Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
288 resultados encontrados com uma busca vazia
- Gabi e Raffa
O primeiro ano da Raffa na faculdade foi o último da Gabi e, por mais que elas estudassem o mesmo curso, pouco se cruzaram pelos campus da universidade. Raffa viu o perfil da Gabi no Instagram e decidiu adicionar, comentam que como tinham poucas mulheres lésbicas no curso de medicina, era mais fácil identificar logo de cara e pensar numa aproximação. Gabi aceitou, mesmo ficando intrigada por não fazer ideia de quem seria a Raffa, e seguiu de volta. Raffa tentava puxar alguns assuntos, mandava umas mensagens e até fotos, mas Gabi não estava entendendo o que significava aquilo - e não lia enquanto flerte. Num dia, Raffa postou um storie pedindo indicações de músicas e quem respondeu foi a Gabi, começando então longas conversas até decidirem sair. Se encontraram no centro da cidade, local próximo de onde fizemos as fotos. Almoçaram num restaurante vegetariano, supondo uma à outra que eram vegetarianas, sendo que ambas comiam carne. Depois, no calor do verão Porto Alegrense, decidiram andar pelo centro buscando adereços para usar num famoso bloco carnavalesco que iriam juntas (o Bloco da Laje). Na época, com a orla do rio recém revitalizada, não havia uma árvore fazendo sombra, então pararam no lugar que nos encontramos: a praça do aeromóvel. Lá, passaram a tarde do primeiro encontro e sentem que depois tudo aconteceu como esperado - se deram bem desde o início, como uma paixão avassaladora. No momento da documentação, Gabriela estava com 28 anos. Ela é natural de Porto Alegre, é médica e no momento está fazendo o período de residência. Ama andar de bicicleta, sente que viver de pedalando pela cidade é sua grande paixão - e junto com a Raffa, usam a bike como meio de transporte. Raffaela, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela é natural de Esteio, região metropolitana de Porto Alegre, mas reside na capital desde 2021 quando decidiu se mudar para ficar mais próximo da Gabi e focar nos estudos em meio ao caos da pandemia de Covid-19. Ela está na graduação de medicina e no tempo livre, para além de pedalar, é atleta de crossfit - participa de competições e se dedica bastante ao treino. Quando começaram a namorar, em 2019, Raffa ainda morava com a mãe. Tiveram um ano muito bom, aproveitaram, se divertiram, sentem que tudo estava fluindo bem até a chegada da pandemia. Com as mudanças abruptas a partir de março e o fato da Gabi já estar trabalhando enquanto médica - e trabalhar no setor da Covid - tudo ficou muito balançado pela incerteza de não sabermos como seria a vida dali para frente. Gabi precisou ficar em isolamento, havia todo o pânico sobre a doença e algumas aulas da Raffa aos poucos precisaram acontecer em hospitais, então decidiram morar juntas de uma forma inicialmente temporária, assim fariam companhia uma à outra e não estariam sozinhas num momento tão difícil. No momento forte da pandemia, viveram juntas na companhia de mais dois amigos que viviam também a rotina da medicina. Estavam sempre em inconstâncias: um dia totalmente otimista, outro dia seria o fim dos tempos. Sempre cercadas de sensações de não-sobrevivência, ou medo de não passar por isso. Entendem que foram se refugiando muito uma na outra, na casa… O que tinham era a única coisa segura que se mantinha perante o resto, porém, entre todos os sentimentos, em algum momento sentem que houve um desequilíbrio - o peso caiu sobre a Gabi e ela passou a segurar muitas barras além do que poderiam carregar. Entendem que nesse processo de oficializar que moravam juntas, ter um lar, viver uma vida a dois, a Gabi foi indo para um espaço de cuidadora do lar que não cabia à ela (e que também era um espaço de cobranças com a Rafa, assumindo um papel que não queria assumir). Então, depois de um certo tempo e já com a pandemia se flexibilizando aos poucos, decidiram morar em lares separados. Nesse momento, enfrentaram mais uma barreira: um processo de entender que uma separação era necessária, mas não era um motivo de término, de ficarem longe e não terem mais um relacionamento. Entendiam que gostavam uma da outra, mas as questões rotineiras estavam atrapalhando muito ao invés de colaborar com a relação. Precisavam crescer de outras formas (individuais também), melhorar comunicações, seguir caminhos e que poderiam fazer isso estando cada uma em um apartamento. Hoje em dia, Gabi e Raffa vivem um novo modelo de relação, muito diferente de como era no começo, e se sentem muito melhor em suas rotinas. Decidiram ser mais livres: não se cobram para que façam tudo juntas. Conseguem falar sobre o que sentem, sem a sensação da cobrança presente, e estão juntas quando desejam estar - seja saindo com os amigos, seja em casa comendo pizza e assistindo séries. Entendem que não possuem necessidade uma à outra, mas um gosto em suas companhias. Entender isso foi um processo bastante longo, mas acabou com as inúmeras brigas diárias. Hoje, cada uma em sua casa e se encontrando quando preferem, compartilhando os momentos bons e ruins quando se sentem prontas para isso, foi a melhor forma que encontraram de manter uma relação saudável. Durante a nossa conversa, falamos sobre essas formas de encontrar o amor no dia a dia e do nosso jeito. Gabi explica que entendeu o amor enquanto uma forma de estar em paz com as pessoas - e também tendo o amor enquanto uma somatória, algo que te deixa melhor, que não te puxa para as coisas negativas. Enquanto dialogamos sobre essas ‘posições’ e sobre onde encontramos o amor, Raffa trouxe muito sobre a realidade que ela vive trabalhando na saúde pública. Não teve como desvincular o amor de algo político, das muitas histórias e vivências das pessoas que atende e cuida diariamente. Entende que muitos dos problemas sociais que temos existem justamente pelas pessoas não receberem o amor de ninguém - e amor enquanto cuidado, escuta. Entender as necessidades do outro, querer apoiar e cuidar também é uma forma de amar, tal como ela se dispor a compartilhar a vida dela, se abrir, trabalhar para entender e fazer todo aquele atendimento humanizado pelo outro é o amor que sente. Pensamos o amor também enquanto questão de classe, sobre as pessoas que enfrentam vidas muito árduas e criam forma de demonstrar o amor totalmente diferentes, onde é cada vez mais difícil enxergar a beleza, e não só enquanto amor romântico, mas amar em se dedicar a alimentar sua família, a criar alguém, a melhorar algo. Enfim, a importância que existe em tratar as pessoas enquanto pessoas, escutá-las, e ver o reflexo de quanto elas se sentem à vontade quando alguém está disposto a ouvir, é também um ato de amar. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Raffaela
- Juliana e Tercianne
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Juliana e da Tercianne, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Em um momento da conversa, falando sobre o lugar que estávamos, naquela praça, naquele espaço da cidade e sobre sermos mulheres, ouvi duas coisas que me marcaram muito e que acabei pensando depois que fui embora. Primeiro, a Terci, que por ser uma pessoa visivelmente mais tímida, disse que quando se relacionava com homens tinha vergonha de dar as mãos, de beijar em público, de ter atitudes românticas na rua… hoje se vê nesse papel porque acha que com a Ju é muito mais puro. O sentimento é praticamente ao contrário, ela faz questão de pegar na mão, de dar um abraço. Mesmo se ela não falasse, seria visível nos detalhes esses toques, porque é algo natural, o toque acontecia durante a conversa, era de fato puro. Logo depois que ela comentou isso, a Ju falou também que embora seja muito difícil a luta LGBT como um todo, chega um momento em que vale a pena expor o amor por quem você ama… e que mesmo que você coloque seu corpo na linha de frente por esse amor, o que literalmente nos acontece, enquanto vivemos no Brasil e muitas pessoas não escondem a LGBTfobia que possuem, nós precisamos seguir mostrando que está tudo bem amarmos e sermos amadas. Isso não quer dizer que não temos medo (temos, sim!) - inclusive a Terci escreveu uma música sobre isso depois que elas se encontraram numa praça (sobre ser um ato político, sobre ser uma luta) - elas andam com medo, às vezes receosas, principalmente quando cruzam com homens, mas entendem que é preciso o equilíbrio entre se cuidar e não baixar a cabeça e se esconder dentro de um armário. “Saber cuidar e cuidar dos nossos.” Por fim, trouxeram mais duas coisas. A Terci disse que logo pensou no filme Zootopia, que a coelha descobriu um lugar que ninguém ligava pra ela e que ela poderia viver tranquila. No fim, é esse o objetivo: que as pessoas olhem as diferenças e não pensem nisso como algo ruim. E a Ju traz a importância de, além de conversar com pessoas mais velhas, ser fundamental conversar também com as crianças e adolescentes, trazer diálogos de inclusão para os mais novos normalizando discussões de igualdade de gênero e inclusão social. Quando comentamos sobre a pandemia e sobre essa forma de se reinventar, a Ju falou que no começo do relacionamento tudo foi muito rápido, tudo se desenvolveu de forma involuntária. Com um mês elas já estavam muito próximas, praticamente namorando e a Ju frequentava a casa da Terci com uma frequência cotidiana por ser muito próxima à faculdade. Elas criaram uma rotina de cafés da manhã, ônibus, massagens no final do dia, feirinhas nos fins de semana, tapiocas de queijo com morango, parques, peças… tudo foi criando um tom. Hoje em dia, com a pandemia e a Terci voltando a morar com os pais dela, tudo fica diferente. Primeiro que é preciso estar em casa, segundo que o espaço em casa é outro, a privacidade é outra, o tempo é outro, sentimento é outro. São muitas readaptações. A sensação presente agora é que, por mais que estejam há mais de um ano e meio juntas, a pandemia faz com que todo dia seja uma novidade dentro de uma certa “mesmice” por conta de novas descobertas internas. Aprenderam que a Ju é mais explosiva, mais estressada, mais extrovertida… e que a Terci é ao contrário, mais quietinha, em outro tempo. Mas que também isso leva a outro contexto de conversa, de amor e de equilíbrio. Que as conversas voltam ao início da vontade de se conhecer e se encontrar de múltiplas formas. Aos poucos também entendem que estão construindo uma nova relação, com mais comunicação e com cuidado para não se magoar. Sempre tentam respeitar as limitações e redescobrir zonas de conforto, perceber o que representa o amor em suas essências, onde elas encontram ele nos seus detalhes e referências. Quando conversamos sobre o amor em seu estado puro, a Ju fala sobre amar e se apaixonar, então o “amar” ser o amadurecimento da paixão, fazer com que o calor exista, mas de forma mais concreta, mais efetiva, mais consistente. E a Terci completa “enxergando os defeitos e amando também, mas com cuidado, porque existe o amor que cuida, que quer o bem... e outro que prende, que toma posse”. A Tercianne adora música, ela se afastou um pouco por um tempo, mas depois que voltou à faculdade um professor conseguiu guiar e monitorar ela de volta. É um lugar que ela sempre quis estar, muito positivo e que se encontra muito com a Ju também. Antes de estudar teatro a Terci passou por um momento entre arquitetura e engenharia civil, ainda no Ceará, mas não se sentiu bem cursando. O pai estava estudando com ela e por já ser aposentado decidiu que apoiaria o curso que ela tivesse vontade de cursar. Ela descobriu a Casa de Artes de Laranjeiras (a CAL, no Rio) e falou que gostaria de estudar aqui, foi então que toda a família se mudou: ela, a mãe, o pai, os irmãos, os cachorros… todo mundo! E aqui estão até hoje. A Ju se vê muito na escrita dos sentimentos, nas crônicas… quando o teatro não dá conta ela abre um bloco de notas e se coloca a escrever. Desde sempre, sentiu mais resistência enquanto à vontade de ser artista, era algo que sabia. Ambas se consideram bissexuais e as famílias, hoje em dia, sabem e apoiam o relacionamento das duas - a Ju, inclusive, já foi até o Ceará com a Terci. Nem sempre foi um debate fácil a se encarar dentro de casa, o começo foi mais difícil e foram contando aos poucos para as pessoas, entendendo o contexto de cada situação. Mas no geral a família sente o quanto o relacionamento representa crescimento para ambas e fica feliz em ver essa mudança acontecendo de pertinho. A Juliana e a Tercianne se conheceram e se encontram entre muitas coisas em comum. Ambas estão com 22 anos, fazem faculdade de teatro, gostam de música, de cinema, de feirinhas... A Ju é natural do Rio de Janeiro, já a Terci é do Ceará. Elas se viram pela primeira vez quando a Ju fez uma peça interpretando uma personagem da qual a Tercianne já tinha interpretado no ano anterior. A Terci viu, se apaixonou, mas não conseguiu falar com ela logo depois do espetáculo porque precisava ir para o aeroporto pegar um voo para o nordeste, estava indo de volta para casa. Decidiu chamar a Ju no Instagram para elogiar e falar que gostou bastante da apresentação e então elas começaram a conversar. - Vou embarcar agora, mas depois continuamos a conversa. - Ah, quer continuar a conversa? vou achar que é um flerte! Foi a primeira vez que Terciane tinha mandado mensagem para uma menina dessa maneira e a Ju lançou a brincadeira, então acabou acontecendo e elas seguiram conversando (ou flertando!). Deu certo. Assim que a Terci voltou ao Rio de Janeiro decidiram se encontrar e assistiram o Rei Leão no cinema, foi tudo meio estranho, não sabiam se seria um encontro num tom mais romântico ou na amizade. Conversaram muito sobre a vida, depois ficaram, mas não sabiam dizer exatamente o que sentiam. No decorrer do que foram estabelecendo contato elas entenderem que o que queriam mesmo era se conhecer, por inteiro, saber quem eram e se encontrar no maior número de sentidos possíveis. Quanto mais se viam, conheciam os amigos, frequentavam os espaços em comum (a casa da Terci, a faculdade…), mais ouviam o quanto estavam diferentes (de um jeito ótimo, é claro!)… a Ju conta que logo no começo uma amiga da Terci contou que há tempos não via os olhinhos dela brilhando tanto como brilhavam agora. Aos poucos isso foi mostrando o quanto era real e recíproco. No show do Lagoon, a Ju pediu a Terci em namoro. E no dia seguinte, a Terci já tinha planejado tudo para pedir a Ju em namoro lá na faculdade, então pediu também. Foi uma troca justa! Tercianne Juliana
- Joyce e Lorrayne
A Joyce e a Lorrayne entendem que o relacionamento delas já chegou numa fase em que não existe mais a ansiedade da expectativa, ou seja, querem estar juntas porque estão dispostas a isso. Não despejam uma expectativa gigantesca uma na outra, sentem que fazem o que gostam e não precisam se vestir de forma impecável ou estar sempre de bom humor todos os dias. Com a maturidade, a naturalização dos corpos foi se construindo aos poucos. Hoje em dia moram em uma casa que elas mesmo construíram. Na zona periférica de Belo Horizonte, vivem em uma ocupação de terras que antes era um local improdutivo e hoje recebe centenas de famílias. Na ocupação sempre foram tratadas enquanto uma família - e ressaltam como essa representatividade é importante. Por alguns anos, todos os salários que ganhavam voltava ao lar: na compra de materiais de construção, mantendo as contas em dia e pensando em uma decoração para a casa. Hoje em dia, dentre todos os cômodos que construíram e tudo o que aprenderam (fazer massa, assentar forma) é a parede de tijolinhos que mais se orgulham. Sempre sonharam em ter uma parede desse jeito, com os desenhos, pinturas e bordados que fazem pendurados nela. Foram anos planejando porque haviam outras prioridades a serem feitas e hoje se orgulham de finalmente ter conquistado. Quando relembram tudo o que já viveram juntas, falam que realmente amam a companhia uma da outra, fato que ficou ainda mais evidente na pandemia, quando dentro de casa o vínculo se fortaleceu perante as dificuldades que enfrentaram. Não sentem que vivem entre controles, ciúmes possessivos ou coisas do tipo entre elas ou familiares e amigos. Entendem que estarem juntas é algo que escolhem diariamente e depositam sua fé nesse sentimento. Claro que valorizam muito as conversas, a terapia, o cuidado com o corpo e a mente para se manterem bem. Não querem projetar as relações dos outros nas suas, então exercem a conversa e verbalizam o que sentem. Entendem que amar é se sentir feliz, assim como ver e querer o outro feliz. Por isso, não se enxergam numa relação solitária. A Lorrayne conta que tinha uma ideia de amor muito romântica, ligada aos livros de romance que lia… e que essa ideia também é um tanto doentia: A sensação de não ter a pessoa amada é igual a morte, o pedestal que existe para o amor, etc. Hoje em dia enxerga tudo de forma mais leve. Cita que ama os almoços de domingo, os dias que passam juntas sem fazer nada em específico e que assim ela se sente muito mais realizada amando a Joyce. No momento da documentação a Joyce estava com 31 anos. Ela é bordadeira e, além de vender os bordados, começaria um trabalho enquanto vendedora em breve. A Lorrayne, no momento da documentação, estava com 28. Ela trabalha enquanto desenvolvedora de sistemas, na área da tecnologia, fazendo estágio - mas também consegue diversos freelas, o que acaba ocupando todo o seu dia. Brincam que são duas velhas, amam ficar em casa e na pandemia isso se agravou ainda mais. Além disso, por morarem em um lugar distante do centro, se torna inacessível estar saindo o tempo todo pelo valor do transporte, acabam se apegando em atividades mais caseiras. Quando se conheceram, de forma online há muitos anos atrás - mais especificamente na transição do Orkut para o Facebook - interagiram numa postagem que a Lo fez dizendo que estava se sentindo triste. A Joyce soube quem era a Lo e a adicionou nas redes por conta de um amigo em comum, que falava muito sobre ela, e acabou descobrindo um blog que ela escrevia textos, poemas, contos e desabafos. Naquela época, Joyce nunca tinha ficado com uma mulher, mas até comentou com o amigo que se ficaria, gostaria que fosse com a Lo. Um tempo depois de terem interagido na postagem, se adicionaram no MSN (saudades, né?) e conversaram por três horas, falando de músicas e outros assuntos que surgiam, onde perceberam que tinham muito em comum. No decorrer daquele ano (2011) conversavam de vez em quando durante a semana; A Joyce passou pela experiência de ficar com a primeira mulher (que não foi a Lo! mas uma pessoa na Parada LGBT de Belo Horizonte), passou um mês na casa da bisavó de férias e, quando voltou para Belo Horizonte, ainda na rodoviária, ligou para a Lo diretamente de um orelhão marcando um encontro. Se encontraram no dia seguinte na pracinha de bairro próxima aos locais em que moravam, Joyce estava super insegura de ir, mas encarou e levou uma flor para a Lorrayne, que estava sentada na pracinha desenhando e achando que iria levar ‘um bolo’. Joyce brinca com a música da cantora Letrux que diz “Meu look eu pensei o dia inteiro/Só pra te encontrar” e quando chegou lá toda arrumada viu a Lorrayne vestida de qualquer jeito, com chinelo e meio desengonçada. No momento não falou nada, mas a piada surge até hoje. Joyce era muito comunicativa, enquanto a Lo ficava mais tímida, mas deu certo. No segundo encontro marcaram de ir ao cinema, em Contagem (cidade da região metropolitana de Belo Horizonte) e tiveram a infelicidade de serem assaltadas. Depois disso, passaram a se encontrar pontualmente nas segundas-feiras, porque a Lorrayne fazia aula de desenho próximo à casa da Joyce e, como não era assumida, elas conseguiam se encontrar sem precisar dar muitas desculpas. Nesse período começaram o namoro e assim seguiram pelos próximos dois anos, namorando e estudando na mesma faculdade. Foi durante o processo de estudos que aconteceu a ocupação de terras onde elas residem hoje. Nessa época, a Lo cuidava dos irmãos mais novos, enquanto ela e Joyce desejavam morar juntas pelos problemas que enfrentavam com a família. Sendo jovens e com muitos sonhos, decidiram procurar casa para alugar desesperadamente. Estavam com 21 e 18 anos, enfrentavam diversas barreiras na hora de alugar e o fato de terem um cachorro (o Vovô, que aparece nas imagens documentadas) acabava piorando pois nenhum lugar aceitava animais. Adotarem o Vovô, inclusive, foi um processo muito importante para elas; Ele ficava próximo do trabalho da Joyce e era um animal muito bravo, portanto tinham medo que acabassem matando-o pela agressividade que tinha ao atacar as pessoas. Foram 2 meses tentando a aproximação até conseguir acolher e levá-lo para a casa, portanto, jamais abririam mão dele. A mãe e a irmã da Lorrayne conseguiram casa na ocupação e ela e a Joyce ajudavam na luta: desde as reuniões, os atos e as manifestações pela terra. No momento inicial a Lo até morou com elas, em uma época que tinham um cômodo apenas, o banheiro e cozinha eram espaços coletivos da ocupação. Nesse momento, Lo até aponta para o sofá em que está sentada, falando que ele vem desde àquela época: o espaço em que dormiam. Como a irmã acompanhava a saga delas por uma casa em que pagassem aluguel, deu (e insistiu) na ideia de que elas colocassem seus nomes na lista de famílias da ocupação e tentassem um local para construir e morar. Acabaram conseguindo por algumas desistência e/ou outras famílias que não seguiam as regras de convívio. O terreno era pequeno, havia uma vizinha bastante bagunceira e acabaram enfrentando muitas dificuldades no início - não havia janelas, entravam muitos bichos como ratos e acabavam não conseguindo ver aquele local como uma casa de verdade. Até que conseguiram trocar de moradia - pagavam somente o material de construção usado - e, depois de duas mudanças, chegaram na casa em que estão hoje, o lugar que entendem como lar. Logo de início fizeram um muro para soltar os cachorros, depois uniram dinheiro para construir um banheiro e outros cômodos. Hoje em dia, nessa última (e atual) casa, com os cômodos mais elaborados e da forma que sonhavam (construíram o segundo andar, fizeram um mezanino etc), entendem que tudo foi muito árduo, mas necessário. Estão completando cinco anos nesse novo local e agora a irmã mais nova da Lo divide a casa junto com elas. Dentre todas as dificuldades, contam como foi construir em meio à pandemia. Naquele ano (2020) choveu muito em Belo Horizonte, então a obra que duraria 2 meses acabou triplicando em tempo, enquanto elas viviam em três pessoas sob um espaço que chovia dentro, tinha cimento para todos os lados e toda a sujeira incomodava muito. Entre o trabalho, faziam parte do corpo de funcionárias da creche da comunidade, então conseguiram receber auxílio mesmo nos tempos mais fortes de Covid-19, mas a regra era simples: todo o dinheiro ia para a construção. Durante a pandemia, também, o grupo de teatro que a Lorrayne faz parte passou em um edital para realizar apresentações na comunidade, o que ajudou muito a se manter em contato com a arte e trazer renda para a casa. Entendem como é bom ter realizado as coisas. Não foi nenhum pouco fácil viver todas as dificuldades que viveram, mas sentem muito orgulho em ver a casa montada. Ressaltam que fazer isso, enquanto mulheres, é ainda mais grandioso. Sempre existe alguém para apontar e dizer que não será possível, homens querendo nos ensinar a fazer coisas mínimas, opinando em algo que não cabe à eles e fazer a casa da forma que sonham é um firmamento muito grande sobre quem são. Hoje em dia, adoram os processos artísticos que fazem juntas (mesmo que a Lo faça parte do time de tecnologia, ela estudou artes por seis anos) e se dedicam aos bordados, à pintura e ao desenho. Além disso, amam jogos, no tempo livre gostam de assistir séries e filmes e fazer refeições juntas. Mesmo com as grandes dificuldades financeiras e desentendimentos que aconteciam no começo do namoro por depositarem muito de relações alheias sobre elas, hoje dão muito valor ao entendimento do corpo e da relação enquanto algo político. Lo comenta que a sociedade não as considera uma família, então fazem questão de trazer a naturalização do amor delas para todos, seja no ambiente de trabalho, entre a comunidade ou a família. Ao ver as pessoas da creche que trabalhavam (mães, pais, funcionários e crianças) tratando o amor delas enquanto algo natural, como merece ser tratado, percebeu o quanto importa essa luta coletiva. Por fim, fazem questão de dizer o quanto a sociedade precisa de mais acolhimento mental. Pouco se vê de investimentos nessa área, as terapias são caras e não há propagandas governamentais sobre isso, portanto desejam viver num país em que principalmente as mulheres que estão na base tenham cuidados mentais garantidos. ↓ rolar para baixo ↓ Lorrayne Joyce
- Victória e Gabriela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Vick e da Gabi, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Durante o período em que se relacionaram à distância, faziam muitos planos sobre morar mais próximas. A Gabi chegou a tentar vestibular para Porto Alegre e a Vick queria muito vir para o Rio. Depois de formada, conseguiu passar para o mestrado na Fiocruz e a mudança finalmente aconteceu algumas semanas antes da pandemia. Passaram a quarentena juntinhas. Nessa história, a praia significa o lugar onde se conheceram, onde puderam ficar à vontade, onde fez a Vick tanto amar o Rio… é o lugar delas. Amam amar a praia, amar as coisas que fazem parte das suas histórias. Acreditam que o amor foi o que moveu tudo, o sentimento que transbordou. Além da praia, amam pular carnaval, cozinhar coisas do zero - fazer massas, cada detalhe de todas as receitas e depois beber com um bom vinho barato. Um tempo depois, por estarem juntas no Rio, a mãe da Gabi percebeu e não aceitou. Foi um momento bem conturbado, a Victória tinha muito medo de voltar a viajar e acabar só piorando a relação familiar da Gabi… e a Gabi pensava que talvez fosse melhor não estarem juntas porque seria ruim para a Vick ter que lidar com isso. Mas depois, quando conversaram, decidiram passar por isso juntas, enfrentando cada desafio lado a lado. A Victória tem 23 anos, é mestranda em epidemiologia e saúde pública e formada em veterinária. Gosta de fazer de tudo um pouco, bordar, pintar, tocar saxofone… se inspira muito na sua mãe, que é doutora em engenharia. Gabriela tem 26 anos, estuda biblioteconomia, adora design e tem a família toda envolvida em profissões aéreas, então fez curso de comissária de bordo e gosta muito de temas voltados à aviação. Gabi se inspira e se referencia muito na tia dela, que foi a primeira pessoa para quem contou sobre a sexualidade. Depois que a mãe da Gabi descobriu, elas passaram alguns meses sem conseguir se encontrar, era muito difícil ir para Porto Alegre e acabava indo só no seu aniversário, pois pedia a passagem de presente. Chegou a passar mais de dois anos sem ter muito convívio com a mãe. Há pouco tempo atrás as coisas foram mudando, quando a Vick já estava muito mais próxima, e foi convidada a jantar na casa delas. Passaram todo o verão juntas e até decidiram estender um pouco a viagem, pois entenderam que um sentimento estava sendo criado. Resolveram passar seus aniversários juntas: o da Vick, em março (do qual a Gabi iria para Porto Alegre) e o da Gabi em julho (do qual a Vick iria para o Rio de Janeiro). Acabou que cumpriram o acordo, a Gabi chegou em Porto Alegre no mês de março e foi ótimo. Já em julho, a Vick ficou um pouco insegura de ir. Elas não estavam conseguindo manter tanto contato de forma online e faltava pouco para a data, mas deu tudo certo! Ela chegou no Rio, passou dias turistando, conhecendo as praias e se sentiu apaixonada.... pelo Rio de Janeiro e pela Gabriela. Passaram todo o restante do ano conversando bastante de forma online e conseguiram se encontrar em outubro. Decidiram, aos poucos, sustentar esse relacionamento à distância. No verão de 2016, tudo já foi diferente, ao invés da Gabi ficar na casa dela, resolveu passar todo o tempo hospedada na casa da Victória. Passaram o início do carnaval juntas na Praia da Ferrugem e o fim do carnaval no Rio. Ambas queriam muito declarar o amor uma para a outra, mas estavam com medo de acabar estragando tudo, pelo fato da distância. Uma desconhecida, em meio ao carnaval, ajudou a declaração acontecer… e foi aí que elas verbalizaram o amor que sentiam. Essa história de amor mostra que o sonho de muitos relacionamentos à distância podem dar certo! Victória e Gabriela se conheceram durante um verão em Garopaba, interior de Santa Catarina, a Vick é da região metropolitana de Porto Alegre, mais especificamente, de Viamão. A Gabi é do Rio de Janeiro. A maior coincidência dessa história é que elas são vizinhas em Garopaba desde que nasceram, possuem os mesmos amigos, mas veraneiam com uma semana de diferença, então nunca se encontraram. Em 2014 a Gabi resolveu ficar mais um tempo em Garopaba e então acabaram se conhecendo. Logo de cara ela sentiu interesse pela Vick e meio que todos os amigos ficaram na expectativa do beijo, o que gerou certa pressão também. No segundo dia, elas se encontraram junto com os amigos para beber e ficaram, mas no dia seguinte a Gabi acabou voltando para o Rio e passaram todo o inverno sem se ver ou conversar. Em 2015 estavam lá novamente e dessa vez a Gabi decidiu ir na mesma semana que a Victória estaria. Elas se encontraram com os amigos, foram para um bar e depois de um tempo acabaram se beijando novamente - e brincam: “aí não nos desgrudamos mais”. < Victória Gabi
- Samara e Rebeca | Documentadas
Rebeca e Samara se conheceram em outubro de 2023, durante uma live de uma página voltada ao público lésbico e bissexual. A proposta da live era conectar mulheres, seja para amizades ou relacionamentos. Samara tinha saído de um relacionamento - que não havia sido fácil - há cerca de seis meses, tomou coragem e decidiu participar para conhecer pessoas novas. Foi então que Rebeca a notou e começou a seguir no Instagram. Começaram a conversar imediatamente e se deram super bem, as conversas se tornaram diária e vieram chamadas de vídeo e ligações. Construíram um vínculo à distância - uma morando na Bahia, a outra no Piaui - que durou seis meses, e decidiram se relacionar de forma virtual. Em abril de 2024, Rebeca disse para Samara que faria uma viagem para visitar o pai no interior. No entanto, dias depois, veio a surpresa: Rebeca não estava no interior, mas sim a caminho de Salvador. Com a ajuda de familiares, ela arquitetou uma mudança e aproveitou a ocasião para surpreender Samara em seu aniversário, deixando claro que já tinha os planos de conseguir um emprego por lá e ficar de vez. A falta de aceitação de sua sexualidade pela família, somada aos seis meses de conexão intensa com Samara, desencadeou o impulso de recomeçar. Tinha o medo de não dar certo por não se conhecerem pessoalmente? Claro. Mas arriscar era preciso. Após algumas entrevistas, conseguiu um emprego e começou a se estruturar. Como ela mesma diz: "Já vim com os planos de ficar perto da Sam, não queria mais voltar para o Piauí." Desde então, elas têm vivido juntas, transformando aquela conexão inicial em uma história de amor real e corajosa, e Rebeca não se arrepende e nem deseja voltar. Quando chegou em Salvador, Rebeca ficou na casa dos seus familiares que moravam na cidade, mas também foi recebida com carinho pela família da Sam. Após uns meses, decidiram começar uma vida juntas, em um lar só delas. Os primeiros móveis foram adquiridos com pressa, mas com a ajuda preciosa da família para facilitar o início dessa nova etapa, ainda que pagando em várias prestações. Com alegria, contam como frequentemente refletem sobre essa decisão e afirmam, sem hesitar, que não se arrependem - principalmente a Rebeca, de ter deixado o Piauí para construir essa história ao lado de Samara. O amor, que começou de forma tão inesperada, revelou uma força que surpreende até elas mesmas. O que torna a relação única, segundo Sam, é a forma como se sentem ouvidas e reconhecidas uma pela outra. "Não vale só assinar embaixo. Ela deixa eu falar," diz Samara, expressando a dinâmica de respeito mútuo que construíram. E isso que é muito interessante, no dia-a-dia, além de desafiador, mostra o quanto representa crescimento para elas e para a família. E nesse crescimento também aprendem a lidar com questões que nem sabiam que era possível: como os ciúmes, a vida financeira, a ter paciência e entender que conquistam as coisas aos poucos, de acolher nos momentos difíceis, não procrastinar a luta dos estudos… uma puxa a outra nos sonhos. O amor delas também se revela nos pequenos impulsos do cotidiano. Desde Sam que gasta todos os caracteres na hora de se declarar, até a forma mais tímida de Rebeca, que prefere ações a palavras. É o mesmo impulso que levou Rebeca a mudar de estado e que ainda as guia em decisões, como comprar coisas sem tanto planejamento ou dizer “sim, vamos” antes de pensar duas vezes. Esses gestos espontâneos mostram que, mesmo com os desafios, o que importa é fazer dar certo. Samara, no momento da documentação, estava com 26 anos. É formada em História pela UBA e vive em Salvador, onde trabalha como professora em uma escola particular. Apesar de amar sua formação, sonha em cursar Direito, algo que pretendia fazer desde o início, antes de se apaixonar por História. Determinada e cheia de sonhos, Samara ainda planeja voltar à faculdade e realizar esse desejo. No tempo livre, ela adora ir ao cinema, shows, ouvir música, ler e assistir séries. Rebeca estava com 21 anos no momento da documentação. Nasceu em Salvador, mas passou a maior parte da vida no Piaui. Recentemente, em abril de 2024, decidiu voltar para Salvador motivada pelo amor que construiu com Samara. Atualmente, trabalha como operadora de telemarketing e cursa Ciências Biológicas, mas seu grande sonho é estudar Medicina. Rebeca é apaixonada por música e se destaca ao tocar violão, guitarra e bateria. Embora não seja fã de leitura como Samara, ela ama ir ao estádio de futebol – um hábito que aprendeu com Samara, e agora ambas torcem juntas pelo Vitória. A praia é um dos cenários mais especiais para as duas. Apaixonadas pelo mar, elas encontram nesse ambiente o refúgio para criar memórias juntas. Assim como o futebol no estádio, os passeios à beira-mar se tornaram um dos momentos mais significativos do relacionamento, por isso escolheram o lugar para fazermos as fotos na documentação. ↓ rolar para baixo ↓ Samara Rebeca
- Tamires e Fran
Durante o tempo que passei documentando a Tamires e a Fran, tivemos várias conversas sobre a vida, o amor que elas sentem uma pela outra, a história delas em si, as brincadeiras, a vida individualmente, trabalhos, amigos… mas o que vi se destacando o tempo todo, indo e voltando nos assuntos, foi a família. São muito ligadas às suas famílias e às famílias uma da outra, nem fazem mais separação enquanto “a família da Fran” ou “a família da Tami”, virou uma só. A lista é extensa quanto aos elogios à forma como Tamires foi acolhida na família da Fran desde o momento em que assumiram o namoro. Hoje em dia, aos domingos, a rotina do casal é ir até à loja de frango assado que os pais dela possuem no bairro para ajudar nas vendas - o que elas realmente adoram fazer. Ressaltamos a importância de falar sobre isso em espaços como o Documentadas e mostrarmos como é possível que mulheres que amam outras mulheres tenham o apoio de suas famílias e relações saudáveis, incluindo chá de casa nova quando compram um apartamento, rede de apoio, etc. Tami explica que por mais que hoje em dia tudo isso tenha sido construído e que essas questões estejam realmente muito bem, ela (diferente da Fran) precisou passar por vivências difíceis em casa quando se entendeu enquanto mulher lésbica. Saiu de casa muito jovem, viveu o preconceito e ficou dois anos afastada dos pais. Reformulou, fez o esforço da reaproximação e reconstruiu tudo, foram quebrando cada preconceito. Hoje em dia, vivem bem e a mãe adora a Fran (e também já passou por contato com outras ex-companheiras), o que pra ela é uma conquista gigante. Enxergar o amor enquanto ação é fundamental na relação e isso também está voltado à família. Quando foram morar juntas, decidiram configurar como seria o contato com os pais, não queriam dar menos atenção ou deixar de lado. Precisavam manter o afeto e o cuidado. Dão risadas quando lembram que a família da Fran mandava mensagem sobre tudo, até sobre como se mudava o canal da TV. Entendem que isso também é apoio, é sobre estar perto. Hoje em dia a autonomia é outra, mas o amor se mantém. Foi na escola que se conheceram, eram colegas desde a 4° série do ensino fundamental. Não eram super amigas, principalmente porque a Fran era mais próxima dos meninos e a Tami era mais patricinha. Na pré-adolescência, Tami chegou a “ficar” com um amigo da Fran, enquanto Fran nutriu uma paixonite por ela na 7° série. Até a chegada do Ensino Médio foram colegas, depois se afastaram com as mudanças de escola. Em 2021, na pandemia de Covid-19, fizeram um grupo no Whatsapp pelos 10 anos de formatura e por conta do tédio da pandemia em si ficavam conversando bastante. Começaram a falar sobre Tinder, mandaram a foto dos seus perfis, até que a Tami cruzou com a Fran no Tinder, deu um ‘superlike’ nela e enviou a foto no grupo. Deram match, mas não sabiam se era de brincadeira ou não. Quando a Tami lançava um flerte, Fran respondia com memes e ela nunca sabia se levava a sério. Em um certo momento, Tami chamou a Fran para sair, mas como ainda não haviam tomado vacina (a vacinação estava sendo por idade), Fran não topou. Demorou um tempo, até que se vacinaram e se encontraram na casa de uma amiga. Fran decidiu contar sobre a paixão que tinha na 7° série - e quando se encontraram pessoalmente já achavam que estavam apaixonadas também. No momento da documentação, Tamires estava com 30 anos e trabalhava num programa de prevenção à violência na Secretaria do Município de Canoas, enquanto assessora jurídica. Além disso, faz doutorado na PUC-RS, pesquisa sobre violência contra a população LGBT+. É natural de Porto Alegre e no tempo livre gosta de ver os amigos, a família, ir ao cinema, ficar em casa, ler e assistir documentários. Francielli estava com 30 anos no momento da documentação e também é natural de Porto Alegre. Trabalhava enquanto analista de suporte, em tecnologia da informação (TI). Ama jogar videogame, gosta de livros de ficção, adora acompanhar a Tami vendo os amigos dela e gosta de cozinhar em conjunto (Tami corta os legumes e ela prepara a comida, por exemplo). Foi numa prainha no bairro em que elas estudavam em que fizemos as fotos, neste lugar se beijaram e, tempo depois, tiveram a primeira discussão sobre os primeiros passos da relação. Sentem que o bairro em si é muito importante porque esteve presente em toda a vida delas. Essa discussão, em especial, foi logo que começaram a se envolver. Na época, Tami não tinha relacionamentos há um bom tempo e se questionava de que forma iria se relacionar com alguém novamente… não sabia se estava preparada… por um bom tempo sentia que não conseguia se doar nas relações e tinha medo das pessoas não conseguirem lidar com suas questões de saúde mental. Mas ao mesmo tempo, estava apaixonada pela Fran e queria muito estar com ela. Precisava entender se ela queria também, se estava sentindo o mesmo e se desejava a relação com ela, mas tinha medo. Tiveram uma longa conversa e Fran se mostrou disposta. Tami e Fran namoraram durante um ano, até que Tami estava decidida a sair novamente da casa dos pais (já havia morado sozinha e dividido apartamento algumas vezes) e conversou com a Fran sobre morarem juntas. Fran nunca tinha saído da casa dos pais, mas não queria alugar um apartamento. Comentou sobre a possibilidade de comprarem um espaço. Tinha um dinheiro guardado, a família poderia ajudar um pouco e o resto quitariam. Tami não gostou da ideia no início, principalmente por elas nunca terem tido uma vivência juntas e a Fran não saber como seria morar longe da família. Brinca que a Fran nem “sabia de que lado o sol nascia, de que lado gostava do sol nascendo em casa”, por só ter morado em um lugar a vida toda. Foram amadurecendo a ideia, os pais da Fran ajudaram e elas começaram a procurar lugares para morar, até que chegaram no condomínio que moram hoje e gostaram bastante. A mudança aconteceu e entendem que está dando certo a vida na casa nova. Conseguiram mobiliar com a ajuda da rede de apoio - família e amigos - e aos poucos estão pagando este apartamento que é delas (e que a Tami às vezes nem acredita, risos). Entendem que por mais que a Fran ainda tenha uma grande dificuldade de demonstrar sentimentos e faça piada com tudo, Tami sempre instiga, pergunta, faz questão de saber como ela está se sentindo, sobre o que ela deseja e se estão ou não em sintonia. Explicam que nunca foram de brigar, muito menos de estar aos berros, mas que possuem muitas conversas sérias sobre o relacionamento, a vida, o que querem e onde querem chegar. As conversas difíceis precisam existir para se alinhar. E isso também é sobre o amor e a parceria que possuem. Explicam que às vezes tem coisas que “nem precisaria”, algumas discussões ou ações… trazem o exemplo de que uma está com um problema de saúde e precisa ir na academia, então ambas vão, não precisaria que fossem juntas, mas estão indo. Por parceria e por apoio. Por alinhamento. Acreditam que as coisas ficam melhores assim. Recentemente, fizeram uma viagem juntas para São Paulo, e quando pergunto sobre como elas se sentem sendo mulheres que amam mulheres dentro de uma cidade como Porto Alegre, Tamires rapidamente cita essa viagem. Ela conta que ama estar em SP e vai sempre que possível, gosta principalmente porque lá ela não se sente estranha, deslocada… se sente parte de tudo. Não se sente divergente. Entende que em todas as cidades as pessoas são múltiplas, mas que lá isso está bem misturado ao ponto de não nos destacarmos. Ela sempre se viu enquanto alguém que é muito urbano e também enxerga Porto Alegre enquanto uma cidade muito urbana, viva, dinâmica e cheia de cultura, mas fica triste por se sentir deslocada por ser quem ela é. Sempre foi a pessoa diferente, ainda mais estudando direito, era a deslocada. Para o futuro, não deseja mais ser. Quer ver cada vez mais pessoas negras em todos os espaços que ela frequenta, casais de mulheres, “mais de nós”. Por fim, falamos também sobre as importantes mudanças que podemos fazer nas nossas relações, nos reinventarmos sem as heteronormatividades, fazermos do nosso jeito, reconstruímos uma relação entre mulheres que nos represente de verdade. ↓ rolar para baixo ↓ Francielli Tamires
- Jade e Laura | Documentadas
Jade, no momento da documentação, estava com 27 anos. É natural de São Paulo, da zona leste, mas hoje em dia mora próximo à USP para ficar perto da faculdade, da Laura e para economizar o tempo diário que levava no transporte público. Ela é jornalista, cursa mestrado e trabalha enquanto assessora de comunicação. Conta que passa o dia fora, trabalhando de forma presencial e tem uma rotina bastante atarefada. Na pandemia de Covid-19, trabalhava em casa e era bem diferente, então agora ela e Laura readaptam o cotidiano para aproveitar o novo lar e passar o maior tempo possível com a Marininha, gatinha de estimação - chegam em casa, tomam café juntas, conversam sobre o dia, assistem TV, aos finais de semana leem e Jade tenta praticar yoga. Laura, no momento da documentação, estava com 26 anos. É natural de Aragarças, em Goiás. Morou em Minas Gerais, numa cidade interiorana, onde começou a cursar publicidade, mas achou um pouco frustrante porque não tinha muitas oportunidades lá, até que conheceu uma professora que contou para ela sobre o curso de Educomunicação na USP e ela tentou a transferência, em 2019. Hoje em dia, ela trabalha com mídias sociais, numa rotina semelhante à Jade, a diferença é que tenta ir de bicicleta para fugir do transporte público, conta rindo. Ama assistir filmes, está cursando uma pós-graduação em audiovisual e gosta de passar tempo de qualidade em casa. Para elas, o amor é estar num lugar de segurança. Quando falam sobre isso, Jade lembra de uma situação que viveu em que foi assaltada e que a primeira pessoa que pensou em ligar/precisar falar foi a Laura, e que depois disso caiu a ficha: significa que ela é seu porto seguro. O amor significa uma ajuda diária, o ponto que deseja evolução, de querer ver crescer - e estar do lado nesse crescimento. Laura pontua que viveu cercada de muito machismo e que sempre faz de tudo para ver o dia delas sendo bom em conjunto: sempre cuidam da casa, dividem as tarefas, fazem questão de que as coisas não fiquem pesadas pra ninguém, deixam tudo confortável, cuidadoso, sabem que se não for assim, vai ficar pesado para uma pessoa só. Querem o espaço equilibrado e verdadeiramente seguro para o amor existir. Foi em 2019 que se conheceram, quando a Laura se mudou para São Paulo e começou o curso na USP. Jade também estava no curso, de início surgiu o interesse, mas ambas eram tímidas e não sabiam como demonstrar. Haviam amigos em comum, eventos, coletivos, então tentaram aproveitar essas brechas. Foi num dia em que Laura estava numa reunião do coletivo LGBT+ que viu Jade e pensou “Bom, ao menos bissexual ela é!” que a esperança começou a surgir. Pelo lado de Jade, ela viu uma publicação num grupo de Facebook em que os novos estudantes se apresentavam e falavam coisas básicas como nome, idade, signo, orientação sexual, se estava solteiro… e a Laura comentou. Ali ela já soube o que interessava. Entre maio e junho começaram a conversar e interagir mais, foram até no cinema assistir Toy Story, mas nada aconteceu. Até que surgiu um jantar na casa de um amigo - que até hoje acreditam ter sido uma marmelada, porque os amigos marcaram, mas ninguém deu as caras! - e só elas foram. Beberam muito, ouviram música, o anfitrião foi dormir e deixou elas na sala, se divertindo, até que demonstraram que tinham interesse uma na outra. Depois do primeiro beijo, ficaram juntas por alguns meses, mas Laura tinha acabado de se mudar e estava confusa com tudo ainda, conhecendo a cidade, não queria um relacionamento sério. Sentia que sua vida no interior era muito diferente do que experimentava na capital. Logo que optaram por não ter um relacionamento, a pandemia de Covid-19 começou, ela decidiu voltar para Goiás com a gata (Marininha) pelo fato das aulas terem parado e não ter motivos para continuar em São Paulo. Ficou um ano lá, mantiveram bastante contato online e contam que parecia até um web namoro. Em junho de 2021, as aulas estavam retomando e Laura decidiu voltar a morar em São Paulo. Chegou querendo muito reencontrar Jade, obviamente. Sentem que a vida estava muito estranha, era tudo bem diferente de 2019/2020. Primeiro que não existia mais aquela sensação de mudança/recém chegada na capital, segundo que a vida em si estava estranha, muitas pessoas morrendo, uma sensação de fim-de-mundo, e terceiro que elas estavam financeiramente estáveis, tinham seus trabalhos (diferente de 2019), o sentimento era outro - e estavam mais maduras para a sensação de querer estarem juntas, pensarem sobre um namoro. Se estabilizou na cidade novamente e em setembro começaram, de fato, a namorar. Jade tinha muito medo de pegar Covid, morava com a família e pegava transporte público diariamente, tinha medo de colocá-los em risco. Então decidiu procurar um lugar para morar próximo à Laura e à faculdade. Primeiro, moraram próximas mas em prédios separados. Depois, moraram no mesmo apartamento, mas em quartos separados, dividindo com outras pessoas. E agora, finalmente, conquistaram seu próprio lar, um lugar com a cara delas em todos os detalhes da decoração e muito espaço para a Marina ficar à vontade. No dia da documentação, inclusive, iria rolar um “chá de casa nova”, uma celebração para os familiares comemorarem a conquista e presentearem com ítens para a casa. Elas confessam que estavam bem ansiosas pelos presentes, queriam muito saber se iriam ganhar um aspirador (e ganharam! hahaha). Fazer a documentação nesse momento foi importante, também, porque a mudança em si foi muito caótica e viver momentos assim causam um certo apagão sob as coisas boas que vivemos, o caos se instaura e ficamos submersos até passar, então foi uma conversa importante para relembrar o trajeto até ali e ver os detalhes da casa sendo construídos. Por fim, em março a Jade pediu a Laura em casamento - e conta que está esperando o pedido de volta, porque para elas tudo acontece de forma igual. ↓ rolar para baixo ↓ Jade Laura
- Luiza e Mariah
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luiza e Mariah, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Luiza Mariah
- Camila e Laura
Gostaria de começar a história da Laura e da Camila premiando-as com o título de casal mais brega que já passou pelo Documentadas. Este, um título naturalmente conquistado, não enquanto um brega em tom ridicularizado, cômico demais ou até enjoativo, mas genuinamente delas, algo que se faz parte em cada móvel do apartamento, história engraçada que contam ou fotografia realizada dentro do projeto. O brega não veio através de “eu te amos” falados o tempo todo - bem pelo contrário, Camila explica que o “eu te amo” parece nem ser o bastante para elas. O brega existe mais pelas bicicletas que representam ela ensinando a Laura a andar de bicicleta na praia, o fusquinha verde que ela tinha no começo do relacionamento, o livro de poesias (que sim, ela mesmo escreveu e lançou um livro de poesias para a Laura) e uma casa inteira de bonecas que representa a casa delas. Olhar para esses anos de relacionamento enquanto contam suas histórias representa enxergar o quanto acrescentaram uma à outra. Anexaram suas coisas boas e ensinaram/aprenderam o que ainda não sabiam. Enxergam como mudaram (e que bom que mudaram!), ficam felizes com suas novas versões e entendem que se não estivessem juntas não teriam vivido tantas evoluções. Laura, no momento da documentação, estava com 36 anos. É natural de Porto Alegre - Rio Grande do Sul e trabalha enquanto auxiliar administrativa sendo servidora pública. Camila, no momento da documentação, estava com 33 anos. Também é natural de Porto Alegre e trabalha enquanto professora de história, sendo servidora pública. Além de ser professora, Cami faz paródias sobre história, então usou o hobby de tocar violão para ensinar os alunos (criou um canal, tem músicas muito legais e acaba fazendo paródias não só sobre história). Além disso, participa de grupos de pesquisas sobre gênero e a presença de mulheres na história. Dentro de casa, contam com mais duas companhias: a Pagu e a Chica, suas cachorrinhas que estão no lar desde a pandemia de Covid-19. Adotaram pelo tanto de tempo que passaram em casa e por sempre desejarem ter cachorros, àquela era uma boa hora para fazer a adaptação. Ao começar a contar sobre como se conheceram e trazerem os fatos, logo surgem brincadeiras sobre se perderem nas datas - e logo a Camila, que é professora de história, foi muito cobrada sobre. Foi em outubro de 2014, que aleatoriamente, Camila adicionou a Laura no Facebook. Ela jura que não costumava adicionar pessoas que não conhecia nas redes sociais, mas viu uma foto da Laura, com um amigo em comum, fazendo campanha eleitoral presidencial para a Dilma e decidiu adicionar para fazer amizade. Na época, tudo estava à flor da pele com a campanha acirrada Dilma X Aécio (e no Rio Grande do Sul o Estado estava Tarso X Sartóri, que também não era nada fácil) e ela se sentia muito cansada de não ter pessoas sensatas para conversar. Procurava alguém que tivesse uma ideologia política em comum. Laura perguntou da onde elas se conheciam, Camila explicou que não se conheciam mas que gostaria de fazer amizade. Na época, Laura passava por um término de relação e topou conversar. Um tempo depois, quando já estava sozinha, chamou Camila para sair e de lá em diante começou uma paixão relativamente avassaladora: Cami tinha uma viagem agendada, foi e quando voltou já se sentia totalmente apaixonada pela Laura. Desde o começo do namoro passaram por diversos processos: moraram juntas, o relacionamento foi caminhando com o apoio da família (a irmã da Laura inclusive que apoiou que morassem juntas), meses depois Camila fez o pedido de casamento usando a casinha de bonecas, os anos se passaram e chegaram até a segunda casa - que moram hoje em dia. No momento de viver a segunda eleição presidencial em que o [sempreFora]Bolsonaro foi eleito, decidiram firmar a ideia do casamento: não teria mais como adiar, era uma decisão política. Realizaram a cerimônia em janeiro de 2019. Em 2020, viveram o desafio da pandemia. Com ele, refletem sobre como mudaram questões de comunicação - como a Camila chama para conversar o tempo todo, por exemplo, puxa para resolver os problemas - e como é muito raro brigarem. Tudo fala sobre questões cotidianas e como tentam resolver a rotina no entendimento. Entendem que uma trabalha muito mais que a outra, então tudo bem em alguns dias a que trabalha menos resolver a bagunça do sofá, da casa, enquanto a outra está ocupada, assim, se equilibram das formas que conseguem. A ideia é não sobrecarregar justamente para não desenvolverem brigas desnecessárias. Camila acredita ser uma vantagem se relacionar com alguém diferente dela. Laura ri e concorda, elas se complementam. Dá o exemplo: Cami é organizada nos prazos e planos de vida, coisa que Laura nunca foi e que hoje em dia adora ser - porque Camila é pelas duas. Laura entende que isso também é amor. Toda essa disposição que elas possuem de entender, de se compreender, de estarem dispostas a se completarem e realizarem trocas. ↓ rolar para baixo ↓ Laura Camila
- Juliana e Bianca | Documentadas
Juliana estava com 47 anos no momento da documentação. Natural de Salvador, é bibliotecária na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Já morou em várias cidades interioranas devido ao trabalho, e também é apaixonada por história e turismo, o que a fez cursar um MBA na área - se apaixonando, principalmente, pela história baiana. Bianca, por sua vez, estava com 43 no momento da documentação e também nasceu em Salvador. É técnica de TI. formada como analista de sistemas. Juntas desde os anos 2000, quando ainda cursavam faculdade, enfrentaram uma jornada de muitos desafios. Bianca, já segura de sua identidade lésbica, encontrou Ju num momento em que ela ainda enfrentava muito preconceito dentro de casa por descobrirem que se relacionava com mulheres. No começo, havia vivido um relacionamento com outra mulher - que até surgiam dúvidas de entender se era mulher ou homem gay, era uma sociedade com nomenclaturas muito falhas, entendiam enquanto um ser andógeno, mas para a Ju sempre foi algo muito natural, nada forçado, gostava dela assim - a questão é que a descoberta desse relacionamento trouxe conflitos intensos na família, com muitos episódios de rejeição e controle. Esse período turbulento acabou por uni-las ainda mais quando se conheceram. Decidiram morar juntas logo no início, construindo uma vida longe do preconceito e embarcando em um ciclo de mudanças. Cada nova cidade trouxe a oportunidade de vivenciar culturas diversas dentro da Bahia, um aprendizado que valorizam profundamente. Sempre que uma precisava buscar um novo trabalho, a outra acompanhava, foram anos vivendo uma parceria que hoje em dia entendem como a base do amor. Bianca acolheu Juliana nos momentos mais difíceis, quando o preconceito da família de Ju tornou insustentável sua permanência em casa. A situação passava muitas vezes do limite: alimentos e produtos de higiene eram separados e chegou a tomar banho com sabão em pó. Além disso, havia fofocas constantes na vizinhança por causa do relacionamento com outra mulher. Decidir morar juntas foi uma decisão necessária, e além disso, libertadora. Juliana reconhece que não foi expulsa de casa, mas a convivência havia se tornado muito dura. Sair de casa foi uma escolha para viver o amor com Bianca e também para dar um basta nas condições opressivas que enfrentava, até uma nova chance de lidar. Até porque, mesmo antes de conhecer Bianca, Ju vivia o preconceito - a relação lhe deu impulso para mudar. Ainda morando com a família, começou a buscar empregos nos anúncios de jornal e conseguiu uma bolsa na faculdade, o que a mantinha fora de casa durante o dia todo. Elas se conheceram por intermédio de uma amiga em comum. Ju não tinha o hábito de sair à noite, mas foi jantar com a amiga, que mencionava Bianca com frequência. Apesar de inicialmente relutantes sobre se envolver, naquela noite a amiga insistiu e Ju foi até Bianca, no outro lado da cidade. Quando chegou, Bianca disse para o amigo: “Essa é a menina da minha vida.” Foram em um dos bares gays da cidade - lugares chamados de GLS na época. Contam que a maioria dos bares gays limitavam um dia da semana para as mulheres frequentarem, outros elas entravam mesmo sendo - obviamente - minoria. Hoje, olhando para trás, Ju reflete sobre o quanto tudo já mudou – e o quanto ainda precisa mudar. “Naquela época, tudo era sobre ser ‘entendida’, mas entendida de quê?”, ela questiona. Hoje, fala com mais leveza sobre ser uma mulher lésbica, mas deseja um futuro onde rótulos sejam desnecessários. “Sonho com o dia em que não precisaremos justificar quem somos, onde seremos representadas na mídia de forma natural, porque estamos em todos os lugares na vida real. E queremos estar de forma segura.” Com apenas três meses de relacionamento, Juliana e Bianca decidiram morar juntas. Montaram seu primeiro lar em um bairro periférico, com poucos móveis, um cachorro e a certeza de que queriam construir esse relacionamento. Enquanto a família de Bianca frequentemente as visitava no início por morar nas proximidades, a família da Ju, que ainda não aceitava o relacionamento, não sabia onde exatamente ela morava. Cinco anos depois, a mãe da Ju decidiu se reaproximar, quis conhecer Bianca e entender como a vida delas estava. Esse reencontro foi bastante significativo, e ela ainda se dispôs a ajudar a comprar um apartamento e sair do aluguel. Hoje, a relação com as famílias é tranquila, mas a real prioridade dentro da relação é cuidar da parceria que constroem há mais de 24 anos, sempre com dedicação e amor, e seguir nessa manutenção diária para que as coisas sigam bem. Consideram as muitas mudanças que já passaram juntas, desde as cidades que já moraram no interior, principalmente sendo tão jovens e podendo ter a liberdade de viverem como um casal fora de Salvador, até montarem outros lares e enfrentarem a vida uma ao lado da outra. No começo, tiveram bastante receio e o preconceito que viviam dentro de casa se espelhou nos outros lugares, então demoraram para se assumir enquanto casal nos espaços de trabalho e nas novas amizades, mas hoje em dia tudo mudou e fazem questão de chegar deixando claro quem são, com orgulho, sem necessidade de se esconder num lugar que não lhe cabem. Ju e Bianca adoram olhar para trás e reviver os 24 anos de caminhada que construíram juntas. Para elas, o tempo só parece real quando percebem as mudanças ao redor: as crianças da família que agora são adultas, os primos que seguiram seus próprios caminhos, os amigos que já consolidaram suas carreiras. É ao revisitar essas transformações e observar o quanto seus próprios trabalhos e vidas evoluíram que se dão conta de tudo o que viveram. No entanto, isso não significa que se acomodaram - ainda têm muitos projetos e sonhos que anseiam alcançar. Talvez não sentem o peso dos 24 anos porque eles nunca foram monótonos. Marcados por constantes movimentos, com altos e baixos, desafios e mudanças. Não houve tempo para tédio ou estagnação, e essa sede de vida as manteve sempre ativas e motivadas. Nos últimos anos, o ritmo mudou um pouco: já não passam o dia inteiro juntas, trabalham em lugares diferentes, o tempo que compartilham durante a semana é mais limitado. Por isso, os finais de semana ganharam um significado mais especial, é o momento de reencontro e presença. Para Bianca, o amor é a vontade de estar junto todos os dias, aceitando tanto as coisas boas quanto as ruins. Ao pensar nas dificuldades que enfrentaram, ela afirma sem hesitar que viveria tudo novamente, pois foram escolhas conscientes e, acima de tudo, vividas com amor. Ju acrescenta que elas se tornaram uma referência de amor para amigos e familiares. Mesmo sendo diferentes - uma mais aventureira e a outra mais quieta - se complementam na maneira de enfrentamento à vida. ↓ rolar para baixo ↓ Juliana Bianca
- Lara e Ana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Lara e da Ana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Lara comenta que o amor entre mulheres pode envolver maior cuidado pelo reconhecimento que uma mulher possui pela luta da outra, mas também comenta a não-generalização justamente tanto por ela quanto pela Ana já terem passado por relações com pessoas que acabaram sendo bastante tóxicas. Além do amor em si, comenta sobre a necessidade de olharmos para nós e para o que somos, as pressões que nossos corpos passam, nossa estética, nos olharmos com cuidado, entendermos nossas inseguranças, nossos medos… não desacreditarmos no amor de forma geral. Elas entendem que o preconceito existe pela falta de conhecimento e pelas pessoas tirarem conclusões precipitadas, julgarem por algo que não tentam conhecer. Falam que o amor lésbico deveria ser olhado com mais afeto e menos hipersexualização, menos olhar de indústria pornográfica, porque no fim as pessoas precisam apenas saber querer conhecer, ter essa proatividade de reconhecer que precisam buscar mais, mudar as coisas, quebrar preconceitos… e que a partir do momento que elas perceberem que é tão simples, que tá tudo bem, que isso tudo é “só” amor, as coisas vão ser muito mais fáceis para todo mundo. Mas que para isso acontecer temos um longo caminho ainda. Não à toa, elas tentam estar sempre abertas à dialogar e mudar cenários, independente de tudo. Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Hoje em dia, a Lara trabalha em uma loja de roupas, é modelo plus size e estudante pré-vestibular. Sonha em fazer relações públicas para se especializar em marketing digital. Sua ligação com a mãe é absurdamente forte, assim como a fé e a religião. Frequenta a umbanda/candomblé e ama cultivar os momentos em que está no centro de religião. Além disso, também é uma grande fazedora-de-poemas. A Ana trabalha em uma farmácia de manipulação e também possui uma ligação muito forte com a religião. Foi algo que ela sempre se encontrou e que o relacionamento potencializou de um jeito transformador para ambas. Ela comenta que se viu muito tempo distante do que mais gostava, se sentia perdida, longe dos amigos e não se sentia bem nos outros relacionamentos e por muito tempo falar com a Lara, mesmo que rapidamente pelas redes sociais, acabava trazendo de volta o que ela sentia falta e não sabia nomear. Hoje em dia disse que se encontrou de novo e que sente uma paz muito grande, algo muito saudável. “Meu lar se ancorou nos olhos dela”. A história da Ana e da Lara te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! A Lara conta que nessa época começou a entender que quando beijasse a Ana, iria se apaixonar. Elas sempre tiveram muita sintonia, a amizade ia além, o afeto conectava, se encaixava… e elas se pareciam muito também. Então surgia até um certo receio do momento em que isso fosse acontecer, por mais que ambas sentissem vontade. Com a chegada de 2020 e o início da pandemia, elas tiveram um afastamento automático na amizade, que só voltou após o término do relacionamento da Ana e de ela passar por momentos bem difíceis, já próximos ao fim do ano. A Lara ofereceu muito suporte nessa época, elas voltaram a se aproximar e foi aí que decidiram finalmente dar uma chance a essa história de amor acontecer (no começo, em forma de amizade colorida, pra ver se daria certo!!!! e hoje em dia estão de aliança e tudo!). Perguntei para a Ana se não foi difícil assumir um relacionamento logo depois de ter passado por algo assim, justamente por ela ter proposto a amizade colorida, e ela comentou que sim, que não pensava em se envolver dessa forma, mas como gostava da Lara há tantos anos e desde tão nova, sentiu esse momento como finalmente uma oportunidade de estarem juntas, não havia formas de deixar isso passar. No dia primeiro de janeiro de 2021 elas estavam conversando e a Ana mandou uma música para a Lara (Mirrors, do Justin Timberlake), dizendo que era uma música que sempre ouvia e a fazia pensar nela. Essa música secretamente é a música favorita da vida da Lara e ela nunca tinha compartilhado isso com ninguém, o que a fez ficar muito emocionada, porque sempre quis que alguém a visse como a música descreve. Foi a partir da música que elas ficaram juntas e que o pedido de namoro também aconteceu, meses depois, cheio de jantar, vinhos, painel de led, comidas gostosas e preparativos. ♥ O romance das duas, teoricamente, começou ainda láááá no ensino fundamental, mas só de um lado. Elas estavam em um grupo de amigos e a Lara chegou para a Ana e disse “ei, escuta uma música chamada Segredos, da Manu Gavassi”, até aí ok, Ana foi pra casa e quando decidiu ouvir viu que a música era super romântica e pensou que pudesse ser algum tipo de indireta para ela, sendo que na verdade não envolvia nenhuma maldade, era realmente só uma indicação, mas a menina se deixou levar, criou um sentimento, desenvolveu um interesse e ficou com isso guardado no peito. O tempo se passou, elas não eram tão próximas e quando chegaram no ensino médio foi criado um grupo e a amizade foi se desenvolvendo, enquanto simultaneamente estavam se descobrindo nas suas vidas também. Hoje em dia, a Ana conta que naquela época percebia que o corpo automaticamente, como se fossem instintos, respondia às ações da Lara - cada vez que ouvia a voz, ou que ela saía para ir ao banheiro… coisas do tipo - o coração disparava, as borboletas batiam no estômago… e assim, a relação ficava mais próxima. Porém, aconteceram uma série de situações que fez com que esse grupo acabasse se envolvendo em discussões e todo mundo optou pelo afastamento, então as duas acabaram se afastando nisso também e interromperam a amizade. Ambas se envolveram com pessoas e acabaram criando relações bastante tóxicas, a Ana enquanto um namoro, e a Lara por mais que não chegasse a namorar de fato, acabava tendo envolvimentos, idas e vindas e não se sentia bem no que vivia. Foi quando ela resolveu retomar um contato com a Ana, saber como ela estava e as duas voltaram a conversar frequentemente. Foi nesse momento em que a Ana passou a olhar a Lara com novos olhares, a relação que antes mostrava o interesse surgindo só dela agora parecia ser diferente, sempre tinha uma implicância de brincadeira, uma bobagem à toa para ver a Lara sorrindo, uma palhaçada… e naquele momento parecia ser diferente, com o passar dos anos e já no fim do ensino médio, elas também estavam diferentes. Foi quando ela tentou um primeiro flerte e foi correspondido, mas elas nunca chegaram a se beijar, terminaram o ensino médio, a Ana começou a namorar outra pessoa, se envolveu em outro relacionamento do qual não se sentia tendo algo saudável e toda vez que parava para analisar e pensar sobre a situação em que estava, se via caminhando em círculos. A história da Lara e da Ana faz acontecer uma boa mistura na nossa cabeça porque envolve muita coisa, mesmo elas sendo tão tão tão novinhas, já se conhecem há 7 anos! Elas se conheceram no colégio, ainda no ensino fundamental. Sim, geração 2000! (se você não está se sentindo velha, é porque você provavelmente também faz parte dessa geração). A Lara tem 19 anos, a Ana tem 20 e por mais que no colégio fossem amigas, lá, no auge dos 14 aninhos, elas não eram tããão próximas assim. A Ana conta que já era capaz de se sentir mexida com algumas coisas que a Lara fazia, mas não sabia que nome dar para isso, porque tudo é muito novo quando se está na adolescência. Ela foi se entender e se descobrir mesmo aos 16, quando beijou uma mulher pela primeira vez. Começamos a conversa falando sobre isso, esse momento que envolve o descobrimento da sexualidade, do corpo, dos sentimentos… e sobre como a tendência é nos levarmos à uma heteronormatividade compulsória. A Ana comenta que passou por muitos problemas enquanto bullying, problemas com o próprio corpo, chegou a namorar um menino e só em 2017/2018 que começou a entender o que era de fato se relacionar com mulheres, foi um processo muito delicado conhecer e se identificar com o movimento LGBT. Já a Lara, conta que o processo da bissexualidade foi também caminhando e se desenvolvendo um tempo depois, no ensino médio. Hoje em dia, a Ana é a sua primeira namorada e isso implica em desafios diários - ela está começando a contar para as pessoas, começando um processo de realmente assumir quem é, como se sente. E por mais que ambas famílias apoiam e reconheçam este relacionamento, ela entende que não é a maioria da realidade no Brasil e que não é a realidade das ruas também, que pode enfrentar preconceitos e outras barreiras por conta da sua orientação. < Lara Ana
- Renata e Hinde
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Renata e Hinde, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! < Documentei a Hinde e a Renata num espaço muito querido para elas e para todos que frequentam (e já frequentaram), no Rio de Janeiro: a Feira da Glória. Passamos algumas horas do nosso domingo lá, em meio à feira, ao samba, aos artesanatos, às crianças, ao movimento de uma festa junina que acontecia por perto e ao público que passava de um lado para o outro. Hinde e Renata não se conheceram no Brasil, Hinde, inclusive, não é brasileira - veio do sul da França para cá por conta do amor que sente pela Renata. E é na Feira da Glória que ela adora provar comidas novas, comprar roupas e descobrir o que os cariocas chamam de shoppingchão: os produtos dos ambulantes espalhados pelos chãos das ruas. O tempo que passam juntas aos domingos servem para conhecerem mais uma a outra e também para ressignificar o que sentiam sobre a pressão de trabalhar nas segundas-feiras. Agora, longe do celular, curtem mais o tempo juntas, bebem uma cerveja, aproveitam a música, o ambiente e os amigos (que sempre surpreendem a Hinde no quesito: “como podem os brasileiros serem culturalmente tão sociáveis?!”). Foi durante o intercâmbio da Renata que ela conheceu a Hinde, em agosto de 2018. O intercâmbio era em uma cidade muito pequena e tradicional, no sul da França, e a chegada da Renata sendo a primeira brasileira a estudar por lá foi algo que despertou certo interesse nos franceses, por ela ser uma mulher que se impõe perante os desafios: é jovem, assume sua bissexualidade, traz consigo as pautas que acredita e dá suas opiniões quando preciso. Logo no início, um grupo de amigos se criou: um garoto que era apaixonado pelo Brasil e que virou amigo da Renata logo de cara, ela, mais algumas pessoas e a Hinde. Ela se sentia um pouco deslocada, achava a cidade pequena demais e as pessoas jovens demais, mas seguiu em frente. Com o tempo eles foram se dando bem, indo para diversas festas juntos e em algumas festas, quando ela e a Hinde estavam bêbadas, elas se beijavam. Hoje, a Hinde brinca: “O que é um ‘date’ para uma carioca? Você não sabe! Não dá para entender o que os cariocas sentem!” referindo-se àquela época, nunca entender o que a Renata queria. Aos poucos, a Renata sentia uma certa paixão pela Hinde acontecendo, mas como era algo que só se beijavam em festas e mantinham uma amizade nos outros momentos ela não deixava passar disso - e também não tocavam nesse assunto. Durante todo o intercâmbio foi assim. Nesse meio-tempo, a Renata chegou a se envolver com uma menina, o que até diminuiu esperanças na Hinde, mas não durou muito tempo e inclusive no momento de “término” elas trabalharam juntas em um evento. Neste dia, passaram muito tempo conversando, rindo e interagindo e a Renata disse “eu te amo” para a Hinde. Isso a pegou de surpresa, não imaginaria ouvir, assim, dessa forma. E tudo ficou muito suspenso, não tocaram no assunto depois, seguiram naturalmente. Nas festas seguintes continuaram se beijando quando estavam embriagadas e mantendo amizade sóbrias, até que, no fim do intercâmbio os jogos universitários aconteceriam e depois disso a Renata iria para Paris, comemorar o seu aniversário, e voltaria ao Brasil. Elas viveram os jogos e no fim, ao se despedirem na estação, entenderam que não se encontrariam mais. Choraram muito, se abraçaram e deram o primeiro beijo estando sóbrias e em público. Depois da despedida a Hinde chegou a conversar com a mãe dela pelo telefone, ainda chorando muito e a mãe tentou a acalmar um pouco, mas não entendia tanto o motivo de tamanha tristeza. Acabou que, ao chegar e viver os dias em Paris, a Renata decidiu não voltar ao Brasil após o aniversário. Conseguiu transferir a passagem e passou o verão por lá, trabalhando em sorveterias, sendo babá… Alugou um apartamento e viveu de freelancers durante a temporada. Durante o verão em que a Renata continuou na França, ela e Hinde conversaram muito pelo celular e se sentiram muito próximas, coisas que não costumavam fazer com outras pessoas. Essa frequência de se falar todos os dias fez com que surgisse uma nova vontade de se encontrarem. Logo após o verão, a Hinde precisava arranjar um projeto para ser voluntária por conta da faculdade, então ela encontrou um que conversava com o que precisava apresentar e que era localizado próximo de onde a Renata morava. Elas conversaram e a Renata topou hospedá-la por um tempo, para que ela conseguisse realizá-lo. Hinde comprou as passagens, foi para lá e depois de 15h de viagem chegou, usando vestido amarelo e salto alto (!!!). A Renata trabalhava em uma loja de souvenirs e a Hinde esperou ela sair para irem beber vendo o pôr do sol. Quando elas estavam juntas, ela cantou uma música que se chamava “I Wanna Be Your Girlfriend”, tomaram vinho na garrafa e não entenderam direito o que estava acontecendo, sentiam que eram amigas, mas ao mesmo tempo, o sentimento se misturava com outro. No dia seguinte, Hinde passou num brechó e viu um anel lindo, comprou e decidiu tomar a decisão que queria há tempos: pediu ela a Renata em namoro. Ela aceitou e foi assim que começaram a namorar. Mas tinha um problema: Renata só tinha mais dez dias na frança, ela precisava voltar ao Brasil para terminar a faculdade e já estava com a passagem marcada. Os dez dias aconteceram e foram incríveis. Viveram dias maravilhosos, muito felizes e a Renata voltou ao Brasil. Nessa volta, elas passaram 6 meses distantes. Se falavam todos os dias, mas não tinham ainda previsão de se encontrarem. Foi quando a Hinde decidiu fazer seu passaporte e comprar uma passagem para vir ao Brasil. Nessa mesma época, no dia da visibilidade bissexual, ela contou para a sua família sobre quem ela era, como ela se sentia e sua mãe perguntou: “É aquela menina brasileira que você está namorando?” por relacionar desde o dia em que ela chorou com a despedida da Renata na estação algum sentimento a mais que elas sentiam uma pela outra. Por mais que num primeiro momento a família não tenha tido uma boa reação, a mãe dela a apoiou e disse que era um ato muito corajoso o que ela estava tendo em se assumir e que admirava isso. Foi então que a Hinde veio ao Brasil em 2019 e, logo depois, no começo de 2020 a Renata voltou para a França para passar uns dias. Ela conseguiu voltar ao Brasil antes da pandemia fechar os aeroportos por aqui, mas começou um novo momento muito difícil entre as duas, que era entender que meses as separariam pela incerteza de quando iriam se encontrar novamente. O trabalho da Renata cobrava muito dela durante a pandemia, foram meses puxados e o fuso-horário entre ela e a Hinde não colaborava em nada. Foi então que ela se formou, conversou com o chefe e antes do ano encerrar e conseguiu uma ida para a França, tanto para desenvolver o mestrado por lá, quanto para encontrar a Hinde: ficaram dois meses juntas. Na volta, a Hinde retornou ao Brasil e seguiu aqui até nos encontrarmos. Hoje em dia os planos estão baseados nas duas se mudarem para a Europa, tentando estudos em Barcelona ou em novos caminhos que ainda chegarão por aqui. ♥ Atualmente, a Hinde está com 21 anos. Ela estudou ciências políticas e está se graduando. É natural de Saintes, mas também morou em Bordeaux. Independente da faculdade, seu sonho e seu maior talento é ser cantora. Quer viver da música, pagar suas contas, ser feliz no seu trabalho, se desenvolver na sua carreira através da sua voz. Ela acredita que todos os artistas possam ter direito de viverem da sua arte, não só os que já nasceram com o privilégio financeiro, e gostaria de ver artista pobre sendo reconhecido pelo o que ele é, por toda a arte que ele têm a oferecer. Renata está com 24 anos, é natural do Rio de Janeiro, economista e trabalha com avaliação de políticas públicas. Além disso, faz parte de um projeto que conecta mulheres vereadoras e prefeitas às mulheres academicistas, oferecendo cursos de capacitação nos projetos a se desenvolver, e também está ajudando na reforma da graduação de economia da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). Renata acredita que para mudar as coisas é preciso incorporar mulheres no orçamento público: um orçamento que olhe para mulheres trabalhadoras, homens que reconheçam suas paternidades, mulheres que sejam representadas pelas políticas públicas e mulheres que estejam ocupando cargos nos poderes públicos. Quando falamos sobre todos os momentos difíceis que passaram, como os primeiros seis meses distantes logo depois de terem os primeiros dez dias namorando, elas explicam que o que sempre as mantinha seguir em frente e suportar a distância, a rotina longe, ver os amigos e não ter uma-a-outra por perto, era manter o pensamento de “logo ela vai estar aqui comigo”. A Hinde brinca que esse pensamento na Renata era tão presente que quando ela chegou no Rio, se sentia famosa: a Renata contava para TODOS os amigos dela quem a Hinde era e todos já conheciam ela antes dela chegar (e ansiavam por isso). Se sentiu muito amada e acolhida. Elas entendem que sempre foram muito amigas e isso também colaborou para que as coisas dessem certo. Nos momentos difíceis o sentimento que surge é o de não parar, não estagnar, sempre dialogar, desenrolar… mesmo na hora da briga, não se deixar esfriar. A distância dificulta porque o físico não existe, então tudo gira em torno da conversa, da chamada de vídeo e da saudade, mas isso reverbera quando se encontram e tudo gira em torno de muito afeto e movimentos para que nada estrague, que não existam desavenças e todos os segundos sejam aproveitados. Elas sentem que estão sempre sorrindo juntas e que isso também é amor. As piadas em várias línguas e linguagens diferentes e o quanto se divertem. Para a Renata, o relacionamento dela com a Hinde significa estar em paz. Elas estão em paz entre elas e ela está em paz com ela mesma. Hinde Renata
- Dandara e Raquel
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Dandara e da Raquel, quando o projeto passou pela Bahia!. Foi por uma brincadeira entre a Dandara e a amiga que estava hospedada na casa dela, que a história de amor entre Dands e a Raquel começou. Vamos lá, eu explico: Era um dia ruim, ela estava chegando em casa triste e amargurada, quando abriu a porta e viu a amiga se divertindo olhando para o celular. Na hora, indignada, perguntou por qual motivo estava rindo, se tudo nesse mundo andava tão ruim. A amiga contou que tinha baixado o Tinder e estava conversando com um cara que de tão sem noção chegava a ser cômico - o papo era muito ruim, todo errado, mas ela estava até se divertindo e disse “Amiga, baixe o Tinder também, dá match com ele! Vamos ver se ele vai dizer o mesmo pra ti!”. Na hora Dandara imediatamente duvidou do algoritmo. Mas é aquela coisa: com algoritmos não se brinca. Ela viu a conversa, tomou um banho e decidiu baixar o aplicativo. Realmente achou o cara, deu match e aconteceu o que esperavam: um copia e cola da conversa com a amiga. Acharam tudo bizarro e riram a noite toda dessa situação. Entre rirem da própria desgraça, Dands resolveu usar o aplicativo um pouquinho, mesmo que não estivesse tão disposta a conhecer pessoas, até que deu match com a Raquel. Raquel, por sua vez, tinha acabado de sair de um relacionamento que fora bastante traumático e usava o Tinder para se distrair e conhecer outras possibilidades de conversas. Durante o ano de 2021, quando conheceu a Raquel, achou que ela seria uma ótima companhia. Foi quando conversaram, decidiram ir ao museu juntas e passaram o tempo todo só conversando, nem chegaram a se beijar. Depois do primeiro encontro que tiveram no museu, Raquel e Dandara seguiram conversando e saindo, até que ficaram. Um mês depois do primeiro beijo começaram a namorar. Dandara não aceitou o pedido de namoro da primeira vez - pois é, Raquel até pediu, mas ela disse: “Não.”. Nada mudou, seguiram ficando. Entendem que precisavam resolver outras situações, relacionamentos inacabados e medos de se relacionar seriamente. Precisavam entender seu tempo. Por mais que não queriam namorar, seguiam ficando e não ficavam com mais ninguém, foi quando Raquel desistiu e falou: “Não vou mais falar sobre o assunto. Ela está namorando, só não quer ver”. E assim seguiram, até que um tempo depois foi Dandara quem fez o pedido e oficializaram o relacionamento. Hoje em dia, no momento da documentação, anos depois do começo do namoro, nos encontramos num dia turbulento em meio à mudança de apartamento delas: vão morar juntas pela primeira vez. Entre carregar coisas de um lado para o outro, arrumar caixas e comprar móveis, tiramos um tempo para tomar um café no Pelourinho, lugar escolhido por ser bastante frequentado por elas. Dandara no momento da documentação estava com 26 anos, ela é natural de Salvador, trabalha enquanto estagiária em advocacia e tem um grande hobbie na fotografia - também trabalhando nessa área no tempo livre. Raquel no momento da documentação estava com 27 anos, também é natural de Salvador, trabalha com auditoria e conta que tanto ela quanto Dandara possuem ligações muito fortes com a Umbanda e o Candomblé, então além dos hobbies, no tempo livre estão muito presentes em suas religiões. Conversamos muito sobre o quanto o processo da mudança vem sendo algo significativo para elas - e como documentá-las nesse momento também é importante. Dands conta que é uma pessoa muito apegada aos seus bens materiais, que a grande maioria das suas coisas representa sentimentos, pessoas, momentos… e a mudança está sendo um passo muito grande em praticar o desapego. Uma nova e desafiadora fase. A mudança também representa o novo desafio da convivência, com questões de casa, detalhes do cotidiano, novos conflitos ainda não vividos… coisas que também são boas. Antes de se relacionarem, entendem que passaram por muitos momentos difíceis, traumas, situações que faziam com que não falassem e se abrissem, viviam com marcas guardadas. Juntas começaram o exercício de falar e investigar uma à outra e acreditam que morando juntas isso possa se tornar ainda mais forte. Para Dandara, amar é ser companheira. Ela acredita que ser uma mulher preta se relacionando com outra mulher preta é algo político 100% do tempo, algo muito intenso que fala também sobre sua própria raíz. Raquel não quer ficar falando o tempo todo que beija mulheres, ficar reafirmando, quer ser tratada com normalidade, mas entende também que colocar como normal não adianta num momento que precisamos reivindicar, por isso se coloca nos espaços de luta. Para ela o amor é uma construção contínua - você se descobrir e redescobrir. É também estar sempre acrescentando nas relações: “Talvez algo já existe em você e o outro te ressalta, te soma”. Ela conta que quando brigam ou discutem/se veem nessas situações difíceis, sente que precisa sentar, conversar, se localizar no que está acontecendo, colocar pra fora. ↓ rolar para baixo ↓ Raquel Dandara
- Julia e Duda | Documentadas
Amor de Muito - Julia e Eduarda clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Pamela e Gabriela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Pamela e Gabriela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi num parque em meio à área florestal do Grajaú, no Rio de Janeiro, que encontrei Pamela, Gabi e Kauan. Ele completamente sorridente, com seus 5 meses de idade. Começamos a conversa com elas contando o quanto amam viajar. Sempre planejaram viagens e agora, depois de ter feito a primeira viagem breve com o Kauan, anseiam o primeiro andar de avião nas próximas semanas. Pamela explica como esse primeiro momento da maternidade não é fácil, por mais que tenha essa viagem que traga felicidade, a vida real demanda muito, envolve cansaço e esforço das duas, mas que mesmo nessas circunstâncias conseguem sentir as coisas leves porque sempre relembram o quanto sonharam com isso e o verdadeiro motivo de viverem tudo: resgatam o amor para o dia a dia. Entendem que o amor é muito político, principalmente na criação do Kauan. Citam os olhares, as burocracias que viveram e questões mais ‘invisíveis’, como o quanto pensavam sobre política muito antes de saber se era um menino ou uma menina que iria nascer. Gabi explica que se fosse menina, queriam criar uma menina forte, corajosa, que tivesse consciência do machismo, etc. Sendo menino, mudava de forte para sensível; Queriam a consciência e a coragem, mas ensinando que pode demonstrar sentimentos, chorar, ser gentil. Conta, também, sobre um dia que estavam numa padaria e um desconhecido brincou com ele e comentou: “Esse é macho, tem cara de macho!” e ela disse “Não… Ele é um bebê” e completa que não tem que ter cara alguma, além da cara de um bebê. Foi em 2015 que elas se esbarraram pela primeira vez, numa festa durante o carnaval. Pamela tinha saído com um amigo, estava recém solteira e perguntou se o amigo tinha alguém para apresentar. Ele apresentou a Gabi e elas se beijaram na noite, mas não conversaram, nem trocaram mensagens depois. Em 2017, se encontraram novamente no carnaval, de forma aleatória num bloco e com os mesmos amigos em comum. Perguntaram se estavam solteiras e ficaram. Isso já era de madrugada, estavam bêbadas e depois de terem ficado, a Gabi simplesmente comentou com o amigo: “Sabe quem eu queria encontrar?! A Pamela”. Ele ficou sem entender nada: “Ué?? Mas você acabou de ficar com ela!”. E ela não lembrava. Se esbarraram de novo, beijaram de novo, e o amigo chegou dizendo “E aí, Gabi, agora foi, né?”. Quando ela respondeu: “Não?! Não vi a Pamela”. Achavam que era alguma brincadeira dela, mas entenderam que ela realmente não estava relacionando/lembrando. Então combinaram: se elas se beijassem de novo, iriam fotografar. E assim foi. Depois do carnaval, ambas tiveram breves relações e no meio do ano estavam novamente solteiras, então começaram a se falar pelas redes sociais. Decidiram ter um encontro, a Pamela decidiu que não podia envolver álcool, porque queria ser lembrada, então chamou Gabi para ir ao cinema. Acabaram chegando cedo e só tinha o filme dos Minions para assistir, toparam mesmo assim e sentem que aquele dia foi o começo de tudo. Começaram a conversar, ficaram juntas mesmo. Nos próximos dias que seguiram desde o primeiro encontro, já entendiam que queriam namorar. Fizeram a primeira viagem e lá Gabi comprou uma aliança, na pracinha da cidade, e deu para a Pamela selando o início do namoro. O primeiro ano não foi fácil, contam que foi um ano de “ajustes”. Tinham muitas conversas para se entender, também não havia muita estrutura, ainda estavam na faculdade… Foi depois de completarem um ano que decidiram morar juntas, em Caxias, por ser mais acessível financeiramente. Sempre falaram sobre casar e ter filhos, então começaram uma conta poupança juntas, entendendo o quanto isso demandava, e os planos foram se concretizando. Em 2019 casaram, fazendo uma festa para amigos e familiares. Em seguida, se mudaram para um novo apartamento, entre o centro e a zona sul do Rio de Janeiro. Durante a pandemia o apartamento se tornou pequeno para o que desejavam. Ainda mais passando o dia todo em casa, se sentiam enclausuradas, sem tanta luz solar. Sendo assim, em 2021 conseguiram um novo lar, dessa vez na Tijuca, e lá a vinda do Kauan começou a ser planejada. Começaram com a bateria de exames, depois a primeira tentativa que já deu certo. Pamela gerou, Kauan nasceu em abril de 2023. Gabriela estava com 31 anos no momento da documentação, é natural do Rio de Janeiro e, mesmo tendo a formação em Engenharia Química, migrou de área e hoje atua enquanto Product Manager. Pamela, com 33 anos no momento da documentação, é natural de Duque de Caxias, baixada fluminense. Também formada em Engenharia Química, não atua na área, trabalha enquanto analista de negócios. Gabi conta que desde pequena sempre quis ter um filho com o nome Kauan. Falava isso tanto que, quando a mãe engravidou, perguntou se ela queria dar esse nome ao irmão e ela respondeu que não, Kauan seria o nome do filho dela. Quando deu essa ideia para a Pamela, ela adorou, principalmente pela escrita do nome. São duas mulheres muito diferentes: Gabi, por exemplo, passou o processo de gravidez todo chorando (seja por felicidade, medo, ansiedade…), enquanto Pam internalizou tudo e segurou a barra, foi muito racional, só chorou quando deu certo. Entendem que no dia a dia o exercício é fazer Pamela lidar com as emoções, se comunicar, falar o que sente. Gabi instiga a comunicação, sempre procura conversar. Para Gabi, o amor é muito mutável perante os períodos que as pessoas estão vivendo. Quando começaram a namorar, por exemplo, sabiam que se amavam e por mais que em muitos momentos estivesse sendo difícil se entender, o amor estava ali e queriam continuar juntas, por isso seguiam em frente. Hoje em dia é diferente, já passaram por questões difíceis no emprego, na família… e continuam juntas, se sentem fortalecidas. Vê muita parceria na forma que elas constroem a relação e a educação do Kauan. Atualmente, fazem parte de um grupo de dupla maternidade no Rio de Janeiro e querem muito que o Kauan viva com crianças da mesma configuração familiar que ele. Buscam o tempo todo espaços inclusivos, desde o grupo, até escolas que não tenham o dia das mães-dia dos pais, mas o dia da família. Pamela fala sobre todas as crianças, as tantas que vivem sem pais, por exemplo, e como esses dias podem se tornar algo ruim. Não queria ver o Kauan crescendo com esse sentimento, portanto, querem sempre propor algo melhor - e que elas não tiveram, na sua infância, como escolher. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Pamela
- Mariana e Viviane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mariana e Viviane, quando o projeto passou pela Bahia!. Mariana e Viviane são de Salvador, mas se conheceram em viagens à trabalho para a Chapada Diamantina. Num encontro bastante aleatório, Vivi estava sozinha em um bar bebendo uma cerveja no fim do dia, enquanto Mari passeava com o pai e acabou no mesmo lugar. Lá, em meio à música ao vivo, todos que estavam presentes interagiram, inclusive elas. Passaram horas conversando, além das trocas de olhares, beberam cerveja e riram de bobeiras. Decidiram trocar telefones e, quando a Mari chegou em casa, mandou uma mensagem pensando “Que mina massa! Vou agradecer pela nossa conversa que foi realmente muito boa!”. Depois de conversarem por mensagens, nos dias que se passaram a Vivi chamou Mari para ir na pousada em que ela estava beber uma cerveja. Mari avisou que tinha algumas garrafas em casa, então colocou na sacola e foi até a pousada. Naquela época, ambas tinham acabado de sair de casamentos héterossexuais, então em meio ao processo que viviam foram ficando cada vez mais próximas. Desde então, não se desgrudaram mais. Mariana, natural de Salvador, estava com 39 anos no momento da documentação. Ela trabalha enquanto advogada. Viviane, também natural de Salvador, estava com 43 anos no momento da documentação. Ela conta que “é um monte de coisa”: instrutora de yoga, doula, empresária, mãe, turismóloga… Seus filhos (o mais velho com 11 anos e a mais nova com 8 anos) adoram a Mari. Desde o começo eles saíam muito juntos, iam para o parque, o shopping, a praia… mas as crianças ainda não sabiam que elas namoravam. Até que um dia, num restaurante, a mais nova disse que o irmão estava falando que a mãe e a Mari estavam namorando, e ela respondeu: “Mas a gente tá!”. E pronto. Foi uma festona. Um misto de ficarem incrédulos com muito felizes. E aí surgiram as questões: “Mari, você vai ser nosso segundo pai?!” “Papai também vai namorar um menino?!” Os questionamentos naturais dialogam com a naturalidade que as crianças veem a relação. Hoje em dia, contam que a mãe namora e acham isso incrível. No começo da relação, brincam que se enrolaram um pouco. Estavam processando suas novas vidas e acreditam o quanto isso influenciou. Mas foi depois de uma viagem que a Mari fez para o Rio de Janeiro que a Vivi resolveu se abrir sobre seus sentimentos e falar o quanto gostaria de começar uma nova vida com ela. Mari nunca tinha se relacionado com mulheres, então passaram por momentos de se assumir para a família, o que gerou bastante medo para ela. A família não aceitou inicialmente, achava que a Mari nunca se relacionaria com uma mulher, porém as duas foram dando tempo para que eles processassem e tentando não gerar nenhum stress, hoje em dia todos já se dão bem em casa. Pelo lado da Vivi, o desafio foi contar ao pai. Na época ele estava com 82 anos, tem seus lados conservadores, mas depois de contar ele respondeu “Só isso?! Ah, então tá bom!” e ela ficou positivamente surpresa. Hoje em dia, mesmo morando em casas diferentes, elas amam se encontrar em praças e ir à praia (na praça que fizemos as fotos, inclusive. Por ser um lugar seguro e bom de ficar à toa). Elas brincam que não possuem hobbies específicos, porque no tempo livre se dividem entre dormir e ser mãe, recuperar o sono perdido nos últimos 11 anos. Vivi acredita que o amor precisa ser leve, pois quando há tensão/densidade/peso ela quer repelir. Entendem que no amor que vivem possuem muita liberdade e confiança uma na outra, então enxergam o momento atual enquanto tranquilo e confortável. Entendem que precisam de tempo para digerir processos internos, mas que a parceria faz parte da relação como um todo. Hoje em dia, vivem enquanto um casal tal qual viveriam enquanto heterossexuais, e não evitam de ser quem são. ↓ rolar para baixo ↓ Mariana Viviane
- Mari e Fabi | Documentadas
No encontro de almas que resume a relação da Fabi e da Mari elas contam sobre como é a experiência de viverem um cotidiano completamente novo. Fabíola vivia um casamento antes de conhecer a Mari e, este, era nos moldes mais tradicionais possível. Ela se sentia vivendo numa bolha, dificilmente saía de casa e via a cidade acontecendo, não costumava conhecer pessoas novas… Mari, por mais que fosse uma mulher solteira e tivesse maior vivência, também não estava saindo há muito tempo, sua rotina era trabalho > casa. Agora, todo final de semana saem juntas, descobrem festas, festivais de música, conhecem pessoas, fazem amigos e/ou desfrutam da qualidade de saírem só as duas, sendo suas próprias companhias. Fazem coisas que nunca se imaginaram fazendo antes e comemoram: são muitas descobertas. Foi em Caraíva que o Mari pediu Fabi em casamento, num lugar que ela sempre sonhou em estar. Mari vivia trabalhando, ganhando dinheiro e guardando. Depois que conheceu a Fabi começaram a se movimentar e agora sente que trabalha para conseguir viver tudo o que desejam. Refletem que em “situações normais” nunca teriam se conhecido, justamente por estarem em suas bolhas e pouco saírem de casa. Além disso, sempre frequentaram lugares opostos. Hoje em dia, Fabi apresentou os pagodes pra Mari, que já adora frequentar as “tardezinhas”, enquanto Mari leva Fabi nas festas de pop-rock. E acreditam que o encontro é para além de compartilhar gostos, conseguem enxergar o quanto se ajudam no empoderamento dos corpos, da autoestima, de se olhar de forma diferente, de se valorizarem e de entenderem as importâncias que possuem uma na vida da outra. Se sentem amadas de verdade. Foi em um dia completamente aleatório, no começo de 2021, que Fabíola estava em casa e decidiu baixar um aplicativo de relacionamentos para conhecer uma mulher. Estava ela e o marido sentados no sofá, cada um em um canto, cada um olhando para a tela, em seus mundos e apareceu uma publicidade para ela. Era um aplicativo específico de mulheres para mulheres. Ela baixou. Nunca tinha se interessado por uma mulher, nem relacionado, nem pensado em beijar. Nada. Baixou nem que fosse para fazer amizade. Neste aplicativo conheceu uma menina, o papo desenrolou e saiu com ela. Teve até um primeiro beijo. Mas era uma mulher que estava numa situação semelhante, se via enquanto heterossexual, tinha filhos, família e não tinha como nada acontecer ali. Resolveu desinstalar o aplicativo. Achou outro aplicativo, também voltado para mulheres, e resolveu tentar. Fabíola reside em Campo Grande, bairro da zona oeste carioca conhecido por ser extenso, populoso e bastante distante da região central. Tentou não colocar um raio de distância muito grande e, mesmo não estando tão próximo, a Mari apareceu. Fabi sempre criou uma percepção de que sua presença naquele aplicativo era uma aventura. Não falava sobre isso no casamento, até porque não havia mais diálogo. Ela realmente buscava uma fuga e sentia que ali existia. Quando começou a conversar com a Mari, deixou explícito sua vontade de ter algo casual e extraconjugal e a Mari não aprovou muito a ideia, mas já estavam conversando e tinham marcado o primeiro encontro, seguiram em frente. Mari perguntou se a Fabi sabia de algum bar LGBT+ para elas se encontrarem e era óbvio que a resposta seria negativa, então foi atrás de algum lugar em Campo Grande. Conseguiu um bar, foi até lá e se encontraram. Antes de chegar, estavam ansiosas, com as mãos suando, tímidas. Conversaram e quando o primeiro beijo aconteceu foi um misto de “lascou!” com “meu deus, o que foi isso?”. Fabíola conta que o encontro foi numa sexta à noite… e diz: “Como você é casada, sai numa sexta à noite, num casamento em crise e volta de madrugada? O que você fala?”. A ideia não se sustentou. No segundo encontro marcado, ela chegou dizendo: “Vou me separar”. Decidiram enfrentar juntas a separação e tudo o que viria com isso. Parecia que se conheciam e que estavam se relacionando há muito mais tempo, pela naturalidade que lidavam e pela forma que se apoiavam, mas a verdade é que não foi nenhum pouco fácil. A Fabi foi criada na igreja católica, sempre gostou disso, sempre fez questão de fazer parte, tanto que conheceu o ex companheiro nessas circunstâncias, se casou na igreja e teve um relacionamento longo, nos moldes que ela acreditava, se dedicando e acreditando. Então se questionava muito sobre como acabar com algo que você depositou tanto e por tanto tempo se sentiu bem? Entende que essa foi a decisão mais difícil que já precisou tomar. Sempre sentiu muito carinho por tudo o que foi construído e pelo o que viveu. Mas parte do entendimento para que essa decisão fosse tomada era a própria compreensão de que não cabia mais naquele espaço. Precisava seguir novos rumos para ser feliz. Para a Mari, também era muito difícil porque existia o medo constante, a sensação de acordar todos os dias e pensar “e se ela desistir de tudo e voltar para o casamento?” - e essa pressão existia, era real, isso poderia ter acontecido. Tudo foi seguindo seu fluxo muito rápido. A família da Fabi estava passando por uma questão bastante delicada por conta da mãe dela estar vivenciando um problema de saúde difícil e ela tentou ao máximo evitar falar sobre o divórcio para não trazer mais problemas, mas não teve como, era nítido que ela não estava bem no casamento e precisavam conversar sobre. Para isso, teve o apoio incondicional da irmã, até a poeira baixar. É importante considerar que no começo da relação a Fabi ainda morava com o ex companheiro, então tudo se torna ainda mais delicado, tanto pela pressão que existia para que o casamento não terminasse, quanto por considerar que também não foi um momento fácil para ele. Fabi conta que a mãe dela percebia que o casamento não ia bem porque todo domingo ela passava o dia na casa da mãe, sempre arranjava uma maneira de sair de casa dizendo que “não tinha o que fazer”. Não era algo que empolgava os momentos com o companheiro e a mãe percebia aos poucos. O medo maior ao contar sobre o divórcio para a mãe era principalmente contar sobre a nova relação, porque sua mãe sofreu um abuso quando era mais nova e foi uma mulher quem abusou, então ela criou uma aversão aos relacionamentos por duas mulheres. Quando contou, a mãe teve uma reação muito diferente do esperado, a abraçou e disse que sempre ia amar, não iria deixar de aceitar e respeitar. Na prática, a convivência foi aos poucos, mas no último natal, por exemplo, a família da Mari e da Fabi se reuniram em uma única festa. A mãe da Mari, em compensação, achava que essa história era o maior golpe. Que a Fabi nunca iria se divorciar (afinal, muitas histórias são assim mesmo!). Mas depois viu que deu tudo certo e apoiou. Hoje em dia segue enquanto fã do casal. Mariana, no momento da documentação, estava com 37 anos. Ela é natural do Rio de Janeiro, moradora de Vargem Pequena, subúrbio carioca. Trabalha enquanto gerente de hotel em Copacabana e é formada em Línguas Estrangeiras Aplicadas à Relações Internacionais. Fabiola, no momento da documentação, estava com 32 anos. Também é natural do Rio de Janeiro, moradora de Campo Grande, zona oeste da cidade. Trabalha com administração e marketing digital direcionado para empresas. Neste ano, pretendem morar juntas, quem sabe em algum lugar mais acessível, perto do trabalho e da região boêmia que elas tanto amam. Além disso, já possuem a lista de próximos festivais musicais que pretendem ir, se divertir e se redescobrir - quando nos encontramos haviam acabado de voltar do Festival de Verão de Salvador e completam “a gente já voltou pensando qual será o próximo”. ↓ rolar para baixo ↓ Mariana Fabiola
- Drika e Janis | Documentadas
Amor de Dia a Dia - Drika e Jana clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Amanda e Thais
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Amanda e Thais, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Amanda e a Thais se conheceram através do mais famoso e conhecido aplicativo de relacionamentos dessas bandas, o Tinder. Elas já estavam meio “saturadas” de navegar por lá, confessaram, a Thaís nem tinha mais instalado no celular, só entrava na versão web e a Amanda não tinha muita paciência com quem demorava para responder… Elas brincam que nem entendem como deu certo. No começo, a Thais demorou três dias para responder… mas quando respondeu, foi logo com um textão, e aí a conversa engajou. Tudo fluiu e resolveram se encontrar, foram num bar de jazz no centro do Rio de Janeiro, depois num shopping na Barra da Tijuca, até que chegaram, no terceiro encontro, ao local preferido delas (e também escolhido para fazermos as fotos): A Lagoa Rodrigo de Freitas. Escolheram lá porque é uma localização entre as duas moradias, e assim, soa mais justo para ambas. A Amanda nunca tinha ido e adorou. Lá era mais fresquinho (dialogando com o calor carioca), levaram um vinho e se estenderam noite adentro. Como na época - e nos encontros que se sucederam - elas ainda não namoravam, moravam com os familiares e as famílias não sabiam, os encontros acabavam sendo sempre na lagoa. A Thais brinca que conheceu a mãe da Amanda por obra de um destino chuvoso, uma tempestade que deixou as duas presas no trânsito sem conseguir voltar para casa, fazendo com que a mãe precisasse ir buscar, mas que nada daquilo era planejado e ela ficou super nervosa, mas que hoje em dia ambas famílias se dão bem e gostam muito umas das outras. Amanda tem 25 anos, é formada em Letras e faz Mestrado em Literatura, com ênfase nos estudos das obras de Clarice Lispector. Ela também dá aula de redação em um projeto social, o NÓS. Além das suas profissões, adora escrever, ama observar e viver a escrita em si. Ela também adora tocar violão, teclado e gaita. Sua família é muito musical, o maior programa da casa é cantar e tocar nas horas livres. Thaís tem 28 anos, faz faculdade de Medicina na UFRJ e está no período de Internato. Perguntei como ela se viu vivendo a pandemia na faculdade de medicina, afinal, é um desafio e tanto. Ela comenta o quanto era assustador no início, mas que por ainda não ter começado o internato, não estava na linha de frente no momento mais intenso da pandemia de Covid-19. Passou muito tempo em casa, estudando à distância e sem contato com pacientes, então tudo era muito diferente, muito distante da prática. Agora, mesmo com a vacina, mas com a nova onda da variante Ômicron, conseguiu ter uma prática mais ativa, o que também gerou diversas sensações, como o medo de passar para a família e para as pessoas que ama, além do contato mais direto com as dificuldades do cotidiano na área da saúde. Tudo vira aprendizado, algo que por mais que não imaginavam viver no início da graduação, muda muitas perspectivas sobre a prática da medicina e desenvolve também uma forma de lidar diferente com as pessoas na hora do atendimento e de qualquer contato, enquanto ser humano, não só ao se fazer uma consulta. Por mais que elas já namoram há algum tempo (e inclusive comemoram todas as datas, desde o dia do match, até o dia do primeiro date e o dia do namoro em si!), passaram por diversas fases até chegar ao equilíbrio que possuem hoje. A Amanda, por exemplo, sempre foi uma pessoa mais fechada, ou melhor, elas contam o quanto são opostas nisso: a Thais é mais de estar junto, se abrir, dialogar sobre o que sente, conversar na hora… Enquanto a Amanda se isolava, sentia dificuldades em se abrir. E isso, de certa forma, acentuava-se porque as famílias também são muito diferentes - a família da Thaís já deixava ela mais distante, enquanto ela queria mais carinho, e a da Amanda “saturava” nessa presença, sendo que ela queria ficar no seu próprio canto. Foi difícil entender o passo, o ritmo. Hoje em dia, depois de muitos processos, de calma e de se compreender/entender o que falta uma na outra, elas conseguem estar mais próximas e permitir a dinâmica funcionar. A Amanda conta que sempre lidou sozinha com os seus problemas e agora, com a Thais, entendeu que pode ser diferente. Foi difícil ela desaprender a estar sozinha, mas entendeu que é bom também, que é bom ter alguém. A Thaís percebe algumas movimentações nesses ciclos, por exemplo: Na semana anterior à que nos encontramos, a Amanda passou por uma situação difícil e pediu para que a Thais fosse até a casa dela - isso não aconteceria anteriormente, porque ela sempre passava por tudo sozinha, dessa vez pediu ajuda, um passo incrivelmente grande, que elas comemoram juntas. E a Amanda complementa dizendo que foi muito melhor com a companhia da Thais. Ainda que tenha sido uma situação chata/complicada/difícil, foi melhor com a companhia porque fez tudo ser mais fácil de ser ultrapassado. Nesses momentos, elas entendem que experimentar novas potências, ou melhor, aumentar as potências que já existem em nós, é também um ato de amor. Acolher é amar, mas também dar bronca para melhorar é amar. Amar é muito difícil. E falando isso elas lembram de uma amiga que disse “Eu acho incrível porque quando vocês brigam, vocês mudam!”, a transformação do amor é por não ficarem estagnadas, se permitem a mudança, ao incômodo de mudar para melhorar. Dentre a parceria que elas possuem existe muito companheirismo, como uma conexão grande e íntima, a compreensão em forma de cuidado: uma via de mão dupla, amar e ser amada. Amanda apresentou o samba para a Thais e em troca teve o Pink Floyd. Apresentou a cerveja em troca do vinho. Thais completa, dizendo o quanto isso liga as duas e o quanto mudou ela (a música em si). Antes ela era do rock e hoje em dia é super samba - a mãe dela nem acredita. Elas também vivem juntas na cozinha, amam cozinhar, são vegetarianas/veganas, fazem diversas receitas juntas e é o momento delas, de se curtir, ouvindo música e tendo algo muito voltado ao afeto. Falamos o quanto o veganismo traz um olhar de afeto na preparação do que fazemos e a Amanda conta o quanto descobriu o afeto na cozinha por meio dessas receitas só pelo relacionamento que tem com a Thais, antes, nunca tinha se aventurado no ato de cozinhar. No começo do relacionamento a Amanda descobriu ser intolerante à lactose, e por a Thais ser vegana, ela auxiliou muito no processo e na ressignificação dos alimentos. Trouxe queijos veganos, novos sabores a serem descobertos, foi uma cozinha com afeto muito compartilhada. Elas falaram diversas vezes que amor é transformar e o amor está nessas trocas de transformação, também. No jeito que se acrescentaram e se compartilharam na descoberta de mudanças, ressignificações e coisas boas no dia a dia. Thais Amanda
- Mariana e Reylibis
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mari e da Reylibis, quando o projeto passou por São Paulo! A Rey hoje em dia trabalha enquanto arquiteta em um escritório em São Paulo, ela sonha em se mudar para a Bahia e conta o quanto ama morar no Brasil. Ela aprendeu a se aceitar morando no Brasil e aprendeu também a gostar de todo o tipo de diversidade. Fala sobre a sua vivência na Venezuela e sobre lá ser tudo muito escondido, sobre jamais poder demonstrar qualquer tipo de afeto com outra mulher na rua e não ter um espaço do qual ela possa se sentir à vontade. Aqui ela encontrou esse espaço. Mas, agora que ela já mora aqui, também entende que ainda assim existe o medo, os olhares, a violência, o aumento de um certo conservadorismo nos últimos tempos… mas que não é hora de abaixar a cabeça porque temos que seguir caminhando para vencer totalmente esse medo. Elas acreditam que o amor que cultivam significa e sempre significou: compartilhar. Porque começou por estarem compartilhando os detalhes do dia a dia. E que mesmo não sendo fisicamente presente, ele existe de forma intensa e sempre foi vivo, porque elas sempre se preocuparam, sempre tiveram empatia em pensar não só no que sentem, mas na forma em como faziam uma a outra se sentir. A relação também serviu como um processo de cura, aconteceu de forma natural. E por mais que já receberam olhares na rua, já passaram por certas violências sendo mulheres, entendem que o amor entre elas gera força e sintonia, é político e também é sobre se recusarem a se envolver com homens, é sobre reverter uma situação de uma sociedade que coloca os homens no centro de tudo. Por fim, a Mari é urbanista e faz parte de alguns projetos super legais, como mobilizadora da Rede de Ativismo Nossas Cidades (clica aqui!), e também integra a organização TODXS Brasil como articuladora política LGBTQIA+, e é colaboradora do projeto Nossa Fala, onde desenvolve conteúdos sobre território, gênero e interseccionalidades. Ela fala sobre a importância de, para mudarmos realmente a cidade, precisarmos colocar mulheres que fazem cidades para mulheres - desde arquitetas, urbanistas, pensadoras de mobilidade, cultura, política, educação, enfim, de tudo. Aí, sim, viveremos em um lugar seguro para nós mesmas. Quando a Mari voltou da Espanha, em junho de 2019, logo no mês seguinte elas conseguiram se encontrar, foi quando a Reylibis veio ao Brasil, passar alguns meses. Foi tudo muito bom, elas moraram juntas por um tempo e decidiram que ela voltaria para a Venezuela para terminar algumas matérias da faculdade e organizar o trabalho de conclusão de curso entre o fim de 2019 e o meio de 2020 e assim que estivesse formada se mudaria de vez para o Brasil. Foram algumas idas e vindas, até que ela embarcou no dia 6 de março para apresentar o trabalho lá e voltar em maio e no dia 14 aconteceu o que jamais esqueceremos… foi declarado o início da pandemia. O que era maio, virou novembro. Mais uma vez elas se viram em países diferentes. E dessa vez foi muito pior, porque a Mari estava sozinha no apartamento e a Rey acabou apresentando o trabalho online, ou seja, ela poderia ter continuado no Brasil. Foram todos esses meses tentando comprar passagens, mas ninguém poderia sair da Venezuela, as fronteiras estavam fechadas por conta da situação política e não haveriam voos para o Brasil por conta dos nossos governos não se reconhecerem (Bolsonaro não reconhece o governo Maduro, e vice-versa). Mesmo que elas pedissem auxílio em espaços de imigrantes refugiados e embaixadas, não conseguiram ajuda, e no fim só foi possível por terem viajado para outros países até conseguirem chegar ao Brasil. Enquanto elas relembram cada detalhe sobre como foi muito difícil passar por isso no meio da pandemia, lembram que no começo jamais teriam cogitado um relacionamento à distância. Nem sabem me explicar como ocorreu, ambas nunca teriam topado ou acreditado se contassem à elas que iriam viver isso, simplesmente aconteceu. E é também por isso que dão tanto valor a todos os momentos que estão juntas. Desde os momentos em casa, até qualquer ida ao mercado, viagens, almoços, momentos em família… não querem mais passar momentos distantes, estão sempre juntas. A Mari conta, inclusive, que por mais que elas agissem de forma sensata antes da despedida do tipo “não podemos ter nada.”, elas já estavam se sentindo diferentes, e que a Reylibis, enquanto ela fazia as malas, estava deitada na cama e disse que por mais estranho que isso pudesse soar, de alguma forma, ela sentia que estava amando a Mari. No momento a Mari ficou quietinha, não disse nada de volta, mas se sentia balanceada também. Ela nunca tinha se sentido assim por uma mulher, então isso também era bastante novo, também era uma posição bem diferente. Quando ela chegou na Espanha foi compartilhando tudo com a Rey, desde mandar fotos, fazer ligações… virou uma companhia à distância. Elas almoçavam e jantavam juntas, contavam sobre seus dias e sobre as novidades de tudo o que estavam aprendendo. Por mais que ainda não possuíssem um compromisso de relacionamento, elas até tentaram se encontrar na europa, mas não foi possível por conta de todas as dificuldades políticas que a Rey enfrentava toda vez que tentava sair da Venezuela. É muito importante lembrarmos que a Venezuela passa por uma situação de ditadura militar e crise econômica muito forte, dos quais os militares acabam barrando e fazendo dura fiscalização sobre quem circula dentro do país, de quem entra e sai do país, pelas mulheres, LGBTs, jovens, pelas pessoas não terem condições de guardar dinheiro e por tudo ser muito escasso. A Rey comenta que o plano dela sempre foi sair de lá o mais rápido possível - e que inclusive sempre foi muito apoiada pela família - porque essa é a principal saída para todos os jovens. Infelizmente, no momento não há oportunidades para quem fica lá. Com o passar do tempo e com a relação delas se estruturando, elas foram entendendo que queriam ficar juntas, e isso abriu maiores possibilidades para a Rey pensar sobre fazer o trabalho de conclusão da faculdade no Brasil (em alguns quilombos na Bahia) e encontrar novamente a Mari. Abram alas para a nossa primeira documentação internacional ♥♥♥♥ A Reylibis é venezuelana, natural de Carúpano, mas morava em Caracas antes de (finalmente!) se mudar ao Brasil. Digo finalmente porque vocês vão entender o quanto as duas (ela e a Mari) passaram por muitas batalhas juntas para fazer essa mudança acontecer. Ela tem 25 anos e conheceu o Brasil através de um intercâmbio da faculdade de arquitetura, que durou 14 meses, durante os anos de 2017 e 2018, na cidade de São Paulo. Lá fez muitos amigos, frequentou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (a FAU, local que fizemos as fotos), da USP e, no último mês antes de retornar ao seu país, conheceu a Mari. A Mari também tem 25 anos, é paulista, urbanista e conheceu a Rey por conta de todos os amigos que tinham em comum na faculdade. Elas passaram meses frequentando os mesmos espaços, saindo com as mesmas pessoas, mas nunca conversavam de fato. Foi durante uma janta, um mês antes da Rey voltar para a Venezuela e a Mari dar início ao seu intercâmbio para a Espanha, que elas se conheceram de fato, em uma janta com os amigos. Elas brincam que “a janta começou com uma conversa e quando vimos já estávamos uma no colo da outra, fazendo cafuné na cabeça e rindo de bobagem”... naquela noite ficaram e no mês todo que se passou também. Quando a despedida aconteceu e elas seguiram para países distantes não pensavam em assumir algum tipo de relacionamento e nem achavam que o contato seguiria sendo mantido, até porque sabiam que não tinham data para se encontrar novamente, mas o tempo foi passando e as coisas aconteceram ao contrário: elas se falaram cada vez mais. Reylibis Mariana
- Nathalia e Iasmim | Documentadas
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- Anik e Isabelle | Documentadas
Amor de Desaguar - Anik e Isabelle clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Luana e Gabrielle
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isabela e da Camila, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Luana e a Gabi são mulheres que amam amar mulheres. Gabi brinca sobre como o sexo não tem comparação, mas o sentimento acaba indo bem além disso: querem ver mulheres ocupando espaços de poder (judiciários, públicos…) porque acreditam que só assim a sociedade poderia mudar de verdade. Depois, ela ressalta que sonha com lugares que acolham pessoas em situações de vulnerabilidade (moradores de rua, crianças sem creches públicas), dando um futuro diferente para elas. Falam, também, sobre a importância de darmos oportunidades para as mães poderem trabalhar e gerenciar suas independências financeiras. No fim, mas não menos importante, não gostaria de deixar de fora o momento em que elas comentaram que foram no show do Lenine, tempos depois de já estarem juntas, sempre lembrando de quando cantaram a música naquele primeiro dia, no fanchokê. ♥ A Luana tem 22 anos, é designer (e está se formando agora!) e ama jogar Roller Derby. Ela veio de São Paulo fazer faculdade no Rio, é filha de uma mãe solo e tem quatro irmãos. Quando ela chegou morou em república, dividiu apartamentos, deu muito corre para se virar. Foi ter uma casa de verdade quando decidiu dividir um lar com a Gabi e, mesmo tendo uma parceria e construindo a família juntas, elas já passaram por períodos bem difíceis, como quando estavam desempregadas. Elas decidiram morar juntas em agosto de 2020, estava muito difícil manter as coisas na pandemia (a distância, os gastos sozinhas…) e optaram pela vinda da Gabi, com os três filhos, para uma casa que alugaram. A relação delas foi ficando cada vez mais concreta, as crianças entendendo melhor o novo ritmo e a mãe da Gabi acompanhando tudo de pertinho (e ajudando bastante também!). Hoje em dia, elas sonham com o momento em que vão se estabilizar na casa para começarem novos planos (como montar uma empresa juntas - já que trabalham em ramos bem próximos). Os filhos lidam de forma bem tranquila com o relacionamento e a Luana brinca que, antes de conhecer eles, jamais pensava em ter filhos (e na responsabilidade de educar crianças) dessa forma, mas o relacionamento delas virou o porto seguro deles... e completa com um sorriso no rosto: “o mais novo já chama as duas de mãe”. Quando perguntei sobre o que a Luana e a Gabi pensam sobre o amor, a Luana logo se identificou enquanto uma amante do amor. Ela adora ler sobre e pensar sobre. Entende que o amor é risada, porque risada é algo que todo indivíduo é capaz de dar desde o primeiro minuto que nasce, até o último minuto de vida. Mas é aquela risada, sabe? aquela que toma conta de tudo. Amar, além de tomar conta, é se importar em querer fazer alguém rir. É querer, em qualquer situação, que a pessoa esteja ali com você - uma apoiando a outra, se sentindo bem. A Gabi acredita que amor “é não querer desistir... porque você consegue ver valor”. Ela comenta que no começo as coisas são romantizadas, sim (e tudo bem ser!), mas é depois, quando tudo se transforma em desafios diários e que você se vê enfrentando, que a recompensa chega com o sentimento de se estar vivendo algo valioso, algo que sempre traz um quentinho para o coração. E assim é o amor entre mulheres: um corre o tempo todo. Brincam que a mãe da Luana só aceitou a homossexualidade dela quando viu as duas lavando um tapete, juntas, no quintal. E disse “ah, então é bom namorar mulher! Porque aí vocês limpam as coisas juntas! Tô gostando, então!” e enquanto ríamos sobre a situação chegamos à conclusão de que a vida assim, de fato, fica mais leve. Porque não temos essa coisa de limpar a casa enquanto a função do homem é prover o dinheiro, só se envolver com a cozinha na hora de fazer churrasco ou coisas masculinas. Sendo mulheres, como já somos criadas nos ajudando na cozinha, o casal trata com normalidade a atitude de se ajudar, cuidar da casa, do lar, educar as crianças, trabalhar de home office e dar conta disso tudo… e mil outras coisas. Gabi tem 32 anos, é desenvolvedora web, já tocou bateria (e inclusive é algo que ela pensa em voltar a fazer), é da baixada fluminense (mais especificamente, de Belford Roxo) e é mãe de três filhos. “Uma de 14, outra de 12 e um de 9”. Hoje em dia ela mora com a mãe dela, com as crianças e com a Luana, em uma casa grande, no Rio de Janeiro. Na internet, além de jogar sinuca (coisa que a Luana disse que é o maior dos hobbies), ela gosta de acompanhar pessoas como a Nataly Neri e o Jonas - diz que o relacionamento deles faz ela acreditar no amor. Além disso, não possui muitas referências de pessoas famosas que sejam lésbicas, acredita que esse conteúdo não acaba chegando tanto nela. Elas se conheceram de uma forma muito aleatória, no Arco do Teles (local, inclusive, que fizemos as fotos!). Luana, que estava acompanhada, foi pedir um isqueiro durante uma festa e acabou conversando com a Gabi… ela reconhece que se interessou pela Gabi logo de cara, mas a vida pregou uma peça: a Gabi, por outro lado, se interessou pela menina que a Luana estava ficando. Um tempo depois, a Luana viu a Gabi e a menina juntas e entendeu que não tinha mais esperanças. A Gabi e a menina começaram um relacionamento (nessa história, quem nunca foi um pouco Luana - sozinha vendo as duas juntas - que atire a primeira pedra!), mas a relação não deu tão certo quanto esperavam e terminaram um tempo depois. O tempo passou e a Gabi foi falar com a Luana sobre a menina, abrir o coração, já que era uma ex em comum. Elas conversaram, se mantiveram nas redes sociais e um tempo depois a Lu postou um storie com uma música da Duda Beat, pois naquele dia seria o show dela no Circo Voador, e a Gabi respondeu dizendo um “ei, também vou! vamos nos ver lá?!”. Enfim, nem preciso dizer que se encontraram, né?! Quando elas finalmente ficaram, foi um dia muito feliz para a Luana. Ela fez até um café da manhã e levou na cama, no dia seguinte. A noite anterior tinha sido num ‘fanchokê ’, o karaokê das sapatão. Elas cantaram Lenine juntas. Depois, tomaram um banho de chuva e foram para a casa. Gabi brincou que para ela jamais faria sentido que isso fosse alguma coisa séria, a Luana passava uma impressão de ser muito solta, muito livre de relacionamentos. Gabrielle Luana
- Andréia e Dalila | Documentadas
Dalila estava com 28 anos no momento da documentação, nasceu em São Paulo, mas se mudou para uma cidade interiorana próximo à Campinas ainda jovem. É uma pessoa bastante calma, sempre encontrou formas de se adaptar aos diferentes cenários de sua vida - e por isso, gosta de se definir como um camaleão. Formada em contabilidade, começou sua carreira na área administrativa, mas foi aos 24 anos que aproveitou novas oportunidades, indo para hotelaria. Adora yoga e pilates. Andréia, no momento da documentação, estava com 47 anos. Nasceu em São Paulo, saiu de casa aos 17 para desbravar o mundo. Formada em contabilidade, tinha o sonho de trabalhar na Bolsa de Valores e chegou bem perto disso: ingressou em um escritório vinculado à Bolsa, mas o destino tinha outros planos. O departamento de hotelaria no mesmo escritório despertou maior curiosidade, uma das colegas tirou licença-maternidade e ela pegou algumas das suas responsabilidades. Dez meses depois, veio uma promoção e uma proposta: mudar para Recife trabalhando com isso. Era 2003, ela tinha pouco mais de 20 anos e topou na hora, sem nem pensar duas vezes. Passou três meses trabalhando em Angra dos Reis para entender como os hoteis funcionam, depois desembarcou em Recife e ficou por lá alguns anos. Desde então, já possui mais de 20 anos de carreira na área, trabalhando principalmente no nordeste. Juntas, Dalila e Andréia formam uma parceria que se complementa: Dalila é metódica, cuidadosa, calma. Lembra Andréia de levar o casaco, beber água ou ajeitar a postura. Andréia vem com a agitação, o espírito aventureiro, lembra Dalila de viver o momento, a juventude. Depois de passar anos morando no Nordeste, Andréia passou por algumas questões familiares e precisou voltar para São Paulo. Retornou sem emprego, sem contatos e sem um plano claro, considerando até mesmo a possibilidade de um intercâmbio. Enquanto isso, enviou alguns currículos e, em pouco tempo, recebeu uma proposta de emprego em um hotel conhecido em Campinas. Foi lá que conheceu a Dalila. No início, era complicado entender os sentimentos que começavam a surgir entre elas. Dalila tinha 23 anos, estava começando sua carreira. Andréia, além da diferença de idade, ocupava um cargo de liderança. A posição profissional pesava e decidiram manter o relacionamento em segredo. Por mais que a idade fosse um fator, Dalila sempre foi uma pessoa muito madura e isso nunca interferiu na relação, tinham mesmo era receio da questão profissional. Se conheceram um pouco antes da pandemia de Covid-19 e do lockdown acontecer. Quando foi declarado, o hotel ofereceu uma opção de demissão voluntária - os empregados se demitiriam mas teriam todos os direitos garantidos - e elas optaram por fazê-la, e assim, poderiam também assumir a relação sem mais o medo disso interferir no trabalho. Depois disso, passaram por um novo momento: assumir à família. Alguns meses depois, contaram para a mãe da Dalila. Era um momento bem significativo, a primeira vez que falaria da sua sexualidade, somado ao fato de estar com uma mulher mais velha e, ainda, o desejo de sair de casa. Apesar da complexidade, sua mãe, uma mulher incrível, acolheu a notícia com compreensão e amor. Esse período de adaptação levou alguns meses, mas foi essencial para fortalecer a relação entre elas. Ainda nesse processo, tiveram a primeira viagem juntas, o primeiro trabalho pós-demissão e receberam uma nova proposta para trabalhar juntas em Porto Seguro. A primeira mudança que fizeram para Porto Seguro a fim de trabalharem juntas foi um divisor de águas na vida da Andréia e da Dalila. Andréia assumiu a gerência, enquanto Dalila cuidava da parte operacional. Em meio à pandemia, estavam no único hotel aberto em Porto Seguro. Esse período marcou o início de uma vida compartilhada, tanto no trabalho quanto na relação pessoal. Mesmo em tempos desafiadores, encontraram maneiras de aproveitar. Passearam por Arraial d’Ajuda - o local onde fizemos as fotos - beberam água da fonte lendária que promete trazer de volta aqueles que a experimentam e visitaram Trancoso. Essa última viagem ficou ainda mais especial com uma pousada em que se hospedaram e da qual gostaram tanto que, três anos depois, decidiram arrendá-la e trabalhar nela como administradoras. Quando o contrato em Porto Seguro terminou, um novo destino chegou: Porto de Galinhas, em Pernambuco. Em Pernambuco trabalharam em hoteis distintos, exploraram novos hábitos alimentares e descobriram formas diferentes de viver. Foi nesse período que Dalila despertou um amor especial pela cozinha, criando cafés da manhã não só para elas, mas também para vender. Em 2022, surgiu uma oportunidade de retornar à Bahia, entre Porto Seguro e Trancoso, para trabalhar novamente com hoteis e pousadas. Decidiram voltar e, dessa vez, arrendaram a pousada que tanto haviam amado anos antes. Moraram em Arraial d’Ajuda e se deslocavam diariamente para Trancoso, onde gerenciavam a pousada. Dalila voltou a se dedicar à culinária, inclusive fazendo isso na pousada: elaborando cafés da manhã em sua maioria vegetarianos. Ficaram quase um ano nessa rotina. Após o período na pousada, seguiram para outros trabalhos, foi então que Dalila criou o Manhãs e Marés: um serviço especial de cafés da manhã, atendendo tanto pousadas/hoteis quanto clientes individuais. Atualmente, Andréia continua sua carreira na administração de pousadas e beach clubs, enquanto Dalila equilibra sua paixão pelos cafés com o suporte à administração. Hoje, além do trabalho e do tempo de qualidade juntas, Andréia e Dalila dividem o amor por uma gata que adotaram. A vida que construíram reflete a busca constante por leveza, equilíbrio e conexão. Elas se alegram com as pequenas e grandes mudanças que alcançam juntas, aprendendo a ser pés no chão, mas sem se cobrar demais. Dalila conta que Andréia traz a agitação para a vida dela e foi num desses momentos que surgiu o “Praciar” - ato que fizemos na hora da documentação: sentar na praça e observar. Compram uma cerveja, ficam de boa, assistem o movimento. Dalila gosta de dormir cedo, então ficam na praça até ela começar a sentir sono, e vão embora. Adoram a calmaria do relacionamento, acreditam que o amor próprio é a chave para ele dar certo e, ainda mais para a Andréia, que se vê enquanto uma pessoa agitada que sempre fez “muita balbúrdia”, a calma da Dalila a ensina o tempo todo. Entendem esse amor refletido no respeito por ser quem são, no momento de cada uma, nos limites das inseguranças e em enfrentar os momentos difíceis juntas. No momento da documentação, inclusive, haviam acabado de chegar de um encontro de famílias que só aconteceu depois de cinco anos de relacionamento, lá em São Paulo. Pensam na demora e na insegurança que tinham pelo fato da diferença da idade, por terem familiares mais velhos presentes, senhores e senhoras de 80 e 90 anos e que havia receio do que poderiam ouvir, ainda mais por verem Dalila como uma “menininha” e por ela estar namorando uma mulher mais velha. Todavia, foi incrível, acolheram Andréia de uma forma maravilhosa e admiraram a felicidade delas. Nesse ato elas enxergam o amor, entenderam que o importante é serem felizes, estarem em conforto e cuidado. ↓ rolar para baixo ↓ Dalila Andréia
- Carla e Cynthia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Carla e Cynthia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Carla e a Cynthia tiveram seus caminhos cruzados pela primeira vez em 2004, quando Carla entrou na Rede Municipal de Macaé, sendo pedagoga. Nessa época, aconteciam alguns seminários de educação, que ambas participavam, e foi assim que a Carla observou a Cynthia pela primeira vez. Pensou no quanto ela era focada e sentiu curiosidade, por achar ela bastante diferente, mas elas não conversaram e não se encontraram mais. A Cynthia, por sua vez, nem se quer viu a Carla. Foi só em 2009, numa coordenação que ela mesmo ministrava, que as duas finalmente se conheceram e conversaram pela primeira vez. Esse “jeito” diferente da Cynthia persistiu pelos anos que se passaram, porque afinal, não é um jeito… é a essência dela: ela é uma mulher quieta, reservada, adora ler, vive rodeada de livros porque entende que a palavra salva - e isso, segundo ela, pode ser usado de várias formas: como algo divino, como o poder da leitura (como ela usa), como consciência… cada um tem o seu jeito - através da leitura ela enxerga o mundo de forma diferente. No mais, é uma mulher reservada, tímida e sem um jeito muito espalhafatoso. Carla não sabia nada sobre ela. Não imaginava se ela tinha interesse em mulheres, quem ela era, se havia espaços para interesses (até porque, sendo tão reservada, não havia como surgir esse tipo de assunto), mas queria estar ali e ter aquela amizade misturada com outro interesse. Assim, aos poucos, as duas se aproximaram. Carla entende que o interesse entre elas existia, mas que a admiração se multiplicava enquanto conhecia cada vez mais a profissional que a Cynthia era. Quanto mais trabalhavam e conviviam juntas, mais queriam estar juntas também. E por mais que ainda não existissem brechas para falarem sobre relacionamentos ou assuntos do tipo, por conta da Cynthia ser uma mulher muito reservada, ela respeitava isso e queria estar ali, de qualquer forma. Carla já tinha vivido relacionamentos anteriores - com homens e mulheres - e inclusive tinha uma filha. Já a Cynthia, nunca tinha se envolvido com alguém, por isso também pisava em passos mais lentos. No começo, não entendia que a Carla poderia ter algum interesse, apenas gostava dela pelo o que tinham em comum - iam ao teatro, tomavam cafés. A vivência da Cynthia era algo totalmente diferente, uma pessoa caseira, com grupos pequenos de amigas (essas, reunidas pela leitura, com idades mais velhas). Enquanto Carla era do grupo de teatro, fazia amizade com todos, era super extrovertida. Entender que poderiam dar o primeiro passo foi um processo interno para ambas. Sentiam-se como adolescentes. Cynthia foi entendendo sobre o seu interesse, conversou com a sua psicóloga e ela disse: “Essa moça está afim de você”. Isso despertou diversos olhares novos. Enquanto Carla, por sua vez, tentava em um ritmo diferente. Não atropelava nada, deixava com que tudo fluísse para que ela também entendesse seu processo. Chamou a Cynthia para ir na sua casa, não deu certo na primeira vez, mas com o tempo convenceu. Nessa época, em que tudo era um mistério entre não saberem se existia algo a mais entre a amizade delas ou não, elas não moravam na mesma cidade, mesmo que trabalhassem juntas. Foi em Rio das Ostras, na região litorânea do Rio de Janeiro, que elas se encontraram, próximo da casa da Carla. Foram até um restaurante na praia (local em que fizemos as fotos, inclusive) e na hora de ir embora, quando estavam esperando uma van, ao sentirem frio esquentaram suas mãos umas nas outras. Foi, assim, um primeiro tato/uma primeira demonstração de afeto físico, como um pontapé inicial. Ao chegarem em casa, assistiram um filme estratégico que era nada mais, nada menos, que um amor entre mulheres, mas simplesmente não falaram nada sobre o filme e assistiram o filme cada uma em seu canto. Na hora de dormir, já ao anoitecer, foi quando - cada uma olhando para o teto - a Cynthia resolveu perguntar algo do tipo: “Você já beijou alguma mulher/você gosta de mulheres?” e, finalmente, elas se beijaram. Hoje em dia, 12 anos depois, elas riem e brincam muito sobre toda essa situação que viveram. Afinal, duas adultas, agindo dessa forma. Mas entendem que essa demora, ou melhor, esse processo, a forma que foi vivido, os intervalos, o tempo em si, tudo foi uma forma de respeito e de entendimento sobre o que estava acontecendo. Por a Cynthia nunca ter estado com alguém, viver isso dessa maneira, foi a forma mais real/pura e respeitosa possível sob o que ela é. Já a Carla, se permitir esse processo, foi um novo entendimento sobre algo que ela gostaria de viver e que nunca tinha se imaginado, também. No começo, todos olhavam a Carla super extrovertida, com sua gargalhada alta, com os seus amigos mais jovens, do teatro, das artes, de festa, bares, e a Cynthia sendo reservada, da leitura, de um mundo oposto e diferente e já diziam: “Não vai dar certo.” O mais importante, em toda a história, foi que mesmo entendendo que são pessoas diferentes, suas afinidades são muito boas e uma não quis mudar a outra. Inclusive, era suas diferenças que faziam com que uma gostasse tanto da outra. A Cynthia conta o quanto ela se diverte com as palhaçadas da Carla, às vezes até sem querer - e a Carla o quanto sempre se encantou com tudo o que a Cynthia representa no seu tom reservado, quieto, leitor. O processo inicial, lento, de amizade e conhecimento, também foi muito importante porque enriqueceu quem elas são. Depois de tantos anos, sentem que tudo acontece com muita fluidez. Desde uma gostar de café e a outra de cerveja, cada uma sabe o gosto e a forma de acontecer. Na noite em que elas se beijaram, havia um detalhe - o dia seguinte era aniversário da Cynthia. Ela estava radiante! Quis logo assumir o namoro. Contar para a família. Porém, haviam alguns problemas, né?! Primeiro que, assumir um relacionamento hoje em dia não é fácil, imagina antes de 2010. Segundo, Cynthia sempre foi muito ligada com a sua família e Carla teve muito medo de que isso fizesse com que a família reagisse com preconceito e acabasse a afastando ou a tratando mal, portanto, não aprovou que ela contasse. Ela decidiu conversar com a sua psicóloga, que também achou melhor esperar. Mas se sentiu muito triste, era como se estivesse fazendo algo errado, sendo que não estava. Estava amando, finalmente amando! Fazendo algo tão bom, queria tanto compartilhar. E, principalmente, pela família dela sempre apostar no amor, não entendia porquê não poderia compartilhar. Esperou uma semana, não se sentia bem estando lá, dividindo a casa, os cômodos, e não contando. A mãe aceitou tranquilamente, disse que em nome da felicidade dela, estava tudo bem. Ela ficou muito feliz em ter apostado no amor - como foi ensinada a fazer. Ela e a Carla passaram mais um tempo sem contar sobre o relacionamento delas no trabalho, por conta da pressão que isso envolvia, mas também não durou muito. Ao fim da nossa conversa ela falou algo importante, sobre fazermos o exercício de passarmos horas falando da nossa vida e ver se conseguiremos não falar de quem a gente ama. Porque ela, sinceramente, não conseguia/não consegue não citar a Carla, e reprimir isso por conta do preconceito social é absurdo, sufocante. É algo que não há motivos para permitirmos. Ela queria sentir a liberdade, da mesma forma que as pessoas perguntam “e o seu marido, está bem?!” perguntarem “E a sua companheira, está bem?”. Hoje em dia, a Carla está com 50 anos, trabalhando como professora, pedagoga, sendo atriz e artista plástica. Adorando desenhar e pintar. A Cynthia está com 44 anos, segue enquanto coordenadora de professores e alunos na Secretaria de Educação. Eterna apaixonada por leitura. Elas estão juntas há 12 anos. Atualmente, morando em Rio das Ostras. Mas, no começo da relação, Cynthia tinha acabado de comprar um apartamento em Macaé, então passaram pela ideia de morar lá. Já moraram, também, com a filha da Carla, que hoje em dia é uma mulher adulta (mas que no começo do relacionamento delas tinha 11 anos) e que convive com as duas direto. Elas brincam sobre o enfrentamento da adolescência e sobre a Cynthia sempre ficar do lado de ambas (tanto da Carla, quanto da filha), na hora dos conflitos. Hoje em dia a filha também foi para a área da Educação, cursando História, no interior do Rio de Janeiro. Por mais que, antes de se relacionar com a Cynthia, a Carla dizia que não gostaria de se relacionar com ninguém, hoje em dia ela vê a vida e o amor de formas bem diferentes. Entende que não queria se mudar por ninguém: se fechava nessa ideia, dizia que era assim, a pessoa que aceitasse. Hoje em dia ela entende que segue na sua essência, mas que todo relacionamento precisa de ajustes e acordos para acontecer. Foi a partir do relacionamento delas que sentiu um cuidado único - tanto ela, quanto sua filha - e ambas ganharam uma nova família. Esse cuidado ensina diariamente. Antes, elas eram sozinhas, ela e a filha, no mundo. Hoje, elas têm uma parceria e com quem contar. Cynthia conta, finalizando, que a mãe dela faz a comida favorita da Carla e que tudo dentro do relacionamento delas é feito com um amor único. “O ódio é mais fácil. Sentir ódio. Mas o amor é a única forma de salvar as pessoas. Por isso precisamos escancarar o amor em todos os cantos… e a gente escancara mesmo!” - Carla. ↓ rolar para baixo ↓ < Carla Cynthia

