A história da Kel e da Rachel começou um pouco antes e, por incrível que pareça, através do pai da Kel. O ano era 2016 e ele fazia aula de hidroginástica e quem dava essas aulas era a Rachel. Ambos se davam muito bem, brincavam, faziam piadas, se viam toda semana e ele sempre comentava com ela que queria muito levar a filha dele para fazer aula um dia porque acreditava que elas pudessem se tornar grandes amigas. 

 

Quando a Kel finalmente foi nessa aula, de fato elas se deram muito bem! A amizade surgiu logo de cara, não foi algo com segundas intenções. Primeiro porque a Rachel nunca cogitava se envolver com alguém em seu ambiente de trabalho e segundo porque ela também estava em um relacionamento de anos. 

 

Nas semanas seguintes a Kel iria voltar para as aulas, mas colocou alguns piercings e precisou ficar afastada da piscina por um tempo, então elas tiveram aquele contato inicial e passaram alguns dias afastadas. Neste meio-tempo, a Rachel, que estava no relacionamento, passava por um momento diferente. O relacionamento que vivia um processo muito mais de amizade que relação entre casal envolvendo paixão em si, foi surpreendido com um pedido de casamento! E esse pedido veio em um sentido de tentar dar um novo rumo para a relação, uma última chance. Envolvia um carinho bastante grande, mas não aquele impulso e desejo brilhando o olhar, foi uma tentativa de recuperação. 

 

Ela aceitou o pedido e colocou a aliança no dedo, mas não contou para os colegas de trabalho sobre. Estava em um processo mais intimista. Foi então, durante uma aula, que o pai da Kel logo observador e brincalhão percebeu o anel de ouro na mão e chegou perguntando o que era essa novidade que ela tinha para contar. Como ninguém sabia do seu relacionamento com uma mulher, ela - para todos os efeitos - estava noiva de um homem. 

 

Quando a Kel voltou, já sabendo da novidade pois o pai comentou em casa, teve a aula esperando que a Rachel comentasse. Animada, a cada intervalo esperava ouvir sobre o pedido, mas nada aconteceu... nem se quer comentou. E então ela questionou, já que gostava tanto de casamentos, não conseguia entender como alguém não compartilhava algo tão emocionante… e foi aí que a Rachel sentiu que podia confiar na amizade (mesmo que ainda breve) delas e elas marcaram um café depois da aula, lá que ela contou: “rolou sim o pedido e sim, aceitei. Mas eu vou me casar com uma mulher”.

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O sorriso que ele soltou naquele momento foi revolucionário. A cada momento em que eles se permitiam, esse amor se tornou revolucionário. O casamento delas, os convidados, o significado diário da casa, tudo isso é revolucionário, porque para elas estarem ali em um momento tão importante, sendo respeitadas, amando e podendo unir-se perante o matrimônio em si, muitas pessoas tiveram que lutar. E seguimos lutando pelas tantas mulheres que um dia poderão amar livremente, com suas famílias apoiando e se emocionando. 

 

A Rachel, termina falando sobre esse momento, bastante emocionada, mas me disse algo que marcou bastante e ecoou durante semanas na minha cabeça, uma coisa simples que a gente esquece: a ideia de que a vida é uma só. E que a gente não pode parar. Não vale a pena deixar pra depois, tem que amar mesmo, amar com vontade. O único egoísmo que a gente tem que ter é o de querer fazer o bem pra nós mesmas. 

 

Infelizmente, o pai da Rachel se tornou uma das vítimas da Covid-19 no Brasil. O Documentadas gostaria de homenageá-lo enquanto o homem forte, durão, porém com sorrisão, que tanto ouvimos falar bem ♥ e temos a certeza de que, de onde ele estiver, ele está tão orgulhoso quanto o dia que viu a Rachel dizendo “sim” durante o casamento: com a certeza de que criou e educou uma filha bem demais! 

 

À todas e todos que perderam algum familiar ou amigo para o Covid-19, nosso abraço e carinho. Seguimos juntas. ♥

 

Rachel, você é. É porque acontece! É porque é grandiosa! É! É um montão de coisa boa. 

Ou melhor, Raquéis, vocês são! :D

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Falamos bastante aqui sobre os pais da Kel, mas a família da Rachel também tem um papel incrível e emocionante nessa história. A Rachel foi adotada ainda bebê e os pais dela são mais velhos, assim como os irmãos. O processo de descobrimento e de saída do armário dela, ainda mais nova, em tempos diferentes e realidades diferentes, exigem outra perspectiva e outro entendimento.

 

Com a chegada da Kel e do relacionamento delas, foi a primeira vez em que a família da Rachel realmente se abriu para a aceitação da sexualidade dela enquanto uma nova formação de família e principalmente o pai, por ser um homem mais fechado, permitiu-se abrir a novos pensamentos e novas vivências, mas não só: as meninas brincam que toda vez que a Kel chegava na casa deles ele abria era logo um sorriso de orelha a orelha.

 

Ressignificação de lar. Esse é o nome do que ela sentiu. A Kel trouxe um presente gigantesco: ajudar ela a ressignificar a relação com a família de uma forma única. 

 

Durante o casamento delas foi muito legal ver a forma que eles se permitiram e se entregaram. O maior presente de todos foi a presença deles lá, estando à vontade, felizes e orgulhosos. Existe um vídeo, do qual as duas estavam de costas para o público e de frente para o cerimonialista e tem a imagem do quanto ele se emociona estando feliz quando a Rachel diz sim. Poucas vezes temos exemplos tão nítidos do quanto o amor entre mulheres pode revolucionar a vida das pessoas, e esse, com certeza, é um dos melhores exemplos que temos. ♥ 

Para o pedido de casamento acontecer, contou com seus dois grandes aliados: os sogros! Então ela ligou para o pai da Kel e disse: “quero pedir a sua filha em casamento, mas quero pedir a sua bênção, a sua ajuda, a sua permissão. Ela não sabe e não pode saber. Quero ter certeza que para você está tudo bem.”

 

Foi um novo choque, mas ele topou: “conta com a gente, estamos do teu lado! E eu quero te dar o champagne!”. Ela ligou para a sogra e o pedido também foi feito. Ambos ajudaram na preparação, escolheram alianças e a surpresa foi montada. 

 

No fim de 2018, a Rachel levou a Kel para ver um nascer do sol na praia, totalmente vazia, no interior de São Paulo. Quando elas chegaram, sentaram na areia, tudo estava no carro preparadinho e ela decidiu levantar e preparou uma cartinha para ler. Estava tremendo muito, a Kel achou fofo mas não imaginou que fosse logo um pedido assim… quando o pedido foi feito, o sol estalou e brilhou muito forte, se abriu e ela disse sim. ♥ Foram duas alianças de noivado e elas não ajoelharam, para que tudo fosse de igual para igual.

 

Em São Paulo, todos já aguardavam notícias.

 

O casamento aconteceu em setembro de 2019, em uma festa para os amigos mais queridos e em um dia muito especial. Tudo foi preparado pensando em cada detalhe e todos se divertiram muito.

O relacionamento foi se desenvolvendo e com o passar do tempo cada vez mais as duas se viam apaixonadas e entendiam o quanto a vida é realmente feliz uma do lado da outra. A Rachel comenta o quanto sempre foi claro para ela o amor nítido que sentia, o quanto isso realmente significava algo revolucionário, desde aquela época. 

 

A Kel conta que sentia o amor enquanto um sentimento puro. Com respeito, com cuidado. E a Rachel completa que por mais que o amor não tenha gênero e nem sexo, ele acontece principalmente quando você se vê capaz de amar uma pessoa na íntegra. 

 

Por fim, a Kel diz que Deus nos fez para amar o próximo e ela realmente acredita que, além de nos amarmos por ser o melhor a ser feito, amar é também um encontro de almas. Mas que de qualquer forma, independente da relação que você tiver, ela não pode ser pesada. Os encontros nas nossas vidas devem servir para nos acrescentar, não para nos pesar - e serem leves. “Se nascemos sozinhas, temos que estar bem sozinhas. Se for pra ser pesado e fazer mal, não vá. Você tem que ser leve, em geral, tem que te fazer bem! Pode ser que tenha um dia ou outro ruim, mas nunca que te faça mal.”

 

Foi em um período pensando sobre o amor e sobre o quanto gostaria de viver para sempre essa relação com a Kel que a Rachel tomou a decisão de fazer o segundo pedido, mas dessa vez, o de casamento!

O encontro da Rachel com o pai da Kel foi muito importante para que ele também entendesse que a Kel nunca deixou de amar as pessoas enquanto seres humanos. Por mais que pudesse soar que ela estava em um momento mais carente, ele de alguma forma ficou preocupado pela Rachel ter terminado um noivado por alguém que pudesse estar “em dúvida”. A conversa foi muito importante para explicar a existência da bissexualidade em si e as formas de amar, de deixar ele mais tranquilo como um todo vendo a construção do relacionamento das duas. 

 

A conversa fez com que ele falasse com a mãe da Kel e ela foi se abrindo para a ideia, até chamou a Rachel para comer uma pizza com elas e se deram muito bem. Foi uma chuva de elogios gigantesca para esses dois ♥ pessoas muito generosas e que estiveram o tempo todo na base e no apoio dessas mulheres que esbanjam amor. 

 

Essa “saída do armário” aconteceu apenas com os pais da Kel, isso é bastante importante e legal de ressaltar. Ela nunca precisou fazer esse movimento com os amigos. Apenas disse que levaria alguém no bar/no churrasco/no evento e chegava com a Rachel, não precisava dar nenhum tipo de satisfação ou explicar, assim como uma pessoa heterossexual não explica que vai chegar com um namorado homem. Ela chegava de mãos dadas e em dois minutos todos já estavam adorando as duas, porque viam o quanto elas se davam bem, tratavam os outros bem e se divertiam juntas. 

Logo depois do primeiro beijo a Kel foi para uma viagem com os pais, enquanto a Rachel conversou e terminou o seu relacionamento. Foi tudo com bastante comunicação e ambas entenderam que era o melhor a se fazer. 

 

Quando a Rachel e a Kel lembram sobre o começo do namoro, contam como tudo era muito especial. Os primeiros beijos foram muito marcantes, eram como os melhores beijos da vida, algo que elas nunca tinham sentido. Uns meses depois de estarem juntas e quando já se sentiram mais à vontade, relaxadas e tranquilas, a Rachel fez o pedido de namoro num lugar muito especial para elas e do jeito que a Kel sempre sonhou: aqueeeele pedido! Flores, champagne, alianças, tudo! Ela aceitou ♥

 

Um tempo depois, decidiram contar aos pais da Kel, visto que era muito importante para ela que a família soubesse do relacionamento. Elas não imaginavam como eles poderiam reagir, ainda mais por ser algo que nunca tivessem esperado e imaginado, mas compreendiam que eles fossem ter o tempo necessário para processar e elas estariam por perto dando suporte. 

 

No começo, eles sentiram um choque, ficaram mudos, não falaram nada. Mas também não brigaram, tentaram entender e ouvir ela. Os próximos dias foram difíceis pelo pai da Kel ter aula com a Rachel, mas em nenhum momento ele foi desrespeitoso, só deixou de fazer tantas brincadeiras com ela. No fim da aula, ela chamou ele para conversar e disse que estava disposta a tomar um café quando ele quisesse, no tempo dele, para falarem sobre. Ele agradeceu e explicou que ainda não estava preparado, mas que iria chamá-la quando estivesse. Uma semana depois o encontro aconteceu, tomaram um café e a Rachel se sentiu à vontade para contar a história dela, como ela se entendeu, se descobriu e o que ela sentia pela Kel. Explicou também que não era uma brincadeira, uma maldade, uma paixonite. Ele se mostrou muito aberto a entender o que ambas sentiam.

A Kel conta que nesse dia, quando ela soube sobre a sexualidade da Rachel, algo nela despertou como “caramba, a primeira mulher que cheguei a pensar sobre achar interessante também fica com mulheres... mas está noiva e vai casar! Sigo meu baile, quem sabe com ela posso compartilhar esse tipo de coisa futuramente.” e com o passar do tempo a amizade entre elas foi crescendo. Depois da aula elas marcavam cafés, a Rachel dava caronas para a Kel até em casa e tudo era bastante saudável.

 

Quanto mais aulas elas faziam juntas, mais se viam e conversavam, foi despertando vontades de se falar via Whatsapp e de se encontrar em outros momentos também - por mais que os encontros fossem sempre limitados às aulas. Mas isso fez com que surgisse algo como uma certa paixão antes mesmo de se envolverem fisicamente, já existia ali o começo de um sentimento. 

 

A Rachel não queria tomar nenhuma atitude por conta do seu relacionamento, não achava justo se envolver em uma traição. Nunca quis isso e por mais que estivesse cada vez mais claro que a relação não teria futuro, não queria que acabasse de forma tão ruim. Além disso, ela também não sabia se o sentimento era algo da cabeça dela ou se a Kel também estava envolvida da mesma forma, se um beijo colocaria em risco a amizade que elas construíram ou como ficariam. Não queria perder: nem o relacionamento, nem a amizade.

 

Foi durante um feriado que resolveu conversar com a Kel e falar sobre o que estava sentindo e ambas concordaram que na próxima vez em que estivessem juntas resolveriam se aconteceria o beijo ou não. Até que o dia chegou e, no último minuto possível do tempo em que tinham para ficarem juntas, aconteceu! E a partir daí elas tinham certeza: era, realmente, para estarem juntas.

Rachel e Raquel. Raquéis. Quando a Kel entrou em contato com o Documentadas, ela brincou: “queríamos contar nossa história para vocês! Temos poucas coisas em comum, além do nome, mas garantimos uma história legal!”.

 

Achei que o nome se limitasse ao Raquel, mas quanta ingenuidade a minha. Depois do casamento virou o mesmo nome e sobrenome! Agora, ao menos para as autoridades, são quase-que a mesma pessoa. 

 

Na nossa documentação para que a história não fique confusa, identificamos a Rachel sempre dessa forma: com ch. E a Raquel enquanto Kel :)


 

Bom, a Rachel é paulista, professora de natação, adora a natureza, sempre curtiu diversos esportes. Ela já teve outros relacionamentos com mulheres, mas nunca foi uma pessoa que falava sobre isso nos espaços de trabalho e que militava ativamente na pauta LGBT. Ela mantinha seus relacionamentos de forma estável fora do ambiente profissional (e tudo bem assim!). No mais, sempre foi apaixonada pelo mundo e por viagens, por conhecer lugares novos e por estar fazendo novas amizades.

 

Já a Kel também é paulista, publicitária, sempre foi uma pessoa apaixonada por histórias de amor e por casais - sabe aquela amiga perfeita para ser madrinha de casamento? Aquela que se empolga na organização, quer saber todos os detalhes sobre o pedido e que cada momento seja perfeito? É ela. Na vida da Kel, antes de ela conhecer a Rachel ela nunca tinha se imaginado em um relacionamento com outra mulher - nem tinha afetivamente se envolvido por uma mulher - mas sempre soube que era apaixonada pelas pessoas em suas formas diversas de ser. 

 Rachel 
 Raquel