Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
292 resultados encontrados com uma busca vazia
- Aline e Aya | Documentadas
Amor de Maternidade - Aline e Aya clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Renata e Marcela | Documentadas
Amor de Arte - Renata e Marcela clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Talita e Louise
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Talita e da Louise, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Talita também passou por uma fase muito importante e gosta de falar sobre o fato de ser uma mulher lésbica cristã. Sobre orar, fazer ceia, cantar com outras mulheres lésbicas e bissexuais cristãs. Sobre o quanto foi difícil impor isso em casa, mas também o quanto é legal ver a mãe dela, por exemplo, caminhando diariamente num processo de aceitação. O quanto fica feliz quando a mãe dela assiste algo e indica para ela e a Louise assistirem juntas porque acham que “elas vão gostar” e geralmente nesse algo (filme, série), ter algum personagem LGBT muito representativo. O quanto nesses detalhes ela também quer mostrar que o amor está ali, que ela ama a filha dela como ela é e que a relação de família que elas constróem é também um amor puro, saudável e bonito. Por fim, ela acredita que o amor entre mulheres vai contra qualquer coisa que nos é imposta, porque nós temos “liberdade”, mas até que ponto? nós temos, sim, mas não muito. Nós podemos amar, mas não em praça pública. Nós podemos postar, mas não podemos nos expor. Se formos colocar nosso amor para o mundo, é melhor termos cuidado… e se formos colocar nosso amor para o mundo sendo mulheres negras, então… é melhor termos muito mais cuidado ainda! Porque é muito perigoso. Então de fato somos livres? Se pegarmos na mão é uma afronta para alguém? Em um momento da conversa ela disse uma frase que eu queria destacar aqui, que é: “a gente tá simplesmente sendo uma mulher lésbica racializada. E se Jesus viesse na terra, na minha ideia, ele seria uma mulher, lésbica, negra. Sentada aqui. Igual a gente tá. Aqui perto da gente. E eu queria ver como iriam olhar para ela”. Nas últimas duas perguntas que fiz, uma brinquei, perguntando sobre a Luiza, elas riram e falaram que hoje são super amigas, se falam e que estão bem, tá tudo certo! O grupo voltou a ficar ativo! Vitória! E a outra foi sobre o que elas gostariam de ver acontecendo para a comunidade LGBT ter mais acesso à cidade, e elas me disseram que era acessibilidade: é o transporte, é conseguir chegar até o cinema, é sobre a classe, sobre o acesso a leitura… é sobre ter um projeto político para que as pessoas tenham acesso de verdade às coisas, de forma orgânica, ou seja, que elas entendam a importância disso. Que a gente não só sobreviva, que a gente participe ativamente da cultura da cidade, dos espaços e do pensamento crítico com representatividade, porque a Talita conta que a primeira mulher lésbica que ela conheceu de verdade foi a Louise, e se ela não tivesse conhecido? quem seria? com quantos anos ela teria tido essa referência? "A gente sente muita falta disso porque quem não tem acesso acaba só descobrindo a vida além da sua bolha muito mais tarde”. A história da Talita e da Louise te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Mas e aí? Não desgrudaram e ficaram assim? Final feliz? Não em drama sapatão do Documentadas! Uma pessoa que conhecia as duas viu e contou para a Luiza. Sendo que, a Louise, por ter estado longe nos últimos anos, nem imaginava sobre o relacionamento que as duas viveram. Então ela não entendeu nada quando recebeu diversas ligações da Luiza brigando com ela por ela ter ficado com a Talita. Foi treta atrás de treta. Nessa época elas (Talita e Louise) começaram a se ver todos os dias na praia, porque a praia era um lugar que a Talita poderia ir sem precisar dar tantas satisfações para os pais dela, ou seja, representava essa maior liberdade. E foi na praia que conseguiu explicar para a Louise tudo o que aconteceu nesses anos, tudo o que estava sentindo naquele momento, e por mais que estivesse uma situação muito turbulenta (que veio a piorar uns dias depois por conta de um momento ruim envolvendo as três), a relação dela com a Louise só melhorava, aumentando e se consolidando. Foi uns meses depois disso, em junho de 2017, que elas começaram a namorar oficialmente. De 2017 pra cá muuuuuita coisa aconteceu. Ambas cresceram muito e o relacionamento mudou muito. A Louise trouxe uma calma antes inimaginável para a vida da Talita, ela ensina a pensar mais, a ir com mais calma, caminhando mais devagar. Elas também falam sobre a importância da comunicação e do medo de ser abusivo. Hoje em dia, por sermos mulheres, caímos muito num conto de que existem poucos relacionamentos abusivos entre nós, mas a verdade é que podemos ter atitudes muito abusivas sem percebermos. Então elas falam sobre esse “medo” ser um medo bom, um medo de cuidado, algo necessário sobre ter consciência e comunicação, sobre tentar sempre pegar leve, falar sobre as coisas, serem mais abertas e sinceras. Naquele dia, a Talita contou que a versão dela foi esperar que a Luiza e a Louise ficassem bem, mas que ela não soube exatamente o que fazer, só seguiu na festa, porque sabia que elas precisavam se resolver primeiro. Os dias foram passando e como a decisão da Louise foi o afastamento total, a Talita e a Luiza continuaram ficando algumas vezes, até que: tcharam! Começou, ali, um certo relacionamento. Não era um namoro oficializado, até porque ambas eram da igreja e não poderiam falar ou postar sobre, mas elas estavam juntas. Isso durou entre o ano de 2014 e 2015. Foi um período um pouco complicado porque envolvia um certo auto ódio por conta de acharem errado e ao mesmo tempo continuarem o que estavam fazendo, não conseguiam se assumir socialmente, e também não se aceitavam completamente. Foi em 2016, quando estava com 19 anos, que a Talita percebeu que não aguentava mais viver em uma situação assim. Em setembro ela resolveu comemorar o aniversário de um amigo no Acústica, um bar no centro do Rio, que representou por muitos anos um ambiente altamente jovem, boêmio e alternativo. Lugar que a Louise, que já tinha voltado, a morar no Rio, frequentava muito naquela época também. Nesse dia, ela não foi, mas a Talita conta que para ela ter ido, foi quase como um divisor de águas. Ela se sentiu liberta, beijou outras meninas e se divertiu sem medo de outras pessoas olhando. O fotógrafo tirou uma foto em que ela aparecia junto com outras pessoas, no palco, com uma latinha de cerveja antártica na mão. E, adivinha você, quem viu essa foto nas redes sociais do Acústica? a Louise. Ela salvou a foto, mandou para umas amigas que tinham em comum e que ela ainda conversava (que não eram diretamente da igreja, mas que frequentavam o mesmo grupo), falando “será que ela finalmente se assumiu?! será que ela está indo no Acústica?! ela ta bonitinha, né?! acho que vou mandar mensagem pra ela!” e então pediu o número da Talita para o ex dela (lembra? aquele do começo da história!). Foi quando ela mandou mensagem e elas acabaram passando o dia conversando. Nessa época, logo em seguida, é o aniversário delas - ou seja, elas fazem aniversário em datas bem próximas - então pela volta da comunicação, aproveitaram de se reencontrar pessoalmente também. Pensaram em ir no Acústica, marcaram, aconteceu, foi tudo super engraçado, a Louise bebeu demais e dormiu a festa toda, acordou no fim da festa e por uma coisa meio sem explicação, meio impulso&destino&álcool, elas ficaram. Combinações que encaixam completamente. Elas também encaixaram. E não desgrudaram. Foi por conta da igreja que a Talita e a Louise se conheceram, lá em 2012, mas a Louise nunca fez parte da igreja. Calma, eu explico! Ela fez um cursinho pré vestibular e conheceu uma menina chamada Luiza (grava esse nome, Luiza vai fazer parte da história por um bom tempo!). A Luiza era da igreja e chamou o pessoal para ir em um evento que teria lá, por ser divertido, ter música, conhecer pessoas legais… e a Louise topou. Chegando lá, ela viu logo a Talita e se surpreendeu pelo fato da Talita ser muito nova (na época, tinha 14 anos e a Louise 18) e sabia tocar muito bem. Todas fizeram amizade e formaram um grupo de amigos (e muitos mantêm amizade até hoje). Naquela época a Louise já sabia que gostava de meninos e de meninas, mas tinha uma tendência maior a ficar com meninos por conta de todas as questões sociais que isso envolvia. Foi então que começou a namorar com um dos meninos do grupo (por sinal, primo da Luiza) e um tempo depois descobriu que a Luiza gostava dela. Ela não se sentia confortável estando nessa situação e os encontros com o grupo ficavam cada vez mais desconfortáveis, então optou por terminar o relacionamento e na época até tentou algo com a menina, mas por conta da igreja e de todo os preconceitos que envolve o corpo de duas mulheres juntas, elas não conseguiram manter nada. Foi bem difícil para as duas, seguiram a amizade e o grupo, mas os sentimentos eram sempre bastante misturados. A Louise sempre respeitou isso e todos os limites sobre até onde poderiam ir nas suas relações, até que um tempo depois disso tudo aconteceu uma festa de ano novo (nessa época, a Talita já estava com 16, e a Louise e a Luiza com 19), e durante a festa tiveram um momento típico de “deixar o que houve de ruim no ano que passou”, então elas conversaram, entenderam que não iriam dar certo mesmo, ficaram bem, seguiram a festa… e quando amanheceu… a Louise viu a Luiza beijando a Talita. Na hora ela ficou muito triste, magoada, porque ela não entendeu as coisas direito, elas eram muito próximas, tinha muita amizade envolvida e o sentimento a mais pela Luiza também… foi aí que decidiu pegar suas coisas e ir embora. Depois desse dia, ela literalmente sumiu da vida de todos do grupo, inclusive se mudou de cidade. Nunca mais viu os amigos “da igreja”, nem manteve contato com eles. A história da Talita e da Louise é uma daquelas que dou risada no começo porque a primeira frase que ouço depois do “como vocês se conheceram?” é um “ai meu deus, vamos lá!”. Então, antes de começar o texto, eu queria deixar aqui um: ai meu deus, vamos lá! Hahahaha. Brincadeiras à parte, essas meninas ganharam 500% do meu coração do começo ao fim dessa história. A Talita tem 23 anos, é formada em letras, já trabalhou como editora de livros e também foi livreira, e a Louise tem 26, é formada em enfermagem, mas também fez um pouco de biologia e de filosofia. Ambas deixaram de lado suas formações para lançarem a Pega Leve, uma empresa de alimentação saudável (segue elas aquiii! entregam por toda a cidade do Rio de Janeiro!) . Além disso, a Talita é baterista. Ela começou tocando inicialmente na igreja, por ser filha de mãe e pai pastores, e hoje em dia faz parte de uma banda, a Volo Volant (curte o som deles clicando aqui! ). A Louise inclusive acompanha a banda desde o começo, vende as camisetas no show e tudo mais ♥ por conta da pandemia, os shows não estão acontecendo, mas já lançaram um EP e pretendem voltar assim que a vacina permitir! Botão Louise Talita
- Mavi e Fernanda | Documentadas
Amor de Carro - Maria Vitória e Fernanda clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Jeniffer e Renata
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Jeniffer e Renata, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi no local onde a Jeniffer e a Renata se conheceram há anos atrás que nos encontramos para documentá-las. Logo no início elas brincaram: “Se naquela quinta-feira alguém me contasse que um dia eu estaria aqui com a mãe da minha filha, eu acharia que seria uma loucura!”. Jeniffer é musicista, cantora e faz diversos shows pela noite carioca. Foi numa quinta-feira de 2016 que se apresentou num restaurante chamado Espeto Carioca, que pertencia a uma amiga da Renata. Essa amiga, ligou para a Renata e a convidou, ela marcou um encontro com o grupo de conhecidos que tinham passado pelo mesmo que ela: a cirurgia bariátrica e, foi tão bom, que toda quinta-feira esse passou a ser o encontro oficial do grupo. Nesses encontros, a Jeniffer e a Renata viraram grandes amigas, apresentaram suas companheiras (que também viraram amigas), se juntaram em mais conhecidas e formaram um grande grupo, que saía quase todo fim de semana junto. Um tempo depois, a Jeniffer e a ex companheira dela entraram em um momento muito delicado e tóxico da relação, o que fez com que a Jeniffer sumisse dos ambientes com as amigas. Era muito difícil ter contato com elas e encontrá-las além dos shows… Acabaram todas se afastando. Nesse meio tempo, a Renata também terminou o relacionamento que tinha e, só em 2017, quando ambas estavam solteiras, elas se reencontraram. Decidiram retomar a amizade que tinham e voltaram a ter contato, misturar os grupos de amigas e se reencontrar. Entre todos os programas que faziam juntas, em um dia, assistindo ao lançamento de La Casa de Papel em casa, elas se beijaram. Nesse momento, Jeniffer ficou desnorteada, nitidamente incomodada e Renata compreendeu, elas entraram em um acordo de que era melhor fingir que nada aconteceu e não tocaram mais nesse assunto. No mesmo dia, a Renata ia para um encontro com uma mulher que a Jeniffer apresentou para ela e acabou que o encontro foi bom, elas continuaram se encontrando, o tempo fez seu papel de passar, ela namorou e casou com essa mulher. A Jeniffer, nesse meio tempo, voltou com a ex companheira dela, porém o relacionamento que antes já demonstrava ser tóxico, dessa vez ficou muito pior. Novamente ela se afastou de todos e, algum tempo depois, terminou definitivamente. Em 2019, um tempo depois, a Renata já estava com a ideia de engravidar mais amadurecida dentro do antigo relacionamento. Algo que partia sempre dela, pois ela tinha o desejo muito forte de ser mãe, mas amadureceu ao ponto de decidir: é a hora. Teve a primeira tentativa, através da inseminação, e não deu certo. Foi bastante doloroso, porque querendo ou não existem muitas expectativas, mas ela esperou um tempo, superou aos poucos e decidiu, logo no comecinho de 2020, tentar novamente. Diferente da primeira vez, com muito cuidado e seguindo as regras, a segunda vez foi muito mais desesperançosa. No mesmo dia que foi feita a inseminação ela foi num show da Jeniffer, bebeu, ficou até tarde com os amigos na rua, tinha para si a ideia de que não daria certo. Em meados de fevereiro de 2020, descobriu: a segunda tentativa deu certo! Renata estava grávida. Chamou a Jeniffer para ser madrinha, junto com outra amiga. Começou a cuidar melhor do seu corpo, parou de beber e compreendeu que, parando de beber, percebeu muito melhor tudo o que acontecia ao seu redor. Tudo é muito bom no momento de festa, mas muitas coisas passam batido. Foi numa dessas percepções que as brigas com sua ex-companheira começaram a intensificar até se envolveram em agressões. A chave virou. Não tinha como romantizar ou passar pano. O sonho de ser mãe era dela, ela estava grávida. A Jeniffer e a outra amiga protegeram ela nos atos, no término e, a partir daí, fizeram de tudo: passaram os dias cuidando dela e acompanhando cada detalhe da gestação. Foi nesse momento que começou a pandemia, estavam as três no apartamento vivenciando a gestação juntas: a Renata e as madrinhas da Analu, suas duas melhores amigas, até que uma delas precisou voltar ao trabalho e sair de casa para não as expor ao risco do Covid-19. Quando ficaram só a Jeniffer e a Renata, elas seguiam se ajudando de todas as formas. Conversavam muito, compartilhavam de tudo, até que numa madrugada a Jeniffer resolveu voltar naquele assunto que elas nunca tocaram: o dia que se beijaram. A Renata deu a versão dela, falou que era óbvio que tinha sido horrível para a Jeniffer, já que ela tinha "fugido como foge o diabo da cruz”, até que a Jeniffer revelou que não, era o contrário, tinha fugido porque justamente tinha sido muito bom e sentiu muito medo - de se envolver e acabar perdendo-a. Pensou “se era para ter, de alguma forma, era melhor ter como minha melhor amiga”. Quando elas entenderam suas percepções, se beijaram novamente. No dia seguinte, era dia das mães e a Jeniffer foi na rua, voltou com balões e uma carta, assim, comemoraram o primeiro dia das mães juntas - e entenderam também que não era uma brincadeira, que queriam isso de verdade: ser mães da Analu. Entender que estavam juntas não foi algo tão rápido, só com a noite que passaram, mas uma longa conversa sincera sobre o que sentiam. Para a Renata, o que ela estava vivendo não conversava mais com a pessoa que ela era quando conheceu a Jeniffer: que ia para todos os shows, bebia, vivia nas festas. Agora, a prioridade dela era ser mãe, parir e educar a Analu, trazer cuidado. Se fosse para a Jeniffer estar com ela, sem ser na condição de madrinha, era para estar de verdade, porque ela não queria mais um relacionamento para trazer machucados. Elas entendem que o “Combinado não sai caro para ninguém” e assim foi: a Jeniffer sempre quis ser mãe e mostrou que, se a Renata permitisse, ela embarcaria no sonho da Analu. Depois de um tempo juntas, assumiram o relacionamento. Sabiam que poderia ser complicado, que muitas pessoas julgariam e poderiam achar que era um caso antigo, uma traição - tinham muito cuidado também pela vida pública da Jeniffer enquanto cantora - mas tiveram pulso firme, afinal, essa era a história que elas estavam vivendo no momento, acreditassem ou não. Vivenciar uma nova visão de relacionamento, tanto para a Renata, quanto para a Jeniffer, foi libertador. Depois de terem passado por situações muito abusivas com ex companheiras, hoje em dia elas enxergam as relações humanas de forma bem diferente e tentam conversar sobre tudo. Carregam, também, muito da amizade que já tinham antes do namoro. Tentam não se culpar pelos machismos sofridos diários, pelos preconceitos externos e trazer cada vez mais acolhimento uma para a outra, justamente por terem sentido falta disso em outros momentos. Ver o desenvolvimento da Analu na vida delas é um sonho sendo realizado diariamente. Elas fazem absolutamente tudo por ela e contam como é difícil a missão de educar uma criança. Além disso, como não é fácil também, a rotina de um casal com filhos. Existe uma parceria muito clara em que entendem que não vão estar 100% todos os dias, uma vai preenchendo o que a outra não pode dar no momento, e assim vão seguindo. Jeniffer também conta o quanto a chegada da Analu mudou a forma que ela enxerga o mundo. Ela vivenciou toda a maternidade, desde a escolha do modelo da fralda, até as roupinhas, as decisões mais sérias sobre educação e hoje em dia está em muitos detalhes na formação do ser que a Analu vem formando. Se emociona muito em cada detalhe, explica que nunca sentiu um amor tão grande por alguém. No momento da documentação, a Renata estava com 34 anos e a Jeniffer com 32, elas estão trabalhando juntas - a Jeniffer fazendo os shows e a Renata enquanto empresária, produtora e assessora. Nessa rotina intensa de apresentações, Renata explica a admiração enorme que sente pela Jeniffer no palco, e brinca: da empresa, ela é só funcionária e fã. Para elas, esse cotidiano é um ato de amor também, nele entra tudo o que constroem com a Analu. E, olhando ao redor, chegam à conclusão: amor é essa linha do tempo que viveram desde a primeira vez que tiveram no restaurante, até hoje, que voltaram com a filha. Por fim, me trouxeram a comparação: pensam no relacionamento enquanto uma casa. Muita gente começa a pensar numa casa pelo teto ou pelas paredes, enquanto elas literalmente começam pelo chão, pela base. Hoje em dia, possuem uma casa com a base mais sólida possível, capaz de enfrentar qualquer coisa. Foi a partir da base que foram construindo tudo e a casa foi tendo vida, hoje vivem dentro dela, fortalecida. Entendem como foi bom ter dado uma chance para viver esse amor de verdade, um amor que até então elas não sabiam que existia. “Não era alguém para completar, mas transbordar”. ↓ rolar para baixo ↓ Renata Jeniffer
- Uine e Denise | Documentadas
Uine estava com 31 anos no momento da documentação, é psicóloga e atua na área clínica. Natural de Salvador, mas boa parte da família reside em Minas Gerais, o que faz frequentar muito o estado e estar sempre nesses caminhos. Uine conta que uma coisa importante sobre sua vida é o processo de compreensão de sua negritude, que começou há cerca de seis anos, impulsionado por lacunas na sua vivência familiar – parte de sua família é branca – e pela autonomia adquirida ao morar sozinha e trilhar um caminho independente. Na época, Uine já estava em um relacionamento de 10 anos com um homem, que sempre foi de muita amizade e companheirismo. Porém, em dado momento sentiram a necessidade de abrir a relação, percebendo que ela não seria sustentável a longo prazo. Esse momento foi um divisor de águas: começaram a fazer terapia de casal e a explorar novos formatos de relação, incluindo a possibilidade de Uine se envolver com outras pessoas – e pela primeira vez, com mulheres. Essa fase de descobertas marcou os últimos três anos da relação. Denise estava com 37 anos no momento da documentação, nasceu em Salvador, mas vive em Lauro de Freitas, na região metropolitana. Formada em arquitetura, trabalhou por anos na construção civil, o que a levou a se mudar para Recife em determinado momento da carreira. Foi lá que vivenciou grandes transformações de vida, incluindo a descoberta de sua homossexualidade, de novas rotinas e de um novo modo de ser. Determinada a começar um novo ciclo, matriculou-se em diversos esportes, mas foi o crossfit que realmente despertou sua paixão. Ao retornar para Salvador, percebeu que o mercado da construção civil já não fazia mais sentido para ela e que estava em baixa no geral. Notando a ausência de boxes de crossfit em sua cidade, decidiu seguir um sonho e fundou a Crossfit Agreste, o primeiro box de Lauro de Freitas. Uine conta que os últimos três anos do relacionamento aberto trouxeram desafios intensos que refletiram diretamente em sua saúde. Sentia que tudo o que havia aprendido na faculdade era apenas a ponta do iceberg diante da complexidade que vivia. Esse período foi marcado por adoecimentos e pela necessidade de um cuidado maior consigo mesma, tanto na saúde mental quanto física. Em 2021, ainda em meio à pandemia, ela descobriu o crossfit, uma atividade que não só ajudou a manter o corpo em movimento, mas também proporcionou uma válvula de escape para conhecer pessoas e criar novas conexões. Mesmo após o término do relacionamento, Uine e seu ex-companheiro prezaram pela amizade construída ao longo de uma década. A honestidade continuou sendo um pilar importante em sua vida, especialmente com sua mãe. Quando ainda estava no relacionamento aberto, teve longas conversas para contar sobre seu envolvimento com mulheres, o que já foi um impacto para a família. Mais recentemente, seu relacionamento com Denise trouxe novamente essa necessidade de diálogo e enfrentamento de preconceitos, mas também marcou um novo tipo de aceitação. Denise, por sua vez, estava em um momento de recomeço. Após o término de um casamento de 8 anos, que havia começado junto com o sonho da Crossfit Agreste, Denise decidiu que o carnaval de 2023 seria o momento para se redescobrir. Era seu primeiro carnaval solteira e assumidamente lésbica, e estava pronta para aproveitar. Mas antes do carnaval, no dia 2 de fevereiro, foi até a praia e pediu para Iemanjá um amor tranquilo e outras coisas que são de importância para sua vida. Hoje em dia, brinca que foi quase delivery: no dia 3 de fevereiro, no bairro do Carmo, enquanto estava em um bloco com uma amiga, avistou Uine. Entre uma fila de banheiro e alguns passos de dança ao som de uma música, elas tiveram a primeira interação. Depois, já no mesmo grupo de amigos, dançaram e se beijaram. Foram ficando, o tempo passou, até que Uine comentou sobre os amigos dela que estavam ali e o marido. Denise disse: “O que? Tá maluca?” e se desesperou. Uine riu e explicou que estava tudo bem. Naquele dia, mesmo com Denise um pouco desconcertada depois de saber da relação, elas seguiram ficando, se adicionaram nas redes sociais e começaram a conversar. Ainda no bloco, a amiga em comum de Uine e Denise, disse para Uine: “Você não tava querendo uma dupla pra treinar no crossfit? E agora, a dona do crossfit?”, então foi assim que Uine descobriu sobre o trabalho de Denise e sobre a Crossfit Agreste. Nos dias seguintes, enquanto conversavam, viram que tinham coisas em comum e queriam logo se reencontrar. Porém, ambas iriam viajar no carnaval e Uine precisava preparar suas fantasias e de seus amigos. Deram um jeito, reorganizaram suas agendas e conseguiram se encontrar, num jantar em casa. Passaram a noite juntas e, antes da viagem, Denise ainda foi fazer uma surpresa para Uine no aeroporto. O carnaval passou com ambas ansiosas por um novo reencontro. Denise nunca havia experimentado uma relação não-monogâmica e, no início, lidou com inseguranças e crises sobre como seria vivenciar isso. A ideia de algo tão aberto e com tantas possibilidades parecia difícil de assimilar. No entanto, com tempo e diálogo, elas foram construindo uma base sólida de entendimento e respeito mútuo, ajustando os ritmos conforme as necessidades de cada uma. A confirmação de que queriam algo mais duradouro veio apenas dois meses depois. Denise presenteou Uine com a aliança que havia ganho de sua mãe, o anel mais importante que tinha - era a aliança que a própria mãe havia usado. O gesto simbólico marcou um compromisso emocional e o desejo de construir algo que fosse além de uma simples relação passageira, era o significado de: “Eu quero você na minha vida, me imagino casando com você”. Esse momento foi um divisor de águas, despertando nelas a vontade de ficarem juntas de forma mais definitiva, com planos e sonhos compartilhados. Atualmente, Uine mora em Salvador e Denise em Lauro de Freitas, mas passam a maior parte do tempo juntas. Essa proximidade tem levado Uine a considerar uma mudança definitiva para morar com Denise. Encerrar a relação anterior foi uma escolha consciente de Uine, ao perceber que já não cabiam mais as relações anteriores em sua vida. Ainda assim, os aprendizados desse período seguem presentes, ajudando a moldar a relação atual. Individualidade, comunicação e a desconstrução de expectativas sociais são pilares que fortalecem a conexão das duas. Para Uine, esse processo de transição trouxe mais liberdade, tanto no mundo quanto na relação afetivo-sexual. Ela percebe a importância de cultivar relações que vão além do romantismo, como aquelas com amigas, família e outras pessoas queridas. Para ela, o amor deve transbordar em todas as conexões às quais nos dedicamos, especialmente nos momentos difíceis. Esse entendimento reforça que o cuidado e o afeto não são exclusivos das relações românticas, mas algo que permeia toda a nossa rede de apoio. Uine também reflete sobre a relevância de ser uma mulher bissexual assumida e de estar à frente de um negócio. Para ela, é uma oportunidade de inspirar e quebrar estereótipos, mostrando que mulheres LGBTs são igualmente capazes, responsáveis e bem-sucedidas. No box de crossfit de Denise, essa visibilidade se torna ainda mais significativa, pois as famílias, incluindo crianças, reconhecem e respeitam o amor delas como parte de quem são. Demonstrar afeto abertamente e sem reservas não só fortalece o vínculo entre elas, mas também quebra preconceitos de forma concreta e faz com que todos admirem. ↓ rolar para baixo ↓ Uine Denise
- Lorrayne e Mari
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Lorrayne e da Mariane, quando o projeto passou por São Paulo! Lorrayne conta que Mariane chegou num momento em que tudo estava muito difícil e logo foi deixando as coisas mais leves. Mari apresentou a sua família, que ensinou para a Lo uma nova forma de amor, e para além disso, adotaram os gatos, estão mobiliando o apartamento, construindo um lar. São parceiras e muito amigas. Amam o quanto parece que estão juntas há muito tempo por tudo o que já viveram - e por isso se agarram na confiança que depositam no relacionamento. Compartilham muitas coisas, dão risada o tempo inteiro. Conversam sobre a importância de valorizar o quanto são novas e já possuem certa estabilidade. Como é precioso terem uma à outra, um trabalho, uma casa… e como entendem o quanto batalham para ter isso. Não querem perder. Mesmo que tudo tenha acontecido de forma rápida (o relacionamento em si, por exemplo) possuem noção de que ainda está no começo, que ainda são jovens e que querem viver muita coisa juntas. Trazem o exemplo da virada do último ano (no réveillon) que só queriam ficar dentro de casa, porque tinham acabado de se mudar e valorizavam muito aquele espaço. O apartamento era composto por um sofá, uma cama, uma pilha de roupas e um jogo de lençol (que ganharam da tia), mas amavam tudo o que tinham. E isso também fala sobre a valorização de tudo o que adquiriram juntas desde então. Lorrayne, no momento da documentação, estava com 22 anos. Ela nasceu em São Paulo, morou até os 14 anos no interior da Bahia, depois se mudou para Minas Gerais e aos 19 voltou para São Paulo para estudar, cursando psicologia, ganhando uma bolsa de estudos e vivendo com uma tia de consideração. Lo vive com o transtorno de borderline, e conta que foi muito difícil encontrar alguém que lidasse com ela de forma paciente, que estivesse disposta a entender suas condições. Mariane, no momento da documentação, também estava com 22 anos. Ela é de São Paulo, nasceu e viveu na zona leste da capital e hoje em dia mora (e está adorando viver) na zona norte. Mari trancou a faculdade e está na descoberta de um novo curso para iniciar. Por um mês, antes de 2022, Lorrayne ficou na casa dos pais, querendo desistir da vida em São Paulo. Mas voltou e fez a inscrição para uma nova empresa, onde passou rapidamente e começou a trabalhar com a Mari (empresa da qual trabalham até hoje). Mari já trabalhava na empresa antes da Lorrayne chegar, mas sempre foram de áreas diferentes. Como a empresa é terceirizada para outras marcas, atuam em escritórios/setores diferentes, mas o atual chefe da Lo é ex chefe/e muito amigo da Mari, então ela vivia fazendo visitas e conversando muito com ele. Em março de 2022, numa dessas visitas, passou pelo andar dele e viu a Lorrayne pela primeira vez. Ela usava máscara facial (por conta da pandemia de Covid-19, usar máscara era norma da empresa) e o pensamento da Mari foi achar ela uma mulher muito bonita, mas naquele momento não interagiu. Na época, Mari não estava se sentindo confortável na área em que estava trabalhando. Não sentia que seu rendimento era bom e tinha medo de ser demitida. Decidiu pedir uma oportunidade para ser trocada de área, saiu de férias e quando voltou teve o retorno positivo de transferência. No final de maio teve um novo encontro aleatório com a Lorrayne pelos corredores do escritório, em que trocaram olhares e dessa vez a Lo notou ela de volta, até chegou na mesa e comentou com suas colegas em tom de brincadeira “É o seguinte, estou namorando!” e as meninas responderam “Mas você fala isso sempre! Quem é a próxima?!” “É a que tá ali naquela mesa, de cabelo azul!”, se referindo à Mari. Naquele dia, Lorrayne não perguntou pra ninguém o nome dela. Foi tentando encontrar o perfil no instagram, achou e seguiu. Porém, nos dias seguintes foi atestada com Covid-19, ou seja, ficou 10 dias afastada do trabalho e elas não se encontraram mais. Depois que Lorrayne voltou para a empresa, soube que haveria uma festa junina. Mari, por sua vez, sabendo da festa, deu um jeito para estar presente (lembrando que ela não trabalhava na mesma unidade/mesmo escritório que a Lo e deu um jeito de ir até lá no dia da festa, pensando em participar do correio elegante - ato de mandar uma cartinha, brincadeira comum em festas juninas). Nem imaginava que a Lorrayne teria a mesma ideia e mandou um bilhete pelo correio antes mesmo dela. Pesquisou a letra de uma música da banda favorita que descobriu através de postagens no seu Instagram. O bilhete foi lido em voz alta, o que deixou elas suuuuper envergonhadas, mas seguiram em frente. Mari respondeu com a sequência da música que falava “Vamos viver uma aventura?” e pelo Instagram Lorrayne perguntou quando elas poderiam começar a viver isso. Mari explica que tinha uma sensação muito forte de que, a partir do momento que começassem a conversar, algo muito sério aconteceria. Não seria só um flerte, só alguém que ela iria ficar… e sentiu um certo receio. Demorou alguns dias para responder essa mensagem… Mas respondeu. Marcaram de sair, foram numa praça perto do trabalho, estavam sem dinheiro, mas deu tudo certo. Depois disso, sentem que nunca mais se desgrudaram. Na época, ficavam muito na casa em que a Lo morava com a tia, justamente por ela não estar muito presente. Porém, ambas falavam sobre o desejo de morar sozinha - e foi quando decidiram morar juntas. Em dezembro conseguiram o apartamento que moram hoje e, um tempo depois, na frente do Museu do Ipiranga a Mari pediu a Lorrayne em casamento. Hoje em dia, seguem com os planos… mas não só planos, afinal constroem o dia a dia juntas a cada mês que passa dentro dessa relação. ↓ rolar para baixo ↓ Mariane Lorrayne
- Gabriela e Aline | Documentadas
Gabriela e Aline se conheceram durante a pandemia de Covid-19, em 2021, se esbarrando online num aplicativo de relacionamentos.. Elas moravam sozinhas e estavam em suas casas seguindo todos os protocolos exigidos pelas organizações de saúde, então colocaram pequenas distâncias de quilometragens para o aplicativo encontrar apenas quem estava próximo - a ideia era não precisar pegar um meio de transporte para “ter um encontro/um date”. Enquanto Aline fez questão de analisar o perfil da Gabi e dar um ‘like’ proposital, Gabi deu sem prestar muita atenção, porque estava mesmo assistindo à novela. Mas o que importa é: começaram a conversar, e ainda melhor: viveram, pela primeira vez, uma paixão de verdade, dessas intensas, “clássico sapatão, que a gente sempre ouve falar”. Viram que tudo foi fluindo, ainda que bem rápido, construíram acordos, falavam sobre seus valores, o que desejavam, como se viam, sobre suas terapias, se viam de forma saudável e comentam como era diferente serem adultas e terem relacionamentos saudáveis pela primeira vez [finalmente, né?!!]. Criaram uma série de protocolos, por conta da pandemia, e em meio à sentirem a paixão chegando, mandando comidinhas por carro de aplicativos uma para a outra, o envolvimento aconteceu, chegou o momento de se conhecerem pessoalmente e os encontros seguirem acontecendo. Sentem que o começo envolveu muitas situações simultâneas: eram muitos ajustes e desafios a serem feitos/cumpridos. Se conheceram dentro de casa. Nos primeiros três meses passaram por mudanças, finalização de doutorado, decidiram firmar uma união estável por conta de vários processos burocráticos (e políticos também), a pandemia acontecia, o (des)governo, tudo somava. Gabi conta que era a pessoa que bagunçava para depois arrumar, enquanto Aline era quem se esforçava para não bagunçar. Foram aprendendo uma com a outra. Estavam sempre apostando na relação, mostrando que o relacionamento era a maior aposta delas naquele momento. Sentem que o mundo estava em catástrofe e que conhecer alguém num momento como esse, de alguma forma, é “puro”, é conhecer o estado mais puro de uma pessoa. É muito diferente de conhecer alguém quando está tudo bem. É conhecer a pessoa por inteiro, conhecer ela lidando com algo difícil. Conhecer alguém assim é entender que a pessoa está disposta à reconstrução, é mesmo sabendo que não há controle, querer ficar. Gabriela, no momento da documentação, estava com 34 anos. Ela trabalha enquanto assistente social e possui diversos estudos como mestrado e doutorado voltados à área da saúde. É natural de Porto Alegre e morou na cidade sua vida toda. Ama estudar, viver cercada de pessoas (amigos/família) e acredita ser um grande elo para quem a cerca. Brinca, junto da Aline, que na época em que se casaram quase abriram um processo seletivo para decidir os convidados, de tantos que seriam. Praticou dança aérea durante um bom tempo, adora arte e tudo o que é relacionado à música e a dança. Aline estava com 35 anos no momento da documentação. É natural de Porto Alegre, mas desde a infância já morou em diversas cidades brasileiras como Guarulhos (SP), Arroio do Meio (RS) e Brasília (DF). Voltou para Porto Alegre para estudar e hoje em dia fundou uma empresa que oferece serviço de soluções organizacionais para outras empresas. Ela e a Gabi moram no principal bairro boêmio da cidade e adoram a relação que possuem com os vizinhos, todos se conhecem, se sentem num bairro de cidade pequena. Ela adora tocar instrumentos como violão, ukulelê, também se aventura na cozinha, gosta de experimentar receitas, inventar coisas, passar horas… e transformar a casa num verdadeiro lar. Como a relação e a casa surgiram no decorrer da pandemia, diversos hobbies (como o próprio ato de cozinhar) foram surgindo em convivência com o lar. Entre eles, alguns mantém até hoje: como tomar um café da manhã demorado, passar bastante tempo com as gatas e dar valor à intimidade. Isso faz a rotina delas ser única. Sentem que, hoje em dia, existe esse lugar de segurança muito único dentro do relacionamento pelo fato de terem vivido muitas coisas no início e por sempre conversarem abertamente sobre tudo. É um lugar muito aberto, livre de julgamentos. Um espaço que deixa o relacionamento empoderado, fortalecido e amadurecido para falar sobre qualquer assunto. Quando pergunto sobre como entendem o amor que vivem, Aline explica que depois que começou a viver a relação com a Gabi, passou a falar muito mais sobre o amor. Acredita que esse falar/pensar em amor vem justamente por conta dessa aposta que fazem (e que falamos desde o início da nossa conversa). É o que nutre e o que faz bem, não é como uma certeza, um destino, algo que está dado, mas é algo moldado diariamente, construído, cuidado. É uma ação que precisa estar sempre sendo feita e pensada. Ainda mais entre mulheres porque se trata de um amor vigilante, um cuidado sobre onde podem amar e como será demonstrado esse amor: “Porque não são todos os lugares que se pode amar, apesar do amor estar sempre ali”. Gabi explica que trabalha com política de primeira infância e que nesse local sempre é criado ambientes acolhedores com vínculos seguros “que gerem autonomia para a criança saber explorar” e quando elas se conheceram ela estava estudando sobre isso e ficou muito tempo pensando como criaria essa liberdade dentro da relação, no sentido de estabelecer ambientes seguros para estarem confortáveis, possibilitar uma relação que pensa em conjunto e permite carinho, falar sem julgamento, expor as ideias e pensar diferentes rumos. E acredita que foi possível criar isso. E é em parte disso - somado a todo esse cuidado que possuem diariamente em manter o que foi feito até aqui - que está o amor. Com aproximadamente três meses de relação, fizeram uma união estável, por vários motivos: para a Aline entrar no plano de saúde da Gabi, para conseguirem morar juntas reduzindo burocracias, por questões políticas que acreditavam… Logo no começo da relação, quando caminhavam pelo bairro, elas sempre passavam pela rua que moram hoje (uma rua completamente aleatória, mas cismavam em entrar) e olhavam os apartamentos procurando algum para alugar, até que um dia encontraram e entraram em contato só para saber quanto custava. Não era uma opção mudar, ambas já tinham suas casas e Gabi estava rumo à entrega do seu doutorado, uma mudança não era cabível. Mas elas acabaram recebendo uma mensagem sobre esse apartamento, decidiram fazer uma proposta e não esperavam ter a proposta aceita. Descobriram que conheciam a dona. Tudo caminhou para que desse certo - e deu! Descobriram também que ele tinha até um pátio com plantas frutíferas. No começo rolou uma crise de ansiedade forte (também, como não rolaria, né? tudo estava acontecendo muito rápido) e as perguntas eram: Como iriam morar juntas? E como a família iria lidar com isso? Eram duas mulheres. Também iriam ser vistas como uma unidade familiar. Pensaram na união estável como saída. E aí chegam novos acordos e combinações. Quando decidiram casar, por exemplo, tiveram que pensar em outras coisas: “Se sofrermos uma situação de violência/preconceito aqui, indo fazer a aliança, por exemplo, damos as costas e não fazemos ou fazemos por ser o lugar mais barato e não termos a opção de fazermos em outro local?” Enfim, como agir se tiver um preconceito aqui? São novos pensamentos a começar a se “planejar” caso algo venha a acontecer. Por fim, se casaram embaixo de uma figueira, num evento incrível. Riem contando que metade da relação foi planejando essa festa. Mas destacam, também, o quanto demorou tanto para planejar porque não achavam referências de um casamento que representassem quem elas são. Não queriam que fosse tudo LGBT com bandeiras e tudo mais, não porque não precise ter uma bandeira (tudo bem ter), mas porque o grande símbolo são elas. O grande símbolo é o amor delas. Queriam celebrar o amor e comemorar com quem amam. Destacam que como se conheceram na pandemia, muitos dos seus amigos/familiares não se conheciam ainda e o evento foi para juntar todos numa grande festa, então era uma celebração que representasse o jeito delas de amar. Foi muito difícil criar isso sem preconceito ou sem fazerem questão de colocarem em alguma caixinha. Mas era necessário e quando aconteceu foi incrível. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Aline
- Barbara e Isa | Documentadas
Bárbara, no momento da documentação, estava com 30 anos. Trabalha enquanto comissária de bordo e é apaixonada por viajar. Antes de ser comissária, foi tatuadora e trabalhou bastante tempo com arte, começou pela necessidade de juntar dinheiro, foi seguindo a profissão e fez carreira, até fechar o estúdio durante a pandemia de Covid-19. Hoje em dia, a arte segue nos detalhes da sua casa, na decoração que faz, nos móveis que transformou e quando dança com a Isa pelos cômodos. Mas sua rotina mesmo, é voltada ao sonho de conhecer o mundo viajando - que realiza através do trabalho. Isadora, no momento da documentação, estava com 29 anos. Ela é atriz, narradora de audiolivros e foi bailarina por 11 anos. Sua rotina, atualmente, é trabalhar no Rio de Janeiro com a narração e edição de audiolivros, além de cuidar de diversas plantinhas em casa e querer ter cada vez mais - alimentando um sonho antigo da Bárbara de um dia morarem no campo. Isa explica que nunca desejou morar num lugar como um sítio ou campo, sempre quis o centro, mas é pelo fato de sempre morar longe da escola ou do trabalho e demorar muito tempo para chegar. Hoje em dia, ao analisar e pensar sobre, acha que seria feliz morando num lugar bem arborizado. Atualmente, elas moram juntas há cerca de um ano na Ilha do Governador, local em que Bárbara nasceu. Isa é natural do Rio de Janeiro, mas de bairros distantes da Ilha. Resolveram morar juntas depois que o namoro caminhou e pelo convívio delas/com os gatinhos irem crescendo. Antes da Isa chegar, Bárbara era muito bagunceira, não tinha uma casa com cara de lar e a bagunça era também uma das causas da sua ansiedade. Foi nessa mudança que viu sua casa virar lar, entendeu a ter mais cuidado com prazer, viu uma evolução acontecendo e hoje em dia, quando chega em casa entende a grandiosidade disso tudo. Ambas cuidam muito do seu cantinho, amam a parceria desse cuidado, dançam, fazem churrasco ouvindo pagode, vão à praia próxima, recebem amigos, curtem a casa e organizam com carinho. Foi no final de 2022 que Bárbara e Isa se conheceram. Bárbara tinha um grupo de amigas lésbicas que sempre saiam juntas, mas logo no dia que queria sair a maioria não topou e acabou indo só com uma delas num bar - este voltado ao público feminino que existia no Rio de Janeiro: o Boleia - porque estava com desejo de comer uma batata frita que só tinha lá. Quando chegou ele estava bem cheio, o clima agitado, não tinha mais a famosa batata frita, mas ela insistiu com a amiga: “Vamos ficar por aqui, quem sabe conhecemos alguém legal!”. E conheceram mesmo, o grupo de amigas que a Isadora estava. Bárbara chamou a Isa para dançar um forró e enquanto elas dançavam, no meio do barulho, até perguntou para a Isa se ela estava solteira, mas ela nem ouviu, não respondeu - e foi insistente, que bom, porque meses depois ficou sabendo que Isa não estava nem aí, não tinha muita disposição para conhecer alguém naquele momento. O bar já estava fechando e, em grupo, seguiram para outro lugar, mais calmo. Foi lá que conseguiram conversar, a Isa pensou: “Nossa, que menina interessante!” e as coisas se desenvolveram. Depois de se conhecerem nesse primeiro encontro, passaram 15 dias até conversarem novamente online e surgir o convite para se encontrarem novamente. Saíram, as coisas fluíram e seguiram se encontrando, mas confirmaram: não queriam nada sério. Dois meses depois, não tinham como negar, já estava sério. O pedido de namoro aconteceu no começo de 2023. A verdade é que tanto Bárbara, quanto Isa tinham bastante medo de se relacionar. Mas o que ajudou a enfrentar o medo foi observar o quanto eram pessoas que mereciam viver algo bom, que desejavam coisas boas para os outros e para si. Cativaram uma à outra. Acreditam que a dinâmica de relação que possuem é muito bem sucedida e Isa traz o exemplo da relação dos pais dela - conta que é a mais bonita que conhece, eles estão juntos desde a adolescência e são muito parceiros, são o maior exemplo de vida que possui. Aos poucos, ela enxerga o que deseja na relação com a Bárbara também e se orgulha muito disso. Para Bárbara, o amor sempre vai nos encontrar. É a força mais poderosa do mundo. Vai nos encontrar num animal que nos olha na rua, num café que bebemos, numa pessoa que amamos. O amor é a força criadora. É a proposta por estarmos aqui: para nos desenvolver no caminho do amor. Ela sempre teve a dualidade: ser uma pessoa um pouco solitária, mas também buscar o amor nas pessoas. No começo da relação, a mãe orientou: “Filha, vai com calma. Você se entrega muito.” E ela respondeu: “Mas a Isadora também é assim”. E a Isa também passou por isso com a mãe e com as amigas. Hoje em dia ela enxerga a relação que vive com a Isa como algo muito curativa: curando traumas, cuidando… alguém que abraça mesmo o que não é perfeito (como a questão da bagunça, citada no começo do texto) e te ajuda a melhorar. Para Isa, o amor de alguma forma é clichê. É uma transformação constante, ser a sua melhor versão para si e para o outro, para quem enxerga a melhor versão de você. Ter ternura e respeito, deixar a pessoa digerir no tempo dela, ter cuidado. Acha incrível o quanto as famílias delas se gostam e apoiam a relação delas e isso é muito valioso, acredita que o amor também mora nesses momentos. ↓ rolar para baixo ↓
- Vanessa e Denise
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Vanessa e da Denise, quando o projeto passou por São Paulo! Durante a documentação sobre quem a Vanessa e a Denise são, elas falaram algo que marcou muito: “Somou de contextos muito diferentes, mas temos sonhos muito semelhantes”. A Vanessa estava com 24 anos quando nos encontramos, ela é de São Bernardo, cidade que pertence à São Paulo e ela apelida como ‘batateira’, pois é a terra da plantação de batata. Sua formação foi em direito e sempre trabalhou na empresa da família, o que não era uma escolha muito pessoal, mas comenta o quanto se sente amedrontada por ver suas colegas negras que se formaram ainda na busca por emprego e o quanto o mercado de trabalho está difícil pela desvalorização da profissão como um todo. A Denise estava com 25 anos quando nos encontramos, ela é de São Paulo, capital, mas sua família é da Bahia e sua mãe se mudou para o sudeste quando estava grávida. Há pouco tempo ela deixou para trás a administração e apostou na mudança de carreira, se tornou programadora e está sendo desenvolvedora web. Dentro da empresa, já trabalhou em alguns projetos de diversidade e inclusão, com questões raciais e LGBTs. Além disso, no seu tempo livre, adora fazer crochet, mandalas de lã e artesanatos. Quando a Vanessa e a Denise se conheceram, demorou um pouco para as coisas acontecerem. A Vanessa brinca que estava no momento de “piriguetear”, porque teve um relacionamento que durou três anos e que agora era o momento de baixar aplicativos, conhecer gente nova, sair e se divertir. Ela também fala da importância da conclusão que chegou em que só se relacionaria com outra mulher negra, porque percebeu traços abusivos e racistas no antigo relacionamento e não queria vivenciar esse tipo de trato novamente. Foi em 2017 que as duas deram ‘match’ num aplicativo de relacionamento e a Denise chamou a Vanessa para uma festa, a “Sarrada no Brejo” (pelo nome, obviamente, uma festa sapatão). Ela nunca tinha ido e topou, então se encontraram no metrô e conta que quando a viu com o cabelão logo pensou “Nossa, que mulher maravilhosa!”. Algumas amigas da Denise foram junto e a Vanessa foi sozinha, brinca que as amigas de cara odiaram ela, porque ela tem uma “cara meio marrenta e nada amigável”. Na festa elas dançaram, se beijaram, mas Denise também beijou outras pessoas, foi tudo meio caótico. Elas brincam que não se gostaram logo de início, tudo levou tempo. Na mesma semana da festa, ou melhor, do primeiro encontro, elas viram que iria ter um show da Ana Carolina com a Maria Gadú e resolveram ir. Mas, detalhe: o show aconteceria só dois meses depois. Compraram o ingresso mesmo assim. Nesse intervalo não saíram mais e pouco se falaram. No show, não ficaram. Estavam como amigas e a Vanessa até levou a Denise para dormir na casa dela - algo bem raro, porque nem amiga dorme lá - mas nada aconteceu. Ficaram alguns meses sem se ver ou se falar e, do nada, cerca de 4 meses depois, se reencontraram. Com esse reencontro, o encontro delas finalmente aconteceu. Encontro, no sentido de, ficarem juntas. Elas começaram a sair de verdade, se conhecer, querer se encontrar. Se viam todos os finais de semana, compartilhavam amizades, faziam programas bons e ruins, se divertiam e topavam conhecer vários lugares. Quando entenderem que estavam gostando uma da outra, foram passar o ano novo juntas com alguns amigos, em Santos, e foi lá que o pedido de namoro aconteceu. Alguns meses depois a Vanessa apresentou a Denise para a família dela e, logo depois, ela também caiu (literalmente) no dia que foi apresentada para a família da Denise (como isso é bem peculiar, a gente precisa registrar por aqui). Depois de estarem se relacionando, a Denise passou por um momento bem difícil no qual saiu da empresa que trabalhava por estar passando por situações de preconceito e por não estar mais conseguindo se desenvolver. Isso desencadeou em crises de ansiedade e depressão, e foi fundamental o apoio da Vanessa e todo o suporte que ela deu. Quando a Denise conseguiu se desvincular do trabalho e receber seus direitos, elas juntaram as finanças e decidiram ir para a Nova Zelândia. Denise conta como era um sonho fazer uma viagem internacional, por ser a primeira da sua família a se formar no Ensino Superior, viajar ao exterior era algo praticamente impensável, mas ela queria fazer novamente algo que ninguém tinha feito antes. A Vanessa se incluiu nesse sonho, fez a pesquisa dos valores e disse: “A gente consegue!”. Por mais que a Vanessa e a Denise se encontrem em muitos caminhos, a vivência delas ainda era muito diferente: a Vanessa morava em uma mansão e a Denise morava na frente de um córrego, numa rua que não era asfaltada. Isso sempre trouxe recortes de classe muito fortes. No início foi muito difícil fazer o encaixe, mas aos poucos entenderam que era possível uma ensinar para a outra o que aprendeu com a vida. A Vanessa mostrava o caminho para chegar aos sonhos, mostrava uma nova realidade também, era uma outra forma de falar, outros costumes… Enquanto a Denise mostrava correrias diárias, mostrava que não entrava em casa como as da Vanessa a não ser para limpar, junto com a mãe dela, que a visão que ela tinha das coisas era diferente e que também precisava-se de calma para viver entre os dois mundos. Só com muita conversa diária elas foram se entendendo e aprendendo uma com a outra. A viagem para a Nova Zelândia aconteceu, e elas brincam: “Ou a gente volta casada ou a gente se separa de vez”. E foi acontecendo. Hoje em dia, a demonstração de afeto delas chega através das brincadeiras, das zoações, dos pequenos (grandes) carinhos e da parceria para tudo. Elas não foram crianças que conviveram com grandes afetos físicos demonstrados o tempo todo, então o afeto que sentem uma pela outra é colocado de outra forma, de uma forma que se combina e se entende. Hoje em dia, elas se entendem enquanto um casal que tem muita consciência. Se amam e querem se amar cada vez mais, e em relação aos outros - ou à vida, em sociedade - nunca mais irão deixar que alguém as coloquem para baixo. A Denise diz: “Acho que a nova geração tá vivendo uma coisa que não tivemos na nossa infância. A gente cresceu com aquela ideia de que ‘’preto é feio’’ ‘’seu cabelo é feio’’ ‘’sua pele é feia’’. Quando comecei a trabalhar num ambiente branco eu escutava que era nojenta, que não deveria trabalhar ali, que deveria trabalhar isolada porque eu incomodava. Eu não tive o suporte que ela teria porque a família dela tinha mais acesso, seria uma discussão diferente. Eu chegava muito abalada em casa e escutava ‘’filha, é isso, o mundo é esse e você se vira. Você precisa colocar comida em casa, então te vira’’.” Mas não é pela Vanessa estar num ambiente elitista que ela deixou de sofrer racismo, então ela também completa com a sua versão: “No meu caso foi o seguinte: uma das piores coisas que aconteceu comigo - fui numa balada, festa da minha faculdade. Um colega de classe sabia que eu me relacionava com mulheres e ele me agrediu. Estava bem no fim do ano, em época de prova. Meu pai todos os dias ia pra faculdade comigo, entrava na faculdade, sentava do meu lado, esperava eu terminar a prova pra ir embora comigo. No final, eu tive que mudar de horário, porque o branco, enfim, né…”. Depois de relatar sobre alguns casos de racismo vividos, Vanessa emenda logo no amor que as duas sentem: “Pra mim o amor é: liberdade e preto”. Liberdade porque o amor precisa ser livre para deixar a pessoa ser quem ela é e, também, para que a pessoa possa fazer o seu caminho. E Preto porque ela levou muito tempo para se amar enquanto mulher preta, e conta que depois que descobriu esse amor passou a amar muito mais seus familiares, amigos e a Denise de uma forma diferente. O amor preto não é só amar ao próximo, mas cuidar dos seus, estar por perto de verdade. Amar o que sempre foi ensinado que era feio. A Denise conta sobre a tatuagem “Idem”: “Então, eu tenho o meu Idem, minha tatuagem, o termo Idem eu sempre usei pra falar sobre reciprocidade. Acredito muito nisso em todas as minhas relações, sou uma pessoa de poucas relações afetivas. Penso no amor como algo recíproco, esse bem estar que você gera no próximo e que também quer gerar a si. Claro que as pessoas têm diferentes níveis, amores e reciprocidade. Me relacionar com uma mulher é exatamente isso, me reconhecer na outra, o que tem de mim na outra e o que tem na outra em mim.” Ela conta que nunca pensou que iria receber um amor afetivo até amar uma mulher. Amar uma mulher é ser reconhecida, respeitada e saber que tem alguém para te acolher. “Penso que amor também é sobre me sentir acolhida por amar uma mulher.” A Vanessa e a Denise entendem que é impossível se relacionar sem fazer o recorte de raça, classe e gênero. O amor preto é revolucionário, o amor entre mulheres é revolucionário. Por todas as dores que elas já passaram juntas e por nenhum momento mais que querem ser invizibilizadas, querem ter seu amor e seu corpo reconhecido, respeitado e humanizado. Vanessa Denise
- Louise e Thayane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Louise e da Thayane, quando o projeto passou por São Paulo! Louise e Thayane constroem sua vida numa base de amor e afeto familiar muito grande - tanto que soa meio impossível falar delas sem falar em família. O tempo todo enquanto nos conhecíamos, visitando o lar em que moram no centro de São Paulo, a sensação mais presente era de que ali existe uma família. Elas são naturais do Rio de Janeiro, mas se mudaram há pouco tempo para São Paulo por conta do trabalho da Louise. A casa, aos poucos, vem tomando forma, mas o mais importante é o samba, que toca o dia todo, embalando as atividades cotidianas. A música, na vida de ambas, vem desde crianças: suas famílias são muito ligadas ao samba, nos encontros cantam, fazem bagunça, gostam do movimento. Para o futuro, planejam filhos, uma família cada vez mais unida, grande e que valoriza suas raízes. Acreditam que enxergar o futuro enquanto uma construção é também um ato de amor. Tanto a Thay, quanto a Louise, no momento da documentação, estavam com 30 anos. A mudança para São Paulo foi bem rápida, durante o processo seletivo que a Louise participou elas conversaram e decidiram que só daria certo se fossem juntas, não cogitaram viver num relacionamento à distância. Hoje em dia, o trabalho da Louise envolve coordenação de vendas, enquanto a Thay é geóloga, apaixonada por defesa civil e está estudando para o concurso público dos Bombeiros. Diariamente ela corre, nada, cuida do corpo para a prova física e estuda para a prova teórica. Ambas têm a paixão do samba e do futebol em comum, mas com isso vem o motivo das brigas na relação: uma é Flamengo, a outra, Vasco. Querendo ou não, o amor que elas possuem pelo Rio é enorme, são pessoas que iam muito à praia, amam o sol, os bares… então está sendo uma nova vivência descobrir São Paulo. Por outro lado, sentem o quanto são companheiras juntas, o quanto mesmo com as dificuldades e a saudade da família elas se apoiam e se fortalecem estando nesse novo local. Tentam explorar a cidade descobrindo novos restaurantes, botecos, eventos com samba e culinárias diferentes. Quando elas se conheceram, a Thay estava em um relacionamento que ia muito mal, chamou uma amiga para conversar porque precisava desabafar e a amiga perguntou se podia levar outra amiga. Na hora, ela pensou que não era o ideal, né? Afinal, teria uma desconhecida ouvindo suas lamúrias, mas tudo bem, aceitou. Quando chegou lá, a menina convidou uma pessoa que ela estava ficando para as encontrar e a Thay pensou “Pronto, mais uma desconhecida pra me ouvir desabafar…” e então chegou a Lou. A Lou estava um pouco irritada, tinha saído do trabalho num dia bem agitado, mas segundo a Thay ela estava com uma roupa maravilhosa e isso já a chamou atenção. Depois desse primeiro dia, a Thay terminou seu relacionamento e todas elas (a Thay, a amiga dela, a Lou e a pessoa com quem ela estava ficando) passaram a se encontrar com frequência. No início de 2019 surgiu um flerte entre a Thay, a Lou e a menina que ela se relacionava. Elas ficaram e o que era para ser um divertimento acabou se tornando um relacionamento entre as três: durou oito meses. Por fim, não deu mais certo, terminaram, mas a Thay e a Louise continuaram juntas - tiveram a ideia de recomeçar devagar, e quando perceberam já estavam 100% entregues e vivendo como casal. Um tempo depois, com o início da pandemia, o que tinham era uma a outra e um quintal para ver o céu. Isso foi um espaço de precisarem aprender a se comunicar de forma fluida, já que tudo dependia das duas. Uma foi contando cada vez mais com a outra. Elas acreditam que, por mais que tenha existido muita coisa ruim na pandemia, há o sentimento de que esse tempo serviu como um acelerador de futuros: se a coisa não foi pra frente, ela acabou ali - e o que foi pra acontecer, aconteceu de verdade. Foi um momento divisor de águas em que elas sentaram e repensaram o futuro: planejaram o que gostariam de ser, estando juntas, tendo filhos, uma carreira, etc. Hoje em dia, mesmo a Thay que não é de falar muito o que está sentindo, consegue colocar pra fora com a Lou. Elas sentem que, quanto mais se abre, mais geram apoio uma à outra. Lou conta do momento que ela contou para a mãe dela, já adulta, sobre se relacionar com uma mulher. O medo que existia, pois é muito próxima da mãe, mas entende que ela teve uma criação evangélica muito forte e poderia reagir de várias formas. No fim, ela ficou assustada, mas abraçou e tratou com afeto. Isso se tornou um exemplo do que a Lou espera ser para as pessoas, ela acha que isso é lidar com amor sobre as coisas, e também fala sobre o acolhimento que ela espera ter mesmo nos momentos mais delicados. ↓ rolar para baixo ↓ < Thayane Louise
- Rosa e Sara | Documentadas
Amor de Novidade - Rosa e Sara clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Drika e Jana
A Drika, a Jana e a Nick moram em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. São uma família que se escolheu e se permitiu construir de múltiplas formas, e dentre todas, o que fica estampado é a parceria que mantém a todo tempo. Quando elas conheceram a Nick, no abrigo de adoção, tiveram a primeira interação e no dia seguinte levaram ela para passar uma tarde na nova casa. Seguiu-se assim por uns dias de visita, até que ela ficou direto. No começo, não foi nada fácil - tanto a adaptação, quanto saberem coisas básicas, como medicações exatas, cuidados que ela necessitava… tudo era novo e precisava de calma. Como a Nick passou três anos no abrigo, isso significava metade da vida dela, e todas precisavam entender o tempo dela também. Viveu muitas coisas lá, passou pelo contato de mais de cem famílias e era difícil acreditar que ela fosse ser adotada por alguém. Quando as mães chegaram, fizeram de tudo para mostrar que tinham compreensão do sistema de saúde, que estavam muito dispostas a cuidar dela e que todos poderiam contar com elas para o desenvolvimento da Nick. O desenvolvimento não foi da boca pra fora, quando a Nick chegou ela não conseguia andar, mas em dois meses já tinha desenvolvido e estava com acompanhamentos, o cuidado e o afeto fizeram com que ela também tivesse muito progresso na comunicação, na socialização com outras pessoas adultas e com crianças e diversos progressos saudáveis para ela. Por mais que no começo tudo demorou a entrar em sintonia (era difícil identificar os choros, organizar a alimentação, etc) elas foram se conhecendo e se amando cada vez mais. Hoje em dia, vivem uma rotina intensa! Entre fonoaudiólogas, escolinha (Nick está na segunda série!), terapeutas, nutricionistas, gastros, psiquiatras, a alta que ela já ganhou na fisioterapia (♥), o ritmo de trabalho da Drika e da Jana que super se adaptou e a família que nasceu, é nítido ver o quanto as três crescem grandiosamente juntas. Drika tem 37 anos, é professora de educação física e está fazendo doutorado. Trabalha enquanto coordenadora de um projeto social e também participa de coletivos de militância política. Jana também é professora de educação física, mas concluiu a residência em saúde mental coletiva e atende num centro de orientação psicossocial para pessoas que fazem uso abusivo de álcool e drogas. A rotina dela é intensa, mas acreditam que é justamente nessa rotina que mora o amor: nos rituais diários, nos detalhes, na família que estão construindo - e que escolheram construir, nos laços de afeto que estão existentes quando compartilham decisões. Diariamente chegam em casa e conversam sobre o dia, sobre como estão ou o que viveram e acreditam que nesse ato está muito sobre o amor que vivem. Mesmo construindo uma relação entre muito afeto, elas têm muito medo sobre o que a Nick pode passar por ser uma menina negra, com deficiência e com duas mães. Por isso, elas querem que o crescimento da Nick seja numa sociedade sem LGBTfobia, num lugar que ela possa ser quem ela é. Nesses processos de desenvolvimento, estabelecem também em volta dela várias referências de raças, de pessoas, de crianças das quais ela consiga se ver representada. Querem que onde a Nick esteja, exista acolhimento, referência e afeto. Em 2016 a Drika e a Janis começaram a conversar mais, no diretório acadêmico da faculdade, quando militavam juntas. A Drika passou por um relacionamento bastante abusivo e a Jana deu um suporte para que se livrasse disso, foi um momento bem difícil que ambas passavam em suas vidas pessoais e se apoiaram enquanto amigas pela primeira vez. Logo depois, vieram as ocupações das universidades públicas e elas ocuparam o campus da educação física. Como se tratava de um campus menor, diferente dos outros, elas definitivamente foram morar lá. Haviam-se escalas para ficar na portaria, cuidar da segurança, etc. e elas ficavam juntas, além de ir nas reuniões, assembleia e participar do mesmo coletivo, o Alicerce. Na época, por ficarem sempre muito juntas, já brincavam de ‘shippar’ os nomes: era Drikaina ou Jaka. Tudo faziam em dupla. Quanto à ocupação, foi um sucesso! Tiveram os objetivos negociados e na comemoração foram todos para uma festa. Nessa festa, elas se beijaram - mesmo com muito medo de estragar a amizade, mas deu certo. Logo depois, Drika passou o ano novo com a Jana, alguns amigos e familiares dela. De lá em diante, não se desgrudaram mais. Logo no começo do relacionamento, a Jana se formou e a Drika ainda iria estudar mais um tempo. Drika morava em Canoas e, na época, a Jana morava em um bairro mais distante em Porto Alegre: o Belém Velho. O campus que elas estudavam ficava em um bairro que não conversava com essas distâncias, então era tudo de certa forma longe, e elas decidiram mudar esse ponto: a Drika chamou a Jana para morar com ela em Canoas. Aos poucos ela veio trazendo as coisas, em mochilas mesmo, ou como elas brincam: em prestações. No começo, ao morarem juntas, enfrentaram uma questão muito difícil: a dificuldade financeira. Elas sobreviviam com a bolsa que ganhavam da universidade - de R$ 400 cada uma, e nisso entrava tudo: as passagens, a alimentação, as contas. Na época da formatura, Jana ganhou de presente o dinheiro para fazer a carteira de motorista, mas nunca a fez, visto que esse dinheiro foi usado para salvar elas por alguns meses. Entre a bolsa e a faculdade, elas vendiam camisetas, Jana chegou a trabalhar em bar e procuravam sempre uma forma de se virar. O primeiro respiro que tiveram foi quando a Jana conseguiu um estágio, depois tudo foi mudando. Dentre os altos e baixos, o mais certeiro era o quanto elas se apoiavam. Se fortaleceram, foram fortalecidas por suas mães e estavam sempre em parceria. Juntas, passaram pelo fim da faculdade, pela residência, pelo mestrado e pelo doutorado. Nesses processos, elas sempre se consideraram casadas. Não sentiam urgência em oficializar, até que o foraBolsonaro foi eleito e elas resolveram mudar as coisas. Viver a campanha dele foi exaustivo, estavam ativamente na rua em oposição e sentiram que o melhor que poderiam fazer depois dele eleito era reafirmar o amor delas em um ato oficial. Foi então que juntaram os documentos, os amigos - que tocam em uma banda - foram para um sítio, cada um levou uma bebida e fizeram uma festa que uniu todos: os amigos, a família, a militância, a música… quem amavam. Contam que foi a melhor noite que já viveram. Já o tema de aumentarem a família, chegava de vez em quando: primeiramente, pensaram na inseminação. Drika tinha vontade de gerar, chegaram a procurar, fazer exames, mas sentiram que não havia tanta necessidade - desconstruíram a ideia e partiram para uma nova: a adoção. A Drika é adotada e elas sempre falaram sobre a família ser uma escolha que o coração faz, então começaram a pesquisar sobre e participar de grupos. Ainda em 2019 entraram com todos os papéis necessários. Fizeram uma série de entrevistas com psicólogas, assistentes sociais e então começou a pandemia. Isso atrasou tudo, ficaram muitos meses com tudo parado no curso inicial obrigatório de adoção porque o sistema ainda não tinha se adaptado para o modo online. No começo, antes da pandemia, elas tinham colocado no formulário uma faixa etária diferente, depois recorreram para uma idade maior e também para a opção de ser mais de uma criança, poder ter doenças tratáveis e com questões de saúde mental. Quando foram para a parte final do curso, acabaram fazendo sozinhas (sem outros casais acompanhando) e isso fez com que ficassem muito livres para conversar e tirar todas as dúvidas com as assistentes sociais. Foi quando uma delas falou sobre uma menina que poderia se encaixar para elas, mas não deu mais detalhes. Em janeiro de 2021 entraram em contato, pediram para elas irem até o fórum porque tinha uma criança e não queriam que elas fossem habilitadas no sistema de adoção antes de conversarem sobre ela. Foi quando, pela primeira vez, conheceram a história da Nick. Nesse momento, já sabiam que iriam adotá-la, Drika se emocionava toda vez que estavam falando sobre ela. Conheceram a Nick por vídeo, deram seguimento no processo da adoção, fizeram testes de Covid-19 necessários e foram conhecer ela pessoalmente pela primeira vez. Nick nasceu com microcefalia por conta de uma toxoplasmose congênita, tem impacto na visão e está dentro do “guarda chuva” da paralisia cerebral. Sua dificuldade está no ato de comer e engolir saliva, o que pode causar acúmulo de líquidos nos pulmões, tornando-a do grupo de risco para qualquer doença respiratória - como o Covid. Por mais que possua algumas diferenças no quesito saúde, é uma criança repleta de amor, carinho e risadas, que se diverte muito com as duas mães. ↓ rolar para baixo ↓ Drika Janaina
- Tania e Clarissa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Tânia e da Clarissa, quando o projeto passou por São Paulo! Queria contar a história da Tânia e da Clarissa (e do Gael, claro) de uma forma que tudo se completasse, porque a vida delas acontece assim. Diversas vezes, desde que nos encontramos em São Paulo - cidade em que elas nasceram e moram com o Gael - falamos no sentimento que existe sobre a vida tê-las preparado para a chegada dele. E isso não significa que ter um filho e educar uma criança de forma inclusiva é tarefa fácil ou, que nesse caso, venha com receita pronta, mas que elas estavam de braços abertos e muito dispostas para receber tudo o que aprendem e compartilham diariamente. A forma de começar a contar essa história vai ser pelas fotos porque escolhemos fazê-las num local muito especial, um café, localizado no bairro da Mooca. Esse café foi a Tânia quem pintou, com giz de cera, cada uma das paredes. Quando ela pintou, não imaginava que adotaria o Gael, mas já estava com o processo de adoção bastante avançado no fórum e tinha feito uns murais na escola em que trabalhava, quando o dono do café foi matricular a filha, os viu e decidiu contratá-la; foram dez dias de muitos desenhos nas paredes… mas um desenho em especial, de frente para a cozinha, era o preferido do casal (e também da Tânia!): uma menina no balanço, lendo um livro. Enquanto pintava, Tânia resolveu perguntar o motivo deles terem gostado tanto do desenho e a resposta foi que remetia à uma criança com síndrome de down (a esposa do dono do café é fisioterapeuta e tem essa especialização). A menina, com seus dedinhos curtos, segurando o livro, de olhinho puxado… remetia a eles e trazia algo tão bom. Enquanto para a Tânia, pelo vestido fazendo um contorno circular longo, via logo um barrigão, não pensava na criança, mas numa gestação. Não sabia ela que exatamente naquele dia da pintura, em um estado vizinho, o Gael nascia. As fotos da Tânia e da Clarissa, junto ao Gael, hoje em dia com dois anos, saudável, sorridente, muito inteligente e simpático, conversam com cada uma das pinturas do café. E é muito incrível ver como, de todas as formas, elas estavam esperando por ele. A Clarissa tem 37 anos, é bancária, adora mexer com plantas, reviver plantas, replantar e cultivar. Ela também toca violão e canta (gravou em estúdio a música para a Tânia entrar no casamento! Olha que incrível!). Ela adora esses detalhes, trata-os com muita atenção e carinho. A Tânia tem 43 anos, é historiadora e pedagoga, brinca que é artista plástica autodidata, porque dá aula de artes e de pintura há muitos anos também. Antes dos murais, ela nunca tinha pintado usando giz de cera, sua especialidade era tecido e madeira. A história do giz começou por uma reforma na escola e pela falta de dinheiro para comprar materiais para a pintura acontecer, então ela viu que tinha muito giz e pensou que poderiam inventar algo novo. Enquanto a história dos tecidos, essa vêm de longa data: ela já apresentou até programa na TV ensinando outras pessoas a pintarem seus próprios tecidos em casa. A Tânia e a Clarissa são mulheres muito atenciosas e logo que você chega é completamente impossível não se contagiar pela energia delas. São pessoas que se movem por afeto e contam histórias de vezes que já comemoraram datas com violinistas, de votos de amor que fazem por aí, das aventuras de anos casadas… são muitas risadas que vamos trocando ao longo das conversas, porque mesmo que os assuntos não sejam tão fáceis ou que existam os perrengues, fica claro o tempo todo que elas querem fazer o bem. Por fazer o bem que elas se conheceram, inclusive. Foi num grupo de Whatsapp onde LGBTs se reuniam para promover doações que quebravam o preconceito. Infelizmente ainda existe um olhar para nós de que só queremos festas, coisas vistas como “libertinagens” e não levamos nada à sério (e tudo bem querer festa, viu gente?), mas para quebrar essa ideia tão retrógrada esse grupo se uniu visitando lares de idosos, praticando doações, distribuindo coisas, etc. A Clarissa se interessou pela Tânia, chamou ela no Whatsapp e passaram quatro horas conversando. Marcaram de sair e foram ao teatro, já que ambas amam teatro. E, dessas saídas ao teatro, já se passaram mais de 8 anos, né? Cá estamos. Depois que elas se conheceram, se apaixonaram e namoraram por um tempo, resolveram morar juntas. A Tânia já tinha dois filhos maiores de vinte anos e isso fez com que fosse ainda mais difícil para a mãe da Clarissa a aceitação do relacionamento, portanto elas passaram o primeiro um ano e meio sem contato direto com as famílias. Mas não foi por falta de tentativa, não, viu? Tânia tentou, mandou e-mails, fez o que estava ao seu alcance, mas não conseguiu. Depois de um tempo, o irmão da Clarissa começou a namorar e foi apresentar a namorada, então elas resolveram dar um basta: só iremos se a Tânia puder ser apresentada também. Ok, baixamos a guarda. A Tânia foi convidada. E ela? Viveu um dia de gala! Foi ao salão, comprou até roupa nova para a ocasião. Deu tudo certo, todos se deram bem. O mais curioso é que a mãe da Clarissa e a Tânia se parecem muito, não só no jeito, mas ambas são professoras e artistas, então a mãe sempre soube quem era a Tânia por ver ela na TV, mas não dava o braço a torcer. Depois, quando se conheceram e se deram bem, tudo foi ficando mais tranquilo, mas levou muito tempo para que elas não se sentissem mais pisando em ovos. Desde o começo a adoção sempre estava em pensamento, por ser um sonho de muitos anos da Tânia. A Clarissa adorava a ideia, mas ambas achavam muito cedo. Deixaram a hipótese ao futuro, para amadurecer depois do casamento. Quando o casamento chegou, a notícia foi dada num almoço de família, depois de três anos juntas. A mãe da Clarisse perguntou “Mas por que vocês vão casar? Se já moram juntas há três anos?!” e ela respondeu: “Por que a senhora casou? Então. A motivação é a mesma.” = aí, ninguém argumentou mais nada. Sobre o casamento, o assunto já estava vencido, mas ainda sentia-se uma dor porque tiveram pouquíssima participação familiar no envolvimento em si… pouco perguntava-se sobre o evento, elas organizaram tudo sozinhas, cada detalhe, e foi difícil lidar com esse sentimento de solidão. Na data da festa, o pai da Clarissa entrou com ela e foi muito receptivo com os convidados, enquanto a mãe ficou mais reclusa. Recordam que a cerimonialista falou coisas muito profundas e importantes sobre o amor e sobre quem nós somos, e citam que isso despertou uma mudança comportamental na forma que a mãe da Clarissa vê o relacionamento das duas, portanto, valeu sim, muito a pena. Em relação à adoção, elas contaram da mesma forma que o casamento: o irmão da Clarissa ajudou e elas organizaram uma pizza entre a família para dar a notícia. No começo, o maior medo que surgiu foi em relação ao processo, como seria, e de certa forma sobre alguns preconceitos que envolvem a adoção, como “Como será que vai ser quando a criança crescer? / E se ele/ela quiser procurar a família biológica? / etc”, além disso, existia um pensamento sobre a Clarissa nunca ter filhos pelo o que ela representa socialmente, uma mulher que não se mostra feminina, não encaixa num padrão socialmente colocado que desde criança não mostrava brincar de bonecas e nem ser muito materna… [E justamente nesse momento nos surge a dúvida: Por que isto vira um debate quando a Clarissa anuncia o desejo de adoção e nunca vira um debate em famílias no momento em que os homens contam que vão ser pais? Nunca um homem é cobrado sua paternidade, já para nós, mulheres, sempre nos é cobrada uma posição materna e se não temos uma boneca em casa nos é descartada a possibilidade ao crescer. Ainda bem que Clarissa seguiu o sonho porque hoje em dia ela é uma mãezona!] Enfim, o sentimento que os familiares ficaram foi de: quando acontecer, a gente vê. Foi então que elas entraram com os papéis no fórum e acompanharam mensalmente os encontros em grupo sobre adoção. Depois de um ano, os pais (avós do Gael) estiveram também nesses encontros, o que foi muito legal porque mudou bastante a visão sobre a adoção, e lá foram reaprendendo formas de enxergar e de se preparar para recebê-lo da melhor forma possível. Depois de um ano e meio elas estavam aptas a entrar num grupo de busca ativa por crianças para adoção. Lá, chegaram a tentar uma criança, enviaram os documentos, mas não tiveram retorno judicial (em agosto de 2019), então voltaram à busca. Em novembro, dia 20, de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra, elas estavam em uma peça de teatro (olha aí, o primeiro date voltando à tona), e quando pegaram o celular para fotografar um momento da peça porque Tânia queria mostrar aos alunos na escola, viram no Whatsapp a foto do Gael. Tânia, em lágrimas, conta que sentiu o coração palpitar muito forte e só conseguiu dizer: é o meu filho! A informação que tinham era de que o Gael não estava em São Paulo e que era um neném com síndrome de down, possuindo também uma bolsa de colostomia. Elas nunca tinham pensado na hipótese da síndrome de down porque não existia essa opção no questionário que responderam, mas na mesma hora não havia mais dúvidas, apenas a certeza que o Gael era o filho que elas estavam buscando. A Clarissa brinca que não conseguiram mais nem ver a peça, choravam e ela tentava conversar para acalmar e ser um pouquinho mais pé no chão, saber se era isso mesmo que elas queriam, mas ambas estavam muito emocionadas. Ao fim, foram para o estacionamento, conversaram e ligaram para a filha da Tânia. Na hora que ela viu a foto, não deu nem tempo, só disse “Mãe, é ele, né??? É o meu irmão! Pega ele! A gente estimula ele, mãe!! Vai dar certo!”, naquele momento tudo foi se encaixando, a filha dela trabalha com crianças que possuem síndrome de down e na época auxiliava 6 crianças numa escola. Em seguida, ligaram para o filho, que também apoiou. Foi o bastante: deram o sim para a assistente social. Os dias seguintes se resumiram em pura ansiedade. Enviaram os documentos e o processo demorou mais de uma semana, passaram por entrevistas, por assistentes sociais… Tânia estava tão ansiosa que resolveu ir até a casa de duas amigas mais velhas, maiores de 80 anos, cujo ela apelida de yabás. Elas falaram: “Calma que ele é teu, ele já vem”. Foi quando ela chegou em casa que recebeu a ligação do fórum e falaram: chegamos à conclusão de que não existem mães melhores para ele do que vocês duas. Compraram as passagens aéreas, alugaram airbnb, marcaram audiência e o mais rápido possível foram conhecê-lo. Conversaram muito com as assistentes, com o fórum, afinal, tudo precisa ser minimamente acertado. A família (como um todo) ainda não sabia, porque o medo de não dar certo era grande, deixaram para contar quando já estivessem lá. E finalmente chegou o momento aprovado de conhecê-lo: lá estava o Gael, neném pequenino, gordinho, com os olhos super curiosos, acompanhado de uma sacolinha de plástico com suas roupas. Elas foram com ele até o apartamento onde estavam hospedadas. Todos estavam enviando mil mensagens para o celular, mas fizeram chamada de vídeo com a filha da Tânia. Gael, quando a viu, abriu um sorrisão. Foi o primeiro sorriso dele, como se já a conhecesse. Ele foi muito bem recebido por todos na família e é uma criança muito amada. Elas afirmam: “Ele nos ensina coisas que nenhuma faculdade ensinaria, nenhum curso”. A vida gira em torno do Gael, que ao todo faz 6 terapias, hidro, fono, fisio, uma rotina intensa! É sempre de sorriso no rosto! E vai melhorando a cada dia. Hoje ele já não usa mais a bolsa de colostomia, passou pela cirurgia e correu tudo bem! Falamos sobre a importância de darmos valor aos pequenos grandiosos acontecimentos ao nosso redor, como as necessidades fisiológicas diárias. E tudo o que isso nos ensina. Nesse momento, a Tânia conta que no dia do casamento elas fizeram votos falando sobre o quanto são pessoas melhores depois que se conheceram… mas que depois do Gael, elas sentem que são pessoas que nem imaginavam conhecer/e ser. Sentem que vão sair dessa vida muito melhores. Hoje, também, depois de tantos anos, ambas famílias se dão super bem. No mais, elas mantém o Instagram do Gael, para falar sobre educação inclusiva, famílias homoafetivas e crianças com síndrome de down. O @ é @gael.t21 a palavra está com elas Acreditamos que o amor supera tudo, nele não tem raiva, não tem inveja, não tem maldade. Eu (Tânia) vivi uma situação que me lembra do amor. Foi com a minha sogra. Ela é muito parecida comigo e um dia eu fui viajar para o interior sozinha à trabalho. Por mais que eu já namorasse a Clarissa há anos e já conversasse com a minha sogra, ela nunca tinha falado comigo no Whatsapp, mas nesse dia, especificamente, ela me mandou uma mensagem perguntando se eu cheguei bem. Ou seja, ela ficou preocupada, né? Me surpreendeu e eu agradeci. Aí ela disse que, ah, era assim mesmo, “com o tempo ela ia vendo como são as coisas”... e eu disse que o amor é só isso, mesmo, mas que amor também é tudo isso. É essa coisa que une, que move, que faz com que a gente se preocupe e que faz passar por esses desafios. Nós,mulheres, amarmos outras mulheres, nos faz passar por muitas coisas e muitos desafios, então o amor surpreende e fica muito latente. Mas nem sempre a gente sabe como demonstrar, então é importante saber ler também. E o Gael estar numa família homoafetiva é maravilhoso porque já passamos por tantas coisas que ele será completamente acolhido aqui, voltamos a realmente aquele ponto: nos preparamos a vida toda pra isso. post Começou 2022! Precisamos começar o ano fazendo todos vibrarem com uma das maiores histórias que já tivemos o prazer de documentar, então, preparou o lencinho? Chegou a hora. Aproveitem ♥ Queria contar a história da Tânia e da Clarissa (e do Gael, claro) de uma forma que tudo se completasse, porque a vida delas acontece assim. Diversas vezes, desde que nos encontramos em São Paulo - cidade em que elas nasceram e moram com o Gael - falamos no sentimento que existe sobre a vida tê-las preparado para a chegada dele. E isso não significa que ter um filho e educar uma criança de forma inclusiva é tarefa fácil ou, que nesse caso, venha com receita pronta, mas que elas estavam de braços abertos e muito dispostas para receber tudo o que aprendem e compartilham diariamente. A forma de começar a contar essa história vai ser pelas fotos porque escolhemos fazê-las num local muito especial, um café, localizado no bairro da Mooca. Esse café foi a Tânia quem pintou, com giz de cera, cada uma das paredes. Quando ela pintou, não imaginava que adotaria o Gael, mas já estava com o processo de adoção bastante avançado no fórum e tinha feito uns murais na escola em que trabalhava, quando o dono do café foi matricular a filha, os viu e decidiu contratá-la; foram dez dias de muitos desenhos nas paredes… mas um desenho em especial, de frente para a cozinha, era o preferido do casal (e também da Tânia!): uma menina no balanço, lendo um livro. Enquanto pintava, Tânia resolveu perguntar o motivo deles terem gostado tanto do desenho e a resposta foi que remetia à uma criança com síndrome de down (a esposa do dono do café é fisioterapeuta e tem essa especialização). A menina, com seus dedinhos curtos, segurando o livro, de olhinho puxado… remetia a eles e trazia algo tão bom. Enquanto para a Tânia, pelo vestido fazendo um contorno circular longo, via logo um barrigão, não pensava na criança, mas numa gestação. Não sabia ela que exatamente naquele dia da pintura, em um estado vizinho, o Gael nascia. As fotos da Tânia e da Clarissa, junto ao Gael, hoje em dia com dois anos, saudável, sorridente, muito inteligente e simpático, conversam com cada uma das pinturas do café. E é muito incrível ver como, de todas as formas, elas estavam esperando por ele. A história completa está no nosso site! O caminho até lá você já sabe, né? O link tá na bio!
- Tânia e Clarissa | Documentadas
Amor de Trajetória - Tânia e Clarissa clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Priscila e Raphaela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Priscila e da Raphaela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Sobre a casa, elas chegaram a alugar o espaço ideal, se mudaram e infelizmente as coisas deram errado. A estrutura do local deixou muito a desejar, não era como prometido. Os móveis mofaram, elas perderam muita coisa. Tiveram que devolver e voltar para o apartamento que a Rapha morava. Foi tudo muito conturbado, ficaram sem ter onde morar um tempo. Foram quatro mudanças em um mês. Por mais difícil que tenha sido esse momento, serviu muito para que elas se fortalecessem também, porque pelo fato de terem perdido colchão, móveis e outras coisas, precisaram se restabelecer. Foi um momento delicado, cada centavo passou a valer muito, e se apoiaram o tempo todo também. A Pri falou sobre o relacionamento delas e sobre esse amor realmente significar resistência, não ser só uma palavra bonita usada na internet. E sobre como a pandemia, vindo com muita dor, de forma geral também nos ensina a olhar mais para o lado, a amar mais. A Rapha completa a fala dela falando sobre acolhimento, sobre ajuda, sobre as coisas mais pesadas acontecerem para nos ensinarem a pegar junto, a dar valor a quem está do nosso lado, porque isso também é sobre amor. É sobre saber dar muito valor ao que se tem agora, não ficar num discurso clichê de só agradecer, mas de reconhecer a importância de cada coisa que temos porque batalhamos muito para ter. E não amar o próximo só até onde nos convém, amar o próximo sendo ele quem for. Amar o próximo sendo preto, sendo sapatão, sendo a amiga que tá passando perrengue, sendo a vizinha que precisa de ajuda… é esse o sentido e o objetivo. Mais de um ano depois elas estavam no Tinder e deram match! Não se reconheceram de cara porque a foto da Rapha aparecia mais a cara do gato, que a cara dela. Não tinha bio, era da Ilha, a Pri pensou: se nada der certo, vou ter uma amiga que mora perto! Elas conversaram, viram que tinham uma amiga em comum e a Rapha disse “bem que eu acho que já saímos juntas uma vez!”. O primeiro encontro foi no apartamento em que nos encontramos, que é o lugar que elas moram hoje em dia. Foi no dia 4 de janeiro, comecinho do ano. A Pri estava começando a descobrir que tinha intolerância à lactose, estava doentinha, por isso acharam melhor ficar em casa. Foi um encontro quietinho. Mas, você quer sapatão emocionada? aqui temos. Dia 11, sim, de janeiro, a Rapha pediu ela em namoro. Mais emoção? Em março, sim, do mesmo ano, o pedido de casamento chegou. Só que em março também começou a pandemia e elas passaram um bom tempo sem se encontrar. Entenderam que a melhor opção seria passar algumas semanas juntas com a Pri indo para a casa da Rapha e depois algumas semanas a Pri ficando em casa com a mãe dela. Por mais que o pedido de casamento tivesse sido aceito, ela só ia morar junto depois de casar, porque ela não queria se acomodar. Ela quer tudo certinho: a festa, o vestido, o bolo. Querem adaptar todos os bichos em uma casa e em uma vida confortável. E aí sim, será um casamento. Não vai morar junto para “um dia, quem sabe, fazer uma festa…”, quer a festa, depois a casa. E então ela organizou toda a festa, está tudo prontinho e assim que a vacina permitir, terá casório! O maior sonho da Rapha atualmente é montar o seu próprio negócio, trabalhar na Cozinha Parucker, montar a marca, fazer algo legal e bonito. Ela cuida de tudo com muito carinho, trabalha e cozinha na casa da mãe dela por conta do espaço e para evitar o contato do alimento com os animais em casa e investe em estar sempre aprendendo o máximo que pode. Ela conta que chegou a passar na PUC, há uns anos atrás, em publicidade. Fez um semestre, não se sentiu feliz. Não se sentia segura no caminho, sofreu assaltos, assédios, entendeu que não era o que ela queria fazer para a vida. É muito difícil porque com a condição social que temos faz com que precisamos nos esforçar em níveis muito maiores e nos submeter a coisas muito mais difíceis para alcançar nossos objetivos. E colocar a vida dela em risco daquele jeito não era mais uma opção. Ela comenta sobre o governo, sobre a corrupção, sobre as diferenças morando na Ilha perante a não ser tão violento, mesmo tendo tráfico e favelas, mas que mesmo assim entendia que não estava valendo a pena. Foi nessa época que ela começou a trabalhar em um Freeshop no aeroporto Galeão, lugar onde a Pri também trabalhou, e por isso se conheceram. Ou melhor, por isso não se conheceram, porque a Pri trabalhou lá três meses, não se adaptou, achou tudo muito doido, pegou gripe suína em pleno 2018, não curtiu, pediu demissão. E a Rapha entrou no lugar dela. Ela saiu, mas manteve as amizades, que contaram: “entrou uma menina muito legal aqui que você precisa conhecer, a Rapha!”, enquanto falavam para a Rapha que ela tinha que conhecer a menina que trabalhava lá antes dela. Na época, a Rapha namorava e a Pri conseguiu um emprego no shopping. Em um fim de semana chamaram a Pri para beber depois do trabalho, ela topou, conheceu a Rapha rapidamente e ficou no bar com o pessoal, mas praticamente não conversaram. A Priscilla e a Raphaela são duas mulheres muito incríveis. Conheci as duas no apartamento delas, na Ilha do Governador. Com um lugar cheio de gatinhos e uma cachorra medrosa e dócil, elas me receberam em um domingo de manhã. A Rapha tem 24 anos, quer começar a formação em gastronomia e a Pri tem 29 anos e é designer de moda. Ambas nasceram e sempre moraram na Ilha, um bairro na zona norte do Rio de Janeiro. Quando a Rapha começou a gastronomia, ela decidiu fazer umas trufas e colocar para vender, a Pri levava para o trabalho e vendia por lá também. Deu super certo, todos elogiavam e em datas comemorativas elas lançavam cardápios com doces maiores. Até que no começo da pandemia ambas perderam seus empregos. A Rapha chegou a pegar um trabalho em um bar, fazendo freelancer e a Pri em um petshop, mas estava muito difícil sustentar a casa e as contas dessa forma, foi quando elas decidiram criar a Cozinha Parucker (segue aqui! tem entrega por toda a Ilha!), uma empresa em que a Rapha monta cardápios e vende seus doces e salgados. Ela sabe fazer comidas muito diversas e por lá focam em empadões e doces ♥ é tudo muito lindo! A Pri faz uma pós em marketing e curte muito ajudar a Rapha nessa área. Adora produzir conteúdo, criar lettering nas sacolas, criar mídias digitais… ela também gosta de investir enquanto digital influencer no seu perfil pessoal. Adora dar dicas de maquiagem, fotografia e falar sobre assuntos voltados à própria Ilha do Governador.
- Ingra e Lara | Documentadas
Lara estava com 25 anos no momento da documentação. É natural de Ilhéus, morou lá a vida toda e atualmente trabalha enquanto psicóloga infantil atuando com crianças neurodivergentes. É uma área que ama trabalhar: lidando com crianças portadoras de autismo, acompanha principalmente as que estão na transição para a adolescência. Adora estudar e acolher todas as questões, analisar os comportamentos e estar nos ambientes escolares, no dia-a-dia da criança em si, sair do espaço da clínica num momento de consulta. Além do trabalho, também adora estar em Salvador visitando os amigos (inclusive foi lá que fizemos a documentação acontecer) e também gosta de ir até Itacaré fazer alguns passeios. Ingra estava com 24 anos no momento da documentação. Também é natural de Ilhéus e conta que cresceu com muitas referências femininas - dentro e fora de casa. Morou em São Paulo durante dois anos depois de terminar o ensino médio, enquanto ainda escolhia o que cursaria na faculdade. Quando voltou para Ilhéus, resolveu cursar psicologia. É apaixonada pelas múltiplas formas artísticas e sabe que isso influencia diretamente sua forma de ser: a arte ajuda ela a viver seus melhores momentos. Além disso, sempre soube que gostava de mulheres, mas de alguma forma não insistia nisso porque pensava que iria passar com o tempo. Ingra lembra de uma situação, quando ainda era criança, que sentia algo diferente por mulheres e escreveu num papelzinho, confessando na igreja “que por mais que sentisse que isso fosse errado por pressão social, não deveria pedir desculpas para Deus por isso, porque não era de fato maldoso”. Escondeu o papel atrás de uma santa e anos depois achou o papel novamente. Adora acessar essas partes suas que estão no passado e que complementam quem ela é hoje, de alguma forma acolhe a criança que era e a adulta que se está se tornando. Ingra procura voltar seus estudos em psicologia para gênero e sexualidade, mas também trabalha enquanto assistente terapêutica. Sua irmã mais nova possui uma síndrome rara, chamada de síndrome de rett, precisando 100% de suporte, então isso influencia na sua vontade de fazer diversos cursos e especializações - e também foi o que aproximou a relação dela com Lara. Ingra e Lara se conhecem desde a adolescência, pois estudavam no mesmo colégio, mas eram de turmas diferentes. Não eram próximas, no máximo se cumprimentavam. Lara lembra do processo de Ingra ir para São Paulo porque havia amizades em comum que comentavam. Depois de formada na faculdade, Lara já atendia crianças com deficiência (e já se entendia enquanto uma mulher lésbica também), enquanto a mãe de Ingra procurava uma nova acompanhante para sua irmã (que possui síndrome de rett). Lara conta o quanto a irmã de Ingra é famosa em Ilhéus por conta da síndrome rara que possui e diversos profissionais têm interesse em estudar o caso dela. Quando soube que Ingra estava de volta na cidade, em 2023, nem imaginava que ela se relacionava com mulheres - até lembra do seu estilo meio surfista mais jovem, dos amigos que tinha, não “dava muitos sinais” - mas uma amiga em comum comentou e surgiu um interesse. Logo em seguida, soube que Ingra havia ingressado na faculdade de psicologia e a amiga comentou “o quanto elas eram parecidas e tinham coisas em comum”. Quando Ingra chegou em Ilhéus, se sentia muito insegura sobre a sexualidade. Como se relacionar com outras mulheres na cidade em que nasceu? Conversou com sua mãe sobre, ela foi uma forte aliada, mas ainda existia muito medo das reações das pessoas na rua, principalmente por ela ser vista o tempo todo como uma mulher muito feminina. A amiga em comum que havia com Lara também foi muito importante nesse processo para desmistificar a ideia de que mulheres que se vestem e performam feminilidade não podem amar outras mulheres e viver de forma livre esse amor. Foi a amiga quem falou sobre Lara para Ingra, e assim elas interagiram no Instagram pela primeira vez - mesmo Ingra tendo certeza que provavelmente não iria dar em nada. Foi num restaurante o primeiro encontro de Lara e Ingra, depois de conversarem alguns dias online. Antes de sair, Ingra estava tão nervosa se arrumando que a mãe logo notou e perguntou se ela iria encontrar alguma mulher. Ela havia comprado até uma roupa especial, que conseguiu garimpando em algumas lojinhas do centro. Chegou ansiosa, atrasada e mais arrumada do que Lara esperava - o que, de toda forma, não era ruim. Lara, que não é de ficar nervosa, ficou. Conversaram e foram desenrolando a ansiedade, o que foi muito legal porque sentiram tudo mais leve. Mesmo Ingra sendo tímida e não gostando de se abrir sobre a vida logo de cara, adorou que Lara fez tudo fluir, as conversas seguiram bem. Acabaram se beijando no primeiro encontro, algo que até então não era comum para Ingra, mas ela se mostrou confortável e até saiu de mãos dadas do local. Foi algo marcante porque nos dias seguintes demonstraram o quanto gostaram e queriam continuar se encontrando. Lara apresentou seu primo para Ingra, passaram o ano novo juntas de um jeito simples e calmo, no mês seguinte oficializaram o início do namoro e por mais que fosse um início rápido, sentem que a dinâmica foi tradicional e no tempo que se sentiram bem. Ingra fala sobre o amor que a sua família criou por Lara e como isso foi fundamental para quebrar muitos medos que tinha enquanto uma mulher que ama outra mulher ao se pensar vivendo coisas tão básicas como apresentar a namorada para a família e/ou ter momentos em família. Quando contou para sua mãe que estava indo encontrar Lara, ela ficou feliz por saber quem Lara era, conhecer seu trabalho e admirá-la enquanto profissional, então desde sempre apoiou, mas respeitou/esperou elas começarem a namorar para serem apresentadas oficialmente. Marcaram uma janta na casa da família de Ingra para que Lara fosse apresentada oficialmente enquanto namorada, mas dois dias antes esbarraram com a mãe dela, na pracinha do bairro, comendo acarajé, então se conheceram antes do previsto. O dia era de comemoração:a mãe dela havia acabado de se matricular na faculdade de psicologia - curso que tanto Lara, quanto Ingra, já cursaram. A janta aconteceu de qualquer forma e foi até melhor que o esperado: Lara chegou e a mãe de Ingra já apresentou a filha mais nova sabendo que Lara iria gostar de conhecer. Haviam outras crianças em casa porque ela chamou alguns vizinhos para comemorar um aniversário de bonecas que criou de última hora com os brinquedos da pequena, Ingra estava focada em cozinhar a janta, e Lara se divertiu com a criançada. Ao mesmo tempo que estava nervosa por conhecer uma família grande e muitas crianças, estava num lugar muito confortável por estar com o que mais ama - as crianças. Comenta, também, que mesmo a irmã da Ingra não verbalizando, ela tem um olhar muito marcante e ficou nítido o quanto elas se deram bem naquele primeiro momento, era o que a deixava mais feliz saber que tinha dado certo. E foi apresentada como namorada de Ingra, recebeu um sorriso de todos, sente que foi aceita desde o início. Na família de Lara, elas sentem que sua mãe sabe mas ainda está no processo de aceitação, então vivem isso frequentando a casa e entendendo que o tempo age aos poucos. Desejam cada vez mais construir o relacionamento que possuem enquanto uma família - seja unindo suas famílias, se vendo enquanto uma unidade familiar sendo duas mulheres que se amam e, esperam que daqui um tempo, adotando uma nova vida sendo mães e gerando uma nova família. ↓ rolar para baixo ↓ Ingra Lara
- Sharon e Vivian | Documentadas
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- Juliana e Marci
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Juliana e da Marci, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi após uma noite de natal, quando já estavam há alguns anos num misto entre amizade e flerte que, finalmente, a Juliana e a Marcyllene se beijaram e começaram a se envolver afetivamente. Elas se conheciam desde 2016, moravam em regiões próximas e tinham amigos em comum, o que facilitava com que frequentassem os mesmos lugares. E também já tinham se beijado em outros momentos, mas de alguma forma, não tinham sentido encaixar. Eram momentos diferentes, estavam com outras pessoas em mente e não sentiam ser o mais justo insistir em algo que não iria para frente. Entenderem que aquele não era o momento não impediu que elas seguissem com a amizade, o que gerou uma confiança e um respeito entre elas que foi alimentado e cuidado com o tempo. Assim, elas se encontravam, até participaram da fundação de uma Organização Comunitária no bairro, passavam todos os dias cuidando quando chegavam em casa tarde (por ser perigoso e por trabalharem em locais distantes) e seguiram por alguns anos a amizade, até a noite de Natal de 2019, que a Marci tinha recém voltado de uns meses que passou em Fortaleza e, depois da ceia, foi para a casa da Ju, se reunir com todos e celebrar. A Juliana tem 22 anos, faz graduação em hotelaria e trabalha como estagiária em um hotel no Rio de Janeiro. A Marci tem 25 anos, é técnica em saúde bucal e também cursa Ciências Ambientais, além disso faz alguns trabalhos como designer gráfico e transcrição de áudios. A Ju e a Marci são de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, de um bairro chamado Jardim Catarina, o mais populoso da cidade. O que mais gostam de fazer juntas é cozinhar, estar em casa tomando uma cerveja, conversando e também estudam bastante, trocando muito sobre coisas que aprendem. Elas entendem que quando estão com problemas respeitam muito os espaços, mas que se for preciso, resolvem juntas - o apoio é sempre muito presente. Logo no começo do relacionamento elas passaram por perdas familiares e estiveram juntas uma com a outra, oferecendo base e afeto. Contam que isso foi algo que sempre destacou, desde o início, porque sentem que podem confiar uma na outra de verdade. Na noite de Natal, quando a Marci acabou dormindo na casa da Ju, foi que finalmente o beijo aconteceu. Depois disso, já no começo de 2020, começaram a sair juntas enquanto um casal (não mais sendo apenas amigas) e a fazerem programas de casais, como ir ao cinema, cozinharem juntas… Mas neste momento, não estava claro para elas algum rótulo ou o que elas seriam, inclusive ainda saiam com outras pessoas e frequentavam outros lugares. Então, com o começo da pandemia e por morarem tão próximas (a Marci que sempre se locomovia muito de bicicleta e frequentava a casa da Ju) foi se tornando algo bastante natural ir até lá e ficarem juntas nesse período. A Ju entrou na faculdade, elas estudavam um tempo juntas em casa, se divertiam bastante, faziam diversos programas, mas sentiam que os passos delas enquanto um casal ainda eram muito lentos. Elas contam que não é por estarem juntas que necessariamente se envolviam, às vezes passavam semanas e não acontecia nada, rolava uma trava muito grande da Ju em relação ao que estava acontecendo e foi nesse momento que elas resolveram conversar e estabelecer melhor o que teriam. Nunca aconteceu um pedido oficial sobre o namoro, mas elas brincam que a verdadeira iniciativa veio da mãe da Ju porque elas cozinharam juntas no dia dos namorados e quando a mãe dela chegou em casa, disse: “Cadê a sua namorada???”. Foi aí que tudo começou. Até cantarolou depois “Juliana e Marcyllene estão namorandooo!”. Faz parte também entender que esse processo foi lento pela insegurança, pelo medo do preconceito familiar e pelo próprio envolvimento que já tiveram com outras pessoas e que saíram machucadas. Não é um processo fácil estarem abertas novamente para relacionar-se e, durante a conversa, fomos entendendo que talvez se elas ficassem juntas enquanto um casal, lá no começo, não teria dado certo… não teriam maturidade suficiente para entender seus momentos, seus espaços e seus tempos de processá-los. Para Marci o amor é um afeto mais cuidadoso. É sobre entender quem é o outro e que ele merece ser respeitado. Respeitado em diversos sentidos, desde sua orientação, até suas escolhas (profissionais, pessoais…). Quando você respeita o que a pessoa é, aprecia aquilo que ela oferece para o mundo e para todos ao redor. E na relação entre mulheres, ela sente que o respeito está presente na grande maioria dos momentos, pela conversa ser ativa, com escuta e atenção. Sente também que é possível existir mais colo, mais cuidado. A Ju explica que para ela o amor está literalmente nos mínimos detalhes: num sorriso ou abraço, numa palavra, no apoio. Acolher a pessoa por quem ela é, enxergando quem ela é. Ela acredita que nas relações entre mulheres o amor pode se demonstrar um pouco diferente porque as mulheres conhecem seus corpos, suas vivências e sabem se entender. Falamos também sobre a vivência que elas gostariam ter na cidade de São Gonçalo e no bairro em que elas moram, por ter um contato direto com cursinhos pré-vestibulares, organizações comunitárias etc. É impossível desviar a conversa da questão de segurança pública. O medo, ao sair de casa para trabalhar, é sempre presente. Não à toa falamos no começo sobre quando elas ficavam até tarde conversando quando ainda eram amigas para saber se chegariam em casa seguras, viver num local muito perigoso é nunca saber como será chegar em casa. A Marci disse que vê o quanto isso pode mudar quando as ações dos cursinhos, cine debates e investimentos na cultura são feitos por lá, já que são os grandes transformadores das pessoas e da sociedade - abrem um leque de possibilidades para novos futuros. Falamos também sobre como é importante pensarmos sobre o presente que temos e registrá-lo, registrar também as pessoas que vivem essa realidade e que não querem simplesmente sair dela e fingir que ela não aconteceu. A Ju e a Marci são mulheres que amam o bairro, que querem mudar, investir nele. Sentem ódio pelo o que ele se torna atualmente, mas além do ódio, querem ficar para mudar. É uma sensação de pertencimento, de raiz, muito forte - e de acreditar mesmo. De promover mudanças.
- Cássia e Kercya
Por mais que a família da Kercya não tenha ido ao casamento delas, eles estão completamente apaixonados e empolgados com a vinda da Marina. E a família da Cássia já é maluca (no ótimo sentido) e vibrante por natureza, então está todo mundo feliz e empolgadíssimo diariamente. Um pouco antes delas saberem da gravidez, estiveram na praia e postaram uma foto com a legenda: marinando. O destino deu seu jeito e tudo se juntou ao nome. Hoje em dia, vivem um novo momento, por conta da gravidez, de terem ficado sem emprego durante a pandemia, de estarem reaprendendo a se virar. Mas não deixam de aproveitar cada segundo com muita felicidade e muito amor. Sonham com um mundo em que a Marina possa ser completamente respeitada sendo quem ela é, porque é isso que vão ensinar a ela desde sempre: a respeitar os outros como eles são. Pensam muito na vida dela na escola, no mundo, em tudo. Entendem que o amor pode muitas vezes caminhar próximo da dor, mas que ele é mais que um sentimento, é uma experiência, e por isso sempre estarão dispostas a dar tudo o que puderem a ela. Um amor que o olho brilha, que é de verdade e que sustenta. A gravidez foi um desejo sempre pensado e sempre sonhado por ambas, a Cássia conta que sentia que queria gerar com a Kercya desde o primeiro momento porque quando olhava para ela e para a forma que ela lidava com as crianças já vinha dentro dela uma sensação de “é ela.”, e a Kercya completa que sempre quando elas viam casais com filhos pequenos falavam que “logo será a nossa vez”. Porém, contam também que a própria gravidez em si, por mais que muito pensada, foi também muito rápida, por conta de ter acontecido logo na primeira tentativa. Quando começaram as pesquisas entenderam que seria muito difícil, por envolver muito dinheiro, tanto na fertilização, quanto na inseminação. Os custos de clínicas privadas eram bastante altos e o SUS (no caso da fertilização) mais próximo de Fortaleza/do Ceará, seria em Natal/RN, o que era muito longe e caro para elas. Foi então que chegaram no processo de inseminação caseira, mas entenderam que envolvem muitos riscos e por isso precisam de muito cuidado e muita pesquisa. Foi mais de um ano de exames e acompanhamento médico, até que conseguiram contato com um doador em Fortaleza e resolveram fazer a primeira tentativa no período de ovulação. O procedimento foi em casa, envolvendo ejaculação, seringa, luvas, tudo direitinho. No momento exato, estavam só as duas. Elas contam que se apegaram mais na possibilidade de não dar certo, pelo medo da frustração, por saberem das chances (que não eram altas), mas a partir do momento que tiveram o olho no olho, ali, juntas, mesmo com o não, era um momento bastante marcante. Tudo aconteceu no dia 30 de novembro. Algumas semanas depois, a menstruação não desceu, 8 testes foram feitos, todos deram positivos. O exame de sangue comprovou: estavam grávidas! Marina surgiu nesse mundo! O melhor de toda essa história é que o ponto chave em que elas começam a conversar prova que o amor está disposto a enfrentar MUITOS desafios particulares, e um deles é que nessa época a Cássia estava voltando para a casa de moto, porque não se sentia bem pegando ônibus - ela desenvolveu uma fobia e não conseguia ficar dentro do transporte. Mas, em um dia específico, a Kercya ficou sem carro e na hora em que estavam saindo do trabalho perguntou que ônibus ela pegava, e no impulso a Cássia respondeu que pegaria o mesmo ônibus que a Kercya apenas para que elas pudessem ir juntas para passarem mais tempo, puxarem conversa, poderem ter alguma interação. O fato é que, desde o momento em que entraram no ônibus, a menina suou tanto frio que nem prestava atenção em nada do que a Kercya falava, de tão nervosa que estava. Só lembrou de antes de se despedir, pedir o Whatsapp para avisar quando chegar em casa e quando chegou mandou mensagem, desde então, começaram a conversar. A Kercya não tinha noção de que a Cássia era lésbica, mas já havia compartilhado sobre o relacionamento que vivia e sobre as condições dele não estarem boas e as dificuldades que passava, foi num momento em que conversavam na escola que a Cássia puxou um “acho melhor falarmos disso em outro ambiente, vamos um dia lá em casa!”, a Kercya achou ok e topou, no fim de semana seguinte, estava lá. Nesse dia, elas ficaram. Ou melhor, a Cássia atacou ela! Hahahaha! Foi assim mesmo! Ela disse que “vai ou racha!”. E foi. A Kercya terminou o relacionamento por ligação mesmo, visto estar insustentável e desde então elas não se desgrudaram mais. Se viam todos os dias, uns meses depois foram morar juntas e depois de um tempo se casaram, tanto no civil, quanto no religioso (no dia do casamento, inclusive, quando elas entraram, rolou um arco-íris de presente da natureza no céu!). ♥ Com o passar dos dias, a Cássia foi sustentando a paixão secreta e chegava cedo no trabalho, tentava sempre puxar assunto na recepção, fazia de tudo para soltar um sorriso da Kercya, mas ela não dava muita bola. Na época, tinha um relacionamento à distância com uma mulher que morava na Bahia e esse relacionamento era bastante escondido para ela, era algo bem difícil também, estava bem conflituoso, então conta que acabava se fechando bastante. O fim do ano chegou e com ele a festa de confraternização da escola também, seria numa pizzaria e a Cássia armou toda uma situação para ficar sozinha com a Kercya no carro (que, infelizmente, deu errado). No dia, a Kercya tinha batido o carro, tido um dia difícil também no relacionamento, não estava se sentindo nenhum pouco bem, acabou que isso só foi descontado na Cássia e ela se sentiu mal e foi embora. Mais uma vez, em uma desilusão amorosa, agora no fim de ano, ela cogitou o pensamento novamente da ida para a Itália... com o passar dos dias e a chegada do réveillon, ela fez uma viagem até a Paraíba e lá chorou vendo os fogos. Enquanto a Kercya, em sua virada, também passou o ano novo triste, chorando. Ambas sem saber o que seria de 2017 e sem boas expectativas. A Cássia pensou muito sobre a volta para a escola no começo do ano e pensou em voltar nem que fosse para pedir demissão. Quando chegou no local, viu logo o sorriso da Kercya e sentiu tudo aquilo de novo, então não tinha jeito, resolveu ficar. Com o passar dos dias percebeu que ela (a Kercya) estava permitindo sorrir mais, ser mais simpática, mais aberta… e assim começou o ano letivo. Foi depois de rodar o Brasil e voltar para casa que Cássia teve uma decepção amorosa e decidiu que sairia do país. Era fim de 2016, ela conseguiu uma rescisão boa em um emprego, conheceu uma mulher que organizava passagens de ida para a Itália (não vendia, mas organizava questões de baixa no euro) e se inscreveu na lista de espera. Até que surgiu um lugar que precisava de uma pessoa para fazer um trabalho de um dia para uma colônia de férias escolar, como um freelance, e ela topou, pois seria uma forma de entrar mais dinheiro. Essa escola, sem ela sequer imaginar, pertencia à irmã de Kercya, pessoa que ela conheceu logo no primeiro dia, pois trabalhava na recepção. Quando ela chegou, animada, dando bom dia, foi respondida com um oi um pouco ríspido e já não entendeu muito qual era o clima, mas o dia seguiu bem e acabaram convidando-a para voltar no dia seguinte, ela topou pela questão financeira. A proposta se estendeu para terça e quinta da semana seguinte e nesse segundo dia, ouviu uma conversa por alto da diretora comentando com outra pessoa sobre estarem procurando alguém para trabalhar de forma fixa ali, enquanto pedagoga. Um tempo depois, ela estava na rua e ouviu uma gargalhada muito gostosa vindo da sala da recepção, disse sentir algo único, era uma gargalhada única, e perguntou para um menino que estava por perto de quem era essa gargalhada, ele só olhou e respondeu “ihhhhhhh…” e então, quando ela passou pela sala, viu a Kercya de costas, com uma trança no cabelo, rindo. Preciso continuar explicando a cena? Foi paixão à primeira gargalhada, né. Ela conta que sentiu o coração amolecer. Quando viu a diretora (que nem imaginava que era irmã da Kercya), simplesmente resolveu dizer que ela não precisava mais procurar alguém para trabalhar ali, não!! Mas sim, que já havia encontrado! A diretora riu, achou que estava brincando, e ela confirmou que não era brincadeira, que a pessoa era ela mesma, pois estava estudando pedagogia e era a pessoa certa para o cargo. A diretora confiou, aceitou e ela foi contratada (hoje em dia, elas dão risadas e comentam que essa decisão foi bem criticada pela própria Kercya inclusive, que disse “como você contrata alguém assim, sem conhecer direito?!”). Conheci e fotografei a Cássia, a Kercya e a Marina durante a passagem do Documentadas por Fortaleza, no mês de maio. As duas escolheram batizar a Marina com esse nome porque Marina significa o que vem do mar, além de ser o nome que se dá àquela linha do horizonte que divide o céu da água, e foi no mar também que nos encontramos, na praia, conversando, com os pés na areia. Elas já chegaram falando “a gente olha pra cá e só consegue imaginar a Marina aqui, engatinhando”, foi assim que começaram a contar a grande aventura que foi planejar essa gravidez. Por mais que tudo tenha sido bastante pesquisado e feito com cuidado, elas brincam que as coisas meio que aconteceram, como tudo na vida delas… “o destino sempre dá uma ajudadinha”. A Cássia tem 34 anos, é animadora de festa infantil e recreadora, trabalhava com festas de aniversários e já fez de tudo um pouco (há boatos que até participar de trio estilo carreta furacão participou! hahaha!). Ela já rodou o Brasil com mochila nas costas sem um tostão no bolso vendendo arte por aí, já empreendeu, já conheceu muita gente… e sempre sonhou em ser mãe. A Kercya tem 31 anos, é gestora de recursos humanos, chegou a acompanhar o trabalho de animações por um tempo (dando vários auxílios, principalmente na produção), trabalhou em uma loja enquanto gestora até o meio da pandemia, adora fotografar (hobbie um pouco criticado pela companheira por motivos de falta de enquadramento, risos) e é uma eterna apaixonada por cinema. Kercya Cássia
- Isabela e Maitê
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isabela e Maitê, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Hoje em dia é comum ouvirem o quanto estão diferentes depois do namoro, o quanto amadurecem juntas e recebem bastante apoio dos amigos. Ainda existem algumas questões que entendem que vão melhorar aos poucos e se mostram dispostas a isso. Já enfrentaram questões de LGBTfobia dentro de casa e Maitê comenta que se pudesse mudar algo, mudaria o preconceito. No mais, amam estar juntas, assistir um zilhão de reality shows, jogos, ir ao bar, beber cerveja, estar com o grupo de amigos, e rir à toa de besteiras. Maitê sente que o amor entre mulheres não precisa necessariamente ser diferente de outros relacionamentos envolvendo homens, mas reconhece que o amor que constrói com a Bela se tornou muito mais completo: a conversa, o carinho, a cama, tudo. No geral, entende que a vida não é um conto de fadas, porque sempre existem muitos desafios, mas que as coisas se encaixam quando se há respeito e carinho. Por mais que o começo do namoro estivesse sendo muito confortável, Maitê ainda tinha contato com a ex-namorada e a família dela, então em alguns momentos ainda se balanceava. Sentia que não estava sendo completa na relação com a Bela - que percebia isso também - mas decidiu manter a relação pela paixão que sentia. Bela comentou que há muito tempo não se sentia realmente apaixonada por alguém - e que inclusive, achava que não iria mais se apaixonar novamente - então estava disposta a construir uma relação, passando por cima dos problemas e desafios. Depois de pensar muito e por mais que a Maitê entendesse que gostava da Bela e do relacionamento delas, optou pelo término. Não era justo estar pela metade na relação, não estava respeitando a sua companheira e nem ela própria. Sentia que estava tudo muito atropelado, não queria acabar sacaneando a Bela a longo prazo, precisava se entender e olhar ao redor, entender a situação toda. Mesmo depois do término elas continuaram conversando e Maitê aproveitou o tempo para pensar, amadurecer um pouco e, mais tarde, decidiram por voltar. A volta significaria diversas mudanças no relacionamento, desde comunicação e escuta mais ativa, até o jeito que elas se preocupavam uma com a outra e se apoiavam. Entendem que esse foi o verdadeiro começo de relacionamento, porque levaram muito mais a sério e com responsabilidade. O período anterior é mais considerado o momento em que elas ficavam, o namoro mesmo aconteceu na segunda parte da história. Elas se conheceram no Tinder, em julho de 2019. Bela não estava afim de relacionamentos e queria sair da rede social, foi quando deu match com Maitê (“match não, super like!”). Enquanto Bela queria sair, Maitê estava entrando. Tinha terminado um relacionamento recentemente e queria conhecer pessoas novas. Elas conversaram e decidiram se encontrar, num dia chuvoso, em Botafogo, no Rio de Janeiro. O encontro foi regado a muito atraso por Maitê morar em Niterói e ter enfrentado horas de trânsito. No fim, acabaram curtindo o date e se curtindo também. Dias depois marcaram de se ver novamente. Assim foi passando… fins de semana, casa de amigos… até que quando viram, logo no primeiro mês, estavam bastante juntas. Sabe aquela história de sapatão que adota gato? Claro, aqui temos. Mas foi a Bela quem adotou, quando estava na casa da Maitê e acharam uma gatinha por lá. Depois de um tempo, Bela entendeu que estava se apaixonando, mas não sabia até que ponto os sentimentos eram recíprocos. Maitê comenta que também sentia uma certa paixão pela Bela, mas que ainda precisava entender como estava realmente se sentindo após o término do relacionamento que ela teve. Não chegou a viver um momento totalmente sozinha para respirar e processar as coisas, sentia diversas questões internas. Foi um começo complicado e turbulento. Ambas se viram num momento do qual entenderam que não queriam começar um relacionamento, mas também já estavam muito envolvidas. Maitê se via balançada, Bela acabava se sentindo insegura… e assim se passaram alguns meses, entre ficar e não ficar. O ano virou e antes do carnaval decidiram começar a namorar. Quando pergunto o que elas pensam sobre o amor entre mulheres, Bela responde que o amor por si só pode parecer fácil, mas na verdade ele é bastante complicado. Por mais que devesse ser a coisa mais natural do mundo, é algo que precisa ser trabalhado todos os dias. “Amor é não julgar e sim acolher”. É também uma luta cotidiana. Nós, mulheres, precisamos lutar pelo amor (por amar outra mulher, pelo amor próprio, pelo nosso cuidado)... e nosso amor é diferente justamente pela luta que ele envolve. “Acabamos que nós, por termos lutado para chegar até aqui, damos mais valor. Não terminamos por qualquer coisinha, porque o tempo todo nos entregamos muito. Não precisa ser diferente só por ser alguém do mesmo sexo, mas por entender o caminho que tivemos que enfrentar para poder amar”. Isabela tem 31 anos, é designer e trabalha na área de UX e marketing digital. Passou um tempo se sentindo travada no design, sem saber que caminho poderia seguir, até que descobriu a área de UX e diariamente cresce estudando e trabalhando. Maitê tem 28 anos, se formou em nutrição e está cursando educação física. Quer trabalhar enquanto personal e sonha em futuramente fazer uma pós voltada à nutrição. É completamente apaixonada por futevôlei, esporte do qual Bela também está aprendendo a amar e se tornou uma das coisas que mais gostam de fazer juntas: assistir (pessoalmente ou na TV), acompanhar os campeonatos e jogar na praia. < Maitê Isabela
- Carol e Marlise | Documentadas
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- Bruna e Mariana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Bruna e Mariana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Mesmo a Mariana e a Bruna estando juntas há um tempo relativamente curto, elas já viveram diversos momentos no relacionamento - inclusive, no período que nos encontramos até o momento da história delas ir ao ar, várias mudanças também aconteceram! - e entendem que esses processos vêm sendo muito importantes para a construção delas enquanto um casal. A Mari tem 26 anos, nasceu no Rio de Janeiro, é lojista, estava trabalhando em uma loja no shopping, e também realiza trabalhos enquanto ilustradora. As pessoas encomendam ilustrações com ela para presentear quem amam (e ela adora desenhar, por isso, sonha em um dia transformar o talento e aprender a tatuar). A Bruna tem 28 anos, também nasceu no Rio de Janeiro e trabalha com comunicação e marketing nas redes sociais, de forma autônoma. Juntas, elas aprenderam a desbravar a cidade e conhecer novos lugares: os espaços culturais do Rio (como o que fizemos as fotos), explorar espaços urbanos, ir em museus, restaurantes e cinemas. O começo do namoro aconteceu em março de 2022, mas se conheceram em janeiro, quando ambas decidiram que não queriam namorar ninguém (enfim, as contradições da vida, né?!). A Mari, durante uma conversa no trabalho, baixou o aplicativo: Tinder. Foi uma brincadeira, para provar que era fácil de usar. Ficou nele literalmente três dias e deu “match” com a Bruna. Resolveu conversar, mas fora da rede social, pois logo iria excluir. O que mais chamou a atenção ao começarem a conversar foi o motivo de estarem muito próximas (e de morarem muito próximas, na região da Maré, no Rio de Janeiro). No aplicativo aparecia 1km de distância e nunca tinham encontrado alguém assim, as pessoas sempre apareciam mais distantes - e brincam também sobre aquela situação de que mulheres se apaixonam muito à distância - então valorizaram estarem próximas. Além disso, tinham outra coisa que valorizavam também: a terapia em dia. Bruna conta que se encantou com a beleza da Mari e logo quis encontrá-la. Elas marcaram, se deram muito bem, não pararam de conversar um minuto e decidiram se ver mais vezes. Logo nas primeiras semanas em que estavam se conhecendo, viajaram, ficaram distantes, mas continuaram conversando muito… E então entenderam que isso poderia ser um começo de paixão. Mas deixaram tudo fluir com muita calma e sem pressão. Um tempo depois, a Mari resolveu convidar a Bruna para o aniversário dela. Foi uma decisão de última hora, porque ela tinha uma certa frustração com aniversários: sempre convidou pessoas com quem estava se envolvendo e essas pessoas nunca foram, falavam que aniversário era algo muito sério, não era “espaço para ficante”, portanto não iam. Dessa vez, foi diferente, ela convidou e a Bruna logo topou. Assim, a Bruna conheceu os amigos da Mari e todos se deram bem. Como o aniversário delas é próximo, ela também foi na festa da Bruna e também conheceu o grupo de amigos dela, então todos interagiram e foi ótimo. Nesse processo inicial, a Mari passava por mudanças de casa, então a Bruna acompanhou toda a adaptação do novo lar. Foi quando decidiu pedi-la em namoro, já que estavam construindo um relacionamento mais concreto. Foi com um bolinho, escrito: “Aceita ser promovida a namorada?” que a Mari disse sim. Hoje em dia, a rotina da Mari e da Bruna não estava sendo nada fácil. Mari trabalhava em uma loja que exigia muito do corpo físico e mental dela: pela rotina puxada e cansativa que envolve uma escala de trabalho em Shopping, e também por enfrentar diversos comentários. Mari acredita que para amar outra mulher é preciso ter muita força, não apenas no enfrentamento aos preconceitos, mas no entendimento de que não há nada de errado no amor. Bruna fala sobre o quanto viver essa rotina com a Mari ensinou que amar é também priorizar, pois com a relação delas, aprendeu o que é incluir alguém em tudo o que faz: nos planos, no dia-a-dia, no compartilhar das coisas, e até na busca por um novo emprego para sair dessa rotina cansativa (conseguiram, ufa!!). Ela entende o amor das duas enquanto um amor político, porque ama a Mari por muitas coisas, inclusive por ela ser uma mulher. No começo, sentiram diversos receios e medos para postar fotos juntas, assumirem-se nas redes, mas depois não houve mais motivos para esconder isso - o amor delas é muito maior. Depois, quando postaram, a família super apoiou. Hoje em dia, ainda existe o medo, é claro: da violência nas ruas, do transporte… sonham em aproveitar a cidade com segurança, sendo quem são, mas não deixam de amar e de seguir pegando nas mãos quando saem na rua. ↓ rolar para baixo ↓ < Mariana Bruna
- Thati e Larissa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Thati e Larissa, quando o projeto passou por São Paulo! Conheci a Thaty e a Lari no Parque Ibirapuera, em São Paulo, numa tarde de sábado. Estávamos andando, nos apresentando, quando a Lari disse: “Foi aqui que eu caí depois de beijar a Thaty pela primeira vez.” e eu perguntei “Mas caiu, caiu? Ou caiu, tropeçou?” e ela contou que caiu, mesmo, se ralou e teve que fazer curativos. Na hora, pensei: ok, quero muito ouvir essa história. Mas não vou começar por ela porque o começo se começa pelo começo, e, nesse caso, demorou um pouquinho até o beijo (e a queda no parque) acontecerem. A Thatiely e a Larissa trabalhavam juntas na TV Cultura, mas em horários diferentes. Elas se encontravam de vez em quando, a Thaty era estagiária de jornalismo e a Lari já estava lá há mais tempo. Na versão da Thaty, ela conta o quanto nunca tinha se visto numa relação com uma mulher porque vinha de uma cultura muito hétero (e especificamente “hétero top”), além de que naquele momento estava priorizando o estar-sozinha, por ter passado por um relacionamento bastante difícil do qual saiu bem machucada. O período que passou sozinha foi muito importante para aprender o que aprendeu e também para ver as coisas sob um novo olhar. Eis que, nesse meio tempo, ela encontrava a Larissa e sempre chamava atenção, por usar turbantes bonitos e brincos grandes, nas suas palavras: “É uma pessoa que chama atenção”, mas o olhar da Thaty para ela mesma, até então, não era o de ficar com uma mulher a ponto de ter um relacionamento… ou, pelo menos, ela não estava colocando nenhum rótulo na sexualidade - beijou mulheres em bares e foi entendendo o processo, se aceitando, afinal, foram 25 anos vivendo sob outro olhar e outra cultura, entender a bissexualidade era um tempo novo. Era janeiro e a Thaty trabalhou em um sábado - dia que ficavam pouquíssimas pessoas trabalhando, entre elas, a Larissa. Elas conversaram e surgiu o interesse, mas não sabia se era uma amizade ou uma paquera. Até que se adicionaram no Instagram, trocaram reações e quando chegou o carnaval elas tiveram a oportunidade de ir juntas num bloquinho com os amigos do trabalho. A Lari estava vivendo o momento dela sendo solteira no carnaval, ela conta que só se relacionou com mulheres na vida e foram poucas pessoas, então tinha recém saído de um relacionamento longo também, queria aproveitar o momento. A Thaty brinca que ficava não só observando, mas também se questionando, porque nunca tinha chego em ninguém. Na realidade heteronormativa em que ela estava inserida o costume era que os homens tomassem as iniciativas de chegarem até as mulheres, então ela não sabia como dar o primeiro passo com a Lari. Uma amiga até ofereceu ajuda, mas ela não quis, decidiu chegar lá e falar, mas na hora a Lari nem ouviu o que ela tinha pra dizer, as duas se beijaram logo. ♥ Porém, era um beijo de carnaval, né? No meio de um bloco acontecendo. Nesse mesmo dia elas beijaram outras pessoas - e por mais que a Lari em um momento tenha pego na mão da Thaty ela ainda brincou com um “Não me ilude, não!!”. Foi nessa hora que veio ele: o tombo. A Lari caiu porque estava muito bêbada e apostou corrida com uma amiga. Coisas de carnaval, né?! A Thati estava plena, disse que tinha um curativo e pediu pra eu escolher um machucado pra colocar, ou seja, eram vários. A Lari pedia: “Cuida de mim”, pra Thaty. E de alguma forma, deu certo o cuidado. Logo depois do carnaval a Thaty entrou de férias porque a melhor amiga dela estava tendo um neném e ela queria ajudar nos primeiros dias pós parto. Foram 15 dias sem ir trabalhar e, nesses dias, a Lari passou a trabalhar de manhã, no mesmo horário que ela trabalhava. Quando voltou das férias elas estavam sentadas numa mesa lado a lado, e por mais que isso inicialmente tenha despertado uma esperança, aos poucos foi fechando porque a Lari é uma pessoa bastante séria no trabalho. A Thaty justifica dizendo que a seriedade vem dela ser de capricórnio, porque leva o trabalho com muita lealdade, ficando muito fechada. Mas, como ela é mais tranquila, acabava conseguindo puxar alguns papos e distrair, então elas conversavam um pouco ali e continuavam a falar também pelo Instagram - além disso, todos os colegas incentivavam e apoiavam o casal que parecia surgir. Ainda sobre trabalhos, a Lari, no momento da documentação, possui 25 anos e é natural de São Paulo, ela trabalha como roteirista de audiodescrição, além de dar aulas de espanhol e fazer trabalhos com surdos e cegos. No cotidiano, também estuda para sua meta de vida, que é prestar mestrado em literatura (e, inclusive, dá aulas de literatura também em um cursinho pré-vestibular: o Maria Carolina de Jesus, que fica na capital). Já a Thaty, no momento da documentação estava com 26 anos, é natural de uma cidade chamada São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Thaty trabalha com marketing e experiência/expectativa do cliente em uma startup de alimentos e também dá aulas no cursinho pré-vestibular, porém de Redação. Atualmente, ela cursa Letras na Unifesp, mas já cursou jornalismo e odontologia em outros momentos. Por mais que ela acredite no poder da comunicação e usa muito isso nas suas aulas, não vê mais o jornalismo como uma profissão para si - pois entende que é muito difícil trabalhar com o jornalismo de fato. Sobre a odontologia, ela ainda pensa em voltar (e a Lari incentiva) - por mais que saiba do cansaço que envolve a rotina - acredita que é algo que vale a pena e que vai trazer muito orgulho à família também. Além disso, complementa que um dos motivos para voltar é que o conhecimento é algo que ninguém tira de nós. Foi com essa desculpa de muitos trabalhos e correrias que a Thaty resolveu pedir o Whatsapp da Lari para um projeto de audiodescrição. Por lá, durante a conversa, a Lari a convidou para o aniversário de um amigo em comum e novamente elas se encontraram, mas não ficaram juntas. Logo em seguida, a pandemia começou. E elas passaram todo esse momento inicial pandêmico conversando pelo Whatsapp e adaptando o trabalho para home office. Começaram com ligações à noite, o contato realmente aumentou até que a Lari foi até a casa da Thaty… e assim começaram uma relação que durava o período de se ver quinzenalmente. Até decidirem estar em um namoro, houve uma série de conversas sobre o que elas sentiam sobre isso, visto que a Thaty considerava que o período solteira após terminar uma relação era muito necessário para a pessoa se entender enquanto indivíduo, nos seus problemas íntimos. A Lari, por outro lado, queria viver de fato o romance, se entregar mais e se envolver. Rolou até aquela situação de confundir o ‘tchau’ com o ‘teamo’ e não entender o que está acontecendo de verdade entre elas. Mas foram se encaixando e conversando até chegar no ponto em que estaria tudo um pouco mais equilibrado… e então a Thaty foi apresentada para a família. Ao mesmo tempo que ser apresentada para a família da Lari era um ponto, para a Thaty, envolver a família, era outra questão. A família dela não fazia a menor existência da possibilidade dela se relacionar com uma mulher - e enquanto não acordassem que isso era um relacionamento, ela não sentia a necessidade de contar. Até o momento em que virou um namoro, e aí entenderam que esse passo deveria ser tomado. A primeira questão foi a mãe reagir como uma fase. Entendemos que é um processo familiar e que muitas pessoas passam por isso, que esse processo foi respeitoso sobre o que a filha sentia, mas que houve um certo afastamento - até certo ponto natural para o entendimento de cada uma com seus pensamentos. Contar para o pai que foi mais difícil, pois o passo teve que surgir de outra pessoa e a conversa não aconteceu de fato. Ela conta que, no fim, o processo não é tão doloroso por já não conviverem tanto presencialmente, já que mora em São Paulo há alguns anos. A única coisa que deseja - e luta - é por respeito, e por isso também respeita os processos familiares. Hoje em dia, a mãe dela já trata a Lari com bastante carinho, o que mostra que as coisas precisam de um tempo, e a mãe dela até brinca que as duas já estão se casando, com naturalidade. A família da Lari passou por outro processo, visto que é uma família que está mais próxima do relacionamento das duas e que sempre manteve a Lari muito perto. Desde mais nova eles sabem da sexualidade dela e não foi de uma forma fácil, pelo contrário: foi muito mais abrupta. Mas, também, foram processos. Ela falou algumas vezes na conversa a frase: “A educação me salvou.”, referindo-se à faculdade como um processo de libertação. No processo do relacionamento elas já passaram por muitas coisas, entre tentativas de morarem nos fundos da casa dos pais da Lari, até uma maturidade e um crescimento muito rápido das duas juntas nos primeiros meses de relação. Aprenderam a ter mais cuidado com os outros, não só em relação à empatia, mas em relação ao cuidado com quem se envolve, pois tinham suas energias rapidamente sugadas. Aprenderam a acreditar e ter mais fé na religião, no que está em volta e a serem mais elas por elas, juntas. Hoje em dia morar na mesma casa não significa casar. E casar, principalmente para a Thaty, tem um peso gigantesco. Ela sempre quis casar. Quis e idealizou a vida toda casar com um homem, naqueles moldes que conhecemos, mas hoje está feliz com uma mulher. “Eu quero casar com uma mulher. Quero fazer festa, convidar pessoas que gostamos. Quero viver esse momento, sempre sonhei com esse momento e quero viver isso com ela.” Elas falam sobre a naturalidade do relacionamento que possuem e que querem refletir isso no casamento, mesmo sendo socialmente tratadas diferentes, sabem que o amor que sentem é puro e natural. Por mais que existam idealizações no amor, a Thaty entende que tinha muita referência no amor que via em casa, entre os pais, pois eram muito cúmplices e amigos. Até hoje entende que o amor está na parceria e no cuidado, não nos grandes feitos: o amor é todo o dia. “O amor tá quando minha mãe manda o remédio pra Larissa quando ela tá gripada.” Hoje o relacionamento da Lari e da Thaty representa algo que elas conquistaram juntas, o melhor que elas puderam ser. Isso não quer dizer que não existam uma série de questões individuais próprias, de problemas a enfrentar ou de vida a acontecer, mas que o que era antes uma batalha solitária hoje em dia é uma força conjunta. A Lari conta sobre um livro do qual ela sentiu uma conexão muito forte, o “Amares”, do Eduardo Galeano, em que são crônicas sobre tudo que ele ama - e tudo que ele ama é literatura. Já estava tudo escrito de outros livros, ele só organizou. São várias esferas de amor. Ela fala, também, sobre o quanto encontrou o amor na religião e o quanto isso é importante para o entendimento dela enquanto pessoa: “Eu agradeço muito a Oxum e Oxalá que são os dois orixás que regem a cabeça dela (Thaty), pela vida dela e espero que muitas mulheres possam encontrar outro amor assim. Não só amor romântico, mas amor no geral porque eu acredito que o amor entre duas mulheres pode transformar a vida uma da outra porque tenho certeza que esse me transformou. Eu me sinto livre. Todos os dias eu quero fazer uma coisa nova e ela tá sempre me incentivando. Eu me sinto forte.”. Larissa Thatiely
- Maria e Barbara
Mariana e Bárbara são duas mulheres que nasceram em cidades do interior do Rio Grande do Sul. Bárbara vem de Capivari do Sul, município com cerca de 4 mil habitantes, que vive da produção agrícola. Já a Mari, vem de Osório, cidade um pouco maior e mais próxima da capital, com 40 mil habitantes. Por mais que vivem visitando seus familiares em suas cidades natais, hoje em dia a Mari mora em Porto Alegre, estudando e trabalhando com moda, enquanto a Bárbara passa um tempo com ela e outro tempo com sua família no interior. No momento da documentação, Bárbara então com 26 anos conta o quanto enfrentou diversas barreiras ao se entender enquanto uma mulher lésbica vivendo em uma cidade tão pequena e conservadora. Lá, trabalhava com equipamentos agrícolas, mas aprendeu de tudo um pouco: soldar, lixar, operar máquinas de corte, etc. Mas seu sonho mesmo é ser profissional na música: toca diversos instrumentos, se especializando nos sopros desde criança. Hoje em dia, voltar para Capivari de mãos dadas com a Mari, respeitando e valorizando toda a história dela enquanto mulher negra, para elas é lido como um ato de resistência: desejam ser respeitadas. A Mari, que no momento da documentação estava com 24 anos, se mudou para Porto Alegre pelo sonho de ser modelo. Nas palavras dela: “Tinha 200 reais e um sonho”. Ela chegou a trabalhar no comércio de Osório antes, em uma loja de roupas, mas foi demitida por conta de várias situações (inclusive envolvendo intolerância religiosa). Numa das suas vindas para Porto Alegre por conta de freelancer sendo modelo, conheceu uma menina que comentou que havia vaga no apartamento para dividir, então acionou um contato que trabalhava em um salão de beleza conhecido na cidade, conseguiu uma entrevista um tempo depois e, sem expectativas, foi aprovada. A questão era: não tinha dinheiro para sair de Osório e ir para Porto Alegre começar uma nova vida, então fez um “freela” numa lanchonete, ganhou 200 reais e saiu de casa bem cedinho, para a mãe dela não ver. Assim, chegou na capital. Um tempo depois, com o início da pandemia de Covid-19, acabou ficando sem lugar para morar e, com o salão fechado, voltou para Osório. Mas durou pouco tempo, em setembro já estava novamente em Porto Alegre, na casa em que mora até hoje (com a Bárbara, inclusive). Por mais que a vida da Mari e da Bárbara tenha se encontrado definitivamente quando a Mari já morava nessa casa, em Porto Alegre, suas histórias estão se cruzando há anos. A primeira vez que a Bárbara esteve em Porto Alegre foi quando ela tinha cerca de 17 anos. Conseguiu uma carona, saindo de Capivari do Sul, que a iria deixar em Cachoeirinha (região metropolitana) e ela topou - não fazia ideia de onde ficava Cachoeirinha. Quando chegou lá, fez amizade com umas pessoas na parada de ônibus e disse - quero ir numa festa lá em Porto Alegre. As pessoas deram as indicações para ela chegar no bairro boêmio e ela foi. Conta que sempre foi assim, “desgarrada”, sem muito medo de desbravar as coisas. Um tempo depois, ela começou a ir para Porto Alegre com mais frequência. Também viveu muito tempo em Osório, porque sua mãe mora lá; E foi numa dessas vezes que, em 2016, num Galpão de Artes, ela viu a Mari pela primeira vez. Na época, a Bárbara tinha um relacionamento aberto e se interessou pela Mari, mas a amiga dela não deixou ela tentar o flerte porque a Mari estava envolvida em uma situação de uma pessoa próxima delas. A Bárbara achou tudo muito engraçado e só disse que ok, não falaria com ela. Nisso, o tempo passou. Em 2019, novamente ambas estavam em Osório, se esbarram em um bar que pertencia às amigas da Bárbara. Lá, juntaram as mesas e os amigos em comum, uma começou a conversar com a outra (e detalhe: elas não lembravam dessa situação de 2016) falaram durante horas, a noite toda, mas não demonstraram nenhum interesse - nessa época, inclusive, a Bárbara estava casada. Foi só em 2020, quando a Bárbara já tinha se separado, que ela estava num momento de sofrência deitada no colo da cunhada dela, assistindo os stories que a cunhada estava assistindo, quando apareceu um storie da Mari. Ela perguntou quem era e pediu para voltar, pegou o Instagram da Mari e começou a segui-la. A Mari seguiu de volta, elas também se seguiram no Twitter, começaram uma interação e num dia, quando viu que a Mari estava em Osório, arranjou uma desculpa com a amiga dela para irem encontrá-la - mas não deu certo, ela já tinha voltado para Porto Alegre. Interagiram pelas redes sociais de forma lenta, pela timidez da Bárbara, até que resolveram se encontrar no dia das mães, quando a Mari iria para Osório. Mas surgiu um empecilho: no dia das mães era o aniversário do pai da Bárbara, então seria meio estranho elas se encontrarem numa festa de família, né?! Foi quando a Bárbara decidiu pegar o carro e ir até Porto Alegre. Chegou na casa da Mari toda elegante, com banho de perfume, nervosíssima porque só usava bombacha e iria encontrar alguém que fazia moda. Até que foi surpreendida com a Mari abrindo a porta de pijama e meia. O primeiro encontro entre elas deu certo. Por mais que estivessem com roupas totalmente diferentes, absolutamente sóbrias e envergonhadas, a Bárbara falou por três horas ininterruptas, mas elas se deram muito bem. No fim, ficaram até 5h da manhã em Porto Alegre, depois pegaram o carro e foram até Osório, a Mari almoçou na casa da mãe da Bárbara e já conheceu a família no dia seguinte. (E sim, foi no aniversário do pai da Bárbara!) Por mais que todo esse início tenha sido rápido na interação familiar, o relacionamento mesmo foi sendo assumido aos poucos: enquanto se sentiam preparadas. Foi numa viagem em família para Itapema, em Santa Catarina, que a Bárbara pediu a Mari em namoro, no fim de junho (num nascer do sol com chuva). E em outubro surgiu o pedido de noivado. No começo, sentiam muito medo e tinham certeza que logo o relacionamento iria acabar, porque tudo era muito bom e acontecia de forma muito certa. A família da Bárbara ama a Mari e a acolheu muito bem, elas foram estabelecendo comunicação… tudo isso era muito novo, vinham de relacionamentos que não funcionavam assim, até que tudo foi firmando e elas entenderam que poderia ser real. Hoje em dia, a Mari e a Bárbara acreditam numa relação que transborde, que acrescente. A Mari investe diariamente no seu sonho de ser modelo, enquanto a Bárbara traz todo o apoio, e vice-versa nos momentos em que ela precisa de apoio para estudar para os concursos de musicista e se concentrar no seu objetivo de trabalhar com música. Entendem que não é nenhum pouco fácil estabelecer a comunicação na relação. São pessoas muito diferentes, a Mari é muito mais fechada, veio de uma criação que a fez independente no mundo, sempre se viu muito só e agora aprende diariamente a se abrir, a aceitar uma nova família, a ter amizades verdadeiras em Porto Alegre e a falar como se sente. Para ela, esses também são atos de amor diários: quando ela entende o quanto está se abrindo aos poucos. Quando recebe o carinho imenso dos familiares da Bárbara (que agora também são dela) e quando pode contar com os novos amigos. Bárbara, por fim, conta que ama muito. Não sabe definir como, mas entende que o amor que elas constróem consegue deixar todo o perrengue e toda a dificuldade leve. Ela ama o que vivem diariamente, mesmo sendo metódica dentro de casa. Ama o porquinho da índia (Caetano ♥) que cuidam juntas. Ama esse amor que faz sentido e que quer oficializar enquanto um casamento e uma família. ↓ rolar para baixo ↓ Mariana Bárbara
