo ↓ Iana Amanda


