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Vanessa estava com 35 anos no momento da documentação. É natural de Porto Velho, Rondônia, e é farmacêutica há cerca de dez anos. Desde então, há 6 anos, se mudou para Criciúma, em Santa Catarina, em busca de melhorias no trabalho. Na época, chegou na cidade acompanhada do ex-marido, mas com o passar do tempo a relação acabou e ela entendeu que queria seguir na cidade, construindo sua carreira. Hoje, ela descreve a própria vida como tranquila: gosta de caminhar em parques, sair para um pub, tomar um chopp de vez em quando e reunir a família aos fins de semana. Vanessa possui um filho de 10 anos que mora atualmente em Porto Velho junto da família, embora já tenha vivido um período em Santa Catarina e seja apaixonado por ela e pela Kris - agora, elas organizam a vida para que ele possa voltar a morar perto.

 

Kristiane estava com 33 anos no momento da documentação. Nasceu em Nova Veneza e vive em Criciúma. Trabalha há anos com estética animal, sempre ligada ao universo de banho, tosa e pet shops. Diferente da estabilidade tranquila que vive hoje, ela brinca dizendo que já teve uma fase “meio cigana”, sempre indo de um lugar para outro. Chegou a morar quase um ano em Portugal antes de retornar para Santa Catarina. Hoje, sente que vive um momento muito mais sereno da vida. Gosta de estar com amigos, fazer encontros em casa e aproveitar programas simples. 

 

Mesmo vindas de lugares muito diferentes - o norte e o sul - as duas parecem compartilhar uma mesma ideia de felicidade: uma vida mais calma, construída nos pequenos momentos.

Vanessa e Kris passaram meses vivendo um relacionamento que existia apenas entre telas, fusos horários e expectativas, até se conhecerem pessoalmente. Foi no Instagram, em 2023, que Vanessa, recém saída de um relacionamento conturbado, encontrou o perfil de Kris no ‘explorar’ e decidiu curtir praticamente todas as fotos dela. Kris estava em Portugal havia alguns meses, trabalhando em pet shop, tentando fazer a vida acontecer ali, já começava a se sentir cansada e deslocada, só continuava lá pelo ganho financeiro, mas sentia muita saudade de casa. No começo a troca de mensagens foi meio estranha, sem dar muita atenção. Mas quando conversaram de fato, tiveram uma conexão imediata. Depois veio o WhatsApp, as chamadas de vídeo e a sensação estranha de intimidade com alguém que nunca se viu pessoalmente. Vanessa lembra que, na época, ela estava extremamente loira nas fotos, e Kris pediu uma videochamada porque queria confirmar que aquela mulher existia mesmo. E existia. A partir dali, passaram a conversar todos os dias.

 

Mas tudo foi interrompido. Vanessa enfrentou um agravamento severo da depressão, foi hospitalizada e desapareceu completamente. Sem ter acesso ao celular, não enviava notícias para a Kris, que ficou sem entender nada - mandava mensagens que ninguém respondia, ligava e ninguém atendia. Quando Vanessa voltou a responder, semanas depois, carregava o medo de ser rejeitada ao revelar o que estava vivendo. Achava que Kris fugiria ao descobrir sua doença, o histórico das internações, a fragilidade que existia por trás da mulher engraçada e expansiva das chamadas de vídeo. Mas a resposta foi o contrário do que ela esperava: Kris acolheu a situação com delicadeza, contou que já tinha convivido com a depressão na família e pediu apenas uma coisa: “Só não some mais.” Depois disso, a relação ficou ainda mais intensa. Mesmo sem nunca terem se encontrado pessoalmente, as duas sentiam que já viviam um relacionamento à distância.

Enquanto Kris retornava de Portugal para o Brasil, Vanessa também via a própria vida mudar completamente. Precisou deixar Criciúma, voltar para Porto Velho e recomeçar perto da família, porque precisava de cuidado no momento pós-internação. Elas não se encontraram pessoalmente porque Vanessa viajou para Porto Velho poucas semanas antes da volta de Kris. Entenderam que “precisavam adiar um pouco o primeiro encontro”. Em Porto Velho, Vanessa tentava ocupar a mente trabalhando nas farmácias para não adoecer novamente, até ser contratada para gerenciar uma nova unidade. Entusiasmada, convidou Kris para ir até Rondônia visitá-la. Kris, que tinha acabado de voltar da Europa, comprou a passagem. Como ela iria explicar para a família que estava indo para o outro lado do país visitar uma pessoa que ainda não conhecia pessoalmente? Não importava. Pela primeira vez, parecia que finalmente iriam se encontrar. Só que, menos de um dia depois, Vanessa recebeu uma nova proposta de trabalho: precisaria viajar para gerenciar a montagem de novas lojas. Desesperada, ligou pedindo que Kris cancelasse a passagem antes do prazo do reembolso acabar. Para Kris, aquilo soou como um golpe. Parecia impossível acreditar que alguém pudesse chamar outra pessoa para atravessar o país e, horas depois, desfazer tudo. Elas passaram uma semana sem se falar.

 

Mesmo assim, voltaram. Porque apesar da frustração, da distância e das mudanças constantes, havia alguma coisa ali que insistia em permanecer. A dúvida continuava a mesma: quando finalmente iriam se encontrar? 


 

 

Vanessa não chegou a completar a viagem que o trabalho implicou e, foi demitida, próximo ao natal. Tomou uma decisão impulsiva: mandou mensagem para Kris dizendo que compraria uma passagem para Criciúma. Pediu o cartão dela emprestado para conseguir emitir a viagem e Kris, mesmo depois de tudo que já tinha dado errado entre elas, emprestou. Vanessa passou o natal com a família em Porto Velho e, logo depois, atravessou o país para encontrar pela primeira vez a mulher com quem falava todos os dias há meses. A viagem foi um caos: voo longo, cancelamento entre as conexões, hotel no meio do caminho, carona… As duas tinham combinado de se encontrar no aeroporto, mas até isso saiu diferente do planejado. Vanessa desembarcou em Florianópolis e precisou pegar uma carona até Criciúma. 

 

Quando finalmente se encontraram, tudo ficou simples: “A gente se olhou e disse: oi, amor.” Deram um selinho e Vanessa sentiu como se tivesse voltado para casa. Não houve estranhamento, vergonha ou adaptação. Era como se já se conhecessem há muito tempo e o encontro presencial apenas confirmasse algo que já existia antes. Desde aquele dia, nunca mais se separaram. Vanessa chegou ao apartamento de Kris e simplesmente ficou. Brincam que talvez tenham batido algum recorde de rapidez em relacionamento, porque literalmente passaram a morar juntas no mesmo dia em que se encontraram pela primeira vez.

 

Pouco depois, o filho de Vanessa foi para Criciúma conhecer Kris também. A família de Vanessa já desconfiava da relação, embora ainda existisse resistência e dificuldade de aceitar tudo aquilo. Aos poucos, porém, a convivência foi transformando as coisas. Kris conta que hoje existe proximidade, carinho e uma relação muito mais leve entre todos. Enquanto isso, Vanessa conseguiu emprego rapidamente na área farmacêutica, que considera muito forte na região. Trouxe o carro, reorganizou a rotina e começou a reconstruir a vida no sul. 

 

 

Vanessa acredita que a relação delas se sustenta principalmente em diálogo. Depois da forte depressão em 2023, ela passou a fazer acompanhamento intensivo no CAPS até o final de 2024, e entende hoje que a terapia foi fundamental para conseguir atravessar não só a depressão, mas também os medos que carregava dos relacionamentos anteriores. Existiam inseguranças profundas, especialmente o receio de não ser compreendida ou de voltar a adoecer emocionalmente dentro de uma relação. Ao mesmo tempo, ela e Kris sempre tiveram o hábito de conversar sobre tudo. Não no sentido de exigir mudanças uma da outra, mas de aprender a moldar convivências, entender limites. E foi justamente no cotidiano, nos pequenos conflitos e nas conversas difíceis, que aprenderam a lidar uma com a outra. Ainda em 2024, já sentiam que tinham encontrado um encaixe.

 

Para Kris, uma das coisas mais importantes era poder viver uma relação sem precisar esconder quem era. A família dela recebeu Vanessa com naturalidade e carinho desde o começo, então era difícil imaginar permanecer num relacionamento onde precisassem se esconder ou viver pela metade. Ela brinca que sonhava com algo simples: almoçar na casa da sogra aos domingos. Parecia banal, mas carregava um desejo profundo de pertencimento e reconhecimento. Aos poucos, Vanessa também começou a se assumir mais abertamente dentro da própria família. E a convivência foi transformando tudo. 

 

Depois de morarem em dois apartamentos diferentes em Criciúma, decidiram recomeçar mais uma vez quando Vanessa recebeu uma proposta de trabalho em Brusque, em 2025. Com cinco mil reais emprestados, colocaram a vida inteira dentro de um caminhão e partiram juntas, praticamente sem planejamento. Kris conseguiu emprego rapidamente em um pet shop e as duas tentaram construir uma nova rotina ali. Mas Brusque não virou lar. A saudade da família, o desgaste emocional e algumas inseguranças dentro da relação fizeram com que começassem a perceber que não estavam felizes. 

 

Vanessa conseguiu transferência para voltar a trabalhar em Criciúma, na mesma empresa e, no fim de 2025, retornaram. Foi também nesse período que se casaram oficialmente. A família de Vanessa viajou de Porto Velho para passar as férias em Santa Catarina e, pela primeira vez, todas as partes da vida delas começaram a se misturar de verdade: veio o filho, os sobrinhos, a mãe, a irmã. A rotina mudou completamente. E meses depois elas foram até Porto Velho também, então aquele almoço de domingo na casa da sogra, que Kris sonhava desde o começo, finalmente aconteceu. 

 

 

Hoje, Vanessa diz que enxerga o amor delas principalmente na paciência. Ela se percebe muito diferente da mulher ansiosa e impulsiva que era antes. Entende que amar outra mulher também exigiu reaprender formas de cuidado, delicadeza e comunicação.

 

Kris acredita que também amadureceu muito dentro da relação, especialmente em relação ao ciúme. Conta que sempre foi extremamente ciumenta, mas que aprendeu que a vida não pode existir apenas ao redor do relacionamento. Ainda que tenham uma relação muito próxima, tentam cada vez mais construir individualidade e leveza. E agora vivem um novo momento: a possibilidade de ter filhos juntas. Vanessa voltou a desejar a maternidade e sonha em engravidar novamente, enquanto Kris sempre imaginou a construção da família pela adoção. Ela nunca teve vontade de gestar, embora deseje profundamente ser mãe. Então as duas conversam, negociam possibilidades, imaginam futuros diferentes. Para elas, a relação parece funcionar em fases muito marcadas: 2024 foi o ano da paixão intensa e da descoberta; 2025, o da estabilidade e do casamento. Agora, em 2026, sentem que estão entrando em um novo degrau: o de imaginar, pela primeira vez, uma família juntas.

 Vanessa 
 Kris 
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