Conheci a Paula e a Ana num almoço muito agradável e acolhedor que elas fizeram para me receber na casa recém mudada, no ano passado, em Porto Alegre. Lá também conheci o João, criança que me encantou desde o primeiro momento e que faz despertar muitas risadas de todas as pessoas que estão por perto.

 

O João é filho da Paula com a ex-companheira dela, mas que agora também forma uma família entre a Paula e a Ana, já que eles se divertem juntos e adoram estar um na vida do outro. Na casa-meio sítio, o João adora colher bergamotas, brincar com seu cãozinho Bidu, acompanhar a Paula e a Ana na cozinha, assistir documentários de bichos e comer doces.  

 

Na relação delas, tudo envolve muito cuidado. A Paula explica isso com uma reflexão sobre alguns padrões de gênero acerca das imposições que as mulheres passam durante a vida, e que agora, num relacionamento homoafetivo, tratam tudo de forma colaborativa e com muito acolhimento, para que as coisas sejam mais leves no cotidiano - e que assim, elas sejam mais felizes também. A casa estava recém tendo as coisas retiradas das caixas, mas já contava com muita confiança no que elas estão dispostas a construir juntas: o amor. 































 

A Paula tem 34 anos, trabalha como gestora de TI, desenvolvedora, artista visual e designer. 

 

Já a Ana, tem 35 anos, estudou Medicina Veterinária, mas não chegou a se formar. Passou a trabalhar na área da comunicação com mídia social, produção de eventos e produção cultural. Durante essa trajetória, já residiu em coletivos urbanos e rurais em Goiás, trabalhando nestes espaços, e também já trabalhou com algumas terapias integrativas, como massagem e Reiki. Atualmente trabalha com Comunicação Social, ministrando alguns cursos, fazendo campanhas de sindicatos e partidos políticos. Fez alguns trabalhos artísticos de literatura e pintura, principalmente poesia, coisa que gosta muito de trabalhar.

 

Elas se conheceram no Vila Flores, um centro cultural muito interessante em Porto Alegre, no ano de 2018. O evento se chamava Conexões Globais e a Paula estava se apresentando no coletivo de arte que faz parte. A conexão entre as duas aconteceu porque elas têm uma amiga em comum (que trabalha no mesmo coletivo com Paula). Ana foi prestigiar essa amiga, se encantou com a Paula e depois da apresentação quis saber mais sobre quem era essa “moça que estava se apresentando”. Nisso, a amiga explicou que a Paula era casada e que tinha até um filho, bebê, o que deixou a Ana um pouco chateada mas que super entendeu. 



























 

Com o passar do tempo, Ana foi morar em Goiás para residir e trabalhar em comunidades rurais e quando retornou ao Rio Grande do Sul, trabalhou em uma comunidade urbana no centro de Porto Alegre. 

 

Neste período, um dos seus colegas de morada ia embora, mas indicou uma pessoa para ficar no lugar dele: a amiga recém separada que tinha um filho pequeno. Ana conta que os amigos diziam que a moça que iria morar lá já tinha frequentado o espaço algumas vezes, mas ela não conseguia lembrar quem era. Até que na semana seguinte chegou a Paula, para fazer uma visita na casa.

 

A reação da Ana foi estar incrédula por ser a mesma Paula de anos atrás… Mas focava em uma regra que mantinha consigo mesma sobre não se envolver com ninguém que dividisse uma casa, pois isso poderia gerar conflitos no lar. De qualquer forma, tem coisas que não há como querer controlar, né?! A Paula brinca que quando a Ana passou por ela, parecia um gato se esfregando, pois estava muito próxima (mesmo tendo bastante espaço no ambiente que estavam). Na hora ela achou engraçado, não percebeu de cara que era um flerte. 

 

Por fim, elas não conversaram muito e de última hora a mudança não aconteceu: o amigo cancelou a saída e precisou se manter na casa, não abrindo lugar para a Paula se mudar. Elas não se tinham nas redes sociais e acabaram perdendo contato novamente. 


























 

No começo da pandemia, em 2020, elas se encontraram num aplicativo de relacionamento (o já famoso por aqui, Tinder). Elas conversaram e, depois de um tempo, se encontraram para tomar um vinho. Brincam que desde então não se desgrudaram mais. Nesse período, em virtude da pandemia e das dificuldades de morar em grupo, Ana se mudou para um apartamento com uma amiga e o filho dela e a Paula seguiu morando no mesmo local em que estava com seu filho. Isso fez com que elas se sentissem mais seguras de se encontrar também - e de compartilhar várias coisas sobre as crianças no dia a dia. 

 

Após dois meses de relacionamento, a Paula convidou Ana para almoçar junto com ela e o João. Foi um dia super importante, Ana conta como ficou nervosa, mas que fluiu tudo de modo muito tranquilo - João e ela brincaram e rapidamente ele demonstrou afeto e inclusive quis almoçar sentado no colo dela. 

 

Aos poucos Ana foi sendo inserida na rotina da casa e da família. João também foi entendendo essa presença, perguntando sobre ela. Quando passaram por uma mudança ele perguntou onde seria o quarto dela e quando ela não estava ele questionava por qual motivo/o que ela estava fazendo. Num dia, Paula perguntou para o João se ele gostava de estar só os dois e ele afirmou que sim, e quanto questionado sobre o que pensava da Ana, disse que era mais legal quando a Ana estava junto. Isso foi como um divisor de águas para elas entenderem o processo dele na adaptação.


























 

 

 

Ana conta que não era uma ideia fácil inicialmente se relacionar com alguém que tivesse filhos, mas que por viver essa paixão com a Paula quis realmente abraçar toda a vida dela. Paula complementa relembrando um dia em que foi difícil lidar com o João, então ela chegou a pensar que a Ana iria desistir, mas que isso não passou pela cabeça da Ana.

 

É muito legal ver a educação dele se desenvolvendo, a participação dela nisso, os limites colocados e toda a relação sendo construída com base no amor. Elas se emocionam contando a primeira vez em que ele disse que amava a Ana e sobre o quanto viraram parceiros-cúmplices do dia a dia, fazendo o que gostam e ele também trazendo muitos ensinamentos para Ana - que passou a participar de grupos de madrastas lésbicas e a seguir redes sociais sobre parentalidade também, pois não queria criar um território de disputa com as mães ou o pai. Destaca o quão sempre foi importante para ela poder ser uma figura de referência e afeto, mas sem competições, disputas ou invasões de espaços. 

 

Ana traz também sua reflexão sobre os aspectos sociais do seu lugar enquanto madrasta e das pré concepções e preconceitos existentes acerca desse papel na família a fim de abraçar esse universo com todas as ferramentas possíveis. Fala sobre o amor ser onde nos sentimos seguros para ser quem somos, e nesse cenário de família tradicional brasileira que elas são, elas querem ser de verdade e amar de verdade, sem medo.  

 

Ambas concordam que não é uma receita de bolo e que amar e construir a relação que constróem envolve se desafiar todos os dias. Paula reflete também sobre a concepção de construção familiar não ser feita para contemplar o amor e sim o poder - traz que para poder registrar o João tiveram que defender a família que ele tem, afirmando que o que importa é o amor, na concepção de que ele tá sendo privilegiado por ser amado por mais pessoas. Enquanto o “medo” alegado pela Justiça, era de que ele seria maltratado por ter uma família diferente do padrão esperado, ao invés de ser entendido como alguém de sorte por ter duas mães, agora uma madrasta e um pai. É muito injusto ter que se justificar para que o ciclo de amor em volta de uma criança seja criado, mas é incrível ver a forma que elas se firmam nesse relacionamento para que as trocas entre as duas (e o João) sejam as mais bonitas possíveis durante o trajeto. ♥

 Paula 
 Ana Carolina