A história da Mama Aya e da Aline te ajudou de alguma forma?

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Aline explica que o amor preto é para quem tem disposição. “A preta é sempre boa para o sexo, mas para o amor, não”. Então todo dia é um baque, todo dia é um 7x1. As mulheres pretas tem ansiedade, depressão, problemas com autoestima… então quando você ama uma mulher preta, você tem que estar disposta a amá-la por completo. Amá-la como o corpo dela é. E se a mulher preta estiver na rua, vai ter que defender ela ou se defender junto dela. Estar realmente sensível a essa relação, disposta a ceder de muitas formas para vivê-la. 

 

A Aya comenta sobre alguns medos que já sentiu se relacionando com outras mulheres, desde o andar de mãos dadas atravessando uma rua - com medo de algum carro atravessar e atropelar propositalmente por serem mulheres - até o cuidado que sempre tem ao falar para alguém que é casada com outra mulher. E que esses medos também significam o quanto que a gente se cuida o tempo todo, o quanto que a gente se defende e se quer bem. 

 

Além disso, citam que amar uma mulher é não ceder ao patriarcado misturado ao machismo diário dentro de casa, desde em lavar cuecas, fazer marmitas, limpar a casa, servir os homens. Não que elas deixem de cuidar do ambiente em que moram, mas que, principalmente, elas passem a fazer isso juntas. Hoje em dia o significado do lar mudou totalmente porque ele é em conjunto, os esforços são medidos e compartilhados. Elas se entendem, se desdobram e tentam com que nada fique tão pesado. São formas diferentes de um amor que resiste. 

A gravidez, no entanto, não enfrentou dificuldades apenas no início e na projeção da fertilização. A Aline conta que sofreu muito quando tentaram tratá-la como pai, desde vizinhos ou pessoas ao redor falarem “ah, que legal, você vai ser pai, né?” e não a reconhecerem enquanto outra mãe, até no próprio tratamento do pré-natal ela também precisar preencher a ficha intitulada como “pré-natal do homem”... e isso vai nos mostrando que mesmo que o SUS faça a fertilização, ainda existem muitos processos que precisam ser revisitados. Aline sempre faz questão de ressaltar: “não sou pai. Sou mãe.”.

 

Durante a gestação, Mama Aya também ficou muito doente. A pandemia em si gerou muito medo por conta da exposição ao coronavírus, mas os enjoos fizeram com que ela tivesse muito refluxo. Ao invés de engordar, como é esperado, ela emagreceu mais de 20kg. Foram meses em que se sentiu muito fraca, passou por internações e uma gravidez de bastante risco. 

 

Foi nos momentos em que a Aya esteve mais fraca, que a Aline começou a pensar sobre a lactação por indução do leite materno, que é algo muito legal. Era a oportunidade da Aline conseguir alimentá-los também. Ela topou, achou muito interessante e o processo foi bastante simples em geral: bastou alimentar-se bem, estimular bastante com uma espécie de “bombinha” e tomar uma medicação corretamente com acompanhamento médico. 

 

Quando os nenéns nasceram a Aya estava bastante fraca e precisou de repouso, então quem fez a primeira amamentação foi a Aline. Foi muito legal a experiência em geral, tanto para elas, quanto para o pessoal do hospital, que acolheu muito bem, reservou um quarto e já deixou a Aline bastante à vontade esperando os dois chegarem para amamentar. Foi uma experiência muito especial na maternidade e todo o processo diário da amamentação para ela é algo bastante valorizado. Além disso, tanto o Jamal, quanto o Jawari, são as coisas maaaaaais simpáááticas desse mundão! Estão sempre com um sorriso aberto no rosto e agarrados nos peitos das mães, doidos por um colo! 

 

Ambas famílias, da Mama Aya e da Aline, são muito matriarcais - e a matriz africana por si só já diz - matriarcal, matriz, mãe. Falar sobre maternidade é como estar em casa. Significa, para elas, o próprio lar. A Aya olha para a Aline e diz: eu não poderia escolher ninguém melhor para ser a mãe dos meus filhos. 

Quando elas começaram a pensar sobre a gravidez, muita pesquisa e muito estudo logo foi entrando em conjunto… e assim chegaram até os métodos de fertilização in vitro - FIV. Foram entender como que o SUS poderia disponibilizar isso - até que ponto disponibiliza - e quanto de valor financeiro realmente iriam precisar para a tentativa de engravidar. 

 

Com a disposição e as pesquisas, chegaram até uma clínica de fertilização da qual conseguiram um bom desconto, mas nesse meio tempo também falam sobre diversas dificuldades que encontraram num simples acesso à informação, como por exemplo, para conseguir a fertilização pelo SUS você precisa de um encaminhamento na UBS (Unidades Básicas de Saúde) e que quando chegaram na UBS ninguém soube sequer que isso existia no Brasil. Foi muito difícil receber uma informação correta sobre o procedimento e sobre o que precisava ser feito, passo a passo, porque estava tudo muito picado, como uma informação passada numa brincadeira de telefone-sem-fio. 

 

Sobre a fertilização in vitro, ela conta com um óvulo de cada companheira, além das chances de darem certo e de virem gêmeos (que no caso delas, era grande e elas sabiam disso). Foi aí que escolheram os nomes - nomes também muito significativos. Elas contam que Aline Cristina e Alessandra nunca foram (junto com seus sobrenomes) algo que realmente representassem quem elas são, visto que procuraram seus significados e viram ser nomes cristãos, brancos e europeus. Elas não se enxergam neles. Queriam nomes pretos para os meninos. Foi assim que surgiram Jamal (belo, elegante) e Jawari (paz amorosa) Akesan (o segundo nome, que é um nome que também representa Exu, entidade espiritual da umbanda e do candomblé). Além disso, os sobrenomes foram escolhidos trazidos das avós, mulheres inspiradoras, incríveis e para sempre lembrar os filhos de respeitarem suas bisas. 

Na segunda edição da festa a Alê foi enquanto expositora por conta da confeitaria e a Aline estava ajudando as organizadoras, então elas tiveram uma oportunidade para conversar. Enquanto ela pediu uma água, a Aline jogou uma gracinha e rolaram umas brincadeiras. A Aline sempre deixou muito claro o quanto queria e tinha interesse, mas a vibe da Alê era bastante diferente, então ela desviava, achava que tudo era só uma brincadeira e não dava continuidade. A chance realmente aconteceu quando elas se adicionaram no Instagram e conversaram, marcaram de se encontrar e saíram. 

 

No encontro a Alê de cara já entendeu que não ia rolar nada porque a Aline era bastante o oposto dela: uma menina mais nova, super agitada, urbana, num pique bastante paulista. Enquanto ela estava em um momento muito mais naturezas e coisas calmas, algo mais pausado e pensado. A Aline quis chegar beijando e ela disse: espera aí, não é assim! Hahaha. Só que quando o beijo aconteceu, todos os argumentos que ela tinha foram embora, ela quis continuar. 

 

Aos poucos elas continuaram os encontros, continuaram ficando e a Aya foi percebendo que o relacionamento aberto que ela tinha foi tendo menos espaço. Foi então que, por todo o respeito que esse relacionamento envolvesse e toda a conversa, ela percebeu que ele não cabia mais e que era um momento de seguir outro caminho. Quando escolheu ficar somente com a Aline foi se abrindo para novas coisas, ocupando novos espaços e tendo novos olhares, inclusive religiosos, algo que elas cuidam muito e prezam por manter sempre em harmonia, visto que a religião é prioridade. Aline trouxe Aya até um novo centro de umbanda e, dentre todas essas mudanças, essa foi uma das que mais se destacou, porque significou uma entrada diferente, uma nova ligação com orixá e um novo caminho religioso na vida dela. 

Alessandra (Mama Aya) tem 30 anos, é de São Paulo, trabalha como confeiteira na @tabuleirodalirio (que agora passou por um bom tempo parada por conta da licença maternidade dos meninos, mas em breve voltará com tudo! Então já sigam para dar aquela força e encomendar comidinhas incríveis!) e além de ser uma pessoa super leve e com um sorrisão no rosto, é também uma cantora incrível e faz parte do grupo Ilu Oba de Min.

 

Aline Exu tem 24 anos, é natural de Santos, interior de São Paulo e trabalha enquanto educadora social. Aline chegou na capital em 2016, encantada com a militância estudantil, os atos e a forma totalmente urbana e corrida de São Paulo acontecer. Começou a fazer faculdade na Zumbi dos Palmares, universidade comunitária paulista e foi a cada dia mais conquistando espaço por onde passava.

 

Foi em um desses espaços que elas se conheceram, mais especificamente, em uma festa para o público les-bi. Aline estava na porta e contou que, por mais que nunca tenha acreditado em amor à primeira vista, ali realmente aconteceu. Quando viu a Alê, já sabia que queria casar e ter filhos. Ela ficou olhando, ali da porta, e a Alê estava com outro grupo de amigas, mais distante… durante a festa ela chegou até a Alê e perguntou se ela estava acompanhada e recebeu um “sim” como resposta, porque a Alê vivia um relacionamento aberto na época. Elas contam que a Aline não esperava essa resposta e que na hora ela ficou muda, triste, abaixou a cabeça e saiu, quieta. Seguiu o baile. 

Conheci a Alê (mais conhecida como a Mama Aya) e a Aline (também chamada de Aline Exú) através de um perfil que elas mantêm no Instagram, chamado @maternidadesapatao. A primeira vez que tive acesso ao perfil foi quando estava planejando o Documentadas e elas me pareceram muito fazer total sentido para o projeto. Desejei com todas as forças chegar até elas, então entrei em contato e desde o começo de 2021 estamos tentando fazer isso acontecer. O encontro, finalmente rolou, na ida do .doc até São Paulo, no primeiro semestre do ano. <3

 

O Maternidade Sapatão surgiu no começo da gravidez. Aline conta que com a gravidez da Aya e a barriga crescendo ela começou a postar stories no seu perfil pessoal e compartilhar como estava sendo viver isso, os detalhes cotidianos, os perrengues e os corres. Com os conteúdos no storie começou a perceber que muitas pessoas perguntavam e que chegava cada vez mais um público novo no seu perfil pessoal, pessoas que ela não conhecia e que nunca tinha visto e que isso se dava por conta da gravidez. Foi então que surgiu a ideia, já que sentia uma demanda de dúvidas de muitas pessoas que queriam entender como foi o processo delas de engravidarem e acompanhar diariamente até o nascimento dos gêmeos - o Jamal e o Jawari. 

 

Quando o perfil do Maternidade Sapatão de fato foi lançado, muitas outras coisas começaram a fazer sentido. Entenderam que o público da maternidade homoafetiva, primeiramente, era maior do que elas imaginavam - existiam muitas outras famílias, muitas outras crianças sendo criadas por duas mães - porém também ainda era muito embranquecido. Além do mais, o público que decide engravidar ainda é um público muito carente de informações e também faltam muitas informações a se passar aos profissionais de saúde que dão atendimento, à nós LGBTs, às mulheres que querem conhecer melhor seus corpos… enfim, temos um longo caminho pela frente.

 

No começo, com o passar a terem uma busca muito grande e o perfil crescendo rapidamente, chegaram a pensar “será que somos as primeiras mulheres pretas, de quebrada, a estarem fazendo uma fertilização aqui em São Paulo?” e comentam também sobre a mulher negra periférica muitas vezes estar numa situação em que assume o filho de outra mulher que já engravidou em um outro casamento\em um outro relacionamento e que isso também é família, que isso também é muito representativo e importante (visto que esses filhos jamais são considerados “agregados” momentâneos e sim realmente parte da família), mas que elas (Aya e Aline) queriam e lutaram pela fertilização. Mas que nunca deixaram de se questionar: se os nossos filhos já fossem de um casamento antigo ou fossem adotados, nosso perfil teria tamanha visibilidade?

 Mama Aya 
 Aline Exú