Espaço de Pesquisas
Oi! Este é um espaço do qual você pode pesquisar e encontrar histórias de mulheres que participaram do nosso projeto por todo o Brasil! Legal, né?
Pra usar, basta digitar no espaço de pesquisa alguma palavra-chave, por exemplo: alguma profissão, alguma cidade, algum tema...
É o nosso verdadeiro banco de dados - o primeiro, da história das mulheres que se relacionam afetivamente
com mulheres - e precisa ser valorizado! ♥
294 resultados encontrados com uma busca vazia
- Beatriz e Marina
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marina e Beatriz, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Quando estávamos fazendo as fotos ela brincou com a Bia dizendo para fazermos algumas fotos dançando e a Bia argumentou que ela não dançava com ninguém “só contigo”, e na fala da Marina ela traz essa ocasião, sobre a Bia se permitir à dança. E nesse permitir-se damos gancho ao assunto de que estamos em busca de nos permitirmos porque queremos justamente nos entender, nos cavucar, nos desvendar. E chegamos ao questionamento de: por que, na sociedade em geral, tão pouco as pessoas se permitem? Então entendemos também que o amor, de alguma forma, dialoga com estar dispostas a despertar coisas na gente para mudar o outro também. Um não-querer ser quadrado o tempo todo, estar limitado ou não ser um ser-pensante. Brincamos com a palavra “gelecas” porque Marina diz se sentir uma geleca, sempre em mil movimentos e não-sólida, como algo que consegue se moldar - mudar. Por fim, ficou a sensação de não querer nunca que essa “geleca” cristalize, se conforme, se adeque. Estejam sempre se transformando para que transforme, também, os outros. Por fim, entramos em um papo muito importante sobre o amor e sobre como as relações acontecem - não só afetivamente, mas como nos permitimos estar uns com os outros. A Bia entende o amor enquanto reconhecimento e enquanto uma força muito grande, uma vontade de estar de verdade com alguém - no companheirismo, na vontade de fazer coisas juntas - e de reconhecer, mesmo se não entender. Ela acha que a base do amor é a confiança e o diálogo e que, para além disso, nas relações com mulheres, sejam amigas, as mulheres da família, ou relações amorosas, existe uma força em querer se fazer o bem sempre. Essa força envolve o zelo, a escuta e o querer-justiça. São relações que ela preza muito. Para a Marina, existem duas coisas que estão muito relacionadas com o amor: a permissão e a pressa. A pressa, na verdade, é a espera, o ritmo, o tempo. Temos que aprender a esperar as coisas, a entender o ritmo do outro, a se adaptar ao ritmo do outro também… porque quando temos pressa, acabamos por cortar um pouco a graça das coisas, atropelar e deixar sem sentido. Já a permissão entra enquanto uma importância em se entregar, em tirar tabus, tanto sexual quanto emocionalmente: ter a confiança e a leveza de se permitir. Em seguida do começo do namoro (e no dia seguinte que o foraBolsonaro foi eleito), elas alugaram um carro e fizeram uma viagem para a Bahia. Foi muito importante ter esse momento não só pela situação tensa que todas nós mulheres estávamos passando (e elas, tendo uma a outra, estando juntas, se acolhiam e se ajudavam), mas por ser uma forma diferente de dar início ao relacionamento. Ao decorrer de toda a relação tudo sempre foi construído com muito diálogo e conversa. Elas estão juntas em muitos momentos e contam uma com a outra para tudo. Inclusive, o apartamento surgiu em um momento muito especial de mudanças e de olharem para si e entenderem que seria um passo importante morarem juntas. Foram meses procurando um lugar que fizesse sentido, que elas pudessem arcar com os valores e quando acharam esse, foi um completo acolhimento. Tudo nele tem a carinha delas e cada detalhe é pensado em conjunto. As duas são mulheres muito divertidas e acreditam que isso possa estar ligado à forma que, tanto elas foram criadas, quanto ao meio que estão inseridas. Acreditam no corpo enquanto livre e sem julgamentos e para elas é muito importante que as pessoas estejam realmente à vontade. A Bia conta que sua construção enquanto ser e suas maiores inspirações vêm da irmã e também da amiga, Mariana, que é colega de trabalho e quem a colocou dentro da agência. É uma pessoa que traz bastante admiração pelo estilo de vida, pelas questões profissionais dentro da fotografia e por tudo o que já ensinou. Já a Marina contou que ter feito balé desde criança a fez ter muita disciplina e aprender muito sobre a forma de lidar com os outros e ter responsabilidades, por isso também as professoras que a acompanharam durante todo esse processo são de grande importância para que ela tenha se tornado a mulher que se tornou. Ela fala sobre o quanto o olhar das professoras moldou o olhar que ela tem sobre as coisas. Além disso, a avó dela também é fonte de inspiração diária, por ser uma mulher da roça, sempre muito alegre, e sendo uma mulher não-branca, muito forte, que carrega muitas coisas na sua existência. No começo do relacionamento delas, ou melhor, antes de ser realmente um relacionamento sério, quando perceberam que estavam bastante envolvidas, surgiu uma certa insegurança. E aí dialogaram sobre o que fazer: encaravam? desistiam e seguiam suas vidas? Foi quando entenderam que estavam dispostas a encarar e começar algo em conjunto. Um tempo depois de ter terminado um relacionamento, a Bia se reconectou com uma amiga da escola e essa amiga estava namorando uma menina que era de Vitória e trabalhava na mesma empresa que a Marina, então a amiga e a namorada tiveram a ideia de apresentar as duas e uni-las enquanto um casal. A versão da história contada pela Bia é bastante simples: a amiga dela mandou uma mensagem falando da Marina e passando o Instagram dela para a Bia seguir e conhecer. Ela achou a Marina bonita, curtiu, mas não começou a seguir na hora. Um tempo depois a Marina começou a seguir ela e ela seguiu de volta. Foi isso. A versão da Marina, por mais que seja com o fim semelhante, começou de outra forma. Ela estava em uma fase que se permitiu se envolver e conhecer novas pessoas, mas estava indecisa ainda e uma amiga aleatória, naquela semana, chegou dizendo que tinha alguém para lhe apresentar. Quando mostrou o Instagram de uma menina, ela olhou e achou ok, mas não teve muito interesse, porém a menina tinha uma foto com outras pessoas marcadas e nessa foto estava a Bia, foi aí que ela entrou no Instagram da Bia, se interessou e passou a segui-la. No dia seguinte, ao encontrar a amiga em comum que ela e Bia tem, essa amiga disse que queria apresentar uma pessoa para ela e ela ainda brincou “nossa, o que tá acontecendo essa semana, que todo mundo quer me apresentar alguém?!” e quando viu o Instagram ficou em choque, porque era logo a menina que ela tinha seguido. Pensou: ok, eu realmente preciso conhecer essa menina, de alguma forma ou de outra, a gente vai ter que se encontrar! E foi então que Bia começou a segui-la de volta. Numa interação de stories sobre gatos, elas marcaram de sair. E o que era para ser um encontro em um restaurante todo bonito, bacana e conceituado, deu errado, mas deu certo: o restaurante estava fechado e o único lugar próximo era um boteco super “pé sujo”. Elas se deram tão bem que ficaram no bar até 4h da manhã, foram para a casa da Marina, a Bia saiu de lá no dia seguinte e, para fechar com chave de ouro o date de sucesso, saiu com as roupas da Marina porque o gato tinha feito xixi em todas as roupas dela. A Bia e a Marina são duas mulheres incríveis em cada detalhe do que constróem dentro do relacionamento e dentro do lar, desde o cuidado que têm com a casa, com o preparo da comida, com a forma que se tratam, até em suas visões de mundo, de poder de escuta ativa e da forma que lidam com as pessoas e com os animais. O encontro delas aconteceu por intermédio das amigas, mas ao decorrer da explicação a gente entende que era mesmo para ter acontecido. A Bia tem 24 anos, é carioca, fotógrafa e trabalha enquanto assistente em uma agência que presta trabalhos visuais para marcas de moda. Adora videogame, sonecas durante o dia, ler e acompanhar a Marina nas aventuras na cozinha. Marina tem 29 anos, é natural de Vitória, no Espírito Santo, mas mora no Rio de Janeiro desde 2014, quando cursou a pós-graduação. Ela trabalha enquanto publicitária e produtora, ama cozinhar, principalmente inventar receitas, quase como uma alquimia, testando comidas e temperos. O que ela e a Bia mais amam fazer juntas é assistir reality shows: de todos os tipos possíveis. Bia Marina
- Mariana e Barbara | Documentadas
Amor de Interior - Mariana e Barbara clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Marilia e Luana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marilia e Luana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Marília e Luana se encontram através das coisas que acreditam. Dentre tudo o que conversamos, o principal, talvez seja a forma que enxergam as pessoas. Poderia ser o trabalho - porque trabalham com o corpo - poderia ser o hobbie no skate ou até mesmo a família que construíram unindo suas famílias, mas no fim, toda a nossa conversa se resumiu em incentivar, de alguma forma, quem está ao nosso redor. Marília tem 34 anos, é do Rio de Janeiro e se formou em Educação Física. Atua enquanto professora de lutas e jiu-jitsu, dando aulas em escolas, academias e também em programas sociais. Ela circula por diversas áreas da cidade, da zona sul à zona norte, e gosta de debater sobre as diversas realidades. Durante a nossa conversa, disse que “O problema não é ser playboy, o problema é ser playboy otário. Não ter noção do que acontece fora da bolha da zona sul, não circular em outros lugares, não sair da realidade. É ótimo estar no conforto, mas é preciso estar sempre ajudando quando se têm pra ajudar” e é por isso que na posição dela de professora, faz de tudo para levar os alunos até outras escolas menos favorecidas e circular entre espaços, para que todos conheçam novas realidades. Marília é uma mulher que vive de luta e da luta, conheceu a luta através da escola pública e por conta disso faz questão de sempre voltar aos espaços sociais dando aulas gratuitas para mulheres e LGBTs de defesa pessoal, por exemplo, para incentivar mais pessoas. Luana tem 30 anos e é natural de Nova Iguaçu, baixada fluminense. Formou-se em turismo e também em dança e hoje dá aula para três segmentos - crianças (com ballet, por exemplo), mulheres (aula de ritmos, fit e powerdance) e coreografias para eventos (casamentos, bodas etc), atuando em Nova Iguaçu. Antes ela via a dança como um hobbie, porque junto da música a dança sempre esteve na sua vida; Mas entendeu que era diferente, a música está lá pela família dela ser composta de musicistas, ela adora cantar, mas nunca se viu na música enquanto cantora ou tocando instrumentos… já a dança, fazia parte do que ela era diariamente. Quando ela entendeu que isso não era um hobbie, a vida melhorou muito. Ambas são completamente apaixonadas pelo o que fazem e isso fica cada vez mais claro quando contam casos que aconteceram com alunas que tiveram por perto ou coisas que vivenciaram. A Marília, por exemplo, cita uma aula de defesa pessoal que deu para idosas no SESC de Madureira. Já a Luana, logo em seguida, engata no assunto sobre a forma que a mulher se enxerga diferente depois, “né?”, e que a dança também tem esse poder, não é só por uma questão de estética por exemplo, é uma autoestima para além do físico, que agrega à vida. Marília também contou sobre uma aluna específica, a primeira aluna que teve, uma mulher que ela formou desde o princípio e que acompanhou até virar faixa preta. Viu ela sair de um relacionamento abusivo, viu ela passar por vários momentos com seus filhos, foi muita história de vida acontecendo ali… e que incrível foi acompanhar tudo. Contou como é bom quando mulheres se impulsionam. Que a Luana teve um papel assim na vida dela também, quando recentemente ajudou a irmã dela a enfrentar desafios com o próprio corpo e que agora elas percebem a irmã se amando mais, estando mais disposta e que ela também se vê admirando ainda mais a Luana. Mesmo que elas se entendam enquanto pessoas bastante diferentes, se dão muitas chances de encontros pelo o que possuem em comum, principalmente no momento de propor coisas boas às outras pessoas. Nesses momentos, já se organizaram em abrigos do qual uma deu aula de dança e a outra deu aula de luta, a Marília já incentivou a Luana a trabalhar com crianças (ela topou e se apaixonou!)... e assim, elas ficam cada vez mais felizes em ver o quanto o relacionamento traz coisas tão boas às relações em volta delas. Luana não conhecia muitas mulheres no meio lésbico e foi seguindo um bloco de carnaval no Instagram, o Rebu, que ela viu a foto da Marília (cujo era musa do bloco) e, encantada pelo sorriso, procurou o perfil e resolveu segui-la. Marília seguiu de volta e elas começaram a interagir nos stories quando a pandemia começou. Foi num dia que Luana estava triste, por conta de um ocorrido por homofobia que sofrera em casa com o pai, que sentiu que precisava conversar com uma pessoa diferente dos amigos de sempre. Viu a Marília nas redes e cismou com ela, disse que ela passava certa confiança e então puxou um assunto. Foi pelo Instagram mesmo que elas conversaram e lá a Luana desabafou sobre o que estava sentindo naquele dia. A Marília conta que acolheu, mas que ao mesmo tempo pensava que era doido analisar/discutir sobre a homofobia familiar, porque no caso dela, é longe da realidade. Toda a família dela/das amigas lésbicas e bissexuais ao redor aceita e abraça o que elas são. Mas mesmo assim ela ficou ali do lado, conversou e no dia seguinte a Luana acordou se sentindo melhor. A Marília pensou: "Puts, cai na friendzone! Não vai mais rolar nada entre a gente!”, mas a Luana não cogitou isso. Elas começaram a conversar todos os dias. Naquela época, tudo ainda estava acontecendo pelas “lives” e chamadas de vídeo, mas a Marília não tinha se adaptado à isso e num dia específico tudo tinha dado errado: as aulas, as chamadas do Zoom, tudo tinha saído do ar e o que ela já não se adaptava estava pior. Foi quando ela falou pra Luana diretamente algo como: ‘estou afim de você, mesmo estando à distância, ok?’ e a Luana respondeu ‘ok, também tô’ e então ela pensou consigo mesmo ‘ufa!’. Uns meses depois, quando foi possível, elas conseguiram se encontrar pessoalmente. ♥ Depois do encontro, foram deixando tudo rolar e fazendo as realidades se encaixarem também, já que uma era mais caseira, outra era mais de eventos e de estar sempre na rua. O principal objetivo era não invadir privacidades ou atropelar coisas, mas sim deixar o tempo fluir tranquilamente. Isso não quer dizer que seja pleno o tempo todo, é claro, mas que elas escolheram fazer o encontro acontecer. A família da Luana é enorme e super acolheu a Marília como namorada. Até mesmo o avô, de 93 anos. Toda a família foi muito receptiva e a Marília conta como ter uma nova família, grandona, é muito legal pra ela. A questão do pai ser a única pessoa que elas não possuem contato é muito ressignificada, elas se acolhem por isso, não julgam, entendem que é uma escolha que ele (enquanto uma pessoa adulta) fez e tentam ao máximo levar outras coisas em consideração. Aproveitam o que há ao redor e todos os outros familiares. Marília reitera que fomos criadas num ambiente heteronormativo, achando que o homem manda e a mulher obedece, então é normal titubearmos de vez em quando porque estamos o tempo todo nos reeducando. Estamos em busca de nos libertarmos disso, de sermos donas dos nossos destinos. A relação delas se baseia numa questão de confiança uma da outra, e de ir aprendendo como isso funciona diariamente, também. Entre os momentos favoritos que elas possuem juntas, andar de long está entre os primeiros. Foi a Marília quem ensinou a Luana a andar e, no aniversário dela, a presenteou com um long. Nos momentos que estão andando juntas, Marília diz que amar é ver o outro feliz também e Luana completa que é uma construção, que exige respeito e paciência, para estar sempre se cuidando. Quando Marília conta sobre situações em que sentiu o amor, ela lembra de um momento que envolveu a irmã dela. Nesse dia ela sentiu tudo o que o amor propõe: temeu, mas cuidou. Elas estavam fazendo uma trilha (as três) e numa parte da trilha havia uma pedra que precisavam ultrapassar. Tanto a Marília quanto a Luana já haviam ultrapassado e faltava a irmã, mas ela estava com bastante medo e realmente era perigoso, não era fácil, num momento ela chorou, a Marília ficou com medo, mas a encorajou. A Luana pediu cuidado e muita calma, mas não parava de incentivar. Era um desafio para todas elas ali e nenhuma delas largou, desistiu ou achou que não fosse possível, por mais que o medo existisse… e quando ela passou, ela gritou, comemorou! Foi tanta felicidade! Ela fez aquilo ali. Realizou. Elas comemoraram juntas, torceram juntas. Aquele caminho ali, para elas, o processo, é um significado de amor entre as três. Marília fala que existem erros nos relacionamentos entre mulheres, até porque não há pessoas perfeitas, mas é muito bom saber que não estão num relacionamento que funciona como prisão. Numa existência de um relacionamento feminista, que entende o corpo enquanto um corpo com vontades, com postura, com verdades e pensamentos - um corpo que pensa e se comunica - isso sempre volta a ser o mais importante entre elas: querer fazer dar certo. Luana Marília
- Maira e Kelly | Documentadas
Amor de Lar - Maira e Kelly clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Mavi e Fernanda | Documentadas
Amor de Carro - Maria Vitória e Fernanda clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Kelly e Amanda | Documentadas
Amor de Tempos - Kelly e Amanda clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Louise e Thayane
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Louise e da Thayane, quando o projeto passou por São Paulo! Louise e Thayane constroem sua vida numa base de amor e afeto familiar muito grande - tanto que soa meio impossível falar delas sem falar em família. O tempo todo enquanto nos conhecíamos, visitando o lar em que moram no centro de São Paulo, a sensação mais presente era de que ali existe uma família. Elas são naturais do Rio de Janeiro, mas se mudaram há pouco tempo para São Paulo por conta do trabalho da Louise. A casa, aos poucos, vem tomando forma, mas o mais importante é o samba, que toca o dia todo, embalando as atividades cotidianas. A música, na vida de ambas, vem desde crianças: suas famílias são muito ligadas ao samba, nos encontros cantam, fazem bagunça, gostam do movimento. Para o futuro, planejam filhos, uma família cada vez mais unida, grande e que valoriza suas raízes. Acreditam que enxergar o futuro enquanto uma construção é também um ato de amor. Tanto a Thay, quanto a Louise, no momento da documentação, estavam com 30 anos. A mudança para São Paulo foi bem rápida, durante o processo seletivo que a Louise participou elas conversaram e decidiram que só daria certo se fossem juntas, não cogitaram viver num relacionamento à distância. Hoje em dia, o trabalho da Louise envolve coordenação de vendas, enquanto a Thay é geóloga, apaixonada por defesa civil e está estudando para o concurso público dos Bombeiros. Diariamente ela corre, nada, cuida do corpo para a prova física e estuda para a prova teórica. Ambas têm a paixão do samba e do futebol em comum, mas com isso vem o motivo das brigas na relação: uma é Flamengo, a outra, Vasco. Querendo ou não, o amor que elas possuem pelo Rio é enorme, são pessoas que iam muito à praia, amam o sol, os bares… então está sendo uma nova vivência descobrir São Paulo. Por outro lado, sentem o quanto são companheiras juntas, o quanto mesmo com as dificuldades e a saudade da família elas se apoiam e se fortalecem estando nesse novo local. Tentam explorar a cidade descobrindo novos restaurantes, botecos, eventos com samba e culinárias diferentes. Quando elas se conheceram, a Thay estava em um relacionamento que ia muito mal, chamou uma amiga para conversar porque precisava desabafar e a amiga perguntou se podia levar outra amiga. Na hora, ela pensou que não era o ideal, né? Afinal, teria uma desconhecida ouvindo suas lamúrias, mas tudo bem, aceitou. Quando chegou lá, a menina convidou uma pessoa que ela estava ficando para as encontrar e a Thay pensou “Pronto, mais uma desconhecida pra me ouvir desabafar…” e então chegou a Lou. A Lou estava um pouco irritada, tinha saído do trabalho num dia bem agitado, mas segundo a Thay ela estava com uma roupa maravilhosa e isso já a chamou atenção. Depois desse primeiro dia, a Thay terminou seu relacionamento e todas elas (a Thay, a amiga dela, a Lou e a pessoa com quem ela estava ficando) passaram a se encontrar com frequência. No início de 2019 surgiu um flerte entre a Thay, a Lou e a menina que ela se relacionava. Elas ficaram e o que era para ser um divertimento acabou se tornando um relacionamento entre as três: durou oito meses. Por fim, não deu mais certo, terminaram, mas a Thay e a Louise continuaram juntas - tiveram a ideia de recomeçar devagar, e quando perceberam já estavam 100% entregues e vivendo como casal. Um tempo depois, com o início da pandemia, o que tinham era uma a outra e um quintal para ver o céu. Isso foi um espaço de precisarem aprender a se comunicar de forma fluida, já que tudo dependia das duas. Uma foi contando cada vez mais com a outra. Elas acreditam que, por mais que tenha existido muita coisa ruim na pandemia, há o sentimento de que esse tempo serviu como um acelerador de futuros: se a coisa não foi pra frente, ela acabou ali - e o que foi pra acontecer, aconteceu de verdade. Foi um momento divisor de águas em que elas sentaram e repensaram o futuro: planejaram o que gostariam de ser, estando juntas, tendo filhos, uma carreira, etc. Hoje em dia, mesmo a Thay que não é de falar muito o que está sentindo, consegue colocar pra fora com a Lou. Elas sentem que, quanto mais se abre, mais geram apoio uma à outra. Lou conta do momento que ela contou para a mãe dela, já adulta, sobre se relacionar com uma mulher. O medo que existia, pois é muito próxima da mãe, mas entende que ela teve uma criação evangélica muito forte e poderia reagir de várias formas. No fim, ela ficou assustada, mas abraçou e tratou com afeto. Isso se tornou um exemplo do que a Lou espera ser para as pessoas, ela acha que isso é lidar com amor sobre as coisas, e também fala sobre o acolhimento que ela espera ter mesmo nos momentos mais delicados. ↓ rolar para baixo ↓ < Thayane Louise
- Mari e Fabi | Documentadas
No encontro de almas que resume a relação da Fabi e da Mari elas contam sobre como é a experiência de viverem um cotidiano completamente novo. Fabíola vivia um casamento antes de conhecer a Mari e, este, era nos moldes mais tradicionais possível. Ela se sentia vivendo numa bolha, dificilmente saía de casa e via a cidade acontecendo, não costumava conhecer pessoas novas… Mari, por mais que fosse uma mulher solteira e tivesse maior vivência, também não estava saindo há muito tempo, sua rotina era trabalho > casa. Agora, todo final de semana saem juntas, descobrem festas, festivais de música, conhecem pessoas, fazem amigos e/ou desfrutam da qualidade de saírem só as duas, sendo suas próprias companhias. Fazem coisas que nunca se imaginaram fazendo antes e comemoram: são muitas descobertas. Foi em Caraíva que o Mari pediu Fabi em casamento, num lugar que ela sempre sonhou em estar. Mari vivia trabalhando, ganhando dinheiro e guardando. Depois que conheceu a Fabi começaram a se movimentar e agora sente que trabalha para conseguir viver tudo o que desejam. Refletem que em “situações normais” nunca teriam se conhecido, justamente por estarem em suas bolhas e pouco saírem de casa. Além disso, sempre frequentaram lugares opostos. Hoje em dia, Fabi apresentou os pagodes pra Mari, que já adora frequentar as “tardezinhas”, enquanto Mari leva Fabi nas festas de pop-rock. E acreditam que o encontro é para além de compartilhar gostos, conseguem enxergar o quanto se ajudam no empoderamento dos corpos, da autoestima, de se olhar de forma diferente, de se valorizarem e de entenderem as importâncias que possuem uma na vida da outra. Se sentem amadas de verdade. Foi em um dia completamente aleatório, no começo de 2021, que Fabíola estava em casa e decidiu baixar um aplicativo de relacionamentos para conhecer uma mulher. Estava ela e o marido sentados no sofá, cada um em um canto, cada um olhando para a tela, em seus mundos e apareceu uma publicidade para ela. Era um aplicativo específico de mulheres para mulheres. Ela baixou. Nunca tinha se interessado por uma mulher, nem relacionado, nem pensado em beijar. Nada. Baixou nem que fosse para fazer amizade. Neste aplicativo conheceu uma menina, o papo desenrolou e saiu com ela. Teve até um primeiro beijo. Mas era uma mulher que estava numa situação semelhante, se via enquanto heterossexual, tinha filhos, família e não tinha como nada acontecer ali. Resolveu desinstalar o aplicativo. Achou outro aplicativo, também voltado para mulheres, e resolveu tentar. Fabíola reside em Campo Grande, bairro da zona oeste carioca conhecido por ser extenso, populoso e bastante distante da região central. Tentou não colocar um raio de distância muito grande e, mesmo não estando tão próximo, a Mari apareceu. Fabi sempre criou uma percepção de que sua presença naquele aplicativo era uma aventura. Não falava sobre isso no casamento, até porque não havia mais diálogo. Ela realmente buscava uma fuga e sentia que ali existia. Quando começou a conversar com a Mari, deixou explícito sua vontade de ter algo casual e extraconjugal e a Mari não aprovou muito a ideia, mas já estavam conversando e tinham marcado o primeiro encontro, seguiram em frente. Mari perguntou se a Fabi sabia de algum bar LGBT+ para elas se encontrarem e era óbvio que a resposta seria negativa, então foi atrás de algum lugar em Campo Grande. Conseguiu um bar, foi até lá e se encontraram. Antes de chegar, estavam ansiosas, com as mãos suando, tímidas. Conversaram e quando o primeiro beijo aconteceu foi um misto de “lascou!” com “meu deus, o que foi isso?”. Fabíola conta que o encontro foi numa sexta à noite… e diz: “Como você é casada, sai numa sexta à noite, num casamento em crise e volta de madrugada? O que você fala?”. A ideia não se sustentou. No segundo encontro marcado, ela chegou dizendo: “Vou me separar”. Decidiram enfrentar juntas a separação e tudo o que viria com isso. Parecia que se conheciam e que estavam se relacionando há muito mais tempo, pela naturalidade que lidavam e pela forma que se apoiavam, mas a verdade é que não foi nenhum pouco fácil. A Fabi foi criada na igreja católica, sempre gostou disso, sempre fez questão de fazer parte, tanto que conheceu o ex companheiro nessas circunstâncias, se casou na igreja e teve um relacionamento longo, nos moldes que ela acreditava, se dedicando e acreditando. Então se questionava muito sobre como acabar com algo que você depositou tanto e por tanto tempo se sentiu bem? Entende que essa foi a decisão mais difícil que já precisou tomar. Sempre sentiu muito carinho por tudo o que foi construído e pelo o que viveu. Mas parte do entendimento para que essa decisão fosse tomada era a própria compreensão de que não cabia mais naquele espaço. Precisava seguir novos rumos para ser feliz. Para a Mari, também era muito difícil porque existia o medo constante, a sensação de acordar todos os dias e pensar “e se ela desistir de tudo e voltar para o casamento?” - e essa pressão existia, era real, isso poderia ter acontecido. Tudo foi seguindo seu fluxo muito rápido. A família da Fabi estava passando por uma questão bastante delicada por conta da mãe dela estar vivenciando um problema de saúde difícil e ela tentou ao máximo evitar falar sobre o divórcio para não trazer mais problemas, mas não teve como, era nítido que ela não estava bem no casamento e precisavam conversar sobre. Para isso, teve o apoio incondicional da irmã, até a poeira baixar. É importante considerar que no começo da relação a Fabi ainda morava com o ex companheiro, então tudo se torna ainda mais delicado, tanto pela pressão que existia para que o casamento não terminasse, quanto por considerar que também não foi um momento fácil para ele. Fabi conta que a mãe dela percebia que o casamento não ia bem porque todo domingo ela passava o dia na casa da mãe, sempre arranjava uma maneira de sair de casa dizendo que “não tinha o que fazer”. Não era algo que empolgava os momentos com o companheiro e a mãe percebia aos poucos. O medo maior ao contar sobre o divórcio para a mãe era principalmente contar sobre a nova relação, porque sua mãe sofreu um abuso quando era mais nova e foi uma mulher quem abusou, então ela criou uma aversão aos relacionamentos por duas mulheres. Quando contou, a mãe teve uma reação muito diferente do esperado, a abraçou e disse que sempre ia amar, não iria deixar de aceitar e respeitar. Na prática, a convivência foi aos poucos, mas no último natal, por exemplo, a família da Mari e da Fabi se reuniram em uma única festa. A mãe da Mari, em compensação, achava que essa história era o maior golpe. Que a Fabi nunca iria se divorciar (afinal, muitas histórias são assim mesmo!). Mas depois viu que deu tudo certo e apoiou. Hoje em dia segue enquanto fã do casal. Mariana, no momento da documentação, estava com 37 anos. Ela é natural do Rio de Janeiro, moradora de Vargem Pequena, subúrbio carioca. Trabalha enquanto gerente de hotel em Copacabana e é formada em Línguas Estrangeiras Aplicadas à Relações Internacionais. Fabiola, no momento da documentação, estava com 32 anos. Também é natural do Rio de Janeiro, moradora de Campo Grande, zona oeste da cidade. Trabalha com administração e marketing digital direcionado para empresas. Neste ano, pretendem morar juntas, quem sabe em algum lugar mais acessível, perto do trabalho e da região boêmia que elas tanto amam. Além disso, já possuem a lista de próximos festivais musicais que pretendem ir, se divertir e se redescobrir - quando nos encontramos haviam acabado de voltar do Festival de Verão de Salvador e completam “a gente já voltou pensando qual será o próximo”. ↓ rolar para baixo ↓ Mariana Fabiola
- Janelle e Gyanny
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Janelle e Gyanny, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Foi no Rio de Janeiro que encontrei a Janelle e a Gyanny, depois de elas enviarem uma mensagem para o Documentadas falando sobre um projeto que possuem e nos convidando para ir até Belo Horizonte fotografar alguns casais por lá. O motivo do encontro no Rio, diferente do local de residência, é a paixão e o carinho que possuem por aqui: a Gy é carioca e a Janelle é encantada pela natureza misturada na cidade. Janelle, no momento da documentação, estava com 41 anos. Ela é natural de Belo Horizonte e trabalha na área da fisioterapia. Gyanny, no momento da documentação, estava com 39 anos. Ela é carioca, mas mora em Belo Horizonte há cerca de 4 anos - antes, inclusive, de se relacionarem - e por mais que tenha se formado em educação física, hoje em dia trabalha enquanto analista de mídias sociais. Juntas, elas fundaram um projeto chamado Jesus Hope. Foi pela necessidade que sentiam de ver LGBTQIA+ sendo representados no meio cristão que decidiram criar um perfil no Instagram para divulgar conteúdos de pessoas e igrejas que falassem sobre o tema. Entendem que muitas pessoas não sabem que existem igrejas inclusivas (são mais de 200 no Brasil!) e o papel do perfil, além de comunicar e ensinar, é evangelizar entre a comunidade de uma maneira inclusiva e acessível. Quando a Janelle e a Gyanny se conheceram, há oito anos atrás, não imaginavam que um dia iriam estar juntas. Na época, a Gy morava no Rio de Janeiro, ambas tinham outros relacionamentos e a única coisa em comum é que frequentavam a Igreja Contemporânea. Como a igreja tem bases muito fortes no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, ela promove diversos encontros e retiros. Foi numa viagem ao Rio através de um desses encontros que o encontro das duas aconteceu, mas não virou uma amizade logo de cara. O tempo passou, ambas terminaram seus relacionamentos, a Gy se mudou para Belo Horizonte e durante a pandemia elas começaram a conversar, de forma online. Foi no dia das namoradas que se encontraram pela primeira vez depois de passarem um tempo trocando mensagens. A Gy conta que nunca quis morar no Rio, sempre procurou outros lugares e que amou Belo Horizonte desde o primeiro momento, então um amigo a incentivou a ir, ela conseguiu um emprego e foi. Mesmo que ainda veja muitas pessoas com mentes fechadas e situações de machismo acontecendo na cidade, deseja participar da mudança ativa para as coisas melhorarem; Hoje em dia, morando com a Janelle, sente que lá é o seu verdadeiro lar. Atualmente, a rotina da Gy e da Janelle circula entre a família, os trabalhos e a igreja. Têm suas responsabilidades para além do Jesus Hope, organizam encontros e grupos de jovens, vão nos retiros e congressos. Intercalam seus dias com as orações, os encontros de fé e os encontros familiares. Começar a gravar vídeos para a página foi um salto, assim como usar alguns materiais de pastores. Entregam diversos conteúdos falando a Palavra e também trazendo debates sobre inclusão, chamando pastores de diversas igrejas para opinar, etc. Elas contam o quanto a “cura gay” atrapalha e machuca as pessoas. O quanto, também, são altos os casos de suicídio por pessoas que não se sentem parte do mundo e/ou sentem que estão cometendo algum pecado por amar alguém do mesmo sexo. Por isso, prezam pelo acolhimento mostrando isso através da fé, não da condenação. Gy conta que quando se assumiu para a família dela houve um ponto que a fez pensar muito: ela era da Igreja Batista, mas a mãe dela não frequentava igrejas. Mesmo assim, a mãe falou que não aceitaria, que era pecado, que Deus não aceitaria, e fez questão de falar com o pastor. Ou seja: a Igreja vai muito além de um local físico - suas crenças atingem quem está fora, que ouve e acaba reproduzindo de alguma forma. No entanto, a Jesus Hope vem justamente para transformar isso: mostrar que não é pecado. A Janelle e a Gy possuem uma relação muito calma e caseira. Acreditam que fazem o amor dar certo porque se doam para ele - através das preocupações, dos cuidados, estando junto e respeitando de verdade, acolhendo ambas família e aceitando como todos são. A Gy acredita que o amor vem de Deus e fala sobre amar o outro como a si mesmo, com empatia, pensando no outro até mesmo antes de pensar em você. “Amar é uma construção e também um suporte”. Por fim, também reflete sobre como até os sentimentos hoje estão muito descartáveis: estamos vivendo relações em que se acontece alguma coisa que a pessoa não goste/não queira, ela já se desfaz. Entendem que o amor não é isso, se queremos viver o amor, precisamos passar por cima de algumas coisas em algumas situações, ceder um pouco, relevar um pouco para tentar construir algo (e, claro, respeitando uma a outra sempre!) mas entendendo que é uma situação passageira que servirá para fortalecer e viver situações melhores futuramente. ↓ rolar para baixo ↓ Janelle Gyanny
- Mariana e Vivien
Porém, a Vivi tinha uma passagem comprada para passar o ano novo em Belo Horizonte, enquanto a Mari ia voltar com a família de vez para o Rio. O réveillon do ano de 2018 para 2019 estava acontecendo e ela não tinha mais previsão de volta para Porto Alegre. Além de que, a Vivi estando acampando em Belo Horizonte, estava incomunicável com a Mari. Elas tiveram um dia maravilhoso em Porto Alegre e depois cada uma foi para um estado diferente e não conseguiu se comunicar mais, só que não estava nem entendendo ou sabendo explicar o que estava sentindo. A Vivi conta que na volta de Belo Horizonte chegou a cogitar mudar a passagem para o Rio de Janeiro, só que não sabia se fazia sentido, se tudo estava sendo recíproco ou se estava delirando porque tinha passado dias estando incomunicável. Quando suas vidas voltaram ao “normal” elas seguiram se falando pela internet e no fim de janeiro decidiram comprar uma passagem para a Mari voltar à Porto Alegre. Ela ficou 5 dias. A Vivi odiava a ideia de namorar à distância e a Mari disse que não poderia cogitar a ideia de namorar também… mas quando se encontraram entenderam que não fazia sentido elas NÃO namorarem. A Vivi disse “Mari, eu acho que eu tô te amando”. Começaram a namorar. O namoro à distância durou quatro meses e a Vivi insistiu muito para que a Mari se mudasse. Então a Mari disse que só se mudaria se ela fosse buscar ela no Rio, por conta de conhecer a realidade dela no Rio, conhecer de fato a mãe dela, estar no Rio. Ela comprou a passagem e foi. Assim que chegou no Rio, começou a chorar. Se emocionou com o Rio, com tudo. No dia das namoradas, a Mari chegou com as malas em Porto Alegre para morar com a Vivi. Elas mudaram todos os móveis de lugar para sentirem que estavam morando em um novo apartamento, compraram coisas juntas, procuraram coisas novas para fazer… e então descobriram a aula de canto. Foi quando a Vivi decidiu começar também, para fazer companhia. Conheceram um professor que ficou muito encantado com a sintonia da voz das duas juntas e instigou-as a pensar em fazerem um clipe juntas. Fizeram algo simples, caseiro, lançaram no YouTube. Pensaram em um nome, gostavam do nome AMARela. Vivi fez o logo, elas começaram a produzir covers, postar com frequência. Logo depois disso veio a pandemia e elas estavam ansiosas porque lançariam um EP, mas nesse meio tempo a Mari foi demitida do lugar em que ela trabalhava. Foi um período muito turbulento em que precisaram se reinventar, pensar em como conseguiriam uma nova fonte de renda, porque o AMARela acabava gerando mais gasto do que ganhos financeiros… e como conseguiriam reverter essa questão? Resolveram repensar tudo o que elas gostavam de fazer. E a Mari entendeu que ela ama compor, sempre foi apaixonada por ouvir histórias e pensar sobre elas. Ela tentou começar a criar composições pelas histórias das pessoas e oferecer isso como um serviço para presentear alguém, para homenagear, para registrar… e assim nasceu o Canta Minha História (confere aí que é lindo!) Enquanto o Canta Minha História começou a ter uma estrutura e dar certo, a Vivi começou a pesquisar sobre tudo o que precisava e entrar com apoio também, até que em setembro, também por motivos de cortes da pandemia, ela foi demitida. A música foi crescendo, tomando conta e espaço, virando a fonte de renda única na casa, e elas foram estudando, se aprimorando, comprando equipamentos, formando um estúdio, fazendo parcerias, se mantendo, chegando em muitas pessoas…hoje, sentem muito orgulho em ver tudo o que estão construindo juntas e o quanto a música faz muito mais do que a parte financeira e a rotina delas, também traz muito do sentimento, da vida, da alma da casa e transformam o lar com a carinha de cada uma. A Vivi se desenvolve no teclado, no canto, na edição e no violão. A Mari nas composições, nas cordas, nas mixagens, nos estudos… e vão se completando o tempo todo. Enquanto mulheres artistas, ambas falam que nós podemos e devemos ter uma corrente muito maior ajudando artistas e musicistas menores no mundo da cultura no Brasil. Elas comentam que é muito fácil vermos artistas grandes se ajudando e sendo amigos, mas precisamos ver os pequenos se puxando para o alto também. Da mesma forma que é muito fácil quem tem dinheiro estar sempre chegando no alto, é preciso que quem esteja no alto puxe quem não tenha e que ainda seja pequeno. Precisamos estar nos apoiando, nos fortalecendo, compartilhando o nosso conteúdo entre nós. No dia seguinte, de manhã, elas se seguiram no instagram e a Mari resolveu perguntar como era o nome da banda que ela disse naquela hora, que afinal, era: Versos Que Compomos Nas Estradas!!! (e que elas pediram para eu colocar o link aqui, então, ouçam!!! é muito bom, galera! mas o nome é difícil mesmo aí ó hahaha) e ai conversa vai, conversa vem, a Mari soltou um: “e tu, toca violão? porque toda sapatão que é sapatão toca violão!” e então a Vivi finalmente entendeu que a Mari era realmente sapatão e que aquilo era de verdade um flerte, não era só uma menina sendo simpática. Elas seguiram conversando por alguns dias e decidiram marcar uma cerveja no bar para se encontrar. Comentaram de se encontrar sexta-feira, mas a Vivi já ia sair com uma amiga dela e a Mari já ia encontrar o primo, sábado também não podiam… domingo! Domingo ia rolar. Chegou sexta, a Vivi estava a caminho do encontro com a amiga e a Mari a caminho do encontro com o primo, na Rua dos Andradas, centro de Porto Alegre… quando de repente, se esbarram na rua. Eita. Tô indo ali. Encontrar. “meu primo ta ali” “minha amiga ta ali”. Mesmo bar. Mesma hora. Mesas diferentes. Não entenderam nada, mas brincaram “eu não te segui não, tá??”. No domingo decidiram que o mais justo seria voltar nesse bar. Foi um encontro ótimo. Beberam muito, comeram muito, conversaram muito. Dormiram na casa da Vivi. Detalhe: o encontro foi no dia 23 de dezembro, o dia seguinte era véspera de natal e 5h30 da manhã a Mari saiu correndo da casa da Vivi para ir no aeroporto buscar a família dela que estava chegando do Rio para passar o natal em Porto Alegre. Depois do natal, no dia 26, a Vivi mandou aquele textão emocionado pensando em marcaram um segundo encontro e a Mari respondeu com aquela palavra que resume tudo: “claro”. Se encontraram no apartamento da Vivi. Passaram o dia ouvindo MPB, descobriram mil músicas em comum, entenderam que realmente se encontravam na música. Nessa época ela já tocava ao vivo em alguns lugares, tinha um certo repertório e a prima dela, da qual ela estava na casa hospedada, tinha um escritório no Vila Flores, um centro cultural de economia criativa que hospeda empresas, cafés, etc. e pensou em levar a Mari lá para apresentar o espaço e um dos cafés que fazia um happy hour para quem sabe a Mari poder tocar lá e conseguir fazer um trabalho. Ela decidiu ir, se apresentou para a dona do local e se propôs a tocar lá. A dona topou e agendou para uma data próxima, foi aí, nessa história, que entrou no caminho: a Vivi. A dona do café é irmã da Vivi. E a Vivi estava trabalhando em todos os lugares possíveis para juntar dinheiro, inclusive no café. A irmã dela sabia que a Vivi ia se interessar pela Mari, então imediatamente marcou a Vivi num vídeo da Mari cantando (no Facebook), e disse para ela no Whatsapp “te marquei em um vídeo, acho que tu vais gostar”. Só que como ninguém mais usa facebook, a Vivi não olhou, achou que fosse uma bobagem da irmã dela. A irmã encheu o saco para ela olhar e ela não olhou. No dia do trabalho ela estava com muita preguiça de sair de casa, não queria ir, ficou enrolando, mas foi porque pensou “ah, vou, vai que eu encontro uma guria legal”. Quando chegou lá para trabalhar ela viu a Mari e um fotógrafo que estava trabalhando no evento queria postar uma foto que fez de todos e queria marcar cada pessoa na foto, mas não sabia o nome da cantora. Ela também não sabia, e ele pediu ajuda para ela descobrir. Então ela pegou o celular dele e precisou ir lá perguntar o nome da Mariana, absurdamente sem jeito e sem graça, com mil justificativas, gaguejando e dizendo que era exclusivamente porque o fotógrafo tinha pedido, ela perguntou qual era o Instagram para poder marcar a Mari na foto. Depois disso, o show todo aconteceu e no fim a Mari pergunta: alguém quer pedir alguma música? e foi a Vivi, lá perto, e disse…“você tava afinando teu violão né… era versosquecompomosnsduienarada?” e a mari “era o que?” “versouqmenajdartrada” “não conheço isso” “hum então era castello branco” “ahh castello branco eu conheço” “ah então toca castello branco pra mim!!”. Ela tocou, acabou o show, trocaram uma ideia super rápida e na hora da despedida e Mari voltou para dar tchau especialmente para a Vivi, ambas ainda sem jeito. Se eu pudesse, deixaria de fazer esse texto e colocaria um áudio da nossa conversa aqui para vocês ouvirem. (Alô, eu ouvi um Documencast?). Porque a Mariana e a Vivien são de um nível de humor contando a história delas que eu jamais saberia como colocar em palavras! Mas vamos lá, vou tentar. Esse texto vai se resumir na história de como elas se conheceram, porque como elas se conheceram, é o que elas são hoje. A Mari tem 26 anos e é carioca, super carioca. A Vivien tem 32 anos e é gaúcha porto alegrense, super porto alegrense. A Mari é formada em Artes Visuais - Licenciatura, mas nunca atuou enquanto professora, sempre curtiu mais a área da música. A Vivi é designer e hoje em dia também vive no mundo da música. A mãe da Mari é gaúcha, mas foi morar no Rio de Janeiro quando era muito novinha, ainda criança. Mesmo crescendo e vivendo no Rio, ela sempre teve uma conexão muito grande com Porto Alegre, por ter grande parte da família lá - e inclusive, quando a Mari era criança, por um tempo, chegaram a voltar e morar um tempinho em Porto Alegre de novo. Mas não deu certo, a mãe decidiu voltar para o Rio (nunca gostou muito do sul e dos gaúchos, sempre preferiu o agito carioca). Quando a Mari cresceu, fez a faculdade e no final da faculdade, em 2018, se viu muito perdida sobre em que carreira seguir e sobre o que fazer da vida. Pensou em passar um tempo em Porto Alegre, por gostar da cidade, por tentar respirar novos ares… e antes de viajar a mãe disse: - Mari, vê se não fica por lá, hein? - Mãe, eu só fico se eu encontrar o amor da minha vida! Eu conto, ou vocês contam? Enfim. Botão Vivien Mariana
- Luiza e Milena
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Luiza e da Milena, quando o projeto passou pela Bahia!. Foi numa manhã que se emendou para um começo de tarde em Salvador que encontrei a Milena e a Luiza (e a Tapioca, claro!). Fizemos as fotos na Praia da Paciência, sentamos num bar para conversar e fui convidada para ir até a casa delas almoçar e conhecer um pouquinho do espaço que conquistaram e construíram juntas nesses anos que se relacionam. Lugar que me contaram com muito entusiasmo existir espaço para cuidar das plantas, para a Tapi correr e brincar, para compartilhar legumes e frutas com os vizinhos, mas que também foi um caminho árduo de percorrer até chegar nele, com perrengues e apartamentos completamente diferentes que passaram. Luiza conta como é diferente a relação que ela aprendeu a construir com Milena, começando pelo o quanto conversam: conversar mudou a sua vida. Nunca tinha se visto num espaço de tanta conversa e de conforto. Sente que respiram juntas, podem ter conversas que duram dias, mas seguem juntas. Fala também da importância de terem começado a terapia nesses processos que viveram (entre mudanças, casamentos, saírem de casa…) e o quanto foi fundamental para processar seu próprio tempo. Hoje em dia, aprenderam a pedir desculpas. Não gostam de joguinhos, entendem que não há orgulho próprio na relação, tendem a ter mais parceria assumindo erros ou assumindo funções na casa para que elas aconteçam na rotina. Deixam claro que são esposas, não amigas. Não querem que o relacionamento caia numa amizade, por isso respeitam os espaços individuais e sempre voltam ao lar entendendo o encontro único que possuem enquanto uma família. Milena no momento da documentação estava com 40 anos, ela é natural de Salvador, trabalha como atriz e coordena/faz produção de palcos numa casa de eventos no Rio Vermelho. Como hobby, adora fazer jiu jitsu. Luiza no momento da documentação estava com 29 anos, também é natural de Salvador, já trabalhou (e trabalha de vez em quando) enquanto atriz, mas hoje em dia seu foco é enquanto designer. Na pandemia, precisou fazer a transição de carreira porque tudo estava sem perspectiva na área das artes cênicas, o dinheiro apertou e ela foi trabalhar enquanto designer numa orquestra. Como hobby, Luiza pratica tecidos acrobáticos. Milena também teve seu momento de começar novos trabalhos na pandemia por conta de estar sem perspectivas, foi quando fundou uma marca de sabonetes naturais. Hoje em dia, vende apenas aos mais próximos. Foi durante o ano de 2018 que se conheceram, quando Milena chegou na companhia de teatro que a Lu fazia parte. De início elas se tornaram muito amigas, se davam bem em cena e sempre queriam contracenar juntas. Acreditam numa sintonia muito grande porque sempre “jogavam” bem juntas, desde cenas de improviso, até cenas já marcadas. E assim foram criando suas amizades. Ambas tinham seus relacionamentos - e ambos relacionamentos tinham seus momentos bons e ruins. Durante o carnaval, Milena abriu o relacionamento com a ex-companheira dela, e na quarta-feira de cinzas durante uma festa a ex-companheira da Luiza comentou sobre Milena e a Luiza fazerem um casal bonito. Na hora, as duas acharam isso estranhíssimo. Nunca tinham se visto com outro olhar, sempre foram só amigas e não deram muita bola. No decorrer da festa se beijaram, mas também acharam estranho. Nunca haviam se olhado enquanto paixão ou de um jeito com segundas intenções e só ficou um clima estranho. Como a festa estava sendo em casa, a Milena saiu e foi fazer coisas de casa, ignorando as pessoas que estavam ali, e na hora da Luiza ir embora foi se despedir. Naquele momento, eram só as duas, e aí elas se beijaram novamente. Naquele ano em diante trabalharam juntas fingindo que nada tinha acontecido e seguindo seus relacionamentos. Saiam, bebiam e até de vez em quando trocavam olhares ou algum carinho, mas nunca chegavam tão perto e no dia seguinte fingiam que nada tinha acontecido. Ambas viviam processos de separação, conversavam bastante quando se encontravam, mas era confuso o que sentiam. Foi quando Lu precisou viajar e antes decidiu conversar com Milena sobre tudo o que estava sentindo. Marcaram na praia (inclusive, a praia que fizemos as fotos) e quando chegou lá recebeu a notícia da Milena: “Vou casar. Você vai se separar. Isso não tem nada pra dar certo.” e nesse ponto concordaram, beleza. Mas concordaram também que sentiam alguma coisa uma pela outra, né?! Só que não iria dar certo, então entraram num acordo que era isso, que teriam que engolir esse sentimento e seguir a vida. Foram para um bar, tomaram uma cerveja e depois, quando precisaram ir embora, chegaram no ponto de ônibus e a Luiza perguntou se elas não iam dar um beijo só. Milena indignada disse “Você não ouviu NADA do que falamos até agora né????” porque acordo é acordo. Deram um abraço e foram embora. Com o tempo, seguiram se encontrando no trabalho, saindo, vivendo como viviam. As coisas não mudaram muito. Até um dia que se beijaram e chamam de “Beijo consciente”, visto que já tinham consciência do que poderia acontecer, tinham conversado e sabiam do que sentiam. A conversa desde aquele dia na praia também deixou claro que elas se gostavam, e daí foi o caminho de entender o sentimento, finalizar os outros laços e trabalharem esse processo interno para darem o beijo consciente. Antes do “Beijo consciente” Luiza conta o quanto a Milena terminava com ela diariamente. Ela falava “Lu, a gente não pode se falar mais.” E depois de uma hora falava “Esse silêncio tá fazendo sentido pra você?” risos. Era uma confusão. Mas uma confusão que precisavam viver também. Viveram muitos momentos de instabilidade referentes não só a relação das duas, mas os términos dos outros relacionamentos, questões familiares… estava tudo misturado. Em agosto daquele mesmo ano começaram a namorar, quando já tinham saído de suas antigas relações. Durante a pandemia ficaram na casa de uma/da outra, com suas mães… e em fevereiro de 2021 elas se casaram. Foram alugar uma kitnet, da qual visitaram iluminando com a lanterna do celular, vendo baratas no chão, tudo super estranho, mas falaram: é aqui! Juntaram o que conseguiram, compraram o que deu para comprar, construíram o espaço e adotaram a Tapi, uma vira-lata já na fase adulta. Para a Luiza, a única coisa capaz de mudar o mundo é o amor - e junto dele está o respeito, a liberdade. Na relação com a Milena consegue enxergar o quanto elas se amam e querem se ver crescendo juntas. Hoje em dia estão conversando sobre engravidar, construir uma família, ver o amor crescendo no lar e gerando coisas, ver a entrega que as duas podem ter gerando coisas para além delas. Desejam, também, ter uma base de amor. Hoje em dia enxergam a casa enquanto a base, um lugar seguro para serem quem são. Têm segurança de que são amadas. Pensam em gerar e educar porque desejam uma cidade que estejam representadas, que seja educada e que também eduque os homens. Falam sobre o quanto é cansativo ouvir coisas dos homens o tempo todo na rua e o quanto também se sentem muito menos seguras ao redor dos homens. Comentam que foram no Festival de Verão de Salvador (um dia antes de nos encontrarmos) e estavam rodeadas de LGBTs e o quanto se sentiram seguras, o quanto isso foi representativo. Desejam uma cidade que não seja violenta. ↓ rolar para baixo ↓ Luiza Milena
- Jéssica e Mariana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Jéssica e da Mariana, quando o projeto passou por São Paulo! Jéssica e Mariana nunca tinham parado para refletir sobre a sua história com tanta precisão… e também nunca se viram compartilhando sobre quem são, como se sentem juntas e suas visões de mundo, como aconteceu quando se encontraram com o Documentadas, em São Paulo. Ao se dar conta de estarem fazendo isso pela primeira vez, Jéssica logo verbaliza como está se sentindo sortuda. Não só em poder compartilhar as vivências, mas principalmente por viver com a Mari. Diz que sente muita potência em viver juntas, são companhias e companheiras. Como são pessoas que passam muito tempo trabalhando, entendem que todo o tempo livre deve ser desvinculado do dinheiro. Por isso, adoram desfrutar de um banho compartilhado, de uma boa música, um chá, os jogos de videogame, passeios, horas montando quebra-cabeças, assistindo filmes, séries, passeando no carrinho (que é o xodó da vida delas) e indo numa doceria que fica próximo de casa e que valorizam muito. São extremamente apegadas ao que é artesanal, familiar, simples e cuidadoso. A semana que nos encontramos não estava sendo nada fácil para elas. Além de perdas familiares, viveram uma situação de assalto em que quebraram o vidro do carro no semáforo e roubaram os pertences. Para além do prejuízo financeiro, ficou o trauma e a tristeza por lidar com uma situação de invasão, de injustiça com algo que é tão valioso para elas e que foi tão batalhado para ser conquistado. Mari explica que vivenciando essa situação percebeu o quanto amadureceram - enquanto um casal e enquanto indivíduos - durante o período que estão juntas. No momento de dor, se reaproximam, precisam da outra. O relacionamento é um espaço de cura. Desejam rir e querem fazer uma à outra sorrir. Por serem muito semelhantes, chega a ser difícil achar algo que não concordam, então raramente brigam (quando brigam, não dura quase nada). Nisso, até nos momentos mais violentos recentemente vividos, se fortaleceram. Mariana, no momento da documentação, estava com 29 anos. Trabalha enquanto analista de dados e é natural de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. Jéssica, no momento da documentação, estava com 31 anos. Trabalha enquanto analista de dados e é natural de Juiz de Fora, interior de Minas Gerais. A história da Mari começa quando ela se formou em saúde pública, no fim de 2019, e começou a estudar sobre o Coronavírus que estava surgindo na China. Na época ela transitava entre procurar emprego e tentar iniciar o mestrado. Sonhava em estudar na Fiocruz, já que era uma referência, mas a família achava o Rio de Janeiro muito perigoso. Até que, já em 2020, a mãe soube que a Fiocruz estava abrindo mestrado e avisou ela, que tentou e passou… Como a pandemia já estava acontecendo, suas aulas seriam online e a mudança não foi necessária. A Jéssica, por sua vez, morava no Rio e já cursava o mestrado de Estatística na Fiocruz. Sentia falta da área da saúde no seu currículo e foi cursar, teve as aulas paradas durante a pandemia… Quando voltou, em formato online, acabou caindo na mesma turma que a Mari. Foram pelas aulas de mestrado que acabaram se conhecendo e em janeiro de 2021 começaram a conversar. Jéssica resolveu perguntar para uma amiga em comum se ela sabia se a Mari ficava com mulheres e se estava solteira… Não esperava que a amiga iria contar para a Mari. Então, num dia que Jéssica postou uma música da Lana Del Rey nos stories, Mari interagiu, começaram a conversar e nunca mais pararam. Contam que passavam tanto tempo conversando que iam dormir tarde da madrugada e acordavam cedo ansiosas para continuar a conversa. Antes mesmo de se conhecer pessoalmente, já namoravam. Em março, a Fiocruz solicitou alguns documentos e a Mari precisou vir ao Rio de Janeiro. Então, aproveitaram a oportunidade para se conhecerem e passarem uns dias juntas na casa da Jéssica. Naquela época, não estavam saindo de casa por conta da pandemia de Covid-19. Mesmo que as coisas já estivessem caminhando para a flexibilização, ainda não tínhamos vacina e, ainda mais elas, que trabalhavam estudando isso, faziam de tudo para ficar em casa. Falam como foi horrível a despedida, a ideia de se distanciar novamente. No dia, Mari até perdeu o voo - e nem por um erro delas, mas porque a torcida do Flamengo estava no aeroporto esperando os jogadores chegarem, o que é uma discrepância… enquanto elas estavam fazendo de tudo para não sair, ter uma torcida aglomerada num aeroporto… - então acabou tendo que voltar de ônibus, foi uma confusão. Depois disso, se viram novamente alguns meses depois, em maio. Em julho, Jé conheceu a família da Mari em São Paulo. E pouco tempo depois saiu do emprego no Rio, devolveu o apartamento e voltou a morar com os pais em Juiz de Fora. Foi quando surgiu o convite para morar com a Mari e os pais dela em Guarulhos, já que São Paulo tem muito mais oferta de emprego e elas poderiam ficar juntas. Ela topou, a mudança foi em outubro de 2021. Desde então, já conquistaram o emprego fixo, o carro e um apartamento, do qual estão esperando ansiosamente para ficar pronto. Os olhos brilham quando falam das coisas conquistadas em dupla. Essa história foi documentada em 17 de junho de 2023. ↓ rolar para baixo ↓ Jéssica Mariana
- Daniella e Flávia
A Daniella e a Flávia moram em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, e dividem a vida com suas duas bichinhas caninas. Entre suas rotinas, o que mais gostam é dos finais de semana (momento em que se encontram para passar juntas) e de sair para beber e comer com qualidade. Elas entendem que são pessoas muito diferentes nos jeitos, gostos e culturas, mas se encontram entre diversos caminhos. São pessoas muito ligadas à família e entendem o amor como uma demonstração nas pequenas atitudes: trazem o exemplo de que a Dani sempre bebe água antes de sair de casa e sabendo disso a Flávia já deixa um copo d’água preparado para ela não se atrasar. O amor que trocam fica entre as formas de cuidado com o lar, as cachorras, o corpo e/ou as ações que tomam diariamente. Dani explica que o amor sempre esteve presente em toda a sua vida: a educação que recebeu dos pais, a forma que se entrega no que acredita e o quanto deseja viver coisas boas com quem admira. Destaca o fato de que ela e a Flavia são opostas complementares, ou seja, estão ligadas uma à outra para trazer ensinamento. Com o relacionamento, aprendeu a amar outra mulher de um jeito diferente do qual estava acostumada. Dani tem 29 anos, é psicóloga e viajou do interior de São Paulo até Belo Horizonte para fazer mestrado, trabalhar com atendimentos e praticar sua militância. Hoje em dia, passou em um concurso e mora em Contagem, município vizinho da capital. Flavia tem 30 anos, é engenheira civil e também trabalha enquanto barbeira - conta que trabalhava muito nesse ramo, até abriu um salão na garagem de casa, mas que hoje em dia a demanda da engenharia é muito grande e acaba atendendo só quando sobra tempo. Ela nasceu em Belo Horizonte e mora até hoje no mesmo bairro e mesma casa; citam a diferença da trajetória dela e da Dani: a Dani morou em três estados, enquanto a Flavia nunca saiu do seu lar, fazendo com que tenha muitos amigos de infância e conheça cada vizinho da rua. Flavia comenta a importância das suas raízes nos bairros de Belo Horizonte, principalmente por ter se assumido em um momento muito diferente do que vemos: há 15 anos atrás era muito mais difícil ‘sair do armário’ e hoje fica feliz vendo meninas e meninos sendo quem são ao andar na rua, usando cabelos coloridos e falando abertamente sobre orientação sexual. Dani e Flavia se conheceram num momento de flexibilização da pandemia, por conta de terem amigas em comum. A Dani morava sozinha e recebia vez ou outra alguma amiga em casa e foi numa dessas vezes que a amiga postou um storie com ela. A Flavia viu o storie e começou a seguir a Dani, curtiu suas fotos e começaram a conversar pelo Instagram mesmo. Um tempo depois, Dani chamou Flavia para visitá-la, porém teve como resposta que elas deveriam convidar a amiga em comum também, já que Flavia não queria visitar sozinha. O jantar aconteceu, elas foram e levaram cervejas - depois de horas e horas de conversa o beijo finalmente surgiu, enquanto a amiga foi ao banheiro. Flavia comenta que iria embora sem beijar, porque é mais tímida e precisa de um certo tempo, enquanto na mesma hora Dani rebate: “Se ela não me beijasse naquele dia, certamente não nos veríamos mais”. Um tempo depois foi a vez de Dani ir até a casa da Flavia (que, inclusive, já tinha comprado um presente para ela na semana do seu aniversário). Se encontraram num sábado, durante um encontro que deveria ser rápido, e acabaram ficando até segunda-feira juntas - com a Dani conhecendo a mãe da Flavia e não querendo tomar banho na casa dela para não gastar água ou dar prejuízos - o que virou piada até hoje. Logo no começo da relação, enquanto ainda estavam se conhecendo, Dani conheceu a ex cunhada de Flavia e foi convidada para viajar ao Rio de Janeiro com elas porque precisavam resolver algumas coisas por lá, porém, enquanto estavam nesse momento inicial, Flavia teve um envolvimento com a sua ex. Elas entendiam que não namoravam - e Dani conversava muito sobre a não monogamia, mas esse fato veio como um baque, já que a Dani não esperava que acontecesse. Passaram por um momento de afastamento e de quebra de confianças, mas depois conversaram e decidiram: ou namoravam e construíam algo juntas, ou se separavam para não machucar uma à outra. Acabou acontecendo um fato isolado, do qual a Flavia sofreu um assalto enquanto trabalhava como motorista de aplicativo, e a primeira pessoa que ligou foi a Dani. Depois disso, se falavam frequentemente e entenderam que precisavam resolver seus traumas individuais para conseguirem ficar juntas - assim fizeram. Dani sentia amar Flavia e não queria abrir mão do relacionamento, então passaram por um período de conversas, cuidados e decidiram começar o namoro. A Flavia é a primeira namorada da Dani, então passaram juntas pelo momento de contar às famílias e tudo foi fluindo aos poucos - acreditam que fluiu bem, já que no primeiro natal passaram na casa da Dani com parte da família reunida e apoiando o que constroem juntas. Depois dos primeiros meses, adotaram a Teresa - uma vira-lata preta, já adulta, bastante animada e bagunceira. Flavia conta que percebia o quanto a Dani acabava ficando muito sozinha e adotar a cachorra foi inicialmente impulsionado por esse motivo (na época a Meg já existia, mas era a cachorrinha da Flavia há anos, então apenas visitava a Dani), depois da adoção entenderam que a Teresa representa muito mais que companhia, aprendem diariamente formas de amar com ela e se sentem muito mais felizes. Hoje em dia, viajam bastante para o interior de Minas e gostam de conhecer lugares novos. Entendem que podemos ser quem nós somos e não gostariam de entrar em caixinhas de padronizações sobre os nossos corpos para sermos mais respeitadas em sociedade. Comentam que sobretudo desejam a vontade de mudar a sociedade sob o medo da violência e, para o futuro, pretendem engravidar e formar uma família - mantém uma poupança para isso, pensam na possibilidade da inseminação e em não ter apenas um filho. [Boa sorte, gurias. ♥] ↓ rolar para baixo ↓ Daniella Flavia
- Julia e Vitória
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Júlia e da Vitória, quando o projeto passou por São Paulo! Júlia e Vitória são apaixonadas por moda, saúde da mulher, conversas longas, besteiras que fazem rir por horas, gatos e pela vida social com as amigas na cidade que moram, Campinas, interior de São Paulo. Possuem uma história de vida totalmente diferente: Júlia adora debater política e acredita que os atos políticos estão presentes em tudo o que fazemos. Sempre foi instigada pela família a ser uma pessoa argumentativa, questionadora. Vitória, por sua vez, vem de uma família muito conservadora. Frequentou a igreja até a adolescência, o pouco que sabia sobre política não achava que era tão importante - e era em ano eleitoral. O relacionamento significa uma revolução para as duas. Vitória aprendeu a olhar tudo sob uma nova perspectiva, reconheceu a importância dos debates e do pensamento crítico, enquanto Júlia aprende a compreender sua praticidade: nem tudo é tão direto, tão incisivo. Precisa entender o tempo das pessoas de processar, enfrentar e saber lidar com seus processos. Júlia conta que sempre viu o amor no lugar de incentivo, de afeto, de impulso e entende que amar é sempre algo coletivo, nunca individual. A família sempre incentivou (a ler, escrever, ouvir músicas, ter contato com o mundo). Depois da separação dos pais ficou cada vez mais próxima da mãe e percebe que sempre foi fácil entender as relações de gênero, o cuidado que uma mulher tem por outra. Sendo assim, não consegue separar o amor de algo político, sendo ele o familiar ou o romântico, que possui pela Vitória - e quando cita ela, só consegue dizer o quanto a admira, o quanto é fácil amá-la, se orgulha da força que possui e do quanto estão crescendo juntas. Finaliza com um “que mulher foda!.” Vitória, no momento da documentação, estava com 25 anos. É natural do Paraná, mas mora em Campinas, São Paulo, desde criança. Trabalha enquanto fisioterapeuta, focada na saúde da mulher, adora falar sobre sexualidade e tudo o que envolve o corpo feminino. Juntas conversam muito sobre os assuntos que envolvem sua profissão, dentre eles o parto. Ressaltam a importância de ter mulheres que estudem sobre mulheres porque até hoje a maioria das coisas que temos foram homens que decidiram. Falando sobre isso, Vitória faz o recorte sobre o quanto poder conversar e enxergar esses debates no relacionamento acrescenta na vida dela: impulsiona e demonstra o quanto querem crescer em conjunto. Júlia, no momento da documentação, estava com 34 anos. É natural de Campinas, São Paulo e trabalha com comunicação social, unindo o jornalismo e relações públicas, num ateliê. Conta que pela primeira vez pode ser ela mesma num ambiente de trabalho e como isso tem sido gratificante. Juntas elas adotaram um gato - o Kovu - e dividem vários hobbies em comum, entre eles o amor pela moda. Acreditam que a forma de se vestir também é um ato político. Amam performar feminilidade e o “choque”/a reação que as pessoas demonstram ao saber que são duas mulheres muito femininas se relacionando amorosamente. Foi em 2020 que elas se conheceram num bar. Não tinham muitas coisas abertas por conta da pandemia de Covid-19, mas foram num aniversário e se viram. Na época, Vitória estava se envolvendo com uma pessoa, mas lembra de ter visto a Júlia de tranças, dançando. Num segundo encontro, se esbarraram e ficaram, mas tudo foi muito confuso, passaram a conversar, Vitória viu a Júlia ficando com uma pessoa um tempo depois, chorou e entenderam que estavam apaixonadas uma pela outra. Ficaram mais algumas vezes, até que no começo de 2021 começaram o relacionamento. Foi um início difícil por conta da Vitória morar com os pais e eles não saberem da orientação sexual dela, além de não darem muita abertura para a conversa. Porém, estava cada vez mais insustentável ela não se sentir bem dentro de casa. Por mais que o amor entre a família exista, ela tinha medo de como iriam reagir, e também de como iria sair de casa, se sustentar… Vivia sob constante pressão. Aos poucos se estabeleceu financeiramente, procurou uma casa e foi criando coragem. Contou para a família num sábado, fez a mudança na terça e manteve a relação da melhor forma possível. Hoje, segue no mesmo lar, com o gatinho e com a Júlia visitando o tempo todo. Vitória fala sobre como a religião é difícil, mas sempre fez parte do que ela foi. Nunca se julgou, nunca achou que fosse um erro ou uma aberração ser quem ela é, diferente do que pregam. Em certo momento, entendeu que o que ouvia na igreja não fazia mais sentido pra ela, então decidiu parar de frequentar. A parte mais difícil foi explicar isso para a família, sente que colocavam uma expectativa muito grande nela, então acabou decepcionando os pais, arranjava desculpas para não ir ao invés de falar diretamente o que sentia e o processo demorou muito mais para acontecer. Quando conheceu a Júlia, vivia um momento diferente, mas complicado. Explica que a Júlia ter enxergado ela e dado uma chance para que vivessem um amor tão bom como vivem só faz admirar e amar cada vez mais tudo o que ela é (e o que são juntas). Além disso, acredita que amar independe de quem as pessoas são. Você deve sempre apoiar quem se ama. Júlia conta que sua descoberta para ter uma relação com mulheres foi praticamente inesperada, porque aconteceu enquanto uma “zoeira”, numa experiência de trisal. Não entendia e nem pensava muito sobre o que estava acontecendo. Foi entender quando ficou sozinha com a mulher e viu que isso incomodou o homem. Debateu, pensou sobre, entendeu o próprio corpo e então tomou protagonismo na história. Hoje, fala muito sobre as formas que o patriarcado toma conta das relações – ainda que sobre duas mulheres. E na sua relação com a Vitória dividem o máximo que podem, se comunicam e tentam traçar um caminho diferente. ↓ rolar para baixo ↓ Júlia Vitória
- Fabi e Dani
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Fabi e da Dani, quando o projeto passou por São Paulo! Começo a história da Dani e da Fabi contando um fato que elas me relataram sobre como enxergam o amor e a relação, logo no fim da nossa conversa: elas viveram uma situação em que foram até um bar encontrar alguns amigos, mas uma chegou antes que a outra. Até então estava super divertido… Ria, conversava, e brincava. Quando quem faltava chegou e elas finalmente ficaram juntas, o amigo comenta: “Você estava bem antes. Estava feliz. Mas agora, que ela chegou, vocês se encaixam. É como um brilho que acrescenta. Não faltava, mas agora acrescentou.” - e, assim, talvez consigam identificar muito do amor em pequenos detalhes. A Fabiana tem 41 anos, é natural de São Paulo (capital) e trabalha enquanto bartender, mas já foi da área de eventos e de produção. Ela entende o amor como uma dedicação e um ponto, também, de descanso, porque quando está do lado da Dani está tranquila. Ao longo da vida, a Fabi não teve grandes demonstrações de amor sendo explanadas e colocadas fisicamente - na família ou em outros relacionamentos - por isso a relação dela com a Dani se tornou uma referência. Elas estão sempre relembrando o quanto são importantes uma para a outra. A Danielle tem 34 anos, sua família é de Santa Catarina, mas ela cresceu e vive até hoje em São Paulo (capital). Dani trabalha (e muito!) em uma agência, com mídias e publicidade. É apaixonada por cachorros, convenceu a Fabi de adotar a Nina e a Laka (quando a ideia inicial era a doce ilusão de ter uma cachorra de porte pequeno…) e acredita que o amor está, dentro das relações entre mulheres, de uma forma importante e única. Ela vê o amor no cuidado porque quando pára o mundo para cuidar de alguém, é a melhor forma de demonstrar que ama. E que, quando esse alguém é outra mulher, a doação é muito mais intensa e profunda. Quando a Dani e a Fabi começaram o relacionamento, foi aquele clássico: logo partiram para morar juntas. Mas calma, antes disso tem uma introdução. Elas se conheciam “de vista”, eram colegas de bar. Tinham amigos em comum, mas não conversavam muito. A Dani tinha saído de um relacionamento que não tinha sido legal há pouco tempo, começava a frequentar mais o bar e numa dessas idas a Fabi estava lá. Foram se encontrando, interagindo e num dia, após um evento na Casa 1, se encontraram e conversaram mais (a Casa 1, caso você não conheça, é um centro de acolhimento para LGBTs que foram expulsos de casa - e também funciona como centro cultural e clínica social em São Paulo). Nos dias seguintes se encontraram novamente e beberam bastante. Nesse dia, finalmente os amigos se uniram numa mesa só e no final da noite elas foram dormir no mesmo lugar. Nessa altura do campeonato, a Fabi já sabia que a Dani beijava mulheres também e foi então que o interesse aconteceu. Após ficarem pela primeira vez, a vontade de se encontrar foi surgindo naturalmente e durante as próximas semanas voltaram ao bar algumas vezes. Contam que foi muito natural o começo do relacionamento pela vontade que tinham de estarem juntas. Nessa época, a Dani ainda morava com a mãe, mas elas passavam muito tempo na casa da Fabi e foi então que decidiram pela mudança. O apartamento inicial era pequeno, mas a comunicação entre elas era o principal e sempre fluiu bem. Elas brincam que até hoje, quando acontece alguma briga, os amigos estranham, porque não é tão normal assim. O que elas precisam resolver, se resolve na hora: a comunicação é o mais direto possível para que as coisas sigam seu caminho da melhor forma. Elas entendem também que isso foi devido a um processo interno e individual. A Dani, por exemplo, tinha uma comunicação ruim antes do relacionamento porque guardava muitas coisas para si, mas entendeu que a sociedade já é muito difícil de se conviver e de se estabelecer boas relações. É difícil sermos aceitas, conquistarmos nossos espaços, termos um bom contato… Então decidiu melhorar esse processo da melhor forma que poderia: demonstrando o que sente para deixar as coisas mais claras. Hoje em dia, elas não aceitam preconceitos, discriminações, críticas árduas vindo de quem não as conhecem… Reconhecem o amor delas enquanto algo único e lindo - e reconhecem também o caminho que percorreram para chegar até aqui. Alguns anos (e mudanças) depois, as cachorras chegaram para alegrar ainda mais a casa. A Dani sempre sentiu muita falta de ter um cachorro no lar e a Fabi estava amadurecendo a ideia, então procuraram abrigos e ONGs, decidiram num sábado de manhã cedo ir até uma feira de adoção juntas escolher um cachorro >pequeno<... e, obviamente, os planos foram interrompidos. Na sexta à noite a Dani estava num bar e a prima dela ligou desesperada precisando de ajuda, quando ela chegou para prestar suporte, a cena era: uma cachorra precisando de lar temporário. Acho que o resto nem precisa explicar, né? De pequena não parecia ter nada, principalmente o coração: Nina adotou a Dani e a Fabi na primeira oportunidade. A Laka surgiu um tempo depois, quando a irmã da Dani resgatou e cuidou, postou fotos e a Dani, ao ver, chorou e sentiu que precisava adotá-la. Rimos muito porque a Fabi nem teve escolha, ela tinha se apegado só pela foto. Como diria não? Hoje em dia, elas contam o quanto as cachorras são sensitivas. Elas sabem quando as humanas estão doentes, estão sempre sendo muito parceiras, ficando ao lado e sendo atenciosas. Além disso, no dia a dia, são a diversão da casa e fazem com que tudo fique mais leve. É um cuidado refletido em muito amor. ♥ Entendemos que cada pessoa possui a sua forma de amar. Às vezes o amor não precisa ser sempre demonstrado da forma mais delicada, feminina e romântica. Elas, por exemplo, entendem que possuem a sua forma de amar. É uma forma pura, que vai se moldando com o tempo. É também uma forma muito carinhosa, que envolve admiração, preocupação, brincadeiras, diversão e tantas outras coisas cotidianas. Logo depois da eleição do atual presidente foraBolsonaro, elas sentiram medo e necessidade de reafirmar esse amor, portanto oficializaram a relação com o casamento. Entendem esse ato como um ato político, visto que a nossa união está o tempo todo ameaçada pelo atual governo. Muitos outros casais sentem e sentiram o mesmo no momento em que ele foi eleito, portanto o casamento delas foi um dos exemplos de casamentos coletivos realizados no Brasil. Hoje em dia, são mulheres que seguem enfrentando da forma que está ao alcance os desgastes dessa política que nos ataca diariamente. E enfrentam, também, com afeto. A Fabi explica, por fim, o quanto foi ensinada a ser dura, bruta, demonstrando menos fragilidade nessa vida, mas que aprendeu (e aprende todos os dias) que o afeto está em fazer com que as pessoas que ela ama se sintam bem. É uma forma que ela e a Dani encontram de acolhimento e de estarem compartilhando coisas boas ao redor de quem amam. Por mais que a Yasmin e a Ignez se conhecessem desde 2019, elas foram ter o primeiro encontro e sair de verdade só em 2020, mais especificamente, um fim de semana antes da pandemia ser oficializada no Brasil - e em Fortaleza, cidade onde elas moram. Elas contam que estavam juntas quando saíram as primeiras notícias na TV sobre o primeiro caso de COVID-19 no Ceará e que no dia seguinte viraram 3 casos e que no dia seguinte dos 3 casos foi anunciada a “quarentena”. E aí? Como que duas pessoas que moram com os pais começam a construir um relacionamento (e a se conhecer) num contexto inicial de pandemia? Hoje, mais de um ano depois juntas, elas contam quanta coisa foi possível fazer mesmo estando dentro de casa: descobriram hobbies, cozinham juntas, jogam videogame, estudam muito, escutam música, se reinventam. A família da Yasmin desde o começo soube da Ignez e sempre foi uma convivência tranquila… enquanto a Ignez, nesse meio-tempo, se abriu e resolveu contar para os pais que estava namorando - isto, inclusive, é um processo recente, mas que está dando certo! Ela conta que há um ou dois anos atrás jamais se imaginaria dizendo que a família sabia e apoiava o namoro dela com outra mulher… e que hoje isso acontece naturalmente. Reforça: “Não que seja fácil, mas de estar acontecendo me deixa mais tranquila. Eu contei num segundo de coragem, sabe?”. Yasmin tem 24 anos e estuda Arquitetura na Universidade de Fortaleza. Ela e o seu irmão sonham em montar uma empresa de engenharia e, além do trabalho, adora cantar, tocar violão, pintar aquarela... É uma pessoa que adora ser criativa, montar coisas e deixar o corpo se expressar. Ignez tem 25 anos, é formada em Direito e quando nos encontramos estava com foco total estudando para a OAB. Ela adora ouvir música, conhecer lugares novos e viajar. Inclusive, mesmo na pandemia, elas têm conseguido viajar de carro até o interior para ficar na casa de parentes e isso acaba garantindo uma experiência muito legal para as duas, é algo que adoram fazer. Mesmo com as dificuldades que, não só a pandemia, mas a vida em si nos coloca, tanto a Ignez quanto a Yasmin se mostraram ser pessoas que conversam muito e que se ouvem muito também. Nos momentos mais complicados, elas tendem a ficar juntas e resolver as coisas juntas. A Ignez diz “Às vezes só de estarmos quietinhas, no mesmo ambiente, já ajuda”. Ou seja, não precisa ser uma questão de resolver tudo o tempo todo, mas de gerar apoio e acolhimento. Elas acreditam que o diálogo consegue resolver qualquer coisa e possuem um acordo de que não vão dormir brigadas, então caso aconteça algum desentendimento, tentam resolver de alguma forma ou ao menos respeitam o espaço, mas não ficam desentendidas uma com a outra. Mesmo que as duas tivessem vários amigos em comum, elas nunca tinham se esbarrado por aí. Mas a Ignez já tinha visto a Yasmin pelas redes sociais. E então, lá em setembro de 2019, rolou uma festa chamada “Tertúlia” em Fortaleza e a Yasmin apareceu por lá. Quando ela chegou e a Ignez viu, ficou até um pouco nervosa. Elas deram um oi, mas a Ignez percebeu a Yasmin saindo com outra menina da festa e desistiu. Uns dias depois, resolveu segui-la no Instagram e a Yasmin seguiu de volta. Meses se passaram, ela até tentou interagir pelas redes, mas não rolou. Quando o ano virou e chegou 2020, era fevereiro e elas estavam na festa de uma amiga em comum, então a Ignez viu a Yasmin chegando e até comentou com uma amiga: “Nossa, sabe aquela menina lá da festa Tertúlia? Ela tá aqui!”. Nessa festa, elas conversaram a noite toda, ficaram na borda da piscina tomando drink, dançaram forró juntinhas e se divertiram muito. E aí a Yasmin chegou nessa amiga em comum e disse que achava que ia rolar algo com a Ignez… até a amiga soltar a fatídica frase: “Não, amiga!!! Ela namora! Ela só é assim mesmo. Ela é simpática!”. O mundo da Yasmin caiu naquele momento. Ela ficou sem entender nada. Como assim?? Namora?? Um amigo dela já sabia da história do “relacionamento” da Ignez - que não era um namoro super longo e oficial, era um rolo que ela tinha com uma menina - e disse para a Yasmin “Vocês vão ficar hoje.”, mas ela estava decidida que não, por conta do namoro e tentou evitar isso a noite toda. O amigo ainda completou: “Ela “namora”, mas já-já esse relacionamento aí acaba”. Ele acabou estando certo. Na hora de ir embora elas conseguiram uma carona para irem juntas e ficaram bastante próximas, foram até um local onde pediram o uber para a casa e lá aconteceu um beijo. Elas conversaram no dia seguinte sobre o que tinha acontecido, entenderam que tinha sido errado e que não era certo continuar e uns dias depois a Ignez realmente terminou o relacionamento. No carnaval, em seguida, elas se encontraram, mas pouco se falaram. Trocaram algumas mensagens pelo Whatsapp um tempo depois e a Yasmin soltou uns flertes, só para cutucar, mas depois falava “Ei, você não pode flertar de volta, porque você namora!”. Pois foi aí que a Ignez contou que não namorava mais e que poderia, sim, corresponder ao flerte. Foi nessa semana que elas decidiram sair juntas, que tiveram o primeiro encontro oficial e que em seguida a pandemia começou. No dia das namoradas, em junho, a Yasmin pediu a Ignez em namoro (mas foi praticamente uma corrida! Porque a Ignez também estava preparada para fazer o pedido). ♥ Para elas, o amor é uma construção. Seja ele entre um casal, entre a família ou amigos. É sempre construir e lutar para que seja bom, leve (que precisa ser leve) e que amar é você olhar para alguém e sentir que o que foi construído é genuíno, que veio de dentro da alma. Amar é, também, uma conexão de muita intensidade, principalmente entre duas mulheres - são corpos que desenvolvem uma força inexplicável, é revolução, uma luta constante contra quem quer que seja, contra tantas violências, e a favor do amor, com resistência. Quando pergunto como elas se sentem morando em Fortaleza e como enxergam a cidade, Yasmin comenta que gosta muito de lá e que sente muita falta de sair e curtir a cidade em si, mas que se tivesse o poder de mudar algo socialmente e culturalmente falando, seria que as pessoas respeitassem mais a história da cidade e trocassem mais o respeito entre si como um todo. Ela entende que se nos fosse ensinado a conhecer e respeitar a história da cidade e a história das pessoas que estiveram lá antes de nós estarmos, viríamos tudo com outro olhar e cuidaríamos mais dos espaços. A Ignez concorda com a educação sobre o nosso povo e completa que, nos dias de hoje, ela sente muita falta da segurança. Sente que o policiamento está sempre presente nos bairros nobres, mas que nas periferias e nos locais menos frequentados pela elite (como espaços centrais ou mais boêmios da juventude), é muito comum não se sentir segura. Gostaria que esses espaços e que a segurança em si fosse repensada - para que chegasse em todos. Fabiana Danielle
- Tamires e Fran
Durante o tempo que passei documentando a Tamires e a Fran, tivemos várias conversas sobre a vida, o amor que elas sentem uma pela outra, a história delas em si, as brincadeiras, a vida individualmente, trabalhos, amigos… mas o que vi se destacando o tempo todo, indo e voltando nos assuntos, foi a família. São muito ligadas às suas famílias e às famílias uma da outra, nem fazem mais separação enquanto “a família da Fran” ou “a família da Tami”, virou uma só. A lista é extensa quanto aos elogios à forma como Tamires foi acolhida na família da Fran desde o momento em que assumiram o namoro. Hoje em dia, aos domingos, a rotina do casal é ir até à loja de frango assado que os pais dela possuem no bairro para ajudar nas vendas - o que elas realmente adoram fazer. Ressaltamos a importância de falar sobre isso em espaços como o Documentadas e mostrarmos como é possível que mulheres que amam outras mulheres tenham o apoio de suas famílias e relações saudáveis, incluindo chá de casa nova quando compram um apartamento, rede de apoio, etc. Tami explica que por mais que hoje em dia tudo isso tenha sido construído e que essas questões estejam realmente muito bem, ela (diferente da Fran) precisou passar por vivências difíceis em casa quando se entendeu enquanto mulher lésbica. Saiu de casa muito jovem, viveu o preconceito e ficou dois anos afastada dos pais. Reformulou, fez o esforço da reaproximação e reconstruiu tudo, foram quebrando cada preconceito. Hoje em dia, vivem bem e a mãe adora a Fran (e também já passou por contato com outras ex-companheiras), o que pra ela é uma conquista gigante. Enxergar o amor enquanto ação é fundamental na relação e isso também está voltado à família. Quando foram morar juntas, decidiram configurar como seria o contato com os pais, não queriam dar menos atenção ou deixar de lado. Precisavam manter o afeto e o cuidado. Dão risadas quando lembram que a família da Fran mandava mensagem sobre tudo, até sobre como se mudava o canal da TV. Entendem que isso também é apoio, é sobre estar perto. Hoje em dia a autonomia é outra, mas o amor se mantém. Foi na escola que se conheceram, eram colegas desde a 4° série do ensino fundamental. Não eram super amigas, principalmente porque a Fran era mais próxima dos meninos e a Tami era mais patricinha. Na pré-adolescência, Tami chegou a “ficar” com um amigo da Fran, enquanto Fran nutriu uma paixonite por ela na 7° série. Até a chegada do Ensino Médio foram colegas, depois se afastaram com as mudanças de escola. Em 2021, na pandemia de Covid-19, fizeram um grupo no Whatsapp pelos 10 anos de formatura e por conta do tédio da pandemia em si ficavam conversando bastante. Começaram a falar sobre Tinder, mandaram a foto dos seus perfis, até que a Tami cruzou com a Fran no Tinder, deu um ‘superlike’ nela e enviou a foto no grupo. Deram match, mas não sabiam se era de brincadeira ou não. Quando a Tami lançava um flerte, Fran respondia com memes e ela nunca sabia se levava a sério. Em um certo momento, Tami chamou a Fran para sair, mas como ainda não haviam tomado vacina (a vacinação estava sendo por idade), Fran não topou. Demorou um tempo, até que se vacinaram e se encontraram na casa de uma amiga. Fran decidiu contar sobre a paixão que tinha na 7° série - e quando se encontraram pessoalmente já achavam que estavam apaixonadas também. No momento da documentação, Tamires estava com 30 anos e trabalhava num programa de prevenção à violência na Secretaria do Município de Canoas, enquanto assessora jurídica. Além disso, faz doutorado na PUC-RS, pesquisa sobre violência contra a população LGBT+. É natural de Porto Alegre e no tempo livre gosta de ver os amigos, a família, ir ao cinema, ficar em casa, ler e assistir documentários. Francielli estava com 30 anos no momento da documentação e também é natural de Porto Alegre. Trabalhava enquanto analista de suporte, em tecnologia da informação (TI). Ama jogar videogame, gosta de livros de ficção, adora acompanhar a Tami vendo os amigos dela e gosta de cozinhar em conjunto (Tami corta os legumes e ela prepara a comida, por exemplo). Foi numa prainha no bairro em que elas estudavam em que fizemos as fotos, neste lugar se beijaram e, tempo depois, tiveram a primeira discussão sobre os primeiros passos da relação. Sentem que o bairro em si é muito importante porque esteve presente em toda a vida delas. Essa discussão, em especial, foi logo que começaram a se envolver. Na época, Tami não tinha relacionamentos há um bom tempo e se questionava de que forma iria se relacionar com alguém novamente… não sabia se estava preparada… por um bom tempo sentia que não conseguia se doar nas relações e tinha medo das pessoas não conseguirem lidar com suas questões de saúde mental. Mas ao mesmo tempo, estava apaixonada pela Fran e queria muito estar com ela. Precisava entender se ela queria também, se estava sentindo o mesmo e se desejava a relação com ela, mas tinha medo. Tiveram uma longa conversa e Fran se mostrou disposta. Tami e Fran namoraram durante um ano, até que Tami estava decidida a sair novamente da casa dos pais (já havia morado sozinha e dividido apartamento algumas vezes) e conversou com a Fran sobre morarem juntas. Fran nunca tinha saído da casa dos pais, mas não queria alugar um apartamento. Comentou sobre a possibilidade de comprarem um espaço. Tinha um dinheiro guardado, a família poderia ajudar um pouco e o resto quitariam. Tami não gostou da ideia no início, principalmente por elas nunca terem tido uma vivência juntas e a Fran não saber como seria morar longe da família. Brinca que a Fran nem “sabia de que lado o sol nascia, de que lado gostava do sol nascendo em casa”, por só ter morado em um lugar a vida toda. Foram amadurecendo a ideia, os pais da Fran ajudaram e elas começaram a procurar lugares para morar, até que chegaram no condomínio que moram hoje e gostaram bastante. A mudança aconteceu e entendem que está dando certo a vida na casa nova. Conseguiram mobiliar com a ajuda da rede de apoio - família e amigos - e aos poucos estão pagando este apartamento que é delas (e que a Tami às vezes nem acredita, risos). Entendem que por mais que a Fran ainda tenha uma grande dificuldade de demonstrar sentimentos e faça piada com tudo, Tami sempre instiga, pergunta, faz questão de saber como ela está se sentindo, sobre o que ela deseja e se estão ou não em sintonia. Explicam que nunca foram de brigar, muito menos de estar aos berros, mas que possuem muitas conversas sérias sobre o relacionamento, a vida, o que querem e onde querem chegar. As conversas difíceis precisam existir para se alinhar. E isso também é sobre o amor e a parceria que possuem. Explicam que às vezes tem coisas que “nem precisaria”, algumas discussões ou ações… trazem o exemplo de que uma está com um problema de saúde e precisa ir na academia, então ambas vão, não precisaria que fossem juntas, mas estão indo. Por parceria e por apoio. Por alinhamento. Acreditam que as coisas ficam melhores assim. Recentemente, fizeram uma viagem juntas para São Paulo, e quando pergunto sobre como elas se sentem sendo mulheres que amam mulheres dentro de uma cidade como Porto Alegre, Tamires rapidamente cita essa viagem. Ela conta que ama estar em SP e vai sempre que possível, gosta principalmente porque lá ela não se sente estranha, deslocada… se sente parte de tudo. Não se sente divergente. Entende que em todas as cidades as pessoas são múltiplas, mas que lá isso está bem misturado ao ponto de não nos destacarmos. Ela sempre se viu enquanto alguém que é muito urbano e também enxerga Porto Alegre enquanto uma cidade muito urbana, viva, dinâmica e cheia de cultura, mas fica triste por se sentir deslocada por ser quem ela é. Sempre foi a pessoa diferente, ainda mais estudando direito, era a deslocada. Para o futuro, não deseja mais ser. Quer ver cada vez mais pessoas negras em todos os espaços que ela frequenta, casais de mulheres, “mais de nós”. Por fim, falamos também sobre as importantes mudanças que podemos fazer nas nossas relações, nos reinventarmos sem as heteronormatividades, fazermos do nosso jeito, reconstruímos uma relação entre mulheres que nos represente de verdade. ↓ rolar para baixo ↓ Francielli Tamires
- Marcela e Karine
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Marcela e Karine, quando o projeto passou por São Paulo! A Karine e a Marcella são aquelas pessoas que jamais conseguiriam viver sem arte na vida. Arte em todos os aspectos: a cultura no cotidiano, passando pela pintura, pelo teatro, pelo cinema ou pela dança. Dentro do apartamento em que elas moram em São Paulo fazem uma produtora acontecer - e dessa produtora já saiu websérie, ideia para Canal no Youtube, filme, peça… tudo vira vida. A produtora criada em 2018/2019, com nome La Loba, vindo do livro Mulheres que Correm com Lobos, foi um passo muito importante também para elas colocarem em frente o que acreditam: a liberdade no criar. Roteirizar, filmar, dialogar com novos atores. Criar cenas e redescobrir aspectos de criatividade, ainda mais dentro de casa, é um desafio divertido. Quando falamos sobre as ferramentas de gravar dentro de casa (por elas terem as ferramentas necessárias, desde equipamento técnico até o suporte para lançar, como o YouTube ou outras plataformas), elas comentam também que não admitem a ideia do artista pobre, essa coisa de que o artista precisa vender o almoço para comprar a janta. Não que precisem viver o luxo, mas que querem suas profissões respeitadas e valorizadas para que tenham uma vida confortável e saudável: “Ter o trabalho reconhecido”. Suas competências artísticas são enormes, estudaram (e estudam!) há anos para construir isso e é um exercício diário relembrar o quanto o teatro, a peça, o filme, a dança, a música, a expressão artística é tão importante para o nosso dia-a-dia quanto tantas outras coisas que fazemos. Karine é de Tatuí, cidade intitulada como Capital da Música, interior de São Paulo. No momento da documentação ela estava com 33 anos e contou sobre um projeto do Governo do Estado de São Paulo em que estava fechando diversos cursos universitários lá na cidade natal dela (local que a família reside até hoje), incluindo o curso que ela fez, de Artes Cênicas, que já estava encerrado. Falou sobre a dificuldade de se ver longe e ver uma cidade com tantas potências, com um dos maiores conservatórios de música da América Latina, resistindo, mas sem muitas forças perante um poder tão maior que é o legislativo. Mas que, mesmo com todas essas sensações de cultura sendo levada “embora”, não desistiria, pois da mesma forma que ela esteve lá por tanto tempo ainda há pessoas muito boas fomentando a arte nessas cidades - e não só: a arte, a história, os eventos culturais, os projetos de voluntariado, etc. A Marcella também tem uma trajetória de busca pela cultura no interior de São Paulo, mas dessa vez em Piracicaba. Ela estava com 32 anos no dia em que nos encontramos e contou que a sua trajetória na arte da cidade foi impulsionada quando começou a fazer um curso no SENAC (e, nesse curso, também conheceu a Karine). O ano era 2016, encenaram uma peça sobre A Paixão de Cristo, aprenderam muito e até ficaram amigas, mas o tempo passou e não se falaram mais. Como a cidade é pequena e todos acabam se encontrando nos espaços, em 2018 elas fizeram outra peça novamente. Estavam solteiras, interagiram e o interesse surgiu. No fim, (ou melhor, no começo) começaram a namorar. A vida em Piracicaba, mesmo que confortável, estava um pouco limitada para a carreira da Karine e da Marcella. Foi então que surgiu a oportunidade de morar em São Paulo (capital). A Karine já tinha morado em São Paulo por um tempo, sabia como a cidade funcionava, a alta opção de cursos, abrangência para novas áreas e também a concorrência muito maior de artistas chegando de todos os lugares, mas lá em Piracicaba não via mais a carreira andar no momento em que estava… e a Marcella topou o desafio. Juntas, com o incentivo de uma amiga, realizaram a mudança. Logo no começo da pandemia encontraram a casa que moram agora, um lar maravilhoso e que foi se completando com o jeito delas em cada cantinho. Foi lá que gravaram a websérie, é lá que possuem as melhores (e piores!) ideias para as próximas produções e brincam que a casa é uma grande geradora de ideias. Elas se veem como parceiras. São muito amigas e sobretudo essa companhia se torna uma âncora. Sentem amor pela companhia. Além do amor que compartilham pela arte em si e por tudo o que são envolvidas, existe o amor que sentem por estarem juntas. A arte é um refúgio e a relação delas é uma parceria. Em casa adoram assistir Simpsons, Friends, cozinhar e durante o preparo da comida fazer pausas para dançar… Também trocam momentos de criação pintando telas, criando plaquinhas e decorações para a casa, amando os filhos de quatro patas e cuidando das plantas na varanda. Não só juntas, elas também falam da importância dos momentos de solidão. De reflexão e estudo - tanto de livros quanto de estudar a si mesmo. Para a Karine, o amor veio num entendimento sobre quem ela é e isso levou muito tempo, porque ser uma mulher lésbica artista já é um processo de autoconhecimento imenso para sair de muitos padrões e “caixinhas” que nos são colocadas. “Estar livre disso e aberta para que alguém possa te olhar e te amar é um dos passos mais importantes”. Então amar a si mesma e amar a Marcella foi um processo que aconteceu de forma natural (não fácil, claro), mas na dor ou na felicidade, foi acontecendo diariamente. Essa relação de autoconhecimento reflete na Marcella através do respeito a si própria, pois ela conta que antes ela não se via com tanto respeito - hoje ela aceita que adora dançar, por exemplo, e dança! Ela respeita quem é e respeita quem a Karine é. E isso é um dos maiores aprendizados que tira da relação. No fim da nossa conversa tiramos um outro aprendizado, sobre a expressão artística em si no que envolve esse amor além do preço que colocamos nas coisas, pelo puro sentimento de quem somos e do que gostamos/amamos fazer. A Karine dá o exemplo de que uma vendedora pode continuar sendo vendedora e cantar super bem, ou um motorista de ônibus pode ser o melhor motorista e mesmo assim um ótimo pintor… a arte deveria ser vista enquanto uma conscientização social sobre a importância de fazer arte, da expressão artística, do quão essencial para o ser humano ela é - para isso, enfim, gerar coisas boas para o nosso redor enquanto sociedade. E viver essa arte, para fora do capitalismo (ou seja, você não precisar vendê-la para ganhar dinheiro/nem tudo o que você tocar precisa virar ouro) é o que elas gostariam de ver sendo refletido por aí. Marcella Karine
- Carol e Marlise
Foi num impulso pelo início (e pela incerteza) da pandemia que a Carol e a Marlise começaram oficialmente o relacionamento. A Carol tinha acabado de se mudar para São Paulo, mas é natural de Porto Alegre e foi lá que conheceu a Marlise, um tempo antes dessa viagem. Entre a decisão, o ato de comprar a passagem e a mudança em si, elas viveram shows, um réveillon, saídas com amigos e a Marlise viveu até com muletas porque tinha quebrado a perna. Mas não teve jeito: o dia chegou e a Carolina foi para São Paulo. A primeira reação foi mais abrupta: não se falaram mais. Acharam melhor deixar para trás os momentos bons que tinham dividido e seguir cada uma suas novas vidas de 2020 em diante. Mas é aquela coisa, né? A gente não escolhe coisas do coração (pra quem é de coração) e nem de destino (pra quem é de destino). E quando elas voltaram a conversar, a Marlise combinou de ir até São Paulo fazer uma visita e comemorarem seus aniversários, visto que as datas são bastante próximas. Porém, um pouco antes do dia da viagem chegar, foi anunciada a quarentena e o isolamento social em São Paulo, ou seja, tudo estaria cancelado e a Carol ficaria lá sozinha - enquanto não fazíamos ideia de como isso seria, quanto tempo levaria e como reagiríamos. Foi por todas as incertezas que a pandemia (e, principalmente, o começo dela) nos causou, que a Carol decidiu comprar a passagem e voltar para Porto Alegre. Quando elas se reencontraram, ficaram juntas e cá estão, até então. Houve um momento do qual a Carol chegou a voltar para São Paulo, alguns meses depois, para buscar coisas que tinham ficado por lá, mas decidiu que ficaria de fato em Porto Alegre com a Marlise. Elas contam que sempre se deram muito bem e que isso sustenta muito o relacionamento. Conversar sobre tudo e ser realmente uma parceria, independente das situações externas, é o mais importante. Falam como haviam muitas coisas colaborando no entorno para que desse errado: elas estavam dentro de um apartamento relativamente pequeno - estavam num processo de conhecimento ainda - a pandemia gerava muitas pressões e ansiedades - o país enfrentava momentos muito ruins - e todo o sentimento de luto presente naquele momento… mas que, mesmo com todas as condições adversas, elas mantinham uma relação de muita conversa e se divertiram muito juntas. Durante as rotinas e os dias a Carol é uma mulher que adora cozinhar e está sempre preocupada com a alimentação. Ela brincou que de repente muda até de carreira, se continuar recebendo os elogios pelas comidas que faz, mas a verdade é que sua paixão mesmo é pela escrita. Ela entende que se comunica melhor escrevendo e que a literatura é uma grande aliada. Já a Marlise adora inventar coisas. Ela disse que isso é muito para “tirar as coisas da cabeça”, por se sentir sobrecarregada com auto questões, acaba inventando coisas, mudando móveis, fazendo e produzindo o que movimente o corpo fisicamente. Juntas, elas adoram passar um tempo com os animais em casa e contam que eles foram grandes responsáveis pela casa ter se mantido tão feliz durante o período de isolamento que vivemos. A Carol estava com 29 anos no dia em que fizemos a documentação, ela é natural de Porto Alegre, cursou letras, mas trancou a faculdade, não completando-a. De qualquer forma, trabalha na área desde 2012, traduzindo textos, livros e também faz trabalhos autônomos. A Marlise também estava com 29 anos no dia da documentação. Ela cursa medicina, é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, e nos contou sobre o impacto da pandemia nos estudos dela e na faculdade. Mas também, sobre a importância do trabalho enquanto uma ferramenta sob o que ela acredita, enquanto assistência social às pessoas. Durante uma live da cantora Ludmilla, na quarentena, a Marlise pediu a Carolina em casamento. Na hora, ela nem acreditou e a Marlise teve que refazer o pedido no dia seguinte! Hoje em dia, os planos estão sendo feitos e pretendem fazer a comemoração e a celebração assim que a pandemia finalmente acabar. Tanto a Carol, quanto a Marlise, acreditam que a vida não precisa ser tão imediatista e egoísta como tem sido. Elas falam sobre estarmos num espaço muito desorganizado, que não pensa no que realmente é importante… e esquecemos do que deveria ser essencial, como termos mais afeto e cuidado. Entendem que por serem duas mulheres que já enfrentaram muitos preconceitos, olham as coisas sob um novo olhar, pois não normalizam a violência ou a falta de educação e também não deixam de ser quem são por olhares tortos na rua (e por não serem aceitas em alguns ambientes). Entendem que a mudança só vai existir com compreensão histórica e cultural. Para Marlise, uma relação como a delas é muito pautada no respeito e na identificação, mas ela também traz muito uma admiração e inspiração que enxerga na Carol. Ela fala sobre essa inspiração por quem a Carol é, em tudo que ela já passou, e porque também se vê nela, mesmo que as trajetórias sejam diferentes. “O amor é o que guia a gente a ser diferente: ser melhor no que acreditamos ser o certo”. Para Carol, a relação delas está sempre envolvida de compreensão (e as relações entre mulheres, na grande maioria das vezes), porque acabamos tendo caminhos parecidos e encontramos em nós semelhanças e identificações. Mas em geral, essa compreensão fala sobre a capacidade de ver quem as pessoas são, o que são, e entender o que elas estão dispostas a trocar, não exigindo algo impossível de dar. Marlise Carolina
- Sofia e Carol
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Sofia e da Carol, quando o projeto passou por São Paulo! Entre tudo o que gostam de fazer juntas na rotina caseira num apartamento no centro de da cidade, Sofia e Carolina descobriram o maior dos hobbies em comum: o gosto pelo café. Apelidaram carinhosamente de “ritual”, mas estudam, adoram organizar todos os equipamentos e descobrir novos tipos de grãos. É o momento mais precioso dentro de casa. Sofia, no momento da documentação, estava com 47 anos. Ela é natural de São Paulo, trabalha com um blog de viagens e morou um tempo em Salvador. Carol, no momento da documentação, estava com 38 anos. Ela também é natural de São Paulo e trabalha enquanto fisioterapeuta. Brincam sobre como são pessoas preguiçosas, porque só vão em shows que tenham assentos e que não são muito festeiras, não curtem muito viver o carnaval. Por outro lado, adoram explorar a cidade de outras formas, como andar de bicicleta e de moto. Desejam em breve começar viagens juntas de moto para lugares um pouco mais distantes que o comum. Carol entende que foi Sofia quem trouxe ela de volta à vida através do amor. Foi esse amor que permitiu um redescobrimento sobre quem ela era: desde usar o cabelo que sempre quis (mas que nunca pode por conta de outro relacionamento bastante abusivo), até usar as roupas que deseja sem sentir medo de acharem que ela “está muito sapatão”. Entende, agora, que isso nem é um problema - o problema era ela não viver a vida antes. Hoje, acredita nas energias, nas espiritualidades. Sente que o caminho delas estava para se cruzar há muito tempo e que isso só aconteceu para crescerem juntas, pois estão sempre dispostas uma para a outra. Foi através do Happn, um aplicativo de relacionamentos, que o caminho delas literalmente se cruzou. Sofia, antes de entrar no aplicativo, foi casada por 11 anos. Decidiu baixar e se render à tecnologia porque antes, em outra época, isso não era possível. O ‘match’ aconteceu no final de dezembro, dia 28, mas não se encontraram até o réveillon (ela tentou, Carol não se sentiu confortável sendo tão rápido). Dia 31, foi para Salvador, passar a virada do ano. Conversaram pelo Whatsapp por um tempo, compraram um ingresso para o show do Milton Nascimento que teria em São Paulo (e era uma boa desculpa para se encontrarem pela primeira vez). Porém, a conversa foi esfriando até a data chegar. Sofia estava decidida: iria se mudar para Salvador. Conseguiu um apartamento lá para alugar, conheceu pessoas e se interessou afetuosamente por uma delas… Quando voltou, não sentia mais tanto clima para interagir com a Carol, então marcaram de pegar o ingresso e tomar um café antes do show, como amigas. Inicialmente, a ideia não era nem verem o show juntas, se não sentissem à vontade. Mas ao chegar no café, conversaram por duas horas e se deram muito bem. Decidiram ir ao show, encontraram uma amiga da Carol antes, beberam cerveja e depois do show continuaram a noite em um buteco. Porém, mesmo ficando até 4h da madrugada na noite, existia uma questão: a mudança para Salvador era na manhã seguinte do show. Depois do buteco/e do show, quando chegaram em casa, se falaram pelo Whatsapp e abriram o jogo: sentiram muita vontade de se beijar. Até cogitaram se reencontrar, mas o dia estava quase amanhecendo, a mudança teria que acontecer, Sofia também pensou na pessoa que gostava em Salvador e seguiu seu caminho. Carol ficou triste, passou uns dias bastante abatida, parecia que tinha vivido um término de namoro. No dia 2 de fevereiro, logo em seguida, chegou a ir para Salvador porque já tinha a viagem agendada com uma amiga, mas lá não encontrou Sofia. Depois disso, a pandemia começou e ficou tudo mais difícil. Sofia começou relacionamentos por lá, mas seus planos de viver a cidade em si não deram certo, acabava a maior parte do tempo trancada em casa. Carol, por sua vez, vivia outra situação em São Paulo. Conta que por cerca de 6 anos se relacionou com uma pessoa, que chegou a morar com ela. Não era um namoro porque elas não assumiam (nem publicamente, nem aos mais próximos). Ela já tinha rompido essa relação, porém, quando a pessoa descobriu a existência da Sofia, ‘mudou’ suas atitudes e quis estar de volta. Acontece que as atitudes não mudaram, de fato. Aos poucos Carol entendia o quanto isso era abusivo. O fato de ter gostado de alguém virou um fantasma na vida dela, uma sombra. A pessoa olhava o celular dela o tempo todo, tudo virava uma briga, o nome da Sofia sempre rondava a casa. Acabou bloqueando Sofia no Instagram, como forma de tentar cessar as brigas. A importância que Carol vê em falar sobre essa vivência vai muito de encontro ao que ela viu na Sofia como uma oportunidade de viver algo que sempre quis, um relacionamento assumido, com afeto, sem cobranças sobre como ela deve se vestir, que respeita como ela é, com comunicação. Mas além disso, fala muito também sobre precisarmos falar que existem relacionamentos abusivos entre mulheres e que precisamos nos conscientizar. Não relativizar quando as pessoas nos fazem sentir mal, nos cobram, nos ditam o que devemos ser, desconfiam. É preciso buscar acolhimento e sair dessas situações. Depois desse hiato em que Sofia viveu Salvador na pandemia e Carol se livrou mais uma vez daquele relacionamento que vivia, decidiu adicioná-la no Instagram novamente, porém por outro perfil. Conversaram sobre a pandemia, sobre a vida, e passaram a se comunicar novamente todos os dias. Um tempo depois, Carol comprou uma passagem e foi para Salvador. Elas não sabiam se iriam se dar bem, era uma primeira convivência de dias, mas tudo deu certo. Depois disso, Sofia também veio a São Paulo, ficou um bom tempo. Aos poucos, foi conhecendo sobre a relação que Carol viveu e trazendo acolhimento. Queria muito pedir ela em namoro, achava que ela merecia isso, e o pedido acabou acontecendo nessa vinda, quando aproveitaram e foram para um chalé na serra paulistana. Viveram a distância Salvador - São Paulo por um tempo, ainda na pandemia, e estava tudo bem difícil. O contrato da Sofia estava próximo de vencer, então pensou em voltar para São Paulo. Decidiram morar juntas, justificam: “Se a Carol fosse morar em Salvador, ela iria morar comigo. Por que eu vindo pra cá não poderia morar com a Carol?”. Depois da mudança, casaram-se. No dia de Iemanjá. Sofia e Carol adoram as coincidências que possuem juntas. Para além do café, as músicas, os lugares… Sofia fala como é importante poder ser quem ela é de verdade com a Carol, como ela nunca tinha vivido isso de forma tão plena, a forma que se sente à vontade com alguém, em liberdade. Carol só conseguiu entender a relação que viveu depois que passou por tudo. Hoje em dia, valoriza o quanto ela e a Sofia podem ser quem são na rua, nas redes sociais, podem pegar na mão quando saem pela cidade. E aprende diariamente a viver uma relação saudável, a superar os traumas e a não querer pesar as coisas. Adora a rotina agradável que vivem. Ambas mudaram muito suas visões sobre o amor depois que passaram a se relacionar. Não são muito próximas de suas famílias e nem possuem um número extenso de amigos, mas os que existem são pessoas que amam, confiam, que estão na vida delas há anos. Entende respeitar o tempo de cada pessoa, o limite das coisas, é o essencial para que tudo dê certo. Querem um amor leve, que conversa e que entende. ↓ rolar para baixo ↓ Carolina Sofia
- Leticia e Thaysmara
A Thaysmara tem 22 anos, é natural de Fortaleza, capital do Ceará e trabalha na empresa que fundou junto com a Letícia, a Trevo. Lá, elas são artesãs, produzem diversos acessórios - e mais que isso, são empreendedoras, fazem artes gráficas, engajam com o público nas redes e enviam para todo o Brasil (vou deixar o Instagram aqui, então pra seguir é só clicar!). A Letícia tem 25 anos, é formada em Educação Física e no momento em que eu fotografei e conheci elas ela estava trabalhando em escala de ensino híbrido, ou seja, entre a escola e o home office. Letícia mora em Maracanaú, uma cidade que está localizada na região metropolitana de Fortaleza e se desloca diariamente até a capital. Conversando sobre esse método de trabalho híbrido e sobre tudo o que a educação brasileira enfrentou durante o período que vivemos - de pandemia - ela conta que se sente trabalhando muito mais que antes, principalmente, por estar atenta ao Whatsapp o tempo todo. “Temos que responder em qualquer horário, porque é o horário que o aluno está estudando. E se não responder, talvez ele não faça mais. Se eu responder só no dia seguinte vou perder o tempo, aí ele vai perder o interesse, pode estar ocupado, não vai voltar na dúvida que tinha antes… e eu vou perder meu propósito. Eu quero que ele aprenda”. Antes da pandemia, a Thays trabalhava com confeitaria junto com a madrinha dela, mas com a fundação da Trevo e os pedidos acontecendo, acabaram focando apenas em uma empresa. E a Letícia estava trabalhando enquanto auxiliar de treinadora no time de basquete que jogou por muitos anos - inclusive, é um dos seus hobbies: praticar diversos esportes como vôlei, futebol e, claro, basquete. No final de 2018, um pouquinho antes do natal, elas se conheceram. Foi por conta de um velho conhecido (Digo isso pelo tanto de vezes que ele já apareceu no site do Documentadas): o Tinder. Elas deram “match” e conversaram pelo Whatsapp, viram que moravam relativamente perto e comentaram de se encontrar. O encontro só aconteceu mesmo cerca de duas semanas depois. Se encontraram em um bar (o que estava marcado para às 16h, virou 21h por conta de um atraso da Thays) e o encontro foi um pouco desajustado pela soma de fatos de que a Thays estava bastante tímida e a Letícia falando a maior parte do tempo para que tivessem assuntos. Depois do bar elas se beijaram, ali por perto e no final, acabou que não teve desajuste nenhum! Foi tudo bem positivo. Elas se viram nos dias seguintes do primeiro encontro e, mesmo que a Thays não fosse assumida para a família, ela chamou a Letícia para ir na casa dela (enquanto uma “amiga”). Ainda em dezembro, começaram a namorar. Mais especificamente, no dia 22. Porém, aconteceu algo bastante inesperado nessa história: Um dia depois do pedido de namoro elas saíram com alguns amigos para comemorar e foram em um restaurante. Na volta para a casa, estavam de moto e sofreram um acidente. A moto derrapou e elas caíram, se machucaram levemente (no sentido de ralaram o corpo, mas não tiveram fraturas) e estavam conscientes para ligar para os amigos. A Letícia chorou bastante, sentiu vergonha e achou que era ali mesmo o fim do namoro mais rápido que ela já teve, até que a Thays soltou a frase: “Agora a gente só termina quando a cicatriz sair”. E, bom, a cicatriz tá ali… E elas estão juntas. Não preciso falar mais nada, né? Porém, neste natal, para ninguém desconfiar e ver os machucados, tiveram que passar usando roupas de mangas compridas. Foi no começo do ano de 2019 que, ao vê-las saindo juntas o tempo todo, os familiares começaram a desconfiar que não seria apenas uma amizade. O padrinho da Thaysmara chamou-a para conversar e ela acabou contando. Não foi nenhum pouco fácil se abrir para a família, mas aos poucos, tudo foi acontecendo e ela passou a voltar a morar com a avó nesse meio tempo, também somando no processo do começo de relacionamento das duas. Hoje em dia, elas passam muito tempo na casa da Letícia, porque a mãe dela é muito tranquila (Inclusive, foi a mãe quem ‘tirou ela do armário’!) e gostam bastante de passar a semana toda juntas por lá. A Letícia conta que existiram muitos momentos difíceis nesses anos de relacionamento, mesmo que elas sejam pessoas super tranquilas e estão sempre rindo por aí. São nos atritos que elas entendem que lidam de forma diferente: ela prefere conversar na hora para resolver, já a Thays tem que ter um momento para pensar sobre o que está acontecendo. No fim das contas, sempre se entendem. A Thays completa que cada vez menos as discussões acontecem, num sentido de ‘briga’, porque sempre tentam prezar por um relacionamento mais equilibrado e tranquilo, já que as duas possuem personalidades assim. Elas entendem que não é um cabo de guerra, então quando elas 'cedem', não estão perdendo, mas estão cedendo porque uma tá precisando um pouquinho mais de atenção, de tempo, de cuidado que a outra. E que a briga é diferente da conversa, é aí que encontram bastante do amor que sentem, porque confiam para falar bobagem e dar risada, como também para ter assuntos sérios e confidenciar inseguranças que sentem. mar água de coco e ver o pôr do sol. A Letícia diz que amor, para ela, é um sentimento que não deve nos remeter a dor. E que quando você se sente amada, você vai sentir isso da forma que você é - e pelo jeito que você é. Já a Thays pensa no amor e lembra logo da infância. Do cheiro da comida e do carinho da avó. Ela diz que desde criança gosta muito de observar o céu… então pensa por um tempo e conclui: é isso que ela sente sobre o amor. Quando falamos sobre mulheres, ambas dizem se sentir muito mais seguras falando com uma mulher sobre qualquer coisa. Não que seja realmente uma relação mais fácil, porém você se sente num ambiente acolhedor, porque há mais empatia. A Letícia lembra da mãe, da avó e da tia… fala sobre as mulheres que participaram da sua criação. E a Thaysmara conta a diferença que sentiu quando se relacionou com uma mulher, principalmente, na conversa em si - foi o espaço em que ela conseguiu se abrir de forma tranquila, sem o medo do pré-julgamento. Por fim, mas não menos importante, perguntei para as duas o que elas gostariam de ver acontecendo em Fortaleza e elas citaram mudanças na questão de infraestrutura e do transporte público. A Letícia conta que não conseguia ter dois empregos por conta da mobilidade não dar conta de levar as pessoas em um tempo útil atravessando alguns cantos da cidade e que, agora, tendo a moto, entende que é muito perigoso pelo risco que as estradas representam com a quantidade de buracos nas vias e pouca qualidade no trânsito. A Thays complementa que, além do que enfrentamos no cotidiano quando tentamos sair de casa, ela queria ver mais lazer nas comunidades e conseguir mais cursos voltados para a arte, pois todas as vezes que tentou se inscrever, enfrentou dificuldades - e que esses cursos realmente nos profissionalizem enquanto artistas - para que o mercado de trabalho também se prepare para nos receber. https://www.instagram.com/trevoacs/ entregam em todo o BR . Letícia Thaysmara
- Anik e Isa
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Anik e Isa, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! No início da conversa, Isabelle e Anik contam de onde surgiu a ideia dos nomes para os gêmeos Zuri e Nilo: ficaram muito tempo pensando referências que falavam sobre a ancestralidade da Isa, queriam nomes indígenas ou africanos, curtinhos como o nome da Anik, que significassem algo. Também pensavam no quanto a gravidez representou água, pesquisaram nomes de rios, sempre chegavam em diversos nomes femininos e também adoravam os nomes que serviam para ambos gêneros. Gostaram dos dois, e acabou dando tudo certo: ficaram felizes de gerar um menino e uma menina. Entendendo o projeto enquanto uma documentação do momento atual em que vivem, Isa e Anik fizeram muita questão de mostrar o quanto a gravidez foi parte de muita luta. Entendem que as crianças já possuem muita história antes mesmo do parto e que as mães sempre souberam que ia dar certo pelo quanto de energia que colocaram nisso. Mesmo que muita coisa tenha dado errado no caminho, continuaram sabendo o quanto resultaria em algo concreto/e correto pela energia que destinavam. Isa comenta o quanto deseja que as crianças sejam acolhidas em suas escolhas. Entende que não tivemos o mesmo privilégio e que por isso morremos em vários níveis durante a nossa vida, por isso quer proporcionar algo diferente à elas, começando pelo respeito. Escolhemos o lugar para fotografar como a Câmara dos Vereadores, no Rio de Janeiro, com essas roupas, para que as crianças vejam no futuro que a luta vem desde sempre para que elas possam ser quem desejam. O afeto sempre vai existir, o romantismo, mas o destaque na documentação quanto à gravidez foi a luta que passaram para chegar onde estão porque também precisamos nos refazer entre os novos algoritmos, rostos e famílias que ainda não nos vemos. Isabelle no momento da documentação estava com 32 anos, é natural do Rio de Janeiro, trabalha na UFRJ como coordenadora de ensino e também é advogada. Anik no momento da documentação também estava com 32 anos e também é natural do Rio de Janeiro, trabalha enquanto pedagoga e é advogada, agora especialista em causas LGBTs. No primeiro ano de relacionamento, Anik e Isa cancelaram suas carteiras da OAB, achavam que advogar era lidar com muita burocracia e estavam bem frustradas em suas carreiras - tanto que partiram para uma área mais pedagógica. Quando nos encontramos fazia cerca de semanas que tinham pego de volta sua carteira para voltar a exercerem seus papéis, vontade que surgiu após a gestação, dando início também ao Instagram que criaram e que alimentam hoje em dia: o @duplamaternidadecritica. Isabelle sempre sonhou com a maternidade, mas não foi fácil achar informações sobre os métodos e como um casal composto por duas mães poderia engravidar. No começo, tentaram a inseminação (cujo não deu certo) e depois tentaram a FIV (fertilização in vitro) de uma forma que reduzissem os custos fazendo doações de óvulos para a clínica. O começo do processo foi muito difícil, viveram situações que entenderam ser erradas e por isso enfrentaram discussões, brigas, processos e enfrentamentos com a clínica até chegar à direção da empresa. Depois, entenderam que se estavam passando por isso, outros casais poderiam passar também… e decidiram educar e prestar auxílio: tanto à clínica quanto às pessoas que procuravam esse tipo de serviço, por isso, fizeram o Instagram. Começaram a auxiliar a clínica na questão legislativa e educacional, mostrar como tratar casais LGBTs que procuram o serviço e também orientar pessoas LGBTs que passam por LGBTfobias a como saber seus direitos. Assim, surgiu uma nova ideia: para além de voltar a advogar com algo que faria sentido, teria propósito, também conseguiriam trabalhar de casa, dando cuidado e suporte aos gêmeos quando nascessem. Durante o começo da gravidez viveram diversos processos difíceis e se sentiam até mal em como tudo se tornou tão monotemático nas rodas de amigos e nos grupos de apoio que possuíam, mas não teria como ser diferente visto que era o momento que viviam. Justamente por ter sido muito marcante, não poderia passar sem resultar em algo realmente grandioso, que fizesse sentido em mudar as coisas - como esse divisor de águas em suas carreiras. Sentem que, se logo elas que possuem consciência sobre a legislação, não estiverem dispostas a tentarem mudar coisas… Como outros casais, que muitas vezes desconhecem os próprios direitos, iriam conseguir? Em diversas situações, por exemplo, não sentiam que eram tratadas da forma correta. Tanto nas questões de saúde - a própria doações dos óvulos da qual faziam Isa ter diversos sangramentos, questões biológicas do corpo dela, hormônios à flor da pele, oscilações de humor - quanto nas invalidações da voz da Anik. Ressaltam que ambos corpos poderiam gestar, porém optaram pelo sonho da Isa de querer gerar as crianças. Mesmo assim, o papel que precisavam assinar dizia que apenas a Isa era a mãe, a Anik era a responsável legal das crianças. Anik cita uma situação em que viveu jogando tarot em que a própria taróloga à colocou enquanto o pai das crianças… e que não, ela não é pai, é mãe também. Em nenhum momento as cartas falariam que ela é pai, isso é algo enraizado na cabeça das pessoas e precisamos mudar esses pensamentos - fazem questão de serem lidas enquanto duas mães, por isso acham tão importante a dupla maternidade. Por mais que as duas fizeram direito na mesma época e na mesma faculdade, não foi lá que elas se conheceram, mas sim através de um aplicativo de relacionamentos (bem conhecido por aqui: o Tinder). Anik morava na sala da casa de uma amiga e estava numa fase um pouco esgotada de usar aplicativos para conhecer pessoas. Isa era completamente o contrário: nunca tinha baixado aplicativos, nem usava Instagram ou Facebook, decidiu baixar porque uma das colegas de apartamento se mudou e estava se sentindo um pouco sozinha, queria novas companhias para passear pelo Rio. Baixou no intuito de fazer amizades, mas cheia de receios. Conheceu a Anik no primeiro dia e, literalmente, no dia seguinte excluiu. Era fim de ano e elas demoraram bastante para se encontrar, Anik estava finalizando o ano letivo, fez um mochilão e só em fevereiro do ano seguinte (2019), por um impulso da amiga (e dona do apartamento cujo ela morava na sala), chamou Isa para ir lá um dia à noite. Isa já estava de pijama em casa, vendo um álbum de fotos reveladas, mas colocou uma roupa e foi. Anik estava há muito tempo sem ficar/se relacionar com alguém e sentia que se conhecesse a Isa iria “abrir um portal”, alguma coisa iria destravar, acontecer ali. Enquanto a Isa se arrumava para chegar lá, Anik surtou. Foi tomar banho, ficou nervosa, já estava arrependida de ter convidado. Como Anik era pedagoga, na época tinha várias fotos com crianças… E Isa sempre quis casar e ter filhos, então rolou uma piada interna com a amiga que dividia apartamento com ela antes de sair, dizendo: “Amiga, beleza vai lá… Mas assim, se você decidir casar, me avisa com antecedência porque preciso achar lugar pra morar, tá?”. Acabou que tinham vários amigos na casa, Isa se deu bem com todos e Anik estava tão nervosa que elas mal conversaram. Ficou o tempo todo em silêncio enquanto Isa interagia com as pessoas. Elas nem se beijaram, e foram conversar e interagir mesmo em outros encontros seguintes. Até que não se desgrudaram. Na terceira vez falaram te amo, se sentiam vivendo uma grande história de amor… Anik precisou voltar para a casa da mãe dela, um tempo depois foi expulsa e, em pleno dia das mães, chegou na casa da Isa com um mochilão e de lá nunca mais saiu. Em 2021, casaram, já pensando no quanto isso era importante legalmente na hora de ter as crianças. Planejaram uma casa, escreveram tudo o que gostaria que existisse nesse lar, e acharam uma que era exatamente como sonhavam (incluindo a banheira!). Anik explica o quanto aprendeu sobre o amor nesse processo. Para ela, amar é trocar energias - e todas as pessoas trocam energias o tempo todo. Mas o amor e o afeto são energias especificamente poderosas e nelas envolvem resistências, momentos não tão fáceis e bonitos. Isa completa que para isso existir é preciso muita parceria, porque nesses momentos existem também muitos perrengues. Para ela o amor se move através da admiração, não consegue estar com pessoas ou em espaços que não admira. Por fim, mas não menos importante, elas contam que sempre pensaram como seria trabalhar juntas. Sempre sentiam que daria muito certo e quando aconteceu foi um totalmente inesperado de: “Uau! Aconteceu!”. Tudo se encaixou. Virou algo muito político e necessário que almejam. O direito foi como um caminho sem volta, porque ficar só falando não adiantava, era necessário mudar na base. E hoje em dia, quando chega alguém nas suas redes pedindo ajuda, veem que deu certo. Entendem, também, que fazer o que fazem foram seus próprios processos de cura - viveram um período de isolamento muito grande e ter o perfil no Instagram, compartilhar suas vivências, dores e reviravoltas fez com que fossem acolhidas, ajudassem e também tivessem ajuda, ressignificassem as coisas. ↓ rolar para baixo ↓ Anik Isabelle
- Luciana e Joana | Documentadas
Amor de Flor - Luciana e Joana clique aqui e acesse nosso audiolivro
- Yasmin e Juliana
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Yasmin e da Juliana, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! A história da Juliana e da Yasmin te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥ Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D O momento mais difícil que passaram juntas foi a chegada da pandemia, porque elas tinham uma realidade bem diferente em 2019, muito mais aberta e com maior liberdade aos encontros. Com a chegada da quarentena decorrente do Covid-19, elas passaram MUITO tempo distante, muito mesmo! Foram um total de 7 meses. A pandemia causou muito pânico na Ju porque toda a família dela se encaixa em grupos de risco e ela sentia muito medo de que algo pudesse acontecer com eles. Ainda sente, é claro, mas o risco estava maior por conta da avó dela, com mais de 90 anos, estar morando com ela. Não tinha a possibilidade dela sair de casa e, por mais que a Yas estivesse com muitas saudades, ela realmente entendia a situação. A relação delas é baseada em muita conversa. Elas se apoiam bastante e conversam sobre tudo, dialogam sobre o que sentem. Hoje em dia elas conseguem se encontrar, a avó dela já não está mais residindo no Rio e elas seguem se cuidando bastante, mas conseguem se ver com maior frequência. A Yas comenta que foi como um relacionamento à distância estando na mesma cidade e elas brincam que mesmo tendo sobrevivido, não querem passar pela experiência novamente. Hoje em dia elas dão muito valor aos momentos juntas, desde que seja assistindo filmes bobos de clichês adolescentes, ouvindo todos os tipos de músicas ou deitadas na cama sem fazer nada, desde que estejam fisicamente no mesmo lugar. Foi no centro, inclusive, que elas se conheceram - em um encontro marcado através de um aplicativo de relacionamentos - o famoso Tinder. Elas não entendem até hoje como conseguiram dar “match” (o famoso combinar perfis), por conta de morarem muito distantes uma da outra e não colocarem uma localização que alcançasse tudo isso, mas conversaram, se deram bem e marcaram de se encontrar. O encontro rolou em um local também muito clássico de encontros de Tinder, o CCBB, um Centro Cultural. Porém, chegando lá, enfrentaram uma fila muito grande, desistiram e decidiram ir até a Escadaria Selarón (o local em que fizemos as fotos), um lugar que costumava acontecer rodas de samba, ter feirantes e bastante movimentação. Yasmin tem 23 anos, trabalha com telemarketing e mora em Bangu. Tem como referência familiar a mãe e é suuuuper tímida. A Juliana tem 22 anos, é professora de inglês e também trabalha corrigindo redações, ela estuda Letras - português/inglês e ama literatura. No dia do encontro, foi desenvolvendo o papo e com o apoio de várias cervejas&caipirinhas que a coisa foi fluindo, até que ficaram e a Ju chamou a Yas para ir até a casa dela (lá no Cordovil). Só que tinha dois detalhes importantes: 1. a Yas não sabia onde esse bairro ficava e 2. a Ju morava com os pais, que não sabiam que ela beijava mulheres. Descartando totalmente a importância desses dois detalhes (afinal, quem nunca?) (mas não façam isso, tá? saibam o local que vocês estão indo, principalmente no primeiro encontro!), a Yasmin acabou indo para a casa da Ju e chegando lá deu de cara com os pais dela. Foi tudo tranquilo (para todos, menos pra Yas, visto que ela realmente é bastante tímida), mas ela se passou pela amiga que morava longe e dormiu lá tranquilamente. Com o passar dos dias elas se encontraram mais uma vez, em Madureira, e assim foram amadurecendo a ideia de terem um interesse mútuo, se relacionarem, até que isso virou de fato um relacionamento, ainda em 2019. Hoje em dia, ambas famílias já sabem e as apoiam enquanto um casal, ficou tudo muito mais tranquilo! ♥ A Yasmin e a Juliana acreditam que amar é tentar, ao máximo, não ter medo. Entendem que na vida a gente sente medo, mas que o amor envolve também se permitir sentir esse medo. A Yas comenta que entendeu mesmo o que era amor quando se apaixonou pela primeira vez por uma menina, que sentiu esse nervoso no peito, esse brilho no olho. E hoje em dia ela ama amar a Ju e cultivar esse relacionamento. As duas são cariocas e sempre viveram no Rio, mas moravam em bairros um tanto distantes do centro quando se conheceram - a Yasmin em Bangu e a Juliana no Cordovil (e distantes entre si também). Elas comentam o quanto é diferente andar no centro da cidade e em seus bairros enquanto duas mulheres que se relacionam afetivamente com outras mulheres, recebem outros olhares, possuem outro tratamento. Elas gostam muito do centro e frequentavam bastante antes da pandemia, aqui sentiam a vida mais aberta a novas oportunidades. Yasmin Juliana
- Evelyn e Ana Clara
Somos um projeto que conta a história de mulheres que se relacionam com mulheres. Documentadas caminha ao lado do empoderamento da comunidade LGBT Vem conhecer a história da Evelyn e Ana Clara, quando o projeto passou pelo Rio de Janeiro! Ana Clara e Evelyn começaram o relacionamento durante a pandemia e viram suas percepções sobre compartilharem momentos mudar diversas vezes: primeiro, viviam entre as chamadas de vídeo do Zoom, assistiam séries dando play no mesmo instante; depois, começaram a se encontrar no condomínio em que Ana mora, com cuidados e apenas na parte externa, mas planejavam a vida voltando ao normal, faziam lista do que gostariam de realizar quando desbravariam a cidade juntas. E, hoje, ficam muito felizes em perceber que já fizeram várias coisas, mesmo que sem planejar tanto: caminham pelo Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, vão aos seus restaurantes favoritos, visitam amigas e se encontram com frequência. Para Evelyn, amar é se sentir confortável ultrapassando uma barreira do medo. Por isso, elas constroem espaços na relação que sejam adaptáveis para que se sintam bem. Gostam desse amor que sentem fluir diariamente. E, além disso, fazem questão de mostrar que são um casal - acreditam que isso é muito importante enquanto uma forma política de ser, mesmo que tomem muito cuidado com a sua segurança. No momento da documentação, Ana estava com 24 anos. Ela trabalha enquanto psicóloga e segue em constante estudo. A Evelyn também estava com 24 anos e atualmente trabalha enquanto designer de interiores no Rio de Janeiro. Sobre seus gostos em comum, elas chegam com uma curiosidade: as duas são apaixonadas por Titanic. Segundo a mãe de cada uma, tudo isso aconteceu porque, quando estavam grávidas, elas foram ao cinema assistir o filme. Então acreditam que desde a barriga gostaram do filme e, até hoje, se emocionam e assistem inúmeras vezes. No dia a dia, adoram frequentar restaurantes, beber vinho, viajar e ficar na casa dos amigos enquanto eles viajam - inclusive, cuidam muito bem dos lares, imaginando o momento que terão os seus cantinhos. Em 2017, numa coincidência de um amigo em comum levar a Ana no aniversário da Evelyn, elas se conheceram - mas não interagiram e não lembram muito desse dia. Foram se conhecer pela segunda vez (e interagir de verdade), efetivamente, já em 2018, quando o mesmo amigo convidou ambas para uma confraternização de pré-natal. Como ambas moram numa região mais distante do Rio (mesmo que próximas uma da outra) e a confraternização era por perto, elas toparam na hora! Chegando lá, se divertiram bastante, interagiram e jogaram cartas, videogame etc. Conversaram muito, trocaram várias ideias, um interesse até tentou surgir, mas nada foi cogitado quando a Ana descobriu que a Evelyn estava namorando. O tempo passou, elas se seguiram no Instagram, mas nunca mais interagiram. Em 2019 se viram duas vezes, mas sem grandes interações. Até que no fim do ano a Evelyn já estava solteira e perguntou para o amigo sobre a Ana - ele não perdeu tempo, sabendo do interesse mútuo, foi correndo contar. Ela reagiu com um áudio dizendo que era a notícia que ela precisava, que ela estava contente, com o astral lá no alto, etc. E nesse momento a Ana achava que a Evelyn sabia que ela tinha interesse, mas não, a Evelyn não fazia ideia (e também não tinha recebido o áudio através do amigo). Nos primeiros meses de 2020 elas não conseguiram se encontrar, então a pandemia de Covid-19 começou e, com isso, aconteceu um boom de chamadas online. Todos marcaram conversas em grupo, faziam coisas juntos e por mais que elas não conhecessem todas as pessoas na chamada, topavam entrar, interagiam e passavam horas conversando. Assim, foram realmente se aproximando: assistiam séries online juntas, faziam chamadas de horas e conversavam até tarde. Um tempo depois, a Evelyn precisou começar a sair para trabalhar e no dia do aniversário da Ana ela tinha um cliente no mesmo condomínio que a Ana morava. Decidiu levar um presente, fez uma caixinha com coisas que a Ana gostava e levou até a portaria do prédio dela. A fita, que enrolava a caixinha, nas cores do arco-íris, é usada por elas até hoje em todos os presentes. Ela chegou para deixar na portaria, mas não conseguiu: a Ana teve que descer e assim se encontraram pela primeira vez após a aproximação. Super nervosas e a Ana surpresa com o presente. Um tempo depois, decidiram se encontrar novamente no condomínio, caminhar por lá e aproveitar o dia. Depois que o encontro deu certo, começaram a repetir diversas vezes na semana: compravam vinho, sentavam na grama e assistiam séries, conversavam sobre a vida ou só caminhavam juntas. Um tempo depois, a Evelyn conheceu as duas melhores amigas da Ana. Elas foram até Copacabana, o lugar onde elas moram, e ficaram lá uma noite. Esse apartamento se tornou como um refúgio para a Evelyn e a Ana, porque é lá que elas passam diversos dias e, as amigas, agora formam uma família. Em outubro de 2020, num desses encontros no condomínio, Ana pediu a Evelyn em namoro. Relembrando o início, dão muito valor por esse namoro ter começado assim, com muita conversa, aos poucos, se permitindo o envolvimento, num ritmo totalmente diferente do que já vivenciaram: sem muito do convívio social porque a pandemia não permitia, algo muito mais íntimo. Hoje em dia, por mais que tenham rotinas bastante cheias e nem sempre conseguem se encontrar, tentam manter os hábitos iniciais: de se ligar todos os dias e assistir coisas juntas de forma online. Além disso, também fazem viagens juntas e ficam na casa das amigas em Copacabana. Nessas idas, elas acabam vendo o nascer do sol, por ser perto da praia: adoram o silêncio desse momento da manhã, são pessoas bastante diurnas e comentam que gostariam de aproveitar isso com mais segurança. Nas viagens, sempre que perto da praia, tentam ver o nascer do sol. É algo que faz parte delas e dos momentos preferidos que vivem juntas. ↓ rolar para baixo ↓ Ana Clara Evelyn
- Mari e Reylibis | Documentadas
Amor de Outros Lugares - Mariana e Reylibis clique aqui e acesse nosso audiolivro
