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Raíssa estava com 32 anos no momento da documentação. Nasceu em Salvador e adora a cidade. É uma pessoa caseira, trabalha em casa, sendo psicóloga, e quando não está na sua rotina gosta de ocupar o tempo assistindo séries, aproveitando o espaço e a tranquilidade do lar. Quando sai, gosta de visitar amigos, praticar algum esporte e ir à praia. Para ela, o conforto está justamente nesse ritmo mais íntimo.

 

Stephanie estava com 29 anos no momento da documentação e é dentista - uma profissão que confessa, logo de primeira, amar e fazer parte importante da sua vida e da sua rotina. Diferente de Rai, ela gosta bastante de estar em movimento, encontrando amigos, fazendo programas diurnos e experimentando coisas novas. Nos primeiros meses de 2026, tem se permitido viver bastante, ocupando o tempo com encontros e experiências. Ela também é natural de Salvador, nasceu e cresceu no Largo do Dois de Julho, uma região bem central da cidade, lugar histórico que carrega boemia e muitas memórias. Conta que ter crescido ali significa conhecer as pessoas, as ruas e os ritmos do bairro, já que seus pais também vivem o bairro e a região. Ela adora o quanto isso molda sua personalidade: uma pessoa conectada com a cidade, engraçada e observadora do mundo ao redor. 

 

 

Stephanie e Raíssa se conheceram em 2015, na faculdade. Estudavam na mesma instituição, mas em cursos diferentes e em momentos distintos da graduação: Stephanie era caloura e Raíssa já estava perto de se formar. Foi quando se inscreveram para ser monitoras em uma mostra científica (porque precisavam cumprir carga horária) que acabaram na mesma sala e começaram a se conhecer. Na época, Stephanie ainda se entendia como heterossexual, mas estava acompanhada de amigos LGBTs, viu Raíssa (que por sua vez tinha terminado recentemente seu primeiro namoro com uma mulher e atravessava um período de coração partido) e questionou aos amigos se eles achavam que ela era do ‘vale’: todos responderam de forma unânime > “sim”.

 

Durante aquela semana da mostra, trocaram números para resolver questões do evento e começaram a conversar. Stephanie tentava flertar, mas Raíssa não percebia. Ou até percebia, mas entendia que Ste era hétero e acreditava que ela estava apenas com curiosidade. Pegavam ônibus juntas… e depois das insistências, chegaram a se beijar algumas vezes. Mas nunca se tornou uma relação de fato. Depois disso, o vínculo entre elas passou a existir em idas e vindas: às vezes conversavam, às vezes se encontravam, ficavam, depois cada uma seguia sua vida e se relacionava com outras pessoas. Brincam que as duas sempre foram muito “namoradeiras”, então, entre 2015 e a pandemia, passaram cerca de cinco anos nesse movimento de se aproximar, ficar vez ou outra, se afastar, e voltar a se encontrar.

 

Em 2022, novamente solteiras, voltaram a conversar sobre relacionamentos e decidiram se encontrar novamente. Ste chamou Rai para conversar e brincou: “Não percebeu nada de diferente no meu perfil, não?! Estou solteira!”. Foram se encontrar mais uma vez. Acharam que iria ser como das outras vezes, mas foi diferente: começaram a ficar com mais frequência, mas ainda sem assumir nada sério. Uma dizia que queria namorar, construir uma família e ter filhos, enquanto outra não se sentia pronta para assumir um relacionamento ou pensar nesse tipo de futuro. Nesse meio tempo, quando viram que existia a possibilidade de se afastarem de novo e se relacionarem com outras pessoas, surgiu um medo real de perder alguém importante que até então não havia existido nos outros anos. Algo estava diferente.

 

 

Ste foi viajar enquanto elas ainda não haviam começado o namoro de fato e, quando voltou para Salvador, enfrentava um momento difícil com o cachorro doente. Rai estava muito confusa entre ciúmes que sentia por ver Ste ficando com outras pessoas, entre não saber se a relação delas viraria um namoro, entre muitas questões... Achou melhor separar as coisas de Ste na sua casa e deixar para que, em algum momento, ela fosse buscar. Mas, quando ela chegou, precisava mesmo era de apoio. Independente da relação que estavam construindo recentemente, já estavam na vida uma da outra há 10 anos. Agora ela precisava de Rai como amiga, como acolhimento. Verbalizou isso e Rai permaneceu. Foi enfrentando esse processo difícil, depois de tantos anos e tantos momentos diferentes de vida, onde decidiram se dispor verdadeiramente em uma relação amorosa. 

 

Seguiram juntas por mais um tempo e entenderam que estavam dispostas a tentar de verdade: em pouco tempo estavam oficialmente namorando e, logo depois, Stephanie já estava morando na casa de Raíssa. A relação começou a se estruturar de um jeito muito consciente, baseada principalmente em conversas longas e sinceras. Desde o início, as duas perceberam que precisavam falar abertamente sobre tudo: expectativas, sentimentos, limites e inseguranças. Questões que muitas vezes aparecem de forma silenciosa em outros relacionamentos como ciúmes, interesse por outras pessoas ou o formato da relação (se seriam monogâmicas, não-monogâmicas, como sentem os desejos por outras pessoas…) eram colocadas na mesa e discutidas com cuidado. Essa disposição constante para o diálogo acabou se tornando uma das bases mais fortes da relação, permitindo que o vínculo continuasse crescendo com confiança, carinho e respeito.

 

Stephanie conta algo importante do início da relação: sempre quis viver um amor que pudesse ser dito em voz alta. Queria se sentir amada dessa forma, sem dúvidas, sem esconderijos. Quando Raíssa soube disso, decidiu preparar algo especial. Procurou as melhores amigas de Ste para descobrir do que ela gostava, o que a faria feliz, que tipo de surpresa combinaria com ela. Com a ajuda delas, pensou em cada detalhe para fazer um pedido de namoro, seria o ato oficial. Ela montou uma playlist pensando em todo o trajeto que Ste fazia até em casa, para que cada música acompanhasse o trecho. Depois, em casa, havia uma caça ao tesouro com post-its espalhados contendo os trechos das músicas e pequenos recados carinhosos. Ao final, ela encontraria o pedido, acompanhado de um jantar simples, à luz de velas, mas com um detalhe: as velas eram de plástico, por conta do cachorrinho, que transforma qualquer momento em bagunça. Por muito tempo, elas seguiram usando as velas nos momentos do lar e contam que, de fato, ele mordeu todas. Era preciso mesmo que elas fossem de plástico.  

 

 

Morar juntas foi um passo natural para Raíssa e Ste, mas outras decisões exigiram mais alinhamento. Rai, por exemplo, sempre disse que não fazia muita questão de casar, que via o casamento mais como uma formalidade burocrática. Já Ste tinha o desejo de viver esse momento, de construir um casamento como parte do seu projeto de vida. Em vez de virar um impasse, isso também virou tema de conversa: o que cada uma imaginava, quais expectativas estavam envolvidas e como poderiam construir algo que fizesse sentido para as duas.

 

Aos poucos, o significado do casamento também foi mudando. Além do desejo por uma celebração romântica, surgiu a dimensão política de duas mulheres decidirem se casar, ocupar esse espaço e afirmar um direito conquistado. Quando ficaram noivas, algumas pessoas da família estranharam, já que elas já moravam juntas. Para as duas, porém, o noivado representava exatamente o contrário: não era o fim de um processo, mas o começo de um novo passo. Ainda haverá cerimônia, festa, celebração… E a vontade de marcar publicamente a construção da vida que escolhem compartilhar.


 

 

Stephanie e Raíssa contam que a relação delas é marcada pelo cuidado e pela forma amorosa como se tratam. Até entre as amigas a relação delas já se tornou uma referência de amor tranquilo. E esse cuidado se estendeu às amizades: para elas, os amigos fazem parte da família que escolheram construir ao longo da vida.

 

Ste costuma dizer para a Raíssa que o amor que vivem não é uma paixão avassaladora, mas também está longe de ser morno. É simplesmente real. Existem momentos românticos, claro, mas também há rotina, e essa rotina não diminui o sentimento. Pelo contrário: nela existe sossego. É muito bom chegar em casa e saber que vai estar tudo bem. Depois de experiências anteriores marcadas por confusão, a calmaria chegou a assustá-las por um momento. Com o tempo, entenderam que a tranquilidade também é uma forma de amor.

 

Essa estabilidade, longe dos altos e baixos constantes, tornou-se um dos pilares da relação. Há também algo que consideram muito especial: elas compartilham tudo. Qualquer acontecimento, pequeno ou grande, é dividido primeiro entre as duas. Isso construiu o espaço seguro, onde não há medo de julgamento. Além disso, há também o incentivo: uma apoia os sonhos da outra, mesmo os mais inesperados. Ideias que surgem de repente “E se eu mudar de carreira?” “E se eu começar uma residência?” “É possível?! Então bora!”. Saber que a outra estará ali, sustentando o caminho, faz toda a diferença. No fim, completam com uma frase: “É muito bom saber que as nossas terapias, individuais, serão sobre outros problemas e não sobre o nosso relacionamento”. 

 Raíssa 
 Stephanie 
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