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Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

294 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Samara e Rebeca | Documentadas

    Rebeca e Samara se conheceram em outubro de 2023, durante uma live de uma página voltada ao público lésbico e bissexual. A proposta da live era conectar mulheres, seja para amizades ou relacionamentos. Samara tinha saído de um relacionamento - que não havia sido fácil - há cerca de seis meses, tomou coragem e decidiu participar para conhecer pessoas novas. Foi então que Rebeca a notou e começou a seguir no Instagram. Começaram a conversar imediatamente e se deram super bem, as conversas se tornaram diária e vieram chamadas de vídeo e ligações. Construíram um vínculo à distância - uma morando na Bahia, a outra no Piaui - que durou seis meses, e decidiram se relacionar de forma virtual. Em abril de 2024, Rebeca disse para Samara que faria uma viagem para visitar o pai no interior. No entanto, dias depois, veio a surpresa: Rebeca não estava no interior, mas sim a caminho de Salvador. Com a ajuda de familiares, ela arquitetou uma mudança e aproveitou a ocasião para surpreender Samara em seu aniversário, deixando claro que já tinha os planos de conseguir um emprego por lá e ficar de vez. A falta de aceitação de sua sexualidade pela família, somada aos seis meses de conexão intensa com Samara, desencadeou o impulso de recomeçar. Tinha o medo de não dar certo por não se conhecerem pessoalmente? Claro. Mas arriscar era preciso. Após algumas entrevistas, conseguiu um emprego e começou a se estruturar. Como ela mesma diz: "Já vim com os planos de ficar perto da Sam, não queria mais voltar para o Piauí." Desde então, elas têm vivido juntas, transformando aquela conexão inicial em uma história de amor real e corajosa, e Rebeca não se arrepende e nem deseja voltar. Quando chegou em Salvador, Rebeca ficou na casa dos seus familiares que moravam na cidade, mas também foi recebida com carinho pela família da Sam. Após uns meses, decidiram começar uma vida juntas, em um lar só delas. Os primeiros móveis foram adquiridos com pressa, mas com a ajuda preciosa da família para facilitar o início dessa nova etapa, ainda que pagando em várias prestações. Com alegria, contam como frequentemente refletem sobre essa decisão e afirmam, sem hesitar, que não se arrependem - principalmente a Rebeca, de ter deixado o Piauí para construir essa história ao lado de Samara. O amor, que começou de forma tão inesperada, revelou uma força que surpreende até elas mesmas. O que torna a relação única, segundo Sam, é a forma como se sentem ouvidas e reconhecidas uma pela outra. "Não vale só assinar embaixo. Ela deixa eu falar," diz Samara, expressando a dinâmica de respeito mútuo que construíram. E isso que é muito interessante, no dia-a-dia, além de desafiador, mostra o quanto representa crescimento para elas e para a família. E nesse crescimento também aprendem a lidar com questões que nem sabiam que era possível: como os ciúmes, a vida financeira, a ter paciência e entender que conquistam as coisas aos poucos, de acolher nos momentos difíceis, não procrastinar a luta dos estudos… uma puxa a outra nos sonhos. O amor delas também se revela nos pequenos impulsos do cotidiano. Desde Sam que gasta todos os caracteres na hora de se declarar, até a forma mais tímida de Rebeca, que prefere ações a palavras. É o mesmo impulso que levou Rebeca a mudar de estado e que ainda as guia em decisões, como comprar coisas sem tanto planejamento ou dizer “sim, vamos” antes de pensar duas vezes. Esses gestos espontâneos mostram que, mesmo com os desafios, o que importa é fazer dar certo. Samara, no momento da documentação, estava com 26 anos. É formada em História pela UBA e vive em Salvador, onde trabalha como professora em uma escola particular. Apesar de amar sua formação, sonha em cursar Direito, algo que pretendia fazer desde o início, antes de se apaixonar por História. Determinada e cheia de sonhos, Samara ainda planeja voltar à faculdade e realizar esse desejo. No tempo livre, ela adora ir ao cinema, shows, ouvir música, ler e assistir séries. Rebeca estava com 21 anos no momento da documentação. Nasceu em Salvador, mas passou a maior parte da vida no Piaui. Recentemente, em abril de 2024, decidiu voltar para Salvador motivada pelo amor que construiu com Samara. Atualmente, trabalha como operadora de telemarketing e cursa Ciências Biológicas, mas seu grande sonho é estudar Medicina. Rebeca é apaixonada por música e se destaca ao tocar violão, guitarra e bateria. Embora não seja fã de leitura como Samara, ela ama ir ao estádio de futebol – um hábito que aprendeu com Samara, e agora ambas torcem juntas pelo Vitória. A praia é um dos cenários mais especiais para as duas. Apaixonadas pelo mar, elas encontram nesse ambiente o refúgio para criar memórias juntas. Assim como o futebol no estádio, os passeios à beira-mar se tornaram um dos momentos mais significativos do relacionamento, por isso escolheram o lugar para fazermos as fotos na documentação. ↓ rolar para baixo ↓ Samara Rebeca

  • Pamela e Gabriela

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Pamela e Gabriela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi num parque em meio à área florestal do Grajaú, no Rio de Janeiro, que encontrei Pamela, Gabi e Kauan. Ele completamente sorridente, com seus 5 meses de idade. Começamos a conversa com elas contando o quanto amam viajar. Sempre planejaram viagens e agora, depois de ter feito a primeira viagem breve com o Kauan, anseiam o primeiro andar de avião nas próximas semanas. Pamela explica como esse primeiro momento da maternidade não é fácil, por mais que tenha essa viagem que traga felicidade, a vida real demanda muito, envolve cansaço e esforço das duas, mas que mesmo nessas circunstâncias conseguem sentir as coisas leves porque sempre relembram o quanto sonharam com isso e o verdadeiro motivo de viverem tudo: resgatam o amor para o dia a dia. Entendem que o amor é muito político, principalmente na criação do Kauan. Citam os olhares, as burocracias que viveram e questões mais ‘invisíveis’, como o quanto pensavam sobre política muito antes de saber se era um menino ou uma menina que iria nascer. Gabi explica que se fosse menina, queriam criar uma menina forte, corajosa, que tivesse consciência do machismo, etc. Sendo menino, mudava de forte para sensível; Queriam a consciência e a coragem, mas ensinando que pode demonstrar sentimentos, chorar, ser gentil. Conta, também, sobre um dia que estavam numa padaria e um desconhecido brincou com ele e comentou: “Esse é macho, tem cara de macho!” e ela disse “Não… Ele é um bebê” e completa que não tem que ter cara alguma, além da cara de um bebê. Foi em 2015 que elas se esbarraram pela primeira vez, numa festa durante o carnaval. Pamela tinha saído com um amigo, estava recém solteira e perguntou se o amigo tinha alguém para apresentar. Ele apresentou a Gabi e elas se beijaram na noite, mas não conversaram, nem trocaram mensagens depois. Em 2017, se encontraram novamente no carnaval, de forma aleatória num bloco e com os mesmos amigos em comum. Perguntaram se estavam solteiras e ficaram. Isso já era de madrugada, estavam bêbadas e depois de terem ficado, a Gabi simplesmente comentou com o amigo: “Sabe quem eu queria encontrar?! A Pamela”. Ele ficou sem entender nada: “Ué?? Mas você acabou de ficar com ela!”. E ela não lembrava. Se esbarraram de novo, beijaram de novo, e o amigo chegou dizendo “E aí, Gabi, agora foi, né?”. Quando ela respondeu: “Não?! Não vi a Pamela”. Achavam que era alguma brincadeira dela, mas entenderam que ela realmente não estava relacionando/lembrando. Então combinaram: se elas se beijassem de novo, iriam fotografar. E assim foi. Depois do carnaval, ambas tiveram breves relações e no meio do ano estavam novamente solteiras, então começaram a se falar pelas redes sociais. Decidiram ter um encontro, a Pamela decidiu que não podia envolver álcool, porque queria ser lembrada, então chamou Gabi para ir ao cinema. Acabaram chegando cedo e só tinha o filme dos Minions para assistir, toparam mesmo assim e sentem que aquele dia foi o começo de tudo. Começaram a conversar, ficaram juntas mesmo. Nos próximos dias que seguiram desde o primeiro encontro, já entendiam que queriam namorar. Fizeram a primeira viagem e lá Gabi comprou uma aliança, na pracinha da cidade, e deu para a Pamela selando o início do namoro. O primeiro ano não foi fácil, contam que foi um ano de “ajustes”. Tinham muitas conversas para se entender, também não havia muita estrutura, ainda estavam na faculdade… Foi depois de completarem um ano que decidiram morar juntas, em Caxias, por ser mais acessível financeiramente. Sempre falaram sobre casar e ter filhos, então começaram uma conta poupança juntas, entendendo o quanto isso demandava, e os planos foram se concretizando. Em 2019 casaram, fazendo uma festa para amigos e familiares. Em seguida, se mudaram para um novo apartamento, entre o centro e a zona sul do Rio de Janeiro. Durante a pandemia o apartamento se tornou pequeno para o que desejavam. Ainda mais passando o dia todo em casa, se sentiam enclausuradas, sem tanta luz solar. Sendo assim, em 2021 conseguiram um novo lar, dessa vez na Tijuca, e lá a vinda do Kauan começou a ser planejada. Começaram com a bateria de exames, depois a primeira tentativa que já deu certo. Pamela gerou, Kauan nasceu em abril de 2023. Gabriela estava com 31 anos no momento da documentação, é natural do Rio de Janeiro e, mesmo tendo a formação em Engenharia Química, migrou de área e hoje atua enquanto Product Manager. Pamela, com 33 anos no momento da documentação, é natural de Duque de Caxias, baixada fluminense. Também formada em Engenharia Química, não atua na área, trabalha enquanto analista de negócios. Gabi conta que desde pequena sempre quis ter um filho com o nome Kauan. Falava isso tanto que, quando a mãe engravidou, perguntou se ela queria dar esse nome ao irmão e ela respondeu que não, Kauan seria o nome do filho dela. Quando deu essa ideia para a Pamela, ela adorou, principalmente pela escrita do nome. São duas mulheres muito diferentes: Gabi, por exemplo, passou o processo de gravidez todo chorando (seja por felicidade, medo, ansiedade…), enquanto Pam internalizou tudo e segurou a barra, foi muito racional, só chorou quando deu certo. Entendem que no dia a dia o exercício é fazer Pamela lidar com as emoções, se comunicar, falar o que sente. Gabi instiga a comunicação, sempre procura conversar. Para Gabi, o amor é muito mutável perante os períodos que as pessoas estão vivendo. Quando começaram a namorar, por exemplo, sabiam que se amavam e por mais que em muitos momentos estivesse sendo difícil se entender, o amor estava ali e queriam continuar juntas, por isso seguiam em frente. Hoje em dia é diferente, já passaram por questões difíceis no emprego, na família… e continuam juntas, se sentem fortalecidas. Vê muita parceria na forma que elas constroem a relação e a educação do Kauan. Atualmente, fazem parte de um grupo de dupla maternidade no Rio de Janeiro e querem muito que o Kauan viva com crianças da mesma configuração familiar que ele. Buscam o tempo todo espaços inclusivos, desde o grupo, até escolas que não tenham o dia das mães-dia dos pais, mas o dia da família. Pamela fala sobre todas as crianças, as tantas que vivem sem pais, por exemplo, e como esses dias podem se tornar algo ruim. Não queria ver o Kauan crescendo com esse sentimento, portanto, querem sempre propor algo melhor - e que elas não tiveram, na sua infância, como escolher. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Pamela

  • Mariana e Thalassa

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mari e da Thalassa, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Entenderam que para o relacionamento acontecer de verdade precisavam ter uma comunicação muito ativa e transparente. Mesmo em dias ruins, tentam conversar antes de dormir e dormem abraçadas. Thalassa diz o quanto se sente completa: na casa, com os cachorros, as plantas, tendo o carro, tudo. Entende que é uma mulher adulta que conquistou o que sonhava. Ela fala também sobre o quanto aprendeu a admirar a Mari, a persistência dela e a forma que lida com as coisas. Para a Mari, amar é ter cuidado, ter respeito. Tenta sempre entender o ponto de vista da Thay sobre as coisas do mundo. Amar é um exercício diário. Por fim, falamos sobre o amor ser um mosaico - tem a risada, o tempo, o respeito, a compreensão, a lealdade… não tem como falar dele sem todas as coisas que completam. Cada parte é importante para construir o todo. A história da Thay e da Mari te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Thalassa tem 32 anos, é professora de biologia e ciências para alunos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Está atualmente no chamado “ensino híbrido”, do qual a carga de trabalho é muito maior que em tempos comuns (que já é grande!). Ela trabalha em Niterói e mora próximo ao Recreio, é uma distância longa, costuma demorar 2h para chegar (mas já chegou a demorar 5h, em dias de trânsito). Fala sobre como é ser professora no Brasil e como os desafios triplicaram na pandemia. Mariana tem 27 anos, é bancária, trabalha com abertura de empréstimos. Está cursando psicologia e fala sobre a vontade de ouvir e poder auxiliar pessoas. Trabalhar com o público não é fácil, ainda mais em grande escala. Existem muitos desafios e com a modernização dos aparelhos bancários e precisamos sempre exercitar o cuidado com todos os tipos de público, entendendo suas especificidades. Mari cuida muito de si, quer viver com tranquilidade. A maior dificuldade que elas passaram foi quando decidiram morar juntas, em janeiro de 2015. O dinheiro era muito curto e precisavam mobiliar a casa, Thalassa chegou a pegar diversos freelas - sendo Uber, professora em outros lugares... foi um momento bastante turbulento. Se conheceram de uma forma um tanto quanto aleatória. A Thay ainda mantinha uma amizade com a ex namorada e a Mari ficava com essa menina (tá ouvindo esse barulho???? é o som do rebuceteio!). Na época, a Thay já namorava outra pessoa e conhecia a Mari porque já estiveram entre amigos algumas vezes. A menina (amiga/ex de Thay e amiga/atual da Mari) estava de aniversário e elas foram numa festa comemorar (a Thay e a namorada + a Mari e a aniversariante), mas ambas se meteram em confusão, a Thay já não andava bem no relacionamento, brigaram na festa e ela optou pelo término. Enquanto a Mari acabou ficando no canto e um pouco chateada por outros acontecimentos simultâneos. Ambas se viram sozinhas e o que restava era aproveitar a festa juntas. Alguns outros amigos chegaram para aproveitar a noite com elas e numa brincadeira, inventaram de todo mundo se beijar. Até então tudo bem, afinal, estavam só se divertindo. Mas quando a Mari e a Thay se beijaram, logo se sentiram totalmente diferentes, algo único. Não entenderam muito bem o que era esse sentimento/essa sensação, mas passaram a noite juntas aproveitando a festa. Nos dias seguintes elas continuaram se encontrando. Por um momento foi até meio escondido, com medo das pessoas saberem, mas depois entenderam que não tinha outra saída, ficariam juntas. Hoje, 7 anos depois, o sentimento é o mesmo. Quando fui encontrar a Mari e a Thay, não imaginava que iria gostar tanto (delas e do lugar). Marcamos num horto, no Rio de Janeiro. Com espaço para café (e cervejas), foi lá que nos sentamos para conversar. Elas tinham escolhido este lugar porque amam plantas, cuidam de vários tipos e espécies e falam sobre a importância de respeitar o tempo da terra e da natureza. O amor que passam para as plantinhas é de um jeito muito especial, gostam de usar os temperos na hora de fazer comida, esperam ansiosamente as frutas crescerem… acreditam que mexer na terra e acompanhar esse processo faz com que a gente aprenda a ter mais respeito pelo mundo. Depois que elas descobriram o horto, na primeira vez que vieram (ainda moravam longe), se apaixonaram. Agora, por morarem muito próximo dele, criaram uma memória afetiva forte e tentam frequentar o máximo que podem. Tanto a Mari, quanto a Thay são pessoas muito tranquilas. Moram com seus bichos, têm suas rotinas de trabalho… e também são mulheres muito divertidas. Elas acreditam que o encontro que tiveram nessa vida foi um fenômeno da natureza - a partir do primeiro beijo tiveram certeza que ficariam juntas. < Mariana Thalassa

  • Melina e Karyne | Documentadas

    Melina e Karyne se conheceram há cerca de dois anos, mas só começaram a se relacionar de fato no ano passado. Foi num famoso bar com karaokê em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, que elas se esbarraram. Sem amigos ou conhecidos em comum, Melina viu Karyne cantando e falou para os amigos dela o quanto “era bonita e poderia ser a mulher da minha vida”. Depois que ela saiu do palco, Melina ficou procurando ela pelo bar mas não encontrou, até que na hora de ir embora viu ela numa mesa, com alguns amigos… criou coragem, foi falar com ela e pediu um beijo. O beijo aconteceu e ficaram juntas um tempo, depois trocaram perfis no Instagram (e Karyne estava com seu perfil desativado, acabou passando um que usa para publicar seus desenhos), trocaram algumas conversas e começaram a se encontrar aos poucos. Como havia uma boa comunicação quando saiam juntas, falavam sobre não estarem em um momento que desejavam um relacionamento, não era prioridade para as duas. Se encontrar da maneira que estava rolando, uma vez por mês, quando a Karyne respondia as mensagens que Melina enviada, acabava sendo confortável - e quando saiam se divertiam juntas, iam à cinemas de rua (como o lugar em que fizemos as fotos), espaços culturais e bares. Assim seguiram durante um ano. Hoje em dia, estabelecer essa comunicação franca ainda está nos seus principais objetivos enquanto casal. Entendem que são pessoas culturalmente diferentes, que uma é mais fechada que a outra e que só vão se abrindo aos poucos. É por isso, também, que tratam com muito cuidado os momentos difíceis porque sabem que possuem formas diferentes de lidar. Melina estava com 26 anos no momento da documentação, é natural de Niterói - RJ e é atriz. Atualmente está se formando numa escola de teatro (como curso técnico) e este ano vai iniciar os estudos em teatro na universidade. Independente do estudo acadêmico, faz teatro desde os 8 anos de idade e já deu aulas tanto de teatro, quanto de violão (e adora trabalhar com o que envolve educação e arte) explica que foi educada envolta de muita arte e não se vê longe disso. Quanto aos hobbies, adora jogar vôlei e desenhar. Karyne estava com 24 anos no momento da documentação, é natural de São Gonçalo - RJ e se formou em Publicidade. Hoje em dia, faz uma pós-graduação em comunicação e linguagem visual em semiótica, e por mais que não esteja trabalhando no momento, possui experiência como social media, professora de inglês e comunicadora em agências. Seus hobbies permeiam a arte, o desenho, a pintura e a moda. Adora criar coisas. Inclusive, junto com a Melina, trocam diversos presentes cheios de detalhes e coisas que elas mesmo fizeram. Quando começaram a sair, em março de 2022, o primeiro encontro foi num evento circense no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) no Rio de Janeiro. Por mais que já haviam se beijado no bar, estavam muito nervosas e mal conseguiram chegar perto uma da outra. Karyne explica que Melina foi a primeira menina que ela beijou depois de se assumir, pois passou muito tempo na igreja e foi na pandemia que ela entendeu e se abriu com a família sobre quem era, então ficava bastante nervosa, era tudo bem novo. Todos os primeiros encontros eram marcados pelo nervosismo de ambas e ficavam se cobrando que “não precisava desse nervosismo todo, era só viver o encontro”, mas quando chegava a hora ele falava mais alto. Por conta disso, demoraram um tempo para se beijarem novamente, mas todos os encontros eram muito divertidos e sempre sentiam vontade de se ver mais. No início de 2023 foram ao cinema e tiraram a primeira foto juntas. Karyne, depois desse dia, passou um tempo em São Paulo e elas começaram a interagir mais de forma online, conversar bastante e sentem que foi aí que tudo mudou. Quando ela voltou, saíram novamente, foram em espaços culturais e não pararam de se encontrar por conta da conversa que mantinham o tempo todo online. Entendem que precisavam desse tempo até a relação começar porque realmente não estavam preparadas/e nem queriam se relacionar antes. Depois que começaram a se aproximar mais, fizeram piquenique juntas e já se viam completamente apaixonadas. Num dia foram ao show da cantora Liniker, que aconteceu de forma gratuita na praia e por mais que tenham passado muito perrengue para conseguir voltar para casa, se divertiram e entendem que nesse dia já queriam começar o namoro. Foi no evento, também, que Karyne conheceu a irmã da Melina e muitos dos amigos delas. Além dos amigos, Karyne conheceu toda a família da Melina logo no começo do relacionamento, esteve presente em aniversários e todos adoram ela. Nessa mesma época em que estava introduzindo Karyne na sua vida, Melina fazia provas e apresentação de teatro no curso e Karyne ia assistir. Foi num dia desses, quando chegaram em casa que Karyne pediu Melina em namoro e Melina cantou uma música que fez pra ela. Falaram “eu te amo” juntas. Tanto a Melina, quanto a Karyne, desejam seguir caminhos na relação que não refletem coisas que já viram ou vivenciaram, por exemplo: briga dos pais. Por isso, fazem muita questão de sentar, conversar, escutar, compreender… Karyne não tem a aceitação da família - e já até perdeu as esperanças quanto à isso - porque possuem um pensamento muito conservador e seguem os padrões da igreja, mas entende que isso leva tempo. Para Melina a realidade é outra, por mais que tenha sido muito difícil ter se assumido, os pais possuem uma cabeça mais aberta e, por mais que também frequentem a igreja, acreditam que elas precisam se sentir seguras em casa antes de qualquer outro lugar. Independente da não-aceitação da família da Karyne, ela se assumir e conversar com a família fez também com que se aproximasse de outros familiares que a aceitaram (como a prima que também é casada com uma mulher e a tia que já reivindicou o amor delas como algo natural, sem problema algum) e nesse sentido é muito bom ter apoio. Ela entende que existem coisas que precisou ceder para ser ela mesma, principalmente se as pessoas não respeitam, e está disposta a ser o que ela é, se aproximando de quem a respeita e quer ela bem. ↓ rolar para baixo ↓ Karyne Melina

  • Darlene e Viviane

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Darlene e da Viviane, quando o projeto passou pela Bahia!. Documentei a Vivi e a Darlene na casa delas, em Camaçari, região metropolitana de Salvador. Casa de número 13, assim como os anos de relacionamento que se completaram em 2023 e uma numerologia bastante presente. Foi entre uma longa conversa sobre a vida, a política, a pandemia e os carinhos dados ao Cazuza, o filhote canino que acompanha elas há dois anos, que me contaram um pouquinho sobre essa construção que vivem dentro do relacionamento. Relembram como eram diferentes no começo da relação e o quanto são felizes pelas mudanças que já viveram - Vivi era muito mais fechada, sente que até a postura era diferente, um tanto quanto travada. Hoje em dia, mesmo que quando conheça alguém ainda se sinta tímida, consegue se soltar e relaxar os ombros, ser ela mesma… Conta que até no próprio trabalho, por ser um ambiente majoritariamente masculino, conseguiu mudar de postura e se posicionar. Darlene reconhece que viver esse processo com ela foi um reconhecimento sobre si próprio muito grandioso e que amar também é respeitar, observar as individualidades e os pensamentos. Vivi conta que nunca imaginou viver um relacionamento tão duradouro - no começo era uma paixão louca, depois se tornou um companheirismo, aprenderam a respeitar limites, individualidades… e hoje em dia entendem suas rotinas de formas separadas, mesmo que conversem e compartilhem muito, desejam estar juntas. O que antes ela não imaginava viver, hoje não se vê vivendo sem. Viviane, no momento da documentação, estava com 47 anos. Ela trabalha com instrumentação industrial, com consultoria técnica e vendas. Atende o estado da Bahia, Sergipe e possui o foco na região do polo petroquímico. Conta o quanto sempre se viu nessa profissão majoritariamente masculina, e que começou sem nem escolher a área de exatas, mas pela necessidade de cursar algo e o curso técnico ser gratuito. A própria ausência de um curso superior no currículo a deixava muito insegura em relação às outras pessoas (inclusive à Darlene, que possui duas faculdades e sempre foi muito cobrada aos estudos pela família), então depois de um tempo resolveu cursar algo que realmente gostava e se formou em História, descobrindo uma grande paixão pela história da América Latina. Mesmo com a formação, segue trabalhando na empresa, já com um bom cargo dado em razão ao mérito. Darlene, no momento da documentação, estava com 37 anos. Ela se formou e trabalhou por muito tempo com secretariado executivo, mas não se sentia valorizada o bastante na profissão. Hoje em dia é esteticista, profissão cujo surgiu de um jeito aleatório e engraçado, segundo elas. Estavam num daqueles sites de compras coletivas (como o Peixe Urbano, Groupon…) e compraram uma limpeza de pele. Darlene foi fazer primeiro e saiu de lá com o rosto completamente inchado, o procedimento certamente tinha dado errado. Resolveu pesquisar sobre o valor que tinha sido cobrado, viu que era realmente muito inferior ao mercado e pesquisou cursos de esteticista. Foi assim que chegou até a faculdade e a profissão que possui hoje. Na época em que começou a atender, Darlene ainda trabalhava com carteira assinada e ao sair do trabalho às 18h ia atender seus clientes, porém, a demanda na área da estética ficou muito maior que o esperado e acabou saindo do emprego e trabalhando de forma autônoma. Deu muito certo, conseguiu se manter assim por bastante tempo, até que a pandemia de Covid-19 chegou. Infelizmente, na pandemia perdeu boa parte do investimento feito nos produtos pelo tempo que ficou em casa e por terem um prazo de validade limitado. Isso a deixou muito triste com o passar do tempo, por mais que tentasse se restabelecer de todas as formas. Hoje em dia, segue tentando manter seus clientes e fazer seu trabalho de esteticista, mesmo que as marcas da pandemia ainda apareçam de vez em quando. Elas contam como a pandemia foi algo muito marcante na rotina de casal que viveram. O começo enfrentaram bem, transformaram a casa quase que em uma academia e toda a ansiedade ou empolgação virava motivo de treino. Focaram, malharam, pensaram que tudo poderia passar logo. Foram tentando se manter bem durante todo o ano de 2020 e o começo de 2021… Mas, entre 2021 e 2022 sentem que as coisas foram desandando. Passaram por mudanças, apertos financeiros por conta de não conseguir voltar ao mercado de trabalho, foi realmente muito difícil. Sentem que se não fosse a conversa, não conseguiriam passar pelos problemas. Tem dias que sentem a necessidade de estar distante, enquanto outros dias o grude é demais - e são nesses momentos que entendem a base que construíram: sólida e resistente a tudo. Vivi trabalha há muitos anos de home office, então comenta o quanto notou uma diferença significativa após 2020. Por mais que não frequentem tanto Salvador, a mudança vem dos espaços de casa em si, o condomínio onde moram, as ruas da cidade…Antes durante a semana as casas eram vazias e não eram tão pensadas no nosso bem-estar, enquanto hoje mesmo durante semana são mais movimentadas, melhor pensadas e investidas. Foi em 2010, quando a Darlene foi assaltada e avisou os contatos por e-mail que estava sem celular, que ela e a Vivi conversaram de fato pela primeira vez. Ela recebeu uma resposta super solícita e solidária, falando dos medos de assalto, e entendeu que a Vivi era moderadora de uma comunidade no Orkut chamada “Beco dos Artistas”, um espaço LGBT super badalado na época, mas não eram próximas. A partir de então, começaram a trocar e-mails, MSN e conversavam quase diariamente. Na época, Vivi tinha acabado de sair de uma relação e Darlene ainda estava em uma, então não foi nada fácil, o futuro era totalmente incerto. Elas estavam ansiosas e marcaram de se encontrar. Na madrugada anterior, conversaram até o dia amanhecer. O primeiro beijo aconteceu de forma mágica, no trânsito enquanto o semáforo estava fechado, também passaram um tempo tomando açaí e conversando muito. Na semana seguinte era aniversário da Darlene e a Vivi deu um sapo de pelúcia para ela (que tem até hoje!) e, mesmo de forma complicada no início, com os términos dos antigos relacionamentos, começaram a namorar. Viveram vários processos, chegaram a se separar no começo, para voltar e nunca mais desgrudar. Vivi conta que era muito ciumenta e aos poucos foi entendendo que não deveria ser assim, que vem de uma criação muito diferente (por ter se assumido nos anos 90, ser tratada como doença, ter que ir à psicólogos e passar por muitos preconceitos) e que agora as coisas poderiam ser diferentes. Explica que aprendeu a pensar mais no amanhã e que a relação trouxe uma virada de chave, outra visão sobre as coisas e sobre a vida. Atualmente, amam os detalhes da vida de casal. Desde o quanto são diferentes ao ponto de se a Darlene não marca os médicos, a Vivi não vai. Até o quanto uma aprenderam a lidar com o mau-humor matinal da outra. Sentem que tudo faz parte da rotina da vida que formam juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Viviane Darlene

  • Bruna e Mariana

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Bruna e Mariana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Mesmo a Mariana e a Bruna estando juntas há um tempo relativamente curto, elas já viveram diversos momentos no relacionamento - inclusive, no período que nos encontramos até o momento da história delas ir ao ar, várias mudanças também aconteceram! - e entendem que esses processos vêm sendo muito importantes para a construção delas enquanto um casal. A Mari tem 26 anos, nasceu no Rio de Janeiro, é lojista, estava trabalhando em uma loja no shopping, e também realiza trabalhos enquanto ilustradora. As pessoas encomendam ilustrações com ela para presentear quem amam (e ela adora desenhar, por isso, sonha em um dia transformar o talento e aprender a tatuar). A Bruna tem 28 anos, também nasceu no Rio de Janeiro e trabalha com comunicação e marketing nas redes sociais, de forma autônoma. Juntas, elas aprenderam a desbravar a cidade e conhecer novos lugares: os espaços culturais do Rio (como o que fizemos as fotos), explorar espaços urbanos, ir em museus, restaurantes e cinemas. O começo do namoro aconteceu em março de 2022, mas se conheceram em janeiro, quando ambas decidiram que não queriam namorar ninguém (enfim, as contradições da vida, né?!). A Mari, durante uma conversa no trabalho, baixou o aplicativo: Tinder. Foi uma brincadeira, para provar que era fácil de usar. Ficou nele literalmente três dias e deu “match” com a Bruna. Resolveu conversar, mas fora da rede social, pois logo iria excluir. O que mais chamou a atenção ao começarem a conversar foi o motivo de estarem muito próximas (e de morarem muito próximas, na região da Maré, no Rio de Janeiro). No aplicativo aparecia 1km de distância e nunca tinham encontrado alguém assim, as pessoas sempre apareciam mais distantes - e brincam também sobre aquela situação de que mulheres se apaixonam muito à distância - então valorizaram estarem próximas. Além disso, tinham outra coisa que valorizavam também: a terapia em dia. Bruna conta que se encantou com a beleza da Mari e logo quis encontrá-la. Elas marcaram, se deram muito bem, não pararam de conversar um minuto e decidiram se ver mais vezes. Logo nas primeiras semanas em que estavam se conhecendo, viajaram, ficaram distantes, mas continuaram conversando muito… E então entenderam que isso poderia ser um começo de paixão. Mas deixaram tudo fluir com muita calma e sem pressão. Um tempo depois, a Mari resolveu convidar a Bruna para o aniversário dela. Foi uma decisão de última hora, porque ela tinha uma certa frustração com aniversários: sempre convidou pessoas com quem estava se envolvendo e essas pessoas nunca foram, falavam que aniversário era algo muito sério, não era “espaço para ficante”, portanto não iam. Dessa vez, foi diferente, ela convidou e a Bruna logo topou. Assim, a Bruna conheceu os amigos da Mari e todos se deram bem. Como o aniversário delas é próximo, ela também foi na festa da Bruna e também conheceu o grupo de amigos dela, então todos interagiram e foi ótimo. Nesse processo inicial, a Mari passava por mudanças de casa, então a Bruna acompanhou toda a adaptação do novo lar. Foi quando decidiu pedi-la em namoro, já que estavam construindo um relacionamento mais concreto. Foi com um bolinho, escrito: “Aceita ser promovida a namorada?” que a Mari disse sim. Hoje em dia, a rotina da Mari e da Bruna não estava sendo nada fácil. Mari trabalhava em uma loja que exigia muito do corpo físico e mental dela: pela rotina puxada e cansativa que envolve uma escala de trabalho em Shopping, e também por enfrentar diversos comentários. Mari acredita que para amar outra mulher é preciso ter muita força, não apenas no enfrentamento aos preconceitos, mas no entendimento de que não há nada de errado no amor. Bruna fala sobre o quanto viver essa rotina com a Mari ensinou que amar é também priorizar, pois com a relação delas, aprendeu o que é incluir alguém em tudo o que faz: nos planos, no dia-a-dia, no compartilhar das coisas, e até na busca por um novo emprego para sair dessa rotina cansativa (conseguiram, ufa!!). Ela entende o amor das duas enquanto um amor político, porque ama a Mari por muitas coisas, inclusive por ela ser uma mulher. No começo, sentiram diversos receios e medos para postar fotos juntas, assumirem-se nas redes, mas depois não houve mais motivos para esconder isso - o amor delas é muito maior. Depois, quando postaram, a família super apoiou. Hoje em dia, ainda existe o medo, é claro: da violência nas ruas, do transporte… sonham em aproveitar a cidade com segurança, sendo quem são, mas não deixam de amar e de seguir pegando nas mãos quando saem na rua. ↓ rolar para baixo ↓ < Mariana Bruna

  • Marina e Patrícia | Documentadas

    Patrícia, no momento da documentação, estava com 35 anos. É natural do Rio de Janeiro e trabalha em uma empresa de máquinas de cartões, enquanto líder de equipe de atendimento ao cliente. Ama praia, música, sair e ir até o bairro boêmio do Rio (a Lapa), assistir desenhos animados e estar com os amigos. Marina estava com 32 anos no momento da documentação. Também é natural do Rio de Janeiro, trabalha em uma empresa de moda, na área de logística, e gosta de passar seu tempo livre assistindo vídeos no YouTube, pesquisando coisas relacionadas à natureza e praticando esportes. Adora caminhar pela rua, ver pessoas e é apaixonada por assuntos holísticos e espirituais. Elas costumam dizer que não estão uma contra a outra, mas sim as duas contra o que for. Mari acredita que é uma pessoa que precisa parar para pensar, enquanto Pati precisa falar primeiro, mas fazem o tempo todo o exercício de caminhar ao contrário: uma para para pensar enquanto a outra tenta verbalizar. Se esforçam ao máximo para ter conversas difíceis, que impactam, porque entendem o quão importante é. E ressaltam que não tinham vivido algo assim até hoje. Aprendem, nessa relação, que amar é estimular o crescimento espiritual uma da outra. É o que mais acontece diariamente, mas não é linear: a vida em si implica altos e baixos. Estão juntas nesses processos e são neles que encontram as confianças que possuem. Neles, também, desenvolveram a liberdade em dizer não. Se permitem vivenciar, dividir tarefas, impor limites, saber seus direitos e suas vozes e, principalmente, amar todas as suas versões, respeitar o que verdadeiramente são. Foi em 2020 que Marina e Patrícia se conheceram, sendo colegas na empresa que Pati segue trabalhando até hoje. Chegaram a compartilhar o cargo de liderança, se tornando amigas, mas nunca muito próximas, até que em 2021 Patrícia tirou férias e quando voltou soube que Marina foi desligada da empresa. Teve uma crise de choro abrupta, ficou muito triste, mas nunca chegou a mandar uma mensagem, viveu aquela tristeza em silêncio. Por mais que não fossem super amigas e tivessem vidas bem diferentes - Marina era bem tímida enquanto Patrícia era muito sociável, vivia saindo com os colegas - rolava uma admiração mútua muito presente entre elas, e por isso se mantiveram nas redes sociais. Passados alguns meses, a vida da Marina seguiu diversos rumos diferentes e num dia ela resolveu mandar uma mensagem para a Patrícia perguntando o seguinte: “Amiga, como mulheres com mais de 30 anos, solteiras, flertam?”. Patrícia respondeu: “Olha, não sei, tô solteira há 10 meses e se eu soubesse eu não tava, né?!... “ Mas resolveu dar umas dicas de aplicativos de relacionamentos, flertes etc. Na versão da Mari, ela estava se curando porque passou por um período bem mal mentalmente e pensou na Pati porque era uma referência de pessoa legal pra ela, bem relacionada, queria voltar a ter pessoas legais por perto e também estava aproveitando sua própria companhia, a solitude… Pati aproveitou a retomada de contato e chamou-a para ir no seu aniversário, pensando que ela jamais toparia, já que não saía nem quando trabalhavam juntas… até que Marina topou, mesmo indo sozinha. Alugou um hotel na Lapa para já passar o final de semana pelo centro, poder beber sem pensar em voltar para o bairro mais distante que morava, foi pra curtir mesmo, sem passar perrengues. Quando ela apareceu no aniversário, Patrícia não acreditou. Estava dando atenção para os convidados, mas focada na Marina (e muito nervosa). Um amigo disse que ela estava dando mole, Pati foi ficando em pânico e o amigo incentivou, depois de muita insistência, elas se beijaram e aconteceu - até demais. Se beijaram a festa toda! Foi no aniversário dela, em 15 de julho de 2023, que tudo começou. E desde então: beijou, noivou, casou. Mari explica que quando entrou lá no aniversário sentiu: “Não sei o que tá acontecendo mas… Tô apaixonada pela Patrícia”. Patrícia fala sobre a insegurança, ela jamais esperava que a Marina estaria querendo ficar com ela. Teve a iniciativa de comprar 10 tequilas para todos beberem e ela e a Marina também, assim isso as aproximaria para o beijo acontecer. E mesmo com as bebidas, com os amigos em volta, Pati ainda estava paralisada, tinha medo de dar tudo errado. No fim, depois de dar certo e ficarem a festa toda, cada uma foi embora (Pati com as amigas e Mari para o hotel). No dia seguinte, sábado, Pati foi para a festa de família… e domingo, para um samba na feira com outros amigos. Queria muito mandar mensagem para a Marina, mas os amigos falaram para ela não mandar em tom de crítica, “porque sapatão já quer ficar junto, namorar etc”. Ela passou o dia esperando um sinal da Marina, um post, qualquer coisa… mas era óbvio que Marina não iria postar nada, estava em casa, geralmente não postava. Em resumo: ficou triste no samba, esperando uma mensagem chegar. Segunda, Marina, que também esperava uma mensagem, sinal de fumaça, ou qualquer coisa semelhante, tomou iniciativa: postou uma música que Patrícia gostava, esperando a interação acontecer. E deu certo. Logo nos primeiros dias, os amigos da Patrícia já estavam totalmente contra qualquer início de relação que poderia ser, pois achavam que ela poderia se machucar. Patrícia havia terminado um relacionamento longo há poucos meses e não havia se relacionado com muitas mulheres depois disso, entrar de cabeça numa relação era arriscado e ela já estava envolvida por uma mulher que tinha beijado apenas uma noite, por mais que conhecesse há anos, então eles eram totalmente contra. Mas de que adiantava falar? Ela continuava envolvida. Elas seguiram conversando e queriam muito se encontrar, mas não sabiam como. Foi numa conversa que Pati contou o quanto amava praias, sonhava morar em Búzios e disse que gostaria de estar com a Marina numa praia em algum momento. Ela respondeu que já estava nessa praia, era só dizer o dia e a hora e elas marcaram para o domingo seguinte. Quando chegou, Pati foi até um quiosque (onde nos encontramos para fazer as fotos), estava muito nervosa e bebeu uma cerveja como se fosse água no deserto. Sentia que Marina não chegava nunca, mandou uma mensagem para a amiga, dizendo: “Por que caralhos mulher atrasa?” E Marina chegou, vestindo a mesma roupa que usava no dia que nos encontramos para documentar essa história, lendo a mensagem por trás dela, dizendo em voz alta: “Não tô atrasada”. Mesmo com o nervosismo e o susto no primeiro momento, elas comeram, beberam, tiveram um encontro ótimo. Ficaram horas no quiosque. Foram na praia. Reservaram um hotel à noite, ficaram muito nervosas o dia todo. E deu tudo certo. Depois do primeiro encontro, seguiram se encontrando com maior frequência, trabalharam juntas no formato híbrido, um mês depois Pati pediu Marina em namoro (em agosto) e em outubro, numa viagem para Búzios, estavam no show do Leoni, cantor que a Pati adora e Marina olhou pra ela de um jeito muito diferente, depois perguntou qual era o lugar favorito dela da cidade e foram até o píer. Lá, ficou muito nervosa e soltou logo de uma vez: “Quer casar comigo?”. Tudo muito rápido, por mais que cheio de detalhes envolvidos, só aconteceu. Em janeiro de 2024 foram morar juntas em Oswaldo Cruz, bairro carioca, próximo à família da Marina. Sentem que a família têm sido um suporte imenso e admiram muito o que constróem juntos, não pensam mais em ir para outro bairro, estar próximos deles é qualidade de vida. Em fevereiro casaram no cartório e afirmam: foi a melhor coisa que já fizeram. No começo, não pensavam em engatar o namoro, mas aconteceu… e conversavam muito sobre isso, sobre o medo que possuíam, sobre como era importante conhecerem as famílias, entenderem seus processos, e aos poucos viram que queriam mesmo estar juntas. Foi muito claro. Sentiam que não tinham mais tempo a perder, o que sentiam estava nítido. ↓ rolar para baixo ↓ Patrícia Marina

  • Carol e Joyce

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Carol e da Joyce, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quando conheci a Carol e a Joyce nos encontramos num museu em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro e ficamos um tempo por ali, conversando e fotografando. Passamos a manhã juntas e logo entendi que elas seriam pessoas das quais eu gostaria de ter como amigas de verdade, como uma das conexões que o Documentadas propõe trazer para todas nós. Um tempo antes da história delas ser lançada aqui no site, estive no aniversário da Carol e ouvi uma fala, vindo de uma amiga próxima, sobre elas, que ecoou durante alguns dias: “São pessoas que adicionam na sua vida. Sabe? Pessoas que acrescentam. Não estão ali por estar. Elas sempre somam em algo. Sempre te trazem algo, não passam despercebidas”. Ouvir essa fala sem-querer (até porque foi realmente sem querer, já que a pessoa não falou para mim, eu ouvi de puro enxerimento) foi como ouvir um conselho - e levei a sério: desde então Joyce e Carol já frequentaram minha casa, compartilhamos rotinas, chamamos para almoços de família e planejamos incansavelmente andar de skate aos sábados de manhã. Começo esse texto dessa forma não por ego e vontade de mostrar um começo de amizade, mas por acreditar que isso descreve muito sobre quem as duas são. Quando conversamos, aquele dia lá em Niterói, Joyce falou sobre o quanto, para ela, amor significa compartilhar. Também ceder, doar, mas principalmente pensar nesse coletivo. O amor delas é sempre coletivo, elas abraçam sonhos. Tudo o que uma sente, a outra sente, então nunca é “meu”, vira “nosso”. Elas falam no coletivo - e, quando eu falo com elas, também falo no coletivo. É um “tudo bem com vocês?” mesmo que eu esteja falando com uma pessoa só no Whatsapp. Essa partilha fala sobre a forma que elas querem sentir as trocas e as vivências e na nossa conversa a Carol explica também o quanto ela aprende sobre olhar mais o outro, ouvir mais o outro lidando com todas as pessoas, mesmo fora do relacionamento. Elas destacam o quanto esse “doar” e ser “coletivo” não é apenas sobre coisas materiais, sobre dinheiro e sobre posse. Mas doar tempo, doar afeto, estar presente. Contribuir de alguma forma para deixar as coisas um pouquinho melhores. E ver a diferença que isso faz, entender o quanto isso acaba refletindo na vida de quem é atingido pelas atitudes e por quem toma a iniciativa… o quanto elas se ajudam profissionalmente, o quanto as amizades delas são agregadas por pessoas com propósito e o quanto a relação delas é construída por puro afeto. A Joyce tem 35 anos e é carioca, natural de Duque de Caxias, na baixada do Rio. Ela é topógrafa, mas trabalha com muitas coisas - pedreira, marceneira, costureira, restauradora, faz-tudo, decoração… mexer com coisas em casa é com ela mesmo! Já a Carol tem 37 anos e é vendedora em uma operadora de celulares. Ela sempre morou no mesmo bairro (e na mesma casa!) em Niterói, por mais que a gente brinca muito por antigamente ela ter tido uma alma burguesa e vivido na utopia de quem morava no Leblon. Essa brincadeira existe porque elas se conheceram há 12 anos atrás numa festa em Madureira, lugar que a Carol jamaaaais frequentaria (justamente por só frequentar festas na Zona Sul, consideradas para um público burguês) e estava lá por um acaso, quando desceu para ir ao banheiro. Foi nesse caminho que viu uma menina atrás da Joyce e achou ser uma conhecida, foi em direção dela e a Joyce a “puxou”, lançou um papinho e elas ficaram logo de cara! A Carol brinca que o baque foi grande, a perna ficou bamba e ela nunca tinha sentido isso na vida! Então chegaram à conclusão de que precisavam do contato uma da outra, né? Mas para a juventude de plantão, a gente explica: lá no ano de 2009, não era tão normal sair com o celular, ou seja, nenhuma das duas tinha como anotar telefone ou MSN. Foi aí que elas chamaram uma amiga que também estava sem telefone, mas que garantiu que decoraria o número… e não é que decorou?! Na segunda-feira elas se ligaram (assim, por linha móvel) e começaram a conversar. Ou melhor, ficou uma coisa meio estranha, né? Segundo a Carol, existem fases: teve a fase do monólogo, a fase de ficar horas, a fase de não saber o que falar… foram momentos super diferentes, mas o ponto é: elas não queriam namorar, apenas estavam curtindo aquilo. A Carol saia para outros lugares e depois ia pra casa da Joyce em Caxias, a Joyce também saia… ficaram um tempo assim até que Joyce começou a namorar outra pessoa, ligou um dia e pediu que a Carol não ligasse mais para ela e nem aparecesse mais na casa dela. Assim. Foi forte, mesmo, viu?! E aí a Carol logo pensou “Como assim, namorando??” e a ficha dela caiu por completo: “mas quem quer namorar você sou eu!”. Ela foi atrás e investiu: deixou claro o sentimento e pediu a Joyce em namoro. A Joyce aceitou e elas começaram essa aventura que vem durando 12 anos. Nesse tempo todo elas já moraram em Caxias, já foram para o interior do Pará por conta do trabalho da Joyce e ficaram lá por 1 ano (mas, pela adaptação difícil, voltaram ao Rio) e hoje em dia estão morando juntas em Niterói, com seus dois gatos e um lar muito aconchegante. A Carol comenta que acredita agora estar vivendo a melhor fase de todas no relacionamento delas, ou pelo menos, a mais saudável. Elas adoram andar de skate, de bike, acampar, fazer trilha, cross, rapel e pegaram muito gosto pela corrida. A Joyce passou por uma cirurgia para redução de peso e a Carol a acompanhou nesse processo passando também pelas dietas alimentares. Elas falam sobre como é um corpo gordo estar no esporte, como se sentem felizes fazendo trilha, andando de skate, fazendo rapel. E como se sentiam inseguras quando vestiam os equipamentos e recebiam olhares. Hoje em dia, tentam reafirmar cada vez mais o esporte como uma necessidade e um hábito para o corpo ser saudável e motivo de felicidade semanal para as duas. A Carol brinca sobre o espírito aventureiro da Joyce tornar a frase mais utilizada ultimamente ser “Joyce, cuidado!”, mas mesmo ficando preocupada, sabe que ela faz porque ama. E reforça o quanto a corrida têm salvo ela do estresse, principalmente em meio a pandemia. Por mais que elas já viveram diversas fases no relacionamento, sendo baladeiras, viajadas, morando em outros lugares e se permitindo outras coisas, viver algo mais voltado à saúde agora também está sendo prioridade porque elas começaram a perceber algumas coisas ao redor estarem um pouco diferentes. Isso aconteceu por pensarem sobre o envelhecimento. Elas querem se ver com saúde ao envelhecer e querem estar dispostas para fazerem as coisas sozinhas. Entendem que serão só as duas, que não podem contar com muitas pessoas, então o corpo é um aliado fundamental e precisa estar bem. No fim da nossa conversa a Carol falou sobre a união delas e sobre o amor - o amor em si ela enxerga como Deus, porque Deus está em tudo o que ela faz e quando ela coloca Deus nas coisas, essas coisas dão certo - e a união delas é como a luz da vida dela. A Joyce é uma pessoa que sempre traz ela de volta para onde ela deve estar (e o relacionamento traz muita vida à ela). Quando pergunto sobre onde é esse lugar que ela deve estar ela explica que é: “No pensar nos outros, na natureza, nos meus propósitos e justamente em me envolver com os meus propósitos. Me envolver no que estamos querendo deixar para as próximas pessoas, as próximas gerações, porque nada é em vão também. É reinício, reconstrução, fortalecimento.” Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Joyce Carol

  • Julia e Eduarda

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Julia e Eduarda, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Júlia e Eduarda estão juntas há 8 anos e no momento da documentação estavam morando em uma casa na Ilha do Governador, junto com seus cães Boris e Caju. Contam sobre quantas Júlias e quantas Dudas já existiram durante esses anos de relação, vidas já viveram e muito amadureceram. Nunca foram pessoas que dão muito valor aos bens materiais - desejando o carro do ano, a viagem mais cara… - suas prioridades envolvem a casa cheia de gente, almoço em família, um domingo recebendo os amigos e as confraternizações em si. Duda conta que quando chegou na família da Júlia descobriu que por lá tudo era ‘muito’. Sempre foram muito unidos, sempre contavam um com o outro para tudo. São pessoas intensas. No relacionamento e na vida em si elas enfrentaram muitos desafios desde o primeiro momento (cuidar dos avós da Júlia, viver com o luto, começar um novo empreendimento em meio à pandemia…) e sentem que tudo isso só foi possível de sobreviver por conta do amor. As relações que mantém são pautadas no amor. E isso está longe de representar algo sempre feliz, mas sim um espaço cabível de erros, que nos dias mais difíceis ou mais rudes o amor continue ali. É uma coisa natural: se sentir aceita da forma que você é. Júlia, no momento da documentação, estava com 31 anos. É natural do Rio de Janeiro e trabalha enquanto professora de matemática e física, dando aulas particulares. Já trabalhou em escolas, mas prefere seguir com aulas particulares porque acredita que cada criança possui uma maneira de aprendizado. Tem vários alunos adolescentes e crianças, entre eles alguns com espectro autista e desenvolve um trabalho específico individual, atendendo suas demandas. Trabalha na cidade do Rio de Janeiro, mas também faz aulas online. No mais, preenche sua semana com a grande paixão pelo Fluminense e não perde um jogo. Eduarda, no momento da documentação, estava com 30 anos. Trabalha enquanto maquiadora, fazendo maquiagens sociais e artísticas há mais de 8 anos. Fez faculdade de teatro, mas acabou num curso de maquiagem e percebeu que a maquiagem sempre esteve presente na sua vida. Além disso, adora diversas outras formas de arte, como pintar, fazer miçangas, artesanato… E também passa bastante tempo cuidando das plantas ou cozinhando. Foi em 2015 que elas se conheceram, por conta de uma amiga em comum que queria muito apresentá-las. Depois que Duda terminou um namoro, elas conversaram pelo Facebook e decidiram se encontrar. Começaram a namorar com o passar dos meses e viviam muito tempo juntas no primeiro ano de relacionamento, até que decidiram morar na casa da família da Júlia. Inicialmente moravam no quarto da Júlia - e a Duda chegou mudando algumas coisas, tirando vários posters do fluminense… afinal, se iria morar lá, precisava estar à vontade no local. Tudo sempre foi muito conversado, ela foi se sentindo parte… e a casa em si foi mudando também. Surgiram demandas para cuidar do avô da Júlia, que estava muito doente, então a mãe acabou indo morar no apartamento ao lado com os avós da Júlia e as duas ficaram no apartamento em companhia do irmão. Foi então que começaram a mudar algumas coisas para além do quarto, sentir pela primeira vez que moravam num lugar delas e que as coisas eram responsabilidade delas. Mas ainda não havia completa noção sobre os gastos, as contas, já que tudo era feito em conjunto - viviam entre o apartamento em que moravam e o apartamento ao lado em que estava o restante da família. Depois de viverem o processo de adoecimento do avô, Júlia perdeu o pai para a Covid-19, em sequência o avô e a avó por outras doenças. Foi uma série de lutos em um ano muito difícil de lidar, principalmente pela avó, que foi algo inesperado e era a mulher que unia a família, uma base de admiração e carinho muito grande. Vivendo o luto entenderam que seria bom morar numa nova casa, ter um espaço só delas, algo que ainda não tinham tido a oportunidade de vivenciar. Respeitaram o processo da mãe da Júlia, que também sofria pelas perdas, e não queriam deixá-la sozinha - a solução foi arranjar um lar pertinho do apartamento, assim podem visitar o tempo todo. Só depois do luto em que vivenciaram, começaram a viver uma relação que era mais focada nas duas - e não que antes elas não vivessem juntas e com todo o carinho envolvido, mas a família sempre foi parte da vida. Contam que quando iam comer um pastel, por exemplo, não era um pastel > eram dez, levavam para todos. Uma pizza não era uma pizza pra elas, era uma pizza pra todos em casa. Sorvete sempre foi uma alegria comprar diversos potes e sabores… A relação sempre foi pensando em todos. Ter um novo lar é reaprender a pensar sobre elas e o que elas desejam. Duda conta sobre uma lembrança de um momento em que quebrou uma coisa na casa da Julia e que começou a chorar, porque na sua criação era muito cobrada para ter cuidado, brigavam se quebrava algo, era ruim, desastroso. Quando aconteceu, a sogra olhou e falou: “É bom quebrar, assim uma hora acaba o jogo e a gente compra um novo!”. Nunca tinha esperado isso ou pensado dessa maneira, foi aprendendo aos poucos a ter uma nova relação com as coisas e valorizar as pessoas. Júlia completa lembrando também do início, conta que para ela é muito importante as pessoas da casa almoçarem juntas à mesa, e que como isso nunca fez parte da criação da Duda, para ela não tinha diferença, às vezes não fazia questão. Isso deixava Júlia muito magoada. Foram alinhando isso, entendendo que era algo importante na relação. Medindo suas criações diferentes enquanto algo que pode somar uma à outra… e assim começaram a estabelecer uma melhor comunicação. Destacam o quanto se apoiam em tudo. Desde o primeiro ano de relacionamento, por exemplo, quando decidiram fazer uma viagem para o Uruguai e Argentina e decidiram que fariam maquiagens artísticas vendendo glitter no carnaval para conseguir bancar, até durante a pandemia, quando se viram sem emprego e fundaram uma empresa de doces que foi um verdadeiro sucesso e o sustento da casa durante um bom tempo. Entendem que precisamos doar o que queremos receber e que ouvir, acolher, são atos de amor também. Enxergam o amor enquanto tempo de qualidade na relação e se esforçam para compartilhar até o que não têm, por exemplo: sorrir num dia que as coisas não estão boas. Júlia cita “mesmo que a gente se embole amanhã, a gente continua sendo a gente” e explica que o amor está nisso, numa dedicação contínua e num entendimento/respeito pelo outro. Por fim, destacam o quanto vivem uma relação baseada no cuidado. Duda arruma os lanches da Júlia antes dela sair para dar aula… às vezes quando Júlia acorda já tem até café na cafeteira com um bilhete ao lado. Isso faz diferença porque passou muitos anos se alimentando mal quando saía para dar aula e agora sente que, para além de saudável, é um gesto que envolve muito carinho. ↓ rolar para baixo ↓ Eduarda Julia

  • Marina e Clara | Documentadas

    Raíssa e Lorena foram conectadas por uma amiga em comum, mas o início dessa história foi cheio de idas e vindas. Tudo começou no carnaval de 2015, quando Raíssa, curtindo a festa com sua amiga, perguntou se havia alguém interessante para apresentar a ela. A amiga sugeriu Lorena, mas logo avisou que ela estava "muito enrolada". Raíssa logo deixou claro: "Ah, não quero gente enrolada, não!" Meses depois, durante uma conversa na casa dessa mesma amiga, Lorena ouviu o quanto ela e Raíssa combinavam. Decidiu: pegou o celular e enviou uma mensagem - "Oi, queria muito te conhecer”. Raíssa aceitou, conversaram alguns dias e o primeiro encontro foi marcado, que acabou coincidindo com o aniversário de Salvador, e as duas se encontraram no show da Maria Bethânia, na praia da Barra. Cada uma levou um amigo, transformando o encontro inicial em um grupo. Em meio a tanta gente na praia, foi difícil se encontrar, mas depois de algum tempo finalmente se encontraram em um muro específico próximo ao show – lugar que inclusive fizemos algumas das fotos da documentação. Assistiram ao final do show e seguiram com os amigos para uma boate. Antes de saírem, passaram em casa para deixar o carro (que inclusive tinha dado problema no caminho, foi uma história à parte) e nesse momento, em casa, deram o primeiro beijo. Raíssa estava com 31 anos no momento da documentação, é soteropolitana de alma e coração. Atua na clínica, enquanto psicóloga, trabalhando com adolescentes e também em escolas, dedicando-se para um trabalho que ela acredita ter o poder de transformar o mundo. Foi ainda na faculdade, por meio da sua profissão, que ela começou a se enxergar como uma mulher negra e a se descobrir enquanto mulher que ama outra mulher. Além da psicologia, Raíssa adora estar em movimento: ama o mar da Bahia, os encontros de amigos em casa e, como dizem os baianos: é muito rueira - ama estar na rua. Lorena estava com 36 anos no momento da documentação. Nasceu em Remanso, no interior da Bahia, mas sua trajetória a levou para Feira de Santana e depois para Salvador. Embora formada em assistência social, Lorena encontrou sua verdadeira paixão na culinária, construindo um empreendimento de espetinhos, no condomínio do prédio onde elas moram. Brinca que foi cozinhando que conquistou Raíssa. Além da culinária, é apaixonada pela praia e pela energia do carnaval. Mesmo longe da carreira de formação, Lorena nunca abandonou seu interesse por política e adora mergulhar nos estudos sobre a cidade e seu funcionamento. Acredita que os seus propósitos e de Raíssa são muito ligados por conta das suas visões e entendimentos sobre a sociedade. Depois do primeiro encontro, tudo fluiu de forma leve e natural. Raíssa e Lorena descobriram rapidamente o quanto suas energias, pensamentos e perspectivas de vida estavam alinhadas. Compartilhavam opiniões políticas e sociais semelhantes, e isso reforçou a conexão. Na época, Raíssa estava cursando duas graduações (psicologia e serviço social) e uma das faculdades era próxima ao trabalho de Lorena, então logo no começo, quando ainda estavam se conhecendo, ela resolveu fazer uma surpresa e aparecer por lá. Esse gesto marcava o início de uma rotina com encontros em meio à correria diária que ambas viviam. Por mais que estivessem vivendo o frisson inicial, o primeiro ano de relação não foi fácil. Além das demandas da rotina intensa, Lorena ainda lidava com relacionamentos do passado que precisavam ser encerrados e precisava cuidar da sua saúde mental. Viveram diversos altos e baixos. Aos poucos, sendo honestas sobre quem realmente eram, conseguiram construir a relação e entender que realmente queriam seguir juntas. Ambas acreditam que a relação deu certo porque estavam dispostas a fazer acontecer. Os obstáculos eram muitos: questões familiares, saúde mental, responsabilidades acadêmicas e profissionais e o preconceito. Enfrentaram tudo juntas, fazendo verdadeiros malabarismos para equilibrar o amor com as outras prioridades. Hoje, conseguem dimensionar que essa dedicação mútua tornou possível a construção da base forte da relação. Antes da pandemia de Covid-19, Raíssa já atendia como psicóloga, mas, com o início da quarentena, precisou migrar para o formato online. O desafio era enorme: dividia o quarto com as irmãs e não tinha privacidade para realizar as consultas, enquanto a demanda por atendimento psicológico crescia de forma expressiva. Lorena, por outro lado, viu sua rotina de trabalho ser completamente interrompida no início da pandemia. Para passar o tempo, começou a cozinhar como nunca, principalmente fazendo bolos. Ir ao mercado se tornou a maior das felicidades. Com o tempo, decidiram que o melhor seria Raíssa se mudar para a casa de Lorena e sua família, assim teria mais espaço e privacidade para seus atendimentos - por mais que também não fosse fácil administrar uma mudança e morar em um novo lar, com novas pessoas. O próximo passo aconteceu meses depois, em novembro, quando decidiram morar em um novo apartamento, dessa vez só delas. Seria a primeira vez que teriam um novo lar. Com o apoio de amigos e da mãe de Lorena, organizaram a mudança em tempo recorde: um único dia. Foram montando a casa aos poucos, com muito carinho e cuidado, até que se sentissem representadas. Esse período de transição foi marcado por muitos aprendizados. Juntas, revisitaram os desafios dos primeiros anos da relação - bastante intensos - e reconheceram como o tempo e o diálogo trouxeram maturidade. A construção do lar também significou um novo capítulo, onde ambas começaram a se abrir mais para novas experiências e aprender a dizer mais “sim” do que “não”. Agora, com o lar e o trabalho próximo de casa (os espetinhos no condomínio) estão com um novo modelo de vida. Adotaram uma gata (e desejam em breve adotar outros), sonham com viagens, novos desafios e, acima de tudo, experimentar e conhecer coisas juntas. Para Lorena, o amor está profundamente ligado às mulheres que fazem parte da sua vida. Ela se dedica a ser uma presença que reverbera coisas boas ao seu redor, e nada deixa mais feliz do que perceber como sua relação com Raíssa inspira e desperta sentimentos positivos nas pessoas próximas. Muitos chegam e verbalizam a admiração pelo respeito que elas possuem uma pela outra, as procuram para pedir conselhos e enxergam nelas um exemplo de cuidado e carinho… Então sente: Estão trilhando o caminho certo. Raíssa, por sua vez, reflete sobre como os processos de transformação que viveram juntas foram cruciais. O amor entre mulheres sempre esteve presente em sua vida, graças às referências que cultivou. Porém, ela reconhece que esse amor, por muito tempo, foi carregado pelas imposições da sociedade - controle, dominação, opiniões alheias sobre corpos e uma carga de expectativas. Isso ofuscava a visão que ela tinha sobre os relacionamentos amorosos. Hoje, ao lado de Lorena, celebra ter mudado as ações e alinhado os compromissos, entende que respeitam quem são, e que aprendeu a amar Lorena exatamente como ela é - sendo amada desta maneira também. Esse entendimento do amor transbordou: tornou-se uma nova forma de enxergar as mulheres ao seu redor. ↓ rolar para baixo ↓ Clara Marina

  • Babi e Maria

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Babi e da Maria, quando o projeto passou pela Bahia!. Maria e Bárbara enxergam o relacionamento como um grande divisor de águas: no começo, tinham muito medo de se relacionar. Os traumas, as inseguranças… tudo se misturava e acrescentava para que não quisessem um novo relacionamento. Não achavam justo começar algo se o passado ainda não havia curado. Aos poucos, foram tentando e acontecendo naturalmente. Acreditam que a amizade e o cuidado agiram curando os traumas de forma que nem sabiam que era possível e até mesmo quando os gatilhos eram despertados elas tomavam à frente e tentavam ter o máximo de cuidado uma com a outra. Por mais que se entendam enquanto pessoas muito diferentes, que possuem realidades, estilos e vidas diferentes, se encontram a partir dos propósitos que possuem em comum. Maria conta que desde o começo entraram de cabeça uma nos planos da outra e não se veem mais distantes, se incluem em absolutamente tudo. Compara-se frequentemente aos seus pais ou suas tias que possuem longos relacionamentos e amizades, sentindo que está desde já criando as próprias memórias com a Babi. Desejam ficar juntas de forma duradoura e ficam felizes em ver desde já as memórias iniciais que criam e compartilham. Bárbara, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela nasceu no interior de São Paulo, numa cidade chamada Espírito Santo do Pinhal, mas mora na Bahia há mais de dez anos. Trabalha enquanto modelo, é artista e babá. Também faz curso de enfermagem e quer muito ser doula - agora que a melhor amiga está grávida, finalmente está investindo nesse sonho que acabava deixando de lado. Maria, no momento da documentação, estava com 27 anos. Ela é do sul da Bahia, foi morar em Salvador há alguns anos e atualmente mora em Abrantes, uma vila em Camaçari, região metropolitana de Salvador e mesmo lugar onde a Babi reside. Maria trabalha como professora de inglês. Quando já estavam juntas, numa época em que nada estava dando certo na vida da Maria, ela procurava apartamentos para morar em Salvador e não achava, então Babi falou sobre apartamentos muito mais baratos e seguros (por ser em condomínios) em Abrantes. Ela cogitou ir, já que nada mais a prendia na cidade grande já que suas aulas eram online, e conseguiu se mudar. Hoje em dia elas moram no mesmo condomínio, em casas diferentes. Foi em 2022 que Babi, mesmo nunca gostando de aplicativos de relacionamento, resolveu baixar o Tinder no auge de sua solteirice. Ela estava em Salvador visitando uma amiga e logo deu ‘match’ com a Maria. Maria mandou um “Oi, tudo bem?”, ela não respondeu e Maria pensou “Nossa, que rude!”... 10 minutos passaram e Babi respondeu pelo Instagram: “Tudo, e aí?". Conversa vai, conversa vem, elas viram pelo aplicativo que estavam muito próximas, descobriram que na verdade era na mesma rua e decidiram se encontrar. Contam que nunca tinham feito isso, estavam com medo de ser um homem e/ou uma pessoa casada, mas no fim deu tudo certo. Bárbara avisou que estava saindo, Maria nem conseguiu se arrumar, abriu a porta e ela já estava lá. Ficaram com os amigos em casa, tudo foi bem divertido. Conversaram a madrugada toda, só se beijaram na hora de dormir. No dia seguinte estavam pensando que “Ah, foi uma noite legal e só”, mas logo nos próximos dias já se viram, se viram, se viram… E até hoje o maior tempo que ficaram distantes foi no máximo por uma semana. Um mês depois do primeiro encontro o pedido de namoro saiu… e acreditam que justamente pelo tanto que vivem juntas sentem que o tempo de relacionamento parece ser muito maior do que realmente é. Hoje em dia, Maria voltou a dar aulas presencial. Estão vivendo mudanças bem legais, adoram cozinhar juntas, fazer coisas artesanais, escrever poemas, tocar instrumentos, ficar com os gatos… Maria conta que vê a Babi como alguém que entrou na vida dela para melhorar tudo. Sua vida deu um salto de qualidade gigantesco. Babi completa que foi recíproco, ambas melhoraram. Maria ajuda ela nas questões familiares, ensina sobre a independência, sobre correr atrás dos seus sonhos e lidar com os pais corujas. Para Maria, todo amor é uma construção, não é algo que acontece de um dia para o outro. Fala do amor dos pais, o quanto admira-os e o quanto precisou ser reconstruído dia após dia, por exemplo, quando ela se assumiu. Explica que se viu amando quando percebeu que confiava sua vida à Babi, e fica muito feliz que a construção delas tenha acontecido de forma leve, porque são uma para a outra o que sempre foram para os outros e que os outros nunca foram pra elas. Por fim, querem ressaltar que o relacionamento é marcado por “Primeiras vezes” desde que se conheceram, ou seja, sempre possuem primeiras experiências juntas. Como: primeira sessão de fotos, primeira vez viajando juntas, primeira vez que a família conheceu alguma companheira, primeira vez que foram no Festival de Verão de Salvador… e que escolheram ir nos brinquedos para tirarem as fotos porque é um lugar que amam muito, que se sentem felizes e que podem ser quem são de verdade. ↓ rolar para baixo ↓ Bárbara Maria

  • Bruna e Sophia

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Bruna e da Sophia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Sophia quando pensa em inspiração vem logo a mãe dela na cabeça porque sempre foi a figura que representa todas as superações ao decorrer da vida (beijo, dona Maria Antônia!). Bruna também fala muito sobre a mãe e sobre a bisa - a pessoa que ela mais admira. Pensar na bisa é pensar na paz - era uma pessoa muito boa e querida por todas as pessoas, cujo também pensam nela com esse carinho enorme. A família delas têm lidado de forma respeitosa, tentando, aos poucos, entender. Elas também dão esse espaço e o tempo delas processarem as coisas. A mãe da Bruna hoje em dia adora a Sophia e até sente um pouco de ciúme. E o pai da Sophia chamou a Bruna para passar o último natal na casa deles. A relação delas é formada por uma comunicação muito aberta, falam sobre as outras relações, os traumas de vida, criam laços de fortalecimento. Acreditam que o amor é físico e inatingível. Sentem o amor e consideram algo muito sagrado - por ser imaterial mas por você conseguir sentir. “É um sentimento com vida própria”. Antes da pandemia voltaram mais uma vez ao MAM, durante uma abertura de exposição. Fizemos questão de fotografar exatamente no local que aconteceu o primeiro beijo, naquele quadrado, cheio de memória afetiva. Cantarolei Minha Pequena Eva enquanto fotografava. Conversamos muito sobre o nosso corpo ser político enquanto mulher lésbica e tudo o que isso envolve. Elas acreditam que o amor entre mulheres envolve um cuidado muito maior e acreditam que as relações requerem sempre uma manutenção, uma atenção diária. “O amor entre mulheres é algo que vem na gente, porque ninguém nunca nos ensinou como amar as mulheres, você apenas sente, e então ama”, diz Sophia. Ela comenta que não sabe olhar para o corpo de uma mulher como olham os homens e que já ouviu amigos falando “pô, então você nem gosta de mulher tanto assim, se não acha ela gostosa, se não olha pra bunda...”, e mesmo que ela saiba que isso não signifique nada, entende que ela não liga pra isso porque ela nunca foi ensinada a gostar de mulher como os homens são, ainda jovens, de acordo com o patriarcado - ou seja, não existe regras para nós gostarmos de mulher, nem manual de instruções, porque nem nos consideram (nós, mulheres que se relacionam com mulheres) dentro do sistema patriarcal. A Bruna conta que amigos homens já fizeram ela parar de trabalhar para olhar mulher bonita passando... e que o sentimento sentido foi de desrespeito e desconforto. Bruna contou que uma cidade feliz e ideal para ela seria uma cidade da qual ela possa andar na rua sem medo - que ninguém olhe feio, solte comentários quando ela passa. Ela quer andar com paz. Desde pequena ela se entende enquanto mulher lésbica e comenta que na escola, quando perguntavam o menino que ela gostava, dizia logo o nome do mais bonito e disputado, para assim ficar no canto com um descargo de consciência por saber que ele não daria bola para ela. Sophia tem 21 anos e é lojista, mas cursa Cenografia. É aí que acontecem seus trabalhos no carnaval: ajudando a montar os carros alegóricos. Bruna tem 21 anos também, é cozinheira em um restaurante na Barra da Tijuca, mesmo morando em Niterói - e faz essa jornada diariamente. Ela tem uma cabeça muito aberta, fala sobre amor, diz que amar é muito diverso e que quando você percebe, já aconteceu. Ela demonstra muito cuidado com a Sophia, principalmente cozinhando as comidas favoritas dela e fazendo receitas bem elaboradas (leia-se, um pão cor de rosa, com massa natural, porque é a cor favorita dela…………. pois é, não tem coração que aguente ler isso, foi difícil pra mim também segurar a vontade de abraçá-las). Ambas amam maquiagem e seu maior hobbie é fazer vídeos para o tiktok. Estão na rede social desde antes do grande boom durante a pandemia. Inclusive, vale citar, que o pedido de namoro foi feito por lá, já que estavam separadas pela quarentena. Carnaval no Rio, dia de chuva, tinder ligado, glitter no corpo, bloco lotado, passando pelo Museu de Arte Moderna (MAM). Imaginou a cena? Quando a música toca embaixo do concreto do MAM o eco é imenso. Você sente seu corpo todo tremer. Pessoas em cima de pernas de pau dançam ao redor no espaço entre a grama e a calçada. Ali, tudo faz sentido: de fato, é carnaval no Rio. Foi assim que Bruna e Sophia se conheceram pela primeira vez, entre chuva, tinder e bloco. Se encontraram no meio da multidão… e sabe o que faz tudo ser tão característico de uma cena real do carnaval? o primeiro beijo ter sido ao som de Minha Pequena Eva, contando com todas as pessoas ao redor cantando e pulando muito. Acho que uma das coisas mais instigantes nessa história toda é que a Sophia era crítica assídua do Tinder. Dizia que jamais serviria para algo e que não dava para esperar nada “dessas pessoas”. Melhor ainda é o fato de que elas moram muito longe uma da outra, se encontraram porque foi um dia do qual a Sophia foi até o centro da cidade e assim que a Bruna apareceu ela deu ‘like’ pensando: é bonita, mas sei que não vai dar em nada. A Bruna, pelo outro lado, assim que descobriu que a Sophia trabalhava em um barracão de escola de samba já queria pedir logo em casamento. Apaixonada pelo carnaval e pela Sapucaí, ficou empolgada ouvindo as histórias que Sophia contava. Bruna Sophia

  • Anik e Isa

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Anik e Isa, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! No início da conversa, Isabelle e Anik contam de onde surgiu a ideia dos nomes para os gêmeos Zuri e Nilo: ficaram muito tempo pensando referências que falavam sobre a ancestralidade da Isa, queriam nomes indígenas ou africanos, curtinhos como o nome da Anik, que significassem algo. Também pensavam no quanto a gravidez representou água, pesquisaram nomes de rios, sempre chegavam em diversos nomes femininos e também adoravam os nomes que serviam para ambos gêneros. Gostaram dos dois, e acabou dando tudo certo: ficaram felizes de gerar um menino e uma menina. Entendendo o projeto enquanto uma documentação do momento atual em que vivem, Isa e Anik fizeram muita questão de mostrar o quanto a gravidez foi parte de muita luta. Entendem que as crianças já possuem muita história antes mesmo do parto e que as mães sempre souberam que ia dar certo pelo quanto de energia que colocaram nisso. Mesmo que muita coisa tenha dado errado no caminho, continuaram sabendo o quanto resultaria em algo concreto/e correto pela energia que destinavam. Isa comenta o quanto deseja que as crianças sejam acolhidas em suas escolhas. Entende que não tivemos o mesmo privilégio e que por isso morremos em vários níveis durante a nossa vida, por isso quer proporcionar algo diferente à elas, começando pelo respeito. Escolhemos o lugar para fotografar como a Câmara dos Vereadores, no Rio de Janeiro, com essas roupas, para que as crianças vejam no futuro que a luta vem desde sempre para que elas possam ser quem desejam. O afeto sempre vai existir, o romantismo, mas o destaque na documentação quanto à gravidez foi a luta que passaram para chegar onde estão porque também precisamos nos refazer entre os novos algoritmos, rostos e famílias que ainda não nos vemos. Isabelle no momento da documentação estava com 32 anos, é natural do Rio de Janeiro, trabalha na UFRJ como coordenadora de ensino e também é advogada. Anik no momento da documentação também estava com 32 anos e também é natural do Rio de Janeiro, trabalha enquanto pedagoga e é advogada, agora especialista em causas LGBTs. No primeiro ano de relacionamento, Anik e Isa cancelaram suas carteiras da OAB, achavam que advogar era lidar com muita burocracia e estavam bem frustradas em suas carreiras - tanto que partiram para uma área mais pedagógica. Quando nos encontramos fazia cerca de semanas que tinham pego de volta sua carteira para voltar a exercerem seus papéis, vontade que surgiu após a gestação, dando início também ao Instagram que criaram e que alimentam hoje em dia: o @duplamaternidadecritica. Isabelle sempre sonhou com a maternidade, mas não foi fácil achar informações sobre os métodos e como um casal composto por duas mães poderia engravidar. No começo, tentaram a inseminação (cujo não deu certo) e depois tentaram a FIV (fertilização in vitro) de uma forma que reduzissem os custos fazendo doações de óvulos para a clínica. O começo do processo foi muito difícil, viveram situações que entenderam ser erradas e por isso enfrentaram discussões, brigas, processos e enfrentamentos com a clínica até chegar à direção da empresa. Depois, entenderam que se estavam passando por isso, outros casais poderiam passar também… e decidiram educar e prestar auxílio: tanto à clínica quanto às pessoas que procuravam esse tipo de serviço, por isso, fizeram o Instagram. Começaram a auxiliar a clínica na questão legislativa e educacional, mostrar como tratar casais LGBTs que procuram o serviço e também orientar pessoas LGBTs que passam por LGBTfobias a como saber seus direitos. Assim, surgiu uma nova ideia: para além de voltar a advogar com algo que faria sentido, teria propósito, também conseguiriam trabalhar de casa, dando cuidado e suporte aos gêmeos quando nascessem. Durante o começo da gravidez viveram diversos processos difíceis e se sentiam até mal em como tudo se tornou tão monotemático nas rodas de amigos e nos grupos de apoio que possuíam, mas não teria como ser diferente visto que era o momento que viviam. Justamente por ter sido muito marcante, não poderia passar sem resultar em algo realmente grandioso, que fizesse sentido em mudar as coisas - como esse divisor de águas em suas carreiras. Sentem que, se logo elas que possuem consciência sobre a legislação, não estiverem dispostas a tentarem mudar coisas… Como outros casais, que muitas vezes desconhecem os próprios direitos, iriam conseguir? Em diversas situações, por exemplo, não sentiam que eram tratadas da forma correta. Tanto nas questões de saúde - a própria doações dos óvulos da qual faziam Isa ter diversos sangramentos, questões biológicas do corpo dela, hormônios à flor da pele, oscilações de humor - quanto nas invalidações da voz da Anik. Ressaltam que ambos corpos poderiam gestar, porém optaram pelo sonho da Isa de querer gerar as crianças. Mesmo assim, o papel que precisavam assinar dizia que apenas a Isa era a mãe, a Anik era a responsável legal das crianças. Anik cita uma situação em que viveu jogando tarot em que a própria taróloga à colocou enquanto o pai das crianças… e que não, ela não é pai, é mãe também. Em nenhum momento as cartas falariam que ela é pai, isso é algo enraizado na cabeça das pessoas e precisamos mudar esses pensamentos - fazem questão de serem lidas enquanto duas mães, por isso acham tão importante a dupla maternidade. Por mais que as duas fizeram direito na mesma época e na mesma faculdade, não foi lá que elas se conheceram, mas sim através de um aplicativo de relacionamentos (bem conhecido por aqui: o Tinder). Anik morava na sala da casa de uma amiga e estava numa fase um pouco esgotada de usar aplicativos para conhecer pessoas. Isa era completamente o contrário: nunca tinha baixado aplicativos, nem usava Instagram ou Facebook, decidiu baixar porque uma das colegas de apartamento se mudou e estava se sentindo um pouco sozinha, queria novas companhias para passear pelo Rio. Baixou no intuito de fazer amizades, mas cheia de receios. Conheceu a Anik no primeiro dia e, literalmente, no dia seguinte excluiu. Era fim de ano e elas demoraram bastante para se encontrar, Anik estava finalizando o ano letivo, fez um mochilão e só em fevereiro do ano seguinte (2019), por um impulso da amiga (e dona do apartamento cujo ela morava na sala), chamou Isa para ir lá um dia à noite. Isa já estava de pijama em casa, vendo um álbum de fotos reveladas, mas colocou uma roupa e foi. Anik estava há muito tempo sem ficar/se relacionar com alguém e sentia que se conhecesse a Isa iria “abrir um portal”, alguma coisa iria destravar, acontecer ali. Enquanto a Isa se arrumava para chegar lá, Anik surtou. Foi tomar banho, ficou nervosa, já estava arrependida de ter convidado. Como Anik era pedagoga, na época tinha várias fotos com crianças… E Isa sempre quis casar e ter filhos, então rolou uma piada interna com a amiga que dividia apartamento com ela antes de sair, dizendo: “Amiga, beleza vai lá… Mas assim, se você decidir casar, me avisa com antecedência porque preciso achar lugar pra morar, tá?”. Acabou que tinham vários amigos na casa, Isa se deu bem com todos e Anik estava tão nervosa que elas mal conversaram. Ficou o tempo todo em silêncio enquanto Isa interagia com as pessoas. Elas nem se beijaram, e foram conversar e interagir mesmo em outros encontros seguintes. Até que não se desgrudaram. Na terceira vez falaram te amo, se sentiam vivendo uma grande história de amor… Anik precisou voltar para a casa da mãe dela, um tempo depois foi expulsa e, em pleno dia das mães, chegou na casa da Isa com um mochilão e de lá nunca mais saiu. Em 2021, casaram, já pensando no quanto isso era importante legalmente na hora de ter as crianças. Planejaram uma casa, escreveram tudo o que gostaria que existisse nesse lar, e acharam uma que era exatamente como sonhavam (incluindo a banheira!). Anik explica o quanto aprendeu sobre o amor nesse processo. Para ela, amar é trocar energias - e todas as pessoas trocam energias o tempo todo. Mas o amor e o afeto são energias especificamente poderosas e nelas envolvem resistências, momentos não tão fáceis e bonitos. Isa completa que para isso existir é preciso muita parceria, porque nesses momentos existem também muitos perrengues. Para ela o amor se move através da admiração, não consegue estar com pessoas ou em espaços que não admira. Por fim, mas não menos importante, elas contam que sempre pensaram como seria trabalhar juntas. Sempre sentiam que daria muito certo e quando aconteceu foi um totalmente inesperado de: “Uau! Aconteceu!”. Tudo se encaixou. Virou algo muito político e necessário que almejam. O direito foi como um caminho sem volta, porque ficar só falando não adiantava, era necessário mudar na base. E hoje em dia, quando chega alguém nas suas redes pedindo ajuda, veem que deu certo. Entendem, também, que fazer o que fazem foram seus próprios processos de cura - viveram um período de isolamento muito grande e ter o perfil no Instagram, compartilhar suas vivências, dores e reviravoltas fez com que fossem acolhidas, ajudassem e também tivessem ajuda, ressignificassem as coisas. ↓ rolar para baixo ↓ Anik Isabelle

  • Alyce e Manu

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Alyce e Manu, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Em um momento prévio da nossa conversa a Alyce contou sobre um domingo em que ela e a Manu saíram de manhã para comprar chocolate e passaram por uma manifestação bolsonarista na praia. Ela ressalta que em nenhum momento elas pegaram na mão, nem se tocaram, mal falaram. E quando está falando sobre amar uma mulher, relembra dessa manifestação, sobre não tocar na Manu e diz uma frase que ecoou na minha cabeça por um bom tempo: “estar com uma mulher, infelizmente, é estar em um lugar que a qualquer momento pode ser tirado de você”. Ainda quando falávamos sobre este episódio da manifestação, falamos também sobre hoje em dia estarmos muito ocupadas tentando nos manter vivas, e que isso é o nosso foco e tem que ser o nosso foco, por mais que soe exagerado. Quando pergunto a elas o que elas mais gostariam de mudar no cenário atual sobre a sociedade em que estamos, elas respondem que dentre esse governo, ainda se sentem invisíveis. Exigem respeito, e para termos respeito precisaríamos investir em políticas de educação, em seguranças para acabar com as milícias (que, na realidade de São Gonçalo, por exemplo, toma cada vez mais espaço) (porém, não só, visto que cresce desenfreadamente por todo o Brasil). Comentam também sobre não se sentirem seguras, sobre sentirem falta de coletivos de mulheres lésbicas que possam acolher, gerar segurança, comunicação, para além dos meios acadêmicos, para as mulheres que ainda estão nas periferias. E que gostariam também de ver mais cultura sendo explorada em São Gonçalo porque só a cultura é capaz de unir e dar conta de salvar as pessoas de muitas coisas que nem conseguimos dimensionar que possam estar acontecendo. A história da Manuela e da Alyce te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quando falamos sobre o amor entre mulheres, a Manu diz sentir o amor enquanto algo desafiador e importante, mas que mais que isso, o amor entre mulheres, é um gesto político e revolucionário. Ela já se viu em muitos momentos refletindo sobre a quantidade de coisas que precisou enfrentar (e que as amigas ou que outras mulheres que já conheceu/que já se relacionou também precisaram enfrentar) para que pudessem viver o amor de forma livre e para que também pudessem aceitar esse amor em seus próprios corpos de forma livre. Estar vivendo um amor de verdade de forma tão saudável, hoje em dia, é algo muito grandioso. Já a Alyce, se refere ao amor enquanto acolhimento. Ela diz que amar é ter um lugar para voltar. É sobre revisitar também, porque você se revisita, revisita o outro, revisita momentos. E amar outra mulher é muito intenso porque essa pessoa sabe penetrar muito fundo no que você é, sabe entender e compreender. “Além de que, às vezes, você fala algo para a pessoa que você se relaciona e em pouco tempo depois ela consegue descrever tão perfeitamente coisas que são tão íntimas, porque ela compreende, se coloca no seu lugar, tem empatia”. Na época em que elas se conheceram, a avó da Manu, que mora no interior, estava pelo Rio, por conta da Manu estar passando por alguns momentos mais delicados devido ao psicológico não estar totalmente saudável e feliz. Então elas acabaram tendo um contato com a avó que criou a Manu e esse laço familiar foi naturalmente nascendo no relacionamento. Como em março de 2020 foi declarado o início da pandemia, elas só tiveram 4 meses de namoro em espaços de convívio social antes da quarentena. Conseguiram aproveitar vendo os amigos, indo para bares, shows, espaços de lazer, porém contam que ainda era um momento bastante inicial. Foi muito desafiador realmente conhecer alguém nesse contexto pandêmico e adaptar convivências com as famílias. A relação virou uma relação do agora, do presente, porque tudo foi acontecendo e elas foram se colocando dia após dia, “ninguém sabia como iria ser, só fomos vendo e vivendo”. Elas contam dos aniversários que passaram juntas e das formas que usaram a criatividade para se inventar, mas também falam sobre a maior dificuldade ser já estar aqui, mais de um ano após tudo ter começado, e ainda não enxergar um fim em saber quando que realmente poderão fazer algo fora de casa, planejar algo realmente na rua. Tentam se apoiar na ideia de agora estarem voltando a trabalhar fora aos poucos e de não estarem mais tão trancadas no apartamento, até pela importância da rotina ter mudado pelo fato de estarem vendo outras pessoas no trabalho/no transporte/na rua e o quanto isso melhora o nosso estado de espírito, e também comentam que o que faz com que elas segurem as barras e as dificuldades que sentem é poder conversarem sobre isso, terem uma comunicação aberta para falarem sobre suas inseguranças e sobre o que sentem perante a própria pandemia e os desafios que nos são colocados diariamente. A história da Manu e da Alyce aconteceu de uma forma aleatória, por conta de uma amiga que elas tinham em comum e que estava na casa da Manu, junto com outras pessoas em uma noite. Todo mundo comendo, bebendo, até que tocou uma música da Ana Carolina e essa amiga falou “gente, tenho uma amiga que é muito parecida, assim, de jeito, com a Ana Carolina…”, e a Manu respondeu “e por que você ainda não me apresentou???”, então a amiga mostrou o Instagram dessa amiga teoricamente parecida com a Ana Carolina, que era, a Alyce, cujo a Manu nem achou tão parecida, mas se interessou da mesma forma, então seguiu. A Alyce não seguiu ela de volta e na época a Manu tentava acompanhar o que ela postava nos stories para tentar puxar algum assunto, mas ela só postava sobre o trabalho, até que um dia postou uma selfie e o flerte estava lançado! Agora, pergunto, vocês acham que ela respondeu? Claro que não. Ou melhor, até respondeu, mas não correspondeu ao flerte. Elas conversaram, a Manu chamou ela para sair e ela topou, mas disse que sairia sem segundas intenções, porque não estava interessada. Combinaram assim, mas a Manu conta que na cabeça dela estava tudo planejado, quando chegasse o momento a intenção iria acontecer, era quase que uma questão de honra… “vai rolar, em algum momento, vai rolar”. A conversa seguiu por mais uns dias e a Manu chamou a Alyce para ir na casa dela beber, mas a Alyce achou meio absurdo, ficou pensando como ela iria lidar com os pais da menina logo no primeiro dia, não pensou na possibilidade dela morar sozinha, disse que preferiria ir em algum local público e o encontro não aconteceu. Mais um tempo passou e finalmente, depois de uma viagem da Manu e com a Alyce já entendendo que ela não teria que lidar com familiares, ela topou encontrar a Manu na volta da viagem e foi almoçar no apartamento assim que ela desembarcou. Elas brincam que foi o primeiro encontro mais aleatório possível. A Manu chegou de viagem do nordeste. A Alyce chegou com um engradado de cerveja e chocolates. Elas se encontraram ao meio dia, ela foi embora às onze horas da noite. E nesse meio tempo, o que aconteceu? elas beberam, em algum momento se sentiram com sono e, sim, dormiram. Abraçadas. Ou seja. Conhecer algum familiar no primeiro encontro? Jamais! Local público! Dormir abraçada no meio do dia com alguém que até então “não tínhamos interesse”? Aceitamos! Hahahaha. Tudo bem, Alyce. A gente te entende. ♥ Foi esse dormir abraçadas que conquistou tudo, depois desse dia, em outubro de 2019, não tinha mais volta, ficaram juntas. A Alyce e a Manuela são duas pessoas muito calmas e encantadoras. Visitei o apartamento da Manu em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, local em que passaram a morar juntas, mas a Alyce é natural de São Gonçalo, cidade vizinha. Foi um fim de tarde muito acolhedor, elas se apresentaram, eu falei sobre o projeto, caminhamos juntas na praia e conheci o lar. A Alyce tem 22 anos, é técnica em química, trabalha na FioCruz fazendo o controle de qualidade das vacinas da Covid-19. Seu trabalho envolve o laboratório biofármaco - e além das vacinas da covid, também fazem controle de outras vacinas como a da poliomielite, sarampo, febre amarela, etc. Além disso, como hobbie, em casa, ela ama cozinhar, é algo que realmente a distrai. Gosta de testar novas receitas e explorar novas coisas. Antes da pandemia trabalhava com pesquisas em meio ambiente e comenta sobre a responsabilidade e a importância que é trabalhar com uma causa tão nobre em tempos tão difíceis como os que vivemos atualmente. A Manu tem 23 anos, faz faculdade de estudos de mídias e atualmente está estagiando enquanto jornalista em uma escola. Lá ela faz cobertura de eventos, já trabalhou também em agências de publicidade e, pasmem, já publicou um livro. Alô, literatura LGBT, ela manda MUITO bem. O livro se chama ‘Diário de Guernica e Cartas de Amor’ e é só clicar aqui para comprar ♥ (apoia o trabalho dela!). Tanto a Manu, quanto a Alyce, desde o começo da conversa, ainda na praia, falaram coisas muito interessantes sobre a pandemia e sobre o tempo em que estão juntas, por passarem muito em casa e por estarem sempre se reinventando e se ajudando. Passar tanto tempo juntas em um apartamento fez com que elas se redescobrissem de muitas formas, mas fez com que, mais que tudo, elas sempre estivessem tentando se puxar para cima, se fortalecer e servir de apoio, de abraço, uma para a outra. . Manuela Alyce

  • Clara e Rayanne

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Clara e da Rayanne, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Clara morava com os pais dela e por mais que ela se inspire muito na mãe dela e tenha uma referência familiar muito forte, já sentia que era o momento de sair de casa há um tempo… enquanto a Ray estava morando com os amigos na época e também já procurava um apartamento para se mudar. Aos poucos elas perceberam que seria melhor se procurassem um lugar juntas e conseguiram um apartamento que coubesse nos seus planos. O Anakin, gato filhote das duas, veio depois de tudo estar arrumadinho, já em 2021, e está sendo a alegria diária da casa (ele inclusive foi um presente surpresa da Clara para a Ray, que chorou e tudo!). ♥ Hoje em dia a rotina delas é de trabalho e de muito companheirismo. Elas adoram se reunir com os amigos e fazem muitas coisas juntas, mas o programa principal de casal é assistir filmes. A Clara está se abrindo ao mundo dos super-heróis com a Ray, que está ensinando cada detalhe. Elas estão maratonando, aprendendo, desbravando… e têm sido algo muito especial para ambas. A Clara, por fim, comenta que aprendeu a ver o amor (e a relação delas) como um guarda-chuva que tem várias fitinhas segurando outros sentimentos, outras emoções e outras sensações. É um guardião de tudo. E a Ray transmite que se entende muito mais completa hoje em dia, com um propósito diferente e muito melhor. A história da Clara e da Rayanne te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Quando a amiga voltou ao hospital ela foi direto ao ponto, chegou no meio do corredor e perguntou para a Rayanne “vem cá, você é lésbica, né?!” e a Rayanne, num susto, disse “sim? mas por quê?!” e ela explicou “ah, porque tem uma amiga minha que está muito afim de você. Ela é apaixonada por você!”. A Ray já imaginava que era a Clara, mas se fez de desentendida e passou o número dela para a amiga, que levou até a Clara, que por sua vez disse que jamais mandaria mensagem assim, desse jeito, tão direto. Ela ficou contente por ao menos saber o nome, decidiu pesquisar nas redes sociais e adicioná-la no Instagram para puxar um assunto por lá. Esperou o horário do almoço, seguiu, e em menos de 30 minutos depois a Rayanne já tinha mandado uma mensagem para ela. No começo a Clara não sabia muito qual assunto puxar ou como guiar a conversa, então pediu ajuda novamente à amiga. Depois elas foram se entendendo, desenvolvendo e decidiram marcar o primeiro encontro. Saíram de bicicleta e andaram por uma parte da cidade até aquele local em que nos encontramos (simmmm!!! o local da trilha!!!). Como tudo foi no começo da pandemia, não havia muitas coisas abertas, então preferiram um lugar sem aglomerações (humanas, né gente, até porque lá só tem cobra……. brincadeira!!), elas pedalaram, não subiram na trilha, apenas na parte asfaltada, beberam umas cervejas e foram até a casa da Ray depois. E hoje em dia elas moram juntas. É isso. No segundo date se mudaram e adotaram um gato. Vocês queriam o clássico? temos o clássico. Hahahaha é brincadeira também. Mas não muito. Elas realmente adotaram um gato e moram juntas, mas foi um pouco diferente. A vida da Clara e da Rayanne se encontrou durante a pandemia, lá nos primeiros meses, em 2020. Ambas moram em Niterói e gostam muito da cidade, reconhecem o quanto se sentem muito mais seguras morando lá e o quanto a cidade tem crescido por um caminho bom. Acreditam que ainda falta muita política de assistência social e cultura voltada aos LGBTs, assim como a educação para quebrar o preconceito das próprias pessoas que moram lá, e que isso precisa ser debatido e investido diariamente. A Rayanne tem 26 anos, é natural do Rio de Janeiro e trabalha enquanto técnica em eletrônica num hospital. Adora tocar instrumentos, como guitarra, violão e gaita e cursa análise de sistemas. A Clara tem 22 anos, é de Niterói e trabalha enquanto auxiliar administrativa, também no hospital. Ela adora jardinagem e toca piano, além de cantar. Atualmente cursa psicologia. Por trabalharem no hospital, foi lá que elas se conheceram. A Clara começou a trabalhar lá um pouco depois do início da pandemia, sendo mensageira. Ela caminhava muito pelo hospital, passando pelos setores e sempre acabavam se esbarrando no corredor. Uma vez ela ficou perdida e a Ray ajudou, então acabou chamando atenção e ela teve certo interesse, até que um dia ela estava conversando com uma amiga e quando a Rayanne passou atrás delas, ela aproveitou a oportunidade para comentar com essa amiga que se envolvia com mulheres e que queria muito saber qual era o nome “daquela menina”. Como a Ray estava com um crachá provisório que não possuía nome e a amiga também não sabia, ela se comprometeu em ajudar, mas na semana seguinte pegou folga, então a Clara ficou numa espera que durou dias. Seria impossível começar a contar a história da Clara e da Rayanne sem contar a nossa breve aventura e a curta existência do Documentrilhas (primeira e única edição, por motivos óbvios = perrengue). Quando entrei em contato com as meninas, já sabendo que elas moravam em Niterói, perguntei se tinham algum lugar que fosse especial para elas e que gostariam de fazer as fotos e a Clara me mandou a foto um lugar com mato, um sofá (sim, um sofá) e uma vista incrível para a Baía de Guanabara. Eu perguntei como poderíamos chegar lá e ela me explicou que era de fácil acesso, no estacionamento de um hotel, em Niterói. Pensei: estacionamento de hotel, ok. Tem mato, mas deve ser mais para “o canto” do estacionamento. Tempos depois, agendamos, e chegou o dia do encontro. Elas me encontrariam nas barcas de Niterói e iríamos juntas até o hotel. Obviamente deu errado. O que seria um estacionamento virou uma trilha de mato fechado, e ainda se fosse só um mato... mas era logo um barranco, com sol das 14h, areia escorregadia, íngreme, possibilidade de cobras, mulheres perdidas e tudo o que uma aventura pode ter. Achamos a saída e pensamos: não vai rolar fazer fotos aqui, que tal irmos para uma praça comum, como pessoas comuns? ok, chamaremos um uber. Eis que chegou ela, a uba. Num carro em velocidade considerável, a última palavra foi Clara que deu: “não é um uber, é uma uba!” e eu repeti silenciosamente “ah, uma uba...” até que as três focaram na capa do celular que aparecia através do painel do carro: um arco-íris LGBT. As três, paradas, no meio da rua. Um carro, meio golzinho rebaixado, som altíssimo, faz um curva estilo drift (gente, a gente jura hahahaha!) e com os vidros abaixados ela faz um sinal de jóia com a mão, enquanto no som MUITO ALTO, toca, naquela voz famosa entre absolutamente QUALQUER sapatão: “Queeeeem de nós doooooissss ” e ela (a uba) com o sinal de ‘jóia’ no polegar, a máscara no queixo (e ajeitando rapidamente com a mão), diz “e ai, beleza?! entra ai!”. O som rapidamente silenciou e nós três, também silenciosas e sem entender nada quem-era-aquela-mulher-de-carro-tunadou-uber-ouvindo-ana-carolina entramos rapidinho no carro, as três no banco de trás, até que percebemos que a música só parava porque a ré estava acionada, então a cada manobra era um “vai dizer que é ” ré “impossív ” ré “el ” ré “o amor acontec ” ré “er ….”. até que não só a música cantou como o CD todo da bichinha até a praça que iríamos fotografar, no volume máximo, enquanto estávamos com todos os vidros abertos vivendo aquele momento. Jamais imaginávamos que um carro rebaixado daqueles era capaz de suportar o peso de 4 caminhões de grande porte como nós. AGORA SIM, VOU COMEÇAR A HISTÓRIA. ESSA FOI A BREVE EXISTÊNCIA DO DOCUMENTRILHAS. Clara Rayanne

  • Kelly e Amanda

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Kelly e da Amanda, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Kelly e Amanda estão juntas há mais de 18 anos. Contam que para fazer o relacionamento dar certo por tanto tempo criaram quase que um pacto de diálogo - tudo é conversado. Já enfrentaram processos depressivos, situações difíceis, mudanças de casa e de trabalho. A rede de apoio é fundamental, e a forma que lidam com paciência entendendo que as coisas fazem parte de processos e ciclos é evidente. Nos momentos mais difíceis tentam se equilibrar: quando uma está estressada, a outra ameniza. Mas há também os momentos em que ambas não se sentem bem e nesses a prioridade é: “Se não tem nada de bom pra falar, deixa pra falar depois”. Preferem o silêncio, mesmo que seguindo fisicamente juntas, sentadas uma ao lado da outra. Quando se conheceram, Kelly juntou suas coisas, colocou num saco de lixo preto e saiu de casa para viver essa relação. Conta o quanto foi difícil, ninguém validava e acreditava nesse amor. Em momentos depressivos, tentava afastar a Amanda achando que ela não deveria passar por isso também. Amanda, por sua vez, firmou o pé no chão e disse que ficaria ao lado dela a todo custo e assim entenderam a importância uma da outra, passando pelas primeiras barreiras juntas. Amanda, quando olha para trás e enxerga toda a vivência e o quanto construíram o relacionamento, não consegue ver tristeza. Se sente uma pessoa muito melhor. Kelly é natural do Rio de Janeiro, no momento da documentação estava com 35 anos e trabalha enquanto pedagoga e psicóloga. Amanda também é do Rio de Janeiro, no momento da documentação estava com 42 anos e trabalha na área de pesquisa/inovação em química. Está concluindo o doutorado. Contam um pouco sobre a rotina sempre cheia com o filho, Antônio, de 1 ano e 3 meses. Até então ele ainda não vai à creche e elas se sentem muito felizes de poder viver essa infância com ele em casa, junto dos sobrinhos e primos, as crianças da família. Além das crianças, existem os 19 gatos que estão no lar. Quando se conheceram, em 2005/2006, nem pensavam em ter gatos porque ambas nunca tinham tido muito contato, adoravam cachorros, até que num dia de chuva acharam uma gatinha preta e não conseguiram deixá-la na rua. Ela foi uma fiel companheira de anos, se chamava Ágata e a Kelly fez uma tatuagem em homenagem. Passaram um período da vida morando em Cabo Frio, nessa época já tinham 4 gatos e uma cachorra. A rotina era muito puxada, acabavam tendo que fazer uma migração pendular (sair de Cabo Frio para trabalhar no Rio de Janeiro) diariamente até ficar insustentável. Em 2013 voltaram ao Rio. Nessa volta, os outros gatos começaram a surgir. Moraram numa casa muito complicada, vivendo períodos difíceis e lá os gatos surgiam na porta. Foram 12 gatos resgatados da rua - e tiveram algumas ninhadas - que chegou a somar em 22 gatos no total. Foram cuidando de cada um, nunca doaram. Depois de se mudarem novamente e para uma casa melhor (onde moram agora) conseguem ver uma diferença grandiosa na qualidade de vida. Não é fácil cuidar de tudo, manter limpo, envolve também muito gasto. Mas sentem que estão cada vez mais ‘expert’ enquanto cuidadoras. O que as deixa muito felizes é ver a casa cheia de crianças. Os sobrinhos passam muito tempo com elas, por exemplo. Treinaram muito para ser mães (e ainda tomam uns caldos da maternidade), mas a casa segue divertida. Kelly explica que sempre quis ser mãe, era uma certeza na vida dela, mas não imaginava engravidar. Acabou que os planos mudaram e entraram no acordo. Amanda, por sua vez, se relacionava com homens antes de conhecer a Kelly e explica que a visão que tinha sobre ser mãe era muito relacionada aos moldes tradicionais, então não tinha desejo. Foi a partir do relacionamento com uma mulher que a perspectiva mudou e sentiu que, agora sim, encontrou uma parceria e pode vivenciar a maternidade. Em 2019 tiveram uma conversa decisiva sobre a gravidez. Em 2020 começaram as organizações com um amigo doador porque prefeririam fazer uma inseminação ao invés de viver o processo da FIV e tudo o que ele envolve. Tiveram tentativas de doador que desistiram por ser uma pessoa muito próxima, outro que tentou, engravidaram, mas sofreu abortos seguidos e descobriu uma incompatibilidade… Até que se viram sem saída, precisavam pesquisar em outros meios. Foi quando a Kelly entrou em grupos de Facebook sobre o tema e encontrou um doador que trabalha com isso. Foram 4 tentativas, até o Antônio chegar. Em 2015 (quando ainda não era possível que mulheres que amam mulheres se casassem no cartório) elas conseguiram realizar o casamento devido à uma ação feita pelo projeto Rio Sem Homofobia, juntando mais de 180 casais num casamento coletivo. Os familiares e amigos foram, viram muitas pessoas celebrando o amor e o dia foi muito significativo, mas reiteram a importância do casamento por uma questão política também, tinham a preocupação de serem reconhecidas enquanto família e companheiras. Kelly traz como referência de amor uma música do Mundo Bita que fala sobre amor em suas múltiplas formas, desde o aconchego, o cuidado, as coisas cotidianas e o se permitir errar. Enquanto narram suas histórias, lembram das diversas fases que já viveram: a da paixão profunda, a de serem muito festeiras e também outra em que estavam muito caseiras e a própria maternidade, como vem sendo. Adoram cada uma dessas fases. Hoje em dia, caminham para a educação do Antônio ser a melhor possível e pensam na pessoa que querem ver ele se tornando. Amanda explica que toda essa preocupação é, também, política. Desde o registro dele quando nasceu, tudo é político. Ele terá consciência disso e da importância que a dupla maternidade tem. Para além do Antônio, também fazem questão de ser exemplo para as outras crianças que estão na vida delas, levando o amor como bandeira, e também no trabalho, quando todos reconhecem a família da Amanda, acompanharam a Kelly grávida e adoram o Antônio. Quando caminham nos corredores do trabalho dela, sente que a família é reconhecida e entende a importância de se posicionar o tempo todo. ↓ rolar para baixo ↓ Kelly Amanda

  • Cecília e Jady

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Cecília e da Jady, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Nos últimos meses, depois de várias conversas e de entender que o momento ideal tá chegando, elas decidiram procurar um apartamento e em breve estarão morando juntas. A ideia surgiu porque o contrato do apartamento que a Jady aluga com alguns colegas vai vencer no próximo mês e ela até cogitou propor algo em conjunto com a Ceci, mas pelas faculdades das duas serem em cidades diferentes, surgiram empecilhos sobre onde seria o imóvel. Com o tempo, ficou certo de que o curso da Cecília continuará à distância até o fim e isso abre novas possibilidades, então conversaram, as famílias apoiaram bastante e por já estarem passando muito tempo juntas, tudo passou a ficar cada vez mais concreto. Hoje em dia, o maior passatempo está sendo planejar os cantinhos do novo apartamento e cada decoração, cada móvel, cada objeto com a carinha delas ♥ (boa sorte, meninas!) O apoio da família da Cecília é algo que ela se orgulha muito em ter. Quando era mais nova ela passou por momentos muito difíceis ao se entender enquanto bissexual e por se relacionar afetivamente com mulheres. Passou pela expulsão de casa e hoje em dia, 11 anos depois, tem uma relação completamente diferente. A família dela considera a Jady como “uma filha paulista” e realmente apoia as duas, enchem elas de carinhos e estão sempre perguntando e querendo estar por perto. Ela conta que vê a Jady enquanto sua melhor amiga e que a pandemia representa recomeços em cima de recomeços, não só pela relação delas em si estar no começo, mas porque ela voltou pra casa dos pais, porque eles mesmos se mudaram, tudo se encaminhou para coisas novas o tempo todo (sem contar que o mundo estava vivendo algo completamente novo e inesperado), mas que ao mesmo tempo foi muito mais tranquilo por ter ela por perto, por ter a amizade e o amor dela ao seu lado. Hoje em dia a Jady está trabalhando como vendedora em uma loja de objetos praianos (biquínis, cangas etc) e a Cecília é redatora em uma agência de marketing, mas acaba trabalhando mais enquanto autônoma com seus freelances. Ambas se encontram o tempo todo em suas artes, a Jady já fez teatro por bastante tempo e contou o quanto ama, além de se dedicar ao desenho e a pintura, e a Ceci adora fotografar e também faz parte de um coletivo feminista que envolve lambes enquanto arte urbana e poesias feitas por mulheres. Falamos sobre o trabalho da Jady ser algo bastante recente, por conta de antes da pandemia todas as formas de renda serem bem diferentes. Na faculdade ela organizava brechós, fazia freelances, vendia doces e tinha outras rendas, além de também receber ajuda do pai dela. No começo da pandemia ela pensou que precisaria voltar para São Paulo, por não ter internet e computador em casa para estudar à distância e por não ver uma forma de continuar tendo uma renda independente. No começo a Cecília teve um papel importante na ajuda e no afeto na busca por um notebook e por conseguirem colocar internet em casa, até que infelizmente o pai dela, que trabalha enquanto motoboy, sofreu um acidente de trabalho e não conseguiu mais colaborar financeiramente nos custos. Foi nesse momento em que ela precisou voltar para as ruas, sair de casa e procurar algum trabalho fixo, e nisso falamos sobre as dificuldades que envolvem colocar nossos corpos na rua durante uma pandemia, com ônibus e BRTs lotados, dificuldades de achar máscaras PFF2s por valores acessíveis e o quanto é difícil nos cuidarmos dia após dia contra um inimigo invisível enquanto na volta do trabalho passamos por bares e festas com muita aglomeração, sem contar o sentimento que acaba causando de revolta muito grande, ao se sentir trouxa, usada, de estar remando contra uma maré de coisas erradas. É preciso muita força para seguir enfrentando. Desde que o primeiro beijo aconteceu e que elas começaram a conversar, meio que sem jeito e aleatoriamente, se encaixaram e decidiram logo em seguida se encontrar novamente. Com o decorrer do tempo, com os encontros e com o desenvolver de sentimentos, foram deixando as coisas fluírem e começaram o namoro. Tudo aconteceu num fluxo bastante natural porque elas se permitiram e também por tantas coisas que possuem em comum e pelo tanto que se divertem juntas. Desde o momento que nos encontramos elas comentaram sobre as bobajadas e as brincadeiras infinitas que fazem, contam que o verdadeiro encontro aconteceu por causa do riso (além do brigadeiro e do macarrão ao molho branco que a Ceci fez e ganhou o coração logo de primeira!), o que elas mais gostam de fazer é ouvir músicas, ver filmes e séries, comer várias sobremesas, apreciar diversas artes, mas mais que tudo: rir infinitamente. Estão sempre sorrindo, tendo crises de riso sobre coisas bestas, vendo memes na internet e compartilhando situações engraçadas. A Jady tem 21 anos, é natural da região metropolitana de São Paulo, mais especificamente de uma cidade chamada Taboão da Serra e veio para o Rio de Janeiro ser estudante de figurino na Escola de Belas Artes da UFRJ. Foi durante uma festa da faculdade, lá na UFRJ, que ela viu a Cecília pela primeira vez. O detalhe é que a Cecília não apenas não estudava na UFRJ, como era a primeira vez que estava indo lá. Ela faz faculdade também, mas na UFF, em Niterói, cidade que fica na região metropolitana do Rio de Janeiro. Cecília tem 27 anos, é natural do Rio e faz Estudos de Mídias na Universidade Federal Fluminense. No dia da festa, a Ceci estava lá apenas acompanhando um amigo - na verdade, na hora que elas se encontraram, ela já estava mesmo era praticamente indo embora. E aí, ao som de muito funk (antes que elas me corrijam, era um bastante específico: vem e brota aqui na base ) e no meio de todo mundo dançando, a Jady surgiu com uma roupa super esvoaçante e tão simplesmente tascou-lhe um beijo. A Ceci, por estar 100% sóbria (ela não bebe) e por não ser da UFRJ, não sabia se tinha entendido direito o que tinha rolado ali, sentiu que tudo estava super aleatório, mas rapidamente elas conseguiram conversar e decidiram trocar contatos. Detalhe: ambas estavam sem celular. Então atravessaram as pessoas dançando e foram até os amigos, pegaram um celular emprestado, a Jady passou o user do Instagram dela para a Ceci - que logo que ela chegou em casa, adicionou e mandou uma mensagem engraçadinha - e assim começaram a conversar no dia seguinte. Rolar Cecília Jady

  • Laura e Carla | Documentadas

    Carla, no momento da documentação, estava com 34 anos. Nasceu em Itiúba, um pedacinho do bioma da Caatinga, no semiárido baiano, onde a chuva é um evento tão esperado que se torna motivo de festa. Aos 14 anos se mudou para São Paulo, foi morar com as tias. Dois anos depois, aos 16, já vivia sozinha, trabalhando com telemarketing. Desde criança é uma pessoa comunicativa: se aventurou em diferentes áreas, foi dançarina, atriz, trabalhou com noivas, em salões de beleza e se entende enquanto multifuncional no trabalho. Aos 29, entendeu que era a hora de voltar para a Bahia e, com a Laura, se mudou para Porto Seguro. Laura, no momento da documentação, estava com 39 anos. Nasceu no interior de São Paulo, em Embu-Guaçu, mas construiu a maior parte da vida na capital paulista. Ao contrário da Carla, fez sua carreira no regime CLT, trabalhou de forma sólida em uma universidade, onde liderava equipes e alcançou conquistas profissionais como graduação, pós-graduação e especializações. No entanto, viveu anos de rotina exaustiva, chegou ao limite, com stress, burnout e depressão. Decidiu se mudar para Porto Seguro para ter outra forma de vida. Quando chegou, até trabalhou em outras empresas, mas se viu começando a seguir os mesmos caminhos de muito trabalho e entendeu que só tinha mudado o local, o método estava seguindo o mesmo, até que recomeçou e foi quando surgiu a ideia de fazerem o Instagram/YouTube de turismo: Duas em Porto. Entendem que a vida em São Paulo trouxe muitas oportunidades para ambas, mas também uma rotina caótica. Carla saía de casa às 7h da manhã e voltava à meia-noite, vivendo para trabalhar e consumindo em excesso. Laura, por outro lado, enfrentava longas jornadas que, apesar de gratificantes em alguns momentos, a desconectava de si. Ambas sentiam que algo precisava mudar. Foi em 2017 que decidiram recomeçar em Porto Seguro. A ideia de trabalhar com turismo surgiu naturalmente - recebendo amigos e familiares que vinham visitá-las, perceberam o quanto adoravam mostrar a cidade e contar histórias da região. Decidiram investir nessa paixão e criaram o perfil no Instagram para divulgar o trabalho. Hoje, guiam pessoas que chegam buscando o destino e vivem com um ritmo de vida com propósito. A Carla e a Laura se conhecem há mais de 15 anos, pois frequentavam a mesma comunidade, uma igreja inclusiva em São Paulo chamada ‘Cidade de Refúgio’. Chegaram a se beijar algumas vezes, mas sem envolvimento e cada uma seguiu seu caminho. Os anos se passaram, tiveram outros relacionamentos longos, não mantinham contato. Depois de alguns anos se reencontraram, através de uma amiga em comum, e conversaram. Sentiam que existia um sentimento que estava ali mesmo não sabendo uma da vida da outra durante todo esse período. Quando Carla mandou mensagem, Laura estranhou tanto que pediu até uma chamada de vídeo para ver se era verdade, não acreditou. Por mais que elas nunca tivessem desenvolvido um sentimento, havia aquela sensação/desejo em querer conhecer mais. Laura sempre foi muito tímida, fechada, então as conversas eram limitadas, mas queriam conversar e saber mais sobre a vida uma da outra. Os primeiros encontros, depois de voltarem a conversar, eram estranhos - ou silenciosos demais, ou Carla sentia que falava demais. Mas continuavam insistindo porque sentiam que iria valer a pena. Quando começaram a se envolver, Laura foi visitar Porto Seguro porque sua irmã morava na cidade, então fez o convite para Carla fazer a viagem também. Ela topou e foi em Porto Seguro que Carla fez o pedido de namoro. Um ano depois, o pedido de casamento aconteceu, dessa vez em São Paulo, mas contrariando o atual modelo de vida, o planejamento nem passava próximo da Bahia… Elas sonhavam em morar na Irlanda. Estavam guardando dinheiro para o intercâmbio - e na festa de casamento o presente, inclusive, era dinheiro para a viagem acontecer. No ano seguinte do casamento acabaram indo algumas vezes para Porto Seguro em viagens de família. Além das viagens, Laura entrou num processo difícil por conta do burnout, começou o processo de adoecimento que durou cerca de dois anos. Viveu esse tempo tentando camuflar o que sentia e seguir trabalhando. Carla, em todos os momentos, tentou ajudar (com o auxílio da médica que acompanhava o caso), mas era uma questão psicológica muito delicada fazer Laura entender que era uma questão de saúde para além da responsabilidade com o compromisso dela de trabalho. Só conseguiram no final de 2019, quando o corpo dela já estava no limite, muito adoecido, e não aguentou mais. Foi numa viagem para Porto Seguro, também em 2019, que elas olharam para a cidade de um mirante e conversaram sobre uma possível mudança para lá. Decidiram intencionar isso, planejar, e assim foram fazendo aos poucos. Alguns dias antes da pandemia começar Laura foi desligada da empresa que trabalhava - e foi a maior felicidade que poderiam sentir. Na mesma hora, sem pensar duas vezes, decidiram realizar a mudança para Porto Seguro. Mandaram mensagem para os familiares da Laura que moravam na cidade, eles por sorte (ou destino) falaram de uma casa que havia na rua para alugar, já conseguiram o contato e em cerca de três dias elas já estavam com a mudança pronta. Avisaram os amigos próximos e foram. A pandemia de Covid-19 estava anunciada, se despediram dos amigos que conseguiram e pegaram o penúltimo voo antes do aeroporto fechar por conta do lockdown. Quando chegaram em Porto Seguro, passaram uma semana sem ver os familiares, não entendiam muito bem o que estava acontecendo, mas as informações sobre o Covid-19 foram chegando e as coisas foram se assentando. A cidade estava vazia. Se acalmaram e pensaram: “Tudo bem, vai passar. E quando passar isso aqui será o paraíso”. Pensando agora, que tudo já passou, entendem o quanto o universo foi generoso: jamais conseguiriam viver a pandemia em São Paulo, trabalhando. Deu tudo certo em Porto Seguro, Laura ficou muito mais saudável. Foram se encaixando com seus trabalhos de marketing digital online e, depois da pandemia, abriram o canal no YouTube e o Instagram sobre turismo em Porto Seguro: o Duas em Porto. Por mais que seja muito legal estudar turismo, trabalhar com isso e que realmente se encontraram nessa profissão, explicam que ainda assim é muito difícil ter esse canal, contando que são duas mulheres que se amam chegando numa cidade como Porto Seguro, porque a cidade vive de turismo mas ainda é muito conservadora. Para se proteger, vivem de forma bastante discreta. Já enfrentaram diversos preconceitos, são apoio uma da outra para limpar as lágrimas antes de chegar em casa e não carregar as dores. E acreditam que a forma de lidar com o preconceito é se fortalecer na própria comunidade, se fortificar nos amigos LGBTs que possuem na cidade. Carla explica como os espaços que acolhem mulheres na cidade são importantes: desde um bar que reunia o público LGBT+, até ter outras mulheres que também trabalham com turismo e são lésbicas e bissexuais. Por mais que trabalhem com o mesmo público, não se veem enquanto concorrentes, mas companheiras, uma indicando o trabalho da outra - se fortalecem, se representam, formam uma rede de apoio na cidade. Explica, também, que sentia uma certa sede de ver pessoas LGBTs quando chegou. Sentia falta de falar gírias que os LGBTs entendem, de fazer brincadeiras que nós fazemos, de ser quem ela é sem medo de julgamento. Sempre andou com muitos homens gays, drags e pessoas transsexuais, gosta de “bater leque”, ir para o fervo. Sentiu falta, o primeiro ano foi muito difícil, foi se fechando. Aos poucos, encontrando pessoas com quem se identifica, foi se reencontrando. Por isso, agora faz questão de ser um elo para as pessoas LGBTs que ela conhece. Carla acredita que o amor que vivem está na coragem que enfrentam o mundo. Com muita amizade, muita parceria. Já passaram por muitas coisas sozinhas, boas e ruins, e independente estão juntas, enfrentando tudo. Colocam o amor no que acreditam e veem isso expandindo, conseguem visualizar o propósito de vida no que fazem com amor. Laura conta que o amor delas está todo dia no café da manhã que tomam juntas. É nessa atividade que alinham as expectativas, recalculam rotas, conversam sobre o que está dando certo, trocam ideias… Todos os cafés da manhã são importantes. É no café que está o afeto, o carinho. E mesmo se não estão num dia bom, sentam na mesa com um “bom dia” mais seco, mas fazem o ritual acontecer. Esse momento do dia é muito importante para que tudo comece e para que as coisas sigam seus fluxos. É nele que ela enxerga esse fluxo de encarar o mundo. Por mais que Laura seja uma pessoa fechada, ela está aprendendo a expor seus sentimentos aos poucos, principalmente durante esse ritual - se sente feliz por enxergar isso. Elas enxergam persistência na relação entre mulheres. ↓ rolar para baixo ↓ Carla Laura

  • Jaque e Tainá

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Jaque e da Tainá, quando o projeto passou pela Bahia!. Ao conversar com Jaque e Tainá no Pelourinho, em Salvador, nem imaginava que minutos depois ao fazermos as fotos iria rolar o pedido de noivado delas. Nada estava combinado, seria uma surpresa da Jaque para Tainá e ela aproveitou uma ida ao banheiro para me contar (e perguntar se era possível que eu registrasse entre uma foto e outra). Achei a ideia maravilhosa e a cara do Documentadas. Assim, em meio ao inesperado, perguntei mudando de assunto repentinamente, o que elas pensavam sobre o amor: Tai explica que desde a primeira vez que o projeto chegou para ela, por conta de algum repost de conhecidos no Instagram, pensou sobre a potência do amor entre mulheres. Refletiu as suas vivências. Conta que já vinha trabalhando e entendendo o feminino, pensando nas mulheres ao seu redor, no quanto vivencia isso diariamente enquanto a maternidade, o trabalho, o relacionamento… Sente que as mulheres precisam cuidar uma das outras porque nosso amor é muito potente. E, por mais que tanto tenha demorado para pensar sobre sua sexualidade, hoje em dia entende o quanto é importante conhecermos nossos desejos. Tai passou o maior período da sua vida silenciando suas vontades, não se questionando e nem se permitindo nada por conta da sua criação, sempre fez o que mandavam fazer e hoje, ter uma vida cada vez mais livre, é também um ato de amor. Jaque completa que o amor está nesse insistir, na disposição. Nem sempre vai ser feliz, alegre, porque existem dias muito difíceis e por isso tentam buscar calma uma na outra. Conta o quanto admira na Tainá todo o feminino que ela carrega e no quanto juntas confiam nas mulheres. Para Jaque, o amor está em todas as ações diárias. Jaque e Tainá hoje em dia moram em Camaçari, região metropolitana de Salvador. Tainá, no momento da documentação, estava com 28 anos. Trabalha enquanto enfermeira na maternidade e num hospital em outras alas. Depois de muitos anos foi chamada para um concurso que passou, por isso, decidiu fazer a mudança para Camaçari - ou melhor, para Abrantes, cidade vizinha. Lá, mora com seu filho, de 4 anos. Jaque, no momento da documentação, estava com 35 anos. É professora de história, dá aula para os alunos do ensino fundamental e médio, mas no momento está afastada pois trabalha com assessoria política, é vice-presidente do Partido dos Trabalhadores em Camaçari e também estuda direito, está quase completando a graduação. No tempo livre, elas adoram estar no Pelourinho. Saem para comer, gostam de ir em sambas, beber cerveja e falar besteiras sobre a vida. Também não abrem mão do descanso, afinal, ser mãe é algo muito cansativo. Foi através da irmã mais velha de Jaque que ela e Tai se conheceram, Tai trabalhava na Prefeitura de Camaçari e a irmã de Jaque era sua chefe. Elas saiam bastante, eram bem próximas e no último carnaval antes da pandemia de Covid-19, em 2020, ela conheceu Jaque. Na época, não tinha clareza sobre sua sexualidade, nunca tinha ficado com mulheres e nem cogitava isso. O tempo foi passando, saíram juntas várias vezes, Jaque inclusive iniciou relacionamentos com outras pessoas e Tai foi passando pelos processos de entender melhor a sua sexualidade. Em 2022, Jaque viajou e mandou fotos da viagem num grupo de amigas que possuem em comum. Foi aí que Tai começou a ver as fotos e entendeu que sentia algo diferente por ela; Assim, decidiu investir, mandou algumas mensagens em tom de brincadeira pedindo presentes da viagem, o presente em específico era “Um crush ou uma crush” e Jaque gravou essa mensagem, foi algo marcante para ela. Na versão da Jaque, desde o começo conta que achou a Tai muito bonita, mas nunca cogitou nada porque a via apenas como a amiga hétero da sua irmã. Foi naquele período em 2022 que uma amiga em comum comentou com ela que, pelos comentários da Tai no grupo, parecia que ela estava dando em cima, e ela entendeu que nunca tinha percebido. Começou a dar bola, e depois, quando voltou de suas viagens, a chamou para ir ao Pelourinho numa sexta-feira. Acontece que, no dia que marcaram o samba no Pelourinho como primeiro encontro das duas, acabaram se vendo mais cedo na hora do almoço sem querer entre o pessoal do trabalho da irmã da Jaque. Elas reagiram como se nada fosse acontecer mais tarde, o que deixou Tai muito insegura, pensou até que o encontro não fosse mais acontecer. Mas aconteceu, se viram e Jaque fez diversos interrogatórios para ela, perguntando por qual motivo ela estava desejando se relacionar com uma mulher logo agora. Jaque explica que os interrogatórios não foram à toa, nem para constrangê-la, mas por querer entender de fato. Não gosta de ser objetificada por mulheres héterossexuais e nem ser usada como experiência, queria entender em que pé estava isso, essa “dúvida” e se poderia confiar no que estavam sentindo. Acabou que conversaram a noite toda e ao final do encontro se beijaram. Refletem, nesse processo, o quanto Jaque era de fato uma pessoa muito travada no começo. Se via de forma muito reservada. Foi/é um processo muito difícil de se abrir, Tai foi incentivando que ela se permitisse o ritmo da relação, desde sair nas ruas de mãos dadas para ir em lugares simples como a padaria, até conversar sobre os sentimentos básicos, desde coisas pequenas até grandes acontecimentos. Tainá conta o quanto “os sentires” foram diferentes. Tudo foi muito diferente do que ela já havia sentido e vivido, tanto no físico quanto no emocional. Primeiro, porque Jaque já conhecia muito sobre a história dela e ela já conhecia muito sobre a história da Jaque, então o quanto já se acompanhavam falava muito sobre seus medos, traumas, confianças… A relação ajudou a olhar de outra forma para a amizade que já possuíam, nas palavras dela, foi como dizer: “Tô aqui para você, mas precisamos ir juntas.” Jaque acrescenta o quanto sempre foi de falar sobre todos os assuntos do mundo, menos sobre o que está doendo nela. Então o esforço que Tainá precisava fazer, principalmente no início, foi muito grande. Um grande exercício de conversa. Jaque nunca foi criada na forma verbalizada do “Eu te amo”, mas sim na ação de fazer a comida, de cuidar, de ter as roupas limpas, a casa acolhedora… Fala do quanto viveu com a casa cheia, muitos militantes, o pai sempre foi militante e sempre acolhia os outros, então aprendeu a amar assim, na solidariedade, na ajuda e na caridade. Se fortalece na ideia do amor enquanto algo comunitário. E aprende diariamente nos esforços com a Tai que amor não é só tato, olfato ou audição, é uma mistura de tudo. Para Jaque, a relação que ela vive hoje ensina a amar melhor. Tai conta sobre suas vivências familiares e o quanto o amor pra ela às vezes pode ser diferente do que aprendeu, por isso, tenta dar a melhor educação para o seu filho (que as aceita e vê o relacionamento delas de forma natural), fazendo com que ele entenda o papel dos homens na sociedade, seja educado, respeitoso e assuma as tarefas de casa. Além disso, não quer mais entender o amor enquanto posse ou eterna gratidão, quer uma ressignificação do sentimento, ser ela mesma e ser amada da forma que é. Não quer ver as pessoas sendo donas uma das outras, ver o amor sendo desgastado enquanto relações tóxicas. Fica feliz por ter encontrado um relacionamento diferente de todos os outros que já viveu e por isso tentam sempre entender uma à outra, ouvir, conhecer e viver cada vez mais o que desejam. ↓ rolar para baixo ↓ Tainá Jaque

  • Aline e Nathália

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Aline e Nathália, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Fotografei a Aline e a Natalia cozinhando juntas porque desde o começo da nossa conversa deixaram claro o quanto essa é uma atividade que gostam de fazer (enquanto ouvem e criam músicas). Entendem o cozinhar enquanto uma alquimia, algo que vem desde suas avós, e a Aline explica o quanto aprendeu a cozinhar de fato depois que ela e a Nath começaram a se relacionar. Além dos hábitos na cozinha, outra coisa em evidência desde o princípio foi o quanto demonstraram que a relação é feita por muita comunicação. Ambas estudam comunicação não violenta e durante a pandemia de Covid-19, por estarem em casa e conviverem 24h juntas, colocaram em prática diversas formas de se ouvir. Entendem que se passaram tanto tempo juntas, vivendo processos individuais e coletivos, e não viveram nenhuma briga, isso é graças ao que colocaram em prática. Não ter brigas não quer dizer que não há conversas difíceis e desafiadoras. São elas, inclusive, que trazem uma nova sensação: a de segurança, de ser capaz de resolver qualquer problema. Enxergam os sentimentos e as necessidades mudando ao longo do tempo, por isso entendem o relacionamento enquanto um investimento: entregam e cobram respeito, compreensão e muitas outras coisas. Dentro de tudo o que constróem juntas, agem pensando em mulheres. São feministas e estão ativamente no seu cotidiano impulsionando as mulheres ao seu redor, entendendo que suas vidas giram em torno disso, até mesmo quando estão em espaços ainda pouco ocupados por nós. Exemplo disso são as aulas de violão e canto que a Aline dá: nem sempre são turmas de alunas mulheres, mas faz questão de debater com os homens temas importantes como ausência de mulheres em bandas e vozes femininas. Além de trabalhar com as aulas, Aline, que estava com 30 anos no momento da documentação e nasceu em Friburgo, interior do Rio de Janeiro, também trabalha com música em shows e teatros e mantém uma companhia de teatro com a sua mãe, sendo compositora e diretora. Ela conta que viveu desde sempre cercada por muitas formas artísticas e, mesmo se formando em psicologia, não se vê distante da arte em nenhuma ocasião. Natalia, por sua vez, estava com 35 anos no momento da documentação. Nasceu em Xapuri, no Acre, mas se mudou muito nova para o Rio de Janeiro com a família, crescendo no interior (na Região dos Lagos) e hoje em dia morando com a Aline em Niterói. Ela é designer e trabalha num espaço de militância coletiva. Além disso, faz doutorado em mídia e cotidiano, estudando a cobertura midiática de violências contra mulheres lésbicas. Se considera uma mulher feminista, passou bastante tempo estudando sobre o cárcere brasileiro e também faz parte de um coletivo de mulheres lésbicas em Niterói. Seu sonho é criar uma casa-escola com a Aline, promovendo cursos feministas e espaços de troca. Foi em 2019 que se conheceram. Na época, Nath foi almoçar com uma amiga, que cumprimentou uma menina na rua - a Aline. Elas contam que acharam uma a outra muito bonita… Nath pensou que Aline fosse meio marrenta, estava com um fone e um short de ginástica, não quis sentar à mesa com elas, estava de passagem. Perguntou para a amiga quem era a Aline e então descobriu que tanto a amiga, quanto a Aline, estavam ensaiando juntas para fazer um show em breve. Natalia vivia um casamento que funcionava enquanto relacionamento aberto, entendiam que passavam por um momento diferente: ela gostava de sair, ele gostava de ficar em casa… e foi assim que ela começou a frequentar os ensaios da amiga e conheceu um pouco mais a Aline. Aline, desde o primeiro momento que perguntou para a amiga quem era a Nath, escutou logo: “Nem vem! Ela é casada!” e pensou que não iria acontecer nada, a não ser que fosse conhecendo a Nath aos poucos. Depois de um tempo, Nath deixou claro para a amiga que o relacionamento era aberto e o papel dela na história mudou: começou a ser como um cupido para as duas. Fazia de tudo para deixá-las sozinha, ficava claro que uma tinha interesse na outra, mas o beijo demorou para acontecer. E quando aconteceu, foi um tanto quanto desconfortável. Estavam na rua e no momento passaram diversos ciclistas cantando louvor, era algo como: “Passeio de Ciclistas com Jesus” e elas estavam ali, com tudo aquilo acontecendo. Depois, repetindo o beijo, entenderam que não seria tão desconfortável assim. Durante o relacionamento da Natalia, ela já tinha ficado com mulheres outras vezes e por isso achavam que seria um rolo passageiro com a Aline, que não duraria muito. Porém, passava por diversos momentos difíceis e não se via mais que amiga do seu antigo companheiro (que, inclusive, é um dos seus melhores amigos até hoje). Tendo a Aline mais próxima, tudo caminhou para que o fim do relacionamento acontecesse. Começaram a se encontrar na casa da amiga que tinham em comum, e depois, quando entendeu que realmente gostava da Aline, deu o passo de repensar sua relação. Aline também passava por momentos bastante complexos naquele período: estava morando sozinha e pagando aluguel, tinha diversas dores financeiras por não ter o reconhecimento desejado enquanto artista e foi no começo de março de 2020 que decidiu aceitar o convite da Nath e se mudar para a casa dela, assim gastariam muito menos e poderiam repensar o que desejavam para seus investimentos e para a relação. A questão foi: poucos dias depois da mudança começar, chegou o lockdown por conta da Covid-19. Com a mudança pela metade e o medo de ser uma decisão precipitada, começaram a viver a pandemia. Hoje em dia, entendem que terem passado a pandemia juntas foi muito melhor do que se estivessem sozinhas em casas diferentes. Também relembram o quanto tudo era no começo, estavam apenas há 6 meses se conhecendo e passar todo o dia juntas era um desafio, foi onde deram início à trabalhar melhor a comunicação entre elas. Hoje em dia, Aline reconhece quantas mudanças já passou para entender o amor. Conta que há anos atrás ela não era uma pessoa que procurava os amigos, se sentia um tanto bruta com as pessoas e desejava ser mais gentil, não queria mais estar tão solitária. Passou a fazer movimentos de trazer amigos para perto, demonstrar de fato o que queria, e foi assim que entendeu o quanto o amor é uma construção, do qual necessita demonstração e esforço. No começo do relacionamento entendia que viviam uma paixão, mas hoje o amor vem através deste esforço, do respeito que aprenderam a ter entre tantas escutas. E Nath completa: amar é investir. Durante a conversa, também falamos sobre o quanto é ruim uma pessoa chegar e simplesmente dizer o que ela acha melhor dando isso como regra ou decisão única, sem uma conversa, sem um diálogo em que ambas expõem o que sentem. Por isso, elas entendem que mesmo se um dia chegarem no consenso de um término, isso vai ser muito conversado e feito de forma respeitosa, assim como foi a relação desde o princípio. Por fim, contam alguns momentos que mostram o cotidiano, como a vida ser regada de música e essa ser a forma artística preferida delas. No caminho para o centro da cidade, uns dias atrás, colocaram um hobbie em prática: criar paródias. Entre duas palavras: ‘jovem’ e ‘propósito’, começaram uma música desde o início, só finalizando quando já chegaram ao local. ↓ rolar para baixo ↓ Aline Natalia

  • Clara e Antônia

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Clara e da Antônia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A história da Maria Clara e da Antônia te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Antônia tem 24 anos, é apaixonada por música, toca violão e piano. Também ama séries e filmes, desde sempre entendeu a importância do cinema na vida dela. Ama estar dentro do cinema, de explorar cada detalhe, de aprender com os filmes. Foi no cinema que ela e a Clara mais se encontraram, é como uma terapia para as duas e com certeza uma das coisas que elas mais sentem falta porque não conseguem ter a mesma experiência em casa. A Clara tem 22 anos, adora fazer atividades físicas (alô crossfit!), ela e Antônia amam viajar juntas e jogar The Sims. Por fim, elas falam sobre como adoram descobrir novos lugares e como ficam empolgadas quando encontram lugares representativos para nós, mulheres LGBTs. Desde espaços de cultura, casas de acolhimento, postos na praia, bares, boates… enfim, espaços que dialoguem com mulheres, não só com homens gays, porque caímos em uma ideia de falar que o espaço é para a “comunidade LGBT” e quando entramos nele só vemos a presença de homens gays, tendo no máximo você e uma outra mulher no local (muitas vezes, heterossexual acompanhando algum amigo gay). Falam o quanto acham sensacional lugares que realmente pertencemos, que nos fortalecem e que nos representam, e que fazem de tudo para colaborar e voltar para que eles sigam existindo. A Maria Clara e a Antônia se conheceram no Tinder, em 2019. Deram match e começaram a conversar logo falando sobre o que tanto amam: McDonalds! Depois de uns dias trocando ideias, decidiram ir ao shopping, jantar e assistir um filme no cinema. A Clara brinca que quando viu a Antonia logo soube: “vou namorar essa menina!”. Decidiram marcar o próximo encontro para o fim de semana, na Urca. Como ambas são cariocas, a Clara adora lugares com vista e pensou que seria um bom lugar. Elas se encontraram, seguiram se dando bem e um encontro foi levando ao outro. Uns meses depois aconteceu o pedido de namoro. Hoje em dia, as famílias apoiam, elas seguem amando McDonalds, fazendo do Drive Thru um dos rolês favoritos e o relacionamento cresce e se fortalece com o tempo. ♥ A Clara entende que o amor é o primeiro sentimento que temos de verdade na vida, seja pela nossa família, através do cuidado, do acolhimento, do conforto... é o sentimento que faz com que a gente se encontre. E entende também que temos um tipo de amor para cada pessoa, ou seja, amamos cada pessoa de um jeito: cada amigo, cada familiar… é semelhante, mas é diferente. É único. E só você sabe que está amando. Ela sente que primeiro se encantou pela Antônia, e então se admirou, se apaixonou… até que se viu amando. Foi montando as pecinhas. Tudo exigiu tempo, construção e sentimento. Quando conheci a Maria Clara e a Antônia, as coisas que me chamaram atenção logo de cara em ambas foram suas profissões e a forma que elas falam sobre isso: a Antônia é professora de inglês, e a Maria Clara é estudante de medicina, mas já trabalha em hospital. Antônia, quanto pensa em amor, antes de remeter ao amor romântico ou algo do tipo, primeiro lembra sempre dos alunos dela. Entende que amor é amor, por isso não tem cor, gênero, nacionalidade ou qualquer outra coisa. O amor acontece pelo o que a gente sente, seja quem for. Mas entende também que por trás de tudo existe um viés social, então amar uma mulher, por exemplo, é algo que não fomos criadas para fazer… ninguém nunca nos criou para amar alguém que é igual a gente, e talvez seja por isso que é mais difícil e mais doloroso. Mas talvez, também seja por isso que é tão mais bonito e mais intenso. Ela entende que o papel dela enquanto mulher e enquanto professora é ensinar aos alunos cada um dos seus privilégios e plantar uma sementinha sobre o que podemos fazer de diferente no mundo e sobre o fato de que para que o mundo seja de todos, ele não pode ser de ninguém. Assim que eu soube que a Clara estudava medicina, quis entender como a pandemia tinha impactado no que ela pensava sobre a profissão que queria seguir e como foi/está sendo vivenciar esse momento tão crítico. Ela comentou o quanto foi difícil no começo, tanto para elas (por conta de se verem de forma limitada, por verem muitos casais que eram referência se desfazendo e vendo o relacionamento delas se balanceando por isso), quanto por todo o período incerto que se dava. Foi um período de muita ansiedade, porque a quarentena também nos forçou a lidar com o nosso próprio corpo e nossas próprias inseguranças, além de toda a insegurança do mundo exterior e das emoções à flor da pele. Por mais que no hospital ela não esteja diretamente no setor Covid-19, ela segue trabalhando e de certa forma tendo contato, então reflete bastante sobre o papel de cada profissional na área da saúde e dos profissionais de todas as áreas, sobre como a profissão de cada pessoa é afetada. Em muitos momentos viu a vida dela se transformando em um único assunto, só soube pensar e falar sobre a pandemia. Hoje em dia, por conta da vacina e da retomada do comércio e de algumas atividades, ela tenta se ver mais tranquila, mas ainda é um processo diário de aprendizado também. Maria Clara Antônia

  • Inara e Marina

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Inara e Marina, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A documentação da história da Inara e da Marina veio a acontecer com uma pressa maior que a da maioria dos casais que passam pelo Documentadas, mas por um motivo bastante especial: elas se inscreveram sabendo que, no próximo mês, já não estariam mais morando no Brasil. As duas decidiram começar uma nova vida em Portugal. No começo do namoro era uma brincadeira boba de usar a dupla cidadania da Nina, mas depois virou um sonho concreto. Casaram-se e começaram a organizar como seria a nova vida. Nos encontramos no momento de venda de todos os objetos que elas possuem por aqui e, agora, com a história no ar, elas já estão começando os primeiros passos no novo país. Durante a conversa, elas relembram que quando a Inara foi apresentar a Nina para as melhores amigas dela, comentou algo que nunca tinha falado sobre nenhuma outra pessoa com quem se relacionou: “Anotem aí! Eu vou casar com essa mulher!”. No casamento, essas amigas eram as madrinhas. Assim, elas falam sobre o poder das palavras, do querer estar junto de alguém e, de alguma forma, do curso da vida. Inara e Nina se conheceram naquele aplicativo de relacionamentos super citado por aqui, o Tinder. Elas deram match e conversaram, depois sumiram, voltaram, sumiram de novo… A conversa não saiu de lá. Falavam sobre trabalho, família, diversos assuntos nessas idas e vindas, e foi num dia que a Nina cansou do aplicativo e decidiu sair de forma definitiva que avisou a Inara e pediu o Instagram, para que elas mantivessem o contato e se encontrassem em algum momento. Esse momento chegou, ainda que demorou mais um tanto - o encontro foi ótimo. Na época elas estavam em momentos bem diferentes… a Nina saía de um relacionamento bastante abusivo, a Inara estava numa solteirice contínua do qual ficava com várias pessoas, mas sentia que não se aprofundava com ninguém - e calhou de na época conversar com uma amiga (que, futuramente, viria a dividir apartamento com elas por anos) sobre essa sensação de fazer encontros à troco de nada. A amiga aconselhou a desmarcar o encontro, mas a Inara disse que não tinha como desmarcar, que seria desrespeitoso porque a Nina parecia ser muito legal, era melhor ir e ver no que iria dar - Ela disse: “de qualquer forma, vai ser o último”. E, por fim, foi. Essa história de dividirem apartamento surgiu logo depois, quando a Nina pediu a Inara em namoro elas já estavam praticamente indo morar juntas. O contrato estava por vencer e elas iriam se mudar. Até poderiam ir para o apartamento da Inara, que tinha uma vista ótima, ou optar pelo da Nina, que era grande, mas preferiram alugar um novo, recomeçar. Não queriam lugares que tivessem vivido outras histórias e outras dores. Assim, a amiga da Inara também estava em busca de apartamento e elas foram dividir um imóvel na Lapa, no centro do Rio de Janeiro. Elas contam que mesmo morando juntas, mantinham cada uma o seu quarto, até porque tudo estava muito no início quando alugaram e não sabia o que poderia dar certo. Acabou que juntas, com a companhia da amiga, no apartamento enfrentaram toda a pandemia, compartilharam diversas histórias e viveram muitas coisas. A amiga, por sua vez, confessou no casamento que não chegou nem a desabilitar o aplicativo do Zap Imóveis do celular, imaginando que no começo, pós mudança, elas brigariam, se separaríam, e ela quem teria que arranjar um novo lar. Mas a verdade é que isso não passava na cabeça delas, tinham uma responsabilidade em mãos e queriam estar juntas. Da mesma forma que um apartamento novo significava viver um recomeço, a viagem e a mudança para Portugal significava outro. Não está sendo fácil vender absolutamente tudo, desapegar das coisas que foram compradas e conquistadas ao longo dos anos. Mas é um esforço em conjunto para entender que isso abre caminhos para novas experiências. Elas contam que é uma possibilidade maravilhosa pensar em ter Portugal completamente do zero. Comprar coisas novas, mobiliar com a cara delas o novo lar, construir tudo novamente. É excitante, também, pensar na segurança de viver fora do Brasil. Hoje, viver no Rio de Janeiro, pela concepção delas, está muito difícil. Recentemente passaram por assaltos e criaram medos e traumas de vivenciar a rua. Pensam em viver Portugal por retomar o que amavam fazer aqui e que abdicaram pela violência: andar de bicicleta, curtir a cidade, sair sem medo do que pode acontecer a qualquer momento. Inara explica o quanto isso também dialoga com o trabalho dela, que é explorar o lado criativo: vai ser muito feliz podendo fotografar a rua, usar o celular, filmar mais em vias públicas e produzir mais conteúdos. Inara tem 39 anos, é natural do Rio Grande do Sul, mas desde criança se mudou para o Rio de Janeiro com a família. Ela trabalha com fotografia. Marina tem 39 anos, é natural do Rio de Janeiro e trabalha num site de música digital, sendo head de operações. No período da pandemia agravado pela quarentena, elas viveram momentos muito difíceis e também momentos muito bonitos (como o pedido de noivado e, posteriormente, o casamento). Foi logo no começo, quando ninguém sabia o que era a doença do Covid-19 e que havia-se um sentimento generalizado de luto, de desespero e de incerteza, que no dia do aniversário da Inara, elas juntaram os amigos online e a Nina fez o pedido de casamento. Foi como um sopro de esperança brotando: ver os amigos ali, através de uma vídeo chamada, e sentir que um dia estariam todos juntos novamente na festa, inclusive alguns com seus filhos (pois crianças estavam sendo geradas) era como brotar esperança em meio àquele caos. O casamento de fato aconteceu, cheio de detalhes sobre o que elas gostavam, como sapinhas nos buquês, tudo de mais clássico e que representava elas verdadeiramente. O casamento também inspirou amigos LGBTs próximos a se casarem. Entre os momentos mais delicados que uma relação envolve, como estar uma para a outra passando por coisas difíceis, enfrentando lado a lado e estando juntas de verdade, a Inara viveu uma cena, como ela mesmo diz, de novela, que foi bastante dolorida e que não saberia ter passado por isso sem todo o apoio da Nina. Reencontrou sua mãe depois de muitos anos sem contato, porém, ela estando em um leito de UTI, na fase terminal de um câncer. Foram algumas semanas de contato direto, apoio, em meio às ondas muito fortes de Covid-19 e, mesmo assim, as duas fazendo o possível acreditando com todas as forças que teria algum jeito dela melhorar. A Inara e a Nina acreditam muito no amor em forma de cuidado, em observar a necessidade do outro para além da sua. Isso, na relação delas, está desde os detalhes como a comida preferida da Inara ser o pão com mortadela que a Nina prepara nas manhãs, ou a força que elas tiveram nesses momentos mais difíceis. A Inara nunca tinha conhecido um amor que proporcionasse tanto apoio como quando elas passaram por isso - e, não só pela parte mais técnica e burocrática que sabemos que esses momentos infelizmente impõem - mas pela dor, também. Receber o acolhimento de uma forma que nem sabia que era possível tê-lo. Um cuidado realmente saudável, um amor único - e também calmo. A mãe da Nina, por sua vez, respeita as duas mas ainda não entende o relacionamento delas enquanto uma relação amorosa, de fato. Elas compreendem que isso é por motivos religiosos que são colocados acima de tudo e que, com o tempo, vai se apaziguando da melhor forma. ↓ rolar para baixo ↓ < Marina Inara

  • Julia e Milena

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Julia e da Milena, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! No começo do relacionamento foi um pouco mais difícil manter os encontros, por conta da família não saber, não lidar muito bem e a pandemia não permitir que saíssem de casa. Agora, mesmo com a distância intermunicipal, elas acabam se vendo a cada 15 dias ou nos fins de semana. Entendem que essa escolha faz parte da relação e que o relacionamento está sendo construído com muito respeito e conforto, tendo cumplicidade. Nesse momento, a Milena disse que nunca teve alguém na vida que olhasse ela e tratasse ela da forma que a Júlia a olha e a trata, e que isso já resume toda a diferença e tudo o que o relacionamento vem significando para ela. “Todo o carinho. Todo o cuidado. Ninguém nunca se preocupou comigo assim." No começo da conversa, a Júlia tinha comentado sobre uma mulher que estava no metrô olhando as duas no caminho que fizeram até o local que nos encontramos. O olhar que ela fez foi um olhar específico de julgamento, não chegou a ser vulgar, foi algo do tipo “nossa, mas duas meninas? por que elas não estão com homens?”. Ela estava realmente bem incomodada com esse olhar, falou dele várias vezes na conversa. Comentamos sobre a diferença de olhar que nós mulheres recebemos quando estamos sozinhas, quando estamos com nossas companheiras, quando são dois homens, quando é um homem gay, quando é uma mulher nos olhando e quando é um homem nos olhando… sobre como todos os olhares são diferentes, mas como todos eles são violentos. Ela disse que queria que as coisas LGBTs fossem mais divulgadas para que tivéssemos mais espaços de fala, não só para “nos mostrarmos”, mas para educarmos essas pessoas, para explicarmos “sim, somos duas mulheres, amamos, está tudo bem, viu? não precisa do homem”. A divulgação pela nossa própria representatividade, porque precisamos disso, porque é importante para nós. Elas comentam também o quanto o fato de ocuparmos esse espaço as coisas já vão mudando naturalmente, como na própria família: os familiares que antes nunca usavam o termo “namorada da Milena” ou “namorada da Júlia”, ou que substituíam por “amiga”, hoje em dia já estão verbalizando isso… e que elas já estão podendo se referir à mãe da companheira enquanto sogra. O quanto faz diferença para a gente nos considerarem enquanto uma família e enquanto parte da família. O quanto elas vibram em cada pequena conquista que acontece quando uma está na casa da outra e sentem que avançam um pouquinho nessa conquista de território, que é diária. Sabe aquela famosa frase que nos acostumamos a ouvir? “e ai depois veio a pandemia.”, pois é. Foi logo em seguida, então os sentimentos se misturaram novamente: o término da Jú, ela tinha recém começado em um novo emprego, as várias coisas acontecendo mundialmente, tempos de incertezas, mudanças bruscas e todos dentro de casa. Elas foram voltando a conversar com maior frequência, de forma online, e só puderam se encontrar no início de junho. Quando se encontraram foi certeiro: começaram a namorar na mesma semana. Hoje em dia a Júlia está com 23 anos e a Milena também, a Jú faz muitas coisas, é fotógrafa, trabalha como social media e faz produtos digitais. Começou uma graduação em jornalismo e adora a área de criação (faz orçamento com ela, gente!), enquanto a Milena está desempregada, mas possui técnico em administração (mandem jobs e vagas por aqui também! estamos super na busca!). A Jú acredita que a fotografia entrou na vida dela como um grande hobby, acabou virando profissão, mas ela ainda faz em grande parte por diversão, porque gosta mesmo é de treinar, desbravar, se aventurar. E a Milena brinca que o hobbie da vida dela é o esporte, jogar e praticar. Elas entendem que cada vez mais querem estabelecer um nível de relação totalmente diferente das que já tiveram antes. Algo muito mais saudável em diversos âmbitos. Desde a família - antes a mãe da Jú não aceitava, por exemplo, e hoje ela adora a Milena. Assim como a família da Milena demorou um tempo para processar também e hoje adora a Jú - até os próprios preconceitos internos que ainda podem existir em nós. E falam sobre querer enfrentar os desafios que surgirem juntas, crescerem e se apoiarem. Desde o começo, quando eram apenas amigas, sempre falaram sobre absolutamente tudo (e por isso se deram tão bem), então agora não será diferente. Elas podem contar uma com a outra para entender seus processos internamente sem julgamentos. Quando falamos sobre isso, a Júlia logo disse em seguida sobre o arrependimento da escolha de ter voltado àquele relacionamento, por conta do ano de 2019 ter sido um ano muito difícil em diversos sentidos, incluindo o relacionamento. Mas como podemos saber se ela e a Milena teriam dado certo se tivessem ficado juntas naquele ano? de alguma forma, as coisas foram caminhando. O ano serviu para que ambas, em seus caminhos distintos, construíssem um amadurecimento muito maior, enfrentando coisas que não enfrentariam estando juntas. Ela também comenta que mesmo reatando o namoro, a Milena nunca deixou de ser uma prioridade na sua vida, e que isso foi algo totalmente novo, ou seja, que ela nunca tinha sentido por alguém. Ela sempre procurou saber como a Milena estava, se estava precisando de algo… sempre deixou amigos por perto dela. No meio do ano, alguns meses depois do afastamento, elas voltaram a conversar. Durante todo o ano de 2019 a vida da Milena também passou por idas e vindas, ela reatou o ex namoro, também passou por mudanças, processos diferentes. Se viu andando em círculos, processos muitos semelhantes aos da Jú. Nos meses em que elas conversavam se identificavam com algumas questões, se encontravam quando ela poderia estar pelo Rio, já que seguia morando em Magé, e conversavam muito sobre como os caminhos tinham sido separados e como mesmo com situações tão diferentes elas ainda se identificavam. Foi em Janeiro de 2020 que a Milena tomou a iniciativa de romper o relacionamento dela, por não sentir que fazia mais sentido continuar naquela forma que estava. Em março a Júlia terminou também. Uma semana antes da pandemia elas se encontraram em um show do cantor Delacruz, no Circo Voador, porque gostavam de uma música dele que sempre teve um significado muito forte para elas. Esse dia foi um divisor de águas, elas consideram que a partir dele e a partir daquele momento queriam passar a fazer as coisas serem diferentes. A Milena olhou no fundo do olho da Jú e disse: eu realmente gosto muito de você. A história da Milena e da Júlia começou oficialmente durante a pandemia, em 2020. Mas elas se conheceram em 2018, durante um curso, enquanto eram jovens aprendizes. A Júlia é natural do Rio de Janeiro, enquanto a Milena é de Magé, no interior, mas toda semana chegava até o centro do Rio para o curso. Na época elas não tinham nada em comum, a Júlia já sabia que se interessava por mulheres e estava num relacionamento com uma menina, enquanto a Milena nunca tinha se interessado por nenhuma mulher, estava em um relacionamento heteronormativo e pensava que não teria muito assunto em comum para conversar com a Jú. Aos poucos, foram criando uma amizade. Na versão da Jú, ela conta que logo no primeiro dia sentiu atração e uma paixonite pela Milena, por isso tentou investir na amizade começando com piadinhas e tentando se aproximar… assim elas se seguiram nas redes sociais e começaram a conversar além do ambiente do cursinho. Com o tempo passando e a frequência ao se verem semanalmente no curso acontecendo, acabaram criando um grupo de amigas e a amizade foi se fortalecendo. Elas passaram a manter uma rotina de conversas ativas, se ligavam por chamadas de vídeos, viraram confidentes. A Milena se sentiu à vontade para contar para a Júlia que estava sentindo algum tipo de atração por ela (Júlia que não à toa ficou com um sentimento de “eu sempre soube que você gostava de mulheres também!!!!”) e então ela contou que não sabia que gostava de mulheres e que essa estava sendo a primeira vez que sentia isso. Como a Júlia estava em um relacionamento, elas até chegaram a sair juntas depois disso, mas não se beijaram ou algo do tipo, apenas continuaram tendo contato. Em janeiro de 2019, o relacionamento não estava indo bem, ela acabou dando um tempo a ex e foi o momento em que finalmente pode ficar com a Milena. Por mais que elas estivessem ficando e se encontrando durante o mês de janeiro, tudo ainda era novo para a Júlia, porque o relacionamento recém tinha acabado, ela ainda se sentia muito dividida. Foi quando a ex-namorada soube que ela estava se envolvendo com alguém nesse período de “dar um tempo” e a pressionou, como quem diz “e aí, você vai começar algo com ela? ou nós vamos voltar a seguir o que já tínhamos construído?”. Foi então que a escolha de voltar ao relacionamento em que estava foi feita. Ela parou de falar com a Milena, parou de frequentar o curso e mudou totalmente a rotina.

  • Joyce e Gabi

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Joyce e da Gabi, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Na intensa rotina de trabalho que Gabriela e Joyce possuem, nos encontramos num final de semana no centro do Rio de Janeiro. Gabi trabalha em farmácia, Joyce em supermercado, são horários bastante cheios e cotidianos exaustivos. Elas moram em Duque de Caxias, região da baixada fluminense, e o que mais gostam de fazer juntas - além de cozinhar (sempre acompanhadas de vinhos) e tirar fotos das coisas por aí, é também ir até o Rio para aproveitar a praia e descobrir lugares novos - ser turista na própria cidade. É justamente entre a dinâmica pouco fácil de uma rotina cheia, de horários de trabalho que não nos dão muitos momentos de descanso e de uma vida agitada que elas entendem o quão é importante se esforçar para enxergarem o amor na relação que vivem. Já são mais de 6 anos morando juntas, Joyce acredita que o amor está nos pequenos gestos do dia que demonstram uma pela outra - uma somatória de coisas que vão se acumulando, fazendo com que a paixão siga existindo. Conta que desde o começo, como não tinha dinheiro, demonstrava escrevendo cartas, imprimindo fotos, criando coisas personalizadas… Hoje em dia, mesmo odiando café, por exemplo, sabe o quanto a Gabi ama e faz café pra ela, compra cafés diferentes quando vê no mercado, sempre quando sai sozinha traz algo que lembrou a Gabi para demonstrar o quanto ela estava presente em pensamento… e sente que nesses pequenos gestos estão vivos os significados do amor. No momento da documentação Gabi estava com 33 anos e Joyce com 24. Por mais que hoje em dia essa idade ainda tenha seu peso pelas diferenças, quando elas começaram o relacionamento, tudo era ainda mais conflituoso. Na época, Joyce nunca tinha se relacionado com mulheres. Gabi tinha uma vida mais agitada, era uma mulher independente, trabalhava numa drogaria próxima à casa da Joyce e foram assim que se viram pela primeira vez. Foi Joyce quem se interessou pela Gabi - e Gabi estava num momento de querer sossego, pensou que era melhor não retribuir interesses, principalmente pela diferença de idade. Mas quando se deu conta já estava entregue e interagindo. Não foi um início fácil, bem pelo contrário. Viveram muitos problemas vindo por conta da não aceitação familiar da Joyce. Ela até então era uma mulher que vivia uma cultura cristã, com padrões sociais, e pensava que no momento que descobrissem até poderia ficar tudo bem pois tinha um tio gay que era casado há anos e aceito na família… mas não foi apoiada nem por ele. Todos foram contra, gerando confusão ainda maior. Gabi foi a mais prejudicada, pois envolveram o trabalho dela, passando por uma grande exposição. Precisou mudar de loja e só não foi demitida porque era uma funcionária exemplar. Todos os conflitos familiares que viveram começaram quando tinham cerca de 6 meses juntas, e duraram mais de um ano e meio, quando Joyce já tinha 18 anos e sem terem outras opções, decidiram morar juntas. Joyce conta que foi num domingo, se sentiu exausta após uma discussão muito grande e saiu de casa. Hoje em dia, aliviada, a família se dá muito bem. A mãe pediu desculpas para a Gabi, entende que a visão que tinha sobre a relação delas era muito distorcida e que a Gabi não era a pessoa que ela pensava. Gabi entende também que as coisas mudam com o tempo e que a base para que tudo mude é o diálogo. Sente muito por não ter tido isso na infância, não foi ensinada a dialogar dentro de casa e não era algo instigado pela sua família. Ao decorrer da vida adulta tenta mudar isso de todas as formas e conversa o tempo todo: sempre está disposta a falar o que sente. Gabi entende que amar é respeitar, em qualquer âmbito. Pensa que talvez na família, no modelo em que vive, as pessoas não respeitam tanto - elas aceitam. Já nos amigos e no relacionamento, aí sim, é diferente: se sente respeitada de verdade, pode ser quem ela é, sem julgamentos, de forma livre. Num momento da conversa, lembram de um filme evangélico que viram uma vez e que fala sobre amar ser uma forma de não desistir, de passar pelas fases, persistir. Sempre pensam no filme quando as coisas estão difíceis, se impulsionam a acreditar no relacionamento, reforçam o amor que sentem. Joyce, por fim, fala sobre o quanto gostaria de mudar algumas vivências que possuem nos dias de hoje no dia a dia morando em Duque de Caxias e tendo as rotinas de passeios pelo Rio também, como o fato de que gostaria muito de sair andando na rua em paz. Comentou que quando vieram me encontrar para registrarmos essa documentação, desceram na rodoviária e estavam caminhando na rua em direção ao lugar que nos encontramos, nisso passaram dois homens de moto e gritaram “Quatro é par” em alusão à elas estarem ‘sozinhas’ e eles também. Reforça que o assédio que sofremos quando estamos na rua enquanto um casal de mulheres (ou enquanto mulheres quando estamos sozinhas) é uma das piores coisas que podemos sentir. E que só queriam estar vivendo bem enquanto um casal que sai na rua, sem essa violência, esse medo. Queriam sair de casa a hora que quisessem (muito cedo ou muito tarde) sem o medo acompanhando o tempo todo. ↓ rolar para baixo ↓ Joyce Gabriela

  • Gabriela e Mariana

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mari e da Gabi, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Ela conseguiu diversos trabalhos fazendo lettering em paredes e outros freelas com comunicação, e por mais que tivesse chegado aqui em dezembro com algum dinheiro guardado, ambas sabiam que o mesmo teria prazo para acabar. Quando a pandemia surgiu em março foi um susto muito grande, porque passaram por um aperto e por muitas incertezas. Ela parou de trabalhar e a Mari corria o risco de também ficar sem emprego. Por mais que ainda tentassem de diversas formas conseguir contornar as situações (no carnaval antes da pandemia, por exemplo, venderam sacolés - que chamaram de sacolésbicos! - e assim conseguiram dinheiro para aproveitar o feriado e pagar as contas), tudo gerava bastante medo de não conseguirem bancar e não sabiam muito o que fazer sobre, até porque a pandemia não mostra nenhuma outra oportunidade ou opção. Elas contam que a família da Mari foi essencial e muito acolhedora nesse momento também, foram muito importantes para que elas não se sentissem sozinhas, e que mesmo com os problemas financeiros, isso nunca afetou elas enquanto um casal nos sentimentos e no amor. Existem vários tratos que nunca precisaram nem serem especificamente feitos, foram surgindo naturalmente entre elas, de que quando uma está com menos dinheiro a outra tenta segurar as pontas, já que ambas estão sempre conversando sobre tudo. A parceria é muito forte nesse sentido. ♥ Por mais que hoje elas brincam e dão muitas risadas pelo começo rápido do namoro, a verdade é que ele não foi nenhum pouco fácil. Elas estavam muito felizes juntas, enquanto um casal, mas a vida da Gabi em Araras estava bastante complicada. Ela passava por muitos momentos complicados no trabalho e sofreu duras críticas dos amigos por ter começado a namorar tão depressa. Muitos se afastaram dela e nem quiseram tentar acompanhar o relacionamento dela com a Mari, ela se sentiu bastante triste e acabava vindo mais para o Rio porque não se sentia tão bem ficando em São Paulo. Além disso, a partir do primeiro momento em que ela esteve no Rio, criou uma conexão muito forte com a cidade. Ela conta que o Rio representa tudo o que ela sempre estudou, a antropologia está muito presente aqui o tempo todo, e acabava também que sempre que estava aqui conseguia bastante trabalho freelancer... as coisas iam acontecendo muito rápido. As pessoas sempre falavam que o lugar dela não era em Araras e um pouco antes delas completarem um ano de namoro sentiu que era o estopim e o momento: fez as malas e largou o emprego em São Paulo, veio apenas com a passagem de ida para o Rio! Assim que ela chegou, ficou hospedada na casa de um amigo e a ideia era ficar lá no primeiro mês, porém o lugar era bastante perigoso e a família da Mari achou melhor acolhê-la. As duas ficaram juntas e conseguiram alugar uma kitnet, por mais que o espaço fosse pequeno e que as coisas tivessem se ajeitando aos poucos, a família da Gabi também foi entendendo que ela estava mais feliz no Rio e foi apoiando a vinda dela, então ela foi conhecendo pessoas, distribuindo currículos e tentando empregos. De uma forma um tanto quanto aleatória, a Gabi viu o perfil da Mari sendo divulgado em algum Twitter LGBT de pessoas solteiras, mais em tom de brincadeira do que de seriedade, e resolveu segui-la, então a Mari seguiu de volta e elas se tinham nessa rede social. O tempo foi passando e em 2019 ambas estavam solteiras e interagiam em alguns tweets. Até que em um sábado, a Gabi estava estudando e resolveu beber... já estava começando a ficar alcoolizada e viu um tweet que a Mari fez sobre queijos (quem quer puxar assunto dá um jeito, né minha filha?) e resolveu responder, resumindo: começaram a conversar e um tempo depois a Mari estava pegando um ônibus, saindo do Rio de Janeiro e indo para Araras em pleno carnaval, para as duas se conhecerem! A Gabi foi buscá-la em Campinas, cidade próxima, e a rodoviária de Campinas tem dois andares, então ela conta que, enquanto estava no piso superior, ao ver a Mari saindo do ônibus, ela teve certeza que namoraria essa mulher. As duas se falaram, ambas nervosas, o papo fluiu, já era tarde da noite e quatro horas depois elas se pediram em namoro - ou seja, quando a família da Gabi acordou e foi dar bom dia para a ‘menina do Rio que finalmente chegou’, a menina já tinha virado ‘a namorada do Rio que finalmente chegou’. A Gabi tem 26 anos e é natural de Araras, interior de São Paulo. Se formou em Ciências Sociais com foco em antropologia e está cursando publicidade e propaganda, trabalhando atualmente em uma agência de publicidade, mas vive entre muitos hobbies, freelas e artes: pinta quadros, faz lettering, web design, curte fotografar, é líder de torcida e adora falar sobre muitos temas na internet, principalmente saúde mental. A Mari tem 31 anos, trabalha enquanto instrutora de informática e faz faculdade de educação física. Ama música, adora cantar, tocar vários instrumentos, já teve até canal no YouTube (alô, sapatão MPB!). Sempre adorou esportes e joga muita bola, além de arrasar na cozinha. Elas amam fazer coisas juntas, falam muito sobre o relacionamento nas redes sociais para incentivar mulheres a saírem do armário e falarem sobre conexões homoafetivas e também gostam muito de criar coisas juntas, a Gabi brinca que a Mari adora montar e fazer coisas, então, por exemplo, elas precisavam comprar um sofá e quando ela se deu conta a menina já estava vendo formas de fazer o próprio sofá! Hahahaha! Se pudesse, faria tudo! Hoje em dia, moram juntas com os gatinhos em um apartamento em que cada cantinho tem algo feito por elas, desde os quadrinhos nas paredes, até as plantas que cuidam juntas e o espaço aconchegante no quarto. Por mais que no primeiro encontro da Mariana com a Gabriela já tenha acontecido o pedido de namoro e isso soe bastante impulsivo e até mesmo um pouco inconsequente, hoje em dia, alguns anos depois, com alguns quilômetros de distância e morando juntas, elas são as pessoas mais sensatas e conscientes sobre suas atitudes que eu poderia conhecer. Não que uma pessoa que comece a namorar no primeiro encontro não esteja consciente da sua atitude, mas que poucas vezes vi casais que conseguem se equilibrar em tanto companheirismo como na tarde que eu passei dentro do apartamento da Gabi e da Mari, em Madureira, no Rio de Janeiro. Me peguei por muito tempo depois pensando se talvez tamanho companheirismo tivesse surgido pela correria diária que passaram juntas - porque nos momentos mais difíceis acabamos sempre nos fortalecendo - mas acredito que o que envolve tamanho amor entre a Gabi e a Mari é o quanto elas se impulsionam em querer ver bem, sobretudo, na saúde mental. Ambas estão sempre com diálogo muito aberto, compartilhando inseguranças, medos, conversando sobre o que sentem, sobre suas admirações e sobre seus olhares à forma de ver o mundo. A Gabi, quando falou da Mari e da importância que ela têm na luta pela saúde mental, se emocionou e deixou claro o quanto é grata pela mulher que a Mari se tornou. Por quem ela é. E a Mari, logo depois, completou com uma fala em que explicava que família é algo que nem sempre está ali para te entender em cada detalhe, mas para te apoiar e dar amor em o que você precisar. Tudo se encaixou entre elas, de alguma forma, nesse amar, admirar, se encontrar, encantar, apaixonar e confiar. A Gabi e a Mari acreditam que o amor entre mulheres envolve não só as relações românticas, mas saber admirar, apoiar, escutar, reconhecer e querer estar com outras mulheres. A Mari comenta que quanto mais descobrimos o mundo de amar e de nos apaixonarmos por coisas feitas por mulheres, por espaços compostos por mulheres… mais queremos estar nesses lugares, mais queremos conhecê-las, e também mais queremos exaltar seus trabalhos e quem essas mulheres são. A Gabi conta também a importância de ter outras mulheres na nossa vida para nos referenciarmos… desde nos nossos trabalhos, na nossa faculdade, nos espaços que antes eram majoritariamente ocupados por homens. Ambas acreditam que para que a sociedade como um todo mude e para que a gente cresça, é preciso uma reeducação sobre o machismo (e sobre os preconceitos em geral), além de uma redistribuição de cargos públicos, de renda, de condições de vida. Para que ninguém mais passe pela fome, que ninguém mais sofra discursos de ódio e que a gente não viva no caos porque o caos só beneficia o lado de um sistema que realmente não quer saber da gente. Que saibamos ir além dele. ♥ Mariana Gabriela

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