Lorena estava com 34 anos no momento da documentação, é natural de Luziânia - GO e se mudou para Salvador - BA há 13 anos, depois de passar em um concurso para trabalhar como geóloga. Veio acompanhada do filho, que estava com três anos na época, e precisaram atravessar juntos o processo de adaptação em uma cidade com culturas muito diferentes. Hoje, quase dez anos depois, ele já se sente em casa na Bahia - e ela brinca que o filho já possui até sotaque. Ainda existe saudade da família que ficou em Goiás, claro, mas ela gosta da forma que sua vida acontece em Salvador: o trabalho e a família que está construindo. Ao falar da relação com a Ju, uma das coisas que mais valoriza é poder ser, ao lado dela, uma versão mais leve de si mesma: “Eu acho que eu nunca pude ser tão bobinha”, diz. Ela gosta de rir das coisas triviais e de sentir que, juntas, estão fortalecendo esse lugar de pertencimento.
Juliana estava com 29 anos no momento da documentação e nasceu em São Paulo - SP, mas praticamente toda a sua história foi construída na Bahia. A família, que já era baiana em maioria, voltou para o estado logo depois de seu nascimento e foi morar em Eunápolis, no sul do estado. Quando tinha cerca de 10 anos, mudou-se para Salvador, junto da sua mãe. Apesar de continuar no mesmo estado, a mudança foi enorme: a comida, o jeito de falar, a escola e os costumes eram diferentes. E, junto com a mudança, vivia um luto muito grande pelo falecimento precoce do seu irmão mais velho. O luto atravessou a família e fez com que Ju desenvolvesse uma relação difícil com a cidade, conta que durante a adolescência queria ir embora, sair da Bahia, talvez voltar à São Paulo. Aos poucos, porém, começou a fazer as pazes com Salvador e isso se deu pela leitura, conhecendo autores baianos e descobrindo outras formas de enxergar a cidade.
Juliana conta que cresceu sentindo dificuldade de encontrar espaços em que pudesse existir plenamente. Tinha parentes por perto e fazia amizades através deles, mas sentia que não conseguia criar raízes próprias. Muitas vezes chegou a acreditar que o problema era ela ser quem era. Mais tarde, fez cursos técnicos, começou uma faculdade, desenvolveu mais independência e, com a terapia, entendeu o diagnóstico de TEA, encontrando maneiras de respeitar e acolher seu próprio corpo. Depois, começou a trabalhar com a sua mãe como personal organizer, trabalho que permanece até hoje. Recentemente, deu outro passo importante: saiu da casa da família e foi morar com Lorena. As duas compartilham o gosto pela natureza e, de formas diferentes, parecem ter encontrado uma na outra também um lugar de pertencimento. Ju diz que gosta muito de pessoas, daquilo que chama de “essência humana”, e se reconhece como alguém um pouco “analógica demais” diante da velocidade da vida moderna. Talvez por isso valorize tanto as relações que permitem desacelerar, estar presente e construir, pouco a pouco, uma família.
Quando se conheceram, Juliana e Lorena estavam atravessando momentos parecidos de recomeço.
Ju havia acabado um relacionamento recentemente, terminou também os estudos e se viu novamente tentando entender os próprios caminhos. Foi então que baixou um aplicativo de relacionamento, em 2023, mas sem uma expectativa muito definida de namoro, queria conhecer pessoas, conversar, fazer novas amizades.
Lorena também vinha de uma história marcada por relacionamentos longos com homens, até perceber que estava apaixonada por uma mulher. Viveu essa relação, mas ainda escondida, por mais que se sentisse bem com a própria sexualidade. Quando terminaram, ela ficou bastante abalada e também sentiu necessidade de se reencontrar, foi quando abriu um aplicativo de relacionamentos para conhecer novas mulheres. A partir do uso, tanto ela quanto Juliana estavam frustradas: “Ninguém conversa, ninguém troca ideia”. Pediu até uma “consultoria” para o melhor amigo, que deu dicas para ela deixar o perfil mais atraente. A consultoria deu certo: no dia seguinte, esbarrou com a Juliana no app e começaram a conversar. Passaram 40 minutos conversando sem parar e, antes de dormir, pensou como pareciam se conhecer há tanto tempo, desenvolvendo uma conversa tão boa. “A conexão foi leve e espontânea”, contam. Depois daquela primeira conversa, marcaram de se encontrar pessoalmente.
O primeiro encontro aconteceu de um jeito que combinava com o momento que Juliana e Lorena estavam vivendo. Ju não estava necessariamente procurando um ‘date’, então costumava pensar em coisas que queria fazer e chamar alguém para acompanhá-la. Foi assim que lembrou do Cinesom, um projeto que acontecia às sextas-feiras no Museu Geológico, com uma sessão de cinema relacionada a um artista e, depois, um show com músicas desse artista. Viu que teria uma das edições sobre Legião Urbana, banda que sempre gostou, então chamou a Lorena para acompanhá-la. As duas assistiram ao filme, ficaram para o show, conversaram, tomaram vinho (Ju contou rindo que até quebrou uma taça) e estenderam a noite para o Rio Vermelho, bairro boêmio da cidade.
Desde o começo, conversar nunca pareceu exigir esforço entre as duas, os assuntos se costuravam um no outro. Mas Juliana estava cuidadosa para não transformar aquela proximidade em algo que não queria naquele momento: não se sentia confortável para ter uma relação amorosa. Criou para si uma regra: não sair para encontros toda semana. E, como costuma levar muito à sério as próprias regras, manteve certa distância, mesmo gostando muito de estar com Lorena. As duas conversavam abertamente sobre isso, sempre estiveram muito à vontade para falar o que sentiam, inclusive sobre não querer um relacionamento naquele momento e saírem com outras pessoas.
Para Lorena, porém, a conexão estava ganhando outro significado. Antes mesmo de qualquer relacionamento, elas já conversavam sobre o quanto gostavam da companhia e da vontade de continuarem presentes na vida uma da outra, independentemente de estarem disponíveis para ficar ou não. Existia uma espécie de acordo silencioso e, ao mesmo tempo, muito conversado: “Eu gostei de você, eu quero você na minha vida.” E isso foi criando uma relação baseada em confiança, respeito e apoio, mesmo enquanto cada uma seguia caminhos afetivos diferentes.
Foi nesse período que Lorena viajou para São Paulo e acabou conhecendo outra mulher por quem se apaixonou. As duas começaram a namorar com o decorrer do tempo, e, mais uma vez, Lorena e Juliana conversaram abertamente sobre o que estava acontecendo, fazendo com que o namoro não apagasse o vínculo que havia surgido entre elas.
Quando Lorena voltou de São Paulo, ela e Ju já tinham um encontro marcado para o Festival de Verão de Salvador. Dias antes do evento, porém, Lorena chamou Juliana para conversar e contou que estava namorando. Ju quis saber se ela estava feliz, o que estava sentindo sobre. Depois, Lorena explicou que era um relacionamento aberto - ela e Ju até chegaram a ficar nesse início, mas na semana seguinte a namorada de Lorena chegava em Salvador e elas entenderam que não era confortável seguirem ficando, melhor serem amigas. Ju reforça que pensou que, independentemente de o relacionamento ser aberto, preferia preservar a amizade, não queria correr o risco de que Lorena precisasse se afastar dela ou escolher entre as duas. Elas pararam de se relacionar amorosamente, mas continuaram conversando, marcando cafés, indo ao cinema, convidando uma à outra para sair e acompanhando de perto o que estava acontecendo na vida de cada uma.
O namoro de Lorena durou cerca de cinco meses. Em 2024, quando terminou, ficou muito mal e encontrou apoio principalmente nas irmãs e em Juliana. A essa altura, a relação entre as duas já tinha mudado de lugar: tinham se tornado melhores amigas. Mesmo sem saber ainda o que aquela proximidade poderia significar para o futuro, existia entre elas uma intimidade construída ao longo do tempo, baseada em presença, conversa e cuidado.
Lorena brinca que, com o passar do tempo, começou a flertar com a Ju “por esporte”, como uma brincadeira. Juliana, porém, sempre cortava. Para ela, naquele momento, Lorena já ocupava um lugar muito definido: era sua melhor amiga e ela não queria arriscar uma amizade tão importante. Até que, certo dia, numa nova tentativa de flerte da Lorena, Ju pensou em corresponder para ver o que acontecia. Pela primeira vez, sentiu que confiava o suficiente na relação que haviam construído para acreditar que, se alguma coisa desse errado, elas conseguiriam sentar, conversar e resolver.
O que ela não esperava era que aquele beijo mudasse a forma como ela enxergava Lorena. Elas já se conheciam havia cerca de um ano, tinham compartilhado histórias, intimidades e construído uma confiança profunda. O único espaço que ainda não haviam experimentado era justamente se permitir viver o lado romântico. Juliana vinha de um longo período solteira, já começava a perceber que gostava da ideia de estar em um relacionamento novamente, mas queria teria que ser com alguém que realmente fizesse sentido para ela. E, depois daquele encontro, começou a juntar as peças: talvez Lorena fosse justamente essa pessoa.
Nos dias depois que voltaram a ficar, ainda sem entender direito o que aquilo significava, Lorena contou ao melhor amigo o que tinha acontecido. A reação foi quase de quem já esperava por aquilo: para ele, era óbvio que as duas acabariam ficando. Depois, Lorena ouviu a mesma coisa da psicóloga, da irmã e de outras pessoas próximas. Ainda assim, para ela, naquele primeiro momento, parecia que poderia ser apenas um beijo entre duas amigas. De qualquer forma, ouvindo tantas opiniões, decidiu conversar com Juliana para saber como ela estava se sentindo. Ju disse que, por enquanto, estava tudo bem, mas que talvez aquilo mudasse depois, precisava entender esse sentimento.
Nos dias seguintes, porém, as duas acabaram se vendo pouco. Juliana começou a perceber que estava diferente e, em um perfil privado do Instagram onde costumava publicar textos para poucos amigos, escreveu sobre o medo de estar se apaixonando novamente. Lorena descobriu o texto por acaso, enquanto estava em um show com outra pessoa. Na fila do banheiro, abriu o Instagram e encontrou a publicação de Juliana. Leu e começou a fazer as contas: “Será que sou eu?”. Quando percebeu que provavelmente era, entrou em pânico. Tinha medo de que aquilo significasse o fim da amizade. Na terapia, conversando sobre isso, chegou à conclusão: elas eram amigas o suficiente para conseguir conversar sobre aquilo. E foi o que fizeram.
Lorena contou a Juliana que sempre tinha gostado dela, que a admirava e a amava muito, mas que tinha medo de machucar a relação. Queria fazer diferente das experiências anteriores e, em vez de fugir diante do medo, conversar sobre tudo. Disse que queria continuar ficando com ela, mesmo sem saber onde aquilo iria chegar, e propôs que as duas fossem francas sobre qualquer sentimento que surgisse. Ju também deixou claro que estava gostando dela, mas sem exigir respostas ou garantias. As duas decidiram experimentar aquele novo lugar com honestidade, mantendo também a amizade que já existia. Ficaram assim por cerca de dois meses, entre conversas, inseguranças e descobertas.
Para Lorena, foi um período de muita ansiedade porque ela tinha medo de sentir tudo aquilo sozinha e de perder a amizade de Ju. Por isso, quando Juliana finalmente disse pela primeira vez que estava apaixonada por ela, Lorena desabou. Chorou muito, tomada ao mesmo tempo pelo alívio de descobrir que aquele sentimento era correspondido e pelo medo de tudo o que aquilo poderia significar. Combinaram de viver a relação e encontrarem seu próprio ritmo. Já viviam como um namoro, só não nomeavam, até que o filho de Lorena perguntou, quase como quem aponta o óbvio: “Por que vocês não namoram??”. Foi assim que, depois de um ano de amizade e de dois meses experimentando esse novo lugar entre elas, começaram a namorar.
Hoje, Juliana também ocupa um lugar que nunca imaginou viver: o de madrasta. Ela participa ativamente da educação do filho de Lorena e, mesmo antes de as duas morarem juntas, no começo do ano, já costumava ir até a casa delas para ficar com ele quando Lorena precisava trabalhar ou viajar. Ela não sente que isso tenha mudado o que deseja para a própria vida, mas passou a compreender melhor tudo o que essa experiência traz, entre as coisas boas, as dificuldades e também a responsabilidade de exercer uma função que não havia planejado.
A presença de Juliana também fez Lorena olhar para a própria maternidade de outra maneira. Em meio aos conflitos e às decisões do cotidiano, Juliana certa vez perguntou: “O que você quer ensinar pra ele? Que tipo de mãe você quer ser?”. A pergunta abriu espaço para uma reflexão que Lorena, criando o filho sozinha, nem sempre tinha conseguido fazer. Durante muito tempo, sua relação com a maternidade havia sido marcada pela necessidade de simplesmente resolver o que aparecia, “apagar os incêndios”, como diz. Com o suporte de Ju, passou a ter mais apoio para parar, pensar e construir conscientemente a mãe que deseja ser.
“Eu acho que a parte mais forte do nosso relacionamento é que a gente confia muito. A gente se conheceu com muita cautela, com muito tempo. Isso da gente ter tido esse espaço de se conhecer sem a pressão de se apaixonar, sabe? Foram em tempos diferentes, fez muita diferença”, conta Juliana.
“É um amor que surge da amizade, né? Então eu gostei de poder conhecer a Ju profundamente. Sabemos muito sobre as dores uma da outra, nos apoiamos como amigas, mas construímos uma família”, conta Lorena.
























