Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
294 resultados encontrados com uma busca vazia
- Juliana e Tayna | Documentadas
Amor de Mil Histórias - Juliana e Tayna clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Rosa e Sara | Documentadas
Amor de Novidade - Rosa e Sara clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Maiara e Vitoria
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Maiara e da Vitória, quando o projeto passou por São Paulo! A Vitória e a Maiara possuem um relacionamento a distância, vivendo entre as capitais do Rio de Janeiro e de São Paulo. A Vitória veio para o Rio uma vez só, enquanto a Mai vai com maior frequência, adora São Paulo e pretende morar lá em breve. Nos encontramos no Parque Ibirapuera. Elas gostam de estar em parques, com a canga no chão, sentadas ou deitadas, falando sobre a vida. Adoram visitar museus e restautantes também. Além disso, a Vi gosta de fotografia, faz poledance, escreve bastante e antigamente elas até trocavam poemas. Enquanto a Mai jogava bastante futsal e adora cozinhar. Elas acreditam que hoje em dia tudo tende a ser mais acelerado (os áudios, as rotinas, os fluxos das coisas) e isso acaba fazendo com que a gente não preste tanta atenção no outro. Então talvez o que elas querem de verdade parece ser mínimo, mas se trata de uma essência: se cuidar. Resgatar um senso coletivo - sermos menos robotizados, acelerados nas ruas - e olhar pra você sabendo quem você é, para então poder amar o outro sendo quem o outro é também, sem medo de sofrer por conta disso. A Vitória tem 21 anos, mora em São Paulo e faz faculdade de moda, com estágio em figurino. Já a Maiara tem 27 anos, mora no Rio de Janeiro e faz faculdade de engenharia química. É assistente em uma grande empresa de cosméticos, trabalha na área de análise de dados. Elas se conheceram no início de 2016, através do Facebook. Na época, adicionavam várias pessoas que possuíam amigos em comum. A Maiara achou a foto da Vitória muito bonita, porém o status dela estava como “relacionamento sério” e ela não puxou nenhuma conversa. A verdade por trás dessa história é que não existia nenhum relacionamento, tudo era uma brincadeira entre a Vitória e uma amiga dela por conta de um homem que estava dando em cima dela. Por fim, o tempo passou, a Mai também se envolveu com uma menina em um relacionamento que acabou não sendo muito bom pra ela e desistiu de puxar assunto com a Vitória. Um tempo depois, no Snapchat, rede social pioneira nas postagens em formato de storie, a Vitória postou vídeo recitando um poema dela. A Mai respondeu sobre o jeito que ela falava a palavra “amor”, por conta do “r” ser puxado, e achar isso muito fofo. Elas conversaram um pouco e isso foi o bastante para desenvolver o interesse. Um tempo depois, começaram a se relacionar de forma online, pois para ambas ainda era muito difícil se encontrarem pessoalmente por questões financeiras e o alto custo das passagens de São Paulo para o Rio de Janeiro. Quando se encontraram pessoalmente pela primeira vez, já em 2017, a Maiara foi até São Paulo. Ambas passaram por processos para contar aos familiares que estavam se relacionando, a Maiara contou para a irmã que já imaginava e que acompanhou ela nessa viagem, então foi a primeira a saber e foi logo no início. A Vitória contou um tempo depois, imprimiu umas fotografias que tiraram e mostrou para a mãe, contando ser a namorada. A mãe processou isso durante um tempo, o irmão dela já sabia (e até já conhecia a Mai), então ajudou na conversa também. Ela deixou a Mai frequentar a casa e depois da primeira vez que foi mais delicada, passou a adorar as visitas. Hoje em dia a Mai vai bastante para lá e elas se dão muito bem, prepara feijão preto, saladas e tudo na mesa vira discussão quando ela não come muito. Quando a Vi foi uma vez ao Rio, em 2018, passou um feriado. A frequência que elas se encontram depende muito, antes era cerca de três vezes ao ano, agora aumentou um pouco porque pelo homeoffice a Mai pode ficar um tempo a mais em São Paulo. Mas a distância ainda apresenta dificuldades, as despedidas não são fáceis, por isso desejam a mudança. A Maiara fala que, por ser muito fã da Maria Rita, sempre que pensa no amor lembra quando ela canta: ‘’Se perguntarem o que é o amor pra mim, não sei responder, não sei explicar… Só sei que o amor nasceu dentro de mim, me fez renascer, me fez despertar’’. Ela entende que essa é a sensação que o amor traz, principalmente o amor que elas estão criando juntas. Despertando um novo mundo, uma nova possibilidade. “A Vi é meu primeiro relacionamento sério com mulher. Não que eu tivesse um histórico grande com homens. A Vi é meu relacionamento concreto. É essa relação de cumplicidade e suporte, sabendo que tô fazendo bem pra ela e que ela também tá me fazendo bem.” A Vi fala que além da construção, é política e luta. No dia anterior à nossa conversa, por exemplo, elas foram em um bar sapatão. Ela conta o quanto foi importante ter ido lá, o quanto foi diferente ter ido num ambiente confortável pra gente. “Me senti confortável pra amar e poder fazer o que todo mundo faz.” a Mai complementa com “Poder dar a mão, beijar, fazer carinho. O que é trivial pra todo mundo…” Para a Vitória, estar com a Maiara é se sentir em casa. Ela sabe seus defeitos, mas ela não vai embora por causa disso. Ela ama e isso é o que importa. Maiara Vitória
- Luciana e Viviane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luciana e da Viviane, quando o projeto passou por São Paulo! Luciana, Viviane e a pequena Ester moram em Campinas, interior de São Paulo e constroem o que chamam de “família real”, sem coisas artificiais envolta. Amam cozinhar, comer, brincar, ler e assistir TV. A casa é cheia desses detalhes que fazem elas serem quem são. Depois de saírem de São Paulo e mudarem para Campinas por conta do trabalho da Lu, viveram um relacionamento à distância e aos poucos a Vivi foi se mudando para lá, até conseguirem um apartamento só delas. Nesse período, começaram a reformar o novo lar pelas próprias mãos - queriam que tivesse lembranças de viagens, uma biblioteca-bar, decorações que as representassem… A Ester, inclusive, escolheu a cor do quarto e ajudou a pintar. Tudo na relação começou do zero e pessoalmente (sem internet auxiliando) e isso, pela visão delas, foi ótimo porque proporcionou uma grande comunicação. Além disso, Vivi conta que depois do relacionamento com a Lu aprendeu a ter fé. Lu é muito ligada na fé em geral - não só a religião, mas a fé de todas as formas. Em Exu, nos orixás e também em Deus. Lu completa que tem essa fé por tudo o que já viveu e construiu, mas que não espera nada sentada, batalha o tempo todo pelas melhores coisas. Luciana, no momento da documentação, estava com 38 anos. É natural de São Paulo e chegou em Campinas por conta de um concurso, há cerca de dois anos atrás. É professora de rede pública. Começa a história contando que em 2020 teve uma conversa com uma entidade chamada Exu Caveira e que isso virou a vida dela de cabeça para baixo em muitos aspectos. Soube de uma força que estava na hora de despertar, libertar e recomeçar um modo de vida. Em 2015 tinha passado no concurso de Campinas mas nunca foi chamada, eis que recebe o e-mail chamando depois da própria data limite do concurso ter expirado. Cronologicamente, aconteceu assim: a conversa foi em novembro de 2020, conheceu a Viviane em dezembro de 2020 e em janeiro de 2021 decidiu a mudança para Campinas. Viviane, no momento da documentação, estava com 30 anos. Também é natural de São Paulo, residindo agora em Campinas, trabalha enquanto agente de viagens. Há 14 anos é DJ e agora em Campinas tem um novo hobbie: o teatro. Em dezembro de 2020, Vivi estava vivendo uma fase bem difícil. Passou por um relacionamento abusivo, não estava se sentindo bem. Depois do término, uma amiga em comum que tinha com a ex-namorada quis manter contato com ela, afinal, sempre se deram bem e tinham hobbies muito fortes como a paixão por Harry Potter em comum. Num sábado a amiga convidou para ir no aniversário da sócia dela, que era adivinha quem? Luciana. Vivi não deu muita bola, já que não conhecia a Lu, mas considerou porque o local era perto da casa dela. Começou o sábado bebendo whisky com o pai - uma tradição que manteve durante muito tempo - e decidiu ir. Chegou lá nem sabendo o nome da aniversariante, mas ficou muito surpresa porque foi bem recebida, acolhida e amada. Foi com a Ester sua primeira interação no aniversário. Ester estava brincando e ela entrou na brincadeira, também dividiram brigadeiros. Quando foi interagir com a Luciana, perguntou sobre o pai da Ester e entendeu que não havia mais relação com ele, Lu estava solteira. Durante a festa, tiveram uma interação mais próxima e entenderam: queriam se beijar. Dançaram, interagiram e o beijo aconteceu. Ninguém entendeu nada ao redor e Vivi ficou completamente suja de batom vermelho. Destacam sobre uns homens que tinham chegado com bebidas achando que iriam ficar de par e ofereceram um copo gigante de vodka com energético para a Lu, por ser aniversariante. Ela negou e bebeu o whisky da Vivi na hora (virando o copo!) e foi aí que Vivi sentiu a pontada de paixão chegando. Ficaram juntas naquela noite e antes do fim do ano decidiram se reencontrar. Quando 2021 começou, Vivi foi passar as férias no interior com a família e recebeu a notícia do concurso/da mudança para Campinas que a Lu iria viver. Estavam conformadas de viver uma relação à distância, já que desejavam estar juntas, mas tudo era uma incógnita. Vivi decidiu viajar com a Lu até Campinas para assinarem os documentos, conhecerem a escola e a cidade, deu muito apoio. Quando Lu fez a mudança, viveu um mês em airbnb com a Ester (que estava também procurando uma escola para estudar) e nesse período Vivi ficou com elas durante uma semana, mas foi uma experiência bem difícil. Ester sentiu muito ciúme, reagiu mal, ignorou a presença da Vivi durante dias. Num momento, Vivi chorou porque entendeu que não iria ser fácil. Ester, nesse momento da nossa conversa, deixa tudo às claras: superou o ciúme e hoje são melhores amigas. Depois desse primeiro mês, conseguiram alugar um apartamento (que fica no mesmo condomínio que elas moram hoje em dia). Vivi ajudou na mudança e passou um bom tempo intercalando entre São Paulo x Campinas. Em 2022, Vivi estava dando uma caminhada pelo condomínio e viu alguns apartamentos à venda. Pensou que seria muito bom terem um lar só delas ali, a Ester já estava adaptada e adora brincar no parquinho, tudo já estava bem instalado. Visitou um apartamento e decidiu que seria delas. Começaram os contatos com contabilidade, advogados, banco, indo atrás de documentações… e foi tudo absurdamente rápido, se encaixando. Quando viu já estava com as chaves em mãos. Foi aí que decidiu se mudar definitivamente para Campinas. Nesses processos, aconteceram os pedidos de namoro e de casamento. No pedido de casamento, Lu fez uma surpresa, Vivi nem imaginou. Quando estavam no restaurante, viu um garçom passando com um buquê gigante e disse “Nossa que legal! Certamente alguém vai ser pedido em casamento hoje!” até que viu o buquê vindo para ela. Brincou com a Lu que ela teria que ajoelhar, fazer tudo direitinho. No pedido, a Ester fez um vídeo convidando-a para fazer parte da família. E Vivi finaliza contando que sempre quis casar e sempre soube que gostaria de ser mãe - sente que agora estão completando seus sonhos. ↓ rolar para baixo ↓ Viviane Luciana
- Renata e Hinde
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Renata e Hinde, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! < Documentei a Hinde e a Renata num espaço muito querido para elas e para todos que frequentam (e já frequentaram), no Rio de Janeiro: a Feira da Glória. Passamos algumas horas do nosso domingo lá, em meio à feira, ao samba, aos artesanatos, às crianças, ao movimento de uma festa junina que acontecia por perto e ao público que passava de um lado para o outro. Hinde e Renata não se conheceram no Brasil, Hinde, inclusive, não é brasileira - veio do sul da França para cá por conta do amor que sente pela Renata. E é na Feira da Glória que ela adora provar comidas novas, comprar roupas e descobrir o que os cariocas chamam de shoppingchão: os produtos dos ambulantes espalhados pelos chãos das ruas. O tempo que passam juntas aos domingos servem para conhecerem mais uma a outra e também para ressignificar o que sentiam sobre a pressão de trabalhar nas segundas-feiras. Agora, longe do celular, curtem mais o tempo juntas, bebem uma cerveja, aproveitam a música, o ambiente e os amigos (que sempre surpreendem a Hinde no quesito: “como podem os brasileiros serem culturalmente tão sociáveis?!”). Foi durante o intercâmbio da Renata que ela conheceu a Hinde, em agosto de 2018. O intercâmbio era em uma cidade muito pequena e tradicional, no sul da França, e a chegada da Renata sendo a primeira brasileira a estudar por lá foi algo que despertou certo interesse nos franceses, por ela ser uma mulher que se impõe perante os desafios: é jovem, assume sua bissexualidade, traz consigo as pautas que acredita e dá suas opiniões quando preciso. Logo no início, um grupo de amigos se criou: um garoto que era apaixonado pelo Brasil e que virou amigo da Renata logo de cara, ela, mais algumas pessoas e a Hinde. Ela se sentia um pouco deslocada, achava a cidade pequena demais e as pessoas jovens demais, mas seguiu em frente. Com o tempo eles foram se dando bem, indo para diversas festas juntos e em algumas festas, quando ela e a Hinde estavam bêbadas, elas se beijavam. Hoje, a Hinde brinca: “O que é um ‘date’ para uma carioca? Você não sabe! Não dá para entender o que os cariocas sentem!” referindo-se àquela época, nunca entender o que a Renata queria. Aos poucos, a Renata sentia uma certa paixão pela Hinde acontecendo, mas como era algo que só se beijavam em festas e mantinham uma amizade nos outros momentos ela não deixava passar disso - e também não tocavam nesse assunto. Durante todo o intercâmbio foi assim. Nesse meio-tempo, a Renata chegou a se envolver com uma menina, o que até diminuiu esperanças na Hinde, mas não durou muito tempo e inclusive no momento de “término” elas trabalharam juntas em um evento. Neste dia, passaram muito tempo conversando, rindo e interagindo e a Renata disse “eu te amo” para a Hinde. Isso a pegou de surpresa, não imaginaria ouvir, assim, dessa forma. E tudo ficou muito suspenso, não tocaram no assunto depois, seguiram naturalmente. Nas festas seguintes continuaram se beijando quando estavam embriagadas e mantendo amizade sóbrias, até que, no fim do intercâmbio os jogos universitários aconteceriam e depois disso a Renata iria para Paris, comemorar o seu aniversário, e voltaria ao Brasil. Elas viveram os jogos e no fim, ao se despedirem na estação, entenderam que não se encontrariam mais. Choraram muito, se abraçaram e deram o primeiro beijo estando sóbrias e em público. Depois da despedida a Hinde chegou a conversar com a mãe dela pelo telefone, ainda chorando muito e a mãe tentou a acalmar um pouco, mas não entendia tanto o motivo de tamanha tristeza. Acabou que, ao chegar e viver os dias em Paris, a Renata decidiu não voltar ao Brasil após o aniversário. Conseguiu transferir a passagem e passou o verão por lá, trabalhando em sorveterias, sendo babá… Alugou um apartamento e viveu de freelancers durante a temporada. Durante o verão em que a Renata continuou na França, ela e Hinde conversaram muito pelo celular e se sentiram muito próximas, coisas que não costumavam fazer com outras pessoas. Essa frequência de se falar todos os dias fez com que surgisse uma nova vontade de se encontrarem. Logo após o verão, a Hinde precisava arranjar um projeto para ser voluntária por conta da faculdade, então ela encontrou um que conversava com o que precisava apresentar e que era localizado próximo de onde a Renata morava. Elas conversaram e a Renata topou hospedá-la por um tempo, para que ela conseguisse realizá-lo. Hinde comprou as passagens, foi para lá e depois de 15h de viagem chegou, usando vestido amarelo e salto alto (!!!). A Renata trabalhava em uma loja de souvenirs e a Hinde esperou ela sair para irem beber vendo o pôr do sol. Quando elas estavam juntas, ela cantou uma música que se chamava “I Wanna Be Your Girlfriend”, tomaram vinho na garrafa e não entenderam direito o que estava acontecendo, sentiam que eram amigas, mas ao mesmo tempo, o sentimento se misturava com outro. No dia seguinte, Hinde passou num brechó e viu um anel lindo, comprou e decidiu tomar a decisão que queria há tempos: pediu ela a Renata em namoro. Ela aceitou e foi assim que começaram a namorar. Mas tinha um problema: Renata só tinha mais dez dias na frança, ela precisava voltar ao Brasil para terminar a faculdade e já estava com a passagem marcada. Os dez dias aconteceram e foram incríveis. Viveram dias maravilhosos, muito felizes e a Renata voltou ao Brasil. Nessa volta, elas passaram 6 meses distantes. Se falavam todos os dias, mas não tinham ainda previsão de se encontrarem. Foi quando a Hinde decidiu fazer seu passaporte e comprar uma passagem para vir ao Brasil. Nessa mesma época, no dia da visibilidade bissexual, ela contou para a sua família sobre quem ela era, como ela se sentia e sua mãe perguntou: “É aquela menina brasileira que você está namorando?” por relacionar desde o dia em que ela chorou com a despedida da Renata na estação algum sentimento a mais que elas sentiam uma pela outra. Por mais que num primeiro momento a família não tenha tido uma boa reação, a mãe dela a apoiou e disse que era um ato muito corajoso o que ela estava tendo em se assumir e que admirava isso. Foi então que a Hinde veio ao Brasil em 2019 e, logo depois, no começo de 2020 a Renata voltou para a França para passar uns dias. Ela conseguiu voltar ao Brasil antes da pandemia fechar os aeroportos por aqui, mas começou um novo momento muito difícil entre as duas, que era entender que meses as separariam pela incerteza de quando iriam se encontrar novamente. O trabalho da Renata cobrava muito dela durante a pandemia, foram meses puxados e o fuso-horário entre ela e a Hinde não colaborava em nada. Foi então que ela se formou, conversou com o chefe e antes do ano encerrar e conseguiu uma ida para a França, tanto para desenvolver o mestrado por lá, quanto para encontrar a Hinde: ficaram dois meses juntas. Na volta, a Hinde retornou ao Brasil e seguiu aqui até nos encontrarmos. Hoje em dia os planos estão baseados nas duas se mudarem para a Europa, tentando estudos em Barcelona ou em novos caminhos que ainda chegarão por aqui. ♥ Atualmente, a Hinde está com 21 anos. Ela estudou ciências políticas e está se graduando. É natural de Saintes, mas também morou em Bordeaux. Independente da faculdade, seu sonho e seu maior talento é ser cantora. Quer viver da música, pagar suas contas, ser feliz no seu trabalho, se desenvolver na sua carreira através da sua voz. Ela acredita que todos os artistas possam ter direito de viverem da sua arte, não só os que já nasceram com o privilégio financeiro, e gostaria de ver artista pobre sendo reconhecido pelo o que ele é, por toda a arte que ele têm a oferecer. Renata está com 24 anos, é natural do Rio de Janeiro, economista e trabalha com avaliação de políticas públicas. Além disso, faz parte de um projeto que conecta mulheres vereadoras e prefeitas às mulheres academicistas, oferecendo cursos de capacitação nos projetos a se desenvolver, e também está ajudando na reforma da graduação de economia da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). Renata acredita que para mudar as coisas é preciso incorporar mulheres no orçamento público: um orçamento que olhe para mulheres trabalhadoras, homens que reconheçam suas paternidades, mulheres que sejam representadas pelas políticas públicas e mulheres que estejam ocupando cargos nos poderes públicos. Quando falamos sobre todos os momentos difíceis que passaram, como os primeiros seis meses distantes logo depois de terem os primeiros dez dias namorando, elas explicam que o que sempre as mantinha seguir em frente e suportar a distância, a rotina longe, ver os amigos e não ter uma-a-outra por perto, era manter o pensamento de “logo ela vai estar aqui comigo”. A Hinde brinca que esse pensamento na Renata era tão presente que quando ela chegou no Rio, se sentia famosa: a Renata contava para TODOS os amigos dela quem a Hinde era e todos já conheciam ela antes dela chegar (e ansiavam por isso). Se sentiu muito amada e acolhida. Elas entendem que sempre foram muito amigas e isso também colaborou para que as coisas dessem certo. Nos momentos difíceis o sentimento que surge é o de não parar, não estagnar, sempre dialogar, desenrolar… mesmo na hora da briga, não se deixar esfriar. A distância dificulta porque o físico não existe, então tudo gira em torno da conversa, da chamada de vídeo e da saudade, mas isso reverbera quando se encontram e tudo gira em torno de muito afeto e movimentos para que nada estrague, que não existam desavenças e todos os segundos sejam aproveitados. Elas sentem que estão sempre sorrindo juntas e que isso também é amor. As piadas em várias línguas e linguagens diferentes e o quanto se divertem. Para a Renata, o relacionamento dela com a Hinde significa estar em paz. Elas estão em paz entre elas e ela está em paz com ela mesma. Hinde Renata
- Aline e Isabela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Aline e da Isabela, quando o projeto passou pela Bahia!. Conheci a Aline e a Isabela em Salvador alguns dias antes delas se mudarem para Dublin, na Irlanda. E o que gosto em especial é que essa notícia foi dada de forma totalmente despretensiosa durante a nossa conversa, quando perguntei sobre a rotina delas - se moravam/se já moraram em algum momento juntas e como era essa questão - me deixando muito surpresa e ansiosa para entender melhor a história. Depois que começaram a namorar, em meados de outubro de 2020, o começo do novo ano foi com uma transferência que a Aline recebeu no trabalho e precisou se mudar para São Paulo. A Isa embarcou nessa ideia e moraram juntas por lá. Sentem muito por terem desbravado tão pouco a cidade, visto que a pandemia ainda era forte, e ficaram quase um ano no sudeste. Voltaram a Salvador, e dessa vez foi a Isa quem precisou se despedir: para um intercâmbio já sonhado há tempos! Dublin era o destino e passaram 7 meses à distância. Não foi nenhum pouco fácil. Contam que não há costume, há uma normalização da rotina, mas ficam felizes em saber que passou. Hoje em dia, constróem a nova vida juntas… mesmo ainda não sabendo como exatamente será, sem planejamentos concretos pelo incerto de um novo país, estão muito animadas em viver algo completamente novo. Foi através do Twitter que se conheceram. Isa conta que tem conta na rede social desde os primórdios, tipo 2009, mas foi durante a pandemia que estava interagindo com um amigo que possui em comum com a Aline. Aline viu a interação na timeline e resolveu curtir os tweets e seguir a Isa (viu pelo perfil que ela beijava mulheres, também) e quando a Isa recebeu a notificação pensou “Oxe, ela me segiu?!”, mas ok… seguiu de volta. Passaram-se uns dias e elas conversaram. Naquele tempo ocioso da pandemia a conversa demorou horas e virou algo frequente, viravam madrugadas conversando sobre qualquer coisa. Isa morava com os pais e com o medo da pandemia de Covid-19 demoraram para se encontrar, mesmo que a Aline morasse sozinha. Apenas meses depois, em setembro, o encontro foi acontecer. Desde então, não se desgrudaram mais. Aline, no momento da documentação, estava com 31 anos. É de Salvador, trabalha enquanto arquiteta e estava com um projeto em que produz coleiras/colares para cachorros, com identificação (nome e telefone) como chokers, começou enquanto hobbie e foi tomando maiores proporções até comercializar. Isabela, no momento da documentação, estava com 32. Também é de Salvador, trabalha enquanto assistente social e adora cantar, é um grande hobbie. Depois que começaram o relacionamento e viveram as mudanças para São Paulo, elas contam que decidiram noivar. Compraram a aliança juntas, sem saber, tratam com muito carinho a importância do ato de casar, e até hoje debatem sobre a data em que isso irá acontecer. Entendem o quanto foi difícil ficar todo o tempo longe, depois que precisaram passar pelos períodos da distância (de São Paulo e de Dublin) e que só a terapia as ensinou a criar um verdadeiro diálogo, a lidar com os ciúmes, os processos internos… Acham importante falar isso sem grandes romantizações, porque ao olhar pra trás sabem valorizar o intenso caminho que foi percorrido com muitas conversas e muita disposição para chegar até aqui. Isa é mais cuidadosa nas palavras, mesmo entendendo que às vezes se fecha. Aline é mais direta, fala sobre o que está sentindo, mas sabe que nem sempre é fácil de se encaixar. Elas contam o quanto, entre todas as dificuldades, a distância até que ajudou em vários processos: antes de viajar elas estavam brigando muito, se sentindo perdidas na relação… assim, faziam chamadas de vídeo, viviam seus momentos individuais, sentiam suas saudades.. sentiram que quando voltaram tudo já estava diferente internamente e externamente. Isa fazia de tudo para tentar trazer Aline pra perto durante a viagem: Contava das novas culturas que estava aprendendo, mostrava os lugares que visitava… Enquanto isso Aline sempre visitava os pais dela em Salvador, mantinha a rotina delas para que tudo estivesse saudável. Era as formas que encontravam de se sentirem mais próximas. Assim, Isa enxerga o amor em todos os detalhes do seu dia: seja com sua família, no seu relacionamento, com os bichinhos… sempre entrega amor em suas versões. Aline completa que, por serem mulheres, sente que o amor precisa ser mostrado em público porque acredita na potência do nosso amor, falar sobre sermos quem somos é mostrar que estamos vivas, mostrar nosso afeto nas redes sociais, para as nossas famílias, vivermos esse amor é algo que nos potencializa. ↓ rolar para baixo ↓ Aline Isabela
- Beatriz e Tamara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beatriz e da Tamara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Beatriz e Tamara são um casal muito incrível. A forma que elas se ajudam, se permitem desconstruir e passam um sentimento de calma é muito verdadeira. São pessoas muito diferentes também. Beatriz é mais comunicativa e costuma dizer que elas terem se conhecido foi um encontro de almas. Ela é super de passar horas nas redes sociais, de dormir até tarde… Tamara, pelo contrário, é muito quietinha e disciplinada; Tem hora para dormir, acordar, comer, treinar… gosta de ficar mais no canto dela. Revira um pouco o olho e balança a cabeça, rindo, quando a Bea fala sobre o encontro de almas. Mesmo com todas as diferenças, elas passam muito tempo juntas. Sua grande paixão é o esporte. Tamara pratica todos os esportes possíveis e a Bea acompanha treinando também. Se conheceram assim, na atlética da universidade. Na época, Tamara namorava e Beatriz tinha acabado de entrar na faculdade. Pelo convívio, acabaram cultivando uma amizade. Beatriz estava recém chegando no mundo universitário e decidiu passar um tempo curtindo a vida, conhecendo pessoas, festas, etc. Um tempo depois, Tamara vinha passando por diversos problemas no relacionamento anterior, optou pelo término e isso criou uma brecha para que ela e Bea pudessem tentar algo num futuro próximo. Tamara tem 26 anos, é formada em administração e faz biblioteconomia. Trabalha numa emissora de TV cuidando da parte administrativa, é treinadora de futsal e tem uma doceria com a mãe - a empresa nasceu do sonho de venderem o que cozinham juntas. Ela costuma fazer os doces, enquanto a mãe faz os salgados. No mais, é absurdamente apaixonada por todos os tipos de esporte e se inspira muito em figuras relacionadas a isso quando pensa em inspirações, desde familiares que já se desenvolveram no esporte, até figuras famosas que representam esse desenvolvimento de carreira através da disciplina, como o Cristiano Ronaldo. Bea tem 24 anos, é formada em design gráfico e cursa história e marketing. Atualmente trabalha enquanto social media e web designer. Ao perguntar sobre em quem ela se inspirava, disse que adora acompanhar a jogadora Cris Rozeira nas redes, não só por ser jogadora da seleção, mas por ser uma mulher lésbica, muito representativa, que enfrentou lutas sobre a saúde mental e construiu a própria família. Além disso, disse que aprendeu a se inspirar diariamente na Tamara também, por ser uma mulher muito incrível e por terem uma relação de muita parceria. Por terem essa ligação com o esporte, falamos muito sobre o quanto eles podem mudar a vida das pessoas, principalmente dar um futuro para diversas crianças. Tamara ressaltou que a base para que um dia as coisas possam dar certo é a educação, para termos mais liberdade, mais respeito, mais segurança... tudo começaria pela reeducação. Bea completou, educação é um assunto que elas conversam muito sobre e ela acredita que só a educação realmente nos levaria à uma revolução. A Tamara era capitã do time em que elas jogavam na faculdade, enquanto a Bea era coordenadora. Elas conversavam muito, passavam muito tempo juntas. O primeiro beijo delas aconteceu em 2016, depois do término da Tamara, quando ela resolveu dar uma chance para a Beatriz... mas elas estavam vivendo ritmos completamente diferentes. A Bea estava na fase de beijar todo mundo, curtir as festas nesse sentido... enquanto a Tamara não curtia isso e preferiu manter só a amizade. Um tempo depois a Bea foi acalmando, elas foram criando um sentimento próprio, acabaram estabelecendo algumas coisas e decidiram tentar o namoro. Já passaram por situações mais difíceis que envolveram quebra de algumas confianças, da qual a Tamara se sentiu mais machucada. Foi com muita conversa e força de vontade que o relacionamento se construiu e deu certo. Hoje em dia elas entendem que a comunicação ainda precisa melhorar em diversos pontos, mas que se ajudam, amadurecem... é algo que precisa ser cultivado todos os dias.
- Thay e Camila
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Thay e Camila, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Thayanne e Camila vieram de lugares bem distantes, mas se encontraram em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, em 2017, entre aplicativos, amigos, universidade e gostos em comum. Thay é de Barbacena, Minas Gerais, mas se mudou para o Rio de Janeiro com a família que foi para Cabo Frio quando ela era mais nova. Na faculdade, passou para a UFF (Universidade Federal Fluminense) e se mudou para Niterói. Cami é de Salvador, chegou até Niterói também por conta da faculdade (que também era na UFF) e passou oito anos morando lá. Hoje em dia, ela e a Thay moram no Rio, num apartamento que comemoram juntas terem conquistado depois de tanto tempo que passaram entre repúblicas e casas compartilhadas com amigos. Foi por conta de um aplicativo de relacionamento que elas se conheceram, mas quando deram ‘match’ resolveram, nas suas palavras, “brincar de rebuceteio”: abriram o Instagram e foram ver os amigos e amigas que tinham em comum. Nem imaginavam quanta coisa teriam em comum, na verdade: a Thay estudou no Ensino Médio com um dos melhores amigos da Cami, ela também conhecia e frequentava casas de outros amigos em comum e assim foram descobrindo que conheciam as mesmas pessoas, as mesmas histórias e os mesmos eventos, mas nunca se encontravam nos espaços. Sem contar nos gostos para as coisas, que eram muito parecidos, mas que também nunca tinham se cruzado até então. Nessa época que se encontraram, em 2017, a Cami ainda estava saindo de um relacionamento aberto do qual não se sentia confortável e era um desafio viver um novo relacionamento com alguém. Elas brincam que o verdadeiro incentivo por trás do namoro acontecer foi o fato de que começaram a pegar a barca Rio x Niterói todos os dias juntas, quando ambas conseguiram trabalhos na capital. Como iam e voltavam no mesmo horário, se ver diariamente foi um empurrãozinho ao romance ser criado. Viviam momentos muito difíceis também em relação aos perrengues financeiros. Ambas moravam em repúblicas e tinham pouco dinheiro para se manter. No primeiro encontro, por exemplo, beberam literalmente um chopp porque era o que poderiam pagar. Passavam por várias crises e sentem que foi um encontro que só falaram sobre problemas, mas que mesmo assim se deram muito bem, porque se sentiram em um espaço seguro para compartilhar as coisas. Tudo virou logo no início do namoro, quando elas conseguiram um emprego. Foi uma grande felicidade, um momento muito eufórico - e não, não era só porque com o emprego elas passaram a se encontrar todos os dias nas barcas. Com um salário elas poderiam começar a fazer coisas juntas, mesmo que sobrasse muito pouco, elas aproveitavam cada centavo: foram em vários museus, passearam em todos os lugares gratuitos possíveis, tomavam mesmo que fosse apenas uma cerveja, mas se divertiam muito. Com o tempo, passaram a ficar escondidas na república uma da outra, porque pelas regras não podiam receber visitas - porém, contudo, entretanto (!!!) a regra dizia visitas masculinas, então elas não estavam tão contra assim. Aos poucos entenderam que não valia a pena continuarem gastando cada uma em sua república e que seria mais fácil morarem juntas dividindo apartamento com outras amigas, foi assim que se mudaram para um novo lugar. Depois, o desejo virou outro: morar numa casa com janelas, que entrasse sol, que tivessem espaço (mais de um cômodo) e que pudessem se sentir em casa realmente. Isso aconteceu recentemente, agora, na casa do Rio, e elas não poderiam estar mais felizes. Decoram tudo juntas, aproveitam a cidade e o ambiente ao redor. Inclusive, estão noivas! Ficaram noivas durante a pandemia, quando entenderam que mesmo que estivesse tudo errado ao redor, o relacionamento era uma fonte de felicidade muito grande e dentro desse lar constróem mais um pedacinho do relacionamento. É como se um novo momento de euforia estivesse acontecendo. O momento de euforia é reflexo do quanto cresceram juntas. Amadureceram, viram suas vidas mudar profissionalmente. Agora, estão conseguindo construir planos verdadeiros pela primeira vez, entendendo o que querem se tornar. Já passaram por muitas vivências juntas desde 2017 até hoje: apresentar a ambas as famílias uma namorada pela primeira vez, até conquistar pequenas e grandes coisas que sempre sonharam. Ainda querem, dentro dessas mudanças, viver as coisas de forma saudável. Falam sobre suas relações com seus empregos e com a cidade em que vivem. A Cami, que no momento está com 26 anos, trabalha com consultoria estratégica e deseja ser feliz para além do trabalho, ter uma relação boa com seu ambiente e com a sua rotina, mas não depender dele por completo. Ela também deseja ser mais ouvida e ser mais considerada enquanto mulher numa sociedade. Já a Thay fala sobre como tenta diariamente transformar a sua rotina na relação mais saudável possível para que as 8h diárias que passa trabalhando na empresa não seja algo que ultrapasse o limite do próprio corpo. Ela comenta que hoje vivemos um momento de desigualdade e de pessoas que demonstram ser pró desigualdade - as pessoas falam o que pensam ser vergonha alguma - e ela gostaria muito de ver as coisas mudarem, ver a vida com mais esperança. Tanto a Thay, quanto a Cami, são muito ligadas à família e acreditam que nessa base aprendem os ensinamentos do que é o amor. Thay conta que remete amor à relação que os pais dela possuem, pois são pessoas simples, trabalhadoras e com eles aprende muito sobre a vida. Para ela, também, o amor envolve carinho e cuidado. Já a relação com a Cami mostra pura leveza, mesmo nos momentos difíceis foi leve e prezando pela liberdade de cada uma. Cami traz o exemplo do amor desde momentos corriqueiros, como a avó contando sempre as mesma história, às memórias afetivas que sente quando está em casa, a família que recebeu a Thay tão bem quando ela visitou Salvador e também o que aprendeu com a mãe, sobre sempre deixar uma marca boa pelas pessoas com quem ela cruza: uma felicidade/fazer algum bem - assim é uma forma de amar também. Dentro da relação ela entende junto com a Thay que ninguém é feliz sozinho e que juntas elas conseguem muito mais, por isso, estão sempre rodeadas de afeto e deixando também afetos por onde passam. Camila Thayanne
- Jeniffer e Renata
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Jeniffer e Renata, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi no local onde a Jeniffer e a Renata se conheceram há anos atrás que nos encontramos para documentá-las. Logo no início elas brincaram: “Se naquela quinta-feira alguém me contasse que um dia eu estaria aqui com a mãe da minha filha, eu acharia que seria uma loucura!”. Jeniffer é musicista, cantora e faz diversos shows pela noite carioca. Foi numa quinta-feira de 2016 que se apresentou num restaurante chamado Espeto Carioca, que pertencia a uma amiga da Renata. Essa amiga, ligou para a Renata e a convidou, ela marcou um encontro com o grupo de conhecidos que tinham passado pelo mesmo que ela: a cirurgia bariátrica e, foi tão bom, que toda quinta-feira esse passou a ser o encontro oficial do grupo. Nesses encontros, a Jeniffer e a Renata viraram grandes amigas, apresentaram suas companheiras (que também viraram amigas), se juntaram em mais conhecidas e formaram um grande grupo, que saía quase todo fim de semana junto. Um tempo depois, a Jeniffer e a ex companheira dela entraram em um momento muito delicado e tóxico da relação, o que fez com que a Jeniffer sumisse dos ambientes com as amigas. Era muito difícil ter contato com elas e encontrá-las além dos shows… Acabaram todas se afastando. Nesse meio tempo, a Renata também terminou o relacionamento que tinha e, só em 2017, quando ambas estavam solteiras, elas se reencontraram. Decidiram retomar a amizade que tinham e voltaram a ter contato, misturar os grupos de amigas e se reencontrar. Entre todos os programas que faziam juntas, em um dia, assistindo ao lançamento de La Casa de Papel em casa, elas se beijaram. Nesse momento, Jeniffer ficou desnorteada, nitidamente incomodada e Renata compreendeu, elas entraram em um acordo de que era melhor fingir que nada aconteceu e não tocaram mais nesse assunto. No mesmo dia, a Renata ia para um encontro com uma mulher que a Jeniffer apresentou para ela e acabou que o encontro foi bom, elas continuaram se encontrando, o tempo fez seu papel de passar, ela namorou e casou com essa mulher. A Jeniffer, nesse meio tempo, voltou com a ex companheira dela, porém o relacionamento que antes já demonstrava ser tóxico, dessa vez ficou muito pior. Novamente ela se afastou de todos e, algum tempo depois, terminou definitivamente. Em 2019, um tempo depois, a Renata já estava com a ideia de engravidar mais amadurecida dentro do antigo relacionamento. Algo que partia sempre dela, pois ela tinha o desejo muito forte de ser mãe, mas amadureceu ao ponto de decidir: é a hora. Teve a primeira tentativa, através da inseminação, e não deu certo. Foi bastante doloroso, porque querendo ou não existem muitas expectativas, mas ela esperou um tempo, superou aos poucos e decidiu, logo no comecinho de 2020, tentar novamente. Diferente da primeira vez, com muito cuidado e seguindo as regras, a segunda vez foi muito mais desesperançosa. No mesmo dia que foi feita a inseminação ela foi num show da Jeniffer, bebeu, ficou até tarde com os amigos na rua, tinha para si a ideia de que não daria certo. Em meados de fevereiro de 2020, descobriu: a segunda tentativa deu certo! Renata estava grávida. Chamou a Jeniffer para ser madrinha, junto com outra amiga. Começou a cuidar melhor do seu corpo, parou de beber e compreendeu que, parando de beber, percebeu muito melhor tudo o que acontecia ao seu redor. Tudo é muito bom no momento de festa, mas muitas coisas passam batido. Foi numa dessas percepções que as brigas com sua ex-companheira começaram a intensificar até se envolveram em agressões. A chave virou. Não tinha como romantizar ou passar pano. O sonho de ser mãe era dela, ela estava grávida. A Jeniffer e a outra amiga protegeram ela nos atos, no término e, a partir daí, fizeram de tudo: passaram os dias cuidando dela e acompanhando cada detalhe da gestação. Foi nesse momento que começou a pandemia, estavam as três no apartamento vivenciando a gestação juntas: a Renata e as madrinhas da Analu, suas duas melhores amigas, até que uma delas precisou voltar ao trabalho e sair de casa para não as expor ao risco do Covid-19. Quando ficaram só a Jeniffer e a Renata, elas seguiam se ajudando de todas as formas. Conversavam muito, compartilhavam de tudo, até que numa madrugada a Jeniffer resolveu voltar naquele assunto que elas nunca tocaram: o dia que se beijaram. A Renata deu a versão dela, falou que era óbvio que tinha sido horrível para a Jeniffer, já que ela tinha "fugido como foge o diabo da cruz”, até que a Jeniffer revelou que não, era o contrário, tinha fugido porque justamente tinha sido muito bom e sentiu muito medo - de se envolver e acabar perdendo-a. Pensou “se era para ter, de alguma forma, era melhor ter como minha melhor amiga”. Quando elas entenderam suas percepções, se beijaram novamente. No dia seguinte, era dia das mães e a Jeniffer foi na rua, voltou com balões e uma carta, assim, comemoraram o primeiro dia das mães juntas - e entenderam também que não era uma brincadeira, que queriam isso de verdade: ser mães da Analu. Entender que estavam juntas não foi algo tão rápido, só com a noite que passaram, mas uma longa conversa sincera sobre o que sentiam. Para a Renata, o que ela estava vivendo não conversava mais com a pessoa que ela era quando conheceu a Jeniffer: que ia para todos os shows, bebia, vivia nas festas. Agora, a prioridade dela era ser mãe, parir e educar a Analu, trazer cuidado. Se fosse para a Jeniffer estar com ela, sem ser na condição de madrinha, era para estar de verdade, porque ela não queria mais um relacionamento para trazer machucados. Elas entendem que o “Combinado não sai caro para ninguém” e assim foi: a Jeniffer sempre quis ser mãe e mostrou que, se a Renata permitisse, ela embarcaria no sonho da Analu. Depois de um tempo juntas, assumiram o relacionamento. Sabiam que poderia ser complicado, que muitas pessoas julgariam e poderiam achar que era um caso antigo, uma traição - tinham muito cuidado também pela vida pública da Jeniffer enquanto cantora - mas tiveram pulso firme, afinal, essa era a história que elas estavam vivendo no momento, acreditassem ou não. Vivenciar uma nova visão de relacionamento, tanto para a Renata, quanto para a Jeniffer, foi libertador. Depois de terem passado por situações muito abusivas com ex companheiras, hoje em dia elas enxergam as relações humanas de forma bem diferente e tentam conversar sobre tudo. Carregam, também, muito da amizade que já tinham antes do namoro. Tentam não se culpar pelos machismos sofridos diários, pelos preconceitos externos e trazer cada vez mais acolhimento uma para a outra, justamente por terem sentido falta disso em outros momentos. Ver o desenvolvimento da Analu na vida delas é um sonho sendo realizado diariamente. Elas fazem absolutamente tudo por ela e contam como é difícil a missão de educar uma criança. Além disso, como não é fácil também, a rotina de um casal com filhos. Existe uma parceria muito clara em que entendem que não vão estar 100% todos os dias, uma vai preenchendo o que a outra não pode dar no momento, e assim vão seguindo. Jeniffer também conta o quanto a chegada da Analu mudou a forma que ela enxerga o mundo. Ela vivenciou toda a maternidade, desde a escolha do modelo da fralda, até as roupinhas, as decisões mais sérias sobre educação e hoje em dia está em muitos detalhes na formação do ser que a Analu vem formando. Se emociona muito em cada detalhe, explica que nunca sentiu um amor tão grande por alguém. No momento da documentação, a Renata estava com 34 anos e a Jeniffer com 32, elas estão trabalhando juntas - a Jeniffer fazendo os shows e a Renata enquanto empresária, produtora e assessora. Nessa rotina intensa de apresentações, Renata explica a admiração enorme que sente pela Jeniffer no palco, e brinca: da empresa, ela é só funcionária e fã. Para elas, esse cotidiano é um ato de amor também, nele entra tudo o que constroem com a Analu. E, olhando ao redor, chegam à conclusão: amor é essa linha do tempo que viveram desde a primeira vez que tiveram no restaurante, até hoje, que voltaram com a filha. Por fim, me trouxeram a comparação: pensam no relacionamento enquanto uma casa. Muita gente começa a pensar numa casa pelo teto ou pelas paredes, enquanto elas literalmente começam pelo chão, pela base. Hoje em dia, possuem uma casa com a base mais sólida possível, capaz de enfrentar qualquer coisa. Foi a partir da base que foram construindo tudo e a casa foi tendo vida, hoje vivem dentro dela, fortalecida. Entendem como foi bom ter dado uma chance para viver esse amor de verdade, um amor que até então elas não sabiam que existia. “Não era alguém para completar, mas transbordar”. ↓ rolar para baixo ↓ Renata Jeniffer
- Jamyle e Rebeca
Ao assumir o relacionamento, a Rebeca e a Jamy passaram por uma série de desafios e preconceitos em relação à aceitação dentro de suas casas. Foi quando entenderam que a única forma possível de estarem juntas era alugando um apartamento e formando um novo lar, com seus trabalhos e com uma vida financeira independente, visto que dessa forma teriam maior liberdade para agir sendo quem são. Quando foram morar juntas, poucas pessoas realmente acreditaram que daria certo. Ouviram críticas por serem mulheres/jovens/estar muito cedo, mas para elas, era algo muito além de uma simples “escolha” - na verdade, era exato o contrário: não parecia ter outra escolha. Hoje em dia, dois anos depois estarem com o apartamento mobiliado, os gatinhos adotados e a casa cada vez mais ganhando um jeitinho delas é motivo para muito orgulho. A sensação é também de que as coisas não são em vão e vale a pena, de uma forma ou de outra, só elas sabem o que elas passam juntas. Os dias de folga em casa são cheios de receitas novas e a Rebeca finaliza o papo falando sobre a casa, narrando o sentimento de paz que é pra ela chegar do trabalho. O que ela sente no momento em que chega, que vê os gatinhos e que pode ficar bem, com a sua companheira, dentro de casa, é o significado de lar. As duas se conheceram de uma forma bastante comum: em uma festa e por ter um amigo que as apresentou… o que foi totalmente diferente, nessa história, é o que vem depois de se conhecerem: o intervalo entre o primeiro beijo e o início do namoro: 4 anos! (sim, 4 anos de insistência) A festa rolou lá em 2015, em Benfica (bairro boêmio de Fortaleza e bastante conhecido pelo público LGBT). A Rebeca ficou afim da Jamyle, mas ela não quis... pois estava ficando com outra pessoa nessa mesma festa… e aí, tudo bem, né? Acontece, só que aí a Jamy mudou de ideia e voltou atrás, deu um beijão na Rebeca lá mesmo. E pronto! Depois desse dia, se adicionaram nas redes, conversaram e até marcaram de sair e foram ao cinema, mas não chegaram a ficar e nem nada. Por mais que a Rebeca quisesse e tivesse sentimentos pela Jamy, ela ainda estava se curando de um ex-amor e não conseguia se envolver com ninguém novamente. Então ela respeitou e entendeu que seria uma amizade… Mas preciso mesmo explicar?? Era claro que em todas as festas que elas estavam juntas, na hora que o álcool batia, elas ficavam. A Rebeca conta, gargalhando, que sóbria a Jamy fugia dela como o cão foge da cruz. E assim, foram, ao menos, uns 3 anos. Até que Rebeca começou outro relacionamento e foi aí que Jamyle entendeu que gostava realmente dela, que sentia falta e que queria estar com ela. Foi então que a Rebeca fez um cruzeiro e deixou as duas meninas para trás: a Jamy e a outra, não queria mais viver essa confusão e ficou em alto mar incomunicável. Quando voltou, em março de 2018, elas se encontraram numa festa… e foi a partir desse momento em que finalmente começaram a namorar! A Rebeca e a Jamyle são duas mulheres que constroem um relacionamento incrível e moram juntas há 2 anos, num bairro periférico dentro de Fortaleza, no Ceará. Por mais que tenham uma rotina de trabalho intenso dentro de empresas privadas, - ambas com atendimento (na área de call center e SAC) - a Rebeca e a Jamy possuem diversos hobbies e trabalhos extras que preenchem a rotina e também trazem divertimento. Quando pergunto sobre como têm sido conciliar a vida com seus milhões de afazeres e com a pandemia em si, elas comentam o quanto não é fácil, e que existem momentos de maior desânimo ou cansaço, mas fazem o exercício de olhar ao redor e perceber o quanto crescem juntas e o quanto o cantinho delas é montado dia após dia com muito carinho, com a presença dos gatinhos, como a forma que a casa e a vida delas têm ficado mais aconchegante nesses últimos anos e como tudo se molda com o tempo. Jamyle tem 22 anos, estuda biologia e além do trabalho ela deseja fazer um curso de barista futuramente. Nos hobbies, é amante dos livros e também já fez teatro. Rebeca tem 23 anos e além do trabalho também atua enquanto DJ. Começou aprendendo com um amigo e se destacou na área, já viajou o estado do Ceará todo tocando em muitas festas e, hoje em dia, além dela estudar para concursos públicos, passa o tempo livre na cozinha aprendendo confeitaria. Como hobby, adora fazer muay thai. Jamyle Rebeca
- Renata e Marcela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Renata e da Marcela, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Hoje em dia elas entendem que isso fez parte da história, mas tentam sempre ressignificar o sentido de família. A Marcela passou o último natal com a família da Renata, os amigos estão sempre por perto, inclusive, são grandes admiradores do casal. Elas fomentam o lar, o amor e o cuidado. Tudo o que viveram serve de fortalecimento não só na relação, mas também enquanto seres humanas. Quando perguntei sobre o amor, me disseram que o amor, mesmo que de forma geral, é político, porque ele está em tudo. Identificam esse atual momento como o pior que já viveram em relação ao ódio e à ignorância disseminada e que, mais perigoso que isso, é sobre o “agressor” estar gerando o nosso país. “O amor tem que ser colocado em prática. Não responder o ódio com mais ódio.” Renata comenta o quanto o ódio é tentador, o quanto nos deixamos levar pelo impulso do ódio. O amor, não. Ele é muito maior que a gente. O amor está entre as relações de pessoas conhecidas (amigos, familiares) e também nas relações sociais. “Quem ama não coloca uma calçada com espinhos em cimento para as pessoas em situação de rua não poderem deitar embaixo do viaduto. Como que chegamos nesse ponto?! Se chegamos, foi porque alguém normalizou o ódio nesse nível. E o nosso maior desafio é não deixar o primeiro passo ser dado para chegarmos onde estamos, ou, agora, revertermos a situação.” Marcela comenta que amar mulheres é ter um tipo de amizade único também. É uma relação muito mais completa - é ter respeito, trocar, entender, ter vontade de estar junto e querer que funcione, mesmo que nem tudo sejam flores. É entender que são pessoas incríveis separadas, mas que estando juntas são ainda mais. Quanto mais a relação delas se desenvolvia, mais a Marcela achava injusto que seus pais não soubessem do relacionamento. Ela já era uma mulher financeiramente e emocionalmente independente, mas acabava tendo uma vida ‘dupla’ por dentro de casa não poder demonstrar seu amor por outra mulher. O pai reagiu de uma forma mais tranquila, mas a mãe não lidou (e não lida) bem. Marcela costuma contar que foi a madrugada mais longa que ela já viveu. A mãe não aceitou e ela decidiu sair de casa. Renata deixou a porta de casa aberta, para que ela pudesse, ao voltar, entrar. Ela voltou com uma mochila cheia de roupas e assim passaram os meses seguintes, juntas, tentando se cuidar. Marcela começou a fazer terapia (inclusive, o pai acompanhou algumas sessões também), e começou a dividir o apartamento com a Renata. Ela contou que não acha justo mentir. Não queria dizer que estava num bar se estava na casa da Renata, por exemplo. Além do mais, elas sentem algo tão bonito, tão bom, que merece ser compartilhado, por mais que existisse o medo de contar. Hoje em dia, ela ainda tenta, aos poucos, ficar bem com a família, mas comenta sobre o quanto é difícil. Hoje em dia, elas sentem muito que os pais não estejam presente nos detalhes bons da vida, como a forma que elas montam o apartamento delas, os motivos que dão risada, as plantinhas que acabaram morrendo mas que elas estão determinadas a aprender a cuidar, os gatos e o que as fazem felizes ou tristes. E o quanto valem esses detalhes, afinal? Vale a pena não tentar quebrar esse preconceito que existe em troca de conviver e compartilhar a vida com os filhos? Perder essa fração de vida? E tudo isso por não aceitar que o amor? No fim, a conta não fecha. Renata tem 39 anos, ama andar de bicicleta, dançar e escrever. Marcela tem 25 anos e na quarentena tem descoberto que gosta de trabalhar com edição. Elas vivem num apartamento juntas, com seus dois gatinhos e os milhões de pássaros agapornis que chegam até a janela para fazer uma visita e comer umas sementinhas. São mulheres que possuem uma vida cultural e social muito ativa, sempre estiveram entre teatro, cinema, bares, etc. Tiveram um primeiro encontro meio sem querer - queriam assistir uma peça juntas, mas não conseguiram chegar em tempo. E aí decidiram ver uma peça chamada ‘40 Anos Essa Noite’, que fala sobre vivências LGBTs. Depois da peça pegaram um uber para o bar e era engraçado que no caminho, como uma não sabia se a outra se considerava hétero ou LGBT, acabaram contando suas experiências, para deixar bem claro, estilo “uma vez vivi isso com A minhA namoradAAAA/e ai elAAA/na perspectiva delAAA”. Depois disso começaram a se permitir conhecer, se apaixonar e viver a relação. Enquanto estudavam juntas no Tablado, os exercícios cênicos eram sempre feitos através de grupos e as cenas improvisadas com temas da atualidade. Os grupos eram escolhidos de forma aleatória, então elas nunca acabavam caindo juntas. A primeira cena que fizeram de verdade foi uma cena de Orange Is The New Black, da qual interpretavam a "Pennsatucky” e a “Boo” no dia das mães. Após atuarem juntas no Tablado, se juntaram com um grupo de amigos e decidiram fundar uma companhia de teatro, os Banalizadores do Evoé, que durou alguns meses antes da pandemia. "O Amor entre duas mulheres e a rejeição social desse "comportamento" gera a dor gigante daquela cujo sentimento só sabe ser livre..." Foi através de ‘O Efeito Urano’ que Fernanda Young chegou até a Renata e a Marcela e se tornou uma das primeiras cenas que fizeram juntas, no começo do relacionamento, após se encontrarem no teatro Tablado. Renata e Marcela são atrizes, além de professora e de advogada. Elas se conheceram estudando teatro juntas, já em palco. A Renata sempre se viu um pouco na Fernanda Young, as obras dela permitiram com que entendesse que seu corpo também era livre. Fernanda sempre dizia que não cabia nos lugares, enquanto, Renata, também se sentia assim… até que ambas entenderam que não precisamos caber em lugar algum, mas que criar nosso próprio lugar. Renata apresentou O Efeito Urano para a Marcela. Virou o livro delas. Marcela leu e Renata releu, simultaneamente - assim grifaram tudo o que achavam importante, depois juntaram os papéis, no chão de casa, separando em três atos: a paixão, o relacionamento e o ato final. Foram para a praia, com os textos em mãos, e passaram o dia ensaiando. Depois disso, qualquer momento se tornou oportuno: passaram o texto enquanto estavam cozinhando, dirigindo e andando por aí. Se tornaram muito parceiras em ensaios, sempre trocando muito aprendizado. Hoje em dia o livro virou a parede do quarto delas, literalmente.
- Joana e Luciana
A Luciana e a Joana são de Fortaleza, capital do Ceará, mas já moraram em lugares diferentes do Brasil e hoje em dia voltaram para Fortaleza para o nascimento da Maria Flor, a criança mais comunicativa, espontânea e engraçada que o Documentadas poderia ter o prazer de documentar. ♥ Lu tem 37 anos, é médica ginecologista e obstetra, responsável por trazer muuuuuitos bebês para esse mundo e deixar muitas mamães seguras na hora do parto. Além da vida profissional incrivelmente disputada, ela é uma mulher que se preocupa em fazer do mundo um lugar melhor em cada detalhe - trata tudo com muito acolhimento, é carinhosa, tem um sorrisão e esteve o tempo todo muito aberta a encaixar o encontro com o Documentadas no meio da rotina de plantões, maternidade e compromissos diários. Joana tem 41 anos, é artista visual e arquiteta. A Jô trabalha tanto para produtoras de Fortaleza e São Paulo (fazendo instalações efêmeras, cenários, conceitos e conteúdos visuais), quanto sendo artista independente, tendo seu próprio escritório e seus projetos autorais enquanto produtora de arte. Nos encontramos no seu ateliê, lugar onde todas ficamos à vontade (principalmente a Flor, que se diverte muito entre as cores e as expressões artísticas) e é muito legal ver como os trabalhos da Joana são diversos e o quanto conseguem conversar entre si. Além das suas profissões e da correria do cotidiano, elas amam passar o dia se divertindo com o crescimento da Flor, dando espaço para ela explorar as coisas e nas folgas gostam muito de plantar (estão construindo jardins durante a pandemia), viajar (colocar tudo no carro, bagunçar e ir para algum lugar!) conhecer cachoeiras e praias. Além disso, contam que amam cozinhar juntas e que, ao plantar jardins, começaram um projeto sobre o lixo no lugar em que moram, mobilizando os outros moradores do bairro sobre sustentabilidade - usando a arte da Jô nessa conscientização. O encontro da Lu e da Jô aconteceu como uma “paixão à segunda vista”, porque já eram amigas há muitos anos. A Joana teve um relacionamento longo com uma amiga de infância da Luciana e elas se conheciam desde então, mas cada uma vivia seu relacionamento e nunca se olharam de forma diferente. O tempo passou, elas terminaram seus relacionamentos em momentos diferentes, passaram períodos solteiras e, depois de um tempo, se reaproximaram - surgindo assim, pela primeira vez, um olhar de interesse. Por um certo receio de suspeitarem de uma traição ou de algo que viesse de antes, visto que de fato se conheciam há muitos anos, elas demoraram quase 1 ano para conseguir oficializar ou assumir esse relacionamento para o grupo de amigas em comum, mas deu tudo certo! Começaram a namorar em 2013 e, como as duas já tinham tido relacionamentos longos o suficientes e decepções amorosas longas o suficientes também, sentaram e conversaram de maneira franca e madura sobre o que desejavam nessa relação: seus medos, seus sonhos, seus desejos e suas inseguranças. Elas dizem que de certa forma foi tudo até rápido - porque em 2015 elas estavam se casando. A Lu passou em uma residência médica lá em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, no mesmo momento em que a organização do casamento estava no auge, então elas combinaram assim: a Joana ia dar um jeito na organização e na decoração e a Lu ia para Ribeirão organizar as coisas da residência e dos estudos. Foi corrido, mas deu certo! A família da Luciana sempre apoiou e sempre admirou a forma que ela lutou pela liberdade e pelo direito de ser quem ela é e de amar quem ela quiser amar. Já a família da Joana, de alguma forma dava apoio à quem ela era enquanto mulher que amava outra mulher, mas no momento do casamento não entendia o porquê daquilo, por qual motivo precisava mostrar aquilo, fazer uma festa assim… Ela insistiu e a festa aconteceu. Mas não só pela festa, pela importância de assinar um documento, de comemorar sim o amor, de celebrar o nosso amor e de ter um documento que nos prove enquanto um casal e que lutamos tanto para ter direito (a algo tão burocrático). Não só aconteceu, como foi incrível! O casamento teve ajuda de vários amigos que doaram um pouquinho de cada coisa para elas - e cada pessoa que estava lá, realmente queria estar. Todos estavam muito felizes, torciam muito pelo amor das duas. Foi um dia muito forte e emocionante, com um pôr do sol maravilhoso. Elas contam que todos que estavam presentes sempre falam de como aquele dia vibrou, que sentiam uma vibração muito forte. E que, no meio da cerimônia, se abriu um arco-íris gigante na praia. ♥ Depois do casamento, as duas se mudaram para São Paulo e então começaram uma vida totalmente nova por lá. Fizeram muitos amigos, criaram uma nova rotina e, desde o primeiro momento a Lu nunca escondeu que se relacionava com uma mulher dentro do meio em que vivia (a área da medicina), então todas as pessoas ao redor delas sabiam que eram um casal, sabiam do casamento, de tudo! Isso era bastante novo, se tratando de uma cidade interiorana e de pessoas mais conservadoras, mas era bastante legal ver esse impacto e outras pessoas se inspirando nelas para saírem do armário também. Como desde sempre a Jô sabia da existência do desejo da Luciana em ser mãe (visto que ela sempre sonhou com isso) e que lá em Ribeirão Preto era o lugar referência para que elas fizessem todo o tratamento de fertilização in vitro (FIV) pelo SUS, então as duas captaram óvulos, o mesmo sêmem, o mesmo doador, e deram início ao processo da maternidade. Tudo foi registrado por elas em um caderno-livro que se mantém até hoje e que conta essa história para a Flor, sobre como ela foi desejada e amada desde o primeiro momento, por todos ao redor. O processo todo entre tentativas de gravidez durou cerca de dois anos, não foi nenhum pouco fácil, requer muito e as duas se doaram muito para isso, mas também se apoiaram muito e sonharam muito em conjunto. O livro é incrível e muito delicado, conta detalhes desde os sentimentos, até os gastos que envolvem cada pedacinho desses dias tão longos. A Flor, mesmo ainda sendo muito pequena, adora olhar e mexer no livro e fizemos algumas fotos das três com ele em mãos. [No dia em que nos encontramos, a Jô estava dando início a uma nova bateria de exames, pois estão começando o processo para vir aí uma parceira ou um parceiro irmã ou irmão para a Maria Flor. Só temos muita luz e muita vida a desejar! Vocês são uma família incrível!] A Joana conta que para ela, o amor é a base de tudo. Não só o amor romantizado, mas o amor de fato construído, porque o amor é muita luta, muita garra. O amor, dela com a Lu, é um amor de parceria, de entendimento. E, nessa hora, a Lu completa: “É um amor realmente revolucionário. Não existe outra definição senão essa, pela capacidade de transformação que faz numa pessoa.” Quando passam por momentos difíceis, elas conversam sobre tudo, mas entendem que são seres individuais e que têm momentos em que precisam estar sozinhas. A Joana gosta muito de conversar e a Luciana entende e contribui pra isso também. Briga, chora e se abraça! Sempre olha no olho, dá espaço, volta e abraça. É um movimento natural que o próprio corpo tende a fazer. No fim da nossa conversa, chegamos à conclusão de que quando duas mulheres se juntam para construir uma família, elas saem quebrando tantas barreiras, tantas coisas que socialmente estão na nossa frente há tantos anos, sem nem ver, que é na base da revolução mesmo. Temos o exemplo de como a família da Jô não ter entendido o casamento delas no começo por não ter visto uma “necessidade” e não ter se proposto a ir, porém, com a chegada da Maria Flor, ser puro grude e reconhecê-la, amá-la e não se ver longe dela - a revolução se mostra nessa construção de família e de amor quando formada pelas mulheres, o segurar a neta no colo consegue quebrar qualquer outra coisa que existe antes, qualquer “muro” colocado, qualquer barreira realmente preconceituosa ou inconscientemente preconceituosa. É uma revolução através do afeto. E para a Maria Flor é isso que elas desejam: um futuro livre. Sem medo e com respeito, sem julgamentos estruturados. Que ela siga sendo como ela é agora: empática com o mundo e com ela mesma. Luciana Joana
- Juliana e Tercianne
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Juliana e da Tercianne, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Em um momento da conversa, falando sobre o lugar que estávamos, naquela praça, naquele espaço da cidade e sobre sermos mulheres, ouvi duas coisas que me marcaram muito e que acabei pensando depois que fui embora. Primeiro, a Terci, que por ser uma pessoa visivelmente mais tímida, disse que quando se relacionava com homens tinha vergonha de dar as mãos, de beijar em público, de ter atitudes românticas na rua… hoje se vê nesse papel porque acha que com a Ju é muito mais puro. O sentimento é praticamente ao contrário, ela faz questão de pegar na mão, de dar um abraço. Mesmo se ela não falasse, seria visível nos detalhes esses toques, porque é algo natural, o toque acontecia durante a conversa, era de fato puro. Logo depois que ela comentou isso, a Ju falou também que embora seja muito difícil a luta LGBT como um todo, chega um momento em que vale a pena expor o amor por quem você ama… e que mesmo que você coloque seu corpo na linha de frente por esse amor, o que literalmente nos acontece, enquanto vivemos no Brasil e muitas pessoas não escondem a LGBTfobia que possuem, nós precisamos seguir mostrando que está tudo bem amarmos e sermos amadas. Isso não quer dizer que não temos medo (temos, sim!) - inclusive a Terci escreveu uma música sobre isso depois que elas se encontraram numa praça (sobre ser um ato político, sobre ser uma luta) - elas andam com medo, às vezes receosas, principalmente quando cruzam com homens, mas entendem que é preciso o equilíbrio entre se cuidar e não baixar a cabeça e se esconder dentro de um armário. “Saber cuidar e cuidar dos nossos.” Por fim, trouxeram mais duas coisas. A Terci disse que logo pensou no filme Zootopia, que a coelha descobriu um lugar que ninguém ligava pra ela e que ela poderia viver tranquila. No fim, é esse o objetivo: que as pessoas olhem as diferenças e não pensem nisso como algo ruim. E a Ju traz a importância de, além de conversar com pessoas mais velhas, ser fundamental conversar também com as crianças e adolescentes, trazer diálogos de inclusão para os mais novos normalizando discussões de igualdade de gênero e inclusão social. Quando comentamos sobre a pandemia e sobre essa forma de se reinventar, a Ju falou que no começo do relacionamento tudo foi muito rápido, tudo se desenvolveu de forma involuntária. Com um mês elas já estavam muito próximas, praticamente namorando e a Ju frequentava a casa da Terci com uma frequência cotidiana por ser muito próxima à faculdade. Elas criaram uma rotina de cafés da manhã, ônibus, massagens no final do dia, feirinhas nos fins de semana, tapiocas de queijo com morango, parques, peças… tudo foi criando um tom. Hoje em dia, com a pandemia e a Terci voltando a morar com os pais dela, tudo fica diferente. Primeiro que é preciso estar em casa, segundo que o espaço em casa é outro, a privacidade é outra, o tempo é outro, sentimento é outro. São muitas readaptações. A sensação presente agora é que, por mais que estejam há mais de um ano e meio juntas, a pandemia faz com que todo dia seja uma novidade dentro de uma certa “mesmice” por conta de novas descobertas internas. Aprenderam que a Ju é mais explosiva, mais estressada, mais extrovertida… e que a Terci é ao contrário, mais quietinha, em outro tempo. Mas que também isso leva a outro contexto de conversa, de amor e de equilíbrio. Que as conversas voltam ao início da vontade de se conhecer e se encontrar de múltiplas formas. Aos poucos também entendem que estão construindo uma nova relação, com mais comunicação e com cuidado para não se magoar. Sempre tentam respeitar as limitações e redescobrir zonas de conforto, perceber o que representa o amor em suas essências, onde elas encontram ele nos seus detalhes e referências. Quando conversamos sobre o amor em seu estado puro, a Ju fala sobre amar e se apaixonar, então o “amar” ser o amadurecimento da paixão, fazer com que o calor exista, mas de forma mais concreta, mais efetiva, mais consistente. E a Terci completa “enxergando os defeitos e amando também, mas com cuidado, porque existe o amor que cuida, que quer o bem... e outro que prende, que toma posse”. A Tercianne adora música, ela se afastou um pouco por um tempo, mas depois que voltou à faculdade um professor conseguiu guiar e monitorar ela de volta. É um lugar que ela sempre quis estar, muito positivo e que se encontra muito com a Ju também. Antes de estudar teatro a Terci passou por um momento entre arquitetura e engenharia civil, ainda no Ceará, mas não se sentiu bem cursando. O pai estava estudando com ela e por já ser aposentado decidiu que apoiaria o curso que ela tivesse vontade de cursar. Ela descobriu a Casa de Artes de Laranjeiras (a CAL, no Rio) e falou que gostaria de estudar aqui, foi então que toda a família se mudou: ela, a mãe, o pai, os irmãos, os cachorros… todo mundo! E aqui estão até hoje. A Ju se vê muito na escrita dos sentimentos, nas crônicas… quando o teatro não dá conta ela abre um bloco de notas e se coloca a escrever. Desde sempre, sentiu mais resistência enquanto à vontade de ser artista, era algo que sabia. Ambas se consideram bissexuais e as famílias, hoje em dia, sabem e apoiam o relacionamento das duas - a Ju, inclusive, já foi até o Ceará com a Terci. Nem sempre foi um debate fácil a se encarar dentro de casa, o começo foi mais difícil e foram contando aos poucos para as pessoas, entendendo o contexto de cada situação. Mas no geral a família sente o quanto o relacionamento representa crescimento para ambas e fica feliz em ver essa mudança acontecendo de pertinho. A Juliana e a Tercianne se conheceram e se encontram entre muitas coisas em comum. Ambas estão com 22 anos, fazem faculdade de teatro, gostam de música, de cinema, de feirinhas... A Ju é natural do Rio de Janeiro, já a Terci é do Ceará. Elas se viram pela primeira vez quando a Ju fez uma peça interpretando uma personagem da qual a Tercianne já tinha interpretado no ano anterior. A Terci viu, se apaixonou, mas não conseguiu falar com ela logo depois do espetáculo porque precisava ir para o aeroporto pegar um voo para o nordeste, estava indo de volta para casa. Decidiu chamar a Ju no Instagram para elogiar e falar que gostou bastante da apresentação e então elas começaram a conversar. - Vou embarcar agora, mas depois continuamos a conversa. - Ah, quer continuar a conversa? vou achar que é um flerte! Foi a primeira vez que Terciane tinha mandado mensagem para uma menina dessa maneira e a Ju lançou a brincadeira, então acabou acontecendo e elas seguiram conversando (ou flertando!). Deu certo. Assim que a Terci voltou ao Rio de Janeiro decidiram se encontrar e assistiram o Rei Leão no cinema, foi tudo meio estranho, não sabiam se seria um encontro num tom mais romântico ou na amizade. Conversaram muito sobre a vida, depois ficaram, mas não sabiam dizer exatamente o que sentiam. No decorrer do que foram estabelecendo contato elas entenderem que o que queriam mesmo era se conhecer, por inteiro, saber quem eram e se encontrar no maior número de sentidos possíveis. Quanto mais se viam, conheciam os amigos, frequentavam os espaços em comum (a casa da Terci, a faculdade…), mais ouviam o quanto estavam diferentes (de um jeito ótimo, é claro!)… a Ju conta que logo no começo uma amiga da Terci contou que há tempos não via os olhinhos dela brilhando tanto como brilhavam agora. Aos poucos isso foi mostrando o quanto era real e recíproco. No show do Lagoon, a Ju pediu a Terci em namoro. E no dia seguinte, a Terci já tinha planejado tudo para pedir a Ju em namoro lá na faculdade, então pediu também. Foi uma troca justa! Tercianne Juliana
- Victória e Gabriela
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Vick e da Gabi, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Durante o período em que se relacionaram à distância, faziam muitos planos sobre morar mais próximas. A Gabi chegou a tentar vestibular para Porto Alegre e a Vick queria muito vir para o Rio. Depois de formada, conseguiu passar para o mestrado na Fiocruz e a mudança finalmente aconteceu algumas semanas antes da pandemia. Passaram a quarentena juntinhas. Nessa história, a praia significa o lugar onde se conheceram, onde puderam ficar à vontade, onde fez a Vick tanto amar o Rio… é o lugar delas. Amam amar a praia, amar as coisas que fazem parte das suas histórias. Acreditam que o amor foi o que moveu tudo, o sentimento que transbordou. Além da praia, amam pular carnaval, cozinhar coisas do zero - fazer massas, cada detalhe de todas as receitas e depois beber com um bom vinho barato. Um tempo depois, por estarem juntas no Rio, a mãe da Gabi percebeu e não aceitou. Foi um momento bem conturbado, a Victória tinha muito medo de voltar a viajar e acabar só piorando a relação familiar da Gabi… e a Gabi pensava que talvez fosse melhor não estarem juntas porque seria ruim para a Vick ter que lidar com isso. Mas depois, quando conversaram, decidiram passar por isso juntas, enfrentando cada desafio lado a lado. A Victória tem 23 anos, é mestranda em epidemiologia e saúde pública e formada em veterinária. Gosta de fazer de tudo um pouco, bordar, pintar, tocar saxofone… se inspira muito na sua mãe, que é doutora em engenharia. Gabriela tem 26 anos, estuda biblioteconomia, adora design e tem a família toda envolvida em profissões aéreas, então fez curso de comissária de bordo e gosta muito de temas voltados à aviação. Gabi se inspira e se referencia muito na tia dela, que foi a primeira pessoa para quem contou sobre a sexualidade. Depois que a mãe da Gabi descobriu, elas passaram alguns meses sem conseguir se encontrar, era muito difícil ir para Porto Alegre e acabava indo só no seu aniversário, pois pedia a passagem de presente. Chegou a passar mais de dois anos sem ter muito convívio com a mãe. Há pouco tempo atrás as coisas foram mudando, quando a Vick já estava muito mais próxima, e foi convidada a jantar na casa delas. Passaram todo o verão juntas e até decidiram estender um pouco a viagem, pois entenderam que um sentimento estava sendo criado. Resolveram passar seus aniversários juntas: o da Vick, em março (do qual a Gabi iria para Porto Alegre) e o da Gabi em julho (do qual a Vick iria para o Rio de Janeiro). Acabou que cumpriram o acordo, a Gabi chegou em Porto Alegre no mês de março e foi ótimo. Já em julho, a Vick ficou um pouco insegura de ir. Elas não estavam conseguindo manter tanto contato de forma online e faltava pouco para a data, mas deu tudo certo! Ela chegou no Rio, passou dias turistando, conhecendo as praias e se sentiu apaixonada.... pelo Rio de Janeiro e pela Gabriela. Passaram todo o restante do ano conversando bastante de forma online e conseguiram se encontrar em outubro. Decidiram, aos poucos, sustentar esse relacionamento à distância. No verão de 2016, tudo já foi diferente, ao invés da Gabi ficar na casa dela, resolveu passar todo o tempo hospedada na casa da Victória. Passaram o início do carnaval juntas na Praia da Ferrugem e o fim do carnaval no Rio. Ambas queriam muito declarar o amor uma para a outra, mas estavam com medo de acabar estragando tudo, pelo fato da distância. Uma desconhecida, em meio ao carnaval, ajudou a declaração acontecer… e foi aí que elas verbalizaram o amor que sentiam. Essa história de amor mostra que o sonho de muitos relacionamentos à distância podem dar certo! Victória e Gabriela se conheceram durante um verão em Garopaba, interior de Santa Catarina, a Vick é da região metropolitana de Porto Alegre, mais especificamente, de Viamão. A Gabi é do Rio de Janeiro. A maior coincidência dessa história é que elas são vizinhas em Garopaba desde que nasceram, possuem os mesmos amigos, mas veraneiam com uma semana de diferença, então nunca se encontraram. Em 2014 a Gabi resolveu ficar mais um tempo em Garopaba e então acabaram se conhecendo. Logo de cara ela sentiu interesse pela Vick e meio que todos os amigos ficaram na expectativa do beijo, o que gerou certa pressão também. No segundo dia, elas se encontraram junto com os amigos para beber e ficaram, mas no dia seguinte a Gabi acabou voltando para o Rio e passaram todo o inverno sem se ver ou conversar. Em 2015 estavam lá novamente e dessa vez a Gabi decidiu ir na mesma semana que a Victória estaria. Elas se encontraram com os amigos, foram para um bar e depois de um tempo acabaram se beijando novamente - e brincam: “aí não nos desgrudamos mais”. < Victória Gabi
- Ane e Thelassyn | Documentadas
Foi na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro onde Ane e Thelassyn se conheceram (e onde fizemos as fotos para o Documentadas), no polo de Nova Iguaçu, na baixada fluminense. Em 2018, quando Ane cursava história e Thethe cursava pedagogia, frequentavam muito os centros acadêmicos dos seus cursos e possuíam diversos amigos em comum. Contam o quanto gostavam de se envolver em tudo o que podiam na faculdade, inclusive na causa animal: no campus há diversos cachorros e gatos abandonados e então participavam dos coletivos que cuidavam dos bichinhos. Ane morava numa república e estava hospedando uma cachorrinha que tinha sido atropelada e precisava de cuidados, até que Thelassyn foi doar um remédio que estava faltando e se encontraram pela primeira vez. Ane achou Thethe linda demais, ficou encantada. Por mais que Thethe brinca que não tenha acontecido nada demais, só entregou o remédio e foi embora, depois disso se encontravam de vez em quando e Ane sempre ficava nervosa. Até que um dia, durante uma manifestação política por conta do Museu Nacional ter pego fogo, se encontraram e interagiram no centro do Rio de Janeiro, conversaram e foram juntas até o ponto de ônibus, onde deram um selinho. Uns dias depois aconteceria uma festa na faculdade e Ane convidou a Thethe, elas se arrumaram juntas, lá na república em que ela morava. Depois, na festa, quando Ane finalmente achou que elas iriam se beijar, Thethe chegou até ela e disse: “Minha amiga quer ficar com você!”. Ela não entendeu nada, respondeu que na verdade queria era ficar com a Thethe, não com a amiga. E enfim o beijo aconteceu. Depois da festa e do primeiro beijo, passaram o fim de semana conversando. Até que a semana começou e decidiram se encontrar na faculdade e, depois da aula, assistir um filme na casa da Ane. Na faculdade ficaram novamente - no local em que fizemos as fotos, inclusive - e depois foram para a república, na casa da Ane. No dia seguinte, quando acordaram, a Ane convidou Thelassyn para almoçar e assim tudo foi acontecendo… passou o dia, a noite, o dia seguinte… e foi ficando. Ela ia para a casa, pegava roupas, visitava e voltava para dormir com a Ane. Depois de 15 dias, já tinha ganho até uma gaveta no guarda-roupa. Num dia, na faculdade, estava acontecendo um evento no hall de entrada, então Ane pegou o microfone e pediu Thethe em namoro - mesmo que elas já estivessem com a gaveta compartilhada no guarda-roupa. Naquela época, contam que quando não estavam juntas na república, os amigos que dividiam casa até estranhavam. Foi então que, depois de dois meses, decidiram se mudar para uma “casa de verdade”. Querendo ou não, era muito ruim na república: muita gente, uma cama de solteiro, sem ventilador.. passavam muito perrengue. Conseguiram um apartamento próximo da faculdade, dividindo com uma amiga. A mudança aconteceu sem rede de apoio, começo de namoro, sem móveis, sem programação. Ganharam alguns eletrodomésticos, mas lembram que no primeiro dia não tinham nem vassoura, prato, copos… A vida no bandejão da faculdade salvou tudo. Passaram um ano morando neste apartamento. Foram comprando móveis usados, trabalhando muito… Até que conseguiram se mudar para uma casa só delas. Neste novo lar, adotaram duas cachorrinhas, fizeram suas primeiras viagens… Ao total, até hoje, já se mudaram mais de 6 vezes. Entendem que por mais que tenha existido muito perrengue, hoje em dia estão no lar que mais amam e que mais desejaram viver. No momento da documentação, Thelassyn estava com 28 anos, terminando as faculdades de pedagogia e enfermagem. Por mais que sejam áreas bastante diferentes, conta que deseja trabalhar com o que tiver mais demanda de trabalho primeiro, mas que se for com educação, sua prioridade é escolas públicas. Infelizmente na rede particular sofreu um caso de lesbofobia, sendo demitida depois de descobrirem o relacionamento. Ane, no momento da documentação, estava com 25 anos. Ela é natural de Campo Grande, no Rio de Janeiro e se mudou para Nova Iguaçu para fazer faculdade em 2016. Hoje em dia, cursa mestrado, também na UFFRJ, no campus de Seropédica. Lidar com as adversidades no cotidiano não é fácil, principalmente por serem pessoas bastante diferentes - Ane, por exemplo, sente que precisa de mais tempo para processar as coisas, enquanto Thethe é mais ansiosa e deseja resolver os problemas logo. É preciso cuidado para não desequilibrar ou se atropelar. Explicam que o que faz elas continuarem juntas é a vontade de continuar juntas. Parece simples, mas é o que define a grande determinação de passar por cima de todos os perrengues que já passaram em nome do amor que sentem. Explicam que o mais difícil é não ter uma rede de apoio presente, acabam sendo o apoio uma da outra e, como resultado, o impulso também para o amor que acreditam. No começo, foram muito criticadas. As pessoas falavam que o relacionamento não iria durar, tiveram que se afastar da família por não terem apoio (com exceção da avó e da irmã da The, que são boas aliadas)... foi muito difícil enfrentar tudo. Hoje, ficam felizes em relembrar o que viveram desde o início e ver como superaram e passaram por cima desses comentários mostrando o amor que vivem e o que estão disposta a viver, principalmente agora, que estão noivas. Sonham com o casamento, que pretendem realizar em breve, e se permitem planejar uma vida juntas. No Instagram, é através do perfil @morandocomela que relatam o dia a dia que vivem. Foi da vontade natural de registrar os detalhes do cotidiano, quase como uma documentação, que surgiu. Não numa linha influencer, mas de mostrar as conquistas, as fotos, gravar o que acontece, as cenas com as cachorras... No começo, Ane pouco aparecia, ficava envergonhada… hoje em dia adora. Thelassyn acredita que amar uma mulher é resistir sempre. Entende que o mundo ao nosso redor ainda é muito hetero, feito por pessoas héteros e para pessoas héteros. Quando se ama outra mulher e se mostra isso, se demonstra muita coragem. Ane faz o recorte racial quando fala sobre o amor que vivem, afinal, são um casal interracial e estudam sobre o amor também enquanto política - escolher quem você ama fala sobre quem você é e sobre o próprio racismo. Conversam muito sobre práticas, falas e sobre a Ane não ser uma “wikipédia preta”. Thethe está sempre disposta a quebrar os preconceitos que são culturalmente colocados em nós e assim encontram diversas formas de viverem um amor honesto. Entendem que a homofobia está em vários cantos, desde quando saem de casa de mãos dadas e os vizinhos olham diferente, até não serem convidadas para as festas de família - “As pessoas tentam fingir que não é, mas sabemos que é”. Tentam ressignificar todo dia, trazer amor para a relação delas a fim de lidar com as coisas ruins do mundo: não gritar, brigar o mínimo possível, buscar se entender e se respeitar ao máximo. Ressignificar com amor em vários espaços. Thethe fala sobre ver muito o amor no dia a dia, com as cachorras, em casa, na varanda com a chuva caindo. Ressaltam que sempre que chovia, nas outras casas que moravam, era um tormento porque alagava tudo e hoje em dia ter a casa com varanda fez a chuva virar uma alegria… Quando chove correm para observar juntas, é um momento só delas. ↓ rolar para baixo ↓ Thelassyn Ane
- Julia e Milena
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Julia e da Milena, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! No começo do relacionamento foi um pouco mais difícil manter os encontros, por conta da família não saber, não lidar muito bem e a pandemia não permitir que saíssem de casa. Agora, mesmo com a distância intermunicipal, elas acabam se vendo a cada 15 dias ou nos fins de semana. Entendem que essa escolha faz parte da relação e que o relacionamento está sendo construído com muito respeito e conforto, tendo cumplicidade. Nesse momento, a Milena disse que nunca teve alguém na vida que olhasse ela e tratasse ela da forma que a Júlia a olha e a trata, e que isso já resume toda a diferença e tudo o que o relacionamento vem significando para ela. “Todo o carinho. Todo o cuidado. Ninguém nunca se preocupou comigo assim." No começo da conversa, a Júlia tinha comentado sobre uma mulher que estava no metrô olhando as duas no caminho que fizeram até o local que nos encontramos. O olhar que ela fez foi um olhar específico de julgamento, não chegou a ser vulgar, foi algo do tipo “nossa, mas duas meninas? por que elas não estão com homens?”. Ela estava realmente bem incomodada com esse olhar, falou dele várias vezes na conversa. Comentamos sobre a diferença de olhar que nós mulheres recebemos quando estamos sozinhas, quando estamos com nossas companheiras, quando são dois homens, quando é um homem gay, quando é uma mulher nos olhando e quando é um homem nos olhando… sobre como todos os olhares são diferentes, mas como todos eles são violentos. Ela disse que queria que as coisas LGBTs fossem mais divulgadas para que tivéssemos mais espaços de fala, não só para “nos mostrarmos”, mas para educarmos essas pessoas, para explicarmos “sim, somos duas mulheres, amamos, está tudo bem, viu? não precisa do homem”. A divulgação pela nossa própria representatividade, porque precisamos disso, porque é importante para nós. Elas comentam também o quanto o fato de ocuparmos esse espaço as coisas já vão mudando naturalmente, como na própria família: os familiares que antes nunca usavam o termo “namorada da Milena” ou “namorada da Júlia”, ou que substituíam por “amiga”, hoje em dia já estão verbalizando isso… e que elas já estão podendo se referir à mãe da companheira enquanto sogra. O quanto faz diferença para a gente nos considerarem enquanto uma família e enquanto parte da família. O quanto elas vibram em cada pequena conquista que acontece quando uma está na casa da outra e sentem que avançam um pouquinho nessa conquista de território, que é diária. Sabe aquela famosa frase que nos acostumamos a ouvir? “e ai depois veio a pandemia.”, pois é. Foi logo em seguida, então os sentimentos se misturaram novamente: o término da Jú, ela tinha recém começado em um novo emprego, as várias coisas acontecendo mundialmente, tempos de incertezas, mudanças bruscas e todos dentro de casa. Elas foram voltando a conversar com maior frequência, de forma online, e só puderam se encontrar no início de junho. Quando se encontraram foi certeiro: começaram a namorar na mesma semana. Hoje em dia a Júlia está com 23 anos e a Milena também, a Jú faz muitas coisas, é fotógrafa, trabalha como social media e faz produtos digitais. Começou uma graduação em jornalismo e adora a área de criação (faz orçamento com ela, gente!), enquanto a Milena está desempregada, mas possui técnico em administração (mandem jobs e vagas por aqui também! estamos super na busca!). A Jú acredita que a fotografia entrou na vida dela como um grande hobby, acabou virando profissão, mas ela ainda faz em grande parte por diversão, porque gosta mesmo é de treinar, desbravar, se aventurar. E a Milena brinca que o hobbie da vida dela é o esporte, jogar e praticar. Elas entendem que cada vez mais querem estabelecer um nível de relação totalmente diferente das que já tiveram antes. Algo muito mais saudável em diversos âmbitos. Desde a família - antes a mãe da Jú não aceitava, por exemplo, e hoje ela adora a Milena. Assim como a família da Milena demorou um tempo para processar também e hoje adora a Jú - até os próprios preconceitos internos que ainda podem existir em nós. E falam sobre querer enfrentar os desafios que surgirem juntas, crescerem e se apoiarem. Desde o começo, quando eram apenas amigas, sempre falaram sobre absolutamente tudo (e por isso se deram tão bem), então agora não será diferente. Elas podem contar uma com a outra para entender seus processos internamente sem julgamentos. Quando falamos sobre isso, a Júlia logo disse em seguida sobre o arrependimento da escolha de ter voltado àquele relacionamento, por conta do ano de 2019 ter sido um ano muito difícil em diversos sentidos, incluindo o relacionamento. Mas como podemos saber se ela e a Milena teriam dado certo se tivessem ficado juntas naquele ano? de alguma forma, as coisas foram caminhando. O ano serviu para que ambas, em seus caminhos distintos, construíssem um amadurecimento muito maior, enfrentando coisas que não enfrentariam estando juntas. Ela também comenta que mesmo reatando o namoro, a Milena nunca deixou de ser uma prioridade na sua vida, e que isso foi algo totalmente novo, ou seja, que ela nunca tinha sentido por alguém. Ela sempre procurou saber como a Milena estava, se estava precisando de algo… sempre deixou amigos por perto dela. No meio do ano, alguns meses depois do afastamento, elas voltaram a conversar. Durante todo o ano de 2019 a vida da Milena também passou por idas e vindas, ela reatou o ex namoro, também passou por mudanças, processos diferentes. Se viu andando em círculos, processos muitos semelhantes aos da Jú. Nos meses em que elas conversavam se identificavam com algumas questões, se encontravam quando ela poderia estar pelo Rio, já que seguia morando em Magé, e conversavam muito sobre como os caminhos tinham sido separados e como mesmo com situações tão diferentes elas ainda se identificavam. Foi em Janeiro de 2020 que a Milena tomou a iniciativa de romper o relacionamento dela, por não sentir que fazia mais sentido continuar naquela forma que estava. Em março a Júlia terminou também. Uma semana antes da pandemia elas se encontraram em um show do cantor Delacruz, no Circo Voador, porque gostavam de uma música dele que sempre teve um significado muito forte para elas. Esse dia foi um divisor de águas, elas consideram que a partir dele e a partir daquele momento queriam passar a fazer as coisas serem diferentes. A Milena olhou no fundo do olho da Jú e disse: eu realmente gosto muito de você. A história da Milena e da Júlia começou oficialmente durante a pandemia, em 2020. Mas elas se conheceram em 2018, durante um curso, enquanto eram jovens aprendizes. A Júlia é natural do Rio de Janeiro, enquanto a Milena é de Magé, no interior, mas toda semana chegava até o centro do Rio para o curso. Na época elas não tinham nada em comum, a Júlia já sabia que se interessava por mulheres e estava num relacionamento com uma menina, enquanto a Milena nunca tinha se interessado por nenhuma mulher, estava em um relacionamento heteronormativo e pensava que não teria muito assunto em comum para conversar com a Jú. Aos poucos, foram criando uma amizade. Na versão da Jú, ela conta que logo no primeiro dia sentiu atração e uma paixonite pela Milena, por isso tentou investir na amizade começando com piadinhas e tentando se aproximar… assim elas se seguiram nas redes sociais e começaram a conversar além do ambiente do cursinho. Com o tempo passando e a frequência ao se verem semanalmente no curso acontecendo, acabaram criando um grupo de amigas e a amizade foi se fortalecendo. Elas passaram a manter uma rotina de conversas ativas, se ligavam por chamadas de vídeos, viraram confidentes. A Milena se sentiu à vontade para contar para a Júlia que estava sentindo algum tipo de atração por ela (Júlia que não à toa ficou com um sentimento de “eu sempre soube que você gostava de mulheres também!!!!”) e então ela contou que não sabia que gostava de mulheres e que essa estava sendo a primeira vez que sentia isso. Como a Júlia estava em um relacionamento, elas até chegaram a sair juntas depois disso, mas não se beijaram ou algo do tipo, apenas continuaram tendo contato. Em janeiro de 2019, o relacionamento não estava indo bem, ela acabou dando um tempo a ex e foi o momento em que finalmente pode ficar com a Milena. Por mais que elas estivessem ficando e se encontrando durante o mês de janeiro, tudo ainda era novo para a Júlia, porque o relacionamento recém tinha acabado, ela ainda se sentia muito dividida. Foi quando a ex-namorada soube que ela estava se envolvendo com alguém nesse período de “dar um tempo” e a pressionou, como quem diz “e aí, você vai começar algo com ela? ou nós vamos voltar a seguir o que já tínhamos construído?”. Foi então que a escolha de voltar ao relacionamento em que estava foi feita. Ela parou de falar com a Milena, parou de frequentar o curso e mudou totalmente a rotina.
- Jamy e Rebecca | Documentadas
Amor de Festa - Jamy e Rebecca clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Mel e Sophia
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Mel e da Sophia, quando o projeto passou por São Paulo! A história da Sofia e da Melissa é (para não dizer uma das mais especiais que já documentamos por aqui - visto que todas são especiais) uma das mais desejadas - sabe por que? Elas decidiram se tornar o que ouço muito ser sonho de vocês: um casal que largou tudo e comprou um sítio. Nos encontramos no ano passado, nesse novo lar delas, que estava cada vez mais sendo construído e amado. Com as plantas, os animais e as decorações. A Mel estava com 34 anos, ela é jornalista e escritora. Já a Sofia estava com 31, é editora de vídeos e por hobbie adora fazer tatuagens. Tudo começou quando elas moravam em São Paulo, na capital, e entenderam que não dava mais para viver sob tanto trabalho: precisavam dedicar a vida um pouco mais para si, viver para se divertir, não para trabalhar e trabalhar. Foi aí que venderam o apartamento e compraram uma casinha no interior de Campinas, numa região bastante afastada com uma vista bonita, bastante árvores e um rancho bonito, assim surgiu o @ranchosapatao. Morar em um sítio não quer dizer que elas deixaram de trabalhar ou que abdicaram de suas profissões. A Mel, por exemplo, já trabalhou em ONGs internacionais de proteção animal e foi jornalista de grandes revistas e hoje em dia está focando sua carreira no término do seu (ou melhor, seus?!) livro(s). Para quem está no mundo sapatônico há mais tempo, desde os blogs, talvez já deva ter esbarrado com o trabalho dela: ela escrevia um blog chamado Fucking Mia, que virará livro e está em revisão nesse momento pandêmico que vivemos. No rancho, parte da rotina também é dedicada ao cuidado e amor aos bichinhos de quatro patas - todos resgatados da rua. O Mantiqueira e o Juazeiro, dois cachorros super simpáticos, e o Maceió e o Quito, dois gatos maravilhosos ♥ A Sofia e a Mel entendem que a relação delas é baseada na parceria, porque costumam ser pessoas práticas em momentos de aperto ou perrengue e sempre dão um jeito juntas. Nos momentos realmente mais difíceis, entendem que não há o que não possa ser conversado e isso faz com que se compreendam muito bem - porque sempre tentam ao máximo se colocar uma no lugar da outra. Conversamos sobre o quanto esse posicionamento é importante no momento de conversa para que não haja injustiça, e elas complementam que é essencial, também, para que exista o respeito no limite individual de cada uma. Elas se conheceram em 2015, através de uma amiga em comum. Todas foram juntas em um bar em São Paulo e se viram pela primeira vez. A Sofia sorriu para a Melissa e logo ela pensou: “Nossa, pegaria essa menina!”. Depois, se adicionaram no Facebook e no Instagram. Ambas tinham relacionamentos, e seguiram sem interações pelas redes sociais. Um tempo depois, mesmo que a Mel sempre tivesse essa queda pela Sofia e não interagisse, foi a Sofia quem respondeu um ‘storie’ dela, dizendo: “É muita crush para um vídeo só.” Como no vídeo era a Mel e a cachorra dela, ela fez uma brincadeira perguntando quem era a crush que ela se referia, e a Sofia disse que eram as duas! Elas conversaram, trocaram ideia por um tempo e combinaram de sair para se conhecer melhor. O encontro finalmente aconteceu, lá em 2018. Marcaram numa terça-feira, se encontraram e logo no começo se beijaram. Brincam que desde esse beijo estão juntas, não teve como desgrudar. Na época, a Sofia estava em um relacionamento aberto e acabou terminando, porque entendia que o envolvimento com a Mel era maior do que poderia ter previsto. E tudo foi se desenvolvendo, caminhando. Elas dizem que se sentem em um encontro de almas, foi realmente intenso - e isso mudou suas rotinas, vontades e futuros. Fizeram tatuagens, viagens e novos planos. A Mel diz que quando conheceu a Sofia se expandiu enquanto pessoa e elas viraram o casal do “Vamos?” “Vamos!”. Hoje em dia, o apoio e o grude seguem muito presentes. Em dias mais difíceis, uma ajuda a outra, desde deixar o computador preparadinho para o trabalho, até fazer uma comida mais gostosa no fim do dia. O jeito que elas preparam a casa, os cuidados, as reformas… tudo é pensado em conjunto e para o bem-estar. “O que é uma mulher sem pensar na referência que temos ao homem?” - Sofia trouxe esse questionamento à conversa. O questionamento foi para pensarmos na mulher de forma pura, como um lugar nosso, de apoio, enaltecimento, ajuda, sem hierarquia e tantas outras culturas que acabamos herdando do patriarcado. Ela acredita que as relações entre mulheres dizem muito sobre o amor e sobre o coletivo. Para a Mel, é algo muito libertador e engrandecedor o processo de descobrir o amor por outra mulher. Amar outra mulher é uma grande revolução, é entender como não temos limites, como podemos ser tudo. Vai além de todos os padrões. Elas tentam estar sempre rodeadas de mulheres ao redor: nas amizades, nos trabalhos, no cotidiano. E dizem que as coisas vão realmente mudar quando tivermos mais mulheres em cargos de poder. Além disso, vão mudar também no momento em que as pessoas tiverem mais auto-suficiência e acesso ao conhecimento, escutando outras pessoas que sofreram por muito tempo, historicamente, para construirmos uma sociedade que não vá pelo mesmo caminho que estamos - que seja realmente construída com empatia. Sofia Melissa
- Beanca e Ana Carolina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beanca e Ana Carolina, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Ao decorrer da história da Carol e da Beanca você entende que elas terem se conhecido, era no mínimo, muito necessário. Carol procurava uma pessoa que vivesse a vida de forma diferente da dela, que fosse mais calma, circulasse em outros espaços. Enquanto a Beanca procurava alguém que vivesse na área da saúde e que construísse a vida de forma mais dinâmica, tendo uma rotina. Assim aconteceu: a Beanca chegou na vida da Carol trazendo muita leveza, amigos novos, bagagem cultural, pé no chão… enquanto a Carol trouxe uma carga de conhecimento gigantesca, uma nova realidade, iniciativas e muito carinho. Enquanto Carol conta tudo o que precisou fazer até que elas conseguissem se beijar ou começar o relacionamento, Beanca olha para ela e ri, tímida, depois diz “que bom que essa iniciativa ela tomou”. Carolina tem 36 anos, é enfermeira chefe em um hospital público. Beanca tem 38 anos, é formada em jornalismo, trabalhou com assessoria de imprensa e comunicação durante anos, mas largou tudo para seguir seu sonho: fazer odontologia. Por mais que tenha feito muitos trabalhos legais na comunicação (e cita Esconderijo, a websérie LGBT, da qual participou da produção na segunda temporada), não se via mais no mercado, sentia tudo muito saturado. Foi aí que resolveu se dedicar ao seu sonho e hoje em dia, além da faculdade, ocupa boa parte do tempo fazendo diversos cursos especializantes. Quando as duas se conheceram - pelo Happn, Carol logo de cara achou ela interessante pelo fato de ser jornalista… e Be queria muito conhecer alguém da área da saúde, já que estava entrando no mundo da odontologia. Pra quem não sabe, o happn funciona mostrando pessoas que passam fisicamente perto de você em algum caminho durante o dia. Elas se esbarraram algumas vezes, mesmo que morressem em lugares bem distantes, pelo motivo da Beanca morar próximo ao hospital onde o padrasto da Carol estava internado. Quando elas se encontraram pela primeira vez, Carol estava passando por um momento bem difícil. Estava muito triste, queria sair um pouco da realidade dela e conhecer pessoas novas, conversar sobre novos assuntos, ter alguém que ajudasse a colocar uma calmaria no turbilhão de sentimentos que estava sentindo. Beanca chegou trazendo tudo isso e introduziu a Carol no seu grupo de amigas, que são pessoas mais voltadas à arte e que falam sobre todos os tipos de assunto - de cinema, política, fotografia, música… coisas que não fossem só voltadas à saúde. “Pra mim, foi muito importante esse contato com pessoas alegres. Era o que eu precisava. Me sentir animada de novo”. Pouco tempo depois rolou o pedido de namoro. Carol comenta que toda mulher é muito intensa e pecamos em romantizar demais isso. Antes de pensar em namorar, ela passou por um relacionamento bastante abusivo (forte e intenso), então a Be significava ser muito mais vida real, mais tranquila, numa frequência melhor. O amor veio com o tempo, quando elas deixaram a paixão se transformar. “Dar tempo ao tempo não significa ser uma tarefa fácil”. Elas já passaram por diversos momentos difíceis no relacionamento - chegaram a ser diagnosticadas com depressão durante um período e optaram pelo afastamento para conseguirem tratar. Quando entenderam que já estavam num quadro melhor e perceberam que não queriam perder uma a outra, decidiram voltar, já tendo uma mentalidade diferente sobre o relacionamento. Hoje em dia, estão sempre conversando sobre tudo. A pandemia também ensinou que não adianta você se esforçar ao máximo para atingir um nível de coisa que não vai existir, ou seja, um relacionamento sem erros, romantizado demais. Pelo contrário, a pandemia mostra que não precisamos ter controle de tudo, que a vida é um sopro e que devemos usar a energia com algo que realmente valesse a pena, como o cultivo e cuidado diário do relacionamento. Devido ao momento de pandemia que vivemos e à importância da profissão da Carolina enquanto enfermeira chefe, decidi perguntar sobre como está sendo a experiência difícil de estar na linha de frente contra o COVID-19. “É muito complicado” - foi a primeira frase que Carol disse. Toda a equipe de enfermagem saiu com alguma sequela, principalmente psíquica. Você pode ter muita ou pouca experiência, ser mais velho ou mais jovem, todos sairão da pandemia muito diferentes. É muito difícil até hoje pensar em quantos amigos ela perdeu, quantas pessoas desesperadas sabendo que morreriam entubadas ela viu. Dar as notícias, emprestar o próprio celular para as pessoas se despedirem da família por vídeo, entender que o vírus é um inimigo invisível… foi tudo muito chocante. A sensação é de que ninguém vai sair ileso, os profissionais dentro das equipes começaram a mudar muito rápido, tanto para melhor, quanto para pior. O corpo dói, a mente dói, existe muita tensão e muito medo de levar para a família, preconceito das pessoas não quererem estar por perto… Ela diz que toda vez que precisa correr para conseguir o último remédio ou o último cilindro, entende que a vida passa muito rápido. Precisamos pensar também na importância da profissão. Por mais que médicos tenham um papel muito importante no hospital, quem está na linha de frente mesmo, correndo, atendendo e cuidando são os enfermeiros. Hoje em dia o descaso com a saúde pública no Brasil é gigantesco, principalmente no Rio de Janeiro, e é resultado também de diversas gestões que não tratam a saúde com devido respeito, destinando poucas medidas efetivas e recursos necessários. Por fim, Carol comentou também o quanto eles envelheceram, o quanto estão cansados e o quanto foi difícil perder amigos e familiares, vendo eles morrerem completamente sozinhos. O COVID é uma doença muito cruel que não escolhe entre uma pessoa ou outra. Quando você vê, já era. Surge novamente a frase na conversa: a vida é um sopro. Quando perguntei sobre como foi a sensação de ter tomado a vacina, o tom da voz mudou completamente: alívio. Disse que abraçou muito uma colega de profissão, que chorou e que entendeu que isso, em algum momento, vai passar. “Poder voltar a abraçar as pessoas é muito surreal”. Beanca sente que o amor entre mulheres é muito mais cuidadoso, íntimo e que as mulheres se entendem mais. Carol acha mais fácil se relacionar com outra mulher do que com homem, levando em consideração que relacionamentos em si não são coisas fáceis. No fim, chegam à conclusão de que não sentem vontade de se relacionar com homens porque falta companheirismo - o que há muito na relação delas. Se uma cozinha, a outra limpa. Não ficam fazendo algo no sentido de “servir”, como vemos em diversos relacionamentos heterossexuais, mas fazem no sentido de construir juntas, fazer juntas. “Quando eu faço a janta é porque eu quero fazer, esperar ela chegar para comermos bem. Não faço porque sou obrigada a fazer e deixar um prato na mesa pronto esperando ‘o marido chegar do trabalho'''. A coisa que mais gostam de fazer está entre: reunir os amigos (sendo anfitriãs, recebendo eles em casa), estar com suas famílias e viajar estilo bate-e-volta para alguns lugares (a casa em Teresópolis, regiões do interior do Rio de Janeiro, etc). Quando falamos sobre a cidade, elas contam o quanto nossa visibilidade melhorou muito, já que quando se assumiram, há uns 20 anos atrás, a coisa era bastante diferente. Naquela época uma mulher só poderia amar outra se estivesse em guetos, escondidas, suburbanas. Eram lugares horríveis, submundos, não eram restaurantes e festas legais. Carol lembra muito de ter que se esconder para viver um amor e sobre não falarem abertamente sobre homossexualidade. Até mesmo para ela foi difícil entender. Achava que só podia ser lésbica quem se vestia de forma estereotipamente masculina… e só entendeu que não era bem assim quando viu uma mulher bastante feminina beijando outra (e isso fez com que ela se entendesse também). Além disso, conta que foi nos grupos do UOL/BOL e no ICQ que ela pode conhecer outras pessoas LGBTs e assim se encontrar - em shoppings, em guetos. Para a Be foi mais difícil a questão de se aceitar. Já tinha uma referência de LGBT na família, então lidava com isso tranquilamente. Mas internamente só conseguiu se assumir quando formou um grupo de amigas que também se sentiram assim e decidiram que se assumiriam juntas. Hoje em dia ficam felizes quando veem o quanto está sendo falado sobre LGBTs - na mídia, nos espaços de convívio e na política. Acreditam que cada relação se constrói aos poucos e que precisamos falar quem nós somos, amar de verdade, para que a luta siga avançando. < Beanca Carol
- Bruna e Manô
Quando pergunto sobre o amor entre mulheres, Bru diz que sente o amor entre mulheres ser muito diferente que os demais relacionamentos na sociedade. Não só pelo cuidado e pelo respeito, mas sobre saber escutar, tentar e compartilhar as necessidades. Manô diz que o amor em geral, para ela, é ter segurança. É acolher e é sentir algo que te nutre para enfrentar outras coisas na vida. Além disso, o amor entre mulheres é uma força da natureza absurda. “Tem uma conexão absurda, são vivências diferentes, realidades diferentes, mas ao mesmo tempo vão se complementando e se identificando.” Ela conta que se encontrou enquanto pessoa quando começou a se relacionar com mulheres, e isso implica não só conexões românticas, mas relacionar-se com mulheres no dia a dia, no afeto, na amizade, no cuidado. Brinca que é uma conexão mística, uma sintonia e construção de relação diferente de qualquer outra. Falam sobre como é ocupar a rua enquanto uma mulher lésbica também, o medo que sentem por não performarem feminilidade “é como se agredissemos os olhos desses homens”. Ao mesmo tempo que muitas vezes vem um sentimento de só querer rebater o preconceito, em outros momentos se sentem muito fragilizadas. Bru comenta sobre o medo que sente com coisas que deveriam ser tão básicas, como usar um banheiro público, por conta da alta violência... e ambas entendem que as coisas só vão mudar realmente quando mulheres feministas ocuparem espaços de poder, porque a cidade é pensada por quem está ocupando esses espaços. Elas decidiram morar juntas há bastante tempo e a decisão surgiu pela facilidade de locomoção, apoio financeiro e melhoras no relacionamento. A Bruna morava mais distante do centro, numa casinha no terreno da família e Manô foi para lá também, não precisariam pagar aluguel, mas reformaram a casinha e deixaram mais confortável. Na pandemia, por alguns problemas familiares, a mãe dela passou a morar na casa também. O espaço foi ficando mais apertado, mesmo que elas tivessem acolhido a mãe e estabelecido algumas regras para a casa. Contudo, sabemos que não é fácil passar por tempos de pandemia, com todas dentro de casa, o dinheiro curto e sem perspectivas de melhora, então a questão da convivência foi ficando insustentável e elas decidiram sair de lá. Foram acolhidas por dois amigos num apartamento na Cidade Baixa, no centro de Porto Alegre. Ficaram na casa dos amigos por alguns meses, até conseguirem o apartamento em que estão morando agora. Hoje em dia dão muito valor à ele, cuidam bastante, contam como foi muito batalhado conseguirem achá-lo, se mudarem, decorarem com a carinha delas… esse espaço significa um lugar de empoderamento, em que ninguém pode falar nada para elas, é a zona de conforto, o lugar onde o preconceito não entra. Sabe aquela história de rebuceteio bem bem bem clássico? então, aqui temos. Bruna e Manô se conheceram porque ambas possuem uma ex em comum. Manô terminou com uma menina e Bruna começou a namorar a mesma, logo depois, mas elas (Bru e Manô) não se conheciam. Foram se conhecer pessoalmente quando trabalhavam em bares vizinhos e a Bruna, com seu grupo de amigos, vivia frequentando o bar que a Manô fazia uns trabalhos de vez em quando. Decidiram investir em um ‘acordo de paz’, já que, mesmo que ela fosse a atual da ex, não tinha motivo para não conversarem e gerar climão nesses momentos… então criaram uma amizade. Com o tempo, o relacionamento da Bru com a menina desandou consideravelmente, ela não se sentia bem, não estavam conseguindo se comunicar, conversar… uns dias se passaram e numa das saídas entre os bares vizinhos, ela e Manô sentiram algo. Ficaram em um dia, não foi nada combinado, mas na próxima vez que a Bru viu a menina resolveu terminar o relacionamento, não sentia mais motivos para seguir. Depois disso ela ficou com a Manô durante um tempo, meio que sem ninguém saber, até que no dia dos namorados (ou melhor, das namoradas), assumiram o novo namoro. Manô tem 25 anos, é psicóloga e ativista social/uma das coordenadoras da ONG Somos (um grupo situado em Porto Alegre (RS) que realiza ações transdisciplinares, tendo como base os direitos sexuais e direitos reprodutivos) e trabalha no SUS atendendo pessoas que vivem com doenças sexualmente transmissíveis e AIDS - um projeto que traz, através da psicologia, a importância do tratamento, incentivando os novos pacientes a participarem e resgatando os que, por algum motivo, abandonaram. Bruna tem 29 anos, é bartender e sempre trabalhou com bares e eventos. Fez diversos cursos, ama essa profissão. Hoje em dia descobriu também a gastronomia, uma nova paixão. Aprendeu a equilibrar a comida com os cocktails e durante a pandemia desenvolveu uma empresa para vender comidas veganas. Bru fala sobre o quanto pra gente ser ‘bem sucedida’ tem que dar muito mais corre, ainda mais ela enquanto uma mulher negra sapatão trabalhando em um dos melhores bares de Porto Alegre. Ela está sempre se superando, sempre batalhando, sempre melhorando expectativas. Enquanto a militância é o maior “hobbie” da Manô (viver entre reuniões e eventos), Bru conta que sua vivência sempre foi mais longe do movimento - e isso faz com que sua verdade seja o que ela vive diariamente nas ruas, nos lugares, fora dos meios acadêmicos. Manô fala sobre querer estar em espaços mais lésbicos, porém entende que muitas ONGs sempre são, em sua maioria, compostas por homens gays... e justamente por isso quer seguir ocupando esse espaço. Não quer que as mulheres fiquem em lugares mais afastados, mas sim que estejam debatendo e construindo o movimento LGBT como um todo. Manô Bruna
- Thalita e Lia | Documentadas
Amor de Se Sentir em Casa - Lia e Thalita clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Natália e Bruna | Documentadas
Bruna diz que ficou até surpresa quando a Natália contou o desejo de inscrever elas no Documentadas, brincou dizendo “Quem te viu, quem te vê, hein?!” porque no começo da relação, principalmente na primeira viagem que fizeram juntas, Natália tinha bastante receio até de pegar nas mãos em público… E agora quer mostrar ao mundo que o amor que vivem é lindo. Entendemos que esse medo é legítimo, assim como essa vontade de afirmação. Bruna completa: a história de amor delas também é a história de descoberta da Natália. Para Nat, o amor precisa ser por completo, ou seja, as pessoas merecem ser amadas como são. Se uma pessoa só te ama se você for heterossexual, ela não está te amando. Existe uma busca na perfeição do que criamos em cima dos outros, mas a verdade é que precisamos aceitar quem eles se tornam, quais profissões escolhem, a forma que entendem o amor, com quem se sentem bem ao relacionar, como vão compartilhar a vida… Isso tudo também é amar. Ela explica que a Bruna traz liberdade, foi um combo: a Bruna + a gatinha dela + o lar é o jeito que elas são felizes. Tudo fica nítido, é estampado a forma que se sentem confortáveis juntas. Não existe um julgamento dentro de casa. Quando uma relação existe e se fortifica é porque ali está o amor, assim enxerga Bruna. O amor a gente encontra na rotina, na construção das pequenas coisas, crescendo, cuidando, estando ali diariamente para se ajudar. Com a Natália foi a primeira vez que ela sentiu de forma plena o equilíbrio: ela pode se doar e vai receber de volta, é acolhedor. Natália, no momento da documentação, estava com 34 anos. Nasceu em Barra do Piraí, interior do Rio de Janeiro, mas foi ainda criança para Niterói e seguiu sua vida na cidade. É formada em jornalismo e fez transição de carreira recentemente, está estudando nutrição. Adora ver filmes, séries, ler e estudar o vegetarianismo e o veganismo. Atualmente, mora no Rio de Janeiro, junto à Bruna, e estão desbravando a cidade, conhecendo novos teatros, parques e outros lugares. No dia seguinte à nossa documentação elas iriam participar da primeira corrida juntas, pois estão focando em atividades físicas no momento. Bruna, no momento da documentação, estava com 36 anos. É natural do Rio de Janeiro, da zona oeste da cidade. Trabalha enquanto enfermeira e atua no ambiente corporativo, cuidando da saúde no trabalho. Além disso, faz trabalhos de marketing digital, adora a área do design e também está estudando tarot, que sempre foi um hobbie. No dia a dia, gosta de praticar exercícios dinâmicos (esportes em geral) e também curte dirigir, se sente calma quando dirige. Entre o réveillon de 2022 para 2023, durante a festa da virada de ano, Bruna e Natália se conheceram. Inicialmente não era nessa festa que Natália iria, ela e a amiga haviam comprado ingresso para outra, mas foi cancelada, então deram a opção de reembolso ou de transferência para uma festa que aconteceria na Barra da Tijuca. Elas, saindo de Niterói, acharam bem ruim a opção de ir para a Barra, mas com o valor do reembolso não conseguiriam comprar outra festa então toparam. Bruna, diferente delas, tinha macado com os amigos para ir na festa da Barra mesmo, sabia que era uma festa com um público muito hétero, que só iria ela e um amigo gay, mas topou ir porque queria se divertir. Logo que chegou, Bruna olhou para Natália. Elas não possuíam amigos em comum, estavam apenas próximas e trocaram olhares. Natália estava apenas com a amiga e percebeu os olhares, mas até então se entendia enquanto uma mulher héterossexual e achou estranho, até engraçado isso acontecendo… A festa seguiu e os olhares também. Bruna então comentou com o amigo sobre elas trocarem olhares e quando ele percebeu, disse que estava sim e a incentivou a ir falar com ela. Quando ela ia tomar iniciativa, um homem chegou até à Nat, e quando ela se livrou dele, Bruna não estava mais lá. Depois da meia noite se reencontraram porque o amigo da Bruna fez amizade com um grupo de meninos gays que a amiga da Natália também havia feito amizade, e assim elas se percebem neste grupo. Dançaram juntas, Bruna chegou rápido na Natália e ela indagou: “Que isso, não vai nem perguntar meu nome?” - então elas falaram os nomes e se beijaram. Natália já tinha ficado com uma menina antes, quando era adolescente, mas seus relacionamentos sempre haviam sido com homens. A festa foi acontecendo e elas não tiveram muitas interações, se encontraram novamente 6h da manhã quando tomaram café e a Bruna foi solicita ajudando a Nat a levar café da manhã para a amiga. Foi quando Nat perguntou como a Bruna se identificava e ela respondeu “Enquanto mulher lésbica, e você?” e ela disse que era bissexual. Ela não pensou muito, isso chegou muito naturalmente e pontual. No dia seguinte conversaram bastante e assistiram à posse do Lula juntas, de forma online. Na semana seguinte ao réveillon tiveram um encontro, se divertiram bastante e passaram a se encontrar com frequência. Ainda em janeiro viajaram juntas e na semana seguinte, dia 4 de fevereiro, começaram a namorar. Quando Bruna soube que Natália não havia ficado com mulheres antes, resolveu ir com mais calma, mas não adiantou, o namoro já estava encaminhado. Foram muitos meses no início da relação indo da zona oeste até Niterói, um caminho bastante longo, para se encontrar - ou melhor, a Bruna indo e voltando buscando a Natália para passar o final de semana na casa dela. Existia um receio muito grande de contar para a família da Nat, então tudo foi acontecendo aos poucos. Somente no começo de 2024, mais de um ano depois de se conhecerem, Nat se abriu para seus familiares. Desde então, não possui mais contato com a sua mãe. Por mais que os outros familiares ainda conversem e acompanhem (ainda que não queiram saber sobre o relacionamento) ela sente muito sobre, é muito triste ficar longe de uma das pessoas que mais ama. Entendem que eles terão seu próprio tempo para processar, assimilar e superar o preconceito, mas que nesse tempo elas não podem deixar de viver o amor mais bonito que já sentiram. Para Natália, o amor que vive com a Bruna é o sentimento mais bonito que já presenciou, que já viu acontecer… é respeitoso, é companheiro e não existe opinião que vá tirá-lo do caminho. Entende também que isso não apaga o que tanto ela, quanto a Bruna, já viveram em outros momentos da vida, em outras relações (que também já foram boas) ou em outras formas de viver, que isso tudo faz parte da construção de serem quem são, e que se esforçam muito para serem as melhores pessoas possíveis, mas que em nenhum momento sucumbirão à um pensamento preconceituoso. Então respeitam o tempo, por mais que doa muito, mas se permitem viver. Pela parte da família da Bruna, recebem muito suporte da mãe, que as trata com muito carinho e afeto. ↓ rolar para baixo ↓ Natália Bruna
- Isabela e Camila
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isabela e da Camila, quando o projeto passou por São Paulo! Hoje em dia, quando elas se encontram, tentam passar o máximo de tempo que conseguem juntas. Já rolou uma semana, mas geralmente investem nos feriados. Como ambas estão trabalhando presencialmente, a distância ainda é um problema difícil. Tentam também diminuir o peso da saudade conversando bastante e curtindo o começo do namoro da melhor forma possível. Fazem chamada de vídeo todos os dias, jantam juntas, se falam sempre antes de dormir e nos finais de semana conversam a maior parte do tempo em vídeo também, principalmente ao anoitecer, quando podem virar a noite assim ou praticamente dormir em ligação. A Isa comenta que, para ela, o amor demonstra ser acompanhado desse respeito e companheirismo, e ela sentiu que nasceu o amor quando entendeu que podia confiar plenamente, que podia se entregar e pegar na mão, estar de verdade com a Cami. E a Cami conta que amar uma mulher, mesmo não romanticamente, significa se sentir completa. É amando que ela encontra o carinho, a identificação, o cuidado, a escuta, o acolhimento… é tudo o que ela sempre quis e que nunca imaginou que conseguiria ter com alguém. Juntas aprendem diariamente um novo modelo de se relacionar, também. De estarem dispostas, de se doar. Foi sóóóó no fim de janeiro que elas realmente conseguiram aceitar que esse sentimento existia e que o próximo passo era fazer o encontro acontecer, afinal, já estava na hora. Até a família da Camila já sabia da existência da Isa e dessa paixão à distância (e apoiava que elas se encontrassem!), então ela embarcou no avião e voou até Guarulhos. Elas se encontraram no dia 13 de fevereiro e no dia 14 estavam namorando. Foi assim, literalmente, encontrou > namorou. Hoje em dia ambas famílias gostam bastante e apoiam, Inclusive a família da Isa, que adora todas as vezes que a Cami vem até São Paulo. Elas já andam com aliança e tudo. Fizemos mil piadas sobre a corrida e sobre o tanto que a Isa correu de dezembro até fevereiro, em círculos, foi formando a aliança. Depois foi só parar de correr e vestir no dedo. Simples assim. Sem traumas. Ela entendeu que foi isso mesmo, só ela não enxergou, no fim estava na cara que isso aconteceria, sempre esteve. Mas respeita também porque foi o tempo dela e fica feliz da Cami ter entendido isso e não imposto nada que ela não se sentisse realmente à vontade de viver. A Cami e a Isa se conheceram através do Instagram, de uma forma bastante aleatória. A Cami, no começo de 2020, postou uma foto com uma atriz que tanto ela, quanto a Isa, gostavam muito: a Renata Toscano. Ela marcou a Renata e a Isa viu essa foto, por conta de ser administradora de uma página de fãs dela. Como ela ainda era pouco conhecida no Brasil, decidiu seguir a Cami e as duas se falaram rapidamente e a Cami compartilhou que que também tinha vontade de criar conteúdos enquanto fã, então mantiveram breves contatos, mas ainda sobre coisas pontuais. Com o início da pandemia e a agenda da artista no Brasil não dando continuidade, a Isa até deu dicas para a Cami fazer um Twitter porque era uma rede social mais fácil para fãs se comunicarem que o Instagram; ela fez, mas com o tempo elas foram deixando de se falar aos poucos. No decorrer do ano e, dessa vez, no Twitter, elas se deram um pouco melhor e entenderam que ambas se relacionavam com mulheres, o que fez com que se identificassem mais, já que o restante do meio ainda era bastante heterossexual, então aos poucos acabaram fazendo uma amizade. Nessa época, a Camila namorava e era muito fechada sobre o seu relacionamento, elas falavam muito pouco e não havia possibilidades da amizade delas ser mais que uma amizade, nem se passava pela cabeça de ambas um flerte ou algo do tipo, o assunto era realmente sobre fã clube. Depois de um tempo, elas descobriram outras séries em comum e, entre setembro e novembro, quando a Cami passou pelo processo de término, começou a se abrir sobre seu relacionamento para a Isa. Foi entre dezembro e o ano novo, um tempo depois do término e de já estar solteira, que ambas começaram a perceber que poderia surgir um sentimento a mais na amizade das duas. A Cami tentou falar sobre e conversar com a Isa, que reagiu da forma que soube: correndo. Hahaha! Ambas brincam sobre, mas a verdade é que ela correu o máximo que conseguiu. Evitou sentir, falar, mas ao mesmo tempo não deixou de conversar diariamente com a Camila. Ou seja, uma hora, iria ter que lidar com isso. A Isabela e a Camila, mesmo estando há pouquinho tempo juntas, constroem uma relação muito bonita ligando São Paulo, capital, com Itajaí, cidade no interior de Santa Catarina. Elas se conheceram pouco tempo antes da pandemia, de forma online e aleatória, através do Instagram, ficaram amigas e só foram desenvolver um sentimento e se encontrar realmente em 2021! E, neste ano, além do relacionamento estar acontecendo, se permitiram também viver um novo tipo de relação, de comunicação e de cuidado. ♥ Isabela tem 25 anos, mora em São Paulo e trabalha enquanto auxiliar financeira em uma imobiliária. Tem sua formação em direito, mas nunca atuou e nem pretende seguir carreira na área. Sonha mesmo em fazer pedagogia. Foi por isso que deu início a esse trabalho na imobiliária, para conseguir bancar os estudos e ter maior independência financeira. Ela brinca que esses ERAM os planos, porque hoje em dia, nem sabe se vai continuar morando em São Paulo e, enquanto ouço essa frase, a Camila fala no fundo “ela vai mudar pra Itajaí!!! Vai mudar!!!”. A Camila tem 20 anos, mora em Itajaí, interior de Santa Catarina e trabalha enquanto analista de crédito, em contato direto com o cliente. Ela cursa ciências contábeis e gosta bastante de morar em Santa Catarina, por mais que esteja gostando das idas para São Paulo de vez em quando também. Isabela Camila
- Vitoria e Vanessa | Documentadas
↓ rolar para baixo ↓ Vitória, no momento da documentação, estava com 25 anos. Nasceu em Fortaleza, mas passou a maior parte da vida em Salvador. É estudante de administração e está procurando emprego atualmente, pois deixou seu último trabalho para fazer a mudança para Trancoso, acompanhando a Vanessa. No tempo livre, se dedica a estudar inglês, buscar freelas, e também adora ir à praia, uma de suas atividades favoritas. Vanessa, no momento da documentação, estava com 24 anos. Nasceu em Mutuípe, no interior da Bahia, mas viveu grande parte da vida em Brasília. Há dois anos, se mudou para Salvador à trabalho, e depois disso para Trancoso. Vanessa é engenheira civil e trabalha na área de obras. Assim como Vitória, ela ama estar na praia, e também gosta de acampar, embora ainda não tenha explorado essa parte em Trancoso. Vanessa compartilha o objetivo de melhorar seu inglês, algo que considera essencial para os planos que tem em mente: viajar pelo mundo. Foi em Trancoso que elas encontraram uma nova fase da vida, unindo os desafios profissionais e pessoais. Além disso, ambas têm em comum a paixão por viagens, então constantemente poupam dinheiro com o propósito de realizar seus sonhos pelo mundo, planejando novas experiências juntas. Vanessa conta que ainda na época em que vivia em Brasília, recebeu a notícia de que a empresa que trabalhava abriria uma filial em Salvador, fazendo obras. Em fevereiro de 2022, mudou-se para a capital baiana por conta do trabalho, deixando a família em Brasília. Apesar de ter parentes na Bahia, eram mais distantes, o que levou a buscar novas conexões, então baixou um aplicativo de relacionamentos para conhecer pessoas e foi ali que encontrou Vitória - ou Vick, mais carinhoso, né? O primeiro encontro aconteceu em março, e desde então as duas não se desgrudaram mais. Inicialmente, os encontros aconteciam apenas nos finais de semana. Vitória, que morava com a mãe, o padrasto e o irmão, costumava passar boa parte do tempo no apartamento de Vanessa, fornecido pela empresa. Lá, o ambiente era tranquilo, juntas compartilhavam momentos em casa, festas, passeios… e durante a semana a rotina voltava ao normal. Até que com o tempo a frequência dos encontros aumentou. O que antes era apenas nos finais de semana passou a incluir as sextas-feiras, segundas e, depois, quintas… quartas… Até que as roupas da Vick já estavam lá, já tinham uma escova de dente de casal… Apesar dessa convivência intensa, o relacionamento ainda não era chamado de namoro. Vanessa, que no começo queria curtir, se viu surpresa com a rapidez de tudo. Era uma experiência muito nova - ela nunca tinha se relacionado com outra mulher - e também já era muito independente, morava sozinha há um tempo. Do nada era chapinha para um lado, escova para o outro… ficou pensando: “O que está acontecendo aqui?!”. Tudo mudou em junho, quando decidiram oficializar o namoro. Nesse ponto, Vitória praticamente já dividia o apartamento com Vanessa, pegando suas coisas da casa da mãe e voltando para lá. Elas já sabiam o quanto se gostavam, por mais que o começo ainda fosse um desafio. Aos poucos, o carinho pela Vick tornou o processo mais leve. Apesar do susto inicial, Vanessa percebeu que gostava muito da companhia, e juntas, encontraram uma forma de transformar aquele início despretensioso em uma relação sólida. No começo da relação, Vitória e Vanessa enfrentaram algumas discussões enquanto ajustavam suas rotinas e expectativas. Quando brigavam, Vitória costumava voltar para a casa da mãe. Essa dinâmica deu a elas a impressão de que ainda não moravam juntas de fato. No entanto, tudo mudou no final do ano, quando decidiram passar o natal em Fortaleza com a família da Vick. O padrasto dela estava enfrentando um câncer e havia se mudado para a cidade para fazer o tratamento, levando parte da família junto. Durante esse período, Vick permaneceu com a Vanessa em Salvador e, então, ambas entenderam: estavam oficialmente morando juntas - e por consequência, quando brigavam, não havia mais para onde voltar. A virada do ano foi o marco de uma nova fase. Viveram intensamente o verão e o carnaval, celebrando estarem juntas. Em 2023 completaram um ano de namoro, mudaram de casa, ajustaram suas rotinas de trabalho, compraram uma moto no nome das duas… Entenderam que estavam fortalecidas, ali havia um compromisso mútuo. No final de 2023, decidiram comemorar os dois anos de namoro com uma viagem ao Chile, a primeira vez que sairiam do Brasil. Ralaram muito para pagar cada detalhe: passagens, hospedagem e passeios. Enquanto isso, a vida profissional da Vanessa passava por transformações. No mesmo período em que se formou em Engenharia Civil, ela enfrentava desânimo com o trabalho e a distância da família. Escolheu não realizar cerimônias de formatura, optando por uma colação de grau online, sem grandes celebrações. Se sentia esgotada, então começou a buscar novas oportunidades, enviando currículos para outras empresas. Em março de 2024, Vanessa foi surpreendida por duas notícias simultâneas: recebeu uma proposta de trabalho em Trancoso no mesmo dia em que foi desligada da empresa em que trabalhava. Para ela, aquilo foi um sinal. Vick deu o total apoio. Em duas semanas, Vanessa reorganizou sua vida e estava morando em Trancoso. A mudança para Trancoso foi (mais) um grande fortalecimento entre a Vanessa e a Vick, principalmente pelos desafios que enfrentaram. Como o apartamento onde Vanessa morava em Salvador pertencia à empresa, precisou ser devolvido logo após a demissão. Em Trancoso, encontrou inicialmente uma kitnet, já que o custo de vida na região é alto. Durante esse período de transição, Vitória permaneceu em Salvador para resolver pendências relacionadas ao trabalho e à viagem para o Chile, planejada há meses. A viagem ao Chile foi mágica. Ambas decidiram que seria o momento perfeito para um pedido de casamento, e, coincidentemente, planejaram o mesmo cenário: um ponto turístico em Santiago. Contaram para uma amiga, que tentou ajudar evitando gastos - sugeriu que comprassem alianças mais acessíveis, deixando para comprar algo mais sofisticado na cerimônia de casamento. O plano funcionou, mas a experiência acabou sendo ainda mais inesperada por conta de uma nevasca. O passeio ao local planejado foi cancelado e o pedido aconteceu na neve. Vanessa colocou o celular para filmar e pediu que Vitória olhasse para o horizonte para registrar a cena. Enquanto Vitória se virava, Vanessa se ajoelhou, mas foi surpreendida quando Vitória também tirou uma aliança do bolso. No total ficaram com quatro alianças, três solitárias e hoje elas usam tudo de forma misturada. Ao voltar de viagem, Vick pediu demissão do trabalho que tanto gostava em Salvador para se mudar definitivamente para Trancoso. Os três meses em que ficaram separadas, vivendo em cidades diferentes, foram desafiadores para a relação. E agora estavam noivas, né?! No dia 11 de julho, aniversário da Vick, ela finalmente chegou em Trancoso. A Vanessa e a Vick refletem um amor construído diariamente, superando barreiras da convivência e das diferenças na criação. Para Vanessa, o que elas têm vai muito além de um amor idealizado ou de momentos bons. "Não é só o amor bonito - por mais que seja também - é um amor que está presente todos os dias, nos bons e nos ruins.” Ela acredita que o verdadeiro amor está na escolha de estar ao lado de alguém em qualquer circunstância, sem fugir nos momentos difíceis, como era no início. Fala do sentimento de amor como uma mãe possui por um filho: "A mãe ama o filho na pior fase dele, e isso é o que define o amor para mim. Não é algo que apaga e acende. É duradouro, e é isso que torna os dias especiais." Para Vitória, o relacionamento foi uma jornada de amadurecimento e coragem. Ela admite que, no início, era mais fácil evitar os problemas e se distanciar. Porém, a construção dessa parceria a ensinou a enfrentar os desafios e a valorizar a força que elas têm juntas. "É isso que é casamento, essa parceria de segurar a mão e enfrentar o que vier. Com o tempo, você percebe que agora não é mais só você. Existe um 'nós' que se torna a prioridade". Vitória vê esse compromisso como algo natural e poderoso: "No começo, é abstrato pensar se a pessoa vai estar ao seu lado ou não. Mas com o tempo, você entende que agora é Vanessa e Vitória juntas, sempre." Elas reconhecem que suas origens familiares são muito diferentes. Enquanto uma cresceu em um ambiente de compreensão, afeto e diálogo, a outra viveu em um contexto mais rígido, onde decisões eram tomadas com base em punição. Apesar disso, encontram na relação um equilíbrio. Brincam sobre como será a criação de um futuro filho e especulam sobre qual traço de personalidade a criança puxaria de cada uma. Vanessa Vitória
- Vanessa e Denise
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Vanessa e da Denise, quando o projeto passou por São Paulo! Durante a documentação sobre quem a Vanessa e a Denise são, elas falaram algo que marcou muito: “Somou de contextos muito diferentes, mas temos sonhos muito semelhantes”. A Vanessa estava com 24 anos quando nos encontramos, ela é de São Bernardo, cidade que pertence à São Paulo e ela apelida como ‘batateira’, pois é a terra da plantação de batata. Sua formação foi em direito e sempre trabalhou na empresa da família, o que não era uma escolha muito pessoal, mas comenta o quanto se sente amedrontada por ver suas colegas negras que se formaram ainda na busca por emprego e o quanto o mercado de trabalho está difícil pela desvalorização da profissão como um todo. A Denise estava com 25 anos quando nos encontramos, ela é de São Paulo, capital, mas sua família é da Bahia e sua mãe se mudou para o sudeste quando estava grávida. Há pouco tempo ela deixou para trás a administração e apostou na mudança de carreira, se tornou programadora e está sendo desenvolvedora web. Dentro da empresa, já trabalhou em alguns projetos de diversidade e inclusão, com questões raciais e LGBTs. Além disso, no seu tempo livre, adora fazer crochet, mandalas de lã e artesanatos. Quando a Vanessa e a Denise se conheceram, demorou um pouco para as coisas acontecerem. A Vanessa brinca que estava no momento de “piriguetear”, porque teve um relacionamento que durou três anos e que agora era o momento de baixar aplicativos, conhecer gente nova, sair e se divertir. Ela também fala da importância da conclusão que chegou em que só se relacionaria com outra mulher negra, porque percebeu traços abusivos e racistas no antigo relacionamento e não queria vivenciar esse tipo de trato novamente. Foi em 2017 que as duas deram ‘match’ num aplicativo de relacionamento e a Denise chamou a Vanessa para uma festa, a “Sarrada no Brejo” (pelo nome, obviamente, uma festa sapatão). Ela nunca tinha ido e topou, então se encontraram no metrô e conta que quando a viu com o cabelão logo pensou “Nossa, que mulher maravilhosa!”. Algumas amigas da Denise foram junto e a Vanessa foi sozinha, brinca que as amigas de cara odiaram ela, porque ela tem uma “cara meio marrenta e nada amigável”. Na festa elas dançaram, se beijaram, mas Denise também beijou outras pessoas, foi tudo meio caótico. Elas brincam que não se gostaram logo de início, tudo levou tempo. Na mesma semana da festa, ou melhor, do primeiro encontro, elas viram que iria ter um show da Ana Carolina com a Maria Gadú e resolveram ir. Mas, detalhe: o show aconteceria só dois meses depois. Compraram o ingresso mesmo assim. Nesse intervalo não saíram mais e pouco se falaram. No show, não ficaram. Estavam como amigas e a Vanessa até levou a Denise para dormir na casa dela - algo bem raro, porque nem amiga dorme lá - mas nada aconteceu. Ficaram alguns meses sem se ver ou se falar e, do nada, cerca de 4 meses depois, se reencontraram. Com esse reencontro, o encontro delas finalmente aconteceu. Encontro, no sentido de, ficarem juntas. Elas começaram a sair de verdade, se conhecer, querer se encontrar. Se viam todos os finais de semana, compartilhavam amizades, faziam programas bons e ruins, se divertiam e topavam conhecer vários lugares. Quando entenderem que estavam gostando uma da outra, foram passar o ano novo juntas com alguns amigos, em Santos, e foi lá que o pedido de namoro aconteceu. Alguns meses depois a Vanessa apresentou a Denise para a família dela e, logo depois, ela também caiu (literalmente) no dia que foi apresentada para a família da Denise (como isso é bem peculiar, a gente precisa registrar por aqui). Depois de estarem se relacionando, a Denise passou por um momento bem difícil no qual saiu da empresa que trabalhava por estar passando por situações de preconceito e por não estar mais conseguindo se desenvolver. Isso desencadeou em crises de ansiedade e depressão, e foi fundamental o apoio da Vanessa e todo o suporte que ela deu. Quando a Denise conseguiu se desvincular do trabalho e receber seus direitos, elas juntaram as finanças e decidiram ir para a Nova Zelândia. Denise conta como era um sonho fazer uma viagem internacional, por ser a primeira da sua família a se formar no Ensino Superior, viajar ao exterior era algo praticamente impensável, mas ela queria fazer novamente algo que ninguém tinha feito antes. A Vanessa se incluiu nesse sonho, fez a pesquisa dos valores e disse: “A gente consegue!”. Por mais que a Vanessa e a Denise se encontrem em muitos caminhos, a vivência delas ainda era muito diferente: a Vanessa morava em uma mansão e a Denise morava na frente de um córrego, numa rua que não era asfaltada. Isso sempre trouxe recortes de classe muito fortes. No início foi muito difícil fazer o encaixe, mas aos poucos entenderam que era possível uma ensinar para a outra o que aprendeu com a vida. A Vanessa mostrava o caminho para chegar aos sonhos, mostrava uma nova realidade também, era uma outra forma de falar, outros costumes… Enquanto a Denise mostrava correrias diárias, mostrava que não entrava em casa como as da Vanessa a não ser para limpar, junto com a mãe dela, que a visão que ela tinha das coisas era diferente e que também precisava-se de calma para viver entre os dois mundos. Só com muita conversa diária elas foram se entendendo e aprendendo uma com a outra. A viagem para a Nova Zelândia aconteceu, e elas brincam: “Ou a gente volta casada ou a gente se separa de vez”. E foi acontecendo. Hoje em dia, a demonstração de afeto delas chega através das brincadeiras, das zoações, dos pequenos (grandes) carinhos e da parceria para tudo. Elas não foram crianças que conviveram com grandes afetos físicos demonstrados o tempo todo, então o afeto que sentem uma pela outra é colocado de outra forma, de uma forma que se combina e se entende. Hoje em dia, elas se entendem enquanto um casal que tem muita consciência. Se amam e querem se amar cada vez mais, e em relação aos outros - ou à vida, em sociedade - nunca mais irão deixar que alguém as coloquem para baixo. A Denise diz: “Acho que a nova geração tá vivendo uma coisa que não tivemos na nossa infância. A gente cresceu com aquela ideia de que ‘’preto é feio’’ ‘’seu cabelo é feio’’ ‘’sua pele é feia’’. Quando comecei a trabalhar num ambiente branco eu escutava que era nojenta, que não deveria trabalhar ali, que deveria trabalhar isolada porque eu incomodava. Eu não tive o suporte que ela teria porque a família dela tinha mais acesso, seria uma discussão diferente. Eu chegava muito abalada em casa e escutava ‘’filha, é isso, o mundo é esse e você se vira. Você precisa colocar comida em casa, então te vira’’.” Mas não é pela Vanessa estar num ambiente elitista que ela deixou de sofrer racismo, então ela também completa com a sua versão: “No meu caso foi o seguinte: uma das piores coisas que aconteceu comigo - fui numa balada, festa da minha faculdade. Um colega de classe sabia que eu me relacionava com mulheres e ele me agrediu. Estava bem no fim do ano, em época de prova. Meu pai todos os dias ia pra faculdade comigo, entrava na faculdade, sentava do meu lado, esperava eu terminar a prova pra ir embora comigo. No final, eu tive que mudar de horário, porque o branco, enfim, né…”. Depois de relatar sobre alguns casos de racismo vividos, Vanessa emenda logo no amor que as duas sentem: “Pra mim o amor é: liberdade e preto”. Liberdade porque o amor precisa ser livre para deixar a pessoa ser quem ela é e, também, para que a pessoa possa fazer o seu caminho. E Preto porque ela levou muito tempo para se amar enquanto mulher preta, e conta que depois que descobriu esse amor passou a amar muito mais seus familiares, amigos e a Denise de uma forma diferente. O amor preto não é só amar ao próximo, mas cuidar dos seus, estar por perto de verdade. Amar o que sempre foi ensinado que era feio. A Denise conta sobre a tatuagem “Idem”: “Então, eu tenho o meu Idem, minha tatuagem, o termo Idem eu sempre usei pra falar sobre reciprocidade. Acredito muito nisso em todas as minhas relações, sou uma pessoa de poucas relações afetivas. Penso no amor como algo recíproco, esse bem estar que você gera no próximo e que também quer gerar a si. Claro que as pessoas têm diferentes níveis, amores e reciprocidade. Me relacionar com uma mulher é exatamente isso, me reconhecer na outra, o que tem de mim na outra e o que tem na outra em mim.” Ela conta que nunca pensou que iria receber um amor afetivo até amar uma mulher. Amar uma mulher é ser reconhecida, respeitada e saber que tem alguém para te acolher. “Penso que amor também é sobre me sentir acolhida por amar uma mulher.” A Vanessa e a Denise entendem que é impossível se relacionar sem fazer o recorte de raça, classe e gênero. O amor preto é revolucionário, o amor entre mulheres é revolucionário. Por todas as dores que elas já passaram juntas e por nenhum momento mais que querem ser invizibilizadas, querem ter seu amor e seu corpo reconhecido, respeitado e humanizado. Vanessa Denise
