Conheci a Nath e a Carla quando estive em Campinas, passamos a manhã num parque ecológico que é o lugar preferido delas - espaço que elas costumam ir e passar muito tempo juntas olhando o céu embaixo de uma árvore. 

 

As duas são duas mulheres super jovens e absurdamente fortes. A Nath tem 22 anos, estuda pedagogia e vive entre Ribeirão Preto e Campinas, porque fazia faculdade lá, mas com o início da pandemia voltou, para ficar mais próxima da família e da Carla, que faz faculdade de Engenharia de Software e trabalha em uma Startup, ali, em Campinas mesmo. A Carla tem 19 anos, é um pouquinho mais nova, mas elas brincam que essa breve diferença de idade não costuma transparecer em quase nada na convivência nesses anos de relacionamento. 

 

Digo ANOS porque elas se conheceram lááá em 2015, quando estavam no ensino médio. Tudo começou por causa de um grupo de Facebook chamado ‘Poxa Sapatão’, em que rolavam brincadeiras das quais você colocava seu nome e a cidade em que morava e conhecia mais meninas que moravam próximas. Assim, elas trocaram contato. Foi bem “emocionado” no começo, no sentido de ser intenso, porque elas passavam o dia inteirinho se falando (ah, o tempo útil na adolescência, né? que saudade), até que começaram a falar por ligações (que chegaram a durar 14 horas! H o r a s!) e foram, também, descobrindo muitas coincidências da vida: que moravam em bairros próximos, estudaram na mesma creche quando eram crianças, fizeram capoeira no mesmo lugar… já se esbarraram por aí muitas vezes, mas nunca tinham, realmente, se visto. 


 

Foi em janeiro de 2016 que marcaram de se encontrar em um shopping. Tentaram ir no cinema, porém, naquela época estavam tendo os famosos “rolêzinhos” (grupos de jovens que iam para os shopping em grandioso número e, por muitas vezes gerar tumulto, acabavam sendo barrados ao entrar - lembrando que os rolêzinhos, em definição mais objetiva, sempre foram muito racistas na perspectiva da proibição, pois quem era proibído de entrar no shopping era sempre o jovem negro e, em sua grande maioria, o jovem de baixa renda e periférico).

 

Por conta do “rolêzinho”, a Nath conseguiu entrar acompanhada do pai, mas a Carla, com 14 anos e desacompanhada, foi barrada na portaria do shopping. Elas tiveram que pedir para o pai da Nath ir lá na porta principal buscar a Carla para que ela pudesse ao entrar e, quando elas se viram pela primeira vez, se abraçaram e a Carla quis andar meio que abraçada (com o braço por cima do pescoço) da Nath, só que ela se esquivou em um sentido de “Para! Meu pai tá aqui!” (hahahaha!) e obviamente o pai dela percebeu essa “amiga meio um pouco íntima demais”.

 

Neste dia, finalmente elas conseguiram ir ao cinema. Lá se beijaram pela primeira vez e, depois do quarto encontro, começaram a namorar. 


O começo do namoro foi bastante escondido, principalmente pela diferença de idade. Elas sentiam bastante medo do que os familiares iriam pensar… e quando a mãe da Carla descobriu ela não aceitou, foi todo um processo (e é ainda) de aceitação. Hoje em dia elas saem juntas e se dão bem, mas entendem que é algo diariamente estabelecido enquanto uma reafirmação. 

 

Depois de segurarem a barra na família da Carla, foi a vez da família da Nath. Tudo começou quando ela estava na praia durante uma viagem e deixou o Facebook logado no Notebook da tia… e adivinha qual grupo a tia dela viu? É claro, o Poxa Sapatão! Antes que a tia dela contasse, ela achou melhor contar. Chamou o pai dela e falou sobre o namoro. Ele ficou quieto, não esboçou nenhuma reação. No dia seguinte, fez algumas perguntas para ela, mas em geral, seguiram bem. A mãe dela, por outro lado, teve uma reação mais agressiva, em um sentido de mandá-la procurar ajuda psicológica, dizer que isso era aberração e não aceitar de jeito nenhum. Mais uma vez, elas entenderam que só com o tempo isso mudaria. E estavam certas: hoje em dia, a mãe dela é puro grude com a Carla! E passou a se permitir entender e aceitar o relacionamento das duas.

 

O que também ajudou muito a mãe da Nath no entendimento foi um dia um sermão que ela ouviu na igreja quando decidiu ir atrás da resposta sobre aquilo que a filha estava vivendo e a resposta ser literalmente algo voltado à respeitar a felicidade e a vivência de algo que está sendo tão puro como o amor. ♥


Hoje em dia, por mais que a Carla e a Nath vivam num relacionamento quase que à distância, por conta do tempo em que a Nath passa em Ribeirão Preto estudando e morando no outro apartamento, elas sonham com o momento em que vão estar juntas em um lar só delas ♥

 

Elas, inclusive, por quererem casar mas entenderem que não possuem condição financeira para isso agora, fundaram um perfil no Instagram: o @rifasporamor (clica aquiii!). Lá elas sorteiam rifas e quem compra colabora com o sonho do lar e do casório! É uma iniciativa fantástica. Além disso, elas fazem diversas ações para falar sobre amor, sobre a quebra de preconceitos e sobre direitos das mulheres para as pessoas que se interessam em comprar as rifas e ganhar os prêmios!

 

Para elas, esse amor que constroem juntas e que querem seguir construindo está relacionado ao cuidado e ao quanto compartilham: seja no diálogo, na forma que se olham ou que se respeitam.

 

A Carla conta que uma vez deu um presente para Nathalia com a frase escrita: “O amor é o mais alto grau da inteligência humana”. E acredita que o amor resume tudo, ele é tudo! As pessoas só chegam em bons lugares pelo amor, mesmo a sociedade estando um caos, o que mantém ela melhorando a cada dia ou as pessoas lutando e tentando melhorar é o amor. O amor por si mesmo, o amor nas relações ou o amor por outras pessoas. “O amor é Deus, é vida”.


A Nath é muito grudada na família dela e, uma coisa muito legal que vale comentarmos, é que ela é prima da Camila, companheira da Samantha que também irão aparecer aqui no site do Documentadas! Durante a nossa conversa, ela falou várias vezes sobre algumas pessoas da família, mas em especial da sobrinha, que é o maior xodó e uma criança que ela quer ajudar na criação e na educação.

 

Já a Carla, é muito ligada à religião. Ela é Católica e faz missões na igreja, então se dedica ativamente a falar sobre diversidade, cultura e valores educacionais para pessoas da periferia. Falamos sobre a dificuldade dessas pessoas terem acesso aos locais distantes e ela deu o exemplo claro de como a mobilidade urbana não funciona para as pessoas pobres em Campinas (e no Brasil, como um todo). Este foi apenas um dos pontos que citamos, mas que ela disse ser absurdamente necessário para um primeiro passo sobre um debate mais amplo e plural sobre direito à cidade e a cidade ser frequentada por uma mistura de públicos. Ela acredita que a cidade deveria ser feita por e para todo mundo. 

 Carla 
 Nathalia