Existem três versões sobre como a Isabelle e a Carina se conheceram. Todas começam igual, com um famoso match no Tinder, em 2020, mas possuem desenrolar diferentes.

 

Na versão da Carina, ela já estava se envolvendo emocionalmente com outra pessoa quando deu match e lembra de ter “subido” a foto da Isa. Logo pensou o quanto ela era linda e enviou uma mensagem falando isso, porém, em seguida enjoou de estar ali e desinstalou o aplicativo. Um tempo depois, até retornou, mas nunca olhou os matchs antigos. Em seguida, começou a namorar com a pessoa que estava envolvida emocionalmente, foi um relacionamento rápido e muito conturbado, mas sente que era necessário e que também foi construtivo. Um dia depois do término, baixou o Tinder novamente e revisitou os matchs, percebendo que aquela menina que ela havia mandado mensagem seguia ela no Instagram. 

 

A versão da Isa já explica toda uma história por trás não contada. Ela não usava muito o Tinder, mas recebeu a mensagem da Carina lá no começo, achou ela linda e respondeu, ficou esperando aquela conversa acontecer, mas não teve retorno. Nesse período, a Isa estava em um relacionamento aberto há alguns anos e diz que não se sentia completa, pois vivia com uma pessoa muito diferente dela. Depois do match e da conversa não realizada, passou a pensar na Carina, mas não tinha informações o suficiente para entrar em contato por outros meios, por isso, enviou outra mensagem, mas seguiu sem respostas. A pandemia começou e enquanto a Isa passava um tempo no Instagram achou um sorteio de tatuagens da qual uma menina foi ganhadora e ela se interessou por essa menina, seguindo o perfil dela viu que ela namorava (ou talvez, já tivesse namorado um dia e mantinha fotos) uma outra menina que ela sentia conhecer de algum lugar… e não é que era a Carina?! Entrando no perfil percebeu que Carina estava namorando, e que a namorada não era a mesma, ou seja, era de fato uma ex da ganhadora do sorteiro, rs. Deu pra entender? Fez o mapa? É o famoso rebuceteio. E ela ainda pensou sobre a Carina: “Deixa quieto, o que é meu, tá guardado.”, então, passou a segui-la no Instagram. Stalkeou suas redes e começou a ver algumas postagens. 

 

Nesse meio tempo, por conta da pandemia acabou se desempregando e teve que retornar para casa da mãe. Se sentia muito ansiosa e estava vivendo um momento de crises na sua vida, terminou o relacionamento e, literalmente no dia seguinte, recebeu uma mensagem da Carina no tinder, perguntando: “Como você me achou no Instagram?”.












 

 

 

A Isa conta que viu um vídeo da Carina e quando ouviu a voz dela, se encantou ainda mais. Quanto mais conversavam, mais se impressionavam com todas as reviravoltas da história. Perceberam que terminaram os seus respectivos relacionamentos no mesmo dia, que tinham coisas em comum e estavam se dando bem... Mas viviam momentos diferentes, a Isa já havia superado o relacionamento e Carina ainda estava muito, muito mal. Ficaram conversando durante dois meses e Carina, por estar muito mal, se aproximou enquanto uma amizade - sentia que não conseguia flertar naquele momento. 

 

Isa conta que entendia o quanto precisava ser paciente com o momento da Carina e apoiá-la e a Carina completa dizendo que construíram no início uma conversa muito boa, deixando claro que tinham interesses em comum, mas que apenas não cabia no momento. Aos poucos, fizeram até um “webdate”, do qual a Isa brinca dizendo o quanto Carina estava linda, mesmo estando muito triste. Isa fez sopa, enquanto Carina tomava um vinho e elas assistiam a live da Ana Carolina. Enfim, os tempos de início da pandemia. 

 

Elas continuaram conversando, trocando sobre os relacionamentos e sustentando uma rede de apoio para outra. Até que Carina veio pro Rio de Janeiro (visto que mora em Friburgo, interior do Rio) e tomaram a iniciativa de se encontrar, em julho de 2020. No caminho, Carina se perdeu, acabaram se encontrando em Botafogo e foram até a Mureta da Urca.  Passaram um tempo conversando e depois se beijaram. Carina conta que neste dia Isadora lhe mostrou o Rio de Janeiro, foram pela Zona Sul até à Rocinha. Passaram a semana seguinte sem se encontrar, pois Carina retornou para casa e depois voltou ao Rio na sexta e ficaram sozinhas na casa de uma amiga (inclusive, a amiga é a ex que fez com que a Isa encontrasse a Carina no Instagram!). 























 

Contam que o que ia durar um dia de fim de semana juntas na casa da amiga, se tornou quatro. A Isa queria ter gravado aqueles dias, pois tudo fluiu tão bem, conversaram muito, depois ficaram em silêncio compartilhando a companhia no sol e comeram e beberam juntas. Tudo fluiu de maneira muito tranquila. 

 

Após este encontro, elas não se falaram durante uma semana. Carina diz que ficou preocupada, pois ficou muito envolvida nestes quatro dias, ficou considerando a distância de uma cidade pra outra, além dos conflitos familiares sobre a homossexualidade da Isa. Por sua vez, Isa conta que estava respeitando o tempo de Carina, pois sabia dos conflitos internos que ela estava vivenciando entre as superações do antigo relacionamento e o medo de se apaixonar. Diz que ambas são muito diferentes, mas que sempre incentivou a Carina a se jogar na relação. Por isso, desde o início sempre conversaram muito, tendo sensibilidade para escutar e falar o que sentem e pensam. O que, também, necessita muita paciência. 

 

Carina conta que conversam muito sobre sentimentos ditos negativos… como ciúmes, inveja e raiva, para conseguirem entender uma à outra. Também dizem que tem muito carinho e respeito e acabam estendendo isso para os outros na sua volta. 

 

Em geral, a distância é tranquila, pois a família da Carina é muito calma e elas podem ficar juntas na casa dela. Mas a dinâmica de idas e vindas em si está cada vez mais cansativa, pois estão menos tolerantes a ficarem separadas. Costumam ficar em casa, ir nos amigos ou em Lumiar, cidade vizinha, tomar uma cerveja e conversar… Quando se encontram no Rio, dormem na casa de alguma amiga da Isa ou alugam um espaço. Contudo, há semanas que ficar distante é muito sofrido, pois estão vivenciando suas dificuldades individuais e gostariam muito de ter a companhia uma da outra. 

A Carina tem 25 anos, é formada em Direito e mestranda em Sociologia e Direito na UFF. Por ser uma mulher com deficiência, participa de uma comissão em Friburgo, cidade em que mora, fazendo palestras sobre acessibilidade e inclusão, observando demandas de acessibilidade. Ela conta que o mestrado vem a partir do desejo de dar aula, pois não se identifica com o Direito enquanto profissão por um espaço extremamente elitizado, então quis buscar a Sociologia para dentro do Direito pra poder expandir seu conhecimento e quebrar com esse viés da elite. Além de tudo, faz também pesquisa sobre pessoas com deficiência dentro do sistema penitenciário e dá aulas na graduação.

 

A Isabelle tem 22 anos, faz faculdade de Produção Cultural e trabalhou em comércio por alguns anos. Desde o ensino médio desejou fazer produção cultural, mas não tinha condições de pagar a faculdade e precisava trabalhar para se sustentar. Sentiu que estava em um momento muito exaustivo da vida e se demitiu do trabalho no shopping, mesmo gostando muito de trabalhar lá (considerando, claro, que o trabalho era exaustivo, principalmente pelas horas e pelo deslocamento). Hoje em dia, através das fotografias feitas pelo celular, descobriu um olhar muito sensível, uma habilidade de produzir vídeos e fotos e um novo hobbie. Conta que uma amiga percebeu essa habilidade nela e a Carina a incentivou. 

 

Isa nos contou bastante sobre sua avó ser a maior fonte de inspiração na hora da criação, por gostar de registrá-la. Gosta muito de gravar momentos na cozinha, familiares e pessoas próximas cozinhando, entende que é uma confraternização muito significativa e afetiva. Comentou que seu avô era poeta e diretor da Academia Brasileira de Letras, mas que pouco sabe sobre ele e que gostaria de ter mais informações, sendo essa uma das motivações para gravar sua avó, então registra conversas importantes com ela, sobre fatos que ocorreram ao longo da vida, conversas com a família e enxerga isso como uma descoberta da sua própria história. 


Para a Isa, amor é estar junto sem ter medo, ou seja, poder falar qualquer coisa sem que isso seja um grande problema. No amor se encontra acolhimento, se sente confortável… e que tudo bem, se às vezes acontecerem desconfortos, mas que isso não pode ser a maioria. Entende que os relacionamentos precisam ser confortáveis, pois a vida e a adultez por si só já são muito difíceis. Traz que sua avó sempre brilha o olho quando fala sobre as pessoas e coisas e comenta que as pessoas lhe dizem que ela também tem essa mania de “brilhar os olhos”. “Amor é você brilhar os olhos pra um animal, casa, família, amigos, relacionamento…” 

 

Carina conta que amor é resistência. Há um jogo dúbio nas relações e as características de cada uma delas: conhecer as profundidades do outro, saber a existência disto e acolher. Acolher o sentimento do outro. Ter a resistência de fazer dar certo e respeitar as diferenças. Entende que mulheres são resistentes o tempo inteiro, assim o amor entre mulheres têm um respeito enquanto gênero e luta feminina com formas de amor diferentes. 

 

Por fim, a Isa comenta que pensa muito na sua família quando pensa em amor e nas relações que nós mulheres temos com ele. Traz o livro ‘’Mulheres Que Correm Com Os Lobos’’, entende a ancestralidade nas relações, pois às vezes a mulher apaga e vem outra mulher e ajuda a acender, incentivando e estimulando. Entende que sua família é muito diferente, mas se ama muito e se respeita muito. O amor é como um estado de espírito. 


Comentamos sobre a importância de estarmos ligadas na movimentação social da cidade, e a Carina diz que em Friburgo, onde mora, isso é fundamental, pois a cidade infelizmente é composta por poucos movimentos sociais e muitas pessoas racistas e homofóbicas. Além de querer igualdade e oportunidade para todos, precisamos formar uma conscientização melhor sobre o outro, respeitar e ter empatia com suas individualidades.

 

Isa completa, sobre enxergar as pessoas como seres humanos, que sentem, sofrem, cansam, trabalham, sagram. É comum que as pessoas esqueçam o sofrimento e vivências dos outros. “As pessoas precisam se respeitar mais, nos seus momentos, sofrimentos, lutos (e lutas), felicidades, entender suas necessidades e assim, a partir do momento que entende suas necessidades, você irá devolver isso para o outro. O respeito é transmitido.” 

 Carine 
 Isabelle