A Luana e a Maiara são duas mulheres que não se conheceram por tantas lutas e tantos gostos em comum, mas foram descobrindo isso aos poucos entre papos e conversas. Quando elas se conheceram, na verdade, nem imaginavam o quanto poderiam se encaixar: foi num match de Tinder, quando a Maiara passava pelo aeroporto de Porto Alegre, que a Luana apareceu e ela achou a bio dela engraçada, resolveu dar ‘like’. Conversaram e logo ela saiu da capital, foi até a sua cidade, Pelotas, que fica no interior do Rio Grande do Sul. 

 

Continuaram conversando por um tempo, mais ou menos um mês, até que a notícia veio: a Maiara tinha voltado com a ex. Luana ficou um pouco triste e até meio irritada, ela confessa. “Poxa, um mês ali, né? Dá esperanças na gente”. Agora ri. Mas não queria que a Maiara saísse da sua vida, então encarou a amizade, afinal, se encaixaram tão bem… 

 

O ano era 2019 e a Maiara viajava bastante por conta de alguns trabalhos. Ela era bolsista e falava sobre saúde da população negra, enquanto a Luana também estava trabalhando num projeto do Estado de Implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, então a Maiara viajava o brasil e a Luana o Estado junto com esses projetos… o que não deixava de ser, também, uma forma de aproximar as duas. Elas conversavam, trocavam figurinhas, assuntos em comum, interesses pela mesma área, pesquisas, livros e referências.


 

Foi durante uma viagem que elas conversaram por mensagem e mandaram áudios cantando no karaokê músicas bêbadas, se divertiram, passaram do ponto, choraram… E depois, quando a Luana estava de volta em Porto Alegre, a Maiara fez uma ligação por telefone. Ficaram pensando: O que se fala no celular quando se liga para alguém depois de mandar vários áudios cantando no karaokê?! 

 

No fundo, toda essa sensação estranha não era pelo karaokê, mas por não estarem sabendo lidar com o que sentiam uma pela outra enquanto a Maiara ainda estava em um relacionamento… Foi quando conversaram e a Luana disse que era melhor fazerem alguma coisa para mudar isso. A Maiara tomou iniciativa, terminou o relacionamento e elas combinaram de se ver, em Porto Alegre. 

 

Deu certo o encontro e todo final de semana, praticamente, eles repetiam. Maiara ia até Porto Alegre, elas se encontravam e passavam um tempo juntas, foi virando algo à distância, porque se viam de tempos em tempos, até que chegou a pandemia e ela se mudou de vez. Claro, existiram muitas conversas sobre os espaços e as individualidades, tanto que preferiram manter duas casas, ao invés de realmente morarem juntas, mas irem para a mesma cidade seria a melhor opção para que a vida se adaptasse (e os trabalhos também) durante o período pandêmico.  

A Luana tem 29 anos e é terapeuta ocupacional. Maiara tem 32 anos, é formada em Educação física e está se graduando em Psicologia. Elas adoram andar de bicicleta, cozinhar, praticar esportes, tomar chimarrão e ficar em casa deitadinhas conversando sobre várias coisas. 

 

Para a Maiara, amar é sempre um ato político. E isso inclui o amor que ela sente pela Luana. Demonstrar o afeto e o amor delas, como elas estavam fazendo enquanto conversávamos, é um ato político. É romper todas as amarras que um dia já foram colocadas. 

 

A Luana explica que os lugares que elas ocupam por serem mulheres negras é estar sempre reafirmando quem elas são, principalmente quando (e por) escolheram estar juntas. “São duas mulheres negras se amando. Isto é algo impensável para muita gente.” Além de que, também é algo que não nos é ensinado. Ao homem, se ensina “amar”... no caso, a ter uma esposa. À mulher, não se ensina nada sobre. Nos tornarmos companheira é um ato da nossa natureza. E, duas mulheres negras se amarem, é revolução diária. 

 

Quando pensamos na cidade e pensamos em Porto Alegre (ou em Pelotas também, já que é a cidade que a Maiara viveu), elas comentam que gostariam de ver maior pensamento social, para que não matem mais pessoas negras e LGBTs por ser quem são. 

 

Para Maiara, pensamento social é também sobre dar voz. Não faz sentido dar voz se não há transformação social como um todo. Precisamos inserir as pessoas nos lugares, fazer a forma coletiva existir de verdade. E que uma história vá servindo de base e sustentação para puxar a outra, para que tenhamos caminhos mais tranquilos daqui para frente. 

 Maiara 
 Luana