Melina nasceu em Fortaleza, mas cresceu dividindo a vida entre o Ceará e a Serra Gaúcha. Desde os 10 anos de idade passava alguns meses do ano no Rio Grande do Sul com a família, até que, depois dos 20, decidiu se mudar de vez. Primeiro foi para a Serra e, em 2023, chegou em Porto Alegre. Gosta de arte e de criação em diferentes formas: já experimentou vários instrumentos musicais, mas foi na guitarra que o amor permaneceu. Também gosta de fotografia e começou recentemente a cursar Psicologia. Atualmente, constroi uma carreira como streamer de jogos.
Mundana é natural da região metropolitana de Porto Alegre. Saiu de casa aos 16 anos, depois que a família não aceitou sua sexualidade. Conta que viveu uma infância marcada por negligências e que a situação piorou quando se apaixonou por uma mulher. Na tentativa de afastá-la desse relacionamento, a família chegou a levá-la para o interior de Santa Catarina, acreditando que deixá-la longe do contato com a cidade poderia “corrigi-la”. Mas ela encontrava caminhos para escapar até Florianópolis e viver a vida queer que desejava. Foi na noite, nas festas underground, nas galerias de arte e nos movimentos artísticos que encontrou pertencimento.
Quando voltou sozinha para Porto Alegre, ainda adolescente, começou a construir sua própria vida dentro desse universo criativo. Hoje trabalha como drag queen, atriz e criadora de conteúdo, tanto para si quanto para marcas. Moda, maquiagem e estética fazem parte do seu cotidiano e também como um grande hobbie: ela adora maquiar a Mel, brinca que a transforma em uma grande Barbie pessoal. Também cultiva hobbies onde pode simplesmente existir sem cobrança: faz cerâmica fria, colagens, cria objetos para casa e mergulhou no design de interiores decorando o novo lar - talvez esse até seja seu novo maio passatempo: imaginar e construir espaços.
No começo de 2026, Mel e Mundana se conheceram através de um aplicativo. Antes mesmo do primeiro encontro, começaram a conversar sobre o que estavam buscando ali. Mundana comentou que era monogâmica e romântica incurável (algo que hoje, segundo ela, parece quase fora de moda nos aplicativos). Mel sentiu um alívio imediato ao ouvir isso, porque também procurava o mesmo tipo de conexão. As duas estavam desacreditadas dos relacionamentos, mas ainda abertas à possibilidade de encontrar alguém que valesse a pena.
O primeiro date foi simples: saíram para beber cerveja e conversar. Mas chegaram ansiosas e emocionalmente distantes. 2025 foi um ano muito duro para elas. Mundana havia saído de um relacionamento longo e conturbado, e Mel também havia tido um término recente. Nenhuma das duas se sentia exatamente pronta para se apaixonar. Mesmo assim, alguma coisa aconteceu logo que se encontraram. Mel descreve a sensação como algo quase químico, imediato. Mundana percebeu outra coisa: o silêncio entre elas não era desconfortável. Elas conseguiam simplesmente existir juntas, em paz.
No dia seguinte ao encontro, Mundana viajou para Florianópolis para passar o carnaval. Tentou aproveitar a solteirice, sair, curtir a festa, mas não conseguia parar de pensar em Mel. Enquanto se arrumava para os blocos, fazia chamadas de vídeo, mostrava looks, pedia opinião sobre maquiagem. Mel, do outro lado, também tentava se conter para não parecer emocionada cedo demais. Mesmo tentando “não queimar a largada”, as duas seguiram conversando o tempo inteiro. Quando Mundana voltou de Floripa, Mel foi buscá-la na rodoviária levando seus chocolates favoritos de presente. Mundana conta como aquilo marcou e ela achou extremamente fofo, e foi um dia especial porque de lá, não se desgrudaram mais. Os encontros passaram a ser diários, dormiam uma na casa da outra, a relação cresceu de forma natural, como se encontrassem um descanso uma na outra.
Depois do carnaval, elas praticamente passaram a viver uma na casa da outra. Mel dormia no apartamento de Mundana quase todos os dias, Mel buscava ela no trabalho e a rotina começou a se construir sem que precisassem planejar muito. Em determinado momento, Mundana começou a ajudar Mel a procurar um apartamento, pois ela precisava se mudar e seria ótimo se morassem mais próximas. Foram visitar alguns lugares juntas, encontraram alguns apartamentos, mas todos pareciam muito grandes. Aos poucos, perceberam que a conversa tinha mudado de direção: estavam começando a desejar morarem juntas.
Mel já tinha pensado nisso, embora tentasse se convencer de que estava sendo “emocionada demais”, querendo dividir uma casa com alguém que conhecia havia menos de um mês. Mundana, inclusive, tinha estabelecido limites para si mesma depois das experiências anteriores. Queria ir devagar, não repetir padrões impulsivos. Mas, entre elas, tudo parecia acontecer de forma muito natural. Aos poucos, foram percebendo que a confiança que sentiam uma na outra não vinha de impulso, mas de uma sensação muito concreta de segurança. Além do desejo de estarem juntas, havia também a vida prática acontecendo. Cada uma tinha seu apartamento, cada uma tinha um gato, e manter duas casas enquanto passavam todo o tempo juntas começou a ficar cansativo. Um dia, tentando preparar um jantar, perceberam que metade dos ingredientes estava em uma casa e metade na outra. Precisaram atravessar a cidade várias vezes buscando coisas esquecidas e, no meio do estresse, entenderam que talvez aquilo tudo já fosse, de certa forma, uma vida compartilhada.
Mundana conta que foi percebendo algo novo dentro daquela relação: pela primeira vez amar parecia fácil. Mesmo nos relacionamentos bons que teve antes, sempre existia a sensação de estar forçando alguma coisa, indo rápido demais ou sendo intensa demais. Com Mel, isso não acontecia. Claro que existia medo, principalmente porque ambas vinham de relações longas e difíceis, mas o amor não parecia pesado. Pelo contrário: parecia simples. Conforme conversavam sobre o futuro, descobriram que queriam as mesmas coisas. Viajar, morar fora do Brasil por um tempo, construir uma vida criativa, trabalhar na mesma área, compartilhar uma casa bonita cheia de referências estéticas, arte e conforto. Aos poucos, tudo foi se encaixando de um jeito tão natural que nenhuma das duas precisou decidir exatamente quando deixou de ser um começo e virou um lar.
Mundana conta sobre um vídeo que gravou descolorindo a sobrancelha da Mel e, ao editar depois, perceberam a expressão impossível de esconder: a “cara de apaixonada” dela todo o momento no vídeo. Neste dia, ainda que fosse no começo da relação, Mel deixou escapar falando que estava realmente apaixonada. Ao perceber que disse tão naturalmente, sem pensar, as duas riram um pouco tímidas pela exposição - ainda era cedo demais para nomear aquilo em voz alta, mas o sentimento já estava ali, atravessando os pequenos gestos, os silêncios e a forma como se olhavam.
Mesmo apaixonada, Mundana ainda carregava muitos medos. No começo da nossa conversa ela disse que nunca viu o amor como algo fácil de lidar. E, depois de relações difíceis, ela sentia necessidade de observar quem Mel era no cotidiano, principalmente na maneira como tratava outras pessoas. Prestava atenção em como ela falava com desconhecidos na rua, como conduzia o fim do relacionamento anterior e como lidava com alguém com quem já não existia amor romântico, mas ainda existia cuidado. Foi aí que começou a confiar de verdade. Via em Mel uma gentileza muito rara, quase excessiva às vezes, uma forma genuína de tratar as pessoas com respeito. Pela primeira vez, ela sentia que talvez pudesse se entregar sem medo de ver tudo desmoronando depois - e isso a tranquilizou.
As conversas entre as duas passaram então a ser muito honestas. Existia amor, mas também existia realidade: diferenças financeiras, traumas antigos, medo de abandono e a necessidade de construir segurança concreta, formas de lidar com o próprio corpo... Mundana precisava saber que, se um dia acabasse, não perderia tudo de novo. Precisava sentir que não seria deixada desamparada. E, aos poucos, foi entendendo que o amor que Mel oferecia não funcionava na lógica da condição. Não era um amor que dependia de desempenho, perfeição ou obediência. Era presença, apoio e acolhimento.
No momento da documentação, a mudança para o novo lar havia acontecido há apenas duas semanas, então pergunto sobre como elas estão se sentindo neste começo de lar. Elas entendem que a casa fala de algo que já existia antes mesmo das paredes. Existe uma sensação muito forte de pertencimento ali. Elas contam que fizeram um esforço consciente para transformar rapidamente o apartamento em lar: escolher móveis, pensar decoração, reformar, reorganizar espaços e deixar tudo com a cara das duas. Estão em processo de adaptação das gatas… O que antes parecia um apartamento qualquer agora parece extensão delas. E talvez por isso exista tanta naturalidade na forma como ocupam aquele espaço. Mel fala sobre finalmente se sentir segura dentro de uma casa, segura dentro da convivência e segura ao lado de alguém.
Ainda estão se conhecendo enquanto aprendem simultaneamente como é dividir uma rotina, uma cama, um silêncio, uma cozinha e um cotidiano inteiro. Mas, ao contrário do medo que normalmente acompanha mudanças rápidas, elas falam sobre conforto. Nenhuma das duas repensa a decisão de morar juntas. Pelo contrário: existe uma sensação constante de que aquilo fazia sentido desde o começo. E mesmo quando aparecem pequenas questões naturais da convivência, elas percebem que conseguem atravessar tudo sem violência. Sem gritos, sem humilhações, sem disputa de ego. Elas conversam, se escutam e dão espaço quando necessário. Existe uma tentativa muito consciente de acolher a outra antes de tentar vencer uma discussão.
As duas também falam sobre como a neurodivergência atravessa o relacionamento de forma muito importante. Mel é autista, e Mundana é bipolar. Ao invés de transformarem isso em rótulos ou acusações, constroem compreensão. Aprendem uma sobre os limites da outra, levam as questões para a terapia, ajustam rotinas e criam espaços de acolhimento quando uma percebe que a outra está desregulada. Existe um esforço constante para não transformar conflito em violência. Quando precisam de espaço, respeitam.
Por fim, elas ressaltam como o relacionamento criou um espaço de aprendizado mútuo sobre os próprios corpos, limites e necessidades. Mel é uma mulher trans, Mundana é uma mulher cis, e existe algo muito bonito na maneira como descrevem o processo de descobrirem o próprio corpo: explicar coisas aparentemente óbvias sobre si mesma para a outra, descobrir novas formas de cuidado, entender sensibilidades e perceber que algumas inseguranças deixam de existir quando são olhadas com carinho. Nenhuma delas parece interessada em moldar a outra. Existe uma curiosidade amorosa, uma disposição constante para compreender e uma vontade muito sincera de ver a outra crescer. O amor entre elas aparece menos como idealização e mais como presença.
























