a palavra está com elas


 

Rebecca: o que eu queria dizer, é que a sua família pode não te aceitar agora, mas tenha certeza que aos poucos tudo vai melhorando. Quando você tiver independência, cara, vai viver. Não é porque é a tua família que eles podem te atingir dessa forma. Vá viver o seu amor, vá viver com quem você ama. Tenha respeito por eles, mas seja independente.  
 

Priscila: o principal pra mim é: se você tem uma família que não te apoie, não te respeite... não se esconda. Se você está num ambiente hostil, tente buscar essa independência que a Rebecca comentou. É muito ruim um LGBT, que já não tem aceitação e oportunidade da sociedade, ter que ficar se obrigando a passar por isso dentro de casa em troca de migalhas. Invista em você mesmo, se aceite, se ame. Não duvide de quem você é. E se você cair, levanta para ir em busca da sua independência - ter forças para construir tudo ao seu redor novamente.


 

A história da Rebecca e da Priscila te ajudou de alguma forma? Gostaria de mandar uma mensagem para elas? Vem cá que conectamos vocês ♥

 

Tem alguma proposta de trabalho para elas? Opa! Pode mandar por aqui! 

 

Quer contribuir financeiramente com o Documentadas para conseguirmos registrar cada vez mais casais por esse Brasilzão? cá entre nós, é muito fácil! Se liga no PIX, aqui :D

Perante as questões dentro de casa, elas sentem que não existem problemas entre elas - na relação em si. Os problemas são sempre sobre o cotidiano e sobre a moradia, mas elas, enquanto casal, tem uma conversa aberta e se apoiam muito juntas. Sonham com o momento em que a Rebecca vai se formar (em breve!) e que poderão deixar de fazer o DogHero, para assim poderem alugar um apartamento e viver entre suas profissões, nos hospitais e nas indústrias. 


 

Elas passaram por muito terror psicológico pelo medo de trocarem carinhos dentro de casa, por conta do preconceito. A Rebecca, durante a nossa conversa, comenta sobre a LGBTfobia e sobre como a dor fica mais forte sendo vivida dentro de casa. Mas entendem que este é um período provisório e que logo vão se estabilizar e ter seu próprio cantinho. 

 

Para a Priscila, amor é se doar. Doar tempo, doar cuidado, doar atenção. Elas comentam que isso sabem fazer muito bem: amar (e por decorrência, se doar). Se doam para ver a família bem, o relacionamento bem, a amizade entre o casal sempre cultivada e cuidada. 

 

Se tem uma coisa que gostam muito de fazer, essa coisa é conhecer novos lugares. Gostam de ir para os bares, mesmo quase não tendo feito isso em 2020 por conta da pandemia. Gostam de viajar, de ver gente. 

 

O que mais fica claro, durante toda a conversa, é o quanto o amor delas significa parceria. Tentam dividir qualquer tipo de peso juntas, não soltam as mãos nunca. 

A mudança da Priscila para o Rio foi muito significativa e extremamente fundamental para o relacionamento delas. Estava muito difícil manter a distância e a Pri já estava em busca de faculdade e trabalho pelo RJ, foi então que a avó e a tia da Rebecca estavam morando num apartamento da família dela e estava sobrando um quarto lá e surgiu a ideia dela fazer a mudança. Foi tudo planejado com cuidado, então a Priscila chegou na cidade já tendo emprego e estudo garantido. Porém, no meio da mudança, ainda existia um problema: ninguém da família sabia que elas namoravam. Aos poucos foi ficando mais claro, a tia da Rebecca hoje em dia adora a Priscila, e por problemas de saúde, acabaram todas se mudando daquele apartamento: foram morar na casa da Rebecca e dos pais dela. 

 

É uma casa grande, com os pais, a avó, a irmã, a tia, os bichos… e elas. Até o momento elas não possuem autonomia enquanto casal, porque mesmo que todos já saibam que elas namoram, acabam vivendo como amigas dentro de casa. Sentem falta da privacidade, de poderem trocar algum carinho. A pandemia têm sido um desafio muito grande, primeiramente pela Rebecca ser da área da saúde e estar trabalhando em hospital, depois por serem as mais jovens elas acabam fazendo tudo na rua para que os outros familiares não precisem sair. Como um todo, é desgastante e cansativo a rotina de cuidar da casa, da saúde dos parentes e dos cachorros, mas elas têm levado isso juntas. A Priscila faz de tudo para agradar a família da Rebeca e assim vai conquistando mais confiança também. Hoje em dia, mesmo a sogra tendo diversos problemas envolvendo preconceito, ela está muito mais tranquila e aceitando dia após dia a relação.   

Rebecca tem 26 anos e está terminando a faculdade de medicina, mas também adora mexer com design gráfico e sente muita vontade de um dia fazer um curso de fotografia. Priscila tem 28 anos, é engenheira e trabalha em uma indústria fazendo a programação da produção, mas sua paixão mesmo são ourives (trabalhar com ouro) e sonha em fazer engenharia de minas. 

 

Elas amam animais, principalmente cachorros. Além da Agnes, sua petfilha, existem diversos outros cachorros na casa da mãe da Rebecca, local em que elas moram. Acabam atuando enquanto DogHero também, por garantir uma renda extra e aumentar o amor pelos bichanos. A Agnes foi adotada e chegou como um presente da Priscila para a Rebecca, ela é totalmente companheira das duas, não deixa elas sozinhas, ama igualmente. É uma relação de muito carinho. 

 

A Agnes ama a praia - e foi esse um dos motivos por termos escolhido este local para nos encontrarmos. Mas, além disso, a praia significa liberdade para elas. É o local que elas costumam ir muito, foi palco do pedido de namoro, o lugar onde abraçam e beijam sem medo e sem vergonha. É onde passam o dia felizes.

A Priscila sentia muito receio de se envolver com alguém… e foi vindo para o Rio durante alguns meses quando percebeu que seu sentimento estava se fortalecendo, causando um grande medo (leia-se, desespero) por não querer se envolver num relacionamento. Quando a ficha caiu já era um pouco tarde, pois estavam, com todas as amigas, embarcando em uma viagem para a serra. A única reação da Pri nessa viagem foi se afastar brutalmente da Rebecca... falava pouco, ficava longe, se fechava de tudo. E aí, mais uma vez, entra quem? Natasha. 

 

Natasha conversou com a Priscila durante um bom tempo, incentivando uma nova chance para a Rebecca, falando sobre o quanto ela era uma pessoa legal e o quanto elas mereciam ser felizes juntas. Ela resolveu dar essa chance, mas o começo foi muito turbulento, porque toda vez em que a ficha caia, ela automaticamente tentava se afastar. Lidava com bastante medo. Até que a Rebecca colocou um basta por não querer mais viver esse “efeito sanfona” e disse que elas deveriam conversar abertamente cada vez que isso acontecesse para que assim pudessem encontrar o melhor caminho juntas. 

 

Foi no ano novo, alguns meses depois, que rolou o pedido de namoro. De 2016 para 2017, em meio ao réveillon na praia, a Rebecca fez o pedido. A Pri aceitou, foi lindo. Mas todo bom ano novo começa com uma boa história, e nesse caso, a Priscila ficou tão bêbada ao ponto de esquecer do pedido. No dia seguinte soube porque a Rebecca contou, rindo muito. 

Se vocês acreditarem que existe algum cupido por trás de cada amor, com toda a certeza, nessa história, o cupido se chama Natasha. 

 

Natasha é prima da Rebecca e foi a grande incentivadora da formação desse casal. Para vocês entenderem melhor como isso tudo começou, a Priscila morava no Espírito Santo e a Rebecca no Rio de Janeiro. A Pri era amiga da Natasha, se conheceram através de um grupo online. Em 2012 a amizade se desenvolveu e em 2014 resolveram ir juntas para alguns shows que teriam no Rio. Foi aí que a Natasha apresentou a Pri e a Rebecca, mas de cara elas não se deram bem, ou melhor, nem se olharam direito. Com as vindas da Priscila para o Rio se tornando mais frequentes, a Natasha praticamente obrigou as duas a conviverem, então elas passaram a fazer parte do mesmo grupo. 

 

Viagem vem, viagem vai. E aí te pergunto, elas passaram a ser amigas? Claro que não. 

A Natasha fazia de tudo para juntá-las, mas elas ainda interagiam pouco e não se davam muito bem. 

 

Como elas acabaram juntas? te respondo aqui. Elas estavam em uma viagem e as amigas insistiam para que ficassem com duas meninas aleatórias, mas elas não estavam afim, então, dos males o menor: vamos ficar entre nós para não termos que beijar as meninas - porque mesmo não indo com a cara, ao menos a gente se conhece. E foi desse jeito que passaram toda a viagem sendo um casal. Foi como uma válvula de escape, mas contam que a Natasha, se pudesse, teria soltado fogos. 

 

Esse começo é muito engraçado e desajeitado, mas foi a partir daí que a Priscila começou a vir aos poucos do Espírito Santo para o Rio, fazendo viagens estilo bate-e-volta no fim de semana para ver a Rebecca.

 Rebecca 
 Priscila