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Espaço de Pesquisas

Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né? 

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Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema... 

 

É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente

com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥

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295 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Maira e Kelly | Documentadas

    Amor de Lar - Maira e Kelly clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Victória e Gabriela

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Vick e da Gabi, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Durante o período em que se relacionaram à distância, faziam muitos planos sobre morar mais próximas. A Gabi chegou a tentar vestibular para Porto Alegre e a Vick queria muito vir para o Rio. Depois de formada, conseguiu passar para o mestrado na Fiocruz e a mudança finalmente aconteceu algumas semanas antes da pandemia. Passaram a quarentena juntinhas. Nessa história, a praia significa o lugar onde se conheceram, onde puderam ficar à vontade, onde fez a Vick tanto amar o Rio… é o lugar delas. Amam amar a praia, amar as coisas que fazem parte das suas histórias. Acreditam que o amor foi o que moveu tudo, o sentimento que transbordou. Além da praia, amam pular carnaval, cozinhar coisas do zero - fazer massas, cada detalhe de todas as receitas e depois beber com um bom vinho barato. Um tempo depois, por estarem juntas no Rio, a mãe da Gabi percebeu e não aceitou. Foi um momento bem conturbado, a Victória tinha muito medo de voltar a viajar e acabar só piorando a relação familiar da Gabi… e a Gabi pensava que talvez fosse melhor não estarem juntas porque seria ruim para a Vick ter que lidar com isso. Mas depois, quando conversaram, decidiram passar por isso juntas, enfrentando cada desafio lado a lado. A Victória tem 23 anos, é mestranda em epidemiologia e saúde pública e formada em veterinária. Gosta de fazer de tudo um pouco, bordar, pintar, tocar saxofone… se inspira muito na sua mãe, que é doutora em engenharia. Gabriela tem 26 anos, estuda biblioteconomia, adora design e tem a família toda envolvida em profissões aéreas, então fez curso de comissária de bordo e gosta muito de temas voltados à aviação. Gabi se inspira e se referencia muito na tia dela, que foi a primeira pessoa para quem contou sobre a sexualidade. Depois que a mãe da Gabi descobriu, elas passaram alguns meses sem conseguir se encontrar, era muito difícil ir para Porto Alegre e acabava indo só no seu aniversário, pois pedia a passagem de presente. Chegou a passar mais de dois anos sem ter muito convívio com a mãe. Há pouco tempo atrás as coisas foram mudando, quando a Vick já estava muito mais próxima, e foi convidada a jantar na casa delas. Passaram todo o verão juntas e até decidiram estender um pouco a viagem, pois entenderam que um sentimento estava sendo criado. Resolveram passar seus aniversários juntas: o da Vick, em março (do qual a Gabi iria para Porto Alegre) e o da Gabi em julho (do qual a Vick iria para o Rio de Janeiro). Acabou que cumpriram o acordo, a Gabi chegou em Porto Alegre no mês de março e foi ótimo. Já em julho, a Vick ficou um pouco insegura de ir. Elas não estavam conseguindo manter tanto contato de forma online e faltava pouco para a data, mas deu tudo certo! Ela chegou no Rio, passou dias turistando, conhecendo as praias e se sentiu apaixonada.... pelo Rio de Janeiro e pela Gabriela. Passaram todo o restante do ano conversando bastante de forma online e conseguiram se encontrar em outubro. Decidiram, aos poucos, sustentar esse relacionamento à distância. No verão de 2016, tudo já foi diferente, ao invés da Gabi ficar na casa dela, resolveu passar todo o tempo hospedada na casa da Victória. Passaram o início do carnaval juntas na Praia da Ferrugem e o fim do carnaval no Rio. Ambas queriam muito declarar o amor uma para a outra, mas estavam com medo de acabar estragando tudo, pelo fato da distância. Uma desconhecida, em meio ao carnaval, ajudou a declaração acontecer… e foi aí que elas verbalizaram o amor que sentiam. Essa história de amor mostra que o sonho de muitos relacionamentos à distância podem dar certo! Victória e Gabriela se conheceram durante um verão em Garopaba, interior de Santa Catarina, a Vick é da região metropolitana de Porto Alegre, mais especificamente, de Viamão. A Gabi é do Rio de Janeiro. A maior coincidência dessa história é que elas são vizinhas em Garopaba desde que nasceram, possuem os mesmos amigos, mas veraneiam com uma semana de diferença, então nunca se encontraram. Em 2014 a Gabi resolveu ficar mais um tempo em Garopaba e então acabaram se conhecendo. Logo de cara ela sentiu interesse pela Vick e meio que todos os amigos ficaram na expectativa do beijo, o que gerou certa pressão também. No segundo dia, elas se encontraram junto com os amigos para beber e ficaram, mas no dia seguinte a Gabi acabou voltando para o Rio e passaram todo o inverno sem se ver ou conversar. Em 2015 estavam lá novamente e dessa vez a Gabi decidiu ir na mesma semana que a Victória estaria. Elas se encontraram com os amigos, foram para um bar e depois de um tempo acabaram se beijando novamente - e brincam: “aí não nos desgrudamos mais”. < Victória Gabi

  • Luiza e Mariah

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luiza e Mariah, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Luiza Mariah

  • Alessandra e Roberta

    Tanto a Roberta, quanto a Alessandra, sempre sonharam em ser mães e ter uma família. Nos 16 anos em que estão juntas, planejaram e enfrentaram diversos desafios para terem seus filhos: o Alexandre, a Sofia e a Rafa. Hoje em dia, morando na cidade de Contagem - Minas Gerais, elas dividem seu tempo entre o trabalho (sendo professoras em escolas públicas), a rotina das crianças, os encontros com a família, as responsabilidades na igreja e os momentos de divertimento - esses, as crianças mesmo contam quais são: brincar com a Amora (a porquinho da índia), ir ao clube, assistir filmes e passear no parque. Alessandra vê o relacionamento delas com muita cumplicidade, parceria, perdão, união e companheirismo. São companheiras em todas as horas, contam o quanto mudaram juntas nesses anos de relação e o quanto pretendem sempre evoluir. Roberta fala sobre enxergar o amor enquanto algo único, mas entende que o nosso - de mulheres que amam outras mulheres - precisa estar sempre em enfrentamento ao preconceito. Cada vez mais entendem a importância de se ver representadas: desde nas mídias, até nos trabalhos. E o quanto fazem questão de mostrar que são capazes em tudo o que podem fazer, para que o preconceito nunca abra espaço para alguma discriminação por serem quem são. Foi através da pedagogia que elas se conheceram - e acreditam que foi Deus quem colocou uma na vida da outra - elas não estudavam na mesma universidade, até que a Alê conseguiu transferência para a universidade que a Roberta estudava. Nessa época, a Roberta tinha um problema grave no joelho e passou por diversas cirurgias, ficava bastante tempo fora das aulas por conta disso e o dia que elas se conheceram foi devido à uma comemoração pela volta da Roberta. As amigas do curso resolveram tirar uma foto, comemorando, e a Alê sem nunca ter conversado com a Roberta participou da foto, e pior: foi tão empolgada que quase bateu no joelho imobilizado dela. Um tempo depois, entre a vida acadêmica, começaram a conversar. Tudo se intensificou numa viagem que realizaram até Ouro Preto, da qual a Alê levou a sobrinha e a Roberta estava ainda sem andar por conta do joelho, então acabaram ficando juntas muito tempo, não seguindo a maioria dos passeios. No semestre seguinte, para surpresa de ambas, visto que nunca tinham se relacionado com uma mulher, entenderam que estavam apaixonadas uma pela outra. Sentem que tudo foi uma descoberta muito íntima e vivendo no tempo delas, entendendo limites e construindo uma nova forma de amar. Depois que assumiram o relacionamento, tudo foi caminhando com o tempo: se formaram, passaram em concursos, guardam dinheiro para investir em um apartamento… Para a Roberta foi mais difícil sair de casa, ela é a única filha mulher e sempre foi muito ligada à família. A Roberta, por ter diversos irmãos, teve uma mudança mais facilitada. Eles estavam guardando dinheiro porque o plano de terem uma família estava cada vez mais próximo. Contam que não foi fácil, ainda mais com o salário de professoras de escolas públicas, mas encontraram clínicas e conseguiram parcelar os exames. Na época, como as duas queriam engravidar, tentaram fazer o processo juntas - hoje em dia entendem que provavelmente não daria certo, pela quantidade de hormônios e tudo o que envolve a gravidez simultânea. Portanto, a Roberta gerou o Alexandre e logo depois (cerca de 6 meses) a Alessandra engravidou das meninas. Eles possuem cerca de 1 ano e 1 mês de diferença. Elas contam que sendo educadoras, tendo muito contato com crianças no trabalho e também na família (os sobrinhos, por exemplo) achavam que isso seria um facilitador na hora de educar os próprios filhos, mas que na verdade tudo é bem diferente - você participa de todos os processos existentes, desde alimentação, até ensinar tudo o que eles sabem (e que vão construir o ser social que são), enquanto os sobrinhos o contato era como um passeio no shopping. A educação é um dos maiores desafios e o que elas mais cuidam e se preocupam também. Desde o momento de gerar até o momento de educar elas vivenciaram diversos preconceitos: na clínica, na escola na hora de matricular as crianças, no registro do Alexandre que foi muito difícil de conseguir… mas transformaram isso em oportunidades também. O caso do Alexandre, por exemplo, por não conseguir registrá-lo perderam o convênio que elas tinham, nisso sempre que precisavam levar ele para algum lugar e estavam sem documento, eram vistas com péssimos olhares. Depois da batalha que travaram, a juíza da cidade autorizou o caso dele e em seguida das meninas, e isso abriu diversas portas para as crianças que estavam sem registro e que tinham mães e pais LGBTs terem seus processos realizados. Entendem que tudo o que viveram foi muito entre elas, ou seja, uma apoiando a outra. Foram períodos bem difíceis, como também problemas de saúde durante a gravidez de ambas, mas suportaram porque sabiam que não estavam sozinhas. Por mais que hoje tenham a família que sempre sonharam, entendem que nem tudo é romântico e feliz, valorizam cada passo que deram juntas até aqui. Hoje em dia, mesmo morando em Contagem, trabalham em cidades próximas. A Roberta, pela primeira vez, foi trabalhar numa escola em que a diretora é casada com uma mulher. Assim ela se sentiu à vontade para falar que se relaciona com uma mulher e sente que está sendo tudo diferente: o acolhimento, o trabalho em si, a forma que a Alê praticamente faz parte da escola porque visita e é super bem recebida. Ela entende que essa é a importância da representatividade vir “de cima” também, estar em cargos de poder. Além do trabalho, a rotina delas envolve a presença na Igreja Contemporânea. Contam que quando se conheceram eram católicas, mas a partir do momento que ficaram juntas pararam de comungar (porque quando se toma a hóstia, se confessa, e a relação que elas tinham era lida enquanto pecado). Eram mulheres muito ativas na igreja, desde grupo de jovens até retiros, e por mais que ninguém chegou a falar diretamente que elas não poderiam ir, não se sentiam mais parte, então decidiram se afastar. Passaram um tempo procurando igrejas evangélicas, até tinham um certo preconceito inicial e não encontraram nenhuma que gerasse identificação. Foi através de uma entrevista que conheceram um pastor e decidiram saber mais sobre a igreja - que tinha sede em Belo Horizonte, mas era num hotel e elas acharam isso muito estranho, não foram - quando a igreja passou a ter um espaço físico decidiram ir, chegaram lá e foram bem recebidas, adoraram e decidiram fazer parte. Dentre as prioridades com certeza está a fé. Acreditam que, além do encontro delas, as crianças também são presentes de Deus e que tudo se encaixa com a crença. ↓ rolar para baixo ↓

  • Daniella e Flávia

    A Daniella e a Flávia moram em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, e dividem a vida com suas duas bichinhas caninas. Entre suas rotinas, o que mais gostam é dos finais de semana (momento em que se encontram para passar juntas) e de sair para beber e comer com qualidade. Elas entendem que são pessoas muito diferentes nos jeitos, gostos e culturas, mas se encontram entre diversos caminhos. São pessoas muito ligadas à família e entendem o amor como uma demonstração nas pequenas atitudes: trazem o exemplo de que a Dani sempre bebe água antes de sair de casa e sabendo disso a Flávia já deixa um copo d’água preparado para ela não se atrasar. O amor que trocam fica entre as formas de cuidado com o lar, as cachorras, o corpo e/ou as ações que tomam diariamente. Dani explica que o amor sempre esteve presente em toda a sua vida: a educação que recebeu dos pais, a forma que se entrega no que acredita e o quanto deseja viver coisas boas com quem admira. Destaca o fato de que ela e a Flavia são opostas complementares, ou seja, estão ligadas uma à outra para trazer ensinamento. Com o relacionamento, aprendeu a amar outra mulher de um jeito diferente do qual estava acostumada. Dani tem 29 anos, é psicóloga e viajou do interior de São Paulo até Belo Horizonte para fazer mestrado, trabalhar com atendimentos e praticar sua militância. Hoje em dia, passou em um concurso e mora em Contagem, município vizinho da capital. Flavia tem 30 anos, é engenheira civil e também trabalha enquanto barbeira - conta que trabalhava muito nesse ramo, até abriu um salão na garagem de casa, mas que hoje em dia a demanda da engenharia é muito grande e acaba atendendo só quando sobra tempo. Ela nasceu em Belo Horizonte e mora até hoje no mesmo bairro e mesma casa; citam a diferença da trajetória dela e da Dani: a Dani morou em três estados, enquanto a Flavia nunca saiu do seu lar, fazendo com que tenha muitos amigos de infância e conheça cada vizinho da rua. Flavia comenta a importância das suas raízes nos bairros de Belo Horizonte, principalmente por ter se assumido em um momento muito diferente do que vemos: há 15 anos atrás era muito mais difícil ‘sair do armário’ e hoje fica feliz vendo meninas e meninos sendo quem são ao andar na rua, usando cabelos coloridos e falando abertamente sobre orientação sexual. Dani e Flavia se conheceram num momento de flexibilização da pandemia, por conta de terem amigas em comum. A Dani morava sozinha e recebia vez ou outra alguma amiga em casa e foi numa dessas vezes que a amiga postou um storie com ela. A Flavia viu o storie e começou a seguir a Dani, curtiu suas fotos e começaram a conversar pelo Instagram mesmo. Um tempo depois, Dani chamou Flavia para visitá-la, porém teve como resposta que elas deveriam convidar a amiga em comum também, já que Flavia não queria visitar sozinha. O jantar aconteceu, elas foram e levaram cervejas - depois de horas e horas de conversa o beijo finalmente surgiu, enquanto a amiga foi ao banheiro. Flavia comenta que iria embora sem beijar, porque é mais tímida e precisa de um certo tempo, enquanto na mesma hora Dani rebate: “Se ela não me beijasse naquele dia, certamente não nos veríamos mais”. Um tempo depois foi a vez de Dani ir até a casa da Flavia (que, inclusive, já tinha comprado um presente para ela na semana do seu aniversário). Se encontraram num sábado, durante um encontro que deveria ser rápido, e acabaram ficando até segunda-feira juntas - com a Dani conhecendo a mãe da Flavia e não querendo tomar banho na casa dela para não gastar água ou dar prejuízos - o que virou piada até hoje. Logo no começo da relação, enquanto ainda estavam se conhecendo, Dani conheceu a ex cunhada de Flavia e foi convidada para viajar ao Rio de Janeiro com elas porque precisavam resolver algumas coisas por lá, porém, enquanto estavam nesse momento inicial, Flavia teve um envolvimento com a sua ex. Elas entendiam que não namoravam - e Dani conversava muito sobre a não monogamia, mas esse fato veio como um baque, já que a Dani não esperava que acontecesse. Passaram por um momento de afastamento e de quebra de confianças, mas depois conversaram e decidiram: ou namoravam e construíam algo juntas, ou se separavam para não machucar uma à outra. Acabou acontecendo um fato isolado, do qual a Flavia sofreu um assalto enquanto trabalhava como motorista de aplicativo, e a primeira pessoa que ligou foi a Dani. Depois disso, se falavam frequentemente e entenderam que precisavam resolver seus traumas individuais para conseguirem ficar juntas - assim fizeram. Dani sentia amar Flavia e não queria abrir mão do relacionamento, então passaram por um período de conversas, cuidados e decidiram começar o namoro. A Flavia é a primeira namorada da Dani, então passaram juntas pelo momento de contar às famílias e tudo foi fluindo aos poucos - acreditam que fluiu bem, já que no primeiro natal passaram na casa da Dani com parte da família reunida e apoiando o que constroem juntas. Depois dos primeiros meses, adotaram a Teresa - uma vira-lata preta, já adulta, bastante animada e bagunceira. Flavia conta que percebia o quanto a Dani acabava ficando muito sozinha e adotar a cachorra foi inicialmente impulsionado por esse motivo (na época a Meg já existia, mas era a cachorrinha da Flavia há anos, então apenas visitava a Dani), depois da adoção entenderam que a Teresa representa muito mais que companhia, aprendem diariamente formas de amar com ela e se sentem muito mais felizes. Hoje em dia, viajam bastante para o interior de Minas e gostam de conhecer lugares novos. Entendem que podemos ser quem nós somos e não gostariam de entrar em caixinhas de padronizações sobre os nossos corpos para sermos mais respeitadas em sociedade. Comentam que sobretudo desejam a vontade de mudar a sociedade sob o medo da violência e, para o futuro, pretendem engravidar e formar uma família - mantém uma poupança para isso, pensam na possibilidade da inseminação e em não ter apenas um filho. [Boa sorte, gurias. ♥] ↓ rolar para baixo ↓ Daniella Flavia

  • Evelyn e Ana Clara

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Evelyn e Ana Clara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Ana Clara e Evelyn começaram o relacionamento durante a pandemia e viram suas percepções sobre compartilharem momentos mudar diversas vezes: primeiro, viviam entre as chamadas de vídeo do Zoom, assistiam séries dando play no mesmo instante; depois, começaram a se encontrar no condomínio em que Ana mora, com cuidados e apenas na parte externa, mas planejavam a vida voltando ao normal, faziam lista do que gostariam de realizar quando desbravariam a cidade juntas. E, hoje, ficam muito felizes em perceber que já fizeram várias coisas, mesmo que sem planejar tanto: caminham pelo Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, vão aos seus restaurantes favoritos, visitam amigas e se encontram com frequência. Para Evelyn, amar é se sentir confortável ultrapassando uma barreira do medo. Por isso, elas constroem espaços na relação que sejam adaptáveis para que se sintam bem. Gostam desse amor que sentem fluir diariamente. E, além disso, fazem questão de mostrar que são um casal - acreditam que isso é muito importante enquanto uma forma política de ser, mesmo que tomem muito cuidado com a sua segurança. No momento da documentação, Ana estava com 24 anos. Ela trabalha enquanto psicóloga e segue em constante estudo. A Evelyn também estava com 24 anos e atualmente trabalha enquanto designer de interiores no Rio de Janeiro. Sobre seus gostos em comum, elas chegam com uma curiosidade: as duas são apaixonadas por Titanic. Segundo a mãe de cada uma, tudo isso aconteceu porque, quando estavam grávidas, elas foram ao cinema assistir o filme. Então acreditam que desde a barriga gostaram do filme e, até hoje, se emocionam e assistem inúmeras vezes. No dia a dia, adoram frequentar restaurantes, beber vinho, viajar e ficar na casa dos amigos enquanto eles viajam - inclusive, cuidam muito bem dos lares, imaginando o momento que terão os seus cantinhos. Em 2017, numa coincidência de um amigo em comum levar a Ana no aniversário da Evelyn, elas se conheceram - mas não interagiram e não lembram muito desse dia. Foram se conhecer pela segunda vez (e interagir de verdade), efetivamente, já em 2018, quando o mesmo amigo convidou ambas para uma confraternização de pré-natal. Como ambas moram numa região mais distante do Rio (mesmo que próximas uma da outra) e a confraternização era por perto, elas toparam na hora! Chegando lá, se divertiram bastante, interagiram e jogaram cartas, videogame etc. Conversaram muito, trocaram várias ideias, um interesse até tentou surgir, mas nada foi cogitado quando a Ana descobriu que a Evelyn estava namorando. O tempo passou, elas se seguiram no Instagram, mas nunca mais interagiram. Em 2019 se viram duas vezes, mas sem grandes interações. Até que no fim do ano a Evelyn já estava solteira e perguntou para o amigo sobre a Ana - ele não perdeu tempo, sabendo do interesse mútuo, foi correndo contar. Ela reagiu com um áudio dizendo que era a notícia que ela precisava, que ela estava contente, com o astral lá no alto, etc. E nesse momento a Ana achava que a Evelyn sabia que ela tinha interesse, mas não, a Evelyn não fazia ideia (e também não tinha recebido o áudio através do amigo). Nos primeiros meses de 2020 elas não conseguiram se encontrar, então a pandemia de Covid-19 começou e, com isso, aconteceu um boom de chamadas online. Todos marcaram conversas em grupo, faziam coisas juntos e por mais que elas não conhecessem todas as pessoas na chamada, topavam entrar, interagiam e passavam horas conversando. Assim, foram realmente se aproximando: assistiam séries online juntas, faziam chamadas de horas e conversavam até tarde. Um tempo depois, a Evelyn precisou começar a sair para trabalhar e no dia do aniversário da Ana ela tinha um cliente no mesmo condomínio que a Ana morava. Decidiu levar um presente, fez uma caixinha com coisas que a Ana gostava e levou até a portaria do prédio dela. A fita, que enrolava a caixinha, nas cores do arco-íris, é usada por elas até hoje em todos os presentes. Ela chegou para deixar na portaria, mas não conseguiu: a Ana teve que descer e assim se encontraram pela primeira vez após a aproximação. Super nervosas e a Ana surpresa com o presente. Um tempo depois, decidiram se encontrar novamente no condomínio, caminhar por lá e aproveitar o dia. Depois que o encontro deu certo, começaram a repetir diversas vezes na semana: compravam vinho, sentavam na grama e assistiam séries, conversavam sobre a vida ou só caminhavam juntas. Um tempo depois, a Evelyn conheceu as duas melhores amigas da Ana. Elas foram até Copacabana, o lugar onde elas moram, e ficaram lá uma noite. Esse apartamento se tornou como um refúgio para a Evelyn e a Ana, porque é lá que elas passam diversos dias e, as amigas, agora formam uma família. Em outubro de 2020, num desses encontros no condomínio, Ana pediu a Evelyn em namoro. Relembrando o início, dão muito valor por esse namoro ter começado assim, com muita conversa, aos poucos, se permitindo o envolvimento, num ritmo totalmente diferente do que já vivenciaram: sem muito do convívio social porque a pandemia não permitia, algo muito mais íntimo. Hoje em dia, por mais que tenham rotinas bastante cheias e nem sempre conseguem se encontrar, tentam manter os hábitos iniciais: de se ligar todos os dias e assistir coisas juntas de forma online. Além disso, também fazem viagens juntas e ficam na casa das amigas em Copacabana. Nessas idas, elas acabam vendo o nascer do sol, por ser perto da praia: adoram o silêncio desse momento da manhã, são pessoas bastante diurnas e comentam que gostariam de aproveitar isso com mais segurança. Nas viagens, sempre que perto da praia, tentam ver o nascer do sol. É algo que faz parte delas e dos momentos preferidos que vivem juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Ana Clara Evelyn

  • Juliana e Tercianne

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Juliana e da Tercianne, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Em um momento da conversa, falando sobre o lugar que estávamos, naquela praça, naquele espaço da cidade e sobre sermos mulheres, ouvi duas coisas que me marcaram muito e que acabei pensando depois que fui embora. Primeiro, a Terci, que por ser uma pessoa visivelmente mais tímida, disse que quando se relacionava com homens tinha vergonha de dar as mãos, de beijar em público, de ter atitudes românticas na rua… hoje se vê nesse papel porque acha que com a Ju é muito mais puro. O sentimento é praticamente ao contrário, ela faz questão de pegar na mão, de dar um abraço. Mesmo se ela não falasse, seria visível nos detalhes esses toques, porque é algo natural, o toque acontecia durante a conversa, era de fato puro. Logo depois que ela comentou isso, a Ju falou também que embora seja muito difícil a luta LGBT como um todo, chega um momento em que vale a pena expor o amor por quem você ama… e que mesmo que você coloque seu corpo na linha de frente por esse amor, o que literalmente nos acontece, enquanto vivemos no Brasil e muitas pessoas não escondem a LGBTfobia que possuem, nós precisamos seguir mostrando que está tudo bem amarmos e sermos amadas. Isso não quer dizer que não temos medo (temos, sim!) - inclusive a Terci escreveu uma música sobre isso depois que elas se encontraram numa praça (sobre ser um ato político, sobre ser uma luta) - elas andam com medo, às vezes receosas, principalmente quando cruzam com homens, mas entendem que é preciso o equilíbrio entre se cuidar e não baixar a cabeça e se esconder dentro de um armário. “Saber cuidar e cuidar dos nossos.” Por fim, trouxeram mais duas coisas. A Terci disse que logo pensou no filme Zootopia, que a coelha descobriu um lugar que ninguém ligava pra ela e que ela poderia viver tranquila. No fim, é esse o objetivo: que as pessoas olhem as diferenças e não pensem nisso como algo ruim. E a Ju traz a importância de, além de conversar com pessoas mais velhas, ser fundamental conversar também com as crianças e adolescentes, trazer diálogos de inclusão para os mais novos normalizando discussões de igualdade de gênero e inclusão social. Quando comentamos sobre a pandemia e sobre essa forma de se reinventar, a Ju falou que no começo do relacionamento tudo foi muito rápido, tudo se desenvolveu de forma involuntária. Com um mês elas já estavam muito próximas, praticamente namorando e a Ju frequentava a casa da Terci com uma frequência cotidiana por ser muito próxima à faculdade. Elas criaram uma rotina de cafés da manhã, ônibus, massagens no final do dia, feirinhas nos fins de semana, tapiocas de queijo com morango, parques, peças… tudo foi criando um tom. Hoje em dia, com a pandemia e a Terci voltando a morar com os pais dela, tudo fica diferente. Primeiro que é preciso estar em casa, segundo que o espaço em casa é outro, a privacidade é outra, o tempo é outro, sentimento é outro. São muitas readaptações. A sensação presente agora é que, por mais que estejam há mais de um ano e meio juntas, a pandemia faz com que todo dia seja uma novidade dentro de uma certa “mesmice” por conta de novas descobertas internas. Aprenderam que a Ju é mais explosiva, mais estressada, mais extrovertida… e que a Terci é ao contrário, mais quietinha, em outro tempo. Mas que também isso leva a outro contexto de conversa, de amor e de equilíbrio. Que as conversas voltam ao início da vontade de se conhecer e se encontrar de múltiplas formas. Aos poucos também entendem que estão construindo uma nova relação, com mais comunicação e com cuidado para não se magoar. Sempre tentam respeitar as limitações e redescobrir zonas de conforto, perceber o que representa o amor em suas essências, onde elas encontram ele nos seus detalhes e referências. Quando conversamos sobre o amor em seu estado puro, a Ju fala sobre amar e se apaixonar, então o “amar” ser o amadurecimento da paixão, fazer com que o calor exista, mas de forma mais concreta, mais efetiva, mais consistente. E a Terci completa “enxergando os defeitos e amando também, mas com cuidado, porque existe o amor que cuida, que quer o bem... e outro que prende, que toma posse”. A Tercianne adora música, ela se afastou um pouco por um tempo, mas depois que voltou à faculdade um professor conseguiu guiar e monitorar ela de volta. É um lugar que ela sempre quis estar, muito positivo e que se encontra muito com a Ju também. Antes de estudar teatro a Terci passou por um momento entre arquitetura e engenharia civil, ainda no Ceará, mas não se sentiu bem cursando. O pai estava estudando com ela e por já ser aposentado decidiu que apoiaria o curso que ela tivesse vontade de cursar. Ela descobriu a Casa de Artes de Laranjeiras (a CAL, no Rio) e falou que gostaria de estudar aqui, foi então que toda a família se mudou: ela, a mãe, o pai, os irmãos, os cachorros… todo mundo! E aqui estão até hoje. A Ju se vê muito na escrita dos sentimentos, nas crônicas… quando o teatro não dá conta ela abre um bloco de notas e se coloca a escrever. Desde sempre, sentiu mais resistência enquanto à vontade de ser artista, era algo que sabia. Ambas se consideram bissexuais e as famílias, hoje em dia, sabem e apoiam o relacionamento das duas - a Ju, inclusive, já foi até o Ceará com a Terci. Nem sempre foi um debate fácil a se encarar dentro de casa, o começo foi mais difícil e foram contando aos poucos para as pessoas, entendendo o contexto de cada situação. Mas no geral a família sente o quanto o relacionamento representa crescimento para ambas e fica feliz em ver essa mudança acontecendo de pertinho. A Juliana e a Tercianne se conheceram e se encontram entre muitas coisas em comum. Ambas estão com 22 anos, fazem faculdade de teatro, gostam de música, de cinema, de feirinhas... A Ju é natural do Rio de Janeiro, já a Terci é do Ceará. Elas se viram pela primeira vez quando a Ju fez uma peça interpretando uma personagem da qual a Tercianne já tinha interpretado no ano anterior. A Terci viu, se apaixonou, mas não conseguiu falar com ela logo depois do espetáculo porque precisava ir para o aeroporto pegar um voo para o nordeste, estava indo de volta para casa. Decidiu chamar a Ju no Instagram para elogiar e falar que gostou bastante da apresentação e então elas começaram a conversar. - Vou embarcar agora, mas depois continuamos a conversa. - Ah, quer continuar a conversa? vou achar que é um flerte! Foi a primeira vez que Terciane tinha mandado mensagem para uma menina dessa maneira e a Ju lançou a brincadeira, então acabou acontecendo e elas seguiram conversando (ou flertando!). Deu certo. Assim que a Terci voltou ao Rio de Janeiro decidiram se encontrar e assistiram o Rei Leão no cinema, foi tudo meio estranho, não sabiam se seria um encontro num tom mais romântico ou na amizade. Conversaram muito sobre a vida, depois ficaram, mas não sabiam dizer exatamente o que sentiam. No decorrer do que foram estabelecendo contato elas entenderem que o que queriam mesmo era se conhecer, por inteiro, saber quem eram e se encontrar no maior número de sentidos possíveis. Quanto mais se viam, conheciam os amigos, frequentavam os espaços em comum (a casa da Terci, a faculdade…), mais ouviam o quanto estavam diferentes (de um jeito ótimo, é claro!)… a Ju conta que logo no começo uma amiga da Terci contou que há tempos não via os olhinhos dela brilhando tanto como brilhavam agora. Aos poucos isso foi mostrando o quanto era real e recíproco. No show do Lagoon, a Ju pediu a Terci em namoro. E no dia seguinte, a Terci já tinha planejado tudo para pedir a Ju em namoro lá na faculdade, então pediu também. Foi uma troca justa! Tercianne Juliana

  • Patrini e Gabi | Documentadas

    Patrini estava com 30 anos no momento da documentação. É natural de São Sebastião do Caí, interior do Rio Grande do Sul, e mora em Porto Alegre há pouco mais de três anos. Trabalha como psicóloga e desde o início da carreira já se dedicava ao trabalho com foco em sexualidade e gênero, participando de coletivos e acolhendo pessoas LGBTs em seus atendimentos, mas foi nos últimos anos que fora do consultório olhou para si e também permitiu o entendimento da sua própria sexualidade enquanto uma mulher que ama outra mulher - ainda que, nesse processo, nunca havia imaginado namorar outras pessoas porque sempre se via sozinha e não-monogâmica, até começar a relação com a Gabi. É no tempo livre que Patrini encontra o ritmo e o descanso na música: sendo percussionista. Filha de baterista, explica que o som sempre foi um modo de se manter viva. Religiosa de matriz africana, costuma dizer que o orixá orienta seus caminhos… e talvez por isso veja na vida, na música e no amor um lugar de movimento, de cruzamentos, de liberdade. Gabriela estava com 23 anos no momento da documentação. É natural de Taquara, interior do Rio Grande do Sul, e cursa psicologia. Quando começou a se relacionar com mulheres, na adolescência e antes de se mudar para Porto Alegre, enfrentou uma reação violenta dos pais, que só mudou com o tempo, com a maturidade e a terapia. Aos 18 chegou em Porto Alegre para cursar a faculdade e desde então constrói sua carreira. Para além da psicologia, Gabi adora fazer crossfit e surfar. Sonha em unir o esporte à psicologia, principalmente na praia, onde se sente completa. Foi em 2023 que Patrini e Gabi se conheceram, sem marcar encontros ou sair de casa com grandes expectativas, estavam apenas com suas amigas curtindo o Bloco da Laje, famoso bloco carnavalesco gaúcho. Uma delas havia ido ao evento com uma antiga ficante, mas acabou se afastando para reencontrar uma amiga. A outra chegou mais tarde, apenas querendo se divertir e rever conhecidos. O encontro aconteceu quando uniram os grupos de amigos e trocaram olhares, sorriram uma para a outra e puxaram alguns assuntos falando sobre o glitter que usavam. Depois de uma rápida conversa descobriram que tinham a psicologia em comum, até que Patrini questionou: “Vem cá, você tem quantos anos hein?!”. A troca que tiveram no bloco foi curta, trocaram o Instagram rapidamente e logo se perderam nos grupos. Patrini foi para casa em seguida, pois morava perto, e no dia seguinte trocaram mensagens no Instagram para se encontrar novamente. Ela achava que não iria dar em nada, principalmente pela diferença de idade, mas topou o encontro, que foi em um pagode, num lugar bastante aleatório. Se deram bem, seguiram se encontrando e entrando aos poucos uma na rotina da outra. Brincam que o que era ficarem juntas durante o fim de semana se estendeu para segunda, depois segunda e terça, depois quinta até segunda… até que não fazia mais sentido dormir separadas. A convivência se intensificou entre risadas, cafés, cachorros indo e vindo, e o caos afetuoso das diferenças também se revelaram com o tempo. Patrini, que há anos morava sozinha, estranhou o ritmo de uma casa mais cheia. Gabi, que morava com mais pessoas, mostrava outra forma de ver as coisas. Em meio a conversas sinceras, falaram sobre os limites da relação, sobre monogamia e liberdade, com respeito e escuta. Foi um tempo depois de ficarem pela primeira vez - e de terem se conhecido no bloco - que Patrini e Gabi começaram o namoro, ainda em 2023. Um ano e meio depois, decidiram morar juntas, primeiro porque a logística de idas e vindas para ambas casas não fazia mais sentido, e segundo porque coincidiram suas datas de encerramentos de contratos dos imóveis locados. Um ultimato que virou oportunidade: se já se escolhiam na prática, por que não oficializar na rotina? O novo lar, porém, trouxe seus próprios ruídos: um bairro que não era o favorito, era escolhido por necessidade. Deslocamentos maiores. Outras adaptações. Ainda assim, ficaram. E seguem planejando, inclusive mudar de novo quando a vida permitir. Nesse tempo que estão juntas passaram por muitas coisas, entre felicidades, tristezas, desafios e coisas que só o tempo comporta. Foram lutos, roubos, ansiedades, burnouts, reflexões sobre si, crescimento profissional… Nasceu a percepção de companhia: um porto seguro. Uma base que não é só idealizada, ela atravessa vulnerabilidade com presença. A terapia entrou como ferramenta e como espelho. Falou sobre conflitos antigos, influências familiares, a dificuldade de separar individualidade e dependência. Foi como colocar tudo sob a mesa. Coisas até que nem estavam preparadas para ver - e entender isso também. Entender que são pessoas, que compromisso não é cobrança. Perceberam que estar juntas implica aceitar também o que a outra é no mundo: sua história, suas crenças, suas formas de amar. E que essa decisão, apesar de exigir disposição, devolve amor de um jeito que faz sentido. Com o tempo, a relação começou a transbordar para fora das duas. Olharam para as relações alheias com menos julgamento, entenderam acordos, nuances, possibilidades. A diferença de idade virou aprendizado mútuo: uma traz estabilidade e perspectiva, a outra traz experimentação e futuro em construção. Uma aprende organização financeira, aprende a respirar mais; a outra ganha calma, confiança, orientações de quem já ocupou alguns caminhos antes. A rotina é como um ritual para Patrini e Gabi: o chimarrão ao fim do dia, o café da manhã, as conversas que acontecem nesses momentos… Gostam de cozinhar juntas, viver o dia sem pressa aos sábados. Ir na feira. Dormir um pouco a mais. Cuidar da casa, viver o dia com a cachorrinha. Cuidar das plantas. Há uma alegria tranquila em estar cuidando do lar, em organizar e ver tudo no lugar, sentindo que aquilo as representa. A rotina, antes dividida entre deslocamentos e urgências, hoje é feita de pausas, tendo cuidado no descanso. De certa forma isso reflete o amor que amadureceu junto da relação, entre as conquistas nos dias comuns, os momentos de perdas. Um cotidiano que vai se construindo em coisas boas, em dias mais vulneráveis, sobretudo na companhia e numa intimidade que antes nem imaginavam conquistar: estar uma com a outra, e em casa. ↓ rolar para baixo ↓ Gabriela Patrini

  • Luciana e Viviane

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luciana e da Viviane, quando o projeto passou por São Paulo! Luciana, Viviane e a pequena Ester moram em Campinas, interior de São Paulo e constroem o que chamam de “família real”, sem coisas artificiais envolta. Amam cozinhar, comer, brincar, ler e assistir TV. A casa é cheia desses detalhes que fazem elas serem quem são. Depois de saírem de São Paulo e mudarem para Campinas por conta do trabalho da Lu, viveram um relacionamento à distância e aos poucos a Vivi foi se mudando para lá, até conseguirem um apartamento só delas. Nesse período, começaram a reformar o novo lar pelas próprias mãos - queriam que tivesse lembranças de viagens, uma biblioteca-bar, decorações que as representassem… A Ester, inclusive, escolheu a cor do quarto e ajudou a pintar. Tudo na relação começou do zero e pessoalmente (sem internet auxiliando) e isso, pela visão delas, foi ótimo porque proporcionou uma grande comunicação. Além disso, Vivi conta que depois do relacionamento com a Lu aprendeu a ter fé. Lu é muito ligada na fé em geral - não só a religião, mas a fé de todas as formas. Em Exu, nos orixás e também em Deus. Lu completa que tem essa fé por tudo o que já viveu e construiu, mas que não espera nada sentada, batalha o tempo todo pelas melhores coisas. Luciana, no momento da documentação, estava com 38 anos. É natural de São Paulo e chegou em Campinas por conta de um concurso, há cerca de dois anos atrás. É professora de rede pública. Começa a história contando que em 2020 teve uma conversa com uma entidade chamada Exu Caveira e que isso virou a vida dela de cabeça para baixo em muitos aspectos. Soube de uma força que estava na hora de despertar, libertar e recomeçar um modo de vida. Em 2015 tinha passado no concurso de Campinas mas nunca foi chamada, eis que recebe o e-mail chamando depois da própria data limite do concurso ter expirado. Cronologicamente, aconteceu assim: a conversa foi em novembro de 2020, conheceu a Viviane em dezembro de 2020 e em janeiro de 2021 decidiu a mudança para Campinas. Viviane, no momento da documentação, estava com 30 anos. Também é natural de São Paulo, residindo agora em Campinas, trabalha enquanto agente de viagens. Há 14 anos é DJ e agora em Campinas tem um novo hobbie: o teatro. Em dezembro de 2020, Vivi estava vivendo uma fase bem difícil. Passou por um relacionamento abusivo, não estava se sentindo bem. Depois do término, uma amiga em comum que tinha com a ex-namorada quis manter contato com ela, afinal, sempre se deram bem e tinham hobbies muito fortes como a paixão por Harry Potter em comum. Num sábado a amiga convidou para ir no aniversário da sócia dela, que era adivinha quem? Luciana. Vivi não deu muita bola, já que não conhecia a Lu, mas considerou porque o local era perto da casa dela. Começou o sábado bebendo whisky com o pai - uma tradição que manteve durante muito tempo - e decidiu ir. Chegou lá nem sabendo o nome da aniversariante, mas ficou muito surpresa porque foi bem recebida, acolhida e amada. Foi com a Ester sua primeira interação no aniversário. Ester estava brincando e ela entrou na brincadeira, também dividiram brigadeiros. Quando foi interagir com a Luciana, perguntou sobre o pai da Ester e entendeu que não havia mais relação com ele, Lu estava solteira. Durante a festa, tiveram uma interação mais próxima e entenderam: queriam se beijar. Dançaram, interagiram e o beijo aconteceu. Ninguém entendeu nada ao redor e Vivi ficou completamente suja de batom vermelho. Destacam sobre uns homens que tinham chegado com bebidas achando que iriam ficar de par e ofereceram um copo gigante de vodka com energético para a Lu, por ser aniversariante. Ela negou e bebeu o whisky da Vivi na hora (virando o copo!) e foi aí que Vivi sentiu a pontada de paixão chegando. Ficaram juntas naquela noite e antes do fim do ano decidiram se reencontrar. Quando 2021 começou, Vivi foi passar as férias no interior com a família e recebeu a notícia do concurso/da mudança para Campinas que a Lu iria viver. Estavam conformadas de viver uma relação à distância, já que desejavam estar juntas, mas tudo era uma incógnita. Vivi decidiu viajar com a Lu até Campinas para assinarem os documentos, conhecerem a escola e a cidade, deu muito apoio. Quando Lu fez a mudança, viveu um mês em airbnb com a Ester (que estava também procurando uma escola para estudar) e nesse período Vivi ficou com elas durante uma semana, mas foi uma experiência bem difícil. Ester sentiu muito ciúme, reagiu mal, ignorou a presença da Vivi durante dias. Num momento, Vivi chorou porque entendeu que não iria ser fácil. Ester, nesse momento da nossa conversa, deixa tudo às claras: superou o ciúme e hoje são melhores amigas. Depois desse primeiro mês, conseguiram alugar um apartamento (que fica no mesmo condomínio que elas moram hoje em dia). Vivi ajudou na mudança e passou um bom tempo intercalando entre São Paulo x Campinas. Em 2022, Vivi estava dando uma caminhada pelo condomínio e viu alguns apartamentos à venda. Pensou que seria muito bom terem um lar só delas ali, a Ester já estava adaptada e adora brincar no parquinho, tudo já estava bem instalado. Visitou um apartamento e decidiu que seria delas. Começaram os contatos com contabilidade, advogados, banco, indo atrás de documentações… e foi tudo absurdamente rápido, se encaixando. Quando viu já estava com as chaves em mãos. Foi aí que decidiu se mudar definitivamente para Campinas. Nesses processos, aconteceram os pedidos de namoro e de casamento. No pedido de casamento, Lu fez uma surpresa, Vivi nem imaginou. Quando estavam no restaurante, viu um garçom passando com um buquê gigante e disse “Nossa que legal! Certamente alguém vai ser pedido em casamento hoje!” até que viu o buquê vindo para ela. Brincou com a Lu que ela teria que ajoelhar, fazer tudo direitinho. No pedido, a Ester fez um vídeo convidando-a para fazer parte da família. E Vivi finaliza contando que sempre quis casar e sempre soube que gostaria de ser mãe - sente que agora estão completando seus sonhos. ↓ rolar para baixo ↓ Viviane Luciana

  • Bruna e Sophia

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Bruna e da Sophia, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Sophia quando pensa em inspiração vem logo a mãe dela na cabeça porque sempre foi a figura que representa todas as superações ao decorrer da vida (beijo, dona Maria Antônia!). Bruna também fala muito sobre a mãe e sobre a bisa - a pessoa que ela mais admira. Pensar na bisa é pensar na paz - era uma pessoa muito boa e querida por todas as pessoas, cujo também pensam nela com esse carinho enorme. A família delas têm lidado de forma respeitosa, tentando, aos poucos, entender. Elas também dão esse espaço e o tempo delas processarem as coisas. A mãe da Bruna hoje em dia adora a Sophia e até sente um pouco de ciúme. E o pai da Sophia chamou a Bruna para passar o último natal na casa deles. A relação delas é formada por uma comunicação muito aberta, falam sobre as outras relações, os traumas de vida, criam laços de fortalecimento. Acreditam que o amor é físico e inatingível. Sentem o amor e consideram algo muito sagrado - por ser imaterial mas por você conseguir sentir. “É um sentimento com vida própria”. Antes da pandemia voltaram mais uma vez ao MAM, durante uma abertura de exposição. Fizemos questão de fotografar exatamente no local que aconteceu o primeiro beijo, naquele quadrado, cheio de memória afetiva. Cantarolei Minha Pequena Eva enquanto fotografava. Conversamos muito sobre o nosso corpo ser político enquanto mulher lésbica e tudo o que isso envolve. Elas acreditam que o amor entre mulheres envolve um cuidado muito maior e acreditam que as relações requerem sempre uma manutenção, uma atenção diária. “O amor entre mulheres é algo que vem na gente, porque ninguém nunca nos ensinou como amar as mulheres, você apenas sente, e então ama”, diz Sophia. Ela comenta que não sabe olhar para o corpo de uma mulher como olham os homens e que já ouviu amigos falando “pô, então você nem gosta de mulher tanto assim, se não acha ela gostosa, se não olha pra bunda...”, e mesmo que ela saiba que isso não signifique nada, entende que ela não liga pra isso porque ela nunca foi ensinada a gostar de mulher como os homens são, ainda jovens, de acordo com o patriarcado - ou seja, não existe regras para nós gostarmos de mulher, nem manual de instruções, porque nem nos consideram (nós, mulheres que se relacionam com mulheres) dentro do sistema patriarcal. A Bruna conta que amigos homens já fizeram ela parar de trabalhar para olhar mulher bonita passando... e que o sentimento sentido foi de desrespeito e desconforto. Bruna contou que uma cidade feliz e ideal para ela seria uma cidade da qual ela possa andar na rua sem medo - que ninguém olhe feio, solte comentários quando ela passa. Ela quer andar com paz. Desde pequena ela se entende enquanto mulher lésbica e comenta que na escola, quando perguntavam o menino que ela gostava, dizia logo o nome do mais bonito e disputado, para assim ficar no canto com um descargo de consciência por saber que ele não daria bola para ela. Sophia tem 21 anos e é lojista, mas cursa Cenografia. É aí que acontecem seus trabalhos no carnaval: ajudando a montar os carros alegóricos. Bruna tem 21 anos também, é cozinheira em um restaurante na Barra da Tijuca, mesmo morando em Niterói - e faz essa jornada diariamente. Ela tem uma cabeça muito aberta, fala sobre amor, diz que amar é muito diverso e que quando você percebe, já aconteceu. Ela demonstra muito cuidado com a Sophia, principalmente cozinhando as comidas favoritas dela e fazendo receitas bem elaboradas (leia-se, um pão cor de rosa, com massa natural, porque é a cor favorita dela…………. pois é, não tem coração que aguente ler isso, foi difícil pra mim também segurar a vontade de abraçá-las). Ambas amam maquiagem e seu maior hobbie é fazer vídeos para o tiktok. Estão na rede social desde antes do grande boom durante a pandemia. Inclusive, vale citar, que o pedido de namoro foi feito por lá, já que estavam separadas pela quarentena. Carnaval no Rio, dia de chuva, tinder ligado, glitter no corpo, bloco lotado, passando pelo Museu de Arte Moderna (MAM). Imaginou a cena? Quando a música toca embaixo do concreto do MAM o eco é imenso. Você sente seu corpo todo tremer. Pessoas em cima de pernas de pau dançam ao redor no espaço entre a grama e a calçada. Ali, tudo faz sentido: de fato, é carnaval no Rio. Foi assim que Bruna e Sophia se conheceram pela primeira vez, entre chuva, tinder e bloco. Se encontraram no meio da multidão… e sabe o que faz tudo ser tão característico de uma cena real do carnaval? o primeiro beijo ter sido ao som de Minha Pequena Eva, contando com todas as pessoas ao redor cantando e pulando muito. Acho que uma das coisas mais instigantes nessa história toda é que a Sophia era crítica assídua do Tinder. Dizia que jamais serviria para algo e que não dava para esperar nada “dessas pessoas”. Melhor ainda é o fato de que elas moram muito longe uma da outra, se encontraram porque foi um dia do qual a Sophia foi até o centro da cidade e assim que a Bruna apareceu ela deu ‘like’ pensando: é bonita, mas sei que não vai dar em nada. A Bruna, pelo outro lado, assim que descobriu que a Sophia trabalhava em um barracão de escola de samba já queria pedir logo em casamento. Apaixonada pelo carnaval e pela Sapucaí, ficou empolgada ouvindo as histórias que Sophia contava. Bruna Sophia

  • Ana e Paula

    Conheci a Paula e a Ana num almoço muito agradável e acolhedor que elas fizeram para me receber na casa recém mudada, no ano passado, em Porto Alegre. Lá também conheci o João, criança que me encantou desde o primeiro momento e que faz despertar muitas risadas de todas as pessoas que estão por perto. O João é filho da Paula com a ex-companheira dela, mas que agora também forma uma família entre a Paula e a Ana, já que eles se divertem juntos e adoram estar um na vida do outro. Na casa-meio sítio, o João adora colher bergamotas, brincar com seu cãozinho Bidu, acompanhar a Paula e a Ana na cozinha, assistir documentários de bichos e comer doces. Na relação delas, tudo envolve muito cuidado. A Paula explica isso com uma reflexão sobre alguns padrões de gênero acerca das imposições que as mulheres passam durante a vida, e que agora, num relacionamento homoafetivo, tratam tudo de forma colaborativa e com muito acolhimento, para que as coisas sejam mais leves no cotidiano - e que assim, elas sejam mais felizes também. A casa estava recém tendo as coisas retiradas das caixas, mas já contava com muita confiança no que elas estão dispostas a construir juntas: o amor. A Paula tem 34 anos, trabalha como gestora de TI, desenvolvedora, artista visual e designer. Já a Ana, tem 35 anos, estudou Medicina Veterinária, mas não chegou a se formar. Passou a trabalhar na área da comunicação com mídia social, produção de eventos e produção cultural. Durante essa trajetória, já residiu em coletivos urbanos e rurais em Goiás, trabalhando nestes espaços, e também já trabalhou com algumas terapias integrativas, como massagem e Reiki. Atualmente trabalha com Comunicação Social, ministrando alguns cursos, fazendo campanhas de sindicatos e partidos políticos. Fez alguns trabalhos artísticos de literatura e pintura, principalmente poesia, coisa que gosta muito de trabalhar. Elas se conheceram no Vila Flores, um centro cultural muito interessante em Porto Alegre, no ano de 2018. O evento se chamava Conexões Globais e a Paula estava se apresentando no coletivo de arte que faz parte. A conexão entre as duas aconteceu porque elas têm uma amiga em comum (que trabalha no mesmo coletivo com Paula). Ana foi prestigiar essa amiga, se encantou com a Paula e depois da apresentação quis saber mais sobre quem era essa “moça que estava se apresentando”. Nisso, a amiga explicou que a Paula era casada e que tinha até um filho, bebê, o que deixou a Ana um pouco chateada mas que super entendeu. Com o passar do tempo, Ana foi morar em Goiás para residir e trabalhar em comunidades rurais e quando retornou ao Rio Grande do Sul, trabalhou em uma comunidade urbana no centro de Porto Alegre. Neste período, um dos seus colegas de morada ia embora, mas indicou uma pessoa para ficar no lugar dele: a amiga recém separada que tinha um filho pequeno. Ana conta que os amigos diziam que a moça que iria morar lá já tinha frequentado o espaço algumas vezes, mas ela não conseguia lembrar quem era. Até que na semana seguinte chegou a Paula, para fazer uma visita na casa. A reação da Ana foi estar incrédula por ser a mesma Paula de anos atrás… Mas focava em uma regra que mantinha consigo mesma sobre não se envolver com ninguém que dividisse uma casa, pois isso poderia gerar conflitos no lar. De qualquer forma, tem coisas que não há como querer controlar, né?! A Paula brinca que quando a Ana passou por ela, parecia um gato se esfregando, pois estava muito próxima (mesmo tendo bastante espaço no ambiente que estavam). Na hora ela achou engraçado, não percebeu de cara que era um flerte. Por fim, elas não conversaram muito e de última hora a mudança não aconteceu: o amigo cancelou a saída e precisou se manter na casa, não abrindo lugar para a Paula se mudar. Elas não se tinham nas redes sociais e acabaram perdendo contato novamente. No começo da pandemia, em 2020, elas se encontraram num aplicativo de relacionamento (o já famoso por aqui, Tinder). Elas conversaram e, depois de um tempo, se encontraram para tomar um vinho. Brincam que desde então não se desgrudaram mais. Nesse período, em virtude da pandemia e das dificuldades de morar em grupo, Ana se mudou para um apartamento com uma amiga e o filho dela e a Paula seguiu morando no mesmo local em que estava com seu filho. Isso fez com que elas se sentissem mais seguras de se encontrar também - e de compartilhar várias coisas sobre as crianças no dia a dia. Após dois meses de relacionamento, a Paula convidou Ana para almoçar junto com ela e o João. Foi um dia super importante, Ana conta como ficou nervosa, mas que fluiu tudo de modo muito tranquilo - João e ela brincaram e rapidamente ele demonstrou afeto e inclusive quis almoçar sentado no colo dela. Aos poucos Ana foi sendo inserida na rotina da casa e da família. João também foi entendendo essa presença, perguntando sobre ela. Quando passaram por uma mudança ele perguntou onde seria o quarto dela e quando ela não estava ele questionava por qual motivo/o que ela estava fazendo. Num dia, Paula perguntou para o João se ele gostava de estar só os dois e ele afirmou que sim, e quanto questionado sobre o que pensava da Ana, disse que era mais legal quando a Ana estava junto. Isso foi como um divisor de águas para elas entenderem o processo dele na adaptação. Ana conta que não era uma ideia fácil inicialmente se relacionar com alguém que tivesse filhos, mas que por viver essa paixão com a Paula quis realmente abraçar toda a vida dela. Paula complementa relembrando um dia em que foi difícil lidar com o João, então ela chegou a pensar que a Ana iria desistir, mas que isso não passou pela cabeça da Ana. É muito legal ver a educação dele se desenvolvendo, a participação dela nisso, os limites colocados e toda a relação sendo construída com base no amor. Elas se emocionam contando a primeira vez em que ele disse que amava a Ana e sobre o quanto viraram parceiros-cúmplices do dia a dia, fazendo o que gostam e ele também trazendo muitos ensinamentos para Ana - que passou a participar de grupos de madrastas lésbicas e a seguir redes sociais sobre parentalidade também, pois não queria criar um território de disputa com as mães ou o pai. Destaca o quão sempre foi importante para ela poder ser uma figura de referência e afeto, mas sem competições, disputas ou invasões de espaços. Ana traz também sua reflexão sobre os aspectos sociais do seu lugar enquanto madrasta e das pré concepções e preconceitos existentes acerca desse papel na família a fim de abraçar esse universo com todas as ferramentas possíveis. Fala sobre o amor ser onde nos sentimos seguros para ser quem somos, e nesse cenário de família tradicional brasileira que elas são, elas querem ser de verdade e amar de verdade, sem medo. Ambas concordam que não é uma receita de bolo e que amar e construir a relação que constróem envolve se desafiar todos os dias. Paula reflete também sobre a concepção de construção familiar não ser feita para contemplar o amor e sim o poder - traz que para poder registrar o João tiveram que defender a família que ele tem, afirmando que o que importa é o amor, na concepção de que ele tá sendo privilegiado por ser amado por mais pessoas. Enquanto o “medo” alegado pela Justiça, era de que ele seria maltratado por ter uma família diferente do padrão esperado, ao invés de ser entendido como alguém de sorte por ter duas mães, agora uma madrasta e um pai. É muito injusto ter que se justificar para que o ciclo de amor em volta de uma criança seja criado, mas é incrível ver a forma que elas se firmam nesse relacionamento para que as trocas entre as duas (e o João) sejam as mais bonitas possíveis durante o trajeto. ♥ Paula Ana Carolina

  • Denise e Júlia

    A história da Denise e da Julia te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D Sobre a cervejaria, Julia fala que além da Oripacha, sua marca, ela já desenvolveu várias outras e está no mundo cervejeiro há bastante tempo (que é muito forte em Porto Alegre). Ela fundou um coletivo chamado Ceva das Minas e lá promovem a cultura cervejeira para mulheres (não só produzirem, mas consumirem também) através de eventos e encontros. É um espaço muito importante que tem crescido consideravelmente na cidade. Por fim, elas adoram viajar juntas de carro e conhecer novos lugares, ou revisitar seus favoritos. A Denise já viajou bastante e morou em alguns lugares (São Paulo e Bahia, por exemplo). Com o amor pela viagem em comum, criaram um jogo em que toda semana sorteiam um país da América para fazer um jantar temático com um prato típico do lugar selecionado. Denise ensinou a Julia a ver o cinema brasileiro com um novo olhar, e Julia ensinou a Denise a apreciar as cervejas e os detalhes bons da vida. Julia ama andar de bicicleta. Denise ama escrever, fotografar e estudar japonês. Elas tentaram morar juntas por um tempo, mas tiveram algumas dificuldades e resolveram manter cada uma no seu espaço. Tudo serviu para amadurecerem e entenderem seus limites, serem mais honestas e sinceras sobre seus sentimentos. Elas entendem também o quanto a quarentena deixou tudo mais pesado e intenso, falam sobre cada relacionamento e cada ser tem suas especificidades e conversam bastante sobre tudo. Julia diz que o amor é como se fosse um canal para as coisas acontecerem. Não é algo que precisa ser dito o tempo todo, mas sentido. E entende que o amor está sendo demonstrado mais na nossa geração, que antigamente parecia ser menos expressado, menos falado. Ao mesmo tempo em que discursos de ódio estão mais discutidos, o amor também está nos libertando. Além disso, se sente mais acolhida se relacionando com outra mulher, sente mais empatia, proximidade e leveza. Enquanto isso, Denise acredita que o amor que se fala, na ideologia, é muito distante da realidade. Amor representa para ela um ideal de bondade com o mundo - a forma que nos relacionamos com o espaço, com a natureza, com as pessoas… não de uma forma super ‘gratidão’ e ‘namastê’, mas de sabedoria e cumplicidade. Ela acha que o amor romântico existe com qualquer pessoa, todos são capazes de se apaixonar e viver uma relação com alguém, mas que ao mesmo tempo todos são completos enquanto indivíduos: a “metade da laranja” não vem para nos completar, mas para nos acolher e nos deixar melhores. Julia e Denise se conheceram em uma cervejaria comandada por duas mulheres em Porto Alegre, a Macuco. Julia tem 29 anos e é cervejeira, Denise tem 34 anos e é cineasta. Ambas estavam com seus amigos no bar, até que a amiga da Julia foi embora e ela ficou batendo papo com as donas, que são amigas dela e, por coincidência, da Denise também. Um pouco antes de serem apresentadas, a Denise estava envolvida numa discussão sobre não se considerar bissexual por nunca ter realmente se envolvido (tido uma relação de longa data) com uma mulher, enquanto sua amiga estava dizendo que isso era um absurdo e que você não precisa ter ‘uma regra’ de namorar tanto tempo para se considerar bi. Nisso, ela foi pegar uma das cervejas preferidas dela e as donas do bar falaram “ah, Denise, quem fez essa cerveja que você tanto gosta foi a Julia”. Assim, se conheceram. Denise brinca que sempre foi de se apaixonar rápido e na hora já sentiu a paixão. A noite foi passando e sobraram elas, as donas e os amigos da Denise no bar. Em algum momento da conversa, a Júlia (que é muito tímida), encostou levemente na Denise - sinal o bastante (ao menos, na hora foi! hahaha) para ela entender que poderia rolar algo - ela estava certa, era um sinal de que a Ju queria, mas foi por um leve equívoco que elas se beijaram: o bar estava fechando e a Júlia disse “e ai, pra onde a gente vai agora?!” o ‘a gente’ da Júlia era: todo mundo… já o ‘a gente’ que a Denise entendeu era: nós duas. Antes de descobrir para onde iriam, Denise tomou a iniciativa e o beijo aconteceu. Denise Julia

  • Beatriz e Tayana

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Beatriz e Tayana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Para Beatriz, a Tay elevou o sentido de muitas coisas boas. Conta que seus traumas de infância criaram um pensamento presente de que nenhuma mulher algum dia se interessaria por ela, que nunca se sentiria amada, bonita ou desejada. Tay chegou demonstrando o quanto a admira, valoriza, quer estar com ela. E o mais importante de tudo: que não está sozinha. Faz muita questão de retribuir todo o carinho que recebe colocando a Tay “lá em cima” todos os dias também: relembrando o quanto ela é capaz. Apoia seus sonhos de lançar livros, fazer mestrado, doutorado. Reforça o quanto é linda, uma mulher incrível. Acreditam que o relacionamento está muito vinculado ao suporte. Tay demonstra amor nos cuidados: “Fiz o café”/”Comprei seu leite”. Bia tem dificuldade em aceitar, mas trabalham isso juntas. Querem construir uma família diferente dos moldes que tiveram, baseada no que acreditam. Beatriz, no momento da documentação, estava com 22 anos. É natural da zona norte do Rio de Janeiro, mas reside em Niterói, junto com a Tay. Está terminando a faculdade de licenciatura em história e já trabalha enquanto estagiária/professora assistente em escola particular. Conta que vem de uma família bastante homofóbica, se descobriu uma mulher lésbica no consultório fazendo terapia e, nesse processo, escolheu a UFF justamente por ser uma Universidade em outra cidade, um local em que poderia ser livre. Tayana, no momento da documentação, estava com 28 anos. É natural de São Gonçalo, num local próximo à Itaboraí. Também está terminando a faculdade de história, mas em bacharelado. Trabalha enquanto assistente de museologia. Se conheceram em 2019, quando entraram na mesma turma no começo da graduação. Beatriz era tímida, mas na empolgação do começo do curso se mostrou uma pessoa super simpática e desenvolta, o que chamou a atenção da Tay. Conversaram e se aproximaram durante alguns meses, até que em abril falaram o que sentiam. Bia trouxe uma caixa de bombom - que a Tay não gostava - de presente, elas tentaram se beijar e a Bia teve (literalmente) um teto preto e desmaiou… viveram algumas situações engraçadas. Mas o beijo rolou depois e desde então ficaram juntas. Tayana conta que por mais que tenha vivido uma adolescência com amigos LGBTs e tenha a presença de familiares gays, não permitia olhar para si mesma e viveu uma heterossexualidade compulsória durante alguns anos. Vivia uma realidade católica e bastante tradicional, não cogitava outras possibilidades, achava que as mulheres chamavam sua atenção pela admiração que sentia e só. Quando entendeu que não era apenas isso, contou para algumas pessoas e a resposta da maioria foi a mesma: “Ah, eu já sabia!”. Com a avó foi a parte mais difícil de se conversar, por conta das questões culturais que envolvia. Até hoje, mesmo que a família dela adore a Bia e convivam bem juntos, a avó ainda acredita que o homem é quem traz a estrutura da vida de uma mulher, então surgem conversas que afetam muito a vida delas enquanto um casal. Mas lidam com isso mostrando a cada dia que passa o quanto conseguem seguir suas vidas e serem independentes, acreditam ser essa a melhor resposta. A família da Bia, por sua vez, não conhece a Tay. Segue com princípios bastante preconceituosos e, mesmo elas morando juntas e eles sabendo da existência dela, não houve um encontro até então. No começo do namoro, a UFF era o lugar de segurança e o ponto de encontro delas. Como as famílias não sabiam, não tinham como ir para suas casas. Na rua, havia o medo de se beijar. A Universidade virava um refúgio. Depois de um tempo, Bia começou a morar sozinha em Niterói. Com a chegada da pandemia de Covid-19 em 2020 elas acabaram ficando muito juntas, ambas conseguiram seus empregos e foram dividir um lar. Seus novos desafios começaram nos últimos tempos, quando conseguiram comprar um apartamento juntas pelo Programa Minha Casa Minha Vida (um financiamento do governo para pessoas de baixa renda conseguirem moradia). Está quase pronto e elas estão pagando juntas; A formatura também está chegando, sentem que são novos passos conquistados. Não foi fácil alinhar a vida financeira - e nisso falam sobre a importância da terapia para conseguirem manter conversas, falar sobre o cuidado com a casa, manterem um alinhamento. A questão familiar ainda mexe muito com elas, querem que até a formatura as famílias já se conheçam, que o preconceito seja quebrado, mas isso requer muita coragem de se enfrentar. Por fim, para além dos desafios, preenchem seus dias com passeios, idas em locais culturais, bares, restaurantes, assistindo séries e prezando muito pelos momentos de conexão. Valorizam os domingos em casa, fazendo almoço e assistindo ao jogo do Flamengo. ↓ rolar para baixo ↓ Tayana Beatriz

  • Melina e Karyne | Documentadas

    Melina e Karyne se conheceram há cerca de dois anos, mas só começaram a se relacionar de fato no ano passado. Foi num famoso bar com karaokê em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, que elas se esbarraram. Sem amigos ou conhecidos em comum, Melina viu Karyne cantando e falou para os amigos dela o quanto “era bonita e poderia ser a mulher da minha vida”. Depois que ela saiu do palco, Melina ficou procurando ela pelo bar mas não encontrou, até que na hora de ir embora viu ela numa mesa, com alguns amigos… criou coragem, foi falar com ela e pediu um beijo. O beijo aconteceu e ficaram juntas um tempo, depois trocaram perfis no Instagram (e Karyne estava com seu perfil desativado, acabou passando um que usa para publicar seus desenhos), trocaram algumas conversas e começaram a se encontrar aos poucos. Como havia uma boa comunicação quando saiam juntas, falavam sobre não estarem em um momento que desejavam um relacionamento, não era prioridade para as duas. Se encontrar da maneira que estava rolando, uma vez por mês, quando a Karyne respondia as mensagens que Melina enviada, acabava sendo confortável - e quando saiam se divertiam juntas, iam à cinemas de rua (como o lugar em que fizemos as fotos), espaços culturais e bares. Assim seguiram durante um ano. Hoje em dia, estabelecer essa comunicação franca ainda está nos seus principais objetivos enquanto casal. Entendem que são pessoas culturalmente diferentes, que uma é mais fechada que a outra e que só vão se abrindo aos poucos. É por isso, também, que tratam com muito cuidado os momentos difíceis porque sabem que possuem formas diferentes de lidar. Melina estava com 26 anos no momento da documentação, é natural de Niterói - RJ e é atriz. Atualmente está se formando numa escola de teatro (como curso técnico) e este ano vai iniciar os estudos em teatro na universidade. Independente do estudo acadêmico, faz teatro desde os 8 anos de idade e já deu aulas tanto de teatro, quanto de violão (e adora trabalhar com o que envolve educação e arte) explica que foi educada envolta de muita arte e não se vê longe disso. Quanto aos hobbies, adora jogar vôlei e desenhar. Karyne estava com 24 anos no momento da documentação, é natural de São Gonçalo - RJ e se formou em Publicidade. Hoje em dia, faz uma pós-graduação em comunicação e linguagem visual em semiótica, e por mais que não esteja trabalhando no momento, possui experiência como social media, professora de inglês e comunicadora em agências. Seus hobbies permeiam a arte, o desenho, a pintura e a moda. Adora criar coisas. Inclusive, junto com a Melina, trocam diversos presentes cheios de detalhes e coisas que elas mesmo fizeram. Quando começaram a sair, em março de 2022, o primeiro encontro foi num evento circense no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) no Rio de Janeiro. Por mais que já haviam se beijado no bar, estavam muito nervosas e mal conseguiram chegar perto uma da outra. Karyne explica que Melina foi a primeira menina que ela beijou depois de se assumir, pois passou muito tempo na igreja e foi na pandemia que ela entendeu e se abriu com a família sobre quem era, então ficava bastante nervosa, era tudo bem novo. Todos os primeiros encontros eram marcados pelo nervosismo de ambas e ficavam se cobrando que “não precisava desse nervosismo todo, era só viver o encontro”, mas quando chegava a hora ele falava mais alto. Por conta disso, demoraram um tempo para se beijarem novamente, mas todos os encontros eram muito divertidos e sempre sentiam vontade de se ver mais. No início de 2023 foram ao cinema e tiraram a primeira foto juntas. Karyne, depois desse dia, passou um tempo em São Paulo e elas começaram a interagir mais de forma online, conversar bastante e sentem que foi aí que tudo mudou. Quando ela voltou, saíram novamente, foram em espaços culturais e não pararam de se encontrar por conta da conversa que mantinham o tempo todo online. Entendem que precisavam desse tempo até a relação começar porque realmente não estavam preparadas/e nem queriam se relacionar antes. Depois que começaram a se aproximar mais, fizeram piquenique juntas e já se viam completamente apaixonadas. Num dia foram ao show da cantora Liniker, que aconteceu de forma gratuita na praia e por mais que tenham passado muito perrengue para conseguir voltar para casa, se divertiram e entendem que nesse dia já queriam começar o namoro. Foi no evento, também, que Karyne conheceu a irmã da Melina e muitos dos amigos delas. Além dos amigos, Karyne conheceu toda a família da Melina logo no começo do relacionamento, esteve presente em aniversários e todos adoram ela. Nessa mesma época em que estava introduzindo Karyne na sua vida, Melina fazia provas e apresentação de teatro no curso e Karyne ia assistir. Foi num dia desses, quando chegaram em casa que Karyne pediu Melina em namoro e Melina cantou uma música que fez pra ela. Falaram “eu te amo” juntas. Tanto a Melina, quanto a Karyne, desejam seguir caminhos na relação que não refletem coisas que já viram ou vivenciaram, por exemplo: briga dos pais. Por isso, fazem muita questão de sentar, conversar, escutar, compreender… Karyne não tem a aceitação da família - e já até perdeu as esperanças quanto à isso - porque possuem um pensamento muito conservador e seguem os padrões da igreja, mas entende que isso leva tempo. Para Melina a realidade é outra, por mais que tenha sido muito difícil ter se assumido, os pais possuem uma cabeça mais aberta e, por mais que também frequentem a igreja, acreditam que elas precisam se sentir seguras em casa antes de qualquer outro lugar. Independente da não-aceitação da família da Karyne, ela se assumir e conversar com a família fez também com que se aproximasse de outros familiares que a aceitaram (como a prima que também é casada com uma mulher e a tia que já reivindicou o amor delas como algo natural, sem problema algum) e nesse sentido é muito bom ter apoio. Ela entende que existem coisas que precisou ceder para ser ela mesma, principalmente se as pessoas não respeitam, e está disposta a ser o que ela é, se aproximando de quem a respeita e quer ela bem. ↓ rolar para baixo ↓ Karyne Melina

  • Natielli e Emanueli

    A Nati e a Emanueli são duas mulheres com muita bagagem. Nos mostram que a idade, algumas vezes, não quer dizer tanto assim. Que a vida dá seu jeito de nos fazer viver muito em pouco tempo...E são duas mulheres que, desde sempre, entenderam o mundo através de muita força, de muita correria diária e de muita batalha. Natieli tem 22 anos e trabalha como vigilante em um ponto turístico/mercantil de Porto Alegre. No tempo livre adora jogar futebol, andar de bicicleta e curtir o tempo com a Ayla, a filha dela e da Manu (também conhecida como: criança mais desconfiada & linda possível!!). Já a Emanueli, tem 19 anos, é natural de Lagoa Vermelha, cidade no interior do Rio Grande do Sul com pouquíssimos habitantes, mas mora em Porto Alegre com a família há bastante tempo. Ela faz bastante coisa e adora ser uma pessoa que aprende tudo/explora tudo. Hoje em dia trabalha como manicure, no salão que a mãe dela construiu em casa, mas tem cursos enquanto astróloga e taróloga. Ela adora ver vídeos sobre a maternidade entre mulheres (foi assim que chegou até o Documentadas, inclusive) e dialoga bastante sobre. É muito legal ver as trocas que ela faz com a Ayla e o sentimento de família e de apoio que elas construíram juntas. ♥ A Nati e a Manu se conheceram através de uma amiga em comum, lá em 2019. Foi num show da Iza, que a Manu foi com essa amiga, num espaço aberto em Porto Alegre, que a amiga delas resolveu ligar para a Nati e convidá-la para o evento. Até então a Manu não sabia quem era e quando a Nati chegou, com um jeitão mais fechado e na dela, a Manu logo pensou: “Que guria bem antipática!! Mal educada”. A amiga resolveu dar uma de cupido e juntar as duas, mas, além da pré-antipatia, a Natielli já estava ficando com outra pessoa (Pode entrar, o famoso: Rebuceteio!) e a Emanueli também já tinha outra pretendente… No fim, não rolou. Acabou que o tempo passou, o show acabou e outro dia a Nati mandou mensagem para a Manu. Ia rolar uma festa de aniversário na casa dessa ‘amiga’ e chamaram ela… Lá, elas se beijaram. Com uma certa frequência começaram a se encontrar nos lugares e aos poucos o sentimento surgiu. Foi em outro show que elas se encontraram e entenderam o que sentiam enquanto a paixão. A Nati disse que não queria que a Manu fosse embora e, então, no dia seguinte elas se viram na casa dela (Detalhe: a Nati foi CAMINHANDO até a casa da Manu e era uma distância muito longa!! Ela não contou que não ia de carro ou de ônibus e só avisou quando estava chegando lá, como se estivesse no carro… e a Nati nem percebeu que a menina tinha caminhado quilômetros. Já diria a Sandy, né minha gente: “Olha o que o amor me faz...”). Um mês depois do encontro em casa (e da caminhada) a Natielli fez o pedido de namoro ♥. O processo da vinda da Ayla ao mundo foi muito cuidadoso e delicado e, antes de tudo, sei o quanto isso é importante para a Nati e para a Emanueli. Então queria agradecer a elas terem me concedido permissão para falar aqui, de forma não necessariamente romantizada e sim como parte verdadeiramente documental, sobre o processo da maternidade de duas mulheres e o que representou isso para as duas - em sua melhor forma de ressignificar. ♥ obrigada e admiração por vocês três. No decorrer do ano de 2019 e logo no começo da relação das duas, a Nati sofreu uma situação de abuso. Foi um grande desespero e elas estavam sem saber o que fazer. A reação da Emanueli foi acolher e tentar ajudar como soube na hora, mesmo sendo algo muito difícil e traumático. Elas ressaltam que, nos momentos em que mulheres estão fragilizadas, geralmente o que podemos fazer é tentar estar por perto e segurarmos uma nas mãos da outra. Diante toda a gravidade da situação, elas conversaram muito, tentaram se acalmar e buscar as providências corretas judicialmente. Nesse meio-tempo, a família da Emanueli recebeu a Nati em casa e elas se tornaram uma família só. Foi acontecendo uma movimentação natural da mãe, da avó e da própria Manu em torno do acolhimento e de entenderem o momento de fragilidade. Foi então que veio um sentimento das duas pensarem que elas não possuem condição para uma fertilização em clínicas e que gostariam muito de serem mães, de gerar, educar, criar e amar. E foi aí que a Nati perguntou: “você quer ter esse filho comigo?”. A Manu aceitou. E, meses depois, a Ayla veio ao mundo. Hoje em dia, a Ayla é a maior alegria em casa e, mesmo entendendo que o momento tenha sido de muito trauma e muita dor, é com terapia que elas procuram construir e literalmente dar outro significado para isto. Procuramos, também, alertar outras mulheres para que estejam sempre em apoio, uma das outras, que nunca soltem as mãos e que fortaleçam seus laços. A forma que o amor encontrou a vida dessas mulheres mostra que o amor entre mulheres consegue mover muita coisa no mundo. Quando a Manu e a Nati se casaram foi algo não-oficial, mas muito importante para elas. Fizeram um documento, em casa mesmo, com chocolates e comemoraram juntas. Sentem que estar juntas é o resumo de tudo. Ali, tudo é 8 ou 80. Decidem as coisas, conversam sobre o que pensam e se entendem porque o diálogo é aberto. Elas zoam muito também, a conversa (quase) não dava para ser levada à sério, porque metade do tempo era risada de uma atiçando a outra, falando bobagem e fazendo piada. Para Emanueli, o amor, acima de tudo, é a parceria que elas construíram juntas no relacionamento. Essa parceria entende a individualidade, respeita os momentos, os espaços, mas não larga as mãos quando precisa. Está sempre ali. A Nati completa que o amor para ela é muito forte, capaz de superar distâncias e dificuldades. Elas acreditam que o amor entre mulheres é diferente porque ele sabe apoiar nas horas boas e ruins. E que a maternidade delas mostra como é isso na prática - por mais que não tenha sido nenhum pouco fácil (e que diariamente não seja fácil). São mulheres periféricas, são mães de uma criança negra, mães negras, parte de uma maternidade que não estava nos planos… E falam o quanto isso implica em tantas mudanças repentinas na nossa forma de pensar e de enxergar o mundo. E o quanto, também, implica na forma que queremos o mundo diferente para a Ayla viver. Elas, em especial, querem um mundo mais emancipado, em que as pessoas tenham mais condições e que os nossos direitos sejam respeitados, assim como desde cedo ensinam a Ayla a respeitar cada detalhe de cada pessoa: que a Ayla respeite cada ser como ele é. ♥ Natielli Emanueli

  • Angélica e Jaque | Documentadas

    Angélica, no momento da documentação, estava com 34 anos. Ela é natural de São Miguel do Iguaçu, uma cidade no interior do Paraná, mas mora em Criciúma - Santa Catarina há bastante tempo. É apaixonada pela escrita, gosta de escrever poemas, ler e passar tempo com os seus bichinhos em casa. É formada em letras e trabalha na UNESC, universidade pertencente à cidade de Criciúma, no setor de educação e design instrucional. Sua função é receber o material didático que será passado ao aluno na modalidade de educação à distância e preparar este material para que ele fique mais didático, com elementos, esquemas, imagens, deixando-o mais interessante pensando no autoestudo do aluno, visto que ele estará estudando em casa sozinho. Além disso, Angélica também trabalha com a Jaque, sua companheira, enquanto produtora dos eventos que ela canta e toca. Ela monta o equipamento, cuida do som, faz alguns registros para redes sociais e faz os contatos para fecharem os próximos shows. Quer muito fazer da sua produtora um trabalho fixo, e inclusive, quando nos encontramos para a documentação ser feita, iria acontecer nos dias seguintes o primeiro evento oficial criado por elas. Jaqueline, no momento da documentação, estava com 25 anos. É natural de Sangão, interior catarinense, mas atualmente mora em Criciúma com Angélica. Estuda psicologia e trabalha como estagiária no setor de arte e cultura da UNESC, universidade já citada acima. Aos finais de semana se dedica aos eventos em que trabalha fazendo shows em estilo voz e violão ou com a sua banda. Adora cantar e observar as pessoas enquanto canta, além disso, sempre que pode está assistindo algum show e pegando referências para o seu próprio trabalho. Angélica levava uma vida bastante agitada quando conheceu Jaque. Conta que só queria saber de sair, beber, beijar na boca… Inclusive, estava procurando mulheres para beijar quando encontrou no Twitter um link que levava à um grupo e Whatsapp chamado “SAC Sapatão”. Lá havia gente do Brasil todo e logo perguntou: “Tem algum DDD 48 aqui?”. Alguns dias depois a Jaque respondeu ela no privado, falou: “E aí, Criciumense?!” porque já tinha visto o papo se desenrolar lá no grupo. Passaram duas semanas conversando sem parar, até que resolveram marcar um encontro para se conhecer em que Angélica buscaria a Jaque em sua cidade, próxima à Criciúma, elas beberiam em Criciúma e depois ela a levaria de volta. A questão foi: elas só beberam. E Jaque, pobrezinha, estava cheia de fome, pingava de bar em bar com a Angélica contando mil histórias e bebendo… e só via as comidinhas passando para as outras mesas. Jaque era muito tímida, não disse nada, mas também não comeu. Chegou em casa com fome, achou o date ruim. Deram um beijo na despedida e isso foi o bastante para Angélica, que não tinha noção da fome da Jaque, pensar: “Yes! Arrasei!”. Jaque resolveu dar mais uma chance, se encontraram novamente e dessa vez teve até uma bolachinha dentro do carro, caso a fome batesse. Foram até a cidade de Tubarão, próximo onde Jaque morava, para viverem uma festa. Na época, já se sentiam bastante envolvidas. Angélica via a Jaque cantando nos vídeos e sentia a paixão chegando, mas os amigos não colocavam fé, para eles era só mais uma paixão passageira. A partir do segundo encontro em que foram na festa e que depois da festa dormiram juntas, sentem que algo começou a se firmar. Se encontravam com frequência, Jaque na época cursava uma faculdade em Criciúma e isso fazia com que estivessem sempre juntas… Mas Angélica seguia com o seu jeito agitado, querendo sair e curtir a vida, até que foi preciso entender que não dava para continuar com tanta intensidade assim, foi “sossegando” aos poucos. Do momento em que se conheceram até o começo do namoro foi bem rápido, entre janeiro e fevereiro de 2019. Logo no começo, também, já se apresentaram para as famílias, compraram alianças de namoro e foram seguindo a relação, até que depois de alguns meses entenderam que namorar morando em cidades diferentes estava ficando muito difícil. Jaque se mudou para Criciúma e foi morar com Angélica, se estabilizou num emprego e a vida recomeçou… Até começar a pandemia de Covid-19, onde trabalhavam de casa e passavam o dia inteiro juntas. No meio de tudo o que viviam, para garantir direitos e também celebrar o amor que resistia em tempos pandemicos, casaram-se no papel. Queriam fazer uma grande festa, mas não foi possível. Contam, rindo, que saíram do trabalho num dia chuvoso, foram até o cartório assinar um papel e assim que saíram de lá comeram uma coxinha e beberam uma coca-cola, foi a forma de comemorar. Quando nos encontramos para a documentação haviam recém trocado as alianças de namoro para de casadas, mesmo depois de alguns anos, porque queriam ter condições financeiras para comprar alianças legais. Estavam felizes com isso e fizeram questão de registrar nas fotos. Por mais que já passaram por muitas coisas boas juntas, existem também as difíceis, como a própria pandemia. Angélica perdeu a avó, uma das pessoas mais importantes da sua vida, e por conta do trauma desenvolveu alguns medos e fobias. A relação passou a significar apoio para além do romântico, Jaque se tornou um suporte imenso, um cuidado e ajudou no entendimento desses medos, de viver esse processo. Juntas, elas se apoiam em tudo. É nesses momentos que enxergam o amor de forma clara, refletido no cuidado, companheirismo, ajuda diária a enfrentar a vida. Angélica conta que acorda mais tarde, então Jaque tem todo o cuidado de preparar o café, pensar na rotina uma da outra, deixar os lanches prontos… E isso fala muito sobre apoio. O amor não precisa estar sempre no afeto físico. Ele está, também, na forma que elas sonham em viver da música e fazem o sonho virar realidade, investem em equipamento, em editais de cultura, vão atrás de shows para fazer… em toda a vez que dão as mãos e acreditam uma na outra. Falamos sobre trabalharem juntas, morarem juntas, viverem uma rotina muito intensa. Até para a própria documentação acontecer, batalhamos por um horário. E foi aí que citaram a maior dificuldade que passam atualmente: o cansaço que a rotina demanda. Existem alguns meios que recorrem para que isso não pese tanto, como a terapia, as longas conversas - nunca se veem brigando ou discutindo, mas conversando. Confiam muito uma na outra e isso é o que as movimenta, que mantém tudo em segurança. Se a rotina já é pesada, não querem que a relação também vire um peso. Angélica tem muito cuidado com a limpeza e cita que às vezes sente necessidade de limpar, ainda mais com os bichos em casa, não quer deixar o ambiente sujo para a convivência deles. Mesmo chegando exausta, arrasta os móveis, começa a limpeza… E a Jaque “pega junto”, em suas palavras, para limpar. Não era o que gostariam, prefeririam o descanso, mas reconhecem como a ajuda faz a diferença. Isso também fala sobre o amor, sobre poder contar, sobre não deixar de lado. ↓ rolar para baixo ↓ Angélica Jaque

  • Ignez e Yasmin

    Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Yasmin Ignez

  • Luana e Gabrielle

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Isabela e da Camila, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A Luana e a Gabi são mulheres que amam amar mulheres. Gabi brinca sobre como o sexo não tem comparação, mas o sentimento acaba indo bem além disso: querem ver mulheres ocupando espaços de poder (judiciários, públicos…) porque acreditam que só assim a sociedade poderia mudar de verdade. Depois, ela ressalta que sonha com lugares que acolham pessoas em situações de vulnerabilidade (moradores de rua, crianças sem creches públicas), dando um futuro diferente para elas. Falam, também, sobre a importância de darmos oportunidades para as mães poderem trabalhar e gerenciar suas independências financeiras. No fim, mas não menos importante, não gostaria de deixar de fora o momento em que elas comentaram que foram no show do Lenine, tempos depois de já estarem juntas, sempre lembrando de quando cantaram a música naquele primeiro dia, no fanchokê. ♥ A Luana tem 22 anos, é designer (e está se formando agora!) e ama jogar Roller Derby. Ela veio de São Paulo fazer faculdade no Rio, é filha de uma mãe solo e tem quatro irmãos. Quando ela chegou morou em república, dividiu apartamentos, deu muito corre para se virar. Foi ter uma casa de verdade quando decidiu dividir um lar com a Gabi e, mesmo tendo uma parceria e construindo a família juntas, elas já passaram por períodos bem difíceis, como quando estavam desempregadas. Elas decidiram morar juntas em agosto de 2020, estava muito difícil manter as coisas na pandemia (a distância, os gastos sozinhas…) e optaram pela vinda da Gabi, com os três filhos, para uma casa que alugaram. A relação delas foi ficando cada vez mais concreta, as crianças entendendo melhor o novo ritmo e a mãe da Gabi acompanhando tudo de pertinho (e ajudando bastante também!). Hoje em dia, elas sonham com o momento em que vão se estabilizar na casa para começarem novos planos (como montar uma empresa juntas - já que trabalham em ramos bem próximos). Os filhos lidam de forma bem tranquila com o relacionamento e a Luana brinca que, antes de conhecer eles, jamais pensava em ter filhos (e na responsabilidade de educar crianças) dessa forma, mas o relacionamento delas virou o porto seguro deles... e completa com um sorriso no rosto: “o mais novo já chama as duas de mãe”. Quando perguntei sobre o que a Luana e a Gabi pensam sobre o amor, a Luana logo se identificou enquanto uma amante do amor. Ela adora ler sobre e pensar sobre. Entende que o amor é risada, porque risada é algo que todo indivíduo é capaz de dar desde o primeiro minuto que nasce, até o último minuto de vida. Mas é aquela risada, sabe? aquela que toma conta de tudo. Amar, além de tomar conta, é se importar em querer fazer alguém rir. É querer, em qualquer situação, que a pessoa esteja ali com você - uma apoiando a outra, se sentindo bem. A Gabi acredita que amor “é não querer desistir... porque você consegue ver valor”. Ela comenta que no começo as coisas são romantizadas, sim (e tudo bem ser!), mas é depois, quando tudo se transforma em desafios diários e que você se vê enfrentando, que a recompensa chega com o sentimento de se estar vivendo algo valioso, algo que sempre traz um quentinho para o coração. E assim é o amor entre mulheres: um corre o tempo todo. Brincam que a mãe da Luana só aceitou a homossexualidade dela quando viu as duas lavando um tapete, juntas, no quintal. E disse “ah, então é bom namorar mulher! Porque aí vocês limpam as coisas juntas! Tô gostando, então!” e enquanto ríamos sobre a situação chegamos à conclusão de que a vida assim, de fato, fica mais leve. Porque não temos essa coisa de limpar a casa enquanto a função do homem é prover o dinheiro, só se envolver com a cozinha na hora de fazer churrasco ou coisas masculinas. Sendo mulheres, como já somos criadas nos ajudando na cozinha, o casal trata com normalidade a atitude de se ajudar, cuidar da casa, do lar, educar as crianças, trabalhar de home office e dar conta disso tudo… e mil outras coisas. Gabi tem 32 anos, é desenvolvedora web, já tocou bateria (e inclusive é algo que ela pensa em voltar a fazer), é da baixada fluminense (mais especificamente, de Belford Roxo) e é mãe de três filhos. “Uma de 14, outra de 12 e um de 9”. Hoje em dia ela mora com a mãe dela, com as crianças e com a Luana, em uma casa grande, no Rio de Janeiro. Na internet, além de jogar sinuca (coisa que a Luana disse que é o maior dos hobbies), ela gosta de acompanhar pessoas como a Nataly Neri e o Jonas - diz que o relacionamento deles faz ela acreditar no amor. Além disso, não possui muitas referências de pessoas famosas que sejam lésbicas, acredita que esse conteúdo não acaba chegando tanto nela. Elas se conheceram de uma forma muito aleatória, no Arco do Teles (local, inclusive, que fizemos as fotos!). Luana, que estava acompanhada, foi pedir um isqueiro durante uma festa e acabou conversando com a Gabi… ela reconhece que se interessou pela Gabi logo de cara, mas a vida pregou uma peça: a Gabi, por outro lado, se interessou pela menina que a Luana estava ficando. Um tempo depois, a Luana viu a Gabi e a menina juntas e entendeu que não tinha mais esperanças. A Gabi e a menina começaram um relacionamento (nessa história, quem nunca foi um pouco Luana - sozinha vendo as duas juntas - que atire a primeira pedra!), mas a relação não deu tão certo quanto esperavam e terminaram um tempo depois. O tempo passou e a Gabi foi falar com a Luana sobre a menina, abrir o coração, já que era uma ex em comum. Elas conversaram, se mantiveram nas redes sociais e um tempo depois a Lu postou um storie com uma música da Duda Beat, pois naquele dia seria o show dela no Circo Voador, e a Gabi respondeu dizendo um “ei, também vou! vamos nos ver lá?!”. Enfim, nem preciso dizer que se encontraram, né?! Quando elas finalmente ficaram, foi um dia muito feliz para a Luana. Ela fez até um café da manhã e levou na cama, no dia seguinte. A noite anterior tinha sido num ‘fanchokê ’, o karaokê das sapatão. Elas cantaram Lenine juntas. Depois, tomaram um banho de chuva e foram para a casa. Gabi brincou que para ela jamais faria sentido que isso fosse alguma coisa séria, a Luana passava uma impressão de ser muito solta, muito livre de relacionamentos. Gabrielle Luana

  • Anne e Larissa

    Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Anne e da Larissa, quando o projeto passou por São Paulo! Foi trabalhando juntas que Anne e Larissa se conheceram, numa rede escolar, enquanto professoras de inglês. Trabalhavam em unidades distintas (ainda que em regiões próximas) e tinham uma amiga em comum, mas não se conheciam. Até que numa reunião entre equipes a Lari viu a Anne e se interessou, achou ela linda e decidiu falar com a amiga sobre. Se adicionaram no Instagram e aos poucos a amiga foi percebendo que realmente combinavam e decidiu ir criando uma ponte, instigando que uma fizesse contato com a outra. Até que aconteceu um evento na escola em que a Anne trabalha, em Campinas, e quando a Lari soube que precisavam de professores para participar do evento prontamente se disponibilizou. Trabalharam juntas o dia todo, no fim trocaram um “Nice to meet you” amigável, sem jeito… mas a verdade é que já estavam interessadas uma pela outra. Depois do dia de trabalho juntas, começaram a conversar de fato pelo Instagram demonstrando o interesse. Na versão da Anne, todo mundo no trabalho sabia o que estava acontecendo entre elas e colocava muita pressão, do tipo “Olha lá, a Larissa tá chegando!!”. Por isso ela até tentou puxar um papo, falar de uma tatuagem, mas não rendeu. Depois, quando começaram a conversar, o apoio foi imenso. Todos adoram elas juntas. Antes de assumirem o namoro, Anne teve Covid-19 e Lari acabou sendo a professora substituta dela na unidade escolar, então se falavam ainda mais. Contam como foi divertido também trocar nessa questão de trabalho, conversando sobre tudo - e nessa época Lari ficou mais próxima dos colegas de trabalho da Anne, descobrindo assim como ela é uma pessoa muito amiga de todos (e percebendo como eles também já sabiam da existência do romance delas). Não descartam o quanto estavam tensas por serem do mesmo trabalho (e por esse trabalho ser uma escola) ao assumir que estavam juntas. São profissionais, sabem das regras. No começo, concordaram que se não desse certo, Anne iria sair porque ela nunca teve a ambição de subir de cargo e trabalhar na coordenação (diferente da Lari, que sempre quis). No fim, Lari foi contar para a coordenadora. Contou enquanto também a convidava para ir ao seu aniversário e a reação não poderia ter sido melhor: Ela disse que já imaginava, tinha visto elas interagindo no Instagram, e tudo bem! Desde o primeiro momento entenderam que queriam construir um relacionamento juntas e isso ser aceito no ambiente de trabalho significou muito. Todos brincavam positivamente com elas, os colegas sempre quiseram ver o casal feliz. No momento da documentação, Larissa estava com 28 anos e segue enquanto professora de inglês - agora já está trabalhando parte do dia na coordenação. Além do trabalho, é muito ligada à família. Ama ficar em casa, com os gatinhos, dormir, tirar um tempo para fazer nada. Hoje em dia reside em Santa Bárbara d’Oeste, interior de São Paulo, mas nasceu em Americana e é lá que trabalha. Anne, no momento da documentação, estava com 33 anos. Nasceu na Bahia, numa cidade interiorana chamada Caetité, mas desde criança mora em Campinas. Segue trabalhando enquanto professora de inglês. Desde o começo o relacionamento vem representando uma série de mudanças para elas. Pela primeira vez, a Lari contou para os pais sobre a sua bissexualidade e Anne foi super bem recebida em casa, elas inclusive adoram esses momentos em família. Lari começou a gostar de futebol, assistir Star Wars e já tem até uma camiseta do Flamengo. Descobriu que é muito bom viver tudo isso ao lado da Anne porque como são coisas que ela ama, enxerga com muito brilho no olhar. Anne veio de uma família bastante religiosa e conservadora, então o assunto de se relacionar com uma mulher é muito mais delicado. Lari foi a única pessoa que ela resolveu dizer: “Estou namorando e quero trazer ela aqui em casa”. A primeira vez que contou para os pais sobre a sua sexualidade foi há anos atrás, mas não teve boa aceitação e desde então viveu como um silêncio. Um hiato enorme, uma agressão disfarçada porque não aceita quem ela é. Hoje em dia, depois de ter assumido novamente - dessa vez com a Lari - sentiu uma vontade de quebrar preconceitos vindo do pai, que se mostrou muito mais aberto a entender. Atualmente a Lari frequenta sua casa e elas sentem que tudo evolui aos poucos, mesmo não sendo fácil. Para o relacionamento dar certo, entendem que precisam respeitar seus tempos. Lari tem uma postura mais combativa nos momentos de desafio, enquanto Anne prefere ficar em silêncio, processando, mesmo que tendo companhia. Lari explica que é um aprendizado acompanhar a Anne nos seus processos e que nunca abrem mão da comunicação. Comunicam tudo, o tempo todo, desde coisas básicas (como o que querem fazer juntas) até conversas intensas sobre o que sentem. Pela primeira vez, Anne enxerga o relacionamento enquanto paz. Sente que em outras vezes que se relacionou, não só amorosamente, precisou fazer muito esforço para ser ela mesma, se sentir bem. Com a Lari não existe dificuldade para a paz existir. E amar também é isso, se sentir bem sem querer mudar o outro e nem se mudar para agradar. Uma grande compreensão de como somos, não de forma descartável, mas de ter tolerância. Lari completa dizendo que sente um amor que gostaria que todos vivenciassem. Lembra de um momento que o pai dela viu elas desenhando juntas e disse “Como vocês combinam, né?!”. Sempre teve sua referência de amor baseada na família e acredita que a Anne já atingiu isso: se tornou família pra ela, o amor que sempre acreditou. Um núcleo, algo muito mais íntimo. ↓ rolar para baixo ↓ Anne Larissa

  • Camilla e Karol | Documentadas

    Amor de Calma e Maresia - Camilla e Karol clique aqui e acesse nosso audiolivro

  • Jade e Yáskara

    Jade e Yáskara são duas psicólogas, gaúchas, que dividem a vida em Belo Horizonte. Chegaram na capital mineira em março de 2021, durante a pandemia. Entendem que, mesmo com o acaso de terem passado as últimas férias pré-covid em Minas Gerais, a razão da mudança foi única: uma nova oportunidade de trabalho. Yáskara, que no momento da documentação estava com 40 anos, é natural de Palmeira das Missões, interior do Rio Grande do Sul. Já morou em diversas cidades do RS e estava morando em Porto Alegre há alguns anos. Ela é psicóloga e dá aula em universidades, estava se sentindo esgotada porque seu trabalho preenchia os três turnos do dia e sentia que precisava desacelerar o ritmo. Jade no momento da documentação estava com 26 anos, é natural de Porto Alegre e por lá trabalhava com a psicologia dentro das políticas públicas, em uma casa-lar na Restinga, bairro periférico da Zona Sul. Seu trabalho também mudou com a ida para Belo Horizonte, decidiu atender de forma clínica e se voltar para um público específico: a comunidade LGBTQIA+ e pessoas em situação de pós-encarceramento. A oportunidade surgiu lida como uma brincadeira pela Yáskara, que chegou para a Jade contando: “Recebi essa proposta de trabalho, mas não tem como, né? Imagina, morar em Belo Horizonte…” e, para a surpresa, Jade respondeu: “Por que não?”. Depois disso, começaram a pensar melhor sobre e embarcaram nessa nova cidade. Hoje em dia, entende e enfatiza a importância de estar em espaços acadêmicos para mudar as coisas de dentro, trazendo representatividade, reinventando a psicologia. Jade e Yáskara se conheceram em 2016, mas só em 2018 foram se relacionar de fato. Na época, elas viviam relacionamentos distintos e, quando entenderam o que sentiam, precisaram encerrar as relações para ficarem juntas. Foi um momento muito delicado por conta das diversas emoções, misturadas com muito trabalho diário. Por outro lado, contam que gostaram tanto de ficar juntas que, ao dormirem na primeira noite, nunca mais se desgrudaram: sentem que desde então dormiram juntas todos os dias. Juntaram as coisas, os cachorros e foram morar juntas, logo no início. Sentem que a experiência da relação ser um casamento vem desde esse início. Não tiveram tantos momentos clichês de um começo de relação, mas sim momentos específicos que hoje em dia lembram dando risadas: no primeiro cinema juntas, dormiram, de tão exaustas que estavam. Na primeira vez na praia tomaram insolação, porque esqueceram o protetor. Dentro de casa, viveram toda a pandemia juntas. No começo foi difícil, estavam morando em um apartamento sem divisões em Porto Alegre, precisaram entender como seria a dinâmica. Hoje em dia, no novo lar em Belo Horizonte, deram muito valor a isso desde o começo: como trabalham bastante em home office, cada uma possui um espaço demarcado em casa que seja confortável para seus atendimentos e trabalhos. Pelas tantas vivências no início e depois já ter embarcado na pandemia e na mudança de estado, sentem que já viveram muitas coisas juntas. Contam que conversam sobre tudo (e imaginamos, né? duas psicólogas juntas!), compartilham muito sobre o que estão pensando, sentindo e como foram seus dias. Não costumam se desentender por coisas sobre o relacionamento, discutem mais por questões rotineiras: como o comportamento dos bichos em casa. Gostam muito da companhia uma da outra, de beber vinho ouvindo música, de estar compartilhando pensamentos e sentem que não são o tipo de casal que fica sozinha individualmente. Elas têm seus espaços, mas sempre que podem estão juntas desfrutando dos ambientes de convívio em comum. Em Belo Horizonte, procuram conhecer “espaços de respiro”, ou seja, lugares que sejam confortáveis para estarem enquanto mulheres da comunidade LGBT. Acreditam que se unem muito pelas questões políticas (a primeira foto que possuem é na manifestação contra o Bolsonaro/Ele Não em 2018, por exemplo) e também buscam lugares de militância na cidade. Além disso, gostam de assistir shows (e elogiam quanta cultura há em BH), além de ocupar espaços públicos como praças e eventos abertos pela cidade. Atualmente, além de viajar para o interior de Minas Gerais, também adotaram um gatinho mineiro, fazendo companhia para os cães da casa. Entendem que viver a mudança e o dia a dia da forma que vivem significa muita união. São elas por elas, ou como disseram: ‘nós por nós’. Estão abertas a fazer novas amizades e desbravar a cidade, mas acabam sentindo uma confirmação de amor ainda maior quando olham para trás e percebem o quanto já caminharam juntas. Jade acredita que é muito importante se referir à Yáskara como sua esposa, pela ressignificação de termos heterossexuais. Falam sobre a importância do casamento neste sentido também - em breve a cerimônia será realizada e, por mais que a Jade cresceu ouvindo sua mãe dizer “Não case! Depender de homem é muito ruim!” hoje entende que o que estão fazendo não fará que elas sejam dependentes financeiramente de alguém. Sente que o casamento LGBT+ vem em outro sentido, falando muito mais sobre uma ressignificação de direitos, um planejamento para a facilitação na burocracia de ter filhos e um direito que nós temos. Ambas vivenciaram relações heterossexuais duradouras e falam sobre agora encontrarem outro sentido para as relações amorosas enquanto estão juntas - coisas até que não cogitavam pensar, como ter filhos. Yáskara fala sobre estarem pensando na maternidade, algo que ela nunca tinha se visto desejar antes. Pensando juntas, adoram a ideia de ter um ou dois bebês, e comentam que o desejo de engravidar não chega enquanto uma questão heteronormativa estereotipada do qual um casal namora > casa > engravida, e sim como algo que temos direito, que querem vivenciar, conquistar juntas enquanto uma nova perspectiva de aprendizado, cultura e educação. Para Jade, o amor passa pelo afeto, porque é o afeto que nos move em tudo o que fazemos, faz ter propósito. Yáskara complementa que amar é ter também respeito pelas diferenças. O amor que constroem passa pelo respeito e pelo apoio sobre o que pensam, além de ser livre, não necessariamente no sentido monogâmico, mas livre para que estejam confortáveis e à vontade na relação, sem um ultra romantismo: que as permitam viver bem, que se ampliem juntas. Contam sobre uma situação que quando começaram a namorar foram para Salvador e decidiram jogar búzios antes de chegar lá. Neste momento, o pai de santo trouxe várias coisas interessantes sobre o relacionamento delas e perguntou se elas estavam preparadas para viver ‘uma metade só da laranja’, porque elas eram a mesma metade, por serem tão parecidas. Ao decorrer do relacionamento entenderam que isso faz muito sentido, se vêem muito uma na outra. Além disso ele disse que a Jade casaria aos 26, o que, sem elas perceberem, acabará se concretizando. ↓ rolar para baixo ↓ Yáskara Jade

  • Nayara e Jamyle

    Nayara brinca que ela é um gato preto, enquanto Jamyle é um golden retriever, mas que mesmo assim elas se entendem, se amam e se respeitam nos seus limites, adorando a companhia uma da outra. Cada uma tem seu tempo: Nay ama ficar com os gatos, jogando seus jogos, enquanto Jamy às vezes prefere sair, fazer outras coisas… e que está tudo bem assim. Cada uma possui a sua liberdade de estar onde quer e quando quer. Tanto Nay, quanto Jamyle, estavam com 30 anos no momento da documentação. Jamyle é professora de inglês, natural de Porto Alegre (RS) e adora jogar board games, principalmente Magic. Ensinou Nayara o hobbie e agora elas jogam bastante juntas. Nay, por sua vez, nasceu em Campo Grande (MS) e mora em Porto Alegre desde 2011. É formada em direito, com mestrado em ciências sociais e seu hobbie, além dos jogos, é a leitura. Moram juntas num apartamento próximo ao Jardim Botânico de Porto Alegre, lugar que adoram frequentar. Contam que logo quando foram morar juntas viveram o ano mais difícil da relação, pois a Nay perdeu o emprego e ficou muito desestabilizada. Não conseguia outros trabalhos, nem estudar e muito menos passar em concursos, o que só aumentava a desmotivação. Jamyle acabou segurando as pontas em casa, mas não foi fácil lidar com a situação e principalmente com a culpa que Nay sentia. Quase um ano depois, tudo se reestruturou. Ficam muito felizes em terem superado isso, sobrevivido e se apoiado. A partir disso, se veem diferentes em relação aos sonhos e ao dia a dia em si, são muito transparentes: se algo acontece de ruim, seja na rua, no trabalho ou se ouvem algo preconceituoso, logo compartilham uma com a outra para se apoiar e enfrentar a situação. Reforçam juntas o quanto são maiores que qualquer atitude de preconceito que venha de fora. Em 2016, Nay estava aproveitando a vida de solteira e o verão, até que começaram as aulas na faculdade de Direito e uma colega numa conversa despretensiosa perguntou como estava a vida amorosa dela. Respondeu que estava bem, tranquila, na época vivia uma amizade colorida e era só. No mesmo dia, mais tarde, a amiga mandou uma mensagem no Facebook. Jamyle, naquela mesma época, estava vivendo a vida de solteira após um relacionamento à distância que não tinha dado certo. Sempre procurava pessoas pela internet porque não se sentia tão à vontade pessoalmente; Entrou num grupo lésbicas no Facebook e encontrou pessoas de Porto Alegre. Entre elas, umas meninas que estudavam na PUC-RS e a convidaram para ir até lá passar o dia com elas. Quando chegou, uma delas - a amiga em comum com a Nay - disse que tinha uma colega do Direito que usava umas camisetas iguais às dela: “Toda geek” (sim, a Nay) e queria apresentar as duas. No mesmo dia teve a conversa com a Nay e mandou a mensagem no Facebook, passando o contato da Jamyle. Elas começaram a conversar, marcaram de se encontrar no dia seguinte na Casa de Cultura Mario Quintana, ponto bem conhecido da cidade. Lá conversaram muito, contaram várias coisas da vida e demoraram para se beijar. Até que num desafio, o beijo aconteceu. Contam que foi um momento único, se encaixaram e foi um dia muito significativo. Continuaram se encontrando, mas Nay estava bem receosa sobre ficarem juntas. Sua experiência com relacionamentos sempre durava no máximo 6 meses, nunca tinha se visto namorando de fato alguém, numa relação longa e duradoura. Então, aos poucos Jamyle foi conquistando, mostrando que isso era possível. Presenteou-a com um Batman que ela mesmo fez, de massinha, logo nas primeiras semanas de relação, e logo em seguida Nay apresentou ela para a família. Até que decidiram realmente começar o relacionamento, junto com outra troca de presentes, uma caixinha simbolizando a abertura do amor. A criação da Nayara foi bem diferente da Jamyle. Passou sua infância frequentando a igreja, até completar 18 anos, além disso, viajou bastante, por conta do pai ser militar. Conta que seus pais continuam praticando a fé hoje em dia, mas não possuem problemas quanto à sua sexualidade e o relacionamento com a Jamyle, já passaram por muitas barreiras quanto a isso. O mais difícil foi o que viveu quando era criança/adolescente, por ter estudado em colégio militar e ter sido complexo lidar com o entendimento de quem ela era lá dentro. Enfrentou o preconceito, se entendeu, falou sobre suas paixões e, por mais que se aceitava e lidava bem consigo mesma, os colegas agiam de má fé o tempo todo. Sua irmã foi sua grande aliada no enfrentamento disso tudo. Jamyle, por sua vez, sempre entendeu que gostava de meninas. Andava com os meninos e pelo pouco que se fala sobre a possibilidade do amor entre mulheres, chegou a cogitar em alguns momentos, quando ainda era muito nova, a possibilidade de querer ser um homem. Na adolescência, namorou meninos e tinha uma meta na cabeça: namorar um ano para ao menos poder provar que tentou. Aos 19, conheceu uma menina na internet e ficou com ela pela primeira vez. Depois, pensou sobre o que sentia/como sentia e entendeu que de fato gostava de mulheres. Naquela época, uma tia se divorciou e assumiu sua sexualidade, o que a fez refletir muito sobre o que era passar 40 anos da sua vida vivendo algo que não te representa, que não é você. Foi então que decidiu se abrir e contar para a mãe sobre seu desejo e suas vontades. Ela reagiu bem, com um tom de quem sempre soube, porém toda menina que apresentava a mãe não gostava muito, achava algum defeito… mas foram fases. Até que chegou a fase que ela falava pra todo mundo que a filha era gay, achava o máximo. E agora realmente gosta do relacionamento com a Nay. Depois de passarem uns meses distantes e reclusas pelo início da pandemia de Covid-19, em 2020, começaram a falar sobre morarem juntas. Estavam bem estressadas e foi difícil lidar com a distância. Nay estava empregada e estável, Jamyle também, então a renda conseguiria bancar as contas. Começaram a procurar apartamentos e encontraram o que seguem morando até o momento da documentação. Fizeram uma confraternização apenas com a família para inaugurar a casa e ganhar alguns móveis e eletrodomésticos e ressaltam como foi muito bom contar com a rede de apoio, ainda mais naquele momento da pandemia. Como nem imaginavam viver os perrengues depois (Nay ficar sem emprego, por exemplo), foi essencial essa rede no início, sem a existência disso elas não teriam o básico na mudança da casa e foi o que fez com que vivessem com maior conforto. No começo do relacionamento, Jamyle não se dava muito bem com a primeira gatinha da Nay, mas hoje em dia elas se amam. Com o tempo, vieram os outros gatos. Alguns da Nay, outros da Jamyle e outros frutos de adoções da pandemia. Todos resgatados, hoje em dia são 5. Dentro de casa, amam ficar com eles, brincar e cuidar. Além disso, gostam de passar a tarde planejando coisas juntas, sejam os jogos, viagens… por mais que não necessariamente vão fazer, se permitem sonhar. ↓ rolar para baixo ↓ Jamyle Nayara

  • Dani e Maria Gabi

    A Maria Gabriela e a Danieli são de lugares bem diferentes, mas se encontraram em São José dos Pinhais, município vizinho de Curitiba, no Paraná. Gabi nasceu no Paraguai, morou em vários lugares e agora está com a família em ‘São José’. Já a Dani, nasceu no interior do Paraná, numa cidade pequena chamada São Jorge do Patrocínio e decidiu se mudar para Curitiba para tentar uma nova vida na capital. Hoje em dia moram juntas - e juntas também de algumas familiares da Gabi + duas gatas que adotaram nesse período. Elas contam sobre o quanto são diferentes e que, com as diferenças, aprendem muito sobre um relacionamento cheio de companheirismo. Dani é mais apegada, Gabi é mais solta. Dani sempre vê os dois lados em tudo, Gabi é mais direta sobre as decisões - mas aprende muito com a Dani sobre observar as coisas ao redor. Dani é introspectiva, gosta do carinho e das coisas mais tranquilas, enquanto Gabi é super sociável, gosta de ser comunicativa e de conhecer novas pessoas. Diante todos os extremos, entendem que o encaixe acontece no quanto aprendem uma com a outra diariamente. Não enxergam seu relacionamento enquanto a maioria dos namoros que formam um padrão: elas têm seus jeitos diferentes, mas enquanto parceira contam uma com a outra sempre. Acham ótimo, inclusive, fugir do padrão. O amor é feito com espaço, vivendo as diferenças e tendo respeito. A Gabi, no momento da documentação, estava com 24 anos e trabalhava em uma loja de departamentos no shopping. Comenta sobre o quanto o shopping exige uma rotina de trabalho exaustiva, mesmo que goste de trabalhar com o público, se sente bastante cansada. Dani, no momento da documentação, estava com 23 anos. Depois de se mudar para Curitiba ela já trabalhou em mercados e hoje em dia, em São José dos Pinhais, é assistente de atendimento. Morarem juntas facilita a rotina em relação à escala de trabalho apertada, mas nem sempre foi assim. Dentre os três anos que estão juntas, moram na mesma casa recentemente e contam que foi uma luta decidir pela mudança. A tia da Gabi foi quem teve a ideia inicialmente de oferecer a casa que faz parte do terreno delas, assim, os gastos com aluguéis diminuiriam, a economia melhoraria e a Dani faria parte do lar. Quando se conheceram (através de um aplicativo de relacionamentos famoso por aqui: o Tinder), ambas haviam acabado de chegar na cidade. Dani passou por um relacionamento abusivo antes da Gabi, estava bastante machucada e resolveu entrar no app para conversar com novas pessoas - enquanto a Gabi estava lá para curtir e não tinha intenção de realmente se apaixonar por alguém. Conversaram, marcaram um encontro na casa da Dani (que ainda era uma pensionato cheio de regras) e nunca mais se separaram. Depois disso, a Dani se mudou para São José dos Pinhais. Morou em vários lugares e o relacionamento delas foi caminhando, até que decidiram assumir o namoro. Enxergam o quanto o relacionamento não contribuiu só para uma melhora construtiva delas, mas também dos familiares ao redor. A Gabi diz que ter elas em casa faz com que diariamente a família enxergue questões de raça, gênero e classe totalmente diferente do que era antes, principalmente pelos debates que elas proporcionam. Enquanto a Dani, já levou a Gabi até o interior e ao assumir para a família o relacionamento, considerando que vivem em realidades completamente diferentes da dela, fica muito feliz em ver o pai e a avó adorando e respeitando a Gabi do jeito que ela é. Juntas, elas adotaram duas gatas (uma delas, super arisca, que passou por um processo de resgate) e é com o carinho que trocam com as bichinhas que entendem o que é de fato o amor: Acreditam que existem várias formas de demonstrar afetos, por mais que vivemos numa sociedade que preza pelo tradicional onde o afeto tem de ser bonitinho, carinhoso, queridinho, etc. Elas vão por outros lados, demonstram de outras formas. Como as gatas, que amam de um jeito singular - a Teodora, muito arisca, não é tão carente e apegada, mas demonstra o amor e a confiança que possui nelas nos detalhes cotidianos, trocas únicas. Elas se identificam nesse amor. Além disso, sentem que o autoconhecimento que adquirem todos os dias é algo precioso. Dani conta que não tinha tanto acesso às informações no interior, então valoriza cada passo da reeducação sobre questões sociais que recebe diariamente. No dia a dia, a Dani desenha bastante (entre paredes, papéis e outras superfícies), enquanto a Gabi adora sair para comer, viajar, assistir filmes e séries e apoiar a sua família no que precisar. Conta que tem uma prima autista (que mora junto com elas) e que a casa vira um exemplo para que não exista nada mais valioso na vida quanto os sentimentos - e o amor. “Não existe valor material que supere”, nas palavras dela. Diariamente acompanham dando suporte e entendem que não desistir e estar em movimento acreditando no que sentem é o que dá sentido a tudo. Além disso, passam muito tempo conversando dentro de casa. Brincam que em outra vida a Dani deve ter sido filha da tia da Gabi, de tanto que passam horas conversando e se dão bem. Por fim, a Gabi comenta que o amor pode ser uma certeza muito incerta, mas que é bom aproveitar ele em seu cotidiano. ↓ rolar para baixo ↓ Gabi Dani

  • Luana e Maiara

    A Luana e a Maiara são duas mulheres que não se conheceram por tantas lutas e tantos gostos em comum, mas foram descobrindo isso aos poucos entre papos e conversas. Quando elas se conheceram, na verdade, nem imaginavam o quanto poderiam se encaixar: foi num match de Tinder, quando a Maiara passava pelo aeroporto de Porto Alegre, que a Luana apareceu e ela achou a bio dela engraçada, resolveu dar ‘like’. Conversaram e logo ela saiu da capital, foi até a sua cidade, Pelotas, que fica no interior do Rio Grande do Sul. Continuaram conversando por um tempo, mais ou menos um mês, até que a notícia veio: a Maiara tinha voltado com a ex. Luana ficou um pouco triste e até meio irritada, ela confessa. “Poxa, um mês ali, né? Dá esperanças na gente”. Agora ri. Mas não queria que a Maiara saísse da sua vida, então encarou a amizade, afinal, se encaixaram tão bem… O ano era 2019 e a Maiara viajava bastante por conta de alguns trabalhos. Ela era bolsista e falava sobre saúde da população negra, enquanto a Luana também estava trabalhando num projeto do Estado de Implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, então a Maiara viajava o brasil e a Luana o Estado junto com esses projetos… o que não deixava de ser, também, uma forma de aproximar as duas. Elas conversavam, trocavam figurinhas, assuntos em comum, interesses pela mesma área, pesquisas, livros e referências. Foi durante uma viagem que elas conversaram por mensagem e mandaram áudios cantando no karaokê músicas bêbadas, se divertiram, passaram do ponto, choraram… E depois, quando a Luana estava de volta em Porto Alegre, a Maiara fez uma ligação por telefone. Ficaram pensando: O que se fala no celular quando se liga para alguém depois de mandar vários áudios cantando no karaokê?! No fundo, toda essa sensação estranha não era pelo karaokê, mas por não estarem sabendo lidar com o que sentiam uma pela outra enquanto a Maiara ainda estava em um relacionamento… Foi quando conversaram e a Luana disse que era melhor fazerem alguma coisa para mudar isso. A Maiara tomou iniciativa, terminou o relacionamento e elas combinaram de se ver, em Porto Alegre. Deu certo o encontro e todo final de semana, praticamente, eles repetiam. Maiara ia até Porto Alegre, elas se encontravam e passavam um tempo juntas, foi virando algo à distância, porque se viam de tempos em tempos, até que chegou a pandemia e ela se mudou de vez. Claro, existiram muitas conversas sobre os espaços e as individualidades, tanto que preferiram manter duas casas, ao invés de realmente morarem juntas, mas irem para a mesma cidade seria a melhor opção para que a vida se adaptasse (e os trabalhos também) durante o período pandêmico. A Luana tem 29 anos e é terapeuta ocupacional. Maiara tem 32 anos, é formada em Educação física e está se graduando em Psicologia. Elas adoram andar de bicicleta, cozinhar, praticar esportes, tomar chimarrão e ficar em casa deitadinhas conversando sobre várias coisas. Para a Maiara, amar é sempre um ato político. E isso inclui o amor que ela sente pela Luana. Demonstrar o afeto e o amor delas, como elas estavam fazendo enquanto conversávamos, é um ato político. É romper todas as amarras que um dia já foram colocadas. A Luana explica que os lugares que elas ocupam por serem mulheres negras é estar sempre reafirmando quem elas são, principalmente quando (e por) escolheram estar juntas. “São duas mulheres negras se amando. Isto é algo impensável para muita gente.” Além de que, também é algo que não nos é ensinado. Ao homem, se ensina “amar”... no caso, a ter uma esposa. À mulher, não se ensina nada sobre. Nos tornarmos companheira é um ato da nossa natureza. E, duas mulheres negras se amarem, é revolução diária. Quando pensamos na cidade e pensamos em Porto Alegre (ou em Pelotas também, já que é a cidade que a Maiara viveu), elas comentam que gostariam de ver maior pensamento social, para que não matem mais pessoas negras e LGBTs por ser quem são. Para Maiara, pensamento social é também sobre dar voz. Não faz sentido dar voz se não há transformação social como um todo. Precisamos inserir as pessoas nos lugares, fazer a forma coletiva existir de verdade. E que uma história vá servindo de base e sustentação para puxar a outra, para que tenhamos caminhos mais tranquilos daqui para frente. Luana Maiara

  • Kétule e Beatriz | Documentadas

    Kétule, no momento da documentação, estava com 23 anos. Ela é natural de Turvo, uma cidade interiorana catarinense, e atualmente mora em Criciúma enquanto estuda medicina. Conta que já trabalhou em vários lugares, de atendente de loja à garçonete, mas hoje está se dedicando à sua loja de bordados e vive em um apartamento com sua gata Luna, visitando a família aos finais de semana na sua cidade natal. Beatriz estava com 22 anos no momento da documentação. É natural de Criciúma e trabalha enquanto fisioterapeuta. Sempre quis um trabalho na área da saúde e é apaixonada por isso, mas também já foi atleta de natação. Para além, no tempo livre, gosta de ser uma pessoa tranquila, caseira, adora sair para comer, ver o mar e fazer trilhas. Entendem que são pessoas com vários pontos em comum, mas ao mesmo tempo vivências e jeitos muito diferentes, temperamentos que refletem suas criações. Kétule tem uma relação muito aberta com sua família, principalmente porque já saiu de casa. Antes de assumir o relacionamento, pensou que se isso não fosse algo aceito para eles, iria acabar se afastando mais por já não morarem próximos, então tinha um grande receio, mas ainda maior uma vontade de falar sobre esse amor vivido e resolveu contar. Para Bia, Kétule adentrou como uma amiga, para depois ser namorada, então ficou um pouco mais difícil lidar. Sempre existiu a dúvida: “Será que a gente vai assumir? Será que um dia vai poder realmente falar: somos namoradas?” Faz pouco tempo que elas estão fazendo essa movimentação de se assumirem dentro de casa enquanto um casal, que começaram a ter uma relação com mais afeto na frente dos familiares. Acreditam que tudo faz parte de um crescimento. Foi através da internet que tiveram a primeira interação, tinham amigas em comum no Twitter e apareceu um tweet da Beatriz falando sobre a área da saúde, um estágio que iria abrir na UTI. Ela se interessou (pelo tweet e pela Bia) e começou a seguir ela, depois procurou o Instagram, ela seguiu de volta e começaram a conversar. Era dia 1 de abril de 2023, dia da UTI. Desde o primeiro papo as coisas fluíram, viram que estudavam na mesma faculdade e marcaram um café. O café aconteceu, se deram bem e marcaram um novo encontro, na casa da Kétule - um apartamento muito pequeno, onde criaram vários apelidos sobre ser um cantinho escuro depois de um longo corredor (caverna, corredor da morte, e por aí vai). Lá, beberam um vinho que só bebem em ocasiões especiais, comeram comidas gostosas e foi a primeira vez que se beijaram. Depois disso, se viam com frequência até que viveram os jogos da faculdade de medicina, um evento onde vem delegações de outros estados para competir em Criciúma. Kétule tocava na banda dos jogos e elas conversaram sobre esse evento, Beatriz disse que já estava perto do final do curso, que viveu tudo o que tinha para viver, mas que Kétule merecia se permitir experimentar o que a faculdade tem para oferecer, porque poderia se arrepender de entrar em uma relação. Ela fez a escolha, viveu os jogos (ainda assim sem deixar a Beatriz de lado) e depois que os jogos passaram decidiram entender aquela nova relação enquanto um namoro. Todos os amigos já adoravam elas juntas e elas sabiam que queriam namorar, mas precisavam daquele tempo para decidir e processar isso. Foi então que, ao comemorar o aniversário de uma amiga viajando para Garopaba/SC, depois de 3 meses juntas, elas selaram o pedido de namoro. Tanto Beatriz quanto Kétule namoravam homens antes de se relacionarem e já tinham apresentado esses namorados à família. Quando começaram a relação, pensaram muito sobre como iriam contar e abrir essa conversa sobre a bissexualidade. Aos poucos, Kétule contou para a mãe dela, e sentiu que toda a família foi compreensível, precisavam de tempo para entender mas nada na relação entre eles iria mudar. Para Beatriz foi mais complexo, o pai soube aos poucos e aceitou, mas a mãe tinha muitos preconceitos relacionados à elas. Foi só quando a relação estava quase completando um ano que elas conversaram sobre, quando a mãe perguntou se era um relacionamento e ela afirmou que sim. Mesmo tendo esse tempo, as coisas ainda não são fáceis, e só dia após dia elas se permitem tratar com algum afeto perto da família e permitir que a situação seja digerida. Todos os finais de semana dedicam um tempo para estar com os familiares, seja na casa da Beatriz ou na casa dos pais da Kétule, e acreditam que mostrando estar por perto esses preconceitos serão quebrados. Hoje em dia a rotina durante de semana entre estudos e trabalho é bem intensa, então o final de semana é o momento de aproveitar a relação, seja cozinhando, visitando a família, recebendo amigos e planejando o que ainda desejam viver juntas. Entendem que são pessoas bem diferentes: Kétule é mais agitada, a cabeça não para, comunicativa… Enquanto Beatriz é calma, sempre pensa muito antes de agir e não vê maldade nas pessoas. Kétule explica que na relação ela aprende o tempo todo a desacelerar, enquanto Beatriz também aprende a se abrir mais, se permitir viver mais coisas. Adoram planejar a vida juntas: desejam investir na carreira, casar, ter filhos. Criar uma família investindo em quem são e respeitando suas dificuldades, mas não fazendo com que isso se torne uma barreira. Adoram a perspectiva de vida que criaram juntas, explicaram durante a documentação que o pedido de casamento foi dividido em 4x, já que para poder casar vai levar uns 5 anos e porque numa vida heterossexual o homem pede em casamento e tudo se encaminha, para elas o melhor é fazer do jeito delas. A primeira parte do 1/4 do pedido já foi feita, Kétule presenteou Beatriz comprando uma aliança, em São Paulo. Riem dizendo que já estão 25% noivas. Kétule sempre foi uma pessoa clichê no amor, que gosta de surpresas, de ser romântica, das demonstrações… Beatriz já não é assim, acredita no amor nas ações pequenas, nos atos diários, então tiveram que adequar para entender suas linguagens. Hoje o amor delas é uma junção das duas coisas - das formas que entendem o amar. Se enxergam enquanto muito amigas, companheiras acima de tudo. Brincam que Kétule futuramente vai ganhar mais que a Bia, por ser médica, mas hoje é ela quem está mais estruturada, então o que elas plantam agora vai ser colhido no futuro. Entendem que o relacionamento foi uma grande adaptação e que seguem se adaptando, se descobrindo… e vão se descobrir o tempo todo, é constante. ↓ rolar para baixo ↓ Kétule Beatriz

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